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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM


XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 23 de Setembro

“Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”
Introdução

Prezados irmãos. A nossa prática religiosa não deve ser um trampolim para o nosso prestígio pessoal,  mais sim, uma prova do nosso compromisso com a construção do Reino de Deus.
Em uma certa cidade, um cidadão descendente de um político conhecido, começou a se infiltrar na comunidade religiosa, participando visualmente na festa de Cristo Rei, nas atividades da Semana Santa, e também nas festas de formaturas dos colégios católicos. Sempre com um largo sorriso, apertando as mãos de quantos podia,  e bem disponível e amigável para com todos. Porém, o seu recolhimento espiritual, deixava muito a desejar. Muitos cristãos ficaram intrigados, perguntando o por que de tão repentina “conversão”.
Dois anos depois, foi que descobrimos qual era o objetivo daquele cidadão. Ele se lançou candidato a prefeito. Percebeu? Primeiro ele preparou a cama para depois deitar-se nela. Assim, depois de ter se mostrado um rapaz “muito religioso” aos olhos de muitos, ele acreditou que meio caminho já estaria andado para a sua campanha, a qual começara bem antes.
Vemos também que muitos pastores  candidatam-se a cargos políticos em várias escalas, e muitos até ganham.
Os discípulos estavam discutindo entre si, quem era o mais importante entre eles. E hoje? Quem é o profissional mais importante na nossa cidade? Qual o agente de pastoral mais importante da nossa paróquia? Qual o catequista mais sábio e santo? Qual o leitor que lê melhor?
Veja. Os dons ou os talentos dados por Deus a nós, não são iguais. Uns cantam muito bem, outros têm o dom da palavra, outros têm o dom de liderança... Assim são as diferenças individuais.  Somos iguais porém diferentes. O pecado reside no fato de  nos aproveitarmos dos nossos talentos para nos julgar mais importantes que os demais, e para nos projetar social, política e  economicamente, enquanto somos agentes de pastoral, ou ministros a serviço do Reino de Deus.  Não podemos nem devemos misturar as coisas. Ou você é cristão ou é político. As duas coisas não combinam.  Se Deus me deu o dom de ter uma voz linda, maravilha. Devo agradecer diariamente a Deus por tamanha graça. Porém, devo fazer uso desse talento com humildade diante da comunidade, e de preferência, usar a minha voz para glorificar o Senhor, e não somente para ganhar dinheiro.
Quem é o maior? Quem é o mais importante? A resposta de Jesus é inesperada aos discípulos, e bate de frente com os valores da sociedade atual. O maior não é o mais rico, nem o mais bonito, ou bonita, nem muito menos o que tem um vozeirão... Mais sim, o maior entre os cristãos, é aquele que for humilde, o mais justo, aquele que se presta a servir a todos, aquele que não se coloca em uma posição de comando, com ar de superioridade, de arrogância ou de autopromoção, etc.
Quer ser um político, um candidato? Mãos a obra. Vai lá. Mais não se aproveita da Igreja Católica para ficar conhecido, para se projetar  em benefício próprio,  para a sua campanha eleitoral!
   Por outro lado, lendo a carta de Tiago,  aprendemos que não devemos ter inveja da riqueza ou das qualidades dos nossos irmãos. Pois essa inveja nos faz muito mal. As guerras e todos os conflitos são gerados pelo ciúme, pela inveja, pela ganância de querer tirar o que é dos outros para nós. Por que não nos contentamos com o que Deus nos deu? Por que temos de desejar o que não é nosso ao ponto de tirar do irmão os seus pertences muitas vezes com violência?
Meu irmão. Você é paulista, então não se julgue superior aos nordestinos. Eles também são filhos amados por Deus! Você é rico, não pense que os pobres são uns coitadinhos que não servem para nada! Eles são criaturas muito amadas de Deus! Você é professor? Não olhe para os seus alunos com ar de superioridade, julgando-se melhor do que eles. Pense que você é apenas aquele que estudou que leu antes deles. Mulher bonita! Não despreze as feias, mais sim seja-lhes simpática,  fraterna e agradeça a Deus pela sua beleza.  Você  é jovem e forte? Não faça chacota dos velhos e fracos, mais sim ajude-os com os seus pesos e dificuldades. Você é catequista ou mesmo sacerdote? Não se julgue mais santo que ninguém, não pense que você já está salvo. Cuidado! Cuide de sua conversão diariamente com muita humildade.
Faça tudo como Jesus faria se fosse você!
José Salviano.
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Leitura orante do Salmo 61 - Diocese de Santos - Pe. Fernando Gross

Lectio Divina do Evangelho de Mc 9,30-37 para o XXV Domingo do Tempo Comum - Ano B - Diocese de Santos - Pe. Fernando Gross

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DOMINGO, 23 de Setembro
Mc 9,30-37

O Filho do Homem vai ser entregue... Se alguém quiser ser o primeiro que seja o último de todos.
“Jesus não queria ser visto por ninguém, porque estava ensinando seus discípulos.” Jesus tinha a preocupação de ensinar os seus discípulos. A maioria do seu tempo ele dedicava à formação deles; explicava as parábolas, respondia às questões, dava bronca às vezes, tudo para ensinar.
Veja o que diz este mesmo evangelista Marcos: “Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas, de acordo com o que podiam compreender... Mas, quando estava a sós com os discípulos, lhes explicava tudo” (Mc 4,33-34).
O Papa Paulo VI, quando esteve em Medellin, na Colômbia, em 1968, participando da Segunda Conferência do Episcopado latino americano, disse que o futuro da Igreja da América Latina está na formação dos líderes cristãos. Hoje, quarenta e um anos depois, a formação dos líderes cristãos continua sendo importantíssima. Depois de conscientizados e preparados, os cristãos e as cristãs passam a ser fermento na massa, atuando nas pastorais, na política e nas mais variadas organizações sociais.
Jesus era franco e claro, na formação aos discípulos. Ele não “passava mel” na boca de ninguém: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão, mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”. Os discípulos não entendiam essas palavras, mas suspeitavam de algo completamente ao inverso da imagem que tinham do Messias, por isso sentiam medo.
Em seguida, durante a caminhada, os discípulos discutiam quem era o maior. Eis aqui a melhor prova de que não tinham entendido nada mesmo. Enquanto Jesus falava de um Messias sofredor, eles discutiam quem estava acima dos outros!
Ao ver isso, mais uma vez Jesus foi claro: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” E apresentou a criança como modelo para eles, devido à sua simplicidade e humildade.
Que paciência a de Jesus, tentando educar seus discípulos, com tão desanimador resultado! Entretanto, essa visão triunfalista do Messias e do Reino fundado por ele era a visão do todos os judeus. Só após Pentecostes é que entenderam o “espírito da coisa”.
Uma boa formação dos líderes cristãos ajuda-os a se aproximar dos mistérios de Deus, especialmente do mistério da cruz. E isso lhes dá a chave para entender e combater a ambição que reina na sociedade levando-a a todo tipo de pecado.
Agora, a formação dos cristãos é um trabalho lento, que só produz fruto a longo prazo. É preciso ter paciência. Por exemplo, se perguntarmos para um líder mais velho, de quem ele aprendeu todas as coisas bonitas que sabe, ele ou ela vai citar, provavelmente, alguém que já morreu.
“A cada um o Senhor deu sua tarefa: eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer” (1Cor 3,5-6). Não podemos visar frutos imediatos na formação dos líderes; precisamos pensar longe, e não querer colher todos os frutos das sementes que lançamos.
Existem duas maneiras de formar os líderes: a acadêmica e a informal. Esta última é dada por todos nós, em todos os lugares e momentos. É dada principalmente pelos idosos, que comunicam aos mais novos a sua longa e acumulada experiência de vida cristã.
Deve-se dar destaque à formação dos jovens, pois eles são o nosso futuro, e são os primeiros que caem nas armadilhas da sociedade pecadora. Os jovens, devido à sua alegria e dinamismo, são a força da Comunidade cristã. Entretanto, os jovens só se tornarão Igreja quando a Igreja se tornar jovem.
Que nós, a exemplo de Jesus, nos dediquemos mais à nossa própria formação, e passemos para os nossos irmãos e irmãs o que aprendemos.
São Martinho nasceu em 1579, em Lima, capital do Peru. Por isso é chamado de S. Martinho de Lima. Um dia, ele queria ajudar um mendigo que pedia esmola, mas não tinha nada para lhe dar.
Martinho sentou-se na calçada, ao lado do mendigo, e pedia esmola junto com ele, para ajudá-lo. A humildade leva os cristão a tomar atitudes inusitadas.
Maria Santíssima é a Rainha dos formadores, pois formou humanamente o próprio Filho de Deus. Que ela nos ajude a ter sede de aprender e disposição para ensinar.
O Filho do Homem vai ser entregue... Se alguém quiser ser o primeiro que seja o último de todos
Padre Queiroz


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DOMINGO 23.09.12

Marcos 9,30-37
: “Quem acolher em meu nome uma criança é a mim que estará acolhendo” – Maria Regina.
Jesus abria os olhos dos Seus discípulos e procurava ensiná-los a viver a vida com sabedoria para enfrentar a realidade, no entanto, eles fugiam da verdade e não queriam admitir o sacrifício nem o sofrimento. Jesus tentava ensiná-los e conscientizá-los, mas eles tinham outras intenções. Todavia, Jesus os exortava mostrando-lhes coisas bem claras que são completamente diferentes das que o homem natural pensa e deseja. Por que os discípulos de Jesus não queriam aprofundar-se no assunto da sua morte e ressurreição? Por que eles não compreendiam quando Jesus lhes falava de sofrimento e dor? Eles silenciavam diante das revelações de Jesus e não respondiam às Suas indagações porque tinham medo de aceitar o sofrimento confiando em que Jesus sempre iria lhes proteger e não os deixariam passar por nenhuma aflição.
Assim somos nós também: não admitimos a dificuldade, a luta, o esforço, desejamos alcançar logo a vitória e a recompensa. Por isso, somos nós hoje, os discípulos a quem Jesus vem ensinar coisas preciosas, como: “quem quiser ser o primeiro que seja o último” ; “quem acolher em meu nome uma criança é a mim que estará acolhendo”. Gostamos de coisas grandiosas! As crianças para nós são muito inocentes e simples, queremos ser servidos, mas não gostamos de servir, mesmo assim queremos ser grandes. Contudo Ele conhece o nosso pensamento e a verdade do nosso coração: queremos ser o primeiro em tudo, queremos ser grandes, ter sucesso aqui na terra e também no céu. Queremos alcançar a felicidade sem esforço, sem renúncia e esquecemos de que para sermos grandes no céu, nós temos que ser pequenos na terra. Reflita – Como você poderá ser pequeno na terra e voltar a ser criança? – Você admite que possa sofrer aqui na terra? – Como você encara a realidade que não é muito boa?– Qual é para você a grande mensagem deste evangelho?
Amém
Abraço carinhoso de
– Maria Regina
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Domingo, 23 de setembro de 2012
25º Domingo do Tempo Comum
 Missionários Claretianos
Santos do Dia: São Pio de Petralcina, Presbítero (Memória), André, João, Pedro e Antonio (mártires da África), Constâncio de Ancona (leigo, sacristão), Iraís do Egito (virgem, mártir), Lino (foi o 2o. papa, sucessor imediato de São Pedro, mártir), Pedro Acotanto (monge), Sósio de Campania (mártir), Tecla, Maria, Marta e outra Maria (mártires de Hazza), Xantipa e Polixena (convertidas pelos apóstolos na Espanha).
Primeira leitura: Sabedoria 2,12.17-20
Vamos condená-lo à morte vergonhosa. 
Salmo responsorial: 53,3-6.8
É o Senhor quem sustenta minha vida!
Segunda leitura: Tiago 3, 16‑4,3
O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz. 
Evangelho: Marcos 9, 30-37
O Filho do Homem vai ser entregue... Se alguém quiser ser o primeiro, que seja aquele que serve a todos!
O livro da Sabedoria recolhe a experiência dos profetas de Israel e apresenta a pessoa “justa” como o modelo de sabedoria. O modelo de piedade não é a pessoa que realiza muitos sacrifícios ou que segue, com elegância e delicadeza, todos os pormenores dos ritos litúrgicos. A pessoa ideal é a que vive a justiça e mostra com suas obras que é possível realizar a vontade de Deus neste mundo.
Porém, ainda que este seja o caminho autêntico e querido por Deus, nem por isso é tão simples de ser realizado. A oposição não se faz esperar. Inclusive, no interior da família ou do círculo de amigos. O que toma o caminho da justiça, logo se dará conta de que viaja em companhia de poucas pessoas.
A carta de Tiago coloca, de forma simples e eficaz , a ambição como a causa dos conflitos na comunidade cristã. Com efeito, ninguém rouba, ninguém assassina nem arruína a vida alheia se não é movido por algum tipo de ambição. A ambição se manifesta no desejo de ser mais forte que os demais, de ter mais capacidade econômica, de assegurar esta vida e a outra.
O problema é que as pessoas que pensam assim, começam a ver o resto do mundo como obstáculo a ser eliminado ou como uma ponte de passagem. Porém, o problema de tais condutas, animadas e patrocinadas pela sociedade, está em que se constituem em ideais de vida, inclusive de pessoas que se proclamam cristãs. A carta de Tiago nos convida a colocar todas essas idéias ao clarão da luz a passar pela inequívoca peneira do evangelho. A cobiça, o prestigio e o poder podem nos conduzir por caminhos sem regresso e podem nos afastar do cristianismo de maneira irreversível, ainda que sejamos considerados cristãos e freqüentemos a missa todos os dias.
No evangelho de Marcos, o “caminho” representa o itinerário de formação de um bom discípulo. Jesus não quer um grupo de fanáticos que cantem vivas a seu nome, mas um grupo de pessoas responsáveis que sejam capazes de assumir seu projeto. Por esta razão, seus esforços se concentram no ensinamento de seus seguidores. Porém, a instrução parte dos desacertos e das respostas erráticas que eles vão dando ao longo do trajeto para Jerusalém. Jesus deve superar o medo cultural que invade seus discípulos e que os impede de dirigir-se a seu “Mestre” com toda confiança.
Para isto utiliza uma estratégia pedagógica muito criativa. Retoma a discussão dos discípulos; eles estavam concentrados, não no ensinamento de Jesus, mas na partilha dos cargos burocráticos de um possível governo e reconduz a discussão tomando como exemplo um fato da vida diária. A “criança” era uma das criaturas mais insignificantes da cultura antiga. Por sua estatura e idade, não estava em condições de participar da guerra, nem da política ou da vida religiosa. Jesus coloca uma dessas crianças no meio deles e mostra como o presente e o futuro da comunidade está em colocar no centro, não as próprias ambições, mas as pessoas mais postergadas e simples.
Somente assim se consegue reverter o sistema social de valores. E somente assim a comunidade é uma alternativa ante o “mundo”, que já sabe colocar no centro as pessoas de posses. A novidade de Jesus consiste em tornar grande quem é pequeno, doméstico ou insignificante. Isto que Jesus revelava, como um paradoxo, era muito serio: Jesus identificava sua própria sorte, e a de Deus, com a sorte das crianças, que não têm direitos nem quem olhe por elas; como parte dos últimos, os desprezados, os não tidos em conta. Porque na verdade esses pequenos se identificavam com o próprio Deus. Aliás, Deus se colocou ao seu lado, e assumiu sua causa como própria. Por isso dizia que todo serviço realizado em favor deles era feito a ele mesmo e ao Pai. Novamente invertia a hierarquia de valores da sociedade, ou, dependendo do ponto de vista, colocava a hierarquia de valores no seu justo lugar.
Uma sociedade que olha somente de cima, ou as decisões são tomadas pelos que estão no topo da pirâmide, ou ainda em vista dos interesses dessas mesmas pessoas, não garante nem o Reino nem a Vida. A Vida somente pode sobreviver em um mundo em que os de baixo sejam considerados e os que não tem direitos, sejam resgatados em sua dignidade.
Oração: Ó Deus, nosso Pai, que enviaste o teu filho Jesus para mostrar ao mundo que nem tudo está perdido e para mostrar o sentido da vida humana em um mundo estruturado na injustiça e no poder, ensina-nos a seguir o caminho de teu Filho Jesus, o justo perseguido, para que tua Igreja cumpra a missão que lhe deste. Por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

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O Filho do Homem vai ser entregue...

Homilia I
No domingo passado – deveis recordar - Jesus anunciou aos seus discípulos que ele era um Messias não de glória, mas de humildade e serviço até à morte de cruz. Ao final, triunfaria pela ressurreição. Pedro havia se escandalizado com tais palavras. Hoje, Jesus continua sua pregação. Ele ensinava a sós a seus discípulos: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens e eles o matarão. Mas, três dias após, ele ressuscitará’. Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”.
Vede, caríssimos, é a mesma atitude da semana passada. O ensinamento do Senhor tem como seu centro o Reino de Deus que viria pela sua cruz e ressurreição. Entrar no Reino é tomar com Jesus a cruz e com ele chegar à glória! Estejamos atentos: este não é apenas mais um dos muitos ensinamentos de Cristo; este é o ensinamento por excelência, a mensagem central que o Senhor veio nos revelar e mostrar com sua palavra, suas atitudes e sua própria vida. Repito: eis o que Jesus ensina: que o caminho do Reino passa pela cruz, passa pela morte e chega à plenitude da vida na ressurreição. Observai que ele ensina isso de modo insistente e prepara particularmente os discípulos para esse caminho... E, no entanto, os discípulos não compreendem a linguagem de Jesus, não compreendem sua missão, seu caminho! Esperavam um messias glorioso, cheio de poder, que resolvesse todos os problemas e reafirmasse orgulhosamente a glória terrena de Israel... Um messias na linha da teologia da prosperidade do Edir Macedo e do RR Soares. Nada mais distante de Cristo que esse tipo de coisa! Observai que, enquanto Jesus caminha adiante ensinando isso, os discípulos, seguindo-o com os pés, próximos fisicamente, estão com o coração muito longe do Senhor. No caminho, vão discutindo sobre quem deles era o maior! Jesus fala da humilhação e do serviço até à cruz; seus discípulos, nós, falamos de quem é o primeiro, o maior... Que perigo, caríssimos, pensarmos que somos cristãos, que seguimos Jesus, e estarmos com o coração bem longe do Mestre amado! 
Temos nós essa tentação também? Certamente! A linguagem da cruz continua difícil, dura, inaceitável para nós. É claro que não teoricamente: persignamos-nos com a cruz, beijamos a cruz, trazemo-la pendurada ao pescoço, veneramos a cruz... Mas, o caminho da cruz se faz na vida, não na teoria! Essa cruz de Cristo está presente nas dificuldades, no convite à renúncia de nossa vontade para fazer a vontade do Senhor, na aceitação dos caminhos de Deus, na doença e na morte, nas perdas que a vida nos apresenta, nos momentos de escuridão, de silêncio do coração e de aparente ausência de Deus... Todas essas coisas nos põem à prova, como o justo provado da primeira leitura deste hoje. É a vida, são os acontecimentos, são os outros que nos provam: “Armemos ciladas aos justos... Vamos pô-lo à prova para ver sua serenidade e provar a sua paciência; vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. Jesus passou por esse caminho, fez essa experiência em total obediência à vontade do Pai. E nos convida a segui-lo no hoje, no aqui da nossa vida. Nossa tentação é a dos primeiros discípulos: um cristianismo fácil, de acordo com a mentalidade do mundo atual; um cristianismo a baixo preço – isso: que não custe o preço da cruz! Se assim for, como estaremos longe de Jesus, como não o conheceremos! Ele nos dirá: “Apartai-vos de mim! Não vos conheço!” (Mt 7,23). 
Caros irmãos, ouvindo isso, talvez digamos: mas, como suportar a dureza da cruz? Como amá-la? Não é possível! É que ninguém pode amar a cruz pela própria cruz, caríssimos. Cristo amou sua cruz e a abraçou por amor total e absoluto ao Pai, por fidelidade ao Pai. Nós, também, somente poderemos compreender a linguagem da cruz e somente não nos escandalizaremos com ela se for por um amor apaixonado pelo Senhor Jesus, para segui-lo em seu caminho, para estarmos em união com ele. Eis, portanto: é o amor ao Senhor que torna a cruz aceitável e até desejável! Sem o amor ao Senhor, a cruz é destrutiva, é louca, e desumana! Com Jesus e por causa de Jesus, a cruz é árvore bendita de libertação e de vida. É o amor a Jesus que torna doce o que é amargo neste vida! 
O problema é que precisamos redescobrir a experiência tão bela e doce de amar Jesus. Não se pode ser cristão sem paixão pelo Senhor, sem um amor sincero entranhado para com ele! Como se consegue isso? Estando com ele na oração, aprendendo a contemplá-lo no Evangelho, alimentando durante o dia, dia todo, sua lembrança bendita, procurando a sua graça nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, lutando pacientemente para vencer os vícios e colocar a vida, os sentimentos, os instintos e a vontade em sintonia com a vontade do Senhor Jesus... Sem esses exercícios não há amor, sem amor não há como compreender a linguagem da cruz e sem tomar a cruz com e por Jesus não há a mínima possibilidade de ser cristão! Quando vier a crise, largaremos tudo, trairemos o Senhor e terminaremos por fazer do nosso jeito, salvando a pele e fugiremos covardemente da cruz... 
Então - pode ser que perguntemos – por que o Senhor quer nos fazer passar pela cruz? Por que escolheu e determinou um caminho tão difícil? Eis a resposta: porque somos egoístas, imaturos, quebrados interiormente! O pecado nos desfigurou profundamente! São Tiago traça um perfil muito realista e muito feio da nossa realidade: guerras interiores, paixões, disputas, auto-afirmação doentia, desordens e toda espécie de obras más... Quem tiver a coragem de entrar em si mesmo, quem for maduro para se olhar de frente verá em si todas essas tendências. Quantas vontades, quantas guerras interiores! Ora, isso tudo nos fecha para Deus, nos joga na idolatria do ter, do poder, do prazer, da auto-suficiência de pensar que somos deuses... É a cruz do Senhor quem nos purifica, nos corrige e nos liberta de verdade. Não há outro modo, não há outro caminho. Somente sentimentos, risos, cantorias e boa vontade não nos construiriam, não nos colocariam de verdade em comunhão com o Senhor no seu caminho. O mistério do pecado é sério demais, profundo demais para ser tratado com leviandade... “Quem quiser seu meu discípulo tome a sua cruz e siga-me” – diz o Senhor! 
Caríssimos, tenhamos coragem! Na docilidade ao Espírito Santo que o Senhor nos concedeu, teremos tal união com o Senhor Jesus, que tudo poderemos e suportaremos. Foi esse o caminho dos santos de Deus de todos os tempos; é esse o caminho que agora nos cabe caminhar... Que o Senhor no-lo conceda por sua graça, ele que é Deus com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.
Homilia II
O Evangelho deste XXV Domingo é dramático, pois revela a solidão de Jesus e a incapacidade nossa de compreender verdadeiramente a proposta do Senhor e caminhar com ele. “Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos”. Para onde caminha Jesus? Seu caminho irá terminar em Jerusalém; é para lá que ele, enfim, se dirigirá (cf. Mc. 10,1), para enfrentar seu destino final de morte e ressurreição por amor. E o que Jesus ensina, a sós, aos seus discípulos? “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após a sua morte, ele ressuscitará”. Jesus vai preparando seus discípulos para algo que eles de modo algum esperavam: o Messias não será aquele glorioso, como imaginavam, mas passará pela humilhação, pelo fracasso e pela cruz, como a primeira leitura de hoje no-lo apresenta: “Os ímpios dizem: ‘Armemos ciladas... sua presença nos incomoda... Vejamos se é verdade o que ele diz. Se é filho de Deus, Deus o defenderá. Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas; vamos condená-lo à morte vergonhosa...” Em vários momentos do Antigo Testamento fala-se de uma sorte desastrosa para o Messias, mas nem Israel nem os discípulos prestavam atenção a isso; recordavam-se somente das passagens gloriosas, lembravam-se somente do que interessava... Por isso o evangelho diz que “os discípulos não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”. Parece que Jesus falava (a fala) para surdos, que não conseguem de modo algum escutar realmente o que ele está dizendo... que não conseguem sintonizar realmente com o Senhor...
Mas, há ainda mais... mais e pior, mais e mais trágico: “Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: ‘O que discutíeis pelo caminho?’ Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior”. É terrível e trágico constatar a distância enorme entre o Mestre e os discípulos, a falta de sintonia, de compreensão: no caminho, no caminho cristão, Jesus fala da cruz, da vida que ele entregará como serviço de amor (este é o caminho cristão, o caminho do cristão!); os discípulos falam de ser o maior, de glórias, de privilégios! Não é assim, ainda hoje? Não somos assim, no caminho? Leigos ou membros do clero, religiosos ou seculares, não nos encontramos muitas vezes atolados nesta surdez, nesta cegueira, nesta falta de sintonia real com o Senhor? O caminho de Jesus é o do serviço que dá vida, que se entrega, que encontra, precisamente no servir, a liberdade e a plenitude. Num outro momento do evangelho, o Senhor nos adverte gravemente: ”Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc. 10,42-45). Ele próprio se coloca como modelo de serviço, de vida doada! E nós? A segunda leitura de hoje, da Epístola de São Tiago, revela um quadro desolador: invejas, rivalidades, brigas na comunidade, conflitos interiores no coração dos cristãos... E por quê? Por que, ao invés de realmente abraçarmos o caminho do Senhor, que passa pela cruz como serviço de amor a Deus e aos outros, amor desinteressado, que, dando a vida, encontra vida, seguimos uma lógica perversa e pecaminosa, a lógica do homem velho, com suas paixões e seus desejos de posse, de domínio, de auto-afirmação: “Só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres...” ou seja, buscais somente vossos interesses, totalmente desligados daquele que é o caminho proposto pelo Senhor Jesus. Esqueceis a exortação do Apóstolo São João: “Aquele que diz que permanece nele deve andar como ele andou” (1Jo. 2,6).
No fundo, no fundo, o desafio atual para os cristãos é o mesmo de nossas origens, na Igreja primitiva: compreender e levar a sério a linguagem da cruz, a linguagem do amor que se doa, que acolhe, que não busca seu próprio interesse nem sua própria glória e satisfação, sobretudo se isso é às custas da dignidade e da felicidade do irmão. O desafio é levar a sério o caminho de Jesus...
Ante esta palavra do Senhor que escutamos, impõem-se algumas questões sérias e urgentes: Que valores norteiam nossa vida pessoal? Que valores norteiam nossa vida comunitária, de grupo, de paróquia, de Igreja? Com tristeza, vemos, não poucas vezes, reproduzirem-se, em nossa vida pessoal e na vida de nossas comunidades, as atitudes do mundo: interesses, joguinhos de poder, dissimulações e invejas, maledicências e competições... e isto tudo sob a capa da santidade! Tudo hipocrisia! Não é à toa que, como os discípulos, ficaríamos envergonhados e calados, se o Senhor nos perguntasse sobre o que discutimos no caminho da vida!
“A sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta’conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento...” Esta sabedoria é que deveria nortear nossas relações como cristãos! Esta sabedoria, tão bendita, porque é fruto daquele amor-caridade que Jesus viveu e nos mandou viver: “o amor é paciente, a caridade á prestativo, não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Que o Senhor que, tendo nos amado, amou-nos até o extremo (cf. Jo. 13,1), no-lo conceda, para que sejamos realmente seus discípulos, com palavras e com a vida. Amém!
dom Henrique Soares da Costa

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A liturgia do 25º domingo do comum convida os crentes a prescindir da “sabedoria do mundo” e a escolher a “sabedoria de Deus”. Só a “sabedoria de Deus” – dizem os textos bíblicos deste domingo – possibilitará ao homem o acesso à vida plena, à felicidade sem fim. O Evangelho apresenta-nos uma história de confronto entre a “sabedoria de Deus” e a “sabedoria do mundo”. Jesus, imbuído da lógica de Deus, está disposto a aceitar o projeto do Pai e a fazer da sua vida um dom de amor aos homens; os discípulos, imbuídos da lógica do mundo, não têm dificuldade em entender essa opção e em comprometer-se com esse projeto. Jesus avisa-os, contudo, de que só há lugar na comunidade cristã para quem escuta os desafios de Deus e aceita fazer da vida um serviço aos irmãos, particularmente aos humildes, aos pequenos, aos pobres. A segunda leitura exorta os crentes a viverem de acordo com a “sabedoria de Deus”, pois só ela pode conduzir o homem ao encontro da vida plena. Ao contrário, uma vida conduzida segundo os critérios da “sabedoria do mundo” irá gerar violência, divisões, conflitos, infelicidade, morte. A primeira leitura avisa os crentes de que escolher a “sabedoria de Deus” provocará o ódio do mundo. Contudo, o sofrimento não pode desanimar os que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da sua coerência de vida.
Sabedoria 2,12.17-20 - AMBIENTE
O “livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante o séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e concepções do mundo helênico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o “justo” e o “ímpio” no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). Estamos em Alexandria (Egito), num meio fortemente helenizado. As outras culturas – nomeadamente a judaica – são desvalorizadas e hostilizadas. A enorme colônia judaica residente na cidade conhece mesmo, sobretudo nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e de Ptolomeu Dionísio (80-52 a.C.), uma dura perseguição. Os sábios helênicos procuram demonstrar, por um lado, a superioridade da cultura grega e, por outro, a incongruência do judaísmo e da sua proposta de vida… Os judeus são encorajados a deixar a sua fé, a “modernizar-se” e a abrir-se aos brilhantes valores da cultura helênica. É neste ambiente que o sábio autor do Livro da Sabedoria decide defender os valores da fé e da cultura do seu Povo. O seu objetivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, o autor pretende deixar este ensinamento fundamental: só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade. O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte do livro (cf. Sb. 1-5). Aí, o autor reflete longamente e em pormenor sobre o destino dos “justos” e o destino dos “ímpios”. Na secção que vai de Sb. 1,16-2,24, o autor do Livro da Sabedoria apresenta o quadro da vida dos “ímpios”. Depois de apresentar os raciocínios dos “ímpios” (cf. Sb. 1,16-2,9) e as suas reações de desprezo face aos “justos” (cf. Sb. 2,10-20), o sábio autor desta reflexão partilha com os seus leitores a sua própria crítica às atitudes incoerentes dos “ímpios” (cf. Sb. 2,21-24). Mostrando o sem sentido da conduta dos “ímpios”, ele pretende dizer aos seus concidadãos que vale a pena ser “justo” e manter-se fiel aos valores tradicionais da fé de Israel.
MENSAGEM
Esses “ímpios” de que fala o sábio autor do nosso texto são, certamente, os pagãos hostis, que zombavam dos costumes e dos valores religiosos judaicos e que levavam uma vida de corrupção e de imoralidade; mas são também, com toda a certeza, os judeus apóstatas, que se tinham deixado contaminar pela cultura grega, que haviam abandonado as tradições dos antepassados e que consideravam a religião judaica um conjunto de tradições obscurantistas, impróprias da “modernidade”.
A vida desses “justos” que assumiram os valores de Deus e que, mesmo no meio da hostilidade geral, procuram preservar os seus valores e viver de forma coerente com a sua fé, constitui um incômodo e uma dura interpelação para os “ímpios”. A coerência, a honestidade, a verticalidade e a fidelidade dos “justos” constituem um permanente espinho que magoa os “ímpios” e que não os deixa sentirem-se em paz com a sua consciência. A reação dos “ímpios” apresenta-se sempre em forma de perseguição, de ciladas, de ultrajes, de torturas e, em último caso, de assassínios. Trata-se de uma realidade que os justos de todas as épocas conhecem bem. A vida dos “justos” estará, então, condenada ao fracasso? Valerá a pena enfrentar a perseguição e conservar-se fiel a Deus e às suas propostas? O texto que nos é hoje proposto como primeira leitura não responde a estas questões; no entanto, o autor do Livro da Sabedoria dirá, mais à frente, que a fidelidade do justo será recompensada e que a sua vida desembocará nessa vida plena e definitiva que Deus reserva para aqueles que seguem os seus caminhos.
ATUALIZAÇÃO
• Por detrás do confronto entre o “ímpio” e o “justo”, está o confronto entre a “sabedoria do mundo” e a “sabedoria de Deus”. Trata-se de duas realidades em permanente choque de interesses e diante das quais temos, tantas vezes, de fazer a nossa opção. Para mim, qual destas duas realidades faz mais sentido? Por qual delas costumo optar?
• O que é a “sabedoria do mundo”? A “sabedoria do mundo” é a atitude de quem, fechado no seu orgulho e auto-suficiência, resolve prescindir de Deus e dos seus valores, de quem vive para o “ter”, de quem põe em primeiro lugar o dinheiro, o poder, o êxito, a fama, a ambição, os valores efêmeros. Trata-se de uma “sabedoria” que, em lugar de conduzir o homem à sua plena realização, o torna vazio, frustrado, deprimido, escravo. Pode apresentar-se com as cores sedutoras da felicidade efêmera, com as exigências da filosofia da moda, com a auréola brilhante da intelectualidade, ou com o brilho passageiro dos triunfos humanos; mas nunca dará ao homem uma felicidade duradoura.
• O que é a “sabedoria de Deus”? A “sabedoria de Deus” é a atitude daqueles que assumiram e interiorizaram as propostas de Deus e se deixam conduzir por elas. Atentos à vontade e aos desafios de Deus, procuram escutá-l’O e seguir os seus caminhos; tendo como modelo de vida Jesus Cristo, vivem a sua existência no amor e no serviço aos irmãos; comprometem-se com a construção de um mundo mais fraterno e lutam pela justiça e pela paz. Trata-se de uma “sabedoria” que nem sempre é entendida pelos homens e que, tantas vezes, é considerada um refúgio para os simples, os incapazes, os pouco ambiciosos, os vencidos, aqueles que nunca moldarão o edifício social. Parece, muitas vezes, apenas gerar sofrimento, perseguição, incompreensão, dor, fracasso. No entanto, trata-se de uma “sabedoria” que leva o homem ao encontro da verdadeira felicidade, da verdadeira realização, da vida plena.
• Quem escolhe a “sabedoria de Deus”, não tem uma vida fácil. Será incompreendido, caluniado, desautorizado, perseguido, torturado… Contudo, o sofrimento não pode desanimar os que escolhem a “sabedoria de Deus”: a perseguição é a consequência natural da sua coerência de vida. Não devemos ficar preocupados quando o mundo nos persegue; devemos ficar preocupados quando somos aplaudidos e adulados por aqueles que escolheram a “sabedoria do mundo”.
2ª leitura – Tiago 3,16-4,3 - AMBIENTE
Depois de convidar os crentes à autenticidade e coerência da fé (cf. Tg. 1,2-27) e de os exortar a expressar a fé em atitudes concretas (cf. Tg. 2,1-24), o autor da carta de Tiago elenca, na terceira parte desta carta (cf. Tg 3,1-4,10), uma série de aspectos particulares que precisam da atenção e do cuidado dos crentes. Estes aspectos particulares tratados na terceira parte da carta são, certamente, questões e situações que incomodavam as comunidades cristãs de origem judaica a quem a carta se dirige (e que não estão circunscritas à Palestina, mas espalhadas por todo o mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina, como a Síria, o Egito ou a Ásia Menor). O primeiro aspecto particular a que o autor se refere é ao cuidado a ter com a língua (cf. Tg. 3,1-12); o segundo refere-se à necessidade de os crentes rejeitarem a “sabedoria do mundo” e de acolherem a “sabedoria que vem do alto” (cf. Tg. 3,13-18); o terceiro é uma análise sobre a origem das discórdias que envenenam a vida das comunidades cristãs (cf. Tg. 4,1-10). O texto que nos é proposto junta alguns versículos do segundo com alguns versículos do terceiro ponto. O objetivo do autor da carta de Tiago continua a ser, também nesta terceira parte, purificar a existência cristã e exortar os crentes para que não percam os valores cristãos autênticos.
MENSAGEM
A primeira parte do nosso texto (cf. Tg. 3,16-18) exorta os crentes a viverem de acordo com a “sabedoria de Deus”. A “sabedoria do mundo” gera inveja, contendas, falsidade (cf. Tg. 3,14), rivalidade, desordem e toda a espécie de más ações (cf. Tg. 3,16). Acaba por destruir a vida da própria pessoa e por impedir a comunhão dos irmãos. Trata-se de uma “sabedoria” incompatível com as exigências da adesão a Cristo. Ao contrário, a “sabedoria de Deus” é “pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e boas obras, imparcial e sem hipocrisia” (Tg. 3,17). São sete as “qualidades” da “sabedoria” aqui enumeradas: dado que o número sete significa “perfeição”, “plenitude”, o autor da Carta de Tiago está, assim, a propor aos crentes um caminho de perfeição, de realização total, de vida plena. Se o cristão quer viver em paz (isto é, em comunhão) com Deus, deve acolher a “sabedoria de Deus” e atuar de acordo com ela em cada passo da sua existência.
Na segunda parte do nosso texto (cf. Tg. 4,1-3), o autor da Carta analisa as causas da situação de conflito e de discórdia que se nota em muitas das comunidades cristãs e que é incompatível com as exigências do compromisso com Cristo. Esse quadro resulta do fato de os crentes não terem ainda interiorizado a proposta de Cristo… Em lugar de fazerem da sua vida, como Cristo, um dom de amor aos irmãos, e de traduzirem esse amor em gestos concretos de partilha, de serviço, de solidariedade, de fraternidade, estes crentes vivem fechados no seu egoísmo e no seu orgulho. O seu coração está dominado pela cobiça, pela inveja, pela vontade de se sobrepor aos outros… E essas “paixões” más traduzem-se naturalmente, a nível da relação comunitária, em atitudes de luta, de inveja, de rivalidade, de ciúme, de arrogância, de ira. Vivem de acordo com a “sabedoria do mundo” e não de acordo com a “sabedoria de Deus”. Naturalmente, a sua oração não é escutada por Deus… O que eles pedem a Deus não é para satisfazer as suas necessidades materiais, mas para satisfazer as suas “paixões”, o seu orgulho, a sua cobiça, a sua vontade de se sobrepor aos outros irmãos. Uma oração que assenta em bases egoístas não pode ser escutada por Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Batismo é, para todos os crentes, o momento da opção por Cristo e pela proposta de vida nova que Ele veio apresentar; é o momento em que os crentes escolhem a “sabedoria de Deus” e passam a conduzir a sua vida pelos critérios de Deus. A partir desse momento, a vida dos crentes deve ser expressão da vida de Deus, dos valores de Deus, do amor de Deus. Num mundo que se constrói, tantas vezes, à margem de Deus, os cristãos devem ser os rostos dessa vida nova que Deus quer oferecer ao mundo. Estou consciente desta realidade? Tenho vivido de forma coerente com os compromissos que assumi no dia do meu batismo? Os valores que conduzem a minha vida são os valores que brotam da “sabedoria de Deus”?
• No entanto, muitos batizados continuam a conduzir a sua vida de acordo com a “sabedoria do mundo”. Passam, com indiferença, ao lado dos desafios que Deus faz, instalam-se no egoísmo e na auto-suficiência, vivem para o “ter”, deixam que a sua existência seja dirigida por critérios de ambição e de ganância, recusam-se a fazer da sua vida uma partilha generosa com os irmãos… O autor da Carta de Tiago avisa: cuidado, pois a opção pela “sabedoria do mundo” não é um caminho para a realização plena do homem; só gera infelicidade, desordem, guerras, rivalidades, conflitos, morte. Nós, os cristãos, temos de estar permanentemente num processo de conversão para que a “sabedoria do mundo” não ocupe todo o nosso coração e não nos impeça de atingir a vida plena.
• Quando pautamos a nossa vida pela “sabedoria do mundo”, isso tem consequências nas relações que estabelecemos com aqueles que caminham ao nosso lado. A ambição, a inveja, o orgulho, a competição, o egoísmo, criam divisões e destroem a comunidade. As nossas comunidades cristãs (ou religiosas) dão testemunho da “sabedoria de Deus” ou da “sabedoria do mundo”? As rivalidades, os ciúmes, as críticas destrutivas, a indiferença, as palavras que magoam, as lutas pelo poder, as tentativas de afirmação pessoal à custa do irmão, são compatíveis com a “sabedoria de Deus” que escolhemos no dia do nosso batismo?
• Uma palavra para o tema da oração, abordado no último versículo do nosso texto… Quando o nosso coração está cheio da “sabedoria do mundo”, a nossa oração não faz sentido; torna-se um monólogo egoísta, uma pedinchice de coisas que se destinam a satisfazer as nossas “paixões”, as nossas ambições, os nossos interesses pessoais. Antes de falar com Deus, precisamos de mudar o nosso coração, de reequacionar os nossos valores e as nossas prioridades, de aprender a ver o mundo e a vida com os olhos de Deus. Só então a nossa oração fará sentido: será um diálogo de amor e de comunhão, através do qual escutamos Deus, percebemos os seus planos, acolhemos essa vida que Ele nos quer oferecer.
Evangelho – Mc 9,30-37 - AMBIENTE
Já dissemos no passado domingo que a preocupação essencial de Marcos na segunda parte do seu Evangelho (cf. Mc. 8,31-16,8) é apresentar Jesus como “o Filho de Deus”. No entanto, Marcos tem o cuidado de demonstrar que Jesus não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para cumprir a vontade do Pai e oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. É neste contexto que devemos situar os três anúncios feitos por Jesus acerca da sua paixão e morte (cf. Mc. 8,31-33; 9,30-32; 10,32-34). O texto que nos é proposto neste domingo é, precisamente, o segundo desses anúncios. O grupo já deixou Cesareia de Filipe (onde Jesus, pela primeira vez, tinha falado da sua paixão e morte, como lemos no Evangelho do passado domingo) e está agora a atravessar a Galileia. Muito provavelmente, a próxima ida para Jerusalém está no horizonte dos discípulos e eles têm consciência de que em Jerusalém se vai jogar a cartada decisiva para esse projeto em que tinham decidido apostar. Nesta fase, todos acreditam ainda que Jesus irá entrar na cidade na pele de um Messias político, poderoso e invencível, capaz de libertar Israel, pela força das armas, do domínio romano. Ao longo dessa “caminhada para Jerusalém”, Jesus vai catequizando os discípulos, ensinando-lhes os valores do Reino e mostrando-lhes, com gestos concretos, que o projeto do Pai não passa por esquemas de poder e de domínio. O nosso texto faz parte de uma dessas instruções aos discípulos. Será que eles entendem a lógica de Deus e estão dispostos a embarcar, com Jesus, na aventura do Reino?
MENSAGEM
O texto divide-se em duas partes. Na primeira, Jesus anuncia a sua próxima paixão, em Jerusalém; na segunda, Jesus ensina aos discípulos a lógica do Reino: o maior, é aquele que se faz servo de todos. Na primeira parte (vs. 30-32), Marcos põe na boca de Jesus um segundo anúncio da sua paixão, morte e ressurreição, com palavras ligeiramente diferentes do primeiro anúncio (cf. Mc 8,31-33), mas com o mesmo conteúdo. As palavras de Jesus denotam tranquilidade e uma serena aceitação desses fatos que irão concretizar-se num futuro próximo. Jesus recebeu do Pai a missão de propor aos homens um caminho de realização plena, de felicidade sem fim; e Ele vai fazê-lo, mesmo que isso passe pela cruz. A serenidade de Jesus vem-Lhe da total aceitação e da absoluta conformidade com os projetos do Pai. Os discípulos mantêm-se num estranho silêncio diante deste anúncio. Marcos explica que eles não entendem a linguagem de Jesus e que têm medo de O interrogar (v. 32). As palavras de Jesus são claras; o que não é claro, para a mentalidade desses discípulos, é que o caminho do Messias tenha de passar pela cruz e pelo dom da vida. A morte, na perspectiva dos discípulos, não pode ser caminho para a vitória. O “não entendimento” é, aqui, o mesmo que discordância: intimamente, eles discordam do caminho que Jesus escolheu seguir, pois acham que o caminho da cruz é um caminho de fracasso. Apesar de discordarem de Jesus eles não se atrevem, contudo, a criticá-l’O. Provavelmente recordam a dura reação de Jesus quando Pedro, logo a seguir ao primeiro anúncio da paixão, Lhe recomendou que não aceitasse o projeto do Pai (cf. Mc. 8,32-33).
A segunda parte (vs. 33-37) situa-nos em Cafarnaum, “em casa” (será a casa de Pedro?). A cena começa com uma pergunta de Jesus: “Que discutíeis pelo caminho?” (v. 33). O contexto sugere que Jesus sabe claramente qual tinha sido o tema da discussão. Provavelmente, captou qualquer coisa da conversa e ficou à espera da oportunidade certa – na tranquilidade da “casa” – para esclarecer as coisas e para continuar a instrução dos discípulos. Só neste ponto Marcos informa os seus leitores de que os discípulos tinham discutido, pelo caminho, “sobre qual deles era o maior” (v. 34). O problema da hierarquização dos postos e das pessoas era um problema sério na sociedade palestina de então. Nas assembléias, na sinagoga, nos banquetes, a “ordem” de apresentação das pessoas estava rigorosamente definida e, com frequência, geravam-se conflitos inultrapassáveis por causa de pretensas infrações ao protocolo hierárquico. Os discípulos estavam profundamente imbuídos desta lógica. Uma vez que se aproximava o triunfo do Messias e iam ser distribuídos os postos-chave na cadeia de poder do reino messiânico, convinha ter o quadro hierárquico claro. Apesar do que Jesus lhes tinha dito pouco antes acerca do seu caminho de cruz, os discípulos recusavam-se a abandonar os seus próprios sonhos materiais e a sua lógica humana. Jesus ataca o problema de frente e com toda a clareza, pois o que está em jogo afeta a essência da sua proposta. Na comunidade de Jesus não há uma cadeia de grandeza, com uns no cimo e outros na base… Na comunidade de Jesus, só é grande aquele que é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos (v. 35). Dessa forma, Jesus deita por terra qualquer pretensão de poder, de domínio, de grandeza, na comunidade do Reino. O discípulo que raciocinar em termos de poder e de grandeza (isto é, segundo a lógica do mundo) está a subverter a ordem do Reino. Jesus completa a instrução aos discípulos com um gesto… Toma uma criança, coloca-a no meio do grupo, abraça-a e convida os discípulos a acolherem as “crianças”, pois quem acolhe uma criança acolhe o próprio Jesus e acolhe o Pai (vs. 36-37). Na sociedade palestina de então, as crianças eram seres sem direitos e que não contavam do ponto de vista legal (pelo menos enquanto não tivessem feito o “bar mitzvah”, a cerimônia que definia a pertença de um rapaz à comunidade do Povo de Deus). Eram, portanto, um símbolo dos débeis, dos pequenos, dos sem direitos, dos pobres, dos indefesos, dos insignificantes, dos marginalizados. São esses, precisamente, que a comunidade de Jesus deve abraçar. No contexto da conversa que Jesus está a ter com os discípulos, o gesto de Jesus significa o seguinte: o discípulo de Jesus é grande, não quando tem poder ou autoridade sobre os outros, mas quando abraça, quando ama, quando serve os pequenos, os pobres, os marginalizados, aqueles que o mundo rejeita e abandona. No pequeno e no pobre que a comunidade acolhe, é o próprio Jesus (que também foi pobre, débil, indefeso) que Se torna presente.
ATUALIZAÇÃO
• Os anúncios da paixão testemunham que Jesus, desde cedo, teve consciência de que a missão que o Pai Lhe confiara ia passar pela cruz. Por outro lado, a serenidade e a tranquilidade com que Ele falava do seu destino de cruz mostram uma perfeita conformação com a vontade do Pai e a vontade de cumprir à risca os projetos de Deus. A postura de Jesus é a postura de alguém que vive segundo a “sabedoria de Deus”… Ele nunca conduziu a vida ao sabor dos interesses pessoais, nunca pôs em primeiro lugar esquemas de egoísmo ou de auto-suficiência, nunca Se deixou tentar por sonhos humanos de poder ou de riqueza… Para Ele, o fator decisivo, o valor supremo, sempre foi a vontade do Pai, o projeto de salvação que o Pai tinha para os homens. Nós, cristãos, um dia aderimos a Jesus e aceitamos percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu. Que valor e que significado tem, para nós, essa vontade de Deus que dia a dia descobrimos nos pequenos acidentes da nossa vida? Temos a mesma disponibilidade de Jesus para viver na fidelidade aos projetos do Pai? O que é que dirige e condiciona o nosso percurso: os nossos interesses pessoais, ou os projetos de Deus?
• Neste episódio, os discípulos são o exemplo clássico de quem raciocina segundo a “sabedoria do mundo”. Quando Jesus fala em servir e dar a vida, eles não concordam e fecham-se num silêncio amuado; e logo a seguir, discutem uns com os outros por causa da satisfação dos seus apetites de poder e de domínio. Aquilo que os preocupa não é o cumprimento da vontade de Deus, mas a satisfação dos seus interesses próprios, dos seus sonhos pessoais. A atitude dos discípulos mostra a dificuldade que os homens têm em entender e acolher a lógica de Deus. Contudo, a reação de Jesus diante de tudo isto é clara: quem quer seguir Jesus tem de mudar a mentalidade, os esquemas de pensamento, os valores egoístas e abrir o coração à vontade de Deus, às propostas de Deus, aos desafios de Deus. Não é possível fazer parte da comunidade de Jesus, se não estivermos dispostos a realizar este processo.
• O Evangelho de hoje convida-nos a repensar a nossa forma de nos situarmos, quer na sociedade, quer dentro da própria comunidade cristã. A instrução de Jesus aos discípulos que o Evangelho deste domingo nos apresenta é uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre os irmãos, dos sonhos de grandeza, das manobras para conquistar honras e privilégios, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio… Esses comportamentos são ainda mais graves quando acontecem dentro da comunidade cristã: trata-se de comportamentos incompatíveis com o seguimento de Jesus. Nós, os seguidores de Jesus, não podemos, de forma alguma, pactuar com a “sabedoria do mundo”; e uma Igreja que se organiza e estrutura tendo em conta os esquemas do mundo não é a Igreja de Jesus.
• Na nossa sociedade, os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas badaladas nas revistas da sociedade, os que vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional, os que sabem colar-se aos valores politicamente corretos… E na comunidade cristã? Quem são os primeiros? As palavras de Jesus não deixam qualquer dúvida: “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social… Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.
• A atitude de serviço que Jesus pede aos seus discípulos deve manifestar-se, de forma especial, no acolhimento dos pobres, dos débeis, dos humildes, dos marginalizados, dos sem direitos, daqueles que não nos trazem o reconhecimento público, daqueles que não podem retribuir-nos… Seremos capazes de acolher e de amar os que levam uma vida pouco exemplar, os marginalizados, os estrangeiros, os doentes incuráveis, os idosos, os difíceis, os que ninguém quer e ninguém ama?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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Ser discípulo: a humildade
A 2ª predição da Paixão (evangelho), que forma o núcleo da liturgia de hoje, tem um acento próprio. Enquanto a primeira fala da rejeição pelas lideranças religiosas, a segunda acentua o fato de” o Filho do Homem ser entregue em mãos humanas” (a terceira, mais completa, acrescentará ainda sua condenação à morte e extradição aos pagãos). A 1ª leitura é bem escolhida, no sentido de mostrar a inveja dos homens ímpios contra o justo, que considera Deus como seu pai. (Mt. 27,43 interpreta expressamente a morte de Cristo a partir desta idéia, presente também em Sl. 22[21],9; Sb. 2,18.) A idéia da inveja da virtude do justo forma, assim, o laço que une as leituras de hoje: a 1ª leitura, a 2ª leitura (os males da inveja) e o evangelho, que prolonga o anúncio da Paixão numa admoestação contra a ambição, o “pecado da comparação”.
Atinge-se assim um nível fundamental, tanto do ponto de vista cristológico quanto antropológico. Pois o “pecado da comparação” não é outro senão o pecado de Adão, o pecado originante, presente em todo ser humano: não agüentar que alguém seja maior, querer ocupar o lugar de Deus. E o que Cristo vem cumprir (e anuncia nas predições da Paixão) é exatamente o contrário: o despojamento, a obediência até a morte. Neste contexto do homem velho, corrompido por sua inveja, Jesus aparece como o homem novo, completamente filho de Deus, realizando por sua obediência o que o orgulho de Adão tentou alcançar em vão: a condição divina.
A lição de humildade (Mc. 9,33-37) completa, portanto, de modo adequado, o tema da Paixão de Jesus; não dilui a trágica realidade da cruz, nem a troca em miúdos para a vida cotidiana do cristão bem comportado… A humildade não é a virtude do medroso, a carência transformada em virtude. É a opção pelo caminho do Cristo, o caminho da obediência até a morte por amor, contrariamente ao orgulho, que leva à morte absurda. Tg. atribui toda a espécie de males ao orgulho e à ambição, e não sem razão. Não é o competicionismo uma forma de inveja que leva os homens a desarticular sempre mais a própria sociedade? Onde cada um quer ter e ser mais do que os outros, a ruína é inevitável.
O exemplo de Cristo nos ensina a escolher o caminho oposto. Olhar para os outros, sim, mas não para nos comparar com eles porém, para ver como servir melhor. Ser grande é ser o servo de todos. Até o menor merece ser acolhido como o próprio Senhor. Jesus toma, por exemplo, o acolhimento de uma criança. Coisa fácil? Quem é que não gosta de crianças? Todavia: 1) no tempo de Jesus a criança era de pouquíssimo valor aos olhos da sociedade (só importava para os pais e familiares); 2) será que hoje, realmente, todas as crianças são bem-vindas?
Conclusão: para realizar o caminho de Jesus no dia-a-dia, impõe-se a humilde dedicação ao mais insignificante dentre os nossos irmãos. Dedicação humilde, não aquela falsa humildade que é o orgulho de quem não quer nada com nada, mas o encaminhamento de nossa vida no caminho da doação total, do “perder-se para realizar-se” (cf. dom. pass.).
A última frase do evangelho estabelece uma relação muito significativa: quem acolhe uma criança em nome de Jesus (i.é, por causa do que Jesus ensinou), acolhe Jesus mesmo (como Mestre, pois segue seu ensinamento). Mas quem acolhe Jesus (o Enviado), acolhe aquele que o enviou (Deus). Estamos a poucos passos da parábola do último juízo de Mt. 25,31-46, onde o Rei e Juiz diz: “O que fizestes ao mínimo destes meus irmãos, a mim o fizestes”. O serviço humilde ao último dos homens é o critério decisivo do ser cristão (o agir em nome de Cristo), mas também de toda a salvação.
A oração do dia prepara bem o espírito deste ensinamento: o amor a Deus e ao próximo, não dois amores, mas o primeiro encamando-se no segundo e o segundo encontrando seu critério no primeiro (para que a gente não se ame a si mesmo no próximo … ).
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Paixão e ambições
Jesus se afasta do povo porque quer passar seus ensinamentos para os discípulos, e segue a caminho de Jerusalém, passando por Cafarnaum. Durante a viagem Ele faz o segundo anúncio de sua Paixão e Ressurreição. Jesus jamais separa o anúncio de sua Paixão do anúncio da Ressurreição, que é o ápice e que ilumina o anterior. Os discípulos, porém, só se atém ao anúncio da morte, sentem medo, não têm coragem de pedir explicação a Jesus porque temem um compromisso maior, e esta atitude de receio explica, inclusive, o abandono deles no futuro, na Paixão e Morte de Jesus.
Eles se distraem com outro assunto, entre si mesmos, pois, tentam ocultar do Mestre sentimentos que eles mesmos sabiam que O desagradavam. Estavam sofrendo da fraqueza de não conseguirem expulsar o demônio do rapaz, pela falta de fé do povo e deles mesmos (Mc. 9,17-18), e discutem qual deles seria o maior, o melhor para Jesus e para o povo, demonstrando ambição pelo poder.
Jesus que tudo sabe e lê o que está nos corações, ao chegar em Cafarnaum, dentro de casa, na intimidade com eles, longe das distrações do mundo, dá-lhes a explicação sobre como devem se comportar diante do próximo, ou seja, colocando-se a serviço em primeiro lugar. Diz que a ambição do poder é o caminho contrário ao caminho do Reino de Deus que dá preferência aos pequenos e aos que estão em último lugar no mundo. E completa que, não se alcança o Reino através do poder, mas sim do serviço, sem pretensão e sem interesses pessoais de dominação, pois é somente na humildade, opção do caminho do Cristo pela obediência, contrária ao orgulho, é que os homens se libertam da inveja e da vaidade.
Jesus compara as crianças, sinônimo de pessoa necessitada e dependente, aos pobres e marginalizados, e as coloca como a Si mesmo, quando diz que quem acolhe uma criança, acolhe também a Ele.
Este novo enfoque de ser o maior servindo ao próximo é um contraste ao que os discípulos vinham vivendo e desejando.
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O servidor de todos
O testemunho de vida de Jesus, baseado na humildade e no espírito de serviço, não foi suficiente para conscientizar os discípulos a respeito do modo de proceder que lhes estava sendo proposto. Nem mesmo a alusão à sua morte violenta e à sua ressurreição bastou para abrir-lhes os olhos. Entre eles, permanecia um espírito mesquinho de competição. Sua preocupação era saber qual deles seria o maior. Jesus enunciou, com clareza, uma norma de conduta válida para regular as relações entre eles: quem quisesse ser considerado o primeiro e mais importante de todos, deveria ser capaz de se colocar no último lugar e assumir a condição de servo dos demais. O colocar-se em último lugar deveria resultar de um ato livre, sem nenhum complexo de inferioridade. O fazer-se servidor seria conseqüência da superação do próprio egoísmo, não uma atitude resignada de quem não sabe fazer valer seus direitos. Quebra-se, assim, o ciclo da ambição e fica banida do seio da comunidade a tentação da tirania. O Reino, portanto, tem uma escala de valores que não corresponde àquela do mundo. A orientação de Jesus exigiu dos discípulos uma reformulação de seus esquemas mentais. Não dava para aplicar ao Reino a visão mundana com que estavam contaminados.
padre Jaldemir Vitório

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A vida dos ímpios e a vida dos justos
As leituras deste quarto domingo do mês dedicado à Bíblia refletem sobre duas diferentes lógicas pelas quais o ser humano pode conduzir a sua vida: a do ímpio e a do justo. O livro da Sabedoria informa que a lógica do ímpio desconsidera a vontade de Deus para usufruir o tempo presente e dos bens deste mundo, buscando satisfazer seus desejos egoísticos.
Não se importa com o próximo necessitado e contrapõe-se ao modo de pensar e de agir da pessoa justa, caluniando-a, perseguindo-a e matando-a. Diferente é a lógica do justo: ele leva em máxima conta o conhecimento de Deus, segue sua vontade e se gloria de ter Deus por pai (1ª leitura). O Evangelho chama a atenção: a lógica do ímpio pode contaminar os próprios discípulos de Jesus. Ela se manifesta na atitude de disputa de poder entre eles, contrariando os ensinamentos e a prática de Jesus: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”. A carta de Tiago (2ª leitura) adverte que “onde há inveja e preocupação egoística, aí estão as desordens e toda sorte de más ações”. E orienta para o modo verdadeiro de conduzir a vida: conforme a sabedoria que vem de Deus.
1ª leitura (Sb. 2,12.17-20): O justo perseguido
O livro da Sabedoria é resultado da reflexão dos judeus da diáspora. Foi escrito em grego, na cidade de Alexandria, no Egito, pelo ano 50 a.C. O texto reflete a situação do povo judeu, fora de sua pátria, incompreendido e hostilizado por causa da fidelidade às suas leis. Os autores concebem que há dois tipos de pessoas: os justos que conhecem a Deus e os injustos ou ímpios que, além de não o conhecerem, zombam de quem lhes é fiel.
Para além da relação conflituosa entre os judeus e os estrangeiros, o texto nos inspira a refletir sobre os efeitos que a prática da justiça pode causar. O modo de pensar e de se comportar das pessoas justas incomoda os injustos. Ao ler todo o capítulo 2 do livro da Sabedoria, percebemos que os justos estão convencidos de que Deus recompensará a quem segue o caminho de santidade. Sentem--se protegidos por Deus e gloriam-se de tê-lo por pai. Os ímpios, ao contrário, concebem a vida – já que é passageira – como uma oportunidade de satisfazer os instintos egoísticos.
Oprimem o pobre e agem com prepotência, a ponto de colocar à prova a fidelidade dos justos, através de calúnias, perseguições e até de condenação à morte. Nesse sentido, o texto chega a ser uma prefiguração de Jesus Cristo.
Evangelho (Mc. 9,30-37): Jesus: o justo incompreendido
Jesus encontra-se em caminho para Jerusalém, onde será condenado à morte. Os discípulos ainda não compreendem que tipo de Messias é Jesus. Para eles, está sendo muito difícil mudar de mentalidade. O evangelho de Marcos mostra que esse caminho para Jerusalém indica o processo de formação pelo qual os discípulos devem passar. O próprio Jesus é o formador. Com paciência e dedicação, procura abrir os olhos dos discípulos para que o reconheçam como o servo de Deus e não como um rei poderoso.
Por três vezes Jesus anuncia que vai a Jerusalém, onde deverá sofrer e morrer. O texto deste domingo refere-se ao segundo anúncio. O primeiro anúncio foi refletido no domingo passado. Em cada um dos anúncios há uma reação dos discípulos demonstrando que não estão entendendo o ensinamento de Jesus. E estão com medo de perguntar. Talvez estejam lembrando da forte repreensão que Jesus deu a Pedro quando o chamou de “satanás” por tentar impedi-lo de cumprir sua missão até o fim. Eles têm medo das exigências de Jesus. Persistem na sua ambição de poder. Seguem a Jesus discutindo quem seria o maior entre eles. Essa aspiração à grandeza e ao prestígio popular era bem evidente entre os líderes religiosos e entre os políticos. Vestiam-se e comportavam-se em sociedade para chamar a atenção sobre si; buscavam sempre os primeiros lugares... Jesus já havia chamado a atenção dos discípulos: “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus
e do fermento de Herodes” (Mc. 8,15). Mas parece que não adiantou. Ao invés de seguir o exemplo de Jesus, eles seguem a ideologia dos poderosos. Ao invés de serem servos uns dos outros, preferem disputar entre si. O momento é propício para uma instrução especial. Ao passar por Cafarnaum, Jesus entra na casa e, após perguntar aos discípulos sobre o que estavam discutindo pelo caminho, ele se senta. É a posição de mestre. Essa casa de Jesus representa as comunidades cristãs no tempo em que Marcos está escrevendo. Também essas comunidades são identificadas como “o caminho”. Ao ressuscitar, Jesus permanece no meio delas, caminhando junto e ensinando-as através do seu Evangelho.
Jesus está na casa. Chama os doze para junto de si. Não é porque eles estão distantes fisicamente, mas porque estão resistindo de seguir verdadeiramente a Jesus. Por isso, o ensinamento que ele vai ministrar-lhes agora é de muita importância: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”.
E para que não esquecessem jamais dessa lição, Jesus ilustra seu ensinamento tomando uma criança e colocando-a no meio. Mais uma vez, ele revela a sua relação de carinho e de solidariedade para com os pequeninos, os desprezados e os marginalizados. A criança representa aqui todas as pessoas necessitadas que devem ser amadas, acolhidas, cuidadas e protegidas pelas comunidades cristãs em nome de Jesus. Para agir desse modo, é necessário que cada cristão abandone as aspirações de “ser o maior” e torne-se “servidor” dos pequeninos. Na criança, tudo é gratuidade. Assim, quem ama os pequeninos está amando o próprio Jesus e também o Pai que o enviou.
2ª leitura (Tg. 3,16 – 4,3): A sabedoria que vem do alto
Nas comunidades cristãs primitivas, como também as de nossos dias, existem atitudes contrárias ao ensinamento de Jesus. Não foram somente os doze apóstolos que demonstraram muita dificuldade de entender e de seguir a Jesus. Através desse texto da carta de Tiago, percebemos que também no meio dos cristãos do final do primeiro século havia “inveja e preocupação egoística”. As conseqüências disso, conforme escreve Tiago, são as “desordens e toda espécie de más ações”: lutas, guerras, cobiça, avidez...
Tiago tem consciência de que isso não pode acontecer com quem se declara seguidor de Jesus. Percebe que essas atitudes são próprias de gente insensata que atrapalha a missão da Igreja neste mundo, que é anunciar o Evangelho não só através de palavras, mas de testemunho de amor mútuo. Como podemos sonhar com um mundo fraterno se, entre os próprios cristãos, existem divisões, invejas e busca de prestígio pessoal até sob a capa de piedade?
Diante dessas coisas, Tiago alerta aos cristãos para que orientem sua vida conforme a “sabedoria que vem do alto”. E esclarece como ela se manifesta: é pura, isto é, não contaminada com a ideologia do poder; é pacífica: alimenta-se da paz que vem de Deus e não promove divisões; é indulgente: relaciona-se com educação e respeito para com o próximo; é conciliadora: não age com orgulho ou com imposição, mas promove a união entre as pessoas; é cheia de misericórdia: acolhe e ama o outro buscando o seu bem com toda a sinceridade; é imparcial: não toma partido visando seu próprio interesse; é sem hipocrisia, isto é, age com transparência e honestidade, sem esconder-se sob a máscara da mentira ou das aparências enganosas... Sem dúvida, essa “sabedoria que vem do alto” é o caminho que Jesus trilhou nesta terra visando construir o Reino de Deus. É também o caminho para os cristãos de todas as épocas.
Pistas para reflexão
– Há duas lógicas pelas quais podemos nos orientar: a do ímpio ou a do justo. O nosso modo de viver cotidiano demonstra qual delas nós seguimos. A vida do ímpio se caracteriza pela busca de satisfação de seus desejos, mesmo que para isso tenha que destruir a vida de outros. A pessoa justa tem a consciência de que é filha de Deus e age de acordo com essa condição. Sabe que Deus a ama e a protege. Esforça-se para ser fiel à vontade divina, mantendo-se livre da corrupção dos injustos e, por isso, pode ser perseguida e até morta.
O que significa ser uma pessoa justa nesta sociedade em que vivemos, com tantos sinais de corrupção, de injustiça e de morte?
– Quem é Jesus para nós? Os discípulos manifestaram muita dificuldade para entender quem é Jesus porque se deixavam conduzir pela lógica dos ímpios e cada um queria ser maior do que os outros. Jesus os ajudou a mudar de mentalidade. Ele também nos ajuda para que sejamos servos uns dos outros. A casa em que Jesus se senta para ensinar os discípulos representa a comunidade cristã. Essa “casa” é o lugar onde aprendemos a ouvir e a praticar a Palavra de Deus a partir da família. Aí
aprendemos a nos relacionar como irmãos, a nos respeitar mutuamente, a acolher e ajudar a quem mais precisa, a participar dos diversos
serviços familiares e comunitários... Especialmente neste mês da Bíblia, podemos valorizar a importância da Palavra de Deus na igreja
doméstica, nos grupos de reflexão, nas CEBs...
– É triste constatar que, muitas vezes, seguimos a lógica dos ímpios: em nossas comunidades cristãs, existem divisões, invejas e preocupações egoísticas. Precisamos nos converter! Tiago nos orienta para seguirmos o caminho da “sabedoria que vem do alto”. Em outras palavras, é o próprio Espírito de Deus que nos é derramado, para que sejamos puros, pacíficos, conciliadores, indulgentes, cheios de misericórdia, imparciais, sem hipocrisia...
Celso Loraschi
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«Quem receber um destes meninos em Meu nome é a Mim que recebe»
Todos nós, cristãos, somos o corpo de Cristo e Seus membros, afirma o apóstolo Paulo (1Co. 12,27). Aquando da ressurreição de Cristo, todos os Seus membros ressuscitaram com Ele; passando dos infernos para a Terra, Ele fez-nos passar da morte para a vida. O termo «páscoa» em hebraico significa passagem ou partida. Ora, este mistério é o da passagem do mal ao bem. E que passagem! Do pecado para a justiça, do vício para a virtude, da velhice para a infância. Refiro-me à infância que está ligada à simplicidade e não à idade. Pois também as virtudes têm a sua idade própria. Ontem a decrepitude do pecado conduzia-nos ao declínio. Mas a ressurreição de Cristo faz-nos renascer na inocência das crianças. A simplicidade cristã torna sua a infância.
A criança não sente rancor, não conhece a fraude, não ousa bater. Assim sendo, esta criança que é o cristão não se exalta se for insultada, não se defende se for despojada, não devolve os golpes se lhe baterem. O Senhor exige mesmo que ela reze pelos seus inimigos, que entregue a túnica e o casaco aos ladrões e que ofereça a outra face aos que a esbofeteiam (Mt. 5,39ss).
A infância de Cristo ultrapassa a infância dos homens. [...] Esta deve a sua inocência à fraqueza, aquela à virtude. E ela é ainda digna de mais elogios: o seu ódio ao mal emana da vontade e não da impotência.
São Máximo de Turim (?-c. 420), bispo Sermão 58; PL 57, 363
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Quem receber uma destas crianças, em meu nome, é a mim que recebe! (Mc.9,37)
1. Que pontaria não tem a Liturgia ao propor-nos a escuta deste evangelho, e precisamente neste domingo, em que a nossa Igreja, se voltou a encher de tantas crianças, para mais um ano de catequese?! Recebemo-las, com imensa alegria, como quem recebe Jesus! Mesmo perante as dificuldades cada vez maiores, na arte de educar, e sobretudo de educar na fé, não faltam pessoas generosas, que desgastam a sua vida, junto das crianças, num trabalho educativo, que é, por certo, um dos maiores contributos, que se pode dar à construção de futuro melhor. E os educadores cristãos fazem-no, recordando que «quem recebe uma criança em nome de Jesus, é a Ele que recebe» (Mc.9,37)!
2. Mas, talvez muitos de nós, nos tenhamos convencido, demasiado depressa, que elas aqui vieram, para aprender uma doutrina, como se a fé fosse um curso. E que a nós, nos competirá exclusivamente instruir, ensinar, corrigir. Mas Jesus, no evangelho de hoje, parece trocar os papéis e dizer-nos que o caminho é outro: a educação, e mais ainda a educação da fé, não é um curso, que se dá ou se tira em alguns anos. É um percurso que se faz, em comum, e por toda a vida. Mais ainda, Jesus vem dizer-nos, que em cada criança, que se quer educar, há um mestre de sabedoria, de quem é preciso aproximar-se, e com quem é preciso aprender e caminhar contínua e conjuntamente.
3. Numa palavra: para educar uma criança, é preciso saber acolhê-la, recebê-la com amor. Não é fácil para nós, aproximarmo-nos realmente das crianças! O seu olhar e os seus gestos espontâneos desarmam-nos. Não lhes podemos falar dos nossos lucros, nem das nossas contas correntes. Não entendem os nossos cálculos e as nossas hipocrisias. Para nos aproximarmos delas, teríamos que voltar a apreciar as coisas simples da vida, aprender de novo a ser felizes, sem possuir muitas coisas, amar com entusiasmo a vida e todo o ser vivo. Na criança, espelha-se bem aquela sabedoria do alto, que é “pura, pacífica, compreensiva e generosa, imparcial e sem hipocrisia” (Tg. 3,17).
4. Por isso é bem mais fácil tratar a criança como um pequeno computador, que alimentamos de dados, do que aproximarmo-nos dela, para abrir os seus olhos e o seu coração a tudo o que é bom, belo e verdadeiro. É mais cômodo sobrecarregá-la de atividades escolares e extracurriculares, do que acompanhá-la, na descoberta da vida! Os próprios educadores correm hoje o risco de se converterem em «processadores de informação», mais do que em «mestres de vida». Só educadores, que sabem escutar as perguntas importantes da criança para lhe apresentar com humildade as próprias convicções, podem ajudá-la a crescer. Só educadores que sabem intuir a solidão de tantas crianças, para lhes oferecerem o seu acolhimento carinhoso e firme, podem despertar nelas o amor verdadeiro à vida. Talvez hoje, mais que nunca, «as crianças devem ter muita paciência com os adultos» (A. de Saint Exupéry), pois não encontram em nós a compreensão, o respeito, a amizade e o acolhimento que procuram.
5. E, especialmente, quando se trata de educar na fé, já “não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas da fé. Ora a testemunha é alguém que vive primeiro o caminho que propõe” (Bento XVI). E que sabe fazer caminho, com o outro, deixando que a fé, se torne companheira da vida de ambos! “Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela vida que não tem fim” (PF 15).
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“Tomando uma criança, colocou-a no meio deles (Mc.9,36)”!
I. Foi o regresso às aulas. Começa agora a Catequese. E, enquanto, pelas ruas, cada qual faz campanha “para ser o maior”, Jesus, ao invés, toma, como mestre e medida das nossas aspirações, uma criança. Colocada no nosso meio, apresenta-se e representa aquela grandiosa “sabedoria que vem do alto: pura, pacífica, compreensiva e generosa, imparcial e sem hipocrisia”.
II. Gostaria, por isso, neste início de ano escolar e catequético, sugerir aos pais e aos educadores cristãos “Dez palavras de Amor”. É um Decálogo, são dez palavras de guia e sabedoria, na arte parental de uma educação integral, até chegarmos todos à condição de discípulos, que aprendem como crianças, com as crianças e das crianças!
Assim: Caríssimos pais:
1º. Amareis os vossos filhos, sobre todas as coisas. Amá-los-eis, mais do que à vossa profissão, mais do que ao vosso nome, mais do que ao vosso tempo. Os vossos filhos não são vossos. Eles são filhos e filhas do chamamento da própria Vida, que vem de Deus. Embora estejam convosco, são tesouro que não vos pertencem.
2º. Não invocareis em vão o nome de pai ou de mãe, para ditar, exigir e mandar. Sabereis que a verdadeira autoridade passa mais pelo modo como viveis e pelo que fazeis, e não tanto por aquilo que ordenais e dizeis.
3º. Sabereis guardar e respeitar, para vós e para os vossos filhos, o descanso necessário ao refazer das energias, espirituais e físicas. Sabereis então que ler e jogar, dormir e brincar, passear e conversar, praticar desporto ou viajar, rezar e celebrar, são tão necessários, como comer, estudar e trabalhar.
4º. Honrareis o vosso papel irrenunciável e insubstituível de pai e de mãe. Primeiros e principais educadores, tendes uma função de tal peso, que a não existir, dificilmente poderá ser suprida. Vereis nos professores e demais educadores, verdadeiros colaboradores e amigos, e jamais vossos concorrentes, criados ou substitutos. Conhecei-os e reconhecei-os!
5º. Fareis da vossa família o habitat natural da vida humana! Sereis testemunhas, pela vossa entrega, de que não há maior prova de amor, do que dar a vida; cultivareis, deste modo, nos vossos filhos, o mesmo amor e apreço, pela beleza da vida! 
6º. Criareis um clima de amor e afectividade, sem excluir da ternura a disciplina e o esforço da integridade. O ambiente familiar, animado pelo amor, é a atmosfera educativa por excelência.
7º. Não furtareis aos vossos filhos o tempo para o diálogo, nem os comprareis por um par de prendas ou de promessas. O amor gratuito, a atenção ao outro, o respeito por cada um, a partilha dos bens, o sacrifício pessoal em benefício dos outros, a prática do diálogo e do perdão, serão a grande escala e escola dos valores da vida em comunhão e em comunidade.
8º. Não vos enganareis a vós próprios, ignorando a verdade a respeito dos vossos filhos. Acompanhareis ativamente a sua vida escolar e pessoal, partilhando saberes e informações, experiências e inquietações, promovendo o diálogo com outros agentes, educadores e instituições.
9. Sabereis fomentar o valor da amizade e o respeito pela intimidade, sem deixar levantar o véu do pudor, que resguarda o corpo do seu mistério! Educareis para a paciência da espera, na partilha inseparável de corpo e alma.
10. Não cedereis à tentação de transferir as vossas responsabilidades para outras pessoas ou comunidades educativas, mesmo que delas preciseis, e a elas devais recorrer, para cumprir cabalmente a vossa missão.
III. Sobretudo e, finalmente, insisto em que nos deixemos educar, aprendendo como crianças, com as crianças e das crianças. Por que eles são, na sua douta ignorância, uma verdadeira escola de sabedoria evangélica.
Quem não lembra os versos de uma poesia, que cantava assim: “Menino, queres seu mestre”? E continuava: “Contigo tinha tanto que aprender: A ser casto, sem querer; a ser bom, sem o saber; a ser alegre, sem ter motivos para o ser”. E desafiava-nos de novo: “Menino: queres ser meu mestre? - Deixa o teu arco aí. Vem-me ensinar a sorrir e a confiar; a ter esperança e a perdoar; a esquecer e a chorar... Menino, que brincas no jardim: - Tu sim, podias ser um mestre para mim”!


1. “Olá”, a famosa marca de gelados, resolveu aquecer o já escaldante Verão deste ano, com uma engenhosa publicidade aos sete pecados mortais. Não obviamente para os combater. Mas para assim estimular e aquecer todo o nosso voraz apetite e insaciável prazer. Pois, - já se sabe - nada como lembrar o “fruto proibido” para o tornar ainda “mais apetecido”. Eis que apareceram então os gelados, em sete sabores, segundo os sete pecados mortais, cuja lista já tínhamos esquecida. Em teoria, mais pela fraqueza da memória. Não infelizmente por falta de prática. A Catequese poderá ficar para sempre agradecida à publicidade, ao menos porque a imagem dos gelados, manterá bem fresca, por muito tempo, a memória dos sete pecados mortais. Já agora, mesmo sem o sabor fresco do gelado, aqui ficam apenas para prevenir e saber os sete pecados mortais: “a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça” (CIC 1866).
2. Estes sete pecados, tem esta designação ou categoria de «mortais» ou «capitais», porque – diz o Catecismo – “são geradores doutros pecados e doutros vícios” (CIC 1866). Ou, como diz o Povo, “um mal nunca vem só”. E basta cair num deles, para arrastar consigo mais uma legião de desgraças.
Jesus, no evangelho de hoje, diagnostica, no coração dos discípulos, um tumor maligno, para o extirpar sem demora. E “eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior”. Nem precisamos de melhor comentário do que o São Tiago na 2ª leitura: “onde há inveja e rivalidade, também há desordem e toda a espécie de más ações”. E também ele vai à raiz do tumor: “De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois invejosos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras”. Se Jesus contrapunha e esta lógica saloia do poder a sabedoria da Cruz, São Tiago tira os seus ouvintes da lama, para lhes abrir o apetite pela “sabedoria que vem do alto: pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e de boas obras, imparcial e sem hipocrisia”. E conclui: “o fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz”.
3. Os Bispos Portugueses fizeram também um diagnóstico à vida da nossa sociedade portuguesa. E identificaram algumas atitudes e linhas de comportamento, a que chamaram de “pecados sociais”. E denunciaram-nos com clareza, numa lista de sete (que podeis ler na folha dominical):
* “os egoísmos individualistas, de pessoas e de grupos, sem perspectiva do bem comum mais global”. Soberba, avareza, chamem-lhe o que quiserem!
* “o consumismo, que gera clivagens entre ricos e pobres e gera insensibilidade a valores espirituais”; eis o outro nome da gula;
* “a corrupção, que se exprime em formas perversas, violadoras da dignidade humana e da consciência moral pelo bem comum”; este é um «buraco» sem fundo, onde se esconde a luxúria, a gula, a inveja e até a preguiça de quem quer ganhar sem trabalhar;
* “a desarmonia do sistema fiscal, que sobrecarrega um grupo, e pode facilitar a irresponsabilidade no cumprimento das justas obrigações”;
* “a irresponsabilidade na estrada, com as consequências dramáticas de mortes e feridos, que são atentado ao direito à vida, à integridade física e psicológica, ao bem-estar dos cidadãos e à solidariedade”; quem disse que a culpa é só do traçado!
* “a exagerada comercialização do fenômeno desportivo, que tem conduzido à perda progressiva do sentido do «jogo» como autêntica atividade lúdica, e a falta de transparência nos negócios que envolvem muitos sectores e profissionais dalgumas áreas do desporto”. A bola é redonda. E deixem começar o europeu, para verem como é de neve;
* “a exclusão social, gerada pela pobreza, pelo desemprego, pela falta de habitação, pela desigualdade no acesso à saúde e à educação, pelas doenças crônicas, e que atinge particularmente as famílias mais carenciadas, as crianças e as pessoas idosas, e determinados grupos sociais”.
É claro que “estes «pecados sociais» têm a sua origem primeira no coração da pessoa, quando exclusivamente fechada no seu egoísmo, sem qualquer abertura aos outros seres humanos”. Para contrariar ou combater estes pecados sociais exige-se “a educação nos valores, o gosto do bem comum, a generosidade como atitude social, a paixão por um Portugal melhor” (cf. C.E.P., Carta Pastoral «Responsabilidade solidária pelo bem comum», ns.4-5).
4. É, de fato, um grande milagre que se espera. Não graças à varinha mágica dalgum ministro ou ministra, do governo ou da Igreja, mas graças à dignidade e ao esforço de cada um, a começar pelo lugar onde está.


1. Aprender a lição da Cruz...
Há muito que andavam com Jesus. Jesus queria instruir os discípulos. Mas a lição da Cruz estava ainda por aprender. Enquanto Jesus lhes aponta a sua anulação na Cruz, a sua entrega e a sua ressurreição na morte, eles vão discutindo os lugares importantes, os poderes, as promoções, os títulos... numa palavra «qual deles era o maior»! Jesus na lógica da cruz, eles na lógica do poder! Jesus percebe-lhes a ambição do «tacho», que eles imaginavam num futuro reino onde Ele fosse o Messias triunfal. Jesus dá até  a cada um o direito de ser o maior, mas inverte o caminho para lá chegar: o do serviço. Reina mais quem serve melhor! «Quem quiser ser o primeiro há-de ser o último e o servo de todos»!
2. Para dominar o ímpetos das paixões...
Imaginamos o calor da discussão e as paixões acesas no seio do grupo, a propósito de quem ocuparia o primeiro lugar. Quem substituiria o chefe, quem conquistaria a direção do grupo, quem controlaria o «aparelho do poder»! É a «corrida ao tacho», o estar à frente das coisas, sem o sentido dos outros e sem a dimensão do serviço. Afinal, um mal tão generalizado na vida civil e mesmo no seio das comunidades cristãs. Já rolam cabeças nos partidos em vista da próxima contagem de votos, já se afinam os apitos para ganhar o campeonato, já se apontam nomes para substituir o chefe... Luta-se por causa dos lugares e não por causa dos serviços. «De onde procedem os conflitos entre vós?...Não é precisamente das paixões que lutam em vossos membros»? Pergunta S.Tiago. «Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois ciumentos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras»! Depois é o que sabe: por cima de tudo e de todos...para estar em cima e ter o primeiro lugar...
3. ...e servir no amor!
Neste princípio de ano escolar, laboral e pastoral, eis uma boa pergunta: que me faz caminhar, que me move no trabalho que faço? O serviço humilde aos outros ou a aspiração a um escalão superior, a um «tacho» que me promova? O exercício da autoridade como um serviço à harmonia e ao bom funcionamento das instituições ou uma poltrona de superioridade? O aperfeiçoamento no trabalho, a minha entrega às coisas e às pessoas é motivada pelo bem-querer aos outros ou por uma estratégia de campanha a caminho do poder? Vai bem quando queremos ser os maiores, os mais perfeitos, os mais competentes... Vai mal quando estas coisas não nascem de um radical sentido de serviço aos outros...Nisto de servir, mais ainda de «servir em Igreja», cada um se prepare para morrer...para perder...para se consumir, para se «gastar» pelos outros. Porque em Igreja não há «diuturnidades» nem subida de escalão. Serve-se mais quando se ama mais. Seja onde for, ninguém procure o «tacho» se realmente não quer fazer do seu coração uma «sucata de desejos»! Até nisto as crianças nos ensinam! Simples e humildes!

1) O rosto do Messias se revela progressivamente ao longo de toda a Revelação no Antigo Testamento com características humanas que reenviam ao divino presente n´Ele, como bem explica o Profeta Isaias “conservei o rosto impassível como pedra” (5,7) e o Livro da Sabedoria “Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus”, Deus o defenderá” (2,18).
E nós, dignificados pela plenitude da Revelação in Cristo, somo ajudados a conhecer melhor este rosto renunciando a nós mesmos e tomando a Cruz (cfr. Mc. 8,34).
Surge espontânea a pergunta: porque a Liturgia nos apresenta frequentemente o sofrimento associado com a figura do Messias?
A razão é simples: porque possamos ter uma experiência de fé fundamentada não numa idéia de um Messias triunfalistico e “mítico”, mas numa participação do Filho de Deus à realidade humana em particular ao sofrimento, revelando-nos assim o mistério que acompanha este elemento não secundário da existência humana.
Sempre acompanhados pelo Livro da Sabedoria, podemos ver que o mistério da iniqüidade é baseado no homem mesmo: “Os ímpios dizem: ‘Armemos ciladas ao justo... vamos condená-lo à morte vergonhosa” (Sb. 2,12.20).
No Antigo Testamento a resposta de Deus às perguntas do homem sobre o sofrimento é: “Deus não fez a morte nem goza pela ruína dos viventes” (Sb. 1,13); “Tua maldade te castiga e as tuas rebeliões te punem” (Jr. 2,19).
2) No Novo Testamento o mesmo mistério da iniqüidade – de forma extensa visível nas guerras – encontra sua origem sempre no homem: “De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito entre vós?” (Tg. 4,1). É na morte de Cristo que o mistério da iniqüidade será revelado como a expressão da máxima oposição contra Deus Senhor da vida: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará” (Mc. 9,32).
Não devemos pensar que o mistério da iniqüidade seja totalmente alheio da natureza humana; ao contrario, coloca suas raízes no coração do homem quando ele pensa no próprio poder sobre os outros.
Jesus afasta de nós esta tentação, já presente nos discípulos que “pelo caminho tinham discutido quem era o maior” (Mc. 9,34).
As palavras de Jesus são: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc. 9,35).
É a graça e a nossa docilidade para ela que vencem a iniqüidade com aquela pureza de coração que Jesus exige de nós: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou” (Mc. 9,37).
padre Ausilio Chessa
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Depois da cena da transfiguração e da cura dum epiléptico endemoninhado, Jesus caminha através da Galileia. Quer estar longe das multidões pois tem o propósito de continuar a ensinar os seus discípulos.
O ensino começa, uma vez mais, com um anúncio da paixão, na linha do primeiro (8,31) que foi proclamado no Domingo passado, mas com a nota fundamental de que «será entregue nas mãos dos homens», numa linguagem verbal passiva que tem como sujeito o próprio Deus: «Deus vai entregar».
Tal como Pedro não compreendeu o 1º anúncio, agora é todo o grupo que não compreende, apesar da clareza com que Jesus fala. Recusam-se a aceitar o projeto de Deus para o Messias, que deve passar pelo sofrimento e pela morte. Não fazem objeções, lembrando-se da resposta de Jesus a Pedro, mas discordam completamente no seu íntimo.
«Que discutíeis pelo caminho?». Agora em casa, provavelmente de Pedro, Jesus tem oportunidade de, serenamente, continuar a ensinar. O evangelista Marcos refere o motivo da discussão: qual deles seria o maior.
Esta discussão insere-se perfeitamente na lógica dos judeus da época, com os seus esquemas bem definidos de hierarquias, na sociedade, nos banquetes, nas sinagogas. Sendo assim, no reino do Messias eles, que tinham sido escolhidos por Jesus, iriam ter a predominância. Mas qual a ordem entre eles? Quem era o primeiro?
A lição de Jesus é esclarecedora: na nova comunidade o primeiro lugar é para aquele que serve. Quando todos estão ao serviço uns dos outros, então estarão ao mesmo nível, em primeiro lugar. E este serviço deve ser prestado aos mais pequenos, aqui representados numa criança, sujeito sem direitos nem lugar na comunidade judaica enquanto aos 12/13 anos não se tornasse membro efetivo do Povo de Deus pela cerimônia do bar mitzvah.
Para não haver dúvidas, Jesus apresenta-se, a si mesmo e ao Pai, como identificados com os mais pequenos e no serviço a eles prestado.
padre Franclim Pacheco
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A liturgia deste XXV Domingo do Tempo Comum nos convida a celebrar a Eucaristia para fazer memória da ação de Jesus e vivenciá-la e testemunhá-la em nossas atividades cotidianas, pois a presença do justo sempre incomoda os perversos e corruptos. Como discípulos de Jesus, somos chamados a tomar posição, em meio aos conflitos sociais, em favor do direito e da justiça e pôr-nos a serviço de todos, principalmente os empobrecidos, sem ambicionar honrarias, uma vez que a inveja e a rivalidade são causas de muitos males na comunidade. É por isso que, neste domingo, Jesus anuncia novamente a sua paixão e convida a cada um de nós para a humildade e o serviço.
Jesus, com seus discípulos, havia ampliado sua missão aos territórios gentílicos vizinhos da Galileia, tendo chegado bem ao norte, próximo a Cesareia de Filipe. A partir daí, decide dirigir-se a Jerusalém, ao sul, para proclamar a sua Boa-Nova aos peregrinos que ali chegavam em vista de participar da festa judaica da Páscoa, que se aproximava. Com este propósito Jesus e os discípulos atravessam novamente a Galileia. 
Neste contexto, as narrativas de Marcos marcarão o contraste entre a mentalidade dos discípulos e a novidade de Jesus. Os discípulos esperavam de Jesus ações de poder e glória terrena, o que chocava com a proposta do próprio Jesus de humildade e serviço, com a doação da própria vida. 
Jesus pressente a repressão e o fim que o esperam em Jerusalém, onde será posto à prova pelos chefes religiosos do Templo. No caminho para a cidade, prepara os discípulos para suportarem o possível desfecho trágico. Assim, fala a eles sobre o Filho do Homem, referindo-se a si mesmo, que será entregue e o matarão. Jesus já havia advertido os discípulos sobre tal expectativa quando tentava desfazer a compreensão de Pedro de que ele seria um messias poderoso e glorioso, conforme o 1º anúncio da paixão que vimos no domingo anterior. E, ainda, repetirá, novamente, sua advertência quando já se aproximavam de Jerusalém, o que, de acordo com a liturgia de 21/10, caracterizará o 3º "anúncio da Paixão". 
Com isto Jesus expressa sua fragilidade diante dos poderosos deste mundo, descartando qualquer competição pelo poder. Desta forma, completa-se com a menção da ressurreição, aludindo ao dom da vida de amor que não se extingue, porém os discípulos não compreendem e têm medo de perguntar. 
Importante ressaltar que os discípulos estão fixados na ideologia do messias poderoso, um novo Davi que restauraria o reino de Israel, e, esperando de Jesus a ascensão ao poder e, nesse sentido, eles disputam qual seria, então, o maior, isto é, quem ocuparia os cargos mais importantes.
Essas atitudes são como anseios antagônicos à proposta de Jesus que provocam conflitos na comunidade e, de maneira mais ampla, conforme nos ensina a segunda leitura, no mundo, onde os ímpios ambiciosos da riqueza e do poder fazem a guerra e semeiam a morte, tornando-se loucos e frustrados. A vida do ímpio, o qual reprime e mata o justo, pelo qual se sente ameaçado, é bem retratada no capítulo 2 do livro da Sabedoria, de onde foi extraída a primeira leitura da liturgia de hoje. 
Vejam que Jesus chama os Doze e, inverte os critérios de competição e reafirma a característica essencial do Reino: a humildade e o serviço como concretização do amor. É neste amor que está a realização e a grandeza de cada um. O gesto de pegar uma criança e abraçá-la, com carinho, significa que Jesus está se identificando com ela.
A criança, do ponto de vista de uma sociedade de eficiência e produção, é considerada inútil e marginalizada. Mesmo assim, Jesus convida a todos a se tornarem crianças, na humildade, na simplicidade, na fraternidade e na abertura para o novo, com esperança e alegria, e, ao fazermos esta opção, estaremos acolhendo Jesus e entrando em comunhão com Deus.
Oração
Senhor, meu Deus, tira do meu coração os ideais mundanos de glória, e coloca-me no verdadeiro caminho para ser glorificado por ti, fazendo-me servidor de todos.
diácono Miguel A. Teodoro
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O livro da Sabedoria recolhe a experiência dos profetas de Israel e apresenta a pessoa “justa” como o modelo de sabedoria. O modelo de piedade não é a pessoa que realiza muitos sacrifícios ou que segue, com elegância e delicadeza, todos os pormenores dos ritos litúrgicos. A pessoa ideal é a que vive a justiça e mostra com suas obras que é possível realizar a vontade de Deus neste mundo.
Porém, ainda que este seja o caminho autêntico e querido por Deus, nem por isso é tão simples de ser realizado. A oposição não se faz esperar. Inclusive, no interior da família ou do círculo de amigos. O que toma o caminho da justiça, logo se dará conta de que viaja em companhia de poucas pessoas.
A carta de Tiago coloca, de forma simples e eficaz , a ambição como a causa dos conflitos na comunidade cristã. Com efeito, ninguém rouba, ninguém assassina nem arruína a vida alheia se não é movido por algum tipo de ambição. A ambição se manifesta no desejo de ser mais forte que os demais, de ter mais capacidade econômica, de assegurar esta vida e a outra.
O problema é que as pessoas que pensam assim, começam a ver o resto do mundo como obstáculo a ser eliminado ou como uma ponte de passagem. Porém, o problema de tais condutas, animadas e patrocinadas pela sociedade, está em que se constituem em ideais de vida, inclusive de pessoas que se proclamam cristãs. A carta de Tiago nos convida a colocar todas essas idéias ao clarão da luz a passar pela inequívoca peneira do evangelho. A cobiça, o prestigio e o poder podem nos conduzir por caminhos sem regresso e podem nos afastar do cristianismo de maneira irreversível, ainda que sejamos considerados cristãos e freqüentemos a missa todos os dias.
No evangelho de Marcos, o “caminho” representa o itinerário de formação de um bom discípulo. Jesus não quer um grupo de fanáticos que cantem vivas a seu nome, mas um grupo de pessoas responsáveis que sejam capazes de assumir seu projeto. Por esta razão, seus esforços se concentram no ensinamento de seus seguidores. Porém, a instrução parte dos desacertos e das respostas erráticas que eles vão dando ao longo do trajeto para Jerusalém. Jesus deve superar o medo cultural que invade seus discípulos e que os impede de dirigir-se a seu “Mestre” com toda confiança.
Para isto utiliza uma estratégia pedagógica muito criativa. Retoma a discussão dos discípulos; eles estavam concentrados, não no ensinamento de Jesus, mas na partilha dos cargos burocráticos de um possível governo e reconduz a discussão tomando como exemplo um fato da vida diária. A “criança” era uma das criaturas mais insignificantes da cultura antiga. Por sua estatura e idade, não estava em condições de participar da guerra, nem da política ou da vida religiosa. Jesus coloca uma dessas crianças no meio deles e mostra como o presente e o futuro da comunidade está em colocar no centro, não as próprias ambições, mas as pessoas mais postergadas e simples.
Somente assim se consegue reverter o sistema social de valores. E somente assim a comunidade é uma alternativa ante o “mundo”, que já sabe colocar no centro as pessoas de posses. A novidade de Jesus consiste em tornar grande quem é pequeno, doméstico ou insignificante. Isto que Jesus revelava, como um paradoxo, era muito serio: Jesus identificava sua própria sorte, e a de Deus, com a sorte das crianças, que não têm direitos nem quem olhe por elas; como parte dos últimos, os desprezados, os não tidos em conta. Porque na verdade esses pequenos se identificavam com o próprio Deus. Aliás, Deus se colocou ao seu lado, e assumiu sua causa como própria. Por isso dizia que todo serviço realizado em favor deles era feito a ele mesmo e ao Pai. Novamente invertia a hierarquia de valores da sociedade, ou, dependendo do ponto de vista, colocava a hierarquia de valores no seu justo lugar.
Uma sociedade que olha somente de cima, ou as decisões são tomadas pelos que estão no topo da pirâmide, ou ainda em vista dos interesses dessas mesmas pessoas, não garante nem o Reino nem a Vida. A Vida somente pode sobreviver em um mundo em que os de baixo sejam considerados e os que não tem direitos, sejam resgatados em sua dignidade.
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“Quem acolhe um destes pequeninos, é a mim que acolhe!”
No Evangelho de hoje Jesus nos fala dos verdadeiros valores do Reino de Deus. Jesus está a caminho de Jerusalém, não para conquistar um reino deste mundo, mas para dar a sua própria vida.
No entanto, seus discípulos não conseguiam entender essa dura realidade. Não só os apóstolos, mas todo povo tinha uma idéia totalmente errada sobre Jesus. Ninguém conseguia entender porque Jesus tinha que ser entregue aos inimigos e morto por eles.
Os discípulos não entendiam as palavras de Jesus e tinham medo de pedir-lhe explicações. É fácil entender porque não o compreendem; o tipo de Messias anunciado por Jesus está muito longe daquele imaginado pelo povo.
Os doutores da lei ensinavam que o Filho de Deus não morreria jamais, que triunfaria sobre todos inimigos... Como então aceitar uma derrota e, o que é pior, aceitar a sua morte?
O evangelista faz questão de observar que os apóstolos não tinham coragem de fazer nenhuma pergunta, nem sugerir mudanças. Certamente não o faziam, pois conheciam muito bem o Mestre, sabiam que Jesus falava sério e não aceitava desviar-se, nem um milímetro, dos planos traçados pelo Pai.
Quantas vezes nos fazemos de desentendidos ou não queremos entender as propostas de Jesus. Lutamos por colocar em evidência as nossas propostas de vida e de interpretação do evangelho, conforme nossos interesses.
Quantas vezes agimos exatamente como os discípulos de Jesus. Com tantas coisas para nos preocuparmos, e ficamos nos questionando quem será o primeiro, quem é o maior no trabalho, no lar, na comunidade, nos movimentos e pastorais?
A tentação do prestígio e do poder é tão forte que se manifesta em todos os lugares, por isso pode se manifestar, até mesmo, na Igreja e nos ambientes mais santos que conhecemos. Esquecemos que a autoridade, a liderança, tem que ser manifestada através do serviço, através de obras.
Jesus nos mostra que no Reino de Deus, os valores são invertidos. O maior é o menor. O primeiro é o último, é aquele que se coloca a serviço dos irmãos. A autoridade só pode ser reconhecida se for útil para a comunidade.
Colocar-se em último lugar, como manda Jesus, não significa esconder-se, fugir dos compromissos sociais e religiosos, muito menos fechar os olhos ou fingir que não vê as falcatruas e injustiças do dia a dia.
A característica do seguidor de Jesus é a humildade. Colocar-se em último lugar é a atitude do cristão que entendeu a mensagem do Mestre e a traduz com transparência em sua própria vida.
Jorge Lorente
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"O que discutíeis pelo caminho?"
EM NOSSA ORAÇÃO, nós pensamos muitas vezes que devemos agradecer a Deus e lhe fazer pedidos, confiar-lhe nossas vidas e a vida de nossos irmãos e irmãs...tempo de meditação, tempo de oração, partilha de nossas intenções. Eis que hoje Jesus nos propõe, ele mesmo, uma pista que pode ser seguida durante todo o dia e todos os dias. Responder à questão que ele nos coloca: "O que discutíeis pelo caminho?"
Jesus se aproxima de nós, como o fez com os discípulos de Emaús, aos quais ele propõe a mesma pergunta. E nós descobrimos que nossas conversas ( e pensamentos) não giram unicamente em volta de temas os mais nobres como o do amor de Deus, do serviço ou da generosidade...mas, muitas vezes, sobre conflitos entre nós, invejas e rivalidades...
E aí, pista nova?! É a hora de encontrar pista nova para retomar a boa direção, escolher novamente tornar-se promotores da paz e reencontrar o espírito de serviço. E mais ainda, palmilhar o caminho do acolhimento.
Jesus ajunta, além do mais, o gesto à palavra, quando colocou uma criança no meio deles...A criança, no evangelho, é sempre o símbolo da simplicidade e do amor espontâneo que ela suscita.
Se esta atitude se torna nossa atitude, não há dúvida que nossos corações se deixarão transformar, nossas conversas quotidianas se purificam e assim reencontraremos também o caminho da doçura.
Nossa oração será simplesmente o acolhimento de Jesus, que se ajunta a nós no quotidiano de nossa vida.
tradução "Prions en Église”
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Fazer-se pequeno
E impressionante a longa e árdua paciência que Jesus teve de empregar para formar seus doze apóstolos e torná-los aptos para serem os mensageiros que iam ser para implantar o Evangelho no mundo. Não só a notícia do Evangelho, mas sobre tudo o seu espírito. Eles eram homens muito simples e rudes. E isso não era um mal, pois era o bom terreno da humildade, que oferecia a base para, se erguer o edifício da santidade. O pior era que tinham grosseiros ciúmes e ambições a respeito dos lugares que iriam ocupar no Reino que Jesus anunciava. Aliás desse Reino tinham idéias muito confusas. Um dia a mãe de João e Tiago pediu ao Mestre que Ihes desse um lugar de honra no seu reino, fazendo-os sentar um à sua direita e outro à sua esquerda. Traduzindo isso em termos de hoje, queria mais ou menos que um fosse o ministro da justiça e outro o ministro da economia.
Essas preocupações e discussões sobre lugar no reino aparecem muitas vezes entre eles. Até na última ceia aparece ainda o problema, quando Jesus Ihes dá uma belíssima lição doutrinal (Lc. 22,25-27), acompanhada da sublime lição prática, que foi a de lavar-Ihes os pés: "Ele o Mestre e Senhor" (Jo 13,4-20). Pois bem, certa vez que Jesus atravessava a Galiléia, numa viagem muito discreta, já a caminho de Jerusalém, abriu-Ihes mais uma vez o coração para falar-lhes de sua paixão que se aproximava: "O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e lhe darão a morte, e, depois de morto, ressuscitará ao terceiro dia" (Mc. 9,31). Eles, porém, não queriam entender dessas coisas. E discutiam entre si pelo caminho. Quando chegaram a Cafarnaum, Jesus Ihes perguntou sobre que discutiam pelo caminho. Emudeceram diante da grandeza de Jesus. Como iria ter coragem de lhe declarar o assunto
sobre o qual tinham discutido? Jesus os toma à parte e Ihes dá uma rica lição de espírito de humildade e de serviço, que ilumina para sempre
os caminhos dos seguidores do Evangelho: " Aquele que quiser ser o primeiro, seja o último e o servidor de todos" (Mc. 9,35). E completou com um gesto simbólico - uma parábola em ação: Tomou uma criança, colocou-a no meio da roda, e disse: "Quem receber a um destes pequeninos em meu nome, é a mim que recebe; e quem recebe a mim,
não é a mim que recebe, mas àquele que me enviou" (vs. 36 e 37). E bom lembrar que, mesmo que não se tratasse de uma criança desvalida - o que não era improvável - no mundo de Israel não se dava nenhuma atenção às crianças. Estavam longe da atenção que em nosso século XX se dá a elas. Elas eram naquele tempo - como alguém comentou
numa comparação muito caseira - pouco mais que a criação que crescia no quintal.
Aí está a filosofia do Evangelho. Não procurar os primeiros lugares, não alimentar a ambição do prestígio, do dinheiro, da fama, da dominação dos outros. E pôr-se a serviço de todos, sobretudo dos mais pequeninos. Bem diferente dessa sociedade em que vivemos mergulhados! Mal se encontra alguém que, ao escolher uma profissão, esteja pensando em servir à comunidade. A lei que impera é a ambição do dinheiro, dos cargos honrosos, do prestígio e do fazer carreira. Dificilmente se encontrará um político que, ao disputar eleições, tenha em mira o bem público, o serviço do país. O que se encontra é quase sempre o jogo das ambições em benefício pessoal.
Donde nascem com freqüência as eleições maculadas pelo peso do dinheiro. Tudo isso está infinitamente longe do Evangelho!
É preciso olhar o exemplo de nosso divino Salvador, que fundou a Igreja com sua palavra e com seu sangue.
Ele, que era Deus verdadeiro, não se apegou ciosamente a sua dignidade divina. Esvaziou-se de sua grandeza, e se fez servo, obediente até à morte. E pôde deixar para nós sua grande lição da noite da última ceia. Depois de lavar humildemente os pés a seus apóstolos, disse-Ihes: "Eu vos dei o exemplo, para que, assim como eu fiz, vós também façais" (Jo 13,15). Mesmo fora do cristianismo, os que são sábios descobrem o valor do serviço. Como disse elegantemente o poeta hindu Tagore: "Dormi e sonhei que a vida era alegria. Acordei e vi que a vida era serviço. Servi' e descobri que o serviço era alegria".
padre Lucas de Paula Almeida, CM
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O Maior
Com freqüência, as pessoas se deixam levar
pela "sabedoria do mundo" e lutam com todas as forças
para conseguir prestígio e poder...
Essa busca provoca muitos conflitos...
- O que nos diz a "Sabedoria de Deus"?
A 1a Leitura apresenta a atitude permanente do "ímpio" contra o "justo".
Sua presença, suas repreensões e sua conduta são incômodas...
Por isso, o condenarão com uma morte ignominiosa... (Sb 2,12.17-20)
Acena para a "morte vergonhosa" do Messias.
No século 1º aC, os judeus praticantes de Alexandrina são
hostilizados pelos pagãos e desprezados pelos judeus não praticantes.
Isso provocou muitos conflitos entre eles.
O autor sagrado reflete sobre o destino dos "justos" e dos "ímpios".
No Evangelho Jesus anuncia sua paixão e morte e
dá a seus discípulos uma lição de humildade e serviço.
Servir os pobres e as CRIANÇAS é servir o Senhor. (Mc 9,30-37)
- Ao longo da "Caminhada para Jerusalém", Jesus vai catequizando os discípulos, ensinando-lhes que o projeto do Pai não passa por esquemas de poder e de domínio:
Jesus faz o 2 º Anúncio da Paixão.
- Os Apóstolos não concordam e fecham-se num estranho silêncio:
"Tinham medo de interrogá-lo..."
Logo a seguir, surge uma animada discussão, um forte conflito,
que revela a ambição de poder nos discípulos de Jesus…
- Chegando a Cafarnaum, Jesus questiona o assunto da conversa:
"O que vocês estavam discutindo no caminho?"
- E eles: "Ficaram calados, porque no caminho tinham discutido quem seria o maior".
Jesus aponta o CAMINHO para ser o maior... :
1) Em primeiro lugar, o espírito de SERVIÇO...
"Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos".
* A Comunidade cristã não o lugar apropriado para alcançar um posto de honra ou um lugar de prestígio e poder.
É o lugar onde cada um deve celebrar a própria grandeza, servindo os irmãos.
Só é grande quem é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos.
- O que isso significa em nossa comunidade?
2) Em seguida, aponta o Modelo da CRIANÇA:
"Pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a, disse:
Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que estará acolhendo..."
* Ser grande no Reino é ser pequeno e servir os pequenos.
O discípulo é grande, não quando tem poder ou autoridade sobre os outros, mas quando abraça os pequenos, quando acolhe os carentes, os marginalizados, oprimidos, injustiçados e por eles se interessa.
- Quais são as crianças (ou "como crianças") que devemos abraçar?
+  Os conflitos continuam...
E Cristo nos questiona: "Por que estais discutindo?"
Na Sociedade competitiva, em que vivemos, desde pequenos nos passam a idéia de que, se não tivermos beleza, inteligência, riqueza, simpatia, nunca conseguiremos sucesso na vida.
- O que admiramos numa criança:
o poder, a riqueza, a sabedoria humana, ou a simplicidade, a transparência?
Na família?
- Há divisões, conflitos… ciúmes… separações… Por que?
Quando um ganha, os dois perdem!... Não há vencedores...
Na Comunidade?
- Também há discussões, críticas, ambições, rivalidades?
- Por que? Onde está a raiz de tudo?
- Desejo consciente ou inconsciente de ser o MAIOR?
- Busca de cargos, títulos, honrarias ou elogios?
São Tiago, na 2a leitura, denuncia a desunião na sua comunidade e aponta a raiz de tudo isso:  
"Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda a espécie de obras más…"  (Tg. 3,16-4,3)
Uma oração realizada nesse clima não pode ser escutada por Deus...
+ Na comunidade cristã, quem são os primeiros?
As palavras de Jesus são claras:
"Quem quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos".
- Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos.
- Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social... - Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos.
Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir e de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.
* Qual é o tipo de grandeza que estamos procurando?
* Aos olhos de Deus, ou apenas aos olhos dos homens?
padre Antônio Geraldo Dalla Costa
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O Filho do Homem vai ser entregue...
Se alguém quiser ser o primeiro que seja o último de todos.
“Jesus não queria ser visto por ninguém, porque estava ensinando seus discípulos.” Jesus tinha a preocupação de ensinar os seus discípulos. A maioria do seu tempo ele dedicava à formação deles; explicava as parábolas, respondia às questões, dava bronca às vezes, tudo para ensinar.
Veja o que diz este mesmo evangelista Marcos: “Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas, de acordo com o que podiam compreender... Mas, quando estava a sós com os discípulos, lhes explicava tudo” (Mc. 4,33-34).
O Papa Paulo VI, quando esteve em Medellin, na Colômbia, em 1968, participando da Segunda Conferência do Episcopado latino americano, disse que o futuro da Igreja da América Latina está na formação dos líderes cristãos. Hoje, quarenta e um anos depois, a formação dos líderes cristãos continua sendo importantíssima. Depois de conscientizados e preparados, os cristãos e as cristãs passam a ser fermento na massa, atuando nas pastorais, na política e nas mais variadas organizações sociais.
Jesus era franco e claro, na formação aos discípulos. Ele não “passava mel” na boca de ninguém: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão, mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”. Os discípulos não entendiam essas palavras, mas suspeitavam de algo completamente ao inverso da imagem que tinham do Messias, por isso sentiam medo.
Em seguida, durante a caminhada, os discípulos discutiam quem era o maior. Eis aqui a melhor prova de que não tinham entendido nada mesmo. Enquanto Jesus falava de um Messias sofredor, eles discutiam quem estava acima dos outros!
Ao ver isso, mais uma vez Jesus foi claro: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” E apresentou a criança como modelo para eles, devido à sua simplicidade e humildade.
Que paciência a de Jesus, tentando educar seus discípulos, com tão desanimador resultado! Entretanto, essa visão triunfalista do Messias e do Reino fundado por ele era a visão do todos os judeus. Só após Pentecostes é que entenderam o “espírito da coisa”.
Uma boa formação dos líderes cristãos ajuda-os a se aproximar dos mistérios de Deus, especialmente do mistério da cruz. E isso lhes dá a chave para entender e combater a ambição que reina na sociedade levando-a a todo tipo de pecado.
Agora, a formação dos cristãos é um trabalho lento, que só produz fruto a longo prazo. É preciso ter paciência. Por exemplo, se perguntarmos para um líder mais velho, de quem ele aprendeu todas as coisas bonitas que sabe, ele ou ela vai citar, provavelmente, alguém que já morreu.
“A cada um o Senhor deu sua tarefa: eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer” (1Cor 3,5-6). Não podemos visar frutos imediatos na formação dos líderes; precisamos pensar longe, e não querer colher todos os frutos das sementes que lançamos.
Existem duas maneiras de formar os líderes: a acadêmica e a informal. Esta última é dada por todos nós, em todos os lugares e momentos. É dada principalmente pelos idosos, que comunicam aos mais novos a sua longa e acumulada experiência de vida cristã.
Deve-se dar destaque à formação dos jovens, pois eles são o nosso futuro, e são os primeiros que caem nas armadilhas da sociedade pecadora. Os jovens, devido à sua alegria e dinamismo, são a força da Comunidade cristã. Entretanto, os jovens só se tornarão Igreja quando a Igreja se tornar jovem.
Que nós, a exemplo de Jesus, nos dediquemos mais à nossa própria formação, e passemos para os nossos irmãos e irmãs o que aprendemos.
São Martinho nasceu em 1579, em Lima, capital do Peru. Por isso é chamado de são Martinho de Lima. Um dia, ele queria ajudar um mendigo que pedia esmola, mas não tinha nada para lhe dar.
Martinho sentou-se na calçada, ao lado do mendigo, e pedia esmola junto com ele, para ajudá-lo. A humildade leva os cristão a tomar atitudes inusitadas.
Maria Santíssima é a Rainha dos formadores, pois formou humanamente o próprio Filho de Deus. Que ela nos ajude a ter sede de aprender e disposição para ensinar.
O Filho do Homem vai ser entregue... Se alguém quiser ser o primeiro que seja o último de todos
padre Queiroz
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Dois caminhos
É preciso escolher entre seguir o padrão de comportamento predominante ou ser fonte de vida (como Deus que se fez “servo” de suas criaturas). A tendência predominante é manipular leis e estruturas para obter vantagens pessoais e riqueza de forma ilegal, sobretudo a que vem corrupção. Em tempo de eleições é preciso reflexão sobre o uso particular do dinheiro público, lembrando que os recursos à disposição dos poderes (municipal, estadual ou federal) derivam de impostos pagos por empresários e trabalhadores.
A primeira leitura é uma espécie de anúncio antecipado do que vai ocorrer com o Mestre de Nazaré: a perseguição, tortura e morte para o justo que “incomoda”. A segunda leitura aponta as conseqüências da escolha que preferir o modo de agir “predominante”. A violência existe para exterminar a justiça. Dependendo da escolha vamos cultivar a paz ou a violência.
O anúncio do evangelho – na contra-mão da tendência predominante – traz uma proposta de servir. Este “Servir” se opõe à violência e à vontade de dominação. Em Marcos cap.9 Jesus caminha sabendo que vai suportar a injustiça por causa das escolhas que fez. A escolha em Servir incomodou e vai continuar incomodando os que escolheram o poder de dominação. O donos do mundo agem sempre do mesmo modo em todos as épocas e lugares. No tempo do Cristo também odiavam o justo em sua Cidade, em seu Povo e dentro de sua Religião. Os discípulos, porém, continuam ainda ignoram essa decisão fundamental. Mesmo sendo pobres e gente do povo, estavam contaminados pelo “comportamento predominante”. Perdiam-se na disputa mesquinha pelo poder entre o próprio grupo imaginando quem ficaria entre os maiorais do futuro “reino” do Messias.
Onde deus está escondido
Marcos restringe o foco da narrativa ao círculo menor dos doze apóstolos. É a eles que Jesus se dirige ensinando: quem quer ser o primeiro, seja o último: aquele que serve a todos. E aponta ao grupo a figura da criança que, naquele tempo e na sua cultura era o ser frágil e carente, sem vez nem voz, inútil na sociedade e sem importância. Quem acolhe uma criança em meu nome, é a mim que acolhe. E, quem me acolhe, está simplesmente acolhendo o próprio Deus.
O Mestre de Nazaré colocou de cabeça para baixo os critérios de valor vigentes. A idolatria do poder é a semente da violência e da perversidade que alimenta todos os conflitos. Ele veio servir (símbolo = lavar os pés dos discípulos) até dar a vida pelo que pregava sempre ao lado dos pequenos. Esse o fundamento da paz.
Enquanto discutimos quem de nós é o “maior”, como se faz em revistas especializadas (as que apresentam os “10 mais” do mundo: os mais ricos, os mais poderosos, os mais elegantes, etc.), há uma legião de anônimos em muitos pontos do planeta que seguem o Mestre, embora muitos nem ouviram falar nele pois nasceram em outra cultura. Eles levam uma vida comum, simples e escondida, mas dedicada ao serviço de outros ainda menores ou menos importantes (filhos, vizinhos, colegas de trabalho, na cidade ou na roça). O caminho que leva a Deus (o acontece em todas as religiões e todas as culturas) passa por essa atitude que dá importância aos mais pequeninos, aos mais desvalidos.
prof. Fernando Soares Moreira

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