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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

22º DOMINGO TEMPO COMUM-B

22º DOMINGO TEMPO COMUM

O SENHOR NOS CONVIDA PARA VIVER NO ARDOR MISSIONÁRIO, COMPROMETIDOS COM A VERDADE DO REINO, VIVENDO UMA FÉ AUTÊNTICA SEM FINGIMENTO, NA DACICALIDADE DE SEU AMOR.

30 de Agosto de 2015
Ano   B

-O QUE DEIXA NOSSA ALMA IMPURA-José Salviano


Evangelho - Mc 7,1-8.14-15.21-23


       Os judeus tinham uma preocupação extrema com relação ao impuro e ao puro.  Porém, essa atitude para a  qual eles diziam que fazia parte da tradição, na verdade se tratava de mais uma das distorções dos ensinamentos de Moisés.  Leia mais


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É DE UM CORAÇÃO PURO QUE BROTAM OS MAIS BELOS GESTOS DE AMOR! -Olívia Coutinho
22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 30 de Agosto de 2015
Evangelho de Mc 7,1-08.14-15.21-23

 Quantos de nós perdemos a oportunidade de vivenciar  as maravilhas que nos vem de Deus, por estarmos  presos em pormenores, coisas insignificantes que não nos deixa enxergar o belo da vida!
Temos uma  forte  tendência de ficarmos  observando  o outro, pena que esta nossa observância se direciona mais, para  os pontos fracos  das pessoas, o que nos impede  de perceber o que há  de bom  no seu interior!
  Devido a esse nosso olhar malicioso, vamos perdendo a capacidade de ver além das aparências, de ter uma percepção profunda dos fatos, das pessoas, um sinal de  que não ainda não aprendemos a ter um olhar de contemplação, um olhar que vai além do que os  olhos físicos  alcançam, que nos faz enxergar a pessoa na sua essência.
Enquanto estamos nos ocupando em  buscar o negativo do outro, deixamos  de cuidar do nosso  interior, de sermos criteriosos nas nossas escolhas e assim vamos  dando espaço  para o mal.
O evangelho de hoje, narra um encontro dos  fariseus e alguns  mestres da lei, com Jesus.  Eles, haviam vindo  de Jerusalém com um único objetivo: confrontar Jesus.  Infiltrados no meio da multidão, eles disfarçavam de simpatizantes  de Jesus  para investiga-lo, saber qual  o tipo de ensinamento Ele estava  passando como formação para  os seus discípulos, se Ele estava  incitando  o povo a  não observância das Leis. Havia chegado  ao conhecimento deles, de que os ensinamentos de Jesus, não enquadravam  com os padrões religiosos da época e que as suas orientações poderiam  romper com o sistema religioso já estabelecido por eles!
Para os fariseus e mestres da lei, religião, era observar  as tradições antigas, cumprir preceitos, normas, rituais, que nada  acrescentava ao ser humano como lavar as mãos antes de comer, quando chegar da rua não comer sem tomar banho, a maneira certa de lavar copos, jarras, vasilhas...Eles observavam rigorosamente estes preceitos, mas deixavam o principal, não viviam o amor, não agiam com misericórdia, suas atitudes era totalmente contrária a vida.
Atrás de uma aparente pureza  eles escondiam a dureza dos seus corações!
O texto nos leva a um questionamento a respeito da nossa fé e da nossa vivencia do dia a dia: Estamos  sendo coerentes entre o que falamos e o que vivemos?
É importante lembrarmos:  Deus não nos olha externamente, para Ele não importa a nossa cor, nossa posição social, a nossa cultura e nem mesmo  a nossa religião, para Deus, o que importa  é  o que cultivamos de bom no nosso interior, ou seja: a pureza do coração, pois é do coração puro, que brotam os mais belos   gestos de amor!
De nada adianta nossos atos externos se eles  não retratam o que somos interiormente! Aos olhos de Deus, a prática exterior, só tem sentido, se for uma expressão do que realmente cremos e vivemos, do contrário, são práticas vazias, que nada significam pois mostram  o que na verdade não somos.
O que verdadeiramente agrada a Deus é um coração puro,  livre das maldades, das ambições. 
O que nos distingue como seguidores de Jesus, não são as nossas palavras e sim, a nossa vivencia no amor!
Deixemo-nos inundar pelo o amor de Jesus,  um amor que liberta, que inclui, que nos  torna sinal da sua presença no mundo.

 FIQUE NA PAZ DE JESUS – Olívia Coutinho
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EPÍSTOLA (Tg. 1,17-18.21b,22-27)
Chamados como primícias da palavra, não devemos unicamente contentar-nos em ouvi-la. Ela deve ser a razão da nossa conduta, para não sermos mera especulação como homens que se olham no espelho, e imediatamente esquecem qual foi sua figura. Pois a religião verdadeira é aquela que cuida dos necessitados e se vê livre das atrações e tentações do mundo.

DEUS AUTOR DE TODO BEM. Toda dádiva boa e todo dom perfeito é do alto descendendo do Pai das luzes para o qual não há  mudança nem sombra de variação (17).
DÁDIVA como em Fp 4, 15: Nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente.
DOM: em ambos os casos o adjetivo indica bondade - agathë [boa] e teleion [perfeito]- que unicamente tem como causa eficiente o Pai. Por isso, fala de que a sua procedência é do alto, onde se entendia estava a divindade.
Do PAI DAS LUZES Deus é luz, pois esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas (1Jo 1,5). Deus é o autor das luzes, das corporais como o sol, a lua, as estrelas já que no Gênesis criou a luz (Gn. 1,3), mas também das constelações do dia e da noite  (idem 14) e das estrelas  (idem 16) de modo que a ausência divina são as trevas, não unicamente materiais, mas também do espírito; luz que os homens rejeitaram porque amaram mais as trevas (Jo 3,19). Sempre que aparece, é visto rodeado de luz como na nuvem do Tabor (Mt. 17,5), ou as vestes de seus anjos ou mensageiros (Lc. 24,4). Sendo plena luz, Tiago pode afirmar que nEle, Deus, não há variação ou sombra de intensidade. Os astros, o sol e especialmente a lua estavam sujeitos às variações de luz. Eram criaturas com os defeitos da imperfeição e caducidade que acompanham as mesmas.

CRIAÇÃO DO HOMEM. Voluntariamente nos criou com palavra de verdade para sermos princípio de qualquer das suas criaturas (18).
VOLUNTARIAMENTE: em Lc 22,42 encontramos o mesmo verbo com o significado de querer: ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. De modo que podemos traduzir: unicamente pelo seu bem querer nos criou, COM PALAVRA DE VERDADE: seguramente aqui Tiago recorda o Gênesis em que a criação toda começou a existir pela palavra: e disse Deus. Palavra que o apóstolo chama de Verdade porque corresponde à vontade de Deus que sempre tem como finalidade uma determinada ação e não um desejo inacabado.
PRINCÍPIO: o latim pode confundir, pois initium refere-se principalmente ao tempo e aqui está considerando a criação do primeiro homem e esse aparchë, cujo significado era o de ser os primeiros frutos a serem consagrados e oferecidos em ação de graças; mas também primeiro como principal. Assim,  Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem (1Cor. 15, 20). Unindo ambas interpretações, podemos pensar que o homem é dentre as criaturas a principal e que deve ser como essência e remate da criação consagrada ao seu Criador.

A NOVA PALAVRA: recebei a implantada palavra poderosa para salvar vossas vidas (21).
Na leitura epistolar são suprimidos dois versículos e meio, que vamos incluir aqui como parêntesis (sabeis estas coisas meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar [19]. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus [20]. Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade [21ª]). É uma explicação do versículo anterior em que a palavra ficava um tanto indecisa. Como palavra de Verdade não pode ser a palavra humana que geralmente é palavra de ira, mas palavra divina IMPLANTADA  que é um apax e que significa implantar, ou seja, como semeada divinamente por usar a passiva. Palavra que é PODEROSA para a salvação. Evidentemente essa palavra é a de Jesus, LOGOS [= palavra] do Pai, Filho Unigênito em cujo sacrifício estava a redenção e cuja carne e sangue eram a comida e bebida da vida. Nisso estava a salvação.

PRÁTICA DA PALAVRA. Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não só auditores que se iludem a si mesmos(22).
Mas parece que, aqui, é a palavra como saída da boca de Jesus, como anúncio do Reino a que interessa ao nosso autor.
PRATICANTES: poiëtës é aquele que atua, que opera ou faz. A frase relembra a paulina de Rm. 2,13: Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Quem foi primeiro, Paulo ou Tiago a usar a mesma frase? Autores modernos datam esta epístola como o primeiro escrito do Novo Testamento redatado cerca do ano 47, anterior ao Concílio de Jerusalém. Logo Paulo o conhecia e repetiu a frase em seu escrito aos romanos. Porém, ambos os escritos refletem a palavra de Jesus: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt. 7,21).

EXEMPLO. Porque se alguém é ouvidor da palavra e não a pratica  este se assemelha a um homem considerando o rosto de seu nascimento em (o) espelho (23). Porque contempla a si mesmo e se retirou e, de imediato, se esqueceu como era (24).
Com um exemplo Tiago ilustra a diferença entre o cumpridor da palavra e o simples ouvinte da mesma: este último é como um homem que se olha no espelho e que logo se esquece do rosto que nele se refletiu. Logicamente o espelho é a palavra que compara a vida e costumes do ouvinte com a Lei nova de Cristo. Se o ouvinte nada faz é como se esquecesse o que ouviu e nada tivesse acontecido.

O QUE REALIZA A PALAVRA.  Mas quem olha para a Lei perfeita da liberdade e permanece, esse não auditor esquecido se tornado, mas fazedor de obra, este bendito em sua obra será (25).
A imagem do espelho é substituída pela realidade da LEI PERFFEITA DA LIBERDADE: segundo Tiago, não devem os cristãos se queixar [no sentido de levar a juízo?] uns contra os outros, para não serem condenados, pois o juiz está perto (Tg. 5,9). Desta frase deduzimos que a carta foi escrita antes da destruição de Jerusalém, pois fala do ser julgado que em sentido bíblico indica condenar que o juiz [kritës] realizará como castigo. E em 2,12 o mesmo apóstolo fala como devendo ser julgados pela lei da liberdade. Segundo Paulo, os cristãos foram chamados à liberdade (Gl. 5,13 ) de modo que a consciência de cada um não deve ser julgada pela consciência do outro (1Cor. 10,29). Liberdade que, segundo Pedro, não deve ser usada como pretexto de malícia [para fazer o mal], mas vivendo como servos de Deus (1Pd. 2,16). Disso tudo deduzimos que as leis dos homens, de vossa tradição (M. 13,52) segundo Jesus, não devem ter valor e delas estamos livres pela nova Lei do NT que Tiago diz ser perfeita e que Jesus resume em amar a Deus com toda a alma e ao próximo como a si mesmo (Mt. 22,37), que em João terá como modelo o próprio amor de Cristo (13,34).
A LÍNGUA COMO PROVA. Se alguém pensa ser religioso, entre vós, não dominando sua língua, engana seu coração, sua religião é vã (26).
Neste ponto, Tiago volta a sua preferente moral que é o domínio da língua. Esta é a cara externa da personalidade de modo que reflete o interior do homem. Como dizia Jesus é do interior que o mal contamina (Mc. 7,20).
ENGANA particípio de presente do verbo apataö, enganar, iludir. Se, pois, alguém pensa ser religioso deve dominar sua língua; pois de outro modo esse tal está enganado. Tiago fala do CORAÇÃO que era em tempos de Jesus a origem dos pensamentos e desejos onde não cabiam os alimentos, que iam para o ventre  e, portanto, não podiam impurificá-lo (Mc. 7,19). O que, pois, não domina sua língua é um religioso de religião falsa. Por isso relata na continuação as características da verdadeira religião.

VERADADEIRA RELIGIÃO. Religião limpa e sem mácula para Deus e Pai é esta: visitar órfãos e viúvas na sua aflição, manter-se incólume do mundo (27).
Antes de mais nada, quem deve julgar sobre a verdade de uma religião é Deus, o Pai. E esta tem como distintivo a caridade: visitar órfãos e viúvas, como diz Isaías que parece serem os seres de cuidados especiais do Senhor, que em Dt. 27, 19 afirma: Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém. Mas além dessa positividade existe um negativo que não pode ser esquecido: manter-se incólume do mundo. A impureza dos alimentos que só podia atingir o ventre está no NT substituída pela abstenção dos pensamentos e prazeres do mundo. Sabemos que os fariseus tinham como preceitos principais o jejum e os dízimos (Lc. 18,12), e como prêmio de suas orações, a riqueza que certamente contraria  o espírito evangélico como orgulho farisaico que se tornava desprezo dos ham haaretz [povo humilde da terra].

EVANGELHO (Mc 7,1-8; 14-15; 21-23)
LAVAÇÃO COMO PURIFICAÇÃO. E reuniram-se junto a Ele [Jesus] os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém (1). E tendo visto alguns dos discípulos dEle com mãos comuns comendo pães comuns, isto é, sem lavar, censuraram (2). Porque os fariseus e todos os judeus se não lavam até o punho as mãos não comem, conservando a tradição dos anciãos (3).  E depois da praça, se não tomam banho, não comem e outras muitas são as que granjearam guardar: lavados de copos e jarros e chaleiras e leitos (4).
Os fariseus eram em número de 20 mil e estavam espalhados por toda a Palestina. Já os escribas ou doutores da lei, tinham sua morada principal em Jerusalém. A fama de Jesus e sua rebeldia contra certos preceitos da Lei como o sábado, o tornavam alvo de uma perseguição inquisitorial. Desta vez o objeto de suas intrigas foram os discípulos. COM MÃOS COMUNS. É uma maneira de dizer que não lavavam as mãos. Havia dois momentos em que todo judeu autêntico devia lavar o corpo ou parte do mesmo:
1) Antes de uma refeição, especialmente de pão;
2) Após voltar das ruas da cidade, em cujo caso era necessário tomar um banho. À parte existia o preceito de lavar todos os vasos e recipientes usados na comida e bebida. Eles eram submergidos em água, fria ou quente, dependendo do uso. Para isso existiam, nas casas, recipientes de água de aproximadamente 40 lt. de capacidade cada um, as talhas de pedra, como vemos em Jo 2,6. Segundo lemos em autores judeus da época, era necessário lavar as mãos até o cotovelo (batismo como diz Marcos), se a comida era de um sacrifício, ou se partilhava a refeição com um homem idoso; ou se se tratava de pão. E somente os dedos, se a comida era comum. Os escribas afirmavam que se as mãos eram impuras todo o corpo se tornava impuro. Aquele – dizia Rabi Eleazar- que despreza o lavado das mãos devia ser desenraizado da terra, porque na lavação está o segredo do decálogo. Quem deve ser considerado como um plebeu ou povo ruim? Aquele que não come com limpeza ou pureza legal. Por isso se distingue um judeu de um gentio, na lavagem das mãos. No caso particular de comer o pão (era o nosso pão sírio) sem lavar as mãos, era como se deitar com uma mulher da vida, afirmava Rabi Josef. Os discípulos de Jesus iniciaram sua refeição que era basicamente uma comida consistente em pão de cevada, em forma de um disco de 12 cm. de diâmetro e de uma espessura como de um dedo, sem lavar as mãos e talvez sem a bênção de ação de graças. Temos visto o que se pensava em círculos cultos e tradicionais sobre o assunto. A tradição dos antigos, especialmente dos dois chefes das escolas mais famosas da época, Hillel e Shammai, era muita estrita. Rabi Ishmael declarava: “As palavras da lei são palavras que contém tanto proibições como permissões, algumas delas leves, outras graves. Mas as palavras dos escribas todas são graves. As palavras dos escribas são mais pesadas que as dos profetas”. Por isso existia o seguinte conselho: “Aquele que transgride as palavras dos escribas é réu de morte”. Especialmente para comer o pão era necessário lavar as mãos porque o pão era considerado coisa sagrada, já que o pão representava toda comida. Por exemplo, para comer frutas não era necessário o lavado das mãos. Hillel e Shammai foram os que restabeleceram a tradição. Por isso clamavam: “Aquele que abençoa o pão com mãos impuras é réu de morte”. E para ameaçar os espíritos pusilânimes falavam de Shibta, uma sorte de mau espírito, que se assentava nas mãos e na cabeça do transgressor. Rabi Aquiba estava na prisão e preferiu antes morrer que comer sem lavar as mãos e por isso usou o pouco de água que ele tinha para lavar suas mãos antes de beber da mesma. Com estas citações vemos como era importante a matéria que Marcos descreve e que Jesus de modo tão eficiente soluciona.
O BATISMO. No versículo 4 fala Marcos de batismo do corpo e dos diversos recipientes. Parece uma exageração, mas na realidade o evangelista só expressa o que era de uso na época. Temos falado do banho corporal após vir das ruas. Mas os diversos recipientes também eram submergidos na água para se purificar. Marcos fala de diversos vasilhames como copos, sextários (= recipientes de 5 litros para vinho e água), vasilhas de bronze, e leitos. Os recipientes de cobre são especialmente nomeados porque se fossem de argila, eram destruídos uma vez tornados impuros. Um exemplo: pratos eram lavados antes do café da manhã, logo antes da refeição do meio-dia e logo antes da ceia noturna. O lavado era uma imersão (batismo) em água. Parece uma exageração o lavado dos reclinatórios nos quais os judeus se recostavam para os banquetes. Mas é uma realidade histórica. Em primeiro lugar todo recipiente comprado de um gentil devia ser submergido para tirar dele a contaminação. As mesas e as camas de madeira também eram incluídas nessa purificação. Especialmente as camas se o dormente morria nela, ou uma mulher menstruada ou um homem com blenorragia deitava nela, ou ainda se tivesse sido a cama de uma parturiente. O sangue derramado tornava impuro o leito. Até os travesseiros, se tinham capa de couro, comum na época, deviam ser purificados submergindo-os em água. A descrição do evangelista é, pois, exata mais do que correta.
A PERGUNTA. Então o interrogam os fariseus e os escribas: por que os teus discípulos não andam segundo a tradição dos anciãos, mas com mãos sem lavar comem o pão? (5)
Visto o que temos relatado, o escândalo farisaico era monumental. Como não perguntar ao Mestre, responsável pela educação e moral dos discípulos?

A RESPOSTA DE JESUS. Ele, pois, tendo respondido lhes disse: que bem profetizou Isaías sobre vós, os hipócritas, como está escrito: Este povo com os lábios me honra, mas o seu coração longe está de mim (6). Em vão, pois, me adoram ensinando ensinamentos prescrevidos pelos homens (7). Porque negligenciando o mandato do Deus, guardais a tradição dos homens: as lavagens de cântaros, e copos e outras muitas similares [vasilhas] fazeis (8).
Jesus distingue perfeitamente entre mandatos de Deus e preceitos dos homens. Por isso Jesus se queixa como se queixa de seu tempo Isaías, de que os seus conterrâneos honram a  Deus com os lábios, mas seus corações estão longe dEle. E como argumento principal cita o que está escrito em Isaías 29,13: “O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim e com sua boca e com seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu…”. A citação servia como anel no dedo, nas circunstâncias.
ADVERTÊNCIA AO POVO: E chamando todo o povo lhes dizia: Escutai-me todos e entendei (14). Nada há fora do homem que entrando dentro dele pode contaminá-lo; mas as procedentes dele, essas  [coisas] são as que contaminam o homem (15). Et advocans iterum turbam dicebat illis audite me omnes et intellegite. Nihil est extra hominem introiens in eum quod possit eum coinquinare sed quae de homine procedunt illa sunt quae communicant hominem.

O INTERIOR DO HOMEM. Porque de dentro do coração dos homens os pensamentos, os malignos, surgem: adultérios, fornicações, homicídios (21). Furtos, avarezas, maldades, engano, licenciosidade, olho maldoso, blasfêmia, soberba, insensatez (22).
Na leitura da epístola faltam os versículos 16-20. Neles Jesus explica aos discípulos por que o que entra do exterior não pode contaminar o homem: porque entra via digestiva e passa pelo ventre sem que tenha contato algum com o coração, órgão do sentimento e da inteligência. É dentro desse coração que as coisas se contaminam, pois é onde surgem os PENSAMENTOS os que são MALIGNOS [kakoi<2556>=malae] e além disso, Jesus cita outras maldades frequentes entre os homens: ADULTÉRIOS, FORNICAÇÕES, HOMICÍDIOS, FURTOS, AVAREZAS, ENGANO, LICENCIOSIDADE ou lascívia, OLHO MAU que traduzem por inveja, BLASFÊMIA, SOBERBA, INSENSATEZ. A enumeração dos vícios e maldades é quase exaustiva.

OS CONTAMINANTES VERDADEIROS. Todas estas coisas más de dentro surgem e contaminam o homem (23).
Esta é a conclusão verdadeira que remata o razoamento de  Jesus: o que provém de fora não contamina o homem; mas é de dentro que aceitando e animando sentimentos malignos o homem se torna efeito e causa do mal. Se a repreensão anterior era dirigida aos fariseus, agora Jesus se dirige ao povo: Escutai todos e entendei. Era uma lição magistral que Jesus exige ser bem assimilada. Nada de fora pode contaminar, ou tornar impuro um homem, entrando nele. Mas o que sai de dentro do mesmo, é o que o suja e envilece. Com isto Jesus declara nulas todas as leis de impureza ao mesmo tempo em que afirma que a impureza nada tem a ver com o pecado. A impureza  não afasta o homem de Deus como o pecado, pois este consiste em não cumprir as leis divinas. E Jesus enumera uma série de instintos internos, fontes de pecado que dão origem aos mesmos e que se realizados tornam o homem profano e vil perante Deus. Temos traduzido da melhor maneira possível, tendo em conta diversos textos, cuja origem é o grego e do qual pretendem ser traduzidas. São, pois, estas tendências más as seguintes: fornicações, roubos, homicídios, adultérios, cobiça (avareza), degradação (maldade, perversidade), fraude (engano), lascívia (desenfreamento), inveja (olho mau), blasfêmia, orgulho (arrogância), insensatez (estupidez). Tudo isso é que torna um homem contaminado, profano com respeito a Deus, que é sagrado por excelência.
padre Ignácio




Valorizando o interior do homem
“É do interior dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez” (Mc. 7,21-22). Como é importante, portanto, purificar o coração. Caso não cuidemos o nosso coração, ele poderia endurecer e Jesus nos diria, com razão, que nós pensamos diferente dele “devido à dureza do vosso coração” (Mc 10,5). A tradição cristã sempre gostou de resumir a atitude que devemos ter para com o Espírito Santo numa só palavra: docilidade! Um coração dócil sempre recebe com alegria a mensagem de Jesus e de sua Igreja, produzindo frutos abundantes.
Já no Antigo Testamento, o Espírito Santo havia dito por boca do salmista: “Não endureçais o vosso coração” (Sl. 94,8). Poderia acontecer também que tivéssemos – em lugar de um coração endurecido – um coração mole. Quanto se diz que uma pessoa é toda coração ou que ela é “boazinha” demais, no fundo o que se quer dizer é que essa pessoa tem um caráter débil ou, com outras palavras, é uma pessoa sem caráter. O cristão foge destes dois extremos: coração endurecido, coração molenga.
Há pessoas que se dizem a favor do divórcio porque “já é normal, ninguém liga mais para isso”, outras dizem que são a favor das relações pré-matrimoniais porque “já é normal, todo mundo faz”; outras ainda são a favor do aborto porque “já é normal, estamos num mundo moderno”, outras se dizem a favor da legalização dos “casamentos” de pessoas do mesmo sexo porque “já é normal, os países modernos já não põem barreiras” etc. Estes são alguns exemplos ou da falta de conhecimento ou do endurecimento do coração.
Jesus continua a recordar-nos que “no começo não foi assim” (Mt. 19,8), isto é, no plano originário de Deus não foi assim, não é assim e não pode ser assim!
Frequentemente, antes desse estado de endurecimento do coração encontra-se uma disposição que provém da falta de ideias claras e de critérios retos. Daí a importância da formação do coração. A Igreja Católica quer formar; ela não quer impor nada a ninguém, o que ela faz é propor a verdade… Aceita quem quer! Contudo, está em jogo a própria felicidade terrena e eterna. Você decide!
O coração humano tem que formar-se no Coração de Cristo. Nós, cristãos, precisamos mostrar aos nossos contemporâneos o Homem perfeito e Deus perfeito, Jesus Cristo. Não mostraremos uma caricatura de “deus”: o cristianismo sempre apresentou o “Cristo crucificado (…), força de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor. 1,23-24).
Um coração dócil – sinônimo de pessoa dócil – é aquele que se encontra aberto à verdade, ao bem, à beleza. Encontra-se aberto, portanto, a Deus: verdade, bondade e beleza eterna. Essa abertura verdadeira a Deus nos pedirá uma mudança, uma conversão constante. No caso do cristão, é necessário que o seu coração esteja crucificado com Cristo para com ele ressuscitar. Para viver na verdade de Deus é importante que adaptemos nossa vida à sua verdade, posto que o contrário não acontece: Deus não pode mudar a sua verdade, que é ele mesmo, por causa da nossa mentira. Deus não se engana nem nos engana!
Peçamos a Nossa Senhora, Virgem fiel, que nos faça sinceros, dóceis, alegres e cheios de paz. Desta maneira passaremos por esse mundo mostrando as rosas maravilhosas que tem o cristianismo, ainda que sintamos os espinhos das mesmas penetrando a nossa carne. Cristianismo sem cruz é ilusão, não existe!
Vinde Espírito Santo e fazei que apreciemos retamente todas as coisas!
O Evangelho: nem moderno demais, nem velho demais; simplesmente perene!
padre Françoá Costa




O que mancha o homem
O Evangelho mostra quando os fariseus e alguns mestres da Lei se reuniram em torno de Jesus e lhe perguntaram por que os discípulos não seguiam a tradição dos antigos, mas comiam o pão sem lavar as mãos. Jesus, citando Isaías, lhes respondeu que eles eram um povo que O honrava com os lábios, mas seu coração estava longe dele. De nada adianta o culto que prestavam, pois as doutrinas que ensinavam eram preceitos humanos. E concluiu, dizendo que eles tinham abandonado o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens.
E, disse Jesus, que o que torna impuro o homem não é o que entra nele, vindo de fora, mas o que sai de seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, etc.
Deus olha o interior das pessoas e não as práticas exteriores e formais.
É hipocrisia lavar escrupulosamente as mãos ou dar importância a qualquer outra exterioridade, se o coração estiver cheio de vícios.
As ações do homem procedem do coração. E se este está manchado, o homem inteiro fica manchado.
Jesus rejeita a mentalidade que se ocultava por trás daquelas prescrições desprovidas de conteúdo interior, e ensina-nos a amar a pureza de coração, que nos permitirá ver a Deus no meio das nossas tarefas.
“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8).
A pureza de alma – castidade e retidão interior nos afetos e sentimentos- tem que ser plenamente amada e procurada com alegria e com empenho, apoiando-nos sempre na graça de Deus. Só pode ser alcançada mediante uma luta positiva e constante, prolongada ao longo de uma vida que se mantém vigilante pelo exame de consciência diário; também fruto de um grande amor à Confissão frequente bem feita, mediante a qual o Senhor nos purifica e nos “lava” o coração, cumulando-nos da sua graça.
Com a ajuda da graça, é tarefa de todos os cristãos mostrar, com uma vida limpa e com a palavra, que a castidade é uma virtude essencial a todos – homens e mulheres, jovens e adultos-, e que cada um deve vivê-la de acordo com as exigências do estado a que o Senhor o chamou; “é exigência de amor. É a dimensão da sua verdade interior no coração do homem, e sem ela não seria possível amar nem a Deus nem aos outros” (beato João Paulo II).
Essa pureza cristã, a castidade, sempre constituiu uma das glórias da Igreja e uma das manifestações mais claras da sua santidade. Hoje, como nos tempos dos primeiros cristãos, muitos homens e mulheres procuram viver a virgindade e o celibato no meio do mundo – sem serem mundanos -, por amor do Reino dos Céus (Mt. 19,12). E uma grande multidão de esposos cristãos vivem santamente a castidade segundo o seu estado matrimonial. Como ensina a Igreja: “tanto o matrimônio como a virgindade e o celibato são dois modos de expressar e de viver o único mistério da Aliança de Deus com o seu povo” (Familiaris Consortio, 16).
Façamos como oração, como jaculatória, a prece que a liturgia dirige ao Espírito Santo, na festa de Pentecostes: “Limpa na minha alma o que está sujo, rega o que se tornou árido, sem fruto, cura o que está doente,dobra o que é rígido, aquece o que está frio, dirige o que se extraviou.”
Sozinhos nós não somos capazes de purificar nosso coração das intenções más e de nos abrirmos de modo justo à novidade do Espírito: devemos confiar-nos, para tanto, à força redentora de Cristo que se torna operante em nós, na Eucaristia… Graças à eucaristia, podemos dizer com ainda maior razão aquilo que dizia Moisés: “Qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos, como o Senhor nosso Deus?” (Dt. 4,7).
No mês da Bíblia, intensifiquemos a leitura, a meditação, da Palavra de Deus! Possamos acolhê-La e colocá-La em prática! Ensina São Tiago: “Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg. 1,22).
Como ensinava S. Francisco de Assis: “O homem vale o que é diante de Deus e nada mais.” Jesus desloca todo o sentido da  lei do exterior para o interior, da boca para o coração, de “fora” do homem para “dentro” do homem, como diz retomando uma expressão de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim…” (Mc. 7,6).
A quem dirige Jesus todas essas observações? Somente aos fariseus de seu tempo? Não! Diz-nos Jesus: “Escutai, TODOS, e compreendei…” (Mc. 7,14).
mons. José Maria Pereira



É bom celebrar o encontro com o Deus da vida, do amor e da sabedoria. Ele está atento a todos os homens e mulheres que sofrem no seu corpo ou no seu espírito. Ele é o Deus do amor, da beleza e da dignidade.
A palavra de Deus convida-nos a saber escutar, a observar, a pôr em prática.
Cristo convida-nos à beleza interior, ao acolhimento sincero e coerente da novidade do seu projeto.
Ao termos consciência deste encontro de amor, santidade e vida, que o Espírito Santo, penetre o coração e a inteligência, libertando de toda a hipocrisia, vaidade e soberba. E nos conceda: olhar como Deus olha, ouvir como Deus ouve, falar como Deus fala e amar como Deus ama.
Primeira leitura: Deuteronômio 4,1-2.6-8
A leitura é tirada da parte final do 1º discurso de Moisés; tem o aspecto duma espécie de introdução ao corpo legislativo central do Deuteronômio, num vivo apelo à observância da Lei.
7-8 «Qual é a grande nação…?» A superioridade de Israel sobre as grandes nações não reside no poderio militar, no valor e cultura do seu povo. Ele é incomparavelmente superior a todos os povos pelas relações tão estreitas com a divindade, pela elevadíssima noção que tem dum Deus único e transcendente, misericordioso e providente e, por outro lado, pela elevação da sua moral, das suas «leis e preceitos» (v. 1). Mas tudo isto – um poderoso motivo de credibilidade da sobrenaturalidade da sua religião – de nada aproveita se o povo não cumprir (v. 6) aqueles mesmos mandamentos que o tornam grande no meio dos outros povos.
Segunda leitura: Tiago 1,17-18.21b-22.27
Começamos hoje, durante 5 domingos, a fazer uma leitura respigada da Epístola de são Tiago. Como escrito tipicamente moral e didático que é, não obedece a um plano doutrinal previamente elaborado, sucedendo-se os temas ao correr da pena, sempre com a preocupação dominante de fazer um forte apelo a que os fiéis vivam o espírito cristão em todas as circunstâncias, de um modo coerente com a fé, em perfeita unidade de vida: o comportamento dos cristãos tem de ser um reflexo da sua fé.
17. «Pai das luzes» pode querer dizer, Pai dos astros (luminares: cf. Sl. 136,7-9); estes mudam de posição e de luminosidade, em contraste com o seu Criador, «no qual não há variação nem sombra de mudança».
18. «Nos gerou (cf. Jo 1,12-13; 3,3; 1Pe. 1,23; Tt. 3,5; 1Jo 3,9; 4,7; 5,1.4.18) pela palavra da verdade», isto é, pelo anúncio do Evangelho (cf. Ef. 1,13; 2Cor. 6,7; 2Tm. 2,15); para sermos primícias das suas criaturas: assim como os primeiros frutos da terra pertenciam a Deus (cf.Ex. 22,28-29; Lv. 23,10-14; Nm. 15,20-21; Dt. 18,4), assim também os cristãos, como início da humanidade renovada (cf. Ap. 14,4; 21,1; Rm. 8,19-23).
19-27 Nestes versículos, de que a leitura litúrgica extrai apenas uma pequena amostra, enumeram-se exigências para que a Palavra produza todo o seu fruto, com uma provável alusão à parábola do semeador (v. 21b: «a palavra em vós plantada» – cf. Mt. 13,4-30 par). Trata-se de viver numa absoluta coerência com a nova condição de filhos de Deus (v. 18) e com o Evangelho, o ponto fulcral da exortação que constitui este escrito: «sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes» (v. 22).
27 «A religião pura…» As obras de misericórdia fazem parte da essência da vida cristã (cf. Mt. 25,31-46; 1Tm. 5,3-8).
Evangelho: Marcos 7,1-8a.14-15.21-23
O texto evangélico não visa simplesmente dar a notícia de uma controvérsia, descrevendo o modo como Jesus se desenvencilhou da situação, ou relatar a oposição e conflito que começava a esboçar-se com as autoridades judaicas; aqueles «fariseus e alguns escribas, que tinham vindo de Jerusalém», viriam mandatados pelo Sinédrio. A intenção que preside ao relato é pôr em evidência o ensino de Jesus acerca da verdadeira pureza, do valor relativo das leis e tradições humanas e de como o elemento mais decisivo para a configuração moral do agir humano é a interioridade da pessoa, dando assim um golpe mortal no mero formalismo exterior.
1-13 Estes vv. referem a controvérsia a propósito de os discípulos de Jesus comerem sem lavar as mãos: é que estava a ser posta em causa a tradição dos antigos. São Marcos explica brevemente os preceitos judaicos relativos a purificações (vv. 3-4), pois escreve para cristãos que na maioria não são de origem judaica. Note-se que estes preceitos não constam de parte nenhuma do A. T.; a «tradição dos antigos» (v. 5), à letra, «dos mais velhos» (um título honorífico para célebres doutores da lei), pertencia à chamada «Lei oral», que os escribas, para imporem novas prescrições, faziam crer que fora revelada por Deus a Moisés, tão obrigatórias como a Lei escrita do A. T. e que só vieram a ser compiladas por escrito na Mixná (repetição), por fins do séc. II p. C. A 6ª ordem desta obra, dividida em 12 tratados, era toda ela dedicada às purificações. A generalidade do povo não fazia caso da purificação das mãos antes de comer, pois considerava que esta só obrigava os sacerdotes no exercício do culto (cf. Ex. 30,17-21). Jesus, com a citação de Is 29, 13, não só denuncia um culto sem alma, feito de exterioridades ocas e vazias, mas também censura abandono da lei de Deus em troca do zelo por preceitos humanos (v. 8; a leitura suprimiu as especificações dos vv. 9-13).
14-15 Nesta secção, só indiretamente ligada à anterior, Jesus dirige-se agora à «multidão» num ensino através de uma parábola, ou melhor de um enigma, que obriga a refletir em que consiste a autêntica pureza; já não se trata apenas de superar tradições e convencionalismos humanos, mas de abandonar uma mentalidade que não faz a destrinça entre o bem e o mal; só o pecado é que torna o homem impuro, e não pode haver pecado sem um querer deliberado, mau e desordenado. E não é apenas a tradição dos escribas e fariseus que é ultrapassada, mas a lei ritual do A. T., que declarava as pessoas impuras por grande quantidade de coisas de que se não tinha qualquer espécie de culpa. Estamos aqui na novidade da Lei de Cristo e perante uma moral de amor e responsabilidade.
21-23 Estes vv. pertencem à explicação particular e bem realista dada aos discípulos (vv. 17-23; os vv. 16-20 são omitidos na leitura). A moral cristã está no pólo oposto de todo o formalismo. É só «do coração», isto é, da vontade livre, que provém o que contamina o homem moralmente. Sem conhecimento e deliberação não pode haver propriamente pecado.
Note-se que Marcos apresenta imediatamente a seguir Jesus em terras gentias, na região de Tiro e Sídon, e a entrar numa casa pagã, sem fazer caso da impureza legal em que incorria (v. 24).
Sugestões para a homilia
Os mandamentos, exigência de amor.
A Palavra de Deus como proposta para este Domingo leva-nos a saborearmos o convite a uma vida de autenticidade, verdade e coerência. E tudo como consequência de uma relação de amor com o Deus vivo que penetra a verdade de cada pessoa e de cada acontecimento.
No relativismo moral, na indiferença para com Deus, na justificação para o injustificável, na vivência da duplicidade e hipocrisia, quão importante são os Mandamentos de Deus! São expressão de vida, de sabedoria e santidade.
Na tentação de sobrepor os nossos «códigos», a ignorância que dispensa a Graça de Deus, as nossas perspectivas – muitas vezes até humanamente pobre – é necessário anunciar os Mandamentos e vivê-los.
Os Mandamentos são pedagogia divina a levar a Palavra à vida, aí onde as opções e as atitudes devem encontrar o seu caráter de profundidade do mistério da pessoa, da vida e da atuação de Deus em nós, e do seu projeto de amor.
Só a Palavra de Deus, referência de vida, pode descer ao mais profundo da verdade do ser humano e permitir a sua transformação, conversão e uma vida de transparência.
Só a novidade que é Cristo permite ser livre. Permite uma humanidade cheia de dignidade. Permite uma nova e bela relação com Deus. Cristo liberta e leva as pessoas a viver com intensidade o amor de Deus e dos irmãos. Só Ele liberta de todas as barreiras, muros e preconceitos.
A proposta da coerência e verdade.
Deus não teme a pessoa autêntica, humilde, sincera, mesmo que revele a sua fragilidade.
Deus não «suporta» o soberbo, o hipócrita, os que exteriormente se esforçam por dar nas vistas, mas numa ausência de total desejo de conversão. Dos que impedem a novidade do Espírito que tem poder de fazer de um pecador um santo, do Espírito que cria e recria!
A tentação da «carreira» tem gerado vida hipócrita e autênticos campos de destruição da beleza da vida dos outros, da sua simples e esforçada doação. Tem gerado clamorosas injustiças. Tem impedido a novidade do Espírito.
Mas também, às vezes, há o gosto de apostar no exterior, no «curriculum» pesado e alargado, como as «filactérias», mas que depois se revela ausência de amor, de compreensão e de misericórdia. É quase como uma tentação de apostar no ser humano apetrechado em tudo, como se dispensássemos a graça de Deus e o mistério do Sua presença encantadora e da surpresa e novidade do Espírito.
Na proposta de coerência, verdade e autenticidade é bem essencial amar e viver os Mandamentos como consequência da relação pessoal com Jesus Cristo.
Em e com Jesus aprendemos a ser livres, a amar verdadeiramente, a ver como Deus vê, a fazer da vida doação aos mais pequeninos e fracos, a dar as mãos aos que erraram e fracassaram na vida, a propor uma religião verdadeira e autêntica.
Os desafios de hoje.
Se nós cristãos vivêssemos com autenticidade e coerência o nosso cristianismo encheríamos os nossos espaços e tempos com a encantadora e bela presença de Jesus Cristo. Como Ele aparece tantas vezes desfigurado, não tendo no Seu rosto beleza que atraia o ser humano!
É preciso observar e pôr em prática os Mandamentos, revelação da beleza de uma vida comprometida com o projeto de Deus.
Por isso, em Ano Sacerdotal, tendo como referência o santo Cura d’Ars, significa construir atitudes de santidade e confiança e correspondência ao «bem que Deus em nós começou».
Significa orar verdadeiramente a vida para aí estabelecer coerência, edificar na verdade, robustecer-se na graça de Deus, comprometer-se com a vida, com Deus e com os irmãos.
Há sinais que são tradutores da coerência, de vidas sem hipocrisia: a celebração pessoal e sincera do sacramento da confissão. A clareza do projeto de Jesus Cristo, sem fugas, subterfúgios, nas exigências da Verdade. Olhar a Igreja como Mistério de Comunhão e não olhá-la com os esquemas de «empresa», de visões verdadeiramente humanas. E nesta linha desmascarar todas as tentativas de desfiguração que corrompe a justiça, a verdade, a dignidade. A urgência de se falar da Graça de Deus e da sua necessidade. Isto não é só «obra» nossa, mas graça que deve ser acolhida, agradecida e comprometida.
A Igreja apostou em santo Agostinho, convertido. Fez dele um Bispo Santo! Será que estaremos presos a tantos preconceitos que nos impedem de ver a beleza que Deus opera, as transformações maravilhosas que realiza na vida de tantas pessoas? O cura d’Ars foi novidade do Espírito. Nos preconceitos de muitos nunca este Sacerdote seria significativo na Igreja! E somos capazes de acolher e apostar? Damos hipóteses aos irmãos. Pesam mais em nós os defeitos ou a riqueza de coração e a beleza da vida?
Muitas vezes gastamos energias em futilidades. Gastamos meios econômicos em vaidades de promoção. Criamos Espírito de competição para «arrumar» quem nos faz frente ou para «encher» o que só o espírito de oração e penitência podem encher! Criamos máquinas pesadas incapazes de descobrir a beleza da simplicidade de Cristo e do seu projeto.
Maria, Rainha de todos os cristãos ensina-nos a amar e a servir a Deus e aos irmãos com a verdade, com coerência e com a partilha da nossa vida. Ensina-nos a pôr em primeiro lugar o Amor a Deus e aos irmãos.
Armando Rodrigues Dias - Geraldo Morujão



A liturgia do XXII domingo do tempo comum propõe-nos uma reflexão sobre a “Lei”. Deus quer a realização e a vida plena para o homem e, nesse sentido, propõe-lhe a sua “Lei”. A “Lei” de Deus indica ao homem o caminho a seguir. Contudo, esse caminho não se esgota num mero cumprimento de ritos ou de práticas vazias de significado, mas num processo de conversão que leve o homem a comprometer-se cada vez mais com o amor a Deus e aos irmãos.
A primeira leitura garante-nos que as “leis” e preceitos de Deus são um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude. Por isso, o autor dessa catequese recomenda insistentemente ao seu Povo que acolha a Palavra de Deus e se deixe guiar por ela.
No Evangelho, Jesus denuncia a atitude daqueles que fizeram do cumprimento externo e superficial da “lei” um valor absoluto, esquecendo que a “lei” é apenas um caminho para chegar a um compromisso efetivo com o projeto de Deus. Na perspectiva de Jesus, a verdadeira religião não se centra no cumprimento formal das “leis”, mas num processo de conversão que leve o homem à comunhão com Deus e a viver numa real partilha de amor com os irmãos.
A segunda leitura convida os crentes a escutarem e acolherem a Palavra de Deus; mas avisa que essa Palavra escutada e acolhida no coração tem de tornar-se um compromisso de amor, de partilha, de solidariedade com o mundo e com os homens.
O que mancha e o que limpa
Existe um forte contraste entre, por um lado, o mandato de Moisés de não acrescentar nem tirar nada da lei e, pelo outro, a censura dos fariseus aos discípulos de Jesus em nome não da lei mosaica, senão precisamente de um complemento espúrio à mesma, “a tradição dos maiores”. No entanto, quando se lê a lei de Moisés nos livros do Pentateuco se entendem os acréscimos que a história foi fazendo: as normas mosaicas, tanto as referidas à pureza ritual como a muitas outras questões, não são tão detalhadas para dar resposta a todas as situações que a vida nos propõe na prática. Nesta, como em qualquer lei é inevitável que se produzam situações duvidosas, que a lei não regulamenta com clareza e que requerem interpretações, correções ou complementos. É assim, provavelmente, como se geram as “tradições dos maiores”. O problema é que isto pode levar, e leva com frequência, a um cumprimento mecânico de normas puramente externas que acabam apartando do espírito original com o que nasceu a lei. A lei de Moisés, que trata de institucionalizar o acontecimento salvífico da libertação do Egito e expressa a aliança de Deus com seu povo, para que aquela salvação se prolongue na história, acabou se convertendo em um complexo e asfixiante conjunto de normas, impossível de cumprir para a gente singela e iletrada, e que servia mais para condenar que para salvar.
Como entender então a exigência de Moisés de não acrescentar nem tirar nada, se resulta que isto é um impossível? Provavelmente há que a entender de maneira mais qualitativa que quantitativa, como a fidelidade a uma lei que não se reduz a uma regulamentação externa, senão que é expressão de uma Palavra criadora e salvadora. Cumprir não é executar externamente, mecanicamente, senão “cumprir”, encher, dar plenitude. E isto, como sabemos, se realiza em Jesus Cristo, que não veio para abolir a lei, senão à levar a perfeição (cf. Mt 5, 17). A lei de Moisés é realmente incompreensível e na prática converte-se em opressiva sem este relacionamento com a Palavra viva de Deus. Os profetas tiveram que o recordar continuamente. E essa mesma Palavra encarnou-se em Jesus e aperfeiçoou-se na lei do amor. É possível cumprir e aperfeiçoar a lei escutando, acolhendo e pondo em prática esta Palavra próxima, dialogante, compreensível.
É o que nos recorda de maneira viva Tiago na segunda leitura. A palavra que salva dá vida, nos engendra. E o faz desde dentro, pois, como semente, foi plantada em nós. Por isso, não devemos só a escutar como se fosse uma voz externa e estranha, senão que devemos lhe dar morada em nós, deixar que nos apure por dentro e permitir que, desde dentro, guie nossas ações e nossa vida. Isso significa a pôr em prática. E ao coloca-la em prática traduz-se necessariamente em obras de amor e misericórdia com os necessitados em suas tribulações.
Por conseguinte, embora resulte inevitável que “os maiores”, isto é, a experiência histórica e os novos problemas que vão surgindo nela, façam seus complementos e formem suas tradições, sua validade dependerá se servem à Palavra, à vida que essa Palavra engendra, a um melhor cumprimento e posta em prática da mesma; ou se, pelo contrário, convertem-se em esquemas rígidos de comportamento que limitam a liberdade e a abertura criativa à novidade da história, e servem, sobretudo para condenar aos que não se atem a elas. Em uma palavra, o critério de discernimento das diferentes tradições é a misericórdia.
As críticas dos fariseus aos discípulos de Jesus centram-se nesta ocasião na questão da pureza ritual, que se tinha convertido para eles em algo obsessivo, mas entendido em seu sentido mais externo e superficial. Pouco que ver com o nos recorda Tiago em relacionamento com o acolhimento e o cumprimento da Palavra: aqui “não se manchar as mãos com este mundo” não significa transgredir elementares medidas de higiene, senão evitar que os critérios deste mundo impeçam os frutos de misericórdia da semente da Palavra plantada em nosso interior. Jesus aproveita a ocasião para recordar a origem e a fonte da impureza religiosa: não as coisas deste mundo, criadas por Deus e sim as boas, não o pó da terra nem determinados alimentos, senão as intenções ruins do coração humano. A origem do mau e a impureza há que o buscar na própria vontade, nas motivações egoístas e desordenadas. E Jesus veio para nos curar por dentro, de maneira que possamos atuar para fora de um modo conforme a vontade de Deus, que é uma vontade de vida, de amor, de perdão e misericórdia.
Nos, os cristãos temos consciência de que nossa fé implica certas obrigações e de que “temos que cumprir com elas”. Às vezes, alguns veem nisto uma atitude farisaica que fica no mero cumprimento externo, e reagem dizendo, por exemplo, que “o importante não é ir à missa senão ser boa pessoa e ajudar aos demais”. Embora possamos entender estas reações, temos que ter cuidado com sua unilateralidade. Em primeiro lugar, porque ir a missa e atuar com bondade não são coisas incompatíveis: não só porque, coisa óbvia, se pode “ir a missa e ser boa pessoa”, senão porque participamos da Eucaristia precisamente para, em união com Cristo, fazer-nos melhores pessoas. E, em segundo local, porque nesta crítica cai-se no fundo no mesmo que se critica: reduz-se o “ir a missa” (ou outras práticas cristãs) a uma mera formalidade externa, descurando seu verdadeiro sentido. Para atuar de acordo o espírito cristão devemos estar em comunhão com Cristo; e essa comunhão realiza-se de maneira privilegiada no memorial de sua Paixão que ele mesmo nos mandou realizar; é possível viver como Cristo viveu se escutamos sua Palavra e comemos o pão e o vinho que são seu corpo e seu sangue. Se “ir à missa” reduz-se a uma formalidade que ”cumprimos”, sem deixar que seu significado penetre em nós, que nos faça sentir justificados e que, ademais, nos leva a julgar e condenar aos demais, aos que não cumprem, então sim, então estaremos reduzindo o grande dom da Eucaristia a uma “tradição de nossos maiores”. Mas se, pelo contrário, apesar da chateação ou da preguiça que às vezes nos embarga, tratamos de fazer da Eucaristia um encontro vivo com a Palavra e a pessoa de Cristo, então estaremos purificando nosso interior das maldades que fazem impuro ao homem, e abrindo nosso coração às boas obras do amor em que consiste a religião pura e imaculada.
José María Vegas, cmf



É do interior do coração dos homens»:
o coração de cada homem é fonte de paz ou de guerra?
É, portanto, claro, que nos devemos esforçar por todos os meios por preparar os tempos em que, por comum acordo das nações, se possa interditar absolutamente qualquer espécie de guerra. [...] E dirijam-se a Deus instantes preces, para que lhes dê [aos responsáveis políticos] a força necessária para empreender com perseverança e levar a cabo com fortaleza esta obra de imenso amor aos homens, que é construir virilmente a paz. Hoje em dia, isto exige certamente deles que alarguem o espírito para além das fronteiras da própria nação, deponham o egoísmo nacional e a ambição de dominar os outros países, fomentem um grande respeito por toda a humanidade que já avança tão laboriosamente para uma maior unidade. No entanto, evitem os homens entregar-se apenas aos esforços de alguns, sem se preocuparem com a própria mentalidade. Pois os governantes, responsáveis pelo bem comum da própria nação e, ao mesmo tempo, promotores do bem de todo o mundo, dependem muito das opiniões e sentimentos das populações.
De nada lhes aproveitará dedicarem-se à edificação da paz enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os homens e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. Aqueles que se consagram à obra de educação, sobretudo da juventude, ou que formam a opinião pública, considerem como gravíssimo dever o procurar formar as mentalidades de todos para novos sentimentos pacíficos. Todos nós temos, com efeito, de reformar o nosso coração, com os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade.
Concílio Vaticano II Constituição dogmática sobre a Igreja no mundo de hoje «Gaudium et spes» § 82



terça-feira, 18 de agosto de 2015

21º DOMINGO TEMPO COMUM

21º DOMINGO TEMPO COMUM

Evangelho - Jo 6,60-69


ESTA PALAVRA É DURA

-A QUEM IREMOS?-José Salviano


23 de Agosto de 2015
Ano   B


       A liturgia deste domingo nos coloca diante de duas opções de escolha: Deus ou outra saída, outro caminho. Deus ou os ídolos. Deus ou uma vida desregrada, sem freios, sem limites, sem graça, sem vida, sem esperança de uma vida eterna. Leia mais
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"NINGUÉM PODE VIR A MIM A NÃO QUE LHE SEJA CONCEDIDO PELO PAI”. - Olívia Coutinho

 

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM.


Dia 23 de Agosto de 2015

Evangelho de Jo 6,60-69

Hoje, se percebe uma grande inquietação no campo da fé, há um desejo de se conseguir tudo fácil, o que leva muitas pessoas a trocar de religião, como se a religião fosse resolver todas as suas questões. Precisamos amadurecer na fé, conscientizarmos de que a religião é apenas um caminho de orientação na fé, as nossas questões, cabe a nós mesmos resolvê-las, sempre à luz da fé.
Há uma diferença muito grande entre ter fé e viver a fé, ter fé, é crer naquilo que não se vê, viver a fé, é viver aquilo que se crê.
Quando abraçamos a fé, descortina-se diante de nós, um novo horizonte,  nos fazendo enxergar o que os olhos humanos não conseguem alcançar! 
O evangelho de hoje, vem nos afirmar que só permanece com Jesus, quem chega a Ele, pelos caminhos da fé!
“Ninguém pode vir a mim a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. A fé é um dom de Deus, quem acolhe este dom, recebe a concessão do Pai para se achegar ao Filho e é através do Filho que se chega ao Pai!
Muitos recuam, ou até mesmo abandonam o seguimento a Jesus, quando tomam conhecimento de que  neste seguimento está presente  a cruz, um  sinal de um não amadurecimento na fé!
 Foram muitos os discípulos, que abandonaram Jesus, quando tomaram conhecimento de que seria impossível  seguir a Ele, sem assumir  a cruz! Eles queriam ficar com o Jesus da multiplicação dos pães, não quiseram aceitar o Jesus que passaria pela cruz!
 Mesmo Jesus tendo dito: "O meu Reino não é deste mundo", o povo estava longe de entender que Ele, não buscava a glória dos homens e sim, a glória do Pai!  Os mesmo, que queriam proclamá-lo como Rei, após  o episodio da multiplicação dos pães, o abandonaram  quando Ele disse: “Eis aqui o pão que desceu do céu, quem dele comer viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo6,51). Estas palavras de Jesus, que prenunciava a sua morte, ressoou para  os muitos  discípulos que o escutava, como sendo duras demais, não que eles não tivessem entendido o sentido daquelas palavras, mas porque eles  não estavam dispostos a enfrentar os desafios da cruz. Unir as suas  vidas a vida de Jesus, implicaria numa doação total de vida, isso, não estava nos  planos dele.
A nossa opção por Jesus deve ser radical, devemos estar com Ele para o que der e vier, do contrário, faremos como aqueles discípulos, abandonamo-lo  no meio do caminho, perdendo a oportunidade  do encontro com o Pai, pois só Ele é o caminho que nos leva ao Pai.
Mais importante do que entender as exigências de Jesus, é acatá-las sem questionamentos, pois Ele é soberano, sabe o que é bom para nós, Jesus é o  Senhor da nossa vida, questionar os seus ensinamentos é impor  condições  para segui-Lo, e esta, não é  a postura de um cristão verdadeiro.
Diante das palavras exigentes de Jesus, devemos nos comportar como uma criança obediente, que mesmo sem entender as exigências dos seus pais, acata as suas ordens.
No final do evangelho Jesus pergunta aos doze discípulos, os únicos que permaneceram com Ele até aquele momento: “Vós também quereis ir embora? Pedro responde: " A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!"
Creio que hoje, Jesus nos faria uma pergunta um tanto diferente, talvez Ele nos perguntasse: "E vós quereis ficar comigo”? A nossa resposta não será  verbal e nem imediata como  a resposta de Pedro e sim,  com as nossas atitudes do  dia a dia!
Ficar com Jesus, é optar pela vida!
Optemos pela  vida, ficando Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS – Olívia Coutinho
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Senhor, a quem iremos?
Os textos da liturgia de hoje sugerem que, se não servimos a Deus de livre vontade, o serviço pode resultar em hipocrisia. Deus deseja que o sirvamos de todo o coração, mas isso só será possível se fizermos opção consciente por ele. A opção por Deus traz como consequência novas formas de relacionamento com o próximo, a começar em casa. Isso significa que o cristianismo não se separa das relações que constituem a vida humana.
Evangelho (Jo 6,60-69): Vós também quereis ir embora?
Depois de todos terem visto o sinal do pão e ouvirem o discurso, chegou a hora da decisão da fé: aderir ou rejeitar Jesus como enviado de Deus. A decisão não é apenas da multidão, mas dos discípulos também. É decisão definitiva, porque, a partir daí, os que estão com Jesus também devem participar de seu destino.
A palavra de Jesus é muito dura. Somente a fé naquele que pode dar a vida eterna capacita para enfrentar a dureza dessa palavra.
Não se trata apenas de ouvir, mas de escutar prontamente para realizar na vida aquilo que se escuta de Deus. No caso, o que eles escutaram diz respeito à adesão incondicional dos discípulos à vida de Jesus. E se isso os escandaliza, o que dirão quando acontecer seu retorno ao Pai? É assim que Jesus concebe sua morte na cruz: como retorno para o lugar de onde veio, para o seio do Pai.
O contraste entre carne e espírito refere-se a duas formas de viver. A carne diz respeito ao ser humano entregue a si mesmo e aos limites de suas possibilidades. Por si mesmo é incapaz de perceber o sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus ou de crer. Por isso, é o espírito a força que ilumina o ser humano, lhe abre os olhos e lhe permite discernir a Palavra que se diz em Jesus. Não são duas dimensões do ser humano, mas duas maneiras de viver sua existência. Nem todos os discípulos estão se deixando conduzir pelo espírito, por isso não conseguem dar o próximo passo: a fé.
A verdadeira fé significa adesão sem reserva àquele cujas palavras prometem e comunicam a vida eterna: ele é efetivamente o enviado que Deus consagrou.
Simão Pedro, representante da comunidade, confessa sua fé em Jesus, dizendo que só ele tem palavras de vida eterna. A quem iremos? Quem poderia nos oferecer uma vida plena, reconciliada com Deus, cuja existência humana é sustentada com seu amor? Só Jesus.
1ª leitura (Js. 24,1-2a.15-17.18b): Escolhei
hoje a que deus quereis servir Siquém ocupa lugar de destaque na história
dos patriarcas, pois foi por ali que Abraão entrou na terra prometida (Gn. 12,6), rompendo com o passado e recomeçando uma vida nova que se caracterizava pela adoração ao Deus vivo e verdadeiro e pela renúncia ao politeísmo. Nada melhor que fazer a renovação da aliança naquele lugar; com esse objetivo, Josué reuniu ali os representantes das tribos. Antes de tudo, era necessário fazer uma escolha: a quem desejam adorar?
Ao Deus que os tirou do Egito ou aos deuses estrangeiros aos quais Abraão, Isaac e Jacó haviam renunciado?
Os hebreus responderam à pergunta de Josué de modo enfático, mostrando a opção
deles por servir o Senhor em vez dos ídolos. A expressão “Deus nos livre” ressalta o horror à idolatria; adorar os ídolos em vez do Senhor é algo absurdo e não deve ser cogitado em hipótese alguma.
A razão dada para a escolha é que eles provaram do cuidado e atenção que Deus teve para com eles, tirando-os da escravidão e guardando-os durante todo o caminho até ali.
2ª leitura (Ef. 5,21-32): Cristo amou a Igreja e se entregou por ela
Escrita no século I d.C. sob o império romano, uma sociedade dividida em castas, com senhores e escravos, e em que a posição da mulher dependia da decisão do marido, a carta aos Efésios mostra-se rica em sabedoria, porque se aproveita de elementos desse contexto histórico e cultural para ensinar sobre o relacionamento entre Cristo e a Igreja, ao mesmo tempo que instrui sobre como deve ser a nova forma de os cristãos construírem seus relacionamentos naquela sociedade.
Primeiramente deve haver subordinação de uns para com os outros. Assim ninguém tomará o lugar de Deus, pois o motivo dessa subordinação é a reverência ao Senhor. O termo grego correspondente a “subordinai--vos” não é pejorativo; ao contrário, é termo militar que significa estar sob as ordens (ou sob a orientação) de um oficial imediato. Esse termo iguala a todos, pois cada um está sob as ordens de outro, e ao mesmo tempo sugere que há funções diferentes. A expressão “reverência ao Senhor” significa que Deus está acima de qualquer autoridade e que somente a ele e não a outro se deve adorar.
No texto de hoje temos uma das mais belas (e menos compreendidas!) analogias paulinas, comparando a relação entre esposo e esposa ao relacionamento entre Cristo e a Igreja. Há alguns elementos sobre os quais a analogia está estruturada que nos ajudam a melhor entendê-la: (1) a esposa deve estar subordinada ao esposo; (2) destaca-se que o motivo dessa subordinação é Cristo e não o marido, ao contrário do que se pensava nanaquela época; (3) a esposa representa a Igreja e o esposo representa Cristo, o que significa que a subordinação da esposa é imagem da subordinação da Igreja a Cristo; (3) o esposo deve amar a esposa como Cristo amou a Igreja, isto é, o esposo deve dar a vida pela esposa até a cruz. Como naquela sociedade a responsabilidade maior era a do marido, assim também a maior exigência é feita a ele e não à esposa.
Enfim, todos somos membros do mesmo corpo, um não é maior que o outro, embora
haja diversas funções. Além disso, esposo e esposa constituem uma única carne, da mesma forma que a Igreja é corpo de Cristo.
O mistério da união entre Cristo e a Igreja é muito grande e não há palavras para defini-lo.
A analogia com o matrimônio é apenas uma tentativa de compreendê-lo melhor (v. 32) para melhor servir no reino de Deus.
Pistas para reflexão
– Encerramos o mês vocacional com textos que enfatizam o valor da opção consciente e instruída. No mundo de hoje, o cristianismo deve ser fruto de uma escolha muito mais que antigamente, pois, no tempo da comunidade primitiva, muitas vezes a família determinava as decisões dos filhos. Hoje, isso já não é possível.
A Igreja deve ter a coragem de perguntar a seus membros se têm certeza de que realmente querem continuar a ser cristãos católicos.
Além de mostrar que a vivência cristã é fruto de uma escolha, de uma decisão pessoal, a Igreja deve oferecer formação às pessoas para que conheçam e entendam mais profundamente o cristianismo católico e assim possam dar uma resposta mais consciente e segura.
– No domingo que vem começará o mês dedicado à Bíblia. Trata-se de ótima oportunidade para que a Igreja tenha membros mais conscientes, mais bem formados na palavra de Deus e mais seguros da decisão de serem cristãos católicos.



SEGUNDA HOMILIA
Aonde vou, meu Jesus?
Dona Judite queria abandonar de vez a Igreja. Ela era uma mulher de Igreja. Fazia de tudo: coordenava as celebrações, era do Apostolado da Oração, tinha sido ministra da eucaristia nos dois últimos anos. Um dia teve uma discussão com seu Antônio, o presidente da comunidade, por causa de uma coisa à toa. Foi porque seu Antônio não deixara a filha de dona Judite cantar o salmo na missa do padroeiro.
Ali só havia missa de vez em quando, uma vez por mês, e ainda havia mês em que o padre não aparecia, por ter de participar de alguma reunião. Assim, aquela missa do padroeiro seria especial. Além do padre, estaria lá o bispo, que vinha de longe. Judite achava que era um dia bonito para sua filha Bernadete cantar o salmo. Mas não, ela não fora escolhida. O presidente da comunidade tinha pedido que outra pessoa lesse! Por isso, dona Judite saiu da reunião pensando em deixar a Igreja de vez. Iria procurar outra religião, ou ficar sem religião. Ficou pensando que aquilo que seu Antônio fizera não era certo. Bernadete ficaria muito chateada quando soubesse, porque, na opinião da mãe, a filha era a melhor cantora das redondezas.
Dona Judite estava quase indo dormir quando olhou para a parede da sala e viu lá o quadro do Coração de Jesus. Era um quadro antigo. Tinha sido de sua avó. Quantos terços e ladainhas tinha rezado ali, em frente daquele quadro! Quantas vezes tinha chorado olhando para o Coração de Jesus, pedindo graças, implorando paciência com situações difíceis… Sentiu vontade de cantar aquela música, que aprendeu pequenininha: “Coração santo, tu reinarás, tu nosso encanto sempre serás…”. Cantou com vontade. Lembrou-se de tanta coisa bonita que tinha vivido na comunidade, da visita que fazia aos doentes, das novenas, da alegria de rezar o terço nas casas, do estudo bíblico, da pastoral da criança. Olhou para o quadro e pensou: “Não quero ficar longe de Jesus! Não vou abandonar a fé que recebi de minha família por causa de uma coisa tão pequena!” Então rezou: “Senhor, liberte meu coração de toda mágoa! Ajude-me a entender que a verdadeira palavra eu só encontro perto de você, que está tão vivo em minha comunidade, apesar de nossos pecados.”
padre Claudiano Avelino dos Santos, ssp



“A quem iremos Senhor?”
Estamos terminando a leitura do Sermão do Pão da vida do evangelho de João. Conhecemos quase de cor tudo aquilo que foi sendo lido ao longo dos domingos de agosto. Jesus se apresenta como alimento da vida dos seus. Não somente no pão da eucaristia, mas com toda sua vida e sua fala, seu testemunho e o testemunho que dele dá o Pai. Os ouvintes  experimentaram dúvidas a respeito da fala de Jesus. Não entendiam essa questão de dar a carne pelos seus, dar a vida pelos seus. “A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele”. Jesus exige uma postura corajosa dos apóstolos.  Coloca a questão:  “Vós também quereis ir embora?”
Muitos de nós conhecemos Cristo em nossas famílias e no tempo da preparação para  Primeira Eucaristia. Pode ter acontecido que, por felicidade, tenhamos tido a oportunidade de aprofundar nosso conhecimento do Senhor e tenhamos mesmo chegada a uma vida de seguimento do Senhor… A fidelidade exige coragem, requer firmeza no tempo que passa e  audácia para superar as provações. Nesses momentos pode ser que a figura de Jesus, que o horizonte da fé nos pareçam fluidos e  venhamos a ter a tentação de deixar de ouvir o Senhor.  A fidelidade é sempre uma virtude difícil de ser profundamente vivida.
A primeira leitura do deste domingo é tirada do Livro de Josué.  O líder do povo tem a impressão que muitos querem abandonar o Senhor.  Se seus ouvintes não estão dispostos a seguir o Senhor, que tomem outro caminho: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses aos quais vossos pais serviram na Mesopotâmia ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais..  Quanto a mim e à minha família serviremos ao Senhor”. Josué declara solenemente  que não abandonará a fé.  Belíssima a resposta do povo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servir a deuses estranhos…ele nos tirou da terra do Egito… nos guardou por todos os caminhos por onde peregrinamos e no meio de todos os povos pelos quais passamos. Portanto, nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus”. O povo confirma seu desejo de ser um povo do Senhor.
Encontramos a mesma postura na figura de Pedro no final do evangelho do Pão da Vida. Quando Jesus  deixa liberdade para que os apóstolos se afastem como muitos discípulos tinham feito, ouvimos a palavra forte e luminosa de Pedro: “A quem iremos, Senhor?   Só tu tens palavras de vida eterna.  Nós cremos  firmemente e reconhecemos que tu és o santo de Deus”.
Cabe a cada um de nós, diante da fragilidade de cada um e das exigências da fé responder à pergunta de Jesus: “Quereis ir… quereis  fazer vossa vida de outro modo?”
frei Almir Ribeiro Guimarães



A quem iríamos, senão a Jesus?
“Comer e beber minha carne e meu sangue” (evangelho) são “palavras duras”, não só por sua significação teológica, mas também por suas conseqüências: implicam em aceitar Jesus sacrificado como alimento, recurso fundamental, de nossa vida. Isso era duro para os que puseram sua esperança num messias político-nacional. Exatamente porque pensavam em categorias “carnais”, não podiam aceitar um messias que viesse numa “carne” humilde e aniquilada, um messias alheio aos sonhos teocráticos deles. Menos ainda poderiam aceitar que esta “carne” fosse a manifestação da “glória” (6,62). Se esta é a glória de Deus… não precisam dela. Contudo: “A Palavra tomou-se carne e nós contemplamos sua glória” (1,14). A glória do Cristo é a cruz: nela, ele atrai a si todos os que se deixam atrair pelo Pai (cf. 12,32; 6,44).
Mas, também para nós, as palavras do Cristo são difíceis de aceitar. Sua “carne” é bastante incompatível com nossa sede de sucesso. Sua “glória”, por outro lado, a con­fundimos com a visibilidade efêmera do espetáculo religioso. Somos incapazes de imaginar a “subida” ao Pai daquele que viveu a condição de nossa carne até seus mais profundos abismos. Será que já imaginamos alguma vez um destes homens sofridos, quebrados, anti-higiênicos, porém radicalmente autênticos e bons que vivem em nosso redor como sendo o nosso “senhor”? Talvez consigamos ter pena de tais homens, mas admirá-los e tomá-los como guia de nossa vida … A glória é ainda mais escandalosa do que a carne.
Não adianta. Com categorias “carnais”, humanas, não chegamos a essa outra vi­são sobre a “carne” da Palavra. A “carne” não resolve. Precisamos de um impulso que venha de fora de nós. O “espírito”, a força operante, a inteligência atuante de Deus, nos levará a acolher o mistério do escravo glorificado. Jesus mesmo nos transmite esse es­pírito (10 3,34), e sua “exaltação” é a fonte desse dom (7,39). Suas palavras são “espíri­to e vida” – espírito da vida (6,68; cf. 6,63). Só entregando-nos à sua palavra (isto é, aplicando-a em nossa vida), poderemos experimentar que ele é fidedigno. Ou seja, o “espírito” que há de superar o que nossas categorias demasiadamente humanas recu­sam vem do próprio “objeto” de nosso escândalo. Não é como conclusão de um teore­ma que seu espírito penetra em nós, mas como conseqüência de uma arriscada decisão e opção. É essa opção que Pedro pronuncia, vendo a insuficiência de qualquer outra so­lução: “A quem iríamos … “.
A 1ª leitura ilustra o caráter de tal opção pelo exemplo de Josué: a escolha que Jo­sué apresenta aos israelitas do séc. XII a.C. (entre Javé, que os libertou do Egito, e os deuses da Mesopotâmia, supostos fornecedores de fecundidade etc.), escolha que os autores bíblicos apresentam a seus contemporâneos, no tempo da ameaça assíria e da deturpação da fé pelos cultos dos baalim (10).  A escolha entre um Deus que provou seu amor e fidelidade e deuses que devem sua “existência” aos mitos que os homens criam em redor deles. Essa opção se apresenta a nós também: optaremos por aquele que “deu a vida”, em todos os sentidos, ou pelos ídolos pelos quais tão facilmente damos nossa vida, sem deles recebermos a gratificação que prometem: sucesso, riqueza, poder.
A 2ª leitura de hoje é muito rica, mas não combina com as duas outras. Porém, por ser sua mensagem tão importante, sobretudo num tempo em que o caráter santificante do amor conjugal e familiar é praticamente desconsiderado, seria bom reservar na li­turgia um momento à parte para proporcionar também esta mensagem aos fiéis, talvez no envio final, como uma das maneiras para encarnar a opção por aquele que tem as pa­lavras da vida eterna …
(10). Para bem entendermos o trecho, ajuda o conhecimento de sua origem literária. Faz parte da “historiografia deuteronomista”, ou seja, da história de Israel escrita em função do movimento profético dos séculos VII e VI a.C. (que promoveu também o livro do Dt). Este movimento de­nunciava com força o perigo do comprometimento de Israel com os deuses e os príncipes das an­tigas populações cananéias e estrangeiras.
Johan Konings "Liturgia dominical"



Nenhum cristão jamais poderá dizer que foi enganado pelo Senhor! Deus nunca se mascarou para nós, nunca nos falou palavras agradáveis para nos seduzir, nunca agiu como os nossos políticos; Deus não usa botox! Ele é um Deus verdadeiro, leal, honesto! Não esconde suas exigências, não omite suas condições para quem deseja segui-lo e servi-lo...
Escutamos na primeira leitura de hoje Josué mandando o povo escolher: seguir os ídolos, que são de fácil manejo, que não exigem nada ou, ao invés, seguir o Senhor, que é exigente, que é Santo e corrige os que nele esperam? O próprio Josué dirá: “Não podeis servir ao Senhor, pois ele é um Deus santo, um Deus ciumento, que não tolerará as vossas transgressões, nem os vossos pecados!” (Js. 24,19) Vede, meus caros, que o nosso Deus não se preocupa com popularidade, não faz conta do número de fiéis, não abranda suas exigências para ser aceito, mas sim, faz conta da fidelidade ao seu amor e ao seu chamado!
O que aparece na primeira leitura torna-se ainda mais claro e dramático no evangelho. Após dizer claramente que sua carne é verdadeira comida e seu sangue é verdadeira bebida, muitos discípulos se escandalizaram com Jesus (os protestantes ainda hoje se escandalizam e não crêem na palavra do Salvador...). E Jesus, o que faz? Muda sua palavra? Volta atrás no ensinamento para ser popular, para ser compreendido e aceito, para encher as igrejas? Não! Popularidade, aceitação, bom-mocismo nunca foram seus critérios! Ainda que sua palavra escandalize, ele nunca volta atrás. O Senhor nunca se converte a nós; nós é que devemos nos converter a ele! Pode-se manipular os ídolos; nunca o Deus verdadeiro!
É importante prestar atenção! Diante dos discípulos escandalizados e murmuradores, que faz Jesus? Apresenta o critério decisivo: a cruz. Escutai, irmãos, o que diz o Senhor: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?” Lembremo-nos que, para o Evangelho de São João, a subida de Jesus para o Pai começa na cruz: ali ele será levantado! Vede bem, meus irmãos, que não poderá seguir o Senhor, não poderá suportar as palavras do Senhor, aquele que não estiver disposta a contemplá-lo na cruz! E Jesus previne: “O Espírito é que dá vida; a carne não adianta nada! As palavras que vos falei são Espírito e vida!” Compreendei: somente se nos deixarmos educar pelo Santo Espírito, somente se deixarmos os pensamentos e a lógica à medida da carne, isto é, à medida da mera razão humana, é que poderemos compreender as coisas de Deus, coisas que passam pela cruz de Cristo! Quando se trata do escândalo do Evangelho, “a carne não adianta nada”! Não nos iludamos: entregues à nossa própria razão, pensaremos como o mundo e jamais acolheremos Jesus e suas exigências! E, no entanto, o Senhor continua: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim a não ser que lhe seja concedido por meu Pai!” Vede bem, meus caros: acolher Jesus, compreender suas palavras e acolhê-las, por quanto sejam difíceis e duras, é graça de Deus e somente abertos para a graça poderemos realizá-lo! Como acolher a linguagem da cruz, sem mudar de vida? Como acolher as exigências do Senhor, sem a conversão do coração, sem nos deixarmos guiar pela imprevisível liberdade do Santo Espírito? Quando isso acontece, experimentamos como o Senhor é bom, o quanto é suave, o quando é doce segui-lo!
Um belíssimo exemplo disso, a Palavra de Deus nos dá hoje recordando a vida da família cristã. São Paulo pensa o lar cristão como uma pequena comunidade de discípulos de Cristo, uma pequena Igreja e dá conselhos estupendos! O sentimento que deve nortear o comportamento familiar é o amor. Que amor? O das músicas e das novelas? Não! Aquele amor manifestado na cruz, aquele entre Cristo e a Igreja! Que beleza, que desafio, que sonho: marido e mulher se amando como Cristo e a Igreja se amam, marido e mulher sendo felizes na felicidade um do outro: “Sede solícitos uns para com os outros!” 
Para o cristianismo, meus caros, a família cristã não é primeiramente uma instituição humana, mas uma instituição divina, um sacramento da Igreja. Mais ainda: a família é a primeira Igreja, a primeira comunidade de irmãos em Cristo. Ali, é Jesus quem deve reinar, ali é o santo e doce temor de Deus quem deve regular a convivência. Que desgraça hoje em dia a paganização, a secularização, a banalização da família cristã. Atentos, cristãos: a família é santa, a família é sagrada, a família não pode ser profanada pelo desamor, pela indiferença, pela imoralidade, pela violência, pelo consumismo, pela opressão, pela divisão, pela vulgarização! Que beleza, meus caros, um homem e uma mulher unidos no amor com a bênção do Senhor gerando filhos, gerando amor feito carne, feito gente, para o mundo, para a Igreja, para a vida! Este é o sonho do Senhor para a família! Este e só este! Aos olhos de Deus, não há outra forma legítima e aceitável de união familiar! Um homem, uma mulher; um esposo, uma esposa e os filhos – eis o sonho, eis a bênção, eis a felicidade quando se vive isso de acordo com o amor de Deus em Cristo! Que bênção a convivência familiar! Que doçura poder partilhar as alegrias e tristezas, as lutas e dificuldades num lar cristão, onde juntos se rezam, juntos partilham, juntos vencem-se as dificuldades! São Paulo, encantado com essa realidade, exclama: “É grande este mistério!” Que mistério? O mistério do amor entre marido e mulher, da sua união que gera vida, que é doçura e complementaridade. E o Apóstolo continua: “E eu o interpreto em relação a Cristo e à Igreja!” Atenção! São Paulo está dizendo que a comunhão familiar é imagem da comunhão entre Cristo e a Igreja!
É fácil, caríssimos, viver a família assim? Não! Como não é fácil levar a sério a Palavra do Senhor! E Jesus, mais uma vez, nos pergunta: “Isto vos escandaliza?” Escandaliza-vos o matrimônio ser indissolúvel? Escandaliza-vos a fidelidade conjugal? Assusta-vos o dever de gerar filhos com generosidade e educá-los com amor e firmeza? “Quereis também ir embora?”
Que nossa resposta seja a de Pedro, dada em nome dos Doze e de todos os discípulos: “A quem iremos, Senhor? Caminhar contigo não é fácil; acolher tuas exigências nos custa; compreender teus motivos às vezes é-nos pesado... Mas, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus!”. Que as palavras de Pedro sejam as nossas e, como Josué, possamos dizer: “Eu e minha família serviremos o Senhor!”
Escolher a Deus – um Deus difícil! Os ídolos são fáceis e muitos!
O Senhor é exigente; e não volta atrás na sua palavra, mesmo quando essa escandaliza. O critério é a cruz (o Filho do homem subindo e julgando). Somente pode compreendê-lo no Espírito, a carne não serve aqui! – Ser cristão não é questão de propaganda ou munganga: é graça; é o Pai quem atrai!
Muitos já não andavam mais com ele... Quereis ir embora?
Senhor, só tu tens palavras de vida eterna: és o Santo de Deus!
Provai e vede quão suave é o Senhor!
Uma família que serve o Senhor: a lei que regula é o amor, o mesmo que se contempla na entrega de Cristo, selando a aliança com a Igreja.
dom Henrique Soares da Costa



A liturgia do 21º domingo do tempo comum fala-nos de opções. Recorda-nos que a nossa existência pode ser gasta a perseguir valores efêmeros e estéreis, ou a apostar nesses valores eternos que nos conduzem à vida definitiva, à realização plena. Cada homem e cada mulher têm, dia a dia, de fazer a sua escolha.
Na primeira leitura, Josué convida as tribos de Israel reunidas em Siquém a escolherem entre “servir o Senhor” e servir outros deuses. O Povo escolhe claramente “servir o Senhor”, pois viu, na história recente da libertação do Egito e da caminhada pelo deserto, como só Jahwéh pode proporcionar ao seu Povo a vida, a liberdade, o bem estar e a paz.
O Evangelho coloca diante dos nossos olhos dois grupos de discípulos, com opções diversas diante da proposta de Jesus. Um dos grupos, prisioneiro da lógica do mundo, tem como prioridade os bens materiais, o poder, a ambição e a glória; por isso, recusa a proposta de Jesus. Outro grupo, aberto à ação de Deus e do Espírito, está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida; os membros deste grupo sabem que só Jesus tem palavras de vida eterna. É este último grupo que é proposto como modelo aos crentes de todos os tempos.
Na segunda leitura, Paulo diz aos cristãos de Éfeso que a opção por Cristo tem consequências também ao nível da relação familiar. Para o seguidor de Jesus, o espaço da relação familiar tem de ser o lugar onde se manifestam os valores de Jesus, os valores do Reino. Com a sua partilha de amor, com a sua união, com a sua comunhão de vida, o casal cristão é chamado a ser sinal e reflexo da união de Cristo com a sua Igreja.
1ª leitura - Josué 24,1-2a.15-17.18b - AMBIENTE
O livro de Josué (de onde é tirada a nossa primeira leitura) abarca uma parte do séc. XII a.C., desde a época da entrada na Terra Prometida das tribos do Povo de Deus libertadas do Egito, até à morte de Josué. O livro oferece-nos uma visão muito simplificada da ocupação de Canaan: as doze tribos, unidas sob a liderança de Josué, realizaram várias expedições militares fulgurantes e apoderaram-se, quase sem oposição, de todo o território anteriormente nas mãos dos cananeus… Historicamente, contudo, as coisas não se passaram nem de forma tão fácil, nem de forma tão linear: é mais verosímil a versão apresentada no Livro dos Juízes e que fala de uma conquista lenta e difícil (cf. Jz 1), incompleta (cf. Jz 13,1-6; 17,12-16), que não foi obra de um povo unido à volta de um chefe único, mas de tribos que fizeram a guerra isoladamente.
O Livro de Josué, antes de ser um livro de história, é um livro de catequese. O objetivo dos autores deuteronomistas que o escreveram era destacar o poder imenso de Jahwéh, posto ao serviço do seu Povo: foi Deus (e não a capacidade militar das tribos) que, com os seus prodígios, ofereceu a Israel a Terra Prometida; ao Povo resta-lhe aceitar os dons de Deus e responder-Lhe com a fidelidade à Aliança e aos mandamentos.
O texto que nos é hoje proposto situa-nos na fase final da vida de Josué. Sentindo aproximar-se a morte, Josué teria reunido em Siquém (no centro do país) os líderes das diversas tribos do Povo de Deus e ter-lhes-ia proposto uma renovação do seu compromisso com Jahwéh. De acordo com Jos 24,15, Josué teria colocado as coisas da seguinte forma: “escolhei hoje a quem quereis servir… porque eu e a minha casa serviremos o Senhor”.
Na versão do autor deuteronomista a quem devemos esta notícia, Josué parece dirigir-se a um grupo de tribos que partilha uma fé comum em Jahwéh. Estaremos diante de uma assembléia que reúne essas “doze tribos” que, mais tarde (na época de David) vão constituir uma unidade nacional? Alguns biblistas pensam que não. Entre as tribos presentes não estaria certamente a tribo de Judá, já que os contactos entre Judá e a “casa de José” só se estabeleceram na época do rei David. A “casa” de Josué a que o texto se refere é certamente constituída pelas tribos do centro do país – Efraim, Benjamim e Manassés – que há muito tempo tinham aderido a Jahwéh e à Aliança. E as outras tribos, convidadas a comprometer-se com Jahwéh? Provavelmente, o convite a escolher entre “o Senhor” e os outros deuses (cf. Jos 24,14) dirige-se às tribos do norte do país que, sem dúvida, não abandonaram a Palestina desde a época dos patriarcas (e que, portanto, não viveram a experiência do Egito, nem fizeram a experiência de encontro com Jahwéh, o Deus libertador).
Talvez a “assembléia de Siquém” referida em Jos 24 seja a primeira tentativa histórica de estabelecer laços entre as tribos do centro da Palestina (Efraim, Benjamim e Manassés – as tribos que viveram a experiência do Egito, a libertação, a caminhada pelo deserto e a Aliança com Jahwéh) e as tribos do norte (Issacar, Zabulón, Neftali, Asher e Dan – tribos que nem sequer estiveram no Egito). A ligação far-se-ia à volta de uma fé comum num mesmo Deus. A união das diversas tribos do norte e do centro não se deu, contudo, de uma vez; mas foi uma caminhada lenta e progressiva, que só se completou muito tempo depois de Josué.
O ponto de partida para o texto que nos é proposto é o fato histórico em si (provavelmente, uma assembléia em Siquém, onde Josué propôs às tribos do norte que aceitassem Jahwéh como seu Deus). No entanto, o autor deuteronomista responsável por este texto pegou na notícia histórica e transformou-a numa catequese sobre o compromisso que Israel assumiu para com Jahwéh. O seu objetivo é convidar os israelitas da sua época (séc. VII a.C.) a não se deixarem seduzir por outros deuses e a manterem-se fiéis à Aliança.
MENSAGEM
Estamos, portanto, em Siquém, com “todas as tribos de Israel” (v. 1) reunidas à volta de Josué. Na interpelação que dirige às tribos, Josué começa por elencar alguns momentos capitais da história da salvação, mostrando ao Povo como Jahwéh é um Deus em quem se pode confiar; as suas ações salvadoras e libertadoras em favor de Israel são uma prova mais do que suficiente do seu poder e da sua fidelidade (cf. Jos 24,2-13).
Depois dessa introdução, Josué convida os representantes das tribos presentes a tirarem as devidas consequências e a fazerem a sua opção. É necessário escolher entre servir esse Senhor que libertou Israel da opressão, que o conduziu pelo deserto e que o introduziu na Terra Prometida, ou servir os deuses dos mesopotâmios e os deuses dos amorreus. Josué e a sua família já optaram: eles escolheram servir Jahwéh (v. 15).
A resposta do Povo é a esperada. Todos manifestam a sua intenção de servir o Senhor, em resposta à sua acção libertadora e à sua proteção ao longo da caminhada pelo deserto (vs. 16-18). Israel compromete-se a renunciar a outros deuses e a fazer de Jahwéh o seu Deus.
A aceitação de Jahwéh como Deus de Israel é apresentada, não como uma obrigação imposta a um grupo de escravos, mas como uma opção livre, feita por pessoas que fizeram uma experiência de encontro com Deus e que sabem que é aí que está a sua realização e a sua felicidade. Depois de percorrer com Jahwéh os caminhos da história, Israel constatou, sem margem para dúvidas, que só em Deus pode encontrar a liberdade e a vida em plenitude.
ATUALIZAÇÃO
¨ O problema fundamental posto pelo autor do nosso texto é o das opções: “escolhei hoje a quem quereis servir” – diz Josué ao Povo reunido. É uma questão que nunca deixará de nos ser posta… Ao longo da nossa caminhada pela vida, vamos fazendo a experiência do encontro com esse Deus libertador e salvador que Israel descobriu na sua marcha pela história; mas encontramo-nos também, muito frequentemente, com outros deuses e outras propostas que parecem garantir-nos a vida, o êxito, a realização, a felicidade e que, quase sempre, nos conduzem por caminhos de escravidão, de dependência, de desilusão, de infelicidade. A expressão “escolhei hoje a quem quereis servir” interpela-nos acerca da nossa servidão ao dinheiro, ao êxito, à fama, ao poder, à moda, às exigências dos valores que a opinião pública consagrou, ao reconhecimento público… Naturalmente, nem todos os valores do mundo são geradores de escravidão ou incompatíveis com a nossa opção por Deus… Temos, no entanto, que repensar continuamente a nossa vida e as nossas opções, a fim de não corrermos atrás de falsos deuses e de não nos deixarmos seduzir por propostas falsas de realização e de felicidade. O verdadeiro crente sabe que não pode prescindir de Deus e das suas propostas; e sabe que é nesse Deus que nunca desilude aqueles que n’Ele confiam que pode encontrar a sua realização plena.
¨ Israel aceitou “servir o Senhor” e comprometer-se com Ele, não por obrigação, mas pela convicção de que era esse o caminho para a sua felicidade. Por vezes, Deus é visto como um concorrente do homem e os seus mandamentos como uma proposta que limita a liberdade e a independência do homem… Na verdade, o compromisso com Deus e a aceitação das suas propostas não é um caminho de servidão, mas um caminho que conduz o homem à verdadeira liberdade e à sua realização plena. O caminho que Deus nos propõe – caminho que somos livres de aceitar ou não – é um caminho que nos liberta do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência, da escravidão dos bens materiais e que nos projeta para o amor, para a partilha, para o serviço, para o dom da vida, para a verdadeira felicidade.
¨ Josué, o líder da comunidade do Povo de Deus, tem um papel fundamental no sentido de interpelar o Povo e de testemunhar a sua opção por Deus. Não é um líder que diz belas palavras e apresenta belas propostas, mas que desmente com a vida aquilo que diz… É um líder plenamente comprometido com Deus e que testemunha, com a própria vida, essa opção. Josué poderia ser um exemplo para todos aqueles que têm responsabilidades na condução da comunidade do Povo de Deus em marcha pela história. O seu exemplo convida aqueles que presidem à comunidade do Povo de Deus a serem uma voz de Deus que interpela e que questiona aqueles que caminham ao seu lado; e convida também os responsáveis pelas comunidades cristãs a testemunharem com a própria vida aquilo que ensinam ao Povo.
2ª leitura – Ef. 5,21-32 - AMBIENTE
Continuamos a ler a parte moral e parenética da Carta aos Efésios (cf. Ef. 4,1-6,20). Nessa parte, Paulo lembra aos crentes a opção que fizeram no dia do seu batismo e que os obriga a viver como Homens Novos, à imagem de Jesus.
A vida desse Homem Novo que deixou as trevas e escolheu a luz deve traduzir-se em atitudes concretas. Por isso, Paulo enumera, a dado passo da sua reflexão, um conjunto de normas de conduta, através das quais se deve manifestar a opção que o crente assumiu no dia do seu batismo.
Na secção de Ef. 5,21-6,9 (a que o texto que hoje nos é proposto pertence), Paulo apresenta as normas que devem reger as relações familiares. De forma especial, Paulo refere-se aos deveres dos esposos, seguramente porque vê na sua união uma figura da união de Cristo com a sua Igreja. Trata-se de um dos temas mais importantes da teologia desenvolvida na Carta aos Efésios.
MENSAGEM
O nosso texto começa com um princípio geral que deve regular as relações entre os diversos membros da família cristã: “sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef. 5,21). O “ser submisso” expressa aqui a condição daquele que está permanentemente numa atitude de serviço simples e humilde, sem deixar que a sua relação com o irmão seja dominada pelo orgulho ou marcada por atitudes de prepotência. A expressão “no temor de Cristo” recorda aos crentes que o Cristo do amor, do serviço, da partilha é o exemplo e o modelo que eles devem ter sempre diante dos olhos.
Depois, Paulo dirige-se aos vários membros da família e propõe-lhes normas concretas de conduta. O texto que nos é proposto, contudo, apenas conservou a parte que se refere à relação dos esposos um com o outro (na continuação, Paulo falará também da conduta dos filhos para com os pais, dos pais para com os filhos, dos senhores para com os escravos e dos escravos para com os senhores – cf. Ef. 6,1-9).
Às mulheres, Paulo pede a submissão aos maridos, porque “o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo” (v. 23). Esta afirmação – que, à luz da nossa sensibilidade e dos nossos esquemas mentais modernos parece discriminatória – deve ser entendida no contexto sócio-cultural da época, onde o homem aparece como a referência suprema da organização do núcleo familiar. De qualquer forma, a “submissão” de que Paulo fala deve ser sempre entendida no sentido do amor e do serviço e não no sentido da escravidão.
Aos maridos, Paulo recomenda que amem as suas esposas, “como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela” (vers. 25). Não se trata de um amor qualquer, mas de um amor igual ao de Cristo pela sua comunidade – isto é, de um amor generoso e total, que é capaz de ir até ao dom da própria vida. Para Paulo, portanto, o amor dos maridos pelas esposas deve ser um amor completamente despido de qualquer sinal de egoísmo e de prepotência; e deve ser um amor cheio de solicitude, que se manifesta em atitudes de generosidade, de bondade e de serviço, que se faz dom total à pessoa a quem se ama.
Neste contexto, Paulo desenvolve a sua teologia da relação entre Cristo e a Igreja, para depois tirar daí as devidas consequências para a união dos esposos cristãos… Cristo santificou a Igreja, purificando-a “no batismo da água pela palavra da vida” (v. 26). Há aqui, certamente, uma alusão ao batismo cristão (inspirada, provavelmente, nas cerimônias preparatórias do matrimônio, que contemplavam o “banho” da noiva antes de se apresentar diante do noivo), pelo qual Cristo edifica a sua comunidade e a purifica do pecado. O batismo é o momento em que Cristo oferece a vida plena à sua Igreja e em que a Igreja se compromete com Cristo numa comunidade de amor. A partir desse momento, Cristo e a Igreja formam um só corpo… Como Cristo e a Igreja formam um só corpo, do mesmo modo marido e esposa, comprometidos numa comunidade de amor, formam um só corpo: “por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serão dois numa só carne” (v. 31). A expressão “uma só carne” aqui usada por Paulo não alude só à união carnal dos esposos, mas a toda a sua vida conjugal, feita de um empenho quotidiano na vivência do amor, da fidelidade e da partilha de toda a existência.
Este paralelismo estabelecido por Paulo entre a união de Cristo e da Igreja e o amor que une os esposos dá um significado especial ao casamento cristão: a vocação dos esposos é anunciar e testemunhar, com o seu amor e a sua união, o amor de Cristo pela sua Igreja. Dito de outra forma: a união dos esposos cristãos deve ser, aos olhos do mundo, um sinal e um reflexo do “mistério” de amor que une Cristo e a Igreja.
ATUALIZAÇÃO
¨ O compromisso com Jesus e com a proposta de vida nova que Ele veio apresentar mexe com a totalidade da vida do homem e tem consequências em todos os níveis da existência, nomeadamente ao nível da relação familiar. Para o seguidor de Jesus, o espaço da relação familiar tem de ser também o lugar onde se manifestam os valores de Jesus, os valores do Reino. Com a sua partilha de amor, com a sua união, com a sua comunhão de vida, o casal cristão é chamado a ser sinal e reflexo da união de Cristo com a sua Igreja. “Os esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua santidade de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição” (Gaudium et Spes, 52).
¨ Para Paulo, o amor que une o marido e a esposa deve ser um amor como o de Cristo pela sua Igreja. Desse amor devem, portanto, estar ausentes quaisquer sinais de egoísmo, de prepotência, de exploração, de injustiça… Deve ser um amor que se faz doação total ao outro, que é paciente, que não é arrogante nem orgulhoso, que compreende os erros e as falhas dos outro, que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1Cor. 13,4-7).
¨ Para Paulo, o amor que une a esposa e o marido deve ser um amor que se faz serviço simples e humilde. Não se trata de exigir submissão de um a outro, mas trata-se de pedir que os crentes manifestem total disponibilidade para servir e para dar a vida, sem esperar nada em troca. Trata-se de seguir o exemplo de Cristo que não veio para afirmar a sua superioridade e para ser servido, mas para servir e dar vida. O matrimônio cristão não pode tornar-se uma competição para ver quem tem mais direitos ou mais obrigações, mas uma comunhão de vida de pessoas que, a exemplo de Cristo, fazem da sua existência uma partilha e um serviço a todos os irmãos que caminham ao seu lado.
¨ Paulo utiliza, neste texto, a propósito das mulheres, uma palavra que não devemos absolutizar: “submissão”. Esta palavra deve ser entendida no contexto sócio-cultural da época, em que o marido era considerado a referência fundamental da ordem familiar. É claro que, nos dias de hoje, Paulo não teria usado este termo para falar da relação da esposa com o marido. A afirmação de Paulo não pode servir para fundamentar qualquer tipo de discriminação contra as mulheres… Aliás, Paulo dirá, noutras circunstâncias, que “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus” (Gl. 3,28).
Evangelho – Jo 6,60-69 - AMBIENTE
Estamos no final do episódio que começou com a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Jo 6,1-15) e que continuou com o “discurso do pão da vida” (cf. Jo 6,22-59). Trata-se de um episódio atravessado por diversos equívocos e onde se manifesta a perplexidade e a confusão daqueles que escutam as palavras de Jesus… A multidão esperava um messias rei que lhe oferecesse uma vida confortável e pão em abundância e Jesus mostrou que não veio “dar coisas”, mas oferecer-Se a Ele próprio para que a humanidade tivesse vida; a multidão esperava de Jesus uma proposta humana de triunfo e de glória e Jesus convidou-a a identificar-se com Ele e a segui-l’O no caminho do amor e do dom da vida até à morte… Os interlocutores de Jesus perceberam claramente que Jesus os tinha colocado diante de uma opção fundamental: ou continuar a viver numa lógica humana, virada para os bens materiais e para as satisfações mais imediatas, ou o assumir a lógica de Deus, seguindo o exemplo de Jesus e fazendo da vida um dom de amor para ser partilhado. Instalados nos seus esquemas e preconceitos, presos a aspirações e sonhos demasiado materiais, desiludidos com um programa que lhes parecia condenado ao fracasso, os interlocutores de Jesus recusaram-se a identificar-se com Ele e com o seu programa.
O nosso texto mostra-nos a reação negativa de “muitos discípulos” às propostas que Jesus faz. Nem todos os discípulos estão dispostos a identificar-se com Jesus (“comer a sua carne e beber o seu sangue”) e a oferecer a sua vida como dom de amor que deve ser partilhado com toda a humanidade. Temos de situar esta “catequese” no contexto em que vivia a comunidade joânica, nos finais do séc. I… A comunidade cristã era discriminada e perseguida; muitos discípulos afastavam-se e trilhavam outros caminhos, recusando-se a seguir Jesus no caminho do dom da vida. Muitos cristãos, confusos e perplexos, perguntavam: para ser cristão é preciso percorrer um caminho tão radical e de tanta exigência? A proposta de Jesus será, efetivamente, um caminho de vida plena, ou um caminho de fracasso e de morte? É a estas questões que o “catequista” João vai tentar responder.
MENSAGEM
A perícope divide-se em duas partes. A primeira (vs. 60-66) descreve o protesto de um grupo de discípulos face às exigências de Jesus; a segunda (vs. 67-69) apresenta a resposta dos Doze à proposta que Jesus faz. Estes dois grupos (os “muitos discípulos” da primeira parte e os “Doze” da segunda parte) representam duas atitudes distintas face a Jesus e às suas propostas.
Para os “discípulos” de que se fala na primeira parte do nosso texto, a proposta de Jesus é inadmissível, excessiva para a força humana (v. 60). Eles não estão dispostos a renunciar aos seus próprios projetos de ambição e de realização humana, a embarcar com Jesus no caminho do amor e da entrega, a fazer da própria vida um serviço e uma partilha com os irmãos. Esse caminho parece-lhes, além de demasiado exigente, um caminho ilógico. Confrontados com a radicalidade do caminho do Reino, eles não estão dispostos a arriscar.
Na resposta à objeção desses “discípulos”, Jesus assegura-lhes que o caminho que propõe não é um caminho de fracasso e de morte, mas é um caminho destinado à glória e à vida eterna. A “subida” do Filho do Homem, após a morte na cruz, para reentrar no mundo de Deus, será a “prova provada” de que a vida oferecida por amor conduz à vida em plenitude (vs. 61-62). Esses “discípulos” não estão dispostos a acolher a proposta de Jesus porque raciocinam de acordo com uma lógica humana, a lógica da “carne”; só o dom do Espírito possibilitará aos crentes perceber a lógica de Jesus, aderir à sua proposta e seguir Jesus nesse caminho do amor e da doação que conduz à vida (v. 63).
Na realidade, esses discípulos que raciocinam segundo a lógica da “carne” seguem Jesus pelas razões erradas (a glória, o poder, a fácil satisfação das necessidades materiais mais básicas). A sua adesão a Jesus é apenas exterior e superficial. Jesus tem consciência clara dessa realidade. Ele sabe até que um dos “discípulos” O vai trair e entregar nas mãos dos líderes judaicos (v. 64). De qualquer forma, Jesus encara a decisão dos discípulos com tranquilidade e serenidade. Ele não força ninguém; apenas apresenta a sua proposta – proposta radical e exigente – e espera que o “discípulo” faça a sua opção, com toda a liberdade.
Em última análise, a vida nova que Jesus propõe é um dom de Deus, oferecido a todos os homens (v. 65). O termo deste movimento que o Pai convida o “discípulo” a fazer é o encontro com Jesus e a adesão ao seu projeto. Se o homem não está aberto à ação do Pai e recusa os dons de Deus, não pode integrar a comunidade dos discípulos e seguir Jesus.
A primeira parte da cena termina com a retirada de “muitos discípulos” (v. 66). O programa exposto por Jesus, que exige a renúncia às lógicas humanas de ambição e de realização pessoal, é recusado… Esses “discípulos” mostram-se absolutamente indisponíveis para percorrer o caminho de Jesus.
Confirmada a deserção desses “discípulos”, Jesus pede ao grupo mais restrito dos “Doze” que façam a sua escolha: “também vós quereis ir embora?” (v. 67). Repare-se que Jesus não suaviza as suas exigências, nem atenua a dureza das suas palavras… Ele está disposto a correr o risco de ficar sem discípulos, mas não está disposto a prescindir da radicalidade do seu projeto. Não é uma questão de teimosia ou de não querer dar o braço a torcer; mas Jesus está seguro que o caminho que Ele propõe – o caminho do amor, do serviço, da partilha, da entrega – é o único caminho por onde é possível chegar à vida plena… Por isso, Ele não pode mudar uma vírgula ao seu discurso e à sua proposta. O caminho para a vida em plenitude já foi claramente exposto por Jesus; resta agora aos “discípulos” aceitá-lo ou rejeitá-lo.
Confrontados com esta opção fundamental, os “Doze” definem claramente o caminho que querem percorrer: eles aceitam a proposta de Jesus, aceitam segui-l’O no caminho do amor e da entrega. Quem responde em nome do grupo (uso do plural) é Simão Pedro: “Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (v. 68). A comunidade reconhece, pela voz de Pedro, que só no caminho proposto por Jesus encontra vida definitiva. Os outros caminhos só geram vida efêmera e parcial e, com frequência, conduzem à escravidão e à morte; só no caminho que Jesus acabou de propor (e que “muitos” recusaram) se encontra a felicidade duradoura e a realização plena do homem (v. 68).
É porque reconhece em Jesus o único caminho válido para chegar à vida eterna que a comunidade dos “Doze” adere ao que Ele propõe (“cremos” – v. 69a). A “fé” (adesão a Jesus) traduz-se no seguimento de Jesus, na identificação com Ele, no compromisso com a proposta que Ele faz (“comer a carne e beber o sangue” que Jesus oferece e que dão a vida eterna).
A resposta posta na boca de Pedro é precisamente a resposta que a comunidade joânica (a tal comunidade que vive a sua fé e o seu compromisso cristão em condições difíceis e que, por vezes, tem dificuldade em renunciar à lógica do mundo e apostar na radicalidade do Evangelho de Jesus) é convidada a dar: “Senhor, as tuas propostas nem sempre fazem sentido à luz dos valores que governam o nosso mundo; mas nós estamos seguros de que o caminho que Tu nos indicas é um caminho que leva à vida eterna. Queremos escutar as tuas palavras, identificar-nos contigo, viver de acordo com os valores que nos propões, percorrer contigo esse caminho do amor e da doação que conduz à vida eterna.
ATUALIZAÇÃO
¨ O Evangelho deste domingo põe claramente a questão das opções que nós, discípulos de Jesus, somos convidados a fazer… Todos os dias somos desafiados pela lógica do mundo, no sentido de alicerçarmos a nossa vida nos valores do poder, do êxito, da ambição, dos bens materiais, da moda, do “politicamente correto”; e todos os dias somos convidados por Jesus a construir a nossa existência sobre os valores do amor, do serviço simples e humilde, da partilha com os irmãos, da simplicidade, da coerência com os valores do Evangelho… É inútil esconder a cabeça na areia: estes dois modelos de existência nem sempre podem coexistir e, frequentemente, excluem-se um ao outro. Temos de fazer a nossa escolha, sabendo que ela terá consequências no nosso estilo de vida, na forma como nos relacionamos com os irmãos, na forma como o mundo nos vê e, naturalmente, na satisfação da nossa fome de felicidade e de vida plena. Não podemos tentar agradar a Deus e ao diabo e viver uma vida “morna” e sem exigências, procurando conciliar o inconciliável. A questão é esta: estamos ou não dispostos a aderir a Jesus e a segui-l’O no caminho do amor e do dom da vida?
¨ Os “muitos discípulos” de que fala o texto que nos é proposto não tiveram a coragem para aceitar a proposta de Jesus. Amarrados aos seus sonhos de riqueza fácil, de ambição, de poder e de glória, não estavam dispostos a trilhar um caminho de doação total de si mesmos em benefício dos irmãos. Este grupo representa esses “discípulos” de Jesus demasiado comprometidos com os valores do mundo, que até podem frequentar a comunidade cristã, mas que no dia a dia vivem obcecados com a ampliação da sua conta bancária, com o êxito profissional a todo o custo, com a pertença à elite que frequenta as festas sociais, com o aplauso da opinião pública… Para estes, as palavras de Jesus “são palavras duras” e a sua proposta de radicalidade é uma proposta inadmissível. Esta categoria de “discípulos” não é tão rara como parece… Em diversos graus, todos nós sentimos, por vezes, a tentação de atenuar a radicalidade da proposta de Jesus e de construir a nossa vida com valores mais condizentes com uma visão “light” da existência. É preciso estarmos continuamente numa atitude de vigilância sobre os valores que nos norteiam, para não corrermos o risco de “virar as costas” à proposta de Jesus.
¨ Os “doze” ficaram com Jesus, pois estavam convictos de que só Ele tem “palavras que comunicam a vida definitiva”. Eles representam aqueles que não se conformam com a banalidade de uma vida construída sobre valores efêmeros e que querem ir mais além; representam aqueles que não estão dispostos a gastar a sua vida em caminhos que só conduzem à insatisfação e à frustração; representam aqueles que não estão dispostos a conduzir a sua vida ao sabor da preguiça, do comodismo, da instalação; representam aqueles que aderem sinceramente a Jesus, se comprometem com o seu projeto, acolhem no coração a vida que Jesus lhes oferece e se esforçam por viver em coerência com a opção por Jesus que fizeram no dia do seu batismo. Atenção: esta opção pelo seguimento de Jesus precisa de ser constantemente renovada e constantemente vigiada, a fim de que o nível da coerência e da exigência se mantenha.
¨ Na cena que o Evangelho de hoje nos traz, Jesus não parece estar tão preocupado com o número de discípulos que continuarão a segui-l’O, quanto com o manter a verdade e a coerência do seu projeto. Ele não faz cedências fáceis para ter êxito e para captar a benevolência e os aplausos das multidões, pois o Reino de Deus não é um concurso de popularidade… Não adianta escamotear a verdade: o Evangelho que Jesus veio propor conduz à vida plena, mas por um caminho que é de radicalidade e de exigência. Muitas vezes tentamos “suavizar” as exigências do Evangelho, a fim de que ele seja mais facilmente aceite pelos homens do nosso tempo… Temos de ter cuidado para não desvirtuarmos a proposta de Jesus e para não despojarmos o Evangelho daquilo que ele tem de verdadeiramente transformador. O que deve preocupar-nos não é tanto o número de pessoas que vão à Igreja; mas é, sobretudo, o grau de radicalidade com que vivemos e testemunhamos no mundo a proposta de Jesus.
¨ Um dos elementos que aparece nitidamente no nosso texto é a serenidade com que Jesus encara o “não” de alguns discípulos ao projeto que Ele veio propor. Diante desse “não”, Jesus não força as coisas, não protesta, não ameaça, mas respeita absolutamente a liberdade de escolha dos seus discípulos. Jesus mostra, neste episódio, o respeito de Deus pelas decisões (mesmo erradas) do homem, pelas dificuldades que o homem sente em comprometer-se, pelos caminhos diferentes que o homem escolhe seguir. O nosso Deus é um Deus que respeita o homem, que o trata como adulto, que aceita que ele exerça o seu direito à liberdade. Por outro lado, um Deus tão compreensivo e tolerante convida-nos a dar mostras de misericórdia, de respeito e de compreensão para com os irmãos que seguem caminhos diferentes, que fazem opções diferentes, que conduzem a sua vida de acordo com valores e critérios diferentes dos nossos. Essa “divergência” de perspectivas e de caminhos não pode, em nenhuma circunstância, afastar-nos do irmão ou servir de pretexto para o marginalizarmos e para o excluirmos do nosso convívio.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho



Seguir Jesus Cristo
I. A primeira leitura da missa (1) relata‑nos o momento em que o Povo de Deus, tendo já atravessado o Jordão, estava a ponto de entrar na Terra Prometida. Josué convocou todas as tribos de Israel em Siquém, e disse‑lhes: Se vos desagrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses, a quem os vossos pais serviram na Mesopotâmia, se aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Quanto a mim e à minha casa, serviremos o Senhor. E o povo respondeu: Longe de nós abandonarmos o Senhor [...], porque ele é o nosso Deus.
No Evangelho da missa (2), Jesus também propõe aos seus discípulos uma decisão sobre quem seguir. Depois do anúncio da Eucaristia na sinagoga de Cafarnaum, muitos discípulos abandonaram o Mestre por lhes terem parecido duras de aceitar as suas palavras sobre o mistério eucarístico. Jesus voltou‑se então para os que o tinham seguido dia após dia, e perguntou‑lhes: Quereis vós também retirar‑vos? E Pedro, em nome de todos, disse‑lhe: Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna; e nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus. Os Apóstolos dizem uma vez mais a Cristo que sim. Que seria deles sem Jesus? Para onde dirigiriam os seus passos? Quem satisfaria as ânsias dos seus corações? A vida sem Cristo, então como agora, não tem sentido.
Nós também dissemos sim, para sempre, a Jesus. Abraçamos a Verdade, a Vida, o Amor. A liberdade que Deus nos outorgou foi por nós dirigida na única direção certa. Naquele dia em que o Senhor pôs os olhos de modo especial em nós, dissemos‑lhe que Ele seria a meta para a qual encaminharíamos os nossos passos; e depois daquele momento, em muitas outras ocasiões, voltamos a dizer‑lhe: Senhor, a quem iríamos? Sem Ti, nada tem sentido.
Hoje é uma boa ocasião para vermos como é a qualidade da nossa entrega ao Senhor, se realmente deixamos de lado com alegria tudo o que nos possa afastar de Deus... “Queres fazer o favor de pensar – eu também faço o meu exame – se manténs imutável e firme a tua opção de vida?; se, ao ouvires essa voz de Deus, amabilíssima, que te estimula à santidade, respondes livremente que sim?” (3) Dizer sim ao Senhor em todas as circunstâncias significa também dizer não a outros caminhos, a outras possibilidades. Ele é o Amigo; só Ele tem palavras de vida eterna.
II. À semelhança daqueles discípulos que reafirmaram a sua plena adesão a Cristo, muitos homens e mulheres de todas as épocas e raças, depois de terem andado talvez por muito tempo na escuridão, um dia encontraram Jesus e viram aberto e sinalizado o caminho que conduzia ao Céu. O mesmo aconteceu conosco; finalmente a nossa liberdade não servia apenas para irmos de um lado para outro sem rumo fixo, mas para caminhar para um objetivo: Cristo! Então compreendemos o caráter surpreendentemente alegre da liberdade que escolhe Jesus e rejeita o que a separa dEle, porque “a liberdade não se basta a si mesma: precisa de um norte, de um roteiro” (4). O norte da nossa liberdade, o que marca constantemente a direção dos nossos passos, é o Senhor, pois sem Ele, a quem iríamos?; em que empregaríamos estes breves dias que Deus nos deu? Existe alguma coisa que valha a pena sem Ele?
Para muitos, infelizmente, a liberdade significa seguir os impulsos ou os instintos, deixar‑se levar pelas paixões ou por aquilo que lhes agrada num dado momento. Na verdade, estes homens – tantos! – esquecem que “a liberdade é certamente um direito humano irrenunciável e basilar, que, no entanto, não se caracteriza pelo poder de escolher o mal, mas pela possibilidade de realizar responsavelmente o bem, reconhecido e desejado como tal” (5). Um homem que tenha um conceito errôneo e pobre da liberdade rejeitará toda a verdade que proponha uma meta válida e obrigatória para todos os homens, porque lhe parecerá um inimigo da sua liberdade (6).
Se escolhemos Cristo, se Ele é o verdadeiro objetivo dos nossos atos, veremos como um bem imenso e uma valiosa orientação tudo o que nos indique o modo de avançarmos ao seu encontro ou nos aponte os obstáculos que nos separam dEle. O viajante que se dirige a uma região desconhecida consulta um mapa, pergunta aos que conhecem o caminho e segue os sinais da estrada, e não o faz a contragosto, mas com todo o interesse, pois deseja chegar ao seu destino. Não se sente de maneira nenhuma diminuído na sua liberdade, nem considera uma humilhação depender dos mapas, sinais e guias para chegar aonde pretende. Se estava inseguro ou começava a sentir‑se perdido, as sinalizações que encontra são para ele motivo de alívio e agradecimento.
Não é verdade que geralmente confiamos mais nos mapas ou nas sinalizações da estrada do que no nosso sentido de orientação? Quando aceitamos esses sinais, não experimentamos nenhuma sensação de imposição; recebemo‑los antes como uma grande ajuda, como um novo conhecimento, que não demoramos a converter em coisa própria.
Ora bem, é o que se passa com os Mandamentos de Deus, com as leis e ensinamentos da Igreja, com os conselhos que recebemos na direção espiritual ou que pedimos numa situação difícil... São sinais que, de maneiras diferentes, garantem a nossa liberdade, a livre escolha que fizemos de seguir Jesus, abandonando outros caminhos que não nos levam aonde queremos ir. “A autoridade da Igreja, nos seus ensinamentos de fé ou de moral, é um serviço. É a sinalização do caminho que leva ao Céu. Merece toda a confiança, porque goza de uma autoridade divina. Não se impõe a ninguém. Simplesmente é oferecida aos homens. E cada um pode, se quiser, apropriar‑se dela, torná‑la sua...” (7)
Não devemos surpreender‑nos se alguma vez esses sinais indicadores de que Deus se serve, nos levam a abandonar caminhos ou avenidas que pareciam mais suaves, para nos conduzirem a outros mais íngremes e difíceis. Ainda que essa escolha possa sofrer os protestos do nosso comodismo, sempre teremos a alegria – também quando sentirmos as asperezas do caminho – de ver que a nossa vida tem um objetivo formidável, escolhido talvez há muito tempo ou há poucas semanas. Vamos em direção ao cume, e ali espera-nos Cristo.
III. As sinalizações que o Senhor nos vai dando devem merecer da nossa parte toda a confiança: são brilhantes pontos de luz que iluminam o caminho para que possamos vê-lo e percorre-lo com segurança. Quem procura corresponder sinceramente às graças de Deus nota que, nesse seguimento de Cristo, encontra a liberdade. Ao escutar as moções divinas, pode ver, finalmente, o caminho iluminado: “Não se sentem os mandamentos como uma imposição vinda de fora, mas como uma exigência nascida de dentro, e à qual, portanto, a pessoa se submete de bom grado, livremente, porque sabe que, desse modo, pode realizar‑se plenamente” (8). E então toma a decisão absolutamente pessoal de aderir a Cristo e assim realizar a plenitude a que todos fomos chamados.
“O homem – ensina o papa João Paulo II – não pode ser autenticamente livre nem promover a verdadeira liberdade se não reconhecer e viver a transcendência do seu ser sobre o mundo e a sua relação com Deus, pois a liberdade é sempre a do homem criado à imagem do seu Criador [...]. Cristo, Redentor do homem, torna-nos livres. Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres, diz o apóstolo são João (8,36). E São Paulo acrescenta: Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade (2Cor. 3,17). Ser libertado da injustiça, do medo, da aflição, do sofrimento, não serviria de nada se se permanecesse escravo no fundo do coração, escravo do pecado. Para ser verdadeiramente livre, o homem deve ser libertado dessa escravidão e transformado numa nova criatura. A liberdade radical do homem situa‑se, pois, num nível mais profundo: o da abertura a Deus pela conversão do coração, já que é no coração do homem que se situam as raízes de toda a sujeição, de toda a violação da liberdade” (9).
Enquanto cada um dos dias em que seguimos o Senhor nos faz experimentar com mais força a alegria da nossa escolha e a expansão da nossa liberdade, vemos ao nosso redor como vivem na escravidão os que um dia voltaram as costas a Deus e não quiseram conhece-lo.
“Escravidão ou filiação divina: eis o dilema da nossa vida. Ou filhos de Deus ou escravos da soberba, da sensualidade, desse egoísmo angustiante em que tantas almas parecem debater-se.
“O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: a minha liberdade para Ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas” (10). Ao escolhermos Cristo como fim da nossa vida, acabamos por ganhar tudo.
Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna. Reafirmemos também hoje o nosso seguimento de Cristo, com muito amor, confiantes na sua ajuda cheia de misericórdia; e digamos com plena liberdade: A minha liberdade para Ti. Imitaremos assim Aquela que soube dizer: Eis aqui a escrava do Senhor, faça‑se em mim segundo a tua palavra.
Francisco Fernández-Carvajal