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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM



XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 02 de setembro


Comentários-Prof.Fernando


ESTAMOS INICIANDO O MÊS DA BÍBLIA
“...o que sai de dentro de nós é que nos torna impuros...”

Mc 7,1-8.14-15.21-23

Introdução

Prezados irmãos. No Evangelho deste domingo Jesus nos ensina a separar as coisas. Ele nos mostra a diferença entre os ensinamentos de Deus e a tradição humana.
Jesus não está querendo dizer que devemos ser uns porcos, ou que não precisamos ter hábitos de higiene. Pois sabemos que 80% das doenças são causadas pelo contágio, especialmente pelas mãos mal lavadas em contato com os alimentos.
         O que Jesus está nos advertindo é sobre o exagero dos judeus com reação da tradição, os quais valorizavam  muitas práticas religiosas que eram verdadeiros absurdos, deixando de lado a prática da verdadeira fraternidade. Eles lavavam de maneira especial  e quase solene, os copos, jarras e vasilhames de cobre. Chegavam ao absurdo de tomar banho antes das refeições. No entanto, de suas bocas saiam sempre palavras de desprezo, ofensas e  de exclusão aos humildes. E isso continua acontecendo hoje. Muitos são preocupados com a aparência, preocupados em serem apenas educados, porém vivem arquitetando expedientes e manobras sujas para prejudicar os irmãos.
         Jesus se irritou com fariseus e disse: - Escutem todos o que eu vou dizer e entendam! Tudo o que vem de fora e entra numa pessoa não faz com que ela fique impura, mas o que sai de dentro, isto é, do coração da pessoa, é que faz com que ela fique impura. 
Porque é de dentro, do coração, que vêm os maus pensamentos, a imoralidade sexual, os roubos, os crimes de morte, os adultérios, a avareza, as maldades, as mentiras, as imoralidades, a inveja, a calúnia, o orgulho e o falar e agir sem pensar nas conseqüências. Tudo isso vem de dentro e faz com que as pessoas fiquem impuras.

         Lavar as mãos antes das refeições, é uma norma básica de higiene. Porém, os fariseus seguiam cegamente a tradição, exagerando nos rituais com a água mais  não praticavam corretamente a caridade com  a maioria do povo excluído.
         Isto é muito parecido com o que fazem algumas pessoas colunáveis que super valorizam a “educação”, no sentido de serem simplesmente corteses e delicados uns com os outros, e apenas entre eles, isto porque, só se relacionam com pessoas do seu nível sócio-econômico. No entanto, a caridade  em si, nem a conhecem como nos foi ensinada por Jesus Cristo.
Pois se eu saio por aí distribuindo sorrisos na maioria sorrisos falsos, esperando colher uma boa retribuição, ou recompensa, perante  a Deus eu não estou fazendo nada de importante, além de ser um falso e egoísta. Por outro lado, se me esforço para contribuir pelo bem da humanidade, se me comunico com o meu irmão com sinceridade, e na prática do amor fraterno, mesmo  tendo de corrigir aquele que erra, eu estou muito mais próximo do Plano de salvação.
         Uma coisa é ser educado e agradável aos demais apenas por interesse, e outra coisa é ser caridoso, sem esperar nenhum retorno.
         Que Deus nos ajude a sermos autênticos e sinceros cristãos, empenhados em amar uns aos outros com gestos e palavras sinceras, e não com atitudes de falsidade, e de hipocrisia.
A higiene é importante para nos prevenir das contaminações, porém, o que mais prejudica e contamina a nossa alma impedindo-a de merecer um dia a vida eterna, são as maldades, e as injustiças que brotam do nosso interior, geradas pelo nosso egoísmo e pela nossa fraca fé.
         O estilo de vida que mais agrada a  Deus nosso Senhor, é fazer opção pelo seu projeto de salvação, sem restrição e sem reservas, e que se realiza na prática do amor fraterno e da caridade.
         Prezados irmãos. Ao iniciar o mês da Bíblia, vamos acolhê-la e reverenciá-la como nunca o fizemos, com alegria e muita fé, fazendo do seu conteúdo, o nosso estilo de vida, pois a Bíblia é a nossa proposta de salvação deixada por Deus. Deixemos que ela sempre ilumine, guie, dirija e fortaleça a nossa trajetória de vida aos olhos do Criador. Pois de nada adianta decorar a Bíblia e carregá-la debaixo do braço. Mais sim,

LEIA E VIVA A BÍBLIA.
José Salviano

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Leitura Orante do Salmo 58 - Diocese de Santos - Pe. Fernando Gross
Seguem mais dois vídeos para preparar bem a semana abençoada com a Palavra de Deus!
Abraço
Pe. Fernando
e

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É DE UM CORAÇÃO PURO QUE BROTAM OS MAIS BELOS GESTOS DE AMOR. -Olívia Coutinho

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 02 Setembro de 2012

Evangelho de Mc 7,1-08.14-15.21-23



Estamos no mês de setembro, o mês das flores, tempo em que a natureza se renova, revestindo-se de um verde mais verde, nos acenando,  a mais bela estação do ano: a Primavera!
Primavera é um tempo especial, em que tudo concorre para que a “vida” se refaça depois das durezas de um impiedoso inverno.
Assim como a natureza nos convida a contemplar as suas maravilhas, a igreja nos convida a abrirmos as páginas do livro sagrado, para nos inteirar das maravilhas do amor de Deus, revelado à luz do Espírito Santo, pela boca dos profetas e pelos ensinamentos de Jesus!
Na bíblia sagrada, encontramos a fonte que sacia a nossa sede, que irriga todo o nosso ser, que nos tira da aridez do inverno e nos transporta para uma eterna primavera: o coração do Pai! 
Quantos de nós perdemos a oportunidade de vivenciar  as maravilhas, que nos vem de Deus, tanto da natureza, quanto do coração humano por estarmos  presos em pormenores, que não nos deixa enxergar o belo da vida.
Estamos constantemente observando o outro, pena que a nossa observância se direciona mais para o exterior das pessoas,  destacando sempre  os seus pontos fracos, o que nos impede  de enxergar o que de bom existe no seu interior. Enquanto estamos  nesta observância, buscando somente o negativo, deixamos   de cuidar do nosso próprio  interior, esquecendo de que não  somos modelos de perfeição.
 Devido ao nosso olhar malicioso, que não nos deixa  enxergar o  valor do outro, vamos perdendo a capacidade de ver além das aparências, de ter uma percepção profunda dos fatos e das pessoas.  Ainda não aprendemos  a ter um olhar de contemplação, olhar que nos faz  enxergar o outro na sua essência.
O evangelho de hoje, narra um encontro dos  fariseus e alguns  mestres da lei, com Jesus.  Eles vieram de Jerusalém, com um único  objetivo:  descobrir que tipo de ensinamento Jesus  passava como formação para  seus discípulos, se Ele  os incitava à não-observância das Leis. Pelo que chegou ao conhecimento deles, os ensinamentos de Jesus, não se enquadravam  com os padrões religiosos da época, e que as suas orientações rompiam com o sistema religioso já estabelecido.
Para os fariseus, religião, era cumprir preceitos, normas, rituais estéreis,  vazios, que aos olhos de Deus, não acrescentam nada. Eles observavam rigorosamente os preceitos, mas não agiam com misericórdia, suas atitudes era totalmente contrária a vida.
A  pureza exterior tão observada por eles, escondia a dureza dos seus corações, em nada assemelhava à pureza interior que agrada a Deus.
O texto nos desperta para um questionamento a respeito da nossa fé e a nossa vivencia religiosa. Devemos ser coerentes entre o que falamos e o que vivemos.  Deus não nos olha externamente, para Ele, não importa a nossa cor, nossa posição social e nem mesmo a nossa religião, para Deus, o que importa  é  o que cultivamos de bom no nosso interior, ou seja: a pureza do coração, pois é de um coração puro, que brotam os mais belos gestos de amor!
De nada adianta nossos atos externos se não retratam o que na verdade somos interiormente! 
Aos olhos de Deus, a prática exterior, só encontra seu verdadeiro sentido, quando é uma expressão do que realmente se crê e se vive, do contrário, são práticas vazias, que nada significam, pois mostram  o que na verdade não se é, e não se vive!
O que verdadeiramente agrada a Deus é um coração puro,  livre das maldades, das ambições...
Deixemos que o nosso coração se encha do amor que liberta que nos torna sinal da presença de Deus no mundo.

FIQUE NA PAZ DE JESUS!- Olivia

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O que nos faz mal é o que sai de dentro de nós

J. Salviano

"Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem."
Prezadas irmãs e prezados irmãos. É claro que Jesus esta falando daquilo que mancha a nossa alma. Porque, como sabemos, se ingerirmos veneno, ou qualquer substância  tóxica ou que contenha  vírus,  bactérias, etc, a nossa saúde estará comprometida.  Nosso corpo estará manchado contaminado e, portanto, doente mais a nossa alma neste caso estará isenta, livre de qualquer sujeira. Pelo contrário, ela pode até se purificar com aquele sofrimento principalmente se o oferecermos a Deus pela remissão dos nossos pecados.
Porém, o que sai da nossa mente é que nos faz muito mal. Faz mal à alma e também ao corpo.  Pensamentos e sentimentos têm origem dentro de nós, na nossa mente. Sentimentos de inveja, raiva, vingança ódio, adultério, roubos, assassinatos, devassidões morais, difamação, desonestidade, cobiça, perversidade, desonestidade, fraudes, orgulho, insensatez, tudo isso se origina dentro da nossa mente que sai de dentro de nós em direção aos outros, não só prejudica as pessoas endereçadas, como causa grande estrago à nossa paz interior, o que se reflete também no exterior, ou seja, no nosso corpo.
Exemplo: Alguém me fez algum mal, me ofendeu. E dentro de minha mente foi se formando e arquitetando pensamentos de vingança. A coisa foi se avolumando de tal forma que acabei executando aquele plano de vingança, matando a tal pessoa.  Dentro de mim, a Consciência Moral me condenou me puxou as orelhas, me deixou no pior estado de alma possível e imaginável. Fiquei arrasado, triste e com medo do que me viria, medo das consequências, que será uma condenação a cadeia, onde a minha mente e meu corpo irão sofrer muito para pagar aquela perversidade que fiz para me vingar das ofensas sofridas proveniente daquela referida pessoa.  Será que valeu a pena a vingança? A pessoa morreu.  E eu estou morrendo aos poucos, em grande sofrimento físico e mental, tudo por causa do que foi gerado dentro de mim, e executado.
Agora estou impuro, porque minha alma sofre com o pecado que cometi. Tirei a vida de uma pessoa, não obstante ela tivesse me ofendido. Ah! Então eu vou dar uma de otário, de bobo, e passar por cima de toda ofensa que as pessoas me fazem sem responder a altura?  Responder a altura, não quer dizer tirar a vida daquela pessoa, ou fazer qualquer tipo de mal grave como vingança. Responder a uma ofensa, é não confundir justiça com vingança.   As duas são muito parecidas mais são diferentes.
Fazer justiça é dar a cada pessoa o que ela merece.  A pessoa me ofendeu, eu posso processá-la, posso exigir que peça desculpas, assim como posso exigir uma indenização por danos morais, ou simplesmente posso deixar prá lá, e perdoá-la, porque a minha paz interior vale muito mais do que qualquer tipo de cobrança, de vingança, digo, de qualquer ato de justiça por danos causados a minha pessoa. (Acho que deu para perceber que eu não matei ninguém. Foi só um exemplo).
De modo geral, qualquer ofensa que sai de minha mente e é veiculada pela minha boca ou pelas minhas atitudes, em direção às pessoas, me faz muito mal. Tanto à minha alma, à minha mente (meu psiquismo), como ao meu corpo.
Irmãos. Vamos guardar em nossa mente e por em prática este importante ensinamento que  Jesus no dá hoje, lembrando o conselho de  Tiago em sua carta. Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes; isto equivaleria a vos enganardes a vós mesmos.



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22º DOMINGO DO TEMPO COMUM 02/09/2012
1ª Leitura Dt 4, 1-2.6-8
Salmo 14 (15)1,a  “Senhor, quem há de morar em vosso tabernáculo”
2ª Leitura Tiago 1, 17-18, 21b -22.27
Evangelho Marcos 7, 1-8.14 – 15. 21-23

                                           "A FONTE DO BEM E DO MAL"– Diac. José da Cruz

Na relação com Deus, o moralismo exacerbado é algo abominável, nascido no rigorismo de normas e preceitos, sendo um fardo insuportável que as pessoas vão arrastando vida afora, achando que isso as faz merecedoras da Salvação que Deus oferece. Os inventores dessas mil “regrinhas” para se conseguir a salvação, se deleitam em ensinar as pessoas a andarem, naquilo que eles têm a coragem de chamar de “caminhos do Senhor”. A Santa Igreja tem o seu Código de Direito Canônico, que tem como objetivo ajudar o cristão membro da Igreja, a viver santamente desfrutando ao máximo da graça e santidade que Jesus oferece, entretanto, não é a pura observância dos cânones, que irá levar alguém a fazer a experiência de Deus em sua vida.
O problema está em que, com tantas regras e normas, muitas vezes inventadas por lideranças religiosas, pastorais, movimentos e associações, abafa-se na vida do cristão aquilo que é essencial, uma relação com Deus a partir do seu íntimo, isso é, a partir do coração, centro de decisão e da Vida. A pregação de que devemos fugir das coisas do mundo e só buscar as coisas de Deus, é perigosamente alienadora, pois agindo nessa linha, tudo aquilo que é humano, e que não faz parte da esfera do sagrado, torna-se profano e portanto, motivo de condenação ao pecador.
Conheci um deficiente visual, que tocava sanfona no Mercado Municipal, para ganhar uns trocados, e o seu repertório, bastante variado, agradava a todas as idades. No final do dia embolsava as doações e ia embora, todo feliz. Sempre alegre e extrovertido, era alguém feliz e que sabia fazer feliz as pessoas que o rodeavam para ouvir suas músicas ou suas histórias engraçadas. Um dia alguém o levou a uma igreja cristã e depois de algumas participações começou o processo de sua conversão, e daí, uma vez convertido, e tendo conhecido Jesus, foi orientado para que não mais tocasse aquelas músicas do mundo, que eram pecaminosas diante de Deus, e assim, o “Ceguinho da Sanfona” como era mais conhecido, mergulhou numa grande tristeza que acabou em depressão, nunca mais o vi.
Os Fariseus eram pessoas muito piedosas e fiéis ao judaísmo, mas entre eles havia os “fanáticos” que observavam rigorosamente todas as leis e normas, e adoravam impor o cumprimento da mesma aos demais. Os discípulos de Jesus andavam muito felizes por tê-lo encontrado, e a alegria era tanta que nem se importavam com certas regras, entre elas a de lavar as mãos antes de tomar refeições, e não o faziam por despeito ou por provocação aos Fariseus, é que realmente o encontro com Jesus de Nazaré despertara neles algo novo e inaudito, que nenhuma religião tinha ainda oferecido, era algo que vinha de dentro, do mais íntimo do seu ser, mas os Judeus do Farisaísmo cobraram de Jesus a observância da lei “Por que os seus discípulos não lavam as mãos antes de comer, como faz um judeu piedoso?”. A novidade maravilhosa que Jesus oferecia, não era mais importante do que o cumprimento da lei.
Como é triste quando na comunidade as pessoas são cobradas por alguns, que se julgam justos e Santos, cobra-se conversão, exige-se coerência de vida, retidão de caráter, testemunho de vida, conduta moral irrepreensível, principalmente desprezar e fugir de tudo o que não é sagrado. Ocorre que as pessoas que não tem esse perfil, ou não são perseverantes acabam deixando a comunidade, uma vez que se sentem constrangidas por ficarem ouvindo “pelas costas” a respeito de sua vida “torta”.
Jesus dá um basta a toda essa hipocrisia e coloca uma relação nova com o Pai, não mais a partir da conduta e aparência exterior, mas sim do coração, fonte do bem e do mal, sendo que o que dele provém é que determina as nossas ações, podendo contaminar com o mal, ou contagiar com o Bem. A partir dessa verdade, ninguém mais poderá ser julgado, uma vez que só Deus tem acesso ao coração humano, onde o seu amor de Pai, manifestado em Jesus, transborda o coração dos que nele crêem, fazendo-o irradiar esse amor por onde andam, pautando todas as suas decisões e atitudes, a ponto de São Paulo dizer, “que o amor é a plenitude da lei.”
e que adianta saber lavar corretamente jarras e copos, ou tomar banho cada vez que se chega da praça, como os fariseus? Não freqüentar certos ambientes ou casas, evitar a companhia de certas pessoas, não ler certas revistas, não assistir certos filmes, mas ter o coração cheio de mágoa, rancor, amargura? E mais ainda, destilar o veneno da intriga, da desconfiança, provocar ou sentir inveja, ciúmes? Toda e qualquer preocupação com ações exteriores, só será edificante se o coração estiver convertido, caso contrário, ressoará em nossos ouvidos a severa advertência do Senhor, com relação ao Farisaísmo desde século “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”. (22º. Domingo do Tempo Comum)
José da Cruz é diácono permanente
da Paróquia Nossa S. Consolata-Votorantim

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25º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 23/09/2012
1ª Leitura Sabedoria 2, 12. 17-20
Salmo  53 (54) , 6b  “O Senhor sustenta a minha
vida!”
2ª Leitura Tiago 3, 16- 4,3
Evangelho Marcos 9, 30 – 37

“SERVIR E ACOLHER” - Diac. José da Cruz
No mundo de hoje são servidas e acolhidas apenas as pessoas muito importantes, que detêm algum poder no âmbito social, econômico – político, e até religioso. Jesus inverte este quadro quando coloca no meio dos seus discípulos uma criança que é por ele acolhida e abraçada, para exemplificar o ensinamento de que “quem quiser ser o primeiro, que seja o último e o servo de todos”.
Essa lição, precedida de um exemplo, foi necessária porque os discípulos não compreendem o ensinamento da lógica do Reino, que se fundamenta em uma relação diferente das demais e pelo caminho se questionam quem será entre eles o maior, pensando em uma relação a partir do poder e domínio sobre o grupo.
Podemos nos relacionar com as pessoas segundo a lei, as normas ou o formalismo, tratando-as como cada uma merece ser tratada, mas não é este o modo do justo se relacionar, porque ele pauta suas relações a partir da justiça de Deus, que nunca nos tratou segundo nossas faltas, pois a sua misericórdia e o seu amor são sempre sem medida.
Essa relação justa que sempre compreende e aceita o outro em suas necessidades, desmascara o amor da mediocridade, que não é gratuito e nem incondicional, põe em evidência a frieza das relações formais, marcadas pela aparência e farisaísmo. É um modo de viver que acaba pondo a descoberto toda a maldade que o ímpio traz escondido dentro de si “Eis que este menino foi posto para se revelar os pensamentos íntimos de muitos corações” – dirá o velho Simeão aos pais de Jesus, na apresentação no templo.
Por isso vemos, na primeira leitura, que a presença do justo incomoda porque o seu modo de viver e de se relacionar com as pessoas não segue os padrões normais estabelecidos pelo interesse e conveniência, mas sim segundo a Justiça de Deus. O justo não precisa de nenhuma garantia prévia para agir assim, ele confia totalmente em Deus, que o libertará das mãos dos seus inimigos. Enquanto os homens constroem seus projetos a partir da firmeza das relações com os outros, o justo só precisa e tem necessidade de uma coisa: Deus!
O tema do sofrimento, no segundo anúncio da paixão nos introduz no evangelho desse domingo onde os discípulos não compreendem e têm medo de perguntar.
Jesus, o Mestre de Israel, só fez o bem a todos que o buscaram. Os discípulos esperam talvez por um reconhecimento público o que poderia então dar início a uma “virada” na história. Mas as palavras de Jesus causam um certo desconforto e mal estar entre eles.
A Fé coerente com o evangelho, diante da qual precisamos mudar nossa mentalidade e nosso agir, não é de fácil compreensão. Temos medo de pensar no sofrimento e no transtorno que isso nos irá trazer. Podemos ser alvo de perseguições e incompreensões. A conversão não é um bom negócio para quem colocou sua expectativa de felicidade nos valores do mundo, na fama, no prestígio e no poder.
No tempo de Jesus crianças e mulheres nem eram contados no censo, e ao abraçar uma criança, Jesus está mostrando que os pequenos e sem valor, sem vez e nem voz, são os mais importantes diante de Deus, invertendo a ordem estabelecida, pois estes que nunca são lembrados, que nunca são servidos e acolhidos, são sempre os primeiros no Reino de Deus e quem quiser ser discípulo fiel do Senhor deverá adotar a linha do serviço aos pequenos, para que o seu seguimento seja autêntico.
Para isso temos de contar com a sabedoria que vem de cima que é pura, pacífica, condescendente, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade ou fingimento, como nos ensina Tiago na segunda leitura. Que a nossa Igreja – Assembléia dos que crêem – seja para toda essa massa de excluídos de nossa sociedade, uma porta aberta para acolher e os servir. Assim seja!
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“Jesus e a tradição dos judeus” -  Claudinei M. Oliveira.

Domingo, 02  de Setembro  de 2012.
Evangelho: Mc  7,1-8.14-15.21-23


            Estamos no primeiro domingo de setembro, mês dedicado a Bíblia, livro Sagrado que contem as leis da justiça para o seguimento do caminho reto e justo. Momento oportuno para conhecer um pouco mais da palavra que leva o homem ao encontro com Deus e dirime na virtude do bem todos os passos para o bem viver.
 Conhecer as entranhas da Bíblia é conhecer a história da salvação e a história dos cristãos que dedicaram a vida para fomentar a palavra no meio do povo com intuito de revelar o rosto do Senhor e de seu Filho Jesus.
Moisés foi um grande cristão que levou para seu povo os mandamentos certos a partir da vivência com o Senhor. Revelou para o povo de  Israel toda a severidade  dos ensinamentos  que preservava a dignidade e o respeito ao homem. Declarou  para seu povo escolhido que “nada acrescenteis, nada tireis à Palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo. Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos” ( Dt 4, 2.6). Os mandamentos do  Senhor deve ser exemplo de vida para estar em sintonia com o Pai, assim, toda a sabedoria divina estará voltada para o seio da humanidade favorecendo o crescimento e a honradez.
Compreender e atentar-se para as leis do Senhor é fundamental para fazer o reino acontecer ainda na terra. As regras do Senhor não taxam e nem impedem o homem de viver a beleza do mundo. Assim, o homem não tornou escravo das leis do homem que são interesseiras e voltadas para atender privilégios individuais. As leis do Senhor contemplam todos na sua amplitude e para gozar delas basta o homem abrir o livro Sagrado e absorver suas lições.
Dificilmente o homem hoje faz  da lei do Senhor regras para o amadurecimento pessoal. Não observa na essência aquilo que o Senhor colocou para ser instigada por excelência. Despreza os mandamentos, não ama a Deus acima de qualquer coisa, ama o luxo, a cobiça, o dinheiro, a avareza e o desprezo a vida. O homem não honra os seus pais, mas honra seus ídolos do capital, dos meios de comunicação e do futebol. Não atenta para preservar a vida, mas mata o outro por prazer, retira do outro a dignidade e a felicidade por capricho. O homem não vai à igreja nos finais de semana, mas vai ao bar, à casa de show, aos parques e  aos lugares proibidos. Enfim, o homem não atenta-se  para o crescimento da alma e da fé, mas para o crescimento do mal e da discórdia.
Tanto que os judeus ficaram  bravos com Jesus ao perceber que os discípulos não estavam cumprindo as leis do homem. Jesus retrucou na hora, pois as leis dos homens não correspondem ao princípio da divindade. Como já afirmamos as leis do homem mata, destrói e cria ilusões para uma camada empobrecida. Assim, acredita que a vida vai mudar, mas ao passar do tempo percebe que tudo não passou de enganação e a vida continua dura e sem perspectiva de transformação.
            Jesus para desbancar os Judeus afirmou: “Escutem todos o que eu vou dizer e entendam! Tudo o que vem de fora e entra numa pessoa não faz com que ela fique impura, mas o que sai de dentro, isto é, do coração da pessoa, é que faz com que ela fique impura” Claro que muitos ficaram chocados com a argumentação do Mestre. Como podemos ficar impuros com as coisas que saem de dentro?  Como podemos pecar contra nós mesmo através da fala? Eram palavras que incomodavam muitos seguidores. Afinal, Jesus não estava para fazer “bons” amigos mesmo, Jesus estava para orientar e falar a verdade, mesmo que magoassem seus ouvintes.
            Mas o que levou Jesus a evocar com tenacidade certos argumentos que causariam comoção até entre os discípulos? Talvez fosse a maneira das pessoas se comunicarem com outras. Muitas vezes o cristão pensa estar falando bonito e acertando as ponderações, porém, na verdade, está matando através da fala seu irmão. Aquilo que está saindo da boca vem do coração e, ao invés, de ajudar, pode estar destruindo vidas. Logo a impureza toma o Ser do indivíduo mesclado com ações maléficas.
            Todo o cristão deve atentar-se para a fala. Não deve encher o coração e alma com pensamentos pecaminosos, destrutivos. Quanto mais lixo envolvendo a vida, mais impuro fica o homem. Assim, ao dirigir às pessoas de bens não vai favorecê-las com boas mensagens.
            Jesus termina o Evangelho com palavras que parecem ser ditas hoje, para nós neste momento: O que sai da pessoa é o que a faz ficar impura. Porque é de dentro, do coração, que vêm os maus pensamentos, a imoralidade sexual, os roubos, os crimes de morte, os adultérios, a avareza, as maldades, as mentiras, as imoralidades, a inveja, a calúnia, o orgulho e o falar e agir sem pensar nas conseqüências. Tudo isso vem de dentro e faz com que as pessoas fiquem impuras.  Em negritos não são minhas palavras, são palavras do Santo Evangelho. Veja o quanto nos comove os ditos de Jesus. Ele sabia o que estava dizendo. Queria o bem da humanidade e, portanto, todos deveriam orientar com bons pensamentos para crescer na fé os ensinamentos da libertação.
            A libertação pode levar o homem a esfera da bondade e retirar da agonia em viver presos as pressões. Tornar-se limpo para ouvir e falar com alegria algo que possa trazer a paz e a fraternidade junto à sociedade. Talvez se tornasse desafiadora, mas com justiça e libertação do mal que engana o Ser, o homem pode oferecer aquilo que tem de melhor: a solicitude e o serviço para com os irmãos.
            Diante deste Evangelho e vivendo numa sociedade opressora como a nossa, entendemos os porquês de tantas impurezas. São pessoas que guarda no coração a virilidade do engodo, do desprazer, da maldade, da violência e da rejeição. Tornam-se fúteis, não dão sentido para a vida e carregam o ódio na expressão facial na tentativa de mostrar serem as mais fortes e poderosas.
            Sabemos que está prática não condiz com os ensinamentos do Mestre. Ainda não acordamos para a vida em comunidade, não olhamos para o irmão e enxergamos o irmão, mas enxergamos a extensão do obstáculo do nosso dia-a-dia. Que pena! Somos surdos, cegos e mudos. Temos muitos que aprender para crescer no amor de Cristo Ressuscitado.
            Enfim, que a impureza não  envolva nosso ser e não esfacela a nossa compreensão das coisas do Pai, mas tornemo-nos ouvintes corretos do bem para encher o coração de coisas boas. Amém.  
            Claudinei M. Oliveira
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A palavra de Deus deste XXII domingo chama atenção para o modo como o cristão deve viver sua prática religiosa: com sinceridade diante de Deus, humildade e amor para com os outros e não de forma legalista, fria e auto-suficiente. Com efeito, Jesus critica duramente os escribas e fariseus, que vieram de Jerusalém para observá-lo e questioná-lo. Qual é o problema deles? Certamente eram homens piedosos e queriam seguir a Lei de Deus. O problema era o espírito com o qual faziam: extremamente legalista. Vejamos.
1) A lei de Deus (para os judeus, expressa na Torah) é santa: “Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir... Nada acrescentareis, nada tirareis à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus...” (1ª leitura). Ora, o zelo dos fariseus e dos escribas eram tais e com uma mentalidade de tanto apego à letra pela letra, que se tornaram extremamente legalistas. Eles diziam: “Façamos uma cerca em torno da Lei”, ou seja, criaram pouco a pouco um número enorme de preceitos para evitar qualquer desobediência, ao menos remota, à lei. Preceitos humanos que foram obscurecendo a pureza da lei de Deus e sua característica de ser sinal de amor. Por exemplo: (a) A Lei dizia que o castigo não poderia ultrapassar as quarenta varadas. Os fariseus permitam somente trinta e nove, para evitar qualquer perigo de ultrapassar a conta da lei. (b) A lei proibia o trabalho no sábado. Os escribas e fariseus insistiam que até carregar o instrumento de trabalho no sábado era já um pecado: o alfaiate não poderia carregar sua agulha no sábado. (c) A lei prescrevia abluções (banhos rituais para o culto) só para os sacerdotes. Os fariseus queriam impô-las a todo o povo. A intenção era boa.... mas o resultado, não: tornava a religião algo pesado, legalista e apegado a tantos detalhes que fazia esquecer o essencial: o amor a Deus e ao irmão! Os preceitos humanos obscureciam a intenção divina! 
2) A Lei não fora dada para ser um fardo que tira a liberdade e entristece a vida, mas como sinal do amor de Deus, que orienta e indica o caminho com ternura: “Vós os guardareis... porque neles está a vossa sabedoria e inteligência... Ouve as leis que vos ensino a cumprir para que vivais e entreis na posse da terra prometido pelo Senhor Deus” (1ª leitura). A lei e toda prática religiosa devem ser caminho de vida, e não um fardo insuportável e asfixiante, tornando a religião algo tristonho e pesado, como se fosse obra de um Deus ciumento e invejoso da nossa felicidade! Jesus critica os fariseus e os escribas por isso: tornaram a religião um fardo pesado e triste, ao invés de ser primeiramente um relacionamento com Deus, íntimo, feliz e amoroso!
3) Jesus censura também os escribas e fariseus pela incapacidade de distinguir entre o essencial e o secundário; em discernir o que vem Deus e o que é meramente prática e tradição humanas, talvez boas e louváveis, mas não essenciais. Em matéria de religião, nem tudo tem igual valor, nem tudo tem a mesma importância. A medida de tudo é o amor: o amor é a plenitude da lei (Rm. 13,10); só o amor dá sentido a todas as coisas!
3) Outro motivo de crítica é que uma religião assim, apegada a preceitos exteriores, torna-se desatenta do coração, sem olhar a intenção com que se faz e se vive. Cai-se na hipocrisia (a palavra hipócrita vem de hypokrités = ator teatral): uma religião meramente exterior, sem aquelas atitudes interiores, que são as que importam realmente: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. De nada adianta o culto que me prestam!” (evangelho). É sério: a atitude exterior (lábios) não combina com o interior (coração)! As práticas externas valem quando são sinal de um compromisso interior de amor e conversão em relação a Deus. É importante observar que Jesus não condena as práticas exteriores, mas a sua supervalorização e a sua atuação sem sinceridade: “Importava praticar estas coisas, mas sem omitir aquelas” (Mt. 23,23).
4) Há também o perigo da auto-suficiência: a pessoa sente-se segura de si mesma por causa de suas práticas: “Ah, eu vou à missa todo domingo, rezo o terço e dou esmola! Estou em dia com Deus!” O homem nunca está em dia com Deus. Pensar assim, é deixar de perceber que tudo é graça e que jamais mereceremos o amor que Deus nos tem gratuitamente. Sem contar que tal atitude nos leva, muitas vezes, a nos julgar melhores que os outros, desprezando os que julgamos mais fracos ou imperfeitos! Era exatamente o que ocorria com os fariseus: “Este povo que não conhece a lei são uns malditos!” (Jo 7,49); “Tu nasceste todo no pecado e nos ensinas?” (Jo 9,34); “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano!” (Lc. 18,11). É interessante comparar estas atitudes com as que São Paulo recomenda aos cristãos em Rm. 12,3-13.
5) Jesus convida a ir ao essencial: vigiar as intenções e atitudes do nosso coração, pois “o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior” (evangelho). Com um coração puro, poderemos reconhecer que tudo de bom que temos é dom de Deus (“Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes!” – 2ª leitura) e que, diante dele, somos sempre pobres e pecadores, necessitados de sua misericórdia. Isto nos abre de verdade para o amor aos outros e para a compaixão: somos todos pobres diante de Deus: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”.
6) Concluindo:
Como vai nossa prática religiosa, pessoal e comunitariamente? Buscamos um relacionamento amoroso, íntimo e pessoal com o Senhor ou nos contentamos com uma prática meramente exterior? Julgamo-nos melhores que os outros diante de Deus? Às vezes dizemos: “Eu não merecia este mal...” – julgando-nos credores de Deus! Dizemos também: “Há tanta gente pior que eu; por que aconteceu comigo?” – julgando-nos melhores que os outros!
O que é mais importante na nossa vida de fé? E na nossa vida em comunidade? O salmo de meditação da missa de hoje dá ótimas pistas para uma exame de consciência.

Vivemos num mundo de muitos mestres, de muitas opiniões, de muita gente entendida sobre tudo que fala sobre tudo... Há tantos caminhos, tantas propostas, tanta gente com ares de sábio... Os meios de comunicação nos propõem tantas coisas: livros, televisão, rádio, Internet, jornais, revistas... E, no entanto, para nós, que cremos, o Senhor que nos orienta e educa na sua santa Palavra, recebida, guardada, crida, contemplada e ensinada pela Igreja, o Senhor é o único caminho, a única verdade, a única luz! É disso que fala a Palavra de Deus deste Domingo santo.
A grande tentação do nosso tempo é pensar que nossa razão é o critério da verdade, é a medida do bem e do mal. Assim, é certo, é bom, é aceitável o que nós julgamos ser ou o que a maioria, o senso comum julgam ser bom. Se agora o divórcio é um bem, então que seja; se nos tempos atuais a união homossexual é norma, então que seja aprovada; se nos cânones da ciência manipular embriões humanos é correto, então vá lá; se todo mundo tem numa boa relações pré-matrimoniais, então para que se opor? Eis aqui: o homem agora se julga adulto, emancipado, liberado: ele próprio julga poder definir sua vida, construí-la a seu modo. Para que um Deus que me diga o que fazer? Para que uma Igreja com ares de mãe e de mestra? Ninguém precisa mais disso! Esta é a mentalidade hodierna... 
E, no entanto, para quem crê, há um Deus que é o Senhor da vida, de quem nós vimos e para quem vamos: “Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do Alto, descem do Pai das luzes: de livre vontade ele nos gerou pela Palavra da verdade, a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas!” Nossa vida não é nossa de modo absoluto; não nos fizemos a nós mesmos. Tua vida, ó homem, é vida recebida gratuita e amorosamente; é dom de Deus, para que vivas na amizade com ele e, acolhendo sua Palavra sejas gerado para uma vida verdadeira, vida plena, vida eterna!
E, no entanto, quanto é difícil esta atitude de compreender a vida como um dom que recebemos! Quão grande a tentação de viver como donos absolutos da existência! Pois bem, o Senhor nos convida, o Senhor nos ordena a que vivamos abertos à sua Palavra, para que vivamos de verdade: “Agora, Israel, ouve! Para que, fazendo-o, vivais! Nada tireis, nada acrescenteis às palavras que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus! Vós os guardareis e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência.” Tristes de nós quando nos julgamos sábios a nossos próprios olhos e desprezamos a Palavra do Senhor e as orientações da sua Igreja, que dele recebeu a missão e a autoridade de nos educar nos caminhos do Senhor! Pensemos, caríssimos irmãos – que cada um pense: tenho construído a minha vida, segundo a Palavra do Senhor? Tenho feito minhas opções de vida de acordo com a moral cristã custodiada e ensinada maternalmente pela Igreja? No mundo da idolatria da autonomia, não é fácil a madura atitude de sair de nós mesmos e deixar que o Senhor e sua Igreja nos guiem. Entretanto, este é o caminho do cristão verdadeiro, do católico coerente e maduro! Na segunda leitura de hoje, São Tiago nos exorta com palavras muito claras e diretas, sem deixar margem para ilusões: “Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas! Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos!” Não deveríamos nos enganar com falsos raciocínios, não deveríamos dar ouvidos àqueles – mesmo dentro da Igreja, infelizmente, mesmo padres, infelizmente, mesmo teólogos, infelizmente – que tentam mundanizar o cristianismo para fazê-lo mais atraente. Escutai, caríssimos, a advertência do Senhor: “Vós abandonais os mandamentos de Deus para seguir a tradição dos homens!” Também São Paulo nos previne para que não caiamos nas teias de uma vã filosofia, uma sabedoria segundo o mundo e não segundo o Espírito de Cristo! Nunca esqueçamos: uma vida verdadeiramente cristã exige de nós fidelidade ao Senhor, ruptura com o que é mundano e um coração aberto para os necessitados: “A religião pura e sem mancha diante de Deus: assistir os órfãos e viúvas e não se deixar contaminar pelo mundo!” Estejamos atentos, amados no Senhor, porque o que passa disso vem do maligno!
Supliquemos nesta missa que o Senhor converta o nosso coração para que nossa vida pessoal e familiar, nossa vida social e profissional seja pautada pelo Evangelho, pela lei de Cristo. Qual será o fruto de uma existência assim? Experimentar a proximidade do Senhor, do Deus vivo e cheio de ternura na nossa existência. Não é isso que diz o próprio Senhor na primeira leitura de hoje? “Qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor nossos Deus, sempre que o invocamos?” Sim! Esta é a verdadeira grandeza nossa, de nossa família, de nossa Pátria! Não simplesmente o desenvolvimento econômico, social ou tecnológico, mas, antes de tudo e sobre tudo caminhar com o Senhor e experimentá-lo ao nosso lado, sabendo que somos uma sociedade que é aberta para Deus...
Certamente, não é nesse caminho que o mundo caminha; não é essa a estrada pela qual a nossa sociedade vai se movendo... mas deve ser essa a nossa direção, esse o nosso rumo. Nunca esqueçamos que somos as primícias de uma nova criação, de um novo mundo, de um modo de viver que seja alternativo, diferente, luz e sal desse mundo sem graça: “de livre vontade o Pai nos gerou pela Palavra da verdade, a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas!” – Senhor, converte o nosso coração! Dá-nos um coração capaz de te escutar, um coração de carne e não de pedra, um coração para obedecer e te amar! Livra-nos de nós mesmos, Senhor, e faze-nos para o mundo sinais e instrumentos da verdadeira liberdade – aquela que somente tu sabes dar e somente tu podes dar! A ti a glória, ó Deus santo, que vives e reinas com o teu bendito Filho na unidade do Santo Espírito, pelos séculos dos séculos!
dom Henrique Soares da Costa

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Conservar ou mudar?
Ao longo da caminhada cristã, ficamos presos a certas normas e abandonamos outras. Conservamos as que presumimos serem as melhores, as fundamentadas no evangelho, e abandonamos aquelas que já caducaram e não dizem mais nada aos dias atuais.
Nem sempre é fácil fazer a escolha mais acertada. Muitas vezes nos agarramos à “doutrina tradicional da Igreja”, mas esquecemos a fundamentação bíblica ou descuramos do dever de nos adequar aos novos tempos. O Vaticano II foi grande janela que se abriu no século passado, mostrando a necessidade de adequação. Uma tradição só é válida se nos ajuda a observar os mandamentos, ou seja, a viver intensamente o projeto de Jesus.
Nossas tradições – que nós criamos – servem para “disfarçar nossa perversidade” ou nos ajudam a manter o coração unido a Deus e aos irmãos? Ainda hoje encontramos, no seio das comunidades, “fariseus” e “legisladores” que pretendem ditar normas de conduta ou ficam presos a certas leis já superadas e esquecem o fundamental e irrevogável: o amor a Deus e ao próximo.
O farisaísmo não é privilégio do passado, mas tentação a nos ameaçar continuamente. Não estamos livres das pragas que mancham a Igreja: o legalismo, o preconceito, a exterioridade; um cristianismo meramente ritualista e superficial; maior preocupação em obedecer passivamente às normas recebidas do que em dar uma resposta pessoal e comprometida aos chamados de Deus e aos apelos dos irmãos.
Ser fiel observante de “regrinhas” dá a sensação de dever cumprido e até de prestígio diante de Deus. Isso é muito mais fácil do que construir a própria vida no amor e na liberdade de filhos e filhas de Deus, disponíveis para as necessidades do próximo. O amor para com Deus e com os irmãos não tem regras predeterminadas. Não podemos esquecer que a verdadeira religião passa pelo próximo. A religião pura e santa aos olhos de Deus é esta: assistir órfãos e viúvas, isto é, as pessoas excluídas, renegadas pela sociedade. Não é difícil descobrir onde estão os “órfãos e as viúvas” de nossa sociedade.
padre Nilo Luza, ssp

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1. O mistério que celebramos:
Por vários domingos escutamos o evangelho segundo João, que fala da multiplicação dos pães. Hoje, retomamos o evangelho de Marcos, que nos revela pouco a pouco quem é Jesus.
Nesta celebração, o Mestre ensina a valorizarmos o essencial. Tudo o que serve para o crescimento é aceitável. As normas, as leis são úteis enquanto estão no plano de Deus, que é de vida e salvação.
Será preciso mudar as atitudes a partir de dentro, pois é o que sai do interior da pessoa que a contamina. Que possamos mudar de atitudes formalistas para a religião do coração, como Jesus praticou e ensinou.
2. Sugestões para a celebração:
• O ato penitencial pode ser um momento bem apropriado para avaliar nossa prática cotidiana.
• Neste mês da Bíblia, é importante valorizar a escuta da Palavra.
• Praticar a leitura orante diariamente, seguindo os seus passos: leitura, meditação, oração e contemplação. Essa prática, como afirma o papa Bento XVI:
“(...) é verdadeiramente capaz não só de desvendar ao fiel o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro com Cristo, Palavra divina viva...”
(Verbum Domini, n. 87).
• Preparar bem os/as leitores/as para proclamar e a assembléia para ter ouvido de discípula; valorizar os livros litúrgicos que contêm a Palavra de Deus (o lecionário e o evangeliário), como afirma o Elenco das leituras da missa:
“Os livros de onde se tiram as leituras da Palavra de Deus, assim como os ministros, as atitudes, os lugares e demais coisas lembram aos fiéis a presença de Deus que fala a seu povo. Portanto, é preciso cuidar que os próprios livros, que são sinais e símbolos das realidades do alto na ação litúrgica, sejam verdadeiramente dignos, decorosos e belos” (nº 35).
• Valorizar o ambão (mesa da Palavra) de onde “são proferidas somente as leituras, o salmo responsorial e o precônio pascal; também se podem proferir a homilia e as intenções da oração universal ou oração dos fiéis” (Introdução ao Lecionário, n. 309).
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A verdadeira religião
“O evangelho nos regala com um dos trechos mais significativos de Marcos: a discussão sobre o que é impuro (Mc. 7,1-23). Os discípulos se puseram a comer sem lavar as mãos. Mas lá estavam alguns vizinhos piedosos, da irmandade dos fariseus, acompanhados de professores de teologia (escribas), vindos da capital, de Jerusalém. Logo se intrometeram, dizendo que é proibido comer sem lavar as mãos. (Como também se deviam lavar as coisas que se comprava no mercado, os pratos e tigelas, e tudo o mais. Mas Jesus acha tudo isso exagerado, sobretudo porque dão a isso um valor sagrado.
Na realidade, a piedade de Israel era relativamente simples. Religião complicada era a dos pagãos, que viviam oferecendo sacrifícios e queimando perfumes para seus deuses, cada vez que desejavam alguma coisa ou queriam evitar um castigo. Mas a religião de Israel era sóbria, pois só conhecia um único Deus e Senhor. Consistia em observar o sábado, oferecer uns poucos sacrifícios, pagar o dízimo, e sobretudo, praticar a lealdade (amor e justiça) para com o próximo. Moisés já tinha dito que não deviam acrescentar nada a essas regras simples, admiradas pelos outros povos (1ª leitura). E Tiago  – o mais judeu dos autores do Novo Testamento - diz claramente:  “Religião pura e sem mancha diante de Deus e Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg. 1,27; 2ª leitura).
Mas, no tempo de Jesus, os ”mestres da Lei”  tinham perdido esse  sentido de simplicidade. Complicaram a religião com observância que originalmente se destinavam aos sacerdotes. Clericalizavam a vida dos leigos. Queriam ser mais santos que o Papa! Chegavam a dizer que era mais importante fazer uma doação ao templo do que ajudar com esse dinheiro os velhos pais necessitados.  Inversão total das coisas. Ajudar o pai e a mãe é um dos Dez Mandamentos... Declaravam também impuras um montão de coisas. No templo, tudo bem, o bezerro ou o cordeirinho a serem oferecidos têm que ser bonitos, puros, sem defeito.  Mas  no dia-a-dia, a come o que tem e do jeito como pode. Sobretudo, a gente pobre, os migrantes, como eram os amigos de Jesus. Contra todas essas invenções piedosas, Jesus se  inflama. Não é aquilo que entra na gente  – e que é evacuado no devido lugar  – que torna impuro, mas a malícia que sai de sua boca e de seu coração (Mc. 7,18-23).
Jesus quis sempre ensinar o que  Deus quer. A Lei era uma maneira para “sintonizar” com a vontade de Deus. E Jesus respeita a Lei, melhorando-a para torna-la  mais de acordo coma vontade de Deus, que é o verdadeiro bem do ser humano. Isso é o essencial. O demais deverá estar a serviço do verdadeiro bem da gente e não o impedir. A verdadeira sintonia com Deus, a verdadeira piedade é o amora Deus e a seus filhos e filhas. Práticas piedosas que atravancam  isso são doentias e/ou hipócritas”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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Jesus e as tradições humanas
A melhor coisa, quando se corrompe, vira a pior. Isso acontece com a Lei, dada por Deus a Israel mediante Moisés, quando deixada nas mãos de mestres que lhe desconhecem a intenção originária. A 1ª leitura de hoje descreve muito bem o alto valor da Lei: um tesouro de sabedoria, que supera as leis e filosofias dos outros povos. Diz direitinho o que é para fazer e para deixar. A Lei servirá para garantir a posse pacífica da Terra Prometida. E mais: servirá como um testemunho de Deus entre as nações, pois qual é o povo que tem um Deus tão sábio?
Esta última frase revela que essas palavras foram escritas, não no tempo de Moisés, mas no tempo em que Israel, novamente, vivia no meio das nações, no exílio babilônico. Para os judeus exilados, a “conversão” à prática da Lei seria o meio para voltar à Terra Prometida e, entretanto, já servia de testemunho entre as nações (cf. a vocação do Servo do Senhor a ser “luz das nações”, Is. 42,6; também da situação do exílio). Por isso, era importante observar a Lei da melhor maneira possível, sem nada tirar ou acrescentar, para não obscurecer a palavra divina por invenções humanas.
Para proteger a “árvore da vida”, que é a Lei, os escribas montaram ao redor dela a cerca de suas interpretações, tradições, jurisprudências etc. Querendo protegê-la, tomaram-na inacessível para o povo comum, e ainda a sufocaram na sua intenção principal, que é: ser a expressão do amor de Deus. Para não cair no erro se proíbe uma série de outras coisas, porque “nunca se sabe…“. Traços disso existem ainda no judaísmo atual, onde a cozinha para a carne é separada da cozinha para as comidas com leite, pois poderia acontecer que, sem o saber, a gente cozinhasse carne numa panela com um restinho de leite do mesmo animal, e a Lei proíbe cozinhar um animal com seu leite… O exagero se transformou em critério de boa conduta. Os fariseus inventaram que só os que observavam essas invenções exageradas eram realmente bons judeus. Os outros, que nem conheciam a Lei (e as suas interpretações), eram desprezíveis: os “ignorantes”.
Jesus escandaliza por seu comportamento (evangelho). Se ele fosse um verdadeiro “rabi”, ele deveria, em primeiro lugar, ver se as pessoas com quem lidava eram puras ou não. Pelo contrário: toca num leproso (Mc. 2,41), deixa-se tocar por uma hemorrágica (5,27), presta ajuda a uma pagã (7,24-30). Por trás da pergunta por que os discípulos de Jesus comem com as mãos “impuras” (não lavadas), está toda a crítica do farisaísmo à conduta global de Jesus. A resposta de Jesus é violenta: a religião dos fariseus é invenção humana, e não a vontade de Deus, o que ele demonstra com o exemplo dos votos feitos ao templo em detrimento dos próprios pais (7,8-13, infelizmente eliminado da perícope litúrgica). E mais: toda essa questão de puro e impuro é uma farsa, pois o que deve ser puro é o interior, do copo e da gente, não o exterior. A podridão não é coisa de fora que entra na gente, como a comida, que sai novamente e vai à fossa (16-20, suprimido na liturgia!). A podridão está no coração da gente! Assim, Jesus não apenas declara todo alimento puro (19b), restituindo a criação de Deus, que fez as coisas boas (cf. At. 10,15), mas ainda ensina ao homem olhar para dentro do próprio coração.
Jesus aqui demonstra espantosa liberdade face às tradições humanas, considerado o ambiente rígido em que vivia: o judaísmo lutando contra as influências estrangeiras, procurando conservar sua identidade, mediante a (exagerada) observância da Lei. Aos olhos dos “bons”, Jesus estava destruindo o povo de Deus. Coisa semelhante acontece hoje. Os que procuram garantir a “identidade”, não apenas dos cristãos, mas da “civilização cristã ocidental”, não admitem nenhum comportamento divergente das normas tradicionais que garantiram sucesso à cristandade. E, contudo, para “restituir a Lei a Deus”, para fazer com que ela seja expressão do amor de Deus, talvez seja preciso me­xer com as tradições esclerosadas e com as estruturas sociais que sustentaram a cristan­dade tradicional juntamente com seu maior inimigo, a sociedade do lucro individual e do ateísmo prático.
O cristão deve sempre ter claro que só a Lei de Deus é intocável; as interpretações humanas, por necessárias que forem, não. Por isso, Jesus reduziu a Lei de Deus ao es­sencial: amor a Deus e ao próximo (nem mesmo o sábado sobrou no seu “resumo”…). Quando nossas interpretações contrariam a causa de Deus, que é a causa do homem, estamos no caminho errado, no caminho dos fariseus.
E, por falar em vontade de Deus, não basta escutar sua formulação na Lei; é preciso executá-la. Verdadeira religião não é doutrina, mas amor prático, para com os mais humildes em primeiro lugar; é o que nos ensina a 2ª leitura, de Tiago.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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O que sai do coração
Uma antiga denúncia profética foi retomada por Jesus. O profeta Isaías teve a perspicácia de perceber o descompasso entre o culto faustoso praticado no templo de Jerusalém e as violências e injustiças que campeavam na cidade. O louvor proclamado com os lábios não correspondia às maldades praticadas com as mãos. O apego exagerado a certas tradições religiosas não chegava a gerar a conversão do coração.
Algo semelhante passava-se com uma ala do farisaísmo no tempo de Jesus. A veneração afetada dos fariseus às normas legais não os impedia de dar vazão às suas más intenções. Aí se revelava o que eram por dentro. A piedade exterior era fachada de um interior cheio de perversidade. A observância escrupulosa das normas de pureza mostrava-se inútil, pois não chegava a atingir seu verdadeiro objetivo: tornar a pessoa internamente pura para Deus.
O discípulo do Reino, no pensamento de Jesus, faz o caminho inverso ao dos fariseus. Sua preocupação maior consiste em não se deixar contaminar pelas malícias que brotam do coração. Pouco lhe importam as coisas exteriores. Comer sem ter lavado as mãos é menos importante do que sentar-se à mesa e partilhar o pão com os necessitados. Ser muito atento na limpeza das louças e talheres só tem sentido se tiver o respaldo de uma vida centrada na prática do amor e da justiça.
padre Jaldemir Vitório
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O que é principal para Jesus
Jesus está diante de "inquisidores" enviados pelos chefes religiosos de Jerusalém à Galileia. Sua função é espiar Jesus e preparar o arquivo para a condenação. Todas as faltas devem ser anotadas. Então o questionam porque percebem que alguns discípulos seus comem com as mãos impuras. Estão infringindo a tradição dos antigos. Está em foco a questão da "tradição", que é mencionada seis vezes no texto. No caso atual estão sendo feridos os códigos de pureza, que eram um dos elementos fundamentais para definir a identidade étnica e nacionalista do povo, dentro da reivindicada característica de superioridade da eleição por Deus. Jesus remove estes princípios exclusivistas afirmando o essencial para Deus: a vida e o amor para todos. Com a citação do profeta Isaías, "é inútil o culto que me prestam, as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos" (Is 29,13...), Jesus questiona como o apego à tradição humana leva a abandonar o principal, o amor ao próximo, que é o mandamento de Deus.
Eram muitas "as leis e os decretos" a serem observados. Eles eram apresentados como o traço característico da superioridade do povo de Israel em relação aos outros povos (primeira leitura). Estas leis e decretos, apresentados como "Lei de Moisés", eram resultado de acréscimos sucessivos, ao longo do tempo, a partir do núcleo do Decálogo. Prevalecia neste conjunto de leis, criadas pelas elites religiosas do Templo de Jerusalém, a mera tradição humana que até chegava a opor-se ao verdadeiro projeto de Deus. Com sua ideologia estas leis geravam a humilhação e a submissão que abriam as portas para a exploração do povo fiel.
Com uma inversão, Jesus revela que a impureza é, na realidade, o apego à materialidade do culto, relegando a segundo plano, ou omitindo-se, os gestos concretos de amor ao próximo, aos mais carentes e necessitados. "A religião pura e sem mancha diante de Deus e Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e guardar-se da corrupção do mundo" (segunda leitura).
A partir do alimento que, sendo ingerido, segue o destino comum, Jesus destaca que o contraste pureza x impureza não está no exterior, corpo, ou nos alimentos, mas no coração. Comumente o coração é apresentado como fonte de pensamento e emoção. Aqui o coração é apresentado como fonte de ação, boa ou má. Os fariseus, apegando-se às tradições humanas e interesseiras, afastam-se da justiça de Deus em seus corações.
José Raimundo Oliva
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A liturgia do 22º domingo do tempo comum propõe-nos uma reflexão sobre a “Lei”. Deus quer a realização e a vida plena para o homem e, nesse sentido, propõe-lhe a sua “Lei”. A “Lei” de Deus indica ao homem o caminho a seguir. Contudo, esse caminho não se esgota num mero cumprimento de ritos ou de práticas vazias de significado, mas num processo de conversão que leve o homem a comprometer-se cada vez mais com o amor a Deus e aos irmãos.
A primeira leitura garante-nos que as “leis” e preceitos de Deus são um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude. Por isso, o autor dessa catequese recomenda insistentemente ao seu Povo que acolha a Palavra de Deus e se deixe guiar por ela.
No Evangelho, Jesus denuncia a atitude daqueles que fizeram do cumprimento externo e superficial da “lei” um valor absoluto, esquecendo que a “lei” é apenas um caminho para chegar a um compromisso efectivo com o projecto de Deus. Na perspectiva de Jesus, a verdadeira religião não se centra no cumprimento formal das “leis”, mas num processo de conversão que leve o homem à comunhão com Deus e a viver numa real partilha de amor com os irmãos.
A segunda leitura convida os crentes a escutarem e acolherem a Palavra de Deus; mas avisa que essa Palavra escutada e acolhida no coração tem de tornar-se um compromisso de amor, de partilha, de solidariedade com o mundo e com os homens.
1 leitura: Dt. 4,1-2.6-8 - AMBIENTE
O Livro do Deuteronômio é aquele “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18º ano do reinado de Josias (622 a.C.) (cf. 2 Re 22). Neste livro, os teólogos deuteronomistas – originários do Norte (Israel) mas, entretanto, refugiados no sul (Judá) após as derrotas dos reis do norte frente aos assírios – apresentam os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém); esse Deus amou e elegeu Israel e fez com Ele uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um único Povo, a propriedade pessoal de Jahwéh (portanto, não têm qualquer sentido as questões históricas que levaram o Povo de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão).
Literariamente, o livro apresenta-se como um conjunto de três discursos de Moisés, pronunciados nas planícies de Moab. Pressentindo a proximidade da sua morte, Moisés deixa ao Povo uma espécie de “testamento espiritual”: lembra aos hebreus os compromissos assumidos para com Deus e convida-os a renovar a sua aliança com Jahwéh.
O texto que hoje nos é proposto apresenta-se como parte do primeiro discurso de Moisés (cf. Dt 1,6-4,43). Na primeira parte desse discurso (cf. Dt 1,6-3,29), em estilo narrativo, o autor deuteronomista põe na boca de Moisés um resumo da história do Povo, desde a estadia no Horeb/Sinai, até à chegada ao monte Pisga, na Transjordânia; na parte final desse discurso (cf. Dt 4,1-43), o autor apresenta, em estilo exortativo, um pequeno resumo da Aliança e das suas exigências. Esta secção final do primeiro discurso de Moisés começa com a expressão “e agora, Israel…”, que enlaça esta secção com a precedente: mostra-se que o compromisso que agora se pede a Israel se apoia nos acontecimentos históricos anteriormente expostos… A ação de Deus ao longo da caminhada do Povo pelo deserto deve conduzir ao compromisso.
O capítulo 4 do Livro do Deuteronômio é um texto redigido, muito provavelmente, na fase final do Exílio do Povo de Deus na Babilônia. Perdido numa terra estrangeira e mergulhado numa cultura estranha, hostilizado quando tentava afirmar a sua fé em Jahwéh e celebrá-la através do culto, impressionado com o esplendor ritual e as solenidades do culto babilônico, o Povo bíblico corria o risco de trocar Jahwéh pelos deuses babilônicos. É neste contexto que os teólogos da escola deuteronomista vão convidar o Povo a olhar para a sua história (cf. Dt 1,6-3,29), a redescobrir nela a presença salvadora e amorosa de Jahwéh e a comprometer-se de novo com Deus e com a Aliança.
MENSAGEM
Esse Deus que, no passado, interveio na história para salvar e libertar Israel é o mesmo Deus que agora oferece ao seu Povo leis e preceitos.
Porque é que Israel deve acolher e praticar essas leis e preceitos que Deus lhe propõe? Em primeiro lugar, como forma de gratidão: é a resposta de Israel a esse Deus libertador, que mil vezes agiu no passado para salvar o seu Povo… Em segundo lugar, porque as leis e preceitos do Senhor são inquestionavelmente um caminho que conduz o Povo pela estrada da felicidade e da liberdade. Em qualquer caso, o viver de acordo com as leis e os preceitos de Jahwéh ajudará o Povo a concretizar todos os seus sonhos e esperanças – nomeadamente o grande sonho de se estabelecer numa terra, escapando aos perigos e incomodidades da vida nómada (v. 1).
Israel deve, contudo, ter cuidado para não adulterar as leis e preceitos que Deus lhe propõe. Há sempre o perigo de os homens adaptarem a Palavra de Deus, de forma a que ela sirva os seus interesses; há sempre o perigo de os homens suavizarem a Palavra de Deus, de forma a que ela não seja tão exigente; há sempre o perigo de os homens suprimirem da Palavra de Deus aquilo que os incomoda; há sempre o perigo de os homens acrescentarem algo à Palavra de Deus, atribuindo a Deus ideias e propostas com as quais Deus não tem nada a ver… Israel tem de resistir a estas tentações: a Palavra de Deus deve ser uma proposta sagrada, que o Povo se esforçará por cumprir integralmente (v. 2).
Na parte final do texto que nos é proposto, o catequista deuteronomista manifesta o seu orgulho pelo facto de Israel ser um Povo especial, o Povo eleito de Deus. Essa eleição manifesta-se na presença amorosa e libertadora de Jahwéh junto do seu Povo (“qual a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto o Senhor nosso Deus sempre que O invocamos?” – v. 7), no dom da Lei e na “sabedoria” presente nessas leis e preceitos que o Senhor deu a Israel, a fim de o conduzir pelos caminhos da história (“qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento?” – v. 8).
Israel, Povo “de dura cerviz”, nem sempre acolheu e cumpriu as leis e os preceitos que o Senhor lhe propôs; mas os círculos religiosos de Israel preocuparam-se sempre em mostrar ao Povo que essa Lei era uma proposta segura para chegar à vida plena, à felicidade. É essa convicção que o nosso catequista deuteronomista deixa transparecer nesta “homilia” que nos propõe.
ATUALIZAÇÃO
¨ O autor deste texto é, antes de mais, um crente com um enorme apreço pela Palavra de Deus. Ele vê nas leis e preceitos de Deus um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude. Por isso, recomenda insistentemente ao seu Povo que acolha a Palavra de Deus e se deixe guiar por ela. Que importância é que a Palavra de Deus assume na minha existência? Consigo encontrar tempo e disponibilidade para escutar, para meditar e interiorizar a Palavra de Deus, de forma a que ela informe os meus valores, os meus sentimentos e as minhas ações?
¨ Para muitos dos nossos contemporâneos, as leis e preceitos de Deus são um caminho de escravidão, que condicionam a autonomia e que limitam a liberdade do homem; para outros, as leis e preceitos de Deus são uma moral ultrapassada, que não condiz com os valores do nosso tempo e que deve permanecer, coberta de pó, no museu da história. Em contrapartida, para o catequista que nos oferece esta reflexão do Livro do Deuteronômio, a Palavra de Deus é um caminho sempre atual, que liberta o homem da escravidão do egoísmo e que o conduz ao encontro da verdadeira vida e da verdadeira liberdade. De fato, a escuta atenta e o compromisso firme com a Palavra de Deus é, para os crentes, uma experiência libertadora: salva-nos do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência e projeta-nos para o amor, para a partilha, para o serviço, para o dom da vida.
¨ Uma das insistentes recomendações do nosso texto é a de não adulterar a Palavra de Deus, ao sabor dos interesses pessoais dos homens. Existe sempre o perigo, quer na nossa reflexão pessoal, quer na nossa partilha comunitária, de torcermos a Palavra ao sabor dos nossos interesses, de limarmos a sua radicalidade, de lhe cortarmos os aspectos mais questionantes, ou de a fazermos dizer coisas que não vêm de Deus… É preciso perguntarmo-nos constantemente se a Palavra que vivemos e anunciamos é a Palavra de Deus ou é a nossa “palavra”, se ela transmite os valores de Deus ou os nossos valores pessoais, se ela testemunha a lógica de Deus ou a nossa lógica humana. Este processo de discernimento é mais fácil quando é feito em comunidade, no diálogo e no confronto com os irmãos que caminham conosco, que nos questionam e que partilham conosco a sua perspectiva das coisas.
¨ Nós os crentes comprometidos andamos sempre muito ocupados a fazer coisas bonitas no sentido de mudar o mundo, num ativismo por vezes exagerado e que, aos poucos, nos vai fazendo perder o sentido da nossa ação e do nosso testemunho. No meio dessa atividade frenética, temos de encontrar tempo para escutar Deus, para meditar as suas propostas, para repensar as suas leis e preceitos, para descobrir o sentido da nossa ação no mundo. Sem a escuta da Palavra, a nossa ação torna-se um “fazer coisas” estéril e vazio que, mais tarde ou mais cedo, nos leva a perder o sentido do nosso testemunho e do nosso compromisso.
2 leitura: Tg. 1,17-18.21-22.27 – AMBIENTE
A carta de onde foi extraída a nossa segunda leitura de hoje é um escrito de um tal Tiago (cf. Tg 1,1), que a tradição liga a esse Tiago “irmão” do Senhor, que presidiu à Igreja de Jerusalém e do qual os Evangelhos falam acidentalmente como filho de certa Maria (cf. Mt 13,55; 27,56). Teria morrido decapitado em Jerusalém no ano 62… No entanto, a atribuição deste escrito a tal personagem levanta bastantes dificuldades. O mais certo é estarmos perante um outro qualquer Tiago, desconhecido até agora (o “Tiago, filho de Alfeu” – de que se fala em Mc 3,18 e par. – e o “Tiago, filho de Zebedeu” e irmão de João – de que se fala em Mc 1,19 e par. – também não se encaixam neste perfil). É, de qualquer forma, um autor que escreve em excelente grego, recorrendo até, com frequência, à “diatribe” – um gênero muito usado pela filosofia popular helênica. Inspira-se particularmente na literatura sapiencial, para extrair dela lições de moral prática; mas depende também profundamente dos ensinamentos do Evangelho. Trata-se de um sábio judeo-cristão que repensa, de maneira original, as máximas da sabedoria judaica, em função do cumprimento que elas encontraram na boca e no ensinamento de Jesus.
A carta foi enviada “às doze tribos que vivem na Diáspora” (Tg 1,1). Provavelmente, a expressão alude a cristãos de origem judaica, dispersos no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina – como a Síria ou o Egito; mas, no geral, a carta parece dirigir-se a todos os crentes, exortando-os a que não percam os valores cristãos autênticos herdados do judaísmo através dos ensinamentos de Cristo. Denuncia, sobretudo, certas interpretações consideradas abusivas da doutrina paulina da salvação pela fé, sublinhando a importância das obras; e ataca com extrema severidade os ricos (cf. Tg. 1,9-11; 2,5-7; 4,13-17; 5,1-6).
O nosso texto pertence à primeira parte da carta (cf. Tg. 1,2-27). Aí, o autor apresenta, num conjunto de desenvolvimentos e de sentenças aparentemente sem ordem nem lógica, uma síntese ou guia breve da carta, pois oferece um breve panorama dos problemas que o preocupam e que ele vai tratar nos capítulos seguintes.
MENSAGEM
Os versículos da Carta de Tiago que nos são propostos como segunda leitura refletem sobre a Palavra de Deus. O autor da carta não desenvolve um raciocínio continuada, mas vai elencando vários aspectos relacionados com a forma como os crentes devem ver e acolher a Palavra de Deus…
1. Deus oferece continuamente ao homem os seus dons, a fim de lhe proporcionar vida e felicidade (v. 17). A Palavra de Deus é um dom que o “Pai das luzes” oferece ao homem e destina-se a gerar uma nova humanidade. Os crentes, iluminados pela “Palavra da verdade” que lhes vem de Deus, podem caminhar em segurança em direção à vida plena, à felicidade sem fim (v. 18).
2. Os crentes devem estar sempre disponíveis para acolher a Palavra de Deus. Não podem fechar-se no seu orgulho e auto-suficiência, ignorando as propostas de Deus; mas devem abrir o coração para que a Palavra lançada por Deus aí encontre lugar, aí possa lançar raízes e desenvolver-se (v. 21b).
3. A escuta e o acolhimento da Palavra têm, contudo, de conduzir à ação. A escuta da Palavra de Deus tem de conduzir à conversão, à mudança, ao abandono da vida velha do egoísmo e do pecado, a fim de abraçar uma vida segundo Deus. A escuta da Palavra de Deus também não pode fechar o homem num espiritualismo alienante e estéril, mas tem de conduzir a um compromisso efetivo com a transformação do mundo (v. 22).
4. No último versículo da nossa leitura (v. 27), o autor da carta descreve a religião autêntica (por oposição à religião vazia, inoperante, morta, daqueles que falam muito mas não praticam ações coerentes com as suas palavras – v. 26): “visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo”. Ligando este versículo com o tema central do resto da leitura (a Palavra de Deus), podemos dizer que é a escuta atenta da Palavra de Deus que nos projeta para a ação e para o compromisso. A escuta da Palavra de Deus leva o crente a passar de uma religião ritual, legalista, externa, superficial, para uma religião de efetivo compromisso com a realização do projeto de Deus e com o amor dos irmãos.
ATUALIZAÇÃO
¨ Na nossa sociedade, há uma tal super-abundância de palavras, que a palavra se desvalorizou. Todos dizem o que muito bem entendem, às vezes de uma forma pouco serena e pouco equilibrada, sem pesar as consequências. Habituamo-nos, portanto, a não levar demasiado a sério as palavras que escutamos e a não lhes conceder um crédito absoluto. O nosso texto, contudo, valoriza a Palavra de Deus e sublinha a sua importância no sentido de nos conduzir ao encontro da vida verdadeira e eterna. É preciso darmos à Palavra que Deus nos dirige um peso infinitamente superior às palavras sem nexo que todos os dias enchem os nossos ouvidos e que intoxicam a nossa mente… A Palavra de Deus é Palavra geradora de vida, de eternidade, de felicidade; por isso, deve ser por nós valorizada.
¨ O excesso de palavras (autêntica poluição sonora!) leva também à dificuldade em escutar com atenção. Não temos tempo nem paciência para escutar todos os disparates, todas as conversas sem sentido, toda a verborreia daqueles que gostam de se ouvir a si próprios, embora não digam nada de importante. Por outro lado, as exigências da vida moderna, o trabalho excessivo, o corre-corre do dia a dia, limitam muito a nossa disponibilidade para escutar. Criamos hábitos de não escuta e tornamo-nos surdos aos apelos que chegam até nós através da palavra. A nossa leitura convida-nos, entretanto, a encontrar tempo e disponibilidade para escutar o Deus que nos fala e que, através da Palavra que nos dirige, nos apresenta as suas propostas para nós e para o mundo.
¨ A Palavra de Deus que escutamos e que acolhemos no coração deve conduzir-nos à ação. Se ficamos apenas pela escuta e pela contemplação da Palavra, ela torna-se estéril e inútil. É preciso transformar essa Palavra que escutamos em gestos concretos, que nos levem à conversão e que tragam um acréscimo de vida para o mundo. A Palavra de Deus que escutamos tem de nos levar ao compromisso – à luta pela justiça, pela paz, pela dignidade dos nossos irmãos, pelos direitos dos pobres, por um mundo mais fraterno e mais cristão.
¨ A nossa religião, sem a escuta atenta e comprometida da Palavra de Deus, pode facilmente tornar-se o mero cumprimento de ritos, a fidelidade a certas práticas de piedade, uma tradição que herdamos e na qual nos instalamos, uma prática que torna mais fácil a nossa inserção num determinado meio social, uma alienação que nos faz esquecer certos dramas da nossa vida… É a Palavra de Deus que, propondo-nos uma escuta contínua de Deus e dos seus projetos e um compromisso continuamente renovado com a construção do mundo, dá sentido a toda a nossa experiência religiosa, transformando-a numa verdadeira experiência de vida nova, de vida autêntica.
Evangelho: Mc. 7,1-8.14-15.21-23 - AMBIENTE
Na primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30), o autor apresenta Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Deslocando-se por toda a Galileia, Jesus anuncia a Boa Nova do Reino de Deus com as suas palavras e os seus gestos, propondo um mundo novo de vida, de liberdade, de fraternidade para todos os homens. A sua proposta provoca as reações e as respostas mais diversas nos líderes judaicos, no povo e nos próprios discípulos.
A cena que nos é hoje proposta no Evangelho mostra-nos, precisamente, a reação dos fariseus e dos doutores da Lei à ação de Jesus. Pouco antes, Jesus tinha realizado a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Mc 6,34-44), propondo, com o seu gesto, um mundo novo de fraternidade, de serviço e de partilha (o “Reino de Deus”); e os líderes judaicos, sem coragem para enfrentar-se diretamente com Jesus e para pôr em causa a sua proposta, escolhem os discípulos como alvo das suas críticas… Naturalmente, esses fariseus, fanáticos da Lei, vão questionar os discípulos de Jesus acerca da forma deficiente como eles cumprem a “tradição dos antigos”.
Para os fariseus, a “tradição dos antigos” não se cingia às normas escritas contidas na Lei (Torah), mas abrangia um imenso conjunto de leis orais onde apareciam as decisões e as sentenças dos rabis acerca dos mais diversos temas. Na época de Jesus, essa “tradição dos antigos” constava de 613 leis (tantas quantas as letras do Decálogo dado a Moisés no Monte Sinai), das quais 248 eram preceitos de formulação positiva e 365 eram preceitos de formulação negativa. Essas leis – que o Povo tinha dificuldade em conhecer na sua totalidade e que tinha, ainda mais, dificuldade em praticar – eram, para os fariseus, o caminho para tornar Israel um Povo santo e para apressar a vinda libertadora do Messias. Vai ser, precisamente, à volta desta temática que se vai centrar a polêmica entre Jesus e os fariseus que o Evangelho de hoje nos relata.
Quando Marcos escreveu o seu Evangelho (durante a década de 60), a questão do cumprimento da Lei judaica ainda era uma questão “quente”. Para os cristãos vindos do judaísmo, a fé em Jesus devia ser complementada com o cumprimento rigoroso das leis judaicas… No entanto, a imposição dos costumes judaicos levaria, certamente, ao afastamento dos cristãos vindos do paganismo. A questão que era preciso equacionar era a seguinte: o cumprimento da Lei de Moisés era importante, para a comunidade cristã? Para que o Reino que Jesus propôs se concretizasse, era necessário o cumprimento integral da Lei judaica? O Concílio de Jerusalém (por volta do ano 49) já havia dado uma primeira resposta à questão: para os cristãos, o fundamental é a pessoa de Jesus e o seu Evangelho; não é lícito impor aos cristãos vindos do paganismo o fardo da Lei de Moisés. No entanto, o problema continuou a colocar-se durante algumas décadas mais, nomeadamente a propósito dos tabus alimentares hebraicos e que os cristãos vindos do judaísmo pretendiam impor a toda a Igreja (cf. Rom 14,1-15,6).
É, provavelmente, a esta temática que o evangelista Marcos quer responder.
MENSAGEM
Os povos antigos, em geral, e os judeus, em particular, sentiam um grande desconforto quando tinham de lidar com certas realidades desconhecidas e misteriosas (quase sempre ligadas à vida e à morte) que não podiam controlar nem dominar. Criaram, então, um conjunto abundante de regras que interditavam o contacto com essas realidades (por exemplo, os cadáveres, o sangue, a lepra, etc.) ou que, pelo menos, regulamentavam a forma de lidar com elas, de forma a torná-las inofensivas. No contexto judaico, quem infringia – mesmo involuntariamente – essas regras colocava-se a si próprio numa situação de marginalidade e de indignidade que o impedia de se aproximar do mundo divino (o culto, o Templo) e de integrar a comunidade do Povo santo de Deus. Dizia-se então que a pessoa ficava “impura”. Para readquirir o estado de “pureza” e poder reintegrar a comunidade do Povo santo, o crente necessitava de realizar um rito de “purificação”, cuidadosamente estipulado na “Lei”.
Na época de Jesus, as regras da “pureza” tinham sido absurdamente ampliadas pelos doutores da Lei. Na opinião dos rabis de Israel, existia uma lista imensa de coisas que tornavam o homem “impuro” e que o afastavam da comunidade do Povo santo de Deus. Daí a obsessão com os rituais de “purificação”, que deviam ser cumpridos a cada passo da vida diária.
Um desses ritos consistia na lavagem das mãos antes das refeições. Na sua origem está, provavelmente, a universalização do preceito que mandava os sacerdotes lavarem os pés e as mãos, antes de se aproximarem do altar para o exercício do culto (cf. Ex 30,17-21). Na perspectiva dos doutores da Lei, a purificação das mãos antes das refeições não era uma questão de higiene, mas uma questão religiosa… Em cada momento o crente corria o risco, mesmo sem o saber, de tropeçar com uma realidade impura e de lhe tocar; para evitar que a “impureza” (que lhe ficara agarrada às mãos) se introduzisse, juntamente com os alimentos, no corpo exigia-se a lavagem das mãos antes das refeições.
Na Galileia, terra em permanente contacto com o mundo pagão e onde as normas de “pureza” não eram tão rígidas como em Jerusalém, não se dava demasiada importância ao ritual de lavar as mãos antes das refeições para evitar a ingestão da “impureza”. Os fariseus vindos de Jerusalém, testemunhando como os discípulos comiam sem realizar o gesto ritual de purificação das mãos, ficaram escandalizados e referiram o caso a Jesus. Provavelmente, a história serviu aos fariseus para sondar Jesus e para averiguar a sua ortodoxia e o seu respeito pela tradição dos antigos.
Para Jesus, a obsessão dos fariseus com os ritos externos de purificação é sintoma de uma grave deficiência quanto à forma de ver e de viver a religião; por isso, Jesus responde ao reparo dos fariseus com alguma dureza… Partindo da Escritura (vs. 6-8) e da análise da práxis dos judeus (vs. 9-13), Jesus denuncia essa vivência religiosa que aposta apenas na repetição de práticas externas e formalistas, mas que não se preocupa com a vontade de Deus (“este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” – v. 6) ou com o amor aos irmãos. Trata-se de uma religião vazia e estéril (“é vão o culto que Me prestam” – v. 7), que não vem de Deus mas foi inventada pelos homens (“as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos” – v. 7). Àqueles que apostam na religião dos ritos estéreis, Jesus chama “hipócritas” (v. 6): interessa-lhes mais o “parecer” do que o “ser”, a materialidade do que a essência das coisas… Eles cumprem as regras, mas não amam; vestem com fingimento a máscara da religião, mas não se preocupam minimamente com a vontade de Deus. Esta religião é uma mentira, uma hipocrisia, ainda que se revista de ares muito santos e muito piedosos.
Depois, Jesus dirige-Se à multidão e formula o princípio decisivo da autêntica moralidade: “não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro; o que sai do homem é que o torna impuro” (v. 15). Este princípio geral, à primeira vista enigmático e passível de várias interpretações, será explicado mais à frente: “do interior do homem é que saem os maus pensamentos: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem lá de dentro e tornam o homem impuro” (vs. 22-23). O dito de Jesus refere-se, naturalmente, a dois “circuitos” diversos: o do estômago (onde entram os alimentos que se ingerem) e o do coração (de onde saem os pensamentos, os sentimentos e as ações). Os alimentos que entram no estômago não são fonte de “impureza”; os pensamentos e as ações más que saem do coração do homem é que são fonte de “impureza”: afastam o homem de Deus e da comunidade do Povo santo.
Na antropologia judaica, o “coração” é o “interior do homem” em sentido amplo; é aí que está a sede dos sentimentos, dos desejos, dos pensamentos, dos projetos e das decisões do homem. É nesse “centro vital” de onde tudo parte que é preciso atuar. A verdadeira religião não passa, portanto, pelo cumprimento de regras externas, que regulam o que o homem come ou não come; mas passa por uma autêntica conversão do coração, que leve o homem a deixar a vida velha e a transformar-se num Homem Novo, que assume e que vive os valores do Reino. A preocupação com as regras externas de “pureza” é uma preocupação estéril, que não toca com o essencial – o coração do homem; pode até servir para distrair o crente do essencial, dando-lhe uma falsa segurança e uma falsa sensação de estar em regra com Deus. A verdadeira preocupação do crente deve ser moldar o seu coração, a fim de que os seus sentimentos, os seus desejos, os seus pensamentos, os seus projetos, as suas decisões se concretizem, no dia a dia, na escuta atenta dos desafios de Deus e no amor aos irmãos.
ATUALIZAÇÃO
¨ O que é que é decisivo na experiência religiosa? Será o estrito cumprimento das leis definidas pela Igreja? Serão as manifestações exteriores de religiosidade que definem quem é bom ou mau, santo ou pecador, amigo ou inimigo de Deus?
¨ As “leis” têm o seu lugar numa experiência religiosa, enquanto sinais indicadores de um caminho a percorrer. No entanto, é preciso que o crente tenha o discernimento suficiente para dar à “lei” um valor justo, vendo-a apenas como um meio para chegar mais além no compromisso com Deus e com os irmãos. A finalidade da nossa experiência religiosa não é cumprir leis, mas aprofundar a nossa comunhão com Deus e com os outros homens sendo, eventualmente, ajudados nesse processo por “leis” que nos indicam o caminho a seguir.
¨ Se fizermos das leis algo de absoluto, elas podem tornar-se para nós um fim e não um caminho. Nesse caso, as “leis” serão, em última análise, uma forma de acalmar a nossa consciência, de nos julgarmos em regra com Deus, de sentirmos que Deus nos deve algo porque nós cumprimos todas as regras estabelecidas. Tornamo-nos orgulhosos e auto-suficientes, pois sentimos que somos nós que, com o nosso esforço para estar em regra, conquistamos a nossa salvação. Deixamos de precisar de Deus, ou só precisamos d’Ele para apreciar o nosso esforço e para nos dar aquilo que julgamos ser uma “justa recompensa”. O culto que prestamos a Deus pode tornar-se, nesse caso, um processo interesseiro de compra e venda de favores e não uma manifestação do amor que nos enche o coração. A nossa religião será, nesse caso, uma mentira, uma negociata, que Deus não aprecia nem pode caucionar.
¨ De acordo com os ensinamentos de Jesus, não é muito religioso ou muito cristão quem aceita todas as “leis” propostas pela Igreja, ou quem cumpre escrupulosamente todos os ritos; mas é cristão verdadeiro aquele que, no seu coração, aderiu a Jesus e procura segui-l’O no caminho do amor e da entrega, que aceita integrar a comunidade dos discípulos, que acolhe com gratidão os dons de Deus, que celebra a fé em comunidade, que aceita fazer com os irmãos uma experiência de amor partilhado.
¨ É isso que Jesus quer dizer quando convida os seus discípulos a não se preocuparem com as leis e os ritos externos, mas a preocuparem-se com o que lhes sai do coração. É no interior do homem que se definem os sentimentos, os desejos, os pensamentos, as opções, os valores, as ações do homem. É daí que nascem os nossos gestos injustos, as discórdias e violências que destroem a relação, as tentativas de humilhar os irmãos, os rancores que nos impedem de perdoar e de aceitar os outros, as opções que nos fazem escolher caminhos errados e que nos escravizam a nós e àqueles que caminham ao nosso lado… A verdadeira religião passa por um processo de contínua conversão, no sentido de nos parecermos cada vez mais com Jesus e de acolhermos a proposta de Homem Novo que Ele nos veio fazer.
¨ É preciso mantermo-nos livres e críticos em relação às “leis” que nos são propostas, sejam elas leis civis ou religiosas... Elas servem-nos e devem ser consideradas se nos ajudarem a ser mais humanos, mais fraternos, mais justos, mais comprometidos, mais coerentes, mais “família de Deus”; elas deixam de servir se geram escravidão, dependência, injustiça, opressão, marginalização, divisão, morte. O processo de discernimento das “leis” boas e más não pode, contudo, ser um processo solitário; mas deve ser um processo que fazemos, com o Espírito Santo, na partilha comunitária, no confronto fraterno com os irmãos, numa procura coerente e interessada do melhor caminho para chegarmos à vida plena e verdadeira.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”
No domingo passado concluímos o estudo do capítulo 6 de João, discurso de Jesus sobre o pão da vida. A última parte do discurso enfocando o “Pão Eucarístico” foi motivo de divisões entre os discípulos deixando claro que nem todos fazem a escolha certa reconhecendo a divindade de Jesus. Também nos somos desafiados a fazer nossas escolhas a cada novo dia. Disse Jesus: “Tome a tua cruz a cada novo dia e me siga”. Cristão é aquele que escolhe Cristo e o segue. O testemunho firme de Pedro ainda repercute – “a quem iremos? só tu tens palavras de vida eterna”. Fechando o mês vocacional rezamos pelos leigos (as) em especial pelos catequistas que todos os dias assumem a missão profética de educar na fé cristã crianças e adolescentes para que sejam cristãos conscientes de sua missão no mundo. O Evangelho deste 22º domingo do tempo comum (Marcos 7,1-8) trata do sentido das leis, normas e preceitos que segundo Jesus nunca deve escravizar as pessoas. O texto apresenta Jesus sendo confrontado pelos doutores da lei e alguns fariseus que tentam pegá-lo em contradição com assuntos polêmicos como o conceito de “puro” e “impuro”. Acusam Jesus e seus discípulos de descumprir a lei e a tradição. A resposta de Jesus é direta: “Bem profetizou Isaias a vosso respeito, hipócritas, como está escrito. Este povo me honra com os lábios mas seu coração está longe de mim”. Jesus recorda que o simples fato de lavar as mãos antes das refeições não pode ser mais do que um sinal de pureza mais profunda – a pureza do coração. O coração fonte do bem e do mal qualifica nossas obras. “É de dentro de vosso coração que sai a maldade, a calúnia, o roubo, a corrupção, a inveja...” Como procuramos alimentar nosso coração para que seja justo, verdadeiro, puro e capaz de acolher a Palavra de Deus? A carta de Tiago (2ª leitura) vem iluminar esta questão. “Todavia, sede praticante da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tiago 1,22). O estudo da Carta de Tiago segue nos próximos quatro domingos sendo uma ótima catequese sobre a verdadeira religião. Voltando ao tema do Evangelho, por não suportar o fingimento e a instrumentalização da lei em favor de interesses pessoais e mesquinhos Jesus chama seus opositores de hipócritas, desmascarando o que está por trás de certas práticas apresentadas como religiosas. Jesus ensina a buscar a verdadeira coerência entre fé e vida, entre oração e ação, entre proclamar a Palavra e vive-la no cotidiano; Ele chama a atenção para não sermos surpreendidos pela nossa falta de coerência que pode nos retirar a autoridade e confiabilidade. A liturgia de hoje lança um desafio: Que examinemos a realidade de nossa prática religiosa. Será que nossa prática religiosa não está semelhante à dos fariseus – perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro? Pense nisto e tenha uma semana abençoada.
Pedro Scherer

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Um comentário:

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