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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

34º DOMINGO-CRISTO REI DO UNIVERSO-Cláudia Firmino

JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO-A

34º DOMINGO - JESUS CRISTO,

REI DO UNIVERSO


Cor: Branco
Evangelho - Mt 25,31-46
·     -JESUS É NOSSO REI-José Salviano

A liturgia deste domingo é muito rica em ensinamentos. Temos a celebração do final de  mais um ano litúrgico, de mais um ano de vida de presente dado a cada um de nós pelo Pai celeste, Este mesmo Pai que nos adverte a respeito da importância da caridade, para que cheguemos puros no dia do Juízo Final, dia em que o Rei Jesus irá separar os bons, os justos dos maus ou injustos. E na próxima semana vamos começar o tempo de Advento. Tempo de  preparação e de espera pelo Filho de Deus, O Salvador, o nosso REI.
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"VINDE BENDITOS DO MEU PAI!" – Olivia Coutinho.
DOMINGO - SOLENIDADE DE CRISTO REI.
Dia 26 de Novembro de 2017
Evangelho de Mt25,31-46
Com muita alegria, celebramos hoje, a Festa de Cristo Rei!Iluminada pelo o Espírito Santo, a Igreja, escolheu o último domingo do mês de Novembro, como o  fechamento do ano litúrgico, nos deixando claro, que é ao nosso Rei, que devemos ofertar a nossacaminhada de fé realizada ao longo do ano.Esta Solenidade, vem nos lembrar,  de que  Jesus, é o único  Rei que se apresentou ao povo, sem nenhum aparato. No Reino de Deus, a arma mais poderosa que existe é o amor, a autoridade é o serviço, o grande é aquele que serve! Neste Reino, não há espaço  para a violência, as operações de guerra se concentram no serviço ao próximo, e uma dessas operações, o próprio Jesus realizou na véspera de sua morte, quando numa atitude de humildade e serviço, Ele curvou-se para lavar os pés dos apóstolos.Ao ser entregue ao poder romano, Jesus disse: “O meu Reino não é deste mundo.”(Jo18,36)  Embora o seu Reino, não seja deste mundo, o reinar de Jesus, não está fora mundo, pois Ele próprio nos assegura: “O Reino de Deus já está entre vós.” Estas suas palavras, é uma afirmação, de que Jesus é a presença  do Reino de Deus aqui na terra, e  que já podemos viver as alegrias deste Reino, no aqui e no agora, basta estarmos em sintonia com Jesus!O modelo de rei visto pelo o mundo, em nada assemelha a condição de Rei aplicada a Jesus, pois o seu reinar, independe dos esquemas,  o reinar de Jesus, só depende do querer do Pai!O evangelho que a liturgia desta solenidade, nos convida a refletir, vem nos acordar para uma realidade que nenhum de nós pode fugir: a certeza da transitoriedade da vida terrena, a vida que passa, e que muitos de nós, transformamo-la em trevas por distanciarmos da Luz, que é Jesus! O texto nos sugere uma revisão de vida, precisamos reaver os valores sobre os quais, estamos conduzindo a nossa vida! O nosso tempo é curto, precisamos aproveitar bem, este espaço sagrado que Deus nos concede, para ajustarmos os nossos passos nos passos de Jesus, construindo a cada dia, a nossa morada no céu!O caminho que nos levará a eternidade, passa pela a prática do amor! O que vai nos colocar à direita do nosso Rei, que é Jesus, não será  nossas práticas religiosas, e sim, o amor vivido junto aos irmãos!O amor derramado do nosso coração, através de nossos atos concretos, fica guardado no coração de Deus, é o nosso passaporte para o céu!O que nos identificará diante de Deus, como filhos da luz, é a marca do amor que deixamos por onde passamos. O que fazemos ou que deixamos de fazer aos nossos irmãos é a Deus que fazemos, ou deixamos de fazer.Quem tem a vida pautada no exemplo de Jesus, tem a vida regida o tempo todo pelo o amor, o amor é a motivação de todos os que procuram viver como Jesus viveu! Quem ama, dá passos ao encontro do outro, quem ama  perdoa, acolhe, promove, caminha junto, realiza a vontade de Deus, fazendo o que Jesus fazia!A vida de quem realiza a vontade de Deus, no acolhimento e na promoção  daqueles que sofrem, os pobres e marginalizados, não termina nos túmulos frios construídos por mãos humanas, o destino de quem faz da sua vida, uma oferta de amor, é a eternidade!O texto nos fala de trevas e de Luz, de morte e de vida, a escolha é nossa, quem faz opção pela a Luz, escolhe a vida, e quem escolhe a vida, vive do jeito que Jesus viveu!Juntamente com a festa de Cristo Rei, é comemorado o dia Nacional do cristão Leigo, vocação imprescindível, na vida da Igreja, mas que às vezes é pouco reconhecida, devido a nossa tendência em acreditar que vocacionados, são somente os padres, os bispos, religiosos...A caminhada do  leigo no mundo de hoje, chega a ser um grande desafio, pois não é fácil dar testemunho de Jesus, vivendo no mundo, sem pertencer ao mundo, mas é  dentro desta realidade, que o leigo é chamado a atuar. “É importante tomarmos consciência de que os Leigos ocupam importantes ministérios na Igreja, entre tantos, assumem a vocação particular de constituir família, o compromisso cristão de atuar com ética na vida profissional, com dedicação e diferencial positivo, no sentido de ser uma pessoa diferente, no meio de tantas”. Enfim, os leigos assumem o grande desafio de serem pedras vivas da Igreja terrestre, são eles, os trabalhadores contínuos  do Reino!Como povo de Deus, que peregrina aqui na terra, rumo a Pátria definitiva, somos convidados a vivenciar a realeza de Jesus, fazendo o que Ele fazia, ciente de que: assim como Ele, não estamos isentos da cruz.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia CoutinhoVenha fazer parte do meu grupo de reflexão no Facebook:https://www.facebook.com/groups/552336931551388/




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Opção preferencial pelas pessoas excluídas
O tema central enfocado neste dia em que homenageamos a Jesus Cristo como Rei do Universo é o cuidado preferencial com as pessoas necessitadas. Na 1ª leitura, pela boca do profeta Ezequiel, Deus se revela como o Rei-Pastor que vai ao encontro das ovelhas que se dispersaram por causa da negligência dos maus pastores, os líderes do povo. Ele as recolhe sob o seu cuidado direto. Dispensará a cada uma o tratamento necessário para a sua cura e integridade.
O Evangelho de Mateus apresenta a parábola do julgamento final. Jesus identifica-se com as diversas categorias de pessoas sofredoras. O amor a Jesus é sinônimo de amor a cada pessoa em situação de necessidade. É condição para passar no teste do juízo final...
Na 2ª leitura, são Paulo proclama aos cristãos de Corinto a fé na ressurreição, tendo Cristo como primícia. Nele, todos receberão a vida. Por Cristo todos os poderes de morte serão destruídos, até que “Deus seja tudo em todos”. São indicações importantes para nós, hoje, chamados a viver da maneira digna do evangelho, ligando a fé com o compromisso social.
1ª leitura (Ez. 34,11-12.15-17)
Eu mesmo cuidarei do meu rebanho
A vocação profética de Ezequiel nasceu em pleno exílio da Babilônia (século VI a.C.). Sua profecia suscita esperança aos exilados, na certeza da volta para a terra prometida de onde foram arrancados. O exílio é analisado teologicamente como resultado da infidelidade de Israel à aliança com Deus. A transgressão se dá, especialmente, pelo comportamento negligente das lideranças, conforme podemos constatar pelas denúncias contidas em Ez. 34. Aqueles que deveriam ser os cuidadores do povo tornaram-se pastores de si próprios e abandonaram as ovelhas. Agora elas estão dispersas, longe de seu aprisco, à mercê dos aproveitadores estrangeiros. Nessa situação lamentável, Deus intervém de modo a prescindir da mediação das lideranças. É o que enfatiza o texto da liturgia deste domingo.
A caracterização de Deus como o verdadeiro Pastor é comum em vários outros textos do Primeiro Testamento. Por exemplo, rezamos e cantamos frequentemente o salmo 23(22). Com base na situação cultural da Palestina, onde o pastoreio é atividade cotidiana, os autores bíblicos extraem lições teológicas de especial significado para a fé judaico-cristã.
As pessoas empobrecidas depositam total confiança em Deus. Humilhadas e desprezadas por causa de sua condição social, entregam-se nas mãos daquele que as pode salvar. Desde a origem do povo de Israel, Deus revela-se como o “padrinho” dos abandonados. No contexto do exílio da Babilônia, ele vê a aflição do povo disperso, acolhe o seu grito e intervém para libertá-lo. Os verbos indicam a maneira como age o Bom Pastor: “Cuidarei do meu rebanho, dele me ocuparei, recolherei de todos os lugares, lhe darei repouso, buscarei a ovelha que estiver perdida, reconduzirei a desgarrada, curarei a fraturada, restaurarei a abatida... Eu as apascentarei com justiça”.
Deus julga e age corretamente. Sabe perfeitamente discernir entre ovelhas e ovelhas, entre bodes e carneiros. Não tolera a exploração nem a dominação de uns sobre os outros. Todo o seu rebanho tem o mesmo direito às condições para uma vida digna e saudável. Deus se põe a serviço do povo sofredor: é o que também Jesus vai fazer, bem como deverão fazer os seus seguidores.
Evangelho (Mt. 25,31-46)
O amor que salva
O capítulo 25 de Mateus é formado por três parábolas cujo tema central é a vigilância: a das dez virgens, a dos talentos e a do julgamento final. As três descrevem as atitudes de prudência ou de insensatez com relação à espera da vinda do Senhor. Nesta última parábola, novamente, o cotidiano dos pastores da Palestina serve de fonte de inspiração.
Jesus, o Filho do homem, veio para salvar a todos os povos. Sua prática histórica indicou o verdadeiro caminho da salvação: fez-se servo de todos, dedicando-se prioritariamente às pessoas excluídas. Na concepção da comunidade cristã de Mateus, ele voltará como governante, de modo glorioso, para o estabelecimento definitivo do reino de Deus. Todas as nações reunir-se-ão ao seu redor. Como verdadeiro Pastor, julgará com justiça. Os critérios de julgamento não serão a pertença a determinado povo (como pensava o judaísmo oficial), nem a esta ou aquela tradição religiosa, nem o cumprimento de todas as leis. Há uma só lei determinante, o amor às pessoas que sofrem necessidades: famintas, sedentas, forasteiras (migrantes), nuas, doentes e presas.
De acordo com o sistema sacerdotal da época, todos esses grupos faziam parte da categoria das pessoas impuras, que traziam o estigma da condenação divina. No entanto, Jesus conhecia muito bem as causas da exclusão social e jamais iria conceber a ideia de castigo divino. Pelo contrário, apresentou o verdadeiro rosto de Deus por meio de seu jeito terno e misericordioso de relacionar-se com as vítimas dos sistemas político e religioso.
A parábola também questiona: “Onde está Deus?” A ideia dominante é que Deus se encontra no templo de Jerusalém. No tempo em que Mateus escreve (pelo ano 85), o templo já não existe: fora destruído pelo exército romano no ano 70. Agora, para os rabinos, Deus está nas sinagogas e naqueles que cumpriam a Lei e, por isso, eram chamados de “justos”. Na parábola, as pessoas justas não são as que cumprem a Lei, e sim as que partilham o pão com os famintos, vestem os nus, acolhem os forasteiros, visitam os doentes e os presos...
Percebemos, então, que a justiça se confunde com a prática do amor ao próximo. Do mesmo modo, Deus e a pessoa necessitada estão em íntima relação: “O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”. Nem o templo, nem a sinagoga, nem a Lei são “lugares” privilegiados de encontro com Deus, e sim os “pequeninos”. Temos a possibilidade de escolher o caminho de salvação ou de condenação. O reino de Deus é amor, paz, justiça e fraternidade. Nele não há lugar para o egoísmo.
2ª leitura (1Cor. 15,20-26.28)
Em Cristo todos receberão a vida
Paulo, no capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios, dedica-se a refletir sobre a verdade da ressurreição, o fundamento da fé cristã. Ele parte da ressurreição de Cristo, fato que vai além de qualquer dúvida. Assim como a morte entrou no mundo por meio da transgressão de Adão, a ressurreição nos é dada pela fidelidade de Cristo. Sofremos as consequências do pecado, mas em Cristo recebemos a graça salvadora. Nele a vida foi definitivamente resgatada. Ele tomou sobre si a nossa natureza humana pecadora e nos redimiu.
A história da salvação continua até a parúsia. O pecado com suas consequências serão definitivamente destruídos. Todas as coisas serão submetidas a Jesus e ao Pai. Então “Deus será tudo em todos”. A redenção, portanto, é graça divina para toda a humanidade e para toda a criação. De fato, formamos uma fraternidade cósmica.
A convicção de fé na ressurreição, bem como a certeza da graça redentora de Jesus Cristo, dá novo colorido aos nossos pensamentos, palavras e ações. Podemos entrar na dinâmica do Espírito e nos deixar transformar segundo a imagem de Cristo. Podemos viver cada momento na perspectiva da vida eterna e nos relacionar de modo fraterno com todas as pessoas e com todas as criaturas.
Pistas para reflexão
- Deus é o Bom Pastor que cuida de cada um de nós. O profeta Ezequiel, no meio do povo exilado, suscitou um movimento de esperança e de confiança em Deus. O povo disperso não precisa cair no desespero, pois, sempre que alguém se encontra em situação de sofrimento, Deus intervém de maneira especial. Ele é o governante justo que zela pela vida e pela integridade de cada ser humano. Garante comida, saúde e paz para todos. É o Pastor que busca as ovelhas desgarradas e orienta as que estão sem rumo, trazendo-as para junto de si... Em quem depositamos nossa esperança hoje? Existem ovelhas desgarradas em nossa comunidade? E o que fazemos para zelar pela vida uns dos outros?
- A pessoa necessitada: lugar privilegiado de encontro com Deus. O Evangelho de Mateus fala do julgamento final. Jesus, rei do universo, age com justiça. Identifica-se com as pessoas excluídas. O amor concreto aos que sofrem é o caminho garantido de encontro com Deus e de salvação eterna. Todas as pessoas, de todas as religiões e culturas, podem escolher o caminho do amor, dedicando-se à promoção da vida digna sem exclusão. Em nossos dias, há muitos rostos de pessoas sofredoras. Podemos listá-los de acordo com a realidade de cada comunidade... (Podemos também conferir o Documento de Aparecida, n. 65.)
- Viver na perspectiva da vida eterna. Fomos redimidos por Jesus. Com ele ressuscitaremos. O pecado e a morte são vencidos em Cristo. Desde já, podemos viver de tal maneira que “Deus seja tudo em todos”. Como será o cotidiano de uma pessoa que vive essa convicção de fé?
Celso Loraschi



Nosso senhor, rei do universo
Estamos começando a última semana do ano da vida da Igreja. No próximo domingo já estaremos com os olhares voltados para a solenidade do Menino das Palhas que é o Deus que se torna nosso irmão. Começaremos a refletir, novamente, sobre os mistérios ligados ao adorável Senhor Jesus. Tudo começa de novo.
Antes que as montanhas existissem, antes que os espaços siderais viessem ao lume, antes que a inteligência perscrutadora do homem penetrasse o universo inteiro, o Deus grande e belo, bom e  transbordando de amor quis viver conosco. E em vista de sua vinda à terra dos homens o Deus grande belo criou tudo: os espaços siderais, as flores dos campos, as águas das fontes, os seres humanos todos e quando chegou à plenitude dos tempos quis viver entre nós em seu Filho feito carne, em Jesus, nascido de mulher.  O primeiro homem na intenção de Deus não foi Adão, mas esse Jesus, que seria o rei do universo.
O rei nasce quase incógnito num canto do Oriente. Leva durante trinta anos uma vida banal e normal. Nada escreve. Não tem poder, nem aparato.  Vive como um andarilho. Não tem nem mesmo uma pedra para reclinar a cabeça. Admira os lírios dos campos e contempla os pássaros do céus, conta histórias de sabedoria num grande número de parábolas, mostra-se muito íntimo do Pai e diz palavras que não podem sair apenas dos lábios de homens, palavras de vida eterna.  Olha no fundo dos olhos de pescadores e pecadores, de publicanos e de pobres mulheres e muda-lhes a vida. É objeto de apreço e desprezo.  Levantam-se forças religiosas contra ele. E aos poucos ele vai se dando conta que não terá escapatória. Precisará enfrentar a morte do servo de Javé. Com sua fala, seus gestos, suas posturas ele foi levando todos e tudo a seu Pai e  o coroamento de todos os seus gestos se deu no alto da cruz, como rei desprezado, com coroa de espinhos e vestido do manto de seu sangue. Passou da morte para a vida e assim  se tornou  o rei e centro do universo. Os cristãos o consideram como seu rei coberto do manto vermelho da irrisão  e sentado no trono do madeiro da cruz.
O evangelho de Mateus nos lembra que o Rei, no final dos tempos, separará as ovelhas dos cabritos. Serviram ao Cristo rei os que tiverem se ocupado dos menores da face da terra. O rei quer ser servido nos mais indigentes.
frei Almir Ribeiro Guimarães



Cristo Rei e Juiz
Quando foi instituída, a festa de Cristo Rei tinha um nítido caráter militante: celebrava o Reino de Cristo na terra (cf. a espiritualidade da Ação Católica). A renovação litúrgica fez desta festa o encerramento do ano litúrgico, acentuando mais o caráter transcendente e escatológico do reinado de Cristo, ao mesmo tempo rei messiânico (Pastor) e Filho do Homem (Juiz), trazendo a paz e o juízo.
O cerne desta liturgia é a parábola do Último Juízo (Mt. 25,31-46), em que Cristo aparece como juiz escatológico, Filho do Homem, pastor messiânico e rei do universo (evangelho). Tal amontoado de imagens numa só parábola não é comum, porém explica-se a partir do fundo veterotestamentário: a imagem do pastor em Ez 34(1ª leitura). Aí aparece Deus como Pastor escatológico (já que os pastores temporários, os reis de Israel, não prestam), para tomar conta do rebanho, cuidar das ovelhas enfermas e pronunciar o juízo entre ovelhas e bodes. O texto completo de Ez. 34 (não lido na liturgia) traz ainda outros elementos que permitem compreender melhor a parábola do Último Juízo. Deus fará justiça entre ovelhas gordas e ovelhas magras (protetor dos fracos). Enfim, segundo Ez. 34,23s, não é Deus pessoalmente, mas o Rei davídico messiânico que executará essas tarefas.
A parábola de Jesus explica o critério do juízo final: as obras de solidariedade, feitas ou deixadas de fazer aos pobres, são que decidem da participação ou não-participação do Reino. Este critério não é expressamente “religioso”, relacionado com Deus como tal: os justos não sabem que os pobres representavam o Rei, eles não praticaram a misericórdia para impressionar o Rei, mas por pura bondade e compaixão para com o necessitado. Essa despretensiosa bondade, inconsciente de si mesma, e o critério para separar “ovelhas e bodes”, pessoas de entranhado amor e pessoas de mera força.
Ora, olhando para a 1ª leitura, notamos que essa compaixão gratuita, que é o critério do Reino, e, no fundo uma imitação daquilo que Deus mesmo faz.Assumindo a causa dos fracos - dos famintos, desnudos, presos etc. – mostramo-nos filhos de Deus, “benditos do Pai” (Mt. 25,34). A tradição judaica atribui a Deus mesmo as obras que são aqui elencadas. De modo que podemos dizer: o Último Juízo será a confirmação definitiva da nossa participação na obra divina, desde já. Pois ser bom gratuitamente é o próprio ser de Deus: amor, misericórdia.
A bondade gratuita e pura revela-se quando a gente se dedica aos que não podem retribuir. É na doação ao “último dos homens”, o pobre, o marginalizado, o abandonado, que a gente dá prova de uma misericórdia de tipo divino. Viver deve ser: assumir a causa dos que mais precisam. Deus mesmo faz assim. Este é o critério da eterna participação no senhorio de Deus e Jesus Cristo, seu filho predileto. Se somos “imitadores” de Deus já agora, podemos “agüentar” uma eternidade com ele (cf. oração final).
A 2ª leitura descreve a total vitória de Cristo sobre todos os inimigos, inclusive a morte. Restaura assim a criação toda, pois, assim como com o primeiro Adão entrou a morte na vida, no novo Adão é vitoriosa a ressurreição. Mas esta vitória não pertence a Jesus como propriedade particular. Tendo submetido tudo a si, ele o submeterá ao Pai, para que Deus seja tudo em todas as coisas, e seja abolido o que é incompatível com Deus. Cristo aparece, assim, não apenas como rei messiânico, mas cósmico e universal. Porém, não um rei triunfalista, pois seu Reino é baseado no dom de si mesmo. É o Reino do “Cordeiro” morto e ressuscitado (canto da entrada), não dos lobos. É a antecipação da vitória final dos que se doam ao mínimo dos seus irmãos.
padre Johan Konings "Liturgia dominical"




O último julgamento - Mateus 25,31-46
Hoje se conclui mais um ano litúrgico e na próxima semana, iniciamos o tempo do Advento, tempo de preparação para receber Jesus.
No texto do Evangelho de Mateus que arremata este ano litúrgico, Jesus apresenta aos cristãos o juízo final, solicitando a eles que não descuidam de seu comportamento, no que diz respeito à prática da justiça, como condição essencial para a participação da vida no Reino.
Jesus é o Rei que estará sentado no trono. Não um trono de poder, coroa e palácio, porque Jesus é um Rei diferente, e Seu reinado é de justiça e de amor.
No Evangelho, Ele é chamado de “Filho do Homem”. Isto quer dizer que Jesus é o filho de Deus que nasceu como Homem, ou seja, está presente neste Homem a divindade de Deus, o próprio Deus que veio para fazer o bem e trazer a justiça para todos.
As ovelhas representam as pessoas que seguem a Jesus, aqueles que são seus amigos e se comprometem com o que Ele ensina. Os cabritos são os que rejeitam a Jesus e seus ensinamentos. E todos serão julgados pela fé que tiveram no filho de Deus feito Homem.
Ter fé significa aceitar e seguir a Jesus que é o Mestre que ensina a viver como Ele. A fé não é somente a realização de atos religiosos como, ir à catequese, à missa, rezar, mas significa, também, o reconhecimento e o compromisso com a pessoa de Jesus.
Ele mesmo diz que se identifica com “os menores”, “os pequeninos”, com as pessoas mais fracas, marginalizadas, oprimidas, enfim, pode ser encontrado em todas as pessoas: “Eu afirmo que quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos, de fato foi a mim que fizeram“ (Mt. 25). Os justos ignoram ter ajudado o Filho do Homem na pessoa dos empobrecidos; e os benditos do Pai são, portanto, os que lutam por um mundo justo e fraterno, sem discriminações nem desigualdades.
Jesus fala do compromisso com a prática da bondade, da justiça e do amor, e que Ele reconhecerá como seu amigo todo aquele que pratica atos de partilha, fraternidade e amor em favor dos irmãos. Jesus fica feliz com todos aqueles que ajudam as pessoas, com as quais Ele mesmo se identifica.
O Filho do Homem, não exigiu nada para si, mas solidariedade na prática, traduzida na partilha.
 Pequeninos do Senhor


Temos neste texto do evangelho de Mateus uma das páginas mais expressivas no sentido de indicar que a comunhão com os excluídos e oprimidos é a própria comunhão com Jesus e com Deus.
Na solidariedade com os excluídos, os famintos, os sedentos, os sem teto, os nus, os doentes e os presos, encontramos com o próprio Jesus, realizando-se, assim, a sua "vinda na glória".
A promoção da vida é a comunhão com Jesus em sua vida divina e eterna, em qualquer tempo e em qualquer povo. Desde a sua criação, os homens e as mulheres foram predestinados a participar da vida eterna, através da prática do amor e do serviço. Nas comunidades, o verdadeiro "pastor" (primeira leitura) é aquele que se dedica ao serviço em atender as necessidades de todos, estando atento a cada um.
Quem se dedica ao cultivo da vida está vencendo a morte e promovendo a ressurreição (segunda leitura).
padre Jaldemir Vitório



1ª leitura (Ez 34,11-12.15-17) O pastor e juiz escatológico
“Pastor” é a imagem para indicar os reis e sacerdotes de Israel; o proprietário do rebanho é Javé mesmo. Os pastores de Israel não prestaram; por isso veio o dia da catástrofe (destruição de Jerusalém em 587 a.C.). O proprietário mesmo conduzirá agora seu rebanho: Javé reconduzirá o povo disperso e cuidará especialmente das ovelhas mais fracas. – Em 34,17-22 aparece situação do rebanho; o Pastor terá de fazer justiça entre as ovelhas fracas e as fortes. – 34,23-25 descreve o “pastor messiânico”, um ungido que será o lugar-tenente de Deus para cuidar do rebanho (esta figura cumpre-se em Jesus Cristo).
* Cf. Jr 23,1-6; Jo 10 * 34,16 cf. Is 40,11; Lc 15,4-7 * 34,17 cf. Mt 25,32-34.

2ª leitura (1Cor 15,20-26a.28) Restauração de tudo em Cristo e entrega de seu Reino ao pai
A partir de uma discussão sobre a realidade da ressurreição (alguns coríntios davam à ressurreição um sentido meramente simbólico, gnóstico), Paulo chega a descrever a vitória universal de Cristo sobre a morte (15,26), prova do senhorio de Cristo, de sua realeza universal, que em última instância é do Pai. Filho em tudo o que fez, Jesus entregará seu Reino ao Pai, uma vez que estiver arrematado e não mais existir pecado ou morte. Então, Deus será tudo em todos e em todas as coisas (15,28). * 15,20-23 cf. Rm 8,11.20-21; Fl 3,20-21; Cl 1,18; 1Ts 4,14; Rm 5,12-21; 1Cor 15,45-49; 1Ts 4,16 * 15,25-26 cf. Sl 110[109],1; Ap 20,14: 21,4; Sl 8,7 * 15,28 cf. Cl 3,11.

Evangelho (Mt. 25,31-46) O juízo do Rei, Pastor e Filho do Homem
“Filho do Homem” é, ao mesmo tempo, o título normal de Jesus e a evocação do juízo de Deus no último dia. Este Filho do Homem é identificado com o Pastor escatológico, que também é juiz (cf. 1ª leitura) e rei messiânico. Ele vem não só proteger os fracos, mas julgar sobre o comportamento de todos em relação aos fracos. Este é o critério de seu julgamento; ele se identifica com os necessitados. O que nos faz caber ao seu lado não é a religiosidade proclamada, mas a caridade gratuita para com o necessitado. O pobre é o sacramento de Deus. * 25,31-33 cf. Mt 16,27; Ap 3,21; Ez 34,17 * 25,34-04 cf. Is 58,7; Mt 10,40; 18,5 * 25,41-46 cf. Mt 7,23; Ap 20,10; Dn 12,12; Jo 5,29.
Jesus, rei do universo
 Ensina o profeta Ezequiel: Deus, no tempo de sua intervenção, assumirá pessoalmente o governo do seu povo, como um dono que quer cuidar pessoalmente do seu rebanho – já que os pastores não prestavam (1ª leitura). No evangelho de hoje, último domingo do ano litúrgico, Jesus evoca essa imagem para falar do Juízo no tempo final. Ao mesmo tempo “rei” e “pastor”, o “Filho do Homem” vai separar os bons dos maus, como o pastor separa os bodes dos carneiros. E o critério dessa separação será o amor ao próximo, especialmente ao mais pequenino. Aliás, Jesus se identifica com esses pequenos. Conforme tivermos acudido a esses, nas suas necessidades, Jesus nos deixará participar do seu reino para sempre – ou não.
A 2ª leitura completa esse quadro pela grandiosa visão de Paulo sobre Jesus, Rei do Universo. Ele subjuga todos os inimigos, inclusive a morte; e então, ele mesmo se submeterá a Deus, para que este seja tudo em todos. Assim, a obediência e o despojamento de Jesus o acompanham até na glória.
Chamar Jesus Rei do Universo significa que é ele quem dirige a História. Sua mensagem, selada pelo dom da própria vida, é a última palavra. A mensagem do amor fraterno gratuito, manifestado ao mais pequeno dos irmãos, é o critério que decide sobre a nossa vida e sobre a História.
Entretanto, vivemos num mundo de pouca gratuidade. Até aquilo que deve simbolizar a gratuidade é explorada e comercializada (indústria dos brindes...). Esforçar-se por alguém ou por algo sem visar proveito parece um absurdo. Contudo, é isso que vence o mundo. É deste amor não interesseiro que Cristo pedirá contas na hora decisiva.
Ora, olhando bem, descobrimos que esse amor gratuito existe no mundo. Mas, por sua própria natureza, ele fica na sombra, age no escondido, produzindo, contudo, uma transformação irresistível e sempre renovada. Temos assim exemplos de pessoas individuais que optaram pelo amor gratuito, ou também de grupos que vencem a exclusão pelo modo solidário de viver. Evangelho é educar as pessoas para a caridade não interesseira e criar estruturas que a favoreçam (contra o consumismo, a competição exacerbada, o classismo e o racismo e todas as formas de negação dos nossos semelhantes). Neste sentido, os humildes projetos de solidariedade não interesseira (creches de favela, hortas comunitárias, escolas atendidas por voluntários etc.) são uma coroa para Cristo Rei, que hoje celebramos.
padre Johan Konings



O critério último da salvação é a caridade.
Neste último domingo do ano litúrgico, celebramos a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo. Enquanto Rei, e como tal, Jesus Cristo é o pastor que reúne, cuida e conduz às boas pastagens o rebanho de Deus. A sua vida e a sua presença gloriosa (Mt. 28,20) iluminam o ser humano, fazendo com que cada um esteja diante da verdade de si mesmo.
O profeta Ezequiel, contemporâneo do profeta Jeremias, foi com os exilados para a Babilônia. Papel fundamental do profeta Ezequiel foi o de exortar o povo para que não caísse no desânimo e confiasse que Deus, que nunca os havia abandonado, iria reconduzi-los à terra de Israel. Diante da infidelidade dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos e abandonaram o rebanho (Ez 34,1-10), Deus mesmo promete apascentar, cuidar e curar das feridas o seu rebanho. Deus, o pastor de Israel, promete, Ele mesmo, reunir as ovelhas que foram dispersas por causa da maldade daqueles que tinham por missão cuidar do povo de Deus.
O evangelho de hoje é uma parábola no contexto do discurso escatológico (24–25). De certa forma, essa parábola resume todo o evangelho e, particularmente, é um resumo dos capítulos que integram o discurso escatológico. A manifestação definitiva do mistério do Reino de Deus se dará em gestos pequenos, simbólicos e significativos. Alguns desses gestos, como os elencados em nosso texto, fazem parte de nossa vida cotidiana: dar de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede, vestir os que estão nus etc. O que é dito no texto vale não somente para os cristãos, mas para todo ser humano que vive neste mundo. É bastante provável que Ez. 34,17-22 tenha servido de inspiração para esse discurso escatológico. Lá também encontramos a separação de ovelhas, carneiros e bodes pelo pastor. A separação, ou juízo, é feita em razão da vida vivida na caridade ou pela indiferença diante do sofrimento e necessidade alheios. Somente o olhar penetrante do pastor, do Filho do Homem, que ultrapassa as aparências, pode com verdade conhecer a situação de cada um e o que se é de fato. Se o texto fala de condenação, é para fazer apelo a viver no amor que exige o serviço ao semelhante. O critério último da salvação, que é dom de Deus, não é a fé, mas a caridade.
Carlos Alberto Contieri,sj




Neste último domingo do ano litúrgico, a Igreja nos apresenta Jesus Cristo como Rei do universo. O Evangelho no-lo mostra cercado de anjos, sentado num trono de glória para o julgamento final da história e da humanidade. Ele é Rei-Juiz, é o critério da verdade e da mentira, do bem e do mal, da vida e da morte. Por mais que a humanidade queira fazer a verdade do seu modo, por mais que distorça o bem em mal e o mal em bem e procure a vida onde não há vida verdadeira, vida plena, uma coisa é certa: somente em Jesus Cristo tudo aparecerá, um dia, na sua justa realidade, na sua inapelável verdade. Nós cremos com toda firmeza que a criação toda, a história toda e a vida de cada um de nós caminham para o Cristo e por ele serão passadas a limpo, nele serão julgadas! Ele é Rei-Juiz: ao final “todas as coisas estarão submetidas a ele”. Fora dele não haverá salvação, nem esperança nem vida. Ele é a Vida!
Mas, se Cristo Jesus é nosso Rei-Juiz, isto se deve ao fato de ser primeiramente nosso Rei-Pastor, aquele que dá a vida pelas ovelhas. Ele é “o que foi imolado”, o mesmo que, com ânsia e cuidado, procura suas ovelhas dispersas, toma conta do rebanho, cuida da ovelha doente e vigia e vela em favor da ovelha gorda e forte. Eis o nosso juiz, eis o juiz da humanidade: aquele ferido de amor por nós, aquele que por nós deu a vida, aquele que se fez um de nós, colocando-se no nosso meio! 
Atualmente, a nossa civilização ocidental perdeu quase que de modo total a consciência da realeza de Cristo. Dizem hoje, cheios de orgulho, os sábios da sabedoria do mundo: "O homem é rei!" Gritam: “Não queremos que esse Jesus reine sobre nós! Não queremos que nos diga o que fazer, como viver; não aceitamos limites do certo e do errado, do bem e do mal, do moral e do imoral... a não ser os nossos próprios limites. E, para nós, não há limites!” Eis o pecado original, a arrogância fundamental da humanidade atual. Nunca fomos tão prepotentes quanto agora; nunca tão iludidos e enganados como atualmente! 
E, no entanto, Cristo é Rei, o único Rei verdadeiro, cujo Reino jamais passará. Mas esse Rei nos escandaliza também a nós, cristãos. É que ele não é um rei mundano, estribado na vã demonstração de poder, de glória, de imposição. Não! Ele é o Rei-Pastor que se fez Rei-Cordeiro manso e humilde imolado por nós. Por isso “é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele o poder pelos séculos”. A grandeza e o poder do Senhor neste mundo não se manifestarão na grandeza, mas nas coisas pequenas, na fragilidade do amor, daquele amor que na cruz apareceu como capaz de entregar a vida pelos irmãos. Gostaríamos de um Cristo-Rei na medida das nossas vãs grandezas... Gostaríamos de uma Igreja forte, aplaudida, elogiada, reverenciada. Mas, não! A Igreja, continuadora na história do mistério salvífico de Cristo, tem de participar do escândalo do seu Senhor, de pobreza do seu Senhor. E, então, neste Cristo-Rei, vemo-la humilhada e manchada por tantos escândalos. Pobre Mãe católica! Não merecia isso de seus filhos, de seus ministros, de seus pastores! Mas, faz parte das dores do Reino do Senhor! Faz parte do mistério do Reino a pobreza de Cristo, a mansidão de Cristo, a derrota de Cristo na cruz, o silêncio de Cristo, a morte de Cristo. E tudo isso tem que estar presente também na vida da Igreja e na nossa vida! Como nos exorta são Paulo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos. Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm. 2,8.11).
Celebremos hoje a realeza de Cristo, dispondo-nos a participar da sua cruz. Na Igreja, no Reino de Deus, reinar é servir. Sirvamos, com Cristo, como Cristo e por amor de Cristo! No Evangelho desta solenidade, o critério para participar do Reinado do Senhor Jesus é tê-lo servido nos irmãos: no pobre, no despido, no doente, no prisioneiro, no fraco. Que Reino, o de Cristo! Manifesta-se nas coisas pequenas, nas pequenas sementes, nos pequenos gestos, no amor dado e recebido com pureza cada dia. 
Na verdade, segundo os santos Padres da Igreja, o Reino de Cristo, o Reino que ele entregará ao Pai, somos nós; nós, que fizemos como ele fez, lavando os pés do mundo e servindo ao mundo a única coisa que realmente compensa: a amor de Cristo, a verdade de Cristo, o Evangelho de Cristo, o exemplo de Cristo, a salvação de Cristo, a vida de Cristo... para que o mundo participe eternamente do Reino de Cristo! 
Despojemo-nos de todo pensamento mundano sobre reis, reinos e coroas. Fixemos nosso olhar no trono da cruz, naquele que ali se encontra despido e coroado de espinhos. Aprendamos com admiração, estupor e gratidão que nossa mais gloriosa herança neste mundo é participar do seu reinado, levando a humanidade a descobrir quão diferentes dos nossos são os critérios de Deus. Quando aprendermos isso, quando a humanidade aprender isso, o Reino entrará no mundo e o mundo entrará no Reino, Reino de Cristo, "Reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino da justiça, do amor e da paz".
dom Henrique Soares da Costa



No 34º domingo do tempo comum, celebramos a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. As leituras deste domingo falam-nos do Reino de Deus (esse Reino de que Jesus é rei). Apresentam-no como uma realidade que Jesus semeou, que os discípulos são chamados a edificar na história (através do amor) e que terá o seu tempo definitivo no mundo que há-de vir.
A primeira leitura utiliza a imagem do Bom Pastor para apresentar Deus e para definir a sua relação com os homens. A imagem sublinha, por um lado, a autoridade de Deus e o seu papel na condução do seu Povo pelos caminhos da história; e sublinha, por outro lado, a preocupação, o carinho, o cuidado, o amor de Deus pelo seu Povo.
O Evangelho apresenta-nos, num quadro dramático, o “rei” Jesus a interpelar os seus discípulo acerca do amor que partilharam com os irmãos, sobretudo com os pobres, os débeis, os desprotegidos. A questão é esta: o egoísmo, o fechamento em si próprio, a indiferença para com o irmão que sofre, não têm lugar no Reino de Deus. Quem insistir em conduzir a sua vida por esses critérios ficará à margem do Reino.
Na segunda leitura, Paulo lembra aos cristãos que o fim último da caminhada do crente é a participação nesse “Reino de Deus” de vida plena, para o qual Cristo nos conduz. Nesse Reino definitivo, Deus manifestar-Se-á em tudo e atuará como Senhor de todas as coisas (v. 28).
1ª leitura: Ez. 34,11-12.15-17 – AMBIENTE
Ezequiel é conhecido como “o profeta da esperança”. Desterrado na Babilônia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém pela primeira vez e deporta para a Babilônia a classe dirigente do país) Ezequiel exerce aí a sua missão profética entre os exilados judeus.
A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (data do seu chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilônia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e as infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilônia.
A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C. e prolonga-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador – esse Deus que Israel descobriu na sua história – não os abandonou nem esqueceu.
O texto que nos é hoje proposto pertence, provavelmente, à segunda fase do ministério de Ezequiel. Depois de denunciar os “maus pastores” que exploraram e abusaram do Povo e o conduziram por caminhos de morte e de desgraça, até à catástrofe final de Jerusalém e ao Exílio (cf. Ez 34,1-9), o profeta anuncia a chegada de um tempo novo em que o próprio Deus vai conduzir o seu Povo e apascentar as suas ovelhas. É um oráculo de esperança, que abre uma nova história e propõe um novo futuro ao Povo de Deus.
MENSAGEM
No Antigo Médio Oriente, o título de “pastor” é atribuído, frequentemente, aos deuses e aos reis. É um título bastante expressivo em civilizações que viviam da agricultura e do pastoreio. A metáfora expressa admiravelmente dois aspectos, aparentemente contrários e com frequência separados, da autoridade exercida sobre os homens: o pastor é, ao mesmo tempo, um chefe que dirige o seu rebanho e um companheiro que acompanha as ovelhas na sua caminhada para as pastagens onde há vida.
Além disso, o pastor é um homem forte, capaz de defender o seu rebanho contra os animais selvagens; e é também delicado para as suas ovelhas. Conhece o estado e as necessidades de cada uma, leva nos braços as mais frágeis e débeis, ama-as e trata-as com carinho. A sua autoridade não se discute: está fundada na entrega e no amor.
É sobre este fundo que Ezequiel vai colocar as relações que unem Deus e Israel.
A este Povo a quem os pastores humanos (os reis, os sacerdotes, a classe dirigente) trataram tão mal, o profeta anuncia a chegada desse tempo novo em que Jahwéh vai assumir a sua função de pastor do seu Povo. Como é que Deus desempenhará essa função?
Deus vai cuidar das suas ovelhas e interessar-se por elas. Neste momento, as ovelhas estão dispersas numa terra estrangeira, depois dos acontecimentos dramáticos que trouxeram ao rebanho morte e desolação; mas Deus, o Bom Pastor, vai reuni-las, reconduzi-las à sua própria terra e apascentá-las em pastagens férteis e tranqüilas (vs. 11-12).
Mais: Deus, o Bom Pastor, irá procurar cada ovelha perdida e tresmalhada, cuidar da que está ferida e doente, vigiar a que está gorda e forte (v. 16); além disso, julgará pessoalmente os conflitos entre as mais poderosas e as mais débeis, a fim de que o direito das fracas não seja pisado (v. 17).
ATUALIZAÇÃO
• A imagem bíblica do Bom Pastor é uma imagem privilegiada para apresentar Deus e para definir a sua relação com os homens. Sublinha a sua autoridade e o seu papel na condução do seu Povo pelos caminhos da história; mas, sobretudo, sublinha a preocupação, o carinho, o cuidado, o amor de Deus pelo seu Povo. Na nossa cultura urbana, já nem todos entendem a figura do “pastor”; mas todos são convidados a entregar-se nas mãos de Deus, a confiar totalmente n’Ele, a deixar-se conduzir por Ele, a fazer a experiência do seu amor e da sua bondade. É uma experiência tranquilizante e libertadora, que nos traz serenidade e paz.
• Também aqui, a questão não é se Deus é ou não “pastor” (Ele é sempre “pastor”!); mas é se estamos ou não dispostos a segui-l’O, a deixar-nos conduzir por Ele, a confiar n’Ele para atravessar vales sombrios, a deixar-nos levar ao colo por Ele para que os nossos pés não se firam nas pedras do caminho. Uma certa cultura contemporânea assegura-nos que só nos realizaremos se nos libertarmos de Deus e formos os guias de nós próprios. O que escolhemos para nos conduzir à felicidade e à vida plena: Deus ou o nosso orgulho e auto-suficiência?
• Às vezes, fugindo de Deus, agarramo-nos a outros “pastores” e fazemos deles a nossa referência, o nosso líder, o nosso ídolo. O que é que nos conduz e condiciona as nossas opções: a riqueza e o poder? Os valores ditados por aqueles que têm a pretensão de saber tudo? O política e socialmente correto? A opinião pública? O presidente do partido? O comodismo e a instalação? A preservação dos nossos esquemas egoístas e dos nossos privilégios? O êxito e o triunfo a qualquer custo? O herói mais giro da telenovela? O programa de maior audiência da estação televisiva de maior audiência?
2ª leitura: 1Cor. 15,20-26.28 - AMBIENTE
No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, vindo de Atenas, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At. 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (2Cor. 1,19; At. 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da sinagoga.
Como resultado da pregação de Paulo nasceu, contudo, a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora, em geral, de condição humilde (cf. 1Cor. 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At. 18,8; 1Cor. 1,22-24; 10,32; 12,13).
De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos do ambiente corrupto que se respirava na cidade e não podia deixar de ser influenciada por esse ambiente. É neste contexto que podemos entender alguns dos problemas sentidos na comunidade e apontados na Primeira Carta aos Coríntios: moral dissoluta (cf. 1Cor. 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Cor. 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Cor. 1,19-2,10)… Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em contradição com a pureza da mensagem evangélica.
Um dos pontos onde havia uma notória dificuldade em conciliar os dados da fé cristã com os valores do mundo grego era na questão da ressurreição. Enquanto que a ressurreição dos mortos era relativamente bem aceite no judaísmo (habituado a ver o homem na sua unidade), constituía um problema muito sério para a mentalidade grega. A cultura grega estava fortemente influenciada por filosofias dualistas, que viam no corpo uma realidade negativa e na alma uma realidade nobre e ideal. Aceitar que a alma viveria sempre não era difícil para a mentalidade grega… O problema era aceitar a ressurreição do homem total: sendo o homem (de acordo com a mentalidade grega) constituído por alma e corpo, como podemos falar da ressurreição do homem?
MENSAGEM
Frente às objeções e dúvidas dos coríntios, Paulo parte da ressurreição de Cristo (cf. 1Cor. 15,1-11), para concluir que todos aqueles que se identificarem com Cristo ressuscitarão também (cf. 1Cor. 15,12-34).
O nosso texto começa precisamente com a afirmação de que “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram” (v. 20). A sua ressurreição não foi um caso único e excepcional, mas o primeiro caso. “Primeiro” deve ser entendido aqui, não apenas em sentido cronológico, mas sobretudo no sentido do princípio ativo da ressurreição de todos os outros homens e mulheres. Cristo foi constituído por Deus princípio de uma nova humanidade; a sua ressurreição arrasta atrás de si toda a sua “descendência” – isto é, todos aqueles que se identificam com Ele, que acolheram a sua proposta de vida e o seguiram – ao encontro da vida plena e eterna (vs. 21-23).
O destino dessa nova humanidade é o Reino de Deus. O Reino de Deus será uma realidade onde o egoísmo, a injustiça, a miséria, o sofrimento, o medo, o pecado, e até a morte (isto é, todos os inimigos da vida e do homem) estarão definitivamente ausentes, pois terão sido vencidos por Cristo (vs. 24-26). Nesse Reino definitivo, Deus manifestar-Se-á em tudo e atuará como Senhor de todas as coisas (v. 28).
A reflexão de Paulo lembra aos cristãos que o fim último da caminhada do crente é a participação nesse “Reino de Deus” de vida plena e definitiva, para o qual Cristo nos conduz.
ATUALIZAÇÃO
• O nosso texto garante-nos que a meta final da nossa caminhada é o Reino de Deus – isto é, uma realidade de vida plena e definitiva, de onde a doença, a tristeza, o sofrimento, a injustiça, a prepotência, a morte estarão ausentes. Convém ter sempre presente esta realidade, ao longo da nossa peregrinação pela terra… A nossa vida presente não é um drama absurdo, sem sentido e sem finalidade; é uma caminhada tranquila, confiante – ainda quando feita no sofrimento e na dor – em direção a esse desabrochar pleno, a essa vida total que Deus nos reserva.
• Como é que aí chegamos? Paulo responde: identificando-nos com Cristo. A ressurreição de Cristo é o “selo de garantia” de Deus para uma vida oferecida ao projeto do Reino… Demonstra que uma vida vivida na escuta atenta dos projetos do Pai e no amor e no serviço aos homens conduz à vida plena; demonstra que uma vida gasta na luta contra o egoísmo, a opressão e o pecado conduz à vida definitiva; demonstra que uma vida gasta ao serviço da construção do Reino conduz à vida verdadeira… Se a nossa vida for gasta do mesmo jeito, seguiremos Cristo na ressurreição, atingiremos a vida nova do Homem Novo e estaremos para sempre com Ele nesse Reino livre do sofrimento, do pecado e da morte que Deus reserva para os seus filhos.
• Descobrir que o Reino da vida definitiva é a nossa meta final significa eliminar definitivamente o medo que nos impede de atuar e de assumir um papel de protagonismo na construção de um mundo novo. Quem tem no horizonte final da sua vida o Reino de Deus, pode comprometer-se na luta pela justiça e pela paz, com a certeza de que a injustiça, a opressão, a oposição dos poderosos, a morte não podem pôr fim à vida que o anima. Ter como meta final o Reino significa libertarmo-nos do medo que nos paralisa e encontrarmos razões para um compromisso mais consequente com Deus, com o mundo e com os homens.
Evangelho: Mt. 25,31-46 – AMBIENTE
Esta impressionante descrição do juízo final é a conclusão das três parábolas precedentes (a “parábola do mordomo fiel e do mordomo infiel” – cf. Mt. 24,45-51; a “parábola das jovens previdentes e das jovens descuidadas” – cf. Mt. 25,1-13; a “parábola dos talentos” – cf. Mt. 25,14-30). Tanto no texto que nos é proposto como nessas três parábolas aparecem dois grupos de pessoas que tiveram comportamentos diversos enquanto esperavam a vinda do Senhor Jesus. O autor do texto mostra agora qual será o “fim” daqueles que se mantiveram e daqueles que não se mantiveram vigilantes e preparados para a vinda do Senhor.
Mais uma vez, para percebermos a catequese que Mateus aqui desenvolve, temos de recordar o contexto da comunidade cristã a quem ela se destina. Estamos nos últimos decênios do séc. I (década de 80). Já passou o entusiasmo inicial pela vinda iminente de Jesus para instaurar o Reino definitivo. Os cristãos que constituem a comunidade de Mateus estão desinteressados, instalados, acomodados; vivem a fé de forma rotineira, morna, pouco exigente e pouco comprometida; alguns, diante das dificuldades, deixam a comunidade e renunciam ao Evangelho…
Mateus, preocupado com a situação, procura revitalizar a fé, reacender o entusiasmo, entusiasmar ao compromisso. Vai fazê-lo através de uma catequese que convida à vigilância, enquanto se espera o encontro final com Cristo.
No texto que nos é proposto, Mateus mostra aos crentes da sua comunidade – com a linguagem veemente dos pregadores da época – o que espera, no final da caminhada, quer aqueles que se mantiveram vigilantes e viveram de acordo com os ensinamentos de Jesus, quer aqueles que se esqueceram dos valores do Evangelho e que conduziram a vida de acordo com outros interesses e preocupações.
MENSAGEM
A parábola do juízo final começa com uma introdução (vs. 31-33) que apresenta o quadro: o “Filho do Homem” sentado no seu trono, a separar as pessoas umas das outras “como o pastor separa as ovelhas dos cabritos”.
Vêm, depois, dois diálogos. Um, entre “o rei” e “as ovelhas” que estão à sua direita (vs. 34-40); outro, entre “o rei” e os “cabritos” que estão à sua esquerda (vs. 41-46). No primeiro diálogo, o “rei” acolhe as “ovelhas” e convida-as a tomar posse da herança do “Reino”; no segundo diálogo, o “rei” afasta os “cabritos” e impede-os de tomar posse da herança do Reino. Porquê? Qual é o critério que “o rei” utiliza para acolher uns e rejeitar outros?
A questão decisiva parece ser, na perspectiva de Mateus, a atitude de amor ou de indiferença para com os irmãos mais pequenos de Jesus, que se encontram em situações dramáticas de necessidade – os que têm fome, os que têm sede, os peregrinos, os que não têm que vestir, os que estão doentes, os que estão na prisão… Jesus identifica-Se com os pequenos, os pobres, os débeis, os marginalizados; manifestar amor e solidariedade para com o pobre é fazê-lo ao próprio Jesus e manifestar egoísmo e indiferença para com o pobre é fazê-lo ao próprio Jesus.
A cena pode interpretar-se de duas maneiras, dependendo de como entendemos a palavra “irmão”. Entendida em sentido genérico, a palavra “irmão” designaria qualquer homem; neste caso, a exortação de Jesus convida os que querem entrar no Reino a ir ao encontro de qualquer homem que tenha fome, que tenha sede, que seja peregrino, que esteja nu, esteja doente ou que esteja na prisão, para lhe manifestar amor e solidariedade. Entendida num sentido mais restrito, a palavra “irmão” designaria os membros da comunidade cristã… De qualquer forma, os dois sentidos não se excluem; e é possível que Mateus se refira às duas realidades.
A exortação que Mateus lança à sua comunidade cristã (e às comunidades cristãs de todos os tempos e lugares) nas parábolas precedentes ganha, assim, uma força impressionante à luz desta cena final. Com os dados que este Evangelho nos apresenta, fica perfeitamente evidente que “estar vigilantes e preparados” (que é o grande tema do “discurso escatológico” dos capítulos 24 e 25) consiste, principalmente, em viver o amor e a solidariedade para com os pobres, os pequenos, os desprotegidos, os marginalizados. Em última análise, é esse o critério que decide a entrada ou a não entrada no Reino de Deus.
Esta exortação dirige-se a uma comunidade que negligencia o amor aos irmãos, que vive na indiferença ao sofrimento dos mais débeis, que é insensível ao drama dos pobres e que não cuida dos pequenos e dos desprotegidos. Como essas são atitudes que não se coadunam com a lógica do Reino, quem vive desse jeito não poderá fazer parte do Reino.
A cena do juízo final será uma descrição exata e fotográfica do que vai acontecer no final dos tempos?
É claro que não. Mateus não é um repórter, mas um catequista a instruir a sua comunidade sobre os critérios e as lógicas de Deus. O objetivo do catequista Mateus é deixar bem claro que Deus não aprova uma vida conduzida por critérios de egoísmo, onde não há lugar para o amor a todos os irmãos, particularmente aos mais pobres e débeis. Um dos pormenores mais sugestivos é a identificação de Cristo com os famintos, os abandonados, os pequenos, os desprotegidos: todos eles são membros de Cristo e não os amar é não amar Cristo. Dizer que se ama Cristo e não viver do jeito de Cristo, no amor a todos os homens, é uma mentira e uma incoerência.
Deus condena os maus (“os cabritos”) ao inferno? Não. Deus não condena ninguém. Quem se condena ou não é o homem, na medida em que não aceita ou aceita a vida que Deus lhe oferece. E haverá alguém que, tendo consciência plena do que está em jogo, rejeite o amor e escolha, em definitivo, o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência – isto é, o afastamento definitivo de Deus e do Reino? Haverá alguém que, percebendo o sem sentido dessas opções, se obstine nelas por toda a eternidade?
Então, porque é que Mateus põe Deus a dizer aos “cabritos”: “afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos”? Porque Mateus é um pregador veemente, que usa a técnica dos pregadores da época e gosta de recorrer a imagens fortes que toquem o auditório e que o levem a sentir-se interpelado. Para além dos exageros de linguagem, a mensagem é esta: o egoísmo e a indiferença para com o irmão não têm lugar no Reino de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Quem é que a nossa sociedade considera uma “pessoa de sucesso”? Qual o perfil do homem “importante”? Quais são os padrões usados pela nossa cultura para aferir a realização ou a não realização de alguém? No geral, o “homem de sucesso”, que todos reconhecem como importante e realizado, é aquele que tem dinheiro suficiente para concretizar todos os sonhos e fantasias, que tem poder suficiente para ser temido, que tem êxito suficiente para juntar à sua volta multidões de aduladores, que tem fama suficiente para ser invejado, que tem talento suficiente para ser admirado, que tem a pouca vergonha suficiente para dizer ou fazer o que lhe apetece, que tem a vaidade suficiente para se apresentar aos outros como modelo de vida… No entanto, de acordo com a parábola que o Evangelho propõe, o critério fundamental usado por Jesus para definir quem é uma “pessoa de sucesso” é a capacidade de amar o irmão, sobretudo o mais pobre e desprotegido. Para mim, o que é que faz mais sentido: o critério do mundo ou o critério de Deus? Na minha perspectiva, qual é mais útil e necessário: o “homem de sucesso” do mundo ou o “homem de sucesso” de Deus?
• O amor ao irmão é, portanto, uma condição essencial para fazer parte do Reino. Nós cristãos, cidadãos do Reino, temos consciência disso e sentimo-nos responsáveis por todos os irmãos que sofrem? Os que não têm trabalho, nem pão, nem casa, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os imigrantes, perdidos numa realidade cultural e social estranha, vítimas de injustiças e violências, condenados a um trabalho escravo e que, tantas vezes, não respeita a sua dignidade, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os pobres, vítimas de injustiças, que nem sequer têm a possibilidade de recorrer aos tribunais para que lhes seja feita justiça, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os que sobrevivem com pensões de miséria, sem possibilidades de comprar os medicamentos necessários para aliviar os seus padecimentos, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os que estão sozinhos, abandonados por todos, sem amor nem amizade, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os que estão presos a um leito de hospital ou a uma cela de prisão, marginalizados e condenados em vida, podem contar com a nossa solidariedade ativa?
• O Reino de Deus – isto é, esse mundo novo onde reinam os critérios de Deus e que se constrói de acordo com os valores de Deus – é uma semente que Jesus semeou, que os discípulos são chamados a edificar na história (através do amor) e que terá o seu tempo definitivo no mundo que há-de vir. Não esqueçamos, no entanto, este fato essencial: o Reino de Deus está no meio de nós; a nossa missão é fazer com que ele seja uma realidade bem viva e bem presente no nosso mundo. Depende de nós fazer com que o Reino deixe de ser uma miragem, para passar a ser uma realidade a crescer e a transformar o mundo e a vida dos homens.
• Alguém acusou a religião cristã de ser o “ópio do povo”, por pôr as pessoas a sonhar com o mundo que há-de vir, em lugar de as levar a um compromisso efetivo com a transformação do mundo, aqui e agora. Na verdade, nós os cristãos caminhamos ao encontro do mundo que há-de vir, mas de pés bem assentes na terra, atentos à realidade que nos rodeia e preocupados em construir, desde já, um mundo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz. A experiência religiosa não pode, nunca, servir-nos de pretexto para a evasão, para a fuga às responsabilidades, para a demissão das nossas obrigações para com o mundo e para com os irmãos.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho