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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Todos os Santos - Solenidade


Todos os Santos - Solenidade

4 de Novembro de 2012

Comentário - Prof.Fernando


Evangelho - Mt 5,1-12a

Ao ver aquela multidão de povo, Jesus subiu ao monte. Quando sentou-se, os discípulos se aproximaram, e Jesus começou a ensiná-los: “Felizes os que têm espírito de pobre, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Felizes sereis quando vos insultarem e perseguirem e, por minha causa, disserem todo tipo de calúnia contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus. Foi assim que perseguiram os profetas antes de vós”.


Bem-aventurados os pobres em espírito.

Introdução

Santos são todos aqueles que estão preparados para serem finados.

        No dia de finados, refletimos sobre a nossa morte, realidade fatal e inevitável. A liturgia deste domingo é muito rica. Ela nos apresenta uma reflexão sobre a santidade
       Desta forma, somos convidados a dar uma olhada na nossa espiritualidade, na nossa vida prática com relação a  Deus e ao irmão. Vamos refletir sobre Todos os Santos.
       Dom Henrique Soares escreveu muito bem a respeito da santidade. Diz ele literalmente:
A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo. Na Bíblia, "santo" significa, literalmente, "separado". Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: "Só vós sois o Santo"; ao Pai nós dizemos: "Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda santidade"; ao Espírito nós chamamos de Santo.
Mas, a nossa fé também nos ensina que este Deus santo e pleno, dobra-se carinhosamente sobre a humanidade – sobre cada um de nós - para nos dar a sua própria vida, para nos fazer participantes de sua própria plenitude, sua própria santidade.”
Viu? Deus nos permite participar da sua santidade. Assim, na verdade, só Ele é santo, mais nós podemos também pegar uma “caroninha” na santidade. 
Através do Batismo nós fomos iniciados na santificação, pois fomos  "lavados, santificados, justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus".  Durante toda nossa vida, diariamente, Deus através de Jesus, nos chama a santificação.
       É o desejo de Deus que nós sejamos santos "Sede santos porque eu sou Santo" .
De nossa parte, a santificação é uma luta diária. Devemos pedir a Deus a sua poderosa ajuda para a nossa, santificação, pois depois da iniciação pelo Batismo, precisamos perseverar  na santidade  que começamos. A nossa santidade deve ser conquistada diariamente, minuto a minuto, pois a cada dia, a cada hora, cometemos pecados. Portanto, precisamos  purificar-nos de nossos pecados por uma santificação constante e sem cessar, através da caridade...  Recorremos, portanto, a oração, a leitura meditada, a reconciliação com Deus, a  Eucaristia,  para que esta santidade cresça e permaneça em nós.
Caríssimos. Tudo o que precisamos para a nossa santificação diária, esta na Igreja. Porém, se por acaso onde você mora  a presença de Deus não é marcada pela presença da Igreja, não desanime. Ame o senhor teu Deus de todo o teu coração, com todas as tuas forças, e segundo o teu entendimento. E ao próximo como a ti mesmo.
Quando cremos e amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmo, somos mergulhados no mistério íntimo de sua Divindade e no evento da salvação de nossa humanidade.
       No Pai Nosso Jesus nos ensinou  para que  pedíssemos ao Pai que santificado seja o seu nome, o nome de Deus. Mais quem poderia santificar a Deus, já que é Ele mesmo quem santifica? O verdadeiro sentido desta frase é que roguemos ao Pai pela conversão da humanidade toda, e assim todos reconheçam a Trindade Santa como um só Deus Uno e Trino. O que pedimos é para que os homens e mulheres, todos O adorem, e divulguem os seus infinitos poderes e sua imensa bondade para os demais viventes da Terra.
Como sabemos, só Deus é Santo, só Ele o altíssimo, Jesus Cristo com o Espírito Santo na glória de  Deus Pai, é a trindade Santíssima. Porém, já que Deus em sua bondade infinita nos deu a honra de participarmos de sua santidade, tornamo-nos santos, quando cremos, e meditamos sobre sua verdade trazida por seu Filho amado, quando praticamos a justiça e a caridade com toda esperança de um dia merecermos a glória eterna.
Entendamos então que ninguém é santo além da Trindade. A bem da verdade, aqueles que são denominados de santos são os menos indignos da presença de Deus, da Eucaristia, e da salvação eterna.
Santo é aquele que é separado. Separado não no sentido de isolado, excluído, tirado de lado, mais sim no sentido de escolhido. Exemplo: Escolher e separar as  frutas que estão maduras, as melhores, as  prontas para serem saboreadas...
Concluindo
Em outras palavras, santo é todo aquele que: é pobre em espírito, aquele que é despojado das riquezas, que não é apegado aos bens materiais, e das ilusões desta vida terrena, é aquele que vive segundo o espírito e não segundo a carne, e que busca a Deus em primeiro lugar.
Santos são  aqueles que estão aflitos, por causa da injustiça dos poderosos ou dos demais irmãos.

Santos são os mansos, não os bobos, covardes, mais sim aqueles que sofrem com resignação e confiança na providência divina, e que promovem a paz na  Terra.

Santos são todos aqueles que têm fome e sede de justiça, porque não podem pagar um advogado que  os defenda das acusações e desmandos, por exemplo: dos baixos salários por muitas horas de trabalho duro, etc;

Santo é todo aquele que é misericordioso para com o seu irmão pobre, a esses Jesus garantiu que também  alcançarão a misericórdia do Pai. Desse modo, entendemos, que pela misericórdia, nossos pecados veniais, serão perdoados.

Santos são os puros de coração, aqueles que não têm malícia, que não pensa nem fala mal dos demais, que não julgam o seu irmão, etc;

Santos são todos os mártires principalmente os da Igreja, aqueles que foram e que estão sendo perseguidos por causa do nome de Jesus.

Santos serão todos aqueles que forem injuriados, discriminados, excluídos, ignorados, seja na comunidade cristã, seja na macro-sociedade, principalmente por seguirem a Cristo e anunciar seu Evangelho.

Atenção todos os santos que se enquadram nestes requisitos, alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.

Palavra da Salvação.

José Salviano

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Boa semana para você, com as bênçãos e a Palavra de Deus
Abraço amigo
Fernando Gross

e

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“AS BEM AVENTURANÇAS SÃO CAMINHOS DE SANTIDADE!” - Olívia Coutinho

FESTA DE TODOS OS SANTOS.

Dia 04 de Novembro de 2012

Evangelho de Mt 5,1-12

Na festa de todos os Santos, somos convidados a voltar  o nosso olhar para o alto e contemplar uma multidão de Santos e Santas que deixaram marcas profundas do seu amor a Deus, aqui na terra e que agora participam da glória do céu!
Jesus nos convida a ser Santo, nos propondo  algo de concreto: dar um sentido novo a nossa existência, uma única e fundamental direção, idêntica para todos: a santidade como meta para chegarmos à vida eterna. Para isso, precisamos sair do círculo vicioso do egoísmo, sair do nosso eu, onde projetamos a nossa vida tendo como ponto de referência nós mesmo, para nos envolver no projeto de Deus, que tem como referência unicamente Jesus! 
Fomos criados e orientados por Deus, a direcionar a nossa existência  como uma flecha que busca  o seu alvo e o nosso alvo é o próprio Deus, Ele é o nosso único objetivo, Aquele que dá o verdadeiro sentido a nossa vida.
É sonho de Deus que todos nós sejamos  felizes e ser feliz é também o que mais almejamos na vida, pena que buscamos a felicidade fora de nós, com isso, enveredamos por caminhos incertos que não nos levam a lugar algum. Falta-nos compreender  que a felicidade não é algo comprável, não está nas coisas matérias e não significa ausência de dificuldade.
Quando  compreendermos que a felicidade é uma eterna construção, que a vida não nos pertence e que não somos donos de nada, aí sim,  estaremos prontos para assumir  o grande desafio: ser feliz até mesmo no sofrimento!
Ao esvaziarmos  de nós mesmos, tornamos pobres, totalmente dependentes de Deus e tudo que mais queremos é fazer a sua  vontade, as  dificuldades, as perseguições, ao invés de nos aborrecer, nos alegram, pois sabemos que toda situação que nos  leva ao sofrimento, Deus transforma  num bem para nós.
Ninguém busca o sofrimento, mas ele é inevitável em nossas vidas, saber aproveitá-lo como trampolim para a nossa ascensão, é estar no caminho da Santidade!
No evangelho de hoje Jesus faz uma consolação a todos aqueles que hoje estão totalmente desprovidos das benesses do mundo!
As bem-aventuranças, não são mandamentos, podemos dizer que  são caminhos de santidade, um abandonar-se em Deus, um  não estar preso as coisas do mundo!
O conceito de felicidade que o mundo prega, é completamente diferente da felicidade que Deus planejou para todos nós! Jesus nos deixa claro que para sermos  felizes, precisamos experimentar  a dependência de Deus.  E assim, Ele proclama: “Bem aventurados  os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça os misericordiosos, os puros de coração os perseguidos e injuriados por causa do reino”!  Estes sim, são felizes por serem totalmente dependentes  de Deus!
Passar fome, chorar, ser perseguido, odiado, amaldiçoado  são situações que não agradam a Deus e que  aos olhos do mundo, são vistas  como infelicidade. Porém, para quem vive essas realidades,  mas permanece firme na perspectiva de fazer a vontade de Deus, toda situação de sofrimento se reverte  em bem.
 Alegremo-nos por confiar na realização das promessas de Deus!  É o próprio Jesus que nos garante: “Alegrai-vos e exultai, pois será grande a vossa recompensa no Céu”.
Assim  como foram  os Santos, sejamos também fiéis ao Evangelho, sem medo de ser de Deus, de dar testemunho de Jesus em qualquer circunstância!
Ser Santo, é o grande  desafio de buscar a perfeição em meio às imperfeições do mundo sem nunca esquecer: o mais Santo de todos os Santos da terra, será sempre um pecador perdoado.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia 
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Hoje, a Igreja volta seu olhar e seu coração para o céu e enche-se de alegria ao contemplar uma multidão que participa da glória e da plenitude do Deus Santo.
A nossa fé nos ensina que somente Deus é Santo. Na Bíblia, "santo" significa, literalmente, "separado". Deus é aquele que é separado, absolutamente diferente de tudo quanto exista no céu e na terra: Ele é único, Ele é absoluto, Ele sozinho se basta, sozinho é pleno, sozinho é infinitamente feliz. Ele é Deus! Por isso, Santo, em sentido absoluto, é somente o Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. A Jesus, o Filho eterno feito homem, nós proclamamos em cada missa: "Só vós sois o Santo"; ao Pai nós dizemos: "Na verdade, ó Pai, vós sois Santo e fonte de toda santidade"; ao Espírito nós chamamos de Santo.
Mas, a nossa fé também nos ensina que este Deus santo e pleno, dobra-se carinhosamente sobre a humanidade – sobre cada um de nós - para nos dar a sua própria vida, para nos fazer participantes de sua própria plenitude, sua própria santidade. Foi assim que o Pai, cheio de imenso amor, enviou-nos seu Filho único até nós, e este, morto e ressuscitado, infundiu no mais íntimo de nós e de toda a Igreja o seu Espírito de santidade. Eis, quanta misericórdia: Deus, o único Santo, nos santifica pelo Filho no Espírito: "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!" É isto a santidade para nós: participar da vida do próprio Deus, sermos separados, consagrados por ele e para ele desde o nosso Batismo, para vivermos sua própria vida, vida de filhos no Filho Jesus! É assim que todo cristão é um santificado, um separado para Deus. Mas, esta santidade que já possuímos deve, contudo, aparecer no nosso modo de viver, nas nossas ações e atitudes. E o modelo de toda santidade é Jesus, o Bem-aventurado. Ele, o Filho, foi totalmente aberto para o Pai no Espírito Santo e, por isso, foi totalmente pobre, totalmente manso, totalmente puro e abandonado a Deus no pranto, na fome de justiça e na misericórdia. Então, ser santo, é ser como Jesus, deixando-se guiar e transformar pelo seu Espírito em direção ao Pai. Esta santidade é um processo que dura a vida toda e somente será pleno na glória. São João nos fala disso na segunda leitura de hoje:"Quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é".
Nesta perspectiva, podemos contemplar a estupenda leitura do Apocalipse que escutamos como primeira leitura. O que se vê aí? Uma multidão. Primeiro, cento e quarenta e quatro mil de todas as tribos de Israel. Isto simboliza todo o Israel. Recordemos: 12 é o número do Povo do Antigo Testamento. Pois bem, cento e quarenta e quatro mil equivale a 12 x 12 x 1000, isto é, à totalidade de Israel. Deus não se cansou de chamar o povo da antiga aliança: Israel haverá de ser salvo pelo sangue de Cristo. Mas, há ainda mais: "Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro". Essa multidão são todos os povos da terra, chamados por Cristo, na Igreja, para a salvação, para a santificação que Deus nos oferece. Notemos bem: "uma multidão que ninguém podia contar". A salvação é para todos, a santidade não é para um grupinho de eleitos, para uma elite espiritual. Todos são chamados a essa vida divina que Deus quer partilhar conosco, todos são chamados à santidade! "Trajavam vestes brancas e traziam palmas nas mãos. São os que vieram da grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro". Eis quem são os santos: aqueles que atravessaram as lutas desta vida, as tribulações desta nossa pobre existência, unidos a Cristo; são os que venceram em Cristo – por isso trazem a palma da vitória; são os que não tiveram medo de viver e, se caíram, se erraram, foram, humildemente, lavando e alvejando suas vestes no sangue precioso de Cristo: são santos não com sua própria santidade, mas com a santidade do Cristo-Deus. Nunca esqueçamos: ninguém é santo com suas forças, ninguém é santo por sua própria santidade: só em Cristo somos santificados, pois somente Cristo derrama sobre nós o Espírito de santidade. O nosso único trabalho é lutar para acolher esse Espírito, deixando-nos guiar por ele e por ele sermos transfigurados em Cristo!
Olhemos para o céu: lá estão Pedro e Paulo, lá estão os Doze, lá estão os mártires de Cristo, os santos pastores e doutores, lá estão as santas virgens e os santos homens, lá estão tantos e tantos – uns, conhecidos e reconhecidos pela Igreja publicamente, outros, cujo nome somente Deus conhece; lá está a Santíssima e Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe e discípula perfeita do Cristo, toda plena do Espírito, toda obediente ao Pai. Eles chegaram lá, eles intercedem por nós, eles são nossos modelos, eles nos esperam.
Num mundo que vive estressado, que corre sem saber para onde... num mundo que já não crê nos verdadeiros valores, porque já não crê em Deus, contemplar hoje todos os santos é recordar para onde vamos e qual é o sentido da nossa vida! Não tenhamos medo de ser de Deus, não tenhamos medo de testemunhar o Evangelho, não tenhamos medo de alimentar nossa visa com o Cristo, na sua Palavra e na sua Eucaristia para sermos inebriados da vida do próprio Deus.
Infelizmente, muitos hoje têm como heróis os atletas, os atores, os cantores e tantos outros que não têm muito e até nada para ensinar. Quanto a nós, que nossos heróis e modelos sejam os santos e santas de Cristo, que foram heróis porque se venceram e correram para o Cristo! Que eles roguem por nós, pois o que eles foram, nós somos e o que eles são, todos nós somos chamados a ser.
Todos os Santos e Santas de Deus, rogai por nós!
dom Henrique Soares da Costa

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Domingo 04.11.12

:A nossa felicidade aqui na terra está condicionada à nossa experiência pessoal com o Amor de Deus – Maria Regina.
Neste Evangelho Jesus nos dá a receita para que sejamos Bem aventurados, isto é, cheios de ventura e de felicidade. Podemos então apreender que a nossa ventura e felicidade não dependem de nada que seja material nem tampouco de uma vida fácil e sem problemas. O conceito de felicidade que o mundo prega é completamente diferente da felicidade que Deus planejou para a nossa vida. Pelo contrário, Jesus nos esclarece que para sermos bem aventurados nós precisamos experimentar a carência e a dependência da graça que nos vem do alto.
                  E assim, Ele proclama felizes, os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça (santidade), os misericordiosos, os puros de coração os perseguidos e injuriados por causa do reino. Jesus também coloca para cada bem aventurança uma conseqüência que é como um benefício para que alcancemos o estágio de bem aventurado. Para avaliarmos se somos tudo isto a que se refere o Evangelho, nós precisamos verificar se estamos vivendo o reino dos céus, se nos sentimos consolados, se temos bons relacionamentos, se buscamos a santidade, se estamos provando a misericórdia, se temos comunhão com Deus e nos consideramos Seus filhos. Se estamos sendo perseguidos, mas mesmo assim vivemos alegres apesar das humilhações e dificuldades do reino.
                Bem aventurados  seremos todos nós, se levarmos como bandeira a nossa Fé em Jesus Cristo e no que Ele nos ensina em Sua Palavra. Ser pobre, aflito, manso, faminto, misericordioso, puro de coração, promotor da paz, perseguido, insultado, na concepção humana é, na realidade, uma infelicidade. Porém, se nos aprofundarmos na sabedoria de Deus, o Espírito nos convencerá de que tudo isso é inerente à nossa condição humana, porém quando nos reconhecemos completamente dependentes da misericórdia do nosso Pai, então, todas essas dificuldades transformam-se em ocasiões para que experimentemos o Seu Amor infinito, e aí então, seremos realmente felizes. A nossa felicidade aqui na terra está condicionada à nossa experiência pessoal com o Amor de Deus. Nesse caso, todas as ocasiões em que somos mais provados são justamente os momentos em que mais nós temos a amostra da ação de Deus na nossa vida. Reflita – Você já experimentou alguma vez a felicidade dessa maneira? – Para você o que significa ser feliz? – Você já foi perseguido  por causa do reino de Deus? – Você é bem aventurado ? – O que falta para você viver das bem-aventuranças? – Você confia que Deus o  alimentará e sempre matará a sua sede de justiça?
Amém
Abraço carinhoso
 – Maria Regina
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Evangelhos Dominicais Comentados

04/novembro/2012 – Solenidade de Todos os Santos

Hoje comemoramos Todos os Santos, em particular aqueles que não estão no altar. Lembramos hoje dos cristãos que viveram o evangelho, que fizeram da Palavra de Deus o seu estilo de vida, que souberam seguir Jesus com fidelidade, e que agora se encontram na presença de Deus na Glória Celeste. Nossas homenagens aos bem-aventurados que souberam viver o amor. 

O sermão da montanha ou das bem-aventuranças, como é conhecido, é um dos mais expressivos ensinamentos de Jesus. As bem-aventuranças são o resumo de todas as expressões de amor fraterno. De maneira clara enaltecem o pobre, o que sofre, o que luta por justiça, o injuriado, o perseguido...

Jesus diz que: quanto mais misericordiosa, mansa, humilde e pura de coração for a pessoa, maior é a chance de receber a grande recompensa no céu. Chama de Bem-aventurados os que promovem a paz num mundo tão conturbado e individualista.

Falecidos ou não, hoje lembramos de todos os santos. Homens e mulheres, dotados de total desprendimento e doação. Filhos de Deus que souberam ver em cada próximo um irmão. No anonimato, confiantes, abraçaram o ideal do evangelho e amaram intensamente, sem divisões nem restrições.

Deus nos ama profundamente e quer que nos amemos uns aos outros com amor tolerante, sincero e fraternal. É esse amor que Jesus ressalta em cada uma das bem-aventuranças. Elas afirmam que, quem vive o amor já é santo. Fomos feitos para a santidade, portanto, só há uma alternativa; ser santo ou nada!

A santidade nos espera. A santificação deve ser o nosso ideal. Ser santo é ser pobre em espírito, é confiar plenamente em Deus. É apoiar-se na graça de Deus e compartilhar do sofrimento dos irmãos. É chorar com os que choram, é partilhar os bens e aliviar a dor dos menos favorecidos.

O santo procura ser manso e caridoso com as pessoas, mesmo quando estas não são amáveis. O santo segue Jesus com fidelidade, pratica a justiça e a fraternidade; é misericordioso, sabe dividir e não é mal intencionado. O santo é um apaziguador, reflete harmonia e, acima de tudo, é um construtor da paz.

É preciso no entanto, persistência e muita coragem, pois o santo é também um sério candidato ao martírio. Quem vive as bem-aventuranças é presa fácil da injúria. Assim como Jesus, o santo será perseguido e até mesmo morto pelos inimigos da verdade, da justiça e da paz. Poderá ainda, ser humilhado e martirizado por aqueles que fazem da morte o seu meio de vida.

É poderosa a minoria que sobrevive da opressão, do desemprego, da inflação, também do tráfico de drogas e do aliciamento de menores... são perigosos os abutres que encontram na podridão a sua subsistência. O santo, porém, é muito mais forte, não vira o rosto para as verdades. Tudo vê e jamais fecha os seus olhos.

O construtor da paz incomoda com sua presença e grita bem alto as falcatruas. O bem-aventurado clama por um mundo de amor, onde haja vida e liberdade. Ser santo, essa é a única alternativa para quem quer ganhar sua recompensa no céu.

 (1233)

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DOMINGO DE 04 DE NOVEMBRO
Mt 5,1-12ª

Alexandre Soledade


Bom dia!
Bem aventurados… Sim! Somos agraciados, pois cremos em Deus e depositamos Nele a nossa confiança de um dia, uma semana, um mês, (…) ainda melhor. Vendo dessa forma, começamos a semana em que refletiremos o amor de Deus por sua criatura através do Coração humano e divino de Jesus.
A passagem das bem-aventuranças nos faz pensar que na verdade em nossas fraquezas habita nossa fortaleza. Quando digo fraqueza não estou me referindo a pecados ou falhas. Refiro-me aos nossos medos, sentimentos não preenchidos, angústias… Pensar que Deus habita onde não imaginamos que Ele estaria nos gera um grande conforto.
É difícil de imaginar Deus no mendigo que pede uma esmola na rua? Será que vejo a imagem de Deus naquele que paga por uma pena na prisão? Consigo ver Seus santos traços na criança que faz malabares no semáforo?
Sim! É tremendamente difícil vê-LO nesses exemplos ofertados e outros que passaram no nosso pensamento. Nossos olhos não vêem, pois nosso coração acostumou a não sentir.
Existe um trecho da condenação de Jesus em que Pedro, aquele que disse que o seguiria aonde Ele fosse, por medo, resigna-se apenas a olhá-lo de longe.
“(…) Prenderam-no então e conduziram-no à casa do príncipe dos sacerdotes. PEDRO SEGUIA-O DE LONGE“. (Lucas 22, 54)
A grande diferença entre nós e aquele que a vida e as opções feitas por seus pais ou por eles mesmos fizeram, É A DISTANCIA com qual acompanham a Jesus. Dinheiro não repara essa distância, tão pouco constrói outro caminho, apenas através da DIGNIDADE, do RESPEITO e do DIREITO SENDO CUMPRIDO poderão obter.
“(…) O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo“. (Romanos 14, 27)
Acreditar em Deus é esperar numa recompensa futura, mas não fazer as boas obras pensando em obtê-la, pois se assim fizéssemos de que valeu nossa boa vontade se no fundo era fruto de um INTERESSE? Mudar o paradigma hoje poderá garantir a vida amanhã.
Voltemos a aquela reflexão: Deus habita em na nossa fraqueza
O mundo nos ensinou (e ainda ensina) a sermos racionais e frios como aqueles precisam ser ao lidar dia-a-a-dia com a morte, a doença, as calamidades, a fome… Quando não sofremos mais com a angústia do irmão que pede, quando não lutamos mais pela justiça de quem merece, quando fechamos os olhos ao sofrimento, o mundo nos chama de fortes, adaptados, preparados. Pensar no outro passou a ser um grande sinal de fraqueza e ao depararmos e conflitarmos esse grande paradigma provavelmente encontraremos a mão de Deus. “(…) Felizes as pessoas que têm o coração puro, pois elas verão a Deus. – Felizes as pessoas que trabalham pela paz, pois Deus as tratará como seus filhos”.
Fazendo uma ultima reflexão: QUANTO MAIS CRESCE O NÚMERO DE BOTÕES E FUNÇÕES DOS NOSSOS CONTROLES-REMOTOS, MENOS GENTE SE ENGAJA NA LUTA EM FAVOR DE QUEM MAIS PRECISA.
Bem aventurados somos nós que persistimos em acreditar.
Um imenso abraço fraterno!


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As bem-aventuranças
O Evangelho de Mateus, organizado de maneira catequética, apresenta o início do ministério de Jesus, após o chamado dos discípulos, com o Sermão da Montanha. A abertura do sermão é feita com a proclamação das bem-aventuranças. A subida de Jesus à montanha exprime uma relação com Moisés que, no alto da montanha, recebeu de Deus os mandamentos da Lei. Agora é o próprio Jesus, Filho de Deus, que sobe à montanha e transmite aos discípulos, que vêm a ele, as bem-aventuranças, em substituição àqueles antigos mandamentos. Enquanto os mandamentos eram expressos em forma imperativa, as bem-aventuranças de Jesus são oferecidas aos discípulos como um projeto de felicidade ao qual vale a pena aderir. A pobreza, assumida interiormente, com convicção, é o desapego das riquezas, que devem ser partilhadas. Os que choram são os que sofrem e são solidários com os excluídos, humilhados e explorados. Os mansos têm um coração aberto, acolhedor e compreensivo. Os que têm fome e sede de justiça lutam pela construção de uma sociedade mais justa. Os misericordiosos perdoam e libertam os que têm uma consciência carregada de culpabilidade sob a ideologia do sistema opressor. Os puros de coração são sensíveis aos aspectos mais sutis da dignidade da condição humana. Os pacíficos criam laços de convívio fraterno.
com alegria e harmonia. A perseguição e a injúria são os sofrimentos impostos pelos poderosos contra aqueles que se empenham no estabelecimento da justiça. Pela prática das bem-aventuranças, na plenitude do amor, somos, de fato, filhos de Deus (segunda leitura). Os bem-aventurados não são um "pequeno resto", mas sim "uma multidão imensa de todas as tribos, nações línguas e povos" (primeira leitura), em comunhão com Jesus. Encontramos na prática das bem-aventuranças a felicidade de um mundo de compaixão, partilha e reconciliação, fraterno e solidário, na alegria e na paz.


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Os santos preparam o Reino
A solenidade de Todos os Santos é tão importante, que tem precedência sobre o domingo do tempo comum. Celebra todos os santos, não só os canonizados. A canonização de um santo é algo custoso em todos os sentidos, e muitos e muitos de nossos pobres perseguidos, que contribuíram fortemente para o advento do reinado de Deus no mundo, não deixaram recursos suficientes para serem canonizados. De dom Oscar Romero, ainda não canonizado em razão de protelações no processo, até as humildes, analfabetas e desconhecidas donas Sebastianas, todos os santos são comemorados hoje.
Eles mereceram ser assinalados para que escapassem da segunda morte, a morte definitiva. Os trabalhos de sua vida, quando não sua morte em favor das vítimas deste nosso mundo, uniram-nos ao sangue do Cordeiro e deram-lhes a faixa de campeões e o troféu da vitória. Viveram como fiéis filhos de Deus. Essa grandeza de serem filhos de Deus, a qual procuraram preservar contra tudo e contra todos, agora se abriu, como o botão de uma rosa, na glória de Deus. Entre eles, pobres e perseguidos que enxugaram as lágrimas dos que choravam, mataram a fome dos famintos da verdadeira justiça, tornaram senhores os que não eram ninguém neste mundo. Fizeram a sua parte, construíram a verdadeira paz.
1º leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
O livro do Apocalipse foi escrito para dar esperança a comunidades cristãs da Ásia Menor, comunidades pobres e vítimas de perseguição. Eram perseguidas por não adorarem o império.
Em cidades da Ásia Menor é que tinha surgido o primeiro templo dedicado à deusa Roma, ali é que estava “o trono de satanás”, o lugar onde se cultuava a imagem do divino imperador, o “deus acessível”. Quem participava desse culto recebia uma marca que lhe abria todas as portas. Quem não participava, além de excluído, poderia ser até mesmo condenado à morte. Os cristãos não participavam e por isso eram marginalizados e perseguidos.
Chamava-se João o missionário itinerante que animava essas comunidades, incentivando-as a não ceder ao culto do império. Por isso ele foi preso na ilha de Patmos e de lá envia o escrito, numa linguagem que os pobres e perseguidos poderiam entender e as autoridades do império não. Dá-lhes ânimo e aumenta-lhes a auto-estima.
No trecho que vamos ouvir na primeira leitura de hoje, ele fala de uma visão do céu. Multidões, milhares de cada clã (12), de cada uma das doze tribos (12x12 = 144) do povo hebreu que não cederam ao culto imperial, recebem outra marca que não os deixa ser vítimas do castigo que virá para os opressores. Além deles, estão presentes também as multidões incontáveis dos santos de todas as outras tribos e nações.
Todos são vencedores, vestem mantos brancos, a cor dos vencedores nas competições esportivas – poderíamos dizer hoje: trazem a faixa de campeões –, e têm o troféu, a palma, nas mãos. Não cultuaram Roma e o imperador, agora cultuam a Deus e ao Cordeiro. De onde vieram eles? Vieram da grande tribulação, a pobreza unida à exclusão social e à perseguição. Sua morte, seu sangue, unida ao sangue, morte, do Cordeiro, deu-lhes o manto branco da vitória. A resistência até a morte deu-lhes a vida sem fim.
2º leitura (1Jo. 3,1-3)
Os que nós chamamos de santos e hoje celebramos são os nossos irmãos que estão na glória. Como diz a segunda leitura de hoje, a graça de ser filhos de Deus, o botão que estava dentro deles, já se abriu em flor. Essa graça, esse dom de amor do Pai em nosso favor, faz-nos diferentes, como o mundo distante do Pai não é capaz de entender.
Falta-nos hoje apenas aquilo que não falta aos santos que celebramos: ver Jesus Cristo. Só nos falta o ver segundo o conceito joanino de experimentar, conviver, ter comunhão plena com o Filho, Jesus. Isso nos tornará totalmente semelhantes a ele. E é essa convicção que nos faz manter-nos distantes do mal, tal como ele fez e como todos os santos fizeram.
Evangelho (Mt. 5,1-12a)
Um detalhe, geralmente não observado na maioria das traduções, faz grande diferença na interpretação do evangelho de hoje. Trata-se da primeira frase. Em geral, dizem as traduções: “Vendo as multidões”. O tempo do verbo grego utilizado (aoristo), porém, pede que se traduza: “Tendo visto as multidões, Jesus subiu à montanha...”. Foi porque viu aquelas multidões que Jesus subiu à montanha e passou a dar a instrução aos discípulos, como Moisés, da montanha, deu ao povo a Lei ou Instrução de Deus. À vista das multidões, ele faz o Sermão da Montanha.
Que multidões eram essas? Eram as multidões de sofredores da Judeia e da Galileia, como também de fora, que, no final do capítulo 4, vinham buscar em Jesus uma solução para os seus problemas. Podemos dizer que são toda a humanidade sofredora. Por causa dela, para benefício dela, Jesus se senta como mestre, rodeado pelos discípulos, sobre uma montanha que lembra o monte Sinai. Ele instrui os discípulos não para que estejam voltados para o próprio umbigo, mas para que cuidem das multidões sofredoras que acorrem de toda parte.
Isso ajuda a entender a instrução. Notar que, das oito bem-aventuranças básicas, a primeira e a última se referem ao tempo presente: “deles é o reino dos céus”.
É preciso ter bem claro que “reino dos céus” não é o céu, a glória eterna. “Reino dos céus”, frequente no Evangelho de Mateus, é o mesmo que reino ou reinado de Deus. Ele começa aqui na terra, onde o que se liga ou desliga é confirmado no céu; assemelha-se ao campo de terreno bom e terreno ruim, à rede que pega peixes bons e maus, à lavoura onde o joio se mistura ao trigo. Só o respeito judaico pelo Nome o faz ser substituído pela palavra céus. A eles, aos pobres e aos perseguidos, pertence, portanto, o reinado de Deus, que tem início aqui na terra.
Os primeiros são os “pobres por espírito”, isto é, por força interior, por convicção, e os últimos são os “perseguidos por causa da justiça”, perseguidos por buscarem a justiça do reinado de Deus, tema caro a Mateus. Assim, os pobres e os perseguidos, de certo modo, identificam-se. E quem diz que aquele que aceita a pobreza, que não faz caso do dinheiro, não incomoda e não sofre por isso? Mas desses é o reinado de Deus; eles é que estabelecem o reinado que não é dos césares nem do dinheiro. São os santos que hoje celebramos.
Nas bem-aventuranças seguintes estão as consequências disso. Os que agora estão chorando mais adiante vão parar de chorar, serão consolados. Os que têm fome e sede de ver acontecer a verdadeira justiça hão de matar essa fome. Os carentes, em geral traduzidos por “mansos”, os que não são ninguém, que não têm vez nem voz, serão senhores, serão os donos da terra.
Na sequência, outras três bem-aventuranças: os que colaboram, ou seja, os que têm misericórdia, os que têm intenções retas (“coração puro”) e os que promovem a paz ou felicidade plena também terão sua recompensa. São a quinta, a sexta e a sétima bem-aventurança.
Voltando-se depois para os discípulos, nós e os santos hoje festejados, Jesus nos diz felizes porque perseguidos. É pena que o lecionário tenha cortado o final do v. 12, que dá o motivo da bem-aventurança da perseguição: “porque foi assim que sempre trataram os verdadeiros profetas”. Quem não é perseguido, quem não incomoda os senhores deste mundo, sejam pessoas ou instituições, não é profeta, não é santo.
DICAS PARA REFLEXÃO
São oito as bem-aventuranças. Oito está além da plenitude, que é o sete. Oito é Jesus Cristo, só ele vai além da plenitude. Ele é o primeiro pobre por opção e o primeiro mártir, o primeiro perseguido. Só ele põe os fundamentos do reinado de Deus. Só ele tira os pecados do mundo. Na cruz, o príncipe deste mundo, o que manda neste mundo, é posto para fora.
Nossos irmãos, os santos, “lavaram seus mantos no sangue do Cordeiro”, alcançaram a vitória, assemelhando-se à pobreza e à perseguição de Jesus.
Quando, na eucaristia, celebramos a morte do Cordeiro pascal, com ele celebramos o martírio, os trabalhos e a pobreza dos santos de ontem e de hoje. O pão e o vinho partilhados, que celebram o horizonte da comunhão perfeita e plena, sem lágrimas, sem fome e sem exclusão, significam também a pobreza de quem se parte em pedaços e a coerência que torna capaz a resistência à mais cruel perseguição.
Feliz não é o rico, o que tem tudo, mas não tem a si mesmo, pois pertence ao seu dinheiro.
Feliz não é o elogiado por todos, o aprovado por todos os poderosos do mundo, aquele que por ninguém é perseguido, porque nada tem para dizer, em nada colabora, nada acrescenta, só sabe negar-se a si mesmo e à própria consciência para agradar aos que podem. Parece agradar a todos, só não agrada a si mesmo.
Felizes são o pobre e o perseguido, e, com eles, muitos outros também serão felizes. Isso é ser santo.
padre José Luiz Gonzaga do Prado

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Evangelho (Mt. 5,1-12a)
A felicidade dos pobres
As bem-aventuranças marcam, no Evangelho de Mateus, o início do Sermão da Montanha (Mt. 5,1-7,28), a nova constituição do povo de Deus.
O v. 1 mostra a quem se destina essa boa notícia: às multidões vindas da Síria, da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do Jordão (cf. 4,24-25). Há gente vinda de todos os lugares. Isso denota que a mensagem de Jesus não tem fronteiras (Mateus pôs, como destinatários das bem-aventuranças, os cristãos das comunidades às quais escreveu seu evangelho). Vendo as multidões, Jesus sobe à montanha, que, simbolicamente, é o lugar de Deus e do encontro com ele. A montanha recorda o Sinai, o monte onde foi selada a aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão egípcia. Foi aí que Moisés recebeu as tábuas da Lei (Decálogo), a constituição do povo de Deus.
Jesus, portanto, está para promulgar a nova constituição do povo de Deus, um povo sem fronteiras e sem discriminações; ele vai inaugurar a nova aliança com os pobres e marginalizados do mundo inteiro, revelando que Deus se solidarizou com eles a ponto de confiar-lhes o Reino. O clima dessa nova aliança é o da confiança ilimitada que circula entre Deus e seu povo. De fato, no tempo do deserto, o povo hebreu devia permanecer longe do monte Sinai, sem se aproximar. E Deus falava ao povo por meio de Moisés. Aqui, os discípulos se aproximam do Mestre na montanha, e Deus lhes fala em Jesus – o Emanuel –, que, sentado, ensina como Mestre que tem autoridade.
As bem-aventuranças são propostas de felicidade. A constituição do povo de Deus não impõe leis. Jesus simplesmente constata a situação do povo que o segue (pobres, afligidos, despossuídos [= mansos], famintos); percebe o esforço que fazem para mudar a situação (misericórdia/solidariedade, pureza de coração, promoção da paz); conhece as dificuldades e perseguições que enfrentam para criar a nova sociedade e os proclama felizes, herdeiros do projeto de Deus. A constituição que Jesus promulga no Sermão da Montanha nasce da constatação das lutas do povo sofrido. Deus se solidarizou com ele, confiando-lhe o Reino.
a. A felicidade dos pobres (vv. 3,10)
A primeira bem-aventurança: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu” (v. 3), juntamente com a oitava: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino do céu” (v. 10), são a síntese de todas as bem-aventuranças. As demais (vv. 4 - 9) esclarecem alguns aspectos dessas duas. A primeira e oitava possuem promessa idêntica: “porque deles é o reino do céu”. Não se trata propriamente de uma promessa, mas de constatação do que está acontecendo: o reino do céu já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça! Esses dois grupos (pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça) constituem, na verdade, um único grupo. As demais bem-aventuranças trazem uma promessa futura: serão consolados, possuirão a terra etc. Contudo, não é para esperar a realização dessa promessa no além. Ela é decorrência da opção que Deus fez pelos pobres e oprimidos, confiando-lhes o Reino, portador da plenitude dos bens: liberdade, vida, fraternidade, partilha, paz. Quando será realizado tudo o que aparece como promessa? Quando a nova prática da justiça fizer germinar e crescer o Reino.
A primeira bem-aventurança proclama felizes os “pobres em espírito”. Frequentemente se tenta pôr panos quentes na força dessa expressão, como se os pobres em espírito fossem pessoas humildes, independentemente de sua condição social. A palavra pobre recorda os ‘anawim do Antigo Testamento, da época de Jesus e das comunidades de Mateus: são os que depositaram sua confiança em Deus enquanto última instância, porque a sociedade lhes negava justiça. São pobres em espírito, ou seja, escolheram a pobreza (cf. 6,24) não porque a miséria os fizesse felizes, mas porque nessa condição participam do projeto de Deus, que é a construção da nova sociedade, baseada na justiça e igualdade. Por isso Jesus afirma que o reino do céu é deles! Deus é o rei dos pobres (poeticamente, R. Tagore afirma que “Deus cada vez mais se cansa dos grandes reinos, porém jamais das pequeninas flores”) e com eles formará o novo povo; sendo pobres, saberão concretizar o Reino na partilha e solidariedade (cf. 14,13 - 23; 15,32-39). O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus (cf. 4,17: “Convertam-se, porque o reino do céu está próximo”). A melhor definição dos “pobres em espírito” que descobri é a que foi apresentada por uma mulher do povo: “O pobre em espírito é como o peixe no mar: tem toda a água à sua disposição, mas não a guarda para si; deixa-a para todos os peixes”.
A sociedade estabelecida, ambiciosa de poder, glória e riqueza (cf. 4,9), não suporta uma sociedade alternativa que se forma com base na partilha e comunhão dos bens. Não suportando os pobres que aprenderam a partilha e a promovem como forma de realizar o Reino, persegue-os, procurando eliminá-los (v. 10). Ser perseguido por causa disso constitui desgraça? Não. Para Jesus, e na ótica do Reino, é sinônimo de felicidade, pois a perseguição da sociedade estabelecida mostra que o caminho dos pobres que lutam pela justiça é autêntico: deles é o reino do céu! Contudo, é bom lembrar que não se trata de perseguição por qualquer motivo, mas por causa da justiça do Reino, e esta se traduz na solidariedade, igualdade e fraternidade. Aliás, a justiça é a chave que abre todas as portas do Evangelho de Mateus. Temos, assim, um critério claro para discernir se alguém é ou não pobre em espírito: basta examinar seu compromisso com a justiça do Reino e ver se está sendo, de alguma forma, perseguido por causa dela.
b. A situação dos pobres que buscam a libertação (vv. 4-6)
Os vv. 4-6 descrevem a situação dos pobres que buscam a libertação. Eles são afligidos. Essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento (cf. Is. 61,1). Lá, os aflitos são pessoas cativas e aprisionadas, vítimas de sociedade cruel e opressora. Afirmando que os aflitos serão consolados, Jesus lhes garante que o Reino tem força e capacidade de libertá-los das opressões a que foram submetidos. E por isso são felizes! Concretamente, nos capítulos 8-9, Mateus mostra como e quando isso acontece: a cura do leproso, do servo do centurião etc.
Os mansos são os que foram subjugados pelos poderosos. Também essa bem-aventurança se inspira no Antigo Testamento, exatamente no Sl. 37,10-11. Afirma-se aí que “mais um pouco e não haverá mais injusto; você buscará o lugar deles, e não existirá. Mas os pobres vão possuir a terra e deleitar-se com paz abundante”. Portanto, os mansos são os que foram “amansados” pelo poder tirano, que os privou da terra, impossibilitando-os até de reivindicar seus direitos (o estudioso Alonso Schökel traduzia “mansos” por “despossuídos”). Olhando para a promessa que lhes é feita, é possível identificá-los com os sem-terra do tempo de Jesus, das comunidades de Mateus e de todos os tempos. Fazendo parte do Reino, eles possuirão a terra (com artigo!), isto é, não só receberão de volta seus terrenos roubados pelos poderosos latifundiários, mas serão senhores do mundo, porque a partilha fará com que os bens da criação sejam de todos. Lida à luz de nossa realidade, essa bem-aventurança soa mais ou menos assim: “Felizes os sem-terra que lutam pela justiça, porque a realeza de Deus sobre eles lhes garante que a terra é de todos”.
Jesus proclama a felicidade dos que lutam pela justiça, dos que dela sentem necessidade como alimento vital e diário (ter fome e sede), porque na utopia do Reino não há um sinal sequer de injustiça.
c. Opções e práxis dos pobres: construir a nova sociedade (vv. 7-9)
Os pobres, que entraram na dinâmica do Reino, são misericordiosos, isto é, solidários. Partilha e comunhão impedem que alguém retenha qualquer coisa para si. Nesse clima de solidariedade, ninguém passa necessidade. Quem dá recebe, não só das pessoas, mas do próprio Deus, que entregou o Reino nas mãos dos que aprenderam a repartir. É a primeira opção dos que entraram na dinâmica do Reino: pôr tudo em comum. E por isso são felizes!
A segunda opção é a pureza de coração. Para os semitas, coração é a sede das opções profundas que marcam a vida inteira. Para eles, pensa-se com o coração (Mt. 15,19 mostra que do coração das pessoas nasce toda espécie de opção que contrasta com o projeto de Deus). Ser puro de coração é ter conduta única, em perfeita sintonia com o Reino. Essa bem-aventurança se inspira no Sl 24,4, em que pureza de coração está associada a “mãos inocentes”. Mãos inocentes são resultado de um “coração puro”: sem violência, sem corrupção, sem exploração etc. Os pobres do Reino são puros de coração porque não se apropriam da vida do próximo, como os poderosos. Sua conduta é íntegra. São felizes porque, agindo assim, veem a Deus, ou seja, experimentam-no concretamente na vida. Deus está presente em todo clamor ou sinal de vida. Quem possui essa “pureza de coração” o vê e o encontra a cada passo.
No Antigo Testamento, a pureza dependia de uma série de ritos mediante os quais as pessoas tinham acesso a Deus, que se manifestava no Templo. Na nova aliança – e na linha do Sl 24 – pureza é sinônimo de opção pela justiça do Reino e respeito pela integridade das pessoas. Deus não se manifesta mais no Templo (quando Mateus escreve o evangelho, o templo de Jerusalém já não existe). As pessoas o experimentam de forma direta no dia a dia e no relacionamento fraterno. Essa opção gera felicidade: felizes os puros de coração!
Jesus proclama felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. A promoção da paz (shalom = plenitude dos bens) é fruto da solidariedade e pureza de coração. Paz é bem-estar que exclui toda injustiça, opressão e violação de direitos. Não se trata de paz em nível pessoal, mas sobretudo em nível social. Na dinâmica do Reino, uma pessoa só é verdadeiramente feliz quando todas o são. A luta pelo bem-estar de todos, como o requer o projeto divino, torna os seres humanos filhos de Deus. Há, portanto, estreita colaboração entre o Criador e as criaturas. O que o Pai faz, os filhos também fazem. Os pobres que optaram pelo Reino são capazes dessa práxis. Jesus garante que disso depende a felicidade deles!
d. A comunidade cristã em meio aos conflitos (vv. 11-12a)
A última bem-aventurança (vv. 11-12) revela as tensões e conflitos enfrentados pelas comunidades migrantes na Síria, no meio das quais nasceu o Evangelho de Mateus. No tempo em que o evangelho foi escrito, essas comunidades passavam por crise de identidade, com perigo de abandono do projeto de Deus. Os conflitos vinham do império romano e do judaísmo oficial, representado pelos doutores da Lei e fariseus: a sociedade estabelecida começou a difamar os cristãos, caluniando-os e perseguindo-os. Tornava-se difícil resistir diante das pressões e tribulações de toda espécie. O evangelho lhes lembra que ser discípulo de Jesus é ser como os profetas do Antigo Testamento: “Desse modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês” (v. 12b).
2º leitura (1Jo 3,1-3)
A esperança que anima e purifica
A primeira carta de João foi “dirigida às comunidades cristãs da Ásia Menor, que passavam por séria crise, provocada por um grupo de dissidentes carismáticos. Estes propunham uma doutrina gnóstica, que afirmava que o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Eles negavam que Jesus era o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima comunhão com ele; afirmavam ser iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo: não davam importância ao amor ao próximo e talvez até odiassem e hostilizassem a comunidade… A carta mostra que é vazio e sem valor qualquer espiritualismo que não se traduz em comportamento prático. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo e sem formar comunidade: se Deus é Pai, os homens são filhos e família de Deus, e consequentemente todos devem amar-se como irmãos” (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, Paulus, São Paulo, p. 1.578).
Os versículos escolhidos como segunda leitura deste domingo pertencem a uma seção que vai de 2,29 a 4,6, cujo tema é viver como filhos de Deus. Como realizar isso? Os dissidentes carismáticos afirmavam que era mediante um conhecimento religioso especial e pessoal. O autor da carta prova o contrário: viver como filhos de Deus implica a prática da justiça: “todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus” (2,29). A prática da justiça mostra que Deus é justo e nos torna seus filhos. Portanto, ser filho de Deus é estar em sintonia com o projeto do Pai (cf. evangelho: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”).
O texto salienta que o amor do Pai é a grande força que sustenta a caminhada da comunidade cristã, apoiando e encorajando a luta pela implantação do projeto de Deus. O conflito está bem presente no texto. João o exprime, empregando a expressão “o mundo” (os que não aderiram ao projeto de Deus): o “mundo”, descompromissado com a vontade divina, não reconhece, isto é, hostiliza, calunia, difama e persegue os que desejam implantar na terra a justiça (cf. 3,1). Os cristãos, porém, têm condições de superar as dificuldades e conflitos da caminhada. Sua força está em serem filhos de Deus. Por ora não é possível ver claro o que vamos ser, porque a manifestação de Cristo ainda não é plena. Mas, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é (3,2).
Enquanto não chega a plena manifestação, cabe à comunidade cristã, na esperança, lutar para ser pura como Jesus é puro (v. 3). Em outras palavras, faz-se necessário resistir e implantar a justiça, de modo que nossa prática traduza as palavras e gestos de Jesus. Ser filhos de Deus, portanto, é ser filhos no Filho, que mostrou ao mundo a justiça do Pai. Essa é a esperança que anima e purifica.
1º leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
A vitória dos oprimidos
O capítulo 7 do Apocalipse funciona como uma espécie de pausa para reflexão dentro da “seção dos selos” (6,1-7,17). A seção se caracteriza pela abertura progressiva, por parte do Cordeiro, dos sete selos. Os primeiros quatro (6,1-8) nos apresentam crua fotografia da humanidade arrastada pela ganância, pela violência, pela exploração e pela morte. Diante dessa situação desastrosa, abre-se o quinto selo (vv. 9-12). O clamor dos mártires provoca a reversão dos fatos e a intervenção de Deus e do Cordeiro, pois chegou o grande dia de sua ira: quem poderá ficar de pé? (sexto selo). O capítulo 6 termina com grande expectativa. Quem poderá ser considerado inocente (é este o sentido dessa expressão) diante da intervenção do Deus que julga a humanidade?
O capítulo 7, ao qual pertencem os versículos da leitura de hoje, procura responder a essa expectativa em dois momentos sucessivos. Num primeiro momento, abre-se uma janela em direção ao passado (vv. 4-8). O autor do Apocalipse se inspira no recenseamento dos hebreus saídos do Egito (Nm. 1,20-43) para mostrar que Deus preserva do julgamento (os Anjos que seguram os quatro ventos, 7,1) os que lhe são fiéis (chamados de servos, ou seja, profetas) e os salva (o sinal que os eleitos recebem na fronte é sinônimo de salvação, v. 3; cf. Ez 9,4). Segue-se, então, o recenseamento dos eleitos: 144 mil. O autor, utilizando o simbolismo dos números, mostra que os que lutam e resistem são muitos e formam uma totalidade perfeita (144 mil é o resultado da multiplicação de números perfeitos: 12 x 12 x 1000).
A segunda janela se abre para o presente/futuro da comunidade cristã (vv. 9-17). Se, no passado, Israel foi salvo da escravidão egípcia, com maior razão agora o Cordeiro salvará, conduzirá os que permanecem fiéis, enxugando-lhes as lágrimas (enxugar as lágrimas é sinônimo de “fazer justiça”). Por isso o autor vê uma multidão que ninguém podia contar: gente de todas as nações, tribos, povos e línguas (isto é, do mundo inteiro, v. 9a). É aqui que se responde à pergunta angustiante com que se encerrava o capítulo 6: “Estavam todos de pé diante do trono e do Cordeiro” (v. 9b). E não só podem ficar de pé (isto é, são declarados inocentes), como também participam da própria vida divina: vestem-se de branco (cor que, no Apocalipse, remete à vitória de Cristo sobre a morte) e são vitoriosos (trazem palmas na mão, v. 9c). Essa multidão reconhece que a salvação vem de Deus e do Cordeiro (v. 10) e sua aclamação é seguida pela dos Anjos, Anciãos e Seres vivos, que tributam a Deus tudo o que lhe é devido (v. 12).
A comunidade cristã, na escuta do texto do Apocalipse, em clima de celebração e discernimento, é convidada, na pessoa do autor, a identificar quem são os que estão vestidos de branco e de onde vieram (v. 13). Diante da incapacidade em desvendar o mistério (v. 14a), um dos vinte e quatro Anciãos dá a chave de leitura: “São os que vêm chegando da grande tribulação. Eles lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” (v. 14b). A partir disso, a comunidade cristã está em condições de descobrir, no meio dessa imensa multidão, seus mártires e santos, que resistiram até o sangue. A memória deles anima a difícil caminhada dos que agora estão lutando para implantar o projeto de Deus na história.
O Apocalipse foi escrito para animar comunidades perseguidas até a morte pela opressão e repressão do império romano. A vitória do Cristo sobre as forças do mal e a memória dos mártires das comunidades devolveram aos cristãos a força própria de sua vocação: a capacidade de denunciar e resistir a todo poder absolutizado que oprime e mata. Os mártires são vitoriosos e estão com Cristo: cabe a nós resistir e lutar.
PISTAS PARA REFLEXÃO
A festa de Todos os Santos é momento oportuno para uma revisão da caminhada da comunidade. Olhando para os que nos precederam, santos e mártires, a comunidade é convidada a se questionar sobre seu caminho de santidade. Somos filhos de Deus. Nossa filiação, porém, se traduz na prática da justiça (II leitura). A prática da justiça se traduz na vivência das bem-aventuranças (evangelho). Ao tentar vivê-las, os cristãos deparam com conflitos, calúnias, perseguições e morte patrocinados pela sociedade estabelecida que não aderiu ao projeto de Deus. O que isso significa para nós: desgraça ou felicidade? A memória dos mártires da caminhada é esperança e conforto: Jesus tem a última palavra sobre os conflitos e as forças do mal. Urge à comunidade denunciar e resistir em meio às tribulações (I leitura). Não há outro caminho de santidade!
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Santidade: o jeito humano de ser
Nascemos de Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Deus é bom. Deus é santo. Podemos ser bons e santos, realizando a vontade de Deus. Nosso modelo é Jesus Cristo: ele nos ensinou o caminho. Na proclamação das bem-aventuranças, Jesus indica como viver na santidade: com pobreza, mansidão, justiça, misericórdia, pureza de coração e empenho pela paz (Evangelho). Desde as primeiras comunidades cristãs, temos o exemplo de uma multidão incontável de mulheres e homens que seguiram radicalmente a Jesus Cristo. Muitos foram cruelmente perseguidos e martirizados por causa de sua fidelidade ao evangelho (I leitura). Somos filhos e filhas de Deus. Por isso, o nosso jeito de ser deve estar de acordo com a dignidade conferida pela filiação divina. Podemos viver no mesmo amor com que o Pai nos ama, de modo perseverante, até a plenitude (II leitura). O tempo transitório em que estamos neste mundo é a oportunidade de manifestar a glória de Deus por meio de uma vida santa.
Evangelho (Mt. 5,1-12a)
Quem são os bem-aventurados?
A proclamação das bem-aventuranças, no Evangelho de Mateus, dá a abertura ao “Sermão da Montanha”, no qual Jesus apresenta a nova justiça. Segundo o ensinamento oficial do judaísmo no tempo de Jesus, a justiça baseava-se no cumprimento da Lei. Mateus, que escreve para os cristãos provindos do judaísmo, indica novo caminho: a justiça agora é praticar os ensinamentos de Jesus.
Assim como a lei antiga veio por meio de Moisés no monte Sinai, a nova lei vem por meio de Jesus. Assim como se deu com Moisés, a nova justiça é proclamada por Jesus sobre uma montanha, para os judeus lugar de manifestação da vontade divina. A posição de Jesus (sentado) revela que possui a autoridade de um mestre, conforme o costume entre os rabinos judaicos. É um discurso solene, de importância especial para as comunidades cristãs.
O primeiro aspecto a ser ressaltado é o olhar de Jesus sobre a multidão. É de dentro dela que Jesus vai tirar os princípios que devem orientar os seus seguidores. Não é por acaso que os discípulos se aproximam de Jesus. O sermão dirige-se prioritariamente a eles. As lições são tiradas da Sagrada Escritura e, especialmente, da vida das pessoas do povo. Nela, Jesus encontra os valores que fundamentam o seu evangelho, a boa notícia de vida para todos.
A multidão que segue a Jesus é formada de pobres em espírito. Trata-se de pessoas vítimas do sistema dos poderosos, vergadas sob o peso do legalismo religioso e da opressão política e econômica. São pessoas indefesas que vivem da esperança de dias melhores. A essa gente Jesus vem trazer a libertação. O horizonte é o reino de Deus, onde não haverá exclusão. Os pobres são os protagonistas do reino. Jesus conta com eles, pois clamam por mudança social e, por isso, se mostram abertos à nova proposta.
São pessoas mansas que rejeitam a violência como caminho de solução de seus problemas; possuem a consciência de sua pequenez e confiam na bondade e grandeza de Deus, superando a amargura e o desejo de vingança. Como os oprimidos na origem de Israel, anseiam por uma terra de liberdade e de vida digna.
São pessoas aflitas devido à penúria e à instabilidade em que vivem; choram marcadas pelo tratamento desumano, pelo abandono social, pelas dívidas, doenças, acusações injustas... São pessoas que têm fome e sede de justiça, pois sentem na pele os efeitos de uma sociedade baseada no poder do mais forte. A fome e a sede eram uma realidade cotidiana da maioria das pessoas que seguiam a Jesus em suas jornadas missionárias e também das que pertenciam às comunidades cristãs primitivas.
São pessoas que, apesar de oprimidas, são misericordiosas. Elas se mantêm abertas e acolhedoras; amam incondicionalmente, reconhecem-se pecadoras e esperam a salvação que vem de Deus... São pessoas puras de coração: mesmo excluídas do sistema religioso oficial por serem consideradas impuras (doentes, estrangeiras, pecadoras...), não se deixam contaminar pelos interesses dos dominantes, mas cultivam a confiança em Deus e buscam viver na transparência e na autenticidade.
São pessoas que promovem a paz num contexto de conflitos e guerras. Não são “pacíficas” no sentido de evitarem envolver-se em questões sociais conflituosas, mas são militantes por um mundo de paz. Suas atitudes são marcadas pela “não violência ativa”, desdobramento do amor que caracteriza os filhos e filhas de Deus... São pessoas, enfim, perseguidas por causa da justiça, que sofrem as consequências de ser fiéis à proposta do reino de Deus.
As bem-aventuranças não são expressão de pena ou de consolo oportunista para as pessoas sofredoras; pelo contrário, são a convocação de Jesus para o compromisso dos pobres em vista de sua libertação. Elas sintetizam o caminho de santidade que pode ser seguido por todas as pessoas de boa vontade.
1ª leitura (Ap. 7,2-4.9-14)
Uma multidão de santos
O Apocalipse foi escrito para encorajar as comunidades cristãs a perseverar no meio de grande sofrimento. O texto deste domingo reflete o testemunho dado por uma multidão de cristãos diante da violenta perseguição desencadeada pelo imperador Nero ao redor do ano 65. A visão é um recurso próprio do gênero apocalíptico para revelar o que os olhos da fé captam por trás dos acontecimentos.
As comunidades perseguidas, mergulhadas em profunda dor, gritam por justiça. Deus intervém a seu favor. Os anjos são seus justiceiros. Devem, no entanto, respeitar todos os que são assinalados. A cena lembra a saída do povo do Egito, quando as casas dos escravos hebreus foram marcadas com o sangue do cordeiro para serem protegidas da vingança divina.
As 144 mil pessoas assinaladas (12 x 12 x 1.000) representam a totalidade dos servos e servas de Deus, tanto da primeira aliança como da segunda. São todas as que não se contaminam com a ideologia dos poderosos. São as que permanecem fiéis ao plano de Deus a ponto de entregar a própria vida, como fez Jesus, o Cordeiro imolado. Esse é o sentido das vestes brancas.
Deus é o protetor e salvador dos pequeninos, dos indefesos e dos perseguidos por causa da justiça. São milhares de “todas as nações, tribos, povos e línguas”. Pertencem a todas as tradições religiosas. Com coragem e perseverança, seguem o caminho do bem e lutam por um mundo de fraternidade. Nós, cristãos, recebemos a marca do batismo, que nos torna servos e servas de Deus. Somos convocados a perseverar no seguimento de Jesus; somos chamados a ser santos, vivendo e anunciando os valores evangélicos da misericórdia, da mansidão, da justiça, da paz...
2ª leitura (1Jo 3,1-3)
Somos filhos e filhas de Deus
O amor de Deus não tem limites. Ele fez de nós participantes de sua própria natureza divina. Somos seus filhos e filhas já neste tempo transitório e o seremos plenamente na ressurreição. Essa verdade tão bela nos enche de dignidade e nos impulsiona a viver de acordo com a vocação divina.
O jeito divino de viver não se conforma com os sistemas baseados no domínio de uns sobre os outros e sobre a criação. Como fez Jesus, os cristãos devem posicionar-se de forma clara a favor de uma sociedade onde reine o amor fraterno, pois “quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão é um mentiroso” (1Jo 4,20).
As pessoas que vivem de modo coerente com o evangelho se confrontam com os interesses egoístas dos que dominam este mundo. Jesus preveniu seus discípulos de que seriam perseguidos, presos e até mortos. Os que sofrem por causa da fidelidade aos valores evangélicos fazem parte dos bem-aventurados...
Pistas para reflexão
- As bem-aventuranças indicam o caminho da santidade. Ser santo não significa ser uma pessoa fora do comum. Jesus viveu como uma pessoa normal junto à sua família, comunidade e sociedade. Praticou a vontade do Pai nas pequenas coisas e aprendeu, junto com o seu povo e meditando a Sagrada Escritura, a reconhecer os valores que caracterizam uma vida de santidade. Nas bem-aventuranças, ele sintetiza esses valores, encorajando as pessoas simples e pequeninas a se empenhar por um mundo novo, o reino de Deus. Hoje, de que maneira podemos viver as bem-aventuranças? Quais são os valores a que não podemos renunciar como seguidores de Jesus? Quem são os bem-aventurados na família, na comunidade, na política...?
- Somos marcados com o sinal de Deus. As comunidades cristãs primitivas enfrentaram situações de grande crise por causa das perseguições. Muitas pessoas foram martirizadas. Por meio dos encontros comunitários, pelas orações e pela reflexão sobre a palavra de Deus, elas encontraram sabedoria e coragem para superar o medo e confiar na proteção divina. Sentiam-se marcadas pelo amor misericordioso de Deus. Hoje, como enfrentamos os sofrimentos e as crises? Quais meios nos fazem crescer na fé em Deus e perseverar no caminho do bem? Temos a marca divina em nós pelo batismo: o que isso significa na prática? Podemos lembrar o testemunho de alguns mártires e santos...
- Somos filhos e filhas de Deus! Somos de natureza divina, nascidos do amor gratuito de Deus. Podemos cultivar, de forma sempre renovada, o jeito divino de ser, que é igual ao jeito verdadeiramente humano: honestidade, respeito mútuo, diálogo, carinho, atenção a quem sofre, acolhida, perdão, cuidado com a natureza...
Celso Loraschi
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Dos que acendem em nós o desejo de Deus
São incontáveis aqueles e aquelas que, terminados os dias de sua peregrinação terrestre, foram levados à mansão da paz e da contemplação da face do Altíssimo. Nós os chamados de santos, de bem-aventurados.  Não ocupam um lugar geográfico, mas vivem em Deus no que se convencionou chamar de eternidade. Comprazem-se eternamente em viver diante  daquele que é santo, três vezes santo.  Os santos, santificados pelo Santo.
São Bernardo se pergunta: “Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo as promessas do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica De que lhes servem nossos elogios?   Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale nossa devoção.  Se veneramos os Santos, sem dúvida alguma, o interesse é nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente”.
Hebreus: “Vós vos aproximastes do monte Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste; da reunião festiva de milhões de anjos; da assembléia dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus; de Deus, o  Juiz de todos;  dos espíritos dos juntos, que chegaram à perfeição; de Jesus, o mediador da nova aliança, e da aspersão do sangue  mais eloqüente do que o de Abel” (Hb. 12,22-24).
Eles são homens e mulheres, religiosos e papas, solteiros e viúvos, jovens e idosos, de todas as raças e de todos os cantos da terra. Todos lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Revelaram um coração sem pretensões de serem donos da face da terra. Andaram sempre se dobrando sobre a miséria dos outros. Cheios de sede, de fome das coisas do alto. Espalharam aqui e ali o perfume da paz. Foram artesãos de um mundo de fraternidade.
O prefacio da solenidade: Festejamos hoje a cidade de Deus, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde nossos irmãos os santos vos cercam e cantam eternamente o vosso louvor.  Para essa cidade caminhamos pressurosos, peregrinando na penumbra da fé. Contemplamos alegres, na vossa luz,todos os membros da Igreja que nos dais como exemplo e intercessão.
Terminando com Bernardo: “Com inteira segurança e ambição cobicemos esta glória. Contudo, para que nos seja licito esperá-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho, a intercessão dos santos. Assim aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua intercessão”.
Com efeito, a solenidade dos santos todos que moram na casa de Deus faz nascer dentro de nós o desejo daquele que nosso coração anda catando com imenso ardor. A solenidade dos santos faz nascer em nós o desejo da santidade.

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Os santos nos esperam na glória
Mais uma vez estamos diante da multidão dos santos e santas de Deus, aqueles e aquelas que lavaram suas vestes no sangue do cordeiro, os filhos adotivos de Deus que, na glória, aparecem em toda sua nobreza e magnificência, ao lado do Cristo, os pobres, mansos e aqueles que sofreram tribulação por causa do Amado.
São Bernardo de Claraval vai nos ajudar a refletir sobre o tema dos santos: para que louvar os santos, para que glorifica-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica?  De que lhes servem os nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale a nossa devoção. Se veneramos os Santos, sem dúvida nenhuma, o interesse é nosso, não deles.  Eu, por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender-se um desejo veemente.
Em primeiro lugar, o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é o de gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos. A assembléia dos primogênitos  aguarda-nos e nós parecemos indiferentes! Os santos desejam-nos e não fazemos caso; os justos esperam-nos e nos esquivamos.
Animemo-nos, enfim, irmãos. Ressuscitemos com Cristo. Busquemos  as realidades celestes. Tenhamos gosto pelas coisas do alto.  Desejemos aqueles que nos desejam. Apressemo-nos ao encontro dos que nos aguardam.       Antecipemo-nos pelos votos do coração  aos que nos esperam. Seja-nos um incentivo não só a companhia dos santos, mas também a sua felicidade. Cobicemos com fervoroso empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é má esta ambição nem de nenhum modo é perigosa a paixão pela glória deles.
O segundo desejo que brota em nós pela comemoração dos santos  consiste em que Cristo, nossa vida, tal como eles,, também apareça a nós e nós juntamente com ele apareçamos na glória. Enquanto isso não sucede nossa Cabeça, não como é, mas como se fez por nós, se nos apresenta. Isto é, não coroada de glória, mas com os espinhos de nossos pecados. É uma vergonha fazer-se membro regalado, sob uma cabeça coroada de espinhos.  Por enquanto a púrpura não lhe é sinal de honra, mas de zombaria. Será sinal de honra quando Cristo  vier e não mais se proclamará sua morte, e saberemos que nós estamos mortos com ele, e com ele escondida nossa vida. Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela refulgirão os membros glorificados quando transformar nosso corpo humilhado, configurando-o à glória da Cabeça que é ele mesmo.
Com inteira e segura ambição cobicemos esta glória. Contudo para que nos seja lícito espera-la e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho a intercessão dos santos. Assim, aquilo que não podemos obter por nós mesmos, seja-nos dado por sua intercessão. Liturgia das Horas IV, p. 1421-1422
frei Almir Ribeiro Guimaeães
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A festa de todos os santos abrange os três momentos do tempo, além da dimensão universal do espaço. De fato, celebramos os justos do passado, celebramos a vocação à santidade futura (o “céu”), e celebramos a santidade como dom (graça) presente. Como esta dimensão presente é a em que menos se pensa quando se fala de santidade, achamos que ela merece uma atenção especial: é a mensagem das Bem-Aventuranças, no evangelho de hoje (Mt. 5,1-12). As Bem-Aventuranças devem ser entendidas como uma proclamação da chegada do Reino de Deus para as pessoas que vão ficar felizes com isso (Lc. 6,24-26 acrescenta também aqueles que vão ficar infelizes...).
São, ao mesmo tempo, a proclamação da amizade de Deus para aqueles que participam do espírito que é evocado por oito exemplificações, e (sobretudo na versão de Mt) um programa de vida para todos os que escutam a palavra do Cristo.
Este programa de vida já entra em ação desde que alguém se torna discípulo de Jesus: os que estão realizando este programa já são “santos”. Por isso, este evangelho foi escolhido para a festa de hoje. Jesus proclama a bem-aventurança (a felicidade, o “bom encaminhamento”, a “boa ventura”) dos “pobres no espírito” (= semitismo: os diminuídos até no alento da vida; não se trata da questionável “pobreza espiritual”), porque deles é o Reino dos Céus, ele não quer dizer o além da morte - uma recompensa futura pela carência na terra - mas a realidade presente. “Reino dos Céus” é maneira semítica de dizer “Reino de Deus” (por respeito, Deus é chamado “os Céus”). E o Reino de Deus começa onde se faz a vontade de Deus, como aprendemos do Pai-nosso, que Jesus ensina em seguida (Mt. 6,9-13). Se entendêssemos as Bem-Aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Mas o contrário é verdade: elas são um incentivo para realizar, desde já, o novo espírito, que traz presente o Reino. O sentido das Bem-Aventuranças é, exatamente, relacionar o dom escatológico (expresso nos termos: “serão consolados, serão saciados” etc.) com a realidade de hoje. O dom escatológico não cai do céu, mediante a atuação de algum mágico, mas é o que, da parte de Deus, corresponde à atitude do justo, do servo, do “pobre do Senhor”. Corresponde à atitude de não procurar a mera afirmação pessoal no poder e na riqueza, mas de dispor-se inteiramente para a obra de Deus, pelo esvaziamento, a mansidão, a paciência no sofrer, a sede de justiça divina, o empenho pela paz... Em outros termos, somos santos já, na medida em que pertencemos a Deus no presente. Então, também o futuro de Deus nos pertence.
A mesma mensagem proclama a 2ª leitura (1Jo 3): nossa atual santidade, por sermos filhos de Deus, embora ainda não seja manifesto “o que seremos” (= a nossa glorificação). Portanto, quem é celebrado hoje é, em primeiro lugar, os “filhos de Deus” neste mundo.
A isto se une a visão antecipada do autor do Apocalipse sobre a plenitude dos que aderiram a Cristo, seguiram o Cordeiro (1ª leitura). É o número perfeito das tribos (12 x 12.000), os eleitos de Israel (o autor é judeu-cristão), mas também um número inumerável de todas as nações (universalismo – mas ainda assim há quem ensine que no céu só tem 144.000 lugares....)
Ora, tanto na mensagem das Bem-Aventuranças quanto na visão do Apocalipse ganham um destaque especial os mártires, os que são perseguidos por causa do evangelho, os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro e vêm da grande tribulação. Testemunhar de Cristo com seu sangue é a marca mais segura da santidade. Mas, com ou sem sangue, todos deverão fazer de sua vida um pertencer a Cristo, para que possam ser chamados “santos”, isto é, consagrados a Deus.
As orações insistem muito na intercessão dos santos. É um aspecto deste dia, que atinge muito a sensibilidade popular. É preciso fazer aqui um delicado trabalho de interpretação. Confiar em alguém como intercessor supõe sentir-se solidário (familiar) com ele. Será que vivemos como familiares destes intercessores? Será que cabemos na sua companhia?
Johan Konings "Liturgia dominical"

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1ª leitura: Ap. 7,2-4.9-14
Este trecho pertence à seção dos selos (6,1-8,1). O Cordeiro vai abrir os sete selos. Abre os primeiros quatro (6,1-8) que mostram a situação de calamidade do mundo. Depois o Cordeiro intervém para fazer justiça. Quem poderá resistir? Aqui entra o capítulo 7o como uma pausa para reflexão em duas etapas.
A 1ª etapa refere-se ao passado (vv. 1-8). Relembra o recenseamento do povo hebreu no deserto. Deus salva os que lhe são fiéis. A salvação é indicada pelo sinal na testa. O no 144.000 não é um número real, mas um número simbólico. Indica a totalidade perfeita. É o no 12 multiplicado por 12 e multiplicado por mil. Por outras palavras 12.000 de cada uma das 12 tribos quer indicar a totalidade perfeita dos eleitos.
A 2ª etapa refere-se ao presente-futuro (vv. 9-17). É a salvação trazida pelo Cordeiro. Quem será salvo? Aqui não há simbolismo, portanto você mesmo pode responder. Está em Ap. 7,9. Vamos citar o texto: “Depois disso, eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e diante do Cordeiro, trajados com vestes brancas e com palmas na mão”.
“Será que alguma religião pode limitar a 144.000 o no dos que serão salvos?” ”De pé”, “vestes brancas” e “palmas na mão” indicam a vitória dos eleitos, indicam a salvação trazida por Deus através do sangue do Cordeiro. Por isso todos cantam um hino de louvor ao Deus Salvador. Depois um dos anciãos vai esclarecer que os que estão trajados de vestes brancas são os mártires e os santos, os que sacrificaram suas vidas por causa de Jesus e seu evangelho de justiça. O Ap interpreta a caminhada cristã de todos os que lutam por uma vida de justiça e santidade. Nossos santos e mártires não derramaram em vão o seu sangue. O Ap mostra assim um clarão de glória, uma transfiguração, diante do Calvário da vida, dando incentivo, conforto e esperança para a comunidade perseguida.
2ª leitura: 1Jo 3,1-3
A Bíblia de Jerusalém divide a 1ª carta de João em 3 partes: 1) Caminhar na luz; 2) Viver como filhos de Deus; 3) As fontes de caridade e da fé. Nosso texto pertence à 2ª parte 2,29-4,6. A carta foi descrita por causa do movimento carismático que pregava uma doutrina diferente e um modo diferente de se relacionar com Deus. Este grupo não estava aceitando os ensinamentos da Igreja. Exaltava demais a divindade de Jesus a ponto de negar sua humanidade. Consideravam-se iluminados, íntimos de Deus, incontamináveis. A salvação para eles não provinha da morte de Jesus na cruz, mas de um conhecimento religioso especial e pessoal, portanto, uma conquista própria. Viviam de uma euforia religiosa, de um espiritualismo distante da prática da caridade, distante do próximo. Há muitos pontos de contato com os carismáticos de hoje! Serve de alerta! Este grupo foi exaltando por conta própria seus contatos com o Espírito Santo e acabou se separando da Igreja e seu ensinamento, tornando-se uma seita. O autor combate esta falsa doutrina, mostrando a realidade humana de Jesus e insistindo na prática da caridade.
O texto de hoje salienta a nossa realidade de filhos de Deus. Daí nosso compromisso com os irmãos. “O mundo” dos que não aderiram ao projeto de Deus combate os filhos de Deus como combateu o Filho: Jesus. Nós somos filhos de Deus, mas ainda estamos dentro dos conflitos deste mundo mau. Nossa força é nossa filiação divina, mas o que seremos ainda não se manifestou, portanto não devemos cruzar os braços. Quando Jesus se manifestar no esplendor de sua glória, então sim, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. O que nos purifica e santifica é a esperança nele e no seu projeto de justiça e fraternidade. Resta lembrar que a esperança cristã não é de boca e sentimentos, mas de gestos concretos na luta pela justiça. 
Evangelho: Mt. 5,1-12a
O Evangelho de Mateus tem 5 grandes sermões. O 1o é o Sermão da Montanha (Mt. 5-7). As bem-aventuranças são apenas o início deste grande sermão. A quem Jesus se dirige? Às multidões vindas de todas as partes constituídas na sua maioria por gente simples, pobre e marginalizada. Mateus lembrando que Jesus subiu ao monte, ele o apresenta como o Novo Moisés (Monte Sinai), inaugurando uma Nova Aliança sem fronteiras e constituindo um novo povo. A aproximação dos discípulos indica que não há mais distância entre Deus e o povo, não há mais mediação judaica. Agora não temos mais leis, mas propostas de felicidade para este povo empobrecido, aflito, amansado pelo poder e faminto. Jesus os declara felizes.
A 1ª e a 8ª Bem-aventuranças (v. 3 e v. 10)
Estas duas bem-aventuranças estão no presente do indicativo. O complemento das duas é o mesmo: “porque deles é o Reino dos céus”. Nem se trata de uma promessa, mas de uma constatação da realidade do povo. As outras trazem o verbo no futuro, indicando uma promessa (vv. 4-9). São praticamente explicações dessas duas. “Pobres em espírito” não significa apenas espírito de pobre; são pobres de fato, são os injustiçados, que buscam servir a Deus e não as riquezas, pois têm consciência de que não se pode servir a dois senhores. Servindo a Deus estão dispostos a partilhar a vida com os outros e viver a comunhão. Por isso são odiados e perseguidos, porque buscam a justiça do Reino que a sociedade estabelecida (ambiciosa e egoísta) rejeita e menospreza.
Qual é mesmo a situação dos pobres? (vv. 4-6) Eles são afligidos pela sociedade impiedosa e opressora, mas eles serão consolados. Eles são amansados pela tirania do poder, mas eles herdarão a terra. Pode demorar, mas a reforma agrária vai acontecer, pois é da vontade de Deus. Um dia os poderosos terão que ceder. Eles têm fome e sede de justiça, porque este é o alimento dos pequeninos do Reino de Deus.
Qual é a opção dos pobres? (vv. 7-9) Eles no fundo querem construir a nova sociedade projetada por Jesus. Eles buscam a misericórdia e a solidariedade, querem colocar os bens da criação à disposição de todos. Eles são puros de coração, ou seja, buscam uma conduta justa e íntegra, e justa sem querer se apropriar dos bens ou da vida do outro como fazem os poderosos. Eles promovem a paz, que é a plenitude de todos os bens para todos. Eles realizam o projeto do Filho. Eles são proclamados felizes por causa de tudo isso.
A última bem-aventurança (vv. 11-12), retratando a situação concreta da comunidade de Mateus, mostra que ela é vítima de injúrias, perseguições e mentiras. Mas mesmo assim ela pode sentir-se feliz, porque a sua recompensa nos céus será muito grande.
Observação sobre a palavra “Bem-aventurados” ou “felizes”. Para falar de Mt. 5,1-12a nós temos em todas as Bíblias a habitual tradução: “bem-aventurados” ou “felizes”. Às vezes ficamos desnorteados ou um pouco incomodados, quando ouvimos estas paradoxais afirmações de Jesus, as quais, realmente, fogem dos nossos desejos e ambições: “felizes os pobres”, os “aflitos”, “os que têm fome”, “os que são perseguidos”! Gostaríamos que Jesus falasse diferente. Mas queremos mostrar o profundo sentido destas afirmações, traduzindo o termo “bem-aventurados” ou “felizes” pela expressão que Jesus teria usado na língua aramaica (muito semelhante à hebraica do Antigo Testamento) que é “ashréi” que significa: “em marcha”. Tente o leitor reler as bem-aventuranças e no lugar de “bem-aventurados” ou “felizes” leia: “em marcha”; assim o leitor perceberá o sentido exato do pensamento de Jesus. “Em marcha” para onde? “Em marcha” para a felicidade do Reino, que Jesus prega, o reino, que, afinal, é a vida com o próprio Jesus, que “é caminho, verdade e vida”.
Porque são Mateus traduziu o termo grego “makárioi” = “felizes” ou “bem-aventurados e não o termo aramaico-hebraico “ashréi”, que Jesus teria dito. Este termo “ashréi” aparece 43 vezes na Bíblia hebriaca (confira por exemplo, naturalmente, em hebraico os Salmos 1 e 119). É verdade que a felicidade não está em ser pobre, aflito, perseguido, etc., mas na segunda parte da frase, ou seja, nas promessas de Jesus. Mas São Mateus usou a palavra de Jesus traduzida para o grego, porque tanto ele quanto os outros evangelistas, quando escreveram os evangelhos em grego, não consultaram a Bíblia hebraica, mas a sua tradução grega (feita por volta do ano 250 a.C.). Ora em Alexandria, no Egito, havia mais de cem mil judeus, que não sabiam mais o hebraico, mas só a língua grega, por isso, nessa época, a Bíblia hebraica foi traduzida para a língua grega, para que estes judeus pudessem se alimentar, também eles, da Palavra de Deus.
Como as filosofias da época ofereciam um ideal de felicidade, o judaísmo para não ficar para trás e afirmar também sua identidade própria e dizer que também o judaísmo traz o ideal de felicidade para os seguidores de Javé, traduziu a palavra hebriaco-aramaica “ashréi” (“em marcha”) para o grego, usando a palavra grega que é “makárioi” igual a felizes ou bem-aventurados, mostrando assim que todos os que quisessem seguir o judaísmo encontrariam também a felicidade. Como os evangelistas usaram a Bíblia grega, nas suas consultas para escreverem os evangelhos, eles traduziram “ashréi”, em grego = “makárioi”, por “felizes” ou “bem-aventurados”, pois “ashréi” também contém esta conotação de felicidade, uma vez que todos nós somos convidados a marchar em direção à felicidade do Reino de Deus (promessas da segunda parte das frases das oito bem-aventuranças no evangelho de Mateus).
dom Emanuel Messias de Oliveira
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Este Evangelho, conhecido como sermão da Montanha, é descrito por Mateus logo no início de sua narrativa da vida terrena de Cristo, onde Jesus já batizado por João Batista, anda pela Galiléia, pregando a boa nova, proclamando a chegada do Reino de Deus e convidando os homens de fé a segui-Lo. Jesus, vendo a multidão que vinha de todos os lugares, sobe à montanha, que simbolicamente é um lugar próximo de Deus e de encontro com Ele.
A montanha simboliza, também, o monte Sinai, onde foi selada a Aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão do Egito, e foi onde Moisés recebeu as tábuas da Lei (o Decálogo), a constituição do povo de Deus.
Agora, portanto, Jesus quer apresentar uma nova lei para o povo de Deus. Ele vai fazer uma Nova Aliança com os pobres e marginalizados do mundo todo, revelando que Deus deposita neles uma confiança ilimitada a ponto de confiar-lhes o Seu Reino, solidarizando-se com eles.
Deus falava as seu povo através de Moisés, e aqui Ele fala através do Mestre na montanha, por meio de Jesus que sentado, ensina como o Senhor, Aquele que tem autoridade.
A escolha desse texto para festejar o dia de todos os Santos deve-se ao fato de ele trazer o direcionamento para uma vida cristã plena, pois, trata-se das virtudes de Jesus, um conjunto de atitudes e ações que norteiam a vida do verdadeiro cristão.
Quando se fala em santidade, o mais comum é que as pessoas se remetam ao passado, lembrando dos santos que foram grandes mártires e construíram a Igreja de Jesus, e realmente suas vidas são exemplos que sempre devem ser lembrados e seguidos, e suas ações devem servir de foco para os cristãos de hoje, mas a santidade não está apenas no passado, também faz parte do presente, através da busca diária de cada cristão por fazer a vontade de Deus e, com isso, participar do Reino dos Céus e do futuro com a esperança de ser merecedor da Glória Eterna.

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Entregues nas mãos do Senhor
A santidade não é um artigo de luxo reservado a um grupo de privilegiados. É um ideal para o qual todos os cristãos devem tender, independentemente de sua condição social ou eclesial. Como ninguém é excluído, também ninguém pode eximir-se de dar sua resposta a este apelo divino. O importante é ter uma visão correta da santidade, para se evitar esmorecimentos diante de concepções falsas, e também para não ir atrás de um projeto de santidade incompatível com a proposta de Jesus.
O Evangelho entende a santidade como a capacidade de entregar-se totalmente nas mãos do Pai, de quem tudo se espera e em nome de quem se age em favor do semelhante. Neste caso, santidade e bem-aventurança identificam-se.
A bem-aventurança dos pobres em espírito, dos mansos, dos aflitos e dos que têm fome e sede de justiça acontece quando as pessoas, nestas condições, contam apenas com o auxílio que vem de Deus. Seria inútil contar com as criaturas e esperar delas o socorro.
Por outro lado, também os misericordiosos, os puros de coração, os construtores de paz e os perseguidos por causa da justiça trilham um caminho de santidade. Sem uma profunda adesão a Deus e a seu Reino, jamais se disporiam a prestar ao próximo um serviço gratuito e desinteressado, e a escolher um projeto de vida em que os interesses pessoais passam para um segundo plano. A santidade, neste caso, consiste em imitar o modo divino de agir.
padre Jaldemir Vitório

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O fim e o começo do ano litúrgico nos colocam no fim dos tempos. O ano termina com a solenidade de Cristo, o Rei que se senta em seu trono para julgar a humanidade, e o ano começa na contemplação do mesmo Cristo que veio na fragilidade da carne e virá em sua glória.
Neste domingo, na perspectiva do fim dos tempos, a revelação bíblica nos fala da vida nova do Ressuscitado. Vamos todos ressuscitar e entrar numa vida nova.
Nos tempos antigos, houve um rei, Antíoco IV Epífanes, que se impôs ao povo de Israel com a disposição de modificar os seus costumes religiosos. O rei queria que a cultura grega da época fosse assimilada também pelos judeus.
O Segundo Livro dos Macabeus nos conta a história de sete irmãos, que, com sua mãe, preferiram morrer a transgredir as leis e os costumes do povo de Israel. A observância externa poderia parecer sem importância, mas era a expressão da fidelidade à aliança que Deus fez com o seu povo.
Havia, porém, a animá-los uma esperança que se convertia em certeza: a da ressurreição. O quarto irmão, ao morrer desfigurado, disse que Deus lhe daria a ressurreição, mas que o rei não ressuscitaria para a vida. Todos vamos ressuscitar, mas queremos ressuscitar para a vida, e não ressuscitar para logo em seguida experimentarmos a “segunda morte” da qual não sairemos.
No tempo de Jesus havia um grupo de pessoas importantes, chamadas de “saduceus”, que não acreditavam na ressurreição. Para se opor a Jesus, que ensinava a ressurreição dos mortos, eles lhe perguntaram quem, na outra vida, seria o marido de uma mulher que enviuvou sete vezes. Nesta vida, ela teve sete maridos, um depois do outro. Na outra vida, os sete estarão juntos ressuscitados e a mulher também. Quem ficará com ela? A pergunta dos saduceus supõe que a outra vida será uma simples repetição desta.
A resposta de Jesus, de que na vida futura as pessoas não se casam porque ressuscitaram e serão iguais aos anjos, não diz exatamente como será a vida futura, mas diz claramente que não será a repetição desta vida. O importante é que seremos nós mesmos e vivos, assim como Abraão, Isaac e Jacó.
Com isso Jesus nos dá uma consolação eterna e uma feliz esperança, como escreve Paulo aos tessalonicenses. Elas animam os nossos corações e nos confirmam na prática do bem. Vamos morrer uma só vez e depois ressuscitar. Queremos viver aqui de tal forma que a nossa ressurreição seja para a vida. “Ao despertar”, diz o salmista, “me saciará vossa presença e verei a vossa face”. Temos certeza de que assim será a nossa eternidade.
No fim do ano litúrgico, reafirmamos a nossa fé na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Cada um de nós é uma única pessoa formada de matéria animada por um espírito que faz com que eu seja eu com este corpo e com este espírito.
Meu espírito não pode migrar para outros corpos, senão eu deixaria de existir para sempre. A revelação de Deus nos ensina a ressurreição e não a reencarnação. Não vamos ficar vagando pelos ares à espera de um repouso. “Sei que na minha carne eu verei a Deus” – já dizia Jó, e não na carne de um outro.
cônego Celso Pedro da Silva

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As três leituras de hoje nos introduzem no mistério celebrado na solenidade de todos os Santos e nos revelam o projeto de amor que Deus tem para cada uma de suas criaturas: quer torná-las participantes de sua santidade. A santidade se concretiza, no tempo presente, pelo espírito das bem-aventuranças, pelo qual a humanidade vive seu peregrinar entre trabalhos e lutas, entre angústias e esperanças. A fé e a esperança do cristão não esmorecem porque ele tem a promessa de Cristo: “Alegrem-se e exultem, porque grande será sua recompensa no céu”. A primeira leitura nos abre uma visão sobre o nosso futuro: esperamos um mundo novo. Ela apresenta a multidão dos assinalados, dos bem-aventurados que corresponderam ao plano de Deus. Por isso, trazem nas mãos a palma da vitória. Essa leitura quer elevar nossos olhos para a condição santa à qual o Pai nos chamou. O número 144.000 é simbólico e quer representar a totalidade da comunidade cristã. A segunda leitura nos recorda que a vida divina que se manifestará no momento de nossa saída deste mundo já está presente em nós desde agora. Hoje Jesus nos ensina que a santidade é algo possível para todos e se concretiza, no presente, pelo espírito das bem-aventuranças. Em seu “sermão da montanha”, Cristo nos ensina como santificar nossas vidas através das nossas ações neste mundo, para merecermos nossa plena recompensa quando estivermos na vida eterna. Também nós somos chamados a participar da multidão dos santos. Santo é todo discípulo, quer esteja com Cristo lá no céu, quer viva ainda na face da terra. Celebrar os Santos nos ajuda a seguir Jesus? Como? Que sentido tem para a nossa comunidade celebrar esta festa?



2º leitura – 1Jo. 3,1-3
Segunda mensagem de esperança. Ela responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser?
A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já a que futuro nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele.
Evangelho – Mt. 5,1-12 - AMBIENTE
Depois de dizer quem é Jesus (cf. Mt. 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt. 3,1- 4,16), Mateus vai apresentar a concretização dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.
Uma característica importante do Evangelho segundo Mateus reside na importância dada pelo evangelista aos “ditos” de Jesus. Ao longo do Evangelho segundo Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt. 5-7; 10; 13; 18; 24-25), nos quais Mateus junta “ditos” e ensinamentos provavelmente proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos. É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco livros do Pentateuco.
O primeiro discurso de Jesus – do qual o Evangelho que nos é hoje proposto é a primeira parte – é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt. 5-7). Agrupa um conjunto de palavras de Jesus, que Mateus colecionou com a evidente intenção de proporcionar à sua comunidade uma série de ensinamentos básicos para a vida cristã.
O evangelista procurava, assim, oferecer à comunidade cristã um novo código ético, uma nova Lei, que superasse a antiga Lei que guiava o Povo de Deus.
Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”.
As “bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das “bem-aventuranças” propostas por Lucas (cf. Lc. 6,20-26). Mateus tem nove “bem-aventuranças”, enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano; outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É muito provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido mais trabalhado.
MENSAGEM
As “bem-aventuranças” são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura (cf. Is. 30,18; 32,20; Dn. 12,12), quer nas ações de graças pela alegria presente (cf. Sl. 32,1-2; 33,12; 84,5.6.13), quer nas exortações a uma vida sábia, refletida e prudente (cf. Pv. 3,13; 8,32.34; Sir. 14,1-2.20; 25,8-9; Sl. 1,1; 2,12; 34,9). Contudo, elas definem sempre uma alegria oferecida por Deus.
As “bem-aventuranças” evangélicas devem ser entendidas no contexto da pregação sobre o “Reino”. Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que estão numa situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de instaurar o “Reino” e a situação destes “pobres” vai mudar radicalmente; além disso, são “bem-aventurados” porque, na sua fragilidade, debilidade e dependência, estão de espírito aberto e coração disponível para acolher a proposta de salvação e libertação que Deus lhes oferece em Jesus (a proposta do “Reino”).
As quatro primeiras “bem-aventuranças” referidas por Mateus (vs. 3-6) estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” (as segunda, terceira e quarta “bem-aventuranças” são apenas desenvolvimentos da primeira, que proclama: “bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a sua vontade; daqueles que, de forma consciente, deixam de colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo, que aceitam despojar-se de si próprios e estar disponíveis para Deus e para os outros.
Os “pobres em espírito” são aqueles que aceitam renunciar, livremente, aos bens, ao próprio orgulho e auto-suficiência, para se colocarem, incondicionalmente, nas mãos de Deus, para servirem os irmãos e partilharem tudo com eles.
Os “mansos” não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências orquestradas pelos poderosos; mas são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos e prepotências dos injustos… A sua atitude pacífica e tolerante torná-los-á membros de pleno direito do “Reino”.
Os “que choram” são aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do “Reino” vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e alegria…
A quarta bem-aventurança proclama felizes “os que têm fome e sede de justiça”.
Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico – isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.
O segundo grupo de “bem-aventuranças” (vs. 7-11) está mais orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto que no primeiro grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir.
Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de compadecer-se, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros homens e mulheres, que são capazes de ir ao encontro dos irmãos e estender-lhes a mão, mesmo quando eles falharam.
Os “puros de coração” são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano.
Os “que constroem a paz” são aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte rejam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação entre os homens.
Os “que são perseguidos por causa da justiça” são aqueles que lutam pela instauração do “Reino” e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a morte… Jesus garante-lhes: o mal não vos poderá vencer; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.
Na última “bem-aventurança” (v. 11), o evangelista dirige-se, em jeito de exortação, aos membros da sua comunidade que têm a experiência de ser perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava “bem-aventurança”.
No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.
ATUALIZAÇÃO
A reflexão e a partilha podem fazer-se à volta dos seguintes elementos:
Jesus diz: “felizes os pobres em espírito”; o mundo diz: “felizes vós os que tendes dinheiro – muito dinheiro – e sabeis usá-lo para comprar influências, comodidade, poder, segurança, bem-estar, pois é o dinheiro que faz andar o mundo e nos torna mais poderosos, mais livres e mais felizes”. Quem é, realmente, feliz?
Jesus diz: “felizes os mansos”; o mundo diz: “felizes vós os que respondeis na mesma moeda quando vos provocam, que respondeis à violência com uma violência ainda maior, pois só a linguagem da força é eficaz para lidar com a violência e a injustiça”. Quem tem razão?
Jesus diz: “felizes os que choram”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes motivos para chorar, porque a vossa vida é sempre uma festa, porque vos moveis nas altas esferas da sociedade e tendes tudo para serdes felizes: casa com piscina, carro com telefone e ar condicionado, amigos poderosos, uma conta bancária interessante e um bom emprego arranjado pelo vosso amigo ministro”.
Onde está a verdadeira felicidade?
Jesus diz: “felizes os que têm ânsia de cumprir a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que não dependeis de preconceitos ultrapassados e não acreditais num deus que vos diz o que deveis e não deveis fazer, porque assim sois mais livres”. Onde está a verdadeira liberdade, que enche de felicidade o coração?
Jesus diz: “felizes os que tratam os outros com misericórdia”; o mundo diz: “felizes vós quando desempenhais o vosso papel sem vos deixardes comover pela miséria e pelo sofrimento dos outros, pois quem se comove e tem misericórdia acabará por nunca ser eficaz neste mundo tão competitivo”. Qual é o verdadeiro fundamento de uma sociedade mais justa e mais fraterna?
Jesus diz: “felizes os sinceros de coração”; o mundo diz: “felizes vós quando sabeis mentir e fingir para levar a água ao vosso moinho, pois a verdade e a sinceridade destroem muitas carreiras e esperanças de sucesso”. Onde está a verdade?
Jesus diz: “felizes os que procuram construir a paz entre os homens”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes medo da guerra, da competição, que sois duros e insensíveis, que não tendes medo de lutar contra os outros e sois capazes de os vencer, pois só assim podereis ser homens e mulheres de sucesso”. O que é que torna o mundo melhor: a paz ou a guerra?
Jesus diz: “felizes os que são perseguidos por cumprirem a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que já entendestes como é mais seguro e mais fácil fazer o jogo dos poderosos e estar sempre de acordo com eles, pois só assim podeis subir na vida e ter êxito na vossa carreira”. O que é que nos eleva à vida plena?
Algumas palavras de Bento XVI em Portugal sobre o dinamismo da santidade
 O horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade. Não era isso também o objetivo último da indulgência jubilar, enquanto graça especial oferecida por Cristo para que a vida de cada batizado pudesse purificar-se e renovar-se profundamente? […]Ÿ
Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial.
Perguntar a um catecúmeno: «Queres receber o Batismo?» significa ao mesmo tempo pedir-lhe: «Queres fazer-te santo?» Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: «Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste» (Mt. 5,48). [João Paulo II, Novo Millennio Ineunte 30-31]
 Decisivo é conseguir inculcar em todos os agentes evangelizadores um verdadeiro ardor de santidade, cientes de que o resultado provém sobretudo da união com Cristo e da ação do seu Espírito. […]Ÿ
A Igreja tem necessidade sobretudo de grandes correntes, movimentos e testemunhos de santidade entre os fiéis, porque é da santidade que nasce toda a autêntica renovação da Igreja, todo o enriquecimento da fé e do seguimento cristão, uma re-atualização vital e fecunda do cristianismo com as necessidades dos homens, uma renovada forma de presença no coração da existência humana e da cultura das nações. [Bento XVI, discurso aos bispos em Fátima, 13 de maio de 2010]
 “É nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda. Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. […]Ÿ
É preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. […]
Queridos Irmãos e jovens amigos, Cristo está sempre conosco e caminha sempre com a sua Igreja, acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt. 28, 20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê- Lo nos pobres. Vivei a vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à morte de cruz.
Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos da vossa idade. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-Lo. Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura.
Buscai diariamente a proteção de Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda Santa, ajudar-vos-á a ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo. [Bento XVI, homilia em Lisboa, 11 de maio de 2010]
 A relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva,Ÿ tende ao bem na esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética. A consciência é cristã na medida em que se abre à plenitude da vida e da sabedoria, que temos em Jesus Cristo. A visita, que agora inicio sob o signo da esperança, pretende ser uma proposta de sabedoria e de missão. […] Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio. [Bento XVI, discurso na chegada a Lisboa, 11 de maio de 2010]
 “Sim! O Senhor, a nossa grande esperança, está conosco; no seu amor misericordioso, oferece um futuro ao seu povo: um futuro de comunhão consigo.Ÿ
[…] A nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na história e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré. […] Mas quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração?
Quem espera a aurora do dia novo, tendo acesa a chama da fé? A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo. [Bento XVI, homilia em Fátima, 13 de maio de 2010]

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1º leitura – Ap. 7,2-4.9-14
As primeiras perseguições tinham feito cruéis destruições nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. Iriam estas comunidades desaparecer, acabadas de fundar? As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de esperança nesta provação. É uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilônia. A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro. Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que o seguem, em particular pelo martírio, e eles são numerosos; participam doravante ao seu triunfo, numa festa eterna.
Evangelho – Mt. 5,1-12
As Bem-aventuranças revelam a realidade misteriosa da vida em Deus, iniciada no Batismo. Aos olhos do mundo, o que os servidores de Deus sofrem, são efetivamente formas de morte: ser pobre, suportar as provas (os que choram) ou as privações (ter fome e sede) de justiça, ser perseguido, ser partidário da paz, da reconciliação e da misericórdia, num mundo de violência e de lucro, tudo isso aparece como não rentável, votado ao fracasso, consequentemente, à morte.
Mas que pensa Cristo? Ele, ao contrário, proclama felizes todos os seus amigos que o mundo despreza e considera como mortos, consola-os, alimenta-os, chama-os filhos de Deus, introduzi-los no Reino e na Terra Prometida.
A Solenidade de Todos os Santos abre-nos assim o espírito e o coração às consequências da Ressurreição. O que se passou em Jesus realizou-se também nos seus bem amados, os nossos antepassados na fé, e diz-nos igualmente respeito: sob as folhas mortas, sob a pedra do túmulo, a vida continua, misteriosa, para se revelar no Grande Dia, quando chegar o fim dos tempos. Para Jesus, foi o terceiro dia; para os seus amigos, isso será mais tarde.
O Evangelho no presente
Os membros de uma mesma família têm traços do rosto comuns… As pessoas que partilham toda uma vida juntos acabam por se parecerem… Esta festa anual de Todos os Santos reúne inúmeros rostos que trazem em si a imagem e a semelhança de Deus.
Um rosto de humanidade transfigurada
Enquanto vivos, os santos não se consideravam como tais, longe disso! Eles não esculpiam a sua efígie num fundo de auto-satisfação… Contrariamente àquilo que geralmente aparece nas imagens ditas piedosas e nas biografias embelezadas, eles não foram perfeitos, nem à primeira, nem totalmente, nem sobretudo sem esforço. Eles tinham fraquezas e defeitos contra os quais se bateram toda a vida.
Alguns, como santo Agostinho, vieram de longe, transfigurados pelo amor de Deus que acolheram na sua existência. Quanto mais se aproximaram da luz de Deus, tanto mais viram e reconheceram as sombras da sua existência.
Peregrinos do quotidiano, a maior parte deles não realizaram feitos heróicos nem cumpriram prodígios. É certo que alguns têm à sua conta realizações espetaculares, no plano humanitário, no plano espiritual, ou ainda na história da Igreja. Mas muitos outros, a maioria, são os santos da simplicidade e do quotidiano! Canoniza-se muito pouco estas pessoas do quotidiano!
Um rosto com traços de Cristo
Encontramos em cada um dos santos e das santas um mesmo perfil. Poderíamos mesmo desenhar o seu retrato-robô comum. Por muito frequentar Cristo, deixaram-se modelar pelos seus traços.
Como Jesus, os santos tiveram que viver muitas vezes em sentido contrário às ideias recebidas e aos comportamentos do seu tempo. Viver as Bem-aventuranças não é evidente: ser pobre de coração num mundo que glorifica o poder e o ter; ser doce num mundo duro e violento; ter o coração puro face à corrupção; fazer a paz quando outros declaram a guerra… Os santos foram pessoas “em marcha” (segundo uma tradução hebraizante de “bem-aventurado”), isto é, pessoas ativas, apaixonadas pelo Evangelho… Os santos foram homens e mulheres corajosos, capazes de reagir e de afirmar a todo o custo aquilo que os fazia viver. Eles mostram-nos o caminho da verdade e da liberdade.
Aqueles que frequentaram os santos – aqueles que os frequentam hoje – afirmam que, junto deles, sentimos que nos tornamos melhores. O seu exemplo ilumina. A sua alegria é o seu testemunho mais belo. A sua felicidade é contagiosa.

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Ter um coração de pobre (Gérard Naslin)
Eram quatro casais amigos à volta da mesma mesa. Os copos estavam bem cheios e os pratos bem guarnecidos. No meio da refeição, a conversa centra-se nos acontecimentos da atualidade: Fala-se dos estrangeiros e imigrantes. O debate aquece e cada um proclama o slogan tantas vezes repetido, o cliché veiculado pelos media… Todos parecem em uníssono.
Entretanto, um dos convivas, que estava em silêncio há alguns minutos, abrindo a boca, disse: “Não estou de acordo convosco, e vou dizer-vos porquê. Para mim, todo o homem é uma história sagrada, eu acredito nisso, deixai-me dizê-lo“. Imaginai o tempo de silêncio que se seguiu, enquanto os olhares e os garfos mergulharam nos pratos.
Naquela noite, ao longo de uma refeição entre amigos, passou-se qualquer coisa que nos faz ver o que é o Reino de Deus: um homem só, ousava deixar a multidão para dizer: “Não estou de acordo!” em nome da sua fé no homem e, no caso preciso, em nome da sua fé em Deus.
Não foi o que se passou no cimo de uma montanha da Palestina, há 2.000 anos, quando um homem, Jesus de Nazaré, tendo diante de si os seus discípulos que tinham deixado a multidão para o seguir, “abrindo a boca“, se pôs a instruí-los e lhes falou de felicidade, mas de modo nenhum como o mundo fala dela?! São estes discípulos que ele declara “bem-aventurados“. São Lucas, no seu Evangelho, será ainda mais preciso, pois escreverá: “erguendo os olhos para os discípulos…” E que lhes disse Ele? “Bem-aventurados vós, os pobres de coração, porque vosso é o Reino de Deus!“.
Eis a força contestatária de Jesus. E as outras seis bem-aventuranças estão lá para ilustrar a primeira, a da pobreza do coração. Quanto à última, ela aparece como a conclusão: “Sim, se vós viveis dessa vida, esperai ser perseguidos, porque isso impedirá as pessoas de dormir; isso inquietá-las-á, e como as pessoas não gostam de ser inquietadas, vós sereis perseguidos“.
As bem-aventuranças, se as queremos tomar a sério e sobretudo vivê-las, colocamnos em situação de contestação e fazem-nos assumir riscos. Sim, em certos momentos, fazem-nos dizer, e sobretudo viver, um “Não estou de acordo” em nome da nossa fé.
Porque é que Jesus declara “felizes” os seus discípulos? Porque eles são pobres de coração, porque eles estão libertos de tudo o que poderia entravar a sua liberdade.
Com efeito, a alegria é o fruto da liberdade.
Mas de que pobreza fala Jesus? Fala da pobreza que permite crer, esperar e amar.
O pobre é aquele que “faz crédito” em Deus
“Fazer crédito” ou dizer “credo“, é a mesma coisa. Quando se fala de noivos, fala-se de duas pessoas que confiam entre si, que se fiam uma na outra, que “fazem crédito”.
A desconfiança torna a pessoa infeliz. Confiar é aceitar um certo abandono: aquele que grita em direção a Deus no meio do seu sofrimento ou da sua confusão, é aquele que confia sempre em Deus.
O pobre é também aquele que espera
O rico não pode esperar, está plenamente satisfeito. O pobre, esse, está sempre virado para um futuro que espera que seja melhor; e, depois, ele procura, porque pensa nunca ter totalmente encontrado. A sua vida é uma procura, e todos os sinais que ele encontra enchem-no de alegria e fazem-no avançar. O pobre é aquele que aceita ser criticado pela Palavra de Deus. Com efeito, pôr-se em questão só é possível para aquele que espera tornar-se melhor.
O pobre é aquele que ama
Por não estar plenamente satisfeito consigo mesmo, o pobre está disponível para servir os seus irmãos. Não centrado em si próprio, abre os olhos e vê aqueles que esperam os seus gestos de amor; ouve os gritos dos seus irmãos e abre as suas mãos vazias para as estender àquele que tem necessidade. A sua pobreza fá-lo receber e, ao mesmo tempo, dar o pouco que tem.
Jesus conhecia o coração do homem, e soube reconhecer no coração dos seus discípulos esta aspiração a crer, a esperar e a amar; é a razão pela qual ele os escolheu e chamou.
As bem-aventuranças vão, em tantas situações, contra a corrente, porque um homem, um dia, ousou abrir a boca para dizer aos seus discípulos: “Sois do mundo, e ao mesmo tempo não sois do mundo… Vós não sois do mundo do cada um para si, do consumo, da violência, da vingança, do comprometimento… E face a este mundo deveis dizer: não estou de acordo! É certo que sereis perseguidos ou, pelo menos, rir-se-ão de vós, ou procurarão fazer-vos calar. Felizes sereis, porque fareis ver onde está a verdadeira felicidade. Chamar-vos-ão santos“.
Festejamos neste dia todos aqueles que tomam de tal modo a sério as bemaventuranças que são hoje plenamente felizes.
Queremos experimentar ser já felizes? Basta-nos ter um coração de pobre.

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A santidade de muitos
(nº 14 da Exortação Apostólica Ecclesia in Europa de João Paulo II)
Fruto da conversão realizada pelo Evangelho é a santidade de muitos homens e mulheres do nosso tempo; não só daqueles que foram proclamados oficialmente santos pela Igreja, mas também dos que, com simplicidade e no dia a dia da existência, deram testemunho da sua fidelidade a Cristo. Como não pensar aos inumeráveis filhos da Igreja que, ao longo da história do continente europeu, viveram uma santidade generosa e autêntica no mais recôndito da vida familiar, profissional e social? «Todos eles, como “pedras vivas” aderentes a Cristo “pedra angular”, construíram a Europa como edifício espiritual e moral, deixando aos vindouros a herança mais preciosa. O Senhor Jesus havia prometido: “Aquele que acredita em Mim fará também as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). Os santos são a prova viva da realização desta promessa, e ajudam a crer que isto é possível mesmo nos momentos mais difíceis da história».(1)
(1) João Paulo II, homilia durante a missa de encerramento da II Assembleia especial do sínodo dos bispos para a Europa (23 de outubro de 1999), 4: AAS 92 (2000), 179.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de todos os santos. Conosco alegram-se os anjos e glorificam o Filho de Deus”
Ao se aproximar o final do ano litúrgico, a Igreja oferece-nos momentos especiais para a meditação do que há-de vir. Neste mês de novembro, especialmente, três solenidades marcam este momento: a celebração de Todos os Santos, a solenidade de Fiéis e, ao final do mês, Cristo Rei. São três instantes marcantes: a celebração da Igreja Triunfante, a da Igreja Padecente e o triunfo de Nosso Senhor ao final dos séculos.
No Brasil, por especial concessão da Santa Sé, as festas de guarda são permitidas transferirem sua celebração para o domingo seguinte, quando caem durante a semana.
Envolvido pela grandeza desta solenidade, vem-me à lembrança as palavras de um pregador que fascinaram-me na infância, povoando minha imaginação com aquela homilia fenomenal: “Hoje o céu assume a terra. A terra assume o céu. A Igreja militante neste mundo se une à Igreja padecente do purgatório para glorificar e louvar a Igreja triunfante do céu, na presença da Trindade Santíssima”.
Com estas lembranças que enchem a minha alma de doce saudade e esperança cristã, celebramos a festa do José, da Maria, do Antônio, do Pedro, da Conceição, santos da terra unida à multidão de santos consagrados e anônimos, como Ambrósio, Inácio de Loyola, Pedro e Paulo, Bento, Atanásio, Clara, Rita de Cássia, Teresa de Jesus, Teresa do Menino Jesus, Paulina, José, Anchieta, Camilo de Léllis, Affonso de Ligório, Escrivá, Hurtado, Antônio de Pádua, Geraldo Majela, Antônio Galvão e tantos outros santos de nossa devoção que nos ensinam o cotidiano da vida cristã, rumo à Jerusalém Celeste.
Celebramos hoje as três dimensões de nossa vida cristã: a vocação à santidade futura no céu; a santidade do passado – daqueles que nos precederam na visão beatífica - e celebramos a santidade gratuita de Deus na nossa caminhada neste vale de lágrimas rumo ao Absoluto.
A Mãe Igreja nos convida hoje para celebrar os seus filhos, os canonizados e os não canonizados, os conhecidos e os desconhecidos, os que morreram em defesa da fé, como mártires, e os que também tombaram confessando com fidelidade a nossa fé. Celebramos todos os santos que uniram fé e práxis de vida comunitária, testemunhando Jesus Ressuscitado na sua realidade e em seu estado de vida.
Mas por que celebrar os santos do céu e da terra? Porque todos nós somos convidados à vida de santidade atendendo ao mandato bíblico: ”Vivei a santidade, santificando uns aos outros, porque Deus, o Poderoso, é o Santo dos Santos”.
A santidade é um caminho espinhoso. Combatendo o bom combate, todos são convidados a trilhar este árduo caminho, especialmente a partir da dimensão comunitária, a dimensão paroquial, de engajamento no projeto de evangelização, para aproximar-se mais e mais da plenitude da eternidade, no amor de Deus.
O Evangelho desta festa é a doce alegria cristã das Bem-aventuranças (Mt. 5,1-12a). Bem-Aventuranças que é o programa, o ideário, o caminho ideal para se alcançar a santidade de estado e de vida. A santidade ela é uma conquista, é a vitória no “combate espiritual” que pugnamos no dia-a-dia, sempre tendo presente que a santidade provém de Deus.
E como a santidade chega aos homens? Com a encarnação do Redentor, pela sua morte na Cruz, pela remissão dos pecados de todo o gênero humano, homens e mulheres devem se espelhar neste maravilhoso evento onde se haure a santidade divina.
As bem-aventuranças, apresentadas na Liturgia da Palavra, devem ser consideradas como o caminho da felicidade. A CNBB nos convida, com as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, a reler este Evangelho como caminho de santidade, lançando as redes em águas mais profundas, atentos à exortação do saudoso Pontífice João Paulo II: “Duc in altum!”.
Mas, queridos irmãos, o que é ser santo? O Concílio Vaticano II nos ensina que, considerando a vida daqueles que seguiram fielmente a Cristo, “somos incitados a buscar, por novas motivações, a cidade futura e, simultaneamente, instruídos sobre o caminho seguríssimo pelo qual, entre as vicissitudes do mundo, segundo o estado e a condição de cada qual, podemos chegar à perfeita união com Cristo, ou seja, à santidade”.
Ser santo, portanto, é seguir e imitar os exemplos, palavras e obras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ser santo é ser pobre, no sentido de desprendido dos bens do mundo, e ávido pelos bens do céu, aberto aos excluídos sob todos os aspectos, aos famintos da graça divina, ao mendigos da misericórdia de Deus. Ser santo é acolher e perdoar. Ser santo é ser pacífico, é ser generoso, é ser caridoso, é ser acolhedor, é chorar com os que choram, é dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. Ser santo é tirar o seu agasalho e agasalhar a quem tem frio e está no relento.
Num mundo tão cruel, com tanta fome, tanta miséria, tanta guerra, tanta violência, tanto desentendimento, a exemplo dos santos e santas que a Igreja no-los apresenta, devemos anunciar o Evangelho da acolhida, do amor, do perdão e da multiplicação de dons e bens.
O convite para lançar as redes nas águas mais profundas é o comovente convite para a busca incessante da santidade. Todos, pecadores e santos, somos convidados, porque Deus conhece os nossos corações e nos chama à conversão. Somos convidados a ser santos, santos, santos e cada vez mais santos e imaculados. A vocação universal dos cristãos é a santidade: “Sede santos, como o Pai celeste é santo” (Mt. 5,48).
A santidade é o doce chamado desta liturgia sagrada. Uma santidade que começa na família, na comunidade, na Paróquia, entre os amigos, no trabalho, enfim, que permeia a vida como um todo. A santidade não é inatingível, porque ela deve ser vivenciada nas coisas simples, nas coisas comuns, no cotidiano da vida cristã, procurando viver os mandamentos cristãos com grande e eloqüente simplicidade, em íntima sintonia com a Santíssima Trindade.
Ao mirarmos a imagem dos santos – ao contrário do que os injuriosos e incompreendidos dizem que adoramo-las – recordamos os exemplos edificantes de vida desses paradigmas de vida cristã, de constante sintonia com o Deus Trindade, e inspirados neles traçamos nossa caminhada rumo ao definitivo, à visão beatífica de Deus.
Ter a um santo ou a uma santa como intercessor junto de Deus é como olhar o porta-retrato do pai ou da mãe no criado-mudo da cama e passar a mão naquela fotografia que nos relembra a pessoa querida e nos interpela a ser santo ou a evangelizar como aquela pessoa, cuja ausência se torna uma presença pelo amor que lhe devotamos.
Adoramos o Deus Trindade. Veneramos nossos santos e a Virgem Maria, presença forte, determinante, inspiradora para todos os cristãos. Afinal, quem não se ufana da Mãe que tem? Sem o amor sacrossanto do papai com a mamãe, não estaríamos hoje aqui. Por isso, veneramos nossos santos, como nossos pais, como nossos motivadores para a santidade de vida.
A segunda leitura (1Jo. 3,1-3) desta solenidade proclama nossa atual santidade, por sermos filhos de Deus e templos do Espírito Santo, embora ainda não seja manifesto o que “seremos” após o Juízo, de acordo com a nossa caminhada de fé. Por isso, celebramos hoje, também, a Igreja Militante, que caminha neste mundo, com suas alegrias e misérias, sob a inspiração da Igreja Triunfante, com muita vontade de lançar as redes em águas mais profundas, em busca da santidade que nos envolve e nos eleva: “Duc in altum”.
A tudo isso se une a primeira leitura, com a visão antecipada do Apocalipse sobre a plenitude de todos aqueles que aderiram a Deus. Quem aderiu a Deus participará das núpcias do Cordeiro, como eleitos.
Eis, pois, como todos somos convidados a santidade. Nós, Igreja militante, com homens e mulheres do povo sofrido, somos convidados a caminhar rumo à Igreja Triunfante, na firme certeza de que a santidade é a meta básica da vida cristã. É preciso ser santo: isso é o principal! O resto é conseqüência do amor gratuito de Deus pelos homens.
A santidade é a perfeição de vida que se conquista no dia-a-dia, com altos e baixos, momentos de alegria e momentos de tristeza. Nossa grande esperança, a armadura que com que nos revestimos confiante nessa batalha, é a cruz que venceu o medo, o pecado e a morte, o capacete da vitória cristã.
Em tudo isso está a frase que marcou o meu cristianismo: “Enquanto o mundo, gira a cruz permanece de pé! Cruz da vitória da morte sobre o pecado. Cruz da vitória de Deus contra a soberba. Cruz, sofrimento diário que abre as portas do céu”.


“Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de todos os santos. Conosco alegram-se os anjos e glorificam o Filho de Deus”.
A festa de Todos os Santos abrange os três momentos do tempo, além da dimensão universal do espaço. De fato, celebramos os justos do passado, celebramos a vocação à santidade futura – o “céu” – e celebramos a santidade como dom  - graça – presente.
Como esta dimensão presente é a em que menos se pensa quando se fala de santidade, achamos que ela merece uma atenção especial: é a mensagem das Bem-Aventuranças, no Evangelho que hoje refletimos. As Bem-Aventuranças devem ser entendidas como uma proclamação da chegada do Reino de Deus para as pessoas que vão ficar felizes como isso. São, ao mesmo tempo, a proclamação da amizade de Deus para aqueles que participam do espírito que é evocado por oito exemplificações, e um programa de vida para todos os que escutam a palavra de Cristo. Este programa de vida já entra em ação desde que alguém se torna discípulo de Jesus: os que estão realizando este programa já são “santos”. Por isso, este evangelho foi escolhido para a festa de hoje. Jesus proclama a bem-aventurança – a felicidade, o bom encaminhamento, a boa venturança dos pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus, ele não quer dizer o além da morte – uma recompensa futura pela carência na terra – mas a realidade presente. Reino dos Céus é uma maneira semítica de dizer Reino de Deus. E o Reino de Deus começa onde se faz à vontade de Deus, como aprendemos do Pai-Nosso, que Jesus ensina em seguida. Se entendêssemos as Bem-Aventuranças somente como uma compensação para depois da morte, elas seriam “ópio do povo”. Mas o contrário é pura realidade: elas são um verdadeiro incentivo para realizar, aqui e agora, o novo espírito, que traz presente o Reino de Deus entre nós, na nossa comunidade de fiéis.
Somos filhos de Deus. Somos criados à imagem e semelhança de Deus. Assim somos hoje chamados a contemplar à cidade santa do céu, habitada por milhões e milhões de homens e mulheres, de todas as raças, línguas e tempos, que glorificam a Santíssima Trindade e gozam da mais perfeita e íntima comunhão de amor e vida divina como Senhor: aqui está o conceito mais perfeito e exato da Festa de todos os santos canonizados e anônimos que hoje celebramos. É uma festa de louvor perene e de doce esperança. De louvor a Deus que, aceitando-nos como filhos e filhas, nos tornou herdeiros do céu, da bem-aventurança eterna. De esperança, porque, apesar das tentações, dos pecados da vida terrena, temos um destino, um viés de eternidade.
Celebramos os nossos santos, os que nos precederam rumo ao céu. Mas celebramos, sobretudo, o caminho de santidade dos santos e santos e o nosso caminho para esta santidade de vida e de estado.
Celebramos a santidade em dois caminhos. O primeiro caminho é a santidade aqui e agora. Porque já agora somos filhos de Deus, como nos ensina a segunda Leitura retirada da 1 Carta de João 3,1-3: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é!”. (cf. 1 Jo 3,2). Sim, veremos Jesus tal como ele é. Por isso neste mundo nós devemos ser como Jesus é: pobres de espírito, pacíficos, aberto aos aflitos, àqueles que procuram a justiça, porque assim seremos santos aqui e agora.
O segundo caminho é o caminho que coincide com a nossa irmã Morte: vamos caminhando ao encontro do Cristo Misericordioso. A morte é o aguilhão da vida plena. Não é castigo ou muito menos motivo de desespero, é o encontro definitivo como Cristo. Por isso é necessário estarmos preparados. É o Momento do Encontro com o Cristo Juiz Misericordioso e Compassivo. Os santos passaram por essa porta estreita. Por isso vêem a Deus tal como ele é e são nele transfigurados (cf. 1Jo 3,2). Também nós o veremos como ele é e seremos nele transfigurados, quando, pela morte biológica, nasceremos para a eternidade. Por isso a vida não é tirada, mas sim transformada.
Na primeira leitura(cf. Ap 7,204.9-14), entre as visões das catástrofes do fim do mundo, surge a visão da glória dos eleitos, fruto da salvação que vem “de nosso Deus... e do Cordeiro”(cf. Ap 7,10). Por seu sacrifício, o Cordeiro venceu a morte. Desta vitória participam os que, especialmente no sacrifício do martírio, “branquearam suas vestes no sangue do cordeiro”. Não o número dos eleitos é o que esta leitura quer  mostrar, mas a vitória sobre as forças do mau que se opõem a Cristo e a sua comunidade.
Hoje o Evangelho (cf. Mt. 5,1-12) propõe as Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha. Este Sermão é o Retrato do Senhor Ressuscitado. Um ideal ao nosso alcance, não a ser alcançado pelos critérios humanos, mas pela graça santificante, pelo auxílio do Cristo, pela abertura de nosso coração e de nossa alma ao Salvador. Assim, os santos foram capazes de se enamoraram pelas bem-aventuranças e de crerem que seriam capazes de medir a sua vida por elas, ora ressaltando uma, ora se penitenciando para alcançar outra bem-aventurança.
A felicidade de Jesus é bem diferente da felicidade passageira deste mundo. O mundo nos reserva o ser, o poder e o prazer que são transitórios. A felicidade que Jesus prega envolve o passado, porque se enraíza na doutrina que ele deixou; o presente, porque é dinâmica e exigente; e o futuro, porque é à base do Reino dos Céus, que começa aqui e plenifica-se na eternidade.
As criaturas, ou seja, todos nós seus filhos, fomos criados para a eternidade, não para a desgraça. O desejo de felicidade é para todos. A plenitude da felicidade depende da vivência feliz nesse mundo, porque o Reino dos Céus começa e se constrói na vida presente. Jesus de Nazaré é o modelo de quem viveu na terra a plenitude das bem-aventuranças. Por isso é ele também o modelo da felicidade eterna.
As bem-aventuranças são o espelho daquilo que o verdadeiro discípulo deve ser. O discípulo é construtor do Reino, mas, antes de agir, ele precisa se caracterizar e qualificar. Daí Jesus exigir qualidades. Elas serão condição e roteiro ao mesmo tempo. Ponto de partida e ponto de chegada. No mesmo sentido de quando dizemos que caminhamos para Deus. Só caminha para Deus quem parte de Deus.
As três primeiras bem-aventuranças propõem a libertação da criatura humana de três grandes empecilhos: o apego ao dinheiro, a soberba da auto-suficiência e o preconceito de que só é feliz quem não sofre dificuldades. Aos três obstáculos, o Senhor contrapõe o espírito de pobreza, a mansidão e serenidade nas lágrimas.
Se as três primeiras bem-aventuranças asseguram-nos independência, desapegando-nos das coisas, libertando-nos da soberba que gera violência, e pondo-nos dentro da realidade conflituosa de cada dia, as outras cinco estão voltadas para a ação e, no seu conjunto, perfazem a grandeza do homem novo: justiça, misericórdia, pureza de intenção, paz, paciência. Não há misericórdia sem justiça. Não há paz para quem lavra na falsidade. A paciência é a força histórica do povo de Deus que espera a realização do Reino, não de braços cruzados, mas na atividade da construção da paz e da justiça.
O Reino de Deus identifica-se na pessoa de Jesus e com a pessoa Dele. E Jesus continua presente no meio de nós (cf. Mt. 28,20), como confessamos em todas as missas. Esta é a festa em que unimos as três dimensões da Igreja: a Igreja militante, padecente e triunfante. A Santidade é participar da vida de Deus, que é "o Santo". E sendo nós pecadores, supõe um processo de conversão permanente. Para ser santo, Cristo nos deixou alguns meios: como Os Sacramentos, a Igreja, a Oração, a Palavra de Deus. Acolhamos o Apelo de Deus à Santidade e que os Santos sejam nossos modelos e intercessores.
padre Wagner Augusto Portugal

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Em Jesus, a santidade torna-se uma real possibilidade para todos os convertidos
Certamente a santidade passa pelas bem-aventuranças; ser santo é antes de tudo ser feliz: “Felizes…” (Mt. 5,3.4.5.6.7.8.9.10.11); “…Ficai contentes e alegres…” (v.12). Com estas observações Jesus inicia um discurso que não se encerra no trecho que a liturgia de hoje nos apresenta, este se estende até o capítulo 7 no Evangelho de Mateus e é dirigido ao que ouvem e segue Jesus, isto é, à nova comunidade cristã, a multidão que o segue, sedenta por salvação, conforme relata o versículo 1: “Vendo Jesus as multidões, subiu no monte e sentou-se”; Jesus se manifesta como Messias, o Rei que se assenta ao trono e dirige ao povo, que já é santo, as suas palavras; vejam que as palavras de Jesus, são antes de tudo, palavras de animosidade, parecendo falar a soldados prestes a entrar em combate; e de fato é isto mesmo, a santidade, a qual hoje celebramos na liturgia de Todos os Santos, é um combate espiritual diante das oportunidades sedutoras que nos são apresentadas diariamente com promessas de felicidade, fundada não no pensamento o qual Jesus, sentado sobre a colina, expõe em seu discurso sobre as bem-aventuranças, que ele compreende e ensina. A felicidade que santifica, transcende nossa a matéria, o tempo e o espaço ao qual estamos vivendo, ou seja, o “vale de lágrimas” que mencionamos ao rezar a Salve Rainha, quando então nos dirigimos à Maria com tom suplicante que nos auxilie nesta dura caminhada de santidade, e nada mais justo solicitar tal importante ajuda, uma vez que ela se torna a primeira na multidão imensa dos santos (cf. Ap. 7,9).
Nos dias atuais, por conta de uma cultura imediatista, e que visa o prazer fútil e efêmero, a santidade assume uma conotação negativa, normalmente vinculada ao sofrimento e a angústia, que em nada recompensa o homem, por isso, aos poucos, a santidade vai deixando de ser um propósito de vida, e descartando a santidade, fonte de felicidade plena e verdadeira, por que é ela quem pode de fato regular nossas relações interpessoais na sociedade, pelo meio do respeito e da ética; e ética não é moral, uma vez que moral se funda na lei, é uma regulação externa que tenciona o interno do homem, enquanto que a ética surge no âmago do ser humano, em sua profunda intimidade a qual, externada, torna-se atitude de alteridade, ato que reflete profundo amor compassivo, isto é, o amor de se colocar no lugar do outro. Portanto, santidade não é sofrimento, mas superação do sofrimento causado, sobretudo, pelas conseqüências da forma individualista e cética a qual vivemos. Historicamente não se tem registro de que um santo tenha morrido de desgosto, ou depressão; a história testemunha que o martírio é para os santos, fonte de felicidade, uma rara oportunidade de abraçar o eterno; por isso martírio e santidade estão tão ligados, mas martírio jamais é fazer algo que não se queira, contra a sua vontade, isto sim é condenação e sofrimento, pois não se quer passar por tal situação a qual terei de passar, eis a confusão que se faz com martírio. Martírio não é condenação, mas é prêmio para aquele que de fato crê no amor que Deus nos concedeu, conforme São João fala: “… de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!”, e conclui: “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai” (1Jo. 3,1); a missão dos santos, a exemplo dos profetas da Antiga Aliança é tornar o Pai conhecido e amado, ainda que nosso pensar e agir incomode a grande maioria das pessoas e isto se transforme em descaso, descrédito, pela ridicularização ou escárnio, ou até mesmo em agressão física ou moral, “Felizes sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem [...] por causa de mim” (Mt. 5,11).
Jesuel Arruda
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