.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 30 de agosto de 2016

23º DOMINGO TEMPO COMUM-C

23º DOMINGO TEMPO COMUM

4 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Sb 9,13-18

Salmo - Sl 89


2ª Leitura - Fm 9b-10.12-17


Evangelho - Lc 14,25-33



Por onde Jesus nadava, Ele era seguido, acompanhado por muita gente. Pessoas que buscavam principalmente o alívio dos seus sofrimentos através da cura. E depois de curados, muitos continuavam seguindo Jesus para ouvir suas belas palavras de conforto, e de esperança de vida. Jesus era manso e humilde, e se dirigia a todos com carinho e atenção.  Continua

PRIMEIRA LEITURA



========================================

“Quem não carrega a sua cruz e não vem após mim, não pode ser o meu discípulo” (Lc. 14,27). Essa emblemática frase dita por Jesus, conservada pela comunidade lucana, nos coloca na condição do seguimento, do caminho. Caminho, em hebraico derek, é o que nos lembra o texto das bem-aventuranças (Mt. 5,1-12 e Lc. 6,20-23). Ser um bem-aventurado é pôr-se em marcha, estar a caminho. É como se Jesus dissesse: “Em marcha os que têm sede e fome de justiça – continuem nessa luta, nesse caminho, porque vocês serão saciados” (Mt. 5,6). Quem está em marcha é um bem-aventurado, pois está a caminho. E o caminho é dinâmico e exige estar de pé, disposto a não parar nunca. O bem-aventurado é aquele que caminha em Deus.
As leituras de hoje nos colocam, inevitavelmente, nesse caminho do seguimento de Jesus, o qual exige: sabedoria, amor ao excluído, reflexão e cruz. O que significa para nós seguir Jesus, tendo a cruz como caminho? O sofrimento salva? Como ser sábio no seguimento de Jesus? Eis algumas questões para a homilia deste domingo.
1º leitura (Sb. 9,13-19): o caminho da sabedoria
A primeira leitura deve ser compreendida a partir dos capítulos anteriores e, sobretudo, de Sb. 9,1-12, a oração do rei Salomão, na qual ele pede sabedoria para governar Israel. O seu contexto é a comunidade judaica radicada em Alexandria, no Egito. Salomão descreve a sua vida, igual à de todos os mortais, desde o nascimento, mas diferente, porque ele pediu a Deus e dele recebeu, como dom, a sabedoria. Sabedor de que a sabedoria é divina, ele diz que a prefere aos cetros e tronos, considerados bens terrenos preciosos. “Amei-a mais que a saúde e a beleza e me propus tê-la como luz” (Sb. 7,10), afirma Salomão. E ele ainda acrescenta que todos os seus bens materiais – uma riqueza incalculável, provêm da sabedoria (7,11).
Para o povo da Bíblia, a sabedoria vem de Deus. Ela se personifica, torna-se visível, na Torá, na Palavra de Deus. Os judeus cristãos dirão, mais tarde, que Jesus é a Sabedoria de Deus (1Cor. 1,24). Viver a Palavra de Deus em profundidade é ser sábio. Salomão incorporou a sabedoria no seu reino. Instituiu homens como sábios para recolher a sabedoria popular. A sua sabedoria foi notória entre todos os reinos da época. Verdade ou não, essa corrente de pensamento bíblico celebrizou Salomão como o grande sábio de Israel. Por isso, ele nem precisava perguntar a Deus o que deveria fazer para se salvar, pois sabia o caminho e o ensinava a todos.
A terceira parte da oração de Salomão, que constitui a nossa primeira leitura de hoje, constata que ao ser humano não compete conhecer o desígnio de Deus. Como criaturas, somos limitados. Temos um corpo corruptível que pesa sobre a alma. O corpo é uma tenda de argila que oprime a mente. Em outras palavras: o corpo impede o caminho da alma para o espiritual, o imortal e o celestial. Outros textos do Primeiro e do Segundo Testamentos – usamos as terminologias Primeiro e Segundo Testamentos, antes da Era Comum (a.E.C.) e Era Comum (E.C.) por razões ecumênicas com os judeus, que tratam dessas três questões – são: Rm 7,23; Gl. 7,17; Is. 38,22; Jó 4,19; 2Cor. 4,7; 5,1.4; 2Pd. 1,13; 1Pd. 1,13. Também a filosofia da época, Platão, Cícero, Sêneca e Horácio, tem afinidade com esse texto do livro da Sabedoria.
Qual é, então, a diferença do pensamento judeu, expresso no livro da Sabedoria, para essas filosofias? A resposta é: para o autor de Sabedoria, alma e corpo são sinônimos de uma mesma realidade. Elas não têm dois caminhos diversos e uma não é prisão da outra. E o que é mais evidente: os caminhos de Deus somente podem ser conhecidos com o dom da sabedoria dada ao ser humano e vinda dos céus como santo espírito (17). Aqui está a essência da oração de Salomão. A salvação do ser humano do Primeiro Testamento consiste em proteção divina diante dos perigos naturais e iminentes. Um caminho perfeito no seguimento da Torá (Lei/conduta) só será possível com o dom da sabedoria, que Deus envia do céu pelo seu espírito (v. 17). Salomão sabia disso. Será que os nossos governantes modernos têm consciência desse fato? Estamos próximos ao período eleitoral. Entre nossos políticos, encontramos pessoas sábias para nos governar?
Em relação aos judeus de Alexandria, o livro da Sabedoria aponta o caminho a partir da oração de Salomão, da qual eles haviam se apropriado, para resistir com fé diante do mundão pagão das filosofias gregas. Os cristãos, mais tarde, irão questionar e rejeitar a filosofia grega – Tertuliano dirá: “O que tem Atenas a ver com Jerusalém?”, mas acabarão assimilando seus valores no cristianismo.
Evangelho (Lc. 14,25-33): condições para seguir o Mestre Jesus
Só quem se coloca na dinâmica do mestre, daquele que ensina, é que pode manter-se no caminho. O caminho se faz caminhando, dizem os poetas. O caminho é sempre uma marcha que não para nunca.
O evangelho de hoje faz parte da famosa viagem lucana de Jesus rumo a Jerusalém (9,51-19,27). Jerusalém é a meta final do Salvador, pois ali ele iria realizar plenamente, com sua morte e ressurreição, a sua missão salvífica. A lógica do caminho de Jesus soa um tanto absurda: é preciso odiar pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs e a própria vida; carregar a própria cruz; renunciar a tudo que possui. E, além de tudo isso, ele dá um sábio conselho: sentar-se e preparar a caminhada, calculando, ponderando despesas etc. Em outras palavras: refletir antes de começar.
Jesus se dirige às grandes multidões que o acompanham de forma proselitista. Todos, no entanto, teriam que fazer opção: rejeitar ou aderir à sua proposta. E é o que ocorre. Jesus busca adeptos, discípulos, para a sua proposta de Reino. Ser discípulo de Jesus é o mesmo que entrar no Reino de Deus. Seguindo a lógica do Shemá Israel – Ouve, ó Israel, que estabelece três condições para viver a fé judaica: amar com o coração, a alma (ser) e as posses (Dt 6,4-5), Jesus usa três vezes a expressão “ser meu discípulo” (vv. 26, 27 e 33). O odiar pai, mãe etc., por se tratar do sentimento, representa o coração; o carregar a cruz a ponto de martírio representa o ser; e o renunciar aos bens, as posses. O discípulo preparado é o que segue o Shemá (Jacir de Freitas Faria, A releitura da Torá em Jesus. RIBLA, 40. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 18).
Renunciar a tudo e carregar a própria cruz (vv. 25-26). Essa é a primeira condição do novo discípulo. As comunidades de Mateus e de Marcos também haviam se lembrado desses ensinamentos de Jesus (Mt. 10,37; 19,29; Mc. 8,34), mas a de Lucas foi mais radical. Ela acrescentou deixar mulher, renunciar a própria vida e odiar. O verbo odiar jamais poderá ser entendido como rejeição aos pais, mulher e filhos. Um judeu nunca ensinaria ódio aos familiares, base de sua vida e de sua fé. Ódio aqui significa ter quer demonstrar mais dedicação a um, em detrimento do outro. O discípulo terá que fazer opção no seguimento, ser desapegado de tudo, por causa de Jesus. A comunidade de Mateus explicou isso muito bem, quando usou o comparativo “amar mais” (Mt. 10,37). Nessa mesma linha de pensamento está o carregar a própria cruz, que pode significar martírio e os sofrimentos advindos da cruz, a cruz pesada da vida. Até nisso, o discípulo tem que ter clareza no seguimento.
Planejar a caminhada. Tenho condições de ser discípulo? (vv. 28-32). As duas parábolas que seguem, a da torre e a do rei, querem dizer a mesma coisa: é preciso ter um planejamento, antes de iniciar a caminhada. Quem começar a construção de uma torre sem condições de terminá-la será motivo de chacota para os seus vizinhos. O mesmo ocorre com rei que não tem forças para enfrentar o inimigo, melhor seria negociar a paz.
O objetivo deve ser calculado conforme as nossas possibilidades. Se quero ser discípulo, devo ter consciência das minhas limitações. Para Jesus, quem não tivesse o martírio como possibilidade de consequência da opção pelo Reino não seria capaz de segui-lo. E Jesus diz isso para uma multidão. E termina enfaticamente: “quem não renunciar a tudo o que possui não pode ser o meu discípulo” (v. 33).
2ª leitura (Fm. 9b-10.12-17)
Paulo, o discípulo perfeito, prega a compaixão
O escravo Onésimo, que em grego significa útil, é o centro da ação de benevolência que Paulo solicita ao amigo Filêmon, um convertido por Paulo, na prisão de Éfeso, dono desse escravo fugitivo. Paulo se apresenta como um velho e prisioneiro, que pede e não manda, como poderia fazê-lo (vv. 8-9). Paulo é aqui o sábio seguidor de Jesus. A sua caminhada, desde a conversão, muito lhe ensinou. Agora, prisioneiro de Cristo, ele implora compaixão pelo escravo Onésimo, que deveria, segundo as leis, ser ferrado na testa, lançado às feras ou crucificado. Paulo pede que esse escravo, seu filho na fé e gerado por ele para Deus, fosse tratado como irmão no Senhor. Paulo diz a Filêmon que o escravo deve ser recebido como ele mesmo, rompendo, em Cristo, as barreiras entre escravos e livres. Com esse gesto, Paulo colocou em prática o ensinamento do seguimento de Jesus. Ele deixou tudo, estava prisioneiro da cruz de Cristo, e dava mostras de um novo tempo para os seguidores do Mestre.
Onésimo é útil para a demonstração de fé do amigo Filêmon. Ele perde um escravo, mas ganha um irmão. Onésimo é útil, a escravidão é inútil. Onésimo é útil para nos indicar um caminho de fé sem diferenças sociais, conforme nos testemunhou o apóstolo Paulo.
PISTAS PARA REFLEXÃO
A interpretação dos textos acima levou muitas comunidades de fé a interpretar a cruz como os sofrimentos da vida: dificuldades financeiras, drogas na família, traições etc. Seria aconselhável distinguir o sentido real da cruz de Cristo, como consequência de sua vida e não como fatalidade, do sentido popular de carregar a cruz – sofrimento passivo, simplesmente porque Jesus morreu na cruz.
Deus não quer o sofrimento. O sofrimento não é caminho de salvação. Muitos cristãos assim agiram ao longo da história, numa tremenda acomodação e aceitação do seu sofrimento, sem reagir diante das dificuldades, causando miséria humana e social. O cristão é um ser humano sempre a caminho. Sofrimento não salva. O que salva é o seguimento.
Aqueles que detêm o poder, seja econômico ou político, fazem uso dessa premissa para manter ou acobertar as injustiças. Como atuamos para evidenciar esse fato, sobretudo em relação àqueles que o fazem em nome da fé? Escravidão não é sinônimo de cidadania.
A vida de cada um de nós é marcada sempre pelas opções que fazemos. Já dizia a poetisa Cecília Meireles: “ou isso ou aquilo”. Temos que optar sempre. E toda opção exige renuncia, planejamento e dedicação à missão escolhida. Deus nos chama e nos oferece o dom da sabedoria. “E feliz de quem a encontra. Ganhá-la vale mais do que a prata, e o seu lucro mais do que o ouro... Felizes são os que a retêm” (Pr. 3,13-18).
padre Johan Konings, sj.

===================

“Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e de sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo”.
Assim debuta o evangelho proclamado neste domingo. Ser discípulo de Jesus é tarefa que nunca está terminada. É exigente empreitada.  Uma coisa é ser adepto de uma religião, seguidor de doutrinas, cumpridor de ritos.  Uma coisa é mesmo fazer votos e dizer-se do Senhor. Outra coisa é experimentar essa inquietação salutar de saber se somos do Senhor Jesus, se colocamos nossos passos nos seus passos.  Só assim poderemos explodir de alegria por sermos discípulos daquele que nos cativou.
Os que colocam qualquer coisa antes de Jesus, de preferência a Jesus, não podem ser seus discípulos.  Não se trata de deixar de amar pai e mãe, filhos e parentes.  O amor é  universal. A radicalidade da linguagem de Jesus e dos evangelhos aponta para a prioridade Jesus na vida do discípulo. Os vínculos familiares são importantes, mas o fascínio por Jesus vem antes.
Os que seguem a Jesus conhecem contradições.   Que expressão dura esta: quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo.
Conhecemos pessoas retas nas comunidades cristãs, em espaços de vida consagrada que não foram compreendidas, mas perseguidas, humilhadas e  achincalhadas. Tais pessoas costumam incomodar o status quo, a mesmice das coisas que se repetem.  Elas, devido à coerência interior, se unem à cruz de Cristo.  Não há dúvida quanto a isso.
Por isso, os discípulos serão vigilantes.  Não podem querer construir o discipulado sem atenção.  Não podem construir uma torre e deixá-la pela metade.  Precisam saber quantos soldados chegam para nos atacar. Os discípulos não cochilam, são atentos e vigilantes.
Felizes os catecúmenos, os jovens,  os postulantes, os noviços que encontram mestres e comunidades exemplares  que colocam diante de seus olhos o ideal do discipulado com toda a sua beleza e exigência.  Uma coisa é ser seguidor de uma religião, outra, bem diferente, ser discípulo de Cristo. Ninguém arranca de nosso coração o júbilo de, desde a nossa juventude, termos sido discípulos fiéis do Senhor belo e amoroso.
frei Almir Ribeiro Guimaeães

===============


Ponderar o custo do reino
A sabedoria nunca é conquistada para sempre. Sb. 9 (1ª leitura) é a prece da Salomão pela sabedoria; a segunda parte (v. 13-19) explica quanto ela é indispensável. Mas o mundo de hoje parece carecer dela mais do que Salomão. Nem mesmo respeita suas próprias fontes de subsistência, sacrificando tudo à manutenção de obscuros poderes e lucros, com a cumplicidade de praticamente todos, deixando-se envolver no jogo da competição e do consumo...
A sabedoria ensina a dar a tudo seu devido lugar, a ponderar o que é mais e o que é menos importante. Isso pode conduzir a conclusões que, aos olhos de pessoas superficiais, parecem loucura. As exigências do seguimento de Jesus parecem loucura:“Odiar (= não preferir) pai e mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs” (Lc. 14,26), por causa de Cristo e seu evangelho, não é isso uma loucura? Não, diz Lucas (evangelho). É a conseqüência da sabedoria cristã, da ponderação a respeito do investimento necessário para o Reino de Deus. Começar a construir a torre sem o necessário capital é que é loucura, pois todo mundo ficará gozando da gente porque não conseguiu concluir a obra! A alusão à torre de Babel, símbolo da vaidade e confusão humana, é evidente. O homem sábio faz seu orçamento: decide quanto ele vai investir. No caso do cristão, o único orçamento adequado é o do investimento total, já que se trata do supremo bem, sem o qual os outros ficam sem sentido. Ainda bem que os recursos são inesgotáveis.
A sabedoria cristã consiste em ousar optar radicalmente pelo valor fundamental, mesmo se isso exige uma escolha dolorosa contra pessoas muito queridas, realidade que se repetia diariamente na Igreja do tempo de Lc. Estas palavras foram dirigidas às “grandes multidões” que seguiam Jesus (Lc. 14,25), e não só a monges e ascetas. Além disso, formam a seqüência de exortação ao convite gratuito e à parábola do grande banquete, em que Jesus ensina a dar a preferência às pessoas “não gratificantes” em vez dos familiares e amigos (cf. dom. pass.). Assim, “não preferir” seus familiares se pode referir, concretamente, a duas realidades: a perseguição, que obriga o cristão a preferir o Cristo acima dos laços de parentesco e até acima da própria vida (sentido primeiro); mas também a preferência, por causa do Evangelho, por categorias de pessoas pouco estimadas, excluídas, às custas do círculo social costumeiro.
Ouve-se, em nosso ambiente, muitas vezes, a observação de que é preciso ter “bom senso” em questões de justiça e direito. Será que não se chama de bom senso o que é apenas medo? Quando é claro que o amor de Cristo está em jogo, a sabedoria cristã exige um investimento radical e estratégias para lhe abrir espaço. Porém, radicalidade não é imprudência. É liberdade frente àquilo que nos pode desviar do que é prioritário. A sabedoria cristã nos ajuda a estabelecer as opções preferenciais certas. Ora, para não perder tudo, é preciso realizar as opções sabiamente feitas. Quem acha que seguir Cristo é fundamental, deve fazê-lo, custe o que custar. Portanto, o sábio cristão não é o sofista brilhante, que explica tudo, sem jamais se comprometer. É o homem que, ao mesmo tempo lúcido e convicto, investe tudo no que julga ser o sentido último da existência e da História, à luz na fé em Cristo Jesus. O sábio não é aquele que hesita, quando se trata de saltar, mas aquele que salta; o que hesita é que cai...
Para Filêmon, o homem de bem da cidade de Éfeso, amigo pessoal de Paulo, o bilhete que seu escravo Onésimo trouxe consigo, ao voltar de uma escapada até a prisão de Paulo, deve ter parecido loucura (2ª leitura). Porém, é a mais pura sabedoria cristã. Onésimo fugiu de Filêmon, para assistir a Paulo na prisão. Paulo o batizou. Agora não mais precisando dele, o devolve a Filêmon, porque comercialmente falando, é sua propriedade (Paulo ainda não pensava numa sociedade sem escravidão; ou não achava muito importante, por causa do curto prazo da Parusia: cf. 1Cor 7,20-23). Mas, espiritualmente falando, “em Cristo”, ambos, Onésimo e Filêmon, pertencem a uma nova realidade, em que não há mais senhor nem escravo, mas somente irmãos em Cristo e filhos do Pai (cf. Gl 3,28); e filhos também de Paulo, que a ambos gerou na fé (batizou-os). Portanto, Filêmon acolhe seu escravo não mais como escravo, mas como irmão, como se acolhesse o próprio Paulo.
Os cristãos e as estruturas sociais
"Se Deus só serve para deixar tudo como está, não precisamos dele”; palavra de uma agente de educação popular. O Deus que é apenas o arquiteto do universo, mas fica impassível diante da injustiça dos habitantes de sua arquitetura, não tem relevância alguma. O cristianismo serve ou não para mudar as estruturas da sociedade?
São Paulo tinha um amigo, Filêmon.
Este – como todos os ricos de seu tempo – tinha escravos, que eram como se fossem as máquinas de hoje. Um dos escravos, sabendo que Paulo tinha sido preso, fugiu de Filêmon para ajudar Paulo na prisão. Paulo o batizou (“o fez nascer para Cristo”).
Depois mandou-o de volta a Filêmon, recomendando que este o acolhesse, não como escravo, mas como irmão... Mais: como se ele fosse o próprio Paulo (2ª leitura).
Essa história é emocionante, mas nos deixa insatisfeitos. Por que Paulo não exigiu que o escravo fosse libertado, em vez de acolhido como irmão, continuando como escravo? Aliás, a mesma pergunta surge ao ler outros textos do Novo Testamento (1Cor. 7,21; 1Pd. 2,18). Por que o Novo Testamento não condena a escravidão?
A humanidade leva tempo para tomar consciência de certas incoerências, e mais tempo ainda para encontrar-lhes remédio. A escravidão, naquele tempo, era uma forma de compensação de dívidas contraídas ou de uma guerra perdida. Imagine que se resolvesse desse jeito a dívida externa do Brasil! Seríamos todos vendidos (se já não é o caso...) Antigamente (?), a escravidão fazia parte da estrutura econômica. Na Idade Média, com os numerosos raptos praticados pelos piratas mouros, surgiram ordens religiosas para resgatar os escravos, até tomando o lugar deles. Mas ainda na época moderna, a Igreja foi conivente com a escravidão dos negros. A consciência moral cresce devagar, e mudar alguma coisa nas estruturas é mais demorado ainda, porque depende da consciência e das possibilidades históricas. As estruturas manifestam só aos poucos sua injustiça, e então leva séculos para transformá-las.
Porém, a lição de Paulo é que, não obstante essa lentidão histórica, devemos viver já como irmãos, vivenciando um espírito novo, que vai muito além das estruturas vigentes e que – como uma bomba-relógio – fará explodir, cedo ou tarde, a estrutura injusta. Novas formas de convivência social, voluntariados dos mais diversos tipos, organismos não-governamentais, pastorais junto aos excluídos – a criatividade cristã pode inventar mil maneiras para viver aquilo que as estruturas só irão assimilar muito depois.
Johan Konings - "Liturgia dominical"



“Grandes multidões acompanhavam Jesus” no seu caminhar rumo a Jerusalém, onde seria consumada a obra da salvação (cf. v. 25).
Muitos eram motivados por sentimentos naturais e, até mesmo, interesseiros: admirar suas palavras, presenciar milagres, obter graças e favores.
Ainda hoje acontece a mesma coisa, muitos procuram Jesus na ânsia de obter milagres, curas, emprego, enfim, procuram apenas fortes emoções, interesses pessoais e bens terrenos.
“Voltando-se para a multidão, Jesus disse: “Se alguém vem a mim e não me dedica mais amor do que a seu pai, à sua mãe, à sua esposa, a seus filhos, a seus irmãos e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (v. 26).
Este versículo do Evangelho deve ser entendido na dimensão do Reino e das exigências de Jesus. Jesus não quer que odiemos a ninguém nem que deixemos de amar nossos entes queridos. Mas Deus sempre deve ter a prioridade em nossas vidas, conforme ele ensina: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento, e com todas as tuas forças e amarás o teu próximo como ti mesmo” (Mc 12,30). Em caso de conflito, Deus deve ter sempre a prioridade, acima de qualquer outro vínculo.
“Aquele que não carrega sua cruz e me segue não pode ser meu discípulo”, diz Jesus (v. 27). Cruz não é algo que buscamos; cruz são as situações adversas que sobrevêm no decorrer da vida: doenças, dores, problemas, enfim, tudo o que traumatiza nosso eu.
A cruz encerra em si o mistério do sofrimento e da dor. Não deve ser olhada como uma tragédia, mas como um caminho que leva à Glória. A cruz é o meio que Deus usa para nos educar e fazer crescer na fé, na esperança e no amor. A cruz nos identifica com Cristo que, em seu amor, abraçou a cruz e nos amou até o fim (cf. Jo  13,!)
E Jesus narra duas parábolas: a parábola da edificação da torre e a parábola do rei em guerra ( v. 28-32), alertando sobre a necessidade de bem refletir sobre o modo de corresponder ao seu chamado.
Deus é amor! (1Jo 4-16). Seu amor é um amor exigente e supõe desapego e renúncia a tudo que possa afastar desse amor.
* Seguir Jesus significa dar e consagrar a vida a Jesus. É deixar-se possuir pelo espírito do Senhor, na escuta e na observância de seus mandamentos, configurando sua vida com a dele, no seu modo de pensar e de agir, rompendo com tudo aquilo que possa afastar dele.
* * *
Deus tem sempre prioridade em minha vida? O que significa para mim seguir Jesus? Creio que nem a todos Jesus pede que renunciem a tudo o que possuem, mas a todos pede o desapego aos bens terrenos? Estou pronto a carregar a minha cruz por amor a Jesus? Ajudo meu irmão a carregar sua cruz? Vejo na cruz o caminho para a Glória? O que vem a ser o discípulo perfeito?
Frei Floriano Surian, ofm

=====================


Esse texto relata o maior dilema do cristão, o desprendimento total das coisas do mundo para seguir a Deus com verdade e compromisso. Jesus deixa claro que a tarefa não é fácil e que a cruz é pesada, e que o reconhecimento desse sacrifício não será nesse mundo, mas junto ao Pai.
O que significa amar a Jesus mais que a sua família, mais que a si mesmo? Quais são as condições para segui-Lo? Esses são questionamentos que cada um deve fazer antes de se colocar diante de Cristo oferecendo-se para segui-lo. Um amor incondicional exige desprendimento das coisas do mundo, humildade para reconhecer as fraquezas e os limites, e coragem para enfrentar os desafios como Simão de Cirene enfrentou, ajudando Jesus a carregar a cruz.
Jesus adverte a todos que querem segui-lo para que pesem bem sua decisão, suas conseqüências, pois começar o alicerce e não erguer a torre de nada adiantará, pelo contrário ficará a vergonha da obra inacabada. A construção não é impossível, é apenas difícil, exige dedicação, planejamento, compromisso, portanto não se deve desistir da construção, mas preparar-se bem para iniciá-la.
É preciso, também, ter a certeza de que o elemento mais importante estará presente: a Graça que Deus Pai dá àquele que quer ser fiel a Cristo, pois quando Deus chama alguém para segui-Lo, Ele dá a Graça correspondente para te força e não desistir no caminho. Porém, fazer a opção de seguir a Jesus não é uma decisão única, mas deve ser renovada a cada dia.


Pequeninos do Senhor



Opção e renúncia
A observação feita por Jesus visava levar a multidão que o seguia a deixar de lado a exaltação ingênua e colocar os pés no chão, para evitar possíveis frustrações. A empolgação do momento podia desviar as pessoas do verdadeiro significado do gesto de colocar-se no seguimento do Mestre. Quem quisesse segui-lo, deveria estar consciente das implicações de sua opção.
A primeira exigência consistia em romper com os laços familiares, por causa do Reino, colocando, em segundo plano, o amor aos entes mais queridos. O texto bíblico fala em "odiar pai, mãe etc.". Evidentemente, a palavra "odiar" não tem o mesmo sentido que nós lhe damos, hoje. Na boca de Jesus, ela quer dizer "dar preferência ao pai, à mãe"; colocá-los acima do Reino e de suas exigências.
A segunda exigência aponta para a predisposição de aceitar todas as conseqüências decorrentes da opção pelo Reino. Isto significa "tomar a própria cruz". Não é apto para seguir Jesus quem se intimida diante das perseguições, da indiferença, das calúnias sofridas por causa de seu testemunho de vida. Só quem é suficientemente forte para enfrentá-las, está em condições de se tornar seguidor de Jesus.
Portanto, a opção por se tornar seu discípulo funda-se numa dupla disposição para a liberdade: diante dos laços de parentesco e diante da cruz que se há de encontrar nesse seguimento.
padre Jaldemir Vitório




Atitude radical
Quais são as condições exigidas para seguir Jesus? O texto do evangelho deste domingo começa pela informação de que grandes multidões acompanhavam Jesus (cf. v. 25).
O que estas multidões buscavam? O que eles encontraram? Todos tinham a mesma intenção? Admiravam-se das palavras cheias de sabedoria, de sua autoridade, da sua compaixão, a ponto de alguns declararem se tratar da visita salvífica de Deus; outros tantos, porém, não eram capazes de ultrapassar o que os olhos contemplavam e reconhecer a verdadeira procedência de Jesus. Tudo isso, e muito mais, é suficiente para seguir Jesus Cristo?
A resposta do evangelho é negativa. É preciso, para segui-lo, uma atitude radical: “... renunciar a tudo o que tem” (v. 32) – esta é condição para ser discípulo de Cristo.
Entre os vv. 25 e 33 há uma inclusão, isto é, o tema que será desenvolvido entre estes dois versículos através das duas parábolas (vv. 28-30; 31-32). Nas parábolas, trata-se de prever, de medir forças, de saber calcular os riscos. Trata-se, noutras palavras, de sabedoria, de adequar as ambições aos meios de que se dispõe.
Para seguir Jesus é preciso fazer uma escolha. Em primeiro lugar estar disposto ao desapego. Sem desprezar a quem se ama, os familiares, é preciso não permitir que eles se constituam em obstáculo para o seguimento de Cristo. Se assim o fosse, não seria amor verdadeiro, mas possessão.
Mas o desapego tem de ser da própria vida. A defesa de interesses, privilégios e seguranças pessoais é incompatível com o seguimento de Cristo. Em segundo lugar é preciso aceitar o risco do seguimento de Cristo, a saber, a perseguição, o sofrimento. É exatamente isto que significa “carregar a cruz” (v. 27). Em terceiro lugar é preciso renunciar aos bens (v. 33). Trata-se, então, de renunciar, como exigência do seguimento de Jesus Cristo, às seguranças afetivas e materiais.
A quem se dispõe a seguir Jesus, desde o início, é exigido dele renunciar a tudo que possa ser um obstáculo para se colocar livremente a serviço do Reino de Deus. A segurança do discípulo é, antes de tudo, seu Senhor.
Como Santo Inácio de Loyola, podemos suplicar: “Dá-me o teu amor e a tua graça, e isto me basta. Nada mais quero pedir”.
Carlos Alberto Contieri,sj




O “naquele tempo” do Evangelho que escutamos, prolonga-se neste tempo que se chama hoje. “Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus”. Eram muitos os que o admiravam, muitos os que o escutavam... como hoje. Mas, Jesus voltando-se, lhes disse – e diz aos que o querem acompanhar hoje -, com toda franqueza, quais as condições para serem aceitos como seus discípulos: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega e seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. É impressionante a sinceridade do Senhor nosso! Olhemos bem que não são todos os que podem ser seus discípulos! É certo que todos são chamados, pois “o desejo de Deus é que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm. 2,4), mas também é certo que nem todos estão dispostos a escutar de verdade o convite do Senhor e a aceitar suas exigências. E Jesus é claríssimo: ele somente aceita como discípulo – somente pode ser seu discípulo – quem se dispõe, com sinceridade, a caminhar atrás dele, seguindo seus passos no caminho! É ele quem dá as cartas, é ele quem dita as normas, é ele quem mostra o caminho e quem diz o que é certo e o que é errado! Que palavra tão difícil para cada um de nós, para o mundo atual, que se julga maduro e sábio o bastante para fazer seu próprio caminho e até para julgar os caminhos de Deus! Quem assim age, permanecendo fechado em si mesmo - diz Jesus -, “não pode ser meu discípulo!”
E o que é ser discípulo? É colocar-se no caminho dele, é renunciar a decidir por si mesmo que rumo dar à sua vida, para seguir o caminho do Mestre, colocando os pés nos seus passos; ser discípulo é se renunciar para ser em Jesus, pensando como ele, vivendo como ele, agindo como ele... Ser discípulo é fazer de Jesus o tudo, o fundamento da própria existência: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, a tudo que é, à sua própria segurança, ao seu próprio modo de pensar, não pode ser meu discípulo!”
É preciso que compreendamos que esta exigência tão radical do Senhor não é por capricho, não é arbitrária, não é humilhante ou desumana para nós. O Senhor é tão exigente porque nos quer libertar de nós mesmos, de nosso horizonte fechado e limitado à nossa própria razão, ao nosso próprio modo de ver e pensar as coisas e o mundo. O Senhor nos quer libertar da ilusão de que somos auto-suficientes e sábios, de que somos deuses! Como têm razão, as palavras do livro da Sabedoria: “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Quem, portanto, investigará o que há nos céus?” O homem, sozinho, é incapaz de compreender o mistério da vida, que somente é conhecido pelo coração de Deus! Isto valia para ontem, e continua valendo para hoje e valerá ainda para amanhã, mesmo com todo o desenvolvimento da ciência e com toda a ilusão de que nos bastamos a nós mesmos e podemos por nós mesmos decidir o que é certo e o que é errado. O homem, fechado em si mesmo, jamais poderá compreender de verdade o mistério de sua existência e o sentido profundo da realidade. É preciso ter a coragem de abrir-se, de ser discípulo, de seguir aquele que veio do Pai para ser nosso Caminho, nossa Verdade e nossa Vida! “Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões, incertas. Mal podemos conhecer o que há na terra e, com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos”. É por isso que o salmista hoje nos faz pedir com humildade: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”
Só quando nos renunciarmos, só quando colocarmos o Senhor como o centro de nossa vida, do nosso modo de pensar e de agir, somente quando ele for realmente o nosso Tudo, seremos discípulos de verdade. Então mudaremos de vida, de valores, de modo de agir. É o que São Paulo propõe a Filêmon, cristão, proprietário do escravo Onésimo. O Apóstolo recorda ao rico Filêmon que ser discípulo de Cristo comporta exigências e mudança de mentalidade: o escravo deve agora ser tratado como irmão no Senhor. Não podemos ser cristãos, apegados à nossa lógica e às coisas próprias do homem velho! Não podemos ser cristãos fazendo política como o mundo faz, tendo uma vida sexual como o mundo tem, pensando em questões como o divórcio, o aborto, o adultério como o mundo pensa, não podemos ser cristãos comportando-nos como o mundo se comporta e fazendo o que o mundo faz! Querer seguir o Senhor sem deixar-se, sem colocá-lo como eixo e prumo da vida, é como construir uma torre sem dinheiro: não se chegará ao fim; é como ir para uma guerra sem exército suficiente: seremos derrotados! “Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, não pode ser meu discípulo!”
Que o mundo não compreenda esta linguagem, é de se esperar... Afinal, o homem psíquico – homem entregue somente à sua própria razão – não pode mesmo compreender as coisas do Espírito de Deus (cf. 1Cor. 2,14). O triste mesmo é que os cristãos, isto é, nós, tenhamos a pretensão de ser discípulos sem procurar sinceramente nos renunciar, mortificando nossas tendências desordenadas, educando nossos instintos desatinados e deixando que a luz do Evangelho ilumine nossa razão e nosso modo de pensar...
Cuidemos bem, para que, no fim de tudo, o nosso cristianismo não seja inacabado, tão inútil quanto uma torre deixada pela metade ou uma guerra na qual a derrota é certa. Que nos valha a misericórdia de nosso Senhor e nos ajude a viver da sua Palavra, porque, como disse hoje o Autor sagrado, dirigindo-se a Deus, “só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos”. Que nos salve o Cristo, Sabedoria de Deus.







quinta-feira, 25 de agosto de 2016

22º DOMINGO TEMPO COMUM-C

22º DOMINGO TEMPO COMUM


28 de Agosto de 2016 – Ano C

1ª Leitura - Eclo 3,19-21.30-31 (gr. 17 -18.20.28-29)

Salmo 67

2ª Leitura - Hb 12,18-19.22-24a


Evangelho - Lc 14,1.7-14




Jesus nos ensina a modéstia, a humildade, a adotar uma postura de acolhimento e não de autossuficiência diante dos demais.    Continuar a ler



=====================================
“QUEM SE ELEVA SERÁ HUMILHADO, QUEM SE HUMILHA, SERÁ ELEVADO.” – Olivia Coutinho

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 28 de Agosto de 2016

Evangelho de Lc14,1.7-14

 Numa sociedade onde impera o individualismo, a competitividade, o povo vai se distanciando cada vez mais do projeto de Deus, deixando de lado os valores do evangelho, da ética e da moral.
Enquanto caminhou por este chão, Jesus nos ensinou com a própria vida, que a grandeza de uma pessoa,  não está em títulos, em ser o primeiro e sim, em estar  a serviço do Reino, no lugar onde Deus o plantou,  para produzir frutos!
Como Mestre de toda a história, Jesus serviu-se de meios humanos bem simples, para nos ensinar, que é na gratuidade e  na humildade, que  seremos classificados por Deus, como  primeiros no Reino dos céus.
O evangelho que a liturgia deste domingo coloca diante de nós, nos convida a pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, que mesmo sendo Deus, não quis ocupar  o primeiro lugar aqui na terra, deixando-o para os pequenos!
 “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 6-7).
O texto começa dizendo, que Jesus, num dia de sábado, foi comer na casa de um dos chefes  dos fariseus. Percebendo  que os convidados escolhiam   os primeiros lugares, Jesus conta uma parábola, no sentido de chamar a atenção das pessoas, sobre a importância da humildade, não, uma humildade de fachada, mas uma humildade de sentirmos verdadeiramente  pequenos, necessitados de Deus.
Quando nos colocamos diante  Deus, vazios do nosso “eu,” Deus toma o nosso “nada” e nos eleva, preenchendo o nosso coração da sua divindade! Divinizados, tornamos mais humanos, mais humanos, tornamos mais  próximos do outro e simultaneamente mais próximos de Deus!
 Com esta parábola, Jesus tenta mudar a mentalidade de muitas pessoas, que ainda hoje, gostam de ser incensados pelo o povo, de serem notadas admiradas, bajuladas...
 São muitos, os que  escondem  atrás do manto da bondade,  se mostrando  pessoas honradas quando na verdade não o são. Estes,  querem sempre ocupar os primeiros lugares, lugares denominados pelo mundo como lugar de honra!
Para o mundo, ser  humilde, é ser bobo, para Deus, ser humilde, é ser grande!  
 “O primeiro no reino dos Céus é aquele que serve.”  Estas palavras de Jesus, nos  leva a um questionamento: O que é mais importante: sermos aplaudidos pelo o mundo, ou abraçados por Deus na eternidade?
No conceito dos homens, ser grande, é possuir bens, é ter poder, fama, enquanto que para  Deus, ser  grande, é  ser o último, é ser àquele  que serve!
Com o seu testemunho, Jesus  nos ensina, que o caminho que nos leva a salvação,  perpassa pelo o caminho da humildade, caminho que Ele mesmo  percorreu,  ora se misturando com os pobres  e marginalizados, ora sentando à mesa da refeição com os seus adversários.
A nossa vida cristã, deve ser  marcada sim, mas não por títulos,  e sim, pela vida de comunhão e acima de tudo, de humildade!
 A humildade é  a característica marcante  de um  verdadeiro seguidor de Jesus, é a virtude que mais nos aproxima da perfeição, que nos torna parecidos com Jesus!  
 Uma pessoa não é humilde de nascença, ela vai tornando humilde à medida que em que ela vai reconhecendo a suas imperfeições, a sua pequenez diante do Senhor!
No final do evangelho, Jesus nos recomenda: “... quando deres um banquete, convide os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois eles não te podem  retribuir!”
Façamos o que Jesus nos recomenda,  mas não fiquemos somente no Banquete lá  da nossa casa,  façamos a diferença, nos   misturando com os excluídos, dentro do espírito da  igualdade no  banquete  da partilha.  

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
Venha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:


=====================================

Deus se revela aos pequenos
Num sábado, dia festivo para os judeus, Jesus foi convidado para almoçar na casa de um ilustre fariseu.
Jesus, cuja fama o precedia, era o convidado de honra e, sendo assim, esperavam que ele se manifestasse de alguma maneira.
Nos banquetes, davam-se aos convidados os lugares à mesa, segundo a dignidade e o prestígio. Notando Jesus que os convidados disputavam os primeiros lugares (v. 7), procurou através de uma parábola expressar uma verdade sobre o Reino de Deus.
No banquete da vida, ensinou Jesus, o homem deve ocupar seu devido lugar. Deve evitar que a ambição o leve a buscar os primeiros lugares, numa espécie de ansiedade de sucesso, querendo chegar lá a qualquer preço, mesmo sem ter as devidas qualificações.
Mas, para entrar no Reino de Deus, o caminho da salvação passa pelo “ser pequeno”, reconhecendo-se pobre diante da grandeza infinita de Deus, isto é, pela vivência da simplicidade, humildade e serviço.
Simplicidade: aquele que busca a Deus deve ter uma conduta transparente, sincera, sem subterfúgios em seu modo de agir e falar, evitando toda duplicidade.
Humildade: a ansiedade em ocupar os primeiros lugares parece fazer parte da própria natureza humana, seja na família, na sociedade, no mundo da política, no trabalho, nos esportes, enfim, em todos os níveis da atuação humana. A humildade leva o homem a conhecer-se a si mesmo, dependente em tudo de Deus. Liberta da angústia de querer ser sempre o primeiro, levando a abrir o coração para Deus e para o irmão. A atitude à mesa, à qual se refere Jesus (v. 8-11), não envolve apenas uma simples cortesia, regras de boas maneiras, mas abrange o mistério do Reino de Deus, do banquete divino.
Deus é o centro de tudo e nada lhe deve ser subtraído. “Ser pequeno” é uma dimensão espiritual de grandeza que o mundo atual pouco valoriza (cf. Lc. 6,20). É a primeira condição para alguém entrar no Reino dos Céus.
Serviço: na Última Ceia Jesus deu uma profunda lição de humildade e serviço: “Qual é o maior? O que está à mesa ou aquele que serve? É o que está à mesa? Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (cf. Lc. 22). “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mc. 10,45).
* * *
Em que consiste a verdadeira humildade? Sigo o exemplo de Jesus no serviço aos irmãos? Deixo-me levar por uma falsa humildade quanto aos dons recebidos? Procuro sempre os primeiros lugares? Sirvo ao próximo com amor abnegado dando sem nada esperar em troca? Meu modo de agir é autêntico, sincero e transparente? Meu coração está aberto para o irmão necessitado?
frei Floriano Surian, ofm

=====================================
Jesus é um destes hóspedes que não ficam reféns de seus anfitriões. Já o mostrou a Marta; mostra-o também hoje (evangelho).
O anfitrião é um chefe dos fariseus. A casa está cheia de seus correligionários, não muito bem-intencionados (14,2). Para começar, Jesus aborda o litigioso assunto do repouso sabático, defendendo uma opinião bastante liberal (14,3-6). Depois, numa parábola, critica a atitude dos fariseus, que gostam de ser publicamente honrados por sua virtude, também nos banquetes, onde gostam de ocupar os primeiros lugares.
Alguém que ocupa logo o primeiro lugar num banquete não pode mais ser convidado pelo anfitrião para subir a um lugar melhor; só pode ser rebaixado, se aparecer alguma pessoa mais importante. É melhor ocupar o último lugar, para poder receber o convite de subir mais. Alguém pode achar que isso é esperteza. Mas o que Jesus quer dizer é que, no Reino de Deus, a gente deve estar numa posição de receptividade, não de auto-suficiência.
A segunda parábola relaciona-se também com o banquete: não convidar os que nos podem convidar de volta, mas os que não têm condições para isso. Só assim nos mostraremos verdadeiros filhos do Pai, que nos deu tudo de graça. Claro que esta gratuidade pressupõe a primeira atitude: o saber receber.
Portanto, a mensagem de hoje é: saber receber de graça (humildade) e saber dar a graça (gratuidade). A 1ª leitura sublinha a necessidade da humildade, oposta à auto-suficiência. A 2ª leitura não demonstra muito parentesco temático com a 1ª e o evangelho. Contudo, complementa o tema da gratuidade, mostrando como Deus se tornou, gratuitamente, acessível para nós, em Jesus Cristo. O tom da leitura é de gratidão por este mistério.
Graça, gratidão e gratuidade são os três momentos do mistério da benevolência que nos une com Deus. Recebemos sua “graça”, sua amizade e bem-querer. Por isso nos mostramos agradecidos, conservando seu dom em íntima alegria, que abre nosso coração. E deste coração aberto mana uma generosa gratuidade, consciente de que há mais felicidade em dar do que em receber (cf. At. 20,35). O que não quer dizer que a gente não pode gostar daquilo que recebe. Significa que só atingirá a verdadeira felicidade quem souber dar gratuitamente. Quem só procura receber, será um eterno frustrado.
Com vistas à comunicação na magnanimidade, a humildade não é a prudência do tímido ou do incapaz, nem o medo de se expor, que não passa de egoísmo. A verdadeira humildade é a consciência de ser pequeno e de ter que receber, para poder comunicar. Humildade não é tacanhice, mas o primeiro passo da magnanimidade. Quem é humildade não tem medo de ser generoso, pois é capaz de receber. Gostará de repartir, porque sabe receber; e de receber, para poder repartir. Repartirá, porém, não para chamar a atenção para si, como o orgulhoso que distribui ricos presentes, e sim, porque, agradecido, gosta de deixar seus irmãos participar dos dons que recebeu.
Podemos também focalizar o tema de hoje com uma lente sociológica. Torna-se relevante, então, a exortação ao convite gratuito. Jesus manda convidar pessoas bem diferentes daquelas que geralmente se convidam: em vez de amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos, convidem-se pobres, estropiados, coxos e cegos – ou seja, em vez do círculo social da gente, os marginalizados. E na parábola seguinte, do grande banquete, o “senhor” convida, finalmente, exatamente as quatro categorias mencionadas (Lc. 14,21).
O amor gratuito é limitação do amor de Deus. A autenticidade do amor gratuito se mede pela pouca importância dos beneficiados: crianças, inimigos, marginalizados, enfermos (cf. tb. Mt. 25,31-46). Jesus não proíbe gostar de parentes e vizinhos. Mas realmente imitar o amor gratuito, a hésed de Deus, a gente só o faz na “opção preferencial” pelos que são menos importantes.
Johan Konings "Liturgia dominical"

=====================================
Jesus é convidado pela terceira vez à casa de um fariseu. Eles não o convidavam pelo prazer de sua companhia ou por acreditar em suas palavras, o fazem para armar ciladas tentando com isso pegá-lo de surpresa, mas Jesus comparece todas as vezes que é convidado e aproveita para ensinar-lhes o que é realmente importante diante do Pai.
Ao mesmo tempo em que os fariseus observam Jesus para questioná-lo sobre alguma atitude que eles acham impróprias, Jesus também os observa e percebe duas situações importantes, na primeira a preocupação de cada um em sentar-se no melhor lugar à mesa, e dá uma importante lição de humildade, pois quem não se acha o melhor pode ser exaltado, mas quem já se acha melhor que todos, quando aparecer alguém que seja melhor que ele, este será rebaixado.
Na segunda situação Jesus se dirige diretamente ao fariseu que o convidou, e orienta-o a convidar para sua casa os mais humildes, aqueles que não têm como retribuir o convite, pois nesse caso, sim, o convite é de doação e não de barganha.
Esse texto remete a Lc. 6,32-53 onde Jesus convida o povo a um relacionamento de doação, e não ao amor baseado na troca, pois qual o grande mérito de ser amado por quem ama? Até os criminosos mais cruéis têm esse vínculo de afeto. O mérito está em amar com doação a quem não retribui, e esta é a mesma comparação que Jesus faz neste evangelho.
Pequeninos do Senhor

=====================================
A primazia dos excluídos
Os excluídos e deserdados estiveram sempre no centro das atenções de Jesus. Este aproveitava todas as oportunidades para dispor os discípulos a acolhê-los e mostrar-se solícitos para com eles, diferentemente do comportamento típico da época.
A refeição na casa do fariseu ofereceu-lhe uma ocasião favorável para isto. Em geral, convida-se para uma ceia, em família, os próprios familiares, as pessoas às quais se quer bem, ou alguém de uma certa importância. Existe quem se preocupa em convidar os ricos, com o intuito de receber também um convite, em contrapartida.
Quiçá fosse esta a mentalidade do chefe dos fariseus, pois é a ele que Jesus dirige a advertência de romper com este esquema. Como? Chamando para o banquete os pobres, estropeados, coxos e cegos. Em suma, os desprezados deste mundo, dos quais seria impossível esperar algo como recompensa. Isto sim, seria a expressão da mais absoluta pureza de coração, característica de quem o tem centrado em Deus. Seria um ato de amor misericordioso, próprio de quem não se deixa escravizar pelo egoísmo.
Tal gesto de bondade não passa despercebido aos olhos do Pai. Por ocasião da ressurreição, quem agiu assim receberá a recompensa devida. Diz o provérbio bíblico: "Quem dá aos pobres, empresta a Deus". Pois bem, quem se mostra generoso com os excluídos deste mundo, pode estar seguro de estar atraindo sobre si a misericórdia divina.
padre Jaldemir Vitório


=====================================
“Jesus ocupou de tal forma o último lugar que ninguém lho pode tirar.” Este pensamento foi desenvolvido por um padre na igreja de santo Agostinho, em Paris, na França. padre Huvelin, assim ele se chamava, e era um homem santo e um grande pregador. Meditando o Evangelho, ele via como Jesus procurava sempre o último lugar. O Bem-aventurado Irmão Carlos de Jesus ouviu uma das pregações desse padre sobre o último lugar. Mais tarde, meditando sobre a encarnação do Filho de Deus, o Irmão Carlos escreveu: “A encarnação tem sua fonte na bondade de Deus, mas uma coisa aparece logo tão maravilhosa, reluzente e espantosa, a brilhar como um sinal ofuscante: é a humildade infinita que tal mistério contém. Deus, o ser, o infinito, o perfeito, o criador todo-poderoso, imenso, soberano mestre de tudo, fazendo-se homem, unindo-se a uma alma e a um corpo humanos, aparecendo na terra como um homem, e como o último dos homens.... Eu devo procurar sempre o último dos últimos lugares, para ser tão pequeno quanto meu mestre, para estar com ele, para caminhar atrás dele, passo a passo, como um servo fiel, fiel discípulo... para viver com meu Deus que assim viveu toda a sua vida e me dá o exemplo em seu nascimento...”.
Em outra oportunidade, Irmão Carlos escreveu: “Ele desceu com ele e foi a Nazaré. Toda sua vida ele só fez descer, descer ao se encarnar, descer fazendo-se criança, descer obedecendo, descer tornando-se pobre, abandonado, exilado, perseguido, supliciado, pondo-se sempre no último lugar”.
O último lugar é o lugar de Jesus. Ele mesmo nos ensina a não procurar o primeiro lugar, porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado. Em consequência, nossas atitudes terão a marca da gratuidade: nada fazer em vista de recompensa e reconhecimento. As ações gratuitas se fazem por puro amor. O exemplo da festa para a qual se convidam os pobres, os coxos e os aleijados, e não parentes, amigos, ou vizinhos ricos, é um exemplo, não um preceito, mas um exemplo claro e forte de atitude gratuita.
O livro do Eclesiástico exalta a sabedoria da humildade. O último lugar e a gratuidade são próprios de pessoas sábias e simples, capazes de se situarem em qualquer lugar e relacionarem-se com qualquer pessoa. O que sabem e o que têm estão a serviço dos demais, por isso sua atitude despretenciosa. Do último lugar elas veem o conjunto e podem tornar-se sempre mais prestativas. Como não pretendem nada, a não ser a glória de Deus e o bem do próximo, sua presença é humilde e agradável, gratuita e significativa. A gratuidade de sua amizade as tornam sinceras e verdadeiras. Do último lugar é possível ver o conjunto, o monte Sião e a cidade de Deus, a reunião festiva de milhões de anjos, a assembleia dos que têm seu nome escrito nos céus. Esta visão dá segurança e desfaz qualquer ilusão, reanimando a esperança. No último lugar cessam as ilusões e se ressalta a esperança. Cada coisa adquire o seu valor, e um novo valor, real, verdadeiro. O último lugar deixa de ser numérico ou geográfico. É um estado de vida, uma maneira de ser, e será o lugar mais importante porque você o ocupa.
cônego Celso Pedro da Silva



=====================================
Um convite à generosidade
Jesus continua sua subida para Jerusalém. À medida que faz seu caminho para o Pai, ele vai instruindo os seus discípulos. Um israelita de verdade mantém os ouvidos sempre abertos, pois ele sabe que toda sabedoria vem de Deus, e se deixa instruir por Deus: “O homem sensato medita as máximas em sua oração, ouvido atento, eis o que o sábio deseja” (Eclo 3,29).
O episódio do evangelho deste domingo se dá durante uma refeição, “na casa de um dos chefes fariseus” (v. 1). Duas outras vezes Jesus foi, segundo Lucas, a uma refeição na casa de fariseus (7,36; 11,37). Há entre Jesus e os fariseus uma mescla de simpatia e resistência. Os fariseus, efetivamente, desejam viver fielmente sua religião e creem servir a Deus através de suas práticas, sobretudo, uma determinada prática da Lei.
Mas a rigidez quase obsessiva os cega, liga-os de modo estreito à letra do texto; a Lei de Deus é para eles um conjunto de regras e preceitos. Esse modo de cumprir a Lei, que eles julgavam ser o correto, fazia com que se esquecessem do essencial da Lei: o amor a Deus e o amor fraterno. Tal modo de interpretar a Lei os impedia de olhar para os outros com misericórdia e pôr em prática a palavra do Senhor: “É misericórdia que eu quero, e não sacrifícios” (Os. 6,6).
A refeição na casa de um dos chefes dos fariseus acontece num sábado, dia dado pelo Senhor para celebrar o dom da vida, através da obra da criação, e a libertação do país da escravidão.
Mesmo que em nosso relato os interlocutores sejam os que estavam na casa dos fariseus, são os discípulos os instruídos; é a comunidade cristã que deve aprender como se comportar no novo tempo. A instrução é motivada pela observação de “como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (v. 7). A parábola utiliza a imagem do casamento, em que os lugares já eram predeterminados.
Há duas lições: o lugar é recebido de quem convidou para a festa (cf. v. 8-11). Certamente é outro modo de dizer: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mt. 6,1; ver também: Pr. 25,6-7). A segunda é um convite à generosidade: “... quando deres um banquete, convida os [que] não têm como te retribuir!” (cf. vv. 12-14). É preciso renunciar ao anseio de recompensa ou retribuição: “Se amais os que vos amam, que graça alcançais? Até mesmo os pecadores agem assim. Se fazeis o bem aos que no-lo fazem, que graça alcançais? Até mesmo os pecadores agem assim… E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que graça alcançais?... Fazei o bem e empresteis sem esperar coisa alguma em troca” (Lc. 6,32-35).
Carlos Alberto Contieri,sj


=====================================
Engana-se quem pensa que o Evangelho de hoje é um guia de etiqueta e de boas maneiras em banquetes e recepções. Nada disso! Jesus pensa, aqui, no banquete do Reino, que é preparado pelo banquete da vida; sim, porque somente participará do banquete do Reino quem souber portar-se no banquete da vida!
E neste banquete, no daqui, no desta vida, o Senhor hoje nos estimula a duas atitudes, dois comportamentos profundamente evangélicos. Primeiramente, a humildade: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento (Tu foste: a festa das Núpcias de Cristo com a Igreja, festa da Nova Aliança do Reino), não ocupes o primeiro lugar... Vai sentar-te no último... Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’”. O que é ser humilde? Humildade deriva de humus, pó, lama, barro... Ser humilde é reconhecer-se dependente diante de Deus, é saber-se pobre, limitado diante do Senhor. Quem é assim, sabe avaliar-se na justa medida porque sabe ver-se à luz do Senhor! O humilde tem diante de si a sua própria verdade: é pobre, é indigente, mas infinitamente agraciado e amado por Deus. Por isso, o humilde é livre e, porque livre, manso. Tinha razão Santa Teresa de Jesus quando afirmava que a humildade é a verdade. O humilde vê-se na sua verdade porque vê-se como Deus o vê, vê-se com os olhos de Deus! Então, o humilde é aberto para o Senhor, dele reconhece que é dependente, e a ele se confia. Podemos, assim, compreender as palavras do Eclesiástico: "Filho, realiza teus trabalhos com mansidão; na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. O Senhor é glorificado nos humildes”. É assim, porque somente o humilde, que reconhece que depende de Deus, pode ser aberto, e acolher como uma criança o Reino que Jesus veio trazer.
A segunda atitude que o Cristo hoje nos ensina é a gratuidade: “Quando deres uma festa (Tu dás: a festa da vida que o Senhor te concedeu e, mais ainda da vida nova em Cristo, recebida no Batismo e celebrada na Eucaristia), convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”. A gratuidade é a virtude que dar sem esperar nada em troca, dar e sentir-se feliz, sentir-se realizada no próprio dar. Se prestarmos bem atenção, a gratuidade é filha da humildade. Só quem sabe de coração que em tudo depende de Deus e de Deus tudo recebeu gratuitamente (humilde), também sente-se impelido a imitar a atitude de Deus: dar gratuitamente! “De graça recebestes, de graça dai!” (Mt 10,8) ou, como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “Viver de amor é dar sem medida, sem nesta terra salário reclamar; sem fazer conta eu dou, pois convencida de que quem ama já não sabe calcular!” Pois bem, quem faz crescer em si a humildade e cultiva a gratuidade, experimenta a Deus e seu Reino, pois aprende a sentir o coração do próprio Deus, que tudo nos deu gratuitamente. Quem cultiva a humildade e a gratuidade, deixa o Reino ir entrando em si e entrará, um dia, no Reino de Deus!
Mas, se pensarmos bem, nada disso é fácil, pois vivemos no mundo da auto-suficiência e dos resultados. O homem já não mais se sente dependente de Deus; deseja ele mesmo fazer a vida do seu modo. Assim, se fecha para Deus e, para ele se fechando, já não mais reconhece no outro um irmão e, não experimentando a misericórdia gratuita de Deus, já não sabe mais dar gratuitamente: tudo tem que ter retorno, tudo tem que apresentar contrapartida, tudo tem que, cedo ou tarde, dá lucro, tudo é pensado na lógica do custo-benefício. Como é triste a vida, quando é vivida assim... Mas, não será o nosso caso? Pensemos bem, porque se assim o for, jamais experimentaremos Deus de verdade, jamais conhecê-lo-emos de verdade. Nunca é demais recordar a advertência da Escritura: “Quem não ama não conhece a Deus!” (1Jo 4,8)
Aproximemo-nos de “Jesus, mediador da nova aliança”, e supliquemos a graça de um coração renovado, um coração convertido, um coração de pensamentos novos e novas atitudes! Que durante toda esta semana tenhamos a coragem de analisar e revisar nossas atitudes em casa, com os amigos e próximos, com os companheiros de trabalho e de estudo... e examinemo-nos diante do Cristo nosso Deus, no que diz respeito à humildade e à gratuidade. Recordemos que se tratam de duas atitudes de farão nosso coração pulsar em sintonia com o coração de Deus. Recordemos, como dizia São Bento, que pela humildade se sobe e pela soberba se desce! Para onde se sobe? Para o banquete do Reino de Deus. Para onde se desce? Para a penúria do anti-Reino, do reino de Satanás! Peçamos, suplicando, ao Senhor, a graça da conversão, que somente com nossas forças somos incapazes e impotentes para encetar! Que Deus no-la conceda.
dom Henrique Soares da Costa


=====================================
A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado.
O Evangelho coloca-nos no ambiente de um banquete em casa de um fariseu. O enquadramento é o pretexto para Jesus falar do “banquete do Reino”. A todos os que quiserem participar desse “banquete”, Ele recomenda a humildade; ao mesmo tempo, denuncia a atitude daqueles que conduzem as suas vidas numa lógica de ambição, de luta pelo poder e pelo reconhecimento, de superioridade em relação aos outros…
Jesus sugere, também, que para o “banquete do Reino” todos os homens são convidados; e que a gratuidade e o amor desinteressado devem caracterizar as relações estabelecidas entre todos os participantes do “banquete”.
Na primeira leitura, um sábio dos inícios do séc. II a.C. aconselha a humildade como caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para ter êxito e ser feliz. É a reiteração da mensagem fundamental que a Palavra de Deus hoje nos apresenta.
A segunda leitura convida os crentes instalados numa fé cômoda e sem grandes exigências, a redescobrir a novidade e a exigência do cristianismo; insiste em que o encontro com Deus é uma experiência de comunhão, de proximidade, de amor, de intimidade, que dá sentido à caminhada do cristão. Aparentemente, esta questão não tem muito a ver com o tema principal da liturgia deste domingo; no entanto, podemos ligar a reflexão desta leitura com o tema central da liturgia de hoje – a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado – através do tema da exigência: a  vida cristã – essa vida que brota do encontro com o amor de Deus – é uma vida que exige de nós
determinados valores e atitudes, entre os quais avultam a humildade, a simplicidade, o amor que se faz dom.
1º leitura: Sir. 3,19-21.30-31
Jesus Ben Sira é, no entanto, um judeu tradicional, orgulhoso da sua fé e dos valores israelitas. Consciente de que o helenismo ameaçava as raízes do seu Povo, vai escrever para defender o patrimônio religioso e cultural do judaísmo. Procura convencer os seus compatriotas de que Israel possui, na sua “Torah” revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
Aos israelitas seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira lembra a herança comum, procurando sublinhar a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
O texto que nos é proposto pertence à primeira parte do livro (cf. Ben Sira 1,1-23,38).
Aí fala-se da “sabedoria”, criada por Deus e oferecida a todos os homens. Nesta parte, dominam os “ditos” e “provérbios” que ensinam a arte de bem viver e de ser feliz.
MENSAGEM
O texto apresenta-se como uma “instrução” que um pai dá ao seu filho. O tema fundamental desta “instrução” é o da humildade.
Para Jesus Ben Sira, a humildade é uma das qualidades fundamentais que o homem deve cultivar. Garantir-lhe-á estima perante os homens e “graça diante do Senhor”.
Não se trata de uma forma de estar e de se apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados; mas trata-se de algo que deve ser cultivado por todos os homens, a começar por aqueles que são considerados mais importantes. O autor não entra em grandes pormenores; limita-se a afirmar a importância da humildade e a propô-la, sem grandes desenvolvimentos nem explicações. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na humildade e na simplicidade que reside o segredo da “sabedoria”, do êxito, da felicidade.
ATUALIZAÇÃO
Para a reflexão e partilha, considerar os seguintes dados:
♦ Ser humilde significa assumir com simplicidade o nosso lugar, pôr a render os nossos talentos, mas sem nunca humilhar os outros ou esmagá-los com a nossa superioridade. Significa pôr os próprios dons ao serviço de todos, com simplicidade e com amor. Quando somos capazes de assumir, com simplicidade e desprendimento, o nosso papel, todos reconhecem o nosso contribuição, aceitam-nos, talvez nos admirem e nos amem… É aí que está a “sabedoria”, quer dizer, o segredo do êxito e da felicidade.
♦ Ser soberbo significa que “a árvore da maldade criou raízes” no homem. O homem que se deixa dominar pelo orgulho torna-se egoísta, injusto, auto-suficiente e despreza os outros. Deixa de precisar de Deus e dos outros homens; olha todos com superioridade e pratica, com frequência, gestos de prepotência que o tornam temido, mas nunca admirado ou amado. Vive à parte, num egoísmo vazio e estéril.
Embora seja conhecido e apareça nas colunas sociais, está condenado ao fracasso. É o “anti-sábio”.
♦ É preciso que os dons que possuímos não nos subam à cabeça, não nos levem a poses ridículas de orgulho, de superioridade, de desprezo pelos nossos irmãos. É preciso reconhecer, com simplicidade, que tudo o que somos e temos é um dom de Deus e que as nossas qualidades não dependem dos nossos méritos, mas do amor de Deus.
2º leitura: Hb. 12,18-19.22-24ª - AMBIENTE
Estamos na quinta parte da Carta aos Hebreus (cf. 12,14-13,19). Depois de pedir a perseverança e a constância nas provas (cf. Heb 12,1-13), o autor vai pedir uma conduta consequente com a fé cristã: os crentes são exortados a manter e cultivar relações harmoniosas, adequadas, justas, para com os homens e para com Deus.
Neste texto, em concreto, o autor convida os destinatários da carta à fidelidade à vocação cristã. Para isso, estabelece um paralelo entre a antiga religião (que os destinatários da carta conheciam bem) e a nova proposta de salvação que Cristo veio apresentar. Os crentes são, assim, convidados a redescobrir a novidade do cristianismo – essa novidade que, um dia, os atraiu e motivou – e a aderir a ela com entusiasmo… Recordemos – para que as coisas façam sentido – que o escrito se destina a uma comunidade instalada, preguiçosa, que precisa descobrir os fundamentos reais da sua fé e do seu compromisso, a fim de enfrentar – com coragem e com êxito – os tempos difíceis de perseguição e de martírio que se aproximam.
MENSAGEM
O autor estabelece um profundo contraste entre a experiência de comunhão com Deus que Israel fez no Sinai e a experiência cristã.
A experiência do Sinai é descrita como uma experiência religiosa que gerou medo, opressão, mas não relação pessoal, proximidade, amor, comunhão, intimidade, confiança – nem com Deus, nem com os outros membros da comunidade do Povo de Deus. O quadro da revelação do Sinai é um quadro terrífico, que não fez muito para aproximar os homens de Deus, num verdadeiro encontro alicerçado no amor e na confiança. Por isso, não há que lamentar o desaparecimento de um tal sistema.
Na experiência cristã, em contrapartida, não há nada de assustador, de terrível, de opressivo. Pelo batismo, os cristãos aproximaram-se do próprio Deus, numa experiência de proximidade, de comunhão, de intimidade, de amor verdadeiro… A experiência cristã é, portanto, uma experiência festiva, de verdadeira alegria. Por essa experiência, os cristãos associaram-se a Deus, o santo, o juiz do universo, mas também o Deus da bondade e do amor; foram incorporados em Cristo, o mediador da nova aliança, irmanados com Ele, tornados co-herdeiros da vida eterna; associaram-se aos anjos, numa existência de festa, de louvor, de ação de graças, de adoração, de contemplação; associaram-se aos outros justos que atingiram a vida plena, numa comunhão fraterna de vida e de amor.
A questão que fica no ar – mesmo se não é formulada explicitamente – é: não vale a pena apostar incondicionalmente nesta experiência e vivê-la com entusiasmo?
ATUALIZAÇÃO
A reflexão e a atualização podem fazer-se a partir das seguintes linhas:
♦ A questão fundamental deste texto e do ambiente que o enquadra é propor-nos uma redescoberta da nossa fé e do sentido das nossas opções, a fim de superarmos a instalação, o comodismo e a preguiça que nos levam, tantas vezes, a uma caminhada cristã morna, sem exigências, sem compromissos, que facilmente cede e recua quando aparecem as dificuldades e os desafios…
♦ Jesus intimou-nos a superar a perspectiva de um Deus terrível, opressor, vingativo, de Quem o homem se aproxima com medo; em seu lugar, Ele apresentou-nos a religião de um Deus que é Pai, que nos ama, que nos convoca para a comunhão com Ele e com os irmãos e que insiste em associar-nos como “filhos” à sua família. Tenho consciência de que este é o verdadeiro rosto de Deus e que o Deus terrível, de quem o homem não se pode aproximar, é uma invenção dos homens?
Evangelho: Lc. 14,1.7-14 - AMBIENTE
Esta etapa do “caminho de Jerusalém” põe Jesus à mesa, em dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus. Deve tratar-se da refeição solene de sábado, que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga. Para ela deviam convidar-se os hóspedes; durante a refeição, continuava-se a discussão sobre as leituras escutadas durante o ofício sinagogal.
Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até o convidam para casa e se sentam à mesa com Ele (cf. Lc. 7,36; 11,37). É provável que se trate de uma realidade histórica, embora Marcos e Mateus apresentem os fariseus como os adversários por excelência de Jesus (Mateus apresenta tal quadro influenciado, sem dúvida, pelas polêmicas da Igreja primitiva com os fariseus).
Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-políticos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos dos israelitas. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah, quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se a si próprios como “puros” (porque viviam de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o “povo do país”) que, por causa da ignorância e da vida dura que levava, não podia cumprir integralmente os preceitos da Lei.
Conscientes das suas capacidades, da sua integridade, da sua superioridade, não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique o ambiente de luta pelos lugares de honra que o Evangelho refere.
Convém, também, ter em conta que estamos no contexto de um “banquete”. O “banquete” é, no mundo semita, o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham do mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade, de irmandade. Jesus aparece, muitas vezes, envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e bêbedo” (cf. Mt. 11,19), mas porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete anuncia a realidade do “reino”.
MENSAGEM
O texto apresenta duas partes. A primeira (vs. 7-11) aborda a questão da humildade; a segunda (vs. 12-14) trata da gratuidade e do amor desinteressado. Ambas estão unidas pelo tema do “Reino”: são atitudes fundamentais para quem quiser participar no banquete do “Reino”.
As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam os lugares de honra não são novidade, pois já o Antigo Testamento aconselhava a não ocupar os primeiros lugares (cf. Pr. 25,6-7); mas o que aí era uma exortação moral, nas palavras de Jesus converte-se numa apresentação do “Reino” e da lógica do “Reino”: o “Reino” é um espaço de irmandade, de fraternidade, de comunhão, de partilha e de serviço, que exclui qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros; quem quiser entrar nele, tem de fazer-se pequeno, simples, humilde e não ter pretensões de ser melhor, mais justo, ou mais importante que os outros. Esta é, aliás, a lógica que Jesus sempre propôs aos seus discípulos: Ele próprio, na “ceia de despedida”, comida com os discípulos na véspera da sua morte, lavou os pés aos discípulos e constituiu-os em comunidade de amor e de serviço – avisando que, na comunidade do “Reino”, os primeiros serão os servos de todos (cf. Jo 13,1-17).
Na segunda parte, Jesus põe em causa – em nome da lógica do “Reino” – a prática de convidar para o banquete apenas os amigos, os irmãos, os parentes, os vizinhos ricos.
Os fariseus escolhiam cuidadosamente os seus convidados para a mesa. Nas suas refeições, não convinha haver alguém de nível menos elevado, pois a “comunidade de mesa” vinculava os convivas e não convinha estabelecer obrigatoriamente laços com gente desclassificada e pecadora (por exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “am aretz”, ao “povo da terra”, desclassificado e pecador).
Por outro lado, também os fariseus tinham a tendência – própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas – de convidar aqueles que podiam retribuir da mesma forma… A questão é que, dessa forma, tudo se tornava um intercâmbio de favores e não gratuidade e amor desinteressado.
Jesus denuncia – em nome do “Reino” – esta prática; mas vai mais além e apresenta uma proposta verdadeiramente subversiva… Segundo Ele, é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Os cegos, coxos e aleijados eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus, e por isso estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2Sm. 5,8) para não profanar esse lugar sagrado (cf. Lv. 21,18-23). No entanto, são esses que devem ser os convidados para o “banquete”.
Já percebemos que, aqui, Jesus já não está simplesmente a falar dessa refeição comida em casa de um fariseu, na companhia de gente distinta; mas está já a falar daquilo que esse “banquete” anuncia e prefigura: o banquete do “Reino”.
Jesus traça aqui, portanto, os contornos do “Reino”. Ele é apresentado como um “banquete”, onde os convidados estão unidos por laços de familiaridade, de irmandade, de comunhão. Para esse “banquete”, todos – sem exceção – são convidados (inclusive àqueles que a cultura social e religiosa tantas vezes exclui e marginaliza). As relações entre os que aderem ao banquete do “Reino” não serão marcadas pelos jogos de interesses, mas pela gratuidade e pelo amor desinteressado; e os participantes do “banquete” devem despir-se de qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, para se colocarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço.
ATUALIZAÇÃO
♦ Na nossa sociedade, agressiva e competitiva, o valor da pessoa mede-se pela sua capacidade de se impor, de ter êxito, de triunfar, de ser o melhor… Quem tem valor é quem consegue ser presidente do conselho de administração da empresa
aos trinta e cinco anos, ou o empregado com mais índices de venda, ou o condutor que, na estrada, põe em risco a sua vida, mas chega uns segundos à frente dos outros… Todos os outros são vencidos, incapazes, fracos, olhados com comiseração. Vale a pena gastar a vida assim? Estes podem ser os objetivos supremos, que dão sentido verdadeiro à vida do homem?
♦ A Igreja, fruto do “Reino”, deve ser essa comunidade onde se torna realidade a lógica do “Reino” e onde se cultivam a humildade, a simplicidade, o amor gratuito e desinteressado. É-o, de fato?
♦ Assistimos, por vezes, a uma corrida desenfreada na comunidade cristã pelos primeiros lugares. É uma luta – para alguns de vida ou de morte – em que se recorre a todos os meios: a intriga, a exibição, a defesa feroz do lugar conquistado, a humilhação de quem faz sombra ou incomoda… Para Jesus, as coisas são bastante claras: esta lógica não tem nada a ver com a lógica do “Reino”; quem prefere esquemas de superioridade, de prepotência, de humilhação dos outros, de ambição, de orgulho, está a impedir a chegada do “Reino”. Atenção: isto talvez não se aplique só àquela pessoa da nossa comunidade que detestamos e cujo nome nos apetece dizer sempre que ouvimos falar em gente que só gosta de mandar e se considera superior aos outros; isto talvez se aplique também em maior ou menor grau, a mim próprio.
♦ Também há, na comunidade cristã, pessoas cuja ambição se sobrepõe à vontade de servir… Aquilo que os motiva e estimula são os títulos honoríficos, as honras, as homenagens, os lugares privilegiados, as “púrpuras”, e não o serviço humilde e o amor desinteressado. Esta será uma atitude consentânea com a pertença ao “Reino”?
♦ Fica claro, na catequese que Lucas hoje nos propõe, que o tipo de relações que unem os membros da comunidade de Jesus não se baseia em “critérios comerciais” (interesses, negociatas, intercâmbio de favores), mas sim no amor gratuito e desinteressado. Só dessa forma todos – inclusive os pobres, os humildes, aqueles que não têm poder nem dinheiro para retribuir os favores – aí terão lugar, numa verdadeira comunidade de amor e de fraternidade.
♦ Os cegos e coxos representam, no Evangelho que hoje nos é proposto, todos aqueles que a religião oficial excluía da comunidade da salvação; apesar disso, Jesus diz que esses devem ser os primeiros convidados do “banquete do Reino”.
Como é que os pecadores notórios, os marginais, os divorciados, os homossexuais, as prostitutas são acolhidos na Igreja de Jesus?

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho