.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

30º DOMINGO TEMPO COMUM


30º DOMINGO TEMPO COMUM

28 de Outubro de 2012

Comentários Prof.Fernando



Evangelho - Mc 10,46-52

Quando Jesus saía de Jericó com os discípulos e numerosa multidão, um cego estava sentado à beira do caminho pedindo esmolas. Era Bartimeu, o filho de Timeu. Ao saber que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Muitos o repreendiam para que se calasse, mas ele gritava ainda mais alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Jesus parou e disse: “Chamai-o!” Eles chamaram o cego, dizendo-lhe: “Coragem! Levanta-te que ele te chama”. Jogando para o lado o manto, levantou-se de um pulo e foi até Jesus. Tomando a palavra, Jesus lhe perguntou: “O que queres que te faça?” O cego respondeu: “Mestre, eu quero ver de novo!” E Jesus lhe disse: “Vai, tua fé te curou!” No mesmo instante ele começou a ver de novo e se pôs a segui-lo pelo caminho.


Senhor, que eu veja!

Introdução


Prezados irmãos. Estamos cegos!  Porque não queremos enxergar a causa número um do mal na nossa sociedade. Crimes bárbaros, assaltos acontecem à luz do dia. Um verdadeiro inferno em vida! E os principais agentes da violência são os jovens. 
O demônio dominou a parte mais forte da sociedade, que é a juventude. E fez com que os jovens abusassem sem nenhum limite, da  maior energia do seu corpo, a sexualidade. Vivem sem freios, se divertindo em lugares de risco, não querem trabalhar, e para conseguir dinheiro, assaltam,  matam, e fica por isso mesmo.
Por que isso acontece?  Por causa da impunidade escrita no Estatuto do Menor e do Adolescente.
O pior cego não é aquele que não vê, mais sim aquele que não quer ver!
Parece que estamos acuados,  com muito medo, hipnotizados,  encantados, mais na verdade, estamos cegos, ou melhor, não queremos enxergar a causa primeira do mal social. Estamos esperando o que? Estamos esperando que o mal tome conta de tudo?
Jesus sabia o que o cego queria. Mais Ele queria ouvir da sua boca o pedido.    
'O que queres que eu te faça?' O cego respondeu: 'Mestre, que eu veja!'   E aquilo foi uma oração na presença física de Jesus.
Assim Jesus quer ouvir também de nós, o nosso pedido, a nossa oração. Ele quer que peçamos a Deus em seu nome, uma solução para o caos a que estamos entrando. Imagine a sociedade daqui  há 30 anos. Quem serão os professores? Quem será o presidente da República? Quem serão os policiais?
Hoje assistimos nos noticiários a morte quase que diária de policiais, delegados, e continuamos de braços cruzados. Por que um policial ganha tão pouco para arriscar a sua vida em defesa do cidadão?  Porque não se mexe nas leis fracas que garantem a impunidade dos criminosos principalmente os jovens?  Ai do  professor que der um pequeno empurrão em um aluno.  Ai do repórter que mostrar a cara do menor infrator na tela!  Meu Deus! o que é isso! Até onde isso vai durar? Quando os “cegos” recuperarem suas vistas e querer consertar as coisas, será tarde de mais, porque o mal já terá dominado todos os setores da sociedade!
Prezados irmãos. Estamos sendo cristãos teóricos, do tipo que apenas houve a palavra de Deus mais não a coloca em ação para a transformação desse mundo.  Vamos perguntar a nós mesmo agora. O que eu posso fazer além de rezar? Será que não podemos organizar passeatas exigindo leis mais eficazes e a reformulação do Estatuto do Menor? Mais têm de ser passeatas em toda parte dessa sociedade que está vivendo prisioneira em suas casas, enquanto lá fora está o infrator armado, livre e pronto para atacar.
Para o cidadão de bem o uso da arma está proibido. Porém, isso de nada adiantou para a redução da violência, se o delinqüente pode andar armado.
Jesus,  tem piedade de nós! Porque precisamos  recuperar a vista e sair dessa cegueira, dessas trevas, e seguir os seus passos como o fez aquele cego.
Jesus filho de Davi. Tem piedade de nós!
Fonte: Esta reflexão foi inspirada no programa Brasil Urgente da Rede Bandeirantes. Datena. Você está fazendo um bom trabalho, denunciando a causa da violência, que é a IMPUNIDADE  gerada por leis brandas, que soltam os presos antes do cumprimento da pena.

Sal
============================
Segue o Evangelho para o Domingo que vem e mais um Salmo
Que o SENHOR e nosso Deus nos abençoe!
Abraço amigo e boa semana!
Pe.Fernando Gross


e

============================
28 de outubro- domingo

30º DOMINGO DO TC 28/10/2012
1ª Leitura Jeremias 31, 7-9
Salmo 125 (126) , 3 “Sim, o Senhor fez por nós grandes coisas; ficamos exultantes de alegria” – Diácono José da Cruz
2ª Leitura Hebreus 5, 1-6
Evangelho Marcos 10, 46-52
Há uma canção de Roberto e Erasmo Carlos, que eu vivia cantarolando nos meus tempos de jovem, quando tomado por alguma tristeza ou decepção, o poeta compositor da letra, fala de alguém, que por conta de uma decepção amorosa, desistiu de viver e ficou sentado á beira do caminho, onde até a poeira é triste. A dinâmica da vida nos impele a caminhar, quem não se deixa contagiar por esse dinamismo, acaba ficando fora do processo, a letra da canção mostra bem esse sentimento de que não existimos, quando a pessoa a quem amamos permanece indiferente “Preciso lembrar que eu existo....”. Quem é esse cego Bartimeu, mendigando amor á beira de um caminho, senão o próprio homem, que não conhecendo a Deus revelado em Jesus, lhe permanece indiferente? A pós modernidade oferece ao homem Muitas “luzes” na ciência, na tecnologia, no avanço das pesquisas, acontece que o ser humano, apropriando-se desses bens, que são dons de Deus, julga ver tudo, compreender tudo, e sentindo-se Senhor absoluto da situação, pensa e faz o que quer, usa sua liberdade da pior maneira possível e fazendo coro ao racionalismo dos intelectuais, decreta a morte de Deus. Entretanto, um belo dia este homem prepotente e arrogante, irá descobrir-se como este cego de Jericó. Tem tudo mais não tem a graça de Deus, que Jesus trouxe com a Salvação. Nesse sentido não se conhece, porque não conhece a Jesus, é cego, porque não viu em sua vida a luz da verdade, está a margem da verdadeira vida, é um milionário mendigando um pouco de amor àquele que é amor.
Em um coração e uma alma, ferida pela descrença, agonizante de vida e esperança, é que sai esse grito de Bartimeu, ao saber que Jesus de Nazaré passava por ali, bem ao lado de onde ele expunha aos que passavam, a sua miséria vergonhosa. “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!”. Foi assim que Jesus, o Verbo Encarnado de Deus, encontrou o homem, morto pelo pecado, andarilho e mendigo á beira da estrada da Vida, sem forças para caminhar, em sua cegueira tenebrosa. No canto da Verônica, no caminho do calvário, inverte-se esse quadro e Jesus ocupa o lugar que é do homem “Oh Vós todos que passais, vinde ver se há uma dor igual a minha...”
Na verdade é a humanidade toda que estava á beira do caminho, sucumbida em sua miséria, quem passa é Jesus, que não fica indiferente as nossas chagas e feridas, como o Sacerdote e o Levita, na parábola do Bom Samaritano, que ouviu por certo os gemidos daquele homem caído á beira do caminho, Jesus também ouviu nossos lamentos e queixumes, o grito desesperado de quem perdeu quase toda a esperança, “Senhor, Tende compaixão”.
Sempre haverá vozes contrárias, tentando abafar esse grito de quem já não encontra mais razão para viver, há aqueles que como esse grupo numeroso que segue a Jesus, querem dele se apossar, fecham o anúncio e a graça em suas “Igrejinhas particulares”, idealizam um Jesus exclusivo que só atende a eles, os santos, justos e perfeitos, é o grito dos casais em segunda união, talvez, é o grito de tantas jovens mães solteiras, de drogados e prostituídos, de pessoas rotuladas como irrecuperáveis, banidos de nossas relações, explorados pelo sistema pecaminoso, e oprimidos muitas vezes pelo próprio poder religioso, de tantas igrejas que se intitulam de “Cristãs”.
O grito de desespero não passa despercebido por Jesus, quando o seu povo gemia sob o chicote dos Faraós do Egito, Deus ouviu, viu e desceu para libertá-los. A Igreja de Cristo não pode tapar os ouvidos diante de tantos que gritam, as vezes dentro da própria comunidade, a Igreja de Cristo não pode abafar o clamor dos pequenos que perderam a esperança e a ela recorrer, deve ser aquela que chama o cego, o acolhe em seu meio, coloca as pastorais a disposição para lhe curar as feridas, e mais ainda, o encoraja a fazer esse encontro pessoal com aquele que é a Vida, a Verdade, o caminho . Coragem! Levanta-te, Ele te chama! Jesus chama esse homem cego, morto, como um dia chamou a Lázaro, inerte no fundo de uma sepultura. O chamado de Jesus é para a Vida, para desencostarmos do barranco do comodismo, e de olhos bem abertos, na visão da Fé, abraçar o discipulado com coragem e desprendimento.
Impressionante a reação do cego, ao saber que Jesus o chamava, sentiu-se importante, deu um salto e foi ter com ele, jogando a capa de lado. Era a única coisa que possuía, mas despojou-se dela ao conhecer Jesus, ao descobrir-se amado e querido por Deus, ao sentir que todo esse amor está presente em Jesus, redobra a força e a coragem, descobre a nova razão de viver, por isso consegue “pular” do seu canto, Jesus é o seu protetor, o seu amor o envolverá totalmente, não precisa mais de nenhuma outra capa.
O seu desejo de VER, manifestado com simplicidade diante de Jesus, foi atendido, “Vai, a tua fé te salvou” – lhe dirá o Senhor. Ir para onde? Para o caminho do discipulado. Salvos pela fé, todos os que fizeram e fazem, essa experiência de ter uma nova visão, no encontro pessoal com Jesus, tornam-se seus discípulos, ontem e hoje, e todos juntos, enquanto Igreja, deixam-se conduzir pelo dinamismo desta vida nova, percorrendo as estradas do mundo, para encorajar os que estão á margem, e chamá-los para se encontrarem também eles com Jesus, a Luz Verdadeira, diante da qual as trevas não resistem.... (XXX Domingo do Tempo Comum Mc 10, 46-52)
============================
Domingo.28.10.12

Marcos 10,46-52
: “Mestre, que eu veja” – Maria Regina.


O cego de Jericó é o protótipo do homem e da mulher que se deixaram escravizar pelo pecado e têm a sua visão obscurecida para as realidades espirituais. O pecado nos estaciona, nos escraviza e nos deixa sem perspectivas nos impedindo de enxergar as maravilhas que Deus realiza na nossa vida. Por causa dele nós ficamos à beira do caminho, isolados das graças e bênçãos que nos foram destinadas. O grito de Bartimeu é também o brado que parte da nossa alma que anseia pelo perdão e pela misericórdia de Deus quando nos sentimos afastados do povo de Deus por causa das condições em que estamos vivendo.
Mesmo que aparentemente não deixemos transparecer, a nossa alma grita pedindo socorro, como aconteceu com o cego. O que nunca poderemos esquecer é que Jesus está sempre perto de nós, sentado também conosco, esperando a nossa invocação. Mesmo que aqueles que O acompanham não nos reconheçam e achem que somos indignos de ficar perto do Mestre, Ele nos acolhe e anseia pelo nosso regresso. Bartimeu foi insistente e corajoso e deu uma prova da sua fé apesar da sua situação de penúria. Com o gesto de se desfazer do manto que o cobria, ele jogou fora a sua vida pregressa, toda a carga que levava sobre os ombros e se entregou sem restrições aos cuidados de Jesus. “Mestre, que eu veja”, foi o seu único pedido. Ele não se justificou nem acusou a ninguém pela sua desgraça, apenas confiou na misericórdia de Deus que cura, salva e liberta.
 Assim também nós precisamos fazer: reconhecer a nossa cegueira causada pelo pecado, pedir piedade ao Senhor, jogar fora o manto que pesa nos nossos ombros para acolher a cura da nossa alma. Aí então, nós poderemos nos ajuntar aos outros que caminham com Jesus para sermos Seus discípulos na busca de outros Bartimeus que também estão sentados, mendigando às margens da vida. Jesus quer se deixar encontrar por todos que se encontram assim e está atento ao nosso chamado Reflita – Como você está atualmente, sentado à beira do caminho ou caminhando com o povo de Deus? – Há alguém que você conhece hoje que está nesta situação do cego Bartimeu? – Você tem enxergado as maravilhas de Deus na sua vida? – Você já jogou fora o manto que o impedia de ver Jesus?
Amém.
Abraço carinhoso
– Maria Regina

============================
“O QUE QUERES QUE EU TE FAÇA”? - Olívia Coutinho

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 28 de Outubro de 2012

Evangelho - Mc 10,46-52

Nesta cultura do aceleramento em que vivemos, quase sempre não enxergamos o irmão que sofre, os que estão esquecidos às margens do caminho,  necessitados de uma mão estendida que o ajude a reerguer-se.
Às vezes,  preferimos ser  "cegos", diante as inúmeras injustiças que desfilam a todo instante  diante dos nossos olhos, para não nos comprometer, achamos que estas injustiças, não é problema nosso. Mas Jesus vem nos mostrar o contrário, nos afirmando com o seu próprio testemunho, que podemos e devemos fazer  algo em defesa dos empobrecidos.  
Jesus, no seu infinito amor,  vem nos libertar da pior de todas as  cegueiras: a cegueira de quem não quer enxergar.
A presença de Jesus, acalenta, inspira confiança, os seus ouvidos capita o grito dos excluídos!
As ações vivificantes de Jesus, nos desperta para a responsabilidade que devemos ter, não somente com a nossa vida, mas também com a vida do outro!
Como seguidores de Jesus, somos co-responsáveis pela vida do nosso irmão!
O maior testemunho do cristão, é o amor a Deus e ao próximo, aí se resume a lei e o sentido do grande mandamento que nos faz entender que é amando o próximo que amamos a Deus!
Por onde Jesus passava, Ele atraia multidões, as pessoas gostavam de ouvi-Lo, de buscar  Nele a cura dos  seus males, mas nem todos eram curados, muitos ainda não tinham uma fé consistente  que tocasse Jesus: “Vai, a tua fé te curou”.
O evangelho de hoje, nos presenteia com o belo relato de uma cura milagrosa realizada por Jesus, revelando definitivamente a presença do Reino de Deus  entre os homens.
Caminhando para Jerusalém, juntamente com os seus discípulos e uma grande multidão,  Jesus, passando pela cidade de Jericó, sente ressoar nos seus ouvidos, um pedido de socorro. O grito partia de  um cego chamado Bartimeu,  cuja cegueira era apenas a privação de um dos seus sentidos, ou seja, uma cegueira física e não espiritualSentado à beira do caminho, aquele cego percebe o que muitos de nós, ainda hoje não percebe; a passagem de Jesus pela nossa vida! A  fé do cego de Jericó, ainda que imperfeita, era mais luminosa  do que a vista dos que enxergavam 
 Bartimeu, reconhece em Jesus a presença transformadora do poder de Deus, um poder que liberta os excluídos, estes, que são  jogados à beira do caminho, por uma sociedade que tenta abafar o sua voz .  O grito do cego  incomodou aqueles que  não queriam que Jesus interrompesse aquela caminhada, mas  quanto mais tentavam calar a sua voz, mais alto ele gritava e o seu grito de fé, tocou Jesus: “Filho de Davi tende piedade de mim”!
Tomado de compaixão, Jesus para e  diz: “Chamai-o”! Os mesmos que tentaram calar a voz do cego, agora o encorajam: “Coragem, levante-te, porque Jesus está chamando você". Movido pela fé, Bartimeu larga tudo, isto é, o único bem que possuía; um manto e vai ao encontro de  Jesus.  Dirigindo-lhe  a palavra, Jesus pergunta: “O que você quer que eu faça?”  - “ Mestre, que eu veja”!
A resposta de Jesus, como sempre, uma resposta de amor, transforma a vida daquele homem: "Vai a tua fé te curou." No mesmo instante  aquele que era cego, passou a enxergar. Sua cura é fruto da sua fé. 
Curado, ele faz do caminho de Jesus, o seu caminho, tornando um seu fiel seguidor, um modelo para todos nós, que queremos “seguir Jesus, rumo a uma nova Jerusalém. 
A princípio, pode nos parecer estranho Jesus ter lhe perguntado: ”Que queres que eu faça por você”?   Certamente Jesus sabia o que ele queria, mas Ele desejava ouvir dos seus próprios lábios. Com isto, Jesus  nos ensina que  a oração é um exercício de fé que aprimora também o nosso relacionamento com Deus, um pedido:é uma oração!
 Era importante curá-lo por inteiro, tomá-lo pela mão e colocá-lo de pé, inserindo-o na sociedade.
Ao ser curado, Bartimeu  sente ampliar  a sua visão espiritual, ele não foi embora para viver a vida à sua maneira, passou a seguir Jesus, não ficou  mais sentado à beira do caminho, mas no caminho...

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia

============================

Evangelhos Dominicais Comentados

28/outubro/2012 – 30o Domingo do Tempo Comum



No Evangelho de hoje nos deparamos com um cego pobre e mendigo, sentado à beira da estrada. Como sempre, a palavra de Deus é muito atual. Quantos pobres, cegos ou coxos encontramos no nosso dia-a-dia, sentados à margem das calçadas ou jogados pelas esquinas, e nem percebemos suas presenças.

Este fato também passaria despercebido, nunca ficaríamos sabendo do ocorrido se Bartimeu não fosse persistente, corajoso e dono de uma fé sem limites. Sabia o que queria e sabia onde buscar a solução.

Sua esperança era o Filho de Davi. Somente Ele tinha a solução para o seu problema. Jamais vira Jesus, mas acreditou em tudo aquilo que Dele se dizia. Tratou de aproximar-se e, com muita fé, pediu ajuda.

Era cego e diante da impossibilidade de ir até ao Nazareno, começou a gritar. Gritou tanto a ponto de incomodar a multidão que rodeava Jesus. Mandaram que se calasse. Não queriam ser incomodados, pois estavam ouvindo Jesus.

O comportamento do povo é algo que deve ser ressaltado neste episódio. Quantas vezes mandamos calar-se aquele que nos pede ajuda, muitas vezes com a desculpa que não podemos atendê-lo, pois estamos ouvindo Jesus. Não queremos ser incomodados no nosso momento de oração e de louvor, não queremos interrupções durante nossa conversa com o Mestre.



Ainda bem que as mesmas pessoas que não queriam ser incomodadas e que mandavam o cego calar-se ficaram muito animadas quando Jesus o chamou. Felizes correram até Bartimeu dizendo, vai, Ele te chama e, provavelmente, devem tê-lo guiado até Jesus.

A felicidade do povo, essa mudança repentina é sinal de que ouviram e entenderam a mensagem de Jesus. Estavam diante do Salvador do Mundo, diante Daquele que tudo pode. Trataram então de encorajar aquele enjeitado. Deixam de repreendê-lo e o animam para que se aproxime de Jesus.

Bartimeu também não pensou duas vezes. Bastou ouvir o chamado para jogar de lado o seu manto e dar um pulo em direção a Jesus. Essa pressa e essa disposição de Bartimeu é uma grande lição para cada um de nós. Ao ouvir o chamado de Jesus, devemos correr prontamente ao seu encontro.

Mais uma vez Jesus quis mostrar que veio para os pobres, para os pequeninos e sofredores. Apesar de já saber a resposta, Jesus perguntou-lhe o que queria. Jesus fez esta pergunta, pois queria ouvir o pedido do cego e queria também provocar a profissão de fé daquele homem. Sabia que dele receberia uma grande demonstração de fé no poder e no amor de Deus.

Bartimeu nos deixa aqui um grande exemplo, basta pedir com fé para Jesus atender. É preciso acreditar e aproximar-se com simplicidade e confiança. Bartimeu nos ensina também a fórmula infalível de oração, dizendo: "Senhor, tende piedade de mim!" Uma oração simples, mas carregada de fé. Assim é a oração que Jesus entende.

Bartimeu representa a humanidade que desconhece a Verdadeira Luz e por isso padece na escuridão das trevas. Precisamos levar Luz ao mundo. Um mundo que precisa recuperar a sua fé, que precisa correr humildemente aos pés de Jesus e pedir que lhe seja devolvida a luz da verdade e da vida.

Para recuperar a fé é necessário reconhecer a própria cegueira e, como Bartimeu, reconhecer-se pobre e necessitado. Voltaremos a enxergar quando nos aproximarmos de Jesus suplicando seu perdão e sua graça através destas palavras: "Senhor, abre meus olhos, faz com que eu veja!"

(2538)

============================
Domingo, 28 de outubro de 2012
30º Domingo do Tempo Comum
Missionários Claretianos
São Simão e São Judas Tadeu, Apóstolos (Festa).
Outros Santos do Dia: Abraão de Éfeso (bispo), Alberico de Stavelot (abade), Alfredo, o Grande (rei de Wessex, Inglaterra), Anastácia e Cirilo (mártires), Angelino de Stavelot (abade), Cirila de Roma (virgem), Dorbene de Iona (abade), Eadsin de Cantuária (bispo), Faro de Meaux (bispo), Ferrúcio de Mainz (mártir), Fidélis de Como (mártir), Godwin de Stavelot (abade), Honorato de Vercelli (bispo), Remígio de Lião (bispo), Sálvio de Normandia (eremita).
Primeira leitura: Jeremias 31, 7-9
Os cegos e aleijados, suplicantes, eu os receberei. 
Salmo responsorial:
 125, 1-6
Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria! 
Segunda leitura:
 Hebreus 5, 1-6
Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. 
Evangelho:
 Marcos 10, 46-52
Mestre, que eu veja!
O livro de Jeremias mostra um aspecto da manifestação de Deus de uma forma que não estamos acostumados: a ternura. Deus nos ama sem se importar se vamos pela vida como cegos ou coxos, isto é, se a duras penas podemos caminhar ou se apenas vemos ou pressentimos por onde vamos. Deus nos ama, quer estejamos em estado de vulnerabilidade ou debilidade absoluta, como o pode estar uma mulher grávida ou uma mãe que recém deu à luz seu filho.
Deus nos ama, inclusive em nossas fugas dele e nos refugiamos no último confim da terra. E a razão desse amor é que somos seus filhos, engendrados por amor, partícipes do seu reino. Uma das insistências de Jesus era a de viver a experiência amorosa de Deus como a essência sobre a qual se funda a nossa vida; e não porque estivesse em sintonia com a sensibilidade religiosa de seu tempo.
O salmo harmoniza com a primeira leitura e mostra como a magnificência de Deus consiste no resgate e redenção de seu povo. A experiência do exílio já não é a de viver em um país estrangeiro, mas a de sentir que nenhum lugar do mundo é estranho ao projeto transformador de Deus.
A segunda leitura, da carta aos Hebreus, confirma essa dimensão do poder de Deus manifestado como compaixão e misericórdia. Ele redime nossas faltas e nos encaminha para uma experiência na qual convertemos em fortaleza nossas debilidades humanas. Ele nos oferece um caminho de redenção que supera o puro projeto religioso, a simples justificação sentimental ou um vazio racionalismo abstrato. Deus nos chama e nós podemos responder. Já não queremos um guru ou um especialista em religião, mas um irmão ou uma irmã que caminhe conosco e nos ajude a realizar essa vocação pela qual nos tornamos cristãos.
O evangelho de Marcos narra a cura do cego Bartimeu, o último “milagre” de Jesus narrado por Marcos. Tradicionalmente esta passagem foi incluída no gênero dos “milagres”, porém, se bem examinado, carece de alguns elementos típicos do gênero, como por exemplo o gesto ou a palavra de cura. Provavelmente estejamos diante de um relato baseado em um fato histórico, que acentua, sobretudo, a importância da fé como fundamento do discipulado.
O relato, mesmo sóbrio, está carregado de detalhes. Marcos indica o lugar onde acontece o episodio: na saída de Jericó, a cidade das palmeiras no meio do deserto de Judá, a porta de entrada na terra prometida (cf Dt 32,49; 34,1), passagem obrigatória para os peregrinos que vinha da Galileia, pelo caminho do Jordão, a Jerusalém, cidade da qual dista 30 quilômetros.
A Jericó do tempo de Jesus havia surgido em torno de uma luxuosa residência de inverno, construída por Herodes. Há, além disso, uma alusão explicita, ainda que não tão genérica, ao nome do cego: Bartimeu, o filho de Timeu. Mateus e Lucas não mencionam esse detalhe. Junto com o de Jairo, é o único nome próprio que aparece em Marcos antes de iniciar o relato da paixão. Alguns pensam que isto é devido ao fato de que provavelmente este homem tenha tomado parte da comunidade cristã palestinense.
O protagonista é um homem cego, duplamente pobre, portanto, Lv 19,14; Dt 27, 18; Is 59,9 são textos que nos ajudam a compreender a situação dos cegos em Israel. A liturgia estabeleceu um nexo entre este evangelho e a primeira leitura de Jeremias porque em ambos os casos se fala de um acontecimento animador para os cegos.
O diálogo começa com um pedido de Bartimeu, de fundo veterotestamentario (cf Os 6,6), e que a liturgia eucarística incorporou no ato penitencial: “Tem compaixão de mim”. O pedido vai precedido pelo título messiânico de filho de Davi. Esta é a única vez que aparece este título no evangelho. Posteriormente o cego o chamará “rabbuni” (termo que podemos traduzir por “mestre” e que Marcos mantém o original). As pessoas pedem que o homem se cale para que não cause transtorno.
Esta ordem não tem nada a ver com o “segredo messiânico”, tão típico de Marcos, já que aqui quem manda calar não é Jesus e sim o povo. Quando o cego se dá conta de que Jesus o chama, “joga o manto” e se aproxima de Jesus. Este detalhe aparecem também em 2Rs 7,15. É uma maneira de indicar o entusiasmo produzido por um acontecimento. O diálogo posterior é uma narrativa esquemática: uma pergunta, um pedido e resposta. Como já foi indicado antes, faltam o gesto e as palavras da cura. O acento recai na força da fé. Esta é a que permite passar da treva para a luz, da beira do caminho ao seu interior, da passividade de quem mendiga à atividade de quem segue Jesus até o final.
Hoje se fala muito das terapias curativas através da medicina natural, das técnicas psicológicas, das tradições budistas, dos fluxos de energia; fala-se dos problemas psicossomáticos, cuja cura pode ser alcançada estimulando a energia positiva da pessoa. Assim, os milagres ficam mais esclarecidos e se tornam muito mais explicáveis... A vida é cheia de “milagres” para quem sabe conduzi-la.
A “inteligência emocional” (cf. Daniel Goleman), a “inteligência ecológica” (do mesmo autor), a “inteligência espiritual” (cf. Danah Zohar), o holismo, a sinergia... por tudo isso somos transladados para um “realismo mágico”, possível de ser alcançado. Os milagres de nossa fé não precisam ser milagres “metafísicos”, “sobrenaturais”... Ao menos os milagres realizados por Jesus de Nazaré parece que não foram assim, e os milagres nossos de hoje também não têm razão de serem assim. Talvez se trate de “educar os olhos” com essa inteligência emocional, ecológica, espiritual... em todo caso, não na visão linear na qual fomos educados no velho paradigma....

Oração
Ó Deus, Pai de bondade, vós nos criastes para caminhar, para ir ao encontro dos demais e de vós. Abri diante de nós o caminho que devemos percorrer. Nós vos pedimos: iluminai nossos olhos para que possamos caminhar sem tropeços e possamos ajudar os demais a caminhar também. Por Cristo, Senhor nosso!

============================
Coragem! Levanta-se porque Jesus está chamando você.


Comecemos nossa meditação da Palavra de Deus com a primeira leitura. Muitas vezes, na sua história, o povo de Deus experimentou a escravidão, o exílio e a opressão. Muitas vezes Israel experimentou-se como um nada e viu-se numa escuridão tremenda. Parecia que o povo iria acabar-se! Assim, por exemplo, em 722 a.C., quando os assírios varreram do mapa o reino do Norte, o Reino de Israel e, em 597 e 587 a.C., quando os israelitas do Reino de Judá foram levados para o exílio em Babilônia. É quase um escândalo, mas é verdade: a história do povo de Deus é uma história de dor e de angústia! Pois bem, é no meio de tal angústia e escuridão que o profeta fala hoje e diz palavras de esperança, de ânimo e de alegria: “Exultai de alegria, aclamai a primeira entre as nações!
Eis que os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. No meio da desgraça, Deus consola o seu povo: irá salvá-lo, reuni-lo, fazê-lo reviver. Mas, quem é esse povo? No que se tornou? Quem somos nós, povo de Deus? “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces, eu os conduzirei por torrentes d’água por um caminho reto onde não tropeçarão... tornei-me um pai para Israel e Efraim é o meu primogênito”. O Israel que vai experimentar a salvação de Deus é um povo pobre, capenga, humilde... um povo que não conta nada aos olhos do mundo! Como não recordar as palavras de São Paulo aos coríntios? “Vede quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor. 1,26-28).
Quando pensamos na nossa civilização atual, nos nossos valores, exaltando a eficiência, a riqueza, o conforto, o bem-estar, o vigor e forma física, a saúde... Como os critérios de Deus são diferentes! Israel é imagem da Igreja e é imagem de cada um de nós, membro do povo de Deus da nova Aliança. À medida que descobrirmos nossas pobrezas pessoais e eclesiais, podemos também ter certeza que o Senhor não nos abandona: ele nos chama, ele nos reúne, ele nos salva: “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”, gente fraca, gente sem força, gente incapaz de se defender... Mas, Deus é nossa defesa: defesa da Igreja, defesa de cada um de nós! Se caminharmos, muitas vezes, chorando, semeando com lágrimas o caminho de nosso seguimento de Cristo, haveremos de voltar cantando, na força e na graça do Senhor: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria. Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes”. Somente pode experimentar isso aqueles que sabem e experimentam que são pobres diante de Deus, aqueles que sentem sua própria fraqueza! Esta é a experiência que o cristão deve fazer sempre na sua vida, seja pessoalmente, seja como Igreja! Somos pobres, mas Deus é nossa riqueza; somos fracos, mas Deus é nossa força!
Agora podemos deter-nos no Evangelho de hoje, que mostra de modo maravilhoso essa experiência cristã de ser salvo por Deus em Jesus Cristo. Jesus está saindo de Jericó, já está perto de Jerusalém, onde morrerá. Uma multidão o acompanha: barulho, empurra-empurra, aglomeração, aperreio... À beira do caminho, havia um cego mendigo... Ele era ninguém, nem nome tinha... Marcos só diz que era o “bar-Timeu”, o filho de Timeu... Cego, incapaz de caminhar sozinho, esmolando, sentado à margem do caminho de Jericó e da vida. Este cego é a humanidade; este cego é cada um de nós! Mas, ele ouve o rumor, a confusão no caminho e quando ouviu dizer que Jesus estava passando, não perde tempo; é a chance de sua vida! Ele grita alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego, mas ele grita com voz mais forte! Ele sabe que é a chance da sua vida. Santo Agostinho dizia: “Eu temo o Cristo que passa”... É preciso não perder a chance, é preciso gritar... não deixar o Cristo passar em vão no caminho da nossa existência!
O grito do cego é já um grito de fé. Chamando Jesus “filho de Davi”, o Bartimeu está dizendo que crê que Jesus é o messias: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego... como o mundo quer nos repreender, quer nos impedir e ridicularizar quando nos reconhecemos cegos, pobres e coxos e gritamos por Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Mas o cego insiste; grita mais alto ainda! Então, apesar da distância, apesar da multidão, apesar do empurra-empurra, Jesus escuta o clamor do cego! Como não recordar, comovidos, as palavras do salmo 129? “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor; escutai a minha súplica!” Ninguém grita pelo Senhor do fundo da sua miséria e fica sem ser ouvido! “Então, Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Cego esperto, esse: não perde tempo, dá um pulo, deixa tudo, desembaraça-se do manto e corre para Jesus! Ele segue o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Também nós, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos naquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (12,1s). Quem dera, fizéssemos assim também: largássemos tudo, deixássemos nossas tralhas e bagulhos, nossos apegos e quinquilharias e corrêssemos para Jesus!
E Jesus? Que delicadeza! Não vai logo curando, como esses curadores de televisão, os falsos profetas da telinha, os RR Soares e Edir Macedos da vida! O Senhor deseja encontrar as pessoas, ouvi-las, com todo respeito: “O que queres que eu te faça?” O pedido do cego é comovente; é o nosso pedido: “’Mestre, que eu veja!’ Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’”. Este deve ser o nosso pedido, mas, para isso é necessário ter a humildade de se reconhecer cego, pobre, necessitado! “Senhor, eu sou o cego do caminho! Cura-me, eu te quero ver!”
O cego foi curado... “e seguia Jesus pelo caminho”. Curado, iluminado por Jesus, agora seguia Jesus como discípulo, caminhando com ele para Jerusalém, para com ele morrer e com ele ressuscitar. Esta é a nossa vocação, este deve ser o nosso itinerário, a nossa experiência de fé!
“Senhor, tua Igreja, peregrina no mundo, é um povo de pobres, de frágeis seres humanos. Mas confiamos em ti! Não queremos colocar nossas força ou esperança no nosso prestígio, ou nas riquezas ou nos amigos poderosos o nos elogios do mundo. Não! Tu somente és nossa força! Salva-nos, Senhor! Reúne-nos, Senhor! Ilumina-nos, Senhor! Dá-nos a graça de reconhecer que somente na tua luz poderemos ver a luz! O mundo chama luz, sabedoria e esperteza a coisas que são inaceitáveis aos teus olhos! Senhor, abre nossos olhos para caminharmos na tua luz até a cruz, até a ressurreição, até à vida. Senhor, arranca-nos da nossa cegueira. Amém”.



Tomemos hoje a Palavra de Deus pensando na nossa pobreza; na minha como sacerdote, na sua como leigo, na pobreza de toda a Igreja, povo santo de Deus.
Amados no Senhor, a nossa fé, a nossa salvação, toda a experiência do cristianismo dá-se num misterioso encontro entre a riqueza misericordiosa de Deus e a humana pobreza, a nossa pobreza. E isto é dificílimo de ser compreendido, aceito e vivenciado por uma humanidade que se julga material e racionalmente auto-suficiente, por nós, que dizemos que temos direito a tudo, não devemos nada e não queremos favores de ninguém. E, no entanto, a Palavra santa no diz que diante de Deus somos pobres, necessitados, deficientes. E somente reconhecendo esta realidade encontramos a nossa verdade mais profunda e a salvação! Somos pobres, mas amados; somos frágeis, mas aconchegados entre as benditas mãos do Senhor. É ele nossa riqueza, é ele nossa esperança e auxílio. Mas, vejamos isso na Palavra de Deus que acabemos de ouvir...
Comecemos pelo Evangelho, com esta comovente história do cego de Jericó. Esse cago nos representa; ele é cada um de nós, ele é a Igreja toda. Não tem nome, este homem: é somente o bar Timeu, isto é, o filho de Timeu; é cego e mendigo, sentado à margem da estrada da vida. Esta, meus caros, é a nossa situação sem Cristo. Em certo sentido, esta será sempre a nossa situação, pois somos sempre necessitados de Cristo, sempre pobres, sempre dependentes. Esta é também a situação da Igreja toda. Não é ela aquele povo de Deus que o Senhor liberta do cativeiro e vai conduzindo? Não é ela aquele pobre resto, formado por cegos, aleijados e mulheres em estado de fragilidade? Recordem, meus irmãos, as características daqueles a quem o Senhor chama na primeira leitura desta Missa: “Salva, Senhor, o teu povo, o resto de Israel. Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas...” A Igreja será sempre isto: um resto, feito de pobres, formado por pessoas frágeis, que experimentam as lágrimas e provas da vida, as quedas e debilidades na estrada da existência... A Igreja de Cristo será sempre aqueles que caminham entre preces, colocando no Senhor sua esperança. Nosso arrimo, caríssimos, é somente o Senhor!
Pobre cada um de nós, pobre a Igreja, pobres também os que o Senhor constitui como seus sacerdotes... A segunda leitura os apresenta tendo como modelo o único e perfeito sacerdote, modelo de todo sacerdote do povo cristão: Jesus Cristo. Quem é o sacerdote? Um pobre homem, vaso de eleição e vaso de argila, tirado do meio dos homens e colocado em favor dos homens não em qualquer assunto, mas nas coisas de Deus. Qual a sua missão central? Oferecer o Santo Sacrifício de Cristo pelos pecados próprios e do mundo inteiro. Mas, aqui, compreendamos bem: o Sacrifício eucarístico oferecido sobre o Altar não se resume ou se esgota no Altar, mas deve ser vivenciado e prolongado no serviço total ao povo de Deus e à humanidade. Serviço na pregação, serviço de pastoreio na coordenação e animação dos irmãos, serviço na oração, na celebração dos santos mistérios, na orientação espiritual, na promoção humana dos irmãos... Como Cristo, o sacerdote deve ser cheio de compaixão pelas fraquezas humanas, pois ele próprio é fraco. Assim, como a Igreja e como cada um de nós, também o sacerdote deve ser consciente de sua total dependência e necessidade do Senhor. Ele não tem nada de próprio para dar. Pelo contrário: sua missão será tanto mais eficaz, tanto mais verdadeira, quanto mais ele deixar que Cristo transpareça nele. O Sacrifício da Missa, por ele oferecido todos os dias, com o povo santo e em nome do povo santo, é expressão clara de que tanto ele quanto toda a Igreja não vivem de suas próprias forças e virtudes, mas somente da graça de Cristo, que brota continuamente do sacrifício pascal do Senhor. Portanto, nós padres somos pobres sacerdotes no meio de um povo de pobres, que deve vencer a tentação da auto-suficiência, da soberba, tão característica do mundo atual, e colocar sua esperança somente no Senhor, comprometendo-se com toda a vida somente com ele e com a sua vontade. Quão grande é a tentação de ser padre do nosso jeito, como se fôssemos donos do ministério e do rebanho! Que tentação manipular a doutrina, a liturgia, os conselhos... Não! Somos apenas servos, somos apenas embaixadores de Deus e administradores do seu mistério. O que se espera de nós é que sejamos fiéis! E que tentação do rebanho, a de querer fazer uma doutrina do seu modo, sob medida, uma moral a gosto da moda, um cristianismo fácil e burguês, sem exigências e sem conversão contínua...
Mas, caros irmãos pobres, que escutam agora um sacerdote mais pobre ainda, voltemos ao cego do caminho. Aprendamos com ele, porque ele hoje nos serve de modelo no modo como agir diante do Cristo que passa pela estada da nossa vida! Esse cego reconhece sua miséria e grita a Jesus com todas as suas forças. Seu grito é uma profissão de fé em Jesus: “Filho de Davi, ele exclama, tem piedade de mim!” Ele tem consciência que é pobre, necessitado, precisado da misericórdia e da cura de Jesus. Ele sabe que é cego... Bem diferente do mundo atual, bem diferente de nós, às vezes, que teimamos que estamos vendo quando agimos como cegos... Observem como querem calá-lo, como querem que ele não grite por Jesus! Não é a mesma coisa que a Igreja sofre do mundo? Não é a mesma coisa que o nosso orgulho deseja fazer conosco? Querem nos calar, querem que não reconheçamos que somos pobres cegos e precisamos de Jesus! Querem reprimir nossa sede, sufocar nossa procura, matar nosso desejo! – Nós, no entanto, continuemos a gritar: Senhor Jesus, Filho santo e bendito de Deus, tem piedade de mim, tem piedade da tua Igreja! Sê nosso socorro, nosso perdão, nossa força! Sê a luz dos nossos olhos, tu que venceste o Maligno e a Morte e fizeste brilhar para nós a luz e a vida imperecível (cf. 2Tm. 1,10). Senhor, que eu possa ver novamente: ver com teu olhar, ver na tua luz, ver a tua verdade, que faz a vida valer a pena e não ser uma existência vazia!
Observem, meus caros, como Jesus, apesar do ruído da multidão, escuta o cego, ouve aquele que grita das profundezas de sua miséria! Ouve e o chama para si! E o cego, dando um pulo e deixando cair o manto no qual guardava seu dinheiro, corre para Jesus! Bendito cego: primeiro soube reconhecer a cegueira, depois teve discernimento para reconhecer o Cristo que passava na sua vida, em seguida teve a coragem de gritar por Jesus pedindo ajuda; e agora, tem a sabedoria de deixar tudo: pula apressado, não perde tempo com o manto, e vai ao encontro do essencial: encontrar Jesus! Eis, então: a miséria diante da Misericórdia, o cego diante de Jesus. E a Misericórdia pergunta à miséria: “Que queres que eu t e faça?” E a miséria não perde tempo, não pensa em futilidades; vai direto ao essencial: “Mestre, que eu veja!” – Senhor, abre os meus olhos às maravilhas do teu amor! Eu sou o cego do caminho: cura-me, eu te quero ver! – E Jesus, a Misericórdia infinita, responde: “A tua fé te curou!” Eis o fruto da humildade de quem se reconhece pobre e pequeno, de quem se reconhece pecador: a cura, a luz, o poder contemplar Jesus. Que alegria daquele Bartimeu poder ver Jesus, dirigir o olhar para o Senhor, manter seus olhos no Senhor, que alegra a nossa vida! E não só. Vejam como termina a narrativa do Evangelho: “Recuperou a vista e seguia-o pelo caminho!” Ó caríssimos, que também nós nos deixemos curar de nossa cegueira e possamos ver Jesus e tenhamos a coragem de segui-lo pelo caminho! – “Salva, Senhor, o teu povo, o resto de Israel!“por torrentes d’água, por um caminho reto onde não tropecemos!
dom Henrique Soares da Costa

============================

Deus vem em nosso socorro e nos liberta
As leituras bíblicas deste domingo nos introduzem no mistério do amor de Deus que se solidariza com as pessoas que sofrem e oferece - lhes a libertação de todos os males. É o Deus sempre fiel à Aliança que estabeleceu com o seu povo. Em qualquer situação histórica ele se encontra muito próximo, ouve as súplicas, acolhe as dores e indica-lhes os caminhos de vida e de liberdade. O profeta Jeremias proclama uma palavra de coragem e de esperança aos aflitos e desanimados no exílio da Babilônia: “O Senhor salva o seu povo!”. E Deus confirma que haverá de reunir o povo disperso, “entre eles há cego e aleijado, a mulher grávida e que dá à luz, todos juntos”, porque ele é Pai de todos (1ª leitura). Seu amor se manifestou de modo pleno em seu filho Jesus Cristo que veio para libertar o ser humano, sendo uma boa notícia aos excluídos como aquele cego, à beira do caminho, chamado Bartimeu, conforme narra o evangelho de Marcos. Sua cegueira reflete a dos discípulos que não conseguem entender que tipo de Messias é Jesus.
Será compreendido somente após sua morte e ressurreição. É o Messias, Filho de Deus, que se entregou livremente para a vida do mundo.
Ele é o sumo e eterno sacerdote, “capaz de ter compreensão por aqueles que o ignoram e erram” (2ª leitura). Em Jesus e com Jesus também nós assumimos o papel sacerdotal oferecendo a nossa vida como dom para Deus e para os irmãos.
1ª leitura (Jr. 31,7-9) - O Senhor salva o seu povo
Jeremias foi um profeta ativamente engajado na política de seu tempo. Sua atuação se dá em várias etapas entre os anos de 630 a 580 a.C. O Reino do Norte (ou Efraim) fora invadido e destruído em 722 a.C. pelos assírios.
Há muitos exilados na Assíria. Internamente, o povo sofre com a política centralizadora do rei Josias (cf. 2Rs. 22-23). Além disso, Jeremias participou dos fatos que culminaram com a invasão do exército babilônico, a destruição do templo e da cidade de Jerusalém. Uma parte da população de Israel é deportada (cf. 2Rs. 24-25). Devido à sua ação profética, Jeremias foi perseguido, preso e teve de fugir para o Egito, onde morreu.
O texto da liturgia deste domingo faz parte do chamado “livro da consolação” (Jr. 30-31), onde, por ordem de Deus, Jeremias anuncia aos exilados um futuro de paz, de liberdade e de alegria na terra de Israel. Todos os exilados serão reunidos dos confins da terra e voltarão à sua pátria. Isso acontecerá por obra gratuita de Deus. É boa notícia que culminará com a celebração de uma nova Aliança: “Então serei seu Deus e eles serão o meu povo... Todos me conhecerão, dos menores aos maiores, porque perdoarei sua culpa e não me lembrarei mais do seu pecado – oráculo do Senhor” (Jr. 31,31-34).
A sociedade que Jeremias sonha com a volta dos exilados não é a restauração da monarquia, mas a fidelidade à Aliança com Deus. Ele liberta o seu povo da opressão do mais forte. Deus apresenta-se como “pai para Israel”, que reúne os filhos dispersos e  reconstitui sua família. Ninguém deverá ficar de fora. Os cegos, os aleijados e as mulheres grávidas são especialmente lembrados. Todas as pessoas fracas e indefesas recebem o cuidado prioritário. As mulheres grávidas e que dão à luz prenunciam o futuro de vida e alegria para o povo.
A profecia cumpre a missão de animar a esperança militante no meio das pessoas vítimas da opressão e da violência dos grandes.
Deus toma posição e vem salvar os seus filhos e filhas cuja vida está ameaçada. Uma terra de liberdade e vida para todos é vontade de Deus e tarefa nossa.
Evangelho (Mc. 10,46-52) - Jesus liberta da cegueira
A cura do cego Bartimeu se dá na última parada de Jesus com seus discípulos antes da chegada em Jerusalém. Como já constatamos nos domingos anteriores, essa viagem, desde a Galileia, constitui-se num caminho pedagógico no qual Jesus se ocupa, de maneira especial, com a formação dos seus discípulos.
Percebe-se que, no esquema do evangelho de Marcos, esse caminho está emoldurado entre duas narrativas de curas de cegos: a de Betsaida (8,22-26) e essa do cego à saída de Jericó. O primeiro cego recupera a vista após um processo gradual: Jesus o retira para fora da cidade, cospe-lhe nos olhos e por duas vezes impõe-lhe as mãos. Esse cego de Jericó, para recuperar a vista, Jesus não precisa nem mesmo tocá-lo. O cego de Betsaida é conduzido a Jesus por outras pessoas e não lhe é dado nome próprio; o da saída de Jericó tem iniciativa própria, grita a Jesus de Nazaré sem se deixar intimidar pelos que procuram calá-lo e possui um nome próprio. Podem-se perceber outros detalhes que revelam as diferenças e semelhanças entre os dois relatos.
Ambos os cegos são representativos dos discípulos frente ao conhecimento que possuem a respeito de Jesus. De fato, logo após a cura do cego de Betsaida, constatamos a confissão pública de Pedro que fala em nome dos demais discípulos. Teoricamente, ele sabe que Jesus é o Messias, mas não admite que seja vulnerável ao sofrimento e à morte impingida pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém.
Nos discípulos permanece a concepção de um messianismo de poder e glória. Seguir a Jesus, para eles, é a oportunidade para realizar as suas ambições de fama e de domínio, o que provoca discussões internas a respeito de quem seria o maior. Eles estão em situação de cegueira.
Compreenderão, pouco a pouco, quem é realmente Jesus e qual sua missão no mundo, conforme o texto de domingo passado: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (10,45).
O cego Bartimeu representa o estágio conclusivo do processo de abertura dos olhos pelo qual os discípulos estão passando.
Não é fácil desvencilhar-se das ideologias dominantes, representadas, nesses episódios, pelas cidades. O primeiro cego, Jesus o retirou de dentro de Betsaida para poder curá-lo. Bartimeu já está fora de Jericó e encontra-se à beira do caminho. Essa situação lembra o ensinamento de Jesus através da parábola da semente: “Os que estão à beira do caminho onde a Palavra foi semeada são aqueles que ouvem, mas logo vem Satanás e arrebata a Palavra que neles foi semeada” (Mc. 4,15). De fato, inicialmente Bartimeu se dirige a Jesus e, por duas vezes, o chama de “Filho de Davi”. Em sua concepção, Jesus seria o Messias à moda de um rei triunfalista. Satanás (que se manifesta nas ideologias dos grandes e poderosos) ainda domina a consciência de Bartimeu, como aconteceu com Pedro quando tentou impedir que Jesus fosse a Jerusalém e seguisse o caminho de um servo sofredor. Jesus reagiu dizendo: “Afasta-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (8,33).
Jesus vence Satanás, que cega as pessoas.
É necessária, porém, a disposição de deixar-se curar e mudar de mentalidade. É o que fez Bartimeu.
Para isso teve de vencer os impedimentos daqueles que mandavam calar-se. Jesus ouviu o seu grito, parou e mandou chamá-lo. Deus ouve o clamor dos oprimidos! Perguntou Jesus: “Que queres que eu te faça?”. O cego já havia se desvencilhado de seu manto, que simboliza suas seguranças pessoais, sua dependência da mendicância, seu passado de atrelamento e de submissão a um sistema excludente. Está pronto para acolher a verdade que liberta, que é Jesus e sua proposta. Agora não se dirige mais a Jesus com o apelativo de “Filho de Davi” e sim com a expressão reverente: “Rabbuni”, que significa “meu mestre”. E manifesta seu profundo desejo, fruto de uma longa busca: “Que eu possa ver novamente”. É sinal que ele um dia enxergava. O veneno de “Satanás”, ou seja, os ideais que não são de Deus, o cegaram.
Bartimeu são os discípulos que abrem os olhos com a graça de Jesus e o seguem no caminho da cruz. Bartimeu é cada um de nós: Jesus nos ajuda a abandonar o “manto” do egoísmo e da submissão às ideologias dominantes e tornar-nos conscientes da missão que temos de construir um mundo como casa de vida digna sem exclusão.
2ª leitura (Hb. 5,1-6) - O sacerdócio de Jesus
A carta aos Hebreus apresenta Jesus como sumo e eterno sacerdote. Para que os ouvintes e leitores pudessem entender essa mensagem, os autores tomam como exemplo a função sacerdotal exercida na tradição judaica. O sumo sacerdote era investido da mais alta dignidade como mediador entre Deus e o povo. Sua função é oferecer dons e sacrifícios pelos pecados do povo e também pelos seus.
Essa imensa honra só podia ser concedida para quem era chamado por Deus, que, por tradição de fé e legitimação legal, correspondia a alguém da descendência de Aarão. A descrição do sumo sacerdote aqui é idealizada, pois sabemos que essa função no templo de Jerusalém foi, muitas vezes, conquistada por pessoas interesseiras que faziam o jogo da política imperial. Também dificilmente um sumo sacerdote agia tendo consciência de suas próprias fraquezas com a compreensão das fraquezas dos outros.
Portanto, a idealização da função sacerdotal visa a contemplar e acolher na fé o novo e definitivo sacerdócio de Jesus Cristo, totalmente superior ao do antigo. Entregando-se como vítima expiatória pelos pecados de toda a humanidade, tornou-se o eterno sumo sacerdote. Ele não entrou na linhagem sacerdotal que oficialmente se concebia no sistema religioso judaico. Não é por descendência de Aarão, e sim “segundo a ordem de Melquisedec”. Essa personagem é de origem misteriosa. Ela aparece a Abraão (Gn. 14,18-20) como “Rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo”, concedendo a bênção ao pai do povo de Israel. Revela ser superior a Abraão. Com isso, relaciona-se com a superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio de Aarão. O nome de Melquisedec significa “em primeiro lugar ‘Rei da Justiça’; e, depois, ‘Rei de Salém’, o que quer dizer ‘Rei da Paz’” (Hb. 7,2). É a figura da missão sacerdotal de Jesus Cristo recebida diretamente
de Deus Pai. Ele assumiu a condição humana e é capaz de compreender as fraquezas do ser humano. Com plena humildade e obediência a Deus, ofereceu-se uma vez por todas para a justiça, a paz e a salvação do mundo.
Pistas para reflexão
– O Senhor, nosso Deus, vem para nos salvar. Ele é nosso Pai misericordioso. O profeta Jeremias percebe a presença consoladora de Deus no meio do povo exilado. Anuncia a palavra de esperança e alegria, que é a reunião de todos os dispersos na terra onde reina a liberdade e a paz. Ninguém fica de fora: os cegos, os aleijados e as mulheres grávidas que representam as pessoas frágeis e indefesas recebem proteção e carinho especiais... É oportuno relacionar com o mês das Missões...
– Jesus é Deus que se fez carne. Caminha com seu povo e ajuda os discípulos a reconhecê-lo como o Messias servidor, curando-os da cegueira das ideologias dominantes.
Bartimeu representa todos os que buscam a Jesus com sinceridade. Vence as barreiras dos que desejam impedi-lo. Jesus ouviu o grito de Bartimeu, parou, deu-lhe atenção e a visão foi recuperada. O que nos impede de conhecer e seguir verdadeiramente a Jesus Cristo? Em que “cegueiras” podemos cair hoje? Como podemos nos libertar delas? Pode-se enfatizar a importância de participar do processo de iniciação à vida cristã, dos cursos de formação...
– Jesus é nosso mediador junto a Deus Pai. Ele nos conhece integralmente, pois se fez nosso irmão. Deu o exemplo de entrega da vida pela paz e justiça no mundo. Envia e abençoa os seus discípulos missionários para que continuem a sua obra...
============================
O Senhor que se chama bondade
Por vezes, na linguagem do Antigo Testamento, o Senhor é descrito com sentimentos humanos de cólera. Outras vezes, as escrituras santas não encontram palavras adequadas para descrever a bondade, a misericórdia, a munificência do Senhor. Jeremias anuncia ao povo simples, aos doentes, aos que tinham vivido no exílio, na dor, na distância da pátria e do templo que está para terminar o tempo do luto e das lágrimas. Aquele pequeno resto de Israel, fiel ao coração de Deus, estava sendo convidado a começar a peregrinação para a terra da liberdade…. “Eles são numerosos. Eu os reunirei de todos os cantos… vejo entre eles os pequenos e os deserdados, cegos e coxos, mulheres grávidas…seus pés ganham força para a grande caminhada do retorno”. Jeremias que tantas vezes havia anunciado castigos e penas agora, em sua fala, ganha um tom de carinho e de meiguice. O Senhor não quer guardar a bondade dentro do peito. “Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces; eu os conduzirei por torrentes de água, por um caminho reto onde não tropeçarão, pois tornei-me um pai para Israel, e Efraim é meu primogênito”. Os cegos, os surdos, os aleijados, os que haviam ficado de lado… agora serão príncipes na terra nova…
Marcos no texto evangélico proclamado descreve a cura de Bartimeu, o filho de Timeu. O relato é comovente. Os pormenores do texto são tocantes. Um cego e mendigo, sentado à beira do caminho, sujo, enlameado, sem esperanças, sem expectativas, prisioneiro de sua solidão. Um cego não quer outra coisa senão a claridade. Jesus já era conhecido. Quando o pobre ouve sua voz se agita, se levanta, grita:  “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim. Não tenho ninguém. Essa gente está me impedindo de chegar perto de ti, Senhor. Jesus, tem piedade de mim. Está difícil continuar a viver. Não tenho ninguém, nem alegria, nem coragem…nada”. Jesus olha em volta e tenta descobrir quem o está chamando…”Aqui estou eu… Há essa gente toda à minha volta… mas tua voz me pareceu angustiante e sincera. O que tu queres?” E o cego: “Mestre, eu quero ver… eu sou extremamente pobre…eu quero ver”. Ora, esse Deus que é bondade, esse Deus que manifestou sua bondade no rosto de Jesus  se achega do cego: “Vai, a tua fé te curou”. E o cego ficou curado… Belíssima a conclusão do evangelista: “No mesmo instante ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” Imagino esse novo discípulo olhando as cores das flores, vendo o azul do céu e o rosto de Jesus. O cego quase explodiu de alegria.
frei Almir Ribeiro Guimarães
============================
Jesus abre os olhos a quem procura ver
Embora caminho do Servo Padecente, a subida de Jesus a Jerusalém não deixa de ser também a chegada do Messias. Se, nos domingos anteriores, a liturgia acentuou, no paradoxal messianismo de Jesus, o lado da aniquilação, hoje ela insiste num sinal messiânico evidente: a cura de um cego (evangelho). A revelação de Jesus como messias “diferente” surge, portanto, da dialética entre o que se esperava do Messias e o que não se esperava dele. Depois da incompreensão dos discípulos em Mc. 8,14-21, Jesus se manifesta como Messias abrindo os olhos ao cego de Betsaida (8,22-26). Se, por um lado, Jesus proíbe a publicidade (8,26), por outro, os “iniciados” (os discípulos) já viram bastante para que, logo depois, Pedro profira a profissão de fé: “Tu és o Messias” (8,29). Mas ele não sabe o que isso significa, pois ele pensa em categorias humanas (8,33). Ao fim das predições da Paixão, secção em que os discípulos são ensinados a respeito da natureza da missão do Cristo, embora sem a entender plenamente (8,27-10,52), Jesus cura novamente um cego: Bartimeu, o cego de Jericó. A este, Jesus não lhe proíbe publicar o acontecido; pelo contrário, o homem “segue Jesus”. Pois é chegada a hora de revelar seu messianismo, não só aos iniciados, mas à multidão reunida em Jerusalém. A cura de Bartimeu acontece na saída de Jesus de Jericó, na direção de Jerusalém, onde Jesus será acolhido, logo depois, como o rei messiânico (embora a multidão em 11,1ss saiba o que isso implica … ). Portanto, podemos dizer que, ao abrir os olhos a Bartimeu, Jesus deixa entrever seu messianismo a todo o povo de Israel.
Abrir os olhos dos cegos era um sinal messiânico de destaque. A 1ª leitura traz uma profecia, escrita por Jr para animar o “resto de Israel”, as tribos do Norte, deportadas pelos assírios em 721 a.C., sugerindo-lhes a perspectiva da volta (pois no tempo de Josias, ao iniciar Jeremias seu ministério profético, a Assíria estava muito fraca e Josias reconquistando a Samaria). As tribos serão reunidas. Mesmo os cegos e coxos estarão aí. Bartimeu é o representante desta profecia, quando Jesus sai de Jericó, na direção de Jerusalém, centro da antiga Aliança.
Mas Bartimeu é também o protótipo dos que querem ver. Esta é a condição para salvação. Ele é salvo, porque tem fé (10,52). Ele a demonstrou de modo palpável, insistindo em chamar a atenção de Jesus, apesar das reprimendas da multidão e dos próprios discípulos. Ele invoca Jesus como Messias (“Filho de Davi”), em plena multidão e Jesus confirma sua invocação pelo atendimento que lhe concede. Pressentimos aqui as multidões de Jerusalém aclamando Jesus como o que traz presente o “Reino de nosso pai Davi” (11,10). Mas, apesar de todo o entusiasmo, ele continuará seu caminho até o Gólgota.
A liturgia dos domingos do tempo comum não acompanha Jesus no resto do caminho da cruz: a Semana Santa é que faz isto. Portanto, será bom, neste 30° domingo, fazer uma meditação sintética sobre este caminho, que a alguns domingos estamos acompanhando. Caminho paradoxal, de sinais e desconhecimento, fé e incompreensão, entusiasmo e aniquilação … Cada um traz em si alguma esperança messiânica, alguma utopia. Será que ela corresponde ao critério de Cristo, que mostra ser, ao mesmo tempo, a negação e a plenitude daquilo que esperamos? Para receber em plenitude, precisamos admitir uma revisão daquilo que esperamos. Talvez seja isso que sugere a oração do dia: amar o que Deus ordena e receber o que ele promete.
A 2ª leitura é semelhante à de domingo passado. Situa o ser sacerdote de Jesus na sua solidariedade com os homens e com Deus ao mesmo tempo. Participando de nossa condição, santifica-a. É o pontífice por excelência. Não Jesus mesmo, mas também nenhuma instituição humana, lhe conferiu este poder. Ele pertence a uma linhagem sacerdotal que supera até a de Aarão, por ser primeira e de origem desconhecida, misteriosa: a linhagem de Melquisedec (cf. 14,18-20).
Johan Konings "Liturgia dominical"
============================
A grandeza de servir
O Reino de Deus introduziu nova ordem de relações entre as pessoas, muito diferente da mentalidade do mundo. Para quem é mundano, a grandeza consiste em exercer o domínio sobre as pessoas, e mostrar-se cheio de poder, porque a submissão lhe parece fruto do medo. O serviço prestado ao tirano não resulta de um ato amoroso, mas revela-se uma pesada obrigação.
O Reino, pelo contrário, segue na direção oposta. O domínio transforma-se em serviço. O dominado assume a feição do irmão a quem se deve amar e servir. O poder não é utilizado para oprimir, antes, para libertar. A relação de escravidão transforma-se em relação de fraternidade. A grandeza, portanto, para o discípulo do Reino não consiste em ser servido mas em servir e oferecer a própria vida para que o outro possa crescer.
Foi por esta razão que Jesus convidou Tiago e João a mudarem de mentalidade e pensarem segundo os critérios do Reino. O pedido que fizeram ao Mestre talvez escondesse o desejo de exercerem poder sobre os demais companheiros de discipulado, numa espécie de dominação. Pretendiam ocupar um lugar de destaque junto de Jesus, para usufruir do poder. Jesus denunciou esta maneira errada de pensar.
O discípulo deve espelhar-se nele, enviado pelo Pai para colocar-se a serviço da humanidade e dar a vida pela salvação de todos. Esta é a sua grandeza!
padre Jaldemir Vitório

Cegueira dos discípulos
Podemos perceber que Marcos, ao escrever seu evangelho, teve a intenção de caracterizar três etapas do ministério de Jesus. A primeira, até o capítulo 8, versículo 21, envolvendo o ministério de Jesus na Galileia e nas regiões gentílicas vizinhas, abrange desde o batismo de João até a passagem por Betsaida; é uma fase de formação dos discípulos, e a palavra chave é a "casa", mencionada frequentemente como lugar onde a comunidade se encontra com Jesus. A segunda etapa, do capítulo 8, versículo 22, ao capítulo 10, versículo 52, que envolve a viagem com destino a Jerusalém, a partir de Betsaida e dos povoados de Cesareia de Filipe, ao norte da Galileia; nesta etapa a palavra-chave é o "caminho", repetida várias vezes, ao longo do qual Jesus prepara os discípulos para o desfecho de seu ministério em Jerusalém, destacando-se nesta etapa os três "anúncios da Paixão" (Mc. 8,31-32; 9,30-32; 10,32-34; cf. 30 maio). A terceira etapa, a partir do capítulo 11, abrange o ministério de Jesus em Jerusalém, culminando com a Paixão, morte e ressurreição.
A leitura de hoje, com a cura do cego de Jericó, fecha a segunda etapa do ministério de Jesus, cujo início foi demarcado também com a cura de um cego em Betsaida. Com este artifício literário, incluindo a caminhada para Jerusalém entre duas curas de cegos, Marcos realça que Jesus está empenhado em abrir os olhos dos próprios discípulos quanto à natureza de sua missão no mundo.
Nesta caminhada, aproximando-se de Jerusalém, passam por Jericó, situada a cerca de 25 km. daquela cidade de destino. Os discípulos acompanham Jesus, sem ainda compreender, com clareza, o sentido pleno de sua missão, pois tinham dele uma visão messiânica triunfalista.
A narrativa da cura é feita em cores vivas, como em uma cena teatral: a multidão que acompanha Jesus; o cego, mendigo, sentado à beira da estrada; seus gritos insistentes, indiferente à repreensão de muitos; o chamado de Jesus e o seu pulo, jogando o manto fora, concluindo com a recuperação da visão.
Pode-se imaginar que os mendigos de Jericó se instalassem à beira do caminho que, vindo do norte, levava a Jerusalém, contando com a benevolência e a piedade dos peregrinos, que, em grandes grupos, viajavam para a cidade a fim de cumprir o preceito de participação na festa da Páscoa judaica, no Templo.
O cego que estava à beira do caminho, de certo modo, é a imagem destes discípulos em sua incompreensão. Ele "vê", equivocadamente, Jesus como o "Filho de Davi", messias poderoso e triunfante da tradição judaica do Primeiro Testamento. Contudo, este homem quer libertar-se de sua cegueira. Jesus pergunta-lhe: "Que queres que eu te faça?". Esta pergunta havia sido dirigida, pouco antes a Tiago e João, cuja resposta revela que, cegamente, aspiravam ao poder. Bartimeu, simplesmente, quer "ver", e, vendo Jesus Nazareno com clareza, ele o segue em seu caminho.
Nossa fé consiste em "ver" Jesus presente, hoje, no mundo, humilde e amoroso, caminhando com seus discípulos na construção de um mundo novo de justiça e paz.
José Raimundo Oliva
============================
A liturgia do 30° domingo do tempo comum fala-nos da preocupação de Deus em que o homem alcance a vida verdadeira e aponta o caminho que é preciso seguir para atingir essa meta. De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, o homem chega à vida plena, aderindo a Jesus e acolhendo a proposta de salvação que Ele nos veio apresentar.
A primeira leitura afirma que, mesmo nos momentos mais dramáticos da caminhada histórica de Israel, quando o Povo parecia privado definitivamente de luz e de liberdade, Deus estava lá, preocupando-se em libertar o seu Povo e em conduzi-lo pela mão, com amor de pai, ao encontro da liberdade e da vida plena.
A segunda leitura apresenta Jesus como o sumo-sacerdote que o Pai chamou e enviou ao mundo a fim de conduzir os homens à comunhão com Deus. Com esta apresentação, o autor deste texto sugere, antes de mais, o amor de Deus pelo seu Povo; e, em segundo lugar, pede aos crentes que "acreditem" em Jesus - isto é, que escutem atentamente as propostas que Ele veio fazer, que as acolham no coração e que as transformem em gestos concretos de vida.
No Evangelho, o catequista Marcos propõe-nos o caminho de Deus para libertar o homem das trevas e para o fazer nascer para a luz. Como Bartimeu, o cego, os crentes são convidados a acolher a proposta que Jesus lhes veio trazer, a deixar decididamente a vida velha e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. Dessa forma, garante-nos Marcos, poderemos passar da escravidão à liberdade, da morte à vida.
1ª leitura (Jr. 31,7-9) - Ambiente
Jeremias, o profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilônios (586 a.C.). O cenário da atividade do profeta é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).
A primeira fase da pregação de Jeremias abrange parte do reinado de Josias. Este rei - preocupado em defender a identidade política e religiosa do Povo de Deus - leva a cabo uma impressionante reforma religiosa, destinada a banir do país os cultos aos deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, neste período, traduz-se num constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à aliança.
No entanto, em 609 a.C., Josias é morto, em combate contra os egípcios. Joaquim sucede-lhe no trono. A segunda fase da atividade profética de Jeremias abrange o tempo de reinado de Joaquim (609-597 a.C.).
O reinado de Joaquim é um tempo de desgraça e de pecado para o Povo, e de incompreensão e sofrimento para Jeremias. Nesta fase, o profeta aparece a criticar as injustiças sociais (às vezes fomentadas pelo próprio rei) e a infidelidade religiosa (traduzida, sobretudo, na busca das alianças políticas: procurar a ajuda dos egípcios significava não confiar em Deus e, em contrapartida, colocar a esperança do Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias está convencido de que Judá já ultrapassou todas as medidas e que está iminente uma invasão babilônica que castigará os pecados do Povo de Deus. É, sobretudo, isso que ele diz aos habitantes de Jerusalém ... As previsões funestas de Jeremias concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilônia uma parte da população de Jerusalém.
No trono de Judá fica, então, Sedecias (597-586 a.C.). A terceira fase da missão profética de Jeremias desenrola-se, precisamente, durante este reinado.
Após alguns anos de calma submissão à Babilônia, Sedecias volta a experimentar a velha política das alianças com o Egito. Jeremias não está de acordo que se confie em exércitos estrangeiros mais do que em Jahwéh ... Mas, nem o rei, nem os notáveis prestam qualquer atenção à opinião do profeta.
Em 587 a.C., Nabucodonosor põe cerco a Jerusalém; no entanto, um exército egípcio vem em socorro de Judá e os babilônios retiram-se. Nesse momento de euforia nacional, Jeremias aparece a anunciar o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf. Jr. 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é encarcerado (cf. Jr. 37,11-16) e corre, inclusive, perigo de vida (cf. Jr. 38,11-13). Enquanto Jeremias continua a pregar a rendição, Nabucodonosor apossa-se, de fato, de Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população para a Babilônia (586 a.C.).
É impossível dizer com segurança o contexto em que apareceu essa mensagem que o texto que nos é hoje proposto apresenta.
Para alguns comentadores, trata-se de um oráculo que poderia situar-se na primeira fase da atividade profética de Jeremias (reinado de Josias) e dirigir-se-ia aos israelitas do Reino do Norte. Seria uma mensagem de esperança, destinada a animar esse povo que há cerca de cem anos tinha perdido a independência e estava sob o domínio assírio.
Para outros, contudo, este texto será da época de Sedecias, algures entre a primeira e a segunda deportação do Povo para a Babilônia (597-586 a.C.). É a época em que Jeremias descobre perspectivas teológicas novas e começa a refletir sobre um tempo novo que Deus irá oferecer ao seu Povo: após a catástrofe, será possível recomeçar tudo, pois Deus tem em mente fazer uma nova Aliança com Judá.
Mensagem
O texto que nos é proposto começa com um convite à alegria e ao louvor (v. 7). Porquê? Porque Jahwéh vai reunir o seu Povo (disperso na Assíria? Na Babilônia?), vai conduzi-lo através do deserto e vai fazê-lo retornar à sua pátria. Reunir, conduzir e fazer retornar à pátria são os três verbos que, tradicionalmente, definem a ação de Deus em favor do seu Povo, durante o Êxodo.
Depois da afirmação geral, o profeta apresenta alguns pormenores deste Novo Êxodo. Da comitiva farão parte "o cego e o coxo, a mulher grávida e a que deu à luz" (v. 8b). O cego e o coxo são figuras tradicionais ligadas ao tema do Êxodo (cf. Is. 35,5), onde relembram a situação de necessidade e de carência em que os exilados jazem e, ao mesmo tempo, evocam a ação extraordinária de Deus no sentido de libertar o seu Povo dessa carência e dessa necessidade. Na imagem da mulher grávida e na da mulher que deu à luz, o profeta representa a dor e o sofrimento, mas também a fecundidade, a alegria, a esperança num futuro novo e cheio de vida.
No último versículo do nosso texto (v. 9), Jahwéh apresenta-Se como um pai cheio de amor pelo seu filho/Povo. Esse amor irá traduzir-se no final do Exílio e no regresso dos exilados à sua terra "entre grande consolação", por "caminhos direitos" e fáceis. No final desse Êxodo triunfal, Jahwéh vai oferecer ao seu Povo vida abundante e fecunda ("conduzi-Ios-ei às torrentes de água").
O texto dá conta da preocupação de Deus com a vida, a felicidade e a realização plena do seu Povo. Mesmo nos momentos mais dramáticos da caminhada histórica de Israel, quando o Povo parecia privado definitivamente de luz e de liberdade (o "cego" e o "coxo"), Deus estava lá, preocupando-se em libertar o seu Povo e em conduzi-lo pela mão, com amor de pai, ao encontro da liberdade e da vida plena.
Atualização
O que este texto nos diz, antes de mais, é que o Deus em quem acreditamos não é um Deus insensível e alheado das dores e dificuldades dos homens; mas é um Deus sensível e atento, que cuida dos seus filhos com cuidados de pai. Ao longo do percurso que vamos percorrendo pela história, também nós fazemos, como os antigos israelitas, a experiência da escravidão, da dependência, do medo, do desespero, da decepção ... A Palavra de Deus que hoje nos é servida garante-nos: não estamos sozinhos frente aos nossos dramas e sofrimentos; Deus vai ao nosso lado e, com amor de pai, cuida de nós, dá-nos a mão, conduz-nos ao encontro da vida eterna e verdadeira. A nós resta-nos reconhecer a sua presença (às vezes tão discreta que nem a notamos) e, com humildade e simplicidade, aceitar o seu amor.
• Na perspectiva do profeta, a ação salvadora e libertadora de Deus estender-se-á a todos, inclusive aos "cegos" e aos "coxos". Os "coxos" e os "cegos representam, aqui, aqueles que estão numa situação de fragilidade, de debilidade, de dependência e que são incapazes, por si sós, de deixar essa condição. Também com esses - ou especialmente com esses - Deus quer caminhar. Na verdade, Deus não marginaliza ninguém, nem coloca ninguém à margem da sua proposta de salvação ... Os fracos, os débeis, os limitados, os marginalizados ocupam um lugar especial no coração de Deus e são objeto privilegiado do seu amor e da sua misericórdia. Na nossa sociedade, os pequenos, os pobres, os doentes, os velhos, os estrangeiros sem papéis são, frequentemente, marginalizados e ultrapassados pelo comboio da história. A sociedade edifica-se sem eles ou, pelo menos, sem ter em conta as suas necessidades e carências... Nós, os crentes, formados na escola de Deus, precisamos olhar para eles com o mesmo olhar de Deus, descobrir que também eles são filhos queridos e amados de Deus, denunciar as estruturas que os marginalizam, criar mecanismos de inclusão e de integração. É preciso ver em cada homem ou mulher - no "coxo", no "cego", no velho, no doente, no marginal - um irmão que Deus ama e a quem quer oferecer, por nosso intermédio, a vida plena, a salvação definitiva.
Em todo o capítulo 31 do profeta Jeremias (de onde é retirado o texto que nos é proposto), há um impressionante apelo à esperança, à confiança em Deus. Por vezes, somos tentados a olhar para a nossa vida e para a história do nosso mundo, com os óculos do pessimismo, do medo e do desespero ... O terrorismo, os crimes ambientais, as dificuldades econômicas, as doenças incuráveis, a fome, a miséria, os valores efêmeros, parecem pintar de negro o nosso futuro e o futuro do nosso planeta ... Contudo, a Palavra de Deus que hoje nos é proposta garante-nos: não tenhais medo, pois Deus caminha convosco pela história e, como um pai cheio de bondade que ensina o filho a caminhar, há-de conduzir-vos pela mão ao encontro da vida verdadeira. Há, certamente, um futuro para nós, pois Deus ama-nos e caminha conosco.
2ª leitura (Hb. 5,1-6) - Ambiente
Continuamos, neste 30° domingo do tempo comum, a ler a carta aos Hebreus - uma reflexão destinada a comunidades cristãs em situação difícil, expostas a perigos vários e que, por isso mesmo, estão numa situação de fragilidade, de cansaço e de desalento. O objetivo do autor da carta é ajudar esses cristãos a redescobrir o seu entusiasmo inicial, a revitalizar o seu compromisso com Cristo e a empenhar-se numa fé mais coerente e mais comprometida.
Nesse sentido, o autor desta reflexão convida os crentes a apreciar o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, que o Pai enviou ao mundo com a missão de convidar todos os homens a integrar a comunidade do povo sacerdotal. Uma vez comprometidos com Cristo, os crentes - membros desse povo sacerdotal - devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Ao lembrar aos crentes o seu compromisso com Cristo e com a comunidade do Povo sacerdotal, o autor oferece aos cristãos a base para revitalizarem a sua experiência de fé, enfraquecida pela hostilidade do ambiente, pela acomodação, pela monotonia.
O texto que nos é proposto está incluído na segunda parte da carta aos Hebreus (cf. Hb. 3,1-5,10). Aí, o autor apresenta Jesus como o sacerdote fiel e misericordioso que o Pai enviou ao mundo para mudar os corações dos homens e para os aproximar de Deus. Aos crentes pede-se que "acreditem" em Jesus - isto é, que escutem atentamente as propostas que Cristo veio fazer, que as acolham no coração e que as transformem em gestos concretos de vida.
Mensagem
No universo religioso judaico, o sumo-sacerdote ocupava o lugar cimeiro na hierarquia do clero do Templo e, de alguma forma, presidia à instituição sacerdotal. Era ele o único a entrar, uma vez no ano, no lugar mais sagrado do Templo ("Debir" ou "Santo dos Santos"), no solene "Dia das Expiações" ("Yom Kippurim"), com o sangue de um animal imolado, para aspergir o "propiciatório" ("kapporet") e conseguir o perdão de Deus para os pecados do Povo. Dessa forma, o sumo-sacerdote tornava-se o intermediário por excelência da relação entre os homens e Deus.
Para a mentalidade judaica, há três elementos fundamentais ligados à figura do sumo-sacerdote. Em primeiro lugar, ele é um escolhido de Deus: o sumo-sacerdote não é alguém que, por sua iniciativa pessoal, se propõe para o cargo; mas é alguém a quem Deus chama e a quem confia esta missão (foi Deus que, por sua iniciativa, chamou Aarão e toda a sua descendência). Em segundo lugar, o sumo-sacerdote é um homem tomado de entre os homens: a sua humanidade não o torna inapto para uma missão tão sublime; pelo contrário, a fragilidade e debilidade que resultam da sua humanidade tornam-no apto para compreender os erros e os pecados dos outros homens por quem intercede. Em terceiro lugar, o sumo-sacerdote tem uma função mediadora: a sua missão é "oferecer dons e sacrifícios pelos pecados", apresentando diante de Deus o arrependimento dos homens e trazendo aos homens o perdão de Deus; dessa forma, ele refaz a relação dos homens com Deus.
Na perspectiva do autor da carta aos Hebreus, Jesus é o sumo-sacerdote por excelência. Em primeiro lugar, porque Ele foi chamado e destinado por Deus a esta missão (apesar de não ser da linhagem do sacerdote Aarão); o fato de ser Filho de Deus dá ao seu sacerdócio uma categoria, uma dignidade e uma qualidade suprema, uma vez que o coloca em contacto pessoal e íntimo com o Pai, dando dessa forma uma expressão mais completa a essa mediação que Ele é chamado a realizar entre Deus e os homens.
Em segundo lugar, porque Ele foi homem, também. Ao assumir a nossa humanidade, Ele experimentou a nossa debilidade e fragilidade e tornou-Se capaz de entender as nossas fraquezas e os nossos pecados e de Se tornar o nosso mediador e intercessor junto do Pai.
A sua proximidade e intimidade com o Pai, por um lado, e a sua humanidade, por outro tornam-n'O, finalmente, o perfeito mediador e intercessor, capaz de restabelecer definitivamente a comunhão entre Deus e os homens. De fato, Ele veio ao nosso encontro, mostrou-nos o amor do Pai, convidou-nos a eliminar o egoísmo e o pecado que nos afastavam da comunhão com Deus, chamou-nos a integrar a família de Deus e ensinou-nos o que fazer para sermos filhos de Deus.
Atualização
Ao apresentar Jesus como o sumo-sacerdote, chamado pelo Pai e enviado ao mundo para libertar os homens do egoísmo e do pecado e para os conduzir à comunhão com Deus, o autor da Carta aos Hebreus convida-nos (todos os textos que a liturgia deste domingo nos propõe apontam no mesmo sentido) a contemplar a grandeza do amor que Deus nos dedica. A contemplação da encarnação de Jesus e de tudo o que Ele realizou enquanto percorreu os caminhos e aldeias da Palestina fala-nos de um amor sem limites, expresso em gestos concretos e que culmina na entrega total, na cruz. A nós resta-nos olhar para Jesus, escutá-I'O, aceitar a sua proposta, banir da nossa vida o egoísmo e o pecado, segui-l'O nesse caminho do dom e da entrega que irá levar-nos a integrar a família de Deus e a possuir a vida verdadeira.
Para o autor do nosso texto, ao assumir a nossa humanidade, Jesus experimentou a nossa fragilidade, a nossa debilidade, a nossa dependência; tornou-Se, portanto, capaz de compreender os nossos erros e falhas e de olhar para as nossas insuficiências com bondade e misericórdia. Para a nossa vida concreta, há duas consequências que resultam daqui... A primeira leva-nos à confiança e à esperança: junto de Deus nosso Pai, temos um intercessor que entende as nossas dificuldades e que, apesar das nossas falhas, continua apostado em integrar-nos na família de Deus. A segunda leva-nos ao compromisso com os irmãos: a solidariedade de Cristo conosco convida-nos à solidariedade com os pequenos, com os últimos, com os pobres, com aqueles que o mundo rejeita e marginaliza; convida-nos a identificarmo-nos com os sofrimentos e angústias, com as alegrias e esperanças de cada homem ou mulher; convida-nos a fazer o que estiver ao nosso alcance para promover aqueles que são humilhados, explorados, incompreendidos, colocados à margem da vida ...
Os planos de Deus para salvar e libertar os homens concretizaram-se porque Cristo, o Filho, assumiu os projetos do Pai e viveu sempre na obediência incondicional às propostas de Deus. Hoje, os projetos de salvação e de libertação que Deus tem para os homens continuam a concretizar-se através daqueles que aderiram a Jesus e querem, como Ele, viver na estrita obediência aos planos de Deus. Sinto-me, como Jesus, testemunha da salvação de Deus diante dos meus irmãos? Meu egoísmo e a minha acomodação alguma vez me desviaram do cumprimento dos projetos de Deus? Aqueles que eu encontro, a cada passo, nos caminhos do mundo, têm encontrado em mim uma proposta credível de vida e de libertação?
Evangelho Me. 10,46-52
Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim. Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: Filho de David, tem piedade de mim. Jesus parou e disse: Chamai-O. Chamaram então o cego e disseram-lhe: Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te. O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: Que queres que Eu te faça? O cego respondeu-Lhe: Mestre, que eu veja. Jesus disse-lhe: Vai: a tua fé te salvou. Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.
Ambiente
O Evangelho deste domingo propõe-nos a última etapa desse caminho (geográfico, mas também espiritual) que Jesus iniciou com os discípulos na Galileia e que irá leva-lo a Jerusalém, ao encontro da paixão, morte e ressurreição. É a última cena de um percurso que não tem sido fácil e no qual os discípulos, como cegos, se aferram às suas idéias e projetos próprios, recusando-se a entender e a aceitar que o caminho do Reino deva passar pela cruz e pelo dom da vida.
O episódio que hoje nos é proposto situa-nos à saída da cidade de Jericó. Jericó, a "cidade das Palmeiras", é um oásis situado na margem do rio Jordão, a norte do Mar Morto, e que dista cerca de 30 quilômetros de Jerusalém. Na época de Jesus, era uma cidade relativamente importante, onde Herodes, o Grande, tinha edificado um luxuoso palácio de Inverno.
Além de Jesus, Marcos coloca no centro da cena um mendigo cego com o nome de Bartimeu ("filho de Timeu"). Este nome, meio aramaico ("bar") e meio grego ("timaios"), é um nome perfeitamente inusual no ambiente hebraico-palestinense onde a história é situada (nunca aparece entre os cerca de 2.000 nomes próprios que ocorrem no Antigo Testamento); aos leitores romanos de Marcos, contudo, o nome devia evocar o "Timeo", um dos mais conhecidos "diálogos" de Platão. Alguns autores pensam que, mais do que um personagem histórico, o cego Bartimeu seria uma figura simbólica.
Os "cegos" faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas - pela teologia oficial - como resultado do pecado. Segundo a concepção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimônias religiosas no Templo.
Mensagem
É natural que Jesus tenha encontrado, quando saía de Jericó, um cego que mendigava junto da estrada... No entanto, parece claro que, à volta desse acontecimento fundamental, Marcos construiu uma catequese para os seus leitores. Quem é, na catequese de Marcos, este "cego" que Jesus encontra ao longo do caminho, quando se dirige para Jerusalém? Ele representa todos esses a quem a teologia oficial considerava pecadores, malditos, impuros, marginais, longe de Deus e da sua proposta de salvação.
O cego da nossa história está sentado à beira do caminho, provavelmente a pedir esmola. O estar sentado significa acomodação, instalação, conformismo. Ele está privado da luz e da liberdade e está conformado com a sua triste situação, sabendo que, por si só, é incapaz de sair dela. O pedir esmola (o texto refere explicitamente a sua condição de mendigo - v. 46) indica a situação de escravidão e de dependência em que o homem se encontra.
Contudo, a passagem de Jesus de Nazaré dá ao cego a consciência da sua situação de miséria, de dependência, de escravidão. Então, Bartimeu percebe o sem sentido da sua situação e sente a vontade de apostar numa outra experiência. A passagem de Jesus na vida de alguém é sempre um momento de tomada de consciência, de questionamento, de desafio, que leva a pôr em causa a vida velha e a sentir o imperativo de ir mais além ... No entanto, Bartimeu está consciente da sua debilidade e sente que, sem a ajuda de Jesus, continuará envolvido pelas trevas da dependência, da escravidão, da instalação ... Por isso, pede: "Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim" (vers. 47). O título "filho de David" é um título messiânico. Portanto, Bartimeu vê em Jesus esse Messias libertador que, segundo a mentalidade judaica, havia de vir não só para salvar Israel dos opressores, mas também para dar vida em plenitude a cada membro do Povo de Deus.
Antes de referir a intervenção de Jesus, Marcos dá conta da reação dos que estão à volta de Jesus: repreendiam o cego e queriam fazê-lo calar (v. 48). Quando alguém encontra Jesus e resolve deixar a vida antiga para aderir ao Reino que Jesus veio propor, encontra sempre resistências (que vêm, por vezes, dos familiares, dos amigos, dos colegas). Estes que repreendem e mandam calar o cego representam, portanto, todos aqueles que colocam obstáculos a quem quer deixar a sua situação de miséria e de escravidão para aderir à proposta libertadora que Cristo faz. No entanto, a oposição não só não desarma o cego, como o leva a gritar ainda mais forte: "filho de David, tem misericórdia de mim".
A incompreensão ou a oposição dos homens nunca fazem desistir aquele que viu Jesus passar e que viu n'Ele uma proposta de vida e de liberdade.
Jesus parou e mandou chamar o cego. A cena recorda-nos os relatos do chamamento dos discípulos (cf. Mc. 1,16-20; 2,14; 3,13). Os mediadores que transmitem ao cego as palavras de Jesus dizem-lhe: "coragem, levanta-te que Ele chama-te" (v. 49). Ou seja: deixa a tua situação de miséria, de escravidão e de dependência, porque Jesus chama-te. O chamamento é sempre, nestes casos, a tornar-se discípulo, a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida.
Em resposta, o cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus (v. 50). A capa podia estar colocada debaixo do cego, como almofada, ou nos seus joelhos, para recolher as moedas que lhe atiravam; em qualquer caso, a capa é tudo o que um mendigo possui, a única coisa de que ele pode separar-se (outros deixaram o barco, as redes ou a banca onde recolhiam impostos). O deitar fora a capa significa, portanto, o deixar tudo o que se possui para ir ao encontro de Jesus. É um corte radical com o passado, com a vida velha, com a anterior situação, com tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao lado de Jesus.
Jesus perguntou ao cego: "que queres que te faça?". É a mesma pergunta que, pouco antes, Jesus fizera a João e Tiago (cf. Mc. 10,36). A identidade da pergunta acentua, contudo, a diferença da resposta ... Os dois irmãos queriam sentar-se ao lado de Jesus e ver concretizados os seus sonhos de grandeza e de poder; o cego Bartimeu, ao contrário, cansado de estar sentado numa vida de escravidão e de cegueira, quer encontrar a luz para seguir Jesus (v. 51).
Jesus responde a Bartimeu: "vai, a tua fé te salvou" (v. 52). A fé não é a simples adesão a determinadas verdades abstratas, que o crente aceita acriticamente; mas, no contexto neo-testamentário, a fé é a adesão a Jesus e à sua proposta de salvação. Por isso, Marcos termina a sua história dizendo que o cego recuperou a vista e seguiu Jesus - isto é, fez-se discípulo de Jesus. Ao aderir a Jesus e à sua proposta de salvação, ao aceitar seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida (Jesus prepara-Se para entrar em Jerusalém, onde vai fazer dom da sua vida em favor dos homens), Bartimeu encontrou a salvação: deixou a vida da escuridão, da escravidão, da dependência em que estava e nasceu para essa vida verdadeira e eterna que, através de Jesus, Deus oferece aos homens.
O cego Bartimeu que encontráramos a mendigar, sentado à beira do caminho, à saída de Jericó representava, inicialmente, os pecadores que viviam longe de Deus e à margem da salvação. Depois de encontrar Jesus, Bartimeu transforma-se e torna-se o protótipo do verdadeiro discípulo ... Destinatário privilegiado da proposta de salvação que Jesus traz, ele proclama sem hesitações a sua fé, invoca a ajuda e a misericórdia de Jesus, acolhe sem hesitações o chamamento que lhe é feito, liberta-se da vida velha e, com alegria, decisão e entusiasmo, aceita, sem condições, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. É com Bartimeu que os discípulos de Jesus são convidados a identificar-se.
Atualização
A situação inicial do cego Bartimeu (que jaz na escuridão, dependente, acomodado, conformado) evoca uma realidade que conhecemos bem ... Evoca a condição do homem escravo, prisioneiro do egoísmo, do orgulho, dos bens materiais, da preguiça, da vaidade, do êxito; evoca a condição daquele que está acomodado na sua situação de miséria, instalado nos seus preconceitos e projetos pessoais, conformado com uma vida de horizontes limitados; evoca a condição daquele que se sente refém dos seus vícios, hábitos e paixões e que sente a sua incapacidade em romper, por si só, as cadeias que o impedem de ser livre... Esta situação será uma situação insuperável, a que o homem está condenado de forma permanente?
A Palavra de Deus que nos é proposta garante-nos que a situação do homem cego, prisioneiro da escuridão, não é uma situação incontornável, obrigatória, sem remédio ... Jesus veio ao mundo, enviado pelo Pai, com uma proposta de libertação destinada a todos aqueles que procuram a luz e a vida verdadeira. Esse Jesus de Nazaré que Se cruzou com o cego à saída de Jericó continua a cruzar-Se hoje, de forma continuada, com cada homem e com cada mulher nos caminhos da vida e oferece-lhes, sem cessar, a proposta libertadora de Deus ... É preciso, no entanto, que não nos fechemos no nosso egoísmo e na nossa auto-suficiência, surdos e cegos aos apelos de Deus; é preciso que as nossas preocupações com os valores efêmeros não nos distraiam do essencial; é preciso que aprendamos a reconhecer os desafios de Deus nesses acontecimentos banais com que, tantas vezes, Deus nos interpela e questiona ...
O que é que implica aceitar a proposta que Jesus faz? Fundamentalmente implica - como aconteceu com Bartimeu - tornar-se discípulo ... Ser discípulo de Jesus é aderir à sua pessoa, acolher os seus valores, viver na obediência aos projetos do Pai, fazer da vida um dom de amor aos irmãos; é solidarizar-se com os pequenos, com os pobres, com os perseguidos, com os marginalizados e lutar por um mundo onde todos sejam acolhidos como filhos de Deus, iguais em direitos e em dignidade; é lutar contra as estruturas que geram injustiça, opressão e morte; é ser testemunha, com palavras e com gestos, da verdade, da justiça, da paz, da reconciliação. Quem aceita seguir o caminho do discípulo escolhe viver na luz e está a contribuir para a construção de um mundo novo.
Quando reconhecemos o "chamamento" de Deus, qual deve ser a nossa resposta?
Bartimeu, logo que ouviu dizer que Jesus o chamava, atirou fora a sua capa e correu ao encontro de Jesus. O gesto de Bartimeu representa, aqui, a renúncia imediata à vida antiga, ao egoísmo, ao comodismo, à escravidão, aos comportamentos incompatíveis com a adesão a Cristo e a esse caminho novo que Jesus o convida a percorrer. É isso, também, que é pedido a todos aqueles a quem Jesus chama à vida nova...
Na história do encontro de Bartimeu com Cristo, aparecem outros personagens, com papéis vários. Uns constituem obstáculos à adesão de Bartimeu a Cristo; outros apresentam-se como intermediários entre Cristo e Bartimeu e transmitem ao cego as palavras de Jesus... Este fato serve para nos tornar conscientes do papel daqueles que nos rodeiam no nosso caminho da fé ... Ao longo da nossa caminhada, encontraremos sempre pessoas que nos ajudam a ir ao encontro de Cristo e pessoas que (muitas vezes com ótimas intenções) tentam impedir-nos de encontrar Cristo. Precisamos de aprender a discernir entre as várias opiniões que nos são propostas e a dar a devida importância a quem nos ajuda a descobrir o caminho para a verdadeira vida.
Quem encontra Cristo e aceita o desafio para viver como discípulo tem, a partir daí, um caminho fácil? De forma nenhuma. Tem de abandonar a vida cômoda e instalada em que vivia e enfrentar uma nova realidade, num desafio permanente, num questionamento constante; tem de aprender a enfrentar as críticas, as incompreensões, os confrontos com aqueles que não compreendem a sua opção; tem de percorrer, dia a dia, o difícil caminho do amor, do serviço, da entrega, do dom da vida... É preciso, no entanto, que o discípulo esteja consciente de que o caminho de Jesus não é um caminho que leva à morte, mas é um caminho que leva à ressurreição, à vida verdadeira e eterna.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
============================
“Coragem, levanta-te, Jesus te chama!”
No domingo passado (21) o texto do Evangelho (Marcos 10,35-45) nos levou a refletir sobre uma triste realidade presente na sociedade de hoje onde muitas lideranças desejam somente poder e status. Concluímos que precisamos cada vez mais de pessoas vocacionadas e que permaneçam fiéis na missão de bem servir a comunidade; aprendemos que o maior poder é o poder do serviço em prol dos outros. Relata o Evangelho de hoje (Marcos 10,46-52) que Jesus está saindo da cidade de Jericó distante 25km de Jerusalém (aproximadamente) e o mendigo que era cego de nome Bartimeu ao saber que Jesus passava começou a gritar: “Jesus Filho de Davi tem compaixão de mim!” Algumas pessoas pediram que se calasse e ele gritou ainda mais alto. Então Jesus pediu que o trouxessem. Disseram para o cego: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” Jesus antes de lhe devolver a visão primeiro pergunta: “O que queres que eu te faça?” Jesus respeita a liberdade da pessoa justamente porque há pessoas que preferem ficar sentadas à beira do caminho no seu comodismo. Estar à beira do caminho simboliza aquelas pessoas que não conseguem caminhar no discipulado, estão parados à beira do seguimento de Jesus. O grito do cego Bartimeu simboliza o grito do povo excluído que está à margem da sociedade. Assim como queriam que o cego se calasse, dois mil anos depois o poder dominante persiste em querer abafar o grito dos excluídos. Bartimeu ao dizer: “Mestre, eu quero ver de novo!” Abre o seu coração diante do Senhor e pede luz. Reconhece suas limitações, tem fé e quer enxergar – é o começo de tudo. Compreendendo e enxergando, segue Jesus pelo caminho para Jerusalém, lugar da cruz, ao contrário daqueles dois discípulos (Tiago e João) que nada compreenderam e disputavam os primeiros lugares (reflexão do dia 21). “Coragem! Levanta-te, Ele te chama!” É preciso ficar atento, pois a cada novo dia Deus chama à conversão. Seja aquele discípulo que sabe ver a realidade com suas luzes e com suas sombras sempre com serenidade, valorizando os irmãos na caminhada. Existem muitos cegos de coração entre nós que não enxergam o verdadeiro caminho de luz. A fé que Bartimeu tinha lhe permitia crer antes de ver. O mesmo Jesus de Bartimeu passa diante de nós todos os dias e não é percebido pela nossa cegueira espiritual. Quanta cegueira no mundo da política, do trabalho e da economia! Queremos hoje, renovar nossa fé em Jesus que nos liberta de todas as cegueiras. Aprendemos com Bartimeu que Jesus sempre ouve o grito dos excluídos. Que sejam os sinais libertadores de Jesus fonte de esperança para livrar as pessoas das escravidões humanas. Bartimeu implora a Jesus compaixão e obtêm não só a cura física, mas também a cura espiritual – tornou-se discípulo missionário, modelo para muitos que precisam abrir os olhos, tomarem consciência e comprometer-se com o projeto de Jesus.
Pedro Scherer

Jesus filho de Davi, tem piedade de mim
Marcos encerra o longo percurso de Jesus relatando a cura do cego Bartimeu. O texto começa com um senso de urgência – chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que têm pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Sentado à beira do caminho! Enquanto Jesus passa com os seus discípulos, o cego está à beira do caminho! Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado, mas estão parados, à beira do seguimento de Jesus.
Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente! Filho de Davi tem piedade de mim! É de novo um dos temas centrais da Bíblia – o grito do pobre e sofrido! Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Este grito é também teu e meu irmão. Assim como a reação dos transeuntes é típica – mandam que Bartimeu se cale, também nos nossos dias há muitos que querem que nos calemos! Pois, o poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído! E isso não mudou até o dia de hoje! Até nas igrejas existe quem não quer ouvir o grito, e faz tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas, não te esqueça! Deus escuta o meu e o teu grito.
Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os mesmos que o mandaram calar agora têm que convidá-lo para falar com Jesus. Mas para isso, Bartimeu tem que lançar fora o manto – a única coisa que ele possuía a sua única segurança. Como os primeiros discípulos no Lago (Mc. 1,18.20), ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana para experimentar a mão de Deus.
Mas Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta o que quer que faça por você. Pois Jesus não obriga ninguém a se libertar – há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, na sua comodidade e não opte pela libertação. Mas o cego quer ver de novo – diferente do cego de Jo 9, ele via uma vez e tinha perdido a visão.
Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir a sua vida. Mas ele faz uma outra opção: no mesmo instante o cego começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho. Ele usava para Jesus um titulo não muito adequado filho de Davi, pois, Jesus fez muitas restrições a este titulo messiânico, mas ele tem a prática certa – segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o titulo certo Tu és o Messias. Mas seja como for, Jesus é aquele que nos devolve a dignidade de filhos, basta que como Bartimeu gritemos: Jesus Filho de Davi tem piedade de mim!Por isso, sem medo de nada e de ninguém faça o seu pedido de oração. Jesus tem compaixão de mim. Curai as minhas feridas e a cegueira dos meus olhos!
padre João Francisco Ribeiro
============================
Deus vem em nosso socorro e nos liberta
As leituras bíblicas deste domingo nos introduzem no mistério do amor de Deus que se solidariza com as pessoas que sofrem e oferece - lhes a libertação de todos os males. É o Deus sempre fiel à Aliança que estabeleceu com o seu povo. Em qualquer situação histórica ele se encontra muito próximo, ouve as súplicas, acolhe as dores e indica-lhes os caminhos de vida e de liberdade. O profeta Jeremias proclama uma palavra de coragem e de esperança aos aflitos e desanimados no exílio da Babilônia: “O Senhor salva o seu povo!”. E Deus confirma que haverá de reunir o povo disperso, “entre eles há cego e aleijado, a mulher grávida e que dá à luz, todos juntos”, porque ele é Pai de todos (1ª leitura). Seu amor se manifestou de modo pleno em seu filho Jesus Cristo que veio para libertar o ser humano, sendo uma boa notícia aos excluídos como aquele cego, à beira do caminho, chamado Bartimeu, conforme narra o evangelho de Marcos. Sua cegueira reflete a dos discípulos que não conseguem entender que tipo de Messias é Jesus.
Será compreendido somente após sua morte e ressurreição. É o Messias, Filho de Deus, que se entregou livremente para a vida do mundo.
Ele é o sumo e eterno sacerdote, “capaz de ter compreensão por aqueles que o ignoram e erram” (2ª leitura). Em Jesus e com Jesus também nós assumimos o papel sacerdotal oferecendo a nossa vida como dom para Deus e para os irmãos.
1ª leitura (Jr. 31,7-9) - O Senhor salva o seu povo
Jeremias foi um profeta ativamente engajado na política de seu tempo. Sua atuação se dá em várias etapas entre os anos de 630 a 580 a.C. O Reino do Norte (ou Efraim) fora invadido e destruído em 722 a.C. pelos assírios.
Há muitos exilados na Assíria. Internamente, o povo sofre com a política centralizadora do rei Josias (cf. 2Rs. 22-23). Além disso, Jeremias participou dos fatos que culminaram com a invasão do exército babilônico, a destruição do templo e da cidade de Jerusalém. Uma parte da população de Israel é deportada (cf. 2Rs. 24-25). Devido à sua ação profética, Jeremias foi perseguido, preso e teve de fugir para o Egito, onde morreu.
O texto da liturgia deste domingo faz parte do chamado “livro da consolação” (Jr. 30-31), onde, por ordem de Deus, Jeremias anuncia aos exilados um futuro de paz, de liberdade e de alegria na terra de Israel. Todos os exilados serão reunidos dos confins da terra e voltarão à sua pátria. Isso acontecerá por obra gratuita de Deus. É boa notícia que culminará com a celebração de uma nova Aliança: “Então serei seu Deus e eles serão o meu povo... Todos me conhecerão, dos menores aos maiores, porque perdoarei sua culpa e não me lembrarei mais do seu pecado – oráculo do Senhor” (Jr. 31,31-34).
A sociedade que Jeremias sonha com a volta dos exilados não é a restauração da monarquia, mas a fidelidade à Aliança com Deus. Ele liberta o seu povo da opressão do mais forte. Deus apresenta-se como “pai para Israel”, que reúne os filhos dispersos e  reconstitui sua família. Ninguém deverá ficar de fora. Os cegos, os aleijados e as mulheres grávidas são especialmente lembrados. Todas as pessoas fracas e indefesas recebem o cuidado prioritário. As mulheres grávidas e que dão à luz prenunciam o futuro de vida e alegria para o povo.
A profecia cumpre a missão de animar a esperança militante no meio das pessoas vítimas da opressão e da violência dos grandes.
Deus toma posição e vem salvar os seus filhos e filhas cuja vida está ameaçada. Uma terra de liberdade e vida para todos é vontade de Deus e tarefa nossa.
Evangelho (Mc. 10,46-52) - Jesus liberta da cegueira
A cura do cego Bartimeu se dá na última parada de Jesus com seus discípulos antes da chegada em Jerusalém. Como já constatamos nos domingos anteriores, essa viagem, desde a Galileia, constitui-se num caminho pedagógico no qual Jesus se ocupa, de maneira especial, com a formação dos seus discípulos.
Percebe-se que, no esquema do evangelho de Marcos, esse caminho está emoldurado entre duas narrativas de curas de cegos: a de Betsaida (8,22-26) e essa do cego à saída de Jericó. O primeiro cego recupera a vista após um processo gradual: Jesus o retira para fora da cidade, cospe-lhe nos olhos e por duas vezes impõe-lhe as mãos. Esse cego de Jericó, para recuperar a vista, Jesus não precisa nem mesmo tocá-lo. O cego de Betsaida é conduzido a Jesus por outras pessoas e não lhe é dado nome próprio; o da saída de Jericó tem iniciativa própria, grita a Jesus de Nazaré sem se deixar intimidar pelos que procuram calá-lo e possui um nome próprio. Podem-se perceber outros detalhes que revelam as diferenças e semelhanças entre os dois relatos.
Ambos os cegos são representativos dos discípulos frente ao conhecimento que possuem a respeito de Jesus. De fato, logo após a cura do cego de Betsaida, constatamos a confissão pública de Pedro que fala em nome dos demais discípulos. Teoricamente, ele sabe que Jesus é o Messias, mas não admite que seja vulnerável ao sofrimento e à morte impingida pelas autoridades religiosas e políticas de Jerusalém.
Nos discípulos permanece a concepção de um messianismo de poder e glória. Seguir a Jesus, para eles, é a oportunidade para realizar as suas ambições de fama e de domínio, o que provoca discussões internas a respeito de quem seria o maior. Eles estão em situação de cegueira.
Compreenderão, pouco a pouco, quem é realmente Jesus e qual sua missão no mundo, conforme o texto de domingo passado: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (10,45).
O cego Bartimeu representa o estágio conclusivo do processo de abertura dos olhos pelo qual os discípulos estão passando.
Não é fácil desvencilhar-se das ideologias dominantes, representadas, nesses episódios, pelas cidades. O primeiro cego, Jesus o retirou de dentro de Betsaida para poder curá-lo. Bartimeu já está fora de Jericó e encontra-se à beira do caminho. Essa situação lembra o ensinamento de Jesus através da parábola da semente: “Os que estão à beira do caminho onde a Palavra foi semeada são aqueles que ouvem, mas logo vem Satanás e arrebata a Palavra que neles foi semeada” (Mc. 4,15). De fato, inicialmente Bartimeu se dirige a Jesus e, por duas vezes, o chama de “Filho de Davi”. Em sua concepção, Jesus seria o Messias à moda de um rei triunfalista. Satanás (que se manifesta nas ideologias dos grandes e poderosos) ainda domina a consciência de Bartimeu, como aconteceu com Pedro quando tentou impedir que Jesus fosse a Jerusalém e seguisse o caminho de um servo sofredor. Jesus reagiu dizendo: “Afasta-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (8,33).
Jesus vence Satanás, que cega as pessoas.
É necessária, porém, a disposição de deixar-se curar e mudar de mentalidade. É o que fez Bartimeu.
Para isso teve de vencer os impedimentos daqueles que mandavam calar-se. Jesus ouviu o seu grito, parou e mandou chamá-lo. Deus ouve o clamor dos oprimidos! Perguntou Jesus: “Que queres que eu te faça?”. O cego já havia se desvencilhado de seu manto, que simboliza suas seguranças pessoais, sua dependência da mendicância, seu passado de atrelamento e de submissão a um sistema excludente. Está pronto para acolher a verdade que liberta, que é Jesus e sua proposta. Agora não se dirige mais a Jesus com o apelativo de “Filho de Davi” e sim com a expressão reverente: “Rabbuni”, que significa “meu mestre”. E manifesta seu profundo desejo, fruto de uma longa busca: “Que eu possa ver novamente”. É sinal que ele um dia enxergava. O veneno de “Satanás”, ou seja, os ideais que não são de Deus, o cegaram.
Bartimeu são os discípulos que abrem os olhos com a graça de Jesus e o seguem no caminho da cruz. Bartimeu é cada um de nós: Jesus nos ajuda a abandonar o “manto” do egoísmo e da submissão às ideologias dominantes e tornar-nos conscientes da missão que temos de construir um mundo como casa de vida digna sem exclusão.
2ª leitura (Hb. 5,1-6) - O sacerdócio de Jesus
A carta aos Hebreus apresenta Jesus como sumo e eterno sacerdote. Para que os ouvintes e leitores pudessem entender essa mensagem, os autores tomam como exemplo a função sacerdotal exercida na tradição judaica. O sumo sacerdote era investido da mais alta dignidade como mediador entre Deus e o povo. Sua função é oferecer dons e sacrifícios pelos pecados do povo e também pelos seus.
Essa imensa honra só podia ser concedida para quem era chamado por Deus, que, por tradição de fé e legitimação legal, correspondia a alguém da descendência de Aarão. A descrição do sumo sacerdote aqui é idealizada, pois sabemos que essa função no templo de Jerusalém foi, muitas vezes, conquistada por pessoas interesseiras que faziam o jogo da política imperial. Também dificilmente um sumo sacerdote agia tendo consciência de suas próprias fraquezas com a compreensão das fraquezas dos outros.
Portanto, a idealização da função sacerdotal visa a contemplar e acolher na fé o novo e definitivo sacerdócio de Jesus Cristo, totalmente superior ao do antigo. Entregando-se como vítima expiatória pelos pecados de toda a humanidade, tornou-se o eterno sumo sacerdote. Ele não entrou na linhagem sacerdotal que oficialmente se concebia no sistema religioso judaico. Não é por descendência de Aarão, e sim “segundo a ordem de Melquisedec”. Essa personagem é de origem misteriosa. Ela aparece a Abraão (Gn. 14,18-20) como “Rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo”, concedendo a bênção ao pai do povo de Israel. Revela ser superior a Abraão. Com isso, relaciona-se com a superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio de Aarão. O nome de Melquisedec significa “em primeiro lugar ‘Rei da Justiça’; e, depois, ‘Rei de Salém’, o que quer dizer ‘Rei da Paz’” (Hb. 7,2). É a figura da missão sacerdotal de Jesus Cristo recebida diretamente
de Deus Pai. Ele assumiu a condição humana e é capaz de compreender as fraquezas do ser humano. Com plena humildade e obediência a Deus, ofereceu-se uma vez por todas para a justiça, a paz e a salvação do mundo.
Pistas para reflexão
– O Senhor, nosso Deus, vem para nos salvar. Ele é nosso Pai misericordioso. O profeta Jeremias percebe a presença consoladora de Deus no meio do povo exilado. Anuncia a palavra de esperança e alegria, que é a reunião de todos os dispersos na terra onde reina a liberdade e a paz. Ninguém fica de fora: os cegos, os aleijados e as mulheres grávidas que representam as pessoas frágeis e indefesas recebem proteção e carinho especiais... É oportuno relacionar com o mês das Missões...
– Jesus é Deus que se fez carne. Caminha com seu povo e ajuda os discípulos a reconhecê-lo como o Messias servidor, curando-os da cegueira das ideologias dominantes.
Bartimeu representa todos os que buscam a Jesus com sinceridade. Vence as barreiras dos que desejam impedi-lo. Jesus ouviu o grito de Bartimeu, parou, deu-lhe atenção e a visão foi recuperada. O que nos impede de conhecer e seguir verdadeiramente a Jesus Cristo? Em que “cegueiras” podemos cair hoje? Como podemos nos libertar delas? Pode-se enfatizar a importância de participar do processo de iniciação à vida cristã, dos cursos de formação...
– Jesus é nosso mediador junto a Deus Pai. Ele nos conhece integralmente, pois se fez nosso irmão. Deu o exemplo de entrega da vida pela paz e justiça no mundo. Envia e abençoa os seus discípulos missionários para que continuem a sua obra...
============================



============================
============================

Nenhum comentário:

Postar um comentário