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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM


XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Comentários Prof.Fernando


Dia 30 de Setembro
O homem que expulsava demônios em nome de Jesus

Mc 9,38-43.45.47-48

Introdução
          Os apóstolos viram um homem expulsar demônios porém, eles o proibiram de fazer isso porque ele não pertencia ao grupo de Jesus. E ao contar isso para Jesus, Ele os advertiu afirmando:
“- Não o proíbam, pois não há ninguém que faça milagres pelo poder do meu nome e logo depois seja capaz de falar mal de mim.”
Em outra circunstância, os apóstolos não conseguiram expulsar uns demônios, e reclamaram para Jesus. O Mestre disse que aqueles tipos de demônios só poderiam ser expulsos com muito jejum e oração.
Prezados irmãos.  Por falta de jejum e oração nós também não conseguimos expulsar muitos dos espíritos que nos atormentam no nosso dia a dia, são demônios que nos arrastam para viver uma vida errada, uma vida longe do plano de Deus.
E qual é o Plano de Deus? O plano de Deus para conosco, é o Plano “A”, que é o seguinte: Que devemos buscar a Deus em primeiro lugar, e todo o resto nos será dado por acréscimo. Assim, vivemos uma vida de acordo com o Evangelho, fazendo a vontade do Pai, amando a Deus e ao irmão.  Segundo o Plano de Deus, nós devemos ganhar o nosso sustento de forma honesta, em um emprego, ou tocando uma lavoura, uma criação de gado, um comércio,  uma fábrica, etc. Que devemos ter uma família construída nos moldes do Evangelho, ou seja, uma família abençoada por Deus, pelo casamento. Que devemos rezar muito, cuidar da nossa saúde e da nossa família, com alimentação correta, exercícios e laser saudável.
O plano “B” é o plano de vida inspirado pelo demônio, pelo mau espírito, que nos diz:  Para que ganhemos o nosso sustento da forma mais vantajosa, esperta e conseqüentemente perigosa. Como é perigosa, podemos ter de matar algumas pessoas que nos atrapalhar, e certamente acabaremos na cadeia ou morreremos muito cedo. O plano do demônio nos determina ou nos aconselha que devemos seguir os nossos instintos, e aproveitar todo prazer que se nos apresente, como por exemplo, se a sua esposa ficou gorda, troque-a por outra mais elegante. A separação é uma  coisa natural, e os seus filhos têm de entender isso e aprender a se virar.
 Jesus aprovou o jejum.  Porém, nos dias de hoje, ele fica um pouco complicado.  A criança precisa de alimentação na hora certa por causa do crescimento, os idosos que não estão com sua saúde equilibrada,  devem ter uma alimentação correta e constante, sobrando apenas os adultos, que apesar de sua vida corrida, podem jejuar sem prejuízo para a sua saúde.
Porém, nos dias atuais, existem outras formas paralelas de jejuar. Por exemplo: abster-se do cigarro, do colesterol do queijo amarelo, dos doces, pois tudo isso prejudica a nossa saúde, e cuidar da saúde é um dever de cada um.
Você pode praticar também o jejum de se controlar diante da atração física que está sentindo por uma certa pessoa, que não seja sua esposa ou seu marido.
Jejuar é treinar a própria vontade. É adquirir forças para dominar a própria vontade. Vontade fraca, não nos leva ao sucesso. O jejum nos dá força para dizer NÃO  a nós mesmo, quando o que as nossas inclinações, tentações e instinto nos convidam a fazer, é algo que está contra o plano de Deus, é algo que pode acarretar a morte da nossa espiritualidade.
O jejum e a oração nos dão condições e forças para levar uma vida digna da presença de Deus, e assim jamais escandalizaremos os pequeninos. Do mesmo modo, teremos mais forças pois o jejum e a oração constante nos dão coragem para dizer à nossa mão direita para ela não fazer mais aquilo que nos afasta de Deus! Assim como teremos forças para ordenar aos nossos pés para que eles nos levem aos lugares certos, como por exemplo, à missa, e não a certos divertimentos que nos afastam da graça de Deus e só nos traz conseqüências danosas para a nossa alma e para o nosso corpo. Com o jejum e a oração teremos condições de controlar o nosso olhar, nossos pensamentos e todo o nosso ser, de forma tal que não precisaremos cortar nenhum membro do nosso corpo, que nos atrapalha de merecer um dia a vida eterna.
Irmãos. Nada de ficar pensando no demônio, no espírito do mal, e sim pensemos, ou nos concentremos no espírito de Deus. O Espírito Santo não é propriedade particular de nenhuma instituição, porém Ele é livre e pode agir por meio dos instrumentos mais inesperados. Sua presença em nós ou perto de nós pode ser sentida nas soluções dos nossos problemas, como por exemplo na hora em alguém nos faz uma pergunta difícil ou para nos provar como faziam os fariseus com Jesus. O Espírito de Deus pode se manifestar a nós como uma leve e suave brisa, ou em forma de agradável arrepio. Porém, só quando estamos dignos da presença de Deus, ou seja, em estado de graça. Experimente isso visitando o sacrário, ou a capela, ou a parte da igreja onde estão as hóstias consagras. Não se decepciona ou não se sinta um miserável pecador se não sentir a presença do Espírito Santo.  
Volta outro dia, depois de levar mais a sério a sua espiritualidade, fazendo tudo o que Jesus lhe disser!
José Salviano
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Evangelho para o Domingo dia 30 de setembro de 2012

Abraço amigo e uma boa semana!
Pe. Fernando Gross
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“NINGUÉM FAZ MILAGRES EM MEU NOME PARA DEPOIS FALAR MAL DE MIM”. – Olívia Coutinho

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 30 de Setembro de 2012

Evangelho de Mc 9,38-43.45.47-48

Numa sociedade onde impera o individualismo, e a competitividade, o povo vai se distanciando  cada vez mais do projeto de Deus, tornando  indiferente aos seus apelos.
Fomos criados  por amor e para o amor, por tanto,  era  sonho  de Deus que todos nós vivêssemos felizes numa só família, partilhando a vida, amando-nos mutuamente!  Mas  o mal,  encontrou brecha no coração  humano e ameaçou  destruir o sonho de  Deus!
O pecado nos desfigurou, quis mudar o rumo da nossa história.  Porém,  o amor do Pai é maior que tudo, Ele não desiste de sua criação, não esgota suas formas de nos trazer de volta ao seu coração, Ele condena o pecado, mas ama o pecador! E numa prova deste amor sem limites envia seu Filho ao mundo  para nos resgatar e nos recolocar no caminho da felicidade plena..
Jesus veio nos ensinar o caminho de volta ao coração misericordioso do Pai!  Para isto, Ele quis contar com  um pequeno grupo de pessoas, gente simples, que instruídos por Ele, daria  continuidade a sua missão aqui na terra, após  sua volta para o Pai, fazendo chegar a todos os povos a mensagem do evangelho.
O evangelho de hoje, nos apresenta uma série de ensinamentos, que foram   passados aos  discípulos, em diferentes circunstâncias.  São ensinamentos, que chegam até a nós, como um convite a abrirmos os olhos  e o coração, para fazermos o bem, e aceitar o bem  vindo de quem quer que seja.
A caminhada de Jesus para Jerusalém é sem dúvida, um grande ensinamento para todos nós, que queremos segui-Lo. Podemos perceber, através dos textos que a liturgia tem nos apresentando nestes últimos domingos, que em todo percurso desta caminhada, Jesus ia  pacientemente, orientando os seus discípulos,   despertando neles, uma nova   mentalidade a respeito dos verdadeiros valores.
Mesmo tendo deixado tudo para seguir Jesus, os discípulos ainda não haviam entrado na dinâmica do reino. Para eles, o seguimento a Jesus, traduzia numa  realização pessoal,  numa conquista de poder e de grandeza. Tomados por esta mentalidade  contrária aos valores do reino, os discípulos  sentiram-se   inquietos, enciumados ao constatar que havia outras pessoas, fora do seu grupo, realizando milagres  em nome de Jesus.  Ao tomar conhecimento de que eles haviam  proibido um homem de fazer o bem em seu nome, Jesus os repreende dizendo: “ Não o proibais, pois ninguém faz milagre em  meu nome  para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor”. Essas palavras de Jesus vêm nos ensinar, que nenhum de nós tem o direito de impedir alguém de fazer o bem!  
A prática do bem é sinal de amor ao próximo, ou seja, qualquer atitude que venha beneficiar alguém, partindo de quem quer que seja, deve ser acolhida com alegria  por todos nós!
Ainda no texto de hoje, Jesus apresenta aos discípulos algumas práticas que devem ser observadas também por nós, como a partilha, a tolerância, a caridade...
Jesus não quer que nenhum de nós seja escravizado pelas estruturas humanas, como a ambição, a inveja e o orgulho, por isto Ele nos  convoca a entrarmos  na dinâmica do reino, cortando pela raiz estes males que  brotam da própria natureza humana, quando corrompida por uma sociedade que só visa o ter, o poder e o prazer. Se não cortarmos de vez o mal que insiste em permanecer em nós, não daremos continuidade ao anúncio do evangelho, frustrando assim, mais uma vez, o sonho de Deus!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia   
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Domingo, 30 de setembro de 2012
26º Domingo do Tempo Comum
Missionários Claretianos

Outros Santos do Dia: Antonino de Placência (mártir), Gregório, o Iluminador (apóstolo da Armênia), Honório de Cantuária (bispo), Leopardo de Roma (mártir), Sofia de Roma (viúva), Vitor e Urso (mártires de Soleure).
Primeira leitura: 2 Timóteo 3, 14-17.
Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas tem o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus.
Salmo responsorial: 
118, 9-14.
Ó Senhor, ensinai-me os vossos mandamentos!
Evangelho: Mateus 13, 47-52.
Recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam.
A chave de compreensão para as leituras deste domingo: “Ninguém pode ser excluído do serviço que se realiza em nome de Deus”. Em meio às tradições do povo israelita pelo deserto, o livro dos Números apresenta o relato da “partilha” do espírito de Moisés, entre setenta membros do povo. A intenção é que Moisés não tenha que levar a carga sozinho. Com esta decisão de Javé, a responsabilidade fica repartida: cada um dos que receberam parte do espírito que estava em Moisés deveria ser profeta do povo. Portanto, teríamos que atentar para o contexto e intuir as características da tarefa destes personagens.
O Capítulo 11 do livro dos Números fala das etapas da marcha pelo deserto; a narrativa centra-se em uma dificuldade do povo: levam vários meses comendo maná e o povo está enfastiado: “temos a alma seca” (v. 6), “não vemos mais que maná” (v.6b), e com isto vem a tentação de lembrar o tempo de abundancia de comida no Egito. Por aqui podemos intuir a grave dificuldade em que se encontra Moisés. O que fazer para que o povo não continue pensando no Egito? O deserto é um grande desafio. Para trás está o Egito, com sua abundancia, porém também com sua escravidão. Para frente está a promessa de terra, liberdade, vida digna, porém, que precisa ser conquistada às custas de privações, sacrifícios e esforços.
O relato causa admiração porque Javé se encoleriza... É um recurso literário para introduzir a preocupação de Moisés, expressa em uma bela oração de intercessão pelo povo. A solução proposta por Javé é adequada: reunir setenta representantes do povo para repartir entre eles o espírito que estava em Moisés; dessa maneira a direção, orientação e conscientização do povo seria tarefa de muitos e não somente de Moisés.
O espírito doado a todas essas pessoas é profético, isto é, está em função da profecia. É preciso assumir que esta atividade profética está orientada a ajudar o povo a tomar mais e mais consciência do plano de Deus em relação ao povo, a entender o que há realmente por trás disso: Egito e sua abundancia de comida, porém com escravidão, que é o contrario ao plano divino, e o que está à frente: um deserto inevitável, desafiante, mortal, porém, no fim das contas, um meio necessário para chegar à terra da liberdade, terra da promessa.
A qualquer pessoa do povo que, entendendo assim as coisas, “catequizasse” a seus irmãos, nesse sentido deveria ser visto como profeta “autorizado”, não porque houvesse estado necessariamente na tenda do encontro, mas por estar em comunhão com o ideal de Javé. Esse parece ser o caso de Eldade e Medade. Eles não estiveram no momento da partilha do espírito e contudo estavam profetizando. Vem a reação de Josué, o mesmo que mais tarde se encarregará de guiar o seu povo nos trabalhos de conquista e ocupação da terra prometida. Josué não entende ainda que tudo que conflui de maneira positiva na consciência do ser humano, deve ser considerado profeta, e por isso aconselha a Moisés que eles sejam proibidos (v. 28).
Moisés, porém, tendo captado muito bem que no trabalho de libertação do povo todos possuem sua importancia, responde a Josué com palavras aparentemente duras, porém que buscam também abrir a consciência de seu ajudante: “oxalá todo o povo fosse profeta” (v. 29); oxalá cada um assumisse com verdadeiro empenho a tarefa de conscientizar-se e conscientizar seu próximo.
Não é exatamente isto que Deus quer e espera? Parece que Josué não estava preocupado com a necessidade de que cada membro do povo tivesse uma consciência bem formada para continuar a caminhada pelo deserto. A preocupação era mais em defender “o oficial”, o “autorizado” por Deus na tenda de encontro, isto é, o “instituído”, a defesa dos “direitos de Deus”.
Na mesma linha, o evangelho de Marcos apresenta para este domingo uma situação semelhante, vivida pelos discípulos de Jesus. Há pouco tinham aprendido de Jesus a lição sobre quem seria o maior (Mc 9,33-37), produz-se um incidente que tem a ver com a idéia de exclusividade dos membros do grupo seguidor de Jesus. João conta a Jesus que haviam impedido a um homem de expulsar demônios em seu nome porque não era membro do grupo (v. 38).
Não há uma pergunta, como fazer em casos semelhantes; que posição assumir, etc. A resposta de Jesus é sabia: “ninguém faz um milagre em meu nome e depois fala mal de mim” (v. 39) e “o que não está contra nós, está a nosso favor”. Na tarefa de construção do reino ninguém tem exclusividade. Talvez os discípulos não tinham claro ou não recordavam que sua pertença ao grupo de Jesus foi um dom de pura gratuidade; ninguém deles apresentou diante de Jesus uma relação de méritos para ser elogiado; foi Jesus quem se apresentou a eles, interpôs-se no caminho de cada um e os chamou, mesmo sabendo que não eram os melhores nem os mais representativos da sociedade.
Nesse sentido, outros ainda continuam sendo chamados. Em cada homem e em cada mulher, Deus semeou as sementes do bem; como e quando essas sementes começam a germinar e dar frutos, isso é decisão de cada um. Às vezes nos parecemos com João e o resto dos discípulos, reagimos com quem, sem pertencer à instituição, faz obras melhores que as nossas. E sai imediatamente a frase: “mas esse ou essa pertence a tal ou qual religião, ou de tal ou qual grupo...”. Muitas vezes os nossos interesses mesquinhos, critérios de autoridade e de exclusividade, rejeitados por Jesus (cf. Mc 9,39), se sobrepõem à vocação universal de fazer o bem e à prática do amor.
O diálogo de Jesus com seus discípulos reflete a situação da comunidade para a qual Marcos escreve seu evangelho. Uma comunidade muito consciente do que eram as exclusões, porém ao mesmo tempo correndo o risco de ser exclusivista, com a aparência de coisa boa: “ser ou não ser dos nossos”. “ser ou não ser do caminho”, “estar ou não estar no processo...” e, enfim, outros argumentos que pretensamente tentar justificar a desculpa de defender a “pureza” da fé ou do “credo” ou da “ordem” ou, enfim, de “defender os direitos” de Deus.
Pois bem, quando se cai no extremos de “defender” a Deus, ou os “direitos” de Deus, o que se pretende é minimizar a Deus, colocá-lo no ridículo ante o mundo e a conseqüência mais imediata, a
que previu Jesus e que talvez já estava presente na comunidade primitiva: o escândalo para com os pequenos. Jesus se preocupa com os “pequenos”, não somente os menores de idade, mas os que apenas começam a intuir a dinâmica do reino com a subseqüente imagem de Deus que ele propõe.
Contudo, através dos séculos, os perigos da comunidade primitiva se convertem em fatos reais: quantos crentes promotores do bem, da justiça e da paz foram excluídos ou silenciados somente porque “não eram dos nossos”, quantos Josués e Joões “defenderam” uma pretensa exclusividade que certamente ninguém possui, mas que serve apenas para escandalizar cada vez mais a muitos fazendo-os crer que Deus é tão pequeno a ponto de ser reduzido aos estreitos limites de um grupo ou de uma instituição, ainda que seus adeptos sejam contados aos milhares.
Se conseguimos tomar consciência de que Deus é maior que um grupo ou uma instituição e que em nenhum momento nossa vocação é a de defender supostos direitos de Deus, mas simplesmente servir, colocar-se a serviço da construção do Reino, a partir das múltiplas possibilidades que isso implica, dada a insondável riqueza do mesmo espírito, então jamais podemos pensar se este ou aquele é ou não é “dos nossos”, mas ... como cooperar mais e melhor com aquele ou aquela que tão bem estão lutando por construir aqui o reino!
Oração: Ó Deus, pai-mãe que te manifestas em todas as coisas, abre nossos corações e nossas mentes para compreender melhor o que desde sempre nos comunicas, inclusive por aqueles que te conhecem por outros caminhos e outras linguagens; arranca de nós toda tentação de exclusivismo e mantém-nos dispostos a ajudar na construção coletiva do teu Reino. Isto te pedimos, inspirados em Jesus, transparência tua. Amém.
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XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

DOM HENRIQUE SOARES

Homilia I
Hoje, a Palavra de Deus apresenta alguns elementos importantes que nos precisam ser continuamente recordados. Tanto a primeira leitura quanto o Evangelho, recordam-nos que Deus não é propriedade de ninguém. Ante o zelo mesquinho de João, Jesus afirma:
“Quem não é contra nós é a nosso favor”. É preciso compreender bem a afirmação do Senhor. Certamente, ele é o Caminho e a Verdade da humanidade; certamente ele fundou a Igreja, comunidade de seus discípulos; dotou essa Igreja do seu Espírito, de pastores e de toda uma estrutura visível. Esta Igreja de Cristo, nós cremos que permanece de modo pleno na Igreja católica. Isto significa que os elementos essenciais da Igreja de Cristo permanecem, por graça e fidelidade do Senhor, naquela Comunidade que ele fundou desde o início, a Igreja una, santa, católica e apostólica. Quais são esses elementos essenciais? A Palavra de Deus, pregada e interpretada segundo a Tradição apostólica, a Eucaristia como banquete e sacrifício, os sete sacramentos, o ministério de Pedro, presente nos seus sucessores, os Papas de Roma, o ministério episcopal, no qual se concretiza a sucessão apostólica, a caridade fraterna, os vários dons e carismas da comunidade, o sentido da missão de anunciar Jesus ao mundo como Senhor e Salvador, o martírio como testemunho máximo de Cristo, a presença materna da Virgem Maria e dos Santos, amigos de Cristo. A Igreja católica é, portanto, Igreja de Cristo, pertence a Cristo e, por graça de Cristo, conserva e conservará sempre, sem poder perder, estes elementos. Mas, isso não significa que a Igreja seja proprietária de Cristo. Aqui é preciso dizer claramente: a Igreja pertence a Cristo, mas Cristo não é propriedade da Igreja! De fato, na força do seu Espírito Santo, ele manifesta sua ação também fora da estrutura visível da Igreja católica. Pensemos nos nossos irmãos separados, de tradição protestante. Eles têm tantos elementos da Igreja de Cristo: a Palavra de Deus, a confissão de Jesus como Senhor e Salvador, tantos dons e carismas, o amor sincero a Jesus, a caridade fraterna, o ela missionário. Tudo isso deve ser, para nós, católicos, causa de alegria. Ainda que não estejam em comunhão plena com a Igreja de Cristo e falte-lhe elementos essenciais da Igreja de Cristo, eles não estão fora do caminho da salvação! Hoje, Jesus nos convida à tolerância e ao amor a esses irmãos.
Isto não significa de modo algum dizer que está tudo bem, que tanto faz ser católico como não ser, que o importante é a fé em Jesus e pronto. Não! É preciso recordar que a divisão na Igreja é um pecado grave e contraria o desejo de unidade que o Senhor deixou como testamento: “Pai, não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo. 17,20s). É também absolutamente falso afirmar que as questões de doutrina não são importantes. O Novo Testamento está repleto de advertências contra os que ensinam doutrinas erradas e contrárias à fé dos apóstolos e são Paulo mesmo exorta a separar da Comunidade quem pregar um evangelho diferente do dele (cf. Gl. 1,6-9). A busca de recompor a unidade visível da Igreja em torno de Cristo, com os mesmos pastores, os mesmos sacramentos e a mesma doutrina é dever de todos os cristãos! Mas, também é necessário deixar claro o dever que todos nós temos da tolerância respeitosa e amorosa para com os irmãos separados. Se nos entristece ouvi-los falar mal da Igreja – às vezes até caluniando-a e mentindo contra ela -, deve alegrar-nos ouvi-los falar bem de Cristo e pregar o Evangelho. Ainda mais: até para com os não-cristãos, como os espíritas, muçulmanos, budistas, adeptos da seicho-no-iê... temos o dever do respeito e da tolerância. Deles, o Senhor afirma no evangelho de hoje: “Quem vos der a beber um copo da água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. Então, que fique bem claro o dever da tolerância que nós, discípulos de Cristo, temos para com os demais.
Mas, a Palavra de Deus também fala hoje de radicalidade. Tolerância para com os outros; radicalidade para conosco, no nosso ser cristãos! Vejamos: (1) Radicalidade no respeito pela debilidade dos pequeninos e fracos na fé: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Deus nos livre de escandalizar, Deus nos livre de, por nossas atitudes, ser causa de tropeço para os irmãos mais fracos na fé! (2) Radicalidade para cortar o que em nós é escândalo, isto é, o que em nós leva ao pecado e ao afastamento de Cristo: “Se tua mão te leva a pecar, corta-a... Se teu pé te leva a pecar, corta-o... Se teu olho te leva a pecar, arranca-o!” Hoje, a tendência é arrancar o Evangelho para não termos que arrancar nada em nós, para não termos que nos incomodar nem mudar de vida! Jesus é claro: não entrará na vida quem sinceramente não combater aquilo que o faz tropeçar no caminho cristão. (3) Finalmente, a radicalidade de apoiar-se somente no Senhor e não nas nossas posses espirituais e materiais: espiritualmente, nunca pensar que somos proprietários do Senhor e da salvação e, materialmente, recordar que nossas riquezas apodrecem e nosso outro enferruja. São Tiago nos adverte duramente na segunda leitura de hoje: triste de quem é rico para si, desprezando os outros, mas não é rico para Deus!
Que o Senhor, pela sua graça, nos dê toda tolerância e toda intolerância. Toda tolerância com os irmãos e toda intolerância com o nosso pecado e as nossas manhas,! Que o Senhor nos converta, ele que é bendito para sempre. Amém.
Homilia II
Tomemos o Evangelho deste hoje. Três coisas nos diz, três exortações nos faz.
A primeira delas é uma exortação à tolerância, a não querermos manipular Deus ou cair na ilusão de que o temos como uma propriedade, um monopólio. Eis: “João disse a Jesus: ‘Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue’. Jesus disse: ‘Não o proibais. Quem não é contra nós é a nosso favor’”. Vede, caríssimos, o Senhor nos convida a uma atitude de abertura, nos exorta a reconhecer o bem naqueles que não são dos nossos, que não estão na plena comunhão com a sua Igreja católica. Não se trata de relativismo, não se trata de afirmar que todas as religiões são iguais. Nada disso! Trata-se de reconhecer o que de bom, pela graça de Deus, há nos outros. Por exemplo: como não reconhecer que nossos irmãos protestantes, ainda que não estejam na plena comunhão com a Igreja de Cristo e tenham erros sérios de doutrina, amam sinceramente a Jesus? Como não nos alegrar pelo bem que fazem, pela proclamação de Jesus que testemunham, pelos dons e carismas que têm entre eles? Ainda que fora da comunhão plena com a Igreja que o Senhor Jesus fundou e entregou a Pedro e aos Doze, eles são nossos irmãos verdadeiramente pela fé e o batismo. Outro exemplo: Como não nos alegrar porque tantos judeus procuram ser sinceramente fiéis ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e, de todo o coração, procuram viver os preceitos da Lei e esperam o Messias? Ou ainda, como não reconhecer que é um bem que os muçulmanos adorem um só Deus e respeitem o nome de Jesus como de um profeta? Ou então, como não admirar sinceramente a idéia de compaixão que existe entre os budistas? E assim por diante... Também aí, em todas essas religiões, há elementos de verdade, mesmo que misturados a tantos erros de doutrina ou de prática... Mas, pelos acertos, pelo bem, pelos elementos de verdade, bendito seja Deus! E, precisamente aqui, o Senhor nos convida ao respeito pelos outros, pelos que pensam e vivem e crêem de maneira diferente da nossa... Também entre esses há bons sentimentos, há retidão de consciência, há bondade. Não reconhecer isso seria pecado de nossa parte! “E quem vos der a beber um copo de água porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. Vede, também o bem que fizerem, ainda que não sejam dos nossos, será recompensado pelo Senhor!
Meus caros, nossa primeira tendência é refutar quem não pensa como nós, é rechaçar o diferente, procurar logo os defeitos e condenar; nossa tentação é a dureza, a intransigência, a rejeição. Recordai a mesma atitude fechada de Josué, na primeira leitura. É zelo, mas zelo desorientado; é amor, mas amor que precisa ser evangelizado! Vede que o Senhor claramente nos convida a uma outra atitude. Repito: nada de relativismo, nada de nivelar as religiões com a fé católica, recebida dos apóstolos. Mas também nada de prepotência, orgulho ou intransigência mesquinha. Acolhamos a todos, a todos respeitemos, com todos procuremos a paz na verdade, sobretudo com aqueles que, sem ser dos nossos, adoram conosco o nosso Cristo Jesus como Deus e Salvador.
Uma segunda exortação do Senhor: o cuidado com os pequenos, os fracos na fé, os imaturos que estão na nossa comunidade: “Se alguém escandalizar um desses pequeninos que crêem , melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”. Não basta ser tolerante com os de fora; é necessário mais ainda ser cuidadoso com os de nossa comunidade, de nossa paróquia, os nossos irmãos, filhos da mesma mãe católica. Quantas vezes uma palavra dura, um mau exemplo, uma atitude de fechamento, podem fazer esfriar a fé do irmão que é fraco. É o escândalo, isto é, é se tornar causa de tropeço e de queda para os outros. Deus nos livre, caríssimos, de servir a Deus passando por cima dos outros! Deus nos defenda de uma santidade que não cuide do bem e da fé dos irmãos! Deus nos guarde de um cristianismo sem amor! Eis aqui: com os de fora, tolerância e respeito; com os de dentro, amor e cuidado fraterno!
É impressionante o quanto Jesus nos faz responsáveis uns pelos outros, o quanto pedirá contas da fé e da perseverança do nosso irmão! Ai de nós se escandalizarmos, ai de nós se desprezarmos, ai de nós se formos motivo de queda para os outros! – Senhor, tem piedade de nós, que somos fracos! Tem compaixão de nós, pois tantas vezes, sem querer, escandalizamos, sem perceber, fazemos os outros sofrerem! – Recordai, caríssimos da súplica do Salmo de hoje: “Quem pode perceber suas faltas? Perdoai as que não vejo! E preservai o vosso servo do orgulho: não domine sobre mim!” Não aconteça que fiquemos sem ter o que responder quando o Senhor, no Dia final, nos perguntar como a Caim: “Onde está o teu irmão?” Cuidemos, caríssimos, uns dos outros e, na medida de nossa humana limitação, sejamos solícitos pelo bem de nossos irmãos!
Por último, uma gravíssima exortação do nosso Salvador: tudo quanto nos escandalizar, isto é, tudo quanto nos atrapalhar na vida cristã, tudo quanto nos fizer tropeçar, devemos ter a coragem de arrancar de nossa vida: “Corta-o! Arranca-o!” Caro meu, o que te faz tropeçar no caminho do Senhor? Tens combatido, tens afastado, tens lutado contra esses empecilhos? Se combatermos nossos pedaços ruins, nossas más tendências, nossos vícios, saibamos que o Senhor não nos abandonará e estaremos caminhando para ele. Mas, ao contrário, se descansarmos preguiçosamente no mal, então nosso coração irá sendo endurecido e afastado do Senhor, iremos nos enchendo de nós mesmos e nos esvaziando de Deus, ao ponto de termos de escutar a reprimenda duríssima de São Tiago, na segunda leitura: “Agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós!” O Apóstolo convida-nos à retidão, à justiça, à uma vida segundo a verdade de Cristo! Ricos de pecados, ricos de uma vida soberba, ricos para si mesmos e não para Deus – se assim formos, morreremos para Cristo!
Eis, pois! Guardemos no coração estas advertências do nosso Salvador e vivamos uma vida nova, segunda a sua santa vontade. Amém!
dom Henrique Soares da Costa
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Os dons de deus não podem ser privatizados
Neste último domingo de setembro, celebramos o dia da Bíblia. Através da Bíblia temos a oportunidade de conhecer a Deus e o seu plano de amor. Ele se revela na história humana.
Concede seus dons com liberalidade para o bem de todos. Os dons de Deus não podem ser privatizados ou restringidos a determinadas
pessoas ou instituições. A primeira leitura relata um episódio de efusão do Espírito de Deus não somente sobre Moisés, o grande líder do Êxodo, mas sobre muitas outras pessoas, as quais começaram a profetizar. Diante disso, teve gente que tentou impedi-las. O evangelho de Marcos conta como os discípulos tiveram a mesma reação ao constatarem que outras pessoas faziam o bem em nome de Jesus sem pertencerem ao grupo deles. Essas reações revelam a descabida pretensão de privatizar os dons de Deus. Também os bens materiais são dons de Deus que devem ser administrados de forma a proporcionar vida digna para todos.
A segunda leitura denuncia veementemente a atitude dos ricos que privatizam esses bens e exploram os trabalhadores. Deus não deixará de ouvir o grito das pessoas injustiçadas e pedirá contas de quem retém os recursos que ele destinou para todos.
1ª leitura Nm. 11,25-29
A efusão do Espírito de Deus
O povo de Israel encontra-se em caminhada pelo deserto, libertando-se da escravidão do Egito. Moisés foi chamado por Deus para liderar esse processo de conquista de uma terra de liberdade e vida. Esse chamado não significa a prática de um poder centralizado.
Acima de tudo, é necessário garantir o projeto de Deus. Moisés é um dos protagonistas, mas não o único. A sociedade nova é construída com
a participação do povo. Os setenta anciãos representam as lideranças necessárias para animar a organização social conforme a inspiração divina. Por isso, Deus lhes concede o seu Espírito a fim de que cumpram sua missão com fidelidade. Eles exercem a profecia, isto é, falam e orientam o povo em nome de Deus.
Os setenta anciãos estão na mesma tenda com Moisés. Pertencem, portanto, ao grupo íntimo do principal líder. A tenda de Moisés é o espaço oficial das decisões a serem tomadas para todo o povo. Os anciãos são oficialmente delegados para exercer a função de instruir, orientar e julgar o povo. Mas eis que duas pessoas que não se encontravam na tenda de Moisés também recebem o mesmo dom do Espírito e começam a profetizar no meio do acampamento. O texto conservou o nome dos dois: “Eldade” que significa “Deus é amigo”, e “Medad”, “Deus é amor”. Um jovem correu para informar a Moisés, certamente preocupado com a autonomia dos dois novos profetas que cumprem sua missão sem uma delegação oficial. Josué, que será o substituto de Moisés na condução do povo, sugere-lhe que os proíba. Moisés, no entanto, percebe que a tentativa de proibição da parte de Josué é motivada por ciúmes. Por isso, Moisés o corrige. Ele não teme ser ofuscado em sua autoridade. O que importa é que os dons de Deus, distribuídos conforme sua vontade, sejam acolhidos e administrados para o bem de todos. Os dons divinos não obedecem aos interesses de instituições oficiais. Deus é soberano em suas decisões, e sua liberalidade é extraordinária. Oxalá todo o povo se deixe conduzir pelo Espírito de Deus!
Evangelho Mc. 9,38-43.45.47-48
Praticar o bem: alguém pode impedir?
No domingo passado, refletimos sobre o texto do evangelho de Marcos onde os discípulos, após discutirem, pelo caminho, sobre quem deles seria o maior, recebem em casa uma instrução especial de Jesus. Tomando uma criança e colocando-a no meio deles, Jesus mostra qual é a atitude verdadeira que seus discípulos devem ter na vida: “Ocupar o último lugar e tornar-se servos uns dos outros”. O texto de hoje é a continuação daquele episódio. No caminho, eles não apenas haviam discutido quem seria o maior, mas também tentaram impedir que alguém que não pertencia ao seu grupo realizasse boas ações em nome de Jesus. É João que, dessa vez, representa a todos: “Mestre, vimos alguém que não nos segue, expulsando demônios em teu nome, e o impedimos porque não nos seguia”.
Essa é mais uma atitude que revela o grau de imaturidade em que se encontram os discípulos de Jesus. Eles também já haviam sido enviados por Jesus para pregar o Evangelho e “expulsaram muitos demônios e curaram muitos enfermos” (Mc 6,12). Foi muito bonita essa experiência missionária quando numerosas pessoas foram beneficiadas. Certamente sentiram-se privilegiados por serem escolhidos por Jesus e enviados por ele para tão grande missão. O que eles não esperavam é que outras pessoas, além deles, pudessem realizar as mesmas obras. Ficaram aborrecidos e enciumados, como aconteceu com Josué, conforme ouvimos na primeira leitura. Moisés, cheio de sabedoria e de grande coração, corrigiu a atitude de Josué. Assim também Jesus, que veio ao mundo para salvar a todos, procura instruir os discípulos para que mudem de mentalidade e de atitude: “Não o impeçais...
Quem não é contra nós, está a nosso favor”.
Com isso, Jesus está alertando que pode haver pessoas que pertencem ao círculo íntimo dos discípulos, mas são contra ele; ele está colocando
o projeto de vida para todos acima das pretensões pessoais.
Não se pode fazer uso do nome de Deus ou da religião para satisfazer interesses pessoais ou para disputas de poder. Essa atitude seria escândalo para os pequeninos que olham para seus líderes esperando verdadeiro testemunho de fé e de amor. O escândalo existe quando alguém na comunidade pretende ser maior que os outros; ao invés de servir, quer ser servido. Jesus é enfático: melhor seria que essa pessoa se afogasse definitivamente no fundo do mar. E diz mais: é preciso cortar a mão que escandaliza, isto é, o mau agir; cortar o pé, que significa corrigir a direção ou a conduta errada na vida; arrancar o olho, ou seja,o modo de ver as coisas com cobiça, ciúme, inveja, ambição... Portanto, há necessidade de vigiar sobre o modo como vivemos e como
exercemos as funções comunitárias. É preciso extirpar tudo o que contradiz o Evangelho e causa dano aos que querem entender e praticar
verdadeiramente o que Jesus pede. A missão de promover a vida digna de todos constitui-se em serviço abnegado e humilde e não em uma forma de projeção social, de exploração do sentimento religioso dos pequeninos ou de outras intenções egoísticas.
2ª leitura Tg. 5,1-6
O grito dos injustiçados
A realidade contemplada pelos autores da carta de Tiago, conforme se deduz desse texto, é de terrível injustiça social. Não sabemos se esses ricos exploradores fazem parte das comunidades cristãs. Provavelmente não, pois seria uma explícita contradição da fé que professam. Ou seriam aqueles cristãos cuja fé é morta, como já foi alertado anteriormente nessa mesma carta? Dizem que têm fé, mas não têm obras (2,14-17).
O fato é que Tiago, com palavras duras e contundentes, denuncia a situação social em que os pobres estão sendo oprimidos. Percebe-se que os ricos são grandes proprietários de terra que se aproveitam da mão de obra dos pobres trabalhadores pagando um salário irrisório (ou retendo) e reduzindo-os à condição de escravos. A riqueza acumulada nas mãos desses senhores, fruto do suor e do sangue dos oprimidos, se tornará motivo de sua própria condenação. Todo o ouro e a prata, apesar de serem metais naturalmente consistentes, estão corroídos pela ferrugem. Os bens acumulados à custa de injustiça carregam a “ferrugem” da maldade. Eles serão usados como testemunhas contra os seus donos, pois o grito dos injustiçados sempre é acolhido por Deus, que é justo e verdadeiro.
Ao longo da Bíblia encontramos frequentemente alusão ao uso dos bens materiais. Desde o episódio do maná no deserto, pelo qual Deus alimentou o seu povo, nos é dada a orientação de que não se pode acumular, pois o acúmulo apodrece (Ex 16,19). Os profetas condenaram
a injustiça social como uma enorme ofensa a Deus a ponto de rejeitar qualquer tipo de manifestação religiosa enquanto não houvesse conversão (Am 5,21-24; Is 58, 6-9). Nos evangelhos, encontramos vários textos que se referem ao perigo da riqueza e da insensibilidade social: um exemplo é o do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31). Chama a atenção o fato de que a salvação ou a condenação está ligada ao modo como cada um administra os bens. Não podemos reter ou privatizar o que Deus concedeu para a vida de todos.
Pistas para reflexão
– A Bíblia nos revela a bondade e a generosidade de Deus. Ele concede os dons e carismas com liberalidade. Cada pessoa que os recebe deve colocá-los a serviço da vida. Não podem ser considerados como bens privativos, pois eles são de Deus. Não podem ser usados como motivo de vanglória pessoal, e sim como expressão da bondade divina. Todas as pessoas recebem dons para alegria e felicidade de todos, independentemente da instituição ou da tradição religiosa a que pertence. Portanto, não tem sentido o ciúme ou a competição. O que importa é que todos os dons sejam aplicados verdadeiramente para o projeto de “vida em abundância” para todas as pessoas.
Assim, cada pessoa e cada religião, a política e a economia, a arte, a ciência e a tecnologia devem visar o bem social. Pode-se refletir sobre
os efeitos sociais de uma vida ou atividade (mão, pé e olho) orientadas pela ética e pelo amor e das que seguem objetivos egoísticos...
– Os bens materiais são dons de Deus para a vida de todos os seus filhos e filhas. Ofendemos a Deus quando os administramos de forma egoísta. A privatização da riqueza nas mãos de poucos denuncia o sistema social
injusto em que vivemos. “Perdemos a capacidade de sentir. Essa é uma das causas de nossa miséria” (Herbert de Souza – o Betinho). Jesus preveniu: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem...
Ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho correm...” (Mt 6,19-21). Podem-se levantar os desafios sociais que existem na paróquia e no município e incentivar o compromisso de cristãos na construção de um mundo justo, fraterno e solidário...
Celso Loraschi
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Importante que o bem seja feito
O livro dos Números relata uma situação assaz curiosa.  O Senhor descera da nuvem e falara a Moisés. Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e o deu aos setenta anciãos. Estes começaram a profetizar por um tempo, ou seja, a falar em nome do Senhor. Dois homens haviam ficado no acampamento. Eldad e Medad e que estavam na lista. Não tinham ido à tenda, mas profetizavam no acampamento.  E houve uma queixa.  Josué pediu que Moisés ordenasse que se calassem.  Eles estavam “de fora”. Moisés deu uma resposta peremptória:  “Tens ciúmes por  mim?  Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito”.  O mesmo tema, de uma maneira análoga, ocorre  no evangelho do dia. Um homem anda expulsando demônios. Os discípulos o proíbem de continuar porque  “ele não nos segue”.  Jesus os repreende por esta postura:  “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor”.  Importante que o bem seja feito, não importa por quem…
Há um mal estar entre os discípulos de Jesus. Afinal de contas eles têm a convicção de serem donos da plena verdade.  Não admitem competições.
Os mais avançados em idade  nos lembramos bem do tempo em que nós, católicos, éramos muito intransigentes  com pessoas de outras religiões. Foi nos ensinado que elas estavam no erro.  Que somente nós tínhamos a verdade.  Havia mesmo uma política de distanciamento para com  essas pessoas.  Os tempos  mudaram e vivemos uma época de conversa, de diálogo, de entendimento.  Há esses irmãos cristãos de outras denominações  límpidos e transparentes que adoram o mesmo  Deus Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e levam uma vida de intensa caridade. Há esses irmãos das religiões que tiram as sandálias ao entrarem em suas mesquitas querendo ser puros adoradores do Deus único e verdadeiro.  Há esses todos que, aqui e ali,  socorrem os caídos à beira da estrada e lutam nos parlamentos para dar voz aos sem voz e sem vez.
“Não é preciso ser católico batizado, diz  Johan  Konings,  para colaborar com  os valores do evangelho.  Os primeiros missionários do Brasil ficaram cheios de admiração porque os índios pagãos pareciam ter mais valores evangélicos que os colonos portugueses escravocratas.  O testemunho  do evangelho pode existir  fora da comunidade cristã, e nós devemos nos alegrar por causa disso”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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Ser discípulo sem rivalidade
Antes, Mc. falou em acolher pequenos “em nome de Jesus”. Encadeando outras sentenças no mesmo item, passa agora ao assunto do exorcizar “em nome de Jesus” (associação verbal, muito comum na tradição oral dos primeiros cristãos) (evangelho).
Logo nos albores da comunidade cristã, milagreiros e exorcistas não cristãos, notando a força do “nome de Jesus” (cf. At. 3,6.16; 4, 10), tentavam usar esse nome em seus “trabalhos”. Mas os cristãos exigiam direitos autorais. Como resposta, Mc traz uma sentença de Jesus: “Quem não é contra nós, é por nós”. Resposta de bom senso e desapego evangélico, pois o importante é que o nome de Jesus seja honrado. Mas quem considera o grupo mais importante que o nome de Jesus fica indisposto. Não aceita que os dons cristãos floresçam fora da Igreja.
Jesus presta pouca atenção a esse tipo de objeções. Os que por ele foram reunidos não devem pensar que eles são os únicos em quem possa operar seu espírito. Ser reunido por Cristo é uma graça, mas não um monopólio. Pelo contrário, devemos desejar que seus benefícios sejam espalhados o mais amplamente possível. Já Moisés deu aos hebreus uma lição neste sentido. No momento da assembléia dos setenta anciãos que receberam “algo do espírito de Moisés”, dois tinham ficado no acampamento; porém, receberam também o espírito profético. Josué quer impedi-los, mas Moisés retruca: “Oxalá o povo todo recebesse assim o espírito” (1ª leitura).
Estas idéias escandalizam aqueles para quem o grupo é tudo. Ora, não a Igreja em si, mas Cristo e seu espírito são o mais importante. (Não se alegue o velho adágio: “Extra Ecclesiam nulla salus”, pronunciado contra os que abandonavam a Igreja.) Mas escandalizam-se também os que só conhecem aquela outra sentença de Jesus: “Quem não é comigo, é contra mim” (Mt. 12,30 = Lc. 11,23), pronunciada num contexto de inimizade (os escribas acusam Jesus de expulsar demônios pela força de Beelzebu); pois em tal contexto, é preciso escolher: quem não se coloca do lado de Jesus se coloca do outro. Mas isso nada tem a ver com o caso de alguém que recebe os dons do Cristo fora da Igreja.
Sempre no item do “nome”, Jesus promete recompensa pelo mínimo benefício feito a alguém “em nome de ser do Cristo” (9,41). E já que se estava falando também de “pequenos” (cf. v. 37), cabe dizer algo sobre o escândalo dado aos pequenos (9,42). E, continuando com o item “escândalo”: a gente tem que erradicar de sua vida as raízes do escândalo, as causas das fraquezas na fé, assim como se amputa uma mão quando ela põe o corpo em perigo (ou como se extrai um dente quando causa enxaqueca) (9,43-48).
O evangelho trata, portanto, de assuntos diversos. Ora, o conjunto da liturgia acentua o tema da ação de Deus fora da assembléia “oficial”. Este ponto deve reter a atenção da catequese litúrgica, e é muito importante em nosso ambiente, onde macumbistas e espíritas fazem “trabalhos” em nome de Jesus (e com sucesso). Existe uma mentalidade de combater o sincretismo religioso. Talvez seria mais evangélico ponderar – sem esconder os problemas – o bem que eventualmente façam e reconhecer que lá também Deus pode levar alguém a colocar em obra o seu amor. Tal atitude mostrará a face compreensiva da Igreja, procurando reconhecer em tudo o bem – e levaria menos pessoas a procurar a umbanda por não encontrar resposta humana num catolicismo formalizado e ríspido (11).
11. Pensando no diálogo em torno de problemas econômicos e ecológicos de nosso mundo, devemos pensar nas coisas boas que podem ser feitas “em nome de Jesus” mediante pensamentos que não nasceram no âmbito da cristandade.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Marcos escreve para sua comunidade demonstrando uma preocupação quanto à ambição que existe entre eles, a inveja e a intolerância aos outros e também ao escândalo que fazem do que veem e julgam.
Depois de ensinar aos discípulos sobre a disponibilidade em servir, Jesus continua dentro deste tema apresentando a eles algumas práticas: a tolerância para com os que são marginalizados; viver na caridade defendendo os pequenos do mal; vigiar contra as tentações e a falsa segurança de si mesmos.
Quando os discípulos dizem que proibiram o homem que expulsou demônios de fazer isso, Jesus os recrimina por que, na verdade, eles estavam com ciúmes e julgando que Deus só está do lado daqueles que estão dentro de sua roda ou de determinados grupos de seguidores de Jesus que eles podiam ver. Estavam sendo egoístas e arrogantes. Porém, Jesus mostra seus deveres para com os fiéis e diz que todos aqueles que fazem o bem e passam esperança e vida para outros receberão também a sua recompensa, pois quem faz o bem invocando o nome de Jesus, só pode falar bem Dele. Mesmo que oficialmente não seja seu discípulo, de fato o é.
É Deus quem distribui os dons para cada um e não se pode duvidar disso e nem ambicionar o que é do outro. Deus distribui segundo a sua própria vontade e os seguidores de Jesus vão sendo despertados no tempo de Deus e da forma como Ele quer.
Jesus não quer que seus discípulos sejam escravos da estrutura humana, como a ambição, a inveja e o orgulho, que são princípios falhos que brotam da própria natureza humana, pois desta forma não darão continuidade ao Evangelho. O mal que desvirtua e mata deve ser cortado pela raiz. Cortar a mão significa abolir as más ações; cortar o pé é o mesmo que mudar a maneira de agir; arrancar o olho é não se apegar aos desejos do mundo. Os três são símbolos da ganância e por isso precisam ser arrancados do coração. É preciso que os discípulos se libertem para serem fiéis seguidores dos seus ensinamentos dando bom exemplo, e não causando escândalo para não caírem no fogo que queima.
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Em nome de Jesus
Um fenômeno de exorcismo causou preocupação no grupo de discípulos de Jesus. A pessoa que expulsava demônios, em nome de Jesus, não pertencia ao grupo dos doze. A reação espontânea foi a de proibi-la, como se estivesse agindo de maneira abusiva.
A atitude intolerante dos discípulos escondia uma forte dose de sectarismo. Pareciam mais preocupados em garantir sua fama e o sucesso do grupo, do que com a expansão do Reino, que prescindia deles. O exorcismo, feito por um desconhecido, fora considerado como uma forma de concorrência. Os discípulos sentiam que estavam perdendo o controle da missão que lhes fora confiada por Jesus. Talvez se julgassem detentores exclusivos desta missão, não admitindo a participação de outros.
Jesus assumiu uma atitude de extrema tolerância em relação ao exorcista anônimo e não aprovou a proibição que lhe fora imposta. Se o indivíduo, de fato, foi capaz de realizar um milagre, invocando o nome de Jesus, é porque, de alguma forma, sabia-se em comunhão com ele. Seria impensável que, logo em seguida, se pusesse a falar mal do Mestre e desmerecer sua obra. Portanto, podia continuar livremente a fazer o bem em nome dele.
A orientação de Jesus evitou que a comunidade dos discípulos se fechasse em si mesma, transformando-se numa seita intolerante. Foi uma orientação ecumênica.
Oração
Senhor Jesus, faze-me alegrar com o Reino que dá seus frutos, na história humana, das formas mais imprevistas, para além do controle humano.
padre Jaldemir Vitório
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Acolher em nome de Jesus
Pela variedade de temas neste texto, pode-se supor que se trata de uma compilação do evangelista Marcos, talvez a partir de exortações catequéticas veiculadas pelas tradições das comunidades primitivas. Conforme o evangelista, tendo estado nos povoados de Cesareia de Filipe, ao norte da Galiléia, Jesus com seus discípulos, retornando ao sul com destino a Jerusalém, passam por Cafarnaum. Falando em nome dos demais, João, um dos doze apóstolos, diz a Jesus que, vendo alguém que expulsava demônios em nome dele, o haviam impedido porque tal pessoa não pertencia ao grupo. Na primeira leitura de hoje, temos uma narrativa semelhante que termina com a proclamação de Moisés: "Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!".
A expulsão de demônios significava a libertação de pessoas oprimidas e atormentadas pelo sistema sociorreligioso em que viviam. Os próprios discípulos haviam falhado nesta ação libertadora (Mc. 9,18) e, agora, impediam outros de agirem assim. Com isto, negam o projeto de Jesus. Pela narrativa percebe-se que havia pessoas que tinham fé em Jesus, possivelmente gentios da Galiléia, e agiam em seu nome, embora não pertencessem aos doze que circundavam Jesus.
Os Doze, aqui representados por João, ainda estão apegados à esperança messiânica davídica segregacionista, característica da tradição do Primeiro Testamento, e rejeitam aqueles que estão fora do grupo. Jesus os repreende, pois a missão não está no proibir, mas, sim, no valorizar todos os gestos e todas as práticas libertadoras e promotoras da vida, mesmo que sejam praticadas por pessoas que estejam fora dos grupos missionários confessionais. Há quem julgue que o missionário é aquele que tem a salvação e vai levá-la aos pecadores; é perito na doutrina e vai ensinar os que a ignoram; recebe um poder com o qual vai dar eficiência à missão. Pelo contrário, cabe à missão, a exemplo de Jesus, reconhecer, valorizar e solidarizar-se com as manifestações de vida, de busca da liberdade e da justiça, onde quer que floresçam. Em qualquer povo, em qualquer cultura, em qualquer tempo.
A seguir, no texto de Marcos, com caráter catequético, temos uma fala de Jesus estimulando a acolhida a todos aqueles que vêm em seu nome. As sentenças sobre a queda dos pequenos são orientações para prevenir escândalos dentro da própria comunidade de discípulos. As alusões às quedas pela mão ou pelo olho são simbólicas, com variado sentido. Podem indicar más ações e aspirações de poder e prestígio. Os anúncios finais de condenação não condizem com a índole misericordiosa e compassiva de Jesus, indicando tratar-se de adaptações tardias das comunidades de origem do judaísmo, pois refletem o deus do Primeiro Testamento que é o "Terror de Isaac" (Gn. 31,42), que castiga e condena. A queda dos pequenos muitas vezes é provocada pelos ricos, que vivem luxuosamente, entregues à boa vida, condenando o justo e o assassinando (segunda leitura).
José Raimundo Oliva
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A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum apresenta várias sugestões para que os crentes possam purificar a sua opção e integrar, de forma plena e total, a comunidade do Reino. Uma das sugestões mais importantes (que a primeira leitura apresenta e que o Evangelho recupera) é a de que os crentes não pretendam ter o exclusivo do bem e da verdade, mas sejam capazes de reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito de Deus através de tantas pessoas boas que não pertencem à instituição Igreja, mas que são sinais vivos do amor de Deus no meio do mundo.
A primeira leitura, recorrendo a um episódio da marcha do Povo de Deus pelo deserto, ensina que o Espírito de Deus sopra onde quer e sobre quem quer, sem estar limitado por regras, por interesses pessoais ou por privilégios de grupo. O verdadeiro crente é aquele que, como Moisés, reconhece a presença de Deus nos gestos proféticos que vê acontecer à sua volta.
No Evangelho temos uma instrução, através da qual Jesus procura ajudar os discípulos a situarem-se na órbita do Reino. Nesse sentido, convida-os a constituírem uma comunidade que, sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, procura acolher, apoiar e estimular todos aqueles que atuam em favor da libertação dos irmãos; convida-os também a não excluírem da dinâmica comunitária os pequenos e os pobres; convida-os ainda a arrancarem da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino.
A segunda leitura convida os crentes a não colocarem a sua confiança e a sua esperança nos bens materiais, pois eles são valores perecíveis e que não asseguram a vida plena para o homem. Mais: as injustiças cometidas por quem faz da acumulação dos bens materiais a finalidade da sua existência afastá-lo-ão da comunidade dos eleitos de Deus.
Leitura I – Nm. 11,25-29
Leitura do Livro dos Números
Naqueles dias, o Senhor desceu na nuvem e falou com Moisés. Tirou uma parte do Espírito que estava nele e fê-lo pousar sobre setenta anciãos do povo. Logo que o Espírito posou sobre eles, começaram a profetizar; mas não continuaram a fazê-lo. Tinham ficado no acampamento dois homens: um deles chamava-se Eldad e o outro Medad. O Espírito poisou também sobre eles, pois contavam-se entre os inscritos, embora não tivessem comparecido na tenda; e começaram a profetizar no acampamento. Um jovem correu a dizê-lo a Moisés: Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento. Então Josué, filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: Moisés, meu senhor, proíbe-os. Moisés, porém, respondeu-lhe: Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!
Ambiente
O Livro dos Números (assim chamado na versão grega, pelo fato de o livro começar com uma lista de recenseamento onde são dados os números de membros de cada tribo do Povo de Deus) apresenta um conjunto de tradições – sem grande preocupação de coerência e de lógica – sobre a estadia no deserto dos hebreus libertados do Egito. São tradições de origem diversa, que os teólogos das escolas jahwista, elohista e sacerdotal utilizaram com fins catequéticos. No seu estado atual, o livro está dividido em três partes. A primeira narra os últimos dias da estadia do Povo de Deus no Sinai (cf. Nm. 1,1-10,10); a segunda apresenta, em várias etapas, a caminhada do Povo pelo deserto, desde o Sinai à planície de Moab (cf. Nm. 10,11-21,35); a terceira apresenta a comunidade dos filhos de Israel instalada na planície de Moab, preparando a sua entrada na Terra Prometida (cf. 11,1-36,13). Mais do que uma crônica de viagem do Povo de Deus desde o Sinai, até às portas da Terra Prometida, o Livro dos Números é um livro de catequese. Pretende mostrar que a essência de Israel é ser um Povo reunido à volta de Jahwéh e da Aliança. Com algum idealismo, os autores do Livro dos Números vão descrevendo como, por ação de Jahwéh, esse grupo informe de nómadas libertado do Egito foi ganhando progressivamente uma consciência nacional e religiosa, até chegar a formar a “assembléia santa de Deus”. Ao longo do percurso geográfico pelo deserto, Israel vai fazendo também uma caminhada espiritual, durante a qual se vai libertando da mentalidade de escravo, para adquirir uma cultura de liberdade e de maturidade. O autor mostra como, por ação de Deus (que está sempre presente no meio do Povo), Israel vai progressivamente amadurecendo, renovando-se, transformando-se, alargando os horizontes, tornando-se um Povo mais responsável, mais consciente, mais adulto e mais santo. O episódio que hoje nos é proposto acontece pouco depois da partida do Sinai. Num lugar chamado Tabera (cf. Nm. 11,3), o Povo revoltou-se por não ter comida em abundância e murmurou contra Jahwéh. Moisés, cansado e desiludido, queixou-se ao Senhor de não conseguir aguentar o fardo da condução deste Povo rebelde (cf. Nm. 11,11-15); então, Jahwéh propôs a Moisés escolher setenta anciãos que, depois de ungidos pelo Espírito de Deus, ajudariam Moisés na tarefa de conduzir o Povo pelo deserto (cf. Nm 11,16-24). É precisamente neste ponto que começa o nosso texto.
Mensagem
Os “anciãos” (em hebraico: “tzequenîm”) são uma instituição no universo político e social de Israel. São os “cabeças de família” que formavam, em cada cidade, uma espécie de “conselho” e que presidiam à comunidade. O nosso texto faz remontar a Moisés e ao deserto a instituição dos anciãos. Na perspectiva do catequista bíblico, eles recebem o Espírito de Deus para colaborar na governação do Povo de Deus.
A forma como o nosso autor descreve o dom do Espírito é a seguinte: Deus tirou “uma parte” do Espírito que estava em Moisés e derramou-o sobre os setenta anciãos. Na perspectiva do autor, a explicação é esta: Moisés possuía a plenitude do Espírito enquanto dirigiu sozinho o Povo de Deus; porém, quando a responsabilidade da governação foi dividida com os setenta anciãos, também o Espírito que repousava em Moisés foi repartido por todos. A descrição, ainda que bizarra, dá a ideia, por um lado, da unidade do Espírito e, por outro, da partilha do mesmo Espírito por todos aqueles que Deus chama a uma missão.
A presença do Espírito de Deus nos anciãos manifesta-se na capacidade de profetizar. O “profetismo” de que aqui se fala não tem nada a ver com o “profetismo” dos grandes profetas pregadores e escritores que Israel conhecerá mais tarde; mas designa um estado de entusiasmo ou frenesim, de êxtase e delírio coletivo, destinados a criar um clima de fervor e de exaltação religiosa. Nesta altura, manifestações deste tipo são vistas como sinais da presença do Espírito de Deus.
A história tem, contudo, um epílogo inesperado: Eldad e Medad, dois anciãos que estariam na lista dos setenta escolhidos, mas que não estavam presentes no momento da recepção do Espírito, começaram também a profetizar. Josué crê que se trata de um abuso intolerável, que põe em causa as competências da hierarquia estabelecida e propõe a Moisés que lhe ponha cobro… A resposta de Moisés é a resposta de um homem livre, magnânimo, de espírito aberto, que não está preocupado com o controle dos mecanismos de poder, mas com a vida e a felicidade do seu Povo: “Estás com ciúmes por causa de mim? Quem me dera que todo o Povo fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles” (vers. 29).
A resposta de Moisés será um anúncio profético do dia do Pentecostes, quando o Espírito de Deus se derramou sobre a totalidade do Povo da Nova Aliança (cf. Act. 2,16-21).
Atualização
• A comunidade do Povo de Deus é a comunidade do Espírito. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e com o seu projeto de vida. Mesmo o irmão mais humilde, mais pobre, menos considerado da nossa comunidade possui o Espírito de Deus.
•O episódio ensina também que o Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja tem o monopólio do Espírito, nenhuma instituição pode controlá-lo ou acorrentá-lo. Por vezes, somos testemunhas da ação do Espírito no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa instituição religiosa… Não temos que sentir-nos melindrados ou ciumentos se Deus age no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja; temos é de reconhecer a presença de Deus nos gestos de amor, de paz, de justiça, de solidariedade, de partilha que todos os dias testemunhamos (mesmo naqueles que se dizem ateus) e agradecer ao nosso Deus a sua presença, a sua ação, o seu amor pelos homens e pelo mundo.
•A certeza de que ninguém tem o exclusivo do Espírito obriga-nos a pôr de lado qualquer atitude de fanatismo, de intransigência ou de intolerância face às perspectivas diferentes com que somos confrontados. Os preconceitos, os esquemas egoístas, as condenações à priori, os julgamentos apressados, podem fazer-nos perder os desafios que o Espírito, pela voz dos irmãos, nos apresenta.
•Moisés, o líder do processo de libertação que trouxe os hebreus da terra da escravidão para a Terra da liberdade, foi capaz de reconhecer a sua debilidade e a sua incapacidade de “fazer tudo” e aceitou a ajuda da comunidade. Não teve ciúmes, nem inveja, nem medo de perder o controle do processo, nem dificuldade em aceitar a partilha das tarefas que o Senhor lhe confiou. Com o seu exemplo, ele ensina os responsáveis das nossas comunidades a aceitar a ajuda dos irmãos, a partilhar com outros o peso da responsabilidade de conduzir a comunidade do Povo de Deus. Por vezes, temos a convicção de que só nós somos capazes de fazer as coisas bem e evitamos aceitar a ajuda dos outros; por vezes, sentimos que a intervenção de outras pessoas é uma ameaça ao nosso poder e rejeitamos qualquer ajuda; por vezes, queremos controlar o caminho da comunidade, porque não estamos dispostos a renunciar aos nossos sonhos, aos nossos projetos pessoais… Já pensamos que, quando não aceitamos partilhar responsabilidades, estamos a impedir os outros de crescer? Já pensamos que, quando somos nós a conduzir todo o processo, sem nos deixarmos confrontar com perspectivas diferentes, podemos estar a calar os desafios do Espírito?
Salmo responsorial – Salmo 18 (19)
Refrão: Os preceitos do Senhor alegram o coração.
A lei do Senhor é perfeita, ela reconforta a alma. As ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples.
O temor do Senhor é puro e permanece eternamente; Os juízos do Senhor são verdadeiros, todos eles são retos.
Embora o vosso servo se deixe guiar por eles e os observe com cuidado, quem pode, entretanto, reconhecer os seus erros? Purificai-me dos que me são ocultos.
Preservai também do orgulho o vosso servo, para que não tenha poder algum sobre mim: então serei irrepreensível e imune de culpa grave.
Leitura II – Tg. 5,1-6
Leitura da Epístola de São Tiago
Agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos, por causa das desgraças que vão cair sobre vós. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós e devorar a vossa carne como fogo. Acumulastes tesouros no fim dos tempos. Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança. Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste.
Ambiente
A Carta de Tiago termina com dois blocos de exortações onde o autor recorda aos seus interlocutores alguns dos aspectos que elencou anteriormente e que, na sua perspectiva, devem ser tidos em séria conta por parte de quem está interessado em viver a vida cristã autêntica. Para o autor, o acesso à vida plena depende das opções que o homem faz enquanto caminha nesta terra. O primeiro bloco (cf. Tg. 4,11-5,6) contém um elenco de atitudes negativas, que os crentes devem evitar a todo o custo: falar mal dos irmãos (cf. Tg. 4,11-12), viver no orgulho e na auto-suficiência face a Deus (cf. Tg 4,13-17), viver para os bens materiais e praticar injustiças contra os pobres (cf. Tg. 5,1-6). O segundo bloco (cf. Tg. 5,7-20) contém uma lista de atitudes positivas que os crentes devem assumir enquanto esperam a vinda do Senhor: paciência, perseverança e firmeza no falar (cf. Tg. 5,7-12), oração (cf. Tg. 5,1-18) e preocupação em reconduzir ao bom caminho o irmão que anda afastado (cf. Tg. 5,19-20). O texto que nos é proposto é um grito profético de denúncia dos ricos, do seu orgulho e auto-suficiência, da sua obsessão pelos bens materiais. Este texto deve ser colocado no quadro geral de uma época de profundas desigualdades: ao lado de uma riqueza desmesurada e sem limites, vive e sofre a miséria mais aguda. A exploração do pobre e a violência contra os humildes eram, na época, fenômenos demasiado frequentes e que os cristãos conheciam bem.
Mensagem
A primeira parte do nosso texto (vers. 1-3) trata do problema da acumulação da riqueza. O autor, como numa visão profética, contempla o final dos tempos e descreve, com violência, a sorte que espera aqueles cujo objetivo principal na vida foi o acumular bens. Será que os bens, o poder, a consideração que eles gozaram neste mundo lhes servirá de alguma coisa, quando chegar o juízo final, o momento em que se joga o destino definitivo do homem? Obviamente que não. Esses bens nos quais os ricos depositam agora toda a sua segurança e esperança perderão todo o valor (“as vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se…” – vers. 2-3a); ou, pior ainda, serão uma testemunha de acusação, que denunciará o amor descontrolado dos bens materiais, o orgulho e a auto-suficiência, as injustiças praticadas contra os pobres. O destino final dos bens perecíveis é a destruição; e quem tiver os bens materiais como o seu deus, a sua referência fundamental, não terá acesso à vida plena e eterna (vers. 3b.c). Na segunda parte do nosso texto (vers. 4-6), o autor refere-se à origem desses bens acumulados pelos ricos. Para o autor, não há dúvidas nem meios-termos: a riqueza provém sempre da exploração dos pobres. Como exemplo, o autor cita o não pagamento dos salários devidos aos trabalhadores que ceifaram os campos dos ricos (vers. 4). Trata-se de um pecado que a Lei condena de forma veemente e que Deus castigará duramente (cf. Lv 19,13; Dt. 24,15). Não pagar o salário ao trabalhador é condená-lo à morte, bem como a toda a sua família (vers. 6). Os luxos e os prazeres dos ricos vivem assim da morte dos pobres. Naturalmente, Deus não pode pactuar com a injustiça e, por isso, não ficará indiferente ao sofrimento do pobre e do oprimido. O clamor dos injustiçados sobe da terra até junto de Deus e faz com que Deus atue. Com ironia mordaz, o autor compara o rico ao cevado que, engordando, apressa o dia da sua própria matança (vers. 5): os ricos, vivendo no luxo e nos prazeres à custa do sangue dos pobres, estão a preparar para si próprios um caminho de desgraça e de castigo. A linguagem do autor da Carta de Tiago é violenta e colorida, bem ao gosto dos pregadores da época. Para além da veemência das palavras deve ficar, contudo, esta mensagem: quem vive para os bens materiais e coloca neles o sentido da sua existência, dificilmente terá disponibilidade para acolher os dons de Deus e para acolher essa vida plena que Deus quer oferecer aos homens. Por outro lado, Deus não tolera a exploração, a opressão do pobre; e quem conduzir a sua vida por caminhos de injustiça, não poderá fazer parte da família de Deus.
Atualização
• O autor da Carta de Tiago critica os ricos, em primeiro lugar porque eles vivem apenas para acumular bens materiais, negligenciando os verdadeiros valores. Fazem do ouro e da prata os seus deuses e centram toda a sua existência em valores caducos e perecíveis. No final da sua existência vão perceber que gastaram a vida a correr atrás de algo que não dá felicidade nem conduz o homem à vida plena; a sua existência terá sido, então, um dramático equívoco. O “aviso” do autor da Carta de Tiago conserva uma espantosa atualidade… A acumulação de bens materiais tornou-se, para tantos homens do nosso tempo, o único objetivo da vida e o critério único para definir uma vida de sucesso. Contudo, aqueles que apostam tudo nos bens perecíveis facilmente constatam como essa opção não responde, em definitivo, à sua sede de felicidade e de vida plena. O ouro, a conta bancária, o carro de luxo, a casa de sonho, dão-nos satisfações imediatas e, talvez, um certo estatuto aos olhos do mundo; mas não saciam a nossa sede de vida eterna. Nós, os cristãos, somos chamados a testemunhar que a vida verdadeira brota dos valores eternos – esses valores que Deus nos propõe.
•O autor da Carta de Tiago critica os ricos, em segundo lugar, porque frequentemente a riqueza resulta da exploração e da injustiça. Acumular bens à custa da miséria e da exploração dos irmãos é, na perspectiva do autor do nosso texto, um crime abominável e que Deus não deixará impune. Não é cristão quem não paga o salário justo aos seus operários, mesmo que ofereça depois somas chorudas para a construção de uma igreja; não é cristão quem especula com os bens de primeira necessidade, mesmo que vá todos os domingos à missa e pertença a vários grupos paroquiais; não é cristão quem inventa esquemas para não pagar impostos, mesmo que seja muito amigo do padre da paróquia; não é cristão quem se aproveita da ignorância e da miséria para realizar negócios altamente rentáveis, mesmo que pense repartir com Deus os frutos das suas rapinas…
•Uma coisa deve ficar clara: Deus não apóia nunca quem vive fechado em si próprio, no açambarcamento egoísta desses bens que Deus nos concedeu para serem postos ao serviço de todos os homens; e qualquer crime cometido contra os pobres é um crime contra Deus, que afasta o homem da vida plena da comunhão com Deus.
Aleluia – cf. Jo 17,17b.a
Aleluia. Aleluia.
A vossa palavra, Senhor, é a verdade; santificai-nos na verdade.
Evangelho – Mc. 9,38-43.45-47-48
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, João disse a Jesus: Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demônios em teu nome e procuramos impedir-lho, porque ele não anda conosco. Jesus respondeu: Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas pró um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga.
Ambiente
Estamos ainda em Cafarnaum (cf. Mc. 9,33), a cidade de pescadores situada junto do Lago de Tiberíades. Jesus está “em casa” rodeado pelos discípulos. A ida para Jerusalém está próxima e os discípulos estão conscientes de que se aproximam tempos decisivos para esse projeto em que estão envolvidos. Apesar da sua opção inequívoca por Jesus, os discípulos continuam a dar mostras de não terem ainda conseguido absorver os valores do Reino. Para eles, o seguimento de Jesus é uma opção que deverá traduzir-se na concretização de determinados sonhos de poder, de grandeza e de prestígio… Por isso, sentem-se inquietos e ciumentos quando encontram algo que possa colocar em causa os seus interesses, a sua autoridade, os seus “privilégios”. Jesus vai, com paciência, tentando formar os discípulos na lógica do Reino. O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como Evangelho é mais uma instrução que Jesus dirige aos discípulos no sentido de lhes mostrar os valores que eles devem interiorizar, se quiserem integrar a comunidade messiânica. Marcos juntou aqui uma série de “ditos” de Jesus, inicialmente independentes entre si e pronunciados em contextos diversos. Estes “ditos” apresentam, contudo, exigências várias que os discípulos de Jesus devem considerar e que, em última análise, definem a pertença ou a não pertença à comunidade do Reino.
Mensagem
Sendo o Evangelho deste domingo constituído por um conjunto de “ditos” de Jesus – originariamente independentes uns dos outros e versando questões diversas – temos vários temas a cruzar o nosso texto. O tema principal (uma vez que é também o tema da primeira leitura) aparece na primeira parte do Evangelho… Refere-se à necessidade de a comunidade cristã ser uma comunidade aberta, acolhedora, tolerante, capaz de aceitar como sinais de Deus os gestos libertadores que acontecem no mundo. Nos primeiros versículos deste texto, João (desta vez o porta-voz do grupo) queixa-se pelo fato de terem encontrado alguém a “expulsar demônios” em nome de Jesus, embora não pertencesse ao grupo dos discípulos; considerando um abuso a utilização do nome de Jesus por parte de alguém que não fazia parte da comunidade messiânica, os discípulos procuraram impedi-l’O de atuar (vers. 38-41). A atitude dos discípulos mostra, antes de mais, arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta, presunção de serem os donos exclusivos do bem e da verdade… Mas, por detrás da reação dos discípulos, deve estar também uma grande preocupação com a concretização dos projetos pessoais de prestígio e grandeza que quase todos eles alimentavam. Pouco tempo antes, eles tinham estado a discutir uns com os outros acerca de quem seria o maior e de quem iria herdar os postos mais importantes no Reino que, com Jesus, ia nascer (cf. Mc. 9,33-37); agora, eles estão inquietos e preocupados, porque apareceu alguém de fora do grupo que pretende atuar em nome de Jesus e que pode, num futuro próximo, disputar-lhes os lugares de relevo na estrutura política do Reino. Jesus procura levar os discípulos a ultrapassar esta visão sectária e egoísta da missão. Na perspectiva de Jesus, quem luta pela justiça e faz obras em favor do homem, está do lado de Jesus e vive na dinâmica do Reino, mesmo que não esteja formalmente dentro da estrutura eclesial. A comunidade de Jesus não pode ser uma comunidade fechada, exclusivista, monopolizadora, que amua e sente ciúmes quando alguém de fora faz o bem; nem pode sentir-se atingida nos seus privilégios e direitos pelo fato de o Espírito de Deus atuar fora das fronteiras da Igreja… A comunidade de Jesus deve ser uma comunidade que põe, acima dos seus interesses, a preocupação com o bem do homem; e deve ser uma comunidade que sabe acolher, apoiar e estimular todos aqueles que atuam em favor da libertação dos irmãos. Na segunda parte do nosso texto (vers. 42-48), temos outros “ditos” de Jesus que abordam outros temas. Constituem também indicações aos discípulos sobre as atitudes a assumir para integrar plenamente a comunidade do Reino. Nesses “ditos”, são usadas imagens fortes, expressivas, hiperbólicas, bem ao gosto dos pregadores da época, destinadas a impressionar profundamente os ouvintes. Não são expressões para traduzir à letra; mas são expressões que pretendem marcar a necessidade de fazer escolhas acertadas, de optar com radicalidade pelos valores do Reino. O primeiro desses “ditos” é um aviso àqueles que “escandalizam” os “pequeninos” (vers. 42). Na nossa cultura, “escandalizar” é protagonizar um mau exemplo ou um fato revoltante que melindra ou fere a susceptibilidade daqueles que testemunham essa ação. Na linguagem de Marcos, no entanto, “escandalizar” tem um significado um tanto diferente… O verbo grego “scandalidzô” aqui utilizado define, em Marcos, a ação de desistir de seguir Jesus, de não ter coragem para assumir a proposta que Jesus veio fazer (cf. Mc. 4,17; 8,35.38). Os “pequeninos” de que Jesus fala são os membros da comunidade que estão numa situação de dependência, de debilidade, de necessidade… Os membros da comunidade do Reino devem, portanto, abster-se de qualquer atitude que possa afastar alguém (especialmente os pequenos, os débeis, os pobres) da adesão a Jesus e ao caminho que Ele veio propor. Fazer algo que afaste uma dessas pessoas de Cristo e da comunidade é algo verdadeiramente inadmissível e impensável (a quem fizer isso, “melhor seria que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar” – vers- 42). O segundo “dito” de Jesus (vers. 43-48) refere-se à absoluta necessidade de arrancar da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção por Cristo e pela sua proposta. Quando Jesus fala em cortar a mão (a mão é, nesta cultura, o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) ou de cortar o pé ou de arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é, nesta cultura, o órgão que dá entrada aos desejos), está a sublinhar, com toda a veemência, a necessidade de atuar, lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar na fonte as raízes do mal. Estando em jogo o destino último do homem, não se pode protelar ou adiar “cortes” importantes nas atitudes de egoísmo e de auto-suficiência que afastam os homens de Deus e da vida plena. Há ainda, neste segundo “dito”, referências sucessivas a um castigo na “Geena”, “onde o verme não morre e o fogo não se apaga”, para aqueles que recusarem cortar com as atitudes e os sentimentos incompatíveis com o seguimento de Jesus. A palavra “Geena” vem do hebraico “Ge Hinnon” (“Vale do Hinnon”). Refere-se a um vale situado a sudoeste de Jerusalém, onde eram enterrados os mortos e onde, dia e noite, era queimado o lixo produzido pelos habitantes da cidade. Era considerado, portanto, um lugar maldito, impuro, tenebroso, que convinha evitar. Jesus usa aqui a imagem do “Ge Hinnon”, para falar de uma vida perdida, frustrada, destruída, maldita, sem sentido. Quem não for capaz de cortar com o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, é como se, em lugar de viver num lugar livre e feliz, estivesse condenado a viver no “Ge Hinnon”.
Atualização
•O Evangelho deste domingo apresenta-nos um grupo de discípulos ainda muito atrasados na aprendizagem do “caminho do Reino”. Eles ainda raciocinam em termos de lógica do mundo e têm dificuldade em libertar-se dos seus interesses egoístas, dos seus esquemas pessoais, dos seus preconceitos, dos seus sonhos de grandeza e poder… Eles não querem entender que, para seguir Jesus, é preciso cortar com certos sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a radicalidade que a opção pelo Reino exige. As dificuldades que estes discípulos apresentam no sentido de responder a Jesus não nos são estranhas: também fazem parte da nossa vida e do caminho que, dia a dia, percorremos… Assim, a instrução que, neste texto, Jesus dirige aos seus discípulos serve-nos também a nós. As propostas de Jesus destinam-se aos discípulos de todas as épocas; pretendem ajudar-nos a purificar a nossa opção e a integrar, de forma plena, a comunidade do Reino.
•Antes de mais, Jesus mostra aos discípulos que a comunidade do Reino não pode ser uma seita arrogante, fechada, intolerante, fanática, que se arroga a posse exclusiva de Deus e das suas propostas. Tem de ser uma comunidade que sabe qual o seu papel e a sua missão, mas que reconhece que não tem o exclusivo do bem e da verdade e que é capaz de se alegrar com os gestos de bondade e de esperança que acontecem à sua volta, mesmo quando esses gestos resultam da ação de não crentes ou de pessoas que não pertencem à instituição Igreja. O verdadeiro discípulo não tem inveja do bem que outros fazem, não sente ciúmes se Deus atua através de outras pessoas, não pretende ter o monopólio da verdade nem ter o exclusivo de Jesus. O verdadeiro discípulo esforça-se, cada dia, por testemunhar os valores do Reino e alegra-se com os sinais da presença de Deus em tantos irmãos com outros percursos religiosos, que lutam por construir um mundo mais justo e mais fraterno.
•Os discípulos de que o Evangelho de hoje nos fala estão preocupados com a ação de alguém que não é do grupo, pois temem ver postos em causa os seus sonhos pessoais de poder e de grandeza. Por detrás dessa preocupação dos discípulos não está o bem do homem (aquilo que, em última análise, devia “mover” os membros da comunidade do Reino), mas a salvaguarda de certos interesses egoístas. Nas nossas comunidades cristãs ou religiosas, há pessoas capazes de gestos incríveis de doação, de entrega, de serviço aos irmãos; mas há também pessoas cuja principal preocupação é proteger o espaço que conquistaram e continuar a manter um estatuto de poder e de prestígio… Quando afastamos (com o pretexto de defender a pureza da fé, os interesses da moralidade, ou tranquilidade da comunidade) aqueles que desafiam a comunidade a purificar-se e a procurar novos caminhos para responder aos desafios de Deus, estaremos a proteger os interesses de Deus ou os nossos projetos, os nossos esquemas interesseiros, as nossas apostas pessoais?
•No nosso texto, Jesus exige dos discípulos o corte radical com os valores, os sentimentos, as atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino. O discípulo de Jesus nunca está acomodado, instalado, conformado; mas está sempre atento e vigilante, procurando detectar e eliminar da sua existência tudo aquilo que lhe impede o acesso à vida plena. Naturalmente, a renúncia ao egoísmo, ao comodismo, ao orgulho, aos esquemas pessoais, à vontade de poder e de domínio, ao apelo do êxito, ao aplauso das multidões, é um processo difícil e doloroso; mas é também um processo libertador e gerador de vida nova. O que é que eu necessito, prioritariamente, de “cortar” da minha vida, para me identificar mais com Jesus, para merecer integrar a comunidade do Reino, para ser mais livre e mais feliz?
•O apelo de Jesus à sua comunidade no sentido de não “escandalizar” (afastar da comunidade do Reino) os pequenos, faz-nos pensar na forma como lidamos, enquanto pessoas e enquanto comunidades, com os pobres, os que falharam, os que têm atitudes moralmente reprováveis, aqueles que têm uma fé pouco consistente, aqueles que a vida marcou negativamente, aqueles que a sociedade marginaliza e rejeita… Eles encontram em nós a proposta libertadora que Cristo lhes faz, ou encontram em nós rejeição, injustiça, marginalização, mau exemplo? Quem vê o nosso testemunho tem razões para aderir a Cristo, ou para se afastar de Cristo?
Algumas sugestões práticas para o 26º domingo do tempo comum
1. A palavra meditada ao longo da semana.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 26º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. Bilhete de evangelho.
Quando Jesus chama, pede para deixar tudo para O seguir. Quando Jesus fala do Reino, anuncia um mundo totalmente novo. Quando Jesus pede para amar, propõe um regresso radical. Mas será necessário tempo aos seus discípulos para compreender tudo isso, e sobretudo para vivê-lo. Eles conhecerão hesitações, procurarão compromissos, porão condições. Ora, para Jesus, nada deve ser obstáculo à entrada no Reino de Deus. Jesus coloca o homem face à sua liberdade, ele deve escolher. Se ele escolheu o Reino, deve aceitar as suas exigências, que se resumem numa única palavra AMAR. O homem é convidado a amar com todo o seu ser: as suas mãos para partilhar, os seus pés para reencontrar, os seus olhos para olhar. Cabe ao homem fazer com que todo o seu ser responda à sua vontade de amar.
3. À escuta da palavra.
“Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demônios em teu nome e procuramos impedir-lho, porque ele não anda conosco»”. João quer delimitar as fronteiras do grupo dos discípulos, pôr em ordem, classificar os bons de um lado, os maus de outro, separar aqueles que estão “em regra” daqueles que estão à margem. Esta tentação de erguer barreiras entre os homens em nome de Deus é uma tentação mortal. É a tentação de todos aqueles que pretendem agir em nome de Deus, que se declaram, eles e apenas eles, detentores da Verdade e reivindicam serem eles os únicos verdadeiros fiéis de Deus. Todos os outros, que não pensam, que não agem como eles devem ser rejeitados, condenados. Essa tentação gera o fanatismo. Isso não é em vista do espírito! É uma realidade bem concreta no nosso mundo e também na história, antiga e atual, de praticamente todas as religiões. Mas Jesus conduz-nos para além disso. Sem dúvida diz Ele: “Eu sou a Verdade”, mas não reivindica qualquer poder. Recusa entrar no jogo de João: “Não impeçais este homem de expulsar os demônios em meu nome”. Porquê? Porque Jesus veio para reunir na unidade os filhos de Deus dispersos e, como dirá São Paulo, para destruir a barreira que separava os Judeus e os pagãos, para fazer a paz e reconciliar todos os homens com Deus e entre eles.
4. Para a semana que se segue…
Com Maria, humilde serva… Para nos ajudar a amar sem orgulho, em quase início de mês de Outubro, mês do Rosário: peçamos o apoio e a intercessão de Maria. Ela que foi a humilde serva do Senhor, pode ensinar-nos a humildade, o serviço, a disponibilidade, o amor.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam
A chave de compreensão para as leituras deste domingo: “Ninguém pode ser excluído do serviço que se realiza em nome de Deus”. Em meio às tradições do povo israelita pelo deserto, o livro dos Números apresenta o relato da “partilha” do espírito de Moisés, entre setenta membros do povo. A intenção é que Moisés não tenha que levar a carga sozinho. Com esta decisão de Javé, a responsabilidade fica repartida: cada um dos que receberam parte do espírito que estava em Moisés deveria ser profeta do povo. Portanto, teríamos que atentar para o contexto e intuir as características da tarefa destes personagens.
O capítulo 11 do livro dos Números fala das etapas da marcha pelo deserto; a narrativa centra-se em uma dificuldade do povo: levam vários meses comendo maná e o povo está enfastiado: “temos a alma seca” (v. 6), “não vemos mais que maná” (v.6b), e com isto vem a tentação de lembrar o tempo de abundancia de comida no Egito. Por aqui podemos intuir a grave dificuldade em que se encontra Moisés. O que fazer para que o povo não continue pensando no Egito? O deserto é um grande desafio. Para trás está o Egito, com sua abundancia, porém também com sua escravidão. Para frente está a promessa de terra, liberdade, vida digna, porém, que precisa ser conquistada às custas de privações, sacrifícios e esforços.
O relato causa admiração porque Javé se encoleriza... É um recurso literário para introduzir a preocupação de Moisés, expressa em uma bela oração de intercessão pelo povo. A solução proposta por Javé é adequada: reunir setenta representantes do povo para repartir entre eles o espírito que estava em Moisés; dessa maneira a direção, orientação e conscientização do povo seria tarefa de muitos e não somente de Moisés.
O espírito doado a todas essas pessoas é profético, isto é, está em função da profecia. É preciso assumir que esta atividade profética está orientada a ajudar o povo a tomar mais e mais consciência do plano de Deus em relação ao povo, a entender o que há realmente por trás disso: Egito e sua abundancia de comida, porém com escravidão, que é o contrario ao plano divino, e o que está à frente: um deserto inevitável, desafiante, mortal, porém, no fim das contas, um meio necessário para chegar à terra da liberdade, terra da promessa.
A qualquer pessoa do povo que, entendendo assim as coisas, “catequizasse” a seus irmãos, nesse sentido deveria ser visto como profeta “autorizado”, não porque houvesse estado necessariamente na tenda do encontro, mas por estar em comunhão com o ideal de Javé. Esse parece ser o caso de Eldade e Medade. Eles não estiveram no momento da partilha do espírito e, contudo estavam profetizando. Vem a reação de Josué, o mesmo que mais tarde se encarregará de guiar o seu povo nos trabalhos de conquista e ocupação da terra prometida. Josué não entende ainda que tudo que conflui de maneira positiva na consciência do ser humano, deve ser considerado profeta, e por isso aconselha a Moisés que eles sejam proibidos (v. 28).
Moisés, porém, tendo captado muito bem que no trabalho de libertação do povo todos possuem sua importância, responde a Josué com palavras aparentemente duras, porém que buscam também abrir a consciência de seu ajudante: “oxalá todo o povo fosse profeta” (v. 29); oxalá cada um assumisse com verdadeiro empenho a tarefa de conscientizar-se e conscientizar seu próximo.
Não é exatamente isto que Deus quer e espera? Parece que Josué não estava preocupado com a necessidade de que cada membro do povo tivesse uma consciência bem formada para continuar a caminhada pelo deserto. A preocupação era mais em defender “o oficial”, o “autorizado” por Deus na tenda de encontro, isto é, o “instituído”, a defesa dos “direitos de Deus”.
Na mesma linha, o evangelho de Marcos apresenta para este domingo uma situação semelhante, vivida pelos discípulos de Jesus. Há pouco tinham aprendido de Jesus a lição sobre quem seria o maior (Mc. 9,33-37), produz-se um incidente que tem a ver com a idéia de exclusividade dos membros do grupo seguidor de Jesus. João conta a Jesus que haviam impedido a um homem de expulsar demônios em seu nome porque não era membro do grupo (v. 38).
Não há uma pergunta, como fazer em casos semelhantes; que posição assumir, etc. A resposta de Jesus é sabia: “ninguém faz um milagre em meu nome e depois fala mal de mim” (v. 39) e “o que não está contra nós, está a nosso favor”. Na tarefa de construção do reino ninguém tem exclusividade. Talvez os discípulos não tinham claro ou não recordavam que sua pertença ao grupo de Jesus foi um dom de pura gratuidade; ninguém deles apresentou diante de Jesus uma relação de méritos para ser elogiado; foi Jesus quem se apresentou a eles, interpôs-se no caminho de cada um e os chamou, mesmo sabendo que não eram os melhores nem os mais representativos da sociedade.
Nesse sentido, outros ainda continuam sendo chamados. Em cada homem e em cada mulher, Deus semeou as sementes do bem; como e quando essas sementes começam a germinar e dar frutos, isso é decisão de cada um. Às vezes nos parecemos com João e o resto dos discípulos, reagimos com quem, sem pertencer à instituição, faz obras melhores que as nossas. E sai imediatamente a frase: “mas esse ou essa pertence a tal ou qual religião, ou de tal ou qual grupo...”. Muitas vezes os nossos interesses mesquinhos, critérios de autoridade e de exclusividade, rejeitados por Jesus (cf. Mc. 9,39), se sobrepõem à vocação universal de fazer o bem e à prática do amor.
O diálogo de Jesus com seus discípulos reflete a situação da comunidade para a qual Marcos escreve seu evangelho. Uma comunidade muito consciente do que eram as exclusões, porém ao mesmo tempo correndo o risco de ser exclusivista, com a aparência de coisa boa: “ser ou não ser dos nossos”. “ser ou não ser do caminho”, “estar ou não estar no processo...” e, enfim, outros argumentos que pretensamente tentar justificar a desculpa de defender a “pureza” da fé ou do “credo” ou da “ordem” ou, enfim, de “defender os direitos” de Deus.
Pois bem, quando se cai no extremos de “defender” a Deus, ou os “direitos” de Deus, o que se pretende é minimizar a Deus, colocá-lo no ridículo ante o mundo e a conseqüência mais imediata, a
que previu Jesus e que talvez já estava presente na comunidade primitiva: o escândalo para com os pequenos. Jesus se preocupa com os “pequenos”, não somente os menores de idade, mas os que apenas começam a intuir a dinâmica do reino com a subseqüente imagem de Deus que ele propõe.
Contudo, através dos séculos, os perigos da comunidade primitiva se convertem em fatos reais: quantos crentes promotores do bem, da justiça e da paz foram excluídos ou silenciados somente porque “não eram dos nossos”, quantos Josués e Joões “defenderam” uma pretensa exclusividade que certamente ninguém possui, mas que serve apenas para escandalizar cada vez mais a muitos fazendo-os crer que Deus é tão pequeno a ponto de ser reduzido aos estreitos limites de um grupo ou de uma instituição, ainda que seus adeptos sejam contados aos milhares.
Se conseguimos tomar consciência de que Deus é maior que um grupo ou uma instituição e que em nenhum momento nossa vocação é a de defender supostos direitos de Deus, mas simplesmente servir, colocar-se a serviço da construção do Reino, a partir das múltiplas possibilidades que isso implica, dada a insondável riqueza do mesmo espírito, então jamais podemos pensar se este ou aquele é ou não é “dos nossos”, mas ... como cooperar mais e melhor com aquele ou aquela que tão bem estão lutando por construir aqui o reino!
Oração: Ó Deus, pai-mãe que te manifestas em todas as coisas, abre nossos corações e nossas mentes para compreender melhor o que desde sempre nos comunicas, inclusive por aqueles que te conhecem por outros caminhos e outras linguagens; arranca de nós toda tentação de exclusivismo e mantém-nos dispostos a ajudar na construção coletiva do teu Reino. Isto te pedimos, inspirados em Jesus, transparência tua.
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“Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome!”
Neste Evangelho encontramos algo ainda muito comum em nossos dias. Nos deparamos com os discípulos de Jesus proibindo um homem de curar as pessoas, por não pertencer ao grupo. Já pensou? Não podia fazer o bem, por não pertencer ao seleto grupo de apóstolos.
Convém notar que eles dizem “ele não nos segue”. Não disseram que o homem não seguia a Jesus, mas sim que não seguia a eles, seus discípulos. Isso mostra como ninguém está livre do orgulho e da presunção. Até os apóstolos de Jesus foram contaminados pelo orgulho, pela prepotência.
Sabiam que se tratava uma boa obra, no entanto, procuraram desmerecê-la, pois o homem não pertencia à comunidade. Da forma como agiram, dá a impressão que fazer o bem é uma exclusividade de determinado grupo ou pastoral.
Como dissemos, esse fato não é incomum. Infelizmente, milhares de discípulos, que se autodenominam cristãos, fingem não enxergar, procuram ignorar e minimizar o bem praticado por alguém que não pertença a sua igreja ou não professe a sua fé.
É importante lembrar dos privilégios que nossa religião nos traz: nós temos uma Mãe que nos ama e que intercede por nós. Temos os Sacramentos, em particular o Sacramento da Eucaristia, alimento na caminhada. Temos coisas maravilhosas! Jesus nos deixou tantas coisas boas, que se torna difícil enumerá-las.
No entanto, sem perder sua identidade e sua crença, o verdadeiro cristão deve também se alegrar ao encontrar alguém, noutra religião, praticando o bem, lutando por um mundo melhor, com exemplos de justiça, generosidade, religiosidade, tolerância, respeito e amor ao próximo.
Jesus disse: “Quem trabalha em benefício do irmão, é dos nossos. Ninguém faz nada em meu nome e depois fala mal de mim”. É hora de aceitar o convite do Mestre para abrir os olhos do coração e enxergar o bem onde quer que se encontre.
Em setembro, o mundo celebra o dia internacional da paz. Representantes de diversas religiões se encontram para falar de amor, para falar de paz. É o respeito que está presente, tornando realidade o diálogo ecumênico entre irmãos.
Ecumenismo significa convivência pacífica, proximidade, diálogo e respeito. Não precisamos, não podemos, e nem devemos mudar nossas convicções, nem tentar forçar mudanças nos outros. O diálogo inter-religioso deve servir para aproximar, para ressaltar as coisas comuns e nos fazer tolerantes nas divergências.
É importante lembrar, e sempre por em prática estas palavras: “A certeza de que estamos no caminho certo, não deve servir de pretexto para afirmar que nosso caminho é o único!”.
Jesus encerra seu Evangelho advertindo sobre o dano que provoca o escândalo, causado aos pequenos. Os pequenos que Jesus se refere, não são necessariamente as crianças, mas sim aquelas pessoas fracas na fé e que estão caminhando seus primeiros passos em direção ao Mestre. Ai daqueles que provocar seu afastamento da fé no Cristo Ressuscitado.
Vamos levar para as nossas comunidades esta Boa Notícia: se acolhermos com muito amor os renegados e excluídos, se as portas das nossas comunidades se abrirem para acolher aqueles que erraram e que procuram à reconciliação, nós estaremos trazendo para o caminho certo os filhos prediletos de Deus.
Jorge Lorente
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A página evangélica de são Marcos apresentada na liturgia deste domingo reúne para nós um punhado de ensinamentos muito valiosos de Jesus. Aliás, seria o caso de perguntar se há algum ensinamento de Jesus que não seja valioso! Ele, o único que pôde dizer: "Eu sou a verdade" (Jo. 14,6). E que pôde dizer ainda mais explicitamente: "Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não, andará nas trevas" (Ibid. 8,12).
O primeiro ensinamento é quando João vem dizer ao Mestre que havia alguém expulsando demônios em seu nome, e que o queriam impedir, uma vez que não era do grupo dos discípulos. Mas Jesus disse que o deixassem agir em paz, pois, se estava invocando seu nome para fazer milagres, não iria falar mal dele. E sentenciou - valendo-se, ao que parece, de um provérbio: "Quem não está contra nós, está conosco" (Mc. 9,40). E a abertura para a verdade dos outros que Jesus nos quer ensinar. Não podemos pretender ter o monopólio da verdade. Mesmo em outras religiões se encontram parcelas, mais ou menos generosas, da verdade. Cabe a nós ter discernimento, para aprovar o que nelas estiver de acordo com o Evangelho, para reprovar o que for incompatível com o Evangelho, e ter muita compreensão para matizes diferentes da verdade que elas possam apresentar.
Logo em seguida, Jesus dá outro precioso ensinamento: "Quem for ocasião de pecado a um desses pequeninos que crêem em mim, seria melhor que lhe atassem ao pescoço uma mó de moinho e o atirassem ao fundo do mar" (Mc. 9,42). Os pequeninos de que se fala aqui não são necessariamente as crianças, mas todo aquele que é pobre, humilde, desvalido, sobretudo ignorante e de boa - fé. Que pecado enorme induzir essas pessoas, com a palavra ou com o exemplo a praticar o mal! E o caso desses adultos que ensinam os "meninos de rua" a roubar. Desses malfeitores que encorajam o pobre a participar de furtos e de assaltos. E de todos os que se valem de sua consciência de adultos mal formada para desencaminhar os inexperientes para os mais variados tipos de fraude e de malversação dos dinheiros públicos, como vem acontecendo cada dia em escala mais ampla. A figura da mó de moinho atada ao pescoço é evidentemente uma hipérbole. Mas quer indicar de maneira chocante a gravidade do pecado do escândalo. É preciso sacudir as consciências, porque se vai perdendo no mundo, como lamentava Pio XII, o sentido do pecado. Está faltando o temor de Deus.
E segue-se o último ensinamento, a partir exatamente do tema do escândalo a que o Mestre acaba de se referir. Jesus quer sublinhar a gravidade do escândalo, isto é, de tudo aquilo que é tropeço no caminho do bem e que leva o homem ao pecado.
É uma série de afirmações muito sérias, de um colorido que se pode dizer trágico: "Se tua mão é para ti ocasião de pecado, corta-a; é melhor, entrar na vida mutilado, do que, tendo ambas as mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível".
E assim se corte o pé... e se arranque o olho se for ocasião de pecado, pois "melhor é entrar no Reino de Deus com um só olho, do que, tendo ambos os olhos, seres atirado à geena, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue" (Mc. 9,43...48). Sabemos como a "geena" (vale de Hinnón) era um vale que se estendia do noroeste até o sudoeste de Jerusalém. Era um lugar que tinha sido profanado pelos macabros rituais em que se sacrificavam crianças ao deus Moloc, e que fora transformado pelo piedoso rei Josias em lugar de despejo de todo o lixo da cidade, e onde se queimava permanentemente fogo, tornando o lugar para sempre execrável. Ficou sendo na literatura rabínica o símbolo do inferno, e Jesus assim o usa também.
Como seria importante que essas palavras fortes ressoassem bem alto hoje, neste mundo onde se espalham sem conta as ocasiões de pecado, parecendo às vezes que há uma diabólica conjuração para difundir o mal e dificultar a prática do bem! O "inimicus homo" está aí semeando o joio por toda parte.

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“Quem não está contra nós está a nosso favor”
O texto de hoje nos coloca mais uma vez no contexto do ensinamento de Jesus aos seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos que a partir da crise galilaica, Jesus mudou a sua estratégia, afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa dos seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava.
A primeira atitude a ser corrigida, nos versículos de hoje, é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João se queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de Jesus.
Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, seqüestrar o poder divino! Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos setores mais retrógrados das Igrejas ainda hoje, que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas das suas definições dogmáticas! Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um discípulo: Não lhe proíbam, pois... quem não está contra nós, está a nosso favor” (v. 40). Temos que aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não O escondamos ou deturpemos!
A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo dos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que os pequenos” neste texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã. E é bom lembrar o sentido original da palavra escândalo. Vem de um termo grego que significa pedra de tropeço”. Então se trata de uma situação em que os pequenos da comunidade tropeçam”, isso é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam, por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos, e não aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o Discurso eclesiológico (isto é, da Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mt. 18,6-14).
Usando imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda cortar e jogar fora “a mão, o pé, e o olho”, que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse - por exemplo, Orígenes. Mão” significa a nossa maneira de agir, “pé” o modo de caminhar na vida e olho” o jeito de ver e julgar as coisas, ou até, a nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros etc) a reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estamos causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos cortar e jogar fora” - ou seja, mudar o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do Reino de Deus - a vivência dos valores do Evangelho, que Jesus deu a vida para estabelecer.
A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-Lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus.
padre Lucas de Paula Almeida, CM
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Palavra sem "dono"
Celebramos hoje o dia da Bíblia. A Palavra de Deus sempre nos oferece uma luz para as mais diversas situações de nossa vida. Ela pode ser proclamada por quem Deus quer, não é propriedade exclusiva de ninguém...
Na 1ª leitura, vemos que a Palavra não é Monopólio de ninguém (Nm. 11,25-29)
Moisés já idoso sente-se incapaz de continuar dirigindo o povo: "Sozinho não posso mais carregar esse povo". O Senhor lhe propõe a escolher 70 anciãos que,   depois de ungidos pelo Espírito, o ajudariam nessa tarefa. Deus derramou o seu espírito sobre 70 anciãos, que se puseram logo a profetizar, mas não continuaram. E dois, que não estavam no grupo, começaram a profetizar…
Josué vê nisso um abuso intolerável e propõe a Moisés: "Manda que eles se calem". Moisés, pelo contrário, alegra-se com o fato e afirma: "Oxalá todos recebessem o Espírito e profetizassem!"
Moisés, longe de ter ciúmes, sente-se feliz em compartilhar com outros sua responsabilidade… O perigo é querer fazer tudo sozinho, ou pior não dar vez a ninguém…
Em nossas comunidades, podemos também nos deixar levar - pela tentação de Moisés de querer fazer tudo sozinho ou pelo ciúme de Josué, de impedir o trabalho de quem não for do "grupo".
Pelo batismo, todos recebemos a missão de ser profetas, sacerdotes e reis. Todos somos chamados a falar em nome de Deus, anunciar o seu Reino.
Todos os batizados receberam a missão de santificar os ambientes onde vivem e trabalham.
Todos somos reis e devemos usar o poder para cuidar com retidão de tudo e de todos como criaturas de Deus.
Na 2ª leitura, Tiago denuncia o acúmulo de riquezas de alguns,
a custa da miséria de muitos (Tg. 5,1-6)
O Evangelho mostra que ninguém tem o Monopólio de Cristo (Mc. 9,38-43.47-48)
Os apóstolos não conseguem expulsar o espírito mudo de uma pessoa... Pelo contrário, uma pessoa "fora" ao grupo consegue, em nome de Jesus... Os discípulos, aborrecidos, manifestam sua insatisfação.
Jesus rejeita o exclusivismo: "Não lhe proíbam... Quem não está contra, está a nosso favor".
As leituras lembram duas verdades:
1) a Palavra de Deus não é monopólio de ninguém e deve ser anunciada por todos: "Oxalá todo o povo profetizasse";
2) o Nome de Jesus não é monopólio de ninguém: mais do que pertencer ao grupo de Cristo, o importante é estar "em sintonia" com Jesus…
No dizer do papa: "Devemos ser amigos de Jesus, não donos".
As Igrejas separadas, que também falam em nome de Jesus, devemos combatê-las como inimigas, ou enxergá-las como possíveis parceiras no trabalho do Reino?
O Reino não pode ser um grupo fechado e fanático, que se arroga a posse exclusiva de Deus e de suas propostas. Deve ser uma comunidade que reconhece não ter o exclusivo do bem e da verdade e se alegra com tantas pessoas, que buscam a Deus com sinceridade, praticam com lealdade o Bem, a Verdade e a Justiça, mesmo sem pertencer ao "nosso" grupo.
Por que ter inveja daqueles que cumprem gestos generosos que talvez nós não tivemos a coragem para fazer?
Jesus não quer que sua Igreja seja um gueto fechado, mas um rebanho aberto a outras ovelhas, que ainda não são do seu rebanho. Deve estar sempre atenta aos sinais dos tempos, para uma perene renovação, guiada pelo Espírito do Senhor...
O apelo de Jesus no sentido de não "escandalizar" os pequenos lembra a atitude que as pessoas e as comunidades devem ter para com os "pequenos", os pobres, os que falharam, os que se afastaram, os que têm fé sem profundidade, os marginalizados pela sociedade.
O nosso testemunho leva-os a aderir a Cristo ou a afastar-se dele?
Os donos da Igreja, o que fazer deles?
Em nossas comunidades cristãs, há pessoas capazes de gestos incríveis de doação, de entrega, de serviço; mas há, também, pessoas, preocupadas em proteger o espaço de poder e de prestígio, que conquistaram.
São verdadeiros donos do santo e das coisas da comunidade.
Essas pessoas são responsáveis de muita gente se afastar da comunidade.
Só elas sabem, só elas são capazes, só elas dão o palpite certo.
Essa gente não está servindo à comunidade, mas sim a si mesmo, a seu orgulho, a sua vaidade.
Em nosso serviço na comunidade, estamos protegendo os interesses de Deus, ou os nossos projetos e interesses?
Deus sempre se serviu de pessoas para anunciar a sua Palavra e assim realizar os seus Planos de Salvação...
Sentimo-nos "donos" ou instrumentos da Palavra de Deus?
padre Antônio Geraldo Dalla Costa
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Como entrar no reino do céu
O trecho do Evangelho de são Marcos (9,38-48) apresenta orientações preciosíssimas de Cristo que desceu a detalhes como entrar no reino do céu e evitar perder a felicidade eterna. Além de mostrar que qualquer serviço ao próximo, nele vendo sua pessoa, não ficará sem recompensa e além de condenar a agressão ética às crianças, Ele insiste na fuga corajosa das ocasiões de pecado.
Nem as mãos nem os pés devem levar ao abandono dos mandamentos. Num contexto impregnado de erotismo, Ele recomenda cuidado especial com os olhos que são as janelas da alma. Certos programas televisivos, os sites pornográficos da internet, a licenciosidade estampada nas revistas e jornais exigem que o cristão saiba fechar os olhos a toda esta miséria moral. Nunca se fixam demais as palavras que estão na Bíblia Sagrada: “Quem ama o perigo nele perecerá” (Ecli. 3,27). Séria advertência de São Pedro para se estar atento às insinuações do mal, porque, diz ele: “Vosso adversário, o demônio, vos rodeia como um leão que ruge, procurando a quem devorar” (1Pd. 5,8). Múltiplos são os artifícios do demônio e ai daquele que parlamenta com ele, pois será conduzido infalivelmente ao abismo do pecado como aconteceu com Adão e Eva no paraíso. O seguidor de Cristo deve se entregar corajosamente ao combate espiritual com as armas da luz.
Aos Efésios assim falou  claramente são Paulo: “Revesti-vos da armadura  de Deus para poderdes resistir aos assaltos do diabo, porque não temos de lutar contra a carne e o sangue mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelo ar” (Ef. 6,11-12). Há necessidade imperiosa do controle dos pensamentos, das palavras e das ações. O que muitas vezes se esquece é da necessidade de se combater as mínimas indolências espirituais, que levam ao afrouxamento da concentração nos esforços em busca da própria perfeição.
Nada de abrir brechas para o inimigo. Para evitar as insídias diabólicas cumpre começar por corrigir as imperfeições. Jesus admoestou: “Quem não é fiel no pouco não é fiel no muito” (Lc. 6,10). Trata-se de uma vigilância contínua da alma que só termina quando alguém deixa este mundo para entrar na eternidade. Por tudo isto, a questão não é sentir as incitações do inimigo, mas nelas  consentir. Eis aí o segredo da existência do discípulo de Cristo.
Quem combate e vence as forças do mal se torna dia a dia mais forte num progresso permanente. Por tudo isto, mister se faz um policiamento contínuo sobre os pensamentos que podem ser bons ou maus. Muitos surgem do interior do cristão, mas outros provêem do demônio que sugere a malícia. Aquele que grava lembranças ruins,vindas destas duas fontes,  se torna presa fácil do maligno. Adite-se que a  mesma precaução que se deve ter com as mãos, com os pés e com os olhos,  é preciso ter com o que se fala. O salmista advertiu em nome de Deus: “Guarda tua língua da maldade, teu lábios das palavras enganosas; evita o mal, faz o bem, procura a paz e esforça-te por alcançá-la” (Sl. 34,14-15).
A mortificação da língua é um dos meios  eficazes para se chegar ao céu. Eis porque está escrito no Livro do Eclesiástico: “Quem me dera uma guarda para a minha boca e um selo prudente para os meus lábios, para que não venha a cair com eles e para que a minha língua não me leve à ruína” (Ecl. 22,27). Em síntese,  para colocar em prática o que Jesus preceituou sobre a fuga do pecado é necessário cuidar de todas as ações. Como alertou o Mestre divino, tudo que se faz deve ter como ponto de referência a salvação eterna. Assim, aquilo que um cristão pratica deve estar animado, vivificado e aperfeiçoado pelas boas intenções da alma sem as quais ele não seria senão um corpo morto, sem vida e sem espírito.
Donde o ditame de são Paulo: “Tudo que fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças, por meio dele, a Deus Pai” (Col. 3,17). Deste modo, tudo que  o batizado pratica  o vai conduzindo para o reino de Deus. É de bom alvitre então repetir sempre o que está no salmo 50: “Formai em mim, ó Deus, um coração puro, e infundi em mim um  espírito firme”.
cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho
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O evangelho deste XXVI domingo do tempo comum, continuando a narração do último domingo, apresenta-nos Jesus, em Cafarnaum, a instruir os seus discípulos nos valores do Reino. Jesus caminha em direção a Jerusalém, ao seu mistério pascal. Contudo, os discípulos não querem que Jesus siga o caminho da Cruz. Preferem que Jesus siga o caminho do messianismo político e triunfante, mais de acordo com as suas expectativas de poder e grandeza. Vimos, no Domingo passado, como enquanto Jesus falava de dar a sua vida na cruz os discípulos só pensavam em quem seria o maior. Jesus, com a sua pedagogia e na intimidade do lar, tentou corrigir as suas falsas expectativas através do seu ensinamento sobre o serviço e o convite a acolher as crianças.
No entanto, os discípulos não assimilaram o ensinamento de Jesus. Os discípulos continuam a desejar o prestígio e a grandeza como nos mostra o comentário de João a Jesus, no início do evangelho deste dia: “Mestre, nós vimos um homem a expulsar demônios em teu nome e procuramos impedir-lho, porque não anda conosco”. Este comentário mostra como os discípulos ficaram perturbados por não serem os únicos a realizar obras de salvação. Na verdade, importados como estavam em serem os primeiros, os maiores, os discípulos sentem-se ameaçados por esse homem fora do grupo que expulsa os demônios em nome de Jesus e que pode entrar na disputa dos primeiros lugares no reino que Jesus veio instaurar.
Recorda-nos esta situação a primeira leitura deste dia do livro dos Números. Depois de Moisés se ter lamentado a Deus da dificuldade que tinha em conduzir o povo rebelde em direção à terra prometida, Deus propôs-lhe escolher setenta anciãos que, depois de terem recebido a força do Espírito, o ajudassem na condução do povo. Moisés aceitou a proposta de Deus e os setenta anciãos escolhidos por Moisés receberam o dom do Espírito, uma parte do Espírito que repousava sobre Moisés, para o ajudarem na difícil tarefa da governação daquele povo rebelde. No entanto, esta história termina com algo inesperado. Na verdade, dois dos setenta escolhidos, Eldad e Medad, não estavam com os outros na Tenda quando receberam o Espírito mas tinham ficado no acampamento. No entanto, também sobre estes dois desceu o Espírito e também eles começaram a profetizar. Josué, ao saber do sucedido, pediu que Moisés os proibisse pois isso era um abuso. No entanto, Moisés, o homem livre do desejo de poder e de monopólio e que só se preocupa com o bem do povo responde à indignação de Josué com o seguinte desabafo: “Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre Eles”.
Semelhante reação teve Jesus para com os seus discípulos queixosos: “Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa”. A preocupação fundamental de Jesus é o bem e a salvação do homem e não o controlo e a exclusividade dos milagres. Assim sendo, com a sua resposta Jesus quer que os seus discípulos ultrapassem o seu egoísmo e desejo de poder mesmo no que toca à missão e que reconheçam que qualquer obra em favor da justiça e do homem, mesmo que sejam feitas por pessoas fora do grupo dos discípulos, são obras boas, obras que mostram que essa pessoa está a favor de Cristo e vive na dinâmica do reino. Ante estas obras de libertação do homem realizadas por pessoas fora do grupo dos discípulos os discípulos não se devem sentir ameaçados pelo fato de Espírito de Deus operar fora do grupo. Na verdade, o que conta realmente é a libertação do homem de todas as forças destruidoras. O verdadeiro discípulo de Cristo é aquele que se alegra por ver que há pessoas, mesmo que não sejam do nosso grupo, que lutam pela libertação do homem. O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que reconhece a presença salvadora de Deus nos mais variados acontecimentos. O que conta para Jesus e o que deve contar para os discípulos de Jesus é a libertação do homem de todas as forças destruidoras e não o monopólio egoísta e exclusivo da obra da libertação que não nos permite chegar a todos. Assim sendo, o que deve alegrar o discípulo não é a posse exclusiva da obra da libertação mas o fato de mesmo fora da Igreja haver pessoas que se esforçam e que trabalham por libertar o homem de todas as forças anti-humanas.
Depois deste episódio, o evangelista Marcos junta outros dois ditos de Jesus que visam instruir os discípulos nos valores do reino. Estes dois ditos que Marcos nos apresenta neste momento devem ter tido origem em contextos diferentes e apresentam-se com uma linguagem e imagens hiperbólicas, fortes e expressivas, característica dos pregadores da época, e que não devem ser interpretadas literalmente. O fundamental é captar a mensagem que Jesus nos quer transmitir e não nos prendermos à literalidade dos exemplos apresentados. O primeiro destes ditos relaciona-se com o escândalo: “Se alguém escandalizar algum destes pequeninos … melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós e o lançassem ao mar”. Na nossa cultura, entendemos o escândalo como algo que revolta, ofende e fere a nossa susceptibilidade. No entanto, o verbo escandalizar, para são Marcos, refere-se à deserção do seguimento de Cristo. Assim sendo, aquilo que este dito de Jesus adverte é o perigo dos membros da comunidade poderem fazer algo que afaste alguém, especialmente os mais pequenos, do seguimento de Cristo. Fazer algo que afaste as pessoas de Cristo e do evangelho é algo inadmissível. No entanto, muitas vezes, com a nossa maneira concreta de atuar, podemos estar a afastar mais do que a aproximar as pessoas de Cristo. Esta é uma possibilidade real que nos deve levar a fazer um sério exame de consciência.
O segundo dito de Jesus fala da necessidade de arrancar a mão, o pé e o olho se eles forem ocasião de escândalo e assim entrar no reino do que não arranca-los e não entrar no reino. Mais uma vez, é importante recordar que estes ditos de Jesus não devem ser interpretados literalmente mas que se deve buscar a mensagem que Jesus quis transmitir. A mensagem que Jesus quis transmitir ao utilizar esta linguagem hiperbólica e forte é a necessidade de tirarmos da nossa vida tudo aquilo que é incompatível com a nossa opção por Cristo e pelo seu evangelho. Sendo a mão o órgão de ação dos desejos do coração e os olhos o órgão por onde entram os desejos, o que Jesus nos pede é que sejamos capazes de atuar onde às más ações tem origem eliminando o mal pela raiz. Por muitos dolorosos e difíceis que sejam, há certos cortes com o mal que temos de fazer. Na verdade, se não os fizermos estamos a condenar-nos à infelicidade representada pela imagem da geena, daquele vale a sudoeste de Jerusalém onde os mortos eram sepultados e onde o lixo de Jerusalém era queimado dia e noite.
Uma das coisas com as quais temos de cortar, porque senão estamos a condenar-nos à infelicidade, como nos recorda S. Tiago, é o materialismo que muitas vezes, na sua ânsia de acumular, não exclui a prática das injustiças para com os mais pobres. S. Tiago é bem claro ao afirmar que quem tem nos bens materiais o seu deus e a sua esperança não terá acesso à vida feliz e plena que Deus nos quer oferecer e que Deus não compactuará com as injustiças, a exploração e a opressão dos pobres a que muitas vezes se recorre para aumentar a conta bancária.
Que a celebração deste XXVI Domingo do Tempo Comum seja verdadeiramente um momento favorável para todos nós arrancarmos da nossa vida todos aqueles desejos, sentimentos e ações que são incompatíveis com o Reino, a Vida plena e feliz.
padre Nuno Ventura Martins

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Um comentário:

  1. agradeço a todos que postam estas reflexiçoes. Gosto de todas; mas tenho predileçao pelas reflexoes do Padre Queiros e nestes ultimos dias nao as tenho encontrado. Sugiro que as dos Padre Queiros estejam mais faceis de ser encontrada. Sem mais, Deus estejam sobre cada um de vocês

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