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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Comentários Prof.Fernando


Comentários Prof.Fernando (*)14 de out. de 2012 (http://homiliadominical2.blogspot.com.br )
28ºd.t.Comum(20pósPent)–ainda está faltando

RESUMOS A Palavra de Deus é mais penetrante do que espada dividindo alma, espírito, carneHb4,12-
Bom Mestre que devo fazer ? Por que me chamas de bom? Só Deus é bom. Conheces os mandamentos... Mestre, eu sempre os observei  - Só te falta uma coisa: vai, vende tudo e dá aos pobres depois vem e segue-me (mas ele foi embora porque era muito rico). É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no Reino (o que é possível só a Deus...). Mc 10,17-30

Falta uma coisa
-Que Palavra é essa que penetra nas profundidades de nosso coração?
Diz o texto: No impenetrável da consciência e das decisões e intenções mais íntimas e secretas, onde não podemos mentir para nós mesmos: aí a Palavra se compara a uma espada capaz de discernir o que impossível separar, na alma e na carne..
-Que Bondade é essa que nos impede de chamar de Bom qualquer pessoa?
-Que coisa é essa que ainda falta – mesmo a quem já cumpre os Mandamentos?
De fato, deve haver muitas pessoas, em todas as culturas, etnias e povos que reconhecem e defendem os direitos humanos, agindo sem mentira ou traição, recusando roubo ou corrupção, respeitando o sagrado direito à vida – nunca violentada nem eliminada. Mesmo assim ainda “falta uma coisa” ?.
Também à irmã de Lázaro disse o Mestre de Nazaré: você está muito ocupada sempre servindo e, no entanto, só uma coisa é necessária, importante e suficiente!!! Era como se dissesse hoje: só uma coisa dá sentido a todas as atividades, às ocupações domésticas ou dedicação à família e às tarefas profissionais – que fazem girar o mundo na produção de bens e serviços. Então o que ainda falta ?
O livro Levítico é o centro da Lei
O Mestre de Nazaré conhecia bem sua tradição judaica. Na Toráh (a Lei ou Pentateuco: os cinco livros ditos “de Moisés”) vai recuperar a compreensão dos mandamentos, o sentido da propriedade e da riqueza e a importância da solidariedade (que leva a compartilhar o mundo – que foi dado a toda a humanidade).
Na bíblia hebraica os cinco livros da “Lei” são chamados pelas primeiras palavras: Bereshit=no princípio; Shemot= os nomes (dos filhos de Israel); Vayikra=ele chamou; Bedmidbar=(Moisés) no Deserto; Devarim= (eis) as palavras. Na tradução grega e latina: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.
O Levítico também traz a descrição das atividades dos levitas (sacerdotes) da tribo de Levi, encarregados do culto (liturgia). Ele está no centro, ou melhor, no coração mesmo da Toráh (traduz-se “Lei” e significa o ensinamento, a instrução de Deus para o povo). A Palavra de Deus (v.leitura Heb) é para instruir e distinguir.

Só Deus é Santo. Só Deus é bom.
O Levítico não é de fácil compreensão em suas 4 partes: fala dos rituais (cap.1-7); da consagração (8-10) da Tenda (onde ficava a Arca contendo as tábuas da Lei); traz uma lista  (11-16) de normas legais sobre o “puro e o impuro” (alimentos, coisas, animais, pessoas, situações). A 4ª.parte (cap.17-26) é a “Lei da santidade”, núcleo teológico onde se enfatiza mais a vida do que ritos e purificações.
Mensagem central: Sede santos, porque sou Santo, Eu, o Senhor vosso Deus (19,2; v.11,44 e 20,7.26). Rituais, leis ou mandamentos religiosos, normas de orientação sobre a alimentação, o sexo, as relações sociais e a organização econômica só valem na medida em que se reconhece que Deus é a fonte da vida e nos indica a ordem a ser preservada na natureza e na sociedade. É interessante ver como a cultura contemporânea começa a redescobrir esse “respeitar uma ordem na natureza” em função de garantir a vida na Terra.
A raiz do termo “Santo” quer dizer: isolar, separar o “puro” do impuro. A integridade da ordem criada por Deus reflete a unicidade de Deus. Afinal, fomos criados à sua “imagem e semelhança”: Gên1,26. Só Deus é o Santo de verdade. Nós devemos ser santos. Se somos reflexo da sua santidade na obediência às suas orientações. Por isso o Mestre dizia ao jovem rico: Só Deus é bom.

A terra também é santa: a riqueza e o dízimo
O sistema econômico moderno se baseia na propriedade e na acumulação da riqueza. Sobre o sentido da riqueza e da posse dos bens seria bom estudar o cap. 25 do Levítico à luz do capítulo 19. Lá encontramos a lei do descanso sabático da terra. Lá também está o sentido fundamental do Dízimo, que, assim como o Shabbat (o Sábado) é o “dízimo” semanal devido ao Senhor (repouso para “devolução” e agradecimento pelos dons da criação). Ele – como se divulga às vezes – não pode ser reduzido a uma taxação (10%) para “compra” (ou “troca”) de favores. É forma de dizer Obrigado quando “devolvemos” ao único “proprietário” do mundo uma parcela dos bens recebidos. O “separar/santificar” (cf. Gn2,3;Ex20,11;Dt5,14) leva ao gesto de agradecer (Dt6,12) no dia sagrado que também se torna compartilhar a fé.
O cap.25 previa (cada 49 anos =7 x 7 “semanas de anos”-25,8) o 50º ano era um Ano Jubilar (Isaías 61 chama de “um ano de Graça”): O Jubileu destinava-se ao perdão das dívidas; à devolução das propriedades (numa espécie de reforma agrária original); à partilha geral das colheitas; ao resgate dos escravos. Uma verdadeira re-fundação periódica reorganizava o povo na liberdade, igualdade e fraternidade mais do que as sonhadas pela Revolução Francesa !!!
Alguns estudiosos julgam que essa “utopia” do cap. 25 reflete mais um projeto  ideal do prática efetiva, até porque o tempo de posse na terra prometida foi sempre atropelado pelo Exílio ou pela contínua invasão e dominação de impérios. Mas essa lei previa: o reconhecer Deus como único proprietário e fonte de vida; o redistribuir riquezas; a observância do descanso sabático (também a terra “descansava”) com o  cancelamento das dívidas e o resgate seja de terras seja de escravos e pobres.

Só uma coisa está faltando
Jesus proclama um Ano Jubilar especial após ler Isaías na sinagoga de Nazaré ao iniciar sua vida pública (cf. Lc 4,14 etc.): anunciar a Boa Notícia aos pobres, a libertação e a cura aos necessitados e proclamar um ano da graça. É nessa perspectiva que Jesus propõe ao jovem rico seguir seu ideal de vida. Não se trata de encontrar na bíblia uma fórmula sócio-econômica para nossos problemas. Documentos e teólogos, desde a época patrística, tentam anunciar essa justiça. Assim, a “Doutrina Social da Igreja” no catolicismo, assim Ambrósio de Milão. No documento Populorum Progressio.23, Ambrósio é citado (De Nabuthe,c12,n53,PL14,747): “Não estás sendo generoso dando ao pobre do que é teu, mas devolvendo o que é dele. O que comum é para uso de todos. A terra é de todos, não dos ricos (...) pagas uma dívida, e não o indevido.”. O Movimento dos Focolares (de múltipla ação, inclusive ecumênica e inter-religiosa, de origem católica) inventou – e já  muitos empresários aplicam – a “Economia de comunhão”. Muitas igrejas estão preocupadas com o tema e também são muitos os economistas e governantes pelo mundo que procuram modelos para corrigir as distorções econômicas e sociais existentes.
Os hebreus procuraram realizar sua história. Agora cabe-nos descobrir os caminhos para resgatar os pobres em nossas sociedades, superando o problema da fome e as injustiças dentro (e entre) países. Um resumo do Mestre: só Deus é bom. Ele também sintetizou toda a Lei  ao juntar Dt 6,5: amarás (integralmente) a Deus com a “lei de santidade” em Lv19,2: amarás a teu próximo como a ti mesmo. Ainda procurando aperfeiçoar o sistema político e sócio-econômico procuramos não ser escravaos da riqueza, mas praticar a solidariedade.
Uma coisa apenas... ainda está faltando.
ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo
(*) Professor (USU-Rio) com mestrado (educação, teologia e teol.moral)

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