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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 27 de setembro de 2016

27º DOMINGO TEMPO COMUM-C

27º DOMINGO TEMPO COMUM

02 DE OUTUBRO – ANO C

1ª Leitura - Hab 1,2-3; 2,2-4

SALMO 94

2ª Leitura - 2Tm 1,6-8.13-14


Evangelho - Lc 17,5-10



As leituras de hoje nos convidam a termos fé e confiança em Deus. Mesmo que por muitas vezes não entendemos os seus desígnios, o certo é depositarmos nele toda a nossa esperança, pois Deus todo poderoso nunca falha, Ele não nos abandona. Porém, para isso precisamos segui-lo fielmente. Continuar lendo

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A fé, a semente de mostarda e o serviço
As leituras de hoje nos chamam a atenção para a fé. “Aumenta-nos a fé!”, disseram os apóstolos a Jesus. Por que os discípulos pedem para aumentar a fé deles? Qual é a relação entre as duas parábolas do evangelho de hoje, semente de mostarda e servo inútil, e a fé? O que é a fé? A carta aos Hebreus define fé como “firme fundamento das coisas que se esperam, uma posse antecipada, um meio de demonstrar as realidades que não se veem”. E ainda acrescenta: “foi por meio dela que os antigos deram seus testemunhos” (Hb. 11,1-2). Mesmo não tendo visto Jesus ressuscitado, eu acredito, tenho fé, certeza de que ele ressuscitou. Por isso, eu tenho fé. Não preciso manifestar fé em uma árvore, pois já sei que ela existe. Ninguém precisa me transmitir esse ensinamento. Podemos correr o risco de banalizar a fé, quando a colocamos na dimensão da incerteza. Os discípulos acreditavam nas palavras e promessas do Reino que Jesus anunciava, mas também disseram: aumenta-nos a fé.
Neste domingo, dia em que o país irá às urnas para escolher presidente, senadores, governadores e deputados, perguntemo-nos: qual é a contribuição do cristão neste ato cívico? Temos fé em nossos políticos? As suas promessas se tornam realidades? Por enquanto, permaneçamos com essas inquietações.
1º leitura (Hab. 1,2-3; 2,2-4)
A fé salva e a fidelidade me faz justo seguidor da Lei
Habacuque foi um profeta realista, contestador, lamentador e esperançoso. Como Jó, ele foi o “homem da crise”. Ele atuou entre 605 e 600 a.C., período em que Judá viveu sob a dominação do império neobabilônico, pagando-lhe tributos. O rei Joaquim, aliado de um outro opressor, o Egito, foi colocado no trono pelo Faraó para governar Judá. A tirania de Joaquim foi tamanha que a injustiça aumentou no país. Pouco tempo depois, os babilônios, com Nabucodonosor, invadiram o país, destruíram Jerusalém e levaram as lideranças do povo para um exílio, que duraria cinco décadas, na Babilônia.
Habacuque, que num primeiro momento acreditou na reforma de Josias, percebe que não mais seria possível esperar por uma solução baseada na Lei. Ele perde a esperança na reforma deuteronomista, mas crê que Deus vencerá (2,1-3; 3,15.19). Esta descoberta lhe restituiu a esperança. Habacuque manteve-se firme nas seguintes denúncias: a não observância da Lei (1,4); os juízes corruptos (1,4); o roubo (2,9-10); a política injusta (2,12-14); a idolatria (2,18-20); os impérios egípcio (1,2) e babilônico (1,12-17); e o cinismo do conquistador (ou qualquer pessoa) que embriaga o seu próximo para lhe contemplar a nudez (2,15).
A primeira leitura é um lamento do profeta pela situação do povo e um questionamento a Deus, pedindo-lhe que os ouça: “Até quando, Senhor, pedirei socorro e não ouvirás” (1,2). A resposta de Deus vem em dois momentos. Ele diz que o opressor, a Babilônia, virá para destruir o país (1,5). Esse será o castigo para o povo de Judá. O profeta Jeremias dirá o mesmo. Habacuque se assusta com essa resposta de Deus (1,12-17). E Deus novamente responde, dizendo que ele sabe o que faz e não engana (2,2-4). E acrescenta: “o justo viverá pela sua fidelidade”. Habacuque chama o povo a ter confiança na justiça humana e na força libertadora do Senhor. A salvação virá pela fé e não pela observância da Lei (2,4). É o que são Paulo, mais tarde, irá aprofundar na sua teologia da “justificação pela fé” (Rm. 1,17; Gl. 3,11), tendo como base esse texto de Habacuque. A tradução da Bíblia hebraica para o grego, chamada de Setenta, traduziu o termo hebraico ‘emunah por fé, em vez de fidelidade, como está no texto de Habacuque. Fidelidade está relacionada com o justo que segue a Torá.
Outro fator que chama a atenção no texto de Habacuque é que Deus vai castigar o povo por causa de seus governantes iníquos. Relembrar isso em dia de eleição é muito propício. Em tempos modernos, não precisamos chegar a tanto, como foi o caso de Judá. Por outro lado, se a nossa lei punisse, de fato, os políticos corruptos, com certeza, nosso país seria diferente em questões sociais. Outro dado, muitos de nossos políticos não se envergonham de manifestar em público a sua fé. Neste ano, um deles chegou a rezar agradecendo a Deus pelo dinheiro conseguido com as suas falcatruas. Ele ficou conhecido como o político da oração.
A fé que nos salva é aquela que me faz justo seguidor da justiça pregada pela Palavra de Deus. Esta sim, o resto é pura enganação. Fiquemos atentos, sobretudo para o grande mercado da fé que assola o nosso país.
2. Evangelho (Lc. 17,5-10): “Senhor, aumenta a nossa fé!”
No evangelho de hoje, nos encontramos todos com uma inquietante pergunta: Senhor, aumenta-nos a fé! Jesus responde com duas parábolas. Vejamo-las.
a) “A fé pode até ser do tamanho de uma semente de mostarda” (vv. 5-6). Essa passagem também pode ser lida em Mt. 17,20-21; 21,21; Mc. 9,24; 11,23. Os apóstolos pedem a Jesus que aumente a fé deles. A interpretação desse texto nos ensina que a fé, por menor que seja, assim como uma pequenina semente de mostarda, pode realizar maravilhas, até mesmo exigir que uma amoreira se replante no mar. Viver a fé em tempos modernos é um desafio para todos nós. Somos senhores de muitos poderes e de nós mesmos. A fé é muito mais que uma boa obra ou uma dimensão psicológica de nossa existência. Ela é um colocar em Deus, que é amor que nos redime e nos impulsiona a viver na integridade das relações. Fé não é questão de quantidade, mas de qualidade.
b) “A fé é um serviço” (vv. 7-10). Na sequência da fé comparada à semente de mostarda, Jesus, fazendo uso de uma situação não muito peculiar aos apóstolos, a de um patrão que tem um empregado que o serve sem se perguntar o porquê de sua atitude, ensina que é simplesmente fazer o que se tem que fazer. Quem tem fé faz. Isso basta. As obras são consequências de nossa fé em Deus que tudo pode. E se Deus tudo pode, eu também posso, com a minha fé, realizar grandes obras. O serviço é uma dimensão da fé.
Amanhã, dia quatro de outubro, a Igreja faz a memória de são Francisco de Assis, o santo da paz e do bem, o defensor da ecologia e inventor do presépio. No final de sua vida, quando tanto havia feito e vivenciado a fé em Deus, com todo o ardor próprio da Idade Média, Francisco de Assis disse: “Irmãos, vamos recomeçar novamente, porque pouco ou nada fizemos”. Essa espiritualidade é a do serviço e da fraternidade universal. Por menor que seja, ela será sempre um serviço à justiça e ao bem comum, realizado de forma gratuita e não por dinheiro, como pensavam alguns.
2º leitura (2Tm. 1,6-8.13-14): Timóteo, viva a sua fé!
A segunda leitura tem uma orientação clara: Paulo, apóstolo propagador da fé em Jesus, com quem ele nem mesmo convivera, mas fora um perseguidor aguerrido de seus seguidores, exorta ao seu discípulo, Timóteo, a viver a fé por causa de sua consagração a serviço da Igreja, na coordenação da comunidade. Timóteo é convocado a cooperar com os dons do Espírito Santo. Ele não pode transmitir medo, mas reavivar sempre a sua fé. O cristão deve alimentar sempre a sua fé para não desanimar. Da mesma forma, ele deve dar testemunho de Jesus Cristo e guardar o depósito da fé, eis a sua missão. Paulo também não se intimida em demonstrar com palavras as suas atitudes de fé.
Na prisão, Paulo lhe diz: “Toma por modelo as sãs palavras que de mim ouviste, com fé e com amor que está em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito, por meio do Espírito Santo que habita em nós” (vv. 13-14). O cristão precisa ser corajoso, não olhar interesses pessoais. “Não se envergonhe de dar testemunho de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro” (v. 8), afirma, categoricamente, Paulo a Timóteo. A prisão não desmerece Paulo, pelo contrário, ela o credencia como discípulo de Cristo Jesus.
PISTAS PARA REFLEXÃO
1. Mostrar que o mundo é marcado por situações que não agradam a Deus e, tampouco, ao seu povo. Os que não creem podem até dizer que as desigualdades são normais e que Deus não existe, mas a promessa da vinda de Jesus se realizará. Os maus serão extirpados e os bons, chamados de benditos do meu Pai.
2. A igreja, por ser a aglutinação daqueles que creem, deve anunciar e propiciar o caminho da salvação para todos, lutando pela justiça social, pela paz e pela divisão fraternal dos bens. Fazer tudo isso é já ter a fé aumentada, assim como pediram os discípulos a Jesus.
3. A comunidade de fé tem um compromisso fundamental com a vida política do país. Escolher bem os governantes e, depois, cobrar deles atitudes coerentes com o prometido são o compromisso de fé que todos devemos assumir.
frei Jacir de Freitas Farias, ofm



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Fé e humildade
Continuamos a ser formados pelo evangelho de Lucas. Neste domingo há dois tópicos, dois aspectos da vida cristã que precisam ser levados a sério. Há um ensinamento sobre a fé e outro sobre a humildade.
O texto fala de um pedido no ar. Os apóstolos querem ter sua fé robustecida. “Aumenta a nossa fé!”. Tema difícil e amplo esse da elucidação da fé.  A fé não é apenas uma adesão a verdades ditas. Não se limita á inteligência.  Não basta a recitação do Credo para que as pessoas possam dizer que “têm fé”. Não é das mais felizes essa expressão; ter fé. Não se tem, não se possui a fé como se tem uma camisa ou um relógio.
Sim, há um conjunto de verdades que servem de base para o nosso seguimento de Jesus. Este, veio da parte do Pai, nasceu na nossa carne, percorreu as estradas da vida, aproximou-se de tudo o que é humano, conheceu contradições e chegou ao termo de sua caminhada no alto do patíbulo dando a vida pela vida do mundo. Este galileu , totalmente homem, era também a expressão de Deus na carne humana. Padeceu, morreu e ressuscitou. Esta a nossa fé: cremos em Jesus, filho de Deus, concebido pelo Espírito, morto e ressuscitado. Esta a fé que da Igreja recebemos. Mais ainda: participamos de sua morte e de sua ressurreição. Cremos. Os mistérios de Cristo são os nossos mistérios.
Não basta afirmar tudo isso. Necessário viver a vida iluminada pela fé. Tudo tem sentido. Casamento, paternidade, sofrimentos, alegrias, trabalho, todas as atividades humanas ganham uma claridade que vem da fé cristã. Viver da fé e na fé é clarear tudo com a certeza da vitória de Cristo sobre o absurdo, a morte, a mentira. As pessoas que vivem da fé confiam sua vida e sua história ao Deus da vida e ao Senhor da história. De alguma forma caminham para uma terra sem evidências, como Abraão deixou sua terra, sua parentela e foi na direção de um país que o Senhor haveria de mostrar. Assim como Abraão nós também vivemos dizendo, nas noites escuras e nos dias sem brilho: “Deus providenciará”. Alois Stöger, comentando o trecho, escreve: “O dom fundamental da salvação é a fé. Por ela é levado a cabo o mais difícil. A ela é prometida a salvação. O grão de mostarda é a menor de todas as sementes, mal do tamanho de uma cabeça de alfinete. A menor entrega mediante a fé consegue a maior coisa junto de Deus. As raízes do sicômoro preto são tão viçosas que essa árvore pode durar 600 anos – não obstante toda intempérie. No entanto, uma única palavra pronunciada com o mínimo de abnegada confiança em Deus, poderia transplantar essa árvore da terra para o mar – no caso o mar da Galiléia. Deus concede forças divinas para cumprir as exigências de Jesus, quando, seguindo a Jesus, se acredita que por ele chegou o tempo salvífico, e quando se põe toda confiança no que ele prega. Jesus prega o poder misericordioso de Deus” ( O Evangelho segundo Lucas. Coleção Novo Testamento, Vozes, p 99-100).  Ter fé é jogar a vida em Deus na palavra de Jesus! Esses são capazes de transportar montanhas.
O segundo ensinamento é sobre a humildade.  O discípulo de Jesus e cidadão do Reino  trabalha, luta, se empenha, evangeliza, ocupa-se da educação e formação cristã dos filhos, observa os pedidos do Sermão da Montanha. O verdadeiro discípulo não apresenta contas de tempo gasto e de desgastes eventualmente sofridos. Depois de terem sido atuantes, não atribuem o último resultado aos seus méritos. No fim de tudo, dirá: “Somos servos inúteis.  Fizemos o que devíamos fazer”. E ponto final.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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A soberania de Deus e nossa fé
O mote da liturgia de hoje é: fé-fidelidade (o termo bíblico tem os dois sentidos). Quando Habacuc (1ª leitura), diante da desordem em Judá, nos últimos anos antes do exílio, grita a Deus com impaciência, quase com desespero, Deus anuncia que ele tratará o mal por um remédio mais tremendo ainda: os babilônios. A objeção de Habacuc contra esta solução, Deus responde: “Eu sei o que faço; não preciso prestar contas; mas os justos se salvarão por sua fidelidade” (2,2-4). O evangelho começa com a prece dos Apóstolos: “Senhor aumenta-nos a fé”.
O sentido de “fé” é um pouco diferente daquilo que Habacuc quer dizer. No A.T., trata-se da autenticidade e lealdade para com Deus, a fidelidade; no N.T., da adesão a Jesus Cristo (ambas as atitudes são indicadas pelo mesmo termo em grego, pistis, e em latim, fides). De fato, a adesão de fé implica também a lealdade e a fidelidade.
A resposta de Jesus é uma admoestação para que tenham mais fé, fé que transporta montanhas! Jesus utiliza aqui o estilo hiperbólico dos orientais, mas não deixa de ser verdade que, quem se entrega em confiança a Deus em Jesus Cristo, faz coisas que outros não fazem e que ele mesmo não se julgava capaz de fazer.
Assim como, em Hab, Deus não presta contas ao profeta, vemos, no evangelho, Deus como um senhor que não precisa prestar contas a seus escravos. Depois do longo trabalho no campo, ele pode ainda pedir que eles preparem a comida e lha sirvam sem reclamar, pois fizeram somente seu dever. Claro que Jesus não está justificando este modo de agir; apenas descreve a realidade de seu tempo para expressar uma idéia religiosa: que Deus não precisa prestar contas: quando o servimos, fazemos apenas o que devemos fazer.
Mensagem chocante em nosso mundo, onde a mínima prestação de serviço exige uma gratificação específica. Ainda que, muitas vezes, a gratificação não valha o serviço, essa mentalidade exclui todo o espírito do serviço gratuito. Ora, no Reino de Deus somos participantes; nossa recompensa existe no participar, como Paulo diz a respeito do anunciar o evangelho gratuitamente (1Cor. 9,16). Na realidade Jesus usa um exemplo tirado de uma sociedade paternalista. Ao interpretar, devemos excluir esses traços paternalistas. O que Jesus quer mostrar é que participamos no projeto de Deus não em função de uma compensação extra, mas porque é a obra de Deus. Pois o próprio Deus é nossa recompensa, a realização de seu amor supera qualquer recompensa que poderíamos imaginar.
Na 2ª leitura, Paulo admoesta seu amigo Timóteo a manter plena fidelidade ao Senhor. Pois também o ministro da fé deve firmar-se na fidelidade, para poder firmar seus irmãos na fé. Não se envergonhar (o cristianismo era ridicularizado e perseguido nas cidades do mundo “civilizado” de então), observar a doutrina sadia recebida do Apóstolo (contra as fantasias gnósticas e outras que se introduziram no cristianismo primitivo), guardar o “bom depósito”, ou seja, o bem a ele confiado, o evangelho. Nas circunstâncias daquele tempo e de todos os tempos, isso só é possível com a força do Espírito Santo.
Recebemos hoje, portanto, uma mensagem para valorizar a fé, inclusive, como base da oração. Mas nossa fé não é uma espécie de fundo de garantia para que Deus nos atenda. Assim como ele não precisa prestar contas, também não é forçado por nossa fé. Nossa fé é necessária para nós mesmos, para ficarmos firmes na adesão a Deus em Jesus Cristo. Deus mesmo, porém, é soberano, e soberanamente nos dá mais do que ousamos pedir (oração do dia).
Johan Konings "Liturgia dominical"

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A soberania de Deus e nossa fé
Quando Habacuc (1ª leitura), diante da desordem em Judá, nos últimos anos antes do exílio, grita a Deus com impaciência, quase com desespero, Deus anuncia que ele tratará o mal por um remédio mais tremendo ainda: os babilônios. A objeção de Habacuc contra esta solução, Deus responde: “Eu sei o que faço; não preciso prestar contas; mas os justos se salvarão por sua fidelidade” (2, 2-4). O evangelho começa com a prece dos Apóstolos: “Senhor aumenta-nos a fé”.
O sentido de “fé” é um pouco diferente daquilo que Habacuc quer dizer. No A.T., trata-se da autenticidade e lealdade para com Deus, a fidelidade; no N.T., da adesão a Jesus Cristo (ambas as atitudes são indicadas pelo mesmo termo em grego, pistis, e em latim, fides). De fato, a adesão de fé implica também a lealdade e a fidelidade.
A resposta de Jesus é uma admoestação para que tenham mais fé, fé que transporta montanhas! Jesus utiliza aqui o estilo hiperbólico dos orientais, mas não deixa de ser verdade que, quem se entrega em confiança a Deus em Jesus Cristo, faz coisas que outros não fazem e que ele mesmo não se julgava capaz de fazer.
Assim como, em Hab, Deus não presta contas ao profeta, vemos, no evangelho, Deus como um senhor que não precisa prestar contas a seus escravos. Depois do longo trabalho no campo, ele pode ainda pedir que eles preparem a comida e lha sirvam sem reclamar, pois fizeram somente seu dever. Claro que Jesus não está justificando este modo de agir; apenas descreve a realidade de seu tempo para expressar uma idéia religiosa: que Deus não precisa prestar contas: quando o servimos, fazemos apenas o que devemos fazer.
Mensagem chocante em nosso mundo, onde a mínima prestação de serviço exige uma gratificação específica. Ainda que, muitas vezes, a gratificação não valha o serviço, essa mentalidade exclui todo o espírito do serviço gratuito. Ora, no Reino de Deus somos participantes; nossa recompensa existe no participar, como Paulo diz a respeito do anunciar o evangelho gratuitamente (1Cor. 9,16). Na realidade Jesus usa um exemplo tirado de uma sociedade paternalista. Ao interpretar, devemos excluir esses traços paternalistas. O que Jesus quer mostrar é que participamos no projeto de Deus não em função de uma compensação extra, mas porque é a obra de Deus. Pois o próprio Deus é nossa recompensa, a realização de seu amor supera qualquer recompensa que poderíamos imaginar.
Na 2ª leitura, Paulo admoesta seu amigo Timóteo a manter plena fidelidade ao Senhor. Pois também o ministro da fé deve firmar-se na fidelidade, para poder firmar seus irmãos na fé. Não se envergonhar (o cristianismo era ridicularizado e perseguido nas cidades do mundo “civilizado” de então), observar a doutrina sadia recebida do Apóstolo (contra as fantasias gnósticas e outras que se introduziram no cristianismo primitivo), guardar o “bom depósito”, ou seja, o bem a ele confiado, o evangelho. Nas circunstâncias daquele tempo e de todos os tempos, isso só é possível com a força do Espírito Santo.
Recebemos hoje, portanto, uma mensagem para valorizar a fé, inclusive, como base da oração. Mas nossa fé não é uma espécie de fundo de garantia para que Deus nos atenda. Assim como ele não precisa prestar contas, também não é forçado por nossa fé. Nossa fé é necessária para nós mesmos, para ficarmos firmes na adesão a Deus em Jesus Cristo. Deus mesmo, porém, é soberano, e soberanamente nos dá mais do que ousamos pedir (oração do dia).
Johan Konings - "Liturgia dominical"

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“Meu Deus e meu tudo!”
Iniciando o mês de outubro, mês do Rosário, relembremos o pedido de Maria, feito em Fátima, aos três pastorinhos: “Meus filhos, rezem o terço todos os dias para alcançar a Paz.”
Na reza do terço, contemplamos o Mistério de nossa Salvação realizada por Cristo Jesus, o Filho de Deus. E’ uma oração fundamentada no Evangelho, que nos transporta para dentro da Bíblia, acompanhando o peregrinar terreno de Jesus, desde seu nascimento, através de Maria (cf. Lc. 2,7), até sua morte e gloriosa ressurreição e ascensão, abrindo para nós as portas do Céu.
Os Apóstolos pediram a Jesus: “Senhor, aumenta a nossa fé!” (v. 5). Jesus exemplifica com uma parábola como viver no plano da fé: A imagem da amoreira, sendo transportada para o mar, é uma figura demonstrativa do poder extraordinário da fé, que vai além da realidade visível (v. 6). Ter fé significa transcender as situações mais difíceis. Com fé, a criatura chega ao coração de Deus, confessando sua pobreza e incapacidade, confiando ilimitadamente na ação salvífica de Jesus que tudo pode com seu divino poder.
A fé é um dom fundamental para a Salvação eterna.
A fé é dinâmica, é Vida! Leva-nos a viver o conteúdo do ensinamento de Jesus, colocando-nos numa constante atitude de serviço a Deus nos irmãos. A fé nos faz participantes da onipotência de Deus.
A seguir, Jesus mostra, através de outra parábola, qual deve ser a atitude do homem para com Deus (v. 7-10). Os escribas e fariseus olhavam a relação entre Deus e o homem como se fosse um contrato comercial: fazendo o que Deus ordenasse, Deus estaria obrigado a recompensar. A parábola ensina que Deus não está obrigado a nada, pois ele é o doador de todos os dons e o homem é apenas um “simples servo” que deve usar bem os dons de Deus. Deus dá os meios, os talentos, a capacidade, gratuitamente. Se realizamos alguma coisa, é pelo poder e graça de Deus que a realizamos.
“Por acaso, diz Jesus, um patrão vai agradecer a um servo porque fez o que lhe havia mandado?” (v. 9). Assim também vós: “Quando tiverdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: “Somos simples servos; fizemos o que devíamos fazer” (v. 10).
* São Francisco, homem de profunda fé e transfigurado pela graça, embora limitado pela doença, estava sempre pensando em empreender novas coisas e ainda mais perfeitas. Dizia ele: “Meus irmãos, vamos começar a servir a Deus porque até agora pouco ou nada fizemos”.
* * *
Qual a minha atitude diante de Deus? Sei distinguir sentimentalismo de uma fé autêntica? Costumo rezar o terço todos os dias? Ao rezar o terço, contemplo os Mistérios de nossa Salvação: Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus? Confio que Deus me dará a força necessária para poder realizar tudo o que ele exige de mim? Vamos começar a servir a Deus que, em Jesus, deu a Vida por nós!
frei Floriano Surian, ofm

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Todos nós temos fé; não há dúvida. No entanto temos na ponta da língua o pedido dos apóstolos a Jesus: “Aumenta a nossa fé!”. Vamos considerar as palavras do evangelho, o ponto de comparação da parábola e o nosso compromisso.
I. Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda. Os judeus do tempo de Jesus consideravam o grão de mostarda como o menor, servia para apontar o pequenino. Poderíeis dizer a esta amoreira. Essa árvore era conhecida por ter raízes muito profundas e resistentes. Arranca-te daqui e planta-te no mar.
Com outras palavras: a fé pequenina, pela qual cresce o Reino de Deus, pode realizar por seu dinamismo coisas quase impossíveis aos nossos olhos. E ela vos obedeceria. Quer dizer: a fé pequenina tem um poder de provocar uma obediência nunca imaginada.
Agora Jesus responde ao pedido dos discípulos com a parábola do escravo. Jesus observa sempre a realidade do seu tempo fazendo comparações com a realidade do Reino de Deus através de parábolas. Essas não servem para comparar a história traço por traço, mas destacam apenas um ponto chamado ponto de comparação.
Por isso Jesus pode usar realidades muito desumanas o que é o caso em nossa parábola. Jesus fala da realidade da escravidão que existia no tempo dele, embora já no AT considerada errada para o povo de Israel.
Jesus faz no texto original uma pergunta: Quem de vós tendo um escravo ...vai agradecer...porque fez o que lhe havia mandado? A resposta é clara na realidade da escravidão: Ninguém. Vamos pois descobrir o ponto de comparação.
II.  Jesus conclui: Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei Somos servos – melhor: escravos por causa do contexto desta parábola –  inúteis; fizemos o que devíamos fazer. Com outras palavras: Não temos direito à recompensa por Deus. Isso acontece, porque a nossa fé é um dom que recebemos na hora do batismo. Somos propriedade de Deus.
O ponto de comparação quer dizer só isso, nem mais nem menos: Não podemos fazer exigências como os escravos, embora já não sejamos mais escravos, mas filhos (Gl. 4,7). Em nossas fadigas e sofrimentos estamos participando das condi-ções de Jesus que tendo tomado a forma de escravo recebeu de Deus um nome, que esta acima de todo nome a fim de que toda língua proclame que Senhor é Jesus Cristo para a glória de Deus Pai (Fl. 2,7.9.11). A base dessa profissão de fé é a ressurreição de Jesus. Quais são agora as conseqüências para a nossa vida?
III.  Muita gente acha que não tem fé. Faz muitas novenas, mas chega à conclusão que Deus não ouve. No entanto, a fé não é isso. A fé consiste numa entrega total a Deus, que nos predestinou a sermos conformes à imagem do seu Filho segundo a carta aos romanos (Rm. 8,29). Neste sentido a fé pode de fato ser pequena, mas ela existe e realiza grandes coisas.
Fim: Quando a celebração da eucaristia chega a seu ponto alto, o sacerdote exclama: Eis o mistério da fé. Nós respondemos: Anunciamos Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus. Queremos agora reforçar esta fé cantando: Creio Senhor, mas aumentai a minha fé! (o canto todo)
frei Eduardo Albers, ofm


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Fé humilde
O evangelho de Lucas mostra o caminho que Jesus percorre até chegar em Jerusalém e, neste caminho, os seus seguidores encontram dificuldades e provações na busca de soluções para os desafios da prática cristã.
Uma dessas crises, sem dúvida, é a crise da fé que implica também a lealdade e a fidelidade ao projeto de Jesus. Os discípulos haviam recebido ”o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda força do inimigo”, e com o passar do tempo parece terem perdido esse poder, comprometendo o projeto de Jesus. E qual é a causa disso? Por causa da falta de fé, a comunidade não consegue mais superar as dificuldades.
Em resposta ao pedido dos discípulos, Jesus explica que não se trata da quantidade de fé, mas sim da qualidade. Ela deve ser verdadeira, convicta, capaz de coisas muito maiores, misteriosas sob o ponto de vista humano, como uma pequena semente de mostarda que traz em si todas as potencialidades da sua árvore. Uma fé que seja capaz de remover as raízes profundas de uma figueira apenas com uma ordem, coisa que nenhum homem seria capaz de arrancar com a sua própria força.
A resposta de Jesus é uma advertência para que todos tenham mais fé, sem incertezas e hesitações, pois quem se entrega em confiança a Deus, faz coisas que outras pessoas não fazem e permanece inabalável nas situações mais ásperas e difíceis da vida.
Jesus diz que o empregado deve sempre cumprir as ordens do patrão, assim como os seus discípulos devem cumprir seus ensinamentos, e que ninguém é melhor do que o outro por que cumpriu sua obrigação, ao contrário, todos fazem apenas o que devem fazer, simplesmente porque este é o dever de cada um.
Esta mensagem é chocante em nosso mundo, onde a mínima prestação de serviço exige uma gratificação específica. O que Jesus quer mostrar é que participamos do projeto de Deus não em função de uma compensação extra, mas porque trabalhamos para a obra do Pai, e o próprio Deus é nossa recompensa, pois a realização de seu amor em cada um supera qualquer outra recompensa que se poderia imaginar.
Pequeninos do Senhor

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A força da fé
Quando os discípulos pediram a Jesus para aumentar-lhes a fé, queriam que ela se tornasse mais autêntica e existencial. Quando isto acontecesse, eles estariam aptos para testemunhá-la com a vida, de acordo com o que acreditavam. Não é questão de aumento quantitativo da fé. Mesmo que seja mínima, mas autêntica, ela tem o formidável poder de fazer coisas impossíveis.
Esta é a mensagem da parábola da árvore transplantada para o mar. Uma fé minúscula seria suficiente para ordenar a uma árvore arrancar-se e plantar-se no mar. Essa ordem será imediatamente executada, quando resultar da confiança inabalável em Deus.
A profundidade da fé manifesta-se na maior ou menor capacidade de realizar as obras dela decorrentes. E as obras decorrentes da fé são as do amor. Quanto mais temos fé, mais somos misericordiosos com o próximo, cultivamos uma disposição contínua para perdoar, buscamos, em tudo, ser fraternos e solidários com os outros, empenhamo-nos pela causa da justiça.
As obras da fé são, em última análise, o dever fundamental da comunidade cristã. Realizá-las é obrigação. Quem as pratica, sabe que faz o que Deus quer. Portanto, tem consciência de ser um simples servo inútil, cuja única grandeza consiste em fazer o que é seu dever.
padre Jaldemir Vitório


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O que importa, aqui, não é o tamanho da fé, mas em que ela nos
faz apoiar nossa vida e nossa vocação
Talvez, muitos leitores do evangelho de hoje se sintam confusos pelo que aí é dito; outros tantos se deixarão levar pelo imediatamente percebido na leitura, sem aprofundar o sentido do texto. Tentemos ajudar o leitor a conhecer a mensagem que o autor quis transmitir com o seu texto.
“Aumenta a nossa fé!” (v. 5). Esta é a súplica dos apóstolos, os enviados. A fé é fundamentalmente adesão à pessoa de Jesus Cristo e, em razão dessa adesão, ela se transforma em testemunho. Tendo já sido enviados em missão (9,1-6), os apóstolos experimentaram a necessidade de uma comunhão estreita com Jesus. Sem esta relação estreita, o “sucesso” da missão fica comprometido. A fé oferece a possibilidade de fazer tudo em Deus, sem se deixar seduzir pelo prestígio, nem desanimar pelo fracasso. A fé está ligada à missão. Diante da súplica dos Doze, que também é a nossa, Jesus responde: “Se tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria” (v. 6). A fé, dizemos nós, remove montanhas! É preciso bem compreender, pois o que importa, aqui, não é o tamanho da fé, mesmo porque ela não é mensurável, mas em que ela nos faz apoiar nossa vida e nossa vocação. É a confiança no poder de Deus, na palavra de Cristo, que pode transformar a realidade tanto pessoal como social. É Deus quem age, não importa qual seja a nossa fé ou o nosso grau de confiança nele. Quando a ação do discípulo no desempenho de sua missão é feita em nome do evangelho, não há nada que seja impossível. “Para Deus tudo é possível”, dirá o Anjo Gabriel a Maria (1,37). Para o discípulo apoiado na palavra de Jesus Cristo, não há nada que possa desencorajá-lo.
“Somos simples servos…” (v. 10). Muitas vezes nós traduzimos esta frase deste modo: “Somos servos inúteis!”. Se o fôssemos, porque Deus nos chamaria ao seu serviço? A questão é outra. Em primeiro lugar, o apóstolo é servidor de Deus e dos homens. Antes de se assentar à mesa, no banquete do Reino de Deus, há um trabalho a ser feito, o anúncio do Reino, o testemunho de Jesus Cristo (cf. At. 1,8). Em segundo lugar, a expressão “simples servos, pois fizemos o que devíamos ter feito” diz respeito à gratuidade do serviço. A recompensa do apóstolo é Deus mesmo, seu verdadeiro salário é ser admitido como operário na vinha do Senhor. Quem é enviado não tem nenhum direito sobre Deus, nem sobre seus semelhantes. A gratuidade exige não só deixar de buscar recompensa, mas renunciar ao prestígio pessoal e à segurança pessoal. Deus é a sua força e proteção.
Carlos Alberto Contieri,sj



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Hoje, a Palavra de Deus nos coloca diante de um tema inquietante, o tema da fé. E o coloca com toda a dureza, nas palavras do profeta Habacuc. Ele viveu no final do século VII, início do século VI antes de Cristo. Reinava em Judá um rei iníqüo, Joaquim; o povo já não cultivava amor pelo Senhor; imperava a injustiça, a impiedade, a imoralidade, a violência do grande contra o pequeno... Diante desta situação tão triste, o profeta anunciava que os babilônios viriam e levariam o povo para o exílio. Seria a correção de Deus. Mas, aí, o profeta entra em crise: está certo que Judá merecia castigo; mas, por que Deus iria usar para castigar exatamente os babilônios, que eram um povo mais pecador que os judeus? O profeta angustia-se com esta incompreensível lógica do Senhor e, com dor e sinceridade sofrida, apresenta o seu protesto: “Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti: ‘Violência!’, sem me socorreres? Por que me fazes ver iniqüidades, quando tu mesmo vês a maldade? Destruições e prepotência estão à minha frente”. “Senhor, tu poderias resolver tudo! Tu poderias corrigir o teu povo de um modo mais lógico, mais compreensível! Por que, Senhor, ages deste modo?”
Crer não é compreender tudo. O profeta, que fala em nome de Deus, nem mesmo ele compreende totalmente o agir de Deus, e se angustia, e pergunta, e chora: “Senhor, por que ages assim? Por que teus caminhos nos escapam deste modo?” A verdade é que a fé não é uma realidade quieta e pacífica! O próprio Jesus adverte que somente os violentos conquistam o Reino dos céus (cf. Mt 11,12s); somente aqueles que lutam, que teimam em acreditar! A fé é uma realidade que sangra, sangra na dor de tantas perguntas sem resposta, sangra pelo sofrimento do inocente, pela vitória dos maus, pelo mal presente em tantas dimensões da nossa vida... E Deus parece calar-se! Um filósofo ateu do século passado chegou a dizer, escandalizado com o sofrimento no mundo: “Se Deus existe, o mundo é sua reserva de caça!” Jó, usou palavras parecidas: “Também hoje minha queixa é uma revolta, porque sua mão agrava os meus gemidos. Ele cobriu-me o rosto com a escuridão" (23,2.17). E, pesaroso, se queixa de Deus: “Clamo por ti, e não me respondes; insisto, e não te importas comigo. Tu te tornaste o meu carrasco e me atacas com teu braço musculoso!” (30,20s). Por que, Senhor? Por que te calas? Por que teus caminhos nos são escondidos? Por que parece que não te importas conosco? – Eis a dor que sangra das feridas dos crentes! A resposta de Deus a Habacuc não explica, mas convida a crer novamente, a abandonar-se novamente, a teimar na perseverança: “Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé!" Deus é assim: nunca nos explica, mas nos convida sempre à confiança renovada, ao abandono nas suas mãos. Quem não é correto, quem não se entrega nas mãos do Senhor, perderá a fé, morrerá na sua amizade com Deus... mas o justo, o amigo de Deus, viverá, permanecerá firme pela sua fé total e confiante. O justo vive da fé! É isto que é tão difícil para o homem de hoje, que tudo deseja enquadrar na sua razão e, quando não enquadra, se revolta e dá as costas a Deus e, assim, termina morrendo... porque viver sem Deus é a pior das mortes, o maior dos absurdos! O justo vive da fé, vive na fé, vive abandonado nas mãos do Senhor, como dizem as palavras da Antífona de Entrada, que o missal coloca para a liturgia de hoje: “Senhor, tudo está em vosso poder, e ninguém pode resistir à vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra, e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo!” (Est. 13,9.10-11).
Nunca esqueçamos: Deus não nos explica seu modo de agir! Se o compreendêssemos, compreenderíamos o próprio Deus e, aí, já não seria o Deus verdadeiro, mas apenas um idolozinho! Contudo, isso não significa que Deus não liga para nossa dor e para o nosso destino. Pelo contrário! Ele veio a nós, fez-se um de nós, viveu nossa vida, suportou nossas dores, experimentou nossa morte! Deus próximo, Deus de amor, Deus solidário! Por isso, podemos olhar para ele e, suplicantes, estender-lhe as mãos, como os discípulos do Evangelho, que pediam: “Aumenta a nossa fé!” E Jesus responde – a eles e a nós – “Se vós tivésseis fé (em mim), mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’ e ela vos obedeceria”. Ou seja: se crermos de verdade naquele amor que se manifestou até a cruz, se crermos – aconteça o que acontecer – que Deus nos ama a ponto de entregar o seu Filho, teremos a força de enfrentar todas as noites com a sua luz, todos os pecados com a sua graça, todas as mortes com a sua vida! Mas, se não crermos, pereceremos... O que o Senhor espera dos seus servos é esta fé total, incondicional, pobre e amorosa! É o que o Senhor espera de nós. Mas, o que fazemos? Queremos recompensas, provas, certezas lógicas! E, os mais cultos, vamos atrás de filosofias e sabedorias humanas... e os mais incultos e tolos, vamos atrás de seitas, de descarregos, de exorcismos feitos por missionários de araques e pastores de si próprios, falsos profetas de um deus falso, feito de dízimos, moedas e gritarias...
O justo vive da fé! Como nos exorta a segunda leitura, reavivemos a chama do dom de Deus que recebemos! “Deus não nos deu um espírito de timidez, de frouxidão, de covardia e incerteza, mas de fortaleza, de amor e sobriedade”. Não nos envergonhemos do testemunho de nosso Senhor! Guardemos aquilo que aprendemos de nossos antepassados, conservemos o "preciosos depósito” da nossa fé católica e apostólica, “com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós”. Não corramos atrás das ilusões, fruto das invenções humanas! É isto que o Senhor espera de nós, é este o nosso dever, é esta a nossa vocação, é esta a nossa glória. E, após termos agido assim, não achemos que temos algum direito diante de Deus. Humildemente, digamos: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.
Que o Senhor nos dê esta graça: a graça de viver e morrer na fé. Que o Senhor nos conceda a recompensa dosa servos bons e fiéis!
dom Henrique Soares da Costa



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

26º DOMINGO TEMPO COMUM-C

26º DOMINGO TEMPO COMUM


25 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Am 6,1a.4-7

Salmo 145

2ª Leitura - 1Tm 6,11-16


Evangelho - Lc 16,19-31


26º DOMINGO TEMPO COMUM


25 de Setembro de 2016-Ano C

1ª Leitura - Am 6,1a.4-7

Salmo 145

2ª Leitura - 1Tm 6,11-16


Evangelho - Lc 16,19-31




  
Jesus não poupou esforços para nos alertar contra a ganância, a usura, a opulência, e principalmente contra o desprezo pelos pobres.
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IGNORAR O POBRE É IGNORAR O PRÓPRIO JESUS! - Olívia Coutinho

 

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM


Dia 25 de Setembro  de 2016

Evangelho – Lc 16,19-31

A palavra de Deus, está sempre chamando a nossa atenção para o cuidado que devemos ter,  para com o que é de Deus! Como seguidores de Jesus, não podemos fechar os olhos a esta triste realidade que aí está: irmãos nossos, vivendo às margens da sociedade, sobrevivendo  das migalhas que caem da mesa daqueles que tomam para si, o que deveria ser de todos! 
Somos chamados a contemplar o rosto desfigurado de Jesus, estampado no semblante destes irmãos, ceifados até mesmo do direito à vida! Ignorá-los, é ignorar o próprio Jesus, que quer contar conosco na construção de um mundo melhor, de um mundo mais justo, mais fraterno  onde todos tenham o direito a uma  vida digna.
Como filhos e filhas  do mesmo Pai, somos corresponsáveis pela vida do nosso irmão, não podemos transferir para outros,  a responsabilidade que é nossa, devemos ser  amparo para os que sofrem! Precisamos  aprender a olhar o irmão com o olhar de Jesus,  um olhar que  não apenas constata  a sua  necessidade, mas que nos  leve a ajudá-lo.
O Evangelho de hoje, narra a parábola do rico e do Lázaro! Através de uma história, Jesus chama a nossa atenção, sobre a importância de cuidarmos dos pobres, são eles, os amigos de Deus, os  que abrirão a porta do céu para nós!
Podemos perceber nesta parábola, que Jesus não cita o nome do rico, somente o nome  do pobre, que se chamava Lázaro, com isso Ele reafirma  a sua  predileção para com os pobres, os pobres, Jesus os conhece pelo nome! 
 O rico desta parábola, não maltratava Lázaro, ele simplesmente o ignorava, perdendo assim, a oportunidade de alcançar, através da caridade, a vida eterna. A sua  condenação,  não foi pelo fato dele  ser rico de bens materiais  e sim, pelo bem que ele deixou de fazer!
Podemos comparar o rico desta história, com a elite da sociedade de hoje  e  também, com muitos de nós,  que se diz cristão, mas  que ignora o que é de mais precioso para Deus: os pequeninos, os pobres, fazendo de conta que está tudo bem, que a desigualdade não existe!
O Lázaro representa o povo ignorado, sofrido e oprimido! Com existem  Lázaros espalhados mundo afora! Pessoas  passando fome, sedentos de amor, morrendo nas portas dos hospitais sem atendimento médico, e o pior, diante os olhares insensíveis daqueles que tem o dever de possibilitá-los uma vida digna.  
Outra coisa que deve  chamar a nossa atenção nesta história: Lázaro, mesmo sendo pobre, sobrevivendo das migalhas que caía da mesa do rico, não reclamava da vida, o que nos mostra, que ele tinha total confiança  na promessa de Deus, promessa, que se concretizou com o seu acolhimento no céu!
A parábola nos diz claramente, que é impossível transpor o abismo que separa o inferno do paraíso! A ponte que nos liga ao céu, deve ser construída aqui na terra, no aqui e no agora, através de  gestos concretos de amor ao próximo, depois que partirmos deste mundo, será tarde demais!
Não esperemos,  que o pobre venha até a nós, para que possamos ajudá-lo, a exemplo de Jesus,  devemos ir até ele, certificar de suas necessidades, conhecer a sua história, demonstrar interesse por ele, a sua  fome, nem  sempre é só  de pão, muitas  vezes,  é fome  de amor!
O conceito de pobre e rico para Jesus é diferente do nosso, para nós, pobre, é todo aquele que não possui bens, e rico, é todo aquele que possui muitos bens! Enquanto que para Jesus, podre, é todo aquele que se esvazia de si mesmo para se tornar dependente da graça de  Deus, independente dele possuir ou não, bens materiais!
 Já o rico, para Jesus, é todo aquele que acumula bens, que se fecha em si mesmo, que não partilham, os que não sentem necessitado de Deus! Por tanto, aos olhos de Jesus, existem pobres de bens materiais que são ricos em ganância em soberba, e ricos, que  são pobres, porque se esvaziam de si mesmos  para se tornarem dependentes de Deus.
 É bom tomarmos consciência de que no nosso julgamento final, seremos muito mais cobrados, pelo bem que deixamos de fazer, do que pelos nossos erros.
No pobre está estampado o semblante de Jesus, ignorá-lo, é ignorar o próprio Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho
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As leituras deste domingo estão em sintonia com aquelas do domingo anterior, quando reforçam o tema da economia na ótica da justiça social. Amós tece duras críticas contra a classe dominante, os ricos de Israel e de Judá. A comunidade de Lucas faz memória do ensinamento de Jesus sobre o rico avarento e o pobre Lázaro. Dois opostos insuportáveis aos olhos de Deus, e isso deve ser a nossa bússola de orientação nesses dias que antecedem as eleições. Saber escolher os nossos governantes é fundamental para a realização de uma sociedade justa e fraterna.
Neste último domingo do mês de setembro, também não podemos nos esquecer do dia dedicado à Bíblia. Ela que é a carta magna da fé judaica e cristã. O substantivo Bíblia nos remete a um outro, biblioteca. É isso mesmo. A Bíblia é uma biblioteca composta de livros, os quais fazem parte de uma literatura que levou séculos para ser escrita. Parafraseando o grande mestre da leitura popular da Bíblia, frei Carlos Mesters, a Bíblia nasceu da vontade de o povo ser fiel a Deus e a si mesmo. Nasceu da preocupação de transmitir aos outros e a nós essa fidelidade. Ela nasceu sem rótulo. Só mais tarde, o próprio povo descobriu nela a expressão da vontade e da presença real de uma Palavra Santa (Bíblia, livro feito em mutirão -  Paulus, 1986, p. 8).
Divididos em Primeiro e Segundo Testamentos, os livros da Bíblia estão organizados em forma de uma grande inclusão (forma literária em que uma palavra, uma frase ou um conceito presente no início reaparece no fim e funciona como um enquadramento, que delimita e encerra tudo o que ficou “incluído” entre eles, como em um sanduíche); no início (Gênesis) e no fim (Apocalipse), encontramos referência ao Éden, o paraíso da economia vivida na liberdade e na fraternidade entre homens e mulheres. No centro, nos livros de Malaquias e Mateus, temos duas personagens ímpares do judaísmo e cristianismo, Elias e Jesus. Elias voltará e Jesus veio para nos propor, na inspiração da fé judaica, o Reino de Deus, que tem como baliza fundamental a opção pelos pobres e oprimidos de ontem e de hoje. É o que veremos nos textos das leituras que passamos a comentar.
1º leitura (Am. 6,1a.4-7)
Punição para os nobres corruptos
Amós se volta de forma drástica contra os ricos governantes de Israel e Judá – as críticas se dirigem, de fato, aos nobres da Samaria, capital político-administrativa do Reino do Norte. O texto foi modificado para referir-se a Sião/Jerusalém (Reino do Sul), os nobres da primeira das nações: governantes, cortesãos, oficiais e latifundiários. O motivo é simples: eles vivem tranquilos e seguros na capital e nas montanhas, os seus leitos são de marfim, possuem divãs, se alimentam de cordeiros e novilhos, fazem festas orgiásticas ao som de harpa e com vinhos finos. E o que é pior: eles não estão nem aí para os pobres do país que estão ao seu lado. Eles usufruíam o bem-estar das minorias, advindo das conquistas de Jeroboão II, bem como esperavam o dia de Javé, que seria a redenção de Israel. Amós dirá que esses homens são os verdadeiros responsáveis pela violência social e econômica do seu povo. A vida luxuosa deles era fruto da opressão dos pobres, do roubo e da corrupção (Am 3,9-10; 2,6-8; 4,1-3; 5,10-12). Tendo que manter essa situação, como não criar injustiças? Esses ricos viviam numa situação de orgia (v. 7b), alicerçados numa falsa intuição de que toda aquela situação era de bênção de Deus.
A semelhança dessa situação com os nossos dias é mera coincidência? Não. As classes dirigentes parecem mudar somente os figurantes. Os mensalões e os “panetones de Brasília” continuam a se repetir. Infelizmente, a classe política brasileira deixou se levar pela corrupção.
O que diria o profeta Amós? Vocês, os nobres, serão exilados, vão puxar a fila dos deportados para uma terra estrangeira. E foi isso mesmo que ocorreu anos depois, em 722 a.E.C., quando os dominadores assírios chegaram e destruíram a capital de Israel, Samaria, e levaram todos para o exílio. E aí o ai do profeta já não mais pode surtir efeito. Não tinha mais como voltar atrás. Deus tinha dado o seu veredicto.
Evangelho (Lc. 16,19-31)
O rico injusto escolhe a própria condenação
O texto que antecede essa parábola é o que vimos na semana anterior, “não é possível servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16,13), ensinamento central do capítulo. A parábola, modo de ensinar de forma comparativa, muito utilizada por Jesus, tem como seu público-alvo os fariseus, chamados de amigos do dinheiro (16,14). Ela faz parte da grande viagem de Jesus a Jerusalém, chamada também a viagem lucana (9,51-19,27), de cunho teológico-catequético. Quem acompanha a trajetória de Jesus vai entendendo os desafios e as condições para ser um cristão, um seguidor do mestre Jesus de Nazaré.
O evangelho de hoje tem forte relação com a primeira leitura. É um modo encontrado por Jesus para ensinar a tradição da fé judaica: é preciso fazer esmola, isto é, fazer justiça. Em hebraico, esmola se diz Tzedakáh e justiça, Tzedek. Esmola deriva de justiça. Fazer esmola, como ensinam os judeus, significa cumprir a Torá (Bíblia), isto é, fazer justiça. Quando um judeu pobre gritava pelas ruas Tzedakáh, todos entendiam: “Faça justiça! Cumpra a Torá!”. E esse grito incomodava qualquer judeu piedoso. A Torá, a Lei de Deus, não estava sendo cumprida, o que implicava estar fora do caminho de Deus. O judaísmo conclama os seus adeptos a fazer esmola. E fazer esmola (Tzedakáh) é agir com justiça no que diz respeito a como cada judeu ganha, gasta e compartilha suas riquezas. No pensamento judaico, esmola não tem um sentido religioso moral cristão de “dar esmola”. Esmola é um modo de ser, mais que oferecer ou dar. Tzedakáh é mais que caridade, expressão de fé piedosa diante do sofrimento do outro. Viver de modo justo na relação com as pessoas é fazer Tzedakáh. A esmola não pode ser em função da vanglória daquele que dá esmola, mas deve ser um gesto de solidariedade e justiça. Fazer esmola, fazer justiça, é melhor que dar esmola. Nisso, sou mais judeu que cristão.
A cena do evangelho, nessa perspectiva do fazer esmola, é simples. De um lado, um rico epulão e bem-vestido, com púrpura e linho – material importado da Fenícia e do Egito, e, do outro, um pobre de nome Lázaro que jazia à sua porta, esperando comer as migalhas de seus banquetes. Lázaro significa “aquele que vem em ajuda de”. Ele espera ser ajudado com obras de justiça, de divisão dos bens.
Com elementos da fé dos antepassados: inferno, céu e o Patriarca Abraão, a parábola relata a cena que paira na cabeça de muitos: os bons estão no céu e os maus, no inferno, separados por um abismo. Tranquilidade e banquete de um lado, tormento e fogo do outro. A Bíblia nos oferece muitas imagens do inferno (Jacir de Freitas Faria - O outro Pedro e a outra Madalena. Uma leitura de gênero. 3 ed. Petrópolis - Vozes, p. 76-102): uma delas é essa da parábola de hoje: um lugar do desespero e do pavor. Receber a pena do inferno é o mesmo que entrar em pânico. É saber que um lugar sombrio me espera. Jesus usa a imagem do choro e do ranger os dentes dos que forem para o inferno (Lc. 13,28). Ele também compara o inferno com o verme que não morre (Mc. 9,48), bem como à Geena, lixão da cidade de Jerusalém. As imagens usadas na Bíblia para descrever o inferno são todas simbólicas. O fogo que devora simboliza a absoluta frustração humana e o seu total distanciamento de Deus (Leonardo Boff, Vida para além da morte. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 90). Diante de tal situação, só resta ao ser humano chorar e ranger os seus dentes, na escuridão de uma vida sem utopias, no exílio de opção feita por ele mesmo. É o que ocorre com o rico da parábola de hoje. Ele implora ao pai Abraão que Lázaro venha lhe trazer água, que vá até à casa de seus cinco irmãos para avisá-los da sua situação desesperadora e que mudem de vida. Nenhum desses pedidos pode ser atendido. A situação estava posta por opção do rico, o ser humano opressor. O número citado, cinco, relembra o Pentateuco; Moisés, toda a lei e os profetas. Isso quer dizer que o rico e seus cinco irmãos tinham e têm a Palavra de Deus (Bíblia) para observar e mudar de vida. Se assim não o fazem, mesmo que um morto, Lázaro, ressuscite para ensinar-lhes o caminho, eles não o fariam. Os judeus não acreditavam em sinais, milagres. Jesus fez muitos deles, e, mesmo assim, eles não se converteram. O fim é trágico, mas é fruto da opção que fazemos, assim como os ricos da primeira leitura.
2ª leitura (1Tm. 6,11-16)
Viver como homem de Deus
Ao escrever ao amigo Timóteo, Paulo o exorta a viver como homem de Deus, isto é: seguir a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão, combater o bom combate da fé, conquistar a vida eterna, guardar o mandamento de Jesus até o dia de sua Aparição. Antes disso, que o cristão professe a fé e testemunhe Jesus ressuscitado (vv. 12-13).
Ser homem de Deus é ser profeta, assim como Elias e Eliseu que receberam esse título por terem deixado o palácio e se aproximado do povo. Com eles, o rei, se precisasse de um profeta, teria de ir aonde o profeta estava, no meio do povo. Muitos cristãos da comunidade de Éfeso estavam fazendo da pregação do evangelho uma fonte de lucro. Atitude parecida com a de muitos cristãos de hoje. Abrir uma igreja é o mesmo que abrir negócio, uma empresa lucrativa. Paulo é claro no ensinamento: “Fuja dessas coisas” (v. 11). A fé não é para ser debatida, sobretudo de forma fundamentalista, mas vivenciada.
Paulo termina com uma doxologia (vv. 15-16): a Deus honra e poder eterno. É um hino litúrgico de origem judaica. Ele ensina que o cristão deve prestar culto somente a Jesus, pois ele possui a imortalidade, a vida plena. Viver o projeto apresentado por Jesus é encontrar Deus (vv. 11-12).
Essa breve leitura reforça o ensinamento das outras leituras deste domingo, mostrando que o cristão é aquele que segue os ensinamentos de Jesus e não anda conforme as injustiças dos seres humanos deste mundo. O seu combate está em outra esfera. Ele luta como atleta para chegar ao Reino pregado por Jesus, e este já começa aqui.
Pistas para reflexão
Chamar atenção para o dia da Bíblia e suas interpretações a partir das leituras deste domingo. Dar um destaque para a Bíblia na celebração.
Fazer uma análise da situação econômica do país, dando destaque para as eleições e tendo como pistas de reflexão a questão da riqueza e seu uso indevido pelos governantes. Mostrar que quem faz opção de servir ao Dinheiro acabará perdendo a vida.
Perguntar pelos sinais de solidariedade que a comunidade demonstra na relação entre rico e pobre. Ela está a serviço dos pobres e contra a pobreza? Ou existe um abismo, um fosso, entre ela e os pobres? A comunidade se preocupa em dar ou fazer esmola?
frei Jacir de Freitas Farias, ofm



O pobre Lázaro ontem e hoje
José Antônio Pagola (1) vai nos ajudar a refletir a respeito da famosa parábola de Lucas sobre o pobre Lázaro e o rico epulão.
“A parábola parece narrada para nós. Jesus fala de um “rico” poderoso. Suas vestes de púrpura e linho indicam  luxo e ostentação. Sua vida é uma festa contínua. Sem dúvida pertence a este segmento privilegiado quem vivem em Tiberíades, em Séforis, ou no bairro rico de Jerusalém. São os que possuem riqueza, têm poder e desfrutam de uma vida luxuosa.
Bem perto, junto à porta da mansão, está estendido um “mendigo”. Não está coberto de linho e púrpura, mas de feridas repugnantes. Não sabe o que é um banquete. Não lhe dão do que cai da mesa do rico. Só os cães da rua se aproximam  para lamber-lhe as feridas. Não possui nada a não ser um nome, “Lázaro” ou Eliézer, que significa “Meu Deus é ajuda”.
A cena é insuportável. O “rico” tem tudo. Não precisa de nenhuma ajuda de Deus. Não vê o pobre. Sente-se seguro. Vive na inconsciência. Não se parece conosco? Lázaro, por sua vez, é um exemplo de pobreza total: doente, faminto, excluído, ignorado pelos que o poderiam ajudar.  Sua única esperança é Deus. Não se parece com tantos milhões de homens e mulheres mergulhados na miséria?
O olhar penetrante de Jesus está desmascarando a realidade. As classes mais poderosas e os estratos  mais miseráveis parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico nunca atravessa para aproximar-se de Lázaro.
Jesus não pronuncia nenhuma palavra de condenação. Basta desmascarar a realidade. Deus não pode tolerar que as coisas fiquem assim para sempre. É inevitável a inversão de tal situação. Essa barreira que separa os ricos dos pobres pode transformar-se num abismo intransponível e definitivo.
O obstáculo para construir um mundo mais justo somos nós os ricos, que levantamos barreiras cada vez mais seguras para que os pobres não entrem nosso país, nem cheguem às nossas residências, nem batam à nossa porta. Felizes os seguidores de Jesus  que rompem barreiras, atravessam portas, abrem caminhos e se aproximam dos últimos. Eles encarnam o Deus que ajuda os pobres”.

(1) José Antonio Pagola – O caminho aberto por Jesus – Lucas – Vozes, p. 272





Viver é sempre um desafio. Vivemos e convivemos. Por vezes simplesmente vivemos. Em outros momentos damo-nos conta que não basta apenas viver, mas dar uma formatação densa e profunda aos nossos dias. Temos que viver densa, profunda e responsavelmente. Há os que são questionados pela voz da consciência que fala no fundo de seus corações.
Verdade que não poucos deixaram seu interior endurecer e não tiveram coragem ou vontade de ouvir essa voz rouca ou forte de suas consciências. Há os que encontraram também com o Cristo ressuscitado na estrada de suas histórias. Este arrancou de seus um sim no seu seguimento. Voz delicada da consciência e chamamento para o seguimento de Cristo dão uma cor diferente aos nossos dias.  Assim, somos chamados a fazer opções e escolhas que influenciam o amanhã de nossos dias e nos fazem chegar ao termo da viagem com a profunda alegria de viver e depois, da passagem da morte, podermos nos assentar na mesa do Reino, no seio de Abraão.
Ele tinha tudo. Vestia-se com roupas finas e comia pratos requintados. A vida e a sorte lhe sorriram. Como tantas pessoas em nossos dias. Quantos e quantas fazem uma opção por seu sucesso, seus negócios, suas coisas. Comem, fazem festanças, viajam, gastam e esquecem que há outro sentido de vida do que o girar em torno de si. Não existem para os outros, mas para si mesmos.
De outro há esse outro trapo humano que a parábola designa de pobre Lázaro, “cheio de feridas”, com os cachorros lambendo suas feridas.  Não vem ao caso saber se esse é culpado de sua miséria. Fato é que ele está aí e precisava ser alimentado e cuidado.
A parábola continua dizendo que,no momento da morte, o pobre foi levado para o seio de Abraão. O rico, por sua vez, foi conduzido à região dos mortos em meio a tormentos.
Conhecemos os pormenores. O rico queria passar para o outro lado do abismo. Não havia meios. Ele fora indiferente ao pobre ser que vivia à sua porta.  Durante a vida fez uma escolha que não pode ser mudada.
Que conclusões tiramos? Vivemos uma sociedade de gastança,de consumo, de indiferença.  Insisto na palavra indiferença. No casamento e na família, no governo e na política os interesses individuais e financeiros passam por cima de histórias humanas. Os que assim agem não podem ter a pretensão de assentar-se no banquete da sala de Abraão.
Cristãos e não cristãos não podem ser enganados. A verdadeira segurança não está nas casas que se tem, nos celeiros aumentados nem em dinheiro.  Com esta filosofia estamos arruinando a vida de nossos familiares.
Lucas fala com carinho do pobre Lázaro dando a entender que  Deus é o Deus que escolhe os pobres.
Sim, na vida será preciso escolher e escolher bem. Nossas escolhas repercutem no amanhã e nesse tempo que não é tempo e se chama eternidade.
frei Almir Ribeiro Guimarães





A riqueza endurece o homem: avareza
O profeta Amós poderia figurar numa antologia de literatura irônica (p.ex., as “vacas de Basã”, Am. 4,1). Na semana passada, encontramo-lo revelando a ambigüidade dos ricos comerciantes da Samaria. Hoje, censura-lhes a irresponsabilidade (1ª leitura). Denuncia o luxo e a luxúria das classes dominantes, enquanto o povo é ameaçado pela catástrofe da injustiça social e da invasão assíria. Por isso, esses ricaços sairão ao exílio na frente dos deportados... (Amós evoca ironicamente a gloriosa história antiga: os ricos, porque têm uma cítara para tocar, acham que são cantores como Davi... Samaria é a “casa de José”, mas José distribuía alimento aos de sua casa...)
A insensibilidade pelo sofrimento do pobre é também o tema inicial da parábola do rico e Lázaro, Lc. 16,19-31 (evangelho). As sobras da mesa do rico não vão para o pobre, mas para o cachorro. Parece atualidade. Porém, vem a morte, igual para os dois. O quadro se inverte. Lázaro vai ao seio de Abraão, o rico para o inferno. Há entre os dois um abismo intransponível, de modo que Lázaro nem poderia dar-lhe um dedinho de água para aliviar o calor infernal. Este abismo já existia, no fundo, antes da morte, mas com a morte se tomou intransponível. Então, o rico pede que seus irmãos sejam avisados por Lázaro. Mas Abraão responde: “Eles têm Moisés e os profetas. Nem mesmo em alguém voltando dos mortos acreditarão”: alusão a Cristo.
Dureza, isolamento, incredulidade: eis as conseqüências de viver para o dinheiro. Podemos verificar esse diagnóstico em redor de nós, cada dia, e, provavelmente, também em nós mesmos. Porque a pessoa só tem um coração; se ele se afeiçoa ao dinheiro, fecha-se ao irmão.
Os ricos são infelizes porque se rodeiam de bens como de uma fortaleza (cf. os condomínios fechados). São “incomunicáveis”. Vivem defendendo-se a si e a suas riquezas. Os pobres não têm nada a perder. Por isso, “as mãos mais pobres são que mais se abrem para tudo dar”.
Em nosso mundo de competição, a riqueza transforma as pessoas em concorrentes. A riqueza é vista não como “gerência” daquilo que deve servir para todos, mas como conquista e expressão de status. Tal atitude marca a riqueza financeira (capitalização sem distribuição), a riqueza cultural (saber não para servir, mas para sobrepujar) e riqueza afetiva (possessividade, sem verdadeira comunhão). Considera-se a riqueza recebida como posse em vez de “economia” (palavra grega que significa: gerência da casa). Não se imagina o tamanho deste mal numa sociedade que proclamou o lucro e a competição como seus dinamismos fundamentais. Até a afetividade transforma-se em posse. As pessoas não se sentem satisfeitas enquanto não possuem o objeto de seu desejo, e, quando o possuem, não sabem o que fazer com ele, passando a desejar outro... Pois não sabem entrar em comunhão. Assim, a parábola de hoje é um comentário do “ai de vós, ricos” (Lc. 6,24).
Merece atenção a 2ª leitura. Pelo estilo, é o “testamento literário” de Paulo. O testemunho de Cristo neste mundo não é nada pacífico. É uma luta: o bom combate. Devemos travá-lo até o fim, para que vivamos para sempre com aquele que possui o fim da História. Poderíamos acrescentar à leitura os versículos que seguem (1Tm. 6,17-19): uma lição do que o cristão deve fazer com seus bens.
Johan Konings "Liturgia dominical"






Parábola do rico e Lázaro
O Evangelho de hoje descreve duas situações contrastantes, uma inversão da sorte. Jesus, falando aos fariseus, chama-lhes a atenção sobre o louvor feito da boca para fora e a vivência superficial da Lei, que significa que não estão ouvindo e vivendo a Palavra de Deus.
De um lado, Ele apresenta o rico, cujas preocupações se limitam a comer muito bem todos os dias, esbanjar luxo e requinte em roupas finas e elegantes, sem se preocupar com as necessidades do pobre à sua porta, uma importante oportunidade na preparação do seu futuro; e de outro lado Lázaro, que mendiga à entrada da casa do rico, numa situação de total marginalidade, faminto e cheio de feridas no corpo e na sua dignidade. O homem pobre, totalmente excluído, encontra solidariedade em Deus, e é o único em todas as parábolas a ter nome, Lázaro significa “Deus ajuda”.
A morte nivela todos. Lázaro foi levado após a sua morte, para junto de Abraão pelos anjos, enquanto o rico enterrado depois da morte, em tormentos, está num lugar totalmente separado do lugar da felicidade com Abraão. Ali, ele faz dois pedidos como se Lázaro ainda lhe fosse submisso: o primeiro é apenas um pouco de água para saciar sua sede – para quem estava acostumado a tantos banquetes, basta agora uma gota d’água! Mas, Abraão recusa o pedido, pois quem creu em Deus e Nele confiou, Nele terá a sua eterna herança. Quem se entregou ao prazer, comportando-se como se Deus não existisse, permanecerá eternamente separado Dele. O segundo pedido é que Lázaro seja enviado aos cinco irmãos do rico como testemunho, para que os mesmos não tenham o mesmo fim. Ele se preocupa com seus irmãos, mas é muito tarde para isso! Abraão responde dizendo que as Leis e os Profetas deverão convencê-los, ou seja, a Palavra de Deus proclamada através dos séculos deveria bastar, e que não é necessário que ninguém ressuscite para que eles creiam.
Embora o homem rico chame Abraão de pai, ele é considerado filho apenas por laços de sangue, não pelo verdadeiro caminho que leva à salvação.
O rico, nesta parábola, nos mostra como a prosperidade e a riqueza, frequentemente, tornam o homem orgulhoso e faz com que despreze a Deus e aos bens eternos.
A opção de Deus pelos pobres pode ser entendida como a razão de se viver uma verdadeira comunidade cristã. É preciso ter discernimento cristão diante do uso dos bens, pois o cristão deve prestar culto somente a Deus. Ele é o único Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores.

Pequeninos do Senhor



Apelo à conversão
A parábola do rico e do pobre Lázaro comporta um apelo à conversão, especialmente dirigido a quem está tão preocupado com os prazeres desta vida, a ponto de se tornar insensível às carências de seus semelhantes, mormente, os mais pobres.
A primeira cena exibe o rico, cujo nome é omitido, gozando os prazeres da vida, vestindo roupas caras e banqueteando-se esplendidamente. À sua porta, jaz um mendigo doente, de nome Lázaro, que significa "Deus ajuda", coberto de feridas. Nada lhe chega da mesa do rico que possa saciar-lhe a fome. Suas chagas são lambidas por cães vagabundos, os quais Lázaro não tem força para afastar.
A morte, porém, inverte as posições. Lázaro recebe a ajuda de Deus, por quem é acolhido. O rico, porém, é brindado com um destino de tormentos indizíveis, no inferno. Só, então, dá-se conta do quanto fora insensato, despreocupando-se com a própria salvação. Era tarde demais! O rico havia desperdiçado o tempo posto à sua disposição, escolhendo um modo de vida egoísta e folgazão. Caminho igualmente escolhido por seus cinco irmãos. Também eles recusavam-se a dar ouvido às Escrituras. Nem mesmo um milagre espetacular, como a ressurreição de um morto, seria suficiente para chamá-los à sensatez. Logo, estavam escolhendo a mesma sorte do irmão defunto, se não se convertessem imediatamente.
padre Jaldemir Vitório





Quais os meios para entrar no Reino de Deus?
Os versículos 14 a 18 do capítulo 16 fazem a transição da parábola do administrador desonesto para o do rico e Lázaro.
Estes versículos nos deixam a impressão de que os fariseus amam o dinheiro (cf. v. 14) e exaltam em seus corações o que é detestável (até mesmo idolátrico) aos olhos de Deus (cf. v. 15). O que é um momento pobre para os fariseus é, na verdade, um grande momento, pois é um tempo em que todo homem se esforça por entrar no Reino de Deus (cf. v. 16), pela obediência à Lei (cf. v. 17). O que Jesus está tentando fazer ver aos fariseus é que, num tempo onde os meios para entrar no Reino de Deus estão na Lei de Deus, eles correm o risco de abraçar não a Lei, mas o que é abominável aos olhos de Deus.
É sobre esse pano de fundo que Jesus conta a parábola do rico e de Lázaro, nosso evangelho de hoje, em que se vive a vida como se a Lei não impusesse obrigações com relação ao próximo, como: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv. 19,18). O desprezo pelo outro compromete o cumprimento dos mandamentos. Marcos no seu evangelho nos alerta para situação semelhante: “Abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos à tradição dos homens” (Mc. 7,8). Da região dos mortos (v. 23), o rico compreende que é a obediência à Lei o meio de entrar no Reino de Deus, por isso ele pede a Abraão que envie Lázaro ao seu irmão para alertá-lo (vv. 27-28). Mas Abraão insiste que eles já têm os meios: Moisés e os Profetas (v. 29.31), isto é, toda a Escritura, que é preciso ouvir (v. 29). Se eles rejeitam este meio, rejeitarão também Lázaro, ressuscitado dos mortos (cf. v. 31).
Cabe a eles, como também a nós, buscar os meios adequados, não quaisquer meios, mas os consignados na Escritura, para entrar no Reino de Deus. A Lei e os Profetas são dados para esta vida em vista do Reino de Deus.
Carlos Alberto Contieri,sj



Antes de entrar no tema próprio da Palavra de Deus deste domingo, convém chamar atenção para três idéias do Evangelho que desmentem três erros que se pregam por aí a fora:
(1) Jesus hoje desmente os que afirmam que os mortos estão dormindo. É verdade que, antes do Exílio de Babilônia, quando ainda não se sabia em Israel que havia ressurreição, os judeus e seus textos bíblicos diziam que quem morria ia dormir junto com os pais no sheol. Tal idéia foi superada já no próprio Antigo Testamento, quando Israel compreendeu que o Senhor nos reserva a ressurreição. Então, os judeus pensavam que quem morresse, ficava bem vivo, na mansão dos mortos, à espera do Julgamento Final. Já aí, havia uma mansão dos mortos de refrigério e paz e uma mansão dos mortos de tormento. É esta crença que Jesus supõe ao contar a parábola do mau rico e do pobre Lázaro. Então, nem mesmo para os judeus, que não conheciam o Messias, os mortos ficavam dormindo! Quanto mais para nós, cristãos, que sabemos que “nem a morte nem a vida nos poderão separar do amor de Cristo” (Rm 8,38-39). Afirmar que os mortos em Cristo ficam dormindo é desconhecer o poder da ressurreição de Nosso Senhor. Muito pelo contrário, como para São Paulo, o desejo do cristão é “partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Deus nos livre da miséria de pensar que os mortos em Cristo ficam presos no sono da morte!
(2) Outro erro que a parábola corrige é o de quem prega que o inferno não é eterno. Muitas vezes nas Escrituras – e aqui também – Jesus deixou claro que o céu e o inferno são por toda a eternidade. Na parábola, aparece claro que “há um grande abismo” entre um e outro! Assim, cuidemos bem de viver unidos ao Senhor nesta única vida que temos, pois “é um fato que os homens devem morrer uma só vez, depois do que vem um julgamento” (Hb 9,27). Que ninguém se iluda com falsas esperanças e vãs ilusões, como a reencarnação!
(3) Note-se também como os mortos não podem voltar, para se comunicarem com os vivos. O cristão deve viver orientado pela Palavra de Deus e não pela doutrina dos mortos! Morto não tem doutrina, morto não volta, morto não se comunica com os vivos! Além do mais, os judeus não pensavam que os espíritos se comunicassem com os vivos. Observe-se que o que o rico pede é que Lázaro ressuscite, não que apareça aos vivos como um espírito desencarnado. Daí, a resposta de Jesus: “Eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”!
Com estes esclarecimentos, vamos à mensagem da Palavra para este hoje. Jesus continua o tema de domingo passado, quando nos exortou a fazer amigos com o dinheiro injusto. Este é o pecado do rico do Evangelho de hoje: não fez amigos com suas riquezas. Se tivesse aberto o coração para Lázaro, teria um amigo a recebê-lo no céu! É importante notar que esse rico não roubou, não ganhou seu dinheiro matando ou fazendo mal aos outros. Seu pecado foi unicamente viver somente para si: “se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias”. Ele foi incapaz de enxergar o “pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava no chão”, à sua porta. “Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas”. O rico nunca se incomodou com aquele pobre, nunca perguntou o seu nome, nunca procurou saber sua história, nunca abriu a mão para ajudá-lo, nunca deu-lhe um pouco de seu tempo. O rico jamais pensou que aquele pobre, cujo nome ninguém importante conhecia, era conhecido e amado por Deus. Não deixa de ser impressionante que Jesus chama o miserável pelo nome, mas ignora o nome do rico! É que o Senhor se inclina para o pobre, mas olha o rico de longe! Afinal, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos!
É esta falta de compaixão e de solidariedade que Jesus não suporta, sobretudo nos seus discípulos; não suporta em nós. Já no Antigo Testamento, Deus recrimina duramente os ricos de Israel: “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião, os que s e sentem seguros nas alturas de Samaria! Os que dormem em camas de marfim, deitam-se em almofadas, comendo cordeiros do rebanho; os que cantam ao som da harpa, bebem vinho em taças, se perfumam com os mais finos ungüentos e não se preocupam com a ruína de José”. É necessário que compreendamos isso: não podemos ser cristãos sem nos dar conta da dor dos irmãos, seja em âmbito pessoal seja em âmbito social. Olhemos em volta: a enorme parábola do mau rico e do pobre Lázaro se repetindo nos tantos e tantos pobres do nosso País, do nosso Estado, da nossa Cidade, muitas vezes bem ao lado da nossa indiferença. Como o mau rico, estamos nos acostumando com os meninos de rua, com os cheira-colas, com os miseráveis e os favelados, com o assassinato dos moradores de rua... A advertência do Senhor é duríssima: “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião... e não se preocupam com a ruína de José!”
Talvez, ouvindo essas palavras, alguém pergunte: mas, que posso eu fazer? Pois eu digo: comece por votar com vergonha nestas eleições municipais! Não vote nos ladrões, não vote por interesse, não vote nos corruptos, não vote nos descomprometidos com os mais fracos, não vote em que não tem nada além de palavras e promessas vazias! Vote com sua consciência, vote buscando o bem comum. Dê-se ao trabalho de escolher com cuidado seus candidatos, dê-se ao trabalho, por amor aos pobres, de pensar bem em quem votar! Só isso? Não! Olhe quem está ao seu lado: no trabalho, na rua, no sinal de trânsito, no seu caminho. Olhe quem precisa de você: abra o coração, abra os olhos, abras as mãos, faça-se próximo do seu irmão e ele o receberá nas moradas eternas.
Durante dois domingos seguidos o Senhor nos alertou para nosso modo de usar nossos bens. Fomos avisados! Um dia, ele nos pedirá contas! Que pela sua graça, nós tenhamos, um dia, amigos que nos recebam nas moradas eternas.
dom Henrique Soares da Costa