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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 28 de julho de 2012

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM



XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM

29 de julho

Comentários-Prof.Fernando



A multiplicação dos pães

Introdução


No Evangelho de hoje nós vemos que  naquele dia, aconteceu uma partilha entre as pessoas que estavam em volta de Jesus. Os que tinham algo para comer, colocaram à disposição dos demais. Mais é importante perceber, que não havia mantimentos disponíveis em poder dos presentes, que desse para alimentar  5.000 homens, sem contar mulheres e crianças, e ainda sobrar 12 cestos. Mesmo porque se trata de uma comunidade pobre, localizada em uma região de pouca chuva, como é o caso da Palestina.
Sendo assim, erra quem interpreta e afirma que na Multiplicação dos pães, aconteceu apenas uma partilha entre as pessoas, e ignora a parte principal que foi o milagre da multiplicação dos pães efetuado por Jesus Cristo. Isso acontece quando o texto bíblico é analisado e interpretado de forma fria e objetiva aos olhos da pura intelecção, sem nenhuma devoção, sem nenhuma espiritualidade, e com pouca ou nenhuma fé.
Houve milagre, sim, e não somente partilha! Jesus tomou os poucos mantimentos que haviam entre algumas pessoas, e os multiplicou com o seu poder divino, pois para Jesus nada, absolutamente nada é impossível.  Assim pensa quem acredita, quem tem uma fé não ingênua, mais uma fé científica e inabalável, pautada no poder de Deus manifestado na pessoa de seu Filho Jesus Cristo,  por meio de mais de mil fatos extraordinários inexplicáveis aos cientistas, ou seja, os  milagres realizados por Ele.
Na multiplicação dos pães, aprendemos que quando partilhamos os nossos bens, nada nos faltará. Por que repartir o que temos com quem não tem, é o maior e o melhor investimento.
Por exemplo: A partir do momento eu que você deixar de ofertar apenas algumas moedinhas na hora do ofertório na missa, e passar a fazer mensalmente uma  contribuição significativa para a sua Igreja, com toda certeza nada irá lhe faltar. Seu carro não vai quebrar no dia mais difícil, em que o seu dinheiro está contado. Seus rendimentos fluirão normalmente, pois contam com as bênçãos do todo Poderoso. Prezados irmãos. Não acreditem nestas palavras! Experimentem  fazer isso e vocês verão que suas vidas econômica e financeira se transformarão. Nas suas mesas nada irá faltar. O vosso dinheiro, seja ele pouco ou muito, sempre vai dar para vocês fazerem ou adquirir tudo o que precisa, e ainda vai sobrar.   
A Esmola também faz parte desse mega investimento. Porque quando damos esmola, Jesus perdoa os nossos pecados veniais e nos recompensa nesta vida e na outra.
Lembre que Ele disse aos fariseus que queimavam animais no Templo ara o perdão dos seus pecados: "Eu não quero sacrifício, mais sim caridade".
Quem é generoso, sabe que este é o melhor investimento. Por que realmente é dando que se recebe. Experimente. Multiplique seus bens, seu dinheiro, fazendo oferta nas missas e fazendo caridade.
Por outro lado, o Evangelho de hoje nos lembra que precisamos multiplicar o número dos cristãos no mundo.
Jesus multiplicou os pães, para nos dar o exemplo da caridade, da partilha, da multiplicação dos nossos esforços no sentido de que todos os nossos irmãos sejam salvos.
Conclusão: Neste mundo existem muitos  preocupados em multiplicar  seus lucros: Aumentando  assim, o número de clientes, de filiais das lojas e fábricas, de vendas, o número de seus carros, casas, etc, de forma incansável,  sem perceber que nada disso levarão consigo quando chegar a sua hora de partir desta vida.
Prezados irmãos: Afinal de contas o que levamos conosco? O que precisamos multiplicar? Nós precisamos multiplicar a nossa  caridade, a solidariedade, a fortaleza através da oração, a nossa justiça para com os nossos irmãos, a prudência, a catequese,  a temperança, a esperança e a nossa fé. Ou seja, precisamos  multiplicar o nosso amor a Deus e ao próximo.

José Salviano.
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Domingo, 29 de julho de 2012

17º Domingo do Tempo Comum



Santos do Dia: Santa Marta (Memória); Beatriz de Valfleury (virgem), Bério (mártir de Constantinopla), Calínico de Paflagônia (mártir), Faustino de Spello (mártir), Félix II (papa), Lucila, Flora, Eugênio, Antônio, Teodoro e Companheiros (mártires), Lobo de Troyes (bispo), Olavo da Noruega (rei, mártir), Próspero de Orléans (bispo), Serafina de Mamie (mártir), Serápia da Síria (virgem, mártir), William Pinchon de Saint-Brieuc (bispo).

Primeira leitura: 2 Reis 4, 42-44
Eliseu multiplica os pães. 
Salmo responsorial: 144, 10-11.15-18
Saciai os vossos filhos, ó Senhor!
Segunda leitura: Efésios 4, 1-6
Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. 
Evangelho: João 6, 1-15
Jesus multiplica os pães.

Josué organiza a grande assembléia de Siquém, como a reunião constitutiva do povo em tribos. É o ponto de partida de um movimento novo que parte do Êxodo. O povo deve aceitar sua nova identidade teológica, social, cultural. É fundamental identificar o Deus do Êxodo: ele vê a opressão do povo, ouve o grito de dor e conhece seus sofrimentos, está decidido a descer para libertar o povo do poder dos opressores(Ex 3,7-8). É o Deus de seus Pais, o Deus da Historia.
As tribos procedem de diferentes origens culturais, religiosas, étnicas, porém agora se aglutinam em um só povo, Israel, graças à fé no Deus do êxodo. É a teologia, a fé em Javé e não o sangue que os une em uma aliança tribal. O coração dessa aliança tribal é a fé comum no Deus dos pobres. Porém, supõe também identificar os deuses “estranhos” (deuses cananeus e egípcios), como imagens corrompidas de Deus, que geram escravidão e morte; um sistema de impostos, uma vida de escravos, uma religião opressora. Mudar esses deuses pelo Deus do êxodo, fundar uma sociedade de leis para a vida, partilhar a terra, viver uma nova forma de culto baseado na páscoa, tudo isso é o tema central dessa grande assembléia de Siquém.
As tribos de Israel fazem um pacto de amor com o Deus dos pobres. Um casamento, como insinua a carta aos Efésios. “Uma Igreja dócil ao Messias” “para torná-la radiante, sem mancha e nem ruga”.
As palavras de Jesus chocam com a mentalidade vigente. Há vinte séculos parecida inadmissível que uma pessoa pudesse comunicar  uma mensagem tão exigente e tão libertadora. Hoje seguimos no mesmo plano: procuramos adocicar as palavras de Jesus para que não firam nossos preconceitos. Com frequência queremos converter a palavra de Jesus no exercício de um conjunto de ritos. Porém, a palavra de Jesus nos desestabiliza, nos desinstala e nos lava a questionar a vida diária. Às vezes, inclusive, dizemos como os discípulos: “Este modo de falar é muito duro, quem pode suportar?” Não obstante, nós queremos seguir a Jesus, a única resposta possível é um “sim” firme, um “amém” decidido e generoso. Queremos segui-lo e queremos ser como ele. Não queremos nos contentar com as recompensas que o mundo nos oferece, mas desejamos caminhar com o Nazareno a difícil e tortuosa via do povo de Deus na História.
Poucos se atrevem a criticar a Jesus de Nazaré, porém isto não significa que estejam de acordo com ele. Muitas pessoas há tempo “voltaram para trás” e escolheram seu próprio caminho, somente que se contentam em levar em sua memória a lembrança de um batismo sociológico e o aval das cerimônias religiosas. Porém, para aqueles que queremos escutar o Mestre, não existe outra resposta que a de Pedro ante o desafio de Jesus: “Senhor, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna”.
Que útil seria examinar nossas eucaristias! Geram um “movimento de Jesus” em direção à Utopia solidaria do que Ele chamava Reino? Vão mudando nosso modo de pensar e agir? Fazem-nos capazes de identificar as outras presenças de Deus entre os deserdados da vida? O mesmo Jesus, em cuja boca João colocou estas palavras: “Eu sou o Pão da Vida”, em Mateus também disse: “Tive fome e me destes de comer; cada vez que o fizeram a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeram” (Mt 25, 35).

Oração
Ó Deus, Pai e Mãe de toda a Humanidade, que em Jesus de Nazaré nos deste uma Palavra luminosa que traz vida para o mundo; faze que toda a Humanidade possa acolher a palavra que em Jesus pronunciaste para nós e esteja atenta em acolher e assimilar todas as muitas palavras que em outros tempos em outros lugares e de muitas maneiras pronunciaste para alentar a vida no Mundo. Tudo isto te pedimos, inspirados pelo Espírito de Jesus de Nazaré, teu filho e irmão nosso. Amém.

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DOMINGO
João 6,1-15
:Quando nós nos colocamos nas mãos do Pai e nos dispomos a partilhar o que temos,Ele multiplica  e nunca nos faltará nada. – Maria Regina

                 A multidão seguia Jesus “porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes”, no entanto, o Senhor tinha para com eles um zelo e um olhar de quem via todas as suas necessidades. Assim foi que logo ao enxergar a multidão que vinha ao seu encontro, Jesus lembrou-se de que eles deveriam estar com fome e precisavam alimentar-se. Jesus aproveitava todas as oportunidades para instruir os seus discípulos e para dar testemunho da bondade do Pai. Por isso, Ele os punha à prova a fim de medir a generosidade daqueles que caminhavam com Ele.
                     Ele sabia que a multidão faminta não poderia apreender os mistérios do Pai e, ao mesmo tempo, exercitava os Seus discípulos a não se omitirem diante dos desafios e a se colocarem a mercê da providência do Pai. “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” Assim foi que questionados sobre o que teriam de fazer apareceu André que lhe deu notícia de alguém que tinha cinco pães e dois peixes. São lições que hoje servem para a nossa vida: Como alimentar tanta gente, tendo pouco? O que fazer? O que pensar? Desistir? Resmungar? Murmurar?
                      Assim como os discípulos fizeram devemos também nós fazer: “Está aqui alguém que tem cinco pães e dois peixes, mas o que será isto pra tanta gente?” “Fazei sentar as pessoas!” O que isto pode significar para nós? Quando nos sentamos em família, em comunidade e colocamos o pouco que temos nas mãos de Deus, quando juntamos os nossos poucos dons e os oferecemos ao Senhor o milagre acontece. Cada um de nós tem seu papel no diálogo, na compreensão, na serenidade, na partilha do amor.
                      Quando nós nos colocamos nas mãos do Pai e nos dispomos a partilhar o que temos, com amor, Ele multiplica suas graças de provisão e nunca nos faltará nada. Reflita – Você tem vivido isto na sua família? – Você já percebeu na sua casa o que cada um tem para oferecer? – Vocês costumam sentar-se para fazer uma avaliação das suas possibilidades colocadas nas mãos de Deus? – O milagre já aconteceu?
amém
abraço carinhoso
– Maria Regina

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O MILAGRE DA PARTILHA! – Olívia Coutinho

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 29 de Julho de 2012

Evangelho de Jo 6,1-15

O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta, mostra-nos mais uma vez, a sensibilidade de Jesus, diante a necessidade humana!
A fome de tantos irmãos é uma ferida que sangra constantemente no coração de Jesus!
 E está em nossas  mãos,  a cura desta ferida! Cura que vem de  um pequeno gesto de amor, que deve brotar do nosso coração e  nos levar a partilha!
Quem de nós, não tem “5 pães e dois peixes”? Tomemos para nós, o exemplo daquele menino, citado no evangelho, que partilhou tudo o que tinha para o seu sustento e ficou saciado!
É difícil acreditar, mas é a mais dura realidade: num mundo de tanta fartura, ainda hoje,  morrem milhares de pessoas vítimas do nosso abandono. São muitos os irmãos, que continuam morrendo  de fome, ou por doenças causadas pela desnutrição, conseqüência do nosso egoísmo,  que nos impede de abrirmos o nosso coração ao amor solidário, o amor que nos leva a partilha.
A todo instante, pessoas  necessitadas de  ajuda,  desfilam diante dos nossos olhos, são  irmãos nossos, pessoas desprovidas do mínimo necessário para a sua sobrevivência.  E quantas vezes, nós, que dizemos seguidores de Jesus, tampamos os nossos ouvidos para não ouvir os seus clamores, preferindo ignorá-los, para nos  isentar  de quaisquer responsabilidade sobre  eles. E assim,  vamos  buscando  mil desculpas para justiçar a nossa impassibilidade, diante a esta triste realidade.
Precisamos  aprender a olhar o irmão com o mesmo  olhar de Jesus,  um olhar que  não  vê somente a  sua necessidade, como também, ajuda-o a encontrar o caminho que o levará a solução de seus problemas.
A exemplo de Jesus, não podemos fechar os olhos diante as necessidades do nosso irmão e  muito menos, transferir para outros, a nossa responsabilidade para com eles.
Temos que nos  conscientizar de que somos co-responsáveis pela vida do outro, por tanto, não podemos permanecer indiferentes aos seus problemas, problemas que se chegaram até a nós, é porque  também são  nossos.
Podemos observar, que quase sempre, o que o nosso irmão precisa, não é muito, é sempre algo que está  ao nosso alcance, às vezes, é apenas um prato de comida, uma palavra de esperança, um tempo para escutá-lo, ou simplesmente um sorriso nosso.
  Como verdadeiros seguidores de Jesus, precisamos colocar em prática os seus ensinamentos e assim como Ele, estarmos  sempre atentos as necessidades do outro, prontos para ajudá-lo.
De nada adianta, erguermos as nossas mãos para louvar  a  Deus, se  não somos  capazes  de abaixá-las, para erguer um irmão.
O evangelho de hoje  narra o episódio que marcou o milagre da multiplicação dos pães: o milagre da partilha! O ponto fundamental deste acontecimento, é o amor, o amor que  leva a partilha.  
Sabemos que Jesus, se  quisesse, poderia realizar sozinho, a multiplicação dos pães, mas Ele  quis envolver todos os seus discípulos, até mesmo um menino, um anônimo, cujo o nome nem  é citado, apenas mais um no meio da multidão, o que vem nos mostrar  claramente, que Jesus, quer agir  no mundo, através do coração humano.
Jesus nos encarrega de saciar a fome de tantos irmãos, na certeza de que: colocando em suas mãos, o pouco que temos, Ele  transforma em muito!
Onde existe amor, existe partilha, onde existe partilha, Deus entra, e o milagre da multiplicação acontece!
É nosso compromisso cristão, despertar no outro, a necessidade de Deus, mas antes, é preciso saciar a sua fome, criar no seu coração a  necessidade  de Deus,  como fez Jesus: a  partir da necessidade do pão material, ele criou a necessidade do pão da vida eterna.
  
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia

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18º DOMINGO DO TEMPO COMUM 05/08/2012

1ª Leitura Êxodo 16, 2-4. 12-15
Salmo  77 (78) , 24 “Faz chover o maná para saciá-los, deu-
lhes o trigo do céu”
2ª Leitura  Efésios 4, 17.20 – 24
Evangelho João 6, 24-35

"JESUS, O PÃO VERDADEIRO"- DIÁC. JOSÉ DA CRUZ


Havia na minha rua um cão bravio que ficava o dia inteiro se desgastando, perseguindo os carros que passavam certo dia, quando era perseguido por ele, latindo furiosamente ao lado do meu carro, resolvi parar no meio fio, o cão tomou um susto, cheirou um pneu e com o rabo entre as pernas voltou para o seu canto.
Há nesta vida pessoas que não tem um objetivo na vida, se desgastam a vida inteira para caminhar e sobreviver, sem conseguirem chegar a lugar algum. Na primeira leitura da liturgia desse domingo, os Israelitas, por não terem entendido a proposta libertadora de Deus, embora fazendo um grande esforço para caminharem pelo deserto, se desgastaram com Moisés, porque para eles a liberdade oferecida pelo Deus da Aliança, valia bem menos que uma panelada de carne e cebola do Egito, “aquilo sim que era vida...” e não morrer de fome e sede em um lugar miserável como o deserto, acomodados na falsa segurança que tinham na vida antiga na terra do Egito, não conseguiam enxergar os novos horizontes que Deus abria além do deserto.
Se uma simples panela de carne com cebola era o suficiente para “chutarem o pau da barraca” no projeto do Deus Libertador, imagine hoje, o quanto o homem não é tentado pelo conhecimento científico e tecnológico, a rebelar-se contra Deus, que os convida a enxergar que esta vida, com tudo de bom que ela oferece, é apenas um caminho, uma estrada que nos levará a verdadeira vida em sua plenitude.
No Evangelho, a multidão também faz um grande esforço para buscar Jesus e seus discípulos, pegam os barcos disponíveis por ali e fazem a travessia até chegar a Cafarnaum, onde ele estava na outra margem do lago. Como hoje há também uma multidão que se esforça, dentro de suas igrejas, a buscarem Jesus. A pergunta é o que essas pessoas buscam? O que elas vêem em Jesus Cristo? As respostas variam muito, há os que buscam a cura de uma enfermidade, outros buscam a prosperidade em troca de um dízimo altíssimo, outros até buscam os sacramentos, mas sem compreender nada sobre eles, não é errado buscar coisas materiais ou pedi-las a Deus, por intercessão de Jesus Cristo, o problema, é quando nada mais enxergamos nele, além disso, cura física, patrimônio, ganhos financeiros um bom emprego com um ótimo salário, a libertação de toda e qualquer angústia que nos traga algum sofrimento físico ou moral.
Entretanto, sabemos muito bem que tudo isso, um belo dia vai ficar para trás: nosso corpo saudável, nossos bens materiais, nossa carreira profissional, tudo isso são coisas perecíveis, mas que, no entanto, muitas vezes estão no centro de nossas atenções, e a vida vai girando sempre em torno daquilo que podemos ter de bom, em todos os aspectos, e a religião entra como a grande aliada do homem, pois se me submeto a uma religião, Deus me recompensa dando-me tudo aquilo que preciso, para viver bem. É exatamente com essa intenção que nos dias de hoje, uma grande multidão lota alguns templos nas grandes metrópoles.
Mas esta reflexão é válida para todos nós cristãos, porque parece que não sabemos bem o que queremos, e nos contentamos apenas com a casca da fruta, colocamos nossa atenção na embalagem do produto, em resumo, nos contentamos com tão pouco, quando Jesus nos oferece um tesouro inestimável, algo novo, inédito e valiosíssimo, mas a multidão não quer arriscar deixar de lado a religião de Moisés, a cuja tradição estavam ligados, “O que faremos para praticar as obras de Deus?” Para eles Moisés era até agora a maior referência, porque garantiu alimento para o povo no deserto, e bastava cumprir a lei que já estava no caminho certo. Não precisava pensar e nem comprometer-se com nada, bastava não fazer nada de errado, e pronto, o resto era com Deus! “Que milagres fazes, para que vejamos e creiamos em ti, que obras realizas?” Em outras palavras, o que vamos ganhar se te seguirmos.
Hoje em dia, com o fenômeno religioso que se apresenta como uma resposta diante dos inúmeros problemas existenciais, a religião mais procurada é aquela que oferece maiores vantagens, não exige muito sacrifício nem comprometimento, é quase que o princípio do melhor custo benefício, investir bem pouco e ganhar muito. Muitas vezes, pensando desse modo acabamos pecando, quando valorizamos mais a quantidade do que a qualidade, vendo nisso um indicativo de crescimento em nossas comunidades.
Crer naquele que o Pai enviou, não significa deixar tudo por conta de Jesus, antes, é tê-lo como nossa referência única e autêntica, despojando-nos do Velho Homem e renovando os sentimentos de nossa alma, revestindo-nos do homem novo, criado a imagem e semelhança de Deus, em verdadeira justiça e santidade. Não é importante o TER mas o SER, é isso que Jesus nos oferece, um novo ser, totalmente livre para tomar decisões e fazer escolhas na vida, a partir de Jesus Cristo, aquele que nos renovou por completo com sua obra redentora. (18º. Domingo do Tempo Comum João 6, 24-35)

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“O pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada...”
Pe. Erivaldo Gomes de Almeida.
Eri_gomesseminarista@yahoo.com.br

Neste XVII Domingo Comum o Evangelho me leva a fazer a seguinte meditação:
1-Existem dois modos de seguir Jesus:
·       O dos discípulos que sentavam ao seu redor para ouvi-lo e o tinha como único mestre, que tinham deixado tudo para segui-lo...
·        O da multidão interesseira que o procurava somente pelos milagres que ele podia realizar.
Hoje nossa cultura valoriza mais o TER que o SER e até algumas religiões surgiram somente com este objetivo.  Multidões se aproximam de Cristo, lotam as Igrejas somente pelos milagres e benefícios que os pastores prometem. As pessoas não querem ser cristãs, querem ter Cristo como um mago para suprir as necessidades.  Muitos não estão nem aí para Jesus Cristo, para a Igreja Católica, querem somente os benefícios que Cristo e a Igreja podem lhes oferecer. Um grande exemplo são os assentamentos: antes de ganhar a terra muitos eram pessoas de oração, caminhavam juntos com a comunidade, pois era o padre ou a freira quem apoiava a luta e organizava o povo. Todos se diziam religiosos, mas depois que ganharam a terra se afastaram e em alguns assentamentos das paróquias onde trabalho (Itaeté e Andaraí Bahia) se o padre entrar hoje é “expulso”.
Ø E nós, procuramos Jesus para que? Por que participamos da comunidade? Somos discípulos que seguem Jesus de perto e o tem como único mestre ou fazemos parte desta multidão sem compromisso?
2-Jesus se antecipa às necessidades humanas. Diante de um problema para resolver ele não fez tudo sozinho, mesmo sabendo o que fazer jogou o problema também nas mãos dos discípulos: onde vamos comprar pão para alimentar esta multidão? Felipe constata a quantidade imensa de pessoas para serem alimentadas e a incapacidade de alimentar tanta gente com tão pouco. André, por sua vez, aponta uma solução: a partilha.
·       O milagre e a partilha acontecem, todos se alimentam com fartura e ainda sobra. Lembrando assim os tempos messiânicos de Isaias 49,10 onde os dons de Deus seriam derramados abundantemente sobre o povo e ninguém mais passaria necessidade. Portanto uma das finalidades deste milagre foi mostrar que de fato Jesus era o Messias esperado, o Filho de Deus.  Meus caros, diante da resposta de Felipe fica evidente que houve sim milagre e não somente a partilha. Deus realizou o milagre, mas com a colaboração humana. Se serviu dos pães e peixes que tinham à disposição para realizar o milagre.
·       Hoje há uma grande ferida aberta no seio da humanidade.
*   NO MUNDO: Segundo dados da FAO (organização da ONU para alimentação e agricultura) morrem de fome, anualmente, pelo menos 5 milhões de crianças no mundo, o que dá uma média de um óbito a cada 5 segundos. 12 crianças morrem de fome a cada minuto no mundo. Mais de vinte milhões de crianças nascem com o peso abaixo dos padrões mínimos, correndo maior risco de morte durante a infância e os que sobrevivem carregam seqüelas para o resto da vida.  
*   NO BRASIL: Uma tese de um aluno da Universidade Federal de Santa Catarina divulgou que: 1) 32.000.000 de brasileiros defrontam-se diariamente com o problema da fome; a renda mensal lhes garante, na melhor das hipóteses, apenas a aquisição de uma cesta básica de alimentos. 2) A quantidade diária de calorias e proteínas recomendada para cada pessoa por dia é de 2.242 Kcal e 53 gramas de proteínas. O Brasil tem uma disponibilidade de 3.280 Kcal e de 87 gramas de proteínas por habitante; 3) A fome que atinge 32 milhões de brasileiros não se explica pela falta de alimentos, mas pela má distribuição de renda e pelo desperdício. No Brasil a cada ano, cerca de 70 mil toneladas de alimentos são jogadas no lixo. 64% do que é plantado no Brasil é descartado. Enquanto Jogamos alimento fora a Cruz Vermelha aponta que existe um bilhão de pessoas que aguardando um prato de comida todos os dias.
*   Esses são os dados a nível de país, e em nosso município, em nossas comunidades será que não existem famintos? Será que pessoas não passam fome? E o que estamos fazendo por elas?
·       Jesus quer alimentar os famintos e coloca o problema em nossas mãos: onde vamos comprar pão para alimentar esta multidão? Assim como os discípulos fizeram nós também devemos fazer. Temos que estar dispostos a partilhar e não o que sobra, mas o que temos de melhor, pois o pobre não é minha lata de lixo. E ninguém é tão pobre que não tenha o que partilhar. Quem nos impede de partilhar não é nossa pobreza, é nosso egoísmo. Diz um canto muito comum em nossas comunidades que “o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada, o pouco que repartimos é fartura abençoada”.
3-Hoje encerra o mês do dízimo que é, antes de tudo, partilha. Porém o egoísmo não nos deixa partilhar. Ensinamos as crianças desde cedo a ser egoístas, a pensar só em si mesmas. Por isso a importância do dízimo mirim.
Quem faz uma verdadeira experiência de Deus tem a mesma atitude dos discípulos: reconhece Jesus como Mestre, abandona tudo para segui-lo e como o Mestre se comove diante do sofrimento da humanidade. Eis o parâmetro para que cada um analise sua caminhada de fé.

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Salta à vista o tema do pão na liturgia de hoje: ele aparece claramente na primeira leitura e no evangelho e, de modo implícito, está presente também no salmo. Na tradição bíblia, o pão recorda duas coisas importantíssimas. Lembra-nos, primeiramente, que não somos auto-suficientes, não possuímos a vida de modo absoluto: devemos sempre renová-la, lutar por ela. O homem não se basta a si próprio; precisa do pão de cada dia. E aqui, um segundo importante aspecto: o homem não pode, sozinho, prover-se de pão: é Deus quem faz a chuva cair, quem torna o solo fecundo, quem dá vigor à semente. Assim, a vida humana está continuamente na dependência do Senhor. Portanto, meus caros, todos necessitamos do pão nosso de cada dia – e este é dom de Deus. “O que tens tu, ó homem, que não tenhas recebido? E, se recebeste, do que, então, te glorias?”
Desse modo, Jesus, ao multiplicar os pães, apresenta-se como aquele que dá vida, que nos sacia com o sentido da existência – sim, porque não há vida de verdade para quem vive sem saber o sentido do viver! – Dá-nos, Jesus a vida física, a vida saudável, mas dá-nos, mais que tudo, a razão verdadeira de viver uma vida que valha a pena!
Mas, acompanhemos com mais detalhes a narrativa do quarto Evangelho. Jesus, num lugar deserto, estando próxima a Páscoa, festa dos judeus, manda o povo sentar-se sobre a relva verde, toma uns pães e uns peixes, dá graças, parte, e os distribui... multiplicando os pães e os peixes. Todos comeram e ficaram saciados. Não aparece no evangelho deste domingo, mas sabemos, pela continuação do texto de são João, que o povo, após o milagre, foi à procura do Senhor e ele recriminou duramente a multidão: “Vós me procurais não porque vistes os sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados!” Que sinal o povo deveria ter visto? Recordemos que no final do trecho que escutamos no evangelho o povo exclama: “Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo”. Eis: o povo até que começou a discernir o sentido do milagre de Jesus; mas, logo depois, fascinado simplesmente pelo pão material, pelas necessidades de cada dia, esquece o sinal. Insistimos: que sinal? Primeiro, que Jesus é o Novo Moisés, aquele profeta que o próprio Moisés havia anunciado em Dt. 11,18: “O Senhor Deus suscitará no vosso meio um profeta como eu”. Pois bem: como Moisés, Jesus reúne o povo num lugar deserto, como Moisés, sacia o povo com o pão... Mas, Jesus é mais que Moisés: ele é o Deus-Pastor que faz o rebanho repousar em verdes pastagens (“Havia muita relva naquele lugar... Jesus mandou que o povo se sentasse...”) e lhe prepara uma mesa. Era isso que o povo deveria ter compreendido; foi isso que não compreendeu...
E nós, compreendemos os sinais de Cristo em nossa vida? Somos capazes de descortinar o sentido dos seus gestos, seja na alegria seja na tristeza, seja na luz seja na treva? Os gestos de Jesus na multiplicação dos pães é também prenúncio da eucaristia. Os quatro gestos por ele realizados – tomou o pão, deu graças, partiu e deu – são os gestos da Última Ceia e de todas as ceias que celebram o sacrifício eucarístico do Senhor: na apresentação das ofertas tomamos o pão, na grande oração eucarística (do prefácio à doxologia – “Por Cristo, com Cristo...”) damos graças, no “Cordeiro de Deus” partimos e na comunhão distribuímos. Eis a Missa: o tornar-se presente dos gestos salvíficos do Senhor, dado em sacrifício e recebido em comunhão.
Vivendo intensamente esse Mistério, nos tornamos realmente membros do corpo de Cristo, que é a Igreja. Cumprem-se em nós, de modo real, as palavras do Apóstolo: “Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”. Que o bendito Pão do céu, neste sinal tão pobre e humilde do pão e do vinho eucarísticos, nos faça compreender e acolher a constante presença do Senhor entre nós e nos dê a graça de vivermos de verdade a vida de Igreja, sendo um sinal seu no meio do mundo.
dom Henrique Soares da Costa
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O que temos é tão pouco, senhor, mas tu és tão rico em misericórdia
Na primeira leitura, o milagre de Eliseu é uma prefiguração do sinal realizado por Jesus, a multiplicação dos pães. E esse sinal, por sua vez, aponta para uma realidade maior, a eucaristia, fonte e ápice da comunhão entre os seguidores do Messias. Nutridos por um só pão, o Corpo do Senhor, os fiéis formam um só corpo místico de Cristo. Essa realidade é o fundamento da comunhão e da práxis cristã mencionada na epístola aos Efésios, quando se exorta os fiéis a “conservar a unidade do espírito no vínculo da paz”. Essa comunhão é ação de Deus em nós e se traduz em serviço que ultrapassa as fronteiras da Igreja como instituição.
Estamos a serviço da construção do mundo fraterno, não importa quão pequenos sejamos ou quão pouco tenhamos a contribuir.
Cada um deve fazer a sua parte e esperar que Deus faça a dele.
Evangelho (Jo 6,1-15)
Jesus tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu os entre eles.
No Evangelho de João, Jesus realiza muitos sinais que apontam para a ação de Deus exercida por meio da missão messiânica. No texto de hoje, Jesus realiza o sinal do pão, muito significativo para a compreensão de sua identidade e de sua missão. O ambiente em que a cena se desenrola é importante para a compreensão da importância e do alcance da mensagem veiculada por esse sinal.
A Páscoa estava próxima, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Esses três elementos nos mostram Jesus como o Mestre. A montanha é o lugar da revelação divina, onde Moisés recebeu a Lei, a instrução para o povo. O sentar-se é atitude própria do mestre quando vai ensinar seus discípulos. E, por último, a menção à Páscoa nos indica qual ensinamento Jesus quer transmitir: é um ensinamento novo realizado por meio do sinal do pão.
Antes do sinal, há uma instrução aos discípulos por meio da pergunta sobre como se pode resolver o problema de alimentar a multidão. Esse tipo de pergunta é própria do mestre para chamar a atenção do discípulo para o ensinamento que quer transmitir. E, primeiramente, o que Jesus quer ressaltar é o reconhecimento do que é ofertado: é pouco, mas há docilidade para a oferta. O ofertante é anônimo, o que pressupõe que qualquer pessoa pode ofertar algo a Deus e, por meio de uma oferta simples, mediar a ação de Deus em prol da salvação do mundo.
O sinal aqui apresentado é a eucaristia, retratada nas palavras da tradição: “tomou os pães e, depois de ter dado graças, os distribuiu” (v. 11) e em outro texto (Jo 6,23), quando se diz que há um único pão.
A distribuição do pão feita pelos discípulos significa que eles devem difundir o que receberam do Senhor: o batismo, representado pelo “peixe”, e a eucaristia, “os pães”. Essas realidades sacramentais são a fonte da pertença à comunidade e da vida cristã.
Após se fartarem, os discípulos juntaram 12 cestos, o suficiente para alimentar todo o Israel, a quem deveria ser primeiramente anunciado o evangelho. A menção de que nada deve se perder alude a Jo 6,39, que afirma que a vontade de Deus é que não se perca nenhum daqueles que pertencem a Jesus.
As pessoas ficaram admiradas, mas não foram capazes de entender o sinal do pão.
O reconhecimento de Jesus como o profeta que devia vir ao mundo refere-se à esperança de um messias semelhante a Moisés, alguém que os libertaria do poder político do império romano, da mesma forma que Moisés havia libertado o povo da opressão do faraó do Egito.
Como no passado, ainda hoje se faz necessário entender esse sinal para compreender a vida e missão de Jesus. Jesus condensou a sua vida no sinal do pão. Como o trigo é triturado para fazer o pão, Jesus é o trigo triturado que gera vida plena. Sua oferta de vida, sua entrega plena na cruz, é sinal do amor de Deus pela humanidade. Por isso, batismo e eucaristia são oferecidos a todos como caminho para a salvação. Por eles, somos inseridos no mistério da vida, morte e ressurreição de Jesus. Somos feitos participantes dessa vida de entrega por amor que gera vida plena.
A opção por Jesus, por sua vida, requer que cada cristão saia do comodismo, pois a menor de nossas atitudes, por mais irrisória que seja diante dos desafios, é aceita como oferta generosa em favor da realização do bem maior, o amor pleno de Deus que gera salvação para o mundo.
Jesus triturou sua vida, ofertando-a no pão; somos chamados, pela nossa participação na mesa eucarística, a fazer o mesmo que ele: ofertar nossa vida para que ninguém se perca, mas todos ressuscitem no último dia.
1ª leitura (2Rs. 4,42-44)
Comeram e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor
Os pães que o homem trouxe para Eliseu eram uma oferenda a Deus a ser entregue pelas mãos do profeta. Eram pães feitos com as primícias, isto é, com os primeiros e melhores grãos da colheita. O texto menciona um homem, uma pessoa anônima, cujo nome não importa saber, pois, se essa narrativa chegou até nossos dias, isso se deve ao gesto dele de partilha e à ação de Deus em resposta àquele gesto.
Há uma ordem do profeta para que o ofertante distribua os pães ao povo. É uma ordem estranha, porque o homem reconhece que tem tão pouco para ofertar e há tanta gente para alimentar. O profeta reitera a ordem, agora assegurando, por meio de uma profecia, que Deus fará com que todos sejam saciados e ainda sobrará. A palavra dita pelo profeta foi finalmente cumprida quando o ofertante mudou o foco dos próprios pensamentos, deixou de centralizar-se na consideração do pouco que tinha e passou a confiar na ação de Deus.
Durante séculos, os sábios de Israel viram nessa passagem bíblica não apenas a providência de Deus, mas a importância da participação humana – apesar de ter pouco a oferecer – na obra conjunta com Deus. A partilha é a efetivação da vocação humana à comunhão fraterna. Todo gesto de partilha não passará sem uma resposta de Deus.
2ª leitura (Ef. 4,1-6)
Num só corpo
Com o capítulo 4, a carta aos Efésios começa grande exortação sobre o que vem a ser a vida cristã na prática. No texto de hoje, os cristãos devem levar uma vida digna da vocação que receberam: serem outro Cristo.
A vida cristã é regida por valores totalmente diferentes daqueles que orientam a sociedade de ontem e de hoje.
“Suportai-vos uns aos outros no amor” (v. 2) significa que o amor de cada um ao seu próximo deve ser o suporte, para que ninguém venha a cair. “Pelo vínculo da paz” quer dizer que o Shalom é o elo que nos mantém unidos no mesmo espírito. O Shalom não significa concordar sempre com as ideias dos outros ou nunca haver atritos entre nós. Significa que o outro pode contar comigo sempre, embora pensemos bem diferente um do outro.
Somos distintos, mas formamos um só corpo. Estamos conectados existencialmente, pois o Pai está “no meio de nós e em cada um de nós” (v. 6). Não é possível seguir Jesus a não ser entrando nessa comunhão. “Há um só corpo”, o egoísmo sequestra a dignidade da vocação à comunhão, que se efetiva em gestos concretos no dia a dia.
Pistas para reflexão
– Todo aquele que faz autêntica experiência com Deus torna-se mais preocupado com o ser humano e mais dócil à ação divina.
Quem tem um verdadeiro encontro com Deus põe-se a seu serviço em favor do próximo. A mesquinharia, o egoísmo e o indiferentismo são sinais de que a pessoa está longe de ser religiosa no sentido exato da palavra, ou seja, de estar ligada a Deus. Em vez de servir a Deus servindo o próximo, muitas pessoas são, de fato, usurpadoras do sagrado, ou seja, usam a religião em benefício dos próprios interesses.
– É louvável que a homilia incentive cada um a fazer sua parte, a não ser indiferente às necessidades das pessoas nem à vontade de Deus. Ainda há muitos necessitados em nosso meio, o que é sinal de que há muito ainda a ser feito para que possamos dizer, com toda a certeza, que vivemos em comunhão.
Aproximar-se da mesa eucarística com um coração indiferente às necessidades alheias é uma ofensa à misericórdia de Deus.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
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Multiplicar os pães: o pouco com Deus é muito…
O evangelho de hoje nos mostra como Jesus se preocupava com o bem-estar das pessoas. Se alguém diz que nosso Senhor só se preocupava com a “salvação da alma” e não se importava com o corpo, com a fome do corpo das pessoas, provavelmente o faz porque não conhece bem os evangelhos.
Sabemos que Jesus quer oferecer a seus seguidores um alimento muito melhor, bem superior ao pão que sacia o estômago. Quer nos dar uma vida nova, como celebramos em cada eucaristia, quando ele mesmo se faz nosso sustento. Mas, mesmo assim, Jesus não diz que a alimentação do corpo seja coisa sem importância. Nosso Mestre nos ensina que alimento bom é alimento partilhado. Comida é para ser dividida, distribuída. Dizem os estudiosos da Bíblia que o pão de cevada era o pão barato, o pão que os mais pobres comiam. Foi com esse pão simples que a multidão se alimentou, até todos ficarem satisfeitos, alegres. Sentados no gramado, comendo pão barato, os seguidores de Jesus fizeram um banquete, pois banquetes não acontecem só com comidas e bebidas caras. As verdadeiras ceias, os banquetes autênticos, acontecem quando há a alegria de partilhar, de dividir. Do que adianta encher a barriga se não há contentamento, paz e harmonia?
As pessoas alimentadas por Jesus não entenderam logo a mensagem e quiseram transformá-lo em rei. Imaginemos como seria fácil ter um rei que fizesse o pão render daquele jeito. Mas Jesus não quer oferecer facilidades. Não queria seguidores desejosos apenas de se fartar de pão. Nosso Mestre quer discípulos interessados em aprender a mensagem da partilha e do amor. Quem o segue não pode pensar só em si. É preciso ter fé e ser solidário, amoroso, preocupado também com o bem-estar dos outros.
Nossas celebrações eucarísticas não são reuniões de gente que só vem procurar a prosperidade material individual e egoísta, mas é o encontro de irmãos e irmãs que se aproximam de Jesus com fé e disposição para carregar a cruz. O segredo para perseverar na escola do Mestre que é o pão da vida é obedecer a seu mandamento: amar uns aos outros. Com amor, o pão que parece simples e pouco se torna muito. Mas sem amor não há pão que nos sacie. Dá-nos, Jesus, o pão do teu amor!
Claudiano Avelino dos Santos, ssp

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Alimentar os famintos
O problema da fome no mundo – em que pese o avançado estágio atual da técnica – continua a ceifar muitas vidas e constitui um desafio para as autoridades, as instituições e a sociedade toda. A Igreja não deve se isentar dessa preocupação. Jesus envolve os discípulos na solução do problema: “Fazei sentar as pessoas”. Os quatro evangelhos narram seis multiplicações de pães, o que mostra a importância que a Igreja primitiva dava ao assunto. A Igreja encontra a sua verdadeira identidade à medida que as necessidades dos outros se tornam assunto dela.
Alimentar os famintos é uma das “obras de caridade” – certamente uma das mais nobres. Dar comida a quem tem fome não deve ser visto apenas como gesto de assistencialismo. Quem tem fome não pode esperar. Tal ação deve representar também e principalmente uma preocupação com políticas públicas em favor dos famintos e empobrecidos, voltadas à distribuição de renda, à criação de emprego…
A desproporção constatada por André – cinco pães para cinco mil homens – é a imagem mais provocadora de uma Igreja pobre e modesta, composta de gente que “não conta”. A desproporção se anula quando o pouco é distribuído, partilhado. Preocupar-se com os famintos não é pedir a Jesus que transforme as pedras em pães. Significa, antes, aceitar que ele transforme nosso coração de pedra em coração de carne, capaz de saciar as pessoas com nosso serviço e nossa solidariedade, superando a cultura do individualismo.
A questão do pão material está intimamente ligada à eucaristia. Não nos é permitido celebrá-la com a consciência tranquila enquanto houver alguém passando fome. Quando comungamos o pão eucarístico, devemos estar dispostos a partilhar também o pão material com os irmãos e irmãs necessitados. Quem não se dispõe a isso, como pode se aproximar de Cristo partilhado em alimento? Dividir o pão eucarístico é tarefa da Igreja tanto quanto a solidariedade e a partilha com os que sofrem a fome de pão material, síntese de todas as necessidades básicas da pessoa.
padre Nilo Luza, SSP
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O pão de tantas mesas
Neste domingo lemos o evangelho da multiplicação dos pães na versão do quarto evangelista.  Pessoas com fome, deserto, falta de comida, proximidade da Páscoa, pão que mata a fome do corpo, falta de pão de um lado, depois fartura,  pão que mata a fome do corpo e uma outra fome… quanta beleza e  quanta riqueza nesse episódio.  Pensamos em tantas mesas, em tantos milagres,  na singeleza encantadora e nos mistérios de tantas mesas.
Há pessoas que passam fome, que reviram latas de lixo, que  nunca comem à saciedade. Há esses multidões famintas que, por vezes, são atendidas por planos sociais e projetos assistenciais sérios.  Há esses indigentes sempre pedindo esmola aqui e alhures. Há, de outro lado, tantos obesos que comem demais.
Aos domingos, a mãe da presidiária vai fazer-lhe a habitual visita.  Todos os domingos. A filha aguarda  todas as semanas a visita de carinho  quando a mãe traz coxinhas de galinha e sorvete de creme. E as duas comem juntas num canto do presídio, a festa da mesa, a festa do carinho enquanto se come.
Há essa mesa de gente simples, de pai e mãe que trabalham, que aos domingos  reúnem a família toda para o almoço.  A mãe prepara a comida, a filha mais velha, balconista numa loja do bairro, faz  a salada. A vizinha  que mora sozinha vem também para esse momento de partilha. Ela traz sempre a sobremesa.   As pessoas se sentam em torno à mesa. Há a alegria  das coisas simples: as pessoas falam, abrem o coração, fazem uma prece para começar e enquanto a mesa dos alimentos nutre o corpo, a convivência amorosa alimenta a vida íntima de cada um, em torno à mesa.
Penso aqui na grande e bela mesa da festa da senhora que completa noventa e cinco anos. Esposa, mãe, avó, bisavó, professora,  colaboradora fiel das atividades da paróquia.  Chegam uns e outros, trazem seu sorriso, um presente simples. Há abraços, uns poucos discursos e depois em torno da imensa mesa com  toalha branca com flores amarelas e  lilás. E  esta refeição feita toda de alegria, de agradecimento e de júbilo.
Por sobre uma outra mesa, uma mesa com uma bela toalha branca,  estão uma patena e uma cálice, pão e  vinho. Um sacerdote  olha para os céus,  pede que o Espírito desça sobre esses alimentos e  o pão e o vinho se tornam  pão da vida e bebida espiritual. Multiplicando-se aos olhos de todos.
“Recolheram os pedaços  e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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O banquete messiânico
No meio da seqüência de Mc surgem de repente cinco evangelhos tomados de Jo. A razão é que o episódio da multiplicação dos pães encontra-se muito mais elaborado em Jo, e também o fato de Mc ser mais breve que os outros evangelhos, deixando espa­ço para alguns trechos de Jo que, senão, ficariam sem lugar na liturgia dominical. A versão joanina da multiplicação do pão (evangelho) é semelhante à de Mc, coloca, po­rém, os acentos de modo diferente. Enquanto Mc lembra a situação do povo no êxodo (os grupos de 50 e 100 etc.), Jo acrescenta alguns detalhes que evocam a atuação do profeta Eliseu (cf. 1ª  leitura): os pães ”de cevada”, o “rapaz” (cf. Giezi em 2Rs. 4,39).
Com isso se relaciona a reação do povo no fim: Jesus é “o profeta que deve vir ao mundo” (Elias, a quem Eliseu é intimamente associado) (Jo 6,14). Também a distribuição dos papéis é diferente. Enquanto em Mc os discípulos tomam a iniciativa de pensar em comida e Jesus os instrui para que eles mesmos dêem de comer ao povo (Mc 6,37; des­de 6,7 estamos em contexto de “aprendizagem”), Jo coloca a iniciativa soberanamente nas mãos de Jesus; a gente até acha que ele nem quis pregar, somente multiplicar pão (6,5-6). Em Mc, o mistério do Cristo é velado e os discípulos, incompreensivos. Em Jo, Cristo radia uma luz divina e os discípulos são testemunhas – igualmente incompreen­sivas – de uma revelação de seu mistério em forma de um “sinal” (como João chama os milagres). Mistério que já se faz pressentir pela palavrinha “Donde (compraremos pão)?” (6,5), que, para o leitor iniciado no mistério de Jesus, já sugere a resposta: “de Deus”. É o que o “Discurso do Pão da Vida” (cf. próximos domingos) mostrará. O Jesus de Mc esconde para as categorias judaicas a natureza de sua missão, porque são inadequadas para a compreender; o de João revela para o cristão a glória de Deus. Mas o resultado é o mesmo: quem fica com as categorias antigas, fica por fora.
No fim do episódio, Jo descreve com insistência a quantia de restos que sobraram, sublinhando mais uma vez a revelação da obra de Deus em Jesus Cristo: nada (e ninguém) se pode perder (cf. 6,12, cf. 6,38). Depois, mostra o outro lado da medalha; povo reconhece em Jesus o profeta que repete as façanhas de Eliseu e Elias, o profeta escatológico que deve vir ao mundo (cf. Ml. 3,1.23; Dt 18,15); mas não reconhece categoria divina. Quer prender Jesus nas categorias messiânicas tradicionais: proclamá-lo rei. Mais tarde, ficará claro em que sentido Jesus é rei (Jo 18, 33-37). Mas, neste momento, Jesus não pode aceitar o messianismo do povo; retira-se na solidão (6,14-15, cf. semelhante recusa do messianismo judeu em Mc. 8,27-33).
A 2ª leitura ajuda para sentir o ambiente de reunião escatológica que marca a multiplicação dos pães, realização do banquete escatológico anunciado em Is 25,6-8. Pois ­esse banquete é para todos os povos – universalismo realizado de maneira plena na unidade da Igreja, sucintamente resumida por Paulo em Ef. 4,4-6: um só Corpo, um só Es­pírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai, sete (!) elementos que fazem da Igreja uma unidade divina. Para os leitores da carta, essa unidade era, muitas vezes, problemática. Nós estamos acostumados a dizer que a Igreja é una, e ficamos cegos para as reais divisões que existem no seu seio; estamos “ideologicamente proibidos” de enxergá-las (não pelo Papa, mas por nosso próprio comodismo). Contudo, será bom checar a realização dessa unidade. E melhor ainda, me­ditar sobre as qualidades que servem de base para essa unidade: a humildade, a mansidão, a paciência, o mútuo suportar-se na caridade. Não parecem qualidades subversi­vas, mas são: a subversão da bondade irresistível, desarmada e desarmante, o “vínculo da paz”, que garante a unidade do Espírito. Não entrar no jogo das oposições intermi­náveis, mas, a partir de um lúcido reconhecimento das divisões existentes, superá-las, pela erradicação firme e paciente de suas causas mais profundas (portanto, não por um cômodo encobrimento da realidade). Eis aí o caminho para a verdadeira unidade uni­versal dos irmãos, para que juntos possam sentar-se à mesa do banquete do Senhor.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Multiplicação dos pães
Esta passagem do Evangelho acontece na época da Páscoa em que todos os judeus deveriam ir para a festa em Jerusalém. Jesus, porém, sai de Jerusalém e vai com os discípulos para Tiberíades, uma região pagã, e sobe a montanha para conversar com eles.
As pessoas que os seguiram também saíram da cidade. Elas tinham visto o milagre que Jesus fez no homem paralítico.
Da mesma forma como Moisés liderou o povo Hebreu na saída do Egito, Jesus lidera o povo de Jerusalém, uma cidade que oprime e escraviza. A Páscoa que deveria ser a festa em que se comemora a liberdade e a vida, naquele momento é uma ocasião para oprimir e explorar pessoas.
Jesus vê o povo que o seguiu e tem uma única preocupação: quer saber como alimentá-lo.
Quando Ele pergunta como resolver a questão da fome das pessoas, está provocando a reação de Filipe, que neste momento está representando todos os discípulos, e a resposta dele mostra um entendimento limitado: ‘é preciso muito dinheiro para saciar a fome de todos’. (Filipe e André são os únicos nomes citados no Evangelho. Eles são considerados missionários por terem levado a Boa Nova a outros discípulos: André falou de Jesus a seu irmão Pedro, e Filipe chamou Natanael para conhecer Jesus.) O nome André significa humano, e ele surge apresentando uma nova proposta para a fome. Oferece pães de cevada e peixes, alimento dos pobres. O jovem que tem estes alimentos representa os pequenos e humildes que estão sempre dispostos a servir.
Foram apresentados a Jesus apenas cinco pães e dois peixes, e esta quantidade juntava sete elementos. O número sete na Bíblia representa um número completo, ou seja, a quantidade necessária e suficiente para o que se precisa.
Jesus ordena aos discípulos que mandem o povo sentar, ação que significa ter dignidade e ser livre, pois naquele tempo somente as pessoas livres é que se sentavam para comer.
Havia grama naquele lugar, sinal de que ali se produz frutos e não é apenas um local comum, frio e sem partilha e as cinco mil pessoas no local representam toda a comunidade do Mestre.
Jesus pega os pães e agradece a Deus, e não ao rapaz. O alimento é dom de Deus e por isso deve ser colocado para sustendo do homem na partilha e na gratuidade, pois todos têm direito a esses bens. Os peixes não são citados, e no texto surge apenas o agradecimento a Deus pelos pães e o cuidado com os pedaços que sobraram. Dar graças a Deus, em grego é eucharistéo, palavra que originou Eucaristia, que é Jesus o Pão da Vida.
Jesus distribui os pães e peixes, e todos se alimentam com fartura e ficam satisfeitos, e ainda sobram doze cestos. E, voltando aos números da Bíblia, doze é o número das tribos de Israel, ou seja, a quantidade de pães que sobrou é suficiente para alimentar todo o povo de Deus, permanecendo assim até hoje por meio da Eucaristia. Os pães recolhidos recordam o alimento do deserto, o maná, descido do céu para alimentar o povo Hebreu, e que não podia ser acumulado. Ninguém deveria acumular bens naquele momento da multiplicação dos pães, para não gerar a ganância que provoca a falta de bens para outros.
O povo reconhece Jesus como um Profeta e quer aclamá-lo rei, porém, Ele se afasta e sobe à montanha. Moisés também subiu à montanha quando o povo quis fazer um deus de ouro para idolatrá-lo, da mesma forma como acontece agora: a grande idolatria surge quando o povo quer que Deus resolva seus problemas sem a contribuição pessoal de cada um.
O Evangelho de João apresenta sete sinais de Jesus, que correspondem aos milagres nos sinóticos. Esta cena da partilha dos pães é o quarto sinal. Os três Evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus e Lucas, também narram esta partilha dos pães. Nestes sinóticos, diante da grande multidão Jesus ensina e cura. Contudo, João se refere apenas à partilha dos pães e peixes, fazendo predominar na narrativa o seu caráter de sinal.
O evangelista João, ao mencionar a Páscoa como "a festa dos judeus", coloca-se a si próprio, bem como a Jesus, fora desta celebração tradicional de Israel. Assim também, no Evangelho de João, a última ceia de Jesus, em Jerusalém, não é realizada no dia da Páscoa, mas na sua véspera. Na Páscoa celebrava-se a morte dos egípcios e a saída do povo de Israel do Egito, para a invasão e o extermínio dos povos de Canaã. Contudo, Jesus revela o Deus da vida e do amor. Sempre no meio da multidão, ele comunica a vida.
João, em seu Evangelho, não menciona a partilha dos pães por Jesus na última ceia. Este gesto de partilha se realiza neste momento de encontro com a grande multidão e tem um caráter universalista, pois aí estavam presentes gentios da Galiléia e de territórios vizinhos. Os evangelistas narram este episódio baseados na tradição das primeiras comunidades, a qual se inspirava na narrativa da partilha do pão feita pelo profeta Eliseu. Esta narrativa sobre Eliseu nos é apresentada hoje na primeira leitura. A solução do problema da fome e das carências humanas não está na economia de mercado, no vender e no comprar em vista do lucro.
É pela partilha dos bens deste mundo, do pão, da terra, da cultura, que se pode satisfazer a todos e ainda há de sobrar em abundância. É pela partilha que se chega à unidade desejada por Deus, superando-se a divisão entre ricos e pobres e formando-se um só corpo e um só Espírito, no vínculo da paz (segunda leitura).
padre Jaldemir Vitório
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Novo mandamento de Jesus, a partilha
No evangelho de João, na narrativa da última ceia de Jesus em Jerusalém, não há menção à partilha eucarística do pão. A grande ação de Jesus nesta ceia é o lavar os pés dos discípulos, como exemplo de serviço para eles (cf. 5 abr.). Este gesto de partilha se realiza neste momento de encontro com a grande multidão no alto da montanha e tem um caráter universalista, pois aí estavam presentes gentios da Galileia e de territórios vizinhos.
Foi no alto de uma montanha que Deus deu os dez mandamentos a Moisés. Agora é o novo mandamento de Jesus, mandamento da partilha, do amor. O personagem central é um menino (paidárion, jovem escravo), com cinco pães de cevada e dois peixes. Jesus dá graças (eukharistésas) pela partilha, e ela acontece a partir dos mais humildes. Somos convidados a viver a eucaristia como partilha concreta do pão e da vida.
Nesta narrativa é destacada, logo de início, a grande multidão de excluídos que segue Jesus e que merece sua atenção. Vemos aí, também, uma contraposição entre este encontro de Jesus com a multidão e "a Páscoa, a festa dos Judeus". Nesta Páscoa celebrava-se a morte dos egípcios, que eram oprimidos pelo faraó, e a saída do povo de Israel do Egito para a invasão e o extermínio dos povos de Canaã. Em oposição a esta celebração da violência, Jesus revela o Deus da vida e do amor. Sempre no meio da multidão, Jesus comunica a vida.
A expressão "festa dos judeus" aparece cinco vezes no evangelho de João, ao referir-se às festas religiosas celebradas em Jerusalém, nas quais Jesus se fez presente. Com esta expressão João quer indicar que Jesus não se identifica com estas festas, mas vai a Jerusalém para criticar o sistema do Templo e para fazer seu anúncio da vontade do Pai ao povo que para aí acorre. Agora, no alto da montanha, o povo participa da verdadeira festa que é o banquete do Reino, caracterizado pela partilha, pelo amor e pela fraternidade.
O evangelho de João apresenta sete sinais de Jesus, que correspondem aos milagres, nos sinóticos. São sinais da realidade maior que é a presença do Deus de amor no mundo e na história. Esta cena da partilha dos pães é o quarto sinal.
Os três evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus e Lucas, também narram esta partilha dos pães. Suas narrativas foram colhidas da tradição das primeiras comunidades cristãs que se inspiravam na narrativa da partilha do pão feita pelo profeta Eliseu (primeira leitura).
A solução do problema da fome e das carências humanas não está na economia de mercado, no vender e no comprar em vista do lucro. É pela partilha dos bens deste mundo, do pão, da terra, da cultura, que se pode satisfazer a todos e ainda há de sobrar em abundância. É pela partilha que se chega à unidade desejada por Deus, superando-se a divisão entre ricos e pobres, formando-se um só corpo e um só Espírito, no vínculo da Paz (segunda leitura).
José Raimundo Oliva
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A liturgia do 17º domingo comum dá-nos conta da preocupação de Deus em saciar a “fome” de vida dos homens. De forma especial, as leituras deste domingo dizem-nos que Deus conta conosco para repartir o seu “pão” com todos aqueles que têm “fome” de amor, de liberdade, de justiça, de paz, de esperança.
Na primeira leitura, o profeta Eliseu, ao partilhar o pão que lhe foi oferecido com as pessoas que o rodeiam, testemunha a vontade de Deus em saciar a “fome” do mundo; e sugere que Deus vem ao encontro dos necessitados através dos gestos de partilha e de generosidade para com os irmãos que os “profetas” são convidados a realizar.
O Evangelho repete o mesmo tema. Jesus, o Deus que veio ao encontro dos homens, dá conta da “fome” da multidão que O segue e propõe-Se libertá-la da sua situação de miséria e necessidade. Aos discípulos (aqueles que vão continuar até ao fim dos tempos a mesma missão que o Pai lhe confiou), Jesus convida a despirem a lógica do egoísmo e a assumirem uma lógica de partilha, concretizada no serviço simples e humilde em benefício dos irmãos. É esta lógica que permite passar da escravidão à liberdade; é esta lógica que fará nascer um mundo novo.
Na segunda leitura, Paulo lembra aos crentes algumas exigências da vida cristã. Recomenda-lhes, especialmente, a humildade, a mansidão e a paciência: são atitudes que não se coadunam com esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de preconceito em relação aos irmãos.
1 leitura: 2Re. 4,42-44 - AMBIENTE
As tradições proféticas sobre Elias e Eliseu (os “ciclos” de Elias e Eliseu) ocupam um espaço significativo no Livro dos Reis (cf. 1Re. 17,1-21,29; 2Re. 1,1-13,21). Referem-se a um período bastante conturbado – quer em termos políticos, quer em termos religiosos – da vida do Reino do Norte (Israel). Elias exerce a sua missão profética durante os reinados de Acab (874-853 a.C.) e de Acazias (853-852 a.C.); Eliseu dá o seu testemunho profético durante os reinados de Jorão (853-842 a.C.), de Jeú (842-813 a.C.) e de Joacaz (813-797 a.C.).
Os reis de Israel procuraram sempre estabelecer relações comerciais, econômicas, políticas e militares com os povos circunvizinhos. Essa abertura de fronteiras teve, no entanto, os seus custos em termos de fidelidade a Jahwé e à Aliança, uma vez que os cultos aos deuses estrangeiros entravam no país e ocupavam um lugar significativo na vida e no coração dos israelitas. É uma época de sincretismo religioso, em que a religião jahwista é, com a complacência até com o apoio declarado dos reis de Israel, preterida em favor dos cultos de Baal e de Astarte. Em termos sociais, é uma época em que se multiplicam as injustiças contra os pobres e as arbitrariedades contra os fracos. Tudo isto consubstancia um quadro de graves infidelidades contra Deus e contra a Aliança.
É contra este quadro que se levantam Elias e Eliseu. Elias aparece como o representante desses israelitas fiéis aos valores religiosos tradicionais, que recusavam a coexistência de Jahwéh e de Baal no horizonte da fé de Israel; e a luta de Elias será continuada por um dos seus discípulos – Eliseu.
Parece que Eliseu – o ator principal da primeira leitura deste domingo – fazia parte de uma comunidade de “filhos de profetas” (os “benê nebi'im” – 2Re. 2,3; 4,1). Trata-se de uma comunidade de homens que viviam pobremente (2Re. 4,1-7) e que eram os seguidores incondicionais de Jahwéh. O Povo consultava-os regularmente e buscava neles apoio face aos abusos dos poderosos. Eliseu é apresentado muitas vezes, nas histórias narradas no “ciclo de Eliseu” (cf. 2Re. 2; 3,4-27; 4,1-8,15; 9,1-10; 13,14-21), como um profeta “dos milagres”, cujas ações mostram a presença da força e da vida de Deus no meio do seu Povo. Outras vezes, Eliseu é o profeta da intervenção política; a sua ação neste campo ultrapassa mesmo as fronteiras físicas de Israel e chega a Damasco (cf. 2Re. 8,7-15).
MENSAGEM
O texto que nos é proposto como primeira leitura conta que um homem de Baal-Shalisha trouxe a Eliseu o “pão das primícias”: vinte pães de cevada e trigo novo num saco. De acordo com Lv. 23,20, o pão das primícias devia ser apresentado diante do Senhor e consagrado ao Jahwéh, embora depois revertesse em benefício do sacerdote… Deve ser este costume que está subjacente ao episódio da entrega dos pães a Eliseu.
Eliseu, no entanto, não conservou os dons para si, mas mandou reparti-los pelas pessoas que rodeavam o profeta. O “servo” do profeta não acreditava que os alimentos oferecidos chegassem para cem pessoas; no entanto, chegaram e ainda sobraram.
Estamos, aqui, diante de uma sucessão de gestos que revelam generosidade e vontade de partilhar: do homem que leva os dons ao profeta e do profeta que não os guarda para si, mas os manda partilhar com as pessoas que o rodeiam. A descrição de uma milagrosa multiplicação de pães de cevada e de grãos de trigo sugere que, quando o homem é capaz de sair do seu egoísmo e tem disponibilidade para partilhar os dons recebidos de Deus, esses dons chegam para todos e ainda sobram. A generosidade, a partilha, a solidariedade, não empobrecem, mas são geradoras de vida e de vida em abundância.
Este relato fornecerá aos autores neo-testamentários o modelo literário em que se inspirarão para apresentar os relatos evangélicos das multiplicações dos pães (cf. Mc. 6,34-44; 8,1-10; Mt. 14,13-21; 15,32-38; Lc. 9,10-17).
ATUALIZAÇÃO
• O “profeta” é um homem chamado por Deus e enviado a ser o rosto de Deus no meio do mundo. Nas palavras e nos gestos do “profeta”, é Deus que Se manifesta aos homens e que lhes indica a sua vontade e as suas propostas. No gesto de repartir o pão para saciar a fome das pessoas, o “profeta” manifesta a eterna preocupação de Deus com a “fome” do mundo (fome de pão, fome de liberdade, fome de dignidade, fome de realização plena, fome de amor, fome de paz…) e a sua vontade de dar aos homens vida em abundância… Não tenhamos dúvidas: Deus preocupa-Se, todos os dias, em oferecer aos seus filhos vida em abundância. É Deus que nos dá, dia a dia, o pão que mata a nossa fome de vida.
• Como é que Deus atua para saciar a fome de vida dos homens? É fazendo chover do céu, milagrosamente, o “pão” de que o homem necessita? A nossa primeira leitura sugere que Deus atua de forma mais simples e mais normal… É através da generosidade e da partilha dos homens (primeiro do homem que decide oferecer o fruto do seu trabalho; depois, do profeta que manda distribuir o alimento) que o “pão” chega aos necessitados. Normalmente, Deus serve-Se dos homens para intervir no mundo e para fazer chegar ao mundo os seus dons. Muitas vezes sonhamos com gestos espetaculares de Deus e vivemos de olhos fixos no céu à espera que Deus Se digne intervir no mundo; e acabamos por não perceber que Deus já veio ao nosso encontro e que Ele Se manifesta na ação generosa de tantos homens e mulheres que praticam, sem publicidade, gestos de partilha, de solidariedade, de doação, de entrega. É preciso aprendermos a detectar a presença e o amor de Deus nesses gestos simples que todos os dias testemunhamos e que ajudam a construir um mundo mais justo, mais fraterno e mais solidário.
• Ao mostrar que é através das ações dos homens que Deus sacia a fome do mundo, o nosso texto convida-nos ao compromisso. Deus precisa de nós, da nossa generosidade e bondade, para ir ao encontro dos nossos irmãos necessitados e para lhes oferecer vida em abundância. Nós, os crentes, somos chamados a ser – como o profeta Eliseu – testemunhas desse Deus que quer partilhar com os homens o seu “pão”; e esse “pão” de Deus deve derramar-se sobre os nossos irmãos nos nossos gestos de partilha, de generosidade, de solidariedade, de amor sem limites.
2 leitura: Ef. 4,1-6 - AMBIENTE
A carta aos Efésios (que temos vindo a refletir e cujo texto vai continuar a acompanhar-nos nos próximos domingos) parece ser uma “carta circular”, enviada a várias comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor, inclusive aos cristãos de Éfeso. É considerada uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão (os que aceitam a autoria paulina desta carta discutem qual o lugar onde Paulo está preso, nesta altura, embora a maioria ligue a carta ao cativeiro de Paulo em Roma entre 61/63).
De qualquer forma, é um texto bem trabalhado, que apresenta uma catequese sólida e bem elaborada. Poderia ser um texto da fase “madura” de Paulo. Alguns autores consideram a Carta aos Efésios uma espécie de síntese do pensamento paulino.
O texto que hoje nos é proposto como segunda leitura é o início da parte moral e parenética da carta (cf. Ef. 4,1-6,20). Temos, aí, uma espécie de “exortação aos batizados”, na qual Paulo reflete longamente sobre a edificação e o crescimento do “Corpo de Cristo”. Em termos sempre bastante concretos, Paulo dá pistas aos cristãos acerca da forma como eles devem viver os seus compromissos com Cristo, de forma a chegarem a ser Homens Novos.
MENSAGEM
O nosso texto começa com uma referência ao fato de Paulo estar preso… A condição de prisioneiro por causa de Jesus e do Evangelho dá um peso especial às recomendações do apóstolo: são as palavras de alguém que leva tão a sério a proposta de Jesus, que é capaz de sofrer e de arriscar a vida por ela.
Na perspectiva de Paulo, a vida nova exige, em primeiro lugar, que os crentes vivam unidos em Cristo. Ora, há comportamentos e atitudes que são condição necessária para que essa unidade se torne efetiva (vs. 2-3)… Antes de mais, Paulo refere a humildade, pois só ela permite superar o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência que afastam os irmãos e que erguem entre eles barreiras de separação; depois, Paulo refere a mansidão, irmã da humildade, e qualidade que derruba barreiras na comunhão; Paulo refere também a paciência, que permite ser tolerante e compreensivo para com as falhas dos irmãos e que permite entender e aceitar as diferentes maneiras de ser e de agir… Em resumo, trata-se, fundamentalmente, de fazer com que a caridade presida às relações que estabelecemos uns com os outros; o amor deve ser sempre o suporte das nossas relações humanas. A unidade é um dom de Deus; mas a sua efetivação depende do contributo e do esforço de cada irmão.
Na segunda parte do nosso texto, Paulo apresenta um conjunto de elementos que fundamentam a obrigatoriedade da unidade dos crentes: “há um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança” na vida a que todos os crentes foram chamados; “há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos se encontra” (vs. 4-6). A menção do Pai, do Filho e do Espírito, neste contexto, sugere que a Trindade é a fonte última e o modelo da unidade que os cristãos devem viver, na sua experiência de caminhada comunitária.
ATUALIZAÇÃO
• A Igreja é um “corpo” – o “Corpo de Cristo”. Naturalmente, esse “corpo” é formado por muitos membros, todos eles diversos; mas todos eles dependem de Cristo (a “cabeça” desse “corpo”) e recebem d’Ele a mesma vida. Formam, portanto, uma unidade… Têm o mesmo Pai (Deus), têm um projeto comum (o projeto de Jesus), têm o mesmo objetivo (fazer parte da família de Deus e encontrar a vida em plenitude), caminham na mesma direção animados pelo mesmo Espírito, têm a mesma missão (dar testemunho no mundo do projeto de amor que Deus tem para os homens). Neste esquema, não fazem qualquer sentido as divisões, os ciúmes, as rivalidades, as invejas, os ódios, as divergências que tantas vezes dividem os irmãos da mesma comunidade. Quando os irmãos não se esforçam por caminhar unidos, provavelmente ainda não descobriram os fundamentos da sua fé. A minha comunidade (cristã ou religiosa) é uma comunidade que caminha unida e solidária, partilhando a vida e o amor, apesar das diferenças legítimas dos seus membros? Em termos pessoais, sinto-me um construtor de unidade, ou um fator de divisão?
• Para que a unidade seja possível, Paulo recomenda aos destinatários da Carta aos Efésios a humildade, a mansidão e a paciência. São atitudes que não se coadunam com esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de preconceito em relação aos irmãos. Como é que eu me situo face aos outros? A minha relação com os irmãos é marcada pelo egoísmo ou pela disponibilidade para servir e partilhar? Procuro estar atento às necessidades dos outros e ir ao seu encontro, ou levanto muros de orgulho e de auto-suficiência que impedem a relação, a comunhão, a comunicação? Estou aberto às diferenças e disposto a dialogar, ou vivo entrincheirado nos meus preconceitos, catalogando e marginalizando aqueles que não concordam comigo?
• A Igreja é uma unidade; mas é também uma comunidade de pessoas muito diferentes, em termos de raça, de cultura, de língua, de condição social ou econômica, de maneiras de ser... As diferenças legítimas nunca devem ser vistas como algo negativo, mas como uma riqueza para a vida da comunidade; não devem levar ao conflito e à divisão, mas a uma unidade cada vez mais estreita, construída no respeito e na tolerância. A diversidade é um valor, que não pode nem deve anular a unidade e o amor dos irmãos.
Evangelho: Jo 6,1-5 - AMBIENTE
A liturgia propõe-nos hoje (e durante mais alguns domingos) a leitura do capítulo 6 do Evangelho segundo João – a catequese sobre Jesus, o Pão da vida.
Na primeira parte do Evangelho (cf. Jo 4,1-19,42), João apresenta a atividade de Jesus no sentido de criar e dar vida ao homem, de forma a que surja um Homem Novo, liberto do egoísmo e do pecado, animado pelo Espírito, capaz de seguir Jesus e de viver na mesma dinâmica de Jesus – isto é, no amor ao Pai e aos irmãos. Esta primeira parte divide-se em dois “livros” – o “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56) e o “Livro da Hora” (cf. Jo 12,1-19,42).
No “livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor do Quarto Evangelho expõe, recorrendo a símbolos significativos (a “água” – cf. Jo 4,1-5,47; o “pão” – cf. Jo 6,1-7,53; a “luz” – cf. Jo 8,12-9,41; o “pastor” – cf. Jo 10,1-42; a “ressurreição” – cf. Jo 11,1-56), a sua catequese sobre a ação de Jesus em favor do homem. Jesus é aí apresentado como a proposta de vida verdadeira que o homem é convidado a acolher e a assimilar.
No capítulo 6 – que hoje começamos a ler – João apresenta Jesus como o Pão que sacia a sede de vida que o homem sente. O episódio hoje narrado é geograficamente situado “na outra margem” do Lago de Tiberíades (no capítulo anterior, Jesus estava em Jerusalém, no centro da instituição judaica; agora, sem transição, aparece na Galileia, a atravessar o “mar” para o outro lado). Em termos cronológicos, João nota que estava perto a Páscoa, a festa mais importante do calendário religioso judaico, que celebrava a libertação do Povo de Deus da opressão do Egito.
MENSAGEM
Uma leitura, ainda que superficial, do texto que nos é proposto mostra alguns interessantes paralelos entre a cena da multiplicação dos pães e a libertação do Povo de Deus da escravidão do Egito, com Jesus no papel de Moisés, o libertador. O fato dá-nos, logo à partida, uma chave de leitura para entender esta catequese: João quer apresentar a ação de Jesus como uma ação libertadora que visa fazer passar o Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade… A catequese que João nos apresenta vai desenvolver-se em vários passos:
1. Começa com uma referência à “passagem do mar” (que, na realidade, é um lago); essa referência pode aludir à passagem do Mar Vermelho por Moisés com o Povo libertado do Egito (cf. Ex. 14,15-31). O objetivo final de Jesus é, portanto, fazer o Povo que o acompanha passar da terra da escravidão para a terra da liberdade.
2. Como aconteceu com Moisés, com Jesus vai uma grande multidão. A multidão que acompanha Jesus pretende “ver os milagres que Ele realizava nos doentes” (v. 2). O termo grego aqui utilizado (“asthenês” – “enfermos”) designa, em geral, alguém que está numa situação de grande debilidade. A multidão segue Jesus, pois quer ver os sinais que Ele faz e que representam a libertação do homem da sua debilidade e fragilidade. É um Povo marcado pela opressão, que quer experimentar a libertação. Já perceberam que só Jesus, o libertador, conseguirá ajudá-los a superar a sua condição de miséria e de escravidão.
3. Jesus – diz o nosso texto – subiu a “um monte” (v. 3). A referência ao “monte” leva-nos ao contexto da Aliança do Sinai e ao monte onde Deus ofereceu ao Povo, através de Moisés, os mandamentos. Dizer que Jesus subiu ao “monte” significa dizer que é através de Jesus que se vai realizar a nova Aliança entre Deus e esse Povo de gente livre que, com Jesus, “atravessou o mar” em direção à terra da liberdade.
4. A referência à Páscoa que estava próxima (v. 4) seria uma referência inútil, se não estivéssemos no contexto da libertação do Povo da escravidão. Na época de Jesus, a Páscoa era a festa da libertação e da constituição do Povo de Deus; mas era também a festa que anunciava esse tempo futuro em que o Messias ia libertar definitivamente o Povo de Deus. Nesta altura, o Povo devia subir a Jerusalém para, no “monte” do Templo, celebrar a libertação; em contrapartida, a multidão segue Jesus para um outro “monte”, do outro lado do mar… O Povo começa a libertar-se do jugo das instituições judaicas e a perceber que é em Jesus que se vão inaugurar os tempos novos da liberdade e da paz.
5. A multidão que segue Jesus tem fome e não tem que comer (vs. 5-6). A referência leva-nos, outra vez, ao Êxodo, ao deserto, quando o Povo que caminhava para a terra da liberdade sentiu fome. Então, foi Deus que respondeu à necessidade do Povo e lhe deu comida em abundância; aqui, é Jesus que Se apercebe das necessidades da multidão e tenta remediá-las. Ele mostra, assim, o rosto do Deus do amor e da bondade, sempre atento às necessidades do seu Povo.
6. Qual a solução que Jesus vai dar à “fome” da multidão? Na procura da solução, Jesus envolve a comunidade dos discípulos (“onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?” – v. 5). A comunidade de Jesus (onde naturalmente Jesus Se inclui) tem de sentir-se responsável pela “fome” dos homens e tem de sentir que é sua responsabilidade e missão saciar essa “fome”.
João nota que Jesus põe a questão aos discípulos (representados por Filipe) para os “experimentar” (v. 6). O problema pode ser posto da seguinte forma: como é que a comunidade dos discípulos – formados na escola e nos valores de Jesus – pretende responder à fome do mundo? É recorrendo ao sistema econômico vigente, que se baseia no egoísmo e no poder do dinheiro e coloca os bens nas mãos de poucos, gerando uma lógica de opressão, de dependência e de necessidade? Será este o sistema desse mundo novo e livre que Jesus deseja instituir? Os discípulos de Jesus alinham com esse sistema opressor, baseado na compra, na venda e no lucro, ou já perceberam que Jesus tem uma proposta nova a fazer, geradora de libertação e de vida em abundância para todos?
7. Filipe constata a impossibilidade de resolver o problema, dentro do quadro econômico vigente… “Duzentos denários não bastariam para dar um pedaço a cada um” (v. 7). Um denário equivalia ao salário base de um dia de trabalho; assim, nem o dinheiro de mais de meio ano de trabalho daria para resolver o problema. Por outras palavras: confiando no sistema instituído (o da compra e venda, que supõe o sistema econômico regido pelo lucro egoísta), é impossível resolver o problema da necessidade dos esfomeados. A comunidade de Jesus é convidada, portanto, a abandonar este sistema e a encontrar outros…
8. André, porém, vislumbra uma solução diferente (v. 8-9). Este apóstolo representa, na comunidade de Jesus, essa categoria dos que aderiram a Jesus de forma convicta, que têm uma grande intimidade com Jesus e que, portanto, estão mais conscientes das propostas de Jesus. No entanto, André não está muito convicto dos resultados (“o que é isso para tanta gente?”). Seria bom – considera André – encontrar outro sistema diferente do sistema explorador; mas isso não resulta… Jesus vai, precisamente, provar que é possível encontrar outro sistema que reparta vida e que elimine a lógica da exploração.
9. A figura do “menino” que apenas aparece na cena da multiplicação dos pães na versão de João é uma figura desnecessária do ponto de vista da narração: para o resultado final, tanto dava que o possuidor dos pães e dos peixes fosse uma criança ou um adulto. Sendo assim, porque é que João insiste em falar de uma criança? Porque a figura do “menino” é muito significativa: quer pela idade, quer pela condição, é um “débil”, física e socialmente. Representa a debilidade da comunidade de Jesus face às enormes carências do mundo. A palavra grega utilizada por João para falar da criança indica simultaneamente um “menino” e um “servo”: a comunidade, representada nesse “menino”, apresenta-se diante do mundo como um grupo socialmente humilde, sem pretensão alguma de poder e de domínio, dedicada ao serviço dos homens. É essa comunidade simples e humilde, vocacionada para o serviço, que é chamada a resolver a questão da necessidade dos pobres e a instaurar um novo sistema libertador. Qual é esse sistema?
10. Os números “cinco” (“pães”) e “dois” (“peixes”), também não aparecem por acaso: a sua soma dá “sete” – o número que significa totalidade… Ou seja: é na partilha da totalidade do que a comunidade possui que se responde à carência dos homens. É uma totalidade fracionada e diversificada; mas que, posta ao serviço dos irmãos, sacia a fome do mundo.
11. Sobre os alimentos disponibilizados pela comunidade, Jesus pronuncia uma “ação de graças” (v. 11). O “dar graças” significa reconhecer que os bens são dons que vêm de Deus. Ora, reconhecer que os bens vêm de Deus significa desvinculá-los do seu possessor humano, para reconhecer que eles são um dom gratuito que Deus oferece aos homens; e Deus não oferece a uns e não a outros… “Dar graças” é reconhecer que os bens recebidos pertencem a todos e que quem os possui é apenas um administrador encarregado de os pôr à disposição de todos os irmãos, com a mesma gratuidade com que os recebeu. Os bens são, assim, libertos da posse exclusiva de alguns, para serem dom de Deus para todos os homens. É este o sistema que Deus quer instaurar no mundo; e a comunidade cristã é chamada a testemunhar esta lógica.
12. Uma vez saciada a fome do mundo, através desses bens que a comunidade recebeu de Deus e que pôs ao serviço de todos os homens, os discípulos são chamados a outras tarefas. Há sobras que não se podem perder, mas que devem ser o princípio de outras abundâncias. É preciso multiplicar incessantemente o amor e o pão… E a comunidade, uma vez percebido o projeto de Jesus, deve usar o que tem para continuar a oferecer a vida aos homens. A referência aos doze cestos recolhidos pelos discípulos pode ser uma alusão a Israel (as doze tribos): se a comunidade dos discípulos souber partilhar aquilo que recebeu de Deus, pode satisfazer a fome de todo o Povo (vs. 12-13).
13. Alguns dos que testemunharam a multiplicação dos pães e dos peixes têm consciência de que Jesus é o Messias que devia vir para dar ao seu Povo vida em abundância e querem fazê-lo rei (vs. 14-15). Jesus não aceita… Ele não veio resolver os problemas do mundo instaurando um sistema de autoridade e de poder; mas veio convidar os homens a viverem numa lógica de partilha e de solidariedade, que se faz dom e serviço humilde aos irmãos. É dessa forma que Ele se propõe – com a colaboração dos discípulos – eliminar o sistema opressor, responsável pela fome e pela miséria. O mundo novo que Jesus veio propor não assenta numa lógica de poder e autoridade, mas no serviço simples e humilde que leva a partilhar a vida com os irmãos.
A perícope que nos é hoje proposta pretende, pois, apresentar o projeto de Deus realizado em Jesus como um projeto de libertação, que há-de eliminar a opressão e instaurar um mundo de homens livres, salvos do egoísmo e capazes de amar e de partilhar. Frente ao sistema que se baseia no lucro e na exploração, Jesus propõe uma nova atitude. É necessário – diz Jesus – substituir o egoísmo pelo amor e pela partilha. A comunidade de Jesus tem a função de descobrir esta lógica, de a acolher e de propô-la ao mundo. Ela tem de aprender que os bens são um dom de Deus, destinados a todos. Procedendo dessa forma, ela está a instaurar um novo sistema e a libertar os homens desses condicionamentos egoístas que geram injustiça, necessidade, carência, debilidade, sofrimento. Quem quiser acompanhar Jesus neste caminho, passará seguramente da escravidão do lucro para a liberdade da partilha, do serviço, do amor aos irmãos.
ATUALIZAÇÃO
• Jesus é o Deus que Se revestiu da nossa humanidade e veio ao nosso encontro para nos revelar o seu amor. O seu projeto – projeto que Ele concretizou em cada palavra e em cada gesto enquanto percorreu, com os seus discípulos, as vilas e aldeias da Palestina – consiste em libertar os homens de tudo aquilo que os oprime e lhes rouba a vida. O nosso texto mostra Jesus atento às necessidades da multidão, empenhado em saciar a fome de vida dos homens, preocupado em apontar-lhes o caminho que conduz da escravidão à liberdade. A atitude de Jesus é, para nós, uma expressão clara do amor e da bondade de um Deus sempre atento às necessidades do seu Povo. Garante-nos que, ao longo do caminho da vida, Deus vai ao nosso lado, atento aos nossos dramas e misérias, empenhado em satisfazer as nossas necessidades, preocupado em dar-nos o “pão” que sacia a nossa fome de vida. A nós, compete-nos abrir o coração ao seu amor e acolher as propostas libertadoras que Ele nos faz.
• A “fome” de pão que a multidão sente e que Jesus quer saciar é um símbolo da fome de vida que faz sofrer tantos dos nossos irmãos… Os que têm “fome” são aqueles que são explorados e injustiçados e que não conseguem libertar-se; são os que vivem na solidão, sem família, sem amigos e sem amor; são os que têm que deixar a sua terra e enfrentar uma cultura, uma língua, um ambiente estranho para poderem oferecer condições de subsistência à sua família; são os marginalizados, abandonados, segregados por causa da cor da sua pele, por causa do seu estatuto social ou econômico, ou por não terem acesso à educação e aos bens culturais de que a maioria desfruta; são as crianças vítimas da violência e da exploração; são as vítimas da economia global, cuja vida dança ao sabor dos interesses das multinacionais; são as vítimas do imperialismo e dos interesses dos grandes do mundo… É a esses e a todos os outros que têm “fome” de vida e de felicidade, que a proposta de Jesus se dirige.
• No nosso Evangelho, Jesus dirige-Se aos seus discípulos e diz-lhes: “dai-lhes vós mesmos de comer”. Os discípulos de Jesus são convidados a continuar a missão de Jesus e a distribuírem o “pão” que mata a fome de vida, de justiça, de liberdade, de esperança, de felicidade de que os homens sofrem. Depois disto, nenhum discípulo de Jesus pode olhar tranquilamente os seus irmãos com “fome” e dizer que não tem nada com isso… Os discípulos de Jesus são convidados a responsabilizarem-se pela “fome” dos homens e a fazerem tudo o que está ao seu alcance para devolver a vida e a esperança a todos aqueles que vivem na miséria, no sofrimento, no desespero.
• No nosso Evangelho, os discípulos constatam que, recorrendo ao sistema econômico vigente, é impossível responder à “fome” dos necessitados. O sistema capitalista vigente – que, quando muito, distribui a conta gotas migalhas da riqueza para adormecer a revolta dos explorados – será sempre um sistema que se apóia na lógica egoísta do lucro e que só cria mais opressão, mais dependência, mais necessidade. Não chega criar melhores programas de assistência social ou programas de rendimento mínimo garantido, ou outros sistemas que apenas perpetuam a injustiça… Os discípulos de Jesus têm de encontrar outros caminhos e de propor ao mundo que adote outros valores. Quais?
• Jesus propõe algo de realmente novo: propõe uma lógica de partilha. Os discípulos de Jesus são convidados a reconhecer que os bens são um dom de Deus para todos os homens e que pertencem a todos; são convidados a quebrar a lógica do açambarcamento egoísta dos bens e a pôr os dons de Deus ao serviço de todos. Como resultado, não se obtém apenas a saciedade dos que têm fome, mas um novo relacionamento fraterno entre quem dá e quem recebe, feito de reconhecimento e harmonia que enriquece ambos e é o pressuposto de uma nova ordem, de um novo relacionamento entre os homens. É esta a proposta de Deus; e é disto que os discípulos são chamados a dar testemunho.
• Os discípulos de Jesus não podem, contudo, dirigir-se aos irmãos necessitados olhando-os “do alto”, instalados nos seus esquemas de poder e autoridade, usando a caridade como instrumento de apoio aos seus projetos pessoais, ou exigindo algo em troca… Os discípulos de Jesus devem ser um grupo humilde (a “criança” do Evangelho), sem pretensão alguma de poder e de domínio, e que apenas está preocupado em servir os irmãos com “fome”.
• O que resulta da proposta de Jesus é uma humanidade totalmente livre da escravidão dos bens. Os necessitados tornam-se livres porque têm o necessário para viverem uma vida digna e humana; os que repartem os bens libertam-se da lógica egoísta dos bens e da escravidão do dinheiro e descobrem a liberdade do amor e do serviço.
• No final, os discípulos são convidados a recolher os restos, que devem servir para outras “multiplicações”. A tarefa dos discípulos de Jesus é uma tarefa nunca acabada, que deverá recomeçar em qualquer tempo e em qualquer lugar onde haja um irmão “com fome”.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho


1. Sempre falamos que Jesus entra na historia para divinizar, por assim dizer, a nossa humanidade, mas nem sempre ouvimos palavras que nos ajudam entender este mistério da fé. Deus entra no tempo, se faz homem, assume uma carne como a nossa e consegue levá-la pura e santa perto do Pai, abrindo um caminho único, mas autentico, para conduzir a humanidade toda no Reino de Deus. É verdade que este caminho é um pouco estreito, que o povo fica chiando quando o encontra, pois percebe que para entrar deve deixar por trás um monte de coisas, ou seja, aquilo que chamamos de  vida mundana; é também verdade, porem, que vale a pena ariscar-se nesta vereda na qual podemos encontrar a salvação.
 O grande filosofo francês Blaise Pascal dizia que a fé é um risco e que a humanidade não tem outra alternativa. De fato, só arriscando o homem poderá saber se além da morte existe a vida eterna. Vamos, então, nos arriscar na reflexão para ver o que acontece na humanidade que se deixa transformar pela ação do Espírito Santo.
2. “Levantando os olhos e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: ‘Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (Jo 6,5).
É interessante acompanhar o jeito de Jesus encarar a humanidade. Perante uma humanidade carente, faminta e sedenta, Jesus não se faz de bonzinho, colocando uma atitude paternalista e deresponsabilizante, como é aquela dos nossos políticos ou, pelo menos, da maioria. Sem duvida Jesus, o Filho de Deus, podia resolver o problema sem envolver ninguém. Deus quer que o homem seja protagonista ativo da própria salvação, e não espectador passivo e inerte. Perante o problema da multidão faminta, Jesus abre o problema para os seus discípulos para que também eles, além de aprender a sentir o peso da responsabilidade, se esforcem na busca de uma solução. Este é, a meu ver, uma linda imagem da Igreja. Não é o Papa, o Bispo, o Padre, o Abade, a Madre o dono da Igreja. Sem duvida nenhuma, cada um deles têm um função de responsabilidade insubstituível. É o jeito de realizar esta responsabilidade que Jesus, no trecho que estamos comentando, questiona e ensina. Na Igreja, assim como Jesus a quis, a autoridade é para servir e não para aniquilar ou, pior, massacrar, humilhar. É o mesmo Jesus que disse para os discípulos que estavam brigando entre eles para saber quem era o melhor: “Entre vós não deve ser assim”.
 Além disso,  na ceia derradeira Jesus, depois de ter lavado os pés para os seus discípulos, acrescentou:“Eu que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15).
Lavar os pés um dos outros, no texto que estamos comentando, significa fazer de tudo para que as pessoas se sentem protagonistas, responsáveis da própria salvação, do próprio caminho de fé. Jesus primeiro envolve os discípulos – Filipe, André – e eles envolvem a multidão representada por o menino dos cinco pães e dois peixes. Outro dato importante é que o mesmo alimento não desceu do céu como o maná no deserto, mas é doado da multidão. Nessa altura dá pra perceber que a caridade que a Igreja, em nome de Jesus, é chamada a viver e realizar, não é resolver os problemas da humanidade toda. Para responder aos problemas que a Igreja encontra no próprio caminho, deve aprender a envolver os interessados, criar laços e condições de dialogo para que a resposta saia da multidão, para deixar que sejam as pessoas a oferecer caminhos de resposta e a partilhar aquilo que já existe. (Aqui seria interessante avaliar a qualidade cristã de tantos projetos sócias que as paróquias ou as dioceses realizam com o dinheiro fácil que vem de fora sem envolver ninguém).
3. “Jesus tomou os pães, deu graças e distribui-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam” (Jo 6,11).
Como entender este versículo á luz daquilo que refletimos? É a liturgia que, desta vez, nos ajuda a penetrar o mistério da Palavra escutada. De fato, quando no ofertório durante a Missa são apresentados o pão e o vinho, é a nossa mesma humanidade a ser apresentada, para ser transformada e, assim, partilhada. Este é o esforço mental que deveríamos fazer quando, na procissão ofertorial, são oferecidos o pão e o vinho. Naquele momento, cada um de nós deveria oferecer a própria semana, as situações criticas, os relacionamentos negativos que prejudicaram a amizade e a paz em casa ou, com os amigos. È neste momento que toda a nossa humanidade deveria ser oferecida para que seja transformada junto com o pão e o vinho. È São Agostinho que, numa famosa homilia, nos lembra que na hora do ofertório na mesa do altar não são colocados apenas o pão e o vinho, mas também a nossa vida.
  Como é que se revela uma humanidade transformada? Em outras palavras: como é que posso avaliar se a participação na Missa foi ativa, presente, com o desejo de mudar?
É são Paulo que, na segunda leitura de hoje, nos oferece a resposta.
“Vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: com toda humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor” (Ef. 4,1-2).
Quando na nossa existência começam aparecer estes sentimentos, que eram os mesmos de Cristo, então isso significa que na nossa humanidade o Espírito Santo está encontrando o espaço para poder agir. Se entrei hoje na Igreja para participar desta santa Missa com no coração uma o mais pessoas que não suporto, que não consigo nem encostar, então é isso mesmo que devo colocar na mesa do altar, para sair dessa missa com o desejo de apaziguar estas situações de inimizade. “Entre vós não deve ser assim”: por isso procuro a Eucaristia do Domingo, para abastecer a minha alma daquele amor imenso que se manifestou na cruz de Cristo e que tem o poder de derreter a minha teimosia, o meu coração duro, o meu egoísmo. Nessa altura dá pra perceber quanto importante seja a Missa do domingo, para uma vida melhor, uma existência aonde seja possível realizar o sonho de Deus que é o seu Reino, Reino de paz, amor e justiça.
 A verdade de cada Missa está na possibilidade real que o Senhor tem de modificar a historia, a humanidade toda. Cabe a nós, com a nossa disponibilidade, fazer com que isso se realize.
padre Paolo Cugini
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O que aconteceu com o lanche do menino!
O sinal da multiplicação dos pães
No domingo passado (23) refletimos sobre a compaixão de Jesus para com a multidão desprezada pelos seus líderes – “eram como ovelhas sem pastor” (Marcos 6,34). Interrompendo a seqüência do Evangelho de Marcos, somos convidados a estudar nos próximos cinco domingos o capítulo 6 de João. Iremos refletir sobre os sinais de Jesus que simbolizam sua ação.
O sinal da multiplicação dos pães fato ocorrido em Tiberíades é que iremos estudar neste 17º domingo do Tempo Comum. Contado pelos quatro evangelistas, o sinal da multiplicação dos pães é um dos relatos mais conhecidos do Novo Testamento. Então, vamos ler e refletir João 6,1-15 e vejamos o que aconteceu com o lanche do menino. Relata o texto que às margens do mar de Tiberíades uma grande multidão estava atenta aos ensinamentos de Jesus. O Mestre partilhou com os discípulos sua preocupação quanto à questão de alimentar aquela multidão vinda de várias regiões. Inicialmente questionou Felipe que chegou a fazer um orçamento prévio – duzentas moedas de prata não seria o suficiente para oferecer um pedaço de pão para cada um dos presentes. André, irmão de Simão Pedro disse: Está chegando aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Que belo gesto deste garoto ingênuo a mostrar seu lanche em meio a uma multidão faminta! Em seguida uma importante providencia-organizar a multidão em grupos e sentados (criar clima de partilha). Será que somente o menino trazia lanche? Jesus tomou os pães e rendeu graças, distribuiu para a multidão fazendo o mesmo com os dois peixes. Estando todos saciados ordenou aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca”. Sobre o texto o que chama a atenção são as palavras chaves (termos) encontradas nos quatro evangelhos: “Pegar, benzer, distribuir (partilhar)”.
Os Evangelhos em momento algum deram ênfase à palavra “multiplicar”, ou seja, o estritamente milagroso. Podemos concluir que mais do que transformar pedras em pães, Jesus consegue fazer brotar do coração do ser humano os sentimentos mais nobres e belos – a solidariedade e a partilha. O que a Palavra de Deus nos pede hoje está perfeitamente ao nosso alcance: Render graças e agradecer por tudo que somos e temos e praticar a partilha. Com o sinal da multiplicação dos pães Jesus nos oferece critérios evangélicos fundamentais para vivermos a fraternidade, a partilha e a solidariedade. A liturgia de hoje nos ensina a partilhar. Cabe a cada um de nos descobrir quais são nossos cinco pães de cevada e colocá-los a serviço dos irmãos. Quando a partilha acontece, o flagelo da fome desaparece.
Pedro Scherer
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Jesus multiplica os pães.

Josué organiza a grande assembléia de Siquém, como a reunião constitutiva do povo em tribos. É o ponto de partida de um movimento novo que parte do Êxodo. O povo deve aceitar sua nova identidade teológica, social, cultural. É fundamental identificar o Deus do Êxodo: ele vê a opressão do povo, ouve o grito de dor e conhece seus sofrimentos, está decidido a descer para libertar o povo do poder dos opressores (Ex. 3,7-8). É o Deus de seus Pais, o Deus da historia.
As tribos procedem de diferentes origens culturais, religiosas, étnicas, porém agora se aglutinam em um só povo, Israel, graças à fé no Deus do êxodo. É a teologia, a fé em Javé e não o sangue que os une em uma aliança tribal. O coração dessa aliança tribal é a fé comum no Deus dos pobres. Porém, supõe também identificar os deuses “estranhos” (deuses cananeus e egípcios), como imagens corrompidas de Deus, que geram escravidão e morte; um sistema de impostos, uma vida de escravos, uma religião opressora. Mudar esses deuses pelo Deus do êxodo, fundar uma sociedade de leis para a vida, partilhar a terra, viver uma nova forma de culto baseado na páscoa, tudo isso é o tema central dessa grande assembléia de Siquém.
As tribos de Israel fazem um pacto de amor com o Deus dos pobres. Um casamento, como insinua a carta aos Efésios. “Uma Igreja dócil ao Messias” “para torná-la radiante, sem mancha e nem ruga”.
As palavras de Jesus chocam com a mentalidade vigente. Há vinte séculos parecida inadmissível que uma pessoa pudesse comunicar  uma mensagem tão exigente e tão libertadora. Hoje seguimos no mesmo plano: procuramos adocicar as palavras de Jesus para que não firam nossos preconceitos. Com frequência queremos converter a palavra de Jesus no exercício de um conjunto de ritos. Porém, a palavra de Jesus nos desestabiliza, nos desinstala e nos lava a questionar a vida diária. Às vezes, inclusive, dizemos como os discípulos: “Este modo de falar é muito duro, quem pode suportar?” Não obstante, nós queremos seguir a Jesus, a única resposta possível é um “sim” firme, um “amém” decidido e generoso. Queremos segui-lo e queremos ser como ele. Não queremos nos contentar com as recompensas que o mundo nos oferece, mas desejamos caminhar com o Nazareno a difícil e tortuosa via do povo de Deus na história.
Poucos se atrevem a criticar a Jesus de Nazaré, porém isto não significa que estejam de acordo com ele. Muitas pessoas há tempo “voltaram para trás” e escolheram seu próprio caminho, somente que se contentam em levar em sua memória a lembrança de um batismo sociológico e o aval das cerimônias religiosas. Porém, para aqueles que queremos escutar o Mestre, não existe outra resposta que a de Pedro ante o desafio de Jesus: “Senhor, a quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna”.
Que útil seria examinar nossas eucaristias! Geram um “movimento de Jesus” em direção à Utopia solidária do que Ele chamava Reino? Vão mudando nosso modo de pensar e agir? Fazem-nos capazes de identificar as outras presenças de Deus entre os deserdados da vida? O mesmo Jesus, em cuja boca João colocou estas palavras: “Eu sou o Pão da Vida”, em Mateus também disse: “Tive fome e me destes de comer; cada vez que o fizeram a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizeram” (Mt. 25, 35).

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“Cinco pães e dois peixes: o que é isso para tanta gente?”
A multidão vinha de longe para encontrar-se com Jesus. Vinha de todos os cantos à procura de cura para os seus males e também à procura de sua Palavra. Jesus sempre atento às necessidades do povo percebeu que estavam com fome, e aproveitou-se desse momento para dar uma verdadeira aula de partilha.
Deu também uma aula de cidadania, mostrou que todas as pessoas são importantes, independentemente de sexo, idade, cor e classe social. Fez questão de envolver todos os seus discípulos e até mesmo um menino. Um anônimo, de quem não sabemos sequer o nome ou de onde veio. Era apenas mais um na multidão.
Chama nossa atenção, esse menino. Vamos procurar saber um pouco mais sobre o ilustre desconhecido mencionado pelo evangelista João. Um jovem no meio da multidão que, sem abrir a boca, marcou sua presença neste episódio.
Nem sempre Jesus nos fala com palavras. Ele coloca enigmas em nosso caminho e nos convida a desvendá-los. Jesus provoca mudanças de forma tão natural que na maioria das vezes nem percebemos o quanto são radicais.
Apesar das mulheres ainda sofrerem discriminações, podemos dizer que na época de Jesus a coisa era ainda pior. As mulheres eram simplesmente ignoradas. Como os escravos, elas não tinham direitos, só obrigações. Mulheres e crianças eram colocadas à margem da sociedade. Não tinham o menor valor.
Jesus veio para mudar! Mudar conceitos e acabar com preconceitos. Fez questão de valorizar a mulher ao pedir água à samaritana. Não condenou Maria Madalena e foi um grande amigo de Marta e Maria. Mas, para realmente dar à ela seu devido valor, quis nascer de uma mulher.
Das crianças disse: “Deixem que venham a mim, porque delas é o Reino do Céu”. Também disse que para entrar no Reino Celeste é preciso ter coração de criança e arrematou com estas palavras: “Quem recebe em meu nome uma destas crianças, é e mim que recebe”.
Hoje, Jesus fala de um menino dono de cinco pães e dois peixes. Um jovem desconhecido e dono de um enorme coração. Tinha alimento suficiente para o seu almoço. Poderia afastar-se da multidão e, sozinho, tomar sua refeição, no entanto, preferiu entregar tudo que tinha para ser partilhado.
No gesto de solidariedade e desprendimento desse menino está uma lição tão importante quanto o milagre da multiplicação dos alimentos. Esse jovem anônimo está aí para nos ensinar o milagre da partilha. Mostra que na renúncia e no simples gesto de dar o milagre acontece.
Poucos teriam feito o que ele fez. Entregou nas mãos de Jesus tudo o que tinha e, o que parecia impossível aconteceu. Viu o seu pouco saciando a fome de milhares. Esse menino fez a sua parte e, quem quiser o Reino dos Céus, tem que imitá-lo.
Mesmo com a sensação de ser só mais um na multidão, precisamos lembrar daqueles milhares que esperam pelo milagre. Esse milagre chama-se doação. Para ver acontecer, basta doar. Façamos nossa parte! O restante é só deixar por conta de Jesus; é Ele quem dá graças e distribui.
Jorge Lorente
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Cinco pães e dois peixes
Depois disso, passou Jesus para a outra margem do mar da Galileia ou de Tiberíades. Uma grande multidão o seguia, porque tinha visto os sinais que Ele realizava nos doentes. Subiu, então, Jesus à montanha e aí se sentou com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Levantando Jesus os olhos e vendo a grande multidão que a Ele acorria, disse a Filipe: "Onde compraremos pão para que eles comam?". Ele falava assim para pô-lo à prova, porque sabia o que iria fazer. Respondeu-lhe Filipe: "Duzentos denários de pão não seriam suficientes para que cada um recebesse um pedaço". Um de seus discípulos, André, o irmão de Simão Pedro, lhe disse: "Há aqui um menino, que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tantas pessoas?". Disse Jesus: "Fazei que se acomodem". Havia muita grama naquele lugar. Sentaram-se, pois, os homens, em número de cinco mil aproximadamente. Tomou, então, Jesus os pães e, depois de dar graças, distribuiu-os aos presentes, assim como os peixinhos, tanto quanto queriam. Quando se saciaram, disse Jesus a seus discípulos: "Recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca". Eles os recolheram e encheram doze cestos com os pedaços dos cinco pães de cevada deixados de sobra pelos que se alimentaram. Vendo o sinal que Ele fizera, aqueles homens exclamavam: "Esse é, verdadeiramente, o profeta que deve vir ao mundo!". Jesus, porém, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo, sozinho, na montanha.
A multiplicação dos pães é o único milagre que aparece em todos os evangelhos; melhor, em dois (Marcos e Mateus) se encontra uma segunda versão.
Em primeiro plano há Jesus que, como enviado de Deus, seu profeta, se sente movido a aliviar a fome do povo, mas, fazendo isso, se liga à história de seu povo, à figura de Moisés e de Eliseu que cumprem gestos análogos para socorrer a multidão do êxodo ou os irmãos profetas. A esta luz também os particulares topográficos ou geográficos do milagre tornam-se mais simbólicos do que reais.
O quadro se abre com a travessia do mar da Galileia que na realidade era apenas um lago. Jesus, quando chegou à outra margem, na planície, tem, contudo, diante de si a montanha. Como não pensar que o evangelista está reevocando a passagem do mar dos Juncos e a ascensão de Moisés à montanha do Senhor. Em outras palavras, retoma o episódio do povo hebraico, da escravidão para a terra da liberdade, e ao alimento milagroso que o libertador fez chover do céu sobre os exilados em dificuldade. Jesus, de fato, está na terra prometida: vem da Judeia, volta para a Galileia; contudo, cumpre igualmente uma travessia libertadora, um novo êxodo.
Isto indica que a meta da fuga do Egito não é a Palestina, mas o reino dos céus, a casa do Pai, na qual Ele entrou depois da ressurreição e convida a todos a segui-lo até lá. Não apenas, Jesus supera Moisés e Eliseu no alimento abundante, incorruptível (o maná, na verdade, à noite apodrecia: Ex 16, 20), mas na destinação última à qual conduz os seus seguidores.
Moisés subiu sobre o monte e desceu, Jesus "subiu e sentou-se". O monte é o lugar da aliança e da comunhão com o Altíssimo (o céu).
A provisão milagrosa de alimento acontece nas proximidades do lago, na terra desértica, privada de aglomerados humanos. Na mente do evangelista volta a recordação dos israelitas que peregrinam no deserto de Sinai, reúnem-se para celebrar pela primeira vez a páscoa, para imolar o cordeiro; não, contudo, para propô-la a seus leitores, mas para convidá-los a lembrar com a mente e o coração a páscoa cristã, e o novo rito que Jesus quis que se fizesse memória: a eucaristia.
A menção da "muita grama" faz pensar na primavera, o tempo da páscoa judaica, o contexto em que Jesus instituiu o memorial de seu amor pelos seus e pelas multidões.
A refeição consumada nas proximidades do lago de Tiberíades não é mais uma refeição qualquer, mas um banquete ritual como aquele da páscoa judaica, contexto da ceia eucarística. Os participantes são chamados, por isto, de comensais. Apesar de estarem em lugar aberto, parecem estar sentados em almofadas ou divãs como era comum nos banquetes. No milagre à margem do lago o pão é dado aos que estavam sentados (v. 11 ).
padre Fernando Armellini - Celebrando a Palavra
 temas de pregação dos padres dominicanos
Revista “O Mílite”
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E não faltou pão para ninguém
Como no deserto Deus não deixou faltar comida para o povo israelita e Ihes mandou prodigiosamente o maná e as codornizes, assim saciou de pães e de peixes a multidão que o seguira nas imediações do lago de Tiberíades.
Como também não deixará faltar até ao fim do mundo o Pão da Eucaristia para os que nele crerem. E um prazer ir descobrindo na leitura das Sagradas Escrituras como esses acontecimentos que se desenrolam no tempo estão ligados nos planos da eternidade. E não estranhamos ao descobrir ressonâncias da liturgia eucarística na narração do milagre da multiplicação dos pães. Sobretudo na redação de são Marcos: "Tomando os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos ao céu, abençoou, partiu os pães e deu-os aos discípulos para que lhos distribuíssem" (Mc. 6,41 ).
E os pães e os peixes foram sendo distribuídos fartamente, como água que fosse jorrando de uma fonte sem parar. Não foi preciso comprar duzentos denários de pão, como surgira na preocupação de Felipe. Entrou a gratuidade de Deus e sua infinita liberalidade, operando pelas mãos de Jesus. E todos se fartaram. E sobraram ainda doze cestos. Era o número dos apóstolos e era o símbolo da universalidade dos bens de Deus. Até ao fim do mundo não irá faltar o pão para o corpo, nem o pão para o espírito: a palavra de Deus e a eucaristia, que aquela multiplicação de pães prefigurava.
Como os Santos Padres já observavam, o milagre que Jesus faz é um pequeno milagre instantâneo, se comparado com o milagre continuado pelo qual Deus faz crescer as searas em toda a superfície da terra, ao longo dos anos e dos séculos, para que chegue o pão às mãos de todos os homens.
O gesto de Jesus é lição para a Igreja, é lição para os cristãos. Não que devamos repetir o milagre. Ainda que mesmo isso Deus tenha concedido a alguns de seus servos, como Eliseu no Antigo Testamento (cf. 2Rs. 4,42-44). O que temos que aprender é cultivar o ritmo do trabalho honesto pelo qual a terra produzirá Com fartura, e os bens da terra serão distribuídos. Com justiça, de modo que nem falte o pão a quem tem fome, nem sobre para quem não tem fome.
Penso que essa mensagem está implícita nesta página do Evangelho. Não é apenas um convite a adorar o poder taumatúrgico de Jesus e sua misericórdia que se compadeceu daquela gente humilde. Nem é só a lição de que a Providência de Deus premia os que Vão em busca da Palavra de Deus. Eles sabem que não só de pão vive o homem; mas Deus sabe que os homens precisam também de pão; e têm o direito de rezar não só para que o nome de Deus seja santificado, para que seu reino venha e sua vontade seja feita na terra e no céu; mas têm também o direito de pedir o pão de cada dia. Jesus os ensinou tudo isso, quando ensinou seus discípulos a rezar.
A lição evangélica aponta porém certamente para nossa responsabilidade em face da distribuição dos bens da terra. Deus criou o homem e o pôs na terra para que a governasse. Não para que a subjugasse despoticamente. Destinou a terra para todos, e não é justo que apenas um pequeno grupo se aposse dela, fazendo faltar terra para os que precisam e podem trabalhar. "Sejam quais forem as formas de propriedade, adaptadas às legítimas instituições dos povos, segundo circunstâncias diversas e mutáveis, deve-se atender sempre a esta destinação universal dos bens" (GS 69/430). Isso é 0 que ensinou o Concílio Vaticano lI. Como ensinou o dever de uma justa distribuição das terras, o dever da honestidade nos negócios, a harmonia entre o capital e o trabalho, a dignidade do homem, que jamais deve ser sacrificada aos valores econômicos.
Se a luz do Evangelho iluminar o caminho dos homens, a terra será sempre a grande mãe fecunda de bens para todos os seus filhos. Não haverá desperdício nem miséria. E, onde houver necessitados, não faltará quem os socorra. E aquela multidão alimentada pelo pão do milagre de Jesus estará presente e multiplicada em toda a terra, alimentada pelo milagre do trabalho honesto, da justiça respeitada, da caridade solícita e da fé em Deus sempre presente.
padre Lucas de Paula Almeida, CM
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O Pão partilhado...
Hoje se fala muito da fome no mundo. Quem não viu imagens de pessoas famintas, que mais parecem cadáveres ambulantes. Deus nos convida a partilhar o "Pão" da vida com todos aqueles que têm "fome" de amor, de liberdade, de justiça, de paz, de esperança.
A 1ª leitura fala do pão partilhado de Eliseu: (2Rs. 4,42-44)
Um homem, durante uma longa carestia, oferece generosamente a Eliseu "o pão das primícias": 20 pães de cevada.
O profeta não guarda para si o precioso alimento e manda repartir com o povo: "Dá ao povo para que coma". O homem se surpreende: "Mas como? É tão pouco para 100 pessoas." E o profeta lhe garante: "Dá... todos comerão  e ainda sobrará…"
Vemos a atitude de DEUS, que não multiplica os pães do nada e o gesto generoso de duas pessoas:
- um homem desconhecido que oferece o fruto do seu trabalho e
- Eliseu que partilha o dom recebido.
O Pão partilhado sacia a fome de todos... e ainda sobra... Não será esse o caminho a ser seguido, também para os nossos dias, para resolver o grave problema da fome no mudo?
Na 2ª leitura, Paulo exorta a manter a unidade com o vínculo da Paz. É o caminho para que juntos possamos sentar-nos à mesa do banquete do Senhor.(Ef. 4,1-6)
No Evangelho, Jesus é o pão partido e partilhado na mesa do mundo. (Jo 6,1-15)
Interrompe-se a leitura de Marcos, própria do ano B, para incluir o capítulo 6o de João, dando continuidade à narrativa. É um conjunto de 5 domingos, em que somos convidados a refletir sobre a multiplicação dos pães e o Sermão do Pão da Vida. É o único milagre descrito pelos 4 evangelistas…
O povo, faminto da sua palavra cheia de vida, segue o Cristo, que se retirara com os discípulos para um lugar deserto. Cristo teve compaixão… E continuou a falar… E atento às necessidades do povo, provoca os apóstolos: "Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?"
Felipe: "Nem duzentas moedas são suficientes…" André: "Um menino tem 5 pães e 2 peixe… mas o que é isso?"
Jesus: "Fazei-os sentar… tomou os pães, abençoou e distribuiu..." Na partilha, todos ficam saciados e ainda sobra alimentos...
Reação do povo: "Quer fazê-lo rei". Não entendeu o "sinal", que acompanha sua missão. Jesus não veio para distribuir cestas básicas e ser eleito prefeito. O verdadeiro pão que alimenta o mundo é Jesus, Palavra do Pai. E Jesus retirou-se para a montanha…
O povo continua a ter fome... Além da fome material, que é uma questão angustiante do nosso tempo, existe a fome de outros valores humanos e cristãos. A solução não está no muito que poucos possuem e retêm para si, mas no pouco de cada um, que é repartido entre todos.
Olhando o Brasil, um país tão rico, com uma população tão pobre, o que significa, hoje, para nós a ordem de Jesus: "Dai-lhe vós mesmos de comer!" (Mc. 6,37)
Qual é o Caminho? No Evangelho, Jesus propõe três pistas:
a) a partilha é o primeiro passo para erradicar a fome do mundo: Jesus não dá uma esmola: ajuda as pessoas a repartirem o que elas têm… Quando se reparte, todos têm o necessário e ainda sobra… Os milagres de Deus iniciam onde a generosidade humana chega ao limite.
b) A organização do povo é um elemento importantíssimo para que ele possa reivindicar e conquistar os seus direitos: Jesus pede para que os discípulos organizem a multidão para que se sente.
c) Evitar o desperdiço: Jesus pede para recolher o que sobrou.
Partilhar continua sendo obra do seguidores de Cristo... Partilhar o que? Partilhar com quem?
Jesus partilhou a Palavra e o Pão... com os apóstolos... com o povo...
E nós o que podemos partilhar? E com quem?
Com a família: trabalhos... o dinheiro...(roubar o marido), as coisas...
Com os amigos: conhecimentos... objetos...
Comunidade: a fé (grupos), dons... tempo...
Cristo ainda hoje continua a nos alimentar. A multiplicação dos pães é sinal profético do pão da vida eterna. Jesus usa gestos idênticos aos da última ceia: "Tomou os Pães, deu graças e os repartiu", querendo manifestar a relação íntima entre o pão da Multiplicação e o pão da Eucaristia.
Quem partilha a compaixão de Jesus com os famintos, vive e cumpre o Evangelho, quando diz: "Tive fome e me destes de comer".
Neste contexto, qual é o sentido da eucaristia? Ficar de braços cruzados, aguardando o milagre de Deus? ou colaborar com os nossos 5 pães e 2 peixes?
Que nossos encontros dominicais não se reduzam a um encontro social, pelo contrário, possam ser momentos fortes de fé para saciar a nossa fome de Deus e para nos responsabilizar pela vida dos que caminham com fome ao nosso lado...
padre Antônio Geraldo Dalla Costa
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