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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Jesus ensinava com autoridade

4º DOMINGO TEMPO COMUM

1 de Fevereiro de 201

Comentários-Prof.Fernando


Evangelho - Mc 1,21-28

-JESUS ENSINAVA COM AUTORIDADE-José Salviano



Jesus ensinava como quem tem autoridade. Jesus ensinava com autoridade porque Ele não tinha medo de nada, porque Ele sabia tudo, porque estava empenhado em mudar o mundo, porque Ele é Santo, Ele é o próprio Deus encarnado! Continua


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"UM ENSINAMENTO NOVO DADO COM AUTORIDADE..." - Olívia Coutinho

 

4º DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

Dia 1º de Fevereiro de 2015

Evangelho de Mc 1, 21-28

 Deus nos deu a vida e todas as condições para sermos felizes, porém, Ele respeita a nossa liberdade, nos deixa livres para fazermos as nossas escolhas!  Somos nós que escolhemos a direção que daremos a nossa vida! Não podemos esquecer nunca de que a vida  é a maior expressão do amor de Deus e que  não conduzi-la para o bem, é a maior ingratidão ao nosso criador!  
Viver é a mais bela oportunidade que Deus nos oferece para buscarmos através de Jesus o nosso encontro definitivo com Ele!
O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta, vem nos mostrar  um Deus comprometido com a vida, com a vida em toda a  sua dimensão, um Deus libertador que fala com autoridade, que se revelou plenamente na pessoa de Jesus!
O texto nos diz, que Jesus, num dia de sábado, entra numa sinagoga em Cafarnaum, junto com os seus discípulos e começa a ensinar. 
O povo percebe de imediato o jeito diferente de Jesus ensinar e fica maravilhado com tudo o que Ele diz! Ao contrário dos mestres da lei, Jesus falava com autoridade isto é: falava com conhecimento, o que ouvia do Pai! As  suas palavras, ao mesmo tempo que ensinava,  libertava, por isto, os seus ensinamentos eram vistos pelo povo, como um ensinamento novo, diferente dos mestres da Lei, que além de não viver o que falavam, colocavam pesados fardos sobre  os ombros do povo. O que infelizmente ainda hoje, acontece no nosso meio; grupos que se dizem   “religiosos”, mas que se mantem de teorias, sem uma caminhada comprometida  com a vida.
A narrativa nos diz ainda, que na sinagoga, havia um homem possuído por um espírito mal, cuja simples presença de Jesus o atormentava.
Diante da presença de Jesus, ele gritou: “Que queres de nós Jesus Nazareno? Viestes para nos destruir? Eu sei que tu és o santo de Deus!” Jesus percebe o estrago que o mal havia feito naquele homem, que já não tinha capacidade de reconhecer a necessidade de libertação. Na sua vulnerabilidade, ele vê Jesus, ( o bem) como uma ameaça. Tal era a sua pertença ao maligno, que ele, ao se dirigir a Jesus: diz: “nós”.  E Jesus, fonte de libertação se compadece daquele homem, e  fazendo  uso da sua autoridade intima o inimigo: "Cale-Te e sai dele!".
A partir daquele momento, aquele homem, sente completamente liberto  da  escravidão  que o impedia de ser ele mesmo!
Jesus, nesta sua ação libertadora, desmascara a mentalidade dos dirigentes religiosos,  pois o  seu olhar vai além dos limites impostos por eles, afinal, Jesus enxergou o homem, e não o mal que estava nele, o mal, Jesus retirou com a sua autoridade,  e o homem, Ele trouxe  de volta à vida!
Aquele homem possuído pelo espírito mau,  representa todas  as  pessoas  que estão sendo escravizadas pelas forças contrárias ao evangelho, que estão sendo  impedidas de falar e de agir como sujeitos da sua própria história, àqueles, cuja vida está  sobre o total controle de quem os oprime.                                                                           As palavras do Santo evangelho, nos convida a conhecermos  a verdade que liberta e a viver esta verdade!  Só assim, podemos também  falar com autoridade e  nos tornar caminho de libertação para o outro!
 Não  podemos negar a existência e a força do mal,  o mal existe e está sempre a nos rondar,  mas ele só ganhará  força em nós,  se nos  distanciarmos de Deus.
 O mal e o bem, confrontam-se  dentro de nós, somos nós que  escolhemos qual dos dois queremos cultivar. Se o mal está ganhando força em nós, é sinal de que  não estamos alimentando o bem plantado por Deus em nossos corações!
O mal, não sobrepõe o bem, por isto é importante estarmos sempre embebidos no amor do Pai, na força do Filho e sob a luz do Espírito.
 Saber que Jesus é  Filho de Deus, todos sabem, até o inimigo, o que faz a diferença mesmo, é saber quem é o Filho de Deus! Conhecer Jesus, saber quais são as suas propostas, é  o primeiro passo de quem quer  fazer a melhor escolha para sua vida!
 FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho            
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“Todos ficavam admirados com o seu ensinamento,
pois ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas”.
Hoje a Palavra a nós proclamada mostra o Senhor ensinando. O Evangelho nos dá conta que seu ensinamento causava admiração. E por quê? Porque Jesus não é um simples mestre, um mero rabi... Vocês escutaram na primeira leitura o que Moisés prometera – ou melhor, o que Deus mesmo prometera pela boca de Moisés: “O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar!” Eis! Moisés, o grande líder e libertador de Israel, aquele através do qual Deus falava ao seu povo e lhe dera a Lei, anuncia que Deus suscitará um profeta como ele. E os judeus esperavam esse profeta. Chegaram mesmo a perguntar a João Batista: “És o profeta?” (Jo 1,21), isto é, “És o profeta prometido por Moisés?” Pois bem, caríssimos: esse Profeta, esse que é o Novo Moisés, esse que é a própria Palavra de Deus chegou: é Jesus, nosso Senhor! Como Moisés, ele foi perseguido ainda pequeno por um rei que queria matar as criancinhas; como Moisés, ele teve que fugir do tirano cruel, como Moisés, sobre o Monte – não o Sinai, mas o das Bem-aventuranças – ele deu a Lei da vida ao seu povo; como Moisés, num lugar deserto, deu ao povo de comer, não mais o maná que perece, mas aquele pão que dura para a vida eterna. Jesus é o verdadeiro Moisés; e mais que Moisés, “porque a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Jesus é a plenitude da Lei de Moisés, Jesus não é somente um profeta, mas é o próprio Deus, Senhor dos profetas, Senhor de Moisés! Moisés deu testemunho dele no Tabor e cairia de joelhos a seus pés se o encontrasse. Jesus, caríssimos, é a própria Palavra do Pai feita carne, feita gente, habitando entre nós!
Mas, essa Palavra não é somente voz, sopro saído da boca. Essa Palavra que é Jesus é tão potente (lembrem-se que tudo foi criado através dela!), que não somente fala, mas faz a salvação acontecer. Por isso os milagres de Jesus, suas obras portentosas: para mostrar que ele é a Palavra eficaz e poderosa do nosso Deus. Ao curar um homem atormentado na sinagoga de Cafarnaum, Jesus nosso Senhor mostra toda a sua autoridade, seu poder e também o sentido de sua vinda entre nós: ele veio trazer-nos o Reino de Deus, do Pai, expulsando o reino de satanás, isto é, tudo aquilo que demoniza a nossa vida e nos escraviza! – Obrigado, Senhor, Jesus, pela tua vinda! Obrigado pela tua obra de libertação! Muito obrigado porque, em ti, tudo é Palavra potente: tua voz, tuas ações salvadoras, teu modo de viver, teus exemplos, tuas atitudes! Tu não somente tens palavras de vida eterna; tu mesmo és a Palavra de Vida! Obrigado! Dá-nos a capacidade de escutar-te sempre!
Se Jesus é essa Palavra potente, Palavra de vida, então viver sua Palavra é encontrar verdadeiramente a vida e a liberdade. Na leitura do Deuteronômio que escutamos, Deus dizia, falando do profeta que haveria de vir: “Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar. Eu mesmo pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. Ora, se Jesus é a Palavra de Deus, então é nele que encontramos a luz para os nossos passos e o rumo da nossa existência. Num mundo como o nosso, que prega uma autonomia louca do homem em relação a Deus, uma autonomia contra Deus, nós que cremos em Jesus, devemos cuidar de nos converter sempre a ele, escutando sua palavra. Ele nos fala, caríssimos: fala-nos nas Escrituras, fala-nos na voz da sua Igreja, fala-nos íntimo do coração, fala-nos na vida e nos acontecimentos... Certamente, ouvi-lo não é fácil, pois muitas vezes sua palavra é convite a sairmos de nós mesmos, de nossos pensamentos egoístas, de nossas visões estreitas, de nossa sensibilidade quebrada e ferida pelo pecado. Sairmos de nós para irmos em direção ao Senhor, iluminados pela sua santa palavra – eis o que Cristo nos propõe hoje!
É tão grande a bênção de encontrar o Senhor, de viver nele e para ele, que São Paulo chega mesmo a aconselhar o celibato, para estarmos mais disponíveis para o Senhor. Vocês escutaram a segunda leitura da Missa deste hoje. O apóstolo recomenda o ficar solteiro, não por egoísmo ou ódio ao matrimônio, mas para ter mais condições de ser solícitos para com as coisas do Senhor e melhor permanecer junto ao senhor. É este o sentido do celibato dos religiosos e dos padres diocesanos: recordar ao mundo que Cristo é o Senhor absoluto de nossa vida e que por ele vale a pena deixar tudo, para com ele estar, para, como Maria irmã de Marta, estar a seus pés, escutando-o e para ele dando o melhor de nós. O celibato, que num mundo descrente e sedento de prazer sensual, é um escândalo, para os cristãos é um sinal do primado de Cristo e do seu Reino.
Rezemos para que aqueles que prometeram livremente viver celibatariamente cumpram seus compromissos com amor ao Senhor e à Igreja. Rezemos também para que os cristãos saibam ver no celibato não uma armadilha ou uma frustração, mas um belíssimo sinal profético, um verdadeiro grito de que Deus deve ser amado por tudo e em tudo, acima de todas as coisas. Se os casados mostram a nós, celibatários, a beleza do amor conjugal e do mistério de amor esponsal entre Cristo e a Igreja, nós, solteiros pelo Reino dos Céus, mostramos aos casados e ao mundo que tudo passa e tudo é relativo diante da beleza, da grandeza e do absoluto dAquele que Deus nos enviou: o seu Filho bendito, sua Palavra eterna, Verdade que ilumina, liberta e dá vida. A ele a glória para sempre.
dom Henrique Soares da Costa


O “poder-autoridade” de Jesus
Uma das características do antigo judaísmo é seu caráter profético, a presença de personagens carismáticos, considerados porta-vozes de Deus. A figura do profeta ganhou sua imagem “clássica” no livro do Deuteronômio, iniciado no tempo da reforma religiosa de Josias (± 620 a.C.) e apresentado como recapitulação da Lei de Moisés. O profeta deve ser alguém como Moisés, alguém que fale de modo confiável em nome de Deus (1ª leitura). Com o tempo, a figura do “profeta como Moisés” tornou-se imagem do Messias que havia de vir.
O evangelho de hoje (Mc. 1,21-28) apresenta Jesus segundo esse modelo, como alguém que ensina “com autoridade”, não como os escribas! Essa autoridade evoca o poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais que confirmem a palavra. Entretanto, paira um mistério sobre a figura de Jesus no Evangelho de Marcos. Jesus proíbe aos discípulos e aos beneficiados de suas curas publicar o exercício de sua “autoridade” que eles presenciaram. O mistério da identidade de Jesus só será desvendado na hora da morte, quando o centurião romano proclamar: “Este homem era verdadeiramente Filho de Deus” (15,39). Só na morte fica claro, sem ambiguidade, o modo e o sentido da obra messiânica de Cristo, segundo “os pensamentos de Deus” (cf. Mc. 8,31-33).
A 2ª leitura é tomada, mais uma vez, das “questões práticas” de 1 Coríntios. Na linha da “reserva escatológica” (cf. domingo passado), Paulo explica as vantagens do celibato, ao menos quando assumido com vistas à escatologia.
1ª leitura (Dt. 18,15-20)
Pela instituição do profetismo, o povo de Israel se distingue das nações pagãs, que praticam todo tipo de adivinhação e superstição (Dt. 18,14). Deus suscitará em Israel profetas conforme o modelo de Moisés, seu porta-voz no Sinai. O profeta deve anunciar a cada geração a palavra de Deus, não sensacionalismo, adivinhação ou seja lá o que for. Tais serão os “profetas “como eu” que Moisés anuncia em Dt. 18,15 (cf. 18,18). O profeta deve ser alguém como Moisés, alguém que escute a palavra de Deus e a quem Deus coloque suas palavras na boca para transmiti-las, alguém que não fale em nome de Deus o que este não lhe tiver inspirado nem fale em nome de outros deuses; alguém cujas palavras sejam confirmadas pelos fatos (18,15-22). Mas, pouco depois do exílio babilônico, essa instituição entra em declínio e a expressão “um profeta como eu” (Dt 18,15) acaba sendo interpretada num sentido individual, significando o Messias. Jo 6,14 (cf. 1,21.45; At. 3,22-23) mostra que Jesus foi identificado com esse Messias-profeta. 
Evangelho (Mc. 1,21-28)
A palavra de Jesus é um acontecer e um agir. Marcos não narra o conteúdo daquilo que Jesus pregou na sinagoga de Cafarnaum, mas o efeito: Jesus age com autoridade (1,22.27) na expulsão dos espíritos imundos, que reconhecem nele o representante de Deus. Jesus ensina com autoridade, não como os escribas! Essa “autoridade” evoca o poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais que confirmem a palavra. 
Ora, o termo grego que Marcos usa (exousía) não é costumeiro, no judaísmo helenístico, para falar do poder profético, e sim do poder escatológico do “filho de homem” descrito no livro de Daniel! Ao ler Mc. 1,21-28 tem-se a impressão de que o povo viu em Jesus um profeta, o que é confirmado pelas opiniões populares citadas em Mc. 6,15 e 8,28. Mas a presença da “autoridade” nele esconde algo que o povo não consegue entender: “Que é isso?” (1,27). Ao percorrermos o Evangelho de Marcos, descobrimos que a identidade que Jesus atribui a si mesmo é a do Filho do homem, o enviado escatológico de Deus, prefigurado em Dn. 7,13-14. A este pertence a exousía, a “autoridade” (Dn. 7,14). Quem percebe a identidade de Jesus é o demônio por ele expulso (Mc 1,24): o demônio reconhece aquele que põe em perigo o seu domínio!
No Evangelho de Marcos paira um mistério sobre a figura de Jesus: o “segredo messiânico”. Aos demônios (1,25.34; 3,12), aos miraculados (1,44; 5,43; 7,34; 8,26), aos discípulos (8,30; 9,9), Jesus lhes proíbe publicar o exercício da “autoridade” que presenciaram. Se Jesus ensina com autoridade e poder efetivo, que confirmam sua palavra profética, devemos enxergar nele o “Filho do homem”, que vem com os plenos poderes de Deus.
2ª leitura (1Cor. 7,32-35)
No espírito da “reserva escatológica” que vimos domingo passado, dando importância não tanto ao estado de vida, mas antes à diligência escatológica com a qual ele é assumido, Paulo explica que o estado celibatário lhe permite uma dedicação mais intensa àquilo que se relaciona de modo imediato com o reino escatológico. Não condena, porém, as “mediações do reino”, entre as quais o casamento, para o qual Jesus mesmo deu instruções (1Cor. 7,10). O celibato é um conselho pessoal de Paulo (7,25). Como o sentido da escatologia é que o Senhor nos encontre ocupado com sua causa, Paulo aconselha o estado de vida que deixa nosso espírito mais livre para pensar nisso. Conselho não para truncar nossa liberdade, mas para a libertar mais ainda. É claro, está falando do celibato assumido, não do celibato “levado de carona”, como é, muitas vezes, o de parte de nosso clero; porque, se não é assumido interiormente, desvia mais da causa do Senhor do que as preocupações matrimoniais. Bem entendido, porém, o celibato, além de proporcionar liberdade para Deus aos que o assumem, constitui um lembrete para os casados, a fim de que, no meio de suas preocupações, conservem a reserva escatológica, que os faz ver melhor o sentido último de tudo quanto fazem.
Dicas para reflexão
Jesus é o profeta do reino de Deus. Mas que é um profeta? Conforme a 1ª leitura, o profeta é mediador e porta-voz de Deus. Moisés lembra aos israelitas que, quando da manifestação de Deus no monte Sinai (Ex. 19), tiveram tanto medo, que Deus precisou estabelecer um intermediário para falar com eles. Esse intermediário foi Moisés, o primeiro “profeta bíblico”. E ele ensina que sempre haverá profetas em Israel para serem mediadores e porta-vozes de Deus, de modo que os israelitas já não precisam recorrer aos adivinhos cananeus, que consultam as divindades mediante sortilégios, búzios, necromantes (que evocam espíritos) etc. O profeta é aquele que fala com a autoridade de Deus que o envia. Muitas vezes, sua palavra é corroborada por Deus por meio de sinais milagrosos.
No evangelho, Jesus é apresentado como porta-voz de Deus e de seu reino. Deus mostra que está com ele. Dá-lhe “poder-autoridade” para fazer sinais. Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus expulsa um demônio, e o povo reconhece: “Um ensinamento novo, dado com autoridade…” (Mc. 1,27).
Ora, os sinais milagrosos servem para mostrar a autoridade do profeta, mas não são propriamente sua missão. Servem para mostrar que Deus está com ele, mas sua tarefa não é fazer coisas espantosas. Sua tarefa é ser porta-voz de Deus. Jesus veio para nos dizer e mostrar que Deus nos ama e espera que participemos ativamente de seu projeto de amor. Por outro lado, os sinais, embora não sejam sua tarefa propriamente, não deixam de revelar um pouco em que consiste o reino que Jesus anuncia. São sinais da bondade de Deus. Jesus nunca faz sinais danosos para as pessoas (como as pragas do Egito, que sobrevieram pela mão de Moisés). O primeiro sinal de Jesus, em Marcos, é uma expulsão de demônio. A possessão demoníaca simboliza o mal que toma conta do ser humano sem que este o queira. Libertando o endemoninhado do seu mal, Jesus demonstra que o reino por ele anunciado não é apenas apelo livre à conversão de cada um, mas luta vitoriosa contra o mal que se apresenta maior que a gente.
O mal que é maior que a gente existe também hoje: a crescente desigualdade social, a má distribuição da terra e de seus produtos, a lenta asfixia do ambiente natural por conta das indústrias e da poluição, a vida insalubre dos que têm de menos e dos que têm demais, a corrupção, o terror, o tráfico de drogas, o crime organizado, o esvaziamento moral e espiritual pelo mau uso dos meios de comunicação... Esses demônios parecem dominar muita gente e fazem muitas vítimas. O sinal profético de Jesus significa a libertação desse “mal do mundo” que transcende nossas parcas forças. E sua palavra, proferida com a autoridade de Deus mesmo, ensina-nos a realizar essa libertação.
Como Jesus, a Igreja é chamada a apresentar ao mundo a palavra de Deus e o anúncio de seu reino. Como confirmação dessa mensagem, deve também demonstrar, em sinais e obras, que o poder de Deus supera o mal: no empenho pela justiça e no alívio do sofrimento, no saneamento da sociedade e na cura do meio ambiente adoentado. Palavra e sinal, eis a missão profética da Igreja hoje.


Jesus profeta ensina libertando
Marcos está preocupado em mostrar quem é Jesus. Mas o evangelista não se preocupa com definições abstratas. Ele apresenta Jesus agindo. E, com base em seus gestos, nós podemos descobrir quem Jesus é.
O trecho de hoje é de grande importância. Trata-se do primeiro ato público de Jesus. Além disso, os vv. 21-34 apresentam um dia típico da atividade de Jesus: o que encontramos nesses versículos é uma amostra daquilo que o Mestre faz constantemente. No evangelho de hoje consideramos só um aspecto desse dia típico (que prossegue no evangelho do próximo domingo).
Marcos situa no tempo e no espaço o relato do primeiro milagre: é um dia de sábado (tempo) e Jesus entra na sinagoga (espaço), acompanhado pelos discípulos que acabara de convocar (vv. 16-20). O sábado era uma das instituições sagradas para as pessoas daquela época, dia de celebrar a vida e a comunhão com Deus. A sinagoga era lugar de estudo e aprendizagem. Mas o sábado e a sinagoga não estavam favorecendo a vida.
Jesus começa a ensinar (v. 21). Marcos não fala do conteúdo desse ensinamento. É que, neste evangelho, ensino e prática são a mesma coisa. O povo se admira, porque ele ensina como quem tem autoridade, e não como os doutores da Lei (v. 22). Depois que o homem possuído por um espírito mau foi libertado, o povo fica espantado, e todos se perguntam: “O que é isto? Um ensinamento novo, dado com autoridade” (v. 27a).
O ensinamento de Jesus é novo porque liberta ao mesmo tempo que ensina. Aí se situa a diferença entre o seu ensinamento e o dos doutores da Lei, cuja prática não conduz à libertação. E isso tem muito que ver com nossa prática pastoral, às vezes feita de teorias, sem imprimir uma caminhada libertadora. Ao entrar na sinagoga, Jesus se volta para quem não recebia atenção (v. 23). Ele faz que o possuído pelo demônio se torne o centro das atenções, e sua libertação é, ao mesmo tempo, prática e ensino.
O homem possuído pelo espírito mau é símbolo de todas as pessoas despersonalizadas às quais se impediu falar e agir como sujeitos da própria vida e história. Não são donas de si próprias. Sua vida e destino dependem de “outros” que pensam, falam e agem por elas. O que acontece nessas situações? Os espíritos maus que falam em nome do povo jamais admitirão a possibilidade de este vir a ser libertado. É assim que o espírito mau reage diante de Jesus: “O que queres de nós?” (v. 24a). Notemos um detalhe importante: o espírito mau fala no plural (nós), sinal de que representa de fato tudo o que despersonaliza e aliena as pessoas. Nesse sentido, ele é o princípio de todas as alienações da sociedade: discursos políticos enganadores, planos econômicos que roubam do povo o pouco que possui, entendimentos sociais que não ajudam o povo a sair da miséria etc.
Marcos está preocupado em mostrar quem é Jesus. E, no episódio em questão, o espírito mau reconhece que Jesus veio para destruir todas as raízes do mal e suas manifestações: “Vieste para nos destruir?” (v. 24a). Este é um dos momentos altos na catequese deste evangelho: Jesus é aquele que veio destruir o mal que aliena e despersonaliza as pessoas. Para Marcos, Jesus é “o forte” anunciado por João Batista (cf. 1,7). Há mais um detalhe importante neste versículo: o espírito mau já sabe quem é Jesus: “Tu és o Santo de Deus” (v. 24b). O Mestre é a pessoa escolhida pelo Pai para libertar as pessoas. Para o povo da Bíblia, conhecer o nome de alguém é, de certa forma, ter controle sobre a pessoa. Jesus é o forte. O espírito da alienação não tem poder sobre ele.
Os espíritos maus sabem quem é Jesus. Mas ele impõe-lhes silêncio: “Cale-se e saia dele!” (v. 25). Não se trata simplesmente de abafar a alienação. Isso seria pior. É preciso que as pessoas sejam, de fato, livres.
Ao tocar no tema do silêncio imposto aos espíritos maus, abrimos uma porta importante no Evangelho de Marcos. Jesus age dessa forma porque é tarefa de seus seguidores proclamarem quem ele é. “Pega muito mal” o fato de Jesus ser anunciado pelo espírito da alienação. Mas, ao longo deste evangelho, os discípulos de Jesus sofrem de ignorância crônica. São muitas as passagens que comprovam esse detalhe. Por incrível que pareça, quem revela Jesus como Filho de Deus é um pagão, aos pés da cruz (15,39), depois de ter visto que o ensinamento do Mestre passa pela entrega total da vida. O que fazer, então? A resposta está nas primeiras palavras de Jesus em Marcos: “Convertam-se e acreditem na boa notícia” (1,15).
Marcos conclui o episódio com uma espécie de sumário: “A fama de Jesus logo se espalhou por toda parte, em toda a região da Galileia” (v. 28). A Galileia, lugar dos marginalizados, vai descobrindo que chegou para ela a boa notícia do Reino: vida para os que dela foram privados. Jesus, contudo, vai rejeitar a possibilidade de se tornar famoso como tentação que não constrói o Reino.


Dos que se casam e dos que não se casam
Somos convidados a viver em profunda intimidade com o Senhor.  A partir do momento em que tivemos a absoluta certeza de que o Ressuscitado  nos chamava para o seu seguimento quisemos, e continuamos querendo, levar a sério  nossa vida cristã.  Casados ou solteiros, temos a peito esse seguimento do Senhor. Na epístola proclamada na liturgia de hoje Paulo fala das “preocupações” do seguidor de Cristo. Coloca o tema vivido pelos  se casam e pelos que não se casam.
“Eu gostaria que estivésseis livres de preocupações. O homem não casado é solícito pelas coisas do Senhor. O casado preocupa-se  com as coisas do mundo, e procura agradar à sua mulher e, assim está dividido. Do mesmo modo, a mulher não casada e a jovem solteira têm zelo pelas coisas do Senhor e procuram ser santas de corpo e de espírito. Mas a que se casou preocupa-se com as coisas do mundo e procura agradar seu marido”.
Estas poucas linhas de Paulo não são fáceis de serem interpretadas. A impressão que se tem é que ele privilegiaria a vida de consagração a Deus no estado da vida de virgindade.
Paulo, por vezes, acredita que o tempo do fim esteja próximo. Então, o que importa  é ocupar-se do Senhor. Talvez, em parte, por esta razão essa preferência pelo não casamento. As pessoas teriam menos preocupações. É preciso entender bem essa “preferência” pelo estado virginal.
Podemos muito bem imaginar um casal cristão, vivendo a intimidade da união de seus corações e de seus corpos, no seio de uma família com filhos, da vida social e profissional  completamente consagrado e de dedicado a Deus. Vivendo no meio do mundo  esses cristãos casados não absolutizam dinheiro, prestigio, sexo e casamento, mas vivem tudo sob a ótica do discernimento e do bom senso. Não é simplesmente por causa do casamento que deixarão de estar com Deus, privar de sua intimidade, viver sob o bafejo de seu amor na vida conjugal e familiar. Pode ser que, algumas vezes, as preocupações pelas coisas da terra e as vaidades impeçam uma maior união com o Senhor.  Isso depende de cada casal e de cada pessoa. Há pessoas que não se casam, e nem por isso se ocupam das coisas do Senhor.
Paulo dá a entender que as pessoas que não se casam podem ser mais livres para o Senhor. Desde os tempos apostólicos houve oa que resolveram não se casar. Experimentaram uma forte vontade de serem totalmente do Senhor e foram reservando seu tempo, sua história, suas energias mais preciosas para o Senhor.  Santo Antão, nos primeiros séculos, inventou um gênero de vida marcado pela oração, jejuns, ascese, pobreza e consagração virginal ao Senhor. Este estilo de vida ainda é seguido hoje. Há os que não se casam, não por rejeitarem o matrimônio mas porque querem ter como única preocupação as coisas do Senhor…Essas pessoas para serem significativas  terão  vida de intimidade total com o Senhor, farão suas as preocupações de seu Mestre e vão se esvaziando de si mesmas.
Paulo conclui: “O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor, permanecendo junto ao Senhor, sem outras preocupações”.
Será que os cuidados da casa, do casamento, da família nos distanciam do Senhor? Como vemos a vida religiosa em nossos dias?
frei Almir Ribeiro Guimarães


O “poder” de Jesus
Uma das características do antigo judaísmo é seu caráter profético, o fato de ser orientado por personagens carismáticos, considerados porta-vozes de Deus.
Nos três séculos antes do exílio babilônico, a figura do profeta ganhou sua imagem “clássica”. Com a reforma religiosa de Josias (620 a.C.), surge o livro do Deuteronômio, recapitulação da Lei de Moisés. Comporta uma espécie de definição do que deve ser um profeta (nem todos eram assim!): alguém como Moisés, alguém que escute a palavra de Deus, alguém a quem Deus coloque suas palavras na boca para transmiti-las, alguém que não fale em nome de Deus o que este não lhe tiver inspirado, nem fale em nome de outros deuses; alguém cujas palavras sejam confirmadas pelos fatos (Dt. 18,15-22) (1ª leitura).
Pela instituição do profetismo, o povo de Israel se distingue das nações pagãs, que praticam todo tipo de adivinhação e superstição (18,14). Mas pouco depois do exílio, a instituição entra em declínio. A partir do século IV a.C., Israel não tem mais profetas. Aí surge a saudade. O texto de Dt. 18,15.18, que fala genericamente do “profeta como Moisés” – originalmente indicando a instituição profética - é agora interpretado no sentido individual, como apontando uma figura do tempo messiânico: o Messias-profeta.
Ora, a figura do “profeta como Moisés”, que a 1ª leitura da liturgia de hoje evoca, é apenas um “aperitivo” daquilo que o evangelho (Mc. 1,21-28) deixa entrever. Apresenta Jesus como alguém que ensina com autoridade, portanto, não como os escribas! Essa “autoridade” evoca o poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais que confirmem a palavra. Porém, o termo grego (exousia) não é costumeiro no judaísmo helenístico para falar do poder profético, e sim, do poder escatológico do Filho de Homem e de Deus, no livro de Daniel! O episódio de Mc. 1,21-28 (evangelho) dá a entender que o povo teve, diante de Jesus, a impressão de ver um profeta, o que é confirmado pelas opiniões populares citadas em Mc. 6,15 e 8,28.
Mas a constatação da presença da “autoridade” esconde algo que o povo não consegue entender: “Que é isso?” (1,27). Ao percorrermos o evangelho de Mc, descobriremos que a identidade que Jesus atribui a si mesmo é a do Filho do Homem, o enviado escatológico de Deus, prefigurado em Dn. 7. A este pertence a exousia (Dn. 7,14), a “autoridade”. Quem parece suspeitar a identidade de Jesus é o demônio que é expulso naquela ocasião (Mc 1,24); ele conhece seu adversário.
No evangelho de Mc paira um mistério sobre a figura de Jesus. Aos demônios (1,25.34; 3,12), aos miraculados (1,44; 5,43; 7,34; 8,26), aos discípulos (8,30; 9,9), Jesus lhes proíbe publicar o exercício de sua “autoridade” que eles presenciaram. O mistério da identidade de Jesus só é desvendado na hora da morte, quando o centurião romano, representante do mundo inteiro, proclama: “Este homem era verdadeiramente o Filho de Deus” (15,39). Só na morte fica claro, sem ambigüidade, o modo e o sentido da obra messiânica de Cristo, segundo “os pensamentos de Deus” (cf. 8,3 1-33).
Portanto, se Jesus ensina com autoridade (e com essa misteriosa autoridade expulsa demônios, confirmando sua palavra profética), devemos enxergar no profeta de Nazaré (cf. 6, 4) o Filho do Homem, que vem com os plenos poderes de Deus.
A 2ª leitura é tomada, mais uma vez, das “questões práticas” da 1Cor. Na linha da “reserva escatológica” (cf. dom. passado), Paulo explica as vantagens do celibato, ao menos, quando assumido com vistas à escatologia. Como o sentido da escatologia é que o Senhor nos encontre ocupado com sua causa (cf. 1° dom. Advento B), é melhor adotar o estado de vida que deixe nosso espírito mais livre para pensar nisso. É um conselho de Paulo, não para truncar nossa liberdade, mas para a libertar mais ainda.
Claro, está falando do celibato assumido, não do celibato “levado de carona”, como é, muitas vezes, o do nosso clero; pois, quando não é assumido interiormente, desvia mais a mente da causa do Senhor do que as preocupações matrimoniais. Bem entendido, porém, o celibato, além da liberdade para Deus que proporciona aos que o assumem, é também um lembrete para os casados, ajudando-os, no meio de suas preocupações, a conservarem, também eles, a reserva escatológica, que os faz ver o caráter provisório de seu estado e problemas e, sobretudo, o sentido último que deve ser dado a tudo isso.
Johan Konings "Liturgia dominical"


O sábado, quando se refere a Jesus, aparece sempre nos Evangelhos como um dia de ação e, para os judeus, ele é o coração da lei de Israel, ou seja, é preciso observar os mandamentos segundo a vontade de Deus. Eles entendiam as leis e, como Deus descansou no sétimo dia, no sábado, todos devem também descansar e dedicá-lo a adorar Aquele que tudo criou. “O sétimo dia é sábado; repouso absoluto em honra do Senhor” (Ex. 31,15), porém, Jesus veio ensinar que o importante é o homem e não a lei, e que o Amor precede as regras, portanto, “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc. 2,27).
A idéia central deste Evangelho não é exatamente quando ou o quê Jesus ensina, mas como Ele ensina; a autoridade que Ele imprime em Suas palavras e ações e o efeito que provoca nas pessoas, que vai da admiração ao espanto. É um ensinamento novo porque liberta e ensina ao mesmo tempo.
Na Bíblia, todo profeta é um portador de Deus, mas Jesus vai além, porque Ele é o próprio Deus que se fez presente no diálogo com o homem, e a Sua autoridade está tanto nas Palavras como no poder da sua ação, por isso é repetida nos dois versículos: 22 e 27.
O espírito impuro fala em nome do povo dependente e submisso que reconhece Jesus e O revela como o Santo de Deus, enquanto a maioria, ou a totalidade dos que ali se encontram, O desconhecem como tal.
As pessoas, espantadas, reconhecem a autoridade de Jesus porque presenciam o demônio saindo do corpo do possesso e obediente a Ele, mas ainda não compreendem quem é esse Homem e de onde vem tal autoridade, perguntando entre si: “O que é isso?”
Jesus veio para destruir todas as raízes do mal e as suas manifestações. Ele é a pessoa escolhida pelo Pai para libertar o Seu povo!
Ao escrever esta passagem, Marcos quer passar a confiança em Jesus como um Mestre e alguém que cura os doentes. E é, exatamente, o fato das pessoas ficarem assustadas e impressionadas com a autoridade de Jesus, que a Sua fama se espalha por toda a Galiléia e, posteriormente, desperta em Herodes e em outros tantos poderosos, o desejo de destruí-Lo por uma falsa ameaça de poder.
Jesus apresenta uma nova doutrina nos seus ensinamentos através de várias passagens, como nas bem-aventuranças, no mandamento do amor, nos conselhos evangélicos; e, com autoridade, expulsando os demônios com efeito imediato.
A liturgia do 4º domingo do tempo comum garante-nos que Deus não se conforma com os projetos de egoísmo e de morte que desfeiam o mundo e que escravizam os homens e afirma que Ele encontra formas de vir ao encontro dos seus filhos para lhes propor um projeto de liberdade e de vida plena.
A primeira leitura propõe-nos – a partir da figura de Moisés – uma reflexão sobre a experiência profética. O profeta é alguém que Deus escolhe, que Deus chama e que Deus envia para ser a sua “palavra” viva no meio dos homens. Através dos profetas, Deus vem ao encontro dos homens e apresenta-lhes, de forma bem perceptível, as suas propostas.
O Evangelho mostra como Jesus, o Filho de Deus, cumprindo o projeto libertador do Pai, pela sua Palavra e pela sua ação, renova e transforma em homens livres todos aqueles que vivem prisioneiros do egoísmo, do pecado e da morte.
A segunda leitura convida os crentes a repensarem as suas prioridades e a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos.
1ª leitura – Dt. 18,15-20 – AMBIENTE
O livro do Deuteronômio é aquele “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18º ano do reinado de Josias (622 a.C.) (cf. 2Re. 22). Neste livro, os teólogos deuteronomistas – originários do Norte (Israel) mas, entretanto, refugiados no sul (Judá) após as derrotas dos reis do norte frente aos assírios – apresentam os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém); esse Deus amou e elegeu Israel e fez com Ele uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um único Povo, a propriedade pessoal de Jahwéh (portanto, não têm qualquer sentido as questões históricas que levaram o Povo de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão). A finalidade fundamental dos catequistas deuteronomistas é levar o Povo de Deus a um compromisso firme e exigente com a Lei de Deus, proclamada no Sinai. É um convite firme ao Povo de Deus no sentido de abraçar a Aliança com Jahwéh e de viver na fidelidade aos compromissos assumidos.
Literariamente, o livro apresenta-se como um conjunto de três discursos de Moisés, pronunciados nas planícies de Moab. Pressentindo a proximidade da sua morte, Moisés deixa ao Povo uma espécie de “testamento espiritual”: lembra aos hebreus os compromissos assumidos para com Deus e convida-os a renovar a sua aliança com Jahwéh.
O texto que hoje nos é proposto apresenta-se como parte do segundo discurso de Moisés (cf. Dt. 4,44-28,68). Trata-se de um texto que integra um conjunto legislativo sobre as estruturas de governo do Povo de Deus (cf. Dt. 16,18-18,22). Em concreto, o nosso texto refere-se ao papel e ao significado do profetismo.
O fenômeno profético não é exclusivo de Israel, mas é um fenômeno relativamente conhecido entre os povos do Crescente Fértil. Entre os cananeus, os movimentos proféticos apareciam com relativa frequência, normalmente ligados à adivinhação, ao êxtase, a convulsões, a delírios (habitualmente provocados por instrumentos sonoros, gritos, danças, etc.). A multiplicidade de experiências proféticas obriga, exatamente, a pôr o problema do discernimento entre a verdadeira e a falsa profecia… O que é que caracteriza o verdadeiro profeta? Quando é que um profeta fala, realmente, em nome de Deus? Este problema devia pôr-se, particularmente, no Reino do Norte, na época de Acab (874-853 a.C.) e de Jezabel, quando os profetas de Baal dominavam. As tradições sobre o profeta Elias (cf. 1Re. 17 - 2Re 13,21) traçam esse quadro de confronto diário entre a verdadeira e a falsa profecia.
O catequista deuteronomista refere-se, precisamente, a esta questão. Ele apresenta, aqui, o quadro do verdadeiro profeta, oferecendo assim ao seu povo os critérios para distinguir o verdadeiro do falso profeta.
MENSAGEM
Para os teólogos deuteronomistas, Moisés é o exemplo e o modelo do verdadeiro profeta. O que é que isso significa?
Significa, em primeiro lugar, que na origem e no centro da vocação de Moisés está Deus. Não foi Moisés que se candidatou à missão profética, por sua iniciativa; não foi Moisés que conquistou, pelas suas ações ou pelas suas qualidades, o “direito” a ser “profeta”. A iniciativa foi de Deus que, de forma gratuita, o escolheu, o chamou e o enviou em missão. Se Moisés foi designado para ser um sinal de Jahwéh, foi porque Deus assim o quis. A consagração do “profeta” resulta de uma ação gratuita de Deus que, de acordo com critérios muitas vezes ilógicos na perspectiva dos homens, escolhe aquela pessoa em concreto, com as suas qualidades e defeitos, para o enviar aos seus irmãos.
Em segundo lugar, Moisés disse sempre e testemunhou sempre as palavras que Deus lhe colocou na boca e que lhe ordenou que dissesse. A mensagem transmitida não era a mensagem de Moisés, mas a mensagem de Deus. O verdadeiro profeta não é aquele que transmite uma mensagem pessoal, ou que diz aquilo que os homens gostam de ouvir; o verdadeiro profeta é aquele que, com coragem e frontalidade, testemunha fielmente as propostas de Deus para os homens e para o mundo.
As palavras do profeta devem ser cuidadosamente escutadas e acolhidas, pois são palavras de Deus. O próprio Deus pedirá contas a quem fechar os ouvidos e o coração aos desafios que Deus, através do profeta, apresenta ao mundo.
ATUALIZAÇÃO
A vocação profética é uma vocação que surge por iniciativa de Deus. Ninguém é profeta por escolha própria, mas porque Deus o chama. O profeta tem de ter consciência, antes de mais, que é Deus quem está por detrás da sua escolha e do seu envio. O profeta não pode assumir uma atitude de arrogância e de auto-suficiência, mas tem de se sentir um instrumento humilde através do qual Deus age no mundo.
Ao tomar consciência de que é apenas um instrumento através do qual Deus age no meio da comunidade humana, o profeta descobre a necessidade de levar muito a sério a missão que lhe foi confiada. O testemunho profético não é um passatempo ou um compromisso para as horas vagas; está fora de causa o cruzar os braços e deixar correr. Trata-se de um compromisso que deve ser assumido e vivido com fidelidade absoluta e total empenho.
Se o profeta é designado para tornar presente no meio dos homens o projeto de Deus, ele não pode utilizar a missão em benefício próprio; não deve ceder à tentação de se vender aos poderes do mundo e pactuar com eles, a fim de concretizar a sua sede de poder e de protagonismo, não pode “vender a alma ao diabo” para daí tirar algum benefício, não deve utilizar o seu ministério para se exibir, para ser admirado, para conseguir sucesso, para promover a sua imagem e obter os aplausos das multidões. A missão profética tem de estar sempre ao serviço de Deus, dos planos de Deus, da verdade de Deus, e não ao serviço de esquemas pessoais, interesseiros e egoístas.
2ª leitura – 1Cor. 7,32-35 – AMBIENTE
A comunidade cristã de Corinto é uma comunidade tipicamente grega, que mergulha as suas raízes numa cultura-ambiente marcada por grandes contradições. As diversas escolas filosóficas que existiam na cidade (e um pouco por todo o mundo grego) tinham perspectivas muito diversas sobre o sentido da vida e sobre a forma de chegar à felicidade e à realização plena. As propostas de caminho apresentadas por essas escolas eram, frequentemente, divergentes e mesmo opostas.
Um dos sectores onde se nota, particularmente, esse balançar entre caminhos opostos, é nas questões de ética sexual. Neste âmbito, a cultura coríntia oscilava entre dois extremos: por um lado, um grande laxismo (como era normal numa cidade marítima, onde chegavam marinheiros de todo o mundo e onde reinava Afrodite, a deusa grega do amor); por outro lado, um desprezo absoluto pela sexualidade (típico de certas tendências filosóficas influenciadas pela filosofia platônica, que consideravam a matéria um mal e que faziam do não casar um ideal absoluto).
O desejo de Paulo é o de apresentar um caminho equilibrado, face a estes exageros: condenação sem apelo de todas as formas de desordem sexual, defesa do valor do casamento, elogio do celibato (cf. 1Cor. 7).
Provavelmente, os coríntios tinham consultado Paulo acerca do melhor caminho a seguir – o do matrimônio ou o do celibato. Paulo responde à questão no capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios (de onde é retirado o texto da nossa segunda leitura). Paulo considera que não tem, a este propósito, “nenhum preceito do Senhor”; no entanto, o seu parecer é que quem não está comprometido com o casamento deve continuar assim e quem está comprometido não deve “romper o vínculo” (1Cor. 7,25-28). Na perspectiva de Paulo, os cristãos não devem esquecer que “o tempo é breve”, quando tiverem que fazer as suas opções – nomeadamente, quando tiverem que fazer a sua escolha entre o casamento ou o celibato.
MENSAGEM
Paulo reconhece que, quem não é casado tem mais tempo e disponibilidade para se preocupar “com as coisas do Senhor” (v. 32b) e para agradar ao Senhor. Quem é casado tem de atender às necessidades da família e de dividir a sua atenção por uma série de realidades ligadas à vida do dia a dia; quem não é casado pode responder aos desafios de Deus e gastar a sua vida ao serviço do projecto de Deus sem quaisquer condicionalismos ou limitações.
Paulo estará, aqui, a desvalorizar a vida conjugal e a sexualidade? Estará a dizer que o matrimônio é um caminho a evitar, ou é um caminho que afaste de Deus? De modo nenhum. Para Paulo, o casamento é uma realidade importante (ele considera que tanto o casamento como o celibato são dons de Deus – cf. 1Cor. 7,7); mas não deixa de ser uma realidade terrena e efêmera, que não deve, por isso, ser absolutizada. Paulo nunca diz que o casamento seja uma realidade má ou um caminho a evitar; contudo, é evidente, nas suas palavras, uma certa predileção pelo celibato… Na sua perspectiva, o celibato leva vantagem enquanto caminho que aponta para as realidades eternas: anuncia a vida nova de ressuscitados que nos espera, ao mesmo tempo que facilita um serviço mais eficaz a Deus e aos irmãos.
Na verdade, as palavras de Paulo fazem sentido em todos os tempos e lugares; mas elas tornam-se mais lógicas se tivermos em conta o ambiente escatológico que se respirava nas primeiras comunidades. Para os crentes a quem a Primeira Carta aos Coríntios se destinava, a segunda e definitiva vinda de Jesus estava iminente; era preciso, portanto, preocupar-se com as coisas de Deus e relativizar as realidades transitórias e efêmeras, entre as quais se contava o casamento.
ATUALIZAÇÃO
Por detrás das afirmações que Paulo faz no texto que nos é proposto como segunda leitura, está a convicção de que as realidades terrenas são passageiras e efêmeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Não se trata de propor uma evasão do mundo e uma espiritualidade descarnada, insensível, alheia ao amor, à partilha, à ternura; mas trata-se de avisar que as realidades desta terra não podem ser o objetivo final e único da vida do homem. Esta reflexão convida-nos a repensarmos as nossas prioridades, e a não ancorarmos a nossa vida em realidades transitórias.
A virgindade consagrada, por amor do Reino, nem sempre é um valor compreendido, à luz dos valores da nossa sociedade. Paulo, contudo, sublinha o valor da virgindade como valor autêntico, pois anuncia o mundo novo que há-de vir e disponibiliza para o serviço de Deus e dos irmãos. É sinal de desprendimento, de doação, de disponibilidade e deve ser positivamente valorizada. Aqueles que são chamados a viver dessa forma não são gente estéril e infeliz, alheia às coisas bonitas da vida, mas são pessoas generosas, que renunciaram a um bem (o matrimônio) em vista da sua entrega a Deus e aos outros.
Evangelho – Mc. 1,21-28 – AMBIENTE
A primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30) tem como objetivo fundamental levar à descoberta de Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que aderem à sua proposta de salvação/libertação. Este percurso de descoberta do Messias que o catequista Marcos nos propõe termina em Mc. 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe (que é, evidentemente, a confissão que se espera de cada crente, depois de ter acompanhado o percurso de Jesus a par e passo): “Tu és o Messias”.
O texto que nos é hoje proposto aparece, exatamente, no princípio desta caminhada de encontro com o Messias e com o seu anúncio de salvação. Rodeado já pelos primeiros discípulos, Jesus começa a revelar-Se como o Messias-libertador, que está no meio dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação.
A cena situa-nos em Cafarnaum (em hebraico Kfar Nahum, a “aldeia de Naum”), a cidade situada na costa noroeste do Lago Kineret (o Mar da Galileia). De acordo com os Evangelhos Sinópticos, é aí que Jesus se vai instalar durante o tempo do seu ministério na Galileia. Vários dos discípulos – Simão e seu irmão André, Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João – viviam em Cafarnaum.
MENSAGEM
É um sábado. A comunidade está reunida na sinagoga de Cafarnaum para a liturgia sinagogal. Jesus, recém-chegado à cidade, entra na sinagoga – como qualquer bom judeu – para participar na liturgia sabática. A celebração comunitária começava, normalmente, com a “profissão de fé” (cf. Dt 6,4-9), a que se seguiam orações, cânticos e duas leituras (uma da Torah e outra dos Profetas); depois, vinha o comentário às leituras e as bênçãos. É provável que Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas. Fê-lo de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam habituadas a ouvir aos “escribas” (os estudiosos das Escrituras). As pessoas ficaram maravilhadas com as palavras de Jesus, “porque ensinava com autoridade e não como os escribas” (v. 22). A referência à autoridade das palavras de Jesus pretende sugerir que Ele vem de Deus e traz uma proposta que tem a marca de Deus.
A “autoridade” que se revela nas palavras de Jesus manifesta-se, também, em ações concretas (como se a “autoridade” das palavras tivesse de ser caucionada pela própria ação). Na sequência das palavras ditas por Jesus e que transmitem aos ouvintes um sinal inegável da presença de Deus, aparece em cena “um homem com um espírito impuro”. Os judeus estavam convencidos que todas as doenças eram provocadas por “espíritos maus” que se apropriavam dos homens e os tornavam prisioneiros. As pessoas afetadas por esses males deixavam de cumprir a Lei (as normas corretas de convivência social e religiosa) e ficavam numa situação de “impureza” – isto é, afastadas de Deus e da comunidade. Na perspectiva dos contemporâneos de Jesus, esses “espíritos maus” que afastavam os homens da órbita de Deus tinham um poder absoluto, que os homens não podiam, com as suas frágeis forças, ultrapassar. Acreditava-se que só Deus, com o seu poder e autoridade absolutos, era capaz de vencer os “espíritos maus” e devolver aos homens a vida e a liberdade perdidas.
Numa encenação com um singular poder evocador, Marcos põe o “espírito mau” que domina “um homem” presente na sinagoga, a interpelar violentamente Jesus. Sugere-se, dessa forma, que diante da proposta libertadora que Jesus veio apresentar, em nome de Deus, os “espíritos maus” responsáveis pelas cadeias que oprimem os homens ficam inquietos, pois sentem que o seu poder sobre a humanidade chegou ao fim. A ação da cura do homem “com um espírito impuro” constitui “a prova provada” de que Jesus traz uma proposta de libertação que vem de Deus; pela ação de Jesus, Deus vem ao encontro do homem para o salvar de tudo aquilo que o impede de ter vida em plenitude.
Para Marcos, este primeiro episódio é uma espécie de apresentação de um programa de acção: Jesus veio ao encontro dos homens para os libertar de tudo aquilo que os faz prisioneiros e lhes rouba a vida. A libertação que Deus quer oferecer à humanidade está a acontecer. O “Reino de Deus” instalou-se no mundo. Jesus, cumprindo o projeto libertador de Deus, pela sua Palavra e pela sua ação, renova e transforma em homens livres todos aqueles que vivem prisioneiros do egoísmo, do pecado e da morte.
ATUALIZAÇÃO
O “homem com um espírito impuro” representa todos os homens e mulheres, de todas as épocas, cujas vidas são controladas por esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de medo, de exploração, de exclusão, de injustiça, de ódio, de violência, de pecado. É essa humanidade prisioneira de uma cultura de morte, que percorre um caminho à margem de Deus e das suas propostas, que aposta em valores efêmeros e escravizantes ou que procura a vida em propostas falíveis ou efêmeras. O Evangelho de hoje garante-nos, porém, que Deus não desistiu da humanidade, que Ele não Se conforma com o fato de os homens trilharem caminhos de escravidão, e que insiste em oferecer a todos a vida plena.
Para Marcos, a proposta de Deus torna-se realidade viva e atuante em Jesus. Ele é o Messias libertador que, com a sua vida, com a sua palavra, com os seus gestos, com as suas ações, vem propor aos homens um projeto de liberdade e de vida. Ao egoísmo, Ele contrapõe a doação e a partilha; ao orgulho e à auto-suficiência, Ele contrapõe o serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos; à exclusão, Ele propõe a tolerância e a misericórdia; à injustiça, ao ódio, à violência, Ele contrapõe o amor sem limites; ao medo, Ele contrapõe a liberdade; à morte, Ele contrapõe a vida. O projeto de Deus, apresentado e oferecido aos homens nas palavras e ações de Jesus, é verdadeiramente um projeto transformador, capaz de renovar o mundo e de construir, desde já, uma nova terra de felicidade e de paz. É essa a Boa Nova que deve chegar a todos os homens e mulheres da terra.
Os discípulos de Jesus são as testemunhas da sua proposta libertadora. Eles têm de continuar a missão de Jesus e de assumir a mesma luta de Jesus contra os “demônios” que roubam a vida e a liberdade do homem, que introduzem no mundo dinâmicas criadoras de sofrimento e de morte. Ser discípulo de Jesus é percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu e lutar, se necessário até ao dom total da vida, por um mundo mais humano, mais livre, mais solidário, mais justo, mais fraterno. Os seguidores de Jesus não podem ficar de braços cruzados, a olhar para o céu, enquanto o mundo é construído e dirigido por aqueles que propõem uma lógica de egoísmo e de morte; mas têm a grave responsabilidade de lutar, objetivamente, contra tudo aquilo que rouba a vida e a liberdade ao homem.
O texto refere o incômodo do “homem com um espírito impuro”, diante da presença libertadora de Jesus. O pormenor faz-nos pensar nas reações agressivas e intolerantes – por parte daqueles que pretendem perpetuar situações de injustiça e de escravidão – diante do testemunho e do anúncio dos valores do Evangelho. Apesar da incompreensão e da intolerância de que são, por vezes, vítimas, os discípulos de Jesus não devem deixar-se encerrar nas sacristias, mas devem assumir corajosamente e de forma bem visível o seu empenho na transformação das realidades políticas, econômicas, sociais, laborais, familiares.
A luta contra os “demônios” que desfeiam o mundo e que escravizam os homens nossos irmãos é sempre um processo doloroso, que gera conflitos, divisões, sofrimento; mas é, também, uma aventura que vale a pena ser vivida e uma luta que vale a pena travar. Embarcar nessa aventura é tornar-se cúmplice de Deus na construção de um mundo de homens livres.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

A escravidão do pecado
I. O evangelho da missa deste domingo (1) fala-nos da cura de um endemoninhado. A vitória sobre o espírito imundo – isso é o que significa Belial ou Belzebu, nome que a Escritura dá ao demônio (2) – é mais um sinal da chegada do Messias, que vem libertar os homens da sua escravidão mais perigosa: a do demônio e do pecado.
Este homem atormentado de Cafarnaum dizia aos gritos: Que há entre ti e nós, Jesus Nazareno? Vieste perder-nos? Conheço-te; és o Santo de Deus! E Jesus mandou-lhe de forma imperativa: Cala-te e sai dele. Todos ficaram estupefatos.
João Paulo II ensina que não é de excluir que em certos casos o espírito maligno chegue a exercer o seu domínio não só sobre as coisas materiais, mas também sobre o corpo do homem, motivo pelo qual se fala de “possessões diabólicas” (3).
Nem sempre é fácil distinguir o que há de preternatural nesses casos, nem a Igreja é condescendente ou apóia facilmente a propensão para considerar muitos fatos como intervenções diretas do demônio; mas, em princípio, não se pode negar que, na sua ânsia de fazer mal e de induzir ao mal, Satanás chegue a essa expressão extrema da sua superioridade4.
A possessão diabólica aparece no Evangelho acompanhada normalmente de manifestações patológicas: epilepsia, mudez, surdez... Os possessos perdem freqüentemente o domínio sobre si mesmos, sobre os seus gestos e palavras; há casos em que chegam a tornar-se instrumentos do demônio. Por isso, os milagres que o Senhor realizou neste campo manifestavam o advento do Reino de Deus e a conseqüente expulsão do diabo dos domínios do Reino: Agora o príncipe deste mundo será lançado fora (5). Quando os setenta e dois discípulos voltaram da sua missão apostólica, cheios de alegria pelos resultados colhidos, disseram a Jesus: Senhor, até os demônios se nos submetiam em teu nome. E o Mestre respondeu-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio (6).
Desde a chegada de Cristo, o demônio bate em retirada, mas o seu poder é ainda muito grande e “a sua presença torna-se mais forte à medida que o homem e a sociedade se afastam de Deus” (7); devido ao pecado mortal, não poucos homens ficam sujeitos à escravidão do demônio (8), afastam-se do Reino de Deus para penetrarem no reino das trevas, do mal; convertem-se, em diferentes graus, em instrumento do mal no mundo e ficam submetidos à pior das escravidões.
Devemos permanecer vigilantes para saber identificar e repelir as armadilhas do tentador, que não descansa no seu propósito de fazer-nos mal, já que, a partir do pecado original, ficamos sujeitos às paixões e expostos aos assaltos da concupiscência e do demônio: fomos vendidos como escravos ao pecado (9). “Toda a vida humana, individual e coletiva, se apresenta como luta – luta dramática – entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Mais ainda: o homem sente-se incapaz de neutralizar com eficácia os ataques do mal por si mesmo, a ponto de sentir-se preso entre grilhões” (10). Por isso devemos dar todo o seu sentido à última das súplicas que Cristo nos ensinou no Pai-Nosso: livrai-nos do mal.
Além do fato histórico concreto que o trecho do Evangelho de hoje nos relata, podemos ver nesse possesso todo o pecador que quer livrar-se de Satanás e do pecado, pois Jesus não veio libertar-nos “dos povos dominadores, mas do demônio; não da prisão do corpo, mas da malícia da alma” (11).
“Livrai-nos, Senhor, do Mal, do Maligno; não nos deixeis cair em tentação. Fazei, pela vossa infinita misericórdia, que não cedamos perante a infidelidade a que nos seduz aquele que foi infiel desde o começo” (12).
II. A experiência da ofensa a Deus é uma realidade. E o cristão não demora a descobrir essa profunda marca do mal e a ver o mundo escravizado pelo pecado (13).
São Paulo recorda-nos que fomos resgatados por um preço muito alto (14) e exorta-nos firmemente a não voltar à escravidão. “O primeiro requisito para desterrar esse mal [...] é procurar comportar-se com a disposição clara, habitual e atual, de aversão ao pecado. Energicamente, com sinceridade, devemos sentir – no coração e na cabeça – horror ao pecado grave” (15).
O pecado mortal é a pior desgraça que nos pode acontecer. Quando um cristão se deixa conduzir pelo amor, tudo lhe serve para a glória de Deus e para o serviço dos seus irmãos, os homens, e as próprias realidades terrenas são santificadas: o lar, a profissão, o esporte, a política... Pelo contrário, quando se deixa seduzir pelo demônio, o seu pecado introduz no mundo um princípio de desordem radical, que o afasta do seu Criador e é a causa de todos os horrores que se aninham no seu íntimo. Nisto está a maldade do pecado: em que os homens, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas perverteram os seus pensamentos em vaidades, vindo a obscurecer-se o seu coração insensato [...]. Trocaram a glória do Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis (16).
O pecado – um só pecado – exerce uma misteriosa influência, umas vezes oculta, outras visível e palpável, sobre a família, os amigos, a Igreja e a humanidade inteira. Se um ramo de videira é atacado por uma praga, toda a planta se ressente; se um ramo fica estéril, a videira já não produz o fruto que se esperava dela; além disso, outros ramos podem também secar e morrer.
Renovemos hoje o propósito firme de repelir tudo aquilo que possa ser ocasião, mesmo remota, de ofender a Deus: espetáculos, leituras inconvenientes, ambientes em que destoa a presença de um homem ou uma mulher que segue o Senhor de perto... Amemos muito o sacramento da Penitência. Meditemos com freqüência a Paixão de Cristo para entender melhor a maldade do pecado. Peçamos a Deus que seja uma realidade nas nossas vidas a sentença popular tão cheia de sentido: “Antes morrer que pecar”.
III. Embora nunca penetremos suficientemente na realidade do mistério de iniqüidade que é o pecado, basta que nos apercebamos da sua profunda malícia para que nunca queiramos colocar o combate espiritual na fronteira entre o grave e o leve, pois o maior perigo está em “desprezar a luta nessas escaramuças que calam pouco a pouco na alma, até a tornarem frouxa, quebradiça e indiferente, insensível aos apelos de Deus” (17).
Os pecados veniais – que não causam a morte espiritual, como o pecado mortal, mas, pelo desleixo e pela falta de contrição que implicam, são um convite aos pecados graves – produzem esse efeito funesto nas almas que não lutam por evitá-los, e constituem um excelente aliado do demônio. Sem matarem a vida da graça, debilitam-na, tornam mais difícil o exercício da virtude e mal permitem ouvir as insinuações do Espírito Santo. “Que pena me dás enquanto não sentires dor dos teus pecados veniais! – Porque, até então, não terás começado a ter verdadeira vida interior” (18).
Para lutar eficazmente contra os pecados veniais, o cristão deve começar por encará-los na sua real importância: causam mediocridade espiritual e tibieza, e tornam realmente difícil o caminho da vida interior.
Os santos recomendaram sempre a confissão freqüente, sincera e contrita, como meio eficaz de combater essas faltas e pecados, e caminho seguro de progresso interior. “Deves ter sempre verdadeira dor dos pecados que confessas, por leves que sejam – aconselha São Francisco de Sales –, e fazer o firme propósito de emendar-te daí por diante. Há muitos que perdem grandes bens e muito proveito espiritual porque, ao confessarem os pecados veniais como que por costume e só por cumprir, sem pensarem em corrigir-se, permanecem toda a vida carregados deles” (19).
Oxalá não endureçais os vossos corações quando ouvirdes a sua voz (20), exorta-nos o Salmo responsorial da Missa. Peçamos ao Espírito Santo que nos ajude a ter um coração cada vez mais limpo e forte, capaz de cortar o menor laço que nos aprisione, e de se abrir a Deus tal como Ele espera de cada cristão.
Francisco Fernández-Carvajal