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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Dois mandamentos

30º DOMINGO TEMPO COMUM

26 de Outubro de 2014
Ano A

OS DOIS MANDAMENTOS-José Salviano


AMAR A DEUS E AO PRÓXIMO
Evangelho - Mt 22,34-40

               A liturgia deste domingo nos mostra que toda a Lei, tudo o que os profetas disseram, tudo o que foi escrito pelos autores sagrados e foi compilado na Bíblia ou na Torá, tudo isso foi resumido por Jesus Cristo em apenas DOIS MANDAMENTOS. Leia mais



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AMOR É O RESUMO DA LEI  - LOURDES
Domingo - 26 de Outubro  - Evangelho - Mt 22,34-40

Em Jerusalém, as lideranças religiosas representadas pelos fariseus, saduceus, anciãos do povo e doutores da Lei, entram em conflito com Jesus. Eles não queriam mudanças, estavam agarrados as suas verdades e tradições, temiam perder seus privilégios e  achavam que Jesus, com suas novas ideias, colocava em perigo a religião. Queriam que tudo ficasse como estava, pois era vantajoso para eles, viviam bem, dinheiro não faltava, tinham status, tudo estava muito bom, queriam conservar a vida como estava. Por isso, sempre procuravam um jeito de envolver Jesus em alguma “cilada” para poderem condená-lo à morte.
Os fariseus eram observantes rigorosos de todos os detalhes da Lei. O desejo maior de um fariseu era o de ser chamado “irrepreensível”. A própria palavra “fariseu” mostra como eles se imaginavam: amigos de Deus, “separados” do povo pecador e ignorante que, desconhecendo a Lei e suas exigências, só podia ser considerado maldito tanto por Deus quanto por eles.
Os fariseus teriam que seguir com rigor a Lei, pois a amizade com Deus dependia disto 613 mandamentos: 365 proibições (não se deve fazer) e 248 prescrições (é preciso fazer). As mulheres tinham que observar somente as proibições. Portanto, só os fariseus, “os separados”, poderiam ter acesso a Deus porque só eles cumpriam todos os mandamentos, prescrições e proibições. O povo não era alfabetizado, não conhecia a lei, era considerado impuro e maldito.
E Jesus? Vivia no meio do povo e não participava da vida das elites. As elites se sentiam incomodadas por Jesus e por isso tentavam minar a autoridade Dele, que ensinava e promovia o povo. Organizados em grupo querem fazê-lo cair numa armadilha.
Os fariseus esperavam uma resposta definitiva do Mestre da Justiça a respeito do maior mandamento da Lei. Que Jesus dissesse que todos os mandamentos eram iguais em importância. Jesus responde, citando uma passagem do Deuteronômio: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento”. Como amava e defendia o povo pobre e sofrido, acrescenta outro mandamento: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. E conclui afirmando que “toda Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”. Esses dois mandamentos são a expressão maior da vontade de Deus. São o resumo de toda a Bíblia.
Não existe, pois, como desejavam os fariseus, um amor a Deus e outro ao próximo, pois amar as pessoas como a si mesmo é amá-las “de todo o coração, de toda a alma, e de todo o entendimento”. E isso os fariseus não admitiam, porque consideravam o povo maldito, impuro e merecedor de desprezo. Mas, para Jesus, amar a Deus é amar o povo.
Jesus e o Pai nos amam de modo extraordinário. E amar o próximo “como a si mesmo” é amar com o mesmo modo extraordinário como fomos e somos amados por Deus. Jesus põe no mesmo plano o amor a Deus e ao próximo. Quando trato bem e amo o meu irmão, Deus se alegra porque todos são seus filhos. Qual pai não fica contente quando alguém agrada seus filhos?
Os fariseus imaginavam que seria possível ser fiel a Deus sem ser fiel ao povo, que eles desprezavam. Mas Jesus ensina que é necessário amar a Deus e ao próximo com a mesma intensidade.
O maior mandamento é o Amor a Deus e ao próximo. Jesus une a observância do amor a Deus à vivência do amor ao próximo. Somos amados por Deus e a nossa resposta de amor deve ser uma atitude prática e generosa do bem para com os outros. Só podemos amar a Deus amando o próximo, porque nós, seres humanos, não podemos alcançar a Deus diretamente, só através de seus filhos. Todo bem ou todo mal que fazemos ao irmão, é a Deus que fazemos.
O catecismo dos cristãos não é difícil, pode ser aprendido por inteiro numa só lição. Quem cumpriu o mandamento do amor já cumpriu toda a Lei. O Amor é o resumo da Lei. Tudo quanto Deus faz é por amor. O amor é a característica do agir de Deus. Assim deve ser o nosso agir. Se nossos gestos não forem por amor, mesmo os gestos grandiosos de fidelidade a Deus não terão o devido valor, por falta de amor.
Jesus teve sua vida pautada no amor. Só assim é possível compreender o testemunho de vida de Jesus, nosso amado salvador, a quem devemos seguir suas pegadas para chegarmos ao Pai na eternidade.

Oração: Pai, que toda minha vida, nos passos de teu filho, seja pautada pelo amor, pois, só assim, terei a certeza de estar no caminho que me leva a ti. Amém!

Lourdes


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Evangelhos Dominicais Comentados

26/outubro/2014 – 30o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Mt 22, 34-40)

O evangelho de hoje é bem “curtinho”. Tem poucas palavras, mas tem também uma das mais claras e diretas mensagens. Manda viver o amor. É o resumo de tudo que precisamos saber e viver. Fala do amor a Deus e do amor ao próximo.

Jesus diz que amar a Deus de todo coração, de toda alma e de todo entendimento é o primeiro e maior mandamento. Diz também que amar ao próximo como a nós mesmos é semelhante ao primeiro. Com essas palavras Jesus disse que, amar ao próximo é tão importante quanto amar a Deus.

Essas palavras deixam claro que, não existe separação entre o amor a Deus e ao nosso semelhante. Reafirmam a verdade destas outras palavras: “Ninguém pode dizer que ama a Deus, que não vê, se não ama ao irmão que está ao seu lado”.

Foi bom tocar nesse assunto, deve servir para esclarecer algumas dúvidas: afinal de contas, quem é esse irmão? Acho que não é para mim esse recado, pois sou filho único e nem irmão eu tenho! Como posso reconhecer e amar alguém que nem sequer conheço? Onde estará esse desconhecido, onde estarão esses irmãos?

Boa pergunta. Estão aqui, bem pertinho, bem ao nosso lado! Quantas irmãs, quantos irmãos de todas as idades. São velhos, jovens e crianças. Estão por ai aos milhares, abandonados e maltrapilhos. Doentes, sem emprego, sem terra e sem nada. Dependem de mim, dependem de você... precisam de amor.

Realmente esse recado é direto para todos nós. Jesus pede a aproximação porque sabe que quando nos aproximarmos desses marginalizados e olharmos em seus olhos, veremos neles a nossa imagem refletida. Isso prova que não são desconhecidos; nós estamos neles, e eles também deveriam estar aqui dentro de nós, refletidos em nossos olhos.

Este evangelho me lembra de um lindo poema, mais ou menos, assim: “Procurei a Deus, em todos os cantos e não o encontrei. Busquei a mim mesmo, em todas as partes e não me achei. Procurei então o meu próximo e, nele encontrei os três”. Sem dúvida, no amor fraterno encontramos a Deus e nos reencontramos.

Amar o próximo não é uma coisa tão simples e fácil. Às vezes relutamos em dar amor e, em outras vezes temos a impressão que o próximo não quer ser amado; é respondão, malcriado e nada amável. O verdadeiro amor tudo supera e não se deixa abater. Amar não é coisa superficial, amar exige compreensão e gestos concretos. 

É preciso deixar o discurso de lado e sair a campo. Sempre há algo que se pode fazer. Amar não se resume em andar abraçados pelas ruas. Prova de amor é lutar contra as injustiças sociais, contra o desemprego e o abandono. Amar de verdade é assumir o compromisso batismal, é levar aos povos a Boa Nova. Amar é acreditar e tornar vivas estas palavras: “Só podemos amar a Deus através do amor ao próximo”.

 

( 1160 )

jorgelorente@ig.com.br - 26/outubro/2014
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No passado Domingo, o Senhor Jesus ordenava: “Dai a Deus o que é de Deus!” De Deus é tudo, ainda que tudo pareça nosso: “Tudo pertence a vós: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras.Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor. 3,21-23). Esta é, precisamente, a dificuldade, a miopia ou, mais ainda, a cegueira, o triste pecado do mundo atual: não perceber Deus, não enxergar com a razão, com o afeto, com o coração que Deus é o Tudo, o Substrato, o Sentido da nossa existência. Sem ele, nada tem sentido perene, nada tem valor duradouro, nada tem valor absoluto... nem a vida humana, que somente pode ser respeitada de modo absoluto quando é compreendida como imagem de Deus.
Pois bem, a Palavra deste Domingo prolonga a de oito dias atrás. “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”, da Lei de Moisés – perguntam ao Senhor para novamente tentar apanhá-lo em armadilha. Qual o preceito que, sendo observado, resume a observância de toda Lei? Jesus responde prontamente: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!” Como bom judeu, o Senhor Jesus nada mais faz que retomar o preceito do Antigo Testamento. Amar a Deus! Amá-lo significa fazer dele o tudo da nossa existência, significa viver a vida aberta para ele, buscando sinceramente a sua santa vontade. Amá-lo é não conceber a vida como algo que é meu em sentido absoluto, mas um dom que recebi de Deus, que em diante de Deus devo viver e a Deus devo, um dia, devolver com frutos. Amá-lo é não viver na minha vontade, mas buscando a sua santa vontade, mesmo que esta não seja o que eu esperaria ou desejaria... Amá-lo é sair de mim para encontrar-me nele!
Mas, para que este amor a Deus não seja algo abstrato, teórico, meramente feito de palavras ou sentimentos superficiais, o Senhor Jesus nos aponta uma medida concreta desse amor. Seguindo ainda a tradição judaica do Antigo Testamento, ele liga, condiciona o amor a Deus ao amor aos outros, aos próximos, àqueles que a providência divina coloca no nosso caminho: “’Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”. Eis, portanto: a medida da verdade do amor a Deus é o amor, a dedicação para com os outros; e não os outros teoricamente, mas os próximos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo!” Notemos que aqui Jesus não ensina nada de novo. Este preceito já valia para um bom judeu. Jesus está respondendo a um fariseu, um escriba judeu. Basta recordar como a primeira leitura de hoje, tirada da Torah, da Lei de Moisés, já ligava os dois amores, a Deus e ao próximo. O Senhor, já no Antigo Testamento, deixava claro que estará sempre do lado do nosso próximo, sobretudo se ele for débil e necessitado: “Se clamar por mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.” Estejamos, portanto, atentos: o amor concreto para com o nosso próximo é a medida do nosso amor a Deus! O Evangelho – como todo o Novo Testamento e a reta e sadia Tradição da Igreja – desconhece uma relação com Deus baseada numa fé sem obras que nasçam do amor. Basta recordar o belíssimo hino ao amor, da Primeira Carta aos Coríntios: “Ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, eu nada seria” (13,2). Que ninguém se iluda com um vazio discurso sobre uma fé vã sem as obras que dela nascem e a revelam! A fé sem amor a Deus e ao próximo, aquela fé que gosta de dizer “estou salvo” de se compraz em decretar a condenação dos outros é uma fé inútil, vazia, falsa e morta!
Caríssimos, se o Senhor Jesus respondeu ao escriba fariseu, dizendo que ele deveria amar a Deus e ao próximo como a si mesmo, a nós, seus discípulos, a nós, cristãos, ele aponta um ideal muito mais alto! Ouso afirmar que não basta, de modo algum para um cristão, amar os outros como a si mesmo! Recordai-vos todos que, na véspera de sua paixão santíssima, quando sentou-se à Mesa santa conosco, para dar-se a nós na Eucaristia, como maior dom de amor, o Senhor nosso e Deus nosso, Jesus Cristo, deu-nos, então, o mandamento pleno, completo: “Amai-vos como eu vos amei!” (Jo. 13,34); “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo. 13,15). Agora, às vésperas da cruz, agora, à Mesa da Eucaristia, agora, lavando-nos os pés, dando-se totalmente a nós, Jesus poderia ser compreendido! Ele é o amor verdadeiro, ele é a medida e o modelo do amor: “Não há maior prova de amor que dar a vida!” (Jo. 15,13) Amai-vos como eu vos amei!
Eis, caríssimos, como é grande a tarefa que o Senhor nos confia! Quem poderá realizá-la? Onde poderemos conseguir um amor assim? Eu vos digo: contemplando Jesus na oração, escutando Jesus na Escritura, comungando com Jesus na Eucaristia, procurando Jesus nos irmãos! É assim que teremos os mesmos sentimentos do Cristo Jesus (cf. Fl. 2,5) e viveremos a vida no amor total que ele, nosso Senhor, teve para com Deus, o Pai e para com os próximos. Fora disso, toda conversa sobre amor não passa de teoria, de ideologia que de cristã tem pouco ou nada. Que o Senhor nos conceda, então, por esta Eucaristia, o dom do verdadeiro amor. Amém.
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia do 30º domingo Comum diz-nos, de forma clara e inquestionável, que o amor está no centro da experiência cristã. O que Deus pede – ou antes, o que Deus exige – a cada crente é que deixe o seu coração ser submergido pelo amor.
O Evangelho diz-nos, de forma clara e inquestionável, que toda a revelação de Deus se resume no amor – amor a Deus e amor aos irmãos. Os dois mandamentos não podem separar-se: “amar a Deus” é cumprir a sua vontade e estabelecer com os irmãos relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, até ao dom total da vida. Tudo o resto é explicação, desenvolvimento, aplicação à vida prática dessas duas coordenadas fundamentais da vida cristã.
A primeira leitura garante-nos que Deus não aceita a perpetuação de situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos e pela dignidade dos mais pobres e dos mais débeis. A título de exemplo, a leitura fala da situação dos estrangeiros, dos órfãos, das viúvas e dos pobres vítimas da especulação dos usurários: qualquer injustiça ou arbitrariedade praticada contra um irmão mais pobre ou mais débil é um crime grave contra Deus, que nos afasta da comunhão com Deus e nos coloca fora da órbita da Aliança.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã (da cidade grega de Tessalónica) que, apesar da hostilidade e da perseguição, aprendeu a percorrer, com Cristo e com Paulo, o caminho do amor e do dom da vida; e esse percurso – cumprido na alegria e na dor – tornou-se semente de fé e de amor, que deu frutos em outras comunidades cristãs do mundo grego. Dessa experiência comum, nasceu uma imensa família de irmãos, unida à volta do Evangelho e espalhada por todo o mundo grego.
Leitura I – Ex 22,20-26
AMBIENTE
O “Decálogo” ou “dez mandamentos” (cf. Ex 20,2-17) era, sem dúvida, o coração da Aliança e apresentava os valores fundamentais que deviam marcar o comportamento do Povo de Deus, quer em relação aJahwéh, quer em relação à vida comunitária. No entanto, as leis do “Decálogo” eram relativamente gerais e não consideravam todos os casos e situações…
A complexidade da vida diária obrigou, portanto, a um esclarecimento e a uma concretização das leis apresentadas no “Decálogo”. Em conseqüência, surgiram novas normas, bem concretas, que regulavam o dia a dia do Povo de Deus. Uma ampla recopilação dessas leis aparece no Livro do Êxodo.
Logo a seguir ao “Decálogo”, em lugar de honra, os catequistas de Israel colocaram um bloco heterodoxo de leis, que se convencionou chamar “Código da Aliança” (cf. Ex 20,22-23,19). São leis que os autores do Livro do Êxodo apresentam como ditadas por Deus a Moisés, no Sinai; na realidade, trata-se de leis de proveniência diversa, cuja antiguidade continua a ser discutida, mas que a maioria dos comentadores faz remontar ao tempo dos “juízes” (séc. XII a.C.).
O “Código da Aliança” é um bloco legislativo que regula vários aspectos da vida do Povo de Deus, desde o culto até às relações sociais. Trata-se de um conjunto de prescrições, soluções, disposições justas, sãs e sólidas, que solucionam as dificuldades, explicam os princípios e ordenam a conduta dos homens nas situações comuns e variáveis da condição humana. Nele sobressai, não só uma consciência muito viva de que Israel é chamado à comunhão com Deus, mas também um forte sentido social. Revela um Povo preocupado em concretizar os compromissos da Aliança na vida do dia a dia. Sugere que a fé de Israel não é uma realidade abstrata ou fantasmagórica, mas uma realidade bem viva, que se deve viver em cada sector da vida prática.
O texto que hoje nos é proposto é um estrato do “Código da Aliança”.
MENSAGEM
A nossa leitura refere-se exatamente a algumas exigências sociais que resultam da Aliança. Apresenta indicações concretas acerca da forma como lidar com três realidades de carência, de necessidade, de debilidade: a do estrangeiro, a do órfão e da viúva, e a do pobre que foi obrigado a pedir dinheiro emprestado. Trata-se, em qualquer caso, de pessoas em situação difícil, quer em termos jurídicos, quer em termos sociais, quer em termos econômicos.
O “estrangeiro” é frequentemente um desenraizado, obrigado a deixar a sua terra de referência e o seu quadro de relações familiares, atirado para um ambiente cultural e social adverso, e onde as leis locais nem sempre protegem convenientemente os seus direitos e a sua dignidade. A sua situação de debilidade é aproveitada, com freqüência, por pessoas sem escrúpulos que os exploram, que os escravizam e que contra eles cometem impunemente as maiores injustiças.
O “órfão” e a “viúva” integram a categoria das vítimas tradicionais dos abusos dos poderosos. Desprotegidos, ignorados pelos juízes e pelos dirigentes, sem defesa diante das arbitrariedades dos mais fortes, vítimas de toda a espécie de injustiças, têm em Jahwéh o seu único defensor.
O “pobre que pede dinheiro” é, quase sempre, esse camponês carregado de impostos, arruinado por anos de más colheitas, que tem de pedir dinheiro emprestado para pagar as dívidas e para sustentar a família. A sua extrema necessidade é explorada pelos usurários e pelos especuladores sem escrúpulos, que o obrigam a deixar como penhor os seus bens mais básicos. Sufocado por juros altíssimos, acaba por tudo perder e por ficar na miséria mais absoluta, condenado a morrer de frio ou de fome.
A sensibilidade de Israel diz-lhe que Deus não aceita a perpetuação destas situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos dos mais pobres e débeis. Se Israel pretende viver em comunhão com Deus e aproximar-se do Deus santo, tem de banir do meio da comunidade as injustiças e as arbitrariedades cometidas sobre os mais débeis – nomeadamente sobre os estrangeiros, os órfãos, as viúvas e os pobres. Essa é uma das condições para a manutenção da Aliança.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes dados:
O apelo a não prejudicar nem oprimir o estrangeiro convida-nos a considerar como acolhemos esses imigrantes que cruzam as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida e que, além da solidão, das dificuldades lingüísticas, do desenraizamento cultural, ainda são vítimas do racismo, da xenofobia, da má vontade, da exploração, das arbitrariedades cometidas por empresários sem escrúpulos, das violências praticadas pelas máfias que transacionam carne humana. Não podemos ficar indiferentes e insensíveis aos seus dramas e sofrimentos, ou sentir-nos alheados e desresponsabilizados face às injustiças que contra eles se cometem. Precisamos de ver em cada homem ou mulher – russo, moldavo, ucraniano, romeno, cabo-verdiano, angolano, guineense – um irmão que Deus colocou ao nosso lado e que temos de cuidar, proteger e amar.
O apelo a não maltratar nem a fazer qualquer mal à viúva e ao órfão convida-nos a considerar a forma como acolhemos e tratamos os nossos irmãos mais débeis, sem defesa, ou que pertencem a grupos de risco… São as crianças, exploradas, usadas, maltratadas, condenadas precocemente a uma vida de trabalho e impedidas de viver a infância; são os idosos, atirados para lares, condenados em vida a uma existência de sombras, subtraídos ao seu ambiente familiar e às suas relações sociais; são os doentes incuráveis, abandonados, condenados à solidão, que escondemos e que evitamos para não perturbar a nossa boa disposição e o mito de uma vida isenta de sofrimento e de morte… Precisamos de aprender que todos os homens e mulheres – particularmente os mais débeis, os mais carentes, os mais abandonados – devem ser respeitados, protegidos e amados.
O apelo a não explorar os pobres convida-nos a considerar a situação daqueles que não têm instrução e estão condenados a uma vida de trabalho escravo, ou que têm de viver com salários de miséria, ou que são vítimas da especulação com bens essenciais, ou que são enganados e vilipendiados… O nosso texto diz claramente que Deus não aceita um mundo construído deste jeito e sugere que nós, crentes, não podemos tolerar as situações que roubam a vida e a dignidade dos pobres.
Leitura II - 1 Tes 1,5c-10

AMBIENTE
Já vimos, no passado domingo, o contexto em que apareceu a Primeira Carta aos Tessalonicenses…
Depois de ter anunciado o Evangelho em Tessalónica e de ter juntado à sua volta uma comunidade viva e entusiasta, constituída majoritariamente por cristãos vindos do mundo pagão, Paulo teve de deixar a cidade à pressa, para fugir às maquinações dos judeus (ano 49/50). Entretanto, preocupado com a fidelidade dos tessalonicenses ao Evangelho, Paulo enviou Timóteo de volta a Tessalónica, a fim de saber notícias e de encorajar os tessalonicenses na fé. Paulo estava em Corinto quando Timóteo regressou de Tessalónica e apresentou o seu relatório. As notícias eram verdadeiramente animadoras: os tessalonicenses eram uma comunidade exemplar e viviam animada e empenhadamente o seu compromisso cristão, apesar das dificuldades e da hostilidade do meio.
Paulo, feliz e confortado, escreveu aos tessalonicenses animando-os a prosseguir no caminho da fidelidade a Jesus e ao Evangelho. Aproveitou também para completar a formação doutrinal dos tessalonicenses e para corrigir alguns aspectos da vida da comunidade. Estamos na Primavera/Verão do ano 50 ou 51.
MENSAGEM
Paulo continua a longa ação de graças que começou no vers. 2. Ação de graças, porquê?
Porque à ação evangelizadora dos apóstolos (Paulo, Silvano, Timóteo) e do Espírito Santo, os tessalonicenses responderam com o acolhimento entusiasta do Evangelho. O nascimento para Cristo da jovem comunidade cristã de Tessalónica aconteceu num ambiente de alegria e de júbilo, apesar da hostilidade provocada pela oposição dos judeus e pela tensão entre os cristãos e as autoridades da cidade.
De resto, a alegria e o sofrimento fazem parte do dinamismo do Evangelho, desde o início… Cristo ofereceu a sua vida até à cruz para que a Boa Nova do Reino chegasse a toda a humanidade; Paulo imitou Cristo e anunciou o Evangelho no meio de dificuldades e perseguições; os tessalonicenses imitaram Paulo e receberam jubilosamente o Evangelho, apesar da hostilidade dos seus concidadãos; os crentes de toda a Grécia (“da Macedônia e da Acaia”, as duas províncias romanas da Grécia) imitaram os tessalonicenses e sofreram alegremente pelo Evangelho… Dessa forma, fica manifesto que o Senhor, os apóstolos e toda a Igreja partilham o mesmo destino: todos percorrem o mesmo caminho, iluminados pelo Evangelho, no meio da alegria e do sofrimento.
A história desta longa cadeia que vai de Jesus à Igreja mostra que o Evangelho se torna um dinamismo de vida e de salvação para todos os povos quando é acolhido na alegria, apesar do sofrimento e da perseguição.
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta, na reflexão e partilha, os seguintes dados:
Muitas vezes entendemos a fé como um acontecimento pessoal, que diz respeito apenas a nós próprios e a Deus (“eu cá tenho a minha fé”) e que não nos compromete com os outros. Na realidade, a fé liga-nos a uma longa cadeia que vem de Jesus até nós e que inclui uma imensa família de irmãos espalhados pelo mundo inteiro. Tenho consciência de pertencer a uma família de fé e sinto-me unido e solidário com todos os meus irmãos em Cristo? Tenho consciência de que o meu testemunho e a minha vivência ajudam e enriquecem os meus irmãos, assim como a vivência e o testemunho dos meus irmãos me enriquecem e me ajudam a mim?
Nenhuma comunidade cristã é uma ilha. É preciso que as comunidades cristãs partilhem, estabeleçam laços, se interpelem uma às outras, se ajudem, se animem mutuamente… É nesse diálogo e nessa partilha que o projeto de Deus se vai tornando mais claro para todos e que podemos discernir, com mais nitidez, os caminhos de Deus. As nossas comunidades cristãs e religiosas estão abertas à partilha, ou são células isoladas, que vivem num total alheamento dos problemas, das vicissitudes e das dificuldades das outras comunidades?
Paulo considera que o dinamismo do Evangelho se cumpre na experiência paradoxal da alegria e da dor… Receber o Evangelho com alegria significa abrir-lhe o coração, acolhê-lo, deixar que ele encontre uma terra boa onde possa frutificar e dar fruto… A dor, por sua vez, não é uma realidade boa e que devamos procurar; mas pode ajudar-nos a confiar mais em Deus, a entregarmo-nos nas suas mãos, a amadurecermos o nosso empenho e o nosso compromisso, a percebermos o sentido dos valores evangélicos do dom e da entrega da vida.
Evangelho – Mt 22,34-40
AMBIENTE
O Evangelho deste domingo leva-nos, outra vez, a Jerusalém, ao encontro dos últimos dias de Jesus. Os líderes judaicos já fizeram a sua escolha e têm idéias definidas acerca da proposta de Jesus: é uma proposta que não vem de Deus e que deve ser rejeitada… Jesus, por sua vez, deve ser denunciado, julgado e condenado de forma exemplar. Para conseguir concretizar esse objetivo, os responsáveis judaicos procuram argumentos de acusação contra Jesus.
É neste ambiente que Mateus situa três controvérsias entre Jesus e os fariseus. Essas controvérsias apresentam-se como armadilhas bem organizadas e montadas, destinadas a surpreender afirmações polémicas de Jesus, capazes de ser usadas em tribunal para conseguir a sua condenação. Depois da controvérsia sobre o tributo a César (cf. Mt 22,15-22) e da controvérsia sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mt 22,23-33), chega a controvérsia sobre o maior mandamento da Lei (cf. Mt 22,34-40). É esta última que o Evangelho de hoje nos apresenta… Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito.
A questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica e era, no tempo de Jesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação em atualizar a Lei, de forma a que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a pôr em prática. Esta “multiplicação” dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros?
É esta a questão que é posta a Jesus.
MENSAGEM
A resposta de Jesus, no entanto, supera o horizonte estreito da pergunta e vai muito mais além, situando-se ao nível das opções profundas que o homem deve fazer… O importante, na perspectiva de Jesus, não é definir qual o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E, na perspectiva de Jesus, essa raiz gira à volta de duas coordenadas: o amor a Deus e o amor ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários a estes dois mandamentos.
Os cristãos de Mateus usavam a expressão “a Lei e os Profetas” para se referirem aos livros inspirados do Antigo Testamento, que apresentavam a revelação de Deus (cf. Mt 5,17; 7,12). Dizer, portanto, que “nestes dois mandamentos se resumem a Lei e os Profetas” (vers. 40), significa que eles encerram toda a revelação de Deus, que eles contêm a totalidade da proposta de Deus para os homens.
A originalidade deste sumário evangélico da Lei não está nas idéias de amor a Deus a ao próximo, que são bem conhecidas do Antigo Testamento: Jesus limita-Se a citar Dt 6,5 (no que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz respeito ao amor ao próximo)… A originalidade deste ensinamento está, por um lado, no fato de Jesus os aproximar um do outro, pondo-os em perfeito paralelo e, por outro, no fato de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos.
Portanto, o compromisso religioso (que é proposto aos crentes, quer do Antigo, quer do Novo Testamento) resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo. Na perspectiva de Jesus, que é que isto quer dizer?
De acordo com os relatos evangélicos, Jesus nunca se preocupou excessivamente com o cumprimento dos rituais litúrgicos que a religião judaica propunha, nem viveu obcecado com o oferecimento de dons materiais a Deus. A grande preocupação de Jesus foi, em contrapartida, discernir a vontade do Pai e a cumpri-la com fidelidade e amor. “Amar a Deus” é pois, na perspectiva de Jesus, estar atento aos projetos do Pai e procurar concretizar, na vida do dia a dia, os seus planos. Ora, na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai passa por fazer da vida uma entrega de amor aos irmãos, se necessário até ao dom total de si mesmo.
Assim, na perspectiva de Jesus, “amor a Deus” e “amor aos irmãos” estão intimamente associados. Não são dois mandamentos diversos, mas duas faces da mesma moeda. “Amar a Deus” é cumprir o seu projeto de amor, que se concretiza na solidariedade, na partilha, no serviço, no dom da vida aos irmãos.
Como é que deve ser esse “amor aos irmãos”? Este texto só explica que é preciso “amar o próximo como a si mesmo”. As palavras “como a si mesmo” não significam qualquer espécie de condicionalismo, mas que é preciso amar totalmente, de todo o coração.
Noutros textos mateanos, Jesus explica aos seus discípulos que é preciso amar os inimigos e orar pelos perseguidores (cf. Mt 5,43-48). Trata-se, portanto, de um amor sem limites, sem medida e que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos. Aliás, Lucas, ao contar este mesmo episódio que o Evangelho de hoje nos apresenta, acrescenta-lhe a história do “bom samaritano”, explicando que esse “amor aos irmãos” pedido por Jesus é incondicional e deve atingir todo o irmão que encontrarmos nos caminhos da vida, mesmo que ele seja um estrangeiro ou inimigo (cf. Lc 10,25-37).
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão e partilha, considerar os seguintes pontos:
Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de virtudes, que arrastamos pesadamente pela história. Algures durante o caminho, deixamos que o inevitável pó dos séculos cobrisse o essencial e o acessório; depois, misturamos tudo, arrumamos tudo sem grande rigor de organização e de catalogação e perdemos a noção do que é verdadeiramente importante. Hoje, gastamos tempo e energias a discutir certas questões que são importantes (o casamento dos padres, o sacerdócio das mulheres, o uso dos meios anticonceptivos, as questões acerca do que é ou não litúrgico, aos problemas do poder e da autoridade, os pormenores legais da organização eclesial…) mas continuamos a ter dificuldade em discernir o essencial da proposta de Jesus. O Evangelho deste domingo põe as coisas de forma totalmente clara: o essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida plena e definitiva para os homens. Precisamos de rever tudo, de forma a que o lixo acumulado não nos impeça de compreender, de viver, de anunciar e de testemunhar o cerne da proposta de Jesus.
O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projetos – para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo. Esforço-me, verdadeiramente, por tentar escutar as propostas de Deus, mantendo um diálogo pessoal com Ele, procurando refletir e interiorizar a sua Palavra, tentando interpretar os sinais com que Ele me interpela na vida de cada dia? Tenho o coração aberto às suas propostas, ou fecho-me no meu egoísmo, nos meus preconceitos e na minha auto-suficiência, procurando construir uma vida à margem de Deus ou contra Deus? Procuro ser, em nome de Deus e dos seus planos, uma testemunha profética que interpela o mundo, ou instalo-me no meu cantinho cômodo e renuncio ao compromisso com Deus e com o Reino?
O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida… Na realidade, a minha vida é posta ao serviço dos meus irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Os pobres, os necessitados, os marginalizados, os que alguma vez me magoaram e ofenderam, encontram em mim um irmão que os ama, sem condições?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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"Exulte o coração dos que buscam a Deus. Sim, buscai o Senhor e sua força, procurai sem cessar a sua face"(cf. Sl. 104, 3s).
Hoje somos convidados a buscar sem cessar a Deus.
O povo do antigo testamento foi muito bem educado na fé. Em uma análise muito profunda, com várias comparações com outras religiões, a religião de Israel dá um passo e um peso notabilíssimo à ética. Nisto consiste a primeira leitura de hoje(cf. Ex. 22,20-26), através de uma perícope antiguíssima, que relata em que convinha no agir das coisas simples do dia-a-dia da vida. A leitura relata o ensinamento de ontem e de hoje para não oprimir aqueles que são estrangeiros, migrantes, que padecem da ausência da terra paterna, tendo em vista que os israelitas perambularam como estrangeiros também. A leitura também nos ajuda a refletir sobre a necessidade de respeitar e apoiar as viúvas e os órfãos, bem como não cobrar juros elevados. Quem recebe um manto em penhor, tem que devolvê-lo antes da noite, para que a pessoa não passe a noite no relento.
A Primeira Leitura nos apresenta regras concretas para praticar o amor ao próximo. Trata-se de uma antiga coleção de normas concretas, colocadas sob a égide da Aliança – Código da Aliança – que trata da proteção aos pobres. Até os operários migrantes – estrangeiros – são considerados. Estas leis mostram como, numa sociedade simples, predominantemente rural, se encarna a Aliança com Javé, que dá proteção a seu povo e espera dele justiça. Quem despreza os pobres, está longe de Deus.
Irmãos e Irmãs,
O Evangelho de hoje(cf. Mt. 22,34-40) poderia ser resumido na seguinte frase: No equilíbrio das dimensões do amor está a santidade.
Mateus narra o maior mandamento nas suas três discussões com o judaísmo, respectivamente com os herodianos, com os saduceus e com os escribas farisaicos. Estes últimos querem ver como Jesus resume a Lei – que continha, conforme os rabinos, 248 mandamentos e 365 proibições, atribuindo-se igual peso a todos. Mas a resposta de Jesus é clara e incontestável: sem o amor a Deus e ao próximo, os outros mandamentos ficam vazios. O duplo mandamento principal é como os gonzos que seguram a porta da Lei. Jesus revela a unidade de dois mandamentos que, no Antigo Testamento, se encontram muito distantes: o judaísmo, pela multidão das árvores, não enxergava a floresta.
Jesus, nas palavras de Mateus, está no átrio do templo de Jerusalém, ou em miúdos, no coração da espiritualidade e da religiosidade dos judeus. Mas o que Jesus está fazendo ali? Ele está ali para mudar a mentalidade do povo em pontos fundamentais, ou seja, que toda a lei dos profetas é resumida na beleza do AMOR, a alma das leis, a lei das leis, o maior mandamento.
O amor que deve ser vivido em três estágios importantes: no amor para Deus, no amor para o próximo e no amor consciente da própria pessoa que caminha “na busca do rosto sereno e radioso do Seu Senhor”.
Irmãos e Irmãs,
A santidade é o resumo do amor para Deus, o amor para o próximo e o amor pessoal. O amor é o cumprimento da lei. No tempo de Jesus muitas eram as leis, umas muito radicais e outras muito simples. Era um corolário enorme para ser cumprido. Quando perguntaram maliciosamente qual era a lei de Deus a resposta do Divino Salvador foi imediata: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. No equilíbrio do amor a Deus, ao próximo e a sua própria pessoa como templo e habitação do Espírito Santo está a novidade de hoje: tudo isso é possível, porque assim agindo os cristãos já vivem aqui e agora a santidade de caminhada de vida cristã.
A certeza maior que todos hoje devemos ter é que amar até o extremo, amar sem reservas, dando-se e recebendo este amor misericordioso, o homem fica mais perto da palma da mão de Deus.
Se o cumprimento da lei era o distintivo do povo israelita, Deus hoje nos chama a atenção que não podemos fazer uma dicotomia entre a Lei de Deus e a Lei da Igreja, uma vive em função da outra, porque “A Lei Mata, mas o espírito vivifica” (cf. Rm. 4,6).
Seria como se eu ensinasse nas minhas lições de direito canônico que o direito é mais importante disciplina da Igreja. Não, o direito tem por finalidade iluminar a vida da Igreja. Por exemplo, se uma lei da Igreja está prejudicando a caminhada pastoral é necessário que eu a deixe de lado, ou mesmo a reinterprete, porque “a lei maior é a salvação das almas”.
Tudo isso porque amar a Deus e ao próximo são dois amores diferentes e inseparáveis. São distintos, mas devem caminhar juntos. Porque esse amor deve ser um amor inteligível, consciente, que gera compromisso com a vida comunitária e pastoral de nossa Igreja.
Ao assumir a condição humana Cristo assumiu toda a nossa humanidade, especialmente, nossos pecados. Viver o amor verdadeiro, nestas três dimensões, é um desafio cotidiano de conversão e de mudança de vida e de mentalidade. Se Deus nos salvou na Cruz nós devemos mergulhar no seu mistério, principalmente procurando buscar o rosto deste Senhor nos irmãos excluídos e marginalizados, naqueles que estão fora da escola, na rua, no relento, amando a todos com grande gratuidade e generosidade, porque Deus caristas est, ou seja, Deus é supremo amor, “porque onde há amor e a caridade aí Cristo está”.
Irmãos e Irmãs,
A Segunda Leitura(cf. 1 Tessalonicenses 1,5-10) coloca os tessalonicenses como exemplo de uma fé generosa, sem mesquinharias, na busca do Senhor Ressuscitado, na busca do rosto do Senhor da Vida. Os Tessalonicenses por se terem convertido ao Deus vivo, o Deus que age e fala e é escutado. Para estes primeiros cristãos, converter-se a Deus e a Jesus Cristo significava também esperar ardentemente a Parusia, a presença gloriosa de Jesus como Senhor. Já se sabem livres da condenação.
O mistério de Cristo, no seu todo, é vivido na Igreja, no conjunto de seus membros e em todos os séculos. O contemplativo serve aos homens, servindo a Deus; o ativo serve a Deus servindo aos homens. Os dois exprimem, especializando-se na imitação do Cristo, um mesmo e único mistério: o da vida religiosa do Verbo encarnado.
Chegando ao final do ano litúrgico em que nós somos convidados a uma preparação espiritual para a chegada do Advento e do Nascimento do Salvador todos nós devemos nos esforçar para “sermos imitadores dos Mistérios do Senhor”. Caminhando nesta perspectiva, com muito amor a Deus, ao próximo e a si mesmo devemos rever nossa caminhada, nos lançando na nova evangelização confiantes de que unidos na caridade, vivendo a Eucaristia, chegaremos a Deus, supremo amor e paz!
padre Wagner Augusto Portugal

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O mandamento do amor
A organização da sociedade supõe sempre regras de conduta que possibilitem uma normal relação entre as pessoas, digamos numa autêntica cidadania. Foi sempre assim desde o Código de Amurabi, escrito na pedra 2500 anos a.C., até à Carta das Nações que em 1948 consagrou os Direitos Humanos. Mais do que normas morais ou regulamentos fechados são precisas referências éticas que, em todas as situações, defendam e promovam a liberdade e a dignidade de todo o ser humano. Estas regras de conduta aparecem claramente no Livro do Êxodo com a defesa intransigente dos mais fracos (1ª leitura), são muito claras no Evangelho que propõe dois únicos mandamentos, o amor a Deus e ao próximo (Evangelho) e merecem o elogio de Paulo que aos Tessalonicenses pede que sejamos seus imitadores no cumprimento da Palavra que se recebe pelo Espírito Santo (2ª leitura). Toda a liturgia deste domingo consagra o mandamento do amor.
1. O mandamento novo é o amor
A proposta dos Mandamentos na história do Povo de Israel e na proposta de Jesus Cristo, vem-se simplificando até uma fórmula radical: “dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros” (Jo. 13, 34). No Deuteronômio, constam mais de 600 regras que os israelitas tinham que cumprir para serem fieis a Javeh. Esta complexidade de normas deu origem ao farisaísmo radical. Não era a lei feita para o homem, como dirá mais tarde Jesus Cristo, era o homem feito para a lei. Moisés, no caminho do deserto, subiu ao Monte Sinai e ali recebeu as Tábuas da Lei, com apenas 10 Mandamentos (cf. Ex. 20). Moisés guiava o povo pelos caminhos da liberdade e, por isso, sintetizava em 10 orientações os grandes princípios da vida em comum, na relação com Deus e na relação de uns com os outros. Quando Jesus vem, Ele diz claramente que não vem revogar a Lei, antes completá-la. Porém, reduz tudo a dois mandamentos, “Amar a Deus e amar o próximo” (cf. Mt. 22, 37-39). Mais tarde João no seu Evangelho reduz tudo ao mandamento do amor naquela Palavra de Jesus “Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros como eu próprio vos amei” (Jo. 13, 34). A partir daqui há um só mandamento, o mandamento do amor.
2. Privilegiar os mais pobres
Desde o Povo de Israel até aos nossos dias, o mandamento do amor admite e propõe um privilégio, o de amar prioritariamente os mais carenciados. É assim no Livro do Êxodo em que os estrangeiros, as viúvas, os órfãos, os pobres devem receber gestos de amor. Há que proteger o pobre como o faz Deus que é cheio de misericórdia. Esta idéia será enriquecida por Jesus ao pedir que se tenha um coração de pobre disponível para os que sofrem (cf. Mt. 5, 3). A Igreja continuará a fazê-lo através dos séculos até Paulo VI quando ao falar da evangelização nos tempos modernos, dizia que é preciso acolher e ser solidário com os mais pobres e os que têm mais dificuldades (cf. EN 21). O verdadeiro amor irá privilegiar sempre os mais carenciados.
3. Importa ser sempre testemunha do amor
Paulo na carta aos Tessalonicenses reconhece como estes o souberam imitar nas atitudes de amor universal. Esta prática do amor alicerça-se sempre na Palavra de Deus, mesmo no meio de muitas tribulações e recebe uma força maior no Espírito Santo, Ele próprio o amor entre o Pai e o Filho no mistério de Deus. Baseados no testemunho de Paulo também os Tessalonicenses são testemunhas de amor na Macedônia, na Acaia, em todas as outras terras. Fica claro que o cristão dá sempre testemunho do amor universal.
monsenhor Vitor Feytor Pinto in “Revista de Liturgia Diária”

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Fomos criados para conhecer, servir e amar a Deus nesta vida e viver em comunhão de Verdade e de Amor com a Santíssima Trindade, com Nossa Senhora, os Anjos e os Santos do Paraíso para sempre.
Deus quer que esta nossa felicidade eterna comece, de algum modo, na terra, para continuar eternamente no Céu, embora elevada a um grau infinito. Participamos desde o batismo na Verdade que é Deus, pela fé da Igreja, e da Sua Vida de Amor, pela graça batismal.
Amar é a nossa vocação temporal e eterna, e o amor é a síntese de toda a Lei cá na terra.
A Igreja celebra neste Domingo o Dia Mundial das Missões, lembrando que este incêndio do amor de Deus deve ser ateado em todos os corações, tornando as pessoas participantes desta felicidade na terra e no Céu.
1. Somos o rosto de Deus
Jesus Cristo passou visivelmente pela terra há dois mil anos e ensinou-nos o caminho do Céu.
As pessoas conhecem-n’O hoje por aqueles que afirmam que O seguem na vida e na doutrina. É pelo testemunho de vida dos cristãos que as pessoas hão-de vir ao encontro de Jesus Cristo. Nós somos o Seu rosto, perante as pessoas que vão conosco a caminho do Céu.
Por isso, temos necessidade de meditar na Sua vida e de procurar imitá-lo.
• Profundamente humanos com todos. «Eis o que diz o Senhor: “Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás [...]. Não maltratarás a viúva nem o órfão.”»
Abandonados a nós mesmos, facilmente transformamos o mundo numa selva na qual o mais forte devora o mais débil. Verificamos isto mesmo ao longo da história e nos nossos dias.
Foi o homem pecador, seduzido pelo demônio, que instituiu no mundo a exploração dos mais fracos, a degradação da mulher em todas as suas formas, e a falta de respeito pela vida.
Ainda hoje, quando o homem se afasta de Deus, rapidamente implanta no mundo a opressão sobre os seus irmãos.
São pessoas paganizadas as que implantam o aborto legalizado e pago com o dinheiro público, oprimem os outros com leis injustas, e degradam a mulher em redes de pecado e de crime.
A posição social, profissional, econômica ou familiar não nos pode servir de motivo para oprimir os outros, os que estão em condição inferior, para os tratar injustamente e sem amor.
Sentir-se superior, elevar-se diante dos outros, desagrada ao Senhor e é uma ilusão, porque somos todos fundamentalmente iguais. Não há razão para complexos de superioridade.
Os povos acabam sempre por derrubar os que se fazem super-homens e rejeita-os.
Estamos todos ao serviço uns dos outros e vivemos já na terra a comunhão a que somos chamados a viver eternamente no Céu.
A fé ensina-nos que temos uma dignidade infinita porque somos todos – ou podemos ser – pela Batismo filhos de Deus.
Portar-se com altivez, falar aos outros com sobranceria é uma tentação para quem alcança posições de mando.
• Deus está do lado dos mais fracos. «Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada.»
À primeira vista, parece que nada acontece àqueles que oprimem os outros e vivem insensíveis perante o sofrimento que lhes causam.
Mas com exemplos tirados da vida corrente, o Senhor ensina-nos o quanto Lhe desagrada o comportamento de insensibilidade para com os problemas alheios e como isto acarretará a nossa infelicidade.
Deus é misericordioso para com todos, mas o coração daquele que assim procede fecha-se, endurece e insensibiliza-se à graça. Não é Deus se afaste dele, mas ele mesmo se fecha ao Seu amor.
O modo de proceder do nosso Deus desconcerta-nos, porque os homens costumam estar quase sempre do lado dos mais fortes, mas é convite a que também nós procedamos deste modo.
Estejamos atentos ao nosso modo de proceder, pois quando experimentamos dificuldades na vida espiritual, insegurança nas tentações, falta de alegria e paz, havemos de pensar se tudo isto acontece pelo trata desumano que damos aos outros, pela insensibilidade que alimentamos perante o desamparo.
• Protege os mais débeis. «Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr do sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele?»
São exemplos de profunda humanidade os que o Senhor nos dá. Na antiguidade. A par de uma carência de agasalhos, havia estas espécies de penhor, por dívidas. Uma pessoa a quem fosse penhorada a capa teria de passar a noite a tiritar de frio.
Hoje, que estas situações acabaram, outras estão a surgir.
Há os que não têm trabalho para sustentar a família, que foram vítimas de injustiças, quer porque foram excluídos para deixar o lugar a outros, quer porque a empresa foi conduzida à falência por má administração ou mesmo fraudulentamente.
Os injustiçados que vêem os seus direitos de rastos pelos tribunais, vítimas de pessoas que se servem da sua influência para adiar as decisões ou fazê-las reverter em seu favor.
Pessoas vítimas de calúnias, que perdem a saúde e a alegria, pelo sofrimento que estas lhes causam.
Como podemos ser instrumentos de Deus no mundo, protegendo os mais débeis?
Há-de havê-los sempre na sociedade, por causa dos pecados dos homens que abusam da força ou da situação dos menos dotados.
Juntemos à sua a nossa voz, denunciando as injustiças e prontifiquemo-nos a defendê-los, todas as vezes que isso for possível.
2. O amor no centro da vida
A pergunta que fizeram a Jesus era embaraçosa naquela época, porque a casuística tinha elevado as prescrições da Lei a 613 e não era fácil eleger a que estava acima de todas.
Na Sua pregação, Jesus ensinou que o homem não era para o sábado, mas o sábado para o homem
• Amar a Deus. «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’.Este é o maior e o primeiro mandamento.»
Amar a Deus sobre todas as coisas é o primeiro Mandamento da Lei e a razão de ser dos outros nove. Tudo quanto fazemos na vida há-de ser movido por este amor.
Não podemos imaginar uma vida agradável ao Senhor sem um esforço constante para fomentar a intimidade com Deus, pela fidelidade aos mandamentos, pela oração e pelo apostolado.
Um modo prático de viver este mandamento é renovar a intenção muitas vezes ao dia. Foi isto que o Anjo da Guarda de Portugal ensinou aos três Pastorinhos: “Dizei assim, sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó meu deus, é por Vosso amor...”
Temos de dar testemunho da nossa fé sendo profundamente piedosos.
“Tudo por Amor. Assim não há coisas pequenas:” (S. Josemaria, Caminho).
Os amores e os interesses humanos hão-de estar centrados neste amor. Não faz sentido ofender a Deus para manifestar amor a qualquer pessoa. Quando isto acontece, o amor que se manifesta não é verdadeiro amor.
O amor a Deus concretiza-se em fazer a Sua vontade; e isto nem sempre agrada aos nossos sentidos, por causa da desordem que o pecado original introduziu em nós.
Também o amor humano exige sacrifício heróico. Não se alimenta só de consolações.
• Amá-l’O nos irmãos. «‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’»
O Senhor planeou que iniciássemos na terra a vida de comunhão com os nossos irmãos.
Amamos tudo o que Deus ama. De outro modo, não O amaríamos com sinceridade. Sabemos que o homem é o único ser criado que Deus ama em razão de si mesmo. (cf. Concílio Vaticano I, Constituição Pastoral GaudiumetSpes).
Este amor concretiza-se em desejar o maior bem às pessoas, porque amar é querer bem.
Mas como não somos exclusivamente espirituais, devemos transparecer este amor com boas obras. Não se trata apenas de parecermos simpáticos, mas de vivermos em comunhão de alegrias e sofrimentos com as outras pessoas.
Por vezes, este amor mistura-se com a dor, porque exige de nós sacrifícios e pode, por sua vez, mortificar os outros. Quando o médico trata um doente, vê-se obrigado, por vezes, a molestá-lo. E as mães conhecem bem o quanto sofrem pelos seus filhos.
Quando se trata do amor ao próximo, é preciso levantar o olhar para o alto, como quem guia um veículo olhando sempre em frente. Às vezes, os pais entendem como amor o fazer todas as vontades aos filhos. Se um médico fizesse todas as vontades ao doente, e pusesse de lado os medicamentos que eles se recusam a tomar, abandonava-o à sua doença e à morte.
• Propagar este incêndio do Amor. «recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; [...] partindo de vós, a palavra de Deus ressoou não só na Macedônia e na Acaia, mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus.»
O bem supremo para todas as pessoas é a comunhão eterna com Deus. Nunca podemos esquecer esta orientação fundamental da nossa vida.
Amamos as pessoas quando lhes damos a conhecer Deus e as ensinamos a amá-l’O, cumprindo a Sua Lei.
Por isso, a evangelização missionária está no coração da Igreja e dos cristãos e constitui o testamento de Jesus, momentos antes de subir ao Céu. (cf. Mateus, 28,19).
Evangelizar não é mais uma devoção entre muitas outras. É uma preocupação nuclear para a nossa vida de filhos de Deus.
O nosso amor a Deus não seria verdadeiro, sincero, enquanto não procurássemos que Ele seja conhecido e amado por todas as pessoas. Ele é um Pai magnânimo e quer que todas as pessoas se sentem à Sua mesa na felicidade eterna do Céu.
Como poderemos viver este mandamento do Senhor?
Rezando pelos que lançam no mundo a semente do Evangelho. Sem a oração, a boa semente não germina. Ao rezar pela causa missionária fazemos um ato de humildade, porque reconhecemos que a evangelização não é fruto de uma ciência humana, mas obra de Deus. Os que evangelizam não azem mais do que oferecer ao Senhor os cinco pães e dois peixes, ou encher a talhas de água. A partir daí, o Senhor fará o milagre de encher as redes de bom peixe.
Muitas pessoas – podiam ser muitas mais – entregam a sua vida à difusão do Evangelho. Além destas que dedicam a vida inteira a este amor, podemos e devemos evangelizar o nosso meio. O grande inimigo de Deus nos nossos dias é a ignorância religiosa.

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“O amor pelo próximo nasce da escuta dócil da Palavra divina.”
A Palavra do Senhor, que há pouco ressoou no Evangelho, recordou-nos que no amor se resume toda a Lei divina. O Evangelista Mateus narra que os fariseus, depois de Jesus ter respondido aos saduceus fechando-lhes a boca, reuniram-se para o pôr à prova (cf. 22,34-35). Um destes, um doutor da lei, perguntou-lhe: Mestre, na Lei, qual é o grande mandamento?" (v. 36). A pergunta deixa transparecer a preocupação, presente na antiga tradição judaica, de encontrar um princípio unificador das várias formulações da vontade de Deus. Era uma pergunta difícil, considerando que na Lei de Moisés são contemplados 613 preceitos e proibições. Como discernir, entre todos eles, o maior? Mas Jesus não hesita, e responde imediatamente: "Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. É este o maior e o primeiro mandamento" (vv. 37-38). Na sua resposta, Jesus cita o Shemá, a oração que o israelita piedoso recita várias vezes ao dia, sobretudo de manhã e à tarde (cf. Dt. 6,4-9; 11,13-21; Nm. 15,37-41): a proclamação do amor íntegro e total devido a Deus, como único Senhor. O realce é dado à totalidade desta dedicação a Deus, enumerando as três características que definem o homem nas suas estruturas psicológicas profundas: coração, alma e mente. A palavra mente, diánoia, contém o elemento racional. Deus não é apenas objeto do amor, do compromisso, da vontade e do sentimento, mas também do intelecto, que portanto não deve ser excluído deste âmbito. É precisamente o nosso pensamento que se deve conformar com o pensamento de Deus. Mas depois Jesus acrescenta algo que, na realidade, não tinha sido perguntado pelo doutor da lei: "O segundo é semelhante ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo" (v. 39). O aspecto surpreendente da resposta de Jesus consiste no fato de que Ele estabelece uma relação de semelhança entre o primeiro e o segundo mandamento, definido também esta vez com uma fórmula bíblica tirada do código levítico de santidade (cf. Lv. 19,18). E eis portanto que na conclusão do trecho os dois mandamentos são associados no papel de princípio-base no qual se baseia toda a Revelação bíblica: "Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas" (v. 40).
A página evangélica sobre a qual estamos a meditar realça que ser discípulos de Cristo significa pôr em prática os seus ensinamentos, que se resumem no primeiro e maior mandamento da Lei divina, o mandamento do amor. Também a primeira Leitura, tirada do Livro do Êxodo, insiste sobre o dever do amor; um amor testemunhado concretamente nas relações entre as pessoas: devem ser relações de respeito, de colaboração, de ajuda generosa. O próximo a ser amado é também o estrangeiro, o órfão, a viúva e o indigente, aqueles cidadãos que não têm "defensor" algum. O autor sagrado desce a pormenores específicos, como no caso do objeto dado em penhor por um destes pobres (cf. Êx. 20,25-26). Neste caso é o próprio Deus que faz de fiador na situação deste próximo.
Na segunda Leitura podemos ver uma aplicação concreta do máximo mandamento do amor numa das primeiras comunidades cristãs. São Paulo escreve aos Tessalonicenses, fazendo-lhes compreender que, apesar de os conhecer há pouco tempo, os aprecia e sente por eles afeto. Por isso indica-os como um "modelo para todos os crentes da Macedônia e da Acaia" (1Ts. 1,6-7). Não faltam certamente debilidades e dificuldades naquela comunidade fundada recentemente, mas é o amor que tudo supera, tudo renova, tudo vence: o amor de quem, consciente dos próprios limites, segue docilmente as palavras de Cristo, Mestre divino, transmitidas através de um seu fiel discípulo. "Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor escreve São Paulo acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar das numerosas tribulações". "Partindo de vós, se divulgou a Palavra do Senhor, não apenas pela Macedônia e Acaia, mas propagou-se por toda a parte a fé que tendes em Deus" (1Ts. 1,6-8). Os ensinamentos que tiramos da experiência dos Tessalonicenses, experiência que na verdade irmana qualquer comunidade cristã autêntica, é que o amor pelo próximo nasce da escuta dócil da Palavra divina. É um amor que aceita também provações duras pela verdade da palavra divina e precisamente assim o verdadeiro amor cresce e a verdade resplandece em todo o seu esplendor. Como é então importante ouvir a Palavra e encarná-la na existência pessoal e comunitária! [...]
As leituras que a liturgia oferece hoje à nossa meditação recordam-nos que a plenitude da Lei, como de todas as Escrituras divinas, é o amor. Portanto quem pensa que compreendeu as Escrituras, ou pelo menos uma parte delas, sem se comprometer a construir, mediante a sua inteligência, o dúplice amor de Deus e do próximo, na realidade demonstra que ainda está longe de ter compreendido o seu sentido profundo. […] Maria Santíssima, que ofereceu a sua vida como "serva do Senhor", para que tudo se cumprisse em conformidade com a vontade divina (cf. Lc. 1,38) e que exortou a fazer tudo quanto Jesus dissesse (cf. Jo 2, 5), nos ensine a reconhecer na nossa vida a primazia da Palavra, a única que pode dar a salvação. Assim seja! (Bento XVI)