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I N T E R N A U T A S - M I S S I O N Á R I O S

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Multiplicação dos pães

18º DOMINGO TEMPO COMUM


Evangelho - Mt 14,13-21


-MULTIPLICAÇÃO DO PÃES-José Salviano




3 de Agosto de 2014 


Cinco pães e dois peixes alimentaram cinco mil homens sem contar mulheres e crianças, e sobraram doze cestos. E ainda tem gente que duvida da divindade do Filho de Deus! - Leia mais

 

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Hoje o Evangelho nos apresenta Jesus como a plenitude da compaixão de Deus no nosso meio. Multiplicando os pães, ele realiza de modo pleno aquilo que Moisés e Elias, os mesmos personagens da Transfiguração, representantes da Lei e dos Profetas, já haviam realizado: Moisés deu de comer ao povo no deserto; Elias sustentou com alimento a viúva de Sarepta durante todo o tempo da seca em Israel. Ora, Jesus é aquele que nos alimenta em plenitude, é o Messias prometido a Israel e à humanidade. Como o Bom Pastor, de que fala o Salmo, ele faz seu rebanho descansar na relva mais fresca e lhe prepara uma mesa. Seu alimento não se reduz ao pão. Primeiro nos alimenta porque sente compaixão de nós, de nossa pobreza e indigência: “Viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”. Mais do que de pão, é de amor, de ternura e compaixão que o Senhor nos alimenta! Alimenta-nos também com sua Palavra de vida eterna: vê a multidão cansada e abatida como ovelhas sem pastor e ensina-lhe, fala do Reino até o entardecer... Olhando o nosso Salvador, vemos cumprir-se nele o convite tão terno, tão comovente do Deus de Israel: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’
Que belo convite! Num mundo no qual tudo é pago, tudo gira em torno do lucro, tudo tem a preocupação do retorno econômico e do interesse (até nas seitas por aí a fora, o dízimo é a chave de entrada no céu), o Senhor se revela graciosamente! Quem dera, o mundo compreendesse esse amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus! Quem dera se reconhecesse faminto e sedento! Quem dera se deixasse interpelar: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem! Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida!” Infelizmente, o nosso é um mundo cansado, mas também auto-suficiente, prepotente, que pensa poder sozinho, do seu modo se saciar e viver de verdade! Também nós, nas nossas pobrezas, tanta vez fugimos do Senhor, ao invés de correr para ele, nosso Poço, nossa Água, nosso Pão, nosso Refrigério!
Mas, nós, cristãos, sabemos que em Cristo Jesus encontra-se a vida, encontra-se o verdadeiro caminho, a verdadeira vida do mundo! É isso que São Paulo exprime com palavras comoventes: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” É por essa experiência do amor tão terno e presente de Jesus na nossa vida que somos cristãos! Deixemo-nos saciar pelo Senhor e experimentaremos que “nem a morte, nem a vida, nem o presente nem o futuro, nem outra criatura qualquer, será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor!”
Caríssimos, a verdadeira Boa-Nova para o mundo atual é esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo! Mas, atenção: somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo! Atendamos, portanto, ao seu convite de ir gratuitamente a ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que ele nos alimenta e sacie de vida e de paz!
Não esqueçamos também que, sobretudo na Eucaristia essa vida, essa alimento, essa paz vêm a nós! Neste Ano Eucarístico, sintamo-nos convidados pela Igreja a recobrar nossa devoção e piedade eucarísticas. Primeiro pela participação consciente e piedosa da Santa Missa todos os domingos. Mas, também pela adoração ao Santíssimo Sacramento. Aí o Senhor Jesus nos espera para nos falar ao coração e encher-nos da sua paz. Estejamos atentos a alguns aspectos desse carinho pela presença eucarística de Cristo. Eis alguns pontos para nossa meditação: (1) como está minha participação na Missa? (2) Tenho consciência do que é a Missa? Compreendo que ela é o sacrifício de Cristo tornado presente no Altar para vida nossa e do mundo inteiro? (3) Tenho respeito pela presença de Cristo na Eucaristia? Quando entro na Igreja, dobro meu joelho ante o Santíssimo? Detenho-me em adoração ou fico conversando e disperso? (4) Tenho reservado alguns minutos durante a semana para uma visita ao Santíssimo Sacramento, para falar-lhe em espírito e verdade, como um amigo ao outro amigo?
Eis, meus caros! Procuramos vida e realização em tantas bobagens! A Vida, a Realização, é Jesus que se dá a nós no Altar e por nós espera no sacrário! Saibamos valorizar esse Dom tão grande: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’ Que o Senhor nos dê a graça de aceitar seu convite! Amém.
dom Henrique Soares da Costa

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O milagre da partilha dos bens e do amor de Deus
As leituras de hoje testemunham o amor de Deus e a esperança de um mundo novo. O profeta Isaías, de um lado, e Paulo, do outro, são unânimes em testemunhar o amor de Deus. Quem tem fome vai comer sem pagar. Em Cristo Jesus nada nos separará do amor de Deus. Ele, o Filho de Deus, passa pelo mundo curando os abatidos pelo desânimo e pelo sofrimento, ensinando a partilha, a divisão dos bens. Multiplicar cinco pães e dois peixes, mais do que um ato mágico, é sinal evidente de que, onde há partilha, ninguém passa necessidade.
1ª leitura (Is. 55,1-3)
Vinde comer sem pagar!
A primeira leitura de hoje faz parte dos capítulos 40 a 55 do livro de Isaías, também chamado de Segundo Isaías, por se tratar de um profeta diferente daquele dos capítulos 1 a 39. Sendo grande teólogo e poeta, o Segundo Isaías atuou, aproximadamente, entre 553 e 539 a.C., época do declínio do império neo-babilônico e do surgimento da Pérsia como nova potência (cf. Faria, 2006, p. 68-69). As lideranças do povo de Deus viviam exiladas na Babilônia, atual Iraque. Sabedor das dificuldades, o Segundo Isaías alimentava no povo a esperança de um novo tempo. A sua solução, profetizava, está em Ciro, rei da Pérsia, que seria o instrumento de Deus para libertar o seu povo (45,1-8; 48,12-15) da dominação babilônica. Babilônia cairia (46). Os pagãos iriam se converter ao Senhor (42,1-4.6; 45,1-16.20-25; 49,6; 55,3-5). Jerusalém seria libertada (52,1-12).
Em meio a forte onda de pessimismo, crise de fé e de esperança entre os exilados (40,27; 49,14), o Segundo Isaías torna-se o “cantor do retorno do exílio”, do “novo êxodo”. Ele fundamentou sua esperança no retorno à terra da promessa. O seu projeto era real. Ciro seria a salvação do povo. Sonhar com um “novo tempo” era preciso (55). Essa era a promessa de Deus (43,13; 41,10; 44,6; 48,12). E foi nesse contexto que ele sonhou alto: “Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (v. 1). Imagine gente faminta, sofrendo de exílio, e alguém gritando essas palavras na rua. Parece irreal, mas foram essas palavras que alimentaram a esperança no povo exilado. Não tardou muito e a libertação chegou. O povo voltou para a sua pátria, Israel, e recomeçou a vida com novos projetos. O sonho alimentou a esperança que os manteve no caminho, na aliança, outrora feita com a casa de Davi.
Evangelho (Mt 14,13-21)
Comei partilhando o que tendes e encontrareis a felicidade!
O nexo da primeira leitura com o evangelho é evidente. Jesus, tendo sido informado da morte de João Batista, seu primo e precursor, vai rezar num lugar deserto. As multidões o seguem. Movido de compaixão por elas, ele cura os doentes. O povo não quer ir embora. Os discípulos demonstram preocupação com a fome do povo. Jesus ordena dar-lhes de comer. Mas como, se eles tinham somente cinco pães e dois peixes? Jesus, então, fez a multidão se assentar na grama e abençoou os pães e peixes, que se transformaram em tantos outros e alimentaram 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças. E ainda sobraram 12 cestos de pedaços.
Como na primeira leitura, o povo está desanimado e sem rumo. Jesus torna-se a luz que aponta o caminho. Como Ciro, da Pérsia, ele não é rei, mas é o salvador dos pobres e famintos.
Caso tomemos as palavras do evangelho e as leiamos de modo simplista, haveremos de entender que se trata de uma multiplicação fabulosa de Jesus. Não é bem assim. O profeta Eliseu também havia feito o mesmo (Rs 4,42-44). A narrativa tem dois sentidos.
a) Sentido simbólico. O texto fala de 5 pães, 2 peixes, 12 cestos e 5 mil homens. O número 5 lembra a Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia, que devem ser seguidos por todo judeu. Por analogia se fala em 5 mil homens, os reais seguidores da Lei. Mulheres e crianças não eram consideradas. O peixe lembra a presença salvadora de Jesus. Mais tarde, ele tornar-se-ia o símbolo dos cristãos diante da perseguição romana. Por onde passavam, eles desenhavam um peixe, cujo nome em grego, IXTUS, como um acróstico, forma as iniciais de IesùsXristòsTheòuUiòsSoteèr, que significa “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”. O número 12 adquiriu destaque entre os judeus em virtude da divisão do ano em 12 meses e simboliza a totalidade ou plenitude, assim como as 12 tribos do povo eleito, Israel-Palestina, e o povo dos cristãos, os 12 apóstolos (cf. Faria, 2010c, p. 56-57). Jesus vai para o deserto, lugar da passagem e da organização do povo que vinha do Egito, depois de mais de 400 anos de opressão. No evangelho, o povo sofrido vem das cidades, lugar da exploração social e dos banquetes dos grandes, como o de Herodes, ocasião em que a cabeça de João Batista foi pedida. O povo senta-se na grama. Sentar na visão bíblica é sinal de soberania e poder. Daí o substantivo cátedra, catedrático e catedral. O pão distribuído recorda o maná que alimentou o povo no deserto e, mais tarde, a eucaristia como corpo real de Cristo (Mt 14,19; 26,26; 1Cor 11,23).
b) Sentido real. A multiplicação dos pães quer nos ensinar que, se partilhamos, ninguém mais vai ter necessidade. Nisso reside o milagre. A comunidade é chamada a não ficar parada, mas ir além. Deus não quer a pobreza, mas a igualdade social. Um dos grandes males que assolam o ser humano é o desejo incontrolável de ter para guardar e ostentar o poder da posse. A felicidade não está no ter, mas no ser e nas relações. O livro do Eclesiastes nos ensina que felicidade é comer e beber, desfrutando do produto do próprio trabalho (3,13).
2 leitura (Rm. 8,35.37-39)
Quem nos separará do amor de Deus
Se nas duas leituras anteriores foram ressaltadas situações de dificuldades enfrentadas por uma comunidade exilada e outra oprimida em sua própria terra pelos romanos, ambas sofrendo de fome e dificuldades econômicas, esta leitura parte de uma experiência pessoal de Paulo, que, após tudo sofrer para testemunhar a sua fé em Jesus ressuscitado, pergunta retoricamente: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). E é ele mesmo quem responde: nada. Nem fome, morte, perseguição, espada, principados etc. Nada nos separará do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 39). A salvação é um dom gratuito de Deus para a humanidade. Ademais, Paulo acrescenta o substantivo espada aos muitos outros fatores elencados por ele em outros escritos (1Ts. 3,7; 1Cor. 12,7-10; Fl. 1,12-14. 19-25; 2,17; Cl. 1,24) para demonstrar a adesão a Cristo. A espada romana é a mesma que, mais tarde, lhe decepará a cabeça, fazendo-o mártir em Roma pelo testemunho da fé em Cristo. Por ironia, trata-se de uma carta dirigida aos romanos. Outro detalhe importante nos fatores elencados por Paulo é a crença de muitos em entidades do além, em poderes que podem influenciar nossa vida. Muitos seguiam esse caminho. Paulo se diz convencido de que nada disso nos pode afastar do amor salvador e misericordioso de Deus.
PISTAS PARA REFLEXÃO
1. Demonstrar para a comunidade os sentidos simbólico e real da multiplicação dos pães. Não se trata de simples milagre ou mágica realizada por Jesus. E nem mesmo de um milagre mágico religioso que muitas Igrejas saem pregando, iludindo o povo com a multiplicação de seu dinheiro. Não se trata de uma teologia da prosperidade econômica em nome de Deus. Muito pelo contrário, trata-se do milagre da distribuição e da partilha dos bens da criação, redistribuição de renda etc.
2. Chamar a atenção da comunidade para o fato de a eucaristia ser o sinal dessa presença real de partilha do pão e da vida do Ressuscitado, Jesus de Nazaré. No entanto, a comunidade, assim como a multidão do evangelho e o povo do deserto, não pode ficar parada após o comer nem esperar que outros manás caiam do céu. É preciso caminhar sempre.
freiJacir de Freitas Faria, ofm

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Multiplicando os pães
O episódio da multiplicação dos pães deve ter impressionado profundamente os ouvintes de Jesus. Os evangelistas, cada um a seu modo, descrevem a cena que pode ser lida de muitos ângulos. Vejamos alguns aspectos do conjunto das leituras propostas pela Igreja para este domingo.
• Antes de mais nada há a passagem de Isaías. Os que estão com fome e sede que se aproximem para comer e beber. Não é necessário dinheiro.  Da mesma forma que tomem leite e vinho. Sem paga.  Não se trata de comprar, mas de partilhar. O mesmo acontece no evangelho proposto. Os apóstolos querem ir à cidade para comprar.  Jesus adverte que eles precisam dar aos famintos daquilo que eles têm.
• Os que se dispõem a matar a fome dos famintos estão antecipando o perfil do mundo novo do Reino definitivo onde não haverá mais luto nem dor, nem fome, nem sede. Trata-se de criar no mundo um novo modo de convivência e de partilha entre as pessoas. Há que dar de comer aos famintos de perto e sobretudo os homens de boa vontade e os seguidores de Jesus lutarão  para que situações estruturais que fazem a miséria sejam denunciadas e extirpadas.
• Há uma arte de comer.  Não se trata apenas de comer como os animais, mas colocar-se  à escuta dos comensais.  Os que se assentam para comer  são irmãos que alimentam as forças para continuarem a ventura de serem irmãos.
• Comentários de J. Konings (Liturgia dominical - Vozes, p. 172): “O evangelho conta que Jesus se retira de sua cidade para outro lugar à beira do lago, e as multidões saem à sua procura. Movido de compaixão, Jesus cura os doentes no meio da multidão. Depois, na hora da janta, não quer que o povo vá embora com fome. Manda que os discípulos com sua pequena reserva de cinco pães e dois peixes alimentem a multidão. E saciem os cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças...
Trata-se de um gesto profético de Jesus.  O profeta  Isaías tinha anunciado pão de graça: o pão da sabedoria, da palavra, da instrução da lei. Jesus põe em prática essa palavra profética, acrescentando também o pão material. A multiplicação do pão  material mostra que Jesus nos alimenta com o pão que vem de Deus, sua palavra a mensagem do Reino. É  um gesto que inaugura o Reino. O pão material é o primeiro fruto do pão da Palavra... Se a Igreja prega a Palavra, cabe-lhe também realizar  gestos proféticos. Existem  muitos famintos para que se justifique um novo sinal do pão, que realize por um exemplo material, algo do Reino anunciado por Jesus. Não podemos falar do amor de Deus, se não realizamos a justiça material ( e vital) para a multidão, assim como  Jesus dela teve compaixão.  A fome de Deus será sempre o mais importante, mas a fome do pão é o mais urgente.  O pão material não é o dom último, mas é um “aperitivo” do Reino (por isso devemos cuidar que ele tenha o gostinho do Reino e não do materialismo). Na multiplicação dos pães,  Jesus envolveu os discípulos em sua atuação; são eles que devem dar de comer à multidão. Seu lanche é insuficiente; mas, enquanto o repartem, Jesus faz com que seja até mais que suficiente. “Vós mesmos dai-lhes de comer...”. Não devemos aguardar até o que pão caia do céu. Devemos começar a repartir o que temos (economia da partilha  versus   economia do monopólio e da  capitalização). Assim falaremos no Reino pelas nossas ações.... No Pai-nosso, rezamos pedindo o “pão de cada dia”. Tudo é dom de Deus, também essa coisa mais elementar. O amor de Deus seria questionável, se Deus não nos desse o necessário para viver. Mas quem deve distribuir é a gente. Nosso empenho pelo pão cotidiano  dá credibilidade ao  Reino de Deus.
frei Almir Ribeiro Guimaeães

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O Dom do Pão
Significativamente, depois da abundância da palavra de Cristo na pregação, o evangelho de Mt e a liturgia nos confrontam com a fartura de comida, na multiplicação dos pães. A 1ª leitura traz o convite de Deus para nos saciarmos com o dom de sua instrução, na Lei e no culto verdadeiro, dom que não exige dinheiro para comprar como exigem as idolatrias do mundo.
Neste sentido, na multiplicação dos pães segundo Mt (evangelho), não é a façanha de Jesus que está no centro da atenção, mas sua própria pessoa: ele é o Messias e Enviado do Pai. Depois de sua farta pregação na campanha da Galiléia (Mt. 5-13), terminada por uma inquietante nota a respeito do juízo (Mt. 13,49s), defrontamo-nos como mistério da incredulidade em várias formas: na pátria de Jesus (13,53-58) e na figura de Herodes, intrigado por Jesus, julgando-o João Batista redivivo (Mt 14,1-2) – pois o tinha mandado executar (14,3-12).
Diante dessa incredulidade, Jesus muda de área, vai para o deserto (14,13), o lugar preferido para Deus encontrar sua gente. Aí afluem as multidões de pobres e humildes, os prediletos do Reino, e o Enviado de Deus é movido por compaixão (“graça”, hésed, a qualidade divina por excelência; Mt 14,14) e cura todos os seus enfermos. Quando, ao entardecer, chega a hora da refeição, Jesus realiza o que a 1ª leitura prefigurou: o banquete que não exige riqueza. Aos discípulos, que querem mandar a turma embora, ele diz que eles mesmos lhes dêem de comer - implicando-os assim, misteriosamente, na sua missão (como ele já fizera quando os chamou, cf. Mt. 10 1; 11° dom. do T.C.): nas suas mãos, enquanto distribuem, multiplica-se a humilde comida de uns pãezinhos e peixes até uma fartura messiânica.
A “compaixão”, a cura do povo, o deserto, a semelhança com o alimento que Deus aí deu aos antigos israelitas, o convite de Is 55 para ver nisto uma nova aliança: eis alguns elementos que caracterizam esta cena como uma manifestação messiânica de Jesus. Para os cristãos imbuídos do espírito da liturgia é uma prefiguração da Ceia da Nova Aliança.
As orações da presente liturgia, como também o canto da comunhão, sublinham o significado escatológico: a alimentação que recebemos aqui é recriação para a vida eterna. O salmo responsorial sublinha o carinho de Deus, que alimenta suas criaturas.
A 2ª leitura é a conclusão da primeira parte de Rm: a exposição sobre a salvação pela graça de Deus e a fé em Jesus Cristo. Paulo termina sua exposição por uma efusiva proclamação de fé e confiança na obra de Deus em Jesus Cristo. Se Deus é conosco (pois nos deu seu próprio Filho), quem será contra nós, quem nos condenará (Rm. 8,31-34)? “Quem nos separará do amor de Cristo?”, inicia a leitura de hoje (Rm. 8,35).
“Amor de Cristo” significa o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo (8,39), portanto, um amor que vence o mundo (8,37; cf. 1Jo 5, 1-5). Não se trata de amor sentimental. Paulo trata de expressar o mesmo que escreve João: “Nós acreditamos no amor” (1Jo 4,16). Paulo está polemizando com os que situam a salvação em outras coisas que não o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo: o legalismo farisaico, a cultura helenística e tantos outros pretensos caminhos da salvação.
Não, exclama Paulo com paixão: o que nos salvou é o amor que Deus nos mostrou em Jesus Cristo (cf. Rm 5,1-l1), e este amor, não o largamos, ou melhor, ele não nos larga! Pois esse amor não é “criatura” (falta no elenco das criaturas nos v. 38-39a, que inclui até os anjos), mas graça de Deus mesmo.
Assim, a liturgia de hoje nos convida a ler no sinal do pão uma revelação da “compaixão”, do terno amor de Deus para conosco, que se revelou plenamente no dom de seu filho, do qual o pão também se tomou o sinal sacramental.
Para a práxis, uma sugestão a respeito do sentido messiânico (realização escatológica da vontade de Deus) do “multiplicar o pão”: enfrentar o problema da fome, no espírito de Cristo (portanto, não por cálculo político mas por verdadeira “com-paixão”). Isso será certamente um sinal da presença de Deus e de seu Reino.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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1. O texto de hoje inicia dizendo que “quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barca para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Essa informação é importante porque associa o que virá ao que precedeu.
2. Vejamos o episódio anterior (Mt. 14,1-12). Herodes, no dia do seu aniversário, celebra um banquete com seus oficiais. O banquete de Herodes é um banquete de morte.
2.1. É o banquete dos poderosos (Herodes personifica o poder tirano) que buscam ter vida matando a esperança do povo, João Batista (cf. v. 5: “o povo considerava João Batista um profeta”).
2.2. O banquete de Herodes e seus oficiais demonstra o que os poderosos entendem por vida e como garantem a vida para si.
2.3. A corte de Herodes é o lugar onde se decreta (por pressões, jogos de interesse e convenções), a morte das esperanças populares.
3. Diante disso Jesus se retira a um lugar deserto. A menção do deserto evoca o êxodo, onde nasceu a sociedade alternativa. A partir do deserto, Jesus irá inaugurar o mundo novo, dando vida ao povo (em vez de sufocá-la e eliminá-la). Vendo Jesus partir de barco, o povo sai das cidades e o segue por terra (v. 13b). Essa alusão à saída das cidades completa a idéia do êxodo: o povo se livra das cidades, onde impera o domínio de Herodes e de seu sistema explorador.
4. Encontro de Jesus com o povo: ao ver o povo, ele se compadece (=sofrer com quem sofre). Essa reação contrasta com a de Herodes que mata João Batista (esperança do povo). Jesus não tira a vida, antes a defende, curando os que estavam doentes (v. 14): gesto de devolver esperança e vida ao povo.
5. O tempo passou, entardeceu… e os discípulos sugerem que Jesus despeça o povo para ir comprar comida nos povoados (v. 15). Comprar significa voltar àquela sociedade que explorava o povo com suas leis econômicas, conservando-o na miséria e dependência. Jesus quer quebrar esse sistema de dependência. E diz: “eles não precisam ir embora. Vocês mesmos lhes dêem de comer!” (v. 16). Ao “comprar” se contrapõe o “dar”. Esta é uma das idéias revolucionárias de Jesus e de quem segue o Mestre: encontrar formas alternativas capazes de quebrar os mecanismos de dependência das estruturas iníquas que mantêm o povo submisso e algemado.
6. Reação dos discípulos: “só temos aqui cinco pães e dois peixes” (v. 17). O v. 21 salienta a desproporção ao dizer que havia ali mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças (5 + 2= 7 x 5 mil!).
7. Jesus ordena que lhe tragam os pães e os peixes, e manda o povo sentar-se no chão para comer (v. 19a). Sentar para a refeição era gesto de pessoas livres. A partir desse momento o povo não será mais dependente e submisso. Jesus pega os cinco pães e os dois peixes – ergue os olhos ao céu – e pronuncia a bênção (v. 19b). Ele agradece a Deus o pão. Com esse gesto reconhece que o pão é dom de Deus, desvinculando-o das mãos dos poderosos e detentores do monopólio dos bens de primeira necessidade.
8. O alimento entra, assim, na esfera da gratuidade. Deus o concede gratuitamente e partilhá-lo é prolongar a gratuidade e generosidade divinas. Com isso o pão é libertado do “egoísmo humano”, deixando de ser objeto de lucro e exploração para se tornar gesto de partilha e fraternidade, gesto gratuito por excelência. A gratuidade vem de Deus, por Jesus, e se prolonga na ação de partilha dos discípulos, que põem tudo à disposição (v. 19c).
9. O texto afirma que todos comeram e ficaram satisfeitos (v. 20a). Cumpre-se assim a bem-aventurança: “felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (5,6). Mais ainda! As sobras, doze cestos (número que recorda as doze tribos de Israel, isto é, todo o povo) estão a indicar que o verdadeiro milagre é a partilha, capaz de saciar um povo inteiro. O amor – traduzido na partilha de tudo – garante a abundância dos bens capaz de suprimir as desigualdades de uma sociedade injusta e gananciosa.
10. Podemos, assim, entender porque Jesus rejeitou a tentação de fazer um milagre num passe de mágica (cf. tentação de Jesus em Mt. 4,3). A solução para o problema da fome não está num milagre (econômico ou religioso), pois Jesus rejeitou esse tipo de solução, essa tentação. O verdadeiro milagre é o da distribuição e da partilha dos bens da criação. Esse “milagre” não é difícil nem impossível, pois os pobres e Jesus já o estão realizando.
11. O texto é também uma tênue referência eucarística (v. 19) enquanto gesto gratuito de Deus, enquanto refeição de um povo livre e libertado, capaz de saciar a todos. Lida dentro do contexto de hoje, a Eucaristia reveste-se da força do alimento libertador. Cabe perguntar: não é hora de redescobrir a Eucaristia como Memorial da libertação para uma nova sociedade, baseada na partilha e na solidariedade (e não vê-la como um simples rito)?
1ª leitura: Is. 55,1–3
12. Situação do povo. O povo está exilado na Babilônia (atual Iraque). Sua situação (conforme v. 1) é de carência absoluta (sede); de plena dependência econômica (sem dinheiro); de total ausência de bens básicos. É um povo que passa fome, que luta pela sobrevivência, sem condições de satisfazer as mínimas necessidades básicas. Enquanto isso, as elites vão estrangulando a população, mantendo e aumentando sua dependência.
13. Um profeta anônimo (o segundo Isaías) sai às ruas e imitando os vendedores ambulantes de água, cereais, vinho e leite, convoca o povo faminto, apresentando-lhe uma grande novidade (profeta da esperança de um novo tempo). Venham matar a sede, comprar sem ter dinheiro, comer sem pagar, beber vinho e leite à vontade! É o convite para os pobres ao banquete da vida e da abundância.
14. É o convite a se desfazer do jugo da dependência e submissão, a experimentar a gratuidade da libertação do fardo econômico dos poderosos exploradores. Continuar na dependência é gastar dinheiro com aquilo que não alimenta e desperdiçar o salário com alimento que não mata a fome (v. 2a).
15. QUEM é que oferece esse banquete da vida e da abundância, banquete gratuito, reservado aos pobres, sedentos, famintos e explorados? É Javé, que, por meio do profeta, suscita a memória da Aliança selada com Davi, o rei que favoreceu a vida em abundância para o povo (3b). Javé vai renovar os bons tempos de fartura porque seu pacto com o povo é uma Aliança eterna. Essa Aliança levará o povo de volta a seu país, “terra onde corre leite e mel”, restabelecendo-o no seu chão, em paz e segurança.
16. O banquete é bem mais que simples refeição abundante de um só dia, depois do qual o povo voltará a amargar a fome, a sede e o exílio. É o banquete da vida em liberdade, da terra repartida, da moradia garantida, da saúde, da paz e bem-estar.
17. Com qual convicção o Segundo Isaías afirma isso? Ele tem coragem de proclamar essa boa notícia baseado em duas experiências: a do povo que sofre e clama e a experiência de Javé, o Deus da Aliança, o Deus libertador, que não fecha os ouvidos aos clamores do povo por vida e liberdade. Convidando o povo a escutar e prestar atenção (isto é, a fazer memória do Deus que liberta e salva), o profeta tem certeza de que a libertação não tardará, que a vida irá renascer: “Prestem muita atenção, e então vocês poderão comer bem, saborear pratos deliciosos e bem preparados! Escutem e venham a mim! Queiram ouvir-me e vocês terão a vida! (v. 2b).
18. A solução da situação do povo no exílio veio com Ciro, rei da Pérsia, que foi o instrumento de Deus para libertar o seu povo (45,1-8; 48,12-15) da dominação babilônica. Em meio a forte onda de pessimismo, crise de fé e de esperança entre os exilados (40,27; 49,14), o grande teólogo e profeta (o Segundo Isaías) torna-se o proclama- dor e cantor do novo êxodo. Ele fundamenta sua esperança no retorno à terra da promessa. Sonhar com “um novo tempo” era preciso (55). Essa era a promessa de Deus (43,13; 41,10; 44,6; 48,12).
19. Imagine proclamar a um povo faminto e exilado gritando pelas ruas um novo tempo. Parece irreal, mas foram essas palavras que alimentaram a esperança no povo exilado. Não tardou muito e a libertação chegou. O povo voltou à sua terra, Israel, e recomeçou a vida. O sonho alimentou a esperança que o manteve no caminho, na Aliança, outrora feita com a casa de Davi.
2ª leitura: Rm. 8,35.37–39
20. Desde o 15º domingo comum temos lido o capítulo 8 de Romanos. Paulo nos apresentou os dois princípios básicos para a vida do cristão: o Espírito que comunica a vida (vv. 1-13) e a filiação divina do cristão (vv. 14-30). Os demais versículos 31-39 são um hino ao amor de Deus manifestado na morte-ressurreição de Jesus e no fato de, mediante o evangelho e o batismo, adotar-nos como filhos seus.
21. Os versículos de hoje pertencem a esse hino. Eles nos comunicam a certeza de que o amor de Deus por nós é indestrutível, e preparam o cristão ao testemunho desse amor em meio à sociedade que hostiliza os seguidores de Jesus.
22. O texto pergunta: “quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Segue uma série de obstáculos (ou conseqüências) para quem se compromete com o projeto de Deus. São os mais variados modos com que a sociedade injusta persegue Paulo e os cristãos: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada (v. 35b).
23. Há um crescendo que vai da tribulação ao perigo fatal, a morte pela espada.
- A primeira etapa (tribulação, angústia, perseguição) marca grande parte das viagens de Paulo. O anúncio do Evangelho acarretou-lhe sistematicamente perseguições por causa da Palavra.
- A segunda (fome, nudez) revela a situação de Paulo nas constantes prisões que enfrentou.
- A terceira (perigo, espada) aponta para a consciência do fim trágico: cedo ou tarde seu sangue será derramado.
24. Paulo escreve aos Romanos durante a terceira viagem, em Corinto, quando já se considerava prisioneiro do Senhor (2Cor. 11,23-28 traz um elenco maior de perigos que enfrentou).
25. Possuir o Espírito e ser filho de Deus acarreta uma luta constante. Ser cristão é estar em pleno campo de batalha, mas com consciência e atitude de vitorioso: “em tudo isso somos mais que vencedores (literalmente super vencedores), graças Àquele que nos amou” (v. 37). Não se trata de uma vitória futura e distante, mas de ser já vencedor em meio aos conflitos presentes e futuros. A razão disso é o amor de Deus que, em Cristo morto e ressuscitado, venceu definitivamente o poder hostil e injusto.
26. Os vv. 38-39 descrevem a consciência do cristão diante das forças hostis: a certeza de que nada nos poderá separar do amor de Deus. … nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura qualquer…
- Vida-morte são dois extremos, e isso mostra que o amor tem força para vencer a morte e renovar a vida para sempre.
- Anjos e soberanias são categorias superiores: nenhuma força superior é capaz de vencer o amor presente.
- Presente-futuro são categorias temporais: não conseguirão anular esse amor.
- Forças, altura e profundidade são energias cósmicas misteriosas e hostis à pessoa: não poderão resistir diante do amor.
27. Paulo conclui: nada nem ninguém poderá nos separar do amor de Deus por nós, presente e manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor! (v. 39b).
R e f l e t i n d o
1. Multiplicar cinco pães e dois peixes, – mais do que um ato mágico – é o sinal evidente de que onde há partilha ninguém passa necessidade.
2. Jesus, ao saber da morte de João Batista, convida os discípulos e vai rezar num lugar deserto. Mas as multidões o seguem. Movido de compaixão por elas, ele cura os doentes. Já se faz tarde e o povo não quer ir embora. Os discípulos se preocupam com a fome do povo… mas não tem nenhuma solução, a não ser mandar embora (… e essa não era e nunca foi solução!).
3. Certamente o evangelista descreve o lugar afastado e deserto para recordar a saída dos hebreus do Egito para o deserto, a caminho da liberdade e da vida. Da mesma forma que o Senhor tirou os hebreus da dominação e opressão egípcia e os alimentou no deserto com o maná, assim agora, Jesus atrai o povo faminto explorado pelo Império Romano, por Herodes e a elite sacerdotal, para aí celebrar o banquete da vida e da abundância de alimento para todos (… enquanto isso, Herodes promove e celebra o banquete da morte).
4. Jesus não se esquiva da situação de fome do povo, ele toma os cinco pães e os dois peixes e, como pai de uma grande família que senta para partilhar os bens da vida, reza a bênção que todo chefe de família pronunciava antes da refeição. É um agradecimento pelo alimento destinado a ser partilhado entre todos, pois assim está previsto no projeto do Pai. Jesus não agradece aos discípulos, e sim Àquele que destinou o alimento para todos. Aos discípulos cabe a distribuição. De Jesus devem aprender outra maneira de entender e viver a vida a partir da ternura da acolhida.
5. Na multiplicação dos pães, Jesus envolveu os discípulos em sua atuação: são eles que devem dar de comer à multidão. Seu lanche é insuficiente, mas enquanto o repartem, Jesus faz com que seja até mais do que suficiente: “dai-lhes vós mesmos de comer…” Não devemos aguardar até que o pão caia do céu. Devemos começar a repartir o que temos (economia da partilha versus economia do monopólio e da capitalização). Assim falaremos do Reino através de nossas ações.
6. No Pai nosso, rezamos pedindo o “pão de cada dia”. Tudo é dom de Deus, também essa coisa mais elementar. O amor de Deus seria questionável, se Deus não nos desse o necessário para viver. … Mas quem deve distribuir é a gente, somos nós. Nosso empenho pelo pão cotidiano de todos dá credibilidade ao Reino de Deus (no qual acreditamos e com o qual nos comprometemos).
7. A liturgia de hoje nos convida a ler no sinal do pão uma revelação da “compaixão”, do amor terno, da ternura de Deus para conosco, que se revelou plenamente no dom de seu Filho, do qual o pão também se tornou o sinal sacramental.
8. Partir o pão sobre o altar, oferecer o cálice, são gestos simples e proféticos, mas não podem mais passar despercebidos ao exercício da nossa solidariedade. Se o pão da Eucaristia não nos remeter ao prato vazio dos necessitados, poderemos estar ainda celebrando indignamente a Ceia do Senhor.
9. Partilhar o alimento deveria ser sempre, para nós, um ato eucarístico. Sempre que partilhamos aquilo que garante a vida para todos, estamos de alguma forma, fazendo um gesto eucarístico. De acordo com Paulo, não seria escandaloso partilhar apenas o pão eucarístico sem partilhar “o pão nosso de cada dia”?
10. Se a Igreja prega a Palavra, cabe-lhe também realizar gestos proféticos. Existem muitos famintos para que se justifique um novo “sinal do pão”, que realize por um exemplo material (concreto), algo do Reino anunciado por Jesus. Não podemos falar do amor de Deus, se não realizamos a justiça material (e vital) para a multidão, assim como “Jesus dela teve compaixão”. A fome de Deus será sempre o mais importante, mas a fome do pão é o mais urgente. O pão material não é o dom último, mas é o “aperitivo do Reino”. (… Por isso devemos cuidar que ele tenha o gostinho do Reino e não só o simples gosto material).
11. Deus tem uma proposta de liberdade e vida para todos os oprimidos de todos os tempos (I leit. e ev.), convidando-os a sair do exílio e da dependência dos que vivem a explorar o povo. Essa proposta nasce e cresce na partilha dos bens da criação. Quando partilhamos esses bens – terra, moradia, saúde, educação, comida – é possível saciar a todos e ainda sobrar. Quem toma consciência disso e age para esse fim torna-se profeta da esperança (I leit.) e missionário do mundo novo, enfrentando com consciência de vitorioso os obstáculos inerentes à vida (2ª leit.).
12. A Eucaristia, nesse sentido, é o memorial da vida nova inaugurada por Jesus. Celebrá-la é tomar consciência disso, fazendo tudo o que for possível para construir uma sociedade justa, fraterna e igualitária. Caberia talvez uma pergunta: qual a boa notícia que anunciamos aos milhares de pobres que freqüentam nossas celebrações? Como fazer (e o que fazer) para não frustrar suas esperanças?
13. Para completar podemos ver o sentido simbólico no texto.
O texto fala de 5 pães, 2 peixes, 12 cestos e 5 mil homens.
O número 5 lembra a Torá, a Lei, os cinco primeiros livros da Bíblia, que devem ser seguidos por todo judeu. Por analogia se fala em 5 mil homens, os reais seguidores da Lei.
O peixe lembra a presença salvadora de Jesus. Mais tarde tornar-se-ia símbolo dos cristãos na perseguição romana. A palavra peixe (em grego IXTUS) , como um acróstico, forma as iniciais de IesùsXristòsTheoùUiòsSoteèr, que significa ”Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”.
O número 12 (os doze meses do ano e as 12 tribos do povo eleito) simboliza a totalidade ou plenitude.
14. Propor algumas interrogações parecem pertinentes (será que são?):
14.1. Estamos tão habituados a falar de multiplicação dos pães que até nos esquecemos de partilhar o mesmo?
14.2. Hoje em dia é possível realizar o milagre dos pães? Ou isso sugere um sonho ingênuo? Não parece estranho (… e muito!) falar em partilhar em vez de comprar?
14.3. Por que Jesus, – em vez de agradecer aos donos dos peixes e dos pães e aos seus seguidores, – agradeceu a Deus? Quantas vezes em nossas igrejas agradecem-se aos homens do dinheiro e do poder por sua colaboração?
E por que não se agradece aos pobres e despossuídos? … Estaria isso de acordo com o jeito do Reino de Jesus Cristo?
14.4. Será que temos experiências de partilha em nossa vida para recordar? O que sentimos e o que aprendemos quando “alguma vez” (… quase por acaso… ) partilhamos? E isso já faz muito tempo?
14.5. Nossa comunidade ainda se serve da desculpa que só Jesus podia realizar o banquete da vida?
14.6. Por que a injustiça só produz o banquete da morte? Ainda hoje há banquetes de morte?
14.7. Nossa comunidade, alguma vez, já incomodou a sociedade e as autoridades ao sair em defesa dos pobres e excluídos?
14.8. Por que a grande maioria da população mundial vive na miséria e até morre de fome?
Nós acreditamos no amor. 1Jo 4,16
O amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Rm. 8, 39
O amor que nos salvou é o amor que Deus nos mostrou no seu Filho Jesus. Rm. 8, 37
prof. Ângelo Vitório Zambon

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Um dia, Jesus havia se retirado a um lugar solitário, às margens do Mar da Galiléia. Mas quando ia desembarcar, encontrou uma grande multidão que o esperava. «Sentiu compaixão deles e curou seus doentes.» Falou do Reino de Deus para eles. Pois bem, enquanto isso, escureceu. Os apóstolos lhe sugeriram que despedisse a multidão, para que pudessem encontrar algo para que comer nos povoados próximos. Mas Jesus os deixou atônitos, dizendo-lhes em voz alta, para que todos escutassem: «Dai-lhes vós mesmos de comer». «Não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes», respondem-lhe, desconcertados. Jesus pede que os tragam. Convida todos a se sentarem. Toma os cinco pães e os dois peixes, reza, agradece ao Pai, depois ordena que distribuam tudo à multidão. «Todos comeram e ficaram saciados, e dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios». Eram cerca de 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças, diz o Evangelho. Foi o piquenique mais feliz da história do mundo!
O que este evangelho nos diz? Em primeiro lugar, que Jesus se preocupa e «sente compaixão» do homem completo, corpo e alma. Às almas Ele dá a palavra, aos corpos, a cura e o alimento. Alguém poderia dizer: «Então, por que Ele não faz isso também hoje? Por que não multiplica o pão entre tantos milhões de famintos que existem na terra?». O evangelho da multiplicação dos pães oferece um detalhe que pode nos ajudar a encontrar a resposta. Jesus não estalou os dedos para que aparecesse, como mágica, pão e peixe para todos. Ele perguntou o que eles tinham; convidou a compartilhar o pouco que tinham: 5 pães e 2 peixes. Hoje Ele faz a mesma coisa. Pede que compartilhemos os recursos da terra.
Sabemos perfeitamente que, pelo menos do ponto de vista alimentar, nossa terra seria capaz de dar de comer a bilhões de pessoas a mais do que as que existem hoje. Mas como podemos acusar Deus de não dar pão suficiente para todos, quando cada dia destruímos milhões de toneladas de alimentos que chamamos de «excedentes» para que não diminuam os preços? Melhor distribuição, maior solidariedade e capacidade para compartilhar: a solução está aqui. Eu sei, não é tão fácil. Existe a mania dos armamentos, há governantes irresponsáveis que contribuem para manter muitas populações na fome. Mas uma parte da responsabilidade recai também nos países ricos. Nós somos agora essa pessoa anônima (um menino, segundo um dos evangelistas) que tem 5 pães e 2 peixes; mas nós os temos muito bem guardados e temos cuidado para não entregá-los, por medo de que eles sejam distribuídos entre todos.
A forma como se descreve a multiplicação dos pães e dos peixes («elevando os olhos ao céu, pronunciou a bênção e, partindo os pães, deu-os aos discípulos e estes à multidão») sempre recordou a multiplicação desse outro pão que é o Corpo de Cristo. Por este motivo, as representações mais antigas da Eucaristia nos mostram um cesto com 5 pães e, ao lado, 2 peixes, como o mosaico em Tabga, na palestina, na igreja construída no lugar da multiplicação dos pães, ou na famosa pintura das catacumbas de Priscila em Roma. No fundo, o que estamos fazendo neste momento também é uma multiplicação dos pães: o pão da palavra de Deus. Eu parti o pão da palavra e a internet multiplicou minhas palavras, de forma que mais de 5 mil homens, também neste momento, se alimentaram e ficaram saciados. Resta uma tarefa: recolher «os pedaços que sobraram», fazer a Palavra chegar também a quem não participou do banquete. Converter-se em «repetidores» e testemunhas da mensagem.
mons. Inácio José Schuster
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A multiplicação prodigiosa
Entre as mensagens que a prodigiosa multiplicação dos pães oferece não se pode deixar de admirar a imensa munificência de Cristo diante da perplexidade dos Seus discípulos a lhe dizerem num lugar deserto: “Despede as multidões para que possam ir aos povoados comprar comida” (Mt. 14,13-21). Eles tinham apenas cinco pães e dois peixes, mas ali estava o poderoso Filho de Deus, que possuía um coração transbordante de amor e que se compadeceu de quantos tinham vindo a Ele.
O evangelista detalhou que eram mais ou menos cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. O pouco que havia não inquietava o Mestre. O que contava a Seus olhos era Sua intenção sincera de realizar um ato de generosidade. Ele ensina, com isso, que se deve fazer o bem ainda que as dificuldades sejam enormes, deixando-nos o recado de que nunca o nosso pão é tão pequenino que não o possamos repartir com o próximo em necessidade. O que conta diante de Deus é a reta intenção de ajudar o irmão em todas as circunstâncias. O amor aos outros é indissociável do amor de Deus, pois os dois mandamentos são o vértice e a chave da Lei.
Dirá São João: "Quem não ama seu irmão a quem vê não poderia amar Deus a quem não vê". São Paulo mostrará aos Gálatas que “toda a lei compendia-se nestas simples palavras: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Gl. 5,14). Trata-se da obra única e multiforme de toda fé viva. Portanto, no fundo, só há um só amor. Este, porém, se manifesta na doação. Lembrava, com razão: "O espírito enriquece com o que recebe; o coração, com o que dá”, afirma Victor Hugo. Entretanto, cumpre observar que o amor do próximo é essencialmente religioso, não é uma simples filantropia. Com efeito, o modelo é o próprio amor de Deus. Além disto, sua fonte é a obra divina no interior de cada um.
Não poderemos ser misericordiosos com o Pai celeste se o Senhor não no-lo ensinar, como mostrou São Paulo aos Tessalonicenses: "Quanto à caridade fraterna, não precisais que eu vos escreva, pois vós mesmos aprendestes de Deus a amar-vos uns aos outros" (Tl. 4,9).
Foi o que ele frisou também aos Romanos: "O amor de Deus se encontra largamente difundido nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rm. 5,5). O fundamento de tudo isso é que o próprio Deus nos toma por filhos, como ensinou São João: "O amor vem de Deus e todo aquele que ama é gerado por Deus e conhece a Deus {...] porque Deus é amor" (1Jo 44,7-8). Amando os nossos irmãos amamos o próprio Senhor como está no relato do Juízo universal: "Na verdade vos digo que tudo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt. 25,40).
É de se notar ainda como base do magno ensinamento de Jesus, quando multiplicou os pães, o fato de formarmos o Corpo de Cristo e, por isso, o que se passa com o próximo não pode ser indiferente ao verdadeiro cristão. Aí está a razão pela qual Cristo fez do preceito do amor o Seu sublime testamento: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 13,34).
Tão grande dileção não permitiria que Ele despedisse a multidão faminta e, ao mesmo tempo, deixasse de oferecer tão inefável lição. Ele desejava deixar claro que Seu amor continuaria a se exprimir por meio da caridade que os discípulos mostrassem entre si. Amando como Cristo os cristãos viveriam uma realidade divina e eterna.
A fraternidade deveria ser uma comunhão total na qual cada um se engajaria com toda sua capacidade de amor e de fé. Trata-se de um amor exigente e concreto.Tocante o desejo que Jesus expressou ao Pai: "Que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles" (Jo 17, 26). A generosidade seria inclusive a carteira de identidade do batizado: "Nisto todos vos reconhecerá como meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros" (Jo 13,35).
A essência desta dileção é a doação. Foi o que o apóstolo dos gentios compreendeu e pôde proclamar: "Fiz-me tudo para todos para a todos salvar" (1Cor. 9,22).
O coração do cristão deve ser como a hóstia consagrada, que é outro Pão multiplicado maravilhosamente por Jesus, no qual cada parcela infinitésima em que fosse dividido seria capaz de conter, vivo e perfeito, o tesouro do amor do Coração d´Aquele que se apiedou da multidão lá no deserto.
cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho
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Graça é justamente o que necessitamos
Jesus sente pena das pessoas que o seguem. Compadece-se deles. Atende os enfermos e dá de comer à multidão. Certamente não lhes oferece um suculento banquete. Apenas pão e pescado, mas todos ficam satisfeitos e ainda sobra. Uma vez mais o Evangelho nos apresenta Jesus oferecendo àqueles que o seguem vida, e vida plena. E o que é mais Importante, oferecendo-a gratuitamente.
Nisso Jesus se diferencia dos comerciantes do nosso mundo. Eles nada oferecem de graça. Tudo tem um preço, até mesmo quando a publicidade nos fala de brindes. Esses brindes nunca são gratuitos, nos os pagamos e muito bem. Esta é a primeira grande diferença entre o que nos oferece a nossa sociedade e aquilo que Jesus nos proporciona. O que Jesus nos oferece é sempre gratuito. Além disso, há outra diferença. Jesus nos oferece justamente aquilo de que necessitamos. Todos nós sabemos das grandes somas de dinheiro que gastamos inutilmente. Todos: os indivíduos, as famílias e a sociedade de urna maneira geral. Não podemos nos eximir dizendo que apenas os ricos fazem isso. De maneira sincera devemos aceitar que todos nós o fazemos. Apesar dos nossos poucos recursos, de fato não sabemos aproveitar e acabamos por gastar em coisas que não produzem fartura nem nos fazem sentir mais felizes e mais vivos.
Jesus nos indica onde devemos encontrar aquilo de que necessitamos para sermos felizes e, além disso, de maneira gratuita. Jesus se situa no oposto da nossa sociedade. Nela não apenas pagamos por tudo, mas, também acabamos comprando aquilo que não nos falta, mas o que outros querem que compremos. Por preços baratos, ou nem tanto, nos são oferecidos produtos que prometem felicidade. O que não nos dizem é que, uma vez usado o produto, retornaremos à mesma situação – ou pior – em que nos encontrávamos antes de adquiri-lo.
Jesus nos coloca diante do que é mais importante para nós. Não é necessário comprá-lo porque já o temos. Quando aprendermos a sentir com nossos irmãos e irmãs, a compartilharmos com eles o que possuímos então nossa vida se elevará e descobriremos a alegria do amor. O Reino se fará presente entre nós. Porque a felicidade não está em ter muitas coisas, mas sim na relação e no encontro prazeroso com os outros.
Seria bom refletir sobre a felicidade. Onde penso que se encontra a felicidade? Acredito que os bens materiais são o único meio necessário para alcançar a felicidade? Não seria mais acertado dizer que a encontro no amor e no relacionamento? Não me convida Jesus a participar da família de Deus? Não é exatamente nesse lugar que sou totalmente feliz?
Victor Hugo Oliveira
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Multiplicação dos pães
O Evangelho de hoje mostra Jesus num dos momentos em que se compadece do povo faminto e sedento, defende a vida e cura os que estão doentes.
O milagre da multiplicação dos pães e dos peixes rememora a passagem em que Deus alimenta o Seu povo com o maná no deserto no Antigo Testamento. Aqui, Jesus, cumprindo plenamente as promessas de Deus, reúne e alimenta a multidão sofredora, realizando os sinais de um novo modo de vida que anuncia a Boa Notícia.
Compadecido daquela gente faminta que O acompanha e, ao ser indagado sobre como resolver o problema da fome, Jesus traz o desafio para a sua própria comunidade e transfere para Seus discípulos a responsabilidade de alimentar todo o povo: “Vocês é que têm de lhes dar de comer”, referindo-se à responsabilidade que os cristãos têm com relação à comunidade Igreja, sobretudo no que diz respeito à partilha e à solidariedade.
Sentar para a refeição era comum para as pessoas livres, por isso Jesus pede para que todos se sentem, mostrando que Ele veio para libertar o homem de todo tipo de opressão.
Jesus pega os cinco pães e os dois peixes, ergue os olhos ao céu e pronuncia a bênção. Com esse gesto, Ele reconhece que o pão é dom de Deus e, sendo assim, o alimento entra na concepção da gratuidade, porque Deus o concede gratuitamente, e partilhá-lo é prolongar essa gratuidade e generosidade divinas. A gratuidade vem de Deus, por Jesus, e dá continuidade na ação de partilha dos discípulos, que devem por tudo o que têm à disposição da comunidade.
O número cinco para os judeus significa a Palavra de Deus, porque se refere ao Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia; e o número dois remete à lembrança das duas tábuas da Lei que são os dez mandamentos que Deus deu para Moisés apresentar ao povo de Israel. Por isso, os cinco pães e os dois peixes do Evangelho têm um significado muito bonito que quer dizer: todo aquele que ouve a Palavra de Deus e a segue, e obedece aos seus mandamentos, não têm fome, porque Deus se faz presente na sua vida.
Ser cristão é mais do que fazer oração, é também ter ação, saber partir e repartir.
Em uma comunidade onde há tantos famintos, a fome de Deus é muito importante e deve ser saciada, sem que fique de lado a fome de pão que é urgente.
O relato possui também um tom litúrgico quando relembra o momento da instituição da Eucaristia: “ao anoitecer”; “pronunciou a benção”; “o partiu e o deu aos seus discípulos”.
A Eucaristia é o Sacramento que memoriza a presença de Jesus, lembrando continuamente a missão que os cristãos são chamados.


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