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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Domingo de Páscoa-Ano B

DOMINGO DA PÁSCOA

5 de Abril de 2015
ANO  B

Comentários Prof.Fernando


Evangelho - Jo 20,1-9


-ELE VIU E ACREDITOU-José Salviano


E você? Ainda tem dúvidas?

       Aquele mesmo Jesus que foi zombado por muitos no momento do seu martírio na cruz, está de volta, em uma vida gloriosa para nunca mais morrer.  Leia mais

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JESUS CRISTO  RESSUSCITOU, ELE VIVE ENTRE NÓS! – Olívia Coutinho

DOMINGO DE PÁSCOA

Dia 05 de Abril de 2015

Evangelho Jo 20,1-9

 Angustia, sofrimento, morte, era sempre noite na humanidade, até que na noite mais clara do que o dia, a vida vence a morte, as trevas dão  lugar a luz!
O acontecimento mais belo que já se viu na terra, tirou das trevas a humanidade corrompida pelo pecado,  tornando o céu mais próximo da terra!
Agora não vivemos mais ao léu, encontramos uma direção, a  nossa vida ganhou um novo sentido, temos em quem confiar e a quem seguir, as promessas de Deus se cumpriram, Jesus Ressuscitou, pagou com o seu sangue o preço da nossa liberdade!  Inseridos   no mistério  Pascal, que é a vida de Jesus em nós e a nossa vida Nele, tornamos sinal  vivo de Deus no mundo!            
Na ressurreição de  Jesus,  está expresso o amor de Deus por cada um de nós, um amor tão grande que levou  Jesus à morte, para nos restituir a vida!
A ressurreição de Jesus, retira as vendas dos nossos olhos, nos faz  enxergar  as maravilhas que antes não víamos,  por estarmos focados nos nossos  sofrimentos, sofrimentos, que muitas vezes alimentamos dentro de nós, como justificava para o nosso comodismo.
É no encontro com O Cristo Ressuscitado, que nós também  ressuscitamos, saindo   do sofrimento, para vivermos as alegrias de um novo dia!
É Jesus Cristo ressuscitado, quem devolve o brilho ao nosso olhar, que  transforma o nosso medo em coragem, que troca a nossa  esperança por certeza, que Transforma as nossas noites escuras em dias claros!
A todo instante, somos chamados a fazermos  a experiência do  Cristo ressuscitado, indo ao encontro do outro.  É através da relação humano, com  humano, que nos envolvemos no Mistério Pascal, deixando a vida divina agir em nós, possibilitando-nos, viver   a nossa humanidade de forma Divina!
 O coração humano, quando se deixa  tocar pelo amor Divino, torna fonte de luz no mundo a tirar da escuridão muitos corações sombrios! 
Muito mais do que compreendermos o que é a Páscoa, é celebrá-la, é sermos Pascais, é viver como o ressuscitado, alimentando  dentro de nós, o amor do Pai explícito nas ações do Filho!
Viver a Páscoa, não significa  somente crer no Deus que em Cristo nos redimiu  e nos ressuscitará, mas se trata em saber quem é Cristo para nós, qual é o lugar que Ele ocupa em nossa vida, somente assim,  seremos Pascais  e viveremos  verdadeiramente a ressurreição de Jesus.
A alegria, é a marca de quem vive a ressurreição de Jesus, é o sinal de sua adesão à Cristo! Quem se deixa iluminar pela Luz do Cristo Ressuscitado, irradia alegria por onde passa, uma alegria, que não se resume em um sentimento superficial, inconsistente, pelo contrário, é uma alegria duradora, consistente, de origem Divina, que independe das circunstancia em que se vive!
O evangelho de hoje, nos fala desta alegria vivenciada pelas primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus, da alegria de Maria Madalena que ao visitar o sepulcro de Jesus naquela manhã de domingo, pode testemunhar, diante do túmulo vazio,  a  mais bela de todas as  verdades cristãs: JESUS CRISTO RESSUSCITOU!  À princípio, pode ser, que o medo, a alegria, se misturaram dentro dela, afinal,  tudo aquilo era grande demais para o seu entendimento!
Maria Madalena teve pressa em partilhar a sua alegria,  por isto, ela vai apressadamente levar esta Boa Notícia aos outros discípulos que se alegram com ela!
 Assim como Maria Madalena e os outros dois discípulos que correram até o sepulcro onde puderam constatar o acontecimento mais importante de toda história, também nós, deveríamos ter pressa em  levar ao outro, esta Boa Notícia:  Jesus Cristo ressuscitou, Ele está no meio de nós!
A liturgia  deste domingo,  fala fundo ao nosso coração,  faz  ressoar nos  nossos ouvidos a saudação dos primeiros cristãos  que diziam  alegremente: ” Cristo ressuscitou Aleluia! Saudação esta , que nós  devemos, responderam com a mesma alegria: Sim, verdadeiramente Jesus  Cristo ressuscitou Ele vive entre nós!
O  melhor meio de anunciar a Ressurreição de Jesus, é dar testemunho de fé no serviço ao outro, como fez Jesus na última ceia, lavando os pés dos Apóstolos, numa atitude de humildade e de serviço.
 Experimentamos as alegrias da Ressurreição de Jesus, quando deixamos para trás, a escuridão do  passado, para vivermos as alegrias de um novo dia!

DESEJO A TODOS  UMA FELIZ PÁSCOA!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia Coutinho

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Hoje é o dia mais solene do ano: é a Páscoa!
Aquele que vimos envolto em sangue, tomado pelas dores da morte na Sexta-feira, Aquele que velamos respeitosamente no silêncio da morte no Sábado, agora proclamamo-lo Ressuscitado, Vivo, Vitorioso!
Hoje pela manhã, “quando ainda estava escuro”, nossas irmãs foram ao túmulo e encontraram-no aberto e vazio! Elas correram apavoradas: foram contar ao nosso líder, Simão Pedro. Ele foi também ao túmulo com o outro discípulo, aquele que Jesus amava: viram as faixas de linho no chão... O túmulo estava vazio... O que acontecera? Roubaram o corpo? Os judeus levaram-no? Que houve? Que ocorrera?
Na tarde de hoje, dois outros irmãos nossos estavam voltando para Emaús, sem esperança nenhuma: voltavam para sua vida de cada dia... estavam deixando a Comunidade dos discípulos, a Igreja que ia nascer: Jesus morrera, tudo acabara, a esperança fora embora... Mas, um Desconhecido começou a caminhar com eles, e lhes falava sobre tudo quanto a Escritura havia predito a respeito do Messias: sua pregação, suas dores, sua derrota, sua morte, sua vitória final... E o coração daqueles dois começou a encher-se de nova esperança, a arder de alegria! Eles, agora, começavam a compreender: tudo quanto havia acontecido com Jesus não fora simplesmente um cego absurdo, uma loucura, um sinal de maldição! Tudo fazia parte de um incrível projeto de amor do Pai: “Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” E, o que é mais impressionante: ao sentarem-se à mesa, o Desconhecido tomou a iniciativa, não esperou o dono da casa: pegou o pão e deu graças, partiu-o.... Coisa impressionante, irmãos: os olhos daqueles dois se abriram, e eles o reconheceram: era Jesus! Jesus vivo! Jesus reconhecido nas Escrituras e no partir o pão! Como mais uma vez, acontecerá agora, nesta Missa! Os dois voltaram, imediatamente a Jerusalém e, lá, a alegria foi maior ainda: os apóstolos confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão Pedro!”
Por esta fé nós vivemos, por esta fé somos cristãos, por esta fé empenhamos a vida toda! Neste Dia santíssimo, Jesus entrou na glória do Pai. Nós continuamos aqui; ele já não mais está preso a dia algum, a tempo algum, a limitação alguma: ele entrou na eternidade de Deus, na plenitude do seu Deus e Pai! Irmãos, escutai: a Morte, hoje, foi vencida! Jesus abriu o caminho, Jesus atravessou o tenebroso e doloroso mar da Morte, Jesus entrou no Pai! Jesus “passou”, fez sua Páscoa!
Mas, não só: ele fez isso por nós, por cada um de nós: “Vou preparar-vos um lugar... a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também” (Jo 14,2-3). Ele, que morrera da nossa Morte, tem agora o poder de nos dar a sua vitória. Para isso, irmãos, ele nos deu, no Batismo, o seu Espírito de ressurreição, o mesmo no qual o Pai o ressuscitou na madrugada de hoje!
Eis a Páscoa de Cristo e nossa! Na certeza desta vida nova, renovemos nossa própria vida! “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos para alcançar as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus!” Vivamos uma vida nova em Cristo! Crer na sua ressurreição, viver sua vida de ressuscitado é, já agora, viver numa perspectiva nova, viver com o olhar a partir da Eternidade. São Paulo nos diz, para a Festa de hoje: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a Festa, não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade ou da perversidade, mas com os pães sem fermento de pureza e de verdade”. É o pão sem fermento, pão ázimo, da Eucaristia que vamos comer daqui a pouco; pão que é o próprio Cordeiro imolado, Cordeiro pascal, Cordeiro que tira o pecado do mundo! Nós vamos entrar em comunhão com ele, vivo e vencedor!
Pelo dia de hoje, não mais tenhamos medo do pecado, da maldade e da morte!
Pela festa deste hoje bendito, abramos nosso coração a Deus e aos irmãos!
Pela Páscoa que estamos celebrando, perdoemo-nos, acolhamo-nos e demo-nos a paz!
Terminemos com as comoventes palavras da liturgia bizantina:
Dia da Ressurreição,
resplandeçamos, ó povos!
Páscoa do Senhor! Páscoa!
Cristo Deus nos fez passar
da morte à vida, da terra ao céu,
entoando o hino de sua vitória!
Purifiquemos os sentidos e veremos
a Luz inacessível da Ressurreição
a Cristo resplandecente
que diz: Alegrai-vos!
Exultem os céus e a terra.
Exulte o universo inteiro, visível e invisível:
Cristo ressuscitou. Alegria eterna!
Exultem os céus e exulte a terra,
faça festa todo o universo
visível e invisível.
Alegria eterna,
porque Cristo ressuscitou!
Dia da Ressurreição,
resplandeçamos, ó povos:
Cristo ressuscitou dentre os mortos,
ferindo com sua morte a própria morte
e dando a vida aos mortos em seus túmulos.
Ressurgindo do túmulo,
como havia predito
Jesus nos deu a vida eterna e a grande misericórdia!
Este é o Dia que o Senhor fez:
seja ele nossa alegria e nosso gozo!
Páscoa dulcíssima,
Páscoa do Senhor, Páscoa!
Uma Páscoa santíssima nos amanheceu.
Páscoa! Plenos de gozo,
abracemo-nos todos!
Ó Páscoa, que dissipas toda tristeza!
É o Dia da Ressurreição!
Irradiemos alegria por tal Festa,
abracemo-nos mutuamente
e chamemos de irmãos até àqueles que nos odeiam;
perdoemos-lhes tudo
por causa da Ressurreição,
e gritemos sem cessar dizendo:
Cristo ressuscitou dentre os mortos,
ferindo a morte com a sua morte
e dando a vida aos mortos em seus túmulos!
Surrexit Dominus vere! O Senhor ressuscitou verdadeiramente! Aleluia!

dom Henrique Soares da Costa
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Há situações, acontecimentos, fatos, que são tão bons, há novidades que transformam de tal modo a vida, que abrem de tal maneira novos horizontes, que chegam a nem parecer realidade... parecem mais um conto de fadas, assemelham-se mais a fábulas...
Assim é a Ressurreição de Cristo. Bultmann, teólogo protestante alemão do século passado, afirmava que aquele sepulcro de há dois mil anos, em Jerusalém, nunca estivera vazio. Nele, o cadáver de Jesus teria ficado, apodrecido, decomposto pela morte. O que interessa – garantia Bultmann – é que Jesus está vivo para mim, vivo no meu coração e, assim, é capaz de transformar a minha vida. Olhando direitinho essa idéia do teólogo alemão, não é Jesus quem nos dá a vida, mas nós quem damos vida a Jesus. No fundo, o Crucificado de Nazaré não seria o Salvador de ninguém: tragado pela morte, somente poderia viver na nossa memória! Em resumo: a Ressurreição não passaria de uma fábula; e a nossa fé, não seria mais que uma doce ilusão!
Mas, não! O Evangelho que acabamos de ouvir dá conta de algo bem diferente. De manhã cedo, Maria Madalena foi ao túmulo. Ainda estava escuro, pela hora, muito cedo, e pela dor do coração daquela mulher... O túmulo estava aberto, a pedra fora retirada. Madalena correu até Pedro (Madalena é católica, sabe que o referencial dos discípulos é Pedro), desesperada: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram!” Pedro correu, com o Discípulo Amado. Este último chegou primeiro; também ele católico, espera Pedro. Não entrou; apenas inclinou-se e olhou.. O que viu? Vamos traduzir de modo mais preciso que aquele que escutamos: “Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão”. O Chefe, a Pedra, chegou também e entrou primeiro. Ficou admirado com o que vira! O que constara? Escutemos o texto, traduzido de modo bem fiel: “Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que estivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição”. Aí, entrou também o outro Discípulo, o Amado. Viu e creu! Mas, o que eles viram? No que acreditou o Discípulo Amado? O grande lençol que envolvera Jesus e a faixas que o amarravam estavam no mesmo lugar, espalmadas, isto é, estiradinhas no mesmo lugar onde estivera o corpo de Jesus. Quanto ao lenço que cobria o seu rosto (um sudário, isto é um lenço normalmente usado para enxugar o suor), estava não espalmado, estirado na pedra sobre a qual o corpo fora colocado; ao invés, endurecido, como um pano muito engomado, mantinha a forma da cabeça de Jesus, como uma espécie de máscara! Ou seja, Jesus saíra dali de um modo inexplicável: ninguém o tirara; simplesmente ele desaparecera de dentro dos panos! Pedro constata, impressionando; o discípulo amado, crê: o Mestre ressuscitou! Eis, caros meus! Não é uma lenda, a Ressurreição! O túmulo de verdade estava vazio. Depois, o próprio Ressuscitado veio até o seus, e comeu e bebeu com eles, constituindo-os suas testemunhas.
Na primeira leitura de hoje, Pedro anuncia claramente: “Nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus. Eles o mataram pregando numa cruz. Mas Deus o ressuscitou, concedendo-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos!” Eis aqui! Anás, Caifás, Pilatos, os judeus jamais poderão ver Jesus! Ele, agora, vitorioso, é pleno de uma outra vida, a vida de Deus. O mundo jamais poderá ver Jesus! Nós, que comemos e bebemos com ele é que somos as suas testemunhas! Nós, que no Batismo, fomos mergulhados pelo seu Espírito Santo, na morte e ressurreição do Senhor; nós, enxertados nele, membros do seu Corpo; nós, que comungamos no seu Corpo e Sangue, é que podemos ouvi-lo vivo e atual, é que podemos comer e beber com ele no altar do Sacrifício eucarístico. Nós somos as suas testemunhas. São Paulo nos diz: “Vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus”. Nós conhecemos o Cristo de um modo que o mundo não conseguirá jamais compreender. Para os de fora, o Cristo é um personagem do passado, preso no tempo. Para nós, o Senhor, está vivo, presente no hoje de nossa existência e nós vivemos nele e por ele: “Vossa vida está escondida com Cristo!” Ele é tão concreto, tão atual, tão vivo, tão real, que toda a nossa vida é pautada nele, e modelada segundo a sua santa vontade!
Eis! Não somos nós que mantemos um Jesus morto, vivo somente na nossa lembrança. É o próprio Senhor nosso, Jesus Cristo que, vivo, dando-nos o seu Espírito no batismo e na eucaristia, unindo-nos a ele, nos vivifica, nos dá o perdão dos pecados e nos abre a estrada da Vida eterna. E nós, que experimentamos tal mistério maravilhoso, somos e seremos sempre, as suas testemunhas. É isto que significa ser cristão! Aleluia!

dom Henrique Soares da Costa
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Aquele que vimos envolto em sangue, tomado pelas dores da morte na Sexta-feira, Aquele que velamos respeitosamente no silêncio da morte no Sábado, agora proclamamo-lo Ressuscitado, vivo, vitorioso!
Hoje pela manhã, “quando ainda estava escuro”, nossas irmãs foram ao túmulo e encontraram-no aberto e vazio! Elas correram apavoradas: foram contar ao nosso líder, Simão Pedro. Ele foi também ao túmulo com o outro discípulo, aquele que Jesus amava: viram as faixas de linho no chão… O túmulo estava vazio… O que acontecera? Roubaram o corpo? Os judeus levaram-no? Que houve? Que ocorrera?
Na tarde de hoje, dois outros irmãos nossos estavam voltando para Emaús, sem esperança nenhuma: voltavam para sua vida de cada dia… estavam deixando a Comunidade dos discípulos, a Igreja que ia nascer: Jesus morrera, tudo acabara, a esperança fora embora… Mas, um Desconhecido começou a caminhar com eles, e lhes falava sobre tudo quanto a Escritura havia predito a respeito do Messias: sua pregação, suas dores, sua derrota, sua morte, sua vitória final… E o coração daqueles dois começou a encher-se de nova esperança, a arder de alegria! Eles, agora, começavam a compreender: tudo quanto havia acontecido com Jesus não fora simplesmente um cego absurdo, uma loucura, um sinal de maldição! Tudo fazia parte de um incrível projeto de amor do Pai: “Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” E, o que é mais impressionante: ao sentarem-se à mesa, o Desconhecido tomou a iniciativa, não esperou o dono da casa: pegou o pão e deu graças, partiu-o…. Coisa impressionante, irmãos: os olhos daqueles dois se abriram, e eles o reconheceram: era Jesus! Jesus vivo! Jesus reconhecido nas Escrituras e no partir o pão! Como mais uma vez, acontecerá agora, nesta missa! Os dois voltaram, imediatamente a Jerusalém e, lá, a alegria foi maior ainda: os apóstolos confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão Pedro!”
Irmãos, por esta fé nós vivemos, por esta fé somos cristãos, por esta fé empenhamos a vida toda! Neste Dia, Jesus entrou na glória do Pai. Nós continuamos aqui; ele já não mais está preso a dia algum, a tempo algum, a limitação alguma: ele entrou na eternidade de Deus, na plenitude do seu Deus e Pai! Irmãos, escutai: a Morte, hoje, foi vencida! Jesus abriu o caminho, Jesus atravessou o tenebroso e doloroso mar da morte, Jesus entrou no Pai! Jesus “passou”, fez sua Páscoa!
Mas, não só: ele fez isso por nós, por cada um de nós: “Vou preparar-vos um lugar… a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também” (Jo 14,2-3). Ele, que morrera da nossa Morte, tem agora o poder de nos dar a sua vitória. Para isso, irmãos, ele nos deu, no batismo, o seu Espírito de ressurreição, o mesmo no qual o Pai o ressuscitou na madrugada de hoje!
Eis a Páscoa de Cristo e nossa! Na certeza desta vida nova, renovemos nossa própria vida! “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos para alcançar as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus!” Vivamos uma vida nova em Cristo! Crer na sua ressurreição, viver sua vida de ressuscitado é, já agora, viver numa perspectiva nova, viver com o olhar a partir da Eternidade. São Paulo nos diz, para a festa de hoje: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a festa, não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade ou da perversidade, mas com os pães sem fermento de pureza e de verdade”. É o pão sem fermento, pão ázimo, da eucaristia que vamos comer daqui a pouco; pão que é o próprio Cordeiro imolado, Cordeiro pascal, Cordeiro que tira o pecado do mundo! Nós vamos entrar em comunhão com ele, vivo e vencedor!
dom Henrique Soares da Costa
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A liturgia deste domingo celebra a ressurreição e garante-nos que a vida em plenitude resulta de uma existência feita dom e serviço em favor dos irmãos. A ressurreição de Cristo é o exemplo concreto que confirma tudo isto.
A primeira leitura apresenta o exemplo de Cristo que “passou pelo mundo fazendo o bem” e que, por amor, se deu até à morte; por isso, Deus ressuscitou-O. Os discípulos, testemunhas desta dinâmica, devem anunciar este “caminho” a todos os homens.
O Evangelho coloca-nos diante de duas atitudes face à ressurreição: a do discípulo obstinado, que se recusa a aceitá-la porque, na sua lógica, o amor total e a doação da vida não podem, nunca, ser geradores de vida nova; e a do discípulo ideal, que ama Jesus e que, por isso, entende o seu caminho e a sua proposta (a esse não o escandaliza nem o espanta que da cruz tenha nascido a vida plena, a vida verdadeira).
A segunda leitura convida os cristãos, revestidos de Cristo pelo batismo, a continuarem a sua caminhada de vida nova, até à transformação plena (que acontecerá quando, pela morte, tivermos ultrapassado a última barreira da nossa finitude).
1ª leitura – At. 10,34.37-43 - AMBIENTE
A obra de Lucas (Evangelho e Atos dos Apóstolos) aparece entre os anos 80 e 90, numa fase em que a Igreja já se encontra organizada e estruturada, mas em que começam a surgir “mestres” pouco ortodoxos, com propostas doutrinais estranhas e, às vezes, pouco cristãs. Neste ambiente, as comunidades cristãs começam a necessitar de critérios claros que lhes permitam discernir a verdadeira doutrina de Jesus da falsa doutrina dos falsos mestres.
Lucas apresenta, então, a Palavra de Jesus, transmitida pelos apóstolos sob o impulso do Espírito Santo: é essa Palavra que contém a proposta libertadora que Deus quer apresentar aos homens. Nos Atos, em especial, Lucas mostra como a Igreja nasce da Palavra de Jesus, fielmente anunciada pelos apóstolos; será esta Igreja, animada pelo Espírito, fiel à doutrina transmitida pelos apóstolos, que tornará presente o plano salvador do Pai e o fará chegar a todos os homens.
Neste texto, em concreto, Lucas propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. At. 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. At. 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze (o etíope de que se fala em At. 8,26-40 já era “prosélito”, isto é, simpatizante do judaísmo). Significa que a vida nova que nasce de Jesus é para todos os homens.
MENSAGEM
O nosso texto é uma composição lucana, onde ecoa o “kerigma” primitivo. Pedro começa por anunciar Jesus como “o ungido”, que tem o poder de Deus (v. 38a); depois, descreve a atividade de Jesus, que “passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos” (v. 38b); em seguida, dá testemunho da morte de Jesus na cruz (v. 39) e da sua ressurreição (v. 40); finalmente, Pedro tira as conclusões acerca da dimensão salvífica de tudo isto (v. 43b: “quem acredita n’Ele, recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados”). Esta catequese refere também, com alguma insistência, o testemunho dos discípulos que acompanharam, a par e passo, a caminhada histórica de Jesus (v. 39a.41.42).
Repare-se como a ressurreição de Jesus não é apresentada como um fato isolado, mas como o culminar de uma vida vivida na obediência ao Pai e na doação aos homens. Depois de Jesus ter passado pelo mundo “fazendo o bem e libertando todos os que eram oprimidos”; depois de Ele ter morrido na cruz como consequência desse “caminho”, Deus ressuscitou-O. A vida nova e plena que a ressurreição significa parece ser o ponto de chegada de uma existência posta ao serviço do projeto salvador e libertador de Deus. Por outro lado, esta vida vivida na entrega e no dom é uma proposta transformadora que, uma vez acolhida, liberta da escravidão do egoísmo e do pecado (v. 43).
E os discípulos? Eles são aqueles que aderiram a Jesus e que acolheram a sua proposta libertadora. Se a vida dos discípulos se identifica com a de Jesus, eles estão a “ressuscitar” (isto é, a renascer para a vida nova e plena). Além disso, eles são as testemunhas de tudo isto: é absolutamente necessário que esta proposta de ressurreição, de vida plena, de vida transfigurada, chegue a todos os homens. Trata-se de uma proposta de salvação universal que, através dos discípulos, deve atingir todos os povos da terra, sem distinção. Os acontecimentos do dia do Pentecostes já haviam, aliás, anunciado a universalidade da proposta de salvação, apresentada por Jesus e testemunhada pelos apóstolos.
ATUALIZAÇÃO
• A ressurreição de Jesus é a consequência de uma vida gasta a “fazer o bem e a libertar os oprimidos”. Isso significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se esforça por vencer o egoísmo, a mentira, a injustiça e por fazer triunfar o amor, está a ressuscitar; significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se dá aos outros e manifesta, em gestos concretos, a sua entrega aos irmãos, está a construir vida nova e plena. Eu estou a ressuscitar (porque caminho pelo mundo fazendo o bem e libertando os oprimidos), ou a minha vida é um repisar os velhos esquemas do egoísmo, do orgulho, do comodismo?
• A ressurreição de Jesus significa, também, que o medo, a morte, o sofrimento, a injustiça, deixam de ter poder sobre o homem que ama, que se dá, que partilha a vida. Ele tem assegurada a vida plena – essa vida que os poderes do mundo não podem destruir, atingir ou restringir. Ele pode, assim, enfrentar o mundo com a serenidade que lhe vem da fé. Estou consciente disto, ou deixo-me dominar pelo medo, sempre que tenho de agir para combater aquilo que rouba a vida e a dignidade, a mim e a cada um dos meus irmãos?
• Aos discípulos pede-se que sejam as testemunhas da ressurreição. Nós não vimos o sepulcro vazio; mas fazemos, todos os dias, a experiência do Senhor ressuscitado, que está vivo e que caminha ao nosso lado nos caminhos da história. A nossa missão é testemunhar essa realidade; no entanto, o nosso testemunho será oco e vazio se não for comprovado pelo amor e pela doação (as marcas da vida nova de Jesus).
2ª leitura – Col. 3,1-4 - AMBIENTE
Quando escreveu a Carta aos Colossenses, Paulo estava na prisão (em Roma?). Epafras, seu amigo, visitou-o e falou-lhe da “crise” por que estava a passar a Igreja de Colossos. Alguns doutores locais ensinavam doutrinas estranhas, que misturavam especulações acerca dos anjos (cf. Col. 2,18), práticas ascéticas, rituais legalistas, prescrições sobre os alimentos e a observância de determinadas festas (cf. Col. 2,16.21): tudo isso deveria (na opinião desses “mestres”) completar a fé em Cristo, comunicar aos crentes um conhecimento superior de Deus e dos mistérios cristãos e possibilitar uma vida religiosa mais autêntica. Contra este sincretismo religioso, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo.
O texto que nos é proposto como segunda leitura é a introdução à reflexão moral da carta (cf. Col. 3,1-4,6). Depois de apresentar a centralidade de Cristo no projeto salvador de Deus (cf. Col. 1,13-2,23), Paulo recorda aos cristãos de Colossos que é preciso viver de forma coerente e verdadeira o compromisso assumido com Cristo.
MENSAGEM
Neste texto, Paulo apresenta, como ponto de partida e base da vida cristã, a união com Cristo ressuscitado, na qual o cristão é introduzido pelo batismo. Ao ser batizado, o cristão morreu para o pecado e renasceu para uma vida nova; essa vida nova terá a sua manifestação gloriosa quando o discípulo de Jesus ultrapassar, pela morte, as fronteiras da vida terrena. Enquanto caminhamos ao encontro desse objetivo último, a nossa vida tem de tender para Cristo. Em concreto, isso significa despojarmo-nos do “homem velho” por um processo de conversão que nunca está acabado e o revestirmo-nos – cada dia mais profundamente – da imagem de Cristo, de forma a que nos identifiquemos com Ele pelo amor e pela entrega da vida.
No texto de Paulo está bem presente a idéia de que temos que viver com os pés na terra, mas com a mente e o coração no céu: é lá que estão os bens eternos e a nossa meta definitiva (“afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra”). Daqui resulta um conjunto de exigências práticas que Paulo vai enumerar, de forma bem concreta, nos versículos seguintes (cf. Col. 3,5-4,1).
ATUALIZAÇÃO
• O batismo introduz-nos numa dinâmica de comunhão com Cristo ressuscitado. A partir do batismo, Cristo passa a ser o centro e a referência fundamental à volta da qual se constrói toda a vida do crente. Qual o lugar que Cristo ocupa na minha vida? Tenho consciência de que o meu batismo significou um compromisso com Cristo?
• A identificação com Cristo implica o assumir uma dinâmica de vida nova, despojada do egoísmo, do orgulho, do pecado e feita doação a Deus e aos irmãos. O cristão torna-se então, verdadeiramente, alguém que “aspira às coisas do alto” – quer dizer, alguém que, embora vivendo nesta terra e desfrutando as realidades deste mundo, tem como referência última os valores de Deus. Não se pede ao crente que seja um alienado, alguém que viva a olhar para o céu e que se demita do compromisso com o mundo e com os irmãos; mas pede-se-lhe que não faça dos valores do mundo a sua prioridade, a sua referência última. A minha vida tem sido uma caminhada coerente com esta dinâmica de vida nova que começou no dia em que fui batizado? Esforço-me, realmente, por me despojar do “homem velho”, egoísta e escravo do pecado, e por me revestir do “homem novo”, que se identifica com Cristo e que vive no amor, no serviço, na doação aos irmãos?
• Paulo, a partir do exemplo de Cristo, garante-nos que esse caminho de despojamento do “homem velho” não é um caminho de derrota e de fracasso; mas é um caminho de glória, no qual se manifesta a realidade da vida eterna, da vida verdadeira.
• Quando, de alguma forma, tenho um papel ativo na preparação ou na celebração do sacramento do batismo, tenho consciência – e procuro passar essa mensagem – de que o sacramento não é um ato tradicional ou social (que, por acaso, até proporciona fotografias bonitas), mas um compromisso sério e exigente com Cristo?
Evangelho – Jo 20,1-9 - AMBIENTE
O quarto Evangelho (cf. Jo 4,1-19,42) apresenta duas partes. Na primeira, João descreve a atividade criadora e vivificadora do Messias, no sentido de dar vida e de criar um Homem Novo – um homem livre da escravidão do egoísmo, do pecado e da morte (para João, o último passo dessa atividade destinada a fazer surgir o Homem Novo foi, precisamente, a morte na cruz: aí, Jesus apresentou a última e definitiva lição – a lição do amor total, que não guarda nada para si, mas faz da vida um dom radical ao Pai e aos irmãos). Na segunda parte do Evangelho (cf. Jo 20,1-31), João apresenta o resultado da ação de Jesus e mostra essa comunidade de Homens Novos, recriados e vivificados por Jesus, que com Ele aprenderam a amar com radicalidade e a quem Jesus abriu as portas da vida definitiva. Trata-se dessa comunidade de homens e mulheres que se converteram e aderiram a Jesus e que, em cada dia – mesmo diante do sepulcro vazio – são convidados a manifestar a sua fé n’Ele.
A cena situa-nos na manhã do domingo de Páscoa, em Jerusalém. João descreve a reação dos discípulos diante da descoberta do sepulcro vazio.
MENSAGEM
O texto começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida, sobretudo, em chave teológica: “no primeiro dia da semana”. Significa que aqui começou um novo ciclo – o da nova criação, o da libertação definitiva. Este é o “primeiro dia” de um novo tempo e de uma nova realidade – o tempo do Homem Novo, que nasceu a partir da ação criadora e vivificadora de Jesus.
A primeira personagem em cena é Maria Madalena: ela é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”. Maria Madalena representa, no Quarto Evangelho, a nova comunidade nascida da ação criadora e vivificadora do Messias. Inicialmente, os discípulos acreditaram que a morte tinha triunfado e pensavam que Jesus estava prisioneiro do sepulcro… A comunidade nascida de Jesus era, em consequência, uma comunidade perdida, desorientada, insegura, desamparada, que ainda não descobrira que a morte tinha sido derrotada. Por isso, procurou Jesus no túmulo, mas, diante do sepulcro vazio, tomou consciência da ressurreição e percebeu que a morte não tinha vencido Jesus.
Na sequência, João apresenta uma catequese sobre a dupla atitude dos discípulos diante do mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Essa dupla atitude é expressa no comportamento dos dois discípulos que, na manhã da Páscoa, correram ao túmulo de Jesus: Simão Pedro e um “outro discípulo” não identificado (mas que parece ser esse “discípulo amado”, apresentado no Quarto Evangelho como o modelo ideal do discípulo).
João coloca, aliás, estas duas figuras lado a lado em várias circunstâncias (na última ceia, é o “discípulo amado” que percebe quem está do lado de Jesus e quem O vai trair – cf. Jo 13,23-25; na paixão, é ele que consegue estar perto de Jesus no átrio do sumo sacerdote, enquanto Pedro O trai – cf. Jo 18,15-18.25-27; é ele que está junto da cruz quando Jesus morre – cf. Jo 19,25-27; é ele quem reconhece Jesus ressuscitado nesse vulto que aparece aos discípulos no lago de Tiberíades – cf. Jo 21,7). Nas outras vezes, o “discípulo amado” levou sempre vantagem sobre Pedro. Aqui, isso irá acontecer outra vez: o “outro discípulo” correu mais e chegou ao túmulo primeiro que Pedro (o fato de se dizer que ele não entrou logo pode querer significar a sua deferência e o seu amor, que resultam da sua sintonia com Jesus); e, depois de ver, “acreditou” (o mesmo não se diz de Pedro).
O que é que estas duas figuras de discípulo representam?
Em geral, Pedro representa, nos Evangelhos, o discípulo obstinado, para quem a morte significa fracasso e que se recusa a aceitar que a vida nova passe pela humilhação da cruz (Jo 13,6-8.36-38; 18,16.17.18.25-27; cf. Mc 8,32-33; Mt 16,22-23). Ele é, em várias situações, o discípulo que tem dificuldade em entender os valores que Jesus propõe, que raciocina de acordo com a lógica do mundo e que não entende que a vida eterna e verdadeira possa brotar da cruz. Na sua perspectiva, Jesus fracassou, pois insistiu – contra toda a lógica – em servir e em dar a vida. Para ele, a doação e a entrega não podem conduzir à vitória, mas sim à derrota; portanto, Jesus morreu e o caso está encerrado. A eventual ressurreição de Jesus é, pois, uma hipótese absurda e sem sentido.
Ao contrário, o “outro discípulo” – o “discípulo amado” – é aquele que está sempre próximo de Jesus, que se identifica com Jesus, que adere incondicionalmente aos valores de Jesus, que ama Jesus. Nessa comunhão e intimidade com Jesus, ele aprendeu e interiorizou a lógica de Jesus e percebeu que a doação e a entrega são um caminho de vida. Para ele, faz todo o sentido que Jesus tenha ressuscitado (“viu e acreditou” - v. 8), pois a vitória sobre a morte é o resultado lógico do dom da vida, do amor até ao extremo.
Esse “outro discípulo” é, portanto, a imagem do discípulo ideal, que está em sintonia total com Jesus, que percebe e aceita os valores de Jesus, que está disposto a embarcar com Jesus na lógica do amor e do dom da vida, que corre ao encontro de Jesus com um total empenho, que compreende os sinais da ressurreição e que descobre (porque o amor leva à descoberta) que Jesus está vivo. Ele é o paradigma do Homem Novo, do homem recriado por Jesus.
ATUALIZAÇÃO
• Também aqui – como em várias outras passagens do Evangelho – Pedro desempenha um papel estranho e infeliz: é o papel de um discípulo que continua a não sintonizar com Jesus e com a sua lógica. No entanto, não podemos ser demasiado duros com Pedro: ele é, apenas, o paradigma de uma figura de discípulo que conhecemos bem: o discípulo que tem dificuldade em perceber Jesus e os seus valores, pois está habituado a funcionar de acordo com outros valores e padrões – os valores e padrões dos homens. A lógica humana ensina-nos que o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a doação e a entrega da vida, só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar realização, felicidade, vida plena, êxito profissional ou social. Como nos situamos face a esta lógica?
• O “discípulo predileto” de que fala o texto é o discípulo que vive em comunhão com Jesus, que se identifica com Jesus e com os seus valores, que interiorizou e absorveu a lógica da entrega incondicional, do dom da vida, do amor total. Modelo do verdadeiro discípulo, ele convida-nos à identificação com Jesus, à escuta atenta e comprometida dos valores de Jesus, ao seguimento de Jesus. Propõe-nos uma renúncia firme a esquemas de egoísmo, de injustiça, de orgulho, de prepotência e a realizar gestos que sejam sinais do amor, da bondade, da misericórdia e da ternura de Deus.
• A ressurreição de Jesus prova, precisamente, que a vida plena, a vida total, a transfiguração total da nossa realidade finita e das nossas capacidades limitadas, passa pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências. Garante-nos que a vida gasta a amar não é perdida nem fracassada, mas é o caminho para a vida plena e verdadeira, para a felicidade sem fim. Temos consciência disso? É nessa direção que conduzimos a caminhada da nossa vida?
• Pela fé, pela esperança, pelo seguimento de Cristo e pelos sacramentos, a semente da ressurreição (o próprio Jesus) é depositada na realidade do homem/corpo. Revestidos de Cristo, somos nova criatura: estamos, portanto, a ressuscitar, até atingirmos a plenitude, a maturação plena, a vida total (quando ultrapassarmos a barreira da morte física). Aqui começa, pois, a nova humanidade.
• A figura de Pedro pode também representar, aqui, essa velha prudência dos responsáveis institucionais da Igreja, que os impede de ir à frente da caminhada do Povo de Deus, de arriscar, de aceitar os desafios, de aderir ao novo, ao desconcertante, ao incompreensível. O Evangelho de hoje sugere que é, precisamente nesse novo, desconcertante, incompreensível à luz da lógica humana que, tantas vezes, se revela o mistério de Deus e se encontram ecos de ressurreição e de vida nova.

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Ressuscitou dos mortos
I. O Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos (1).
“Ao cair a tarde de Sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para irem embalsamar o corpo morto de Jesus. – No outro dia, de manhã cedo, chegaram ao sepulcro, nascido já o sol (Marc., XVI, 1 e 2). E entrando, ficam consternadas, porque não encontram o corpo do Senhor. – Um jovem, coberto de vestes brancas, diz-lhes: Não temais; sei que procurais Jesus Nazareno. Non est hic, surrexit enim sicut dixit – não está aqui porque ressuscitou, como tinha anunciado (Math., XXVIII, 5). – Ressuscitou! – Jesus ressuscitou. Não está no sepulcro. A vida pôde mais do que a morte” (2).
A Ressurreição gloriosa do Senhor é a chave para interpretarmos toda a sua vida e o fundamento da nossa fé. Sem essa vitória sobre a morte, diz são Paulo, toda a pregação seria inútil e a nossa fé vazia de conteúdo3. Além disso, na Ressurreição de Cristo apóia-se a nossa ressurreição futura. Porque Deus, rico em misericórdia, impelido pelo grande amor com que nos amou, deu-nos a vida ao mesmo tempo que a Cristo, quando estávamos mortos em conseqüência dos nossos pecados... Com Ele nos ressuscitou (4).
A Ressurreição do Senhor é uma realidade central da nossa fé católica, e como tal foi pregada desde os começos do cristianismo. A importância deste milagre é tão grande que os apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da Ressurreição de Jesus (5). Este é o núcleo de toda a sua pregação, e isto é o que, depois de vinte séculos, nós anunciamos ao mundo: Cristo vive! A Ressurreição é a prova suprema da divindade de Nosso Senhor.
Depois de ressuscitar pelo seu próprio poder, Jesus glorioso foi visto pelos discípulos, que puderam certificar-se de que era Ele mesmo: puderam falar com Ele, viram-no comer, verificaram as marcas dos pregos e da lança no seu corpo... Os Apóstolos declaram que Jesus se manifestou com muitas provas6, e muitos deles morreram em testemunho dessa verdade.
“Apareceu a sua Mãe Santíssima. – Apareceu a Maria de Magdala, que está louca de amor. – E a Pedro e aos demais apóstolos. – E a ti e a mim, que somos seus discípulos e mais loucos que Madalena. Que coisas lhe dissemos!
“Que nunca morramos pelo pecado; que seja eterna a nossa ressurreição espiritual. – E, antes de terminar a dezena, beijaste as chagas dos seus pés..., e eu, mais atrevido – por ser mais criança –, pus os meus lábios no seu lado aberto” (7).
II. São Leão Magno diz de uma forma muito bela que Jesus se apressou a ressuscitar porque tinha pressa em consolar sua Mãe e os discípulos (8): esteve no sepulcro o tempo estritamente necessário para cumprir os três dias profetizados. Ressuscitou ao terceiro dia, mas o mais cedo que pôde, ao amanhecer, quando ainda estava escuro9, antecipando o amanhecer com a sua própria luz.
O mundo tinha ficado às escuras. Só a Virgem Maria era um farol no meio de tantas trevas. A Ressurreição é a grande luz para todo o mundo: Eu sou a luz, tinha dito Jesus; luz para o mundo, para cada época da história, para cada sociedade, para cada homem.
Ontem à noite, enquanto participávamos – se nos foi possível – na liturgia da Vigília pascal, vimos como no começo da cerimônia reinava no templo uma escuridão total, que era imagem das trevas em que a humanidade jaz sem Cristo, sem a revelação de Deus. Pouco depois, o celebrante proclamou a comovedora e feliz notícia: a luz de Cristo, que ressuscita glorioso, dissipe as trevas do coração e do espírito11. E da chama do círio pascal, que simbolizava Cristo, todos os fiéis receberam a luz: o templo ficou iluminado com a luz do círio pascal e a de todos os fiéis. É a luz que a Igreja derrama generosamente sobre a terra mergulhada em trevas.
A Ressurreição de Cristo é uma forte chamada ao apostolado, isto é, a que sejamos luz a fim de levarmos a luz aos outros. Para isso devemos estar unidos a Cristo. “Instaurare omnia in Christo, é o lema que são Paulo dá aos cristãos de Éfeso (Ef. 1,10): informar o mundo inteiro com o espírito de Jesus, colocar Cristo na entranha de todas as coisas. Si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Jo 12,32), quando for levantado ao alto sobre a terra, tudo atrairei a mim. Cristo, com a sua encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e milagres pelas terras da Judéia e da Galiléia, com a sua morte na Cruz, com a sua Ressurreição, é o centro da Criação, Primogênito e Senhor de toda a criatura.
“A nossa missão de cristãos é proclamar essa realeza de Cristo, anunciá-la com a nossa palavra e as nossas obras. O Senhor quer os seus em todas as encruzilhadas da terra. Chama alguns ao deserto, para que se desentendam dos avatares da sociedade dos homens e com o seu testemunho recordem aos demais que Deus existe. Confia a outros o ministério sacerdotal. Mas quer a grande maioria dos homens no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes em que as suas tarefas humanas se desenvolvem: à fábrica, ao laboratório, ao cultivo da terra, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e aos caminhos de montanha” (12).
III. A Virgem Maria, que esteve acompanhada pelas santas mulheres nas horas terríveis da crucifixão do seu Filho, não as acompanhou na piedosa tentativa de acabar de embalsamar o corpo morto de Jesus. Maria Madalena e as outras mulheres que haviam seguido Jesus desde a Galiléia tinham esquecido as suas palavras sobre a Ressurreição ao terceiro dia. Mas a Virgem Santíssima sabe que Ele ressuscitará. Num clima de oração que nós não podemos descrever, Maria espera o seu Filho glorificado.
“Os Evangelhos não nos falam de uma aparição de Jesus ressuscitado a Maria. De qualquer maneira, assim como Ela esteve de modo especial junto da Cruz do Filho, também deve ter tido uma experiência privilegiada da sua Ressurreição” (13). Uma tradição antiquíssima da Igreja diz-nos que Jesus apareceu em primeiro lugar e a sós à sua Mãe Santíssima. Em primeiro lugar, porque Ela era a primeira e principal corredentora do gênero humano, em perfeita união com o seu Filho. A sós, já que esta aparição tinha uma razão de ser muito diferente da das demais aparições às mulheres e aos discípulos. A estes, o Senhor tinha que reconfortá-los e conquistá-los definitivamente para a fé. A Virgem, que já havia sido constituída Mãe do gênero humano reconciliado com Deus, não deixara em momento algum de estar em perfeita união com a Santíssima Trindade. Toda a esperança na Ressurreição de Jesus que restava sobre a terra tinha-se refugiado no seu coração.
Não sabemos de que maneira Jesus apareceu à sua Mãe. Apareceu a Maria Madalena de uma forma que não permitiu que ela o reconhecesse a princípio. Juntou-se aos dois discípulos de Emaús como um viajante. Apareceu aos Apóstolos reunidos no Cenáculo estando as portas fechadas... À sua Mãe, numa intimidade que nos é impossível imaginar, mostrou-se de uma forma tal que Ela pôde reconhecer o seu estado glorioso e perceber que o seu Filho já não continuaria a mesma vida de antes sobre a terra (14).
Depois de tanta dor, a Virgem encheu-se de uma imensa alegria. “A estrela da manhã – diz Frei Luis de Granada – não surge com tanta formosura como a que resplandeceu aos olhos da Mãe naquele rosto cheio de graças e naquele espelho da glória divina. Maria vê o corpo do Filho ressuscitado e glorioso, livre já de todos os maus tratos passados, recuperada a graça daqueles olhos divinos e ressuscitada e aumentada a sua primeira formosura. As feridas das chagas, que tinham sido para a Mãe como espadas de dor, viu-as Ela convertidas em fontes de amor; àquele que vira padecer entre ladrões, vê-o agora acompanhado de anjos e santos; àquele que a confiara do alto da cruz ao discípulo, vê-o agora estender-lhe os seus braços, vê-o ressuscitado diante dos seus olhos. Ela o possui e não o deixa; abraça-o e pede-lhe que não parta; junto da Cruz, emudecida de dor, não soubera o que dizer; agora, emudecida de alegria, não consegue falar” (15). Nós nos unimos a essa imensa alegria da nossa Mãe.
Conta-se que, nesta festa, São Tomas de Aquino aconselhava todos os anos os seus ouvintes a não deixarem de felicitar a Virgem pela Ressurreição do seu Filho (16). É o que nós fazemos a partir de agora, começando hoje a rezar o Regina Coeli, que ocupará o lugar do Angelus durante o tempo pascal: Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia! Porque aquele que merecestes trazer no vosso seio ressuscitou como disse, aleluia!... E lhe pedimos que nos alcance a graça de ressuscitar para sempre de todo o pecado, a fim de permanecermos em íntima união com Jesus Cristo. Façamos o propósito de viver este tempo pascal muito unidos a santa Maria.
Francisco Fernández Carvajal

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Os sinais da ressurreição de cristo
Nas Sagradas Escrituras, um sinal não é simplesmente um evento milagroso, mas algo que aponta para uma realidade de significado mais amplo. Por analogia, é como um sinal de trânsito, que serve para orientar os viajantes na estrada, de sorte que ninguém erre o caminho ou corra risco de acidentes. Um sinal na estrada faz-nos chegar a nosso destino sem incorrer em nenhum dano. Nos textos bíblicos, os sinais indicam que Deus está realizando algo que não é percebido por quem não fez a experiência de fé e amor. Os sinais não servem como provas ou argumentos lógicos para convencer ninguém, porque somente podem ser percebidos por quem faz a experiência de fé e amor. É esta que indica que um acontecimento comum é sinal da ação de Deus.
1. Evangelho (Jo 20,1-9)
O túmulo vazio
O trecho divide-se em duas cenas no cenário do sepulcro: a visita de Maria Madalena (vv. 1-2) e a visita dos discípulos (3-9).
Na manhã do primeiro dia da semana, antes da alvorada, Maria Madalena vai ao sepulcro, vê a pedra removida e volta correndo para avisar aos discípulos. Ela não entra, mas suspeita que o corpo do Senhor tenha sido roubado.
Diligentemente, os dois discípulos correm ao sepulcro. Ambos saem juntos, mas é o outro discípulo que chega primeiro e se inclina para ver as faixas mortuárias. Ele não entra; espera que Pedro seja o primeiro a entrar e o segue para o interior do sepulcro. O discípulo vê e crê. O Evangelho de João atribui ao discípulo amado a fé na ressurreição de Jesus pela primeira vez.
Observe-se que a forma de ver de Pedro é diferente da do outro discípulo. Pedro vê, mas não crê, ainda que seu ver denote disposição para tal. Ao passo que o “ver” do outro discípulo acompanha a fé, indica a compreensão exata e a verdadeira tomada de consciência. Esse ver é propiciado pelo amor. Somente o amor possibilita ver, nos sinais da ausência do corpo, a presença do Ressuscitado. Por isso o discípulo crê de imediato.
O crer, em João, tem o sentido de compreensão do mistério, que é a ressurreição de Jesus, cujos sinais para serem compreendidos exigem adesão da fé. Aqui os sinais são o túmulo vazio e as faixas deixadas não de qualquer jeito, mas dobradas.
O evangelho quer ressaltar a prontidão do discípulo para discernir os vestígios do Senhor ressuscitado. No entanto, o final do texto nos apresenta algo importante. No processo de compreensão da fé no Ressuscitado está presente a Escritura, na qual se atesta a ressurreição. Somente compreendendo a Escritura é que se poderá chegar ao verdadeiro crer, sem a necessidade do ver. Eles tiveram de ver para crer. Mas o evangelho quer transmitir para sua comunidade que, se tivessem entendido as Escrituras, não necessitariam do ver.
O evangelho afirma que o itinerário da fé se baseia nas Escrituras e no testemunho dos apóstolos. Mas é, em última análise, o amor que conduz o discípulo pelo itinerário da fé.
1ª leitura (At. 10,34a.37-43)
Deus purificou os gentios
Esse relato trata da primeira vez em que Pedro se dirigiu a ouvintes não judeus. O texto faz um resumo da vida de Jesus (v. 37-41), a quem Deus constituiu juiz dos vivos e dos mortos (v. 42), e do testemunho dado pelos profetas a respeito de tudo isso (v. 43).
Aos judeus foi destinada, em primeiro lugar, a mensagem do evangelho (v. 36). Mas agora o anúncio do Reino é endereçado a todas as pessoas. Quando Pedro reconhece que Deus não faz acepção de pessoas, isso não quer dizer que antes pensasse o contrário, pois tal noção está escrita em Dt 10,17. O que se está afirmando é que, até então, Pedro pensava, como os demais judeus, que os gentios tinham de sujeitar-se à circuncisão e a outros ritos da Lei de Moisés para somente depois terem acesso às bênçãos messiânicas. Para todo judeu, os gentios, por mais simpatizantes que fossem do judaísmo, eram sempre considerados impuros em relação ao aspecto do culto.
Agora Pedro admite que Deus purificou os gentios e que os apóstolos, testemunhas da ressurreição, receberam o encargo missionário de anunciar a boa-nova a todos os povos.
2ª leitura (Cl. 3,1-4)
A vida cristã
Nós ressuscitamos com Cristo, afirma o primeiro versículo desse texto. Primeiramente, a ressurreição é tratada como realidade que começa já neste mundo, no tempo presente. Posteriormente é que se destacará a ressurreição como acontecimento do fim dos tempos.
Quem faz a experiência da ressurreição deve mudar a conduta de vida e também os conceitos intelectuais. “Cuidai das coisas do alto, não do que é da terra”, afirma o v. 2. Não se trata de uma orientação para que a Igreja seja “alienada”. Quer dizer que nossa vida é regida pela vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, em contraste com o dispêndio de energias em valores contrários ao reino de Deus. Significa que a Igreja deve ter as aspirações determinantes de suas ações embasadas nos ensinamentos e na vontade daquele que agora está entronizado à direita de Deus.
Do contrário, quando a Igreja valoriza demasiadamente certos aspectos pouco relevantes para o seguimento de Jesus, encontra-se buscando as coisas da terra. Quem morreu para o pecado recebe a vida nova, a ressurreição, algo que não é visível ao olho natural, e por isso a mudança de vida não é compreendida por quem observa tudo apenas pela ótica intelectual. Mas haverá um momento em que a vida ressuscitada será visível e palpável para todos, na segunda vinda de Cristo com poder e glória.
Pistas para reflexão
Ressaltar que os “sinais” são revelações indiretas dadas pelo Senhor, em contraste com o modo exato de comunicação realizado no nosso cotidiano. Nesse tipo de revelação, situações do dia a dia são carregadas de um excesso de significado que desperta a curiosidade das pessoas. Os “de fora” da comunidade percebem “algo mais” quando observam o estilo de vida cristã. É nesse sentido que a Igreja é luz, sal e fermento para o mundo. Resta saber se, olhando para nossas vidas, “os de fora” conseguem receber a revelação de Deus.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

SEGUNDA HOMILIA

A verdade da ressurreição mexe com a nossa vida, como aconteceu com as primeiras testemunhas. Tudo adquire um sentido novo.
A alegria invade o nosso ser. A esperança se renova, baseada na certeza da vida em plenitude, dom de Deus! A fé na ressurreição imprime novo dinamismo na nossa caminhada terrena.
A atitude de Maria Madalena nos inspira a partilhar as descobertas que prenunciam uma boa notícia. A sua atitude, bem como a de Pedro e a do discípulo amado, reflete as reações dos participantes das comunidades cristãs diante do fato da ressurreição (Evangelho). Ao participar da comunidade de fé, experimentamos que Jesus está vivo. A ressurreição de Jesus é um fato histórico, com testemunhas oculares; faz parte essencial do credo cristão, conforme percebemos na catequese de Pedro junto à comunidade cristã reunida na casa de Cornélio, um centurião romano. A fé na ressurreição derruba barreiras que separam os povos e provoca novas relações baseadas no amor fraterno (I leitura). Ela nos faz viver de um novo modo, já não voltados para interesses egoístas, mas para “as coisas do alto” (2ª leitura). A celebração da Páscoa do Senhor Jesus é oportunidade de nos deixarmos invadir pelo amor misericordioso de Deus e seguir a Jesus com entusiasmo.
Evangelho (Jo 20,1-9)
O dia da nova criação
O primeiro dia da semana indica um novo tempo. Tem ligação com o início da criação do mundo. A morte de Jesus significou a passagem das trevas para a luz que nunca mais se apagará.
A fé na ressurreição, porém, não se processa da mesma maneira em todas as pessoas. Algumas precisam de um tempo maior para assimilar essa verdade que tudo transforma. Maria Madalena recebe especial distinção: ainda no escuro, dirige-se ousadamente ao túmulo de Jesus. Apesar de ver a pedra removida, não consegue ainda perceber a luz do sol (Jesus que ressuscitou) anunciando uma nova aurora. Perplexa, corre ao encontro de Simão Pedro e do discípulo que Jesus amava para dizer-lhes de sua preocupação com o que havia constatado. O seu anúncio provoca a movimentação dos dois discípulos na busca do verdadeiro sentido dos últimos acontecimentos.
Maria Madalena, nesse relato de João, é representativa da comunidade que não aceita permanecer acomodada. Busca ansiosamente a explicação do que realmente aconteceu naquele “primeiro dia da semana”. É atitude muito positiva, pois “quem busca encontra e quem procura acha”. Por isso, ela é especialmente valorizada.
Jesus deixa-se encontrar. Impulsionada pelo amor, caminha na direção do Amado. O maravilhoso encontro de Maria Madalena com Jesus ressuscitado se dá logo a seguir (20,11-18).
A comunidade cristã primitiva reconhecia-se no jeito de ser de Maria Madalena, de Pedro e do discípulo amado. Havia pessoas que ainda permaneciam nas “trevas” da morte de Jesus; sentiam-se desamparadas e desorientadas. Havia as que não conseguiam acolher a verdade da ressurreição de Jesus. Diziam que seu corpo fora retirado por alguém e que se inventou a notícia de que ele havia ressuscitado. É o que se percebe na expressão de Maria Madalena: “Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram”. Essas pessoas ainda estão no emaranhado de dúvidas, porém, pouco a pouco, receberão a graça de reconhecer a ressurreição de Jesus como um acontecimento verdadeiro e não como uma lenda.
Pedro e o discípulo que Jesus amava, ao ouvirem a notícia de Maria Madalena, correm para o local onde Jesus fora enterrado. Partem juntos, mas Pedro corre menos. É intenção dos autores do Evangelho de João demonstrar a dificuldade de Pedro em entender e aceitar o verdadeiro significado da morte de Jesus. Talvez esteja ainda amarrado à sua vergonha de ter negado o Mestre e de tê-lo abandonado na hora decisiva. Pedro, porém, segue o discípulo que Jesus amava e, à tarde desse mesmo dia, fará a experiência maravilhosa de encontrar-se com o Ressuscitado junto com outros discípulos (20,19-23). Também na comunidade cristã havia pessoas que manifestavam resistência a aderir a Jesus morto e ressuscitado com convicção de fé.
Lentamente, porém, com a ajuda dos “discípulos amados”, chegaram a trilhar o caminho do seguimento de Jesus, a ponto de dar a vida por ele, como aconteceu com o próprio Pedro.
O “discípulo que Jesus amava” chega mais depressa ao túmulo. Esse discípulo é aquele que, junto com algumas mulheres, acompanhou Jesus até a cruz (19,25-27) Testemunhou sua morte e lhe foi solidário. Agora também mostra solidariedade para com Pedro, que chega depois.
Dá-lhe preferência para entrar no túmulo. Reconhece sua autoridade. Ao entrar, Pedro vê as faixas de linho e o sudário. O texto não diz que ele acreditou, apenas “viu”. Porém, do discípulo amado, diz que ele “viu e acreditou”. Os mesmos sinais são interpretados de forma diferente. Para quem ama a Jesus e se sente amado, nada o impede de crer na vitória da vida sobre a morte.
Os discípulos voltam para casa. É na casa que as comunidades primitivas se reúnem para ler e compreender a Sagrada Escritura, fazer a memória de Jesus, partilhar a experiência de fé e crescer no amor fraterno. É na casa onde se derrubam as barreiras separatistas e se exercita a acolhida respeitosa da alteridade. A Igreja nas casas vai constituir o espaço sagrado por excelência onde Jesus ressuscitado manifesta sua presença, se dá em alimento e convoca seus discípulos à missão.
1ª leitura (At. 10,34a.37-43)
O querigma cristão
O capítulo 10 de Atos dos Apóstolos constitui uma página de especial importância. Lucas (o mesmo autor do evangelho) revela uma de suas intenções fundamentais: a salvação trazida por Jesus Cristo é para todos os povos.
Pedro, depois de um processo de relutância e discernimento, aceita o convite para entrar na casa de um pagão, centurião romano, chamado Cornélio. É a porta de entrada para o mundo dos gentios, missão que será assumida integralmente por Paulo.
É significativo o fato de ser Pedro aquele que primeiro rompe a barreira do judaísmo exclusivo para dialogar com os estrangeiros. É recebido por Cornélio com muita reverência. Lucas enfatiza a autoridade de Pedro, representante dos apóstolos. Quer fortalecer a fidelidade à tradição apostólica. A atitude de Pedro na casa de um romano legitima a abertura para todos os povos.
Jesus é o Salvador universal.
Cornélio revela-se extremamente receptivo à pessoa e à mensagem de Pedro. De fato, a resistência ao anúncio do evangelho é perceptível muito mais entre os judeus do que entre os gentios. O próprio Pedro manifesta dificuldade em desvencilhar-se do exclusivismo judaico e da lei de pureza. Converte-se à medida que se insere no lugar social dos estrangeiros, a ponto de comer com eles. É na casa de Cornélio que ele se abre verdadeiramente para o plano divino de salvação universal: “Dou-me conta de verdade que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça lhe é agradável” (10,34-35). O critério de pertença ao povo de Deus já não é a raça ou o cumprimento da Lei, e sim a prática da justiça.
Por esse caminho, dá-se a inclusão de todos os povos, sob a ação do Espírito Santo. As comunidades cristãs primitivas concretizaram esse ideal.
Formadas por pessoas de culturas diferentes, reuniam-se nas casas, ao redor da mesma mesa e unidas na mesma fé.
O discurso de Pedro constitui um resumo da catequese primitiva. É a síntese do querigma apostólico. Apresenta Jesus de Nazaré, desde o seu batismo, passando pela sua missão de resgate da vida e dignidade de todas as pessoas, pela sua morte de cruz, culminando com a sua ressurreição.
O anúncio de Pedro é fundamentado em seu próprio testemunho e no de várias outras pessoas: “Nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez” (v. 39); “Nós comemos e bebemos com ele, após sua ressurreição dentre os mortos” (v. 39). O discurso termina com a confissão de fé em Jesus como juiz dos vivos e dos mortos, constituído por Deus e anunciado pelos profetas.
E finalmente: “Todo aquele que nele acreditar receberá a remissão dos pecados” (v. 43).
2ª leitura (Cl. 3,1-4)
Cristo é a nossa vida!
A comunidade cristã da cidade de Colossas, na Ásia Menor, manifestava certo distanciamento das verdades fundamentais da fé. Influenciadas por tendências da época (por exemplo, a importância dada às forças cósmicas, depositando nelas toda a confiança), havia pessoas que observavam práticas religiosas, dietas e exercícios de ascese (2,16-23) levadas por “vãs e enganosas filosofias”. Havia também pessoas levadas pela “fornicação, impureza, paixão, desejos maus e a cobiça de possuir” (v. 5). O autor da carta preocupa-se com essa situação e, por isso, escreve aos colossenses no intuito de orientá-los para uma vida coerente com a fé em Jesus Cristo, único mediador entre Deus e as criaturas.
Nessa pequena leitura deste domingo de Páscoa, encontramos quatro pontos do querigma cristão que fundamentam a fé das primeiras comunidades: a morte de Jesus, sua ressurreição, sua exaltação à direita de Deus e sua volta.
Cada um desses pontos é indicativo de atitudes que caracterizam o novo modo de viver dos cristãos.
A fé na morte de Jesus Cristo implica a morte de nossos maus comportamentos. Para os cristãos colossenses, implicava morrer para as práticas religiosas que contradiziam a fé cristã; implicava passar de uma mentalidade idolátrica para o mergulho na vida divina, seguindo a Jesus Cristo: “Vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”.
A fé na ressurreição e na ascensão de Jesus Cristo implica discernir o que realmente edifica o ser humano em comunidade: “Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto...”.
Quem permanece com o pensamento e o coração mergulhados em Deus vive dignamente.
A fé na volta de Jesus nos motiva a viver na esperança militante, com a certeza de estarmos com ele: “Quando Cristo, que é vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados em glória”.
Pistas para reflexão
– Jesus ressuscitou: a vida já não é a mesma. Maria Madalena se distingue pela sua coragem.
Ela vai ao túmulo, mesmo no escuro. Seu amor a Jesus não permite que permaneça afastada. Procura entender o sentido da morte de Jesus. Não é acomodada nem derrotista. Vai ao encontro dos discípulos e lhes anuncia uma notícia inquietante: o túmulo está vazio. A sua ousadia na busca da verdade a levará ao encontro com Jesus ressuscitado.
Pedro, apesar de sua boa vontade em seguir a Jesus, ainda permanece na dúvida. O discípulo que Jesus amava é o mais rápido para “ver e crer”. Não precisou ver Jesus com os olhos da carne. Quem ama e se deixa amar por Jesus caminha na certeza de que ele está vivo.
– A fé na ressurreição derruba barreiras. O encontro de Pedro com Cornélio corresponde à atitude das pessoas que amam a Deus acima dos preconceitos humanos. A fé em Jesus Cristo como salvador do mundo derruba as barreiras de raças e de tradições culturais e religiosas que dividem as pessoas. Nada pode impedir o diálogo, a reconciliação, o respeito mútuo e a vivência do amor fraterno. O espaço privilegiado para essa vivência é a casa. O que aconteceu na casa de Cornélio nos anima a fortalecer o modelo da Igreja como comunidades eclesiais de base; também nos incentiva ao compromisso com o ecumenismo e com o diálogo inter-religioso.
– A vida mergulhada em Jesus Cristo. Como aconteceu entre os cristãos colossenses, também hoje corremos o perigo de nos deixar arrastar por ideologias que contradizem o Evangelho. É importante cultivarmos a prática do discernimento para assumirmos os valores que nos conservam na vontade de Deus e edificam a nossa vida. Professar a fé em Jesus Cristo implica viver dignamente, bem como respeitar a dignidade das demais pessoas e da natureza.
padre Celso Loraschi