.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM


XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 16 de Setembro

Comentários Prof.Fernando


Introdução
Dar testemunho de uma fé viva pela sua prática
Jesus hoje está nos pressionando a dar o nosso testemunho na sociedade em que convivemos, mostrando com o nosso comportamento, que Ele é o próprio Deus, que veio ao mundo para nos salvar do pecado, para que sejamos conduzidos um dia à vida eterna.
Meu irmão, minha irmã. Jesus hoje está perguntando a nós, o que pensamos dele. Quem é Jesus para você? Um mágico que fez truques espetaculares? Um sociólogo? Um socialista? Ou um filósofo do tipo, Platão ou Sócrates? Quem é Jesus?
Não nos preocupemos agora com a resposta dos demais. Importa saber qual a minha resposta? Qual a sua resposta! O ideal seria que cada um de nós respondesse com muita fé, com uma fé viva e operante, sem hipocrisia.  Seria maravilhoso se cada um de nós quisesse seguir Jesus com muita fidelidade, confiança, com entrega total e irrestrita, empenhando a nossa vida pela causa do  Evangelho e do Reino de Deus.
Meus irmãos. De nada adiante eu dizer que tenho muita fé, se na prática eu afirmo outra coisa. Será que eu seria merecedor da vida eterna vivendo uma vida completamente fora do que digo que acredito?  
Tiago em sua carta nos mostra que a prática da nossa fé está diretamente relacionada ao nosso irmão carente, que não tem  o que comer, o que vestir e nem onde se abrigar de forma digna.  Se diante de todos na igreja eu  bato no peito e afirmo que creio em Deus Pai todo poderoso Criador do céu e da Terra assim como acredito em seu Filho, e ao sair dali ignoro a miséria do meu irmão, na verdade eu sou um grande mentiroso!  Porque eu não pratico aquilo que eu digo que acredito, aquilo que o Mestre me ensinou, e que até ensino aos meus irmãos na catequese ou no sermão. E na vida real, ou seja, longe dos meus discípulos, eu finjo que não estou vendo a mão estendida do meu irmão miserável, suplicando por uma migalha de comida. Como posso ser salvo?  Se não mato a fome do meu irmão, a minha fé está morta. Se minha fé é desprovida de caridade, é uma fé morta.
Certa vez conheci uma senhora muito devota, que sofria muito pelo fato de seu marido comerciante de pouquíssima fé não ser como ela. Ele não a acompanhava nas atividades da paróquia e nem mesmo ia à missa com ela. Essa senhora tinha um filho e duas lindas filhas, as quais viviam muito preocupadas com o seu estado mental, e já tinham providenciado várias consultas médicas, e feito constante tratamento.  Certa noite, aquela devota senhora depois dos seus compromissos paroquiais, não voltou para casa. O marido chegou nervoso com problemas com um dos empregados, o filho  saiu às pressas para procurar em hospitais e na delegacia. Naquele tempo não havia celular.  A filha mais nova chorava e se descabelava, enquanto a  filha mais velha, era a única que mantinha a calma. Ela achava que a sua santa mãezinha estava dentro da igreja.   A paróquia ficava há umas oito quadras da casa daquela família, e a filha mais velha pedia ao pai para levá-la até  lá. Ela sabia com quem ficava a chave, porém o pai não acreditava na sua proposta, achando que a sua esposa havia se sentido mal, e teria sido levada para a casa de alguma amiga...
Conclusão. Foram atrás da chave da igreja, e não deu outra. Duas horas da manhã, encontraram a dona Maria ajoelhada no primeiro banco, quase cochilando, pois já  nem conseguia rezar mais. Ela amava tanto o seu querido Jesus, que queria passar uma noite inteirinha na sua presença, falando com ele. Não lhe importando todos os transtornos e sofrimentos que aquele seu gesto pudesse causar para a sua família.
Moral dessa história real. Nossa prática da fé não deve  ser unilateral ou mutilada. Amando somente a Deus e ignorando o irmão. Foi o que aquela santa e beata senhora fez, e fazia sempre. Jesus era tudo para ela. Porém, para o irmão, ela nunca tinha tempo. Tinha dia em que ela assistia mais de uma missa, sem se importar muito com os afazeres do lar. E ficava toda feliz, ao dizer isso para nós. Porém, infelizmente, ela não era muito caridosa.
Caríssimos. O certo é fazermos como disse Jesus. Amar a Deus e ao irmão. De nada adianta passar a noite rezando, e no outro dia, não dar atenção ao irmão. Não ajudá-lo em suas necessidades, não ser cordial, nem mesmo conversar com  as pessoas do nosso convívio. Fé assim, é uma fé sem obras. É uma fé morta ou no mínimo, incompleta.
Vivamos a nossa fé, e que ela seja completa, plena, total e  viva pela sua prática!
José Salviano.   
============================
PREZADO LEITOR. VAMOS DIVULGAR A PALAVRA DE DEUS? BELEZA! ASSIM É QUE SE FALA! ENTÃO COPIA O LINK DESTE BLOG E ENVIA PARA SEUS AMIGOS, PARENTES, PADRES, DIÁCONOS, CATEQUISTAS, ETC. AJUDE-NOS A EVANGELIZAR PELA INTERNET.
PADRE FERNANDO

Lectio Divina para o Evangelho do XXIV Domingo do Tempo Comum - Ano B - Diocese de Santos - Pe. Fernando Gross
Leitura Orante do Salmo 60 - Diocese de Santos - Pe. Fernando Gross
============================

24º DOMINGO DO TC 16/09/2012
1ª Leitura Isaias 50, 5-9ª
Salmo  114 (115) , 9 “Na presença do Senhor continuarei o meu caminho na terra dos vivos”
2ª Leitura Tiago 2, 14-18
Evangelho Marcos 8, 27 -35

"O CRISTO DOS DESILUDIDOS!" – Diac. José da Cruz
Com certeza esse evangelho do 24º. Domingo do Tempo Comum, traz em nosso coração essa pergunta tão inquietante: O que significa perder a vida por causa de Jesus e do seu evangelho? Quem é Jesus, e o que significa a afirmativa de que é preciso “Perder para ganhar”?.
Nos primeiros três séculos da Igreja primitiva, quando o Cristianismo não estava atrelado ao Império, tivemos centenas de mártires que derramaram seu sangue na arena, por causa do testemunho. Nas comunidades de Marcos a perseguição do império romano era muito intensa e os que eram pegos e não renunciavam a fé em Jesus, eram presos e acabavam também mortos. Na América Latina não foram poucos os mártires, que tombaram defendendo o direito e a justiça do povo sofrido e injustiçado.
Será que é deles que o evangelho está falando, no sentido literal? Será que não podemos aplicar hoje ás pessoas de nossas comunidades essa expressão, de que elas também perdem a vida por causa de Cristo e do seu evangelho? Em certo sentido, é muito válido dizer que nossos agentes de pastorais, perdem a vida, quando se dedicam a tantos trabalhos estafantes, muitos até nem vivem mais para si mesmo, mas organizam suas vidas a partir da comunidade, e fazem isso com muita alegria e seriedade. Deixar de lado os interesses pessoais, para dedicar-se ao trabalho pastoral, sem dúvida é também perder a vida.
Entretanto, não é apenas isso, porque muitas vezes recebemos algo em troca, e nesse caso, se ganhamos e não estamos perdendo, o evangelho não se aplica, ainda que haja uma roupagem de trabalho pastoral, mas é só roupagem, pois no fundo a gente se apega ao cargo, ao poder, que sempre nos fascina, nas comunidades há certos coordenadores que “mandam” até mais que o padre, e o poder satisfaz ao nosso “ego”.
Jesus havia se dado conta de que a visão sobre o seu Messianismo, era equivocada. Com o objetivo de fazer a necessária correção, fez uma prova oral com seus discípulos, primeiro eles são indagados sobre o que o povão pensa a respeito dele, e ao saber que o povo o confundia com João Batista, Elias ou um dos profetas, parece que Jesus não demonstrou nenhuma preocupação, e foi direto ao assunto que mais lhe interessava: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. A resposta de Pedro foi corretíssima “Tu és o Messias!”. A questão é saber, de que Messias Pedro estava falando. Por isso, em seguida, Jesus revela o sentido do seu messianismo, que irá se consolidar no sofrimento, na rejeição, na morte e ressurreição.
Na visão de Pedro, no Messianismo de Jesus tudo vai dar certo e as coisas vão se resolver, as contas irão fechar, pois Jesus irá por ordem na casa, com o seu poder divino. Ninguém irá resisti-lo... Não é essa a ilusão que toma conta do coração de muitos cristãos em nossas comunidades? O Jesus do “tudo certo”, do “mar de rosas”, da “doce paz, da saúde, da prosperidade”, o Jesus da reviravolta, que só me dá vitória em cima de vitória, o Jesus que sempre me tira dos “enroscos” da vida. Esse não é o Jesus do Evangelho, mas o Cristo dos Desiludidos!
Encontrar sempre respostas prontas, caminhos largos, problemas resolvidos, portas abertas, nunca foi e nem será uma característica do cristianismo. Anunciar um Jesus assim é trair o projeto de Deus, é falsificar o evangelho, é ser Satanás, aquele que se opõe ao Reino do Céu. Infelizmente na pós-modernidade, muitas igrejas, sem raiz, sem história e nem tradição, idealizaram um Jesus produto do consumo, um Cristo que só abençoa os ricos e poderosos. Nessa teologia de fundo de quintal, os dois últimos versículos do evangelho desse domingo, são deixados de lado, pois não falam a linguagem da pós modernidade. Quem irá, nos dias de hoje, fazer marketing de um projeto que implique renúncia, cruz e sofrimento? Um projeto cuja proposta de Salvação seja pautada pelo desprezo á própria vida, deixando de lado até interesses particulares.
Proposta de Salvação que não fale em vitória, em sucesso, em prosperidade, não dá IBOPE, não lota templo, não dá audiência. Qualquer marqueteiro da atualidade teria a mesma reação de Pedro e repreenderia Jesus... Onde já se viu, começar um projeto prenunciando o fracasso da cruz?
O Messianismo de Jesus vislumbra sim, um mundo totalmente novo, mas ele não descarta a aspereza do caminho, as pedras do calvário, os penhascos, os espinhos, a ousadia de um sonho, que vai se construindo com os pés no chão da história, vivendo já no coração os valores desse reino que virá. O autêntico discípulo é aquele que, vislumbrando esse reino, descobre-o presente em Jesus que caminha com a sua igreja, e passa a viver cada minuto, hora e dia, apenas em função desse projeto, menosprezando todo e qualquer valor ou ideologia, que o mundo possa oferecer, porque crê sinceramente que nada é maior ou mais importante do que Cristo e a Boa Nova do Evangelho. É exatamente assim que o quadro se reverte, e a PERDA se transforma em GANHO, como ensina o evangelho... (24º Domingo do Tempo Comum)
============================

DOMINGO.16.09.12

Marcos 8,27-35
: “Quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho vai salvá-la”. – Maria Regina

Jesus procurava absorver o pensamento dos apóstolos em relação a Ele para que eles compreendessem a Sua verdadeira missão aqui na terra. Porém, Pedro que a princípio, inspirado pelo Espírito, proclamou a divindade de Jesus, em seguida confundiu-se e não admitiu que Jesus pudesse passar por provações. Jesus no mesmo instante rechaçou as suas ponderações e considerou-o um instrumento de satanás e não de Deus. Somos assim, com a mesma boca com que proclamamos que Jesus é o Messias e o Senhor da nossa vida, nós também O negamos na hora de assumir compromisso com a Sua Cruz.
Queremos salvar a nossa vida fazendo “corpo mole” diante dos encargos e desafios que o reino nos impõe, Diante de Jesus, nos momentos de adoração nós prometemos tudo, mas quando descemos o Tabor nós nos apavoramos quando Jesus quer nos tirar qualquer coisa, tempo, dinheiro, pessoas, saúde. Essas nossas atitudes comprovam que nós ainda não confiamos verdadeiramente na palavra de Jesus que nos assegura: “quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho vai salvá-la”. Reflita – Você tem perdido alguma coisa por causa de Jesus e do Seu Evangelho? – Para você o que significa tomar a cruz para seguir Jesus? – Você tem sido convocado  para assumir algum encargo e está deixando o chamado de Deus passar? – Quando será a hora que você irá encarar o fato de que o tempo está passado e você não assume a sua cruz?
Amém
Abraço carinhoso da professora
 Maria Regina



============================
“E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU”? - Olívia Coutinho

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 16 de Setembro de 2012

Evangelho de Mc 8,27-35

Neste terceiro domingo do Mês da Bíblia, a Igreja nos convida a deixarmos um pouco os nossos interesses pessoais, para dedicarmos um tempo maior a palavra de Deus, nos inteirar das maravilhas que esta palavra pode nos proporcionar, quando nos abrimos a ela, dentro do Espírito da fé.
É pela fé que reconhecemos Jesus como o nosso Deus e Senhor, o que não é fruto do esforço humano, mas sim, do acolhimento ao dom de Deus.
Não basta reconhecer Jesus como o nosso  Deus verdadeiro, é preciso comprometer-se com Ele, testemunhá-Lo no nosso dia a dia, sem  temer a cruz.
Muitas vezes, professamos nossa fé em Jesus, e até damos passos para segui-Lo, mas quando tomamos conhecimento de que no seguimento a Ele, inclui a cruz, tendemos a volta a voltar atrás, sinal de que ainda não temos uma fé suficientemente  madura para aceitarmos  o desafio da cruz.
 Não basta ser um admirador das palavras de Jesus, precisamos ir mais além, nos comprometer  com a sua causa, aceitar o seu chamado ao discipulado. 
Nossa opção por Jesus, deve ser radical, estar com Ele em toda e qualquer situação, ser um cristão por inteiro!
O evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, vem nos despertar para a importância  de conhecermos melhor Jesus e não corrermos o risco de sermos pegos de surpresa, como os discípulos, ao serem  perguntados: e vós quem dizes que eu sou?
Sem aprofundarmos no conhecimento a Jesus, ficamos só numa fé superficial, na lógica humana,  não vamos compreender, que para ganhar a vida, é preciso passar pela cruz, como Ele passou.
O texto de hoje nos diz, que Jesus, no desejo de saber se  os discípulos já haviam entendido o seu messianismo, lança-lhe duas perguntas. “Quem dizem as pessoas que eu sou? Para esta pergunta, surgiram várias resposta, já que é fácil responder em nome do outro, pois não compromete. Já  quando, esta mesma  pergunta é direcionada a eles, vem o silencio, pois a resposta pessoal, é  mais difícil, exige  comprometimento.  Somente Pedro teve firmeza em responder: “Tu és o Messias”.  Com esta profissão de fé, manifestada por Pedro, finalmente os discípulos tomam consciência de que Jesus verdadeiramente é o Messias.
A partir do  Versículo 31, quando Jesus prenuncia o  desfecho de toda  sua trajetória terrena, Pedro interpela-O, não admite que Jesus, sendo o Messias, tivesse que passar  por tamanho, sofrimento. O que vem nos dizer, que os discípulos, mesmo  depois de reconhecer Jesus como  o Messias,  ainda precisavam rever a idéia a respeito da sua ação messiânica.
Hoje, depois de nos dar tão grande prova de amor, não é mais necessário esperarmos  que Jesus nos faça  indagações, para que possamos  dar a Ele a resposta de amor, que Ele espera de cada um de nós. Façamos a nós mesmo uma indagação: “Que tenho feito da minha vida que custou a vida de Jesus? Com certeza, a nossa resposta chegará até Ele, não com palavras, mas com as nossas atitudes do dia a dia.
É nas nossas ações do dia a dia, que vamos respondendo  ao tão grande amor de Jesus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS - Olívia

============================
“Afirmação de Pedro” -  Claudinei M. Oliveira.

Domingo, 16  Setembro  de 2012.
Evangelho: Mc 8, 27-35

            Neste domingo do Senhor refletiremos a afirmação de Pedro que conheceu seu Mestre, mas foi repreendido pela astúcia, pois Jesus almeja seguidores livres e independentes de quaisquer amarras mudanas para ser discípulo comprometido com o reino. Este reino, por sua vez, trazeria no âmago a sinceridade do cristão que objetiva contemplar uma sociedade justa, igualitária e feliz.
            Que maravilha  é sentir a presença de Deus em comunidade, Ele consola o coração dos aflitos e suscita o amor esperançoso. Deus é o ínfimo da eterna consolação, pois mandou seu filho para mostrar para o mundo estragado que ainda existe saídas, portas  e caminhos que levam ao encontro da vivacidade. Esta presença  marcante da mão de Deus pode ser observada durante a viagem de Jesus e seus discípulos  até a Cesaréia de Felipe.
            No caminho Jesus os indagava e ao mesmo tempo educava para ser povo de Deus e servo dedicado à missão. Para os discípulos estarem perto do Mestre era sinônimo de honra prazerosa, pois ao seu lado caminhava alguém inspiradíssimo, que direcionava o caminho e ações retas.  O caminhar de Jesus com seus discípulos revela o amor da comunidade, a sua dedicação em instigar a maturidade no seio de cada um, sua vivência plena de sujeito divino e histórico capaz de iluminar os passos da comunidade em busca da superação de obstáculos.
            Quanto mais juntos ficavam mais se comprometiam com o reino e aumentava a persuasão da necessidade de construir uma identidade semelhante. Tanto que Jesus perguntava: “Quem o povo diz que eu sou”? Responderam os discípulos: “ Alguns dizem que o senhor é João Batista; outros, que é Elias; e outros, que é um dos profetas”.  Ou seja, seu nome já estava sendo propagado através das ações relevantes. Claro que muitos confundiam com os profetas antigos, pois a leitura dos textos sagrados  antigos era difundida entre os seguidores da divindade.
            Nesta circunstância percebe-se  que dar vivacidade do reino junto ao povo  é disseminar palavras de verdade que liberta o homem de tantas coisas erradas. Jesus sabia como ninguém libertar as pessoas das intrigas e das enlaças, este legado foi deixado para todos os cristãos que desejam viver numa realidade harmoniosa e feliz. Todos querem  viver bem, com dignidade, com respeito, na mais pura fraternidade. Para tanto, o projeto de vida deve ser encarado e realizado na prática  dos afazeres diários. Jesus fez muito bem sua prática libertadora e cabe a todos fazerem a mesma coisa dentro de sua realidade.
            Trabalhando, realizando obras, criando mecanismo de defesa contra os opressores foi à vida de Jesus na terra, porém, falava nas suas caminhadas pedagógicas aos discípulos o que iria acontecer o mal em breve, o Messias afirmava a todos: “o Filho do Homem terá de sofrer muito. Ele será rejeitado pelos líderes judeus, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da Lei. Será morto e, três dias depois, ressuscitará”.  Mesmo sabendo do que iria acontecer não hesitou um plano de sua meta. Cumpriu todos com determinação e com convicção.
            Mas pode-se perguntar: por que maltratar  alguém que faz o bem  e deseja o melhor para o povo? Por que este ódio exacerbado  de alguns líderes  da classe poderosa? Claro que tinha um sentido, Jesus mexia na ferida de uns poucos, Ele não delatava, mas ensinava o povo a buscar uma solução para a exclusão, dava direcionamento certo, sabia onde queria chegar. Alguns poderosos não aceitavamver o povo instruído, buscando seus direitos, cobrando propostas viáveis para os problemas, logo a maneira mais fácil de livrar do Libertador era matá-lo.
            Sim, matar alguém que estava ensinando a conquistar habilidade e autonomia era calar a voz do povo. Desse modo, o povo permaneceria sem um líder, mas cego, surdo e manco. Não tinha como este povo mutilado cobrar nada  de seus representantes. Ou seja, permaneceria morto, inerte, entorpecido e sonolento.
            Mas a certeza da ressurreição no terceiro dia alimentava o Mestre a convencer  o povo e dar instrução primordial para os discípulos.  Jesus sabia que voltaria para perto do Pai e todos que desejassem chegar ao Pai deveria conhecer e praticar seu projeto de vida.
            Acontece que o projeto de vida de Jesus consistia  na doação por inteiro. Não temer o inimigo ou o encardido. Era preciso ir ao encontro da verdade por prazer e agir a partir dos ensinamentos. Disse Jesus à multidão: “Se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça os seus próprios interesses, esteja pronto para morrer como eu vou morrer e me acompanhe. Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira; mas quem esquece a si mesmo por minha causa e por causa do evangelho terá a vida verdadeira”. São palavras fortes, coercivas e alinhadas.
            Pedro quando repreendeu Jesus pensava  como o mundo. Era preciso deixar de lado as quinquilharias do mundo e seus apegos carnais para ultrapassar as barreiras da alienação. Por isso Jesus disse a Pedro: sai de perto de mim satanás; quero perto de mim homens honrados e disponíveis para a luta!  Como pode seguir Jesus com o pensamento no mundo? Como pode ir à igreja, mas preocupado com os bens que ficaram em casa, como pode fazer algo de bom para um pobre coitado se a cabeça está voltada para o acúmulo de capital? Isto é, como podo seguir o Mestre se não pensar como Ele!
            São tantos interesses nas cabeças do homem que a vida com Deus fica esquecida ou  lembra-se de vez em quando como peso de consciência. O mundo ao redor das pessoas oferece tantas ilusões que Deus parece nem existir.  Coloca-se em primeiro lugar os afazeres mudanos e em segundo ou terceiro plano a vida com Deus. Neste caso não terá a vida verdadeira. Olha que foi Jesus quem disse,  sua palavra tem força  e revela o reino de Deus perfeitamente.
            Portanto, seja como um discípulo que ouve as palavras  verdadeiras e as colocam em prática, pois o reino de Deus está para ser construído com mãos fortes de homens que pensam no discernimento vivo de uma sociedade justa. Amém!
            Claudinei M. Oliveira


============================
============================
============================

NOSSO TESTEMUNHO

O Evangelho que acabamos de ouvir apresenta-nos, caríssimos, alguns dos aspectos mais essenciais da nossa fé cristã, aspectos que jamais poderemos esquecer se quisermos ser realmente fiéis a Nosso Senhor. Vejamo-los um a um:
Primeiro. A pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” Notem que as respostas são muitas: umas erradas, outras imprecisas, nenhuma satisfatória. Estejamos atentos a este fato: somente a razão humana, entregue às suas próprias forças, jamais alcançará verdadeiramente o mistério de Cristo. A verdade sobre o Senhor, sua realidade mais profunda, sua obra salvífica, o mistério de sua pessoa e de sua missão, sua absoluta necessidade para que o mundo encontre salvação, vida e paz somente podem ser compreendidos à luz da fé, isto é, daquela humilde atitude de abertura para o Senhor que nos vem ao encontro e nos fala. O homem fechado em si mesmo, preso no estreito orgulho da sua razão, jamais poderá de verdade penetrar no mistério de Cristo e experimentar a doçura de sua salvação. Quanto já se disse de Jesus; quanto se diz hoje ainda: já tentaram descrevê-lo como um simples sábio, como um homem bom e justo, como uma espécie de pacifista, como um pregador de uma moral humanista, como um revolucionário, o primeiro comunista, como um hippie, etc. Nós, cristãos, não devemos nos iludir nem nos deixar levar por tais visões do nosso Divino Salvador. Jesus é e será sempre aquilo que a Igreja sempre experimentou, testemunhou e ensinou sobre ele: o Filho eterno do Pai, Deus com o Pai e como o Pai, o Messias, o único Salvador da humanidade, através de quem e para quem tudo foi criado no céu e na terra. Qualquer afirmação sobre Jesus que seja menos que isso, não é cristã e deve ser rejeitada claramente pelos cristãos! 
Segundo. Ante as opiniões do mundo, o Senhor dirige a pergunta a nós, seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Em cada geração, todos nós e cada um de nós devemos responder quem é Jesus. Não se trata de uma resposta somente teórica, teológica, digamos assim. Trata-se de uma resposta que deve ter sérias repercussões na nossa vida. Então: quem é Jesus para mim? Que papel desempenha na minha vida? Como me relaciono com ele? Amo-o? Procuro-o na oração, procuro de todo o meu coração viver na sua palavra? Estou disposto a construir minha existência de acordo com a sua verdade? Deixo-me julgar por ele ou eu mesmo, discretamente, procuro julgá-lo? São perguntas muito atuais, caríssimos, sobretudo hoje, quando nossa sociedade ocidental vira as costas para o Cristo, julgando-o anacrônico e ultrapassado. Agora que a nossa cultura já não considera mais Jesus como aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas julga que a própria razão humana, com seus humores e pretensões, é que é a Verdade e a Luz, é, mais que nunca, essencial que nós proclamemos com a vida, com a palavra e com os costumes que Jesus é realmente o nosso Senhor, o nosso critério, a nossa única Verdade! 
Terceiro. Pedro respondeu quem é Jesus: “Tu és o Messias!”, isto é, “Tu és o Cristo, o Esperado de Israel, aquele que Deus prometera aos nossos Pais!” Recordai, meus caros, que na mesma passagem, em São Mateus, Jesus declara claramente: “Não foi carne nem sangue que te revelaram isto, mas o meu Pai que está nos céus” (Mt. 16,15). Insisto: somente o Pai, na potência do Santo Espírito que habita em nós e na Igreja como um todo, é que pode revelar-nos quem é Jesus. A fé não é uma experiência acadêmica, não é fruto de estudos, não se resume a uma especulação teológica. Para um cristão, crer é entrar na experiência que há dois mil anos a Igreja vem fazendo na Palavra, nos sacramentos, na vida de cada dia: a experiência do Cristo Senhor, que foi morto pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa vida e justificação. Quem se coloca fora dessa fé, da fé da Igreja, já não é realmente cristão! Aqui é muito importante compreender que a nossa fé é pessoal, mas nunca individual: cremos na fé da Igreja, cremos no Cristo da Igreja, cremos como Igreja e com a Igreja. Uma outra fé, um outro Cristo seriam triste ilusão! 
Quarto. O Evangelho nos surpreende com uma afirmação: “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito”. Por quê? Porque havia o perigo de pensar nele como um messias glorioso, um messias como os sonhos dos judeus haviam fabricado: o messias do sucesso, das curas, dos shows da fé, dos palanques políticos, etc. Jesus somente afirmará de modo público que é o Messias quando estiver preso, amarrado, diante do Sumo Sacerdote. Aí já não haverá ocasião para engano. Mas, aqui a pergunta? Também nós, muitas vezes, não temos a tentação de querer um Cristo do nosso modo, sob a nossa medida, para nosso consumo? Amamos o Cristo como ele é ou o renegamos quando não faz como gostaríamos? Estamos realmente dispostos a ir com ele até o fim, crendo nele e nele nos abandonando? 
Quinto. Exatamente para deixar claro que tipo de Messias ele é, Jesus começa a dizer “que o filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias. Ele dizia isso abertamente”. Eis, caríssimos, o tipo de Messias, o tipo de Salvador, o tipo de Deus que Jesus é! Será que nos interessa? Estamos nós dispostos a seguir um Mestre assim? 
Sexto. Não será a nossa a mesma atitude de Pedro, que repreende Jesus, que desejaria um mestre mais racional, mais palatável, menos radical? Não é essa a maior tentação nossa: um Cristo sem cruz, um cristianismo sem renúncia, uma vida cristã que não nos custe nada? 
Sétimo. A resposta de Jesus é clara, curta e dirigida perenemente a todos nós: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem quiser perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salva-la!” O caminho é este, sem máscara, sem acordos, sem jeitinhos! Nosso Senhor nunca nos enganou; sempre disse claramente quais as condições para segui-lo... 
Caríssimos, saiamos hoje daqui com estas palavras que nos incomodam, nos provocam e nos desafiam. Que ele nos conceda a graça de reconhecê-lo como nosso único Salvador, de segui-lo como nossa única Verdade e de nele viver como nossa única Vida, ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
dom Henrique Soares da Costa
============================
Fé e seguimento
As leituras deste terceiro domingo do mês dedicado à Bíblia sugerem uma reflexão sobre a fé em Deus e a fidelidade ao seu plano de amor. Na primeira leitura, o profeta Isaías Segundo apresenta-se como o porta-voz do povo que sofre no Exílio da Babilônia e faz a experiência do amor terno e eterno de Deus.
Conserva o ouvido aberto aos apelos divinos e o coração dócil às suas palavras. Mesmo perseguido, caluniado e desprezado, guarda a certeza do socorro que vem de Deus. Por isso, permanece de pé diante das dificuldades e resiste com coragem às investidas dos seus opositores. Essa firmeza se alicerça na convicção de fé no Deus que se manifestou na história de Israel como libertador de toda a opressão. O Evangelho de hoje indica em que consiste a fé em Jesus: não basta a confissão explícita de que ele é o Cristo. É preciso renunciar a si mesmo, renunciar a toda mentalidade triunfalista e segui-lo no caminho da cruz. Na segunda leitura, Tiago, em tom definitivo, esclarece: “A fé, se não tiver obras,
está totalmente morta”. São palavras de Deus que iluminam os nossos passos e fortalecem o nosso ânimo no seguimento de Jesus dentro dos desafios da atualidade.
1ª leitura (Is. 50,5-9a): O socorro vem do Senhor
Esse texto de Dêutero Isaías faz parte do terceiro cântico do servo sofredor. O servo é o povo exilado que, dentro de sua situação de dor e de abandono numa terra estranha, sente-se amado e protegido por Deus. Não é só isso.
Descobre que Deus lhe confia uma missão de ser a “luz para os povos”. Essa descoberta se dá porque o povo sofredor aguça os ouvidos ao plano de Deus, que é contrário ao plano dos opressores. É Deus quem abre os ouvidos para que sua palavra de esperança e de alegria seja acolhida por aqueles que se tornam seus discípulos. E os discípulos não se fecham, nem se tornam rebeldes e nem recuam diante do que Deus lhes revela. Mesmo quando perseguidos, permanecem firmes; quando ameaçados de serem batidos, oferecem as costas; quando lhes arrancam os fios da barba ou são cuspidos e injuriados, não desviam o rosto.
Essa resistência só é possível para quem põe sua plena confiança em Deus. Identificam-se como seus “servos sofredores”, que não usam da mesma arma dos violentos e vingativos.
A fé em Deus e a confiança incondicional no seu amor dão aos seus servos a capacidade de resistir até à morte se preciso for, sem jamais abdicar da atitude da não violência e do perdão.
Não é passividade, nem covardia! É a verdadeira coragem de quem tem uma lúcida consciência do que significa ser fiel à vontade divina. Por isso, esses servos de Deus, conforme Isaías expressa nesse cântico, não se sentem humilhados por agirem desse modo. Eles têm a certeza de que não serão confundidos
porque vivem e agem pela mesma causa que é defendida por Deus.
Os projetos de Deus se realizam na história humana através das pessoas fracas que nele colocam toda a confiança. Somente quem experimentou a fraqueza e o sofrimento sabe o quanto necessita da ajuda divina. E Deus não decepciona. Ele se compraz com os pequeninos, anda no meio deles, mora neles e manifesta-se ao mundo através deles. Por meio de pessoas limitadas, Deus revela ao mundo o seu amor sem limites.
Evangelho (Mc. 8,27-35): O caminho da cruz
O Evangelho deste domingo sinaliza o momento em que Jesus inicia uma “virada” no seu ministério público. Até aqui, Jesus realizou muitos sinais de libertação, normalmente seguido por uma multidão de pessoas. Os discípulos, porém, apesar de acompanharem Jesus de perto, de ouvirem seus ensinamentos e de testemunharem sua prática, não conseguem entender verdadeiramente quem é Jesus. Permanecem na cegueira, contaminados pelo “fermento dos fariseus e de Herodes”, arrastados pela ideologia do poder. Por isso, a partir de agora Jesus vai mudar de estratégia para ocupar-se, de maneira especial, da tarefa de educar seus discípulos e revelar-lhes sua verdadeira identidade e sua missão neste mundo. O evangelho de Marcos traduz essa estratégia de Jesus em forma de uma viagem pedagógica, rumo a Jerusalém, conforme poderemos perceber com mais clareza nos textos dos próximos domingos.
Há uma variedade de opiniões no meio do povo a respeito de quem é Jesus. Porém, é especialmente dos seus discípulos que Jesus deseja saber: “E vós, quem dizeis que eu sou?”.
Pedro responde corretamente: “Tu és o Cristo”.
Logo a seguir, no entanto, Pedro torna-se “satanás”, tentando impedir que Jesus cumpra sua missão por um caminho nada convencional.
Ao invés de vencer os inimigos, Jesus “será vencido” por eles. Pedro não consegue admitir que seu messias-líder esteja assim tão à mercê dos que já se posicionaram contra o seu projeto, o caluniaram e o ameaçaram de morte: os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os escribas. Sente-se, então, na obrigação de dissuadir a Jesus dessa decisão absurda de ir a Jerusalém para ser perseguido e morto.
Pedro é o representante dos discípulos.
Eles seguem a Jesus com a ideia de que seja um messias que venha finalmente realizar as expectativas de vingança contra seus inimigos e manifestar toda a sua força e glória. Que honra enorme devia sentir Pedro e os demais por seguirem um líder capaz de triunfar e estabelecer um reino poderoso. No entanto, a opção de Jesus de seguir o caminho da cruz como servo sofredor derruba as aspirações triunfalistas dos seus discípulos. Ele evita se apresentar como “messias”, preferindo a expressão “filho do homem”, pela qual manifesta o realismo de sua encarnação: assumiu plenamente a condição humana com todas as consequências de quem cumpre fielmente a vontade de Deus. Essa fidelidade vai custar-lhe a morte.
Jesus aproveita a atitude satânica de Pedro para instruir a todos os discípulos e também a multidão. A Pedro ele ordena: “Vai para trás de mim”. Isto é, Pedro deve ser seguidor de Jesus, e não é Jesus que deve satisfazer as expectativas de Pedro. Assim é para todos os discípulos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”! Jesus não ilude. Segui-lo é estar disposto a “perder a vida” no serviço abnegado pela justiça, pela verdade e pela fraternidade.
2ª leitura (Tg. 2,14-18): A fé sem obras é morta
Esse texto da carta de Tiago é bem conhecido e frequentemente lembrado em nossas comunidades cristãs. Certamente foi escrito para combater uma concepção equivocada que alguns cristãos defendiam: não importam as ações, é unicamente a fé que salva. Pode ser fruto de uma interpretação da justificação pela fé, que Paulo defende na carta aos Romanos e que está sintetizada na expressão “o justo vive da fé” (Rm. 1,17). Paulo, no entanto, está se opondo à ideia de que a salvação seria resultado dos méritos adquiridos pelas pessoas cumpridoras da lei, conforme pregava a doutrina oficial judaica. Com isso, Paulo não está desvinculando a fé das obras.
O seu próprio testemunho de vida revela que sua fé em Jesus o levou a doar-se totalmente pela causa do Evangelho. Quando escreve aos Gálatas, ele diz: “A fé age pela caridade” (Gl. 5,6). Portanto, Tiago e Paulo se completam.
“A fé, se não tiver obras, está completamente morta”. O exemplo que encontramos na carta de Tiago ilustra o que significa ligar a fé com a prática. É amar, de maneira especial, o irmão e a irmã necessitados, garantindo-lhes as condições para que possam viver dignamente.
A insistência dos autores da carta de Tiago a respeito da prática da caridade para com as pessoas empobrecidas é muito grande. É sinal de que essa realidade constituía-se num forte clamor às comunidades cristãs.
Portanto, ser cristão é relacionar-se com o próximo de modo fraterno, acolhê-lo como membro da família e garantir-lhes as condições necessárias para a sua vida. Ser cristão não é meramente manifestação de bons sentimentos ou de boas intenções. Nesse sentido, percebe-se a íntima ligação com o texto do evangelho de Marcos comentado acima: não basta confessar a fé em Jesus Cristo sem o compromisso de segui-lo na prática do amor ao próximo.
Pistas para reflexão
– A fé em Deus consiste na fidelidade ao seu plano de amor. É o que sugerem as leituras deste domingo. Iluminados pela Palavra transmitida pelo Segundo Isaías, podemos renovar a confiança em Deus, nosso criador e nosso libertador. Ele jamais nos abandona na caminhada desta vida. Chama-nos a ser testemunhas do seu amor apesar de nossos limites e fraquezas. No meio deste mundo conturbado em que vivemos, é importante manter os “ouvidos de discípulos”, abertos à Palavra de Deus que ilumina os nossos passos.
Muitas vezes enfrentamos adversidades e sofrimentos, incompreensões e perseguições.
Essas situações podem servir de meios para o amadurecimento na fé e para o discernimento da missão que Deus nos dá. Muitas pessoas tornaram-se santas a partir da experiência de fraqueza. Deus conta conosco para que seu plano de amor aconteça no mundo...
– A fé em Jesus Cristo e a fidelidade ao seu plano de amor implicam em segui-lo no caminho da cruz. Não basta uma bela confissão de fé, como fez Pedro representando os discípulos. É preciso renunciar a toda ambição de poder e às manifestações triunfalistas. Jesus fez-se “servo sofredor” na fidelidade ao plano de amor do Pai. Assumiu todas as consequências: foi incompreendido, rejeitado, perseguido e morto. Hoje também podemos ter a mesma mentalidade dos discípulos: uma religião de poder, brilhantes celebrações, acomodação ao sistema que exclui e mata, fuga do compromisso pela justiça... O apelo de Jesus continua atual: “Quem quiser me seguir...”. A carta de Tiago completa: “A fé sem as obras é morta”.
Celso Loraschi
============================
Uma pergunta que nunca é cabalmente respondida!
A pergunta foi feita pelo próprio Jesus  lá na região de Cesareia de Filipe: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. A questão fora dirigida aos apóstolos. Pedro, tomando a dianteira, proclamou  Jesus em sua realidade messiânica:  “Tu és o Messias”.
Cada um de nós,  mormente nós cristãos, ao longo de nossa vida vamos elaborando uma resposta pessoal e comunitária a esta pergunta:  “Quem sou eu para você?”
Alguns de nós nascemos numa família católica, recebemos os sacramentos, vivemos  o ano litúrgico.  Conhecemos as origens de Jesus, sabemos detalhes de seu nascimento, de sua infância, de sua idade adulta.  Entramos em contato com  seu ensinamento.  Pode ser que, durante um bom tempo da vida, tenhamos tido apenas noções intelectuais, ou fortemente intelectuais.
Pode ser que, num determinado momento de nossa vida, tenhamos feito essa esplendorosa experiência de que  Jesus não é mero personagem do passado, mas antes de tudo o Ressuscitado que vive e atua em nosso meio…  Encontramo-lo vivo atrás da Palavra proclamada, tiramos as sandálias dos pés quando, na celebração da missa, nas aparências do pão e do vinho, ele se torna presente e nos apresenta ao Pai. Encontramo-lo presente no seio da comunidade porque ele mesmo garantiu que quando dois ou três estivessem reunidos em seu nome ele estaria presente. Assim, ao longo de nossa vida vamos encontrando o Senhor e formulando nossa resposta. Não queremos apenas ficar com esse Jesus frio e distante…
Jesus é a presença no Altíssimo na terra dos homens. Ele vem da Trindade, se instala seio transparente de Maria.  Toma a condição de servo aquele que cria os espaços e é de tudo Senhor.  Vive em tudo a condição humana,  menos  o pecado.  Come o pão de nossas mesas, bebe a água de nossas fontes,  deslumbra-se com o ondular dos campos de trigo e com a singeleza do rosto de uma criança.  Ele é caminho, vida, pastor, água, fonte, porta, pão, cordeiro.  Mas sobretudo ele é o Ressuscitado que,  de modo particular, nos sacramentos  da Igreja nos dá sua vida.
Assim,  ao longo da vida, vamos aumentando nosso conhecimento experimental do Cristo ressuscitado.  Praza aos céus que a catequese  leve crianças e jovens a um contato denso com o Cristo vivo, verdadeiro e apaixonante.
frei Almir Ribeiro Guimarães
============================
Jesus, o Messias “diferente”
Chegamos ao ponto culminante da “pedagogia” messiânica de Jesus (evangelho). Até agora, todo mundo e também os discípulos foram descobrindo traços excepcionais em Jesus. Uns o consideravam João Batista reencarnado; outros Elias, de volta para anunciar o Dia de Javé (cf. Ml. 3,23-24). Mas Simão Pedro, falando pelos Doze, diz claramente: “Tu és o Messias”. Agora, Jesus lhes faz ver o que se deve entender por esse título. Pedro pensava provavelmente num “Filho de Davi”, num guerreiro, herói nacional, libertador da opressão estrangeira etc. Mas Jesus quer revelar um outro sentido do ser Messias. Proíbe aos Doze falar daquilo que Pedro reconheceu, pois levaria a perigosos mal-entendidos (com isso, Mc justifica por que Jesus em sua vida não se fez conhecer como Messias). Ensina-lhes que o “Filho do Homem” – a figura que encarnava a intervenção escatológica de Deus, cf. Dn. 7,13-14 – devia sofrer, morrer e ressuscitar (mas parece que Pedro nem ouviu este último verbo, pois reage violentamente com “isso nunca de minha vida”). Réplica de Jesus: “Vai atrás de mim, Satanás, pois tu estás preocupado com o que Deus quer e sim com o que os homens querem”. Que censura para aquele que, pouco antes, liderou a proclamação da fé messiânica!
A partir deste episódio começa a segunda parte do evangelho de Mc. Já não descreve as lidas de Jesus com a multidão, e sim, o ensinamento aos Doze, as discussões com o judaísmo de Jerusalém e a Paixão e Morte. Explica o modo de ser messias de Jesus, não o modo do poder externo, do messianismo político, mas o modo que atinge o interior das pessoas, prefigurado na figura do Servo Padecente do Senhor (cf. 1a leitura). Jesus mostra uma nova “leitura” do messianismo veterotestamentário. Em vez do messianismo guerreiro, lembra os cânticos do Servo Padecente, sobretudo ls. 52,13-53,12; os textos de Sf. sobre os pobres de Javé; de Zc. 9 e 12 sobre o messias manso e humilde e o bom pastor; de Dn. 9,25-26, sobre o “Ungido” morto pela população da cidade etc. Mas ao mesmo tempo, diverge do messianismo corriqueiro sob um outro ângulo ainda: esse messias sofredor tem a autoridade do Filho do Homem (Mc. 2,10-28; 8,38 etc.); é o executivo escatológico de Deus. E, contudo, é rejeitado e morto. Este paradoxo é que provocou a veemente reação de Pedro, e é exatamente o que devemos aprender a aceitar.
Para apreender um mistério existe só um caminho: penetrar nele. Um teorema aprende-se rodeando-o com raciocínios: “compreende”-se. Um mistério não. Não cabe em nossos raciocínios, transborda-os. Envolve-nos. Só se entende penetrando nele. Quem quer aceitar Jesus, tem que o conhecer por dentro. Tem que repartir sua experiência. Tem que ir com ele, ser seu seguidor, seu discípulo. O mistério da cruz só se entende assumindo-o (como espírito do Mestre, é claro). Quem se quer salvaguardar, perde sua chance. Mas quem se arrisca, realiza-se de uma maneira que nunca antes suspeitou. Nisto consiste a “revelação”. Não em doutrinas intelectuais, mas na opção por um caminho diferente para viver, que Jesus nos mostra e abre: o caminho da cruz.
A 2ª  leitura, como toda a Carta de Tiago, oferece exemplos do que é o caminho da cruz, da negação de si mesmo. Não é imediatamente um martírio público ou sei lá o quê. É a abnegação de si mesmo nas pequenas coisas práticas. Não apenas desejar bem-estar aos outros, mas repartir com eles do que é seu, tirar algo de si para ser realmente irmão e “próximo” do necessitado. Fé não é uma adesão meramente intelectual; é escolher o caminho da negação de si em prol do irmão. E isso, porque Cristo no-lo mostrou. Porque lhe damos crédito, na experiência única que ele teve de Deus e que ele quer repartir conosco.
Uma atitude fundamental para realizarmos essa participação é a “obediência”, no sentido bíblico: o “dar audiência” àquilo que é maior do que nós: o mistério de Deus, que normalmente se apresenta em nossos irmãos. Esta obediência é que caracteriza o Servo de Javé (Is. 50,4b) e aquele que realiza plenamente o caminho do Servo, Jesus Cristo (Fl. 2,8). Não a obediência constrangida do medo do inferno, mas a obediência do amor, o tornar-se atento para o amado. A liturgia de hoje, nas suas orações, nos convida a esta atitude: servir Deus de todo o coração, para sentir seu amor por nós (idéia da participação; oração do dia); sermos movidos não mais por nossos impulsos, mas pelo sacramento, ou seja, o sinal que toma o amor de Deus eficaz em nós (oração final).
Johan Konings "Liturgia dominical"
============================
Jesus inicia uma conversa com os seus discípulos questionando: "Quem dizem os homens que eu sou?"
A questão parece simples, de fácil resposta e, no entanto, surgem muitas opiniões. Para o povo Ele era simplesmente um profeta.
Ele insiste, e quer saber o que dizem também os seus discípulos sobre Si, e é Pedro quem responde, em nome de todos, que Jesus é o Messias.
Pedro havia sido ungido por Deus e inspirado pelo Espírito Santo para dizer esta Verdade, pois ninguém nunca havia dito isto antes, e é aí que se encontra a confirmação, pois Pedro não repete o que já ouviu de um homem, mas sim o que ouviu de Deus.
Até aquele momento Jesus não havia se declarado Filho de Deus.  A resposta está certa, mas Ele os proíbe de falar essa verdade ao povo para se proteger, e evitar que a sua missão seja mal entendida, principalmente pelos fariseus e doutores da lei.
Embora Pedro reconhecesse Jesus como Messias, a sua resposta precisava de uma correção muito importante, pois para o povo hebreu, o termo Messias queria dizer “o poderoso salvador de Deus”, e essa não era a verdadeira identidade de Jesus, que o corrige e não o poupa. Jesus o trata como o tentador do deserto, ordenando que se coloque no seu lugar, ou seja, atrás do Mestre, e diz que seu caminho é um caminho de sofrimento, e que o caminho do Messias é o caminho da cruz que continua a ser, para muitos, de difícil compreensão. O Filho do Homem não encontrará acolhida entre os chefes, autoridades e doutores, ao contrário, O perseguirão.
Tudo o que Jesus fala sobre seu sofrimento aos discípulos é relativo a sua Paixão, está nas Escrituras e precisa se cumprir. Jesus é o Servo Sofredor descrito por Isaías, e quem quer segui-Lo precisa estar consciente desse caminho de sofrimento, o termo mostra claramente a necessidade de o Salvador passar pelo sofrimento e a morte para realizar seu plano de salvação. Mas Pedro e os discípulos não estavam preparados para ouvir isso!
Pedro, como verdadeiro judeu, escandaliza-se com a cruz que é sinônimo de maldição. Ele que afirmou com tanta segurança ser Jesus o Messias, também é o primeiro a reagir reprovando-O.
Aos poucos, com o tempo, os apóstolos aprendem esta lição e todos, de um modo ou de outro, irão carregar a sua própria cruz e darão a vida por Cristo.
Ainda hoje, o Jesus do calvário permanece um mistério! Porém é preciso entender que Deus fez brotar da morte a vida!

Tu és o Messias
A pessoa de Jesus não se enquadrava nas categorias da época e era interpretada de formas as mais variadas. Seu modo de ser austero e a maneira incisiva de sua pregação levavam alguns a confundi-lo com João Batista ou com Elias. Pensava-se que Jesus tivesse como que feito reviver em si estas figuras. A postura de Jesus era também identificada com as dos profetas do passado, cujas vidas pareciam servir-lhe de inspiração.
Jesus quis saber a opinião dos discípulos a seu respeito, por não estar bem seguro de como o consideravam. A resposta foi dada por Pedro, em nome do grupo, de maneira correta, e convenceu a Jesus. Ele, de fato, era o Messias.
Entretanto, o Mestre sentiu-se na obrigação de oferecer aos discípulos pistas para a correta compreensão de sua condição messiânica. Seu messianismo leva-lo-ia a confrontar-se com a rejeição das autoridades e com a morte violenta. Ele, no entanto, estava também destinado à ressurreição.
As expectativas em voga giravam em torno de um futuro Messias revestido de glória e poder. Os discípulos, pois, tiveram de fazer um esforço gigantesco para introduzir o sofrimento no messianismo do Mestre. Jamais se esperava um Messias sofredor, como Jesus se proclamava ser. Os discípulos viram-se, portanto, na obrigação de refazer seus esquemas.
Oração 
Senhor Jesus, faze-me compreender que escolheste o caminho da cruz e do sofrimento, para realizar a missão recebida do Pai.
padre Jaldemir Vitório

A identidade de Jesus
Jesus e seus discípulos partem para os povoados além das fronteiras da Galileia, ao norte. A partir de então Jesus decide tomar rumo ao sul, seguindo o caminho para Jerusalém, através da Judeia, em um ambiente exclusivamente judaico, para aí fazer seu anúncio libertador. Aproxima-se a festa ritual da Páscoa judaica. É o momento oportuno para aprofundar a própria identidade de Jesus. Vai se encerrando o ministério na Galileia e vizinhanças, em ambiente predominantemente gentílico, para o confronto em Jerusalém, completando-se a missão de Jesus.
Conforme as expectativas das elites religiosas e econômicas de Jerusalém, aguardava-se um líder, o messias, representado na figura do "Servo de Javé", das profecias de Isaías (cf. primeira leitura), o qual daria à Judeia um poder e status de acordo com antigo império de Davi, conforme as glórias que constavam na tradição. Na escatologia e na apocalíptica do Primeiro Testamento encontravam a esperança de Israel vir a ser uma nação hegemônica sobre todas as nações do mundo, em pleno poder e glória. Parte do povo assimilava esta tradição das elites, introjetando-a. Assim também acontecia com os discípulos de Jesus, originários do judaísmo.
A questão da identidade de Jesus vinha sendo discutida entre o povo e as opiniões eram variadas. O próprio Herodes se interrogava sobre esta questão (cf. 27 set.). Entre o povo, contudo, havia opiniões que identificavam Jesus com alguns líderes populares, contestadores do poder, como foram João Batista, Elias ou os profetas.
Contudo, junto de Jesus, Pedro representando os discípulos, ao ser interrogado, externa sua opinião de que Jesus seria o messias ("cristo", do grego) esperado pelas elites. Jesus os repreende severamente, com o mesmo vigor que exorcizava os espíritos impuros.
Em continuidade, Jesus prenuncia as perseguições que o ameaçam em Jerusalém, da parte das autoridades religiosas (primeiro "anúncio da Paixão"). Pedro rejeita o confronto com os possíveis sofrimentos e é repreendido mais severamente por Jesus. Jesus propõe as "coisas de Deus", a comunicação da vida, sem limites. Pedro atém-se às "coisas dos homens", à preservação do poder e à paz da ordem iníqua estabelecida.
Jesus, então, retoma a instrução aos discípulos quanto ao despojamento e a disponibilidade a serem assumidos por eles. Perder sua vida por causa de Jesus é desprezar os sedutores projetos de sucesso de enriquecimento e de consumismo, oferecidos pelos poderosos deste mundo. Perder sua vida é ser para o outro, estar a serviço e em comunhão com os mais necessitados e excluídos, como Jesus. É viver o amor, comprometendo-se com a luta em vista da restauração da vida e da conquista da Paz.
José Raimundo Oliva
============================
A liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum diz-nos que o caminho da realização plena do homem passa pela obediência aos projetos de Deus e pelo dom total da vida aos irmãos. Ao contrário do que o mundo pensa, esse caminho não conduz ao fracasso, mas à vida verdadeira, à realização plena do homem.
A primeira leitura apresenta-nos um profeta anônimo, chamado por Deus a testemunhar a Palavra da salvação e que, para cumprir essa missão, enfrenta a perseguição, a tortura, a morte. Contudo, o profeta está consciente de que a sua vida não foi um fracasso: quem confia no Senhor e procura viver na fidelidade ao seu projeto, triunfará sobre a perseguição e a morte. Os primeiros cristãos viram neste “servo de Jahwéh” a figura de Jesus.
No Evangelho, Jesus é apresentado como o Messias libertador, enviado ao mundo pelo Pai para oferecer aos homens o caminho da salvação e da vida plena. Cumprindo o plano do Pai, Jesus mostra aos discípulos que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas pelo amor e pelo dom da vida (até à morte, se for necessário). Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo, tem de aceitar percorrer um caminho semelhante.
A segunda leitura lembra aos crentes que o seguimento de Jesus não se concretiza com belas palavras ou com teorias muito bem elaboradas, mas com gestos concretos de amor, de partilha, de serviço, de solidariedade para com os irmãos.
Leitura I – Is. 50,5-9a
Leitura do Livro de Isaías
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo.
Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba;
não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.
O meu advogado está perto de mim.
Pretende alguém instaurar-me um processo?
Compareçamos juntos.
Quem é o meu adversário?
Que se apresente!
O Senhor Deus vem em meu auxílio.
Quem ousará condenar-me?
Ambiente
O nosso texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anônimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilônia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C..
A missão do Deutero-Isaías é consolar os exilados judeus. Nesse sentido, ele começa por anunciar a iminência da libertação e por comparar a saída da Babilônia ao antigo êxodo, quando Deus libertou o seu Povo da escravidão do Egito (cf. Is. 40-48); depois, anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is. 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is. 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de uma personagem misteriosa e enigmática, que os biblistas designam como o “Servo de Jahwéh”: ele é um predileto de Jahwéh, a quem Deus chamou, a quem confiou uma missão profética e a quem enviou aos homens de todo o mundo; a sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra; o sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo; Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus, no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.
O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”.
Mensagem
O texto dá a palavra a um personagem anônimo, chamado por Deus a dizer aos homens desanimados palavras de alento e de esperança (vers. 4); e o profeta acolheu esse chamamento sem resistência, sem discussão, numa entrega total aos desígnios de Deus (vers. 5).
Por ser fiel ao chamamento de Deus, o profeta conheceu a prisão, a tortura, o sofrimento (vers. 6). O anúncio fiel das propostas de Deus para o mundo e para os homens provoca sempre confrontos com as forças da opressão e da morte… Mas o profeta experimenta o socorro do Senhor e, fortalecido por esse socorro, pode enfrentar todas as contrariedades e dores. Ele nada teme, pois confia plenamente no Senhor e sabe que não ficará desiludido (vers 7-9).
A situação descrita neste poema sugere a de um prisioneiro que, depois de ter sido torturado e maltratado, espera o julgamento que irá decidir o seu destino. Confiando plenamente na ajuda do Senhor, ele espera serenamente o momento em que Deus o irá defender no tribunal, confundindo os seus adversários.
O que mais impressiona neste texto é a serenidade com que o profeta, prisioneiro e sofredor, enfrenta o seu destino. Essa serenidade vem-lhe, não da inconsciência, da insensibilidade ou de uma leviana indiferença perante a morte, mas de uma total confiança no Deus que não falha e que não deixa cair aqueles que ama.
Atualização
•Não sabemos, efetivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele foi esse “Servo de Deus” que veio ao mundo para dizer aos homens a Palavra do Pai, que entrou em choque com as forças da opressão e da injustiça, que foi torturado e maltratado porque a sua proposta incomodava os poderosos, que ofereceu a sua vida para trazer a salvação/libertação aos homens… E a história de Jesus – morto pelos homens, mas que Deus ressuscitou e glorificou – confirma a esperança do “Servo de Jahwéh”: quem confia em Deus e vive na fidelidade às suas propostas, não sairá decepcionado. O exemplo de Jesus mostra que uma vida colocada ao serviço dos projetos de Deus não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.
• Uma das coisas que sobressai nesta “partilha de vida” que o “Servo de Jahwéh” faz conosco é a forma absoluta como ele se entrega aos projetos de Deus. Diante do chamamento de Deus, ele não resiste, não discute, “não recua um passo”; mas assume, com total obediência e fidelidade, os desafios que Deus lhe faz, mesmo quando tem de percorrer um caminho de sofrimento e de morte. Para nós que vivemos envolvidos pela cultura da facilidade e do comodismo, para nós que temos medo de arriscar, para nós que preferimos fechar-nos no nosso “cantinho” protegido, arrumado e seguro, o “Servo de Jahwéh” constitui uma poderosa interpelação… É preciso abraçar, com coragem e coerência o projeto que Deus nos confia, mesmo quando esse projeto se cumpre no meio da oposição do mundo; é preciso deixarmo-nos desafiar por Deus e acolher, com generosidade, as propostas que Ele nos faz; é preciso assumirmos o papel que Deus nos chama a desempenhar e empenharmo-nos na transformação do mundo.
• Outra das coisas que sobressai nesta “partilha de vida” que o “Servo de Jahwéh” faz conosco é a sua total confiança em Deus. Para ele, Deus é, efetivamente, essa “rocha segura” que se mantém sempre firme e a que o crente se pode agarrar, mesmo quando tudo o resto parece cair. A certeza da fidelidade de Deus, da sua presença, do seu amor deve permitir-nos (como permitiu ao “Servo”) encarar a vida com serenidade e confiança. O crente que confia em Deus sente-se seguro e protegido, como uma criança ao colo da sua mãe. Dessa forma, o crente poderá viver livre do medo, com o coração em paz, e aceitando tranquilamente os desafios que Deus lhe faz.
• O “Servo” sofredor que põe a sua vida, integralmente, ao serviço do projeto de Deus e da salvação dos homens mostra-nos o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projeto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para todos aqueles com quem nos cruzamos nos caminhos deste mundo?
Salmo responsorial – Salmo 114 (116)
Refrão 1: Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos.
Refrão 2: Caminharei na terra dos vivos na presença do Senhor.
Refrão 3: Aleluia.
Amo o senhor, porque ouviu a voz da minha súplica.
Ele me atendeu no dia em que O invoquei.
Apertaram-me os laços da morte, caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na dor. Então invoquei o Senhor: «Senhor, salvai a minha alma».
Justo e compassivo é o Senhor, o nosso Deus é misericordioso.
O Senhor guarda os simples: estava sem forças e o Senhor salvou-me.
Livrou da morte a minha alma, das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés.
Andarei na presença do Senhor,
sobre a terra dos vivos.
Leitura II – Tiago 2,14-18
Leitura da Epístola de São Tiago
Meus irmãos:
De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?
Poderá essa fé obter-lhe a salvação?
Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhe disser: «Ide em paz.
Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras?
Assim também a fé sem obras está completamente morta.
Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras».
Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé.
Ambiente
Continuamos a reflexão dessa “Carta de Tiago” que nos tem acompanhado nos últimos domingos. Trata-se, segundo parece, de uma carta enviada aos cristãos de origem judaica, dispersos no mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina – como a Síria, o Egito ou a Ásia Menor. O objetivo fundamental do autor é exortar os crentes para que não percam os valores cristãos autênticos herdados do judaísmo através dos ensinamentos de Cristo. O nosso texto pertence à segunda parte da carta (cf. Tg. 2,1-26). Aí, o autor trata dois temas fundamentais: a fé concretiza-se no amor ao próximo, sem qualquer tipo de discriminação ou de acepção de pessoas (cf. Tg. 2,1-13); a fé expressa-se, não através de ritos formais ou de palavras ocas, mas através de ações concretas em favor do homem (cf. Tg. 2,14-26). No geral, este capítulo convida os crentes a assumir uma fé operativa, que se traduz num compromisso social e comunitário.
Mensagem
O nosso texto refere-se à relação entre a fé e as obras. A tese do autor da Carta de Tiago é que a fé sem obras não serve para nada (vers. 14.17).
O tema da relação entre a fé e as obras foi objeto de muitas discussões, sobretudo a partir do séc. XVI. Paulo, na Carta aos Romanos, considera que “é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da Lei” (Rom. 3,28); e esta afirmação de Paulo serviu a Lutero para fundamentar a sua teologia da salvação pela fé: a salvação não depende das ações do homem, mas é um dom gratuito e imerecido que Deus, na sua infinita misericórdia, oferece ao homem. Contudo, servindo-se da Carta de Tiago, muitos outros teólogos defendiam que o homem precisava de realizar ações concretas para chegar à salvação, pois a fé sem obras não vale nada.
Na verdade, o texto da Carta de Tiago não nasceu no contexto de uma polemica que contrapunha a fé às obras. O autor da Carta de Tiago nunca esteve interessado em dizer que as obras são importantes e que a fé não tem qualquer valor… O que ele quer dizer é que a fé tem de traduzir-se em ações concretas de compromisso com o mundo e com os homens. Se isso não acontecer, essa fé é apenas uma declaração de boas intenções, mas que não passa de uma farsa sem valor e sem conteúdo.
A adesão a Jesus e ao seu projeto (fé) significa que o homem está disposto a acolher essa vida nova e plena que Deus, gratuitamente e sem condições, lhe oferece (salvação). Essa vida, interiorizada e assumida, tem de transparecer em gestos de amor, de solidariedade, de fraternidade, de serviço, de partilha, de perdão. A vivência da fé tem, portanto, de se traduzir na vida do dia a dia, especialmente na forma como se vive a relação com esses irmãos com quem nos cruzamos nos caminhos do mundo. Se isso não acontece, quer dizer que a fé (adesão à proposta de vida que Deus, gratuitamente, faz) é uma mentira.
Os bonitos discursos que fazemos, os conselhos muito sábios que damos, as teorias bem elaboradas que apresentamos, as reflexões muito piedosas que impingimos, não passam de belas palavras que podem não significar nada. Quando um irmão tem fome, ou não tem que vestir, ou está a sofrer, é preciso ir ao seu encontro e manifestar-lhe, com gestos concretos, o nosso amor, a nossa solidariedade, a nossa fraternidade. A nossa religião tem de manifestar-se na vida e tem de transparecer nos nossos gestos.
Atualização
•O que é ser cristão? O nosso compromisso cristão é algo que se vive a nível da teoria, ou do compromisso vital? O que caracteriza um cristão não é o conhecimento de belas fórmulas que expressam uma determinada ideologia, nem o cumprimento exato de ritos vazios e estéreis, nem uma assinatura feita no livro de registros de batismo da paróquia, mas é a adesão a Cristo. Ora, aderir a Cristo (fé), significa conformar, a cada instante, a própria vida com os valores de Cristo, seguir Cristo a par e passo no caminho do amor a Deus e da entrega total aos irmãos. Não se pode fugir a isto: a nossa caminhada cristã não é um processo teórico e abstrato concretizado num reino de belas palavras; mas é um compromisso efetivo com Cristo que tem de se traduzir, a cada instante, em gestos concretos em favor dos irmãos.
• Que gestos são esses? São os mesmos gestos que Cristo realizou e que o tornaram, aos olhos dos seus concidadãos, um sinal de Deus. Ora, Cristo lutou pela justiça e pela verdade, denunciou tudo aquilo que escravizava o homem e o impedia de ser feliz, foi ao encontro dos marginalizados e manifestou-lhes o amor de Deus, realizou gestos de serviço e de partilha, distribuiu o perdão e a paz, ofereceu a sua própria vida para salvar os seus irmãos. Assim, quem segue a Cristo tem de lutar, objetivamente, contra as estruturas que geram injustiça e opressão; tem de acolher e amar aqueles que a sociedade marginaliza e rejeita; tem de denunciar uma sociedade construída sobre esquemas de egoísmo e de mostrar, com o seu testemunho, que só a partilha e o amor tornam o homem feliz; tem de quebrar a espiral da violência e do ódio e propor a tolerância e o amor…
• Por vezes há uma profunda dicotomia, nas nossas comunidades cristãs, entre a fé e a vida. O nosso compromisso religioso traduz-se em liturgias soleníssimas, em procissões suntuosas, na construção de igrejas esplendorosas, em rituais fascinantes… e mais nada. Depois, na vida da comunidade, há desunião, há conflito, há falta de solidariedade, há indiferença para com as necessidades do irmão, há críticas destrutivas, há palavras que ferem e afastam os outros, há gestos de arrogância, há falta de amor… De acordo com os ensinamentos da Carta de Tiago, a nossa religião será verdadeira se não se traduzir em gestos concretos de amor e de fraternidade?
• Por vezes, há uma profunda dicotomia, nas nossas vidas pessoais, entre a fé e a vida. O nosso compromisso cristão traduz-se na participação certa nas eucaristias dominicais, na oferta de chorudas quantias para as obras da igreja, na participação destacada em manifestações públicas de religiosidade, na pertença a movimentos eclesiais… e mais nada. Depois, na vida do dia a dia, praticamos injustiças, pactuamos com esquemas de corrupção, tratamos com pouca caridade aqueles que vivem ao nosso lado, passamos indiferentes diante das necessidades e dores dos irmãos, marginalizamos aqueles de quem não gostamos, demitimo-nos das nossas responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor… De acordo com os ensinamentos da Carta de Tiago, a nossa religião será verdadeira se não se traduzir em gestos concretos de amor e de fraternidade?
Aleluia – cf. Gal. 6,14
Aleluia. Aleluia.
Toda a minha glória está na cruz do Senhor, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.
Evangelho – Mc. 8,27-35
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe.
No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?»
Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas».
Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».
Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém.
Depois, começou a ensinar-lhes que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;
de ser morto e ressuscitar três dias depois.
E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.
Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.
Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens».
E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho,salvá-la-á».
Ambiente
O texto que nos é hoje proposto é um texto central no Evangelho segundo Marcos. Apresenta-nos os últimos versículos da primeira parte (cf. Mc. 8,27-30) e os primeiros versículos da segunda parte (cf. Mc. 8,31-35) deste Evangelho.
A primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 1,14-8,30) tem como objetivo fundamental levar à descoberta de Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Ao longo de um percurso que é mais catequético do que geográfico, os leitores do Evangelho são convidados a acompanhar a revelação de Jesus, a escutar as suas palavras e o seu anúncio, a fazerem-se discípulos que aderem à sua proposta de salvação. Este percurso de descoberta do Messias que o catequista Marcos nos propõe termina, em Mc. 8,29-30, com a confissão messiânica de Pedro, em Cesareia de Filipe (que é, evidentemente, a confissão que se espera de cada crente, depois de ter acompanhado o percurso de Jesus a par e passo): “Tu és o Messias”.
Depois, vem a segunda parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc. 8,31-16,8). Nesta segunda parte, o objetivo do catequista Marcos é explicar que Jesus, além de ser o Messias libertador, é também o “Filho de Deus”. No entanto, Jesus não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. Ponto alto desta “catequese” é a afirmação do centurião romano junto da cruz (que Marcos convida, implicitamente, os seus cristãos a repetir): “realmente este homem era o Filho de Deus” (Mc. 15,39).
Cesareia de Filipe – o quadro geográfico onde o Evangelho de hoje nos coloca – era uma cidade situada no Norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão (na zona da atual Bânias). Tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.
Mensagem
O nosso texto apresenta, portanto, duas partes bem distintas. Na primeira, Pedro dá voz à comunidade dos discípulos e constata que Jesus é o Messias libertador que Israel esperava; na segunda, Jesus explica aos discípulos que a sua missão messiânica deve ser entendida à luz da cruz (isto é, como dom da vida aos homens, por amor).
A primeira parte do nosso texto (vers. 27-30) começa com Jesus a pôr uma dupla questão aos discípulos: o que é que as pessoas dizem d’Ele e o que é que os próprios discípulos pensam d’Ele?
A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem apenas que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspectiva dos “homens”, Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vers. 28). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade de Jesus, nem a profundidade do seu mistério.
A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Messias” (vers. 29). Dizer que Jesus é o “Messias” (o Cristo) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva.
A resposta de Pedro estava correta. No entanto, podia prestar-se a graves equívocos, numa altura em que o título de Messias estava conotado com esperanças político-nacionalistas. Por isso, os discípulos recebem ordens para não falarem disso a ninguém. Era preciso clarificar, depurar e completar a catequese sobre o Messias e a sua missão, para evitar perigosos equívocos. É isso que Jesus vai fazer, logo de seguida.
Na segunda parte do nosso texto (vers. 31-35), há duas questões. A primeira (vers. 31-33) é a explicação dada pelo próprio Jesus de que o seu messianismo passa pela cruz; a segunda (vers. 34-35) é uma instrução sobre o significado e as exigências de ser discípulo de Jesus.
Jesus começa, portanto, por anunciar que o seu caminho vai passar pelo sofrimento e pela morte na cruz (vers. 31-33). Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem consciência disso; no entanto, não se demite do projeto do Reino e anuncia que pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.
Pedro não está de acordo com este final e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direção ao seu destino de cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do “messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.
Jesus dirige-se a Pedro com alguma dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a expressão mais radical). Ao pedir a Jesus que não embarque nos projetos do Pai, Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mc. 1,13); por isso, Jesus responde a Pedro: “Vai-te, Satanás”. As palavras de Pedro pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projetos de Deus.
Depois de anunciar o seu destino (que será cumprido, em obediência ao plano do Pai, no dom da própria vida em favor dos homens), Jesus convida os seus discípulos a seguir um percurso semelhante… Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no caminho do amor, da entrega e do dom da vida.
O que é que significa, exatamente, renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e auto-suficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projetos de riqueza, de segurança, de bem estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.
O que é que significa “tomar a cruz” de Jesus e segui-l’O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.
No final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a “lógica da cruz”. Convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos, não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas (vers. 35).
Atualização
•Quem é Jesus? O que é que “os homens” dizem de Jesus? Muitos dos nossos conterrâneos vêem em Jesus um homem bom, generoso, atento aos sofrimentos dos outros, que sonhou com um mundo diferente; outros vêem em Jesus um admirável “mestre” de moral, que tinha uma proposta de vida “interessante”, mas que não conseguiu impor os seus valores; alguns vêem em Jesus um admirável condutor de massas, que acendeu a esperança nos corações das multidões carentes e órfãs, mas que passou de moda quando as multidões deixaram de se interessar pelo fenômeno; outros, ainda, vêem em Jesus um revolucionário, ingênuo e inconsequente, preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos, preocupados em manter o “status quo”. Estas visões apresentam Jesus como “um homem” – embora “um homem” excepcional, que marcou a história e deixou uma recordação imorredoira. Jesus foi apenas um “homem” que deixou a sua pegada na história, como tantos outros que a história absorveu e digeriu?
• “E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão não significa papaguear lições de catequese ou tratados de teologia, mas sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim? Ele é o Messias libertador, que o Pai enviou ao meu encontro com uma proposta de salvação e de vida plena?
• Frente a frente o Evangelho deste domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspectivas confrontam-se, a par e passo… Qual é a minha escolha? Na minha perspectiva, qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e duradouro?
• Jesus tornou-se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como, aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de Jesus a esse projeto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afastem do caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que significado e que lugar ocupam na minha vida os projetos de Deus? Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou atento a esses “sinais dos tempos” através dos quais Deus me interpela? Sou capaz de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projetos pessoais?
• Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser batizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.
• O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.
• O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A palavra meditada ao longo da semana.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 24º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. Bilhete de evangelho.
Ficamos sempre admirados ao ver Jesus proibir que falem d’Ele. A razão é simples: tem medo que os seus discípulos ou a multidão desfigurem o seu rosto de Messias. Os homens olham com os olhos da carne, e que desejam eles? Um Messias nacionalista, poderoso, libertando o seu povo da ocupação romana. Quanto a Jesus, pede que O olhem com os olhos da fé: o Messias prometido é um Messias sofredor, porque Deus quer dar aos homens o sinal do seu Amor, um Amor que vai até ao fim, até ao dom total. Pedro terão, então, necessidade de purificar a sua fé, e é após a ressurreição que os seus olhos se abrirão, reconhecendo o Messias n’Aquele que lhe mostrará as suas chagas. E Ele mesmo fará a experiência da passagem pela morte para conhecer a Vida, ele caminhará atrás do seu Mestre, ele renunciará a si próprio, ele tomará a sua cruz e seguirá Jesus até ao fim.
3. À escuta da palavra.
Como qualquer ser humano, Pedro é uma mistura muito complexa de sombra e de luz. À questão de Jesus “para vós, quem sou Eu?”, ele responde: “Tu és o Messias”. Mateus precisa que é por uma revelação do Pai que Pedro pôde reconhecer que Jesus era o Messias. Daí a necessidade que Pedro estivesse aberto e acolhedor, na escuta do Pai! É o lado-luz do apóstolo… E logo depois, quando Jesus anuncia a sua paixão e morte, Pedro muda. Aos seus olhos, é o Mestre que se engana. Pedro aqui não escuta o Pai, fecha-se. É o lado-sombra de Pedro… Pedro ficará sempre o mesmo. Conhecemos bem as suas declarações de fidelidade incondicional, seguidas, alguns horas depois, pela sua tríplice negação. Ele terá a mesma atitude após o Pentecostes. Em Antioquia, segundo os Atos dos Apóstolos, ele não hesitava em comer com os pagãos convertidos a Jesus, o que um bom judeu não podia aceitar. Eis que pessoas que andavam com Tiago chegam. Pedro tem medo: vão contestá-lo. Então, retira-se. Através de Pedro, vemos como Deus age. Jesus escolheu Pedro para que fosse o primeiro servidor da unidade dos discípulos. Ele teve nele uma confiança ainda maior após a sua negação. Jesus não muda! Ele continua a escolher e a enviar discípulos para que sejam, ao serviço da unidade da comunidade, pastores que prolongam a ação do único Pastor. Mas estes homens guardam o seu lado-luz e o seu lado-sombra. S. Paulo dirá que Deus confia o seu tesouro a vasos de argila, “para que a vossa fé repouse, não na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”. Apesar dos limites e dos defeitos dos pastores, o Espírito Santo continua a fazer crescer o Reino! Que Ele fortaleça a nossa fé e a nossa esperança!
4. Para a semana que se segue…
Em nome de Jesus Cristo… Nesta semana, através de alguns pequenos “atos” (gestos de gentileza, de serviço, de perdão, de partilha, etc.), procuremos seguir o caminho de Cristo, mas tendo consciência de o fazer em seu nome, em nome do amor com que nos ama. E ofereçamos-Lhe estes pequenos testemunhos na nossa oração da tarde.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
============================



Nenhum comentário:

Postar um comentário