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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 21 de julho de 2017

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM-Ano A

16º DOMINGO DO TEMPO COMUM
23 de Julho de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 13,24-43


·     Os nossos pais, nossos avós, semearam em nossas mentes a palavra de Deus enquanto éramos pequenos. Eles nos ensinaram a respeitar os mais velhos, a sermos justos, e temer a Deus.  CONTINUAR LENDO


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“ENTÃO OS JUSTOS BRILHARÃO COMO O SOL..." – Olivia Coutinho

16° DOMINGO DO TEMPO COMUM.

Dia 23 de Julho de 2017

Evangelho de Mt13,24-43

Quem não observa as coisas simples, tem dificuldades para entender as parábolas de Jesus. O Mestre de todos os mestres serviu-se de meios bem simples para nos falar da grandiosidade do Reino dos céus! 
No evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, Jesus, com três parábolas, vem clarear a nossa mente, apresentando-nos características próprias do Reino dos céus: ele é algo dinâmico, que cresce silenciosamente dentro de nós, através de um processo lento, imperceptível aos nossos olhos, mas que sentimos o seu efeito, seus benefícios em nossa vida!
Com essas parábolas, Jesus responde as indagações de muitos de nós, que ainda tem muitas duvidas à respeito do Reino dos céus, por imaginá-lo fora do nosso alcance. 
Jesus não compara o Reino dos céus, com algo extraordinário, e sim, com plantas que conseguem crescer juntas com as ervas daninhas, sem se contaminarem, com uma pequena semente de aparência frágil e com o efeito de uma porção de fermento no meio da massa.
A primeira parábola, que nos é apresentada, é a parábola do joio, que nos faz lembrar a criação! Deus nos criou perfeitos, Ele nos moldou na fôrma do seu amor, deixando centelhas Dele em nós, mas o mal, disfarçado do bem, assim, como o joio no meio do trigo, encontrou brecha no nosso coração, ameaçando destruir a criação de Deus! 
Com esta parábola, Jesus vem nos dizer que o bem e o mal estão misturados, até mesmo dentro de nós, mas que é possível vivermos lado a lado, sem nos deixar contaminar pelo o mal, aniquilando-o, com o bem! 
O joio, na fase de crescimento, é semelhante ao trigo, assim também é o mal, o mal aproxima de nós, com a aparência do bem, é o Espírito Santo, que nos faz discernir o que é do bem e o que é do mal. Esta parábola, nos fala também, da tolerância de Deus, Deus não desiste de nós, Ele nos dá tempo para que possamos rever a nossa vida e buscar a conversão.
Na segunda parábola, Jesus compara o Reino dos céus com uma pequena semente de mostarda, querendo nos dizer, que a grandeza do Reino dos céus, não se mede geograficamente.
Comparando o Reino dos céus com uma minúscula semente, Jesus afirma que o crescimento do Reino, começa a partir de pequenas iniciativas!
Assim, como a força de uma pequena semente, que consegue romper a terra para trazer vida, abrigo para os pássaros, o Reino dos céus, ganha força no coração de quem acolhe a palavra de Deus e a transforma em mais vida para o outro!
Na terceira parábola, Jesus compara do Reino dos céus com o fermento misturado em três porções de farinha. Com esta comparação, Ele quer nos dizer, que o reino dos céus é construído com um pouco de cada um de nós. O que importa, não é a quantidade do que colocamos nesta construção, e sim, a qualidade desta oferta, que deve ser uma oferta de amor!
No final do Evangelho, Jesus explica detalhadamente aos discípulos, a parábola do joio. Uma explicação clara, que deve chegar até nós, como uma alerta, para que estejamos sempre vigilantes, para não corrermos o risco de cairmos nas armadilhas do inimigo que está a todo tempo nos espreitando. 
É fácil ser bom, vivendo onde só impera o bem, o desafio mesmo, é ser bom, onde o bem e o mal se misturam.
É no confronto com o maligno, que provamos a nossa adesão à Jesus, é aí, que damos testemunho da solidez da nossa fé. 
É na pessoa de Jesus, que o Reino dos céus se faz presente no meio de nós! Para vivermos intensamente as alegrias deste Reino, temos que romper definitivamente com as estruturas que geram morte, com os Reinos fantasiosos deste mundo, para nos envolvermos numa construção segura, uma construção que gera vida, que tem o AMOR como pilar central!
Estejamos certos: se o mal está ganhando força no mundo, e até mesmo dentro de nós, é sinal de que não estamos cultivando o bem que Deus plantou nos nossos corações!
O mal nunca sobreporá o bem, se estivermos embebidos no amor do Pai, enxertados no Filho e fortalecidos no Espírito Santo.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Continuamos a escutar o Senhor que, sentado na barca, nos fala do Reino dos Céus... Permanecemos atentos, como aquela multidão em pé, à beira-mar, embevecida: "Nunca nenhum homem falou assim..."
Hoje, o Senhor nos apresenta três parábolas: a do trigo e do joio semeados no campo do mundo e do nosso coração, a do grão de mostarda que cresce a abriga as aves dos céus e, finalmente, a do tiquinho de fermento que leveda toda a massa... É assim o Reino dos Céus!
As três parábolas mostram a fraqueza do Reino, sua fragilidade escandalosa, mas também sua força invencível, seu poder, sua capacidade de tudo impregnar e transformar, até chegar à vitória final. Só que para compreender isso – os mistérios do Reino -, é necessário ter a paciência, a sabedoria que nos dá a capacidade de acolher os tempos e modos de Deus! Mas, vamos às parábolas.
Primeiro, a do trigo e do joio. Que nos ensina aqui o Senhor? Que lições nos quer dar? Em primeiro lugar: Deus não é inativo, indiferente ao mundo, à nossa vida de cada dia. No seu Filho, semeou o trigo do Reino no campo deste mundo e no campo do nosso coração. Como diz o livro da Sabedoria, na primeira leitura de hoje: "Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas!" Sim: nosso Deus é um Deus presente, um Deus atuante, um Deus que cuida de nós com amor e com amor vela por suas criaturas! Não duvidemos, não percamos de vista esta realidade: num mundo de cimento armado e homens bombas, fome, mortes e mensalões, Deus está presente, Deus cuida de nós! Uma segunda lição desta parábola: no mundo e no coração de cada um de nós infelizmente há o mal, o pecado, a treva. Por favor, não mascaremos o mal do mundo nem o mal do nosso interior! É preciso desmascará-lo, é preciso chamá-lo pelo nome! Não mascare, irmão, irmã, o mal da sua vida, do seu coração, da sua consciência! Esse mal não vem de Deus; vem do antigo inimigo, do diabo que, mais esperto que nós, tantas vezes faz o mal nos parecer bem e até achar que nós mesmos estamos acima do bem e do mal! O diabo é assim: semeia o mal e faz com que ele se confunda com o bem, como o trigo e o joio. E nós, tolos, confundimos tudo e pensamos ser bem ao que é mal – mal semeado pelo maligno! Por favor, olhe o seu coração: não se engane, não finja, não mascare, não minta pra você mesmo! Chame o mal de mal e o bem de bem! Numa terceira lição, a parábola de Jesus nos ensina a paciência, sobretudo com o mal que vemos no mundo e nos outros! Somos impacientes, caríssimos, e até julgamos Deus e o seu modo de agir no mundo. O querido Bento XVI, na sua homilia de início de pontificado, falava da paciência de Deus que salva e da impaciência nossa que coloca a perder... Jesus nos pede que confiemos em Deus, que acreditemos na sua ação e nos seus desígnios, tempos e modos: Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto. A tua força é princípio da tua justiça e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. Dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores".
Escutemos ainda um pouco o Senhor; aprendamos com as parábolas do grão de mostarda e do fermento que leveda a massa. Precisamente porque o modo de pensar e agir de Deus não é como o nosso, o Reino dos Céus aparece tão frágil, tão inseguro, tão precário... Pequenino como um grão de mostarda, pouquinho como uma pitada de fermento! E, no entanto, será grande, será forte, será vitorioso e abrigará as aves dos céus! Será eficaz, forte, e penetrará toda a massa deste mundo! Mas, quando, Senhor? Por que demoras? Por que parece que estás longe? Por que pareces dormir? Observem irmãos, que em todas as parábolas do Reino, Jesus deixa claro que, ao fim, haverá um julgamento de cada um de nós e o Reino triunfará!
Mas, para não descrer, para não desesperar, para não ver e sentir simplesmente na nossa medida e com nossas forças supliquemos que o Espírito do Ressuscitado venha nos socorrer, "pois não sabemos o que pedir, nem como pedir!" Só o Espírito do Cristo, o Semeador do Reino, pode nos fazer perceber os sinais do Reino, os sinais de Deus no mundo e na vida. Só o Espírito nos sustenta, fazendo-nos caminhar sem desfalecer, de esperança em esperança... Só o Espírito nos ensina as coisas do Reino: ele torna o Reino presente porque torna Jesus presente. Por isso mesmo, em vários antigos manuscritos do Evangelho de São Lucas, na oração do Pai-nosso, onde tem "Venha o teu Reino" aparece "Venha o teu Espírito"! É o Espírito de Cristo que torna o Reino presente em nós e no mundo. Deixemo-nos, portanto, guiar por ele, pois "o Reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo!"
Eis, caríssimos! Aprendamos do Senhor, vigiemos e acolhamos sua palavra. Se formos fiéis e perseverarmos até o fim, escutaremos cheios de esperança sua promessa, que encerra o Evangelho de hoje: "... então, os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai!"
dom Henrique Soares da Costa








A liturgia da Palavra de hoje tem seu centro no reino de Deus, em sua definição e no modo como ele é realizado no meio de nós. Várias são as possibilidades de interpretação: o reino é semelhante ao trigo, à mostarda e ao fermento ou semelhante ao joio, ao pé de mostarda e à mulher? A pergunta parece ser ousada, mas veremos como os vários modos de interpretação se complementam.
1ª leitura (Sb. 12,13.16-19)
Ser sábio é aprender de Deus: rei, humano e misericordioso
As palavras de sabedoria da primeira leitura de hoje são permeadas de esperança para o povo judeu, que vivia em meio à cultura e dominação gregas, sobretudo na cidade de Alexandria, onde esse livro foi composto, entre os anos 50 e 60 antes da Era Comum (a.C.). O judaísmo era desafiado pelos valores gregos do ser. Os judeus se perguntavam: como se adaptar à nova realidade sem perder a fé no Deus dos pais e da libertação do Egito? A resposta era simples: testemunhar que o Deus de Israel era diferente. E foi isso que o piedoso judeu e autor do livro da Sabedoria quis mostrar, diferentemente de outros judeus, seus antecessores, que apresentavam Deus forte, violento para com os inimigos. Deus, no livro da Sabedoria, é o cuidador de todos (v. 13), que julga com justiça (v. 13), perdoa e governa com indulgência (v. 18). Por ser assim, Deus não deixa de ser menos poderoso que os deuses dos pagãos. E, mais do que isso, o ser humano é convocado a ser como Deus, misericordioso. Deus é humano no seu proceder. E ao ser humano, aprendendo de Deus, resta também governar e agir com justiça, misericórdia e solidariedade. Eis o nosso grande desafio: aprender da pedagogia de Deus.
Evangelho (Mt. 13,24-43)
A dinâmica do reino
Dando continuidade ao discurso de Jesus em forma de parábolas com a devida explicação alegórica, encontramo-nos diante de três modos de Jesus definir o sentido do reino de Deus, que nos questionam: o reino é semelhante ao trigo ou ao joio? Ao fermento ou à mulher? À semente de mostarda ou ao pé de mostarda? Vejamos uma por uma. Ah! Outro detalhe importante: se a primeira leitura falou do proceder de Deus rei, agora faz sentido falar do reino.
a) O reino é apocalíptico e como o trigo. A comparação parece simples. O trigo é semeado. Vem alguém e semeia o joio. O que fazer? Arrancá-lo para não sufocar o trigo? Não. Basta esperar o crescimento de ambos até que o tempo da colheita chegue, quando o joio será queimado e o trigo recolhido em celeiros (v. 24-30). Essa é a única parábola explicada de forma apocalíptica por Jesus. Trata-se do fim dos tempos: aqueles que praticam a injustiça serão queimados na fornalha ardente e os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai. A menção de diabo – o inimigo que semeou o joio – e do Filho do homem – aquele que semeia a boa semente no campo (mundo) – evoca a urgência apocalíptica da realização dos ensinamentos de Jesus pela comunidade de Mateus. Somos herdeiros desta que se tornou a tradicional interpretação da parábola: o joio foi identificado como elemento ruim que impede o reino de crescer e por isso, no fim dos tempos, será arrancado e queimado. Em outras palavras: o mal deve crescer junto com o bem, o reino, representado pelo trigo.
b) O reino de Deus tem a ver com o cultivo. A comunidade de Mateus releu a parábola no contexto escatológico. E o fez muito bem! No entanto, considerando o contexto agrário e de confronto com o império romano, no qual essa parábola foi criada, podemos definir o reino de Deus de três modos. A erva daninha, chamada de joio, é uma graminha que cresce anualmente e é muito comum nos países do Mediterrâneo oriental. É uma erva venenosa, seus grãos possuem toxina. O gado que a come morre. O joio não cresce em terrenos a mais de 550 metros de altitude. Nos anos chuvosos, ele cresce mais que o trigo. A experiência campesina aprendeu, desde cedo, que colher o joio junto com o trigo é desaconselhável, pois ele contaminará o trigo. Daí o conselho que aparece no final de ambos os textos. Mas, então, como definir de três modos o reino de Deus nessa parábola? Ele pode ser comparado ao joio, ao fazendeiro próspero ou ao agricultor sem-terra. O reino é como o joio, essa erva daninha que cresce em qualquer lugar, sem pedir licença. O reino é assim, chega e se espraia, independentemente da vontade das pessoas, seja ele um rico fazendeiro, seja ele um pobre sem-terra. Ninguém pode impedi-lo. Assim aconteceu, mais tarde, com o império romano: ele teve de aceitar o cristianismo como religião. O reino é como um fazendeiro próspero que possui uma rica plantação de trigo e não pode impedir que cresça o joio (reino de Deus) jogado na sua plantação pelo inimigo. Por fim, o reino é como o agricultor que não tem terra, que não pode se livrar do grande fazendeiro que tirou as suas terras. O reino está dentro de cada um de nós. Mesmo sendo arrancado e queimado, ele cresce em outro lugar (cf. Faria, 2003, p. 117-119).
c) O reino é como a semente de mostarda, uma árvore ou pé de mostarda. A outra parábola do evangelho de hoje encontra-se também em Mc 4,30-32 e Lc 13,18-19. Vale a pena ler as narrativas, comparando-as para perceber as mudanças recebidas ao longo da transmissão: de terra para campo e horta, de ramo para árvores etc. Considere que a linha histórica é: Tomé (anos 50), Marcos, Mateus e Lucas (entre os anos 60, 70 e 80, respectivamente). Estamos diante de uma parábola que, ao ser transmitida, recebeu algumas modificações. Analisemos essa passagem à luz das seguintes questões: qual seria a intenção de Jesus ao contar essa parábola? Onde está o centro da parábola? Interpretações tradicionais insistem em mostrar o reino como uma semente pequena que cresce e fica grande. Vejamos três modos possíveis de ler a parábola da semente de mostarda com base em seu centro. Centro da parábola: semente. Compreendido desse modo, o enfoque desse texto está na passagem do pequeno para o grande. A pequena semente de mostarda é o novo Israel, isto é, os seguidores de Jesus, que se tornarão “grandes árvores”. Tomé, Marcos e Mateus, com exceção de Lucas, falam de algo menor que se torna grande. Não acreditamos ser essa a melhor interpretação. Não obstante, há que considerar que cada seguidor do reino é chamado a lavrar constantemente o seu interior para deixar a semente do reino crescer e produzir abundantes frutos. O centro da parábola é a árvore apocalíptica. Nesse sentido, o pequeno Israel tornar-se-ia uma grande árvore apocalíptica. Textos do Primeiro Testamento falam do cedro do Líbano como árvore apocalíptica (Sl. 104,12; Ez. 31,3.6; Dn. 4,10-12). E é nessa grande árvore que os pássaros fazem os seus ninhos. Acreditamos que, se Jesus, de fato, quisesse referir-se a uma árvore apocalíptica, teria mencionado o cedro e não a mostarda. Não, esse não pode ser o centro da parábola. Centro da parábola: pé de mostarda. A mostarda é uma planta medicinal e culinária que chega a medir no máximo 1 metro e meio de altura. Ela se desenvolve melhor ao ser transplantada. Depois de plantada, torna-se uma erva daninha. Temos dois tipos de mostarda, a selvagem e a culinária. Por ser uma planta impura, o código deuteronômico (Dt. 22,9) proíbe a sua plantação. O centro da parábola está, portanto, no pé de mostarda, seja ele doméstico ou selvagem. Assim é o reino de Deus, ele chega e se esparrama. Não pode ser controlado, torna-se abundante como a nossa tiririca. Atrai pássaros, inimigos de qualquer agricultor. O reino, depois de semeado, perde o controle, toma conta do terreno todo. Assim como o reino, a mostarda é motivo de escândalo para muitos. O reino é indesejável e violador das regras de santidade. Essas interpretações nos ajudam a compreender o valor do reino (Crossan, 1994, p. 313-318).
d) O reino é semelhante à mulher que usa o fermento. O simples fato de a parábola comparar o reino à mulher que usa o fermento é significativo. A interpretação tradicional dessa passagem considerou o fermento como ponto crucial na sua compreensão. Ousamos perguntar se, de fato, nisso estaria o centro desse texto. Comecemos por compreender as simbologias utilizadas. Mulher: representa a fertilidade e a impureza religiosa. Suas regras deviam ser controladas pelos sacerdotes. Dessa forma, o sagrado estaria também sob controle. Por outro lado, mulher e a Torá (lei, caminho, conduta) eram os bens preciosos dos judeus. Sem elas, a vida não se multiplicaria. Fermento: símbolo também da impureza e da corrupção moral. O fermento era feito com base na putrefação da batata, escondida por vários dias em um lugar escuro. O fermento cheirava mal e era detestado por judeus piedosos e escrupulosos. O medo de tocar em coisas impuras e tornar-se uma delas levava os judeus a estabelecer regras de contato com coisas e pessoas impuras. O código da santidade (Lv. 17-26) é exemplo claro desse modo de pensar judaico. Sede santos como eu sou santo (Lv. 19,2) passou a ser símbolo de pureza moral. Três medidas: o fato de o fermento ser colocado em três medidas de farinha pode não significar nada em absoluto, pois uma mulher não necessitaria fazer 40 quilos de pão. Essa quantidade demonstra a abundância do reino e o três relembra o Shemá Israel (Escuta, ó Israel), profissão de fé israelita baseada no amor vivido com o coração, o ser e as posses (Dt. 6,4-9). Em vários textos bíblicos do Segundo Testamento encontramos alusão ao Shemá (Faria, 2001). Considerando a simbologia e as diferenças nos textos, suspeitamos que o centro da parábola de Tomé não está no fermento, mas no processo de sua fabricação. Ele é feito pela mulher, no escuro, é impuro e cheira mal. Assim também era considerada a mulher. Aceitar o reino é ir contra o que está ocorrendo de errado na sociedade, é não aceitar o erro tido como coisa normal. O reino ataca a estrutura má da sociedade. E, por mais insignificante que seja, ele contagia, produz “grandes pães” (cf. Faria, 2003, p. 113-116).
Como vimos acima, a definição do reino é ampla e muito nos tem a ensinar. Todas elas têm o seu mérito.
2ª leitura (Rm. 8,26-27)
Deus Pai e Deus Espírito estão em nós, na oração pelo Reino.
A reflexão feita por Paulo, nessa carta dirigida aos cristãos de Roma, aponta-nos a oração como caminho de construção do reino de Deus. Se não sabemos rezar, é o próprio Espírito que intercede, que reza por nós. Ele suplica a Deus em favor dos que lutam por justiça e paz, assim como vimos nas parábolas do evangelho de hoje. A oração é fonte de vida para o cristão. Jesus foi um homem de oração. Deus Pai e Deus Espírito se entendem e se encontram em nós, quando rezamos e lutamos na construção do reino de Deus.
PISTAS PARA REFLEXÃO
1. Diante das várias possibilidades de interpretação das três parábolas do evangelho, esclarecer o valor de uma delas.
2. Fazer a comunidade perceber que a luta pela implantação do reino de Deus exige de cada um de nós um esforço constante. Vivemos em meio ao joio, plantando o trigo; fermentando pão, rodeados de injustiças sociais; sonhando com uma ação apocalíptica de Deus.
3. Levar a comunidade a se perguntar sobre o modo como ela exerce o seu poder na sociedade e na comunidade. Ela exerce a misericórdia? Age com justiça? Enfim, segue a pedagogia divina? A faina do cristão consiste em plantar a semente do reino, ser um incômodo constante diante dos reinos de morte, permanecer na oração, tendo a certeza de que o Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.
frei Jacir de Freitas Faria, ofm


As coisas do mundo novo chamado reino
Neste domingo ouvimos parábolas que descrevem, através de coisas do cotidiano, o projeto que o Pai quer concretizar no meio do mundo através de Jesus, o grande pregador do Reino dos céus.
Reino quer dizer uma ordem nova de coisas,  um mundo a ser feito e refeito com uma força nova e insuspeitada que atua no coração das coisas envelhecidas. Jesus é o mensageiro do Reino. Mais do que isso. Ele é o próprio Reino, o mundo novo que ocupa o lugar das coisas velhas marcadas pelo desejo do homem e por seus desregramentos. Trata-se de um empreendimento a longo prazo. Esse mundo novo que  foi  inaugurado pela vida, paixão, morte e ressurreição, está em andamento. A Igreja, a comunidade deixada por  Jesus, existe para acelerar a implantação desse mundo novo de transparência, de beleza, de harmonia, de fraternidade e de justiça. 
Essa Igreja, santa e pecadora, se sente serva do Reino. Na vida da mesma Igreja há luzes e sombras, claridades e trevas. O texto de Mateus, redigido em volta dos anos 70, procura mostrar algumas leis do Reino.  O Jesus de Mateus, através de parábolas, nos leva a conhecer e compreender certas “lentidões” que presenciamos na vida da Igreja e do mundo.
No mundo (e na Igreja), nesses tempos que são os penúltimos, joio e trigo, se misturam. O agricultor pode ter a tentação de arrancar o joio,  na impaciência e no zelo pelo bom êxito. Virtudes e vícios coexistirão. Há um tempo do crescimento do reino em que não se faz a separação de  um e de outro. Temos que ter paciência. Na família há membros que honram a pequena célula. Por vezes, acontece o contrário. Não se pode precipitar as coisas. Nas comunidades cristãs coexistem a bondade e a perversidade.
Esse mundo novo que se chama Reino não acontece da noite para o dia.  Seus começos são modestos e quase insignificantes. O Reino se assemelha a uma ínfima sementinha de mostarda. Ninguém por ela dá nada. Mas quando lançada à terra faz brotar uma planta sem proporções aos seus começos. Ele é semelhante a um punhadinho de fermento que uma mulher  coloca numa força de  farinha e que leveda a massa toda.
Aí estão nossas comunidades cristãs. Muitas delas estão implantadas em espaços de gente simples, dedicada. Lá vemos esses agentes de pastoral cheios de fogo e de força e que, na simplicidade de suas vidas, preparam as pessoas para os sacramentos, visitam os doentes, promovem os mais abandonados e excluídos. Ali está uma pessoa que foi profundamente ofendida e que conseguiu dar o perdão. Comunidades cristãs, grupos de pessoas que levam vida reta e justa, pessoas isoladas que vão se configurando a Cristo  Jesus.  É o Reino em andamento.
Aquele que inaugurou o Reino nada tinha de pompa. Nasceu num canto minúsculo do Oriente, não tinha títulos, nem casa, nem propriedades, chegou mesmo a lavar os pés de seus companheiros, morreu sozinho na solidão da cruz, morreu dando a vida pelos seus e assim mostrou que a grandeza do  Reino que deve acontecer na plenitude dos tempos quando o Reino chegará à sua plena realização. Ele foi com um punhadinho de fermento que uma mulher coloca na massa. Quando o tempo passa a massa fermenta e acontecem prenúncios e antecipações do Reino.
frei Almir Ribeiro Guimarães



A paciência de Deus
Em sua pregação aos camponeses da Palestina, na linguagem campestre deles, Jesus aborda hoje o tema da condenação (evangelho). Já vimos, no domingo passado, que ninguém conhece a profundeza do pensamento de Deus.Incredulidade não significa necessariamente perdição. Como ainda muitos “bons cristãos” hoje, também os antigos judeus se admiravam de que Deus deixasse coexistir fé e incredulidade, justos e injustos. Mas Deus não precisa prestar contas a ninguém. Sua grandeza, ele a mostra julgando com benignidade, pois ele tem suficiente poder; Deus não é escravo de sua própria força (Sb. 12,18; 1ª leitura)! O salmo responsorial (Sl. 86/85), aparentado à revelação de Deus a Moisés em Ex. 34,5-6, acentua o tema da magnanimidade de Deus.
Contrariando nossa impaciência e intolerância, Deus aguarda que talvez o injusto ainda se converta (12,19; cf. Lc. 13,6-9). Sobre este tema Jesus bordou uma de suas mais eloqüentes parábolas: quando num campo se encontra joio no meio do trigo, é muito imprudente extirpar apressadamente o joio, pois se poderia arrancar também o trigo. Melhor é ter paciência, deixar tudo amadurecer e, no fim, conservar o que serve e queimar a cizânia. Deus é tão grande, que no seu Reino tem espaço até para a paciência com os incrédulos e injustos. Ele é quem julga.
A essa parábola são encadeadas algumas outras, de semelhante inspiração campestre (Mt. 13,31-33), bem como uma consideração sobre a “pedagogia” das parábolas. Depois, Jesus explica a parábola do joio. As parábolas intermediárias (do grão de mostarda e do fermento) referem-se ao incrível crescimento do Reino de Deus. Há, porém, diferenças no acento. Na parábola do grão de mostarda, o enorme crescimento do Reino, incomparável com seu humilde início, dá uma impressão de amplidão, de expansão, de espaço; na parábola do fermento, é a força interior que é acentuada: um pouco de fermento dá gosto ao todo.
Nos v. 34-35, o evangelista faz uma observação sobre a pedagogia de Jesus. Ele não fala por meio de parábolas para confundir o povo, mas sua pregação confunde, de fato, os que acham que sabem tudo (cf. Mt. 13,12-15). Ora, para quem quiser escutar, cumpre-se, nesta pedagogia de Jesus, o que o salmista já anunciara há muito tempo: a revelação das coisas escondidas desde a formação do mundo.
O tema principal para hoje é, pois, a grandeza de Deus, que tem lugar para todos, inclusive os pecadores, até o momento em que eles terão de decidir se aceitam a sua graça, sim ou não. Isso nos ensina também algo sobre o pecado: com o tempo, o pecado se transforma, ou em arrependimento, ou em orgulho “infernal”, ao qual cabe o destino que finalmente é dado ao joio.
E como viver num mundo onde coexistem fé e incredulidade, justiça e pecado (muitas vezes, dentro da mesma pessoa, dentro da Igreja também)? Como aceitar pessoas, sem aceitar seu pecado nem a estrutura pecaminosa de nosso mundo? São perguntas candentes, que podem ser meditadas à luz da paciência, não tanto “histórica”, mas antes escatológica, de Deus.
A 2ª leitura nos ensina algo fundamental sobre a “espiritualidade”. Para muita gente, espiritualidade é uma espécie de conquista de si mesmo, um treinamento, uma ascese – tanto que, antigamente, “ascese e espiritualidade” eram estudadas no mesmo tratado. Ora, espiritualidade cristã existe quando o Espírito do Cristo vive em nós, toma conta de nós. Isso nada tem a ver com ascetismo, uma vez que o Espírito adota até a nossa fraqueza. Nós nem sabemos rezar como convém, mas “o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm. 8,26). Portanto, o importante é deixar-se envolver por esse Espírito e não expulsá-lo pela auto-suficiência de nosso próprio espírito. O Espírito do Cristo é que consegue dar conta da nossa fraqueza; o nosso, dificilmente...
padre Johan Konings "Liturgia dominical"




As pessoas apresentam dificuldades em entender o mistério do Reino do Céu escondido na história desde o início dos tempos. Por essa razão, Jesus ensina através de parábolas.
No Evangelho de hoje, Jesus usa uma sequência de três parábolas para explicar com simplicidade a dinâmica do Reino do Céu.
Primeiro, Ele compara o Reino a uma plantação de trigo onde o inimigo semeia joio, que é uma erva daninha muito semelhante ao trigo e que, em algumas regiões, é conhecido como “falso trigo”. Para distinguir o joio na plantação de trigo é preciso paciência, esperar que ambos tenham tempo para crescer, e só depois colher o bom furo.
Nesta parábola, Jesus lança mão de uma cena comum do cotidiano do povo de Israel: o dono do campo que manda semear, o inimigo que procura prejudicá-lo e a surpreendente reação do primeiro ao ordenar que ambas as sementes cresçam juntas. Essa parábola pode ser compreendida à luz do ministério de Jesus que não reuniu uma comunidade só de justos e bons, mas que anunciou a sua mensagem também aos pecadores que deverão ter o tempo, dado por Deus, para o arrependimento e a conversão.
Esta parábola nos ensina que, na luta pela justiça não cabe aos empregados que farão a colheita, ou seja os seguidores de Jesus, fazer a separação entre bons e maus, pois, a semelhança entre o joio e o trigo é enorme, e só Deus, no momento certo, na hora da colheita, pode realizar tal julgamento.
Na segunda e terceira parábolas contadas por Jesus, Ele mostra como na luta pela justiça pode também acontecer a tentação do desânimo tendo em vista a oposição dos maus. As parábolas da semente de mostarda e do fermento na massa mostram que pequenas atitudes têm o poder de realizar grandes transformações, levando a refletir sobre a necessidade de perseverar. O contraste entre a ação inicial e o resultado final é usado por Jesus para deixar o Seu recado: Não desanimem!
Uma pequena semente é capaz de dar origem a uma grande árvore, e o mesmo ocorre com o fermento, onde uma pequena quantidade tem a capacidade de levedar muita massa.
Jesus instaurou um novo Reino dentro da história que é vivida por bons e maus, justos e injustos. A vinda do Reino, ou seja, Jesus entra em luta contra o espírito do mal e conduz os justos à vitória final.
Pequeninos do Senhor



Suportando a contradição
A parábola do joio e do trigo mostra como devemos, na vida, suportar a coexistência do bem e do mal. É impossível realizar uma clara separação entre eles. A ação concomitante do senhor do campo, semeando a boa semente, e a do seu inimigo, semeando a erva daninha, é inevitável. É preciso contar com esta eventualidade!
Os discípulos foram alertados quanto à tentação de querer arrancar a erva daninha, deixando crescer somente o trigo. Seria arriscado, pois juntamente com a erva má, arrancar-se-ia também a boa. O prejuízo desaconselha uma tal providência.
Diante desta situação, a atitude correta consiste em ter paciência, misericórdia e esperança. Paciência, porque, no final das contas, ficará patente a identidade do bem e do mal, embora, num determinado momento, parecessem semelhantes. Além disto, fica sempre aberta a possibilidade de conversão do pecado para a graça, pois a ação de Deus, no coração humano, supera o nosso entendimento. Misericórdia, porque o discípulo do Reino é chamado a acolher os pecadores, com a mesma benevolência do Pai, sem pretender excluí-los dos benefícios do Reino. Trata-se de uma luta constante para libertá-los da escravidão à qual foram reduzidos pelo pecado. Sem misericórdia, este processo de aproximação será inviável. Esperança, porque o mal está fadado a ser derrotado. Pela força de Deus, o bem terá a última palavra na história humana.
padre Jaldemir Vitório



Por que da criação boa de Deus surgiu o mal?
O texto do evangelho é uma sequência de três parábolas, mais a explicação da parábola do joio e do trigo. Todo o texto está situado no capítulo treze de Mateus, que, muitos comentaristas, dizem ser o capítulo central do primeiro evangelho. Esse longo ensinamento em parábolas, às multidões e aos discípulos, visa fazer compreender a natureza do Reino dos Céus, a sua situação neste mundo, o seu desenvolvimento e as exigências que ele impõe aos que aderem a ele. O ensinamento de Jesus em parábolas divide o auditório. Na resposta à pergunta dos discípulos sobre o motivo do ensinamento em parábolas às multidões, Jesus faz uma distinção entre eles e as multidões (Mt. 13,10-11). Não se trata de discriminação ou exclusão, mas de uma constatação: há os que aderem ao Reino (os discípulos) e os que o rejeitam. Para os discípulos o ensinamento de Jesus dá acesso ao mistério de Deus; para os outros, ele é um enigma. No entanto, essa distinção só existe porque Deus permite, isto é, Deus respeita profundamente a liberdade do ser humano. O Reino dos Céus cuja realidade Jesus revela só pode ser acolhido na liberdade. As três parábolas supramencionadas têm em comum que exigem um engajamento pessoal. A parábola do joio e do trigo é uma releitura dos três primeiros capítulos do livro do Gênesis. No campo de Deus, ele semeou a boa semente. O campo é o jardim de Deus onde ele colocou o ser humano, para que na comunhão com o seu Criador ele pudesse ser feliz (Gn 2,8-15). A boa semente que se desenvolve e dá fruto é o ser humano que Deus criou à sua imagem e semelhança e colocou em seu jardim. A pergunta do homem de ontem continua sendo a mesma da do homem de hoje: Por que da criação boa de Deus surgiu o mal? Se Deus semeou somente a boa semente do trigo em seu campo, de onde veio o joio? A resposta: o inimigo de Deus e do ser humano foi quem o fez. O trigo que germina no meio do joio parece vulnerável, como a existência humana ameaçada pelo mal. No entanto, aos olhos de Deus, nossa existência é portadora do projeto de Deus e dará fruto no tempo certo. O Reino de Deus sofre violência, neste mundo, e bem e mal estão mesclados no mesmo campo. No entanto, o dono do campo não renuncia à colheita, ele espera pacientemente.
Carlos Alberto Contieri,sj



O projeto de Deus se realizará no mundo
Mateus, conforme o estilo catequético de seu evangelho, reúne no capítulo 13 uma coletânea com sete parábolas. No trecho de hoje, temos três delas, sendo a parábola do trigo e do joio explicada no estilo de uma alegoria. A parábola do joio e do trigo destaca que a missão não está em combater o inimigo, mas em cultivar os valores do Reino. Fica removida, assim, a obsessiva idéia do "inimigo", muito presente no Primeiro Testamento, de modo particular nos Salmos.
As parábolas do grão de mostarda e do fermento fortalecem os discípulos na esperança. As duas são elaboradas a partir de imagens do ambiente familiar: um homem em seu campo e uma mulher em sua casa preparando o pão. Na primeira parábola são relativizadas as esperanças messiânicas de Israel como poderoso dominador das nações, tomando-se como referência o pequeno grão de mostarda plantado por um camponês. Na segunda, com a mulher que coloca o discreto fermento na massa de farinha, levedando-a, temos o fermento do amor, que se diferencia do fermento da hipocrisia dos fariseus, sobre o qual Jesus adverte seus discípulos (Mt. 12,1). Em ambas, revela-se o Reino de Deus, realmente presente no mundo, na sua dimensão de humildade e simplicidade. Não como afirmação de poder, mas pela transformação dos corações e das relações pessoais, no amor e na justiça, fundamentos da nova sociedade possível.
A explicação alegórica da parábola do trigo e do joio é própria de Mateus. Com freqüência Mateus recorre à expressão apocalíptica do juízo final como forma de pressão para que a comunidade desperte para a obediência à palavra de Jesus. Aqui é o tema da colheita final, quando o joio será queimado, bem como os que praticam o mal, jogados na fornalha de fogo, onde haverá choro e ranger de dentes. Esta expressão, cruel, é característica de Mateus que a repete por seis vezes no seu evangelho. Acolhendo a todos com a clemência de Deus (primeira leitura) abrem-se as portas da verdadeira esperança e comunica-se a vida e o amor, sem discriminações. Deixando-se conduzir pelo Espírito, o projeto de Deus se realizará no mundo.
José Raimundo Oliva



O trigo e o joio
Com 3 parábolas, Jesus apresenta no Evangelho a situação da Igreja no mundo. A parábola do grão de mostarda que se converte em uma árvore indica o crescimento do Reino, não tanto em extensão, mas em intensidade; indica a força transformadora do Evangelho, que «aumenta» a massa e a prepara para converter-se em pão.
Os discípulos compreenderam facilmente estas duas parábolas; mas isso não aconteceu com a terceira, a do trigo e do joio, e Jesus teve de explicá-la à parte.
O semeador, disse, era ele mesmo; a boa semente, os filhos do Reino; o joio, os filhos do maligno; o campo, o mundo; e a colheita, o fim do mundo.
Esta parábola de Jesus, na antigüidade, foi objeto de uma memorável disputa que é muito importante levar em consideração também hoje. Havia espíritos sectários, donatistas, que resolviam a questão de maneira simplista: por um lado, está a Igreja (sua igreja!), constituída somente por pessoas perfeitas; por outro, o mundo, repleto de filhos do maligno, sem esperança de salvação. A estes se opôs Santo Agostinho: o campo, explicava ele, certamente é o mundo, mas também na Igreja, lugar em que vivem juntos santos e pecadores e em que existe lugar para crescer e converter-se. «Os maus – dizia ele – estão no mundo ou para converter-se, ou para que por meio deles os bons exerçam a paciência.»
Os escândalos que de vez em quando atingem a Igreja, portanto, devem nos entristecer, mas não surpreender. A Igreja está composta de pessoas humanas, não somente de santos. Além disso, também existe joio dentro de cada um de nós, não somente no mundo e na Igreja, e isso deveria eliminar de nós a propensão a apontar com o dedo os demais. Erasmo de Rotterdam respondeu a Lutero, que o reprovava por sua permanência na Igreja Católica apesar de sua corrupção: «Suporto esta Igreja com a esperança de que seja melhor, pois ela também está obrigada a suportar-me esperando que eu seja melhor».
Mas talvez o principal tema da parábola não seja o trigo nem o joio, e sim a paciência de Deus. A liturgia destaca isso com a escolha da 1ª leitura, que é um hino à força de Deus, que se manifesta sob a forma de paciência e indulgência. Deus não tem simples paciência, isto é, não espera o dia do juízo para depois castigar mais severamente. Trata-se de magnanimidade, misericórdia, vontade de salvar.
A parábola do trigo e do joio permite uma reflexão de maior alcance. Um dos maiores motivos do mal-estar para os fiéis e da rejeição de Deus sempre foi a «desordem» que existe no mundo. O livro bíblico do Eclesiastes, que tantas vezes se faz porta-voz das razões dos que duvidam e dos céticos, escrevia: «Tudo acontece igualmente ao justo e ao ímpio... Sob o sol, ao invés do direito, está a iniqüidade, e ao invés da justiça, a impiedade» (Ecle 3,16; 9,2). Em todas as épocas se viu que a iniqüidade triunfa e que a inocência é humilhada. «Mas – como dizia o grande orador Bossuet – para que não se acredite que no mundo existe algo fixo e seguro, às vezes se vê o contrário, isto é, a inocência no trono e a iniqüidade no patíbulo.»
O autor do Eclesiastes já havia encontrado a resposta a esse escândalo: «Eu disse em meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio, pois lá existe um tempo para cada coisa e para toda obra» (Ecle. 3,17). É o que Jesus chama na parábola de «tempo da colheita». Trata-se, em outras palavras, de encontrar o ponto de observação adequado diante da realidade, de ver as coisas à luz da eternidade.
É o que acontece com alguns quadros modernos que, se forem vistos de perto, parecem uma mistura de cores sem ordem nem sentido, mas se forem observados da distância adequada, convertem-se em uma imagem bela e poderosa.
Não se trata de permanecer com os braços cruzados diante do mal e da injustiça, mas de lutar com todos os meios lícitos para promover a justiça e reprimir a injustiça e a violência. A esse esforço, que todos os homens de boa vontade realizam, a fé acrescenta uma ajuda e um apoio de valor inestimável: a certeza de que a vitória final não será da injustiça, nem da prepotência, mas da inocência.
Para o homem moderno, é difícil aceitar a idéia de um juízo final de Deus sobre o mundo e a história, mas dessa forma ele se contradiz, pois ele mesmo se rebela com a idéia de que a injustiça tenha a última palavra. Em muitos milênios de vida sobre a terra, o homem se acostumou com tudo; adaptou-se a todo clima, imune a muitas doenças. Existe algo ao qual ele nunca se acostumou: a injustiça. Já não somente será querido por Deus, mas também pelos homens e, paradoxalmente, também pelos ímpios. «No dia do juízo universal – diz o poeta Paul Claudel –, não somente virá do céu o Juiz, mas se precipitará ao seu redor toda a terra.»
Como mudam as vicissitudes humanas quando são vistas desde este ponto de vista, incluídas as que acontecem no mundo de hoje! Tomemos o exemplo que tanto humilha e entristece a nós, italianos: o crime organizado, a máfia..., e que com outros nomes está presente em muitos países. Recentemente, o livro «Gomorra», de Roberto Saviano, e o filme que foi feito sobre ele documentaram o nível de ódio e de desprezo alcançado pelos chefes dessas organizações, assim como o sentimento de impotência e quase de resignação da sociedade diante desse fenômeno.
No passado, vimos pessoas da máfia, que foram acusadas de crimes horrorosos, defender-se com um sorriso nos lábios, colocar em xeque juízes e tribunais, rir diante da falta de provas – como se, livrando-se dos juízes humanos, tivessem resolvido tudo. Se eu pudesse me dirigir a eles, eu lhes diria: «Não se iludam, pobres desgraçados; vocês não conseguiram nada! O verdadeiro juízo ainda deve começar. Ainda que vocês terminem seus dias em liberdade, temidos, honrados, e inclusive com um funeral religioso espetacular, depois de ter oferecido grandes quantias a obras de piedade, não terão conseguido nada. O verdadeiro Juiz os espera detrás da porta, e não é possível enganá-lo. Deus não se deixa corromper».
Deveria ser, portanto, motivo de consolo para as vítimas e de saudável susto para os violentos o que Jesus diz ao concluir sua explicação sobre a parábola do joio: «Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no final dos tempos: o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai».
fr. Raniero Cantalamessa, ofmcap - tradução: Aline Banchieri





sexta-feira, 14 de julho de 2017

15º DOMINGO DO TEMPO COMUM-Ano A

15º DOMINGO DO TEMPO COMUM


16 de Julho de 2017
Cor: Verde
Evangelho - Mt 13,1-23

Cada um de nós recebe a semente da palavra de Deus de acordo com o seu mundo interior. Uns são indiferentes, nem a ouvem, não se importam, apenas ignoram. Alguém precisa dizer a esses, que Jesus disse que quem não crer, já está condenado! Continuar lendo

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“O SEMEADOR SAIU PARA SEMEAR...” Olívia Coutinho

15º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 16 de Julho de 2017

Evangelho de Mt13,1-23

A palavra de Deus é fonte de vida, é semente que trás dentro de si, uma força  capaz de romper barreiras, de quebrar paradigmas!
Do coração de Jesus,  foram lançadas as primeiras sementes no mundo, sementes, que passaram a se multiplicarem  de geração em geração!
Hoje, Jesus continua lançando sementes no mundo, através do coração daqueles  que se dispõe a trabalhar na sua  Messe!
Mesmo em meio a tantos opositores, a palavra de Deus, ainda encontra terrenos férteis, onde ela possa germinar e produzir frutos, o que está faltando, são os semeadores!
O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a refletir, chama a nossa atenção sobre a importância de nos tornarmos, tanto terra boa, quanto semeadores do Reino, afinal, é nossa missão, fazer cresce, o Reino dos céus  aqui na terra! 
O texto diz que Jesus, dirigindo-se à multidão, fala da importância do acolhimento à palavra de Deus, comparando-a com uma semente lançada na terra!
Movido pelo o compromisso assumido com o Pai, de implantar o seu Reino aqui na terra, o Mestre de todos os mestres, serviu-se de meios humanos bem simples para fazer a ligação  entre o humano e o Divino, no sentido de reconstruir  a aliança firmada entres eles, uma aliança, que fora quebrada pelo  o pecado.
De um modo simples, Jesus fazia comparações do Reino, com as coisas  presentes no cotidiano dos pequenos. Com esta pedagogia, Ele falava diante de todos, para aqueles que queriam entender, para os que estavam de fato, abertos para acolher a sua mensagem. E assim, Jesus ia fazendo um passeio amoroso no coração dos pequenos, que entendiam  facilmente a sua linguagem, que era a linguagem do amor!
Uma parábola, tanto pode revelar, como esconder, vai depender da forma  de ouvi-la! Para os pequenos, elas revelavam os Mistérios do Reino, já para os “grandes” as parábolas de Jesus, não diziam nada, não passavam de meras historinhas, eles não as assimilavam com a vida,
Esta forma diferente de ensinar provocou uma curiosidade nos discípulos, que perguntaram a Jesus: “Porque tu falas ao povo em parábolas?” Jesus respondeu: “Porque a vós, foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem. É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam, nem compreendem”... Com esta explicação, Jesus diz aos discípulos, que no meio da multidão que o cercava, estavam misturados os que buscavam os seus ensinamentos e os que queriam apenas confrontá-lo, e era através das parábolas, que Ele falava com  os que estavam realmente interessados em acolher e  viver os seus ensinamentos. O que não era caso dos Fariseus e mestres da lei. Esses, tinham o coração fechado, por isto não entendiam a mensagem oculta nas parábolas de Jesus.
A todo aquele que crê em Jesus, que está aberto para acolher a sua mensagem, é dado  a graça de conhecer os mistérios do Reino! 
O crescimento de um Reino de amor de paz e de justiça, tão sonhado por Deus, depende de cada um de nós, da nossa disposição em nos tornarmos semeadores, isto é: propagadores da palavra de Deus!
A todo instante, Jesus nos chama a sermos semeadores da palavra de Deus, há muita terra fértil, corações sedentos por esta semente!  Mas é importante lembrarmos: a palavra que espalhamos, (semente) não é nossa, é de Deus, portanto, quem deve destacar, é o dono desta palavra, e não nós!
Como semeadores, tenhamos a simplicidade de um agricultor, o agricultor   não almeja em ser conhecido, e muito menos, ter algum prestígio, a sua  alegria está em constatar, que a semente  brotou.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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Saiu o semeador a semear a sua semente
Palavra, semente, comunicação de Deus! Os fiéis judeus do Antigo Testamento e os discípulos de Jesus do Testamento definitivo colocam a Palavra bem no centro de sua aventura espiritual.  Escrevemos Palavra com p maiúsculo, para significar esse desejo intenso de Deus de comunicar-se com os seus. O Deus do Antigo Testamento foi mostrando seu desígnio e seus projetos através dos profetas, por  meio de homens e mulheres inspirados pelo Alto. Discursos, eventos e exortações foram sendo o modo da comunicação de um Deus desejoso de mostrar sua face e seu bem querer aos seres que havia criado.
Belamente a primeira leitura fala da força da  Palavra, da comunicação de Deus aos seus. “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia; antes realizará tudo que for da minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”.
O  Senhor  quer fazer aliança com o homem, quer revelar aquilo que existe de sonhos em seu eternos desígnios. A Palavra vem e faz os seus efeitos... É claro, o homem tem que acolher as visitas do Senhor... Belíssima a caminhada de alguém que, ao longo do tempo da vida, se abriu ao Senhor. Maria, a Mãe do Senhor, pôde dizer: “ O Senhor fez em mim maravilhas...”.
As visitas da Palavra não cessam de se fazer. E a Semente-Palavra realiza maravilhas na terra boa, nessas histórias pessoais de homens e de mulheres que deixam os mortos enterrar os mortos, que fazem mais mil passos com os que lhe pedem mil, que  vivem da generosidade. A Palavra realiza maravilhas nessas comunidades concretas, nessas células do Reino, onde as pessoas colocam em primeiríssimo lugar os interesses do Senhor e as enormes necessidades de  justiça dos jogados à beira do caminho. A Semente que cai em terra boa produz resultados abundantes.
Há  sementes que caem à beira do caminho, em terra batida e sem água, outras são lançadas em pessoas empedernidas, que se fecham em suas posições, que não abrem as portas do amanhã, que não sabem fazer a leitura dos sinais dos tempos, pessoas e comunidades cristãs que buscam as aparências e a superficialidade.  Pessoas enredadas nos espinheiros que esmagam os desejos e os desígnios de Deus.
Não se trata apenas de ouvir ou de ler as páginas das Escrituras. Trata-se de se ter ao lado também, como se dizia antigamente, o jornal do dia para que a Escritura nos ensine a ouvir a voz de Deus nos sinais dos tempos. Nada de fundamentalismo da Palavra, mas detectar uma presença de Deus nos acontecimentos pessoais, comunitários e sociais.  A Palavra precisa interferir na vida do homem de hoje.
frei Almir Ribeiro Guimarães



A semente da Palavra
Ouvimos hoje a parábola do semeador, ou melhor, das aventuras da semente que é a Palavra de Deus, a palavra da pregação cristã (evangelho). Descreve o que acontece com a semente da Palavra em várias circunstâncias, com diversos tipos de pessoas; e, conforme o caso, o resultado é diferente. Resultado bom mesmo, que corresponda à fecundidade que a Palavra de Deus por si mesma tem (cf. 1ª leitura), só há quando ela cai em terra boa, isto é, em alguém que, ao ouvir a palavra, a deixa penetrar, a absorve, a assimila no seu próprio pensar e sentir (pois tudo isso significa a expressão “entende” em Mt. 13,23).
Tudo isso reflete as condições da pregação da Igreja das origens e de sempre. A palavra divina é eficaz e fecunda como a chuva que fertiliza o chão (1ª leitura, sublinhada pelo salmo responsorial). Mas o ouvinte tem que colaborar. Deus não força ninguém, ele se deixa acolher. Se alguém não o acolhe, ou acolhe mal, de modo superficial... nada feito, não cria vínculo com Deus. Aí está o mistério da liberdade da alma humana. No evangelho, reflete-se a preocupação das primeiras gerações cristãs com a incredulidade.
Por que alguns entendem, outros não? A uns é dado conhecer os mistérios do Reino, outros não chegam a abrir a casca da parábola (Mt. 13,11). É como nos negócios: quem tem, ganha crédito e pode negociar mais; quem não tem, perde ainda o pouco que tem. Trata-se da fé. Os judeus farisaicos achavam que possuíam algo: seu refinado conhecimento da Lei. Mas, para compreender a mensagem da graça de Deus, esse “algo” era nada. Entretanto, aos que tinham a fé, a abertura de um coração simples e humilde, a esses foi dado conhecer o mistério do Reino.
Tal situação não contraria o plano de Deus. Mesmo a incredulidade das pessoas, Deus a tem levado em conta no seu projeto. É o que experimentou o profeta Isaías. Mt. 13,14-15 cita Is. 6,9-10 (os primeiros cristãos citavam muito esta passagem para explicar o mistério da incredulidade: cf. Jo 12,40; At. 28,26s). O ser humano é livre para ser incrédulo. E tão grande é o plano de Deus, que ele consegue até incluir essa incredulidade... Segue, então, mais uma felicitação para os simples e pequenos, que podem enxergar o que muitos profetas quiseram ver e não viram (13,16s; cf. ev. dom. pass.).
E os incrédulos, será que eles não conhecerão a salvação? Paulo, em Rm. 9-l1, se debate com este problema e só sabe responder que ninguém conhece o abismo do pensamento e da sabedoria de Deus (Rm. 1 1,33ss). Nem mesmo a incredulidade à mensagem cristã é prova de rejeição de Deus. Só Deus sabe quem poderá agüentar sua eterna companhia e quem não. Mas, de toda maneira, os que não conseguem acolher e fazer frutificar apalavra, não têm a felicidade e o privilégio de ser, desde já, o povo-testemunha de Deus. Talvez se salvem, mas não podem realmente cantar as grandes obras do Senhor e reconhecer seu reino em Jesus Cristo. Ora, que há de mais bonito que isso?
A 2ª leitura desta liturgia continua o tema da vivificação pelo Espírito, a vida nova em Cristo. No contexto imediatamente anterior, Paulo acaba de dizer que recebemos o Espírito do Cristo, que clama em nós: “Abbá, Pai”; o Espírito que nos transforma em filhos adotivos de Deus, co-herdeiros com Cristo, chamados para a glória com ele (Em 8,14-17). Mas ainda não se revelou em nós esta glória, embora já tenhamos recebido o Espírito como primícia. Por isso, nós e toda a criação estamos ansiando por essa plenitude, como uma mulher em dores de parto (cf. Jo 16,21): o filho está aí, mas até que ele se manifeste, ela tem que passar pelo trabalho de parto. É essa a situação nossa e de nosso mundo, que é solidário conosco.
Como um eco do evangelho, a oração sobre as oferendas e a oração final falam do crescimento da fé e da salvação em nós. Trata-sede realizar o feliz encontro de uma semente “garantida” (a palavra) com uma terra boa, acolhedora e generosa. Neste contexto, pode-se rezar o prefácio comum II (Cristo, Palavra enviada pelo Pai). Na pregação diga-se concretamente quais são, na pessoa e na estrutura da sociedade, os obstáculos que impedem a boa acolhida ou o crescimento da semente da palavra.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"


O Evangelho de hoje começa com uma grande multidão reunida entorno de Jesus. As pessoas se sentem, por vezes, chamadas a ouvi-Lo e, em outras, simplesmente curiosas.
Jesus não fala claramente. Ele usa parábolas e passa a mensagem através de comparações com fatos corriqueiros da vida daquelas pessoas simples, para facilitar a compreensão.
A parábola desse Evangelho é conhecida como a “Parábola do Semeador”, onde Jesus é o semeador generoso que não esconde a semente que é a Sua Palavra, e mostra que ela cai nos mais diferentes tipos de solo, pois Seu chamado é para todos. Essas sementes possuem em si o germe da vida, que germinará ou não, dependendo do cuidado com terreno onde foi semeada.
A forma como Jesus falava ao povo intrigava seus discípulos que O questionaram: “Por que é que o Senhor usa comparações para falar com eles?”
Jesus então explica que eles, seus discípulos, são capazes de entender o que Ele diz por que estão comprometidos com a Sua pessoa. E os outros não entendem porque estão fascinados pelas tentações provocadas pela injustiça e pela falta de amor ao próximo.
Só há uma maneira de compreender os mistérios do Reino: tornando-se discípulo de Jesus. Só quem O aceita como o Messias é que O reconhece e vê o projeto de Deus se realizando.
Quem não adere a Jesus e à sua prática, se torna insensível no ouvir, no ver e no compreender, que têm suas raízes mais profundas na insensibilidade do coração, no fechar os olhos e ouvidos para as necessidades dos outros, culminando na incompreensão.
O tipo de cristão ideal é identificado com o terreno bom. Ele ouve a Palavra, compreende e a coloca em prática.


Pequeninos do Senhor

A eficácia da palavra
A parábola evangélica ilustra a benevolência do Pai, no seu desejo de salvar a todos, sem distinção. Ninguém está, de antemão, excluído da salvação. Tudo dependerá da disposição e do empenho com que se acolhe a comunicação do Pai.
A semente caída à beira do caminho ilustra a atitude de quem se relaciona com o Pai, de maneira superficial e leviana. A que caiu em terreno pedregoso é símbolo de um coração impermeável aos apelos divinos. A que caiu entre os espinhos aponta para os corações preocupados com múltiplas tarefas, a ponto de faltar-lhes tempo para um diálogo amoroso com o Pai. Enfim, a semente lançada em terra fértil simboliza quem se abre para acolher a Palavra de Deus e se deixa transformar por ela.
A eficácia da Palavra de Deus no coração humano revela-se no modo de viver de quem a acolhe. Somente o testemunho de uma vida pautada no amor e na justiça é um indicativo seguro de que a Palavra está produzindo frutos. O percentual - cem, sessenta ou trinta - dependerá do maior ou menor enraizamento da Palavra na vida do discípulo do Reino. Isto irá ser diferente, de pessoa para pessoa. O importante é que a semente não se perca e produza os frutos esperados. O espaço para a generosidade fica sempre aberto. A eficácia da Palavra não tem limites.
padre Jaldemir Vitório




Dar frutos significa acolher a palavra
Esta parábola do semeador que semeia a semente em terrenos diversos, inicia uma série de sete parábolas de Jesus. Mateus reuniu-as na forma de um discurso de Jesus, esclarecedor do mistério do Reino dos Céus. A parábola, pela simplicidade das imagens a que recorre, é uma forma literária eficiente para a compreensão das palavras de Jesus. São também sugestivas para moverem os ouvintes a se comprometer com o Reino que lhes é revelado através destas palavras. É a palavra do Pai que é comunicada e não volta sem produzir frutos. Na parábola de hoje relacionam-se o semeador, a semente, e os diferentes tipos de terrenos. Facilmente se compreende que os tipos de terrenos correspondem às diversas maneiras como a semente (a palavra de Jesus) é recebida. Depois da narrativa da parábola, Mateus apresenta o porque falar em parábolas.
Diante da simplicidade da parábola e de sua compreensão, a explicação do porque da parábola deixa certa perplexidade. Mateus ainda apresenta um rígido e discriminatório texto atribuído ao profeta Isaías. É apresentado como desígnio divino que uns acolham a palavra de Jesus e outros não. O recurso ao juízo divino excludente e condenatório é uma característica comum no Primeiro Testamento, e não corresponde à índole de Jesus. Tal compreensão reflete a tradição do evangelista e não o sentimento de Jesus. Em seguida, é feita a explicação em detalhes do significado da parábola. Os terrenos em que as sementes caíram podem indicar tanto as várias disposições com que cada um recebe a palavra, como os vários comportamentos assumidos pelos membros da comunidade.
Dar frutos significa acolher a palavra com interesse e carinho e colocá-la em prática, como as aranhas com os fios de suas teias, tecendo laços humanos de fraternidade, de amor e misericórdia, de partilha e solidariedade, construindo a Paz do Reino neste mundo, como antecipação das promessas de um mundo futuro.
José Raimundo Oliva



Na proclamação da Palavra deste domingo, iniciamos a escuta do capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que nos traz o encantador discurso das parábolas sobre o Reino dos céus. Neste e nos próximos dois domingos, escutaremos essas sete sugestivas parábolas. Atenção, caríssimos, porque este capítulo 13 é o centro do Evangelho segundo Mateus! Para que possamos compreender bem o que nosso Senhor nos quer dizer, recordemo-nos que o Reino dos céus é o núcleo, o tema, o objetivo da pregação de Jesus: ele veio para instaurar o Reino entre nós e nos fazer participar dele em plenitude após nosso caminho neste mundo. Quando Mateus diz "Reino dos céus" é o mesmo que dizer "Reino de Deus", pois o céu é Deus e fora de Deus não pode haver céu! O anúncio do Reino dos céus é, portanto, o anúncio do reinado do Deus de Jesus, aquele mesmo Deus a quem ele chamava de Pai, Pai que é todo amor, todo ternura, todo compaixão e misericórdia! Por isso, o reinado de Deus é nossa vida e nossa felicidade!
Pois bem, caríssimos, com sete parábolas (sete significa perfeição, completude) o Senhor Jesus nos fala dos mistérios do Reino dos céus. São parábolas para serem ouvidas com essas perguntas no coração: Que é o Reino? Por que não aparece claramente neste mundo? Por que parece tão frágil? Onde ele está? Como se pode descobri-lo? Escutemos, porque o Senhor nos vai falar. Coloquemo-nos ao lado dos seus ouvintes, na tão doce cena do Evangelho de hoje: "Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galiléia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas..." Sentemo-nos nós também com essa multidão e escutemos as parábolas desses três domingos!
Ó Mestre, porque falas em parábolas? – perguntaram a Jesus. As parábolas, caríssimos, têm, primeiramente, um sentido didático: Jesus falava do Reino com imagens e cenas da vida do povo... Era fácil compreender, era acessível aos simples... Mas também, exatamente por serem simples e cheias de figuras, as parábolas somente poderiam ser compreendidas por quem tivesse um coração simples e cheio de boa vontade. Os soberbos, os de má vontade, os auto-suficientes jamais poderiam compreender, penetrar com o coração o mistério tão doce e suave que Jesus revela em suas parábolas. Por isso ele nos diz: "A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Ao que tem será dado mais e terá em abundância; mas ao que não tem, será tirado até o pouco que tem... Porque eles, olhando, não vêem, ouvindo, eles não escutam nem compreendem... Deste modo, cumpre-se a palavra do profeta: 'Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos para não ver com os olhos nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração..." Também nós, sem um coração pobre, humilde e confiante, jamais compreenderemos a verdade do mistério que Jesus nos apresentará nessas sete estupendas parábolas...
Comecemos, pois, a escutá-lo nesta primeira das sete: a Parábola do Semeador. A semente é a Palavra de Deus, que é sempre fecunda "como a chuva e a neve que descem do céu e para lá não voltam, mas vêm irrigar e fecundar a terra"... A Palavra que Jesus, o Semeador, joga no terreno do nosso coração, nunca ficará sem efeito; é uma Palavra eficaz! O padre Antônio Vieira, comentando esse Evangelho afirmava que a Palavra pode não dar fruto, mas dará sempre efeito: efeito de salvação ou efeito de condenação! É verdade: ninguém ficará neutro diante da Palavra do Senhor que escutou: ou a acolhe, dá fruto nela e acolhe a salvação, ou a rejeita, para ela se fecha e por causa dela se perde!
Se o semeador é Jesus e a semente é a Palavra, os diversos tipos de terrenos são os diversos tipos de coração. Sim, o terreno somos nós, caríssimos! E aqui está a nossa responsabilidade: tornar o nosso coração uma terra boa! Que não seja terra ruim, que não seja terra estéril. Não aconteça que sejamos daqueles que ouvindo, não escutam e vendo, não vêem! Por isso mesmo, essa Palavra deste hoje nos deve inquietar... Que tipo de terreno tenho sido? Que tipo de terreno tenho preparado no meu coração? Que fruto a Palavra está dando na minha vida? Recordemos, caríssimos em Cristo: se a Palavra não tiver fruto, ainda assim terá efeito!
Mas, há outro recado, outro ensinamento do Senhor nesta estória. Notem que a Palavra que anuncia o Reino é tão precária, a maior parte da semente parece ter um destino inglório, sem fruto! A Palavra onipotente aparece nesta parábola escandalosamente impotente – como na cruz! Mas, ao fim, ela triunfará, dará fruto: Ä semente que caiu na terra é aquele que ouve a Palavra e a compreende. Esse produz fruto: um dá cem, outro sessenta e outro, trinta". Não nos iludamos: ao final, o Reino triunfará, ainda que pareça inútil, ainda que muito da semente semeada pareça destinada ao fracasso e à esterilidade... A semente dará fruto... Que frutifique, pois, em nós!
Para isso, cuidemos do aqui e do agora de nossa existência, porque são nas coisas pequenas que o Reino aparece, que o Reino se faz, que a semente germina: no irmão que acolhi, na dor que suportei, na presença de Deus que descobri mesmo no meio das trevas da vida... Só quem ouve, só quem compreende pode acolher esse Reino e dar fruto de vida.
A humanidade inteira e a criação toda esperam o testemunho dos cristãos, esperam o nosso fruto no aqui e agora da existência, que antecipa e prepara a manifestação final da glória, que é a plena manifestação do Reino dos céus. A criação geme, a humanidade geme, tateando nas trevas em busca da luz, faminta em busca do alimento, mortal em busca da vida. Quem pode apontar a luz, quem pode trazer o pão, quem pode testemunhar a vida? Os cristãos, nós, se deixarmos que a semente da Palavra faça o Reino germinar em nós para que o Reino seja presença no mundo. Eis, portanto, que mistério tão grande: o Reino passa por nós, pela nossa pequena vida! Os cristãos, a Igreja, são como a respiração do mundo; sem nós, o mundo morreria asfixiado...
A parábola de hoje nos convida a preparar nossa existência para que o Reino possa brotar; convida-nos também ao espírito de fé para ouvir, para ver, para compreender mesmo nas coisas pequenas da vida; convida-nos à paciência e à fidelidade no dia a dia; convida-nos à consciência de que é Deus quem age, fazendo a semente crescer, desde que não impeçamos o dinamismo da semente. Eis! O Reino está em nós, está no meio de nós! Abramo-nos a ele...
dom Henrique Soares da Costa




A liturgia do 15º domingo do tempo comum convida-nos a tomar consciência da importância da Palavra de Deus e da centralidade que ela deve assumir na vida dos crentes.
A primeira leitura garante-nos que a Palavra de Deus é verdadeiramente fecunda e criadora de vida. Ela dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. É sempre eficaz e produz sempre efeito, embora não atue sempre de acordo com os nossos interesses e critérios.
O Evangelho propõe-nos, em primeiro lugar, uma reflexão sobre a forma como acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser uma “boa terra”, disponível para escutar as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que elas dêem abundantes frutos na nossa vida de cada dia. Garante-nos também que o “Reino” proposto por Jesus será uma realidade imparável, onde se manifestará em todo o seu esplendor e fecundidade a vida de Deus.
A segunda leitura apresenta uma temática (a solidariedade entre o homem e o resto da criação) que, à primeira vista, não está relacionada com o tema deste domingo – a Palavra de Deus. Podemos, no entanto, dizer que a Palavra de Deus é que fornece os critérios para que o homem possa viver “segundo o Espírito” e para que ele possa construir o “novo céu e a nova terra” com que sonhamos.
1ª leitura – Is. 55,10-11 – AMBIENTE
O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta que exerce a sua missão entre os exilados da Babilônia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e decepcionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, “livro da Consolação”.
Na primeira parte desse livro (cf. Is. 40-48), o profeta anuncia aos exilados a libertação do cativeiro e um “novo êxodo” do Povo de Deus rumo à Terra Prometida; na segunda parte (cf. Is 49-55), o profeta fala da reconstrução e da restauração de Jerusalém.
Estes três versículos que a primeira leitura de hoje nos propõem aparecem no final do “Livro da Consolação”. Depois de convidar o Povo (que ainda está na Babilônia) a buscar e invocar o Senhor (cf. Is. 55,6-9), o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus que acabou de ser proclamada aos exilados (cf. Is. 55,10-11).
Estamos na fase final do Exílio (à volta de 550/540 a.C.). A comunidade exilada está farta de belas palavras e de promessas de libertação que tardam a concretizar-se… A impaciência, a dúvida, o cepticismo vão minando lentamente a resistência e a fé dos exilados… Será que as promessas de Deus se concretizarão? Deus não está a ser demasiado lento, em relação a algo que exige uma intervenção imediata? Deus ter-se-á esquecido da situação do seu Povo?
MENSAGEM
Não – diz o profeta – Deus não se esqueceu do seu Povo. A sua Palavra não deixará de se concretizar, pois Deus é eternamente fiel às suas promessas. A Palavra de Deus é eficaz, transformadora, geradora de vida. Ela nunca falha.
Para expressar a idéia da eficácia da Palavra de Deus, o profeta utiliza o exemplo da chuva e da neve: assim como a chuva e a neve que descem do céu fecundam a terra e multiplicam a vida nos campos, assim a Palavra de Jahwéh não deixará de se concretizar e de criar vida plena para o Povo de Deus.
A imagem é extremamente sugestiva. Devia lembrar aos judeus exilados na Babilônia as chuvas que caem no norte de Israel e as neves do monte Hermon. Essa água caída do céu alimenta o rio Jordão; e este, por sua vez, corre por toda a terra de Israel, deixando um rasto de vida e de fecundidade.
A Palavra de Deus é como essa água bendita caída do céu que, inevitavelmente, gera essa vida que alimenta o Povo de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Quando escutamos a Palavra de Deus, sentimo-nos confiantes, otimistas, com o coração a transbordar de esperança; sentimos que o caminho que Deus nos indica é, efetivamente, um caminho de felicidade e de vida plena… “Que bom é estarmos aqui” – dizemos… Depois, voltamos à nossa vida do dia a dia e reencontramos a monotonia, os problemas, o desencanto; constatamos que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto que os bons, os justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados, humilhados… Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? Não estaremos a ser enganados? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a estas dúvidas. Ela garante-nos: a Palavra de Deus não falha; ela indica sempre caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz sem fim.
• A Palavra de Deus não poderá ser uma espécie de ópio do Povo, no sentido de que projeta em Deus as esperanças e os sonhos que nos competem a nós concretizar? Atenção: é preciso estarmos bem conscientes de que Deus não prescinde de nós para atuar na história humana… A sua Palavra dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. A Palavra de Deus não só não adormece a nossa vontade de agir, mas revela-nos os projetos de Deus para o mundo e para os homens e convida-nos ao compromisso com a transformação e a renovação do mundo.
• Vivemos na era do relógio. “Tempo é dinheiro” – dizemos. Passamos a vida numa correria louca, contando os minutos, sem tempo para as pessoas, sem tempo para Deus, sem tempo para nós. Tornamo-nos impacientes e exigentes; achamos que ser eficiente é ter feito ontem aquilo que é pedido para hoje… E achamos que Deus também deve seguir os nossos ritmos. Queremos que Ele aja imediatamente, que nos resolva logo os problemas, que atue de imediato, ao sabor dos nossos desejos e projetos. É preciso, no entanto, aprender a respeitar o ritmo de Deus, o tempo de Deus. Não nos basta saber que a Palavra de Deus é sempre eficaz (embora não tenha os nossos prazos) e que não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a vontade de Deus, sem ter realizado a sua missão?
2ª leitura – Rom 8,18-23 – AMBIENTE
Paulo continua a oferecer-nos a sua catequese sobre o caminho que é preciso seguir para se poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rm. 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rm. 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade (cf. Rm. 8,1-39).
Nos versículos anteriores ao texto que hoje nos é proposto (cf. Rm. 8,1-17), Paulo mostrou aos crentes o exemplo de Cristo e convidou os cristãos a seguirem o mesmo percurso. De forma especial, disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida “segundo a carne” (isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência) e aderir à vida “segundo o Espírito” (isto é, a vida de escuta de Deus, de obediência aos projetos de Deus, de doação aos homens).
MENSAGEM
Na perspectiva de Paulo, o homem não é o único interessado na opção por uma vida “segundo o Espírito”: toda a criação está dependente das escolhas que o homem faz. O que é que isto significa?
Como resultado do pecado do homem, a criação inteira ficou submetida ao império do egoísmo e da desordem (cf. Gn. 3,17) e está condenada à finitude e à caducidade. Se o homem aderir a Cristo e passar a viver “segundo o Espírito”, superará o destino de maldição e de morte em que o pecado o tinha lançado; então, também o resto da criação será libertado e nascerá o novo céu e a nova terra. É o tema da solidariedade entre o homem, os outros animais e a natureza, tão enraizado na Bíblia (cf. Gn. 9,12-13; Col. 1,20; 2Pe. 3,13; Ap. 21,1-15).
Portanto, toda a criação aguarda ansiosamente que o homem escolha a vida “segundo o Espírito”. Até lá, vai nascendo – no meio da dificuldade e da dor – esse Homem Novo, bem como esse Novo Céu e Nova Terra com que todos sonhamos. Porquê na dificuldade e na dor? Porque a vida “segundo o Espírito” supõe a renúncia ao egoísmo, aos interesses mesquinhos, ao comodismo, ao orgulho e a opção por um caminho de entrega e de dom da própria vida a Deus e aos outros. Paulo utiliza até o exemplo das dores do parto, para iluminar a mensagem que pretende transmitir… O nascimento de uma criança dá-se sempre através da dor; no entanto, essa dor é o caminho obrigatório para o nascimento de uma nova vida.
De resto, vale a pena viver “segundo o Espírito”. Os “padecimentos”, as renúncias, as dificuldades, não são nada, em comparação com a felicidade sem fim que espera os crentes no final do caminho.
ATUALIZAÇÃO
• Antes de mais, Paulo exorta os crentes a decidirem-se por uma vida “segundo o Espírito”. Essa opção terá uma dimensão cósmica e afetará a relação do homem com os outros homens e com toda a criação. Uma vida conduzida de acordo com critérios de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de pecado, gera escravidão, injustiça, arbitrariedade, morte, sofrimento, que se refletem na vida de todos os outros seres criados e criam desequilíbrios que desfeiam este mundo que Deus quis “bom”… Ao contrário, uma vida conduzida de acordo com os critérios de Deus gera respeito, amor, solidariedade, que se refletem na vida dos outros seres criados e criam harmonia, equilíbrio, bem-estar, felicidade. Tenho consciência de que as minhas opções afetam os outros meus irmãos, bem como o mundo que me rodeia? Tenho consciência de que o mundo será melhor ou pior, de acordo com as opções que eu fizer?
• No nosso tempo manifesta-se, cada vez mais, uma preocupação séria com a forma como usamos o mundo que Deus nos ofereceu. O homem de hoje já descobriu que a criação não é para ser explorada, violentada, usada de acordo com critérios de egoísmo e de exploração. Aquilo que nos deve mover, no entanto, não é a simples preocupação com o esgotamento dos recursos, ou com a destruição das condições de habitabilidade do nosso planeta; mas o que nos deve mover é a idéia da fraternidade que deve unir o homem e as outras coisas criadas por Deus. Só quando se instalar essa consciência de fraternidade, podemos libertar toda a criação do egoísmo e da exploração em que o homem a encerrou e fazer aparecer o “novo céu e a nova terra”.
• Muitas vezes sentimo-nos confusos com certas novidades que nos desconcertam e que parecem pôr em causa os velhos esquemas sobre os quais o mundo se tem edificado. Criticamos os mais jovens pela sua ousadia, pelos seus valores, pelas suas preocupações, pela sua visão do mundo… Não sabemos para onde vamos e parece que nada faz sentido… Sentimo-nos abalados e inseguros; lamentamo-nos porque tudo parece ir de mal a pior e não sabemos “onde isto vai parar”. Não é possível que, em muitos casos, a nossa rigidez esconda o comodismo, a instalação, o aburguesamento de quem tem medo da novidade?
• Aconteça o que acontecer, somos convidados a olhar para o futuro do mundo e da humanidade com os óculos da esperança. Não caminhamos para o holocausto, para a destruição, para o nada, mas para o “novo céu e a nova terra”, que já estão em gérmen presentes na nossa história e que, cada dia, se manifestam um pouco mais.
• Atenção: esse “novo céu e nova terra” não podem ser projetados para um futuro ideal, no céu… Eles estão já a construir-se na terra, na nossa história, sempre que os seguidores de Jesus aceitam o seu convite e se dispõem a viver “segundo o Espírito”.
Evangelho – Mt. 13,1-23 - AMBIENTE
Hoje e nos próximos dois domingos, o Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A “parábola” é uma imagem ou comparação, através da qual se ilustra uma determinada mensagem ou ensinamento.
A linguagem parabólica não foi inventada por Jesus. É uma linguagem habitual na literatura dos povos do Médio Oriente: o gênio oriental gosta mais de falar e de instruir através de imagens, de comparações e de alegorias, do que através dos discursos lógicos, frios e racionais, típicos da civilização ocidental.
A linguagem parabólica tem várias vantagens em relação a um discurso mais lógico e impositivo. Em primeiro lugar, porque a imagem ou comparação que caracteriza a linguagem parabólica é muito mais rica em força de comunicação e em poder de evocação, do que a simples exposição teórica: é mais profunda, mais carregada de sentido, mais evocadora e, por isso, mexe mais com os ouvintes. Em segundo lugar, porque é uma excelente arma de controvérsia: a linguagem figurada permite levar o interlocutor a admitir certos pontos que, de outro modo, nunca mereceriam a sua concordância. Em terceiro lugar, porque é um verdadeiro método pedagógico, que ensina as pessoas a refletir, a medir os prós e os contras, a encontrar soluções para os dilemas que a vida põe: espicaça a curiosidade, incita à busca, convida a descobrir a verdade.
No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, através das quais Jesus revela aos discípulos a realidade do “Reino”: são as “parábolas do Reino”.
Dessas sete parábolas, três procedem da tradição sinóptica (o semeador, o grão de mostarda, o fermento); as outras quatro (o trigo e o joio, o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede) não se encontram nem em Marcos, nem em Lucas. Provavelmente, são originárias da antiga fonte dos “ditos” de Jesus, que Mateus usou abundantemente na composição do seu Evangelho.
A preocupação do evangelista Mateus é sempre a vida da sua comunidade. Nestas sete parábolas e na interpretação que as acompanha, percebe-se a preocupação de um pastor que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé desses crentes a quem o Evangelho se destina.
MENSAGEM
A parábola que hoje nos é proposta – a do semeador e da semente – é uma das mais conhecidas e emblemáticas das parábolas de Jesus. No entanto, o texto do Evangelho de hoje vai um pouco mais além da parábola em si… Apresenta três partes: a parábola (vs. 1-9), um conjunto de “ditos” sobre a função das parábolas (vs. 10-17) e a explicação da parábola (vs. 18-23).
Na primeira parte temos, pois, a parábola propriamente dita (vs. 1-9). O quadro apresentado supõe as técnicas agrícolas usadas na Palestina de então: primeiro, o agricultor lançava a semente à terra; depois, é que passava a arar o terreno. Assim compreende-se porque é que uma parte da semente pôde cair “à beira do caminho”, outra em “sítios pedregosos onde não havia muita terra” e outra “entre os espinhos”.
Evidentemente, as diferenças do terreno significam, nesta “comparação”, as diferentes formas como é acolhida a semente. No entanto, nem sequer é isso que é mais significativo: o que aqui é verdadeiramente significativo é a quantidade espantosa de frutos que a semente lançada na “boa terra” produz… Tendo em conta que, na época, uma colheita de sete por um era considerada farta, os cem, sessenta e trinta por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo de surpreendente, de exagerado, de milagroso…
Mateus coloca esta parábola num contexto em que a proposta de Jesus parece condenada ao malogro. As cidades do lago (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum) tinham rejeitado a sua pregação (cf. Mt. 11,20-24); os fariseus atacavam-no por Ele não respeitar o sábado e queriam matá-l’O (cf. Mt 12,1-14); acusavam-n’O, além disso, de agir, não pelo poder de Deus, mas pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios (cf. Mt. 12,22-29); não acreditavam nas suas palavras e exigiam d’Ele “sinais” (cf. Mt. 12,38-45). O “Reino” anunciado sofria grande contestação e parecia, pois, encaminhar-se para um rotundo fracasso…
É muito possível que esta parábola tenha sido apresentada por Jesus neste contexto de “crise”. Àqueles que manifestavam desânimo e desconfiança em relação ao êxito do projeto do “Reino”, Jesus fala de um resultado final grandioso. Com esta parábola, Jesus diz aos discípulos desiludidos: “coragem! Não desanimeis, pois apesar do aparente fracasso, o ‘Reino’ é uma realidade imparável; e o resultado final será algo de surpreendente, de maravilhoso, de inimaginável”.
Na segunda parte temos uma reflexão sobre a função das parábolas (vs. 10-17). O ponto de partida é uma questão posta pelos discípulos: porque é que Jesus fala em parábolas?
Mateus vê nas parábolas a ocasião para que apareçam, com nitidez, o acolhimento e a recusa da mensagem proposta por Jesus. Que quer isto dizer?
As parábolas apresentam a proposta do “Reino” numa linguagem sugestiva, rica, clara, concreta, questionante, interpeladora… Tornam tudo claro e evidente para os ouvintes; por isso, após escutar a mensagem apresentada nas parábolas, só não aceita a mensagem quem tiver o coração endurecido e não estiver mesmo interessado na proposta. As parábolas são, portanto, o fator decisivo: propõem clara e inequivocamente a realidade do “Reino”. Quem acolher essa mensagem, receberá mais e “terá em abundância” (quer dizer, irá entrando, cada vez mais, na dinâmica do “Reino”); mas quem não a acolher (apesar da clareza e da acessibilidade da mensagem), está a rejeitar o “Reino” e a possibilidade de integrar a comunidade da salvação. Nos que rejeitam a proposta de Jesus, cumpre-se a profecia de Isaías: o profeta fala de um povo de coração endurecido, que quanto mais ouve a pregação profética, mais se irrita, agravando cada vez mais a sua culpa (cf. Is 6,9-10).
Os discípulos são aqueles que escutam a proposta do “Reino” e estão dispostos a acolhê-la. Eles compreendem, portanto, as parábolas e aceitam a realidade que elas propõem. Eles são “felizes”, porque abriram o coração às propostas de Jesus, escutaram as suas palavras, viram e entenderam os seus gestos e sinais; são “felizes” porque (ao contrário daqueles que endureceram o coração e fecharam os ouvidos à proposta de Jesus) já integram o “Reino”.
Na terceira parte, temos a explicação da parábola (vs. 18-23). Alguns indícios presentes no texto levam a pensar que esta explicação não fazia parte da parábola original, mas é uma adaptação posterior, que aplica a parábola à vida dos cristãos.
A explicação desloca, de forma evidente, o “centro de interesse”. Nessa explicação, a parábola deixa de ser uma apresentação da forma grandiosa como o “Reino” se vai manifestar, para passar a ser uma reflexão sobre as diversas atitudes com que a comunidade acolhe a Palavra de Jesus (na verdade, é essa a grande preocupação das comunidades cristãs).
Na perspectiva dos catequistas que prepararam esta aplicação da parábola, o acolhimento do Evangelho não depende, nem da semente, nem de quem semeia; mas depende da qualidade da terra.
Diante da Palavra de Jesus, há várias atitudes… Há aqueles que têm um coração duro como o chão de terra batida dos caminhos: a Palavra de Jesus não poderá penetrar nessa terra e dar fruto. Há aqueles que têm um coração inconstante, capaz de se entusiasmar instantaneamente, mas também de desanimar perante as primeiras dificuldades: a Palavra de Jesus não pode aí criar raízes. Há aqueles que têm um coração materialista, que dá sempre prioridade à riqueza e aos bens deste mundo: a Palavra de Jesus é aí facilmente sufocada por esses outros interesses dominantes. Há também aqueles que têm um coração disponível e bom, aberto aos desafios de Deus: a Palavra de Jesus é aí acolhida e dá muito fruto. Os verdadeiros discípulos (a “boa terra”) identificam-se com aqueles que escutam as parábolas, as entendem e acolhem a proposta do “Reino”.
Temos aqui, portanto, uma exortação aos cristãos no sentido de acolherem a Palavra de Jesus, sem deixarem que as dificuldades, os acidentes da vida, os outros valores a afoguem e a tornem uma semente estéril, sem vida.
ATUALIZAÇÃO
• No seu “estado atual”, a parábola do semeador e da semente é, sobretudo, um convite a refletir sobre a importância e o significado da Palavra de Jesus. É verdade que, nas nossas comunidades cristãs, a Palavra de Jesus é a referência fundamental, à volta do qual se constrói a vida da comunidade e dos crentes? Temos consciência de que é a Palavra anunciada, proclamada, meditada, partilhada, celebrada, que cria a comunidade e que a alimenta no dia a dia?
• A semente que caiu em terrenos duros, de terra batida, faz-nos pensar em corações insensíveis, egoístas, orgulhosos, onde não há lugar para a Palavra de Jesus e para os valores do “Reino”. É a realidade de tantos homens e mulheres que vêem no Evangelho um caminho para fracos e vencidos, e que preferem um caminho de independência e de auto-suficiência, à margem de Deus e das suas propostas. Este caminho de orgulho e de auto-suficiência alguma vez foi “o meu caminho”?
• A semente que caiu em sítios pedregosos, que brota nessa pequena camada de terra que aí há, mas que morre rapidamente por falta de raízes profundas, faz-nos pensar em corações inconstantes, capazes de se entusiasmarem com o “Reino”, mas incapazes de suportarem as contrariedades, as dificuldades, as perseguições. É a realidade de tantos homens e mulheres que vêem em Jesus uma verdadeira proposta de salvação e que a ela aderem, mas que rapidamente perdem a coragem e entram num jogo de cedências e de meias tintas quando são confrontados com a radicalidade do Evangelho. A Palavra de Deus é, para mim, uma realidade que eu levo a sério, ou algo que eu deixo cair quando me dá jeito?
• A semente que caiu entre os espinhos e que foi sufocada por eles, faz-nos pensar em corações materialistas, comodistas, instalados, para quem a proposta do “Reino” não é a prioridade fundamental. É a realidade de tantos homens e mulheres que, sem rejeitarem a proposta de Jesus (muitas vezes são “muito religiosos” e têm “a sua fé”) fazem do dinheiro, do poder, da fama, do êxito profissional ou social o verdadeiro Deus a que tudo sacrificam. As propostas de Jesus são a referência fundamental à volta da qual a minha vida se constrói, ou deixo que outros interesses e valores sufoquem os valores do Evangelho?
• A semente que caiu em boa terra e que deu fruto abundante faz-nos pensar em corações sensíveis e bons, capazes de aderirem às propostas de Jesus e de embarcarem na aventura do “Reino”. É a realidade de tantos homens e mulheres que encontraram na proposta de Jesus um caminho de libertação e de vida plena e que, como Jesus, aceitam fazer da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos homens. Este é o quadro ideal do verdadeiro discípulo; e é esta a proposta que o Evangelho de hoje me faz.
• A parábola, na sua forma original (vs. 1-9) refere-se à inevitável erupção do “Reino”, à sua força e aos resultados maravilhosos que o “Reino” alcançará… Com frequência, olhamos o mundo que nos rodeia e ficamos desanimados com o materialismo, a futilidade, os falsos valores que marcam a vida de muitos homens e mulheres do nosso tempo. Perguntamo-nos se vale a pena anunciar a proposta libertadora de Jesus num mundo que vive obcecado com as riquezas, com os prazeres, com os valores materiais… O Evangelho de hoje responde: “coragem! Não desanimeis pois, apesar do aparente fracasso, o ‘Reino’ é uma realidade imparável; e o resultado final será algo de surpreendente, de maravilhoso, de inimaginável”.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho