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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

1º DOMINGO QUARESMA Ano C

1º DOMINGO QUARESMA
Ano C

Cor: Roxo

14 de Fevereiro de 2016

1ª Leitura - Dt 26,4-10


Salmo - Sl 90,1-2.10-11.12-13.14-15 (R. cf.15b)


2ª Leitura - Rm 10,8-13



Evangelho - Lc 4,1-13




Este é o primeiro domingo da quaresma, tempo de penitência, oração e conversão. E a Igreja começa nos lembrando de que para conseguir a purificação, a conversão, precisamos começar pelo combate às tentações. Pois é por elas que nos perdemos na estrada, e podemos nunca alcançar o caminho certo da casa do Pai, nossa morada eterna. Continua


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FIEIS A CRISTO VENCEREMOS TODAS AS TENTAÇÕES! – Olivia Coutinho

1º DOMINGO DA QUARESMA

Dia 14 de Fevereiro de 2016

Evangelho Lc4,1-13

Estamos no início da quaresma, um tempo forte na vida da Igreja e de todos que se dispõe a caminhar com o Cristo vencedor!
A liturgia deste tempo Quaresmal, tem como propósito, despertar em nós, o desejo de mudança, de reavermos os valores  que deixamos de lado, por estarmos iludidos com as propostas  do mundo!
Nas palavras de Jesus, durante este  tempo, há sempre um apelo de conversão! E todos nós sabemos que não é fácil percorrer o caminho da conversão, afinal, mudanças, é sempre um grande desafio, requer muita coragem, determinação, renuncias e acima de tudo, o constante exercício do perdão! Mas mesmo sendo um caminho difícil, vale apena segui-lo, afinal, não tem alegria maior do que o nosso retorno ao coração do Pai!
Somos chamados a viver esse tempo no espírito da fé, deixando para trás a  escuridão do passado que nos impedia de aproximarmos da Luz! O pecado, interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas a porta do seu coração misericordioso nunca fecha, ela está sempre aberta para nos receber de volta, basta querermos voltar!
No evangelho de hoje, vemos que Jesus, na sua condição humana, foi tentado a desistir da sua missão, a trocar o projeto de Deus por bens materiais, mas a sua resposta foi taxativa: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Jesus foi tentado a aceitar e a confiar no poder do demônio, mas Ele respondeu com firmeza: ”Não tentarás o Senhor teu Deus.”
O Filho de Deus venceu o inimigo por estar fortalecido no Espírito do Pai, Ele se manteve firme no propósito de levar em frente a sua missão: libertar a humanidade da escravidão do pecado!
Assim como aconteceu com Jesus, acontece também conosco, a tentação do TER, e do PODER, está sempre a nos rondar, precisamos  estarmos  sempre  vigilantes para não sermos pegos de surpresa, pois a tentação é oportunista, ela surge inesperadamente, principalmente quando nos propomos a mudar de vida ou quando estamos enfraquecidos na fé! Para nos seduzir, o mal chega até a nós disfarçado do bem, por isto, precisamos  estar  sempre atentos para não tornarmos presas fácies, deixando-nos enganar pelas aparências!
Ninguém está livre das tentações, elas estão presentes em toda parte, principalmente onde existe o bem, para vencê-la, é importante estarmos sempre em sintonia com Deus, perseverantes na fé, munidos da arma mais poderosa que temos ao nosso alcance: a oração!
Ser tentado, não significa pecar, pecar é cair na tentação! Todos nós, já passamos pela experiência de ser tentado, o próprio Jesus viveu esta experiência,  é a nossa ligação com Deus que nos torna resistentes as tentações, que não nos deixa cair nas ciladas preparadas pelo o inimigo!
Que o Espírito de Deus, que fortaleceu Jesus nas tentações, nos fortaleça também,  e que nenhuma proposta do mundo, nos convença a trocar o SER pelo TER.
Na oração do Pai Nosso Jesus nos ensina a pedir ao Pai: “E não nos deixeis cair em tentação”... Peçamos a Ele todos os dias esta graça!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho   
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Neste início de Quaresma, a liturgia faz-nos pensar na Páscoa. Isto porque o tempo quaresmal não é um fim em si mesmo, mas é caminho de luta e combate espiritual para bem celebrarmos, com o coração dilatado, a Páscoa do Senhor, maior de todas as festas cristãs.
Na primeira leitura, o Deuteronômio apresenta-nos o rito de oferta das primícias da colheita: ao apresentar ao Senhor Deus o fruto da terra, o israelita piedoso confessava que pertencia a um povo de estrangeiros e peregrinos, vindos do Pai Jacó, que não passava de um arameu errante. O israelita fiel recordava diante de Deus a história de Israel, história de escravidão e de libertação: “Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito... Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. Os egípcios nos oprimiram. Clamamos ao Senhor... e o Senhor ouviu a nossa voz e viu a nossa opressão... E o Senhor nos tirou do Egito... E conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra... Por isso eu trago os primeiros frutos da terra que tu me deste, Senhor”. Éramos ninguém e o Senhor nos libertou, deu-nos uma vida nova – eis o resumo da história e da experiência de Israel! Esta também é a nossa experiência, como Igreja, Novo Israel: “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Também a nossa história é de libertação: éramos escravos, todos nós, do grande Faraó, o Pecado que nos destrói e destrói o mundo. Mas Deus enviou o seu Filho numa carne de pecado (numa natureza sujeita às conseqüências do pecado): ele desceu a este mundo e entrou na nossa miséria, até a morte, a nossa morte. Deus o arrancou da morte; ressuscitou-o e fez dele Senhor e Cristo e quem nele crer e confessá-lo como Senhor na sua vida, encontra a salvação; encontra um novo modo de viver, encontra a paz, encontra já agora a comunhão com Deus e, depois, a Vida eterna! Assim, Israel nasceu da Páscoa do deserto; a Igreja nasceu da Páscoa de Cristo. Israel era escravo, atravessou o mar e o deserto e tornou-se um povo livre para o Senhor. Nós éramos escravos, éramos ninguém, atravessamos as águas do Batismo com Cristo, e ainda que caminhemos neste deserto da vida, somos um povo livre para o Senhor nosso Deus.
O tempo da Quaresma prepara-nos para celebrar este mistério tão grande! Recordemos que a ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição, é motivo da nossa comunhão com Deus é a razão da nossa fé cristã! Há apenas dois domingos, são Paulo dizia abertamente: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, ainda estais em vossos pecados!” (1Cor. 15,17). Pois bem, neste sagrado tempo quaresmal, a Igreja nos quer preparar para a santa Páscoa, para que revivamos em nós, pessoal e comunitariamente, a libertação que Cristo nos trouxe com a sua vitória. Por isso, a Quaresma é um tempo de combate espiritual e de luta contra o pecado. É um tempo de exame de consciência e de reorientação de nossa adesão ao Cristo Jesus. Só assim, atravessaremos o deserto dos quarenta dias rumo à Terra Prometida da Páscoa de Cristo, que se torna nossa Páscoa. Nosso caminho quaresmal recorda e celebra tantas quaresmas: a do dilúvio, quando durante quarenta dias e quarenta noites o Senhor Deus purificou a terra e a humanidade; a de Moisés, que durante quarenta dias e quarenta noites jejuou e orou sobre o Sinai para encontrar o Senhor que lhe daria a Lei; a de Israel, que caminhou no deserto durante quarenta anos; a de Elias profeta, que caminhou quarenta dias pelo deserto rumo ao Horeb, monte de Deus; a quaresma de Jesus, que antes de iniciar publicamente seu ministério, jejuou e orou quarenta dias e quarenta noites. Eis o caminho de Deus, eis o nosso caminho: caminho de combate espiritual, de busca de Deus, de luta interior, de conversão! Sem Quaresma ninguém celebra verdadeiramente a Páscoa do Senhor!
O evangelho de hoje, apresentando-nos as tentações de Jesus, nos ensina a combater: ele venceu Satanás ali, onde Israel fora vencido: Israel pecou contra Deus murmurando por pão; Jesus abandonou-se ao Pai e venceu; Israel pecou adorando o bezerro de ouro; Jesus venceu recusando dobrar os joelhos diante da proposta de Satanás; Israel pecou tentando a Deus em Massa e Meriba; Jesus rejeitou colocar Deus à prova. Nas tentações de Cristo estão simbolizadas as nossas tentações: a concupiscência da carne (o prazer e a satisfação desregrada dos sentidos), a concupiscência dos olhos (a riqueza e o apego aos bens materiais) e a soberba da vida (o poder e o orgulho auto-suficiente e dominador). Ora, Jesus foi tentado como nós, tentado por nossa causa, por amor de nós. Ele foi tentado como nós, para que nós vençamos como ele! Ele foi tentado não somente naqueles quarenta dias. O evangelho diz que “terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno”. A tentação de Jesus foi até a cruz, quando ele, no combate final, colocou toda a vida nas mãos do Pai e pelo Pai foi ressuscitado, tornando-se causa de vida e ressurreição para nós, que nele cremos, que o seguimos, com ele combatemos e o proclamamos Senhor ressuscitado.
Caminhemos neste santo tempo rumo à Páscoa; usemos como armas de combate no caminho quaresmal a oração, a penitência e a esmola do amor fraterno para que, ao final do caminho, sejamos mais conformes à imagem bendita do Cristo Jesus ressuscitado, nosso Senhor e Deus, vencedor do maligno e da morte, a quem seja a glória pelos séculos.
dom Henrique Soares da Costa

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A Quaresma era, nos seus inícios, um tempo forte de preparação para o batismo. Na Quaresma, a pessoa que se tornaria cristã tinha a oportunidade de refletir mais e mais na nova vida que estava assumindo, assim como nas dificuldades que haveria de enfrentar para ser fiel ao evangelho no meio de um mundo pagão.
Hoje a situação não é muito diferente para todos os que pretendem viver de modo cristão. Se nos inícios, para celebrarem a sua fé, aconteceu aos cristãos ter de se esconder nos subterrâneos das catacumbas, atualmente podem celebrar o mais sagrado dos seus mistérios diante das câmeras bisbilhoteiras da televisão. Isso, porém, não quer dizer que tenha ficado fácil viver hoje de maneira autenticamente cristã.
As tentações de reduzir o sentido da vida ao bem-estar, ao consumismo fácil e até ao desperdício, as tentações dos ídolos do dinheiro e do mercado e os da religião milagreira, que põe a fé a serviço de interesses pessoais, estão fortemente presentes hoje, mais até do que no passado. E esses demônios se vencem com o jejum, com a oração, pela fé e por uma práxis centrada no evangelho.
1º leitura: Dt. 26,4-10
Os donativos das primícias, os primeiros frutos da colheita, eram ocasião para o judeu devoto recordar a presença de Deus na sua história e reconhecê-lo como único Senhor. A Quaresma também é ocasião de recordar as origens de nossa fé, lembrar-nos de onde viemos, para onde vamos e do Deus em que cremos.
O texto escolhido para a 1ª leitura de hoje deixa fora os primeiros versículos, que falam da entrega das primícias. Em outras religiões antigas, a entrega em um templo dos primeiros frutos da colheita celebrava um rito de fecundidade, como se fosse a nova descida de um deus ao interior da terra para torná-la fecunda.
A religião de Israel, porém, é uma religião histórica. Seu Deus não está na natureza nem tem que ver com um mito que apenas repete os ciclos naturais. Seu Deus é Javé, que se manifesta na história. E essa história tem começo e tem destino.
É uma história de libertação. Começa com um arameu errante, passa pela opressão sofrida no Egito e avança para a entrada na terra, com a posse de uma terra onde correm leite e mel. O errante se torna estável, o escravo se torna livre, o carente se torna senhor.
A solidariedade horizontal explicitada no v. 11, ausente do texto de hoje, inclui uma solidariedade vertical, que remete até a um primeiro pai de todos. Tudo o que sucedeu a cada geração faz parte da nossa vida.
2º leitura: Rm. 10,8-13
Falando a cristãos não judeus e tendo em vista cristãos judeus que retornavam para Roma em situação de inferioridade, Paulo insiste na igualdade entre todos perante a oportunidade de salvação.
Extremamente pobres, os judeus que viviam em Roma tinham sido expulsos da cidade, como diz um historiador daqueles tempos, “por causa das frequentes agitações provocadas (em seus bairros) por certo Crestos”. As agitações aconteciam por discussões em torno de Jesus, se seria ele o Messias (Cristo) ou não.
O fato é que agora Nero permitiu a volta dos judeus. Os cristãos judeus vão querer novamente se integrar nas comunidades de onde saíram, as quais agora só têm cristãos não judeus, também chamados simplesmente de gregos. Será fácil se entrosar com eles? Não serão os judeus humilhados mais uma vez? Por que a maioria deles não aceitou a fé em Jesus? A salvação é um privilégio dos não judeus?
Essas e outras perguntas fervilhavam na cabeça de Paulo quando escreveu aos romanos. No trecho lido hoje, ele fala da esperança de os judeus também chegarem à fé e à salvação em Jesus. Não há diferença: todos, judeus e não judeus, ou gregos, podem alcançar a salvação em Jesus.
Na liturgia da Quaresma, essas palavras vêm falar fortemente aos que se preparam para receber o batismo na Vigília de Páscoa.
Evangelho: Lc. 4,1-13
Jesus começa a sua missão com uma “quaresma”, 40 dias de provação e jejum. É só um ensaio e uma amostra. As forças do mal continuam lutando contra ele durante toda a sua vida e missão.
Bem característico do Evangelho de Lucas é a referência constante ao Espírito Santo. Repleto dele, Jesus se afasta do rio Jordão: pelo mesmo Espírito ali ele fora ungido como Messias e agora é conduzido pelo deserto por 40 dias de tentação ou prova. A luta é entre o Espírito, que é vida e liberdade, e o diabo, que é fanatismo e opressão.
É também próprio de Lucas indicar que essas tentações foram apenas um ensaio e amostra. Ele termina o episódio dizendo que o diabo se afastou para voltar no momento oportuno. Esse momento oportuno seria durante o tempo de atividade de Jesus, especialmente a ocasião da sua morte? Pode ser também a volta frequente das mesmas tentações sobre os discípulos de ontem e também de hoje.
A “quaresma” de Jesus se espelha nos 40 anos do êxodo, os 40 anos em que o povo de Deus viveu acampado no deserto, mudando de um lugar para outro em busca da terra prometida. O deserto e as tentações se assemelham. Podemos, assim, traçar um paralelo entre as tentações dos hebreus acampados no deserto, as tentações de Jesus e as tentações de hoje.
Tentações dos hebreus
Fome: Pedem pão, pedem carne, lembram as cebolas do Egito.
Idolatria: Ajuntam seus objetos de ouro para fazer um bezerro de ouro e adorá-lo.
Moisés cai na tentação e pergunta: “Será que Deus pode fazer brotar água desta pedra?”
Tentações de Jesus
Fome: “Manda que esta pedra se transforme em pão!”
Poder: “Toda essa riqueza será tua se te prostrares para me adorar!”
Providencialismo: “Joga-te daqui a baixo que Deus mandará seus anjos te carregarem!”
Tentações de hoje
Consumismo.
Poder, riqueza, aparência: “Em política e em negócios só não vale perder!”.
Religião de curas: “Joga fora esses remédios que Jesus vai te curar!”
Seria possível ver também, durante a atividade de Jesus no Evangelho segundo Lucas, a volta dessas mesmas tentações? Em 22,28, Jesus diz que os discípulos estiveram com ele em todas as suas tentações ou provações. Quais teriam sido essas provações? Não será muito difícil identificá-las em todo o evangelho e observar sua correspondência com as três amostras que temos aqui.
Quando, diante do entusiasmo da multidão por causa de suas curas, Jesus se retira para a montanha em oração, não está a indicar que não quer ser simples curandeiro? Quando diz que não tem sequer uma pedra onde reclinar a cabeça, não está falando de uma vitória contra a tentação do conforto, do consumismo? Quando, com muitíssima frequência no Evangelho segundo Lucas, Jesus critica os ricos e a riqueza, não estaria também vencendo essa tentação? E a última provação, corajosamente vencida, foi, sem dúvida, a morte de cruz.
A “Quaresma” de Jesus prepara-o para a missão. Aqui ele se treina para superar todas as dificuldades que hão de vir. Assim, aquele que se prepara para o batismo se exercita na Quaresma para, com Jesus, “vencer o mundo”.
Pistas para reflexão
Não seremos batizados novamente, mas a renovação do nosso batismo na Vigília de Páscoa tem de ter um significado verdadeiro. A cada dia temos de nos batizar novamente. E a “Quaresma” de Jesus deve ser modelo da nossa Quaresma.
O jejum significa domínio sobre o primeiro e mais forte instinto, o de sobrevivência. Significa coisas hoje muito esquecidas, como austeridade, respeito, saber seus limites, impor-se limites. A grande tentação hoje tem que ver com a palavra de ordem: “tem vontade, faz!”. Em nome da liberdade, impõe-se a libertinagem. O “senhor Mercado” exige isso, porque jejum, moderação, educação não dão lucro, e libertinagem dá.
As tentações que Jesus venceu estão nos vencendo. “Transforma essa pedra em pão!” As necessidades básicas, o pão, são primordiais, tanto que está o pão no centro do pai-nosso. Mas transformar as pessoas em consumidoras e reduzir o sentido da vida ao conforto e ao consumo nada tem que ver com o pão necessário para hoje. Não obstante, é a ordem do senhor Mercado e é o que mais se vê. Não é mentalidade comum a idéia de que viver bem significa gozar de todos os prazeres que a vida pode oferecer?
Poder e dinheiro: essas tentações existem hoje? É até difícil falar sobre isso; todos estão cansados de ver e saber. Mas não escapam a elas. O dinheiro se pode contar, somar ou diminuir. É muito visível. Outros valores, como honra, dignidade, respeito, solidariedade, não se podem contar nem somar, desaparecem diante do dinheiro. Dinheiro não tem qualidade, só quantidade. Em negócios e em política vale tudo, só não vale perder.
A religião de curas e milagres cresce como uma avalanche. O individualismo e a busca de soluções na religião para problemas psicológicos, afetivos, de saúde a até econômicos são fenômenos que parecem característicos dos nossos tempos. A fé já não é o comprometer-se com um Messias crucificado, mas acreditar na cura, acreditar que Jesus me livra das dificuldades. O centro da religião passa a ser eu.
Quaresma é lutar e vencer essas tentações como fez Jesus.

SEGUNDA HOMILIA

A Palavra faz vencer as tentações
Os quarenta dias de Jesus no deserto fazem lembrar os quarenta anos de caminhada do povo hebreu rumo à Terra Prometida. Tempo de provação, de superação das tentações, ainda que as tentações na vida de Jesus não tenham aparecido apenas nesses quarenta dias. O Evangelho de Lucas, de fato, diz que o diabo se afastou de Jesus para retornar no momento oportuno, na hora da decisão de entregar a vida na cruz, em Jerusalém.
Jesus venceu a tentação de ter comida e vida fáceis, recusando-se a transformar pedra em pão. Venceu a tentação de ter poder e prestígio, negando-se a se submeter ao que é satânico, ou seja, contrário ao projeto de Deus. Venceu a tentação de tentar o próprio Deus, recusando ações e atitudes que distorceriam a palavra de vida.
Obedecendo à palavra, Jesus vai vencendo as tentações e continuando a missão que o Pai lhe havia confiado. E a palavra que iluminou a vida de Jesus ilumina também a nossa. É a palavra que nos alimenta e nos torna comprometidos com a missão de Jesus, para trabalharmos pelo pão para todos. É a palavra que nos recorda que somente a Deus devemos adorar, relativizando todas as outras coisas. É a palavra que dá sentido à nossa existência, quando servimos a Deus servindo os menores de nossos irmãos, tal como fez Jesus.
Iniciando a Quaresma, somos como que convidados a ir com Jesus ao deserto, fazer silêncio dentro de nós mesmos, ouvir sua palavra e deixar que aí ela ecoe, para superarmos a tentação de aceitar o que é contrário aos valores que o Mestre nos ensinou. Assim a Quaresma se tornará, de fato, tempo de preparação para a Páscoa, tempo de provação da nossa fé e do nosso compromisso com Jesus. O mesmo Espírito que guiou Jesus continua nos guiando. Obedientes à palavra de Deus, confiamos que o Mestre está conosco, ajudando-nos a superar as tentações do dia a dia.
padre Paulo Bazaglia, ssp

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Treinamento da fé
Mais uma vez o primeiro domingo da Quaresma, domingo da tentação de Jesus no deserto. Foi tentado pelo demônio e saiu-se vitorioso de todas as invectivas do pai da mentira.  Estamos, efetivamente, vivendo os dias favoráveis e oportunos da Quaresma.
● “A Quaresma  é uma subida à Páscoa, como os israelitas subiam a Jerusalém para apresentar suas ofertas e como Jesus  subiu para oferecer sua vida.  Nossa subida à Páscoa está sob o signo da  provação e a comprovação de  nossa fé. Encaminhamo-nos para uma grande renovação de nossa opção de fé. Se, nos primeiros tempos da Igreja, a Quaresma era a preparação para o batismo e a profissão de fé, para nós  é caminhada de aprofundamento e renovação de nossa fé.  Pois uma fé que não passa por nenhuma prova e não vence nenhuma tentação pode se tornar acomodada, morta. Ora, a renovação de nossa opção de fé não acontece na base de algum exercício piedoso ou cursinho teórico. É uma luta, como foi a tentação  de Jesus no deserto, ao longo de quarenta dias. A fé se confirma e se aprofunda em sucessivas decisões, como as de Jesus, quando resistia com firmeza e perspicácia às tentações mais sutis: riqueza, poder, sucesso.
Precisamos de treinamento em nossa opção por Deus. Antigamente, esse treinamento consistia no jejum, na mortificação corporal. Mas em nossa situação de América Latina, empobrecida e desigual, o treinamento da opção da fé se realiza  sobretudo na sempre renovada opção pelos pobres e excluídos, no adestramento para a solidariedade cristã. A Campanha da Fraternidade nos treina  para colocar nossa fé em prática. Adestra-nos para  enfrentar os demônios de hoje, a tentação da idolatria da riqueza, da dominação, da discriminação, da competição.  Exercitamos nossa opção de fé, praticando-a na solidariedade fraterna para, com Jesus, chegar à doação  da própria vida, na hora da grande prova. Quem não se exercitar, talvez não saberá resistir” (Johan Koning, Liturgia dominical, Vozes, p. 367).
● A Quaresma é um tempo de ascese.  “A ascese cristã  nunca foi fim em si mesma; é apenas um meio, um método a serviço da vida e como tal procurará adaptar-se às novas necessidades. Outrora, a ascese dos  Padres  do deserto impunha jejuns e privações intensas e extenuantes;  hoje a luta é outra. O homem não tem necessidade de sofrimento suplementar: cilício, cadeias de ferro, flagelações correriam o risco de extenuá-lo inutilmente.  A mortificação de nossa época  consistirá na libertação da necessidade de entorpecentes, pressa, ruídos, estimulantes, drogas, álcool sob todas as formas. A ascese consistirá acima de tudo no repouso imposto a si mesmo, na disciplina da tranquilidade, no silêncio  onde o homem pode concentrar-se para a oração, mesmo em meio a todos os ruídos  do mundo, no metrô, entre a multidão, nos cruzamentos de uma cidade.  Consistirá principalmente na capacidade de compreender dos outros, dos amigos, em cada encontro. O jejum,  ao contrário,  da maceração imposta, será a renúncia alegre do supérfluo, a sua repartição  com os pobres, um equilíbrio espontâneo, tranquilo” (Paul Evdokimow).
frei Almir Ribeiro Guimarães



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Jesus resiste à tentação
Quaresma, quadragésimo dia antes da Páscoa. Na Igreja das origens, era o tempo de preparação para o batismo na noite pascal. Aprendia-se o Credo. Por isso, a 1ª leitura de hoje cita o “credo do israelita”. Ao oferecer as primícias da terra, na primavera (= março-maio, na Palestina), o israelita se lembrava dos quarenta anos passados no deserto, sob a firme condução de Javé Deus, conclusão da peregrinação iniciada por Abraão nas origens do povo. Para ser liberto da escravidão, Israel atravessou o deserto durante quarenta anos, tempo de uma geração: o povo saiu renovado. Tudo isso, o israelita o recordava anualmente ao oferecer suas primícias a Deus.
O cristão, ao apresentar-se diante de Deus, seja na comunidade reunida em assembléia, seja no silêncio de seu coração, recorda uma outra libertação: a que libertou Jesus da morte e o fez passar para a glória, a “passagem” não do anjo exterminador, mas do Cristo, que significa também nossa passagem da morte para a vida. “Jesus é o Senhor… Deus o ressuscitou dos mortos” (Rm. 8,10; 2ª  leitura). Para poder proclamar esta fé, na noite do “novo dia”, Páscoa, o cristão passa um “tempo de quarentena”, para sair completamente renovado.
Também Jesus passou por um “tempo de quarentena” (evangelho). Reviveu toda a história do povo. Conheceu a tentação da fome (cf. Nm. 14), mas recordou o ensinamento de Deus: “Não se vive só de pão” (Dt. 8,3). Conheceu a tentação do bezerro de ouro, ou seja, de adorar um falso deus, que fornecesse riqueza (cf. Ex. 32); mas respondeu, com a palavra de Deus: “Só a Deus adorarás” (Dt. 6,13). Conheceu a tentação mais refinada que se pode imaginar, a de manipular o poder de Deus para encurtar o caminho; mas a experiência de Israel, resumida em Dt. lhe oferece novamente a resposta: “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Dt. 6,16). Jesus venceu o tentador no seu próprio terreno, o deserto, onde moram as serpentes e os escorpiões, onde Deus provou Israel, mas também Israel tinha colocado o próprio Deus à prova (Sl. 95[94],9). Jesus não tentou Deus, mas venceu o tentador. Pelo menos por enquanto, pois a grande tentação ficou para “a hora determinada” (cf. Lc. 22,3.31.39).
Em Lc, Jesus é o grande orante, o modelo do fiel. Jesus resistiu à tentação de tentar Deus: sinal de sua imensa confiança no Pai. Ele professa a fé no único Deus como regra de sua vida. Ele se alimenta com a palavra que sai da boca do Altíssimo. Nossa quaresma deve ser um estar com Jesus no deserto, para, como ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida. Como ele, com ele e por ele, pois é dando a Jesus o lugar central, que o damos a Deus também. Neste sentido, a quaresma é realmente “ser sepultado com Cristo”, para, na noite pascal, com ele ressuscitar.
Lc. traz as tentações em ordem diferente de Mt. (cf. ano A). Em Mt. o auge é a tentação de adorar o demônio; em Lc. o “transporte” para Jerusalém. Ora, todo o evangelho de Lc. é uma migração de Jesus para Jerusalém, e a tentação decisiva será a “tentação de Jerusalém”. Jesus resistirá a esse ataque decisivo, na mesma cidade de Jerusalém. Assim, as tentações prefiguram o caminho de Jesus. Por isso é tão importante que nós nos unamos a ele neste “tempo de quarenta”, em espírito de prova de nossa fé e vida.
É isso que lembra a oração do dia: tornar nossa vida conforme à do Cristo. O salmo responsorial é o Sl. 91 [90], que inspirou o Satanás para a terceira tentação, mas que também contém em si a resposta ao Satanás: a ilimitada confiança em Deus.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Durante o período da Quaresma, o cristão, quer seja na comunidade ou em um encontro pessoal com Deus, prepara seu coração para estar com Jesus no deserto, e dá a Deus o poder de conduzir sua vida.
Após ser batizado no Rio Jordão e apresentado por Lucas na Sua genealogia, Jesus é levado pelo Espírito Santo para o deserto e fica ali durante 40 dias antes de iniciar sua missão de evangelizar e curar. Esses quarenta dias são simbólicos, lembram os 40 dias que Moisés ficou na montanha para firmar aliança com Deus (onde recebeu os 10 mandamentos), os 40 dias que Elias permaneceu no monte Horeb, e ainda, os 40 anos do povo de Israel no deserto.
O deserto Palestino era um lugar perigoso, não era explorado e era habitado por animais selvagens, além de bandidos. Na Sagrada Escritura, é um lugar privilegiado de encontro com Deus, mas foi, para o povo de Israel, um tempo de prova e fracasso no êxodo durante 40 anos, e também para João Batista que ali viveu desde a adolescência. Porém, no que se refere ao tempo de Jesus, o deserto não foi somente um retiro de intimidade com o Pai, mas um lugar de luta extrema.
Jesus é o novo Adão. Ele é tentado como todo homem na carne, nos olhos e na soberba da vida, mas Sua fidelidade ao Pai se mantém preservada. Ele ficou sem comer durante os 40 dias e, sendo reconhecido como Filho de Deus, foi tentado pelo diabo a usar Seus poderes divinos para Seu benefício próprio.
A primeira tentação foi transformar as pedras em pães para saciar Sua fome. Mas Ele responde com as Palavras da Sagrada Escritura, sustento da fé. Ele se recusa a ser o Messias da abundância.
A segunda tentação é um esforço de fazer Jesus adorar outra pessoa que não seja Deus. O diabo afirma que o poder e a glória estão à disposição d’Ele, pois é mentiroso e enganador e muitos caíram nessa conversa antes e depois de Jesus que se manteve fiel ao Pai, e responde novamente com as Palavras do livro do Deuteronômio.  Ele se recusa a ser o Messias do poder.
Lucas apresenta a terceira tentação como o ápice de todas, focada em Jerusalém, centro de todo o poder, realçada como o lugar principal da obra da salvação de Jesus e da vida da Igreja primitiva. O diabo tenta fazer Jesus se desviar do caminho de obediência ao Pai, insultando-O para pôr a Palavra de Deus à prova. Ele se recusa a ser o Messias da vaidade.
Sem nada conseguir, o diabo afasta-se de Jesus até o tempo oportuno, quando voltará a tentá-Lo para testar a Sua condição de Filho amado de Deus na Sua Paixão.
A cena das tentações é simbólica e resume as dificuldades que a humanidade enfrenta desde sempre até hoje no que se refere ao projeto de Deus, e que Jesus teve que enfrentar e superar durante toda a sua vida. A palavra diabo significa empecilho, obstáculos que são apresentados nesta passagem como: a tentação da abundância de alimento que parece resolver tudo, a tentação do poder e da riqueza que gera a ambição, e a tentação do prestígio e da vaidade que se transforma em abuso de poder e da confiança em si mesmo.
Pequeninos do Senhor.

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Vencendo as tentações
Os evangelhos não escamoteiam o fato da tentação na vida de Jesus. Se, por um lado, ao ser tentado, a humanidade do Messias fica patente, uma vez que todo ser humano é passível de tentação, por outro lado, a tentação evidencia a sua santidade.
Ao encarnar-se, Jesus assumiu plenamente a condição humana, sem exigir privilégios por ser Filho de Deus. Sendo assim, esteve sujeito a toda sorte de provações, como: abandonar o itinerário traçado pelo Pai para escolher um projeto de vida baseado no orgulho e na vanglória; usar mal o poder recebido do Pai, e realizar milagres para fazer-se reconhecido pelo povo. Foi tentado a desviar-se da cruz, e escolher o caminho fácil do pacto com as potências mundanas, a fim de realizar sua missão. Foi tentado a buscar fama e admiração, por meio de feitos espetaculares.
A santidade de Jesus revela-se na capacidade de vencer toda sorte de tentação, sem abrir mão do projeto do Pai, embora, devendo sofrer as conseqüências da ousadia de ser fiel.
A cruz será a suprema provação de Jesus. Não lhe faltará o desejo de ser poupado dela. Nem estará imune do pavor gerado por esta cruel circunstância. Todavia, ao superá-la, estará provado, mais do que nunca, ser ele o Filho de Deus, santo e fiel.
Oração
Espírito de fortaleza, permanece sempre comigo, nas horas da tentação, para que, como Jesus, eu seja firme em superá-las.
padre Jaldemir Vitório


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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano C

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Ano  C
7 de Fevereiro de 2016

1ª Leitura - Is 6,1-2a.3-8


Salmo - Sl 137,1-2a.2bc.4-5.7c-8 (R. 1c.2a)


2ª Leitura - Cor 15,1-11



Evangelho - Lc 5,1-11

Os pescadores tentaram a noite toda e não conseguiram nada!  E por quê? Porque Jesus não estava com eles.  Ou por que fazia parte do plano de Jesus. Nas primeiras tentativas sem Jesus, não pegaram nenhum peixe. Depois, com a proteção do Filho de Deus, tudo foi diferente! Pleia mais


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“AVANCE PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS” -  Olivia Coutinho

 

5º DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

Dia 07 de Fevereiro de  2016

 

Evangelho de Lc5,1-11


Depois de ter sido expulso de Nazaré, após se revelar como o enviado de Deus, através de uma leitura feita por Ele numa sinagoga, Jesus mudou o local de suas pregações, deixando as sinagogas para  pregar a céu aberto.  Não, que Ele guardasse algum ressentimento das humilhações sofridas por parte de  seus conterrâneos dentro de uma sinagoga e sim, para ampliar o seu campo de ação!

Nas praias, nas estradas, nas praças, as suas palavras alcançariam um número maior de pessoas, o que podemos constatar no evangelho deste domingo, que começa dizendo: “Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus.”

 O texto que nos é apresentado, é riquíssimo em ensinamentos,  marca o início da relação entre Jesus e os seus primeiros colaboradores! Relação, que começa após uma fracassada pesca, quando Jesus depara com Pedro e seus companheiros lavando as redes na praia, dando como encerrada as frustradas tentativas de pesca.

A iniciativa deste encontro, parte de Jesus, quando Ele decide fazer da barca de Pedro, um local para  mais uma de suas  pregações!

Terminada a pregação, Jesus diz a Pedro: “Avance para águas mais profundas e lançai vossas redes para a pesca”. Mesmo tomado pelo desanimo, Pedro, em obediência a Jesus, faz o que Ele manda e o milagre da pesca acontece! Foi o milagre que abriu os olhos de Pedro e hoje abre também os nossos olhos para uma realidade que muitas vezes  nós não nos damos  conta: a pequenez do humano diante o poder  Divino!

Neste episódio, Pedro reconhece a divindade de Jesus, e numa atitude de humildade, atira-se aos seus pés, se declarando indigno de estar com Ele: “Afasta-te de mim Senhor, porque sou um pecador!” Este reconhecimento de Pedro, não fez com que Jesus afastasse dele, pelo contrário, foi a partir daí, que Jesus o convoca a ser um pescador de homens!

Pedro, um homem de temperamento forte, que acreditava entender tudo de pesca, deixa-se conquistar por Jesus, larga a sua barca na praia e vai buscar outro mar! É na barca de Jesus, que Pedro avança mar adentro levando consigo os seus companheiros! 

Assim como Jesus convidou os primeiros discípulos a mergulharem nas profundezas do mar humano, hoje, Ele nos convida a deixarmos às margens e a  avançarmos para as águas mais profundas, isto é, a nos colocar a serviço do Reino! Ficar às margens, pode até ser cômodo, seguro, afinal, não correremos nenhum risco, mas deixaremos de experimentar as alegrias de navegar na barca de Jesus, o único meio de chegarmos nas profundezas do coração do Pai!

Lançar as redes em águas mais profundas do mar humano, significa abordar o outro, conquistá-lo para Deus, é buscar o novo, é inovar, é tornar ponte para que o outro possa conhecer, ou retomar o caminho da vida! 

A salvação é graça de Deus para todos, diante desta oferta de amor, cada um de nós tem que tomar uma decisão que requer uma resposta de coragem, de compromisso e de fé!

A fé, o ardor missionário, nos desinstala nos estimula a buscar novos meios para anunciar, de  forma criativa a Boa Nova do Reino!

Como seguidores  de Jesus, não podemos ter medo, precisamos arriscar, tomar o remo, mesmo sem conhecer a rota, o decisivo para nós, não é conhecer a rota  é ir, é ter coragem e disposição  para avançar, para  ir mais além, o restante, é com Jesus, Ele nos mostrará a direção, ou seja, Ele é direção, basta segui-lo!


FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho   
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Depois de manifestar seu programa – anunciar o ano do verdadeiro jubileu – e ser, então, rejeitado pelos seus conterrâneos, Jesus segue o seu caminho. Agora ensina da barca de Simão e o chama para ser pescador de gente.
Pescar gente não é simplesmente trazer as pessoas para o seu barco, o seu grupo, a sua instituição; é tirar as pessoas do poder da morte. As águas volumosas como o lago, o mar, eram relacionadas ao poder da morte e das forças do mal. O capítulo 21 do livro do Apocalipse, ao falar dos novos céus e nova terra, onde já não existe nem morte, nem luto, nem dor, diz: “o mar já não existe”.
1º leitura (Is. 6,1-2a.3-8)
Isaías nos conta como se sentiu chamado para ser profeta, um mensageiro de Deus. Homem do templo e homem de oração, foi certamente no templo que ele sentiu o apelo de Deus.
Se isso sucedeu, como muitos pensam, no dia da expiação, no momento em que o sumo sacerdote, levando sangue de carneiros e bodes, afastou a cortina para entrar no santuário, certamente Isaías viu a arca da aliança e os querubins que a ladeavam. Com a mente sempre voltada para Deus, foi então que seus pensamentos o conduziram a essa experiência mística.
Javé sentado entre os querubins, lá no alto, nas alturas, sublime. Bastava a orla do seu manto para encher todo o templo, como a nuvem de fumaça, outro sinal da presença de Deus, também enchia o templo. O cântico dos serafins diz que a terra toda – não só o templo – está cheia da glória de Deus. O santuário, o templo e a terra inteira estão repletos da sua glória. Javé é o Deus santo, presente em toda parte, ocupando todos os espaços.
Ver Deus e sua glória é correr grande risco, pois quem vê Deus não pode continuar vivo, como afirmam vários textos do Primeiro Testamento. Isaías acrescenta mais uma razão: tem lábios impuros e vive no meio de gente de lábios impuros. Mas um serafim, anjo do fogo, vem purificar-lhe os lábios com uma brasa tirada do altar, de onde a fumaça dos sacrifícios sobe até Deus.
Vem, em seguida, a vocação. Javé não diz que o escolheu e quer enviá-lo, apenas pergunta a quem há de enviar, quem irá por ele; Isaías, por seu turno, não manifesta qualquer resistência, acode prontamente: “Aqui estou! Envia-me!”.
2ª leitura (1Cor. 15,1-11)
Para responder a questões que preocupavam as comunidades de Corinto, Paulo explica por que saiu pregando que um crucificado é o Messias, a esperança da humanidade.
Em Corinto, um grupo de intimistas espiritualistas mais exaltados negava a ressurreição ou não dava importância a ela. Não se sabe se era por influência da filosofia grega – especialmente do platonismo, que não valorizava o corpo, considerando-o prisão da alma – ou se porque, em sua alta espiritualidade, já se achavam ressuscitados e em plena comunhão com Deus. Para uns, bastava a imortalidade da alma, o corpo era desprezível; para outros, a morte nada de novo iria trazer, pois já estavam plenamente realizados, em plena comunhão com Deus.
Seja como for, Paulo lembra a mensagem básica do cristianismo: o Messias Jesus morreu por causa dos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitado segundo as Escrituras. Fala de fatos: morte, sepultura, ressurreição. O objetivo foi livrar a humanidade do pecado, e tudo aconteceu em conformidade com as Escrituras.
A sepultura, sem dúvida, confirma a realidade da morte, e a ressurreição significa a intervenção de Deus, que aprova e confirma Jesus como Messias e Senhor. Paulo não fala da ressurreição como um espetáculo nem como o simples devolver a vida a um cadáver. Fala da ressurreição, uma vida nova, como objeto fundamental da pregação e da fé cristã.
As aparições do Ressuscitado que Paulo enumera não são as mesmas que se encontram nos evangelhos, mas, como aquelas, servem para comprovar o fato de que, depois da morte real e verdadeira, Jesus passou a outra esfera de existência. A aparição ao próprio Paulo – terá sido por ocasião de sua conversão ou em outro momento de sua vida? – alinha-se com as outras, embora o apóstolo se considere um feto abortivo.
E é o testemunho de sua dedicação ao trabalho em favor do evangelho que vem atestar o valor de suas experiências do Ressuscitado. Seu encontro pessoal com Jesus ressuscitado trouxe-lhe a força, a graça de Deus, que o fez trabalhar muito mais do que os outros.
Evangelho (Lc 5,1-11)
Jesus começa a chamar os apóstolos. Os primeiros são pescadores. Como se trata de pescadores, Jesus os chama em meio a uma pesca.
Nos Evangelhos de Marcos e de Mateus, Jesus, passando pela beira do lago, chama os pescadores Simão e seu irmão André e também os irmãos Tiago e João, convidando-os a se tornar pescadores de gente. Esses vão começar a formar a comunidade de irmãos, a comunidade dos discípulos de Jesus.
Lucas faz diferente. Toma a tradição, também presente em Jo 21, de uma pesca miraculosa e aí mostra Jesus chamando Pedro para ser pescador de gente. Lucas constrói bem a sua história, sem deixar de lado os simbolismos. Porque a multidão o aperta de todos os lados, Jesus sobe à barca de Simão e daí instrui o povo.
Da barca de Simão Pedro, Jesus instrui as multidões. É da barca de Pedro, a Igreja, as comunidades cristãs, que a mensagem de Jesus deve chegar à humanidade toda. Poderíamos nos perguntar: para quê? Após terminar seu ensino, Jesus manda que Simão leve o barco para águas mais profundas.
Na concepção da época, as águas profundas comunicavam-se com a mansão dos mortos, debaixo da terra. Os monstros que habitariam as grandes águas e o perigo dos ventos e das tempestades reforçavam a ideia de o mar ser o mundo da morte e do mal. Pescar significava, então, tirar do poder da morte.
Aos que estavam com Pedro Jesus manda: “Lançai vossas redes para a pesca!”. Todos devem pescar. Todos devem contribuir para salvar a humanidade. Simão deixa de lado sua experiência de pescador e confia na palavra de Jesus. O resultado é a pesca farta. Não é preciso mostrar o significado de tudo isso.
Muito próprio de Lucas é o destaque dado a Pedro. É sua a barca de onde Jesus ensina, é a ele que Jesus manda levar o barco ao mais profundo, é ele quem confia na palavra de Jesus, é ele quem se prostra diante de Jesus, reconhecendo-se pecador (como Isaías na 1ª leitura), é a ele que Jesus faz pescador de gente. De André, seu irmão, nenhuma palavra. Só há pequena alusão aos outros dois irmãos, Tiago e João.
O resultado é que todos deixam os barcos – por hipótese, cheios de peixe (poderiam fazer bons negócios) – e tudo o mais para seguir Jesus. Todos serão pescadores, todos terão a missão de tirar a humanidade do reino da morte. Para isso deixam tudo, não só os peixes, que eram a sua vida até então.
Paulus.
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Experimentar Deus
Deus purifica e depois envia
Deus grande e belo mora numa luz inacessível. Não conseguimos chegar perto dele. Impossível vê-lo sem morrer. Entretanto, ao longo do tempo da vida, vamos tentando, no lusco-fusco da fé, fazer experiência de sua presença real, embora invisível.  Sabemos que os viram Jesus, viram o Pai, fizeram experiência de Deus. “Quem me vê, vê o Pai!” Nós vivemos no tempo pascal e contamos com a presença do Ressuscitado nos sinais da Igreja, na comunidade dos irmãos e  nos rostos dos mais abandonados da terra.
A leitura de Isaías descreve experiência da santidade de Deus. A reação de Pedro, no evangelho no Evangelho deste domingo, vai na mesma linha. Pecadores fazem  experiência do Deus bom e misericordioso.
Isaías teve sua visão no templo.  O Senhor estava sentado no trono de elevada altura.  O profeta insere este pormenor:  “ trono de elevada altura”. Há imensa distância entre o Senhor e o ser humano.  O Senhor se vê cercado de serafins, de espíritos ardentes e ardorosos. Ele é aquele que  “queima”. Os serafins exclamavam uns para os outros:  “Santo, santo, santo…”. Essa santidade maravilhosa é terrível. “Ao clamor dessas vozes, começaram a tremer as portas em seus gonzos e o templo encheu-se de fumaça”.
O profeta sente-se pequeno. Está diante de Deus e não tem santidade para tanto, não tem títulos para se apresentar ao Senhor. Lembra o filho pródigo: “Não sou digno de ser chamado teu filho” Isaías talvez até tivesse querido fugir. Sente-se perdido.  “Sou apenas um homem de lábios impuros. Mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos”.
Vem então o momento da purificação do profeta.  Um dos serafins toma uma brasa ardente e purifica os lábios do profeta. Feliz o homem de coração contrito, aquele que tem consciência dos desvios de seu coração, aquele que não se apresenta diante de Deus com títulos, como um contador de vantagens. E os pecados e delitos de Isaías foram perdoados. Agora ele podia ser enviado.
Pedro não queria lançar as redes. Tinha pescado a noite toda sem sucesso. Jesus pede que Pedro lance as redes em águas mais profundas, que confie em sua palavra, que “faça a missão” sabendo que pode contar com a força do Senhor. E os apóstolos pescam muito. Pedro toma consciência do pecado de falta de confiança no Mestre e pede perdão. “Senhor, afasta-te de mim porque sou pecador”. Recebe o perdão e o pescador pecador perdoado passará a ser pescador de homens.
Marcos assim conclui o evangelho hoje proclamado: os apóstolos “levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”.
frei Almir Ribeiro Guimarães

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Vocação: pescadores de homens
Uma história de pesca e pregação, eis o evangelho de hoje. Fala primeiro de pregação, depois de pesca, e finalmente une os dois numa síntese um tanto inesperada. Jesus adapta-se ao cenário local. No meio dos pescadores, seu púlpito deve ser um barco de pesca, provavelmente do mais dinâmico entre os pescadores de Cafarnaum, um certo Simão. Ao terminar, Jesus lhe devolve o barco: ”Agora podes pescar” (Lc. 5,4). Pedro deve ter pensado que de pesca Jesus pouco entendia – não era tempo bom: passaram a noite sem nada apanhar. Mas a autoridade de Jesus se impõe. ”Porque tu o dizes, lançarei mais uma vez as redes”. Surpreendentemente, a pescaria deu um resultado digno de qualquer reunião de pescadores. As redes começando a rachar, tiveram de chamar outro barco para recolher a quantidade de peixes que apanharam.
A partir daí, muda o tom da narração. Simão reconhece uma presença misteriosa, luminosa. Como Isaías, ao sentir quase palpavelmente a presença de Deus no santuário (Is. 6; 1ª leitura), assim também Simão se sente invadido por um sentimento de pequenez, impureza e indignidade diante do Mistério que ele vislumbra. “Afasta-te de mim, Senhor, eu sou um homem impuro”. Não mais impuro do que qualquer outro, mas diante de Deus todo ser humano é impuro. A reação de Jesus é diferente da de Deus em Is. 6. Não manda um anjo com uma brasa para purificar Simão, mas diz, com toda a simplicidade: “Não temas”. Ora, como em Isaías, aqui também a presença de Deus se faz sentir com determinada intenção, a vocação: “A partir de agora serás pescador de homens”. E, assim como Isaías respondeu: “Eis-me aqui, envia-me”, Simão se dispõe a assumir sua vocação, abandonando seu barco e seguindo Jesus, com João e Tiago, os filhos de Zebedeu.
Podemos ver, nesta narrativa, como são entrelaçados a vocação divina e os fundamentos humanos da mesma. Isaías é homem do templo: é lá que Deus o agarra. Simão é homem da pesca; é lá que Jesus o apanha. A vocação encarna-se na situação vital de cada um, porém, o arrasta daí para o caminho que Deus projetou. Dialética dos pressupostos humanos e da irrupção divina. Utiliza primeiro a situação da gente, o barco, depois, urge abandonar esse barco para engajar-se num caminho do qual não se conhecem as surpresas. Mas, no entremeio, há um sinal: a pesca. Ao entrar no mar para lançar mais uma vez as redes, Simão não sabia o que aconteceria. A confiança em Jesus nas coisas do dia-a-dia nos prepara para assumir a vocação do desconhecido.
Também Paulo viveu uma irrupção de Deus em sua história: o Cristo glorioso, que lhe apareceu no caminho de Damasco, revolucionou sua vida. Esta é a resposta que Paulo dá aos coríntios que questionam a ressurreição de Cristo e dos mortos em geral, pois toda a sua vida está baseada na experiência de que Cristo ressuscitou (2ª leitura). Porém, não é apenas sua experiência pessoal; é a fé comum dos Apóstolos, a “tradição” que também ele recebeu: que Jesus foi morto por nossos pecados, cumprindo a Escritura (cf. Is. 52,13-53,12 etc.), e foi sepultado; que ele foi ressuscitado no terceiro dia, cumprindo as Escrituras (cf. Sl. 16[15]; Os. 6,2 etc.), e manifestado aos discípulos 15,3-5). Só depois dessa referência à fé da comunidade, Paulo invoca o testemunho de sua própria experiência, equivalente à dos outros, embora ele fosse um perseguidor da Igreja. Experiência cujo efeito está presente aos olhos dos coríntios na própria figura do apóstolo. No texto que se segue ao de hoje, Paulo afirma que toda a sua e também a nossa vida seria um lamentável absurdo, se não existisse a ressurreição – de Cristo e de todos nós. Este tema é, evidentemente, um tema à parte, mas tem em comum com o do evangelho a transformação que a vocação, ou melhor, o encontro com Cristo opera na vida de cada um. Vocação transformadora, não só da gente, mas também do mundo em que a gente vive.
A oração do dia e o salmo responsorial emolduram estes temas num clima de confiança e gratidão. A vocação não é um peso deprimente. Quem se mostra constantemente deprimido por sua vocação, mostra que ele não assumiu o que é essencial em cada vocação: a união com Deus e Jesus Cristo, na confiança filial e na alegria de lhes servir.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Pescadores de homens
A pesca milagrosa tornou-se uma espécie de parábola da missão dos discípulos. Doravante, eles seriam pescadores de seres humanos. Qual o significado desta metáfora?
Eles passariam a servir a um novo "patrão": Jesus. Ele é quem sabe onde e quando a rede deve ser lançada, e quem necessita de ser atraído para o Reino.
Apesar de sua habilidade e conhecimento do mar, esses pescadores haviam trabalhado a noite inteira, sem resultado. Só lançaram a rede, fiados na palavra de Jesus. O resultado foi espetacular! O mesmo aconteceria daí para frente.
O mar da Galiléia seria trocado pelo mar do mundo, onde se encontra a humanidade a ser "apanhada" pela rede do Reino. Esta troca comportaria uma verdadeira revolução na vida dos discípulos. Deveriam deixar a tranqüilidade da vida às margens do mar da Galiléia para enfrentar o mar encapelado do mundo, com suas tempestades e possibilidade de pesca infrutífera. Além disso, os laços afetivos de família, a profissão, os projetos pessoais e tudo o mais seriam deixados para trás. Os estreitos horizontes de sua terra natal alargar-se-iam até abarcar o mundo inteiro.
A decisão dos primeiros discípulos foi um salto no escuro. Só mesmo uma profunda confiança na pessoa de Jesus permitiu-lhes lançarem-se na aventura do serviço ao Reino.
padre Jaldemir Vitório

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Ação missionária da Igreja
O relato da pesca está construído sobre o de Mc 1,16-20, o chamado dos quatro primeiros discípulos: Simão e André, Tiago e João, filhos de Zebedeu. O relato tem por finalidade fundar a ação missionária da Igreja. A missão da Igreja está fundada numa promessa - envio do Senhor: "De agora em diante serás pescador de homens" (Lc. 5,10). Os episódios precedentes ao relato criam um ambiente adequado ao chamado de Pedro, o que implica que o chamado e a resposta não pareçam tão surpreendentes (veja, por exemplo, Lc. 4,38-39). Segundo Marcos, Jesus se dirige separadamente, e em terra, a cada uma das duplas de irmãos; para Lucas 5,10, todos foram chamados juntos, sobre o Lago, e mediante um apelo dirigido exclusivamente a Pedro. Mas Simão não está só, ainda que seja o primeiro a receber o chamado de Jesus; também outros deixam tudo para segui-lo (v. 11). Pedro somente é destinatário da promessa de ser "pescador de homens", o que prefigura o seu papel de "chefe" e responsável do grupo. Ainda que controvertida, a expressão "pescador de homens" aponta para a participação do discípulo na missão de Jesus. Pode ainda significar o engajamento do discípulo no que se refere à unidade da Igreja: reunir da dispersão o povo de Deus (peixes), ou, então, o ato de tirar o peixe da água pode simbolizar a participação dos que são chamados à tarefa de libertar as pessoas do poder do mal. O mar é, para o mundo bíblico, símbolo da morte e do mal.
Carlos Alberto Contieri,sj
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É comovente: Jesus apertado pela multidão sedenta da palavra de Deus. Ao terminar sua pregação, sentado à barca de Pedro, que é imagem da Igreja, ordena a Simão Pedro e à Igreja de todos os tempos: “Avança para as águas mais profundas!” É a missão que o Senhor nos confia. Confia aos ministros sagrados e confia a todo o povo de Deus, a toda a Igreja, barca de Pedro: “Avança para as águas do mar da vida; ide pelo mundo, em cada época, em cada tempo; pregai o Evangelho!” Atualmente, frente à drescristianização do nosso mundo, esta ordem do Senhor é um desafio acima de nossas forças; e um desafio que chega a amedrontar. A resposta de Pedro deve ser também a nossa: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes!” Bendito Pedro, que, na palavra do Senhor, lançou as redes! Bendita a Igreja se fizer o mesmo em cada época da história humana! Benditos nós se, no meio em que vivemos, tivermos a coragem de lançar as redes da pregação do Evangelho! Observemos que aqui são de pouca valia a inteligência e astúcia nossa: “Na tua palavra lançarei as redes!” Só na tua palavra, Senhor, a pregação pode ser realmente eficaz! O Evangelho será sempre pregado na fraqueza, na pobreza, na loucura. E, no entanto, ele será sempre força, riqueza e sabedoria de Deus!
É comovente também a atitude de Simão após a pesca: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador!” O Senhor é tão grande (não é Aquele que enchia a terra com a sua glória, na primeira leitura? Aquele que está envolto numa nuvem de fumaça? Aquele que faz o templo tremer?), seus desígnios nos são tão incompreensíveis... somos tão pequenos, tão estultos e frágeis diante dele: “Senhor, afasta-te de mim! Chama alguém melhor!” E, no entanto, este Senhor tão grande quer precisar exatamente de nós, pequenos, pobres, estultos, frágeis. Este Senhor tão imenso, pergunta na primeira leitura: ‘Quem enviarei? Quem irá por nós?” Que mistério tão grande! Como pode Deus querer realmente contar conosco? Como pode o Evangelho depender de verdade da nossa pregação, do nosso testemunho? E, no entanto, é assim! É realmente assim! “Não tenhas medo! De hoje em diante, tu serás pescador de homens!” Eis aqui um mistério que não compreenderemos nunca nessa vida! Creiamos, adoremos, e digamos “sim” ao Senhor que nos chama e nos envia! Envia-nos a todos nós batizados e crismados! Lavou-nos no Batismo, como purificou os lábios de Isaías, e ungiu-nos com o Espírito de força e testemunho na Crisma, para que sejamos mensageiros do seu Evangelho!
Vejamos, finalmente, a atitude de Pedro e de Tiago e João, diante do chamado do Senhor: “Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”... Nunca mais barcas, nunca mais pescarias, nunca mais a vida de antes... “Deixaram tudo e seguiram Jesus...” É isso que é ser cristão: deixar-se a si, deixar uma vida voltada para si e dobrada sobre si mesmo, para seguir aquele que nos chamou e consagrou para a missão! Então, somos todos chamados e enviados como testemunhas do Senhor!
Mas, há ainda dois outros aspectos importantes na palavra que Deus nos dirigiu hoje. O primeiro: em que consiste o anúncio que devemos fazer ao mundo? São Paulo no-lo diz de modo maravilhoso na segunda leitura: “Transmiti-vos em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras...” Vejamos bem que o anúncio do Evangelho não é simplesmente um anúncio sentimental e vazio sobre Jesus. Não é pregar curas, não é comentar a Bíblia, não é pregar preceitos morais! Isso não seria evangelização, mas charlatanismo, embromação! A pregação do Evangelho tem um conteúdo preciso, recebido da Tradição dos Apóstolos. Estejamos atentos como São Paulo diz: “Transmiti-vos aquilo que eu mesmo tinha recebido...” Paulo não inventa; não prega a si mesmo nem por si mesmo; prega o que recebera na Igreja, prega a fé da Igreja em Jesus. Por isso mesmo, mais tarde, ele vai a Jerusalém para ver Pedro. Vai conferir sua pregação com a de Pedro (Cefas), para ver se não havia corrido em vão! (cf. Gl. 2,1-2) E pensemos que Paulo fora chamado diretamente pelo Senhor, de um modo absolutamente original e único! (cf. Gl. 1,15-23). Então, para não corrermos em vão, o Evangelho vivido e pregado por nós não pode ser outro que Jesus morto e ressuscitado por nós, nosso único Salvador e Senhor. Mas, Jesus Cristo como é crido, vivido, celebrado e testemunhado pela Igreja. E quando dizemos “Igreja”, não tenham dúvida alguma: estamos nos referindo à Igreja católica, em comunhão com o Sucessor de Pedro e com os Bispos a ele unidos!
Mas, há ainda um segundo aspecto importante: este Jesus que pregamos não é um mito, uma lenda, um sonho! Ele é a mais profunda e verdadeira realidade: o que diz São Paulo sobre o Cristo ressuscitado? “Apareceu a Cefas e, depois aos Doze. Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez. Destes, a maioria ainda vive... Depois apareceu a Tiago e, depois, apareceu a mim, como a um abortivo”. É comovente o testemunho pessoal do Apóstolo! Ele viu o Senhor ressuscitado, ele é testemunha em primeira pessoa, juntamente com Pedro, em primeiro lugar, juntamente com os Doze e com toda a Igreja (os quinhentos irmãos)! O Evangelho que testemunhamos e anunciamos é uma realidade, é firme como uma rocha!
Que fiquem hoje no nosso coração estes santos e piedosos pensamentos: o Senhor nos chama e envia para a missão; nós realmente somos importantes para a pregação do Evangelho! Este Evangelho é uma Pessoa concreta: é Jesus morto e ressuscitado, nosso Deus e Salvador, tal como é crido e anunciado pela Igreja católica, dentro da legítima e contínua Tradição dos Apóstolos. Que nos resta dizer? Sejamos fiéis a tão grande e tão urgente missão que o Senhor nos confia nos tempos de hoje: “Avança para as águas mais profundas, e lançai as redes para a pesca!” Vem conosco, Senhor Jesus, porque o teu mar é tão vasto e nosso barco, tua Igreja, é tão pequena! Vem conosco e temos certeza que nossas redes não se romperão nem ficarão vazias! Na tua palavra, ensina-nos a lançar as redes!
dom Henrique Soares da Costa
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SEGUNDA HOMILIA

Jesus aparece à margem do mar da Galileia – ou mar de Tiberíades, ou Lago de Genesaré. Trata-se daquele lago formado pelas águas do Jordão. Aí Jesus pregou e viveu a maior parte do seu ministério, aí fez seus milagres, aí contou aquelas parábolas tão bonitas, que encantam ainda hoje o nosso coração peregrino.
O Senhor está às margens desse lago e a multidão se apinha na praia para escutá-lo. Diz o Evangelho deste hoje que todos queriam “ouvir a Palavra de Deus”. É o que tanto atrai em Jesus: ele fala do Infinito, ele traz o Céu, traz Deus para este mundo cansado, para o coração humano tão sedento, tão vazio, tão ferido... Mais ainda: o nosso bendito e santo Salvador não somente traz a Palavra, mas ele próprio é essa Palavra: “No princípio era a Palavra, o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória!” (Jo 1,1.14). Pensai bem meus caros, porque ainda hoje é assim: a humanidade tem sede dessa Palavra e a Igreja somente atrairá o mundo quando anuncia esta Palavra bendita, que é Jesus. Não se trata de inventar tantos programas de pastoral, de aparecer com tantas novidades e muito menos d e se adequar aos modos e modas do mundo, mas de ser transparência viva de Jesus, de sua encantadora Pessoa e da Palavra que ele anuncia!
E o Senhor entra na barca de Pedro – recordai que no Evangelho, a barca é imagem da Igreja. É na Igreja de Pedro, na Igreja de Bento XVI que Jesus se encontra e aí, pela voz da Igreja, da Mãe católica, ele ainda hoje nos faz ouvir a sua voz, que é luz, que é doçura que inebria o nosso coração! Que cena tão comovente: a barca a uns poucos metros da praia, Jesus nela sentado ensinando, o povo sentado à margem do lago, e o vento, trazendo aos ouvidos da multidão as palavras de vida eterna, a bendita mensagem que vem do infinito para o nosso mundo sofrido e cansado...
E ao terminar, Jesus diz a Pedro – e diz a nós, a cada um e à sua inteira Igreja: “Avança para as águas mais profundas, conduz o barco para o mar alto, e lançai vossas redes para a pesca!” O mar do mundo, o mar da vida, o mar do dia-a-dia, o mar das mil dificuldades e desafios do mundo atual – eia onde o Senhor nos envia! E Pedro, cansado e desiludido, pois que passara a noite num mar que não estava para peixe, diz a Jesus o que nós deveremos sempre dizer: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Estamos cansados e desiludidos, sentimo-nos sem forças, sem motivação... Mas, porque tu mandas, na tua palavra, lançarei as redes!” Ah, queridos irmãos meus, companheiros de caminho neste mundo, companheiros na barca de Pedro, que é a Igreja, por que temos medo? Jesus é quem está na barca, Jesus é quem comanda a pesca! Não somos nós, não são as nossas f orças, não é a esperteza dos nossos planos de pastoral: é ele quem nos sustenta, é ele quem nos inspira o que dizer, é ele quem pode tocar os corações! Vamos, pois, ao alto mar desse mundo, e lancemos as redes do Evangelho! E o milagre acontece, e os peixes são tantos, que se faz necessária a ajuda dos companheiros de Pedro!
E Simão,diante da manifestação da santidade de Jesus – não é ele o Deus Santo que Isaías viu no Templo, na primeira leitura de hoje? Não é ele, Jesus, aquele a quem proclamamos a cada Domingo: “Só vós sois o Santo, só vós o Senhor, só vos o Altíssimo”? Não é ele, a quem os anjos aclamam no céu dizendo: “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos exércitos”? Pedro prostra-se ante Jesus e confessa humildemente ser apenas um pecador, como Isaías na primeira leitura: Ai de mim! Afasta-te de mim, Senhor: sou apenas um homem impuro que vive no meio de um povo impuro! Sou apenas um pobre pecador: não sirvo para o teu santo serviço!” - eis o que deveríamos pensar, eis o que deveríamos dizer! E o mesmo Deus que tocou os lábios de Isaías e o purificou, toca o coração de Pedro – toca o meu e o teu coração – e afirma, misericordioso: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu deras pescador de homens!” Pescador não por nossos méritos, mas pela misericórdia do Senhor, como São Paulo, que hoje humildemente reconhece: “ Eu sou o menor dos apóstolos, eu nem mereço o nome de apóstolo! É pela graça de Deus que sou o que sou. Sua graça para comigo não foi estéril!” Também nós não somos nem dignos de ser cristãos; nem merecemos testemunhar e anunciar Jesus! E, no entanto, ele nos escolheu, nos chamou, ele nos enviou, a cada um de nós, seus discípulos – apesar de nossa fraqueza e de nossas mil infidelidades! Cristão, tu não és melhor que ninguém, não és pior que ninguém; mas és diferente: és de Cristo, és por ele escolhido, consagrado e enviado ao alto mar do mundo para aí testemunhares o seu santo nome!
E este testemunho, caríssimos, não pode ser outro que aquele de Paulo, da Igreja dos Apóstolos e de todos os tempos: o anúncio de Jesus tal qual é conservado e proclamado de modo íntegro pela nossa Mãe católica: “Cristo, o único Salvador, morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” – Buda não salva, Maomé não salva, os orixás não salvam e sequer existem! Somente Cristo morto por nós é o Salvador! Ele “foi sepultado e ao terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras”. Nele, caríssimos, a morte foi vencida! Ele está vivo e apareceu primeiro a Simão-Cefas, aquele mesmo que foi feito pescador de homens, aquele de quem Bento XVI é legítimo Sucessor; e apareceu aos Doze, aqueles mesmos que têm como sucessores os Bispos católicos. Apareceu a Tiago e também a mais de quinhentos irmãos, a maioria dos quais ainda vivia na época de Paulo Apóstolo. Por último apareceu a Paulo – e o próprio Apóstolo hoje dá testemunho de que viu o Senhor vivo, ressuscitado, vitorioso!
Se o Senhor está vivo, se o Senhor é aquele proclamado no Evangelho tal como conservado pela santa Igreja católica, por que ter medo?
Por que a falta de convicção?
Por que a covardia em dizer aos quatro ventos dos quatro mares que Jesus é o Senhor, único Salvador?
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia deste domingo leva-nos a refletir sobre a nossa vocação: somos todos chamados por Deus e d’Ele recebemos uma missão para o mundo.
Na primeira leitura, encontramos a descrição plástica do chamamento de um profeta – Isaías. De uma forma simples e questionadora, apresenta-se o modelo de um homem que é sensível aos apelos de Deus e que tem a coragem de aceitar ser enviado.
No Evangelho, Lucas apresenta um grupo de discípulos que partilharam a barca com Jesus, que acolheram as propostas de Jesus, que souberam reconhecê-l’O como seu “Senhor”, que aceitaram o convite para ser “pescadores de homens” e que deixaram tudo para seguir Jesus… Neste quadro, reconhecemos o caminho que os cristãos são chamados a percorrer.
A segunda leitura propõe-nos refletir sobre a ressurreição: trata-se de uma realidade que deve dar forma à vida do discípulo e levá-lo a enfrentar sem medo as forças da injustiça e da morte. Com a sua ação libertadora – que continua a ação de Jesus e que renova os homens e o mundo – o discípulo sabe que está a dar testemunho da ressurreição de Cristo.
1ª leitura – Is. 6,1-2a.3-8 - AMBIENTE
Estamos em Jerusalém, por volta de 740/739 a.C.. Isaías tem, então, à volta de vinte anos. Enquanto está no Templo em oração, descobre que Deus o chama a ser profeta. O texto de hoje relata-nos essa descoberta e a resposta de Isaías. No entanto, este relato não deve ser visto como uma reportagem jornalística de acontecimentos, mas sim como uma apresentação teológica de uma experiência interior de vocação.
Os pormenores folclóricos – o trono alto e sublime em que o Senhor Se senta, o seu manto que enche o Templo, os “serafins” com seis asas que voam sem cessar à volta e que cobrem a face e os pés, o oscilar das portas nos seus gonzos, o fumo – são elementos simbólicos com que o profeta desenha a grandeza, a onipotência e a magnificência de Deus. É essa a perspectiva que o profeta tem do Deus que o chamou.
MENSAGEM
Nesta catequese sobre a experiência de vocação, encontramos vários passos. Vamos resumi-los brevemente.
Em primeiro lugar (vs. 1-5), Isaías deixa claro que a sua vocação é obra de Jahwéh, o Deus majestoso e santo, infinitamente acima do mundo e distante da realidade pecadora em que os homens vivem mergulhados. Os elementos literários típicos das teofanias (o temor, a voz forte, o fumo) definem o quadro típico das manifestações de Deus no Antigo Testamento: foi esse Deus que se manifestou a Isaías e que o convocou para o seu serviço.
Em segundo lugar (vs. 6-7), temos a objeção e a purificação. A objeção do profeta é um elemento típico dos relatos de vocação (cf. Ex. 3,11, no chamamento de Moisés). Manifesta o sentimento de um homem que, chamado por Deus a uma missão, tem consciência dos seus limites e da sua indignidade, ou prefere continuar no seu cantinho cómodo, sem se comprometer. A “purificação” sugere que a indignidade e a limitação não são impeditivos para a missão: a eleição divina dá ao profeta autoridade, apesar dos seus limites bem humanos.
Em terceiro lugar, temos a aceitação da missão pelo profeta. Convém, a propósito, notar o seguinte: Isaías oferece-se sem saber ainda qual a missão que lhe vai ser confiada; manifesta, dessa forma, a sua disponibilidade absoluta para o serviço de Deus.
Temos, aqui, descrito o caminho da verdadeira vocação.
ATUALIZAÇÃO
• Cada um de nós tem a sua história de vocação: de muitas formas Deus entra na nossa vida, desafia-nos para a missão, pede uma resposta positiva à sua proposta. Temos consciência de que Deus nos chama – às vezes de formas bem banais? Estamos atentos aos sinais que Ele semeia na nossa vida e através dos quais Ele nos diz, dia a dia, o que quer de nós?
• A missão que Deus propõe está, frequentemente, associada a dificuldades, a sofrimentos, a conflitos, a confrontos… Por isso, é um caminho de cruz que, às vezes, procuramos evitar. Será que eu consigo vencer o comodismo e a preguiça que me impedem de concretizar a missão?
• É preciso ter consciência, também, que as minhas limitações e indignidades muito humanas não podem servir de desculpa para realizar a missão que Deus quer confiar-me: se Ele me pede um serviço, dar-me-á a força para superar os meus limites e para cumprir o que Ele me pede.
• Isaías aceita o envio, ainda antes de saber, em concreto, qual é a missão. É o exemplo de quem arrisca tudo e se dispõe, de forma absoluta, para o serviço de Deus. No entanto, é difícil arriscar tudo, sem cálculos nem garantias: é o pôr em causa os nossos projetos e esquemas para confiar apenas em Deus, de forma que Ele possa fazer de nós o que quiser. Qual a minha atitude em relação a isto?
2ª leitura: 1Cor. 15,1-11 - AMBIENTE
A chegada do cristianismo ao mundo grego provocou um choque de mentalidades e de perspectivas culturais. Isso ficou bem evidente na dificuldade dos coríntios em aceitar a ressurreição dos mortos.
A ressurreição dos mortos era relativamente bem aceite no judaísmo, habituado a ver o homem na sua unidade; mas constituía um problema sério para a mentalidade grega. Porquê? Porque a cultura grega, fortemente influenciada por filosofias dualistas (como a filosofia de Platão, por esta altura na moda) que viam no corpo uma realidade negativa e na alma uma realidade ideal e nobre, recusava-se a aceitar a ressurreição do homem integral. Como poderia o corpo – essa realidade material, carnal, sensual, que aprisionava a alma e a impedia de subir ao mundo ideal, na opinião dos filósofos gregos – seguir a alma?
É a esta questão posta pelos Coríntios que Paulo vai responder neste texto.
MENSAGEM
A argumentação de Paulo é simples e contundente: nós, cristãos, ressuscitaremos um dia, porque Cristo já ressuscitou.
O texto começa com a evocação de uma fórmula da catequese primitiva sobre esta questão. Paulo não está a inventar: está a transmitir com absoluta fidelidade a catequese que recebeu.
A fórmula paulina, que é ao mesmo tempo reflexo e modelo da primitiva pregação cristã acerca da ressurreição, estrutura-se em três tempos: afirmação do fato (morte/ressurreição), testemunho da Sagrada Escritura, comprovação experimental do mesmo (sepultura/aparições). A comprovação do fato resulta dos outros dois elementos.
No que diz respeito ao testemunho das escrituras, Paulo não cita diretamente nenhum texto da Sagrada Escritura em favor da sua tese; mas podemos pensar que Paulo está a referir-se a Is. 53,8-12 (o quarto poema do Servo de Jahwéh) e a Os 6,2. No que diz respeito às testemunhas da ressurreição de Jesus, Paulo cita seis manifestações de Jesus ressuscitado: a Pedro, aos Doze, a mais de quinhentos irmãos, a Tiago, aos outros apóstolos e, finalmente, ao próprio Paulo.
Notemos que os apóstolos (Paulo incluído) não testemunharam o momento da ressurreição, mas a experiência de um Jesus que continuou vivo depois da morte. O ressuscitado fez-se presente na vida destes homens e, como tal, converteu-se em objeto de pregação e de fé. Portanto, ao falar da ressurreição de Jesus, não estamos a falar de um “fato histórico”, entendendo por “fato histórico” aquele de que qualquer pessoa pode relatar os pormenores. A ressurreição de Cristo é um fato real, mas ao mesmo tempo sobrenatural e meta-histórico, algo que ultrapassa completamente as categorias humanas de espaço e de tempo, a fim de entrar na órbita da fé. É algo que a ciência histórica não pode demonstrar, porque corresponde a uma experiência de fé. O que, historicamente, podemos comprovar, é a incrível transformação dos discípulos que, de homens cheios de medo, de frustração e de cobardia, se converteram em arautos destemidos de Jesus, vivo e ressuscitado.
Além do mais, a ressurreição é um facto que ocorreu, mas que continua a ocorrer; continua a ter a eficácia primitiva, continua a ser capaz de converter em homens novos, a quantos aceitam Jesus pela fé. A comunidade cristã é convidada a fazer esta descoberta, a partir das Escrituras, do Espírito e da própria vida nova que continuamente vai nascendo nos cristãos.
ATUALIZAÇÃO
• Será um dado adquirido, para qualquer cristão, a ressurreição de Jesus. No entanto, essa ressurreição é, para nós, uma verdade abstrata que afirmamos no credo, ou algo vivo e dinâmico, que todos os dias continua a acontecer na nossa vida e na nossa história, gerando vida nova, libertação, amor, numa contínua manifestação de Primavera para nós e para o mundo?
• A ressurreição de Cristo garante-nos que não há morte para quem aceita fazer da sua vida uma luta pela justiça, pela verdade, pelo projecto de Deus. Temos consciência disso? A certeza da ressurreição encoraja-nos a lutar, sem a paralisia que vem do medo, por um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano?
Evangelho: Lc. 5,1-11 – AMBIENTE
Estamos na Galileia, no início do ministério de Jesus. Há algum tempo, Ele apresentou o seu programa na sinagoga de Nazaré como anúncio da Boa Nova aos pobres e proposição da libertação para os prisioneiros… Agora, começam a notar-se os primeiros resultados da atividade de Jesus: à sua volta começa a formar-se o grupo dos que foram sensíveis a essa proposta de salvação e seguiram Jesus.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto como Evangelho é uma catequese que procura apresentar as coordenadas fundamentais da identidade cristã: o que é ser cristão? Como se segue Jesus? O que é que implica seguir Jesus?
Ser cristão é, em primeiro lugar, estar com Jesus “no mesmo barco” (v. 3). É desse barco (a comunidade cristã), que a Palavra de Jesus se dirige ao mundo, propondo a todos a libertação (“pôs-Se a ensinar, da barca, a multidão”).
Ser cristão é, em segundo lugar, escutar a proposta de Jesus, fazer o que Ele diz, cumprir as suas indicações, lançar as redes ao mar (vs. 4-5). Às vezes, as propostas de Jesus podem parecer ilógicas, incoerentes, ridículas (e quantas vezes o parecem, face aos esquemas e valores do mundo…); mas é preciso confiar incondicionalmente, entregar-se nas mãos d’Ele e cumprir à risca as suas indicações (“porque Tu o dizes, lançarei as redes” – v. 5).
Ser cristão é, em terceiro lugar, reconhecer Jesus como “o Senhor” (v. 8): é o que faz Pedro, ao perceber como a proposta de Jesus gera vida e fecundidade para todos. O título “Senhor” (em grego, “kyrios”) é o título que a comunidade cristã primitiva dá a Jesus ressuscitado, reconhecendo n’Ele o “Senhor” que preside ao mundo e à história.
Ser cristão é, em quarto lugar, aceitar a missão que Jesus propõe: ser pescador de homens (v. 10). Para entendermos o verdadeiro significado da expressão, temos de recordar o que significava o “mar” no ideário judaico: era o lugar dos monstros, onde residiam os espíritos e as forças demoníacas que procuravam roubar a vida e a felicidade do homem. Dizer que os seus discípulos vão ser “pescadores de homens” significa que a missão do cristão é continuar a obra libertadora de Jesus em favor do homem, procurando libertar o homem de tudo aquilo que lhe rouba a vida e a felicidade. Trata-se de salvar o homem de morrer afogado no mar da opressão, do egoísmo, do sofrimento, do medo – as forças demoníacas que impedem a felicidade do homem.
Ser cristão é, finalmente, deixar tudo e seguir Jesus (v. 11). Esta alusão ao desprendimento do discípulo é típica de Lucas (cf. Lc. 5,28;12,33;18,22): Lucas expressa, desta forma, que a generosidade e o dom total devem ser sinais distintivos das comunidades e dos crentes que seguem Jesus.
Uma palavra, ainda, para o papel proeminente que Pedro aqui desempenha: a comunidade lucana é uma comunidade estruturada, que reconhece em Pedro o “porta-voz” de todos e o principal animador dessa comunidade de Jesus que navega nos mares da história.
ATUALIZAÇÃO
• A reflexão deste texto deve pôr em paralelo o “caminho cristão”, tal como Lucas o descreve aqui, com esse caminho – às vezes não tão cristão como isso – que vamos percorrendo todos os dias. Considerar as seguintes questões:
• O nosso caminho é feito no barco de Jesus, ou, às vezes, embarcamos noutros projetos onde Jesus não está e fazemos deles o objetivo da nossa vida? Por outro lado, deixamos que Jesus viaje conosco ou, às vezes, obrigamo-l’O a desembarcar e continuamos viagem sem Ele?
• Ao longo da viagem, somos sensíveis às palavras e propostas de Jesus? As suas indicações são para nós sinais obrigatórios a seguir, ou fazem mais sentido para nós os valores e a lógica do mundo?
• Reconhecemos, de fato, que Jesus é o “Senhor” que preside à nossa história e à nossa vida? Ele é o centro à volta do qual constituímos a nossa existência, ou deixamos que outros “senhores” nos manipulem e dominem?
• Chamados a ser “pescadores de homens”, temos por missão combater o mal, a injustiça, o egoísmo, a miséria, tudo o que impede os homens nossos irmãos de viver com dignidade e de ser felizes. É essa a nossa luta? Sentimos que continuamos, dessa forma, o projeto libertador de Jesus?
• A nossa entrega é total, ou parcial e calculada? Deixamos tudo na praia para seguir Jesus, porque o seu projeto se tornou a prioridade da nossa vida?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho