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I N T E R N A U T A S - M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

SEDUZISTE-ME, SENHOR

22º DOMINGO TEMPO COMUM

SEDUZISTE-ME, SENHOR

31 de Agosto de 2014 - Ano A

SEDUZISTE-ME, SENHOR-José Salviano


Evangelho - Mt 16,21-27

Neste domingo prestamos uma merecida homenagem aos catequistas, aquelesque prestam um santo serviço as nossas Comunidades. Peçamos ao Pai que nos mande mais leigos dispostos a se dedicarem no serviço do Reino, a fim de transmitir a fé e o conhecimento da mensagem de Jesus Cristo às crianças, jovens e adultos.  Leia mais


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É IMPOSSÍVEL SEGUIR JESUS SEM A CRUZ!– Olívia Coutinho

22° DOMINGO COMUM

Dia 31 de Agosto de 2014

Evangelho de Mt 16,21-27

 

A nossa adesão  à Jesus, tem que ser radical, temos estar com Ele pro que der e vier!

A nossa decisão de colocar Jesus  como centro da nossa vida, não acontece de imediato, tudo  vai acontecendo passo a passo,  à medida em que vamos  abrindo o nosso coração para Ele entrar! É o  próprio Jesus quem  nos atrai! 

Quando abrimos o nosso  coração, Jesus vai entrando de mansinho na nossa vida, e quando nos damos conta, já estamos totalmente entregue e dependente Dele, pois Jesus já  tomou conta de todo o nosso ser, já não nos é mais possível viver sem Ele! É a partir desta  nossa  entrega total a Jesus, que o medo da cruz desaparece, dando lugar à coragem para o seguimento a Ele!

Quem faz opção Jesus,  não fica somente no encantamento da fé, no louvor, nas celebrações dominicais, pelo contrário, ele abraça a sua causa!  A missa para ele, não termina  na bênção final, ela continua da porta da Igreja para fora, pois é lá fora, no meio do mundo, que o cristão dá testemunho de Jesus, colocando em prática os seus ensinamentos.

Com os primeiros seguidores de Jesus aconteceu o mesmo que acontece conosco,  a adesão radical deles à Jesus,  não aconteceu de imediato, isto é, não aconteceu  no momento em que eles deixaram tudo para segui-lo, e sim, ao longo da sua caminhada com Ele!

Jesus não ensinava através de teorias, ele mostrava na prática, ou seja, mostrava com a sua vida, como um seu seguidor deveria conduzir a sua vida!  

Podemos perceber claramente, através do evangelho de hoje,  que os discípulos, embora convivendo diretamente com Jesus,  tiveram muitas dificuldades  em entender o seu messianismo!  Na mente deles, Jesus não deveria aceitar um  desfecho tão  trágico para a sua vida!  A  revelação da morte  de Jesus, soou para os discípulos como fracasso.

 Pedro, logo depois de professar a sua fé em Jesus, reconhecendo-O  como o Filho de Deus, demonstrou não estar totalmente pronto para assumir o seu legado, ao querer eliminar a cruz do caminho de Jesus. Dando a  entender, que ele ainda carregava consigo a mentalidade do mundo, alimentando dentro de si, a idéia de um Messias glorioso, porém, sem a cruz! 

Jesus, que conhece o interior das pessoas, percebe de imediato a dificuldade dos discípulos em aceitar o desafio da cruz, e como ensinamento, Jesus repreende  Pedro severamente, uma forma  de fazê-lo compreender, a importância de não fugir da cruz!

Os discípulos, tiveram muitas dificuldades em aceitar o desafio da cruz, eles só foram compreender o sentido da cruz, depois da ressurreição de Jesus! Foi a partir da sua ressurreição,  que eles  abraçaram a cruz, fazendo o mesmo caminho de Jesus, dando a vida pelo evangelho!

Se hoje estamos aqui, buscando um entendimento melhor dos ensinamentos de Jesus, é graças ao testemunho destes primeiros seguidores de Jesus, homens frágeis como nós,  que caindo e levantando, nos deixaram como herança, a mais bela certeza: Jesus é a nossa única opção de vida plena!

         O seguimento à Jesus, inclui à cruz  porque a nossa  adesão a Ele, nos leva a atitudes que contrariam os opositores do projeto de Deus.

Reflitamos:  Se Jesus não tivesse passado  pela cruz, os seus ensinamentos seriam em vão, Ele não passaria de mais um pregador, que passou por este chão!

 Foi pela cruz que  Jesus nos trouxe  a vida que não passa!

 

FIQUE NA PAZ DE JESUS! _ Olívia

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O Evangelho deste Domingo reflete um momento crítico da vida do Senhor Jesus. Ele sabe que será massacrado por seus inimigos, sabe que a vinda do Reino de Deus passaria pelo desastre da cruz. Agora, anuncia isso aos apóstolos: iria sofrer e morrer para ressuscitar. Pedro não compreende como isso possa ser possível, não aceita tal caminho para o Mestre: “Deus não permita tal coisa, Senhor!” Eis que drama, caríssimos: a atitude de Pedro é a de muitos de nós: não compreendemos o caminho do Senhor, seu sofrimento e sua cruz.
Esse caminho do Senhor está presente na nossa vida; e nós não somos capazes de acolhê-lo, de perceber aí o misterioso desígnio de Deus. Nossa lógica, infelizmente, é tão mundana, tão terra-terra, tão presa à humana racionalidade. A dura reprimenda do Senhor a Pedro vale também para nós: “Tu és para mim pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens”. Não nos iludamos: trata-se de duas lógicas sem acordo: não se pode abraçar a sede louca do mundo de se dar bem a qualquer custo, de possuir tudo, de viver sempre no sucesso e no acordo com todos e, ao mesmo tempo, ser fiel ao Evangelho, tão radical, tão contra a corrente. Vale para nós – valerá sempre – o desafio de Jesus: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” Caros, olhem o Cristo, pensem no seu caminho e escutem a palavra do Senhor a nós, seus discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la!” Renunciar-se, tomar a cruz por causa de Jesus... por causa dele! Não há, não pode haver outro caminho para um cristão! Qualquer outra possibilidade é ilusão humana!
Caros meus, estejamos atentos, que o Deus de Jesus – e o próprio Jesus é Deus! – nos coloca em crise. Nosso Deus não é um Deus fácil, manipulável, domesticável: ele seduz, atrai, e sua sedução no coloca em crise porque nos faz pensas as coisas de Deus, não as dos homens e isso nos faz nadar contra a corrente. Por mais que quiséssemos, já não seria possível esquecê-lo, fazer de conta que não o encontramos um dia! É o drama do profeta Jeremias na primeira leitura deste hoje: “Tu me seduziste, Senhor!” É o que afirma o coração do Salmista: "Sois vós, ó Senhor, o meu Deus: a minha alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água! Vosso amor vale mais do que a vida!”
Que fazer meus caros? Por um lado, experimentamos a sede de Deus, a vontade louca de seguir de todo o coração o nosso Senhor Jesus, por outro lado, os apelos de um mundo soberbo e satisfeito consigo mesmo, atanazam o nosso coração... que fazer? Como abraçar sinceramente a lógica do Evangelho? Há só um modo de seguir adiante, de ser cristão de verdade: o caminho da conversão. Não é um caminho fácil: é difícil, doloroso, mas libertador. São Paulo, na segunda leitura de hoje, exorta-nos a tal caminho: “Eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” Compreendem irmãos? Compreendem irmãs? Seguir o Cristo é entrar no seu caminho, é, em união com ele, fazer-se sacrifício agradável a Deus, deixando-se guiar e queimar pelo Espírito do Cristo crucificado e ressuscitado. E o Apóstolo nos previne claramente: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”. Não tomar a forma do mundo, não viver como o mundo, com sua maneira de pensar e de avaliar as coisas. Só assim poderemos compreender a vontade de Deus – e ela passa pela cruz e ressurreição do Senhor!
Caríssimos, pensemos bem! Os cristãos não são mais perseguidos por soldados, já não são crucificados, jogados às feras ou queimados vivos. Hoje, o mundo nos combate invadindo nossa casa e nosso coração com tanta superficialidade e tanto paganismo, acirrando nossos instintos e explorando nossas fraquezas; hoje o mundo nos ataca nos ridicularizando, fazendo crer que o cristianismo é algo do passado, opressor e castrador... Quantos cristãos – até padres, freiras e teólogos – enganam-se e enganam pensando que se pode dialogar com o mundo... O mundo crucificou Jesus; o mundo crucifica o Evangelho; o mundo nos crucificará se formos fiéis ao Senhor. Estamos dispostos a pagar o preço? “O que poderá alguém dar em troca de sua vida?”
A única atitude realmente evangélica diante do mundo é o anúncio inteiro do Cristo, com todas as suas exigências - sem disfarçar, sem esconder, sem se envergonhar... E isso com paciência, com amor, com todo respeito.
Levantemo-nos, meus caros! Sigamos o Senhor até a cruz, para estar com ele na ressurreição. Amém
dom Henrique Soares da Costa
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“Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.”
A narrativa começa com as mesmas palavras que Jesus utilizou para provocar em Pedro uma mudança de atitude: “Se alguém quiser vir depois de mim”. Desta vez, porém, dirige-se a todos os discípulos para explicar-lhes as exigências do seguimento.
A exortação a “tomar a cruz e a negar-se a si mesmo” aparece em outro lugar no Evangelho, referindo-se á oposição e à perseguição que traz consigo seu anúncio. Aqui, aparece como condição do seguimento.
Seguir Jesus significa, antes de tudo, negar-se a si mesmo e tomar a cruz, o que é o mesmo que perder a própria vida para encontrá-la em plenitude.
Os primeiros cristãos utilizaram muito a expressão “tomar a cruz” para expressar a sua união com Jesus em sua Morte e Ressurreição. É muito provável que Jesus, ao se referir à cruz,a veja como símbolo do sofrimento, e os primeiros cristãos deram a essa expressão um sentido mais pleno, relacionando-a com o mistério da Páscoa de Jesus.
No final da narrativa, encontramos as razões que devem ter motivado essa entrega da própria vida a Jesus, situando-a no horizonte do juízo: o importante não é o que ocorre no cenário desse mundo, mas o desenlace final do tribunal de Deus.
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Fogo que anima nossas vidas
Um homem de coração de fogo, que "nos veio do Pai e que a ele retorna: Jesus, o salvador! Jesus, Mestre e Senhor!" São termos de um cântico de igreja. Nos textos da missa de hoje encontramos estes homens de coração de fogo. O profeta Jeremias deixou-se seduzir e ser tomado inteiramente pela Palavra; Pedro e outros tudo deixaram para seguir o Cristo; o própria Cristo é movido pela vontade do Pai, tomado pelo seu amor. É assim que começa nosso relacionamento com Deus: trata-se de deixá-lo tocar nosso coração e nossa vida interior. Isto exige uma grande abertura, uma capacidade total para se incomodar e mudar...
O que acontece neste caso? Uma verdadeira transformação de nosso ser. Como os Romanos, nós somos convidados a renovar nosso modo de agir e de pensar. Jeremias fala, apesar do risco que ele corre; Pedro ainda não mudou sua compreensão do Cristo, mas é chamado a fazê-lo.
Se o encontro com Deus realmente os transforma, homens e mulheres são então capazes de ter coragem; mas, não procuram o sofrimento. Têm apenas o desejo de ser coerente: o fogo que os queima por dentro os pressiona a viver segundo o Evangelho, a ajudar seus irmãos e irmãs a fazer o mesmo. Às vezes, esta busca toma o caminho da Cruz. Do fogo que anima nossas vidas ( a paixão que nos põe em movimento...) com risco de se perder (a paixão que crucifica nossa existência), há apenas um passo. É o passo que rompemos quando decidimos resolutamente, livremente, seguir o Cristo. Deixar-se atingir, deixar-se transformar, ter a coragem da coerência, sabendo que o caminho nunca vai terminar: é assim a vida do verdadeiro discípulo.
Tradução "PrionsenÉglise”

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Participar da Cruz
Seguir Jesus não significa somente estar na companhia dele, mas implica uma participação real de seu destino. Este é um elemento fundamental do seguimento que aperfeiçoa todos os outros. O anúncio da Paixão soa tão estranho aos discípulos que Pedro se sente na obrigação de reconduzir o Mestre ao "status" messiânico, entendido, porém, segundo as idéias populares de seu tempo, o que lhe vale uma réplica duríssima da parte do Mestre: "Afasta‑te de mim, satanás!" Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!”(Mt. 16,22‑23; Me. 8,32‑33). "Afasta‑te de mim, satanás! “recorda a expressão que Jesus usou contra o tentador: "Vai‑te, satanás! "(Mt. 4, 10).
Ora, querendo desviar o Mestre do caminho da cruz e mantê‑lo na perspectiva de um messianismo popular, Pedro faz o jogo do diabo. Todavia, é necessário prestar atenção num pequeno detalhe que aparece no texto grego dos Evangelhos. Enquanto, na tentação do deserto, Jesus disse ao tentador: "Vai‑te, satanás! ", a Pedro ele disse: "Vai‑te atrás de mim, satanás!". É uma expressão que relembra aquela com a qual Jesus o chamou para o seu seguimento juntamente com André, seu irmão, como é narrado em Mt. 4,19 e Me. 1,17: "Vinde após mim". Por conseguinte, na resposta de Jesus a Pedro há, certamente, uma convocação originária. É o Mestre, que percebendo o desvio do discípulo, o reconduz imediatamente ao seguimento. De fato, a frase poderia ser desdobrada nos seguintes termos: "Volta ao teu lugar, discípulo, atrás de mim, no meu seguimento e pára com estas idéias que te tomam aliado de satanás, e te levam a agir como ele". Com efeito, a palavra satanás, na Bíblia, significa opositor, obstáculo que está frontalmente contra, assim como uma pessoa que se coloca cara a cara contra outra pessoa que caminha numa certa direção, impedindo‑lhe a passagem.
A idéia que emerge é, portanto, o reverso de seguimento. E é exatamente isso que Pedro está fazendo: Jesus está seguindo o caminho da cruz, o seu caminho, e Pedro, com a sua intervenção, coloca‑se frontalmente contra, quer impedir‑lhe a passagem, por isso é um satanás, um opositor, um adversário. Mas não foi para isso que Jesus o chamou. Naquele dia em que ele o encontrou à beira do Mar da Galiléia Jesus disse: "Vinde atrás (após) de mim! "Esta é a fonte à qual Pedro deve retomar.
frei Aloísio Antônio de Oliveira OFV Conv
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Se alguém quer me seguir renuncie-se a si mesmo.
A liturgia de hoje centra a atenção nas conseqüências dolorosas do ministério profético e no seguimento de Jesus. Tanto Jeremias como Mateus chamam a atenção para o conflito que tem que enfrentar tanto o profeta como Jesus. A experiência do exílio marcou a vida do povo de Israel. Foi um momento muito doloroso que exigiu repensar a fé no Deus da Aliança. Neste marco histórico se situa o Profeta Jeremias.
Esta passagem coloca em relevo o clamor do profeta porque Deus o seduziu e o forçou, foi objeto da burla de todos e a palavra se tornou motivo de dor e desprezo. Por isso o profeta tentou desimpedir-se da missão, mas a Palavra foi mais forte e, praticamente, o venceu.
A maioria dos profetas bíblicos passaram por experiências similares à de Jeremias. São rejeitados por seus próprios irmãos e pelas autoridades correspondentes. Muitos deles tiveram que sofrer a morte e o desterro. Porém, pode mais a fidelidade a Deus e ao seu Povo que sua própria segurança e bem-estar. A Palavra de Deus age no profeta como um fogo abrasador que não o deixa tranqüilo e o mantém sempre alerta no cumprimento de sua missão.
A segunda leitura, da carta de Paulo aos romanos, utiliza uma linguagem imperativa. O texto serve de enlace ou união com a parte anterior, que é de ordem mais indicativa. O tom da linguagem é exortativo. Fala ao povo, não somente como irmão na fé, mas com a autoridade de Apóstolo. Convida o povo a fazer de seu corpo uma oferenda permanente a Deus.
O verdadeiro culto não é o que se reduz a ritos externos, mas o que procede de uma vida reta e diáfana. O corpo, veículo da vida interior, deve ser um canto de louvor e gratidão a Deus. Nisto consistia a conversão para Paulo: em uma vida totalmente transformada pelo Espírito de Deus, na mudança de mentalidade, de valores, de horizonte. Somente assim poderão ter critérios de discernimento para buscar, encontrar e realizar a vontade de Deus.
No evangelho encontramos um belo esquema catequético "sobre o discipulado como seguimento de Jesus até a cruz". Jesus coloca de manifesto a seus discípulos que o caminho da ressurreição está estritamente vinculado à experiência dolorosa da cruz. O núcleo principal é o primeiro anúncio da paixão. Porém, ainda os discípulos, simbolizados na pessoa de Pedro, não compreenderam esta realidade.
Eles estão convencidos do messianismo glorioso de Jesus que se situa dentro das expectativas messiânicas do momento. Jesus rejeita enfaticamente esta proposta, pois a vontade do Pai não coincide com a expectativa de Pedro e dos discípulos. Por isso Pedro aparece como instrumento de Satanás diante de Jesus, para obstaculizar sua missão.
O mestre convida o discípulo a segui-lo porque ainda não alcançou a maturidade do discípulo. Na seqüência Jesus se dirige a todos os discípulos para dizer a eles que o caminho do seguimento por parte do discípulo também comporta a cruz.
Não há verdadeiro discipulado se não se assume o mesmo caminho do Mestre. O anuncio do evangelho traz consigo perseguição e sofrimento. Tomar a cruz significa participar da morte e ressurreição de Jesus. A perda da vida por causa de Jesus habilita o discípulo para alcançá-la em plenitude junto de Deus.
No batismo fomos consagrados sacerdotes e profetas e reis. Portanto, a dimensão profética de nossa fé é intrínseca à consagração batismal. Hoje não podemos prescindir do profetismo no seguimento de Jesus. E sabemos que as conseqüências do profetismo, vinculado estreitamente à missão evangelizadora, são a oposição, a perseguição, a rejeição e o martírio.
Muitos homens e mulheres, em distintas partes do mundo, doaram a vida pela causa da fé e pela defesa dos valores evangélicos. Se queremos seguir Jesus em fidelidade, teremos que enfrentar muitas contradições, caminhar na contramão do que propõe a ordem estabelecida, a cultura imperante e a globalização do mercado, que não é outra coisa senão a globalização da exclusão.
Gostaríamos de viver um cristianismo cômodo, sem sobressaltos, sem conflitos. Porém, Jesus é claro em seu convite: é preciso tomar a cruz, arriscar a vida, perder os privilégios e seguranças que a sociedade nos oferece, se queremos ser fiéis ao evangelho.
É bom o questionamento: Como vivemos na família e na comunidade cristã a dimensão profética de nosso batismo? Estamos dispostos a correr os riscos que implica o seguimento de Jesus? Conhecemos pessoas que viveram a experiência do martírio pelo evangelho? Será que já não é tempo para mártires, ou o que é para mártires de outra maneira?


Pedro tem uma presença marcante neste Evangelho. Pedro quer mostrar seu grande amor por Jesus ao tentar livrá-lo do sofrimento. Pedro não quer o sofrimento para si, nem para o Mestre. Assim como todo povo, Pedro também esperava encontrar no Messias um rei poderoso, vencedor e dominador.
O messias de Pedro e do povo, é exatamente o oposto daquele que estava nos Planos de Deus. Jesus estava disposto a cumprir o Plano de Seu Pai, um plano que incluía sofrimento, dor e, até mesmo a sua morte.
No evangelho de hoje Mateus nos fala do sofrimento, fala também que não existe vida eterna sem sacrifício, sem renúncia e sem cruz. São essas as moedas utilizadas para adquirirmos o passaporte para uma eternidade feliz.
Certamente Pedro ama Jesus e, por amor, quer preservá-lo de qualquer sofrimento. Não só quer preservar Jesus, como também, não quer sofrer. Esse comportamento de Pedro, o seu modo de pensar é condenado por Jesus.
 “Vai para longe, satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim!” Aquele que há poucos dias fora chamado de pedra angular, agora se situava como uma “pedra de tropeço”. Esses altos e baixos eram muito comuns em Pedro, homem simples, sincero e extremamente humano.
É muito difícil para Pedro e para todas aquelas pessoas, entender e aceitar que Jesus não é um Messias glorioso e destruidor. Como aceitar um Rei sem um exército arrasador, sem armas e sem desejo de domínio? Realmente, não é fácil de entender.
Jesus é um Rei diferente. É o Messias pobre, servo e sofredor, que veio para salvar e não para destruir. Quer salvar a todos. Veio para fazer cumprir a vontade do Pai que espera ter todos os seus filhos ao seu lado.
Jesus nos ensina o caminho para chegar ao Paraíso. Mais uma vez deixa claro que é fácil chegar lá... basta segui-lo! Aquele que é a Verdade e a Vida, também é o Caminho. “Renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” – disse.
Estas palavras de Jesus se traduzem como séria advertência para aqueles que pretendem trilhar seus caminhos. Renunciar, tomar a cruz e seguir. Estes três pontos são importantíssimos na vida do seguidor de Cristo.
Renunciar: significa deixar de lado tudo aquilo que impede a nossa aproximação com os pobres, os afastados e marginalizados. Renunciar a si mesmo é doar-se totalmente em favor daqueles que, além de alimentos, necessitam também de uma palavra amiga e de amor.
Tomar a cruz: significa encarar de frente os problemas do dia-a-dia, entregar a Deus as doenças, lutas e sacrifícios. Significa transformar esses momentos difíceis em orações pela santificação das nossas almas.
E, finalizando, seguir Jesus é acreditar e aceitar sua proposta de vida. É viver o evangelho. É praticar a justiça, a fraternidade e o perdão. Seguir Jesus significa viver o amor.
Jorge Lorente

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Participar da cruz
A partir dessa época, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e ressurgisse ao terceiro dia. Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá!”. Ele, porém, voltando-se para Pedro, disse: “Afasta-te de mim Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!”.
Então disse Jesus aos seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro, mas arruinar a sua vida? Ou que poderá o homem dar em troca de sua vida?
Pois o Filho do Homem há de vir na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com o seu comportamento”.
Neste trecho evangélico foi reelaborado e fundido material que originalmente pertencia a unidades distintas. Por causa dessa reelaboração, o trecho assumiu a forma de um bloco unitário e foi em relação antitética com o trecho imediatamente anterior da confissão de Pedro (16,13-20). As correspondências entre os dois blocos são as seguintes:
- Enquanto no versículo 18 Pedro é chamado de pedra fundamental, no versículo 23 o mesmo Pedro é definido como pedra de tropeço;
- Enquanto no versículo 17 se dizia que Pedro gozara de uma revelação do Pai, no versículo 23 o mesmo Pedro é admoestado porque não pensa as coisas de Deus;
- No versículo 13 o bloco da confissão de Pedro começara com a pergunta sobre aquilo que pensava o povo sobre o Filho do Homem; do mesmo modo, no versículo 27, o segundo bloco se encerra com o mesmo tema do Filho do Homem que virá na glória.
Portanto, a nota dominante em nosso trecho é o contraste que há entre os pensamentos e o projeto de Deus, aos quais o Filho do Homem Jesus Cristo adere totalmente, e os pensamentos e as aspirações dos homens expressas por Pedro.
O contraste diz respeito, principalmente, à realização do projeto messiânico, cujo protagonista é Jesus. No projeto de Deus, Ele deve ir a Jerusalém, onde sofrerá muito, será morto e ressuscitará no terceiro dia. Pedro, que expressa os pensamentos dos homens influenciados por Satanás, se contrapõe claramente a esse projeto. O contraste se encerra com as palavras de Jesus que denuncia a distância intransponível entre as duas posições.
O contraste principal se prolonga no que diz respeito diretamente àqueles que querem seguir a Jesus, os seus discípulos. Eles, na vida pessoal, diz Jesus, devem manter distância daquilo que eram antes de tê-lo encontrado (“negar a si mesmo”), devem estar prontos para enfrentar a morte (“tomar a cruz”, “perder a própria vida”) para não se separarem de Cristo e poderem assim participar da glória de sua ressurreição.
A vida dos cristãos é, portanto, classificada como uma existência marcada pela cruz de Cristo.
o milite
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“Seduziste-me, Senhor!”
Ansioso vos busco.
O profeta Jeremias é uma das expressões do Servo Sofredor que luta para libertar o povo do grande pecado que é firmar-se somente nas estruturas visíveis. Jeremias sofre por isso, pois está cansado em bater de frente com as autoridades e o próprio povo. Deus manda que tenha coragem, pois fez dele um muro de bronze… pois, lutarão contra ti (Jr. 1,18). O templo, que era lugar do encontro com Deus e estímulo a uma vida de fidelidade, tornou-se um objeto somente de exterioridade, como um amuleto supersticioso. Jeremias ataca esse culto idolátrico (i.é usar Deus) das autoridades e do povo. O profeta conhece a vontade divina e a ela se entrega como quem se deixa possuir. A Palavra de Deus era um fogo que estava dentro dele com uma força que ele não conseguia reprimir. Este zelo por Deus e pela fé o faz continuar fiel na perseguição, nos sofrimentos e nas fragilidades. Não arreda o pé. A experiência de Jeremias é explicitada pelo salmo. Assim acontece quando há uma opção clara por Deus que se torna a fonte da vida e a meta de tudo o que se faz: “Deus, desde a aurora, ansioso vos busco. Minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água” (Sl. 82). É o momento de analisarmos nossa opção de fé. Temos dois tipos de religião cristã: O que faz coisas espirituais boas, e o que vive em Deus. Sem essa busca enlouquecida de Deus, jamais, poderemos fazer da Palavra fonte de vida; dos sacramentos um encontro com Deus; da oração um diálogo com Deus, e do amor a razão da vida. Não existe uma fé sem Deus. Então nós fazemos como os contemporâneos de Jeremias tendo uma religião baseada numa tradição ou em ideologias. Defendemos princípios, mas não temos dentro de nós um fogo que nos consome que é o próprio Deus.
Tome sua cruz
Deixar-se seduzir por Deus tem como resposta a cruz de Cristo. Chamamos a cruz de sinal do cristão. Jesus começa a catequese mais aprofundada dos discípulos dizendo que sua morte é parte de sua missão. Pedro quer tirá-lo do caminho e recebe a reprimenda como dirigida a uma atitude de quem atrapalha o caminho de Jesus. Jesus tem em mente sua missão de Servo sofredor e Pedro a visão do Messias glorioso. O fundamental para esse encontro com Deus em Cristo que leva a cruz é a abnegação. Não é perder-se, mas buscar o tudo. Ganhando a alma, ganhamos tudo. Perdendo a alma, perdemos tudo. Toda a fortuna do mundo não vale a conquista do próprio coração, da própria vida. Ganhar a alma é ter a conduta de quem descobriu o verdadeiro valor da vida, o Reino. Não ficamos sozinhos, pois rezamos: “Minha alma se agarra em vós; com poder vossa mão me sustenta” (Sl. 62).
Culto espiritual
Pela vida em Cristo e no Espírito podemos ser um sacrifício espiritual. O sacrifício espiritual acontece em nosso corpo, por isso Paulo diz: “Exorto a vos oferecerdes como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual”(Rm. 12,1). O culto cristão é em primeiro lugar e fundamentalmente no interior. Sem esse o culto público perde seu conteúdo. As atitudes fundadas no Espírito de Jesus são as oferendas. Por isso Paulo insiste: “Não vos conformeis com o mundo… mas transformai-vos renovando vossa maneira de pensar… distinguindo qual é a vontade de Deus” (2). O que vemos é as pessoas conformarem a fé à mentalidade do mundo. Se tivermos a sedução de Deus, vencemos.


1. Jeremias é uma das expressões do Servo Sofredor que luta para libertar o povo do mal. Reconhece a vontade divina e a ela se entrega. A Palavra de Deus é um fogo que está dentro de seus ossos. A fé o faz fiel a Deus e não recua. Tem a opção clara por Deus. É preciso a busca por Deus. Não há fé sem Deus. Não pode ser baseada em tradições e ideologias.
2. Deixar-se seduzir é assumir a Cruz como fruto da abnegação que dá a Deus o valor fundamental. Perder a alma é perder tudo. Ganhar significa ter a conduta de quem descobriu o verdadeiro valor da vida, o Reino.
3. Pela vida em Cristo e no Espírito podemos ser um sacrifício espiritual que acontece em nosso corpo. O culto cristão se faz primeiro no interior. As atitudes fundadas no Espírito são as oferendas. A meta é não se conformar com o mundo, mas transformar-se renovando o modo de pensar. Se tivermos a sedução de Deus, vencemos.
Saco vazio não para em pé.
Jesus, na palavra de hoje, ensina o sentido da vida: Deixar tudo para ter tudo. Os bens materiais são um nada. Vemos tantos grandões, endinheirados e poderosos deitados no caixão. Não levam nada! Nadinha de tudo. Nem reclamam.
Os que escolhem Jesus perdem muitas coisas, mas ganham o Tudo. É preciso manter esta escolha que deve ser total. Só assim será consistente.
O profeta Jeremias era um fraco, dizem que era medroso. Para mim, ele era um sofredor forte que tirava sua resistência na escolha que fez de ser de Deus. Isso não o deixava fracassar, mesmo quando bonita demais: Disse comigo: “Não quero mais me lembrar disso, nem falar mais em nome Dele”. Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo”.
Sem esse Deus dentro de nós, não paramos em pé. Saco vazio não para em pé. Cheio das maldades do mundo. Não dobra.
padre Luiz Carlos de Oliveira

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“Religião pura”
Pureza do coração
Retornamos ao evangelho de Marcos, depois de refletir o capítulo 6º do evangelho de S. João. Continuamos o conhecimento da pessoa e da doutrina de Jesus. Ele é nossa paz, e deixa-nos em paz, orientando-nos na vivência dos conflitos que encontramos na Igreja. Parte dos problemas é a relação entre fé e tradição, ensinamento divino e ensinamentos humanos. Lemos no evangelho de Marcos (7,1-23) que os fariseus acusavam os discípulos de comerem com as mãos impuras, isto é, sem as ter lavado (v. 2). A pureza, a que se refere, não é a limpeza ou higiene pessoal, mas a pureza ritual, quer dizer, exterior destinada ao culto. Os cristãos judeus estavam entre a tensão das tradições e a religião baseada na pureza do coração apresentada por Jesus. Ele não está contra a lei, mas contra a mentalidade dos anciãos na interpretação da lei que destruía a fé pura. Jesus critica os que anulam o mandamento de Deus pela tradição (Mt. 15,6). O livro do Deuteronômio manda não colocar outro mandamento (Dt. 4,2). Mas não se toma conhecimento pois a tradição pesa mais. É o mesmo que vemos também na Igreja. Muitas vezes damos mais valor aos ritos e às normas secundárias do que ao fundamental. É muito comum a gente ouvir que ‘sempre se fez assim’. A moral que Jesus apresenta é opção por Ele e não por ritos que estão fora da Palavra de Deus. Jesus não é contra o rito, mas o ritualismo. Setores da Igreja têm se ligado a ele. Depois de um tempo de liberdade coloca em risco o dinamismo que poderia nos ajudar a crescer. Tiago faz o convite à religião pura da solidariedade e não do ritualismo que acalma nossa consciência mas não põe em prática a Palavra.
Deus próximo
O povo tinha consciência de ser o povo escolhido e que tinha Deus presente como lemos no Deuteronômio: “Qual é a grande nação que tenha os seus deuses tão próximos, como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos?” (Dt. 4,7). Lei de Deus é o grande testemunho da sabedoria do povo. Ela é a expressão de sua vontade que é a justiça (v. 8). Esta presença de Deus o faz missionário promotor da justiça entre outros povos. É uma escola para os povos. A sabedoria justifica sua existência como povo. A religião só vai manifestar a presença de Deus se o fizer pela prática de leis justas que respeitem o direito. A Igreja também, mesmo não tendo poder internacional, pela sua vida e missão, pode educar os povos à criação da consciência de justiça, da promoção da pessoa e da presença de Deus.
Praticantes da Palavra
Tiago ensina que o acolhimento da Palavra é princípio de Salvação, pois ela se identifica com Aquele que a comunica: “Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada e que é capaz de salvar as vossas almas. Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes (Tg. 1,21-22). A prática da Palavra se traduz no cuidado que temos para com os necessitados: “Religião pura e sem mancha é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações” (Tg. 1,27). A Palavra será sempre a orientadora da verdadeira religião, ensinando a não dar valor às tradições que anulam a Verdade e estimulando à prática da solidariedade. Ela forma o coração para que dele saiam não impurezas, mas as obras do amor. Sacrificar a prática do amor por tradições egoístas não condiz com o projeto de Jesus.


Refletimos sobre o capítulo seis de são João.Voltamos ao evangelho de Marcos. Refletimos hoje sobre a questão da pureza ritual e a pureza do coração. A crítica de Jesus não é quanto à higiene, mas o ritualismo. Os cristãos viviam esse problema nas comunidades. É a tensão entre os preceitos divinos e os preceitos humanos que obscurecem a lei dando valor ao secundário.
O povo tem consciência da presença de Deus que, através de sua lei ensina a sabedoria também aos outros povos. A sabedoria perante os povos justifica sua existência como povo. A religião só vai manifestar a presença de Deus, se o fizer pela prática de leis justas. A Igreja tem como missão educar os povos à criação da consciência da justiça, da promoção da pessoa e da presença de Deus.
Tiago ensina que o acolhimento da Palavra é princípio de Salvação e a religião pura existe só na pratica da solidariedade. Não basta a fé. São necessárias as obras da caridade. A Palavra orienta a superar o ritualismo e chegar à pureza do coração de onde nascem as boas obras contrárias às imundícies.
Higiene espiritual
No tempo de Jesus os judeus tinham muita preocupação com as questões da purificação ritual. Não se tratava da purificação do coração, mas das coisas. Assim poderiam praticar a religião direitinho.
Jesus critica este modo de ser, pois o importante é a pureza do coração. Dali é que saem as podridões. E insiste com as palavras do Profeta Isaías: Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto; pois o que ensinam são mandamentos humanos” (Is. 29,13).
Moisés alerta o povo a que cumpra os mandamentos (Dt. 4,1). São Tiago acrescenta: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é está: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg. 1,27).
É uma boa chamada para nós, pois, muitas vezes damos valor ao
padre Luiz Carlos de Oliveira
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Primeira leitura: Jeremias 20,7-9
Este texto é uma parte de uma das chamadas «confissões de Jeremias», as dolorosas lamentações do Profeta numa situação tremendamente dramática, após a trágica morte do rei Josias; prisioneiro da paixão por Deus, que o leva ao cumprimento fiel da sua espinhosa missão profética, Jeremias sente a repugnância instintiva do sofrimento que este desempenho lhe causa, pois isto era o pretexto para os seus adversários o acusarem de ser ele o culpado de todas as desgraças que desabavam sobre o povo, desgraças que haviam de culminar na conquista e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor em 587 a. C. e no exílio de Babilónia. Jeremias chega ao ponto de, em dolorosos desabafos, amaldiçoar a sua vida, mas, ao mesmo tempo, mostrando uma inquebrantável confiança em Deus. Deixou-nos os mais belos textos literários que exprimem o drama da dor humana de um homem de fé: a fina e delicada sensibilidade de Jeremias como que se revolta, chega ao paroxismo e desata em doridos desabafos que se devem entender não como gritos de revolta, mas como queixumes ditados pela confiança e abandono nas mãos do Senhor. Deste texto depreende-se claramente a sobrenaturalidade da sua vocação profética: se este carisma fosse algo de imanente, não faria sentido que se queixasse a Deus de o ter seduzido – «Vós me seduziste, Senhor» (v. 7) – e de não conseguir dominar o impulso interior que o levava a profetizar: «mas havia no meu coração um fogo ardente… Procurava contê-lo, mas não podia» (v. 9). Pelas provações que teve de sofrer, o profeta celibatário, é considerado como uma figura de Cristo, casto e sofredor.
A notável obra do profeta de Anatot encontra-se muito desordenada, sem uma sequência natural, em parte ter sido mandada queimar pelo rei Joaquim; os seus oráculos, postos por escrito pelo seu secretário Baruc, foram recolhidos de modo muito disperso, como é fácil de verificar. As confissões de Jeremias encontram-se em: Jr. 11,18 – 12,6; 15,10-21; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18.
Segunda leitura: Romanos 12,1-2
Aqui Paulo começa a parte moral ou exortatória (12–15) da sua epístola, com a energia própria da sua autoridade de Apóstolo dos gentios. Foram precisamente estas palavras que deram ao pecador Agostinho para a sua conversão definitiva (Confissões).
1 - «Vos ofereçais a vós mesmos como vítima…». Este apelo, com que são Paulo inicia a parte moral ou parenética da epístola, está em perfeita consonância com aquele de são Pedro (cf. 1Pe. 2,5): pode-se ver aqui uma bela exortação a exercitarmos a alma sacerdotal vivendo o «culto racional», isto é, espiritual, de que fala; é um obséquio da mente a Deus, próprio do sacerdócio batismal, comum a todos os fiéis. «A vós mesmos», à letra, «os vossos corpos», não no sentido de «o organismo físico do corpo humano», mas no sentido de «a própria pessoa», como neste caso e noutros se entende o termo sôma.
2 - «Não vos conformeis com este mundo», isto é, o mundo em oposição aos planos de Deus, não propriamente as realidades mundanas, mas o «mundanismo», que a 1ª de João sintetiza em «concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e estilo de vida orgulhoso» (1Jo 2,16). Conformar-se com este mundo é amoldar-se ao estilo de vida mundana, adotar a sua escala de valores.
Evangelho: Mateus 16,21-27
Aqui começa o que se pode considerar a 2ª parte do ministério de Jesus, em que Ele é apresentado em Mateus a caminho de Jerusalém (Mt. 16,21 – 20,34), que é o caminho da Cruz, uma dura realidade que Ele «começou a explicar» (v. 21), depois que estavam suficientemente seguros de que Jesus era o Messias (cf. Mt. 16,16).
23 - «Vai-te daqui, Satanás». Pedro faz o mesmo papel do diabo, ao tentar desviar Jesus da sua missão, por isso ouve a mesma resposta (cf. Mt. 4,10). E ouve estas duras palavras, depois de, pouco antes, ter sido proclamado «bem-aventurado» (Mt. 16,17); então, tinha-se deixado mover pelo espírito de Deus; e agora, pelo seu próprio espírito.
24-27 - Esta passagem evangélica, em termos fortemente paradoxais – um recurso semítico frequente em Jesus para chamar a atenção para um ensinamento importante e a não esquecer –, é uma daquelas que todos os cristãos deviam saber de cor, a par com as outras fórmulas do catecismo (cf.Cathechesitradendæ). Aceitar e abraçar a cruz é fundamental para o homem alcançar a salvação: para viver é preciso morrer. O fim do homem é o próprio Deus, não é gozar dos bens deste mundo, que são puros meios. Para se chegar a Deus é preciso renegar-se a si mesmo, renunciando ao comodismo, egoísmo, apego aos bens terrenos, e «tomar a sua cruz», abraçando os sacrifícios que acarreta o dever bem cumprido. Na expressão do Catecismo da Igreja Católica, no nº 2015: «O caminho da perfeição passa pela Cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual. O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças».
Sugestões para a homilia
Dimensão profética do batismo
A liturgia de hoje centra a atenção sobre as consequências dolorosas do ministério profético e do seguimento de Jesus. Tanto Jeremias como Mateus chamam a atenção sobre o conflito que o profeta e também Jesus devem enfrentar.
Seduzido por Deus
A experiência do exílio marcou a vida do povo de Israel. Foi um momento muito doloroso que exigiu traçar sua fé no Deus da Aliança. Nesse marco histórico encontra-se o Profeta Jeremias. Esta passagem põe em destaque o clamor do profeta porque Deus o seduziu e o forçou, foi objeto de zombaria de todos e a palavra foi motivo de dor e desprezo. Por isso o profeta quis escapar da missão, mas a Palavra foi mais forte e, praticamente, o venceu.
A maioria dos profetas bíblicos sofreu experiências similares às de Jeremias. São rechaçados pelos próprios irmãos e pelas autoridades correspondentes. Muitos deles sofreram a morte ou o desterro. No entanto, a fidelidade a Deus e a seu Povo foi mais forte que sua própria segurança e bem-estar. A Palavra de Deus age no profeta como um fogo abrasador que não o deixa tranquilo e o mantém sempre alerta no cumprimento de sua missão.
Renovação interior
A segunda leitura, da carta de Paulo aos cristãos de Roma, utiliza uma linguagem imperativa. São Paulo fala-lhes não só como irmão na fé, mas com a autoridade de Apóstolo. Convida-os a fazer do seu corpo uma oferenda permanente a Deus. O verdadeiro culto não é o que se reduz a ritos externos, mas o que procede de uma vida reta e transparente. O corpo, veículo da vida interior, deve ser um canto de louvor e gratidão a Deus. Nisto consiste a conversão para Paulo: numa vida totalmente transformada pelo Espírito de Deus, na mudança de mentalidade, de valores, de horizonte. Só assim se poderão ter critérios de discernimento para buscar, encontrar e realizar a vontade de Deus.
Seguimento até à cruz
No Evangelho encontramos um belo esquema catequético sobre o seguimento de Jesus até a cruz. Jesus manifesta aos seus discípulos que o caminho da ressurreição está estritamente vinculado a experiência dolorosa da cruz. O núcleo principal é o primeiro anúncio da paixão. No entanto, os discípulos, simbolizados pela pessoa de Pedro, não compreenderam esta realidade. Estão convencidos do messianismo glorioso de Jesus que se coloca dentro das expectativas messiânicas do momento. Jesus recusa enfaticamente esta proposta, pois a vontade do Pai não coincide com a expectativa de Pedro e dos discípulos.
Os discípulos são convidados pelo Mestre a continuarem seu caminho porque ainda não alcançaram a maturidade própria de discípulos. Imediatamente Jesus dirige-se a todos eles para assinalar que o caminho do seguimento também abarca a cruz. Não existe verdadeiro discipulado se não se assume o mesmo caminho do Mestre. O anúncio do evangelho traz consigo perseguição e sofrimento. Tomar a cruz significa participar na morte e ressurreição de Jesus. Perder a vida por causa de Jesus habilita o discípulo para alcançá-la em plenitude junto de Deus.
Dimensão profética do batismo
No batismo fomos consagrados sacerdotes e reis. Portanto a dimensão profética de nossa fé é intrínseca à consagração batismal. Hoje não podemos prescindir da dimensão profética no seguimento de Jesus. E sabemos que as consequências do profetismo, vinculado estreitamente à missão evangelizadora, são a oposição, a perseguição, o desprezo e o martírio. Muitos homens e mulheres em distintas partes do mundo perderam a vida pela fé e pela defesa dos valores evangélicos. Se quisermos seguir a Jesus na fidelidade deveremos enfrentar muitas contradições, caminhar em contramão daquilo que propõe a ordem estabelecida, a cultura dominante e a globalização do mercado – que não é outra coisa senão a globalização da exclusão.
Desejaríamos viver um cristianismo cômodo, sem sobressaltos, sem conflitos. Mas Jesus é claro no seu convite: é preciso tomar sua cruz, arriscar a vida, perder os privilégios e seguranças oferecidos pela sociedade se quisermos ser fiéis ao Evangelho.
Como vivemos na nossa família e na comunidade cristã a dimensão profética do nosso batismo? Estamos dispostos a correr os riscos exigidos pelo seguimento de Jesus?
Nuno Westwood - Geraldo Morujão
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A presença da cruz
A palavra de são Pedro, proclamando que Jesus era o Messias "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" - ficou pairando no ambiente dos apóstolos como uma estrela fulgurante de esperança. Sobretudo por ter sido ela confirmada por Jesus, com a declaração de que era uma palavra inspirada pelo Pai que está no Céu. Mas, precisamente para que esse entusiasmo não fosse desviado para caminhos de uma falsa interpretação, Jesus, com a sabedoria pedagógica que lhe era própria, achou necessário fazer um esclarecimento.
Ele era, sim, o Messias. Não, porém, o Messias político e triunfador que estava no pensamento da maioria dos judeus. Seu messianismo era o que tinha sido anunciado pelos profetas: incluía a dor, o sofrimento, a morte. O Rei-Messias era ao mesmo tempo o Servo de Javé, o sofredor, das profecias de Isaías.
Jesus o prediz com todos os pormenores: "Era necessário que Ele fosse a Jerusalém - pois nenhum profeta morria fora de Jerusalém, como o próprio Jesus tinha certo dia mandado dizer a Herodes Ântipas (Lc. 13,33) - para sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes, e dos escribas; que fosse condenado à morte e que ressuscitasse ao terceiro dia" (Mt. 16,21).
Era a predição da longa caminhada do sofrimento, desde o Getsêmani, até o Sinédrio e os tribunais de Herodes e de Pilatos, a clamorosa injustiça da sentença de morte, a flagelação, a cruz, o Calvário, a morte. Para Jesus tudo isso estava presente muito claro no seu espírito. E Ele quis dizê-Io de maneira muito explícita, para que não ficasse nenhuma dúvida.
Mas também ficou bem claro que ao terceiro dia ressuscitaria. Tem-se nítida a impressão de que os apóstolos não prestaram atenção nessa palavra final, que iluminava de glória todo o caminho anterior do sofrimento. Isso aparece com toda a evidência em São Pedro, que reclamou veementemente contra a idéia de que Jesus ia sofrer e morrer.
Ele que, inspirado pelo Pai do céu, tinha proclamado com tanto entusiasmo que Jesus era o Messias, agora passa para o extremo oposto e é movido por um espírito de quem "não entende das coisas de Deus". "Deus te livre disso! - foi como ele disse, tomando Jesus à parte - Que isso não te aconteça! (Ibid. 22). No fundo, como nota São Jerônimo, ele estava sendo movido pelo seu desmesurado amor a Jesus.
De certo modo, o amor tentava suplantara razão. Por isso mesmo, a reação de Jesus foi sumamente enérgica, para cortar o mal pela raiz: "Retira-te de mim, Satanás, tu és para mim uma pedra de tropeço, pois teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens" (v. 23). São Pedro estava agindo com um espírito igual ao do Tentador ("satanás" quer dizer "adversário", "tentador") que, no deserto um dia tinha procurado desviar Jesus de seu caminho.
Tendo como pano de fundo a "via-sacra" que fizera antever, Jesus continuou: "Se alguém quer vir em meu seguimento, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". E disse mais ainda: "Quem quiser salvar sua vida, perdê-Ia-á; mas quem perder a vida por amor de mim, encontrá-la-á de novo" (vs. 24-25). São Lucas refere a palavra de Jesus em termos ainda mais rígidos: "Quem não toma sua cruz e não me acompanha, não pode ser meu discípulo" (Lc. 14,27). Não é cristão quem não tiver espírito de abnegação e renúncia.
E, para encorajar-nos, aí está Jesus à nossa frente, levando nos ombros a cruz. Até para o equilíbrio da vida na sociedade, nesta etapa temporal que estamos vivendo, a capacidade de renúncia é necessária. A corrida ao  prazer e ao comodismo é o que vai desgastando os valores da sociedade. A capacidade de enfrentar os sofrimentos na paciência e na perseverança é o que faz a grandeza das mães, dos mestres, dos pastores e de todos quantos têm alguma responsabilidade de presença construtiva na sociedade.
Sem uma grande dose de renúncia, nada de bom se procurará construir. No fogo é que se purifica o ouro. Quem não quiser sofrer, recusa- se a ser um dia coroado. Pois "o Filho do homem virá um dia na glória de seu Pai, com seus anjos, e retribuirá a cada um segundo as suas obras" (Mt. 16,26).
padre Lucas de Paula Almeida, CM
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O caminho da Cruz
A Liturgia convida os seguidores do Senhor a descobrirem a "loucura da cruz" e apresenta dois exemplos: Jeremias e Pedro.
Na 1ª leitura, Jeremias descreve sua experiência de cruz. (Jr. 20,7-9)
"Seduzido" pelo Senhor, colocou toda a sua vida a serviço de Deus. Nesse caminho conheceu o sofrimento, a solidão, a perseguição. Teve a tentação de largar tudo, mas não desistiu: "Senti dentro de mim um fogo ardente a me penetrar!..."
É o grito humano de um coração dolorido, marcado pela incompreensão e pelo aparente fracasso na missão... Diante do sofrimento desanima, mas logo se reanima, movido por uma grande paixão por Deus. É a experiência de todos os que acolhem a Palavra do Senhor e vivem em coerência com os valores de Deus
Na 2ª leitura, Paulo convida os cristãos a oferecerem a própria vida a Deus. Esse é o verdadeiro culto que agrada a Deus. (Rm. 12,1-2)
No Evangelho, Jesus anuncia aos discípulos a sua paixão e cruz e avisa que o caminho dos discípulos é semelhante. (Mt. 16,21-27)
Pedro não concorda e começa a "repreendê-lo". Jesus rejeita energicamente as insinuações de Pedro e diz: "Afasta-se de mim, Satanás... não pensas as coisas de Deus...” E acrescenta: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga".
Nós temos facilidade em aceitar a cruz de Jesus, mas temos dificuldade, mesmo com fé, em aceitar a nossa cruz no nosso dia a dia.
A experiência dos catequistas
Como Jeremias e de Pedro, eles se deixam "seduzir" por Deus e aceitam cumprir essa grande missão. São inevitáveis as dificuldades, os sofrimentos e as perseguições. Não obstante tudo isso, no final estão convencidas que valeu a pena.
No dia do catequista, gostaria de aprofundar um tema muito atual: como devem ser os catequistas para os novos tempos?
O grande desafio é conseguir chegar até o coração das crianças e dos jovens do mundo atual, que não dizem mais amém a tudo.
Uma nova catequese
Nos últimos anos, a Igreja está "buscando" novos rumos e novos métodos para responder aos desafios do mundo presente.
Não pode ser uma "escola" para receber o diploma de um Sacramento.
Não pode se reduzir ao estudo de um "livro" (em vários volumes), mas um processo sistemático e progressivo da fé e da vida cristã. "Cristianismo consiste em reconhecer a pessoa de Jesus Cristo e vivê-lo"
Para isso, "é condição indispensável o conhecimento profundo da Palavra de Deus" (DA 244 e DA 247). Deve ser um Caminho para o discipulado, na formação da fé cristã na família e na comunidade eclesial. Daí a importância da formação dos catequistas.
Precisa haver atenção maior na formação de catequistas, tanto da paróquia em oferecer meios atualizados e locais adequados, tanto dos catequistas em buscar métodos novos e mais eficientes de catequizar. Não basta treinar. Deve ser um processo progressivo e permanente de formação.
E a inculturação deve estar presente na Catequese, descobrindo o modo de pensar e de agir da criança e do jovem de hoje. É a porta de entrada para um começo de conversa...
A presença da família na Catequese é fundamental. Falou-se muito de sobre a catequese familiar seria o ideal. Mas as crianças que não têm família como ficaria?
E as que têm, será que todas estariam dispostas ou em condições nesse trabalho?
Os catequistas não devem substituir os pais, apenas complementar...
Mas, a catequese, sem o apoio dos pais, fica profundamente prejudicado.
A melhor lição de catequese é dada pela alegria e pelo entusiasmo, com que os pais vivem os valores da fé e os ensinamentos de Cristo e a profunda experiência de Deus dos catequistas.
E a comunidade deve ser um lugar privilegiado dessa experiência, sobretudo na celebração dominical da eucaristia.
Catequistas, vocês percebem como são importantes num mundo onde todos estão meio angustiados, até mesmo as crianças. Devem ser um sinal de salvação, que é uma coisa acolhedora. Salvação não é um código de leis, mas um ato de amor de Deus, que abraça as pessoas. E o catequista deve ter essa cara de salvação.
O mundo precisa disso e o catequista é uma pessoa fantástica, já que faz essa coisa rara no mundo de hoje: ele é "gratuito".
Não é gratuito só porque não cobra pelo seu trabalho, mas porque gosta de se dar.
Deve ser feliz por ser o que é, e ajudar a própria Igreja a perceber o quanto ela também tem que ser assim.
Catequistas, obrigado, porque vocês também se deixaram "seduzir" pelo Senhor...
O autor sagrado lhes garante: "Felizes os pés que andam para anunciar boas novas".
padre Antônio Geraldo Dalla Costa

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Partilhar a cruz, escolha missionária de Cristo
Foi esplêndida a afirmação de Pedro: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo!» (Mt. 16,16: Evangelho de domingo passado). Mas não é ainda tudo sobre a identidade de Jesus. É importante afirmar a divindade de Jesus Cristo, mas talvez seja ainda mais difícil afirmar a sua humanidade, com a conseqüente possibilidade de sofrer e de morrer (Evangelho). Por isso, Jesus, depois de ter obtido dos seus discípulos a primeira profissão de fé explícita no seu messianismo, dá início a uma nova fase na sua pregação: «Jesus começou a explicar aos seus discípulos…» (v. 21). Precisamente como no início da sua vida pública, depois da fase preparatória (batismo no Jordão e tentações no deserto), Mateus escreve: «A partir de então Jesus começou a pregar e a dizer “convertei-vos”…» (Mt. 4,17). No batismo e no deserto, Jesus tinha feito escolhas bem precisas acerca do modo de realizar a missão recebida do Pai para a salvação da humanidade: a escolha de ser e de viver como filho e irmão, a escolha de renunciar aos meios fáceis e ilusórios do poder, a glória e o bem-estar… Fiel às suas escolhas, feitas segundo o coração de Deus, Jesus avança com determinação para a sua hora, disposto às conseqüências extremas. Fala disso com os discípulos e amigos, mas não aceita acomodações, revisões ou subtrações da parte de quem pensa apenas à maneira humana, segundo a carne e o sangue (v. 17.23). Jesus revela com clareza o conflito, a incompatibilidade entre o pensar segundo Deus e o pensar segundo os homens (v. 23).
Com base nestas premissas, o Evangelho de hoje prossegue a revelação da identidade de Jesus com novos aprofundamentos: Ele não é só o Messias-Cristo, o Filho de Deus (v. 16), mas é também o servo, que tem de «sofrer muito… ser morto e ressuscitar» (v. 21) Jesus considera que, na nova família acabada da anunciar, que é a Igreja (cf. Evangelho de domingo passado), também os seus discípulos deverão partilhar as suas escolhas, percorrer o mesmo caminho, se quiserem continuar a missão. Por isso, Jesus fala abertamente aos seus discípulos da necessidade de renegar a si mesmos, tomar cada um a sua cruz e segui-lo, perder a própria vida por sua causa (v. 24-25), fazer-se samaritanos e cireneus dos mais fracos, como o Papa Bento XVI ensinou aos jovens na recente Jornada Mundial da Juventude em Madrid, convidando-os a insurgir-se contra o conformismo, a indiferença, o individualismo que escravizam, e a optar, em vez disso, por Cristo e pelo anúncio do Evangelho, dom da vida e da liberdade. (*)
Longe de ser uma exortação moral e ascética a aceitar com paciência e resignação as tribulações, as doenças e a morte, estas palavras exigentes são um convite para o discípulo a identificar-se com o projeto de Jesus e a partilhar as suas escolhas e caminho. «A leitura do Evangelho segundo os homens é uma exortação à resignação e Jesus não foi, de forma alguma, um resignado, diz, aliás: “é preciso que eu seja condenado”. Porque é necessário? É necessário porque a escolha que eu fiz no dia em que disse a Satanás “afasta-te de mim”, em que renunciei ao domínio, à sedução do bem-estar físico e ao milagre – as três renúncias de Jesus no deserto – leva inevitavelmente à minha condenação!» (Ernesto Balducci).
Portanto a cruz não é meramente um fardo a carregar com resignação, mas o resultado necessário de uma escolha livremente feita por Jesus no deserto. Ele está seguro da sua escolha, rejeita os protestos de Pedro, novo satanás (v. 22.23), e remete-o ao seu lugar de discípulo: «Vai-te daqui, Satanás» (v. 23). Pedro não é chamado a regular os passos do Mestre, mas a segui-lo. Caso contrário a «pedra de construção» (v. 18) torna-se pedra de tropeço, ocasião de escândalo (v. 23). Pensar segundo Deus é condição fundamental para realizar com fidelidade e eficácia a missão que Jesus confia à sua Igreja.
O missionário, tal como o profeta que muitas vezes se torna incômodo e incomodativo (I leitura), se vive identificado com o seu Mestre, tem dentro de si «um fogo ardente» (v. 9) que o impele a superar os desânimos e as adversidades. E a oferecer-se de corpo e alma (II leitura) «como sacrifício vivo», como «culto espiritual» (v. 1), renovando a sua forma de pensar, «para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito» (v. 2). A própria natureza da missão impõe àqueles que anunciam o Evangelho que colham inspiração do único Mestre e Salvador: Cristo. A história das missões está repleta de apóstolos apaixonados por Cristo e pela humanidade: Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Daniel Comboni, Teresa de Calcutá, Francisco Xavier… que optaram por Cristo em vez de ganhar o mundo inteiro (Mt. 16,26). E bem assim, os numerosos mártires de cada tempo. A fidelidade radical a Cristo é condição indispensável de eficácia apostólica. E de verdadeira felicidade no serviço missionário.

(*) «A paixão de Cristo impele-nos a carregar sobre os nossos ombros o sofrimento do mundo, com a certeza de que Deus não é alguém distante ou alheado do homem e das suas vicissitudes. Pelo contrário, ele fez-se um de nós para poder compadecer com o homem, de maneira muito concreta, em carne e sangue… Queridos jovens, que o amor de Deus por nós aumente a vossa alegria e vos leve a permanecer próximos dos menos favorecidos. Vós que sois muito sensíveis à idéia de partilhar a vida com os outros, não passeis ao lado do sofrimento humano, onde Deus vos espera para que ofereçais o melhor de vós mesmos: a vossa capacidade de amar e de compadecer-vos» (Bento XVI - durante a via-sacra na Jornada mundial da juventude - Madrid 19/8/2011)

No Evangelho de hoje Jesus prediz a Sua Paixão e a Sua Glória aos discípulos, mas Pedro toma a iniciativa e protesta. Jesus com energia se opõe a boa intenção de Pedro: “Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo”. O problema é que não conseguimos captar o que está por trás de uma advertência, muitas vezes ficamos a resmungar. Na realidade, Jesus quer mostrar a todos a importância capital para a salvação de aceitar a cruz.
Precisamos ter esta identificação com Jesus Cristo e viver o mesmo destino do Senhor, inclusive até a cruz. Estimula-nos o testemunho de tantos missionários e mártires de ontem e de hoje em nossos povos que têm chegado a compartilhar a cruz de Cristo até à entrega da própria vida. (Documento de Aparecida, nº 140).
A Virgem Maria é a imagem esplêndida da conformação ao projeto trinitário que se cumpre em Cristo. Desde a sua Concepção Imaculada até sua Assunção, recorda-nos que a beleza do ser humano está toda no vínculo do amor com a Trindade, e que a plenitude de nossa liberdade está na resposta positiva que lhe damos. (Documento de Aparecida, nº 141).
Aceitar a cruz de Cristo é tomar consciência de que morrer para o pecado é alcançar a vida. Essa é a proposta de conversão a que somos diariamente chamados, desta forma, as palavras de Jesus a Pedro, ainda hoje, ecoam em nossos ouvidos.
Aceitar a cruz será entender que “a fonte e origem de todo o apostolado da Igreja é Cristo, enviado pelo Pai. Sendo assim, é evidente que a fecundidade do apostolado dos leigos depende da sua união vital com Cristo. É por este caminho que os leigos devem avançar na santidade com entusiasmo e alegria, esforçando-se por superar as dificuldades com prudência e paciência”. (ApostolicamActuositatem nº 4).
Os dizeres de Jesus no v.25 “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á”, nos coloca numa situação de desolação. Mas, o cristão não deve ignorar estas palavras, pois devemos renunciar a nossa própria vontade para identificar-se com a de Deus. Desta forma, como Pedro, aprendemos o que significa verdadeiramente seguir Jesus. É uma segunda chamada, análoga à de Abraão em Gn. 22, depois de Gn. 12. É a lei exigente do seguimento: é preciso saber renunciar, se for necessário, ao mundo inteiro para salvar os verdadeiros valores, para salvar a alma, para salvar a presença de Deus no mundo. Mesmo com dificuldade, Pedro aceita o convite e prossegue o seu caminho seguindo os passos do Mestre. Será que fazemos o mesmo?
As palavras de Cristo nos vv. 26-27, são diretas, pois situa o ser humano diante do Juízo Final, porque a salvação é radicalmente individual “recompensará a cada um segundo suas obras”. (v.27). Nisto comprova que, o fim do ser humano não é ganhar os bens temporais deste mundo; o fim último do homem é o próprio Deus, que pode ser possuído como antecipação pela “graça”, e plenamente e para sempre na “Glória”. Jesus indica qual é o caminho para conseguir esse fim: negar-se a si mesmo (comodidade, egoísmo, apego aos bens temporais) e levar a cruz. Como bem explica São Tomás de Aquino: “o menor bem da graça é superior a todo o bem do universo” (Suma Teológica,I-II,q.113,a.9).
Que as palavras do Santo Evangelho nos ajudem a ser melhores cristãos.

"anúncio da Paixão". Este "anúncio" pode ter dois sentidos. Na perspectiva messiânica é o sofrimento necessário redentor, de acordo com a tradição do Primeiro Testamento. Porém pode significar a comum prática repressora dos poderosos deste mundo que não toleram e procuram destruir todo aquele que promove a libertação do povo oprimido, tal como foi Jesus em toda sua vida.

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