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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM


XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM

Comentários Prof.Fernando


21 DE OUTUBRO
Evangelho: (Mc 10, 35-45)
Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram: “Mestre, queremos que nos faças o que te vamos pedir”. Jesus lhes perguntou: “O que quereis que vos faça?” Eles responderam: “Que nos sentemos um à tua direita, outro à tua esquerda na tua glória”. Jesus, porém, lhes disse: “Não sabeis o que pedis! Podeis, acaso, beber o cálice que eu vou beber ou ser batizados com o batismo com que eu vou ser batizado?” “Podemos”, disseram eles. E Jesus prosseguiu: “Bebereis o cálice que eu vou beber e sereis batizados no batismo com que serei batizado, mas assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não compete a mim conceder. É daqueles para quem foi preparado”. Os outros dez, que ouviram isso, se aborreceram com Tiago e João. Jesus, porém, os chamou e disse: “Sabeis que os que parecem governar as nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Entre vós, porém, não deve ser assim. Ao contrário, quem de vós quiser ser grande, seja vosso servidor; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Pois também o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos”.
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Deixe-nos sentar à tua direita e à tua esquerda quando estiveres em tua glória...
Introdução
       Os discípulos queriam uma recompensa por seguir Jesus, participando de um lugar de honra e de muita importância ao seu lado, depois de tudo consumado. Eles queriam se sentir também importantes, como pagamento por todo o seu esforço e dedicação ao Plano de Deus.
       Cada ser humano tem ânsia de poder. Sede e fome de poder, ao ponto de alguns se exporem ao ridículo de dizerem mentiras e prometer coisas que jamais irão cumprir, só pelo desejo de serem eleitos a cargos eletivos que lhes darão muita importância diante da sociedade.
       Na empresa, nos serviços públicos, em fim na sociedade, notamos que um humilde funcionário pode transformar-se em arrogante e orgulhoso, após ser empossado em algum cargo de mando. A professora que criticava os desmandos da diretora, e que brincava com os demais colegas, e também reclamava da falta de apoio aos professores diante da indisciplina dos alunos, hoje, depois de ser escolhida diretora, mudou totalmente a sua postura. Olha para os professores de cima para baixo, com um ar de muita importância, exige que os professores tolerem a indisciplina em vez de determinar medidas enérgicas com os alunos problemas...
       É assim que somos. Queremos e gostamos de nos sentir importantes, buscamos sempre um lugar de honra na sociedade. Porém, isso não pode acontecer com o cristão, principalmente o cristão  atuante. Jamais podemos ou devemos almejar um lugar ao lado do sacerdote no altar, com o objetivo de obter prestígio diante dos fiéis.
       É bem verdade que Jesus disse que a luz não foi feita para ser colocada debaixo da mesa, mais sim em um lugar alto, para que todo o ambiente seja iluminado. Do mesmo modo, a nossa luz deve brilhar diante dos homens para que todos vejam as nossas boas obras. Baseando nessas palavras de vida proferidas por Jesus, nós temos a tentação de nos colocar diante de todos na igreja, com ar de importância, quando estamos na execução dos nossos cargos. Seja de leitor, de ministro da Eucaristia, de catequista, temos  de tomar cuidado porque dentro de nós, haverá sempre uma tendência de nos sentir santos e importantes por estar servindo a Deus diante da assembléia.
       Quando a multidão queria transformar Jesus em Rei, Jesus disfarçou e saiu para outro lugar. Pois o seu objetivo não era ser importante, não era de ser servido, mais sim, de servir. E Ele provou isso lavando e beijando os pés dos discípulos, para nos dar o exemplo. E o sacerdote uma vez por ano tem de fazer isso. Já imaginou beijar os pés de um homem com tanto cocô de cachorro que existe nas nossas calçadas?
           Prezado seminarista: Você que não vê a hora de ser transformado no homem mais importante da sociedade, aquele que é capaz de transformar a hóstia no corpo de Cristo, que é capaz de transformar um pecador em uma pessoa pura através da absolvição, poderes que lhes serão concedidos pela ordenação, poderes que lhes foram deixados por Jesus Cristo, lembre-se que aquele que pretende ser o maior, o melhor, o mais importante, deve ser o menor entre todos, deve ser aquele que serve, e não aquele que pretende ser servido. O maior, e o melhor padre, é aquele que é humilde, que tem sabedoria e santidade. Não se iluda com os poderes que você irá receber, não se envaideça com a força que receberá de Deus, mais sim, veja isso como uma santa oportunidade se servir para a salvação do mundo, e não para satisfazer a sua ânsia de ser importante.
       Pense: É MUITO BOM SER IMPORTANTE. MAS É MAIS IMPORTANTE SER BOM!       Ser um bom padre, um bom médico, um bom pedreiro, um bom pai, um bom marido, uma boa esposa, um bom filho, uma boa filha, um bom colega de trabalho, um bom catequista, etc.
       Rezemos pelos cristãos que ocupam posições de lideranças na Igreja, para que pensem sempre nas palavras  e no testemunho daquele que foi o maior exemplo de quem é realmente o MAIOR. Aquele que abdicou de sua riqueza e de seu poder, nascendo  pobre, se fazendo pobre,  dedicando-se aos excluídos, para nos fazer ricos em virtudes, e merecer um dia a vida eterna. Amém.
José Salviano.
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Seguem o Salmo 65 e também o Evangelho para o Domingo dia 21 de Outubro, boa semana abençoada por Deus!
Abraço
Pe.Fernando


e


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21 de outubro – Domingo

29º DOMINGO DO TC 21/10/2012

1ª Leitura Isaias 53, 10-11
Salmo 32 (33) “Seja nos manifestada, Senhor, a vossa misericórdia, como a esperamos de vós”
2ª Leitura Hebreus 4, 4-14
Evangelho Marcos 10, 35-45

“ENTRE VÓS NÃO SEJA ASSIM...” – Diácono José da Cruz

O dirigente de uma comunidade de denominação cristã, deve ter sempre a prudência e sabedoria de Deus, para não acabar incorrendo no mesmo erro dos apóstolos. A exortação rigorosa de Jesus neste evangelho de São Marcos, precisa soar constantemente aos nossos ouvidos: “Entre vós não deve ser assim...”
Infelizmente, muitas comunidades cristãs vão se tornando a cada dia que passam, uma cópia autêntica das instituições do mundo, onde o modo de viver das lideranças e ministros, destoa do evangelho, porque se busca poder, prestígio, fama, sucesso e outras honrarias.
Há certas distinções e privilégios no seio da comunidade, que são uma verdadeira afronta ao evangelho de Cristo. Em certas liturgias pomposas, o carisma que deveria traduzir-se em serviço a favor dos irmãos e irmãs, acaba se tornando motivo de ostentação e até estrelismo em alguns casos, pois desde os ministros até a equipe de leitores, instrumentistas e cantores, ás vezes louva-se não a Deus, mas a si mesmo.
Não podemos como Igreja anunciadora do evangelho, nos omitir e temos sim de reconhecer, com o coração dilacerado de dor, que esta é uma realidade dos nossos tempos, porque já não basta termos perdido a capacidade de nos indignar diante da falsidade de muitos políticos e homens públicos, ainda acabamos consentindo entre nós este grave pecado.
Os apóstolos Tiago e João, que posteriormente viriam a se tornar santos mártires, derramando o sangue por causa do evangelho de Cristo, naquele primeiro momento não tinham ainda entendido a proposta de Jesus com o seu reino novo.
Pois de maneira até ousada e petulante, quiseram exigir dele os cargos mais importantes, sentando-se um à sua direita e outro à sua esquerda, quando viesse o seu reino de glória. “Vocês não sabem o que estão pedindo” –censurou-lhes o Senhor.
O cálice que Jesus iria tomar era amargo como fel, e o Batismo que iria receber, seria nas águas turbulentas da rejeição e da humilhação. Tiago e João aceitaram tomar desse cálice e receber esse batismo, mas realmente, naquele momento, continuavam sem fazer a menor idéia do que aquilo iria significar em suas vidas.
Imaginavam um messias poderoso e vencedor, imbatível e implacável contra os homens maus, mas as profecias de Isaias já falavam de um homem esmagado pela dor e sofrimento; pensavam em ser os primeiros, os mais importantes do grupo, para terem dos demais o prestígio e o reconhecimento; mas Jesus ensina que devem se fazer escravos para servir a todos.
Esperavam um messias dominador que tomaria para si todos os reinados e impérios do mundo, e Jesus lhes profetiza que o Filho do Homem entregará sua vida para resgatar a muitos, sua preciosa vida, sua dignidade messiânica, suas prerrogativas de Filho do Altíssimo, tudo em seu corpo seria esmagado na cruz do calvário, para trazer a salvação àqueles que ele amou até o fim.
Jesus profetiza que os dois discípulos um dia irão experimentar a amargura do cálice das tribulações, rejeição, incompreensão e até a morte, passarão assim pelo Batismo de sangue, derramado por causa do seu evangelho, mas mesmo que façam tudo isso, que trilhem o mesmo caminho que ele irá trilhar, o lugar á direita ou a esquerda depende unicamente do Pai. Esse lugar ao seu lado, no reino de Deus, já está reservado aos homens que realmente acreditarem e mudarem a mentalidade e o coração, por causa do Reino. Antes de ser uma conquista, esse lugar é dom de Deus.
A reação dos demais, que ficaram indignados com Tiago e João, mostra como todos ainda estavam longe de entenderem a missão, a pessoa e os ensinamentos de Jesus, que com todo carinho, amor e paciência, como um professor dedicado, percebendo que a classe ainda não tinha aprendido a lição, vai repeti-la com muita calma, sem exasperar-se.
Eles sonhavam com prestígio e poder no meio do grupo, Jesus fala em serviço. Quem quiser ser grande entre vós, e ser o primeiro, seja o escravo de todos, porque o Filho do Homem não veio para ser servido mais para servir e dar a sua vida como resgate de muitos. Assim, Jesus desmonta diante deles qualquer esquema de poder, não fala em vitória mais em fracasso e derrota, não fala em tomar e conquistar o mundo, mas em dar a vida.
Comunidade cristã é por excelência lugar de serviço, de dar a vida pelos irmãos, de entregar-se a serviço do evangelho de Cristo, com toda coragem e desprendimento. Esse modo de se viver na comunidade, sempre representa a perda de algo. Quantos desistem no meio do caminho e cheios de mágoa desabafam: “Perdi meu tempo”.
Dar a vida é dar o nosso tempo que é tão precioso, porém não o façamos almejando ganhar algo, mas sim para imitar o Nosso Mestre e Senhor, Jesus de Nazaré, aquele que não é um Deus distante, mas que sabe compadecer-se de nossas dores e fraquezas, como afirma o apóstolo Paulo na segunda leitura dessa liturgia, porque ele foi provado em tudo como nós, à exceção do pecado.

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“VOCÊS PODEM BEBER DO CÁLICE QUE EU VOU BEBER”? – Olívia Coutinho

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 21 de Outubro de 2012

Evangelho Mc 10,35- 45

Neste dia mundial das missões, queremos reafirmar a nossa confiança na ação de Deus movendo os corações humanos!
Como membros de uma comunidade que  caminha dentro do espírito da fé e  do compromisso com  uma  igreja missionária, somos convocados a dar continuidade a missão de Jesus aqui na terra.
Assumir  a missionariedade, é  não temer a cruz, é estar  disposto a dividir seu  tempo,  sua vida com o outro, principalmente com os mais pobres.
Para desempenharmos bem a nossa missão, precisamos  em primeiro lugar nos libertar  de todos os nossos apegos, esvaziarmos de nós mesmo, só assim estaremos  livres para servir.
Deus quer salvar a humanidade por inteira, por isto Ele convoca cada um de nós para uma missão, contando  sempre com a nossa disposição, com o nosso  serviço na construção  de um mundo melhor.  Ser indiferente a esta convocação, é rejeitar  o projeto de Deus.  
Este dia das missões tem como propósito nos  conscientizar de que pelo batismo, todos nós somos missionários! É evidente  porém, que  o impulso para a missão,   provêm da nossa sensibilidade à voz de Deus, aos acontecimentos e  principalmente às necessidades dos  nossos irmãos.
 É com pessoas de boa vontade, sensíveis e generosos, que Deus quer contar na construção  de um mundo  mais justo e mais irmão.
O mundo  carece de pessoas que se  inquietam diante das injustiças praticadas por  uma sociedade capitalista que aliena o povo, que recusa a  enxergar o homem na sua essência.
 Vemos com profunda tristeza, um povo que tem tudo para ser feliz, mas  que  distancia desta  felicidade, por não colocar  Deus como centro de sua vida! São muitos, os que se deixam   levar pelos caminhos contrários, o caminho  da vaidade da ganância,  da ambição...
O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta nos convida a pautarmos a nossa vida no exemplo de Jesus, o grande missionário do Pai, que mesmo sendo Deus, se pôs a serviço de todos, curvou-se para lavar os pés dos discípulos, numa atitude de humildade e de  serviço.
 “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 6-7).
 “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos” (Mc 10,45).
Pela lógica dos homens, ser grande, é possuir bens, é ter poder fama, enquanto que pela  lógica  de Deus,  grande, é  todo aquele que serve, que vive na simplicidade e na humildade, este sim,  tem uma vida fecunda e plenamente realizada.
O texto nos adverte sobre o risco que corremos quando estamos voltados somente para os nossos  interesses. Quando deixamos nos levar pelos nossos interesses pessoais, cresce em nós a vaidade, o egoísmo a ganância, grandes inimigos que nos distanciam de Deus.  Fechados no nosso “eu”, não  enxergamos as necessidades do outro,  não  abrirmos à partilha, portanto, não vivemos   o mandamento Maior: o mandamento do amor!
Ao contrário dos filhos de Zebedeu, devemos assumir a nossa missão sem esperar recompensa. Nossa missão, deve se desenvolver em clima de gratuidade, humildade e desprendimento.
  "Vocês podem beber do cálice que eu vou beber?". Beber do cálice que Jesus bebeu é não temer a cruz, é passar pelo sofrimento sem perder a fé. Podemos dizer que este é o grande desafio de um seguidor de Jesus!
Será que nós, comunidade de fé, bebemos do mesmo cálice, ou será que  bebemos em cálice individual? Será que somos  tão individualistas a ponto de não querer beber do cálice do outro? 
Ser batizado no sangue de Jesus, é passar pelo sofrimento na certeza da vitoria, é sair das trevas para viver na luz, na luz que é Jesus.  

 FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia

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DOMINGO,  28 de outubro
Mc 10,46-52

Mestre, que eu veja!

Padre Queiroz


Este Evangelho narra a cura do cego de Jericó chamado Bartimeu, feita por Jesus. A fé de Bartimeu em Jesus o levou a gritar alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”. Isso para que Jesus pudesse ouvi-lo, apesar do barulho da multidão.
“Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: Filho de Davi, tem piedade de mim!” Quem tem fé tem coragem, vence o acanhamento e não se deixa levar por opositores.
Jesus era bem diferente da multidão: acolheu com atenção e carinho o doente.
E Jesus veio para servir. Quem serve faz o que o outro quer. Por isso Jesus perguntou a Bartimeu: “O que queres que eu te faça?”. A intenção de Jesus era ajudar Bartimeu naquelo que ele queria, não determinar logo o que era melhor para o cego.
Bartimeu, mais que depressa, respondeu: “Mestre, que eu veja!” Em outra passagem, Jesus se refere aos cegos de espírito e diz que este mal é pior do que a cegueira física. Cegos de espírito são as pessoas que não vêem as coisas como Deus vê. São levados pelas propagandas e pela opinião do povão, maria-vai-com-as-outras.
Na Bíblia, a cegueira é símbolo da descrença e a vista é símbolo da fé. Pela “cegueira”, o homem não vê o seu destino eterno nem se preocupa com ele. Não vê as coisas claras reveladas, como Deus uno e trino, a santa Igreja, os mandamentos, não sabe nem respondeu a pergunta: “Quem sou eu?”
Nós também queremos pedir a Jesus: “Mestre, que eu veja!”
Quem pede a Deus com fé, recebe a graça desejada. Bartimeu, que era cego, mendigo, marginalizado na beira da estrada e completamente dependente dos outros, é um símbolo do ser humano, desamparado e cego. Bartimeu nos ensina que precisamos crer para ver, não ver para crer. Em situações diferentes, nos dá o mesmo exemplo: S. Paulo, Santo Agostinho, Maria Madalena e tantos outros santos e santas. Crer para ver, amar para crer e rezar para amar. Está aí o caminho que nos leva à verdadeira visão.
O acolhimento ao cego, mais a cura, representam a salvação trazida por Jesus. Mas precisamos ter fé, que nos leva a ter coragem de gritar, vencendo o acanhamento e a oposição.
Que nós também joguemos de lado o nosso manto (riquezas) e saiamos pulando de alegria ao encontro de Jesus que nos chama. O jovem rico não foi capaz der fazer isso.
“E seguia Jesus pelo caminho.” Como é bom ser agradecido a Deus, e agradecer com a própria vida, seguindo o seu Filho! “Quando te domina o cansaço, e já não puderes dar um passo, quando o bem ao mal ceder, e tua vida não quiser ver um novo amanhecer, levanta-te e come, que o caminho é longo, caminho longo!” (Cântico da Irmã Míria Kolling).
Na cena do Evangelho de hoje aconteceu uma inversão: Antes, Bartimeu era cego fisicamente e a multidão enxergava, também fisicamente. Depois, Bartimeu passou a enxergar nos dois sentidos, e a multidão continuou cega espiritualmente. Mandando o cego se calar, a multidão continua não só cega, mas impedindo que os outros vejam. Senhor, que isso não aconteça conosco!
Quando todos os caminhos se fecharem para nós, é só permanecermos obedientes a Deus e pedir-lhe, que ele vem e abre um caminho inesperado para nós. Caminho largo e sem pedras. A experiência dos cristãos católicos desses 2009 anos tem mostra isso!
Bartimeu nos ensina que ter fé é estrear olhos novos para ver a vida, os acontecimentos, o mundo e a si mesmo, na perspectiva de Deus.
“Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” Hoje essas palavras são dirigidas a nós, a você. Não custa nada levantar-se, deixar o manto e atender ao convite de Jesus.
Certa vez, um homem estava andando numa região muito vasta e desabitada. Em um raio de duzentos quilômetros, de todos os lados, não havia habitantes. E o homem se perdeu. Ele não sabia em que direção estava o seu destino. O tempo abafado impedia-o de ver o sol para se orientar.
Felizmente, na região havia muitos girassóis, e sabemos que o girassol é uma flor que se inclina na direção do sol. Assim, orientado pelos girassóis, aquele senhor chegou são e salvo ao seu destino.
Nós queremos ser girassóis para as pessoas que andam perdidas no mundo. Que, orientadas pela inclinação que damos à nossa vida, elas se encontrem com Cristo, o Sol que nasceu do alto.
Maria Santíssima foi, e continua sendo, a mulher de fé que se levanta com alegria e faz a vontade do Filho, inclusive atendo ao pedido dele de ser a nossa Mãe. Primeira discípula do Senhor, rogai por nós.
Mestre, que eu veja!

Padre Queiroz 

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Domingo, 21 de outubro de 2012

29º Domingo do Tempo Comum
Missionários Claretianos
Santos do Dia: Ágato do Egito (abade, eremita), Astério de Ostia (mártir), Bertoldo de Parma (monge), Celina de Laon (mãe de familia), Condede da Normandia (eremita), Dácio, Zótico, Caio e Companheiros (mártires da Nicomédia), Finiano de Taghmon (abade), Gaspar de Búfalo (presbítero, fundador), Gebizo de Monte Cassino (monge), Guilherme della Torre (bispo de Como), Hilarião de Gaza (abade), Hugo de Ambronay (abade), Inácio de Laconi (franciscano), Malco de Chalcis (eremita), Mauronto de Marselha (monge, bispo), Tuda de Lindisfarne (bispo), Úrsula e as 11.000 Virgens de Colônia, Viator de Lião (eremita).
Primeira leitura: Isaías 53, 10-11
Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura. 
Salmo responsorial: 32, 4-5.18-20.22
Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, pois, em vós, nós esperamos.
Segunda leitura: Hebreus 4, 14-16
Aproximemo-nos, com confiança, do trono da graça. 
Evangelho: Marcos 10, 35-45 ou 10, 42-45
O Filho do Homem veio para dar a sua vida como resgate para muitos.
A primeira leitura de hoje, tomada da segunda parte do livro de Isaías, nos fala da missão do “servo sofredor”, isto é, daquele redentor do povo de Deus que oferece sua vida para ver o nascimento de uma nova possibilidade, de uma nova descendência. Este poema nos fala mais de esperança, de tenacidade e de luta, que de sofrimento passivo ou resignação.
A missão do servo do Senhor não é ver seu corpo destroçado, mas servir de ponte para as novas gerações de crentes que vão se inspirar em seu particular estilo de vida. Por esta razão, a “nova descendência” não se refere, nem ao texto nem a interpretação cristã, aos descendentes biológicos, mas a uma nova geração de pessoas comprometidas com a causa de Deus em favor de seu povo, o povo pobre, dolorido e oprimido.
O Salmo serve de ponte entre a primeira e a segunda leitura, ao recordarmos a palavra de Deus, que se identifica por sua capacidade para ajudar-nos a reconhecer a verdade. Uma verdade que não é um assunto metafísico ou etéreo, mas a encarnação do projeto de Deus na historia por meio da justiça e do direito.
A carta aos Hebreus insiste em um tema que com freqüência nos refunde na memória: a mediação de Jesus para compreender o desígnio de Deus. Se prescindimos dele, do que ele fez e do que ele significa para nós, estaremos esvaziando o cristianismo de sua essência.
Lucas evangelista, o grande cronista da igreja primitiva, cuja memória como santo celebramos precisamente hoje, nos deixou, em dois tomos, uma obra de singular beleza e valor. Em seu evangelho toma o esquema empregado por Marcos e Mateus, porém remonta a primeira etapa de Páscoa para descobrir como o Espírito age sobre a nova criação e suscita um dinamismo profético que constitui, congrega e envia ao novo povo de Deus.
O Evangelista está consciente da imperiosa necessidade de recuperar a memória das ações, palavras e trajetória de Jesus. As jovens gerações se sentiam tentadas por um Jesus que se reduzia a uma idéia, ou a uma resposta simpática de Jesus, porém, ainda que isto tenha sido um bom começo, seria necessário ir à verdadeira fonte dessa historia, que era a vida mesma de Jesus em seu célebre caminho da Galiléia a Jerusalém.
Precisamente um dos ensinamentos de Jesus foi sua capacidade certeira de debelar as ambições de poder que se ocultavam nas aparentemente melhores intenções, como a de marchar com ele para seu destino. Jesus tem essa grande capacidade de confrontar todas as pessoas e a contraluz colocar em evidencia todas essas piruetas que faz a consciência para evadir a vontade de Deus e deixar-se arrastar pelos pseudo-valores da cultura vigente que conduzem à busca desaforada do poder.
O penúltimo domingo de outubro a Igreja católica celebra como o Domingo Mundial das Missões. Muitos dos católicos de mais idade, recordamos que quando fomos alunos saímos, um dia como o de hoje, às ruas, com uma lata nas mãos, para fazer uma coleta econômica em favor das missões. Em algumas sociedades muito católicas, aquilo formou parte de uma paisagem religiosa urbana quase tradicional, que já desapareceu. Deixou-se de fazer... simplesmente por preguiça ou por descuido? Hoje, a perspectiva é mais ampla e nos parece que somos afetados pelas razões clássicas da “secularização” da sociedade. Mas há algo mais: também há razões que se refiram as mesmas “Missões”.
Em um tempo como o que vivemos, marcado radicalmente pelo pluralismo religioso, e marcado também crescentemente pela sua teologia, o sentido do “missionário” e da “universalidade cristã” mudaram profundamente. Até agora, em muitos casos, o missionário era sinônimo de “converter” ao cristianismo (ao catolicismo concretamente em nosso caso) aos “gentios”, e a “universalidade cristã” era sentida como a centralidade do cristianismo: nós éramos a religião central, a (única) querida por Deus e, portanto, a religião-destino da humanidade. Todos os povos (universalidade) estavam destinados a abandonar sua religião ancestral e a fazer-se cristãos (a converter-se)... O “proselitismo” estava justificado; mais, era o melhor que podíamos fazer pela humanidade: o fim justificava os meios.
Tudo isto, logicamente, evoluiu. Compreendemos perfeitamente que as religiões e as culturas (todas, não somente a nossa), viveram, desde as origens, ilhadas, sem sentido de pluralidade. Uma espécie de “efeito ótico” e, ao mesmo tempo, uma certa lei de “psicologia evolutiva” humana fez com que se convertessem a si mesmas, cada uma, como únicas, e como “centrais” (pensando cada uma que eram o centro absoluto da realidade), igual que cada uma que eram o centro absoluto da realidade), igual que cada um de nós, quando crianças, começamos a conhecer a realidade a partir do nosso egocentrismo psicológico inevitável, e igual a todos os humanos pensaram que sua terra e até “o planeta Terra”, eram o centro do mundo e até do cosmos. Somente com a expansão do conhecimento e com a experiência da pluralidade, as pessoas, os povos e as culturas se dão conta de que não são o centro, mas de que há outros centros, e são capazes de amadurecer e de descentralizar de si mesmo reconhecendo a realidade.
Todas as religiões, não somente a nossa, estão desafiadas a entrar neste amadurecimento e este reconhecimento de uma perspectiva panorâmica muito mais ampla que aquela na qual viveram precisamente “toda” sua historia, os vários (ainda que poucos) milênios de sua existência. A religiosidade, a espiritualidade do ser humano, é muito mais ampla e muito mais antiga (dezenas de milênios ao menos) que qualquer de nossas religiões. Dar ao tempo sagrado de nossa religião a centralidade e unicidade cósmica e universal decisiva que costumamos dar, talvez necessite uma reavaliação mais ponderada.
O pensamento religioso mais sereno e maduro se inclina cada dia mais para uma revalorização generosa para as outras religiões e a um aprofundamento do sentido de modéstia e de pluralismo, que não é claudicação diante de nada, mas abertura de coração ao chamado divino que hoje sentimos, vibrante e poderoso, para uma convergência universal que antes não conseguíamos captar. Ocasião oportuna para apresentar esses desafios e para aprofundá-los na homilia, na reunião da comunidade, no grupo de estudo, ou na aula com os alunos, para quem é professor.

Oração
Deus Pai, que em Jesus ofereceste para nós o modelo do que é uma existência humana totalmente voltada ao serviço anônimo e desinteressado. Nós te pedimos que nosso ser cristão nos leve a imitar a Jesus profundamente nesta atitude fundamental. Por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor. Amém!

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Domingo 21.10.12

Marcos 10,35-45
A glória de Jesus se manifesta no coração de que ama e sofre as conseqüências do amor Maria Regina.
A nossa mentalidade humana nos faz também querermos tudo num passe de mágica como quiseram os filhos de Zebedeu, Tiago e João. Na sua ignorância, eles pleiteavam lugar de honra perto de Jesus, na glória dos céus. Jesus, porém os instruiu com a verdade: “quem quiser ser grande seja vosso servo e quem quiser ser o primeiro seja o escravo de todos.” Na Sua sabedoria o Senhor abre os nossos olhos e nos mostra que a nossa caminhada para a glória é via de uma mão só, mas que se depara com a via do nosso irmão que caminha ao nosso encontro. Eu caminho para encontrar a glória de Deus quando estou a serviço do meu irmão.
 O meu irmão também vem ao meu encontro para servir-me e assim caminhamos em busca da glória do céu. A glória nos vem por meio do sofrimento. Estar do lado de Jesus implica no ato de doação e de serviço ao próximo. Precisamos ter cuidado tanto em prestar serviço quanto em nos deixar servir pelos nossos irmãos, porque muitas vezes, pelo orgulho, não queremos aceitar a ajuda daquele que procura nos socorrer, e não o acolhemos, pois achamos que só nós sabemos fazê-lo. A glória de Jesus se manifesta no coração de que ama e sofre as conseqüências do amor. Reflita – Você se tem colocado a serviço do próximo? – Você aceita a ajuda de outras pessoas de boa vontade? – Você vive somente em função das suas “pre”ocupações ou se ocupa também com as necessidades de outras pessoas?
Amém.
Abraço carinhoso.
Maria Regina

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Evangelhos Dominicais Comentados

21/outubro/2012 – 29o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Mc 10, 35-45)


Mais uma vez nos reunimos para meditarmos a Palavra de Deus neste domingo em que celebramos o dia mundial das missões. Para você missionário e missionária, que se coloca a serviço do evangelho, um grande abraço e as nossas orações.

O cristão é um missionário, cuja missão é levar ao mundo inteiro a Boa Nova da Salvação. Os missionários e as missionárias estão sempre presentes junto aos marginalizados. Através dos excluídos, sem esperar nada em troca, servem a Deus.

Sem esperar recompensas aqui, nesta vida, mas na vida eterna certamente serão muito bem recompensados. A Glória Eterna será a recompensa para quem cumprir a sua missão. Jesus prometeu que todos que vivem a sua Palavra têm um lugar garantido no céu.

Sabendo disso, Tiago e João trataram de reservar seus lugares bem próximos ao Mestre, um de cada lado.Veja, tratam-se de dois discípulos, membros de um grupo de doze, e sempre próximos do Mestre. Recebiam orientações de manhã, de tarde e de noite e, mesmo assim, aparecem aqui disputando os primeiros lugares no Reino de Deus. Estavam preocupados em garantir um lugar à esquerda e outro à direita.

E o resto do grupo? Onde iriam sentar-se os outros dez? Onde iria sentar-se o restante da humanidade? Certamente nada disso passou por suas cabeças, estavam preocupados somente consigo próprios. Devemos aproveitar este Evangelho para crescermos, pois é exatamente assim que nos comportamos.

Jesus então esclarece que o Reino de Deus é bem diferente deste nosso mundo. No Reino de Deus estar nos primeiros lugares não significa ter mais poderes, mas sim estar mais disponível. Quanto maior a disponibilidade para servir, quanto mais perto dos necessitados, mais próximo de Jesus se está.

"Aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve, quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos". E Jesus não fica somente nas palavras, ele próprio se coloca como exemplo dizendo: "Eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a minha vida para resgatar a humanidade".

Nascemos para ser santos, Deus nos fez para a santidade. Os santos foram exaltados e, até mesmo, elevados aos altares por sua humildade. Jesus sempre ressaltou a importância da humildade, e a classificou como condição básica para a santificação.

"Jesus manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso!" Nunca é demais repetir esse pedido, pois o humilde será exaltado. Nossa Senhora foi a mais exaltada entre todas as criaturas porque, mesmo sendo a Mãe de Deus, manteve sua humildade e fez-se escrava do Senhor.

Na Quinta-feira Santa, Jesus lavou os pés dos seus discípulos e disse que seu exemplo deveria ser seguido. Lavem os pés uns dos outros, se compreenderem isso e praticarem, vocês serão verdadeiramente felizes. Com isso Jesus quis dizer que, a felicidade é um prêmio para quem vive a humildade.

Como é difícil lavar os pés do irmão e aceitar o último lugar! Não é fácil perdoar, pedir perdão, sentir a sensação de estar sendo rejeitado e deixado de lado. É preciso lembrar que o humilde não vive para si, mas para Deus. Na prática, ser humilde é aceitar morrer para si mesmo. É como o grão de trigo que precisa morrer para produzir frutos.

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Comecemos observando o evangelho. Notemos como os dois irmãos, Tiago e João, se dirigem a Jesus: “Queremos que faças o que vamos pedir”. Isto não é modo de pedir nada ao Senhor, isto não é modo de rezar! Aqui não há humildade, não há abertura para procurar a vontade do Senhor a nosso respeito, mas somente o interesse cego de realizar nossa vontade! Quanta loucura e presunção! Muitas vezes, é assim também que rezamos, com esse tom, com essa atitude! Recordemos a palavra do Apóstolo: “Não sabemos o que pedir como convém” (Rm. 8,26). Somos tão frágeis, tão incapazes de compreender os desígnios de Deus, que nossos pedidos muitas e muitas vezes não são segundo o coração do Senhor e, portanto, não são para o nosso bem!
Como, então, pedir de acordo com a vontade do Senhor? Escutemos ainda São Paulo: “O Espírito socorre a nossa fraqueza. O próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm. 8,26). Eis! É somente quando nos deixamos guiar pelo Santo Espírito do Cristo, que compreendemos as coisas de Deus e pediremos segundo Deus! Nunca compreenderá o desígnio de Deus, quem não pede segundo Deus... e nunca pedirá segundo Deus, quem não se deixa guiar pelo Espírito de Deus! Aqueles dois não pediam segundo Deus, não suplicavam segundo o Reino, mas segundo seus interesses: queriam glória, queriam honra, queriam os primeiros lugares, queriam seus interesses, de acordo com sua lógica e modo de pensar!
A resposta de Jesus demonstra o seu desgosto: “Vós não sabeis o que pedis!” E o Senhor completa com um desafio – que é para os dois irmãos e para todos nós, caros irmãos e irmãs: “Podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” De que cálice, de que batismo Jesus está falando? Do seu sofrimento, do seu caminho de dor e humilhação, pelo qual ele entrará no Reino e o Reino virá a nós: “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará a luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas”. Este é o caminho de Jesus: fazer-se servo humilde e causa de nossa salvação. Isso os discípulos não compreendiam... nem nós compreendemos! Também a nós o Senhor convida a participar do seu batismo e do seu cálice. Escutemos mais uma vez, são Paulo: “Não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova. Porque se nos tornamos uma só coisa com ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma coisa só com ele também por uma ressurreição semelhante à sua” (Rm. 6,3-5). Podeis ser batizados no meu batismo? Estais dispostos a mergulhar vossa vida no meu caminho de morte e ressurreição, morrendo para vós mesmos e buscando a vontade do Pai de todo o coração? Eis o que é ser batizado em Cristo! E nós o fomos! O desafio agora é viver o batismo no qual fomos batizados, tornando-nos, em Cristo, criaturas novas, abertas para a vontade do Pai, como Jesus. E, não somente ser batizado no batismo de Jesus, mas também beber o cálice de Jesus: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor. 11,26); “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?” (1Cor. 10,16). Vejam só: comungar na eucaristia é aprofundar aquilo que já começamos a viver no batismo: fazer da vida uma vida em comunhão com o Senhor na sua morte e ressurreição! Não se pode nem sonhar em ser cristão pensando num caminho diferente, num modo diverso de viver! Tiago e João não tinham compreendido isso; os Doze também não compreenderam; nós, tampouco, compreendemos!
Observem ainda como os dois irmãos são presunçosos: quando Jesus pergunta: “Podeis beber o cálice? Podeis ser batizados?” Eles respondem: “Podemos!” Na ânsia pelos primeiros lugares, no desejo de obterem o que pedem, prometem aquilo que somente com a graça de Deus seriam capazes de prometer! A mesma lógica nossa, nosso mesmo procedimento, tantas vezes! Como Pedro, que, mais tarde dirá: “Darei a minha vida por ti” (Jo. 13,37); e de modo tão presunçoso quanto o dos dois irmãos, exclamará: “Ainda que todos se escandalizem, eu não o farei!” (Mc. 14,29). Pobre Pedro, pobres Tiago e João, pobres de nós! Sem a graça de Deus em Cristo, que poderemos? Vamos nos escandalizar, vamos fugir da cruz, vamos descrer no Senhor, vamos abandonar o caminho! Como não compreendemos a estrada de Jesus! Tudo é graça. Por isso Jesus diz que, ainda que eles bebam o seu cálice e sejam mergulhados no seu batismo, ainda assim, será graça de Deus conceder os primeiros lugares... Não podemos cobrar nada de Deus: “É para aqueles a quem foi reservado!”.
Finalmente, a atitude dos outros Doze, que também buscavam o primeiro lugar e se revoltam contra os dois irmãos! E Jesus chama os Doze e nos chama também a nós, e fala-nos do mundo, com seus jogos de poder, sua ganância, sua hipocrisia e sua mentira... e nos diz: “Entre vós, não deverá ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. Aqui está o modelo do caminho cristão: o Cristo, totalmente abandonado à vontade do Pai, totalmente disponível, totalmente pobre... Ele é o modelo de como devemos viver entre nós e em relação ao Pai: no serviço mútuo, na disponibilidade, na confiança no Pai, no abandono ao seu desígnio a nosso respeito. Somente Jesus poderia rezar com toda a liberdade: “Pai, não o que eu quero, mas o que tu queres!” (Mc. 14,36).
Olhando nossa fraqueza, nossa pouca disponibilidade, olhando quanto na vida buscamos nossos interesses e nossas vantagens, não desanimemos! Sigamos o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Temos um Sumo-sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos! Temos um Sumo-sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pis ele mesmo foi provado em tudo como nós!” Confiemos no Senhor e supliquemos que ele converta o nosso coração, dando-nos seus sentimentos, suas atitudes de doação, serviço e humildade, sua confiança no Pai e, finalmente, a graça de participar daquela glória que no céu ele tem com o Pai e o Espírito Santo. Amém.

Comecemos nossa meditação escutando como Jesus apresenta sua missão: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. Aqui Nosso Senhor sintetiza de modo impressionante tudo quanto veio fazer por nós. Ele é o Filho do Homem, Ben-Adam, isto é, aquele que se fez simples homem frágil, feito um de nós, “capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado”. No misterioso plano do Pai do céu, a nossa salvação tinha de passar pela vinda do Filho, feito pobre homem entre nós, pobres mortais. E não só: toda a humana existência do Filho foi um serviço, um serviço só: “dar a sua vida como resgate para muitos”. Podemos imaginar toda a vida de Jesus, desde a humildade dos nove meses no ventre da Virgem, passando pelos trinta anos de escondido silêncio em Nazaré, pelas andanças, pregações, cansaços, incompreensões, momentos de solidão e de provação... Nada disso foi por acaso, nada disso sem sentido, nada disso sem significado. Era o Senhor dando a vida, era o Senhor nos servindo por uma vida amorosamente entregue ao Pai por nós, humildemente gasta como uma vela que se consome por amor ao mundo. Sua paixão e morte de cruz nada mais foram que a conclusão de uma existência feita toda amor e sacrifício em louvor ao Pai e em benefício dos irmãos!
Com este pensamento, escutemos novamente as impressionantes palavras do Profeta Isaías, falando de Jesus, o Servo Sofredor: “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor”. Vede, meus caros, que a vontade do Pai incluía, de modo misterioso, que nos escapa, essa pobreza, que entrega toda a vida para o perdão dos nossos pecados. Num mundo que por auto-suficiência, por orgulho e cega paixão procura viver a vida do seu modo, pisando no amor de Deus e desprezando seu convite a buscá-lo, o Filho Jesus fez um caminho totalmente inverso: de abaixamento, de amor, de doação, de entrega em nosso favor: “Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita e justificará a muitos”. Foi assim, na obediência, no desapego de si próprio, que Jesus se tornou nosso Sumo-sacerdote, nosso Advogado, nosso Salvador, aquele que nos justifica diante de Deus. É ele quem, nos céus, se compadece de nossas fraquezas e nos dá seu divino auxílio. Ele, com seu sangue, isto é, com sua vida derramada a vida toda, intercede amorosamente por nós e é a garantia da nossa salvação!
Mas, todo este caminho do nosso Salvador, caríssimos, indica-nos a nós um caminho, um modo de viver, um critério de discernimento. Se o nosso olhar se dirige a Jesus, é como ele que devemos caminhar; devemos andar como ele andou, saindo de nós, de nossos projetos de inspiração tão mundana, para abraçar o pensamento e os modos do nosso Mestre e Salvador.
Pensai bem: Qual é a nossa tendência? Qual o nosso primeiro impulso? Aquele dos discípulos: buscar o que nos agrada, procurar os primeiros lugares, ir ao encalço da nossa própria conveniência e comodidade, dar vazão aos nossos prazeres, fazer sempre a nossa vontade... Qual o caminho que o Senhor propõe? Vede que a primeira coisa que ele faz é nos convidar a segui-lo, bebendo na vida o seu cálice e sendo mergulhado cada dia no seu batismo. Em outras palavras: o cristão deve estar disposto a viver sua vida com os mesmos sentimentos de Jesus, isto é, fazer da existência um serviço de amor adorante ao Pai e de entrega aos irmãos. Meus caros, como isso é difícil! É o contrário das nossas tendências, é o inverso do que aprendemos do mundo: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não será assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos”. São palavras que, se levarmos a sério, nos chocam, porque mudam totalmente o nosso modo de pensar e a lógica do nosso coração! E, no entanto, este é o caminho – o único caminho – de Jesus! Na nossa relação com Deus e nas nossas relações com os outros, não pode existir outro modelo, outra medida, outra lógica, que não aquela que o Senhor mesmo nos apresenta com sua existência entregue por nós.
É por isso, meus caros, que ser cristão exige um perene caminho de conversão, de sair de nós do nosso jeito para chegar a nós do jeito de Jesus. Aí, sim, seremos realmente livres, seremos realmente discípulos e encontraremos o gosto verdadeiro da vida! Infelizmente o mundo nos tenta seduzir com o prazer sem limite, com a ânsia do poder, com a ilusão do sucesso, com a ganância do ter, do consumir, do supérfluo... Como ser felizes, meus caros, vivendo na superficialidade? Como encontrar a vida verdadeira, colocando o afeto em bobagens? Como ser livres de verdade sendo escravos de tantas trivialidades? Vede que o Senhor nos indica um caminho não fácil, não comum, trivial, óbvio... Ele nos indica o seu caminho, o único que conduz à vida! E nos promete seu socorro, sua ajuda, como diz a segunda leitura de hoje: Ele é “capaz de s e compadecer de nossas fraquezas”, nele podemos conseguir misericórdia e alcançar um auxílio no momento oportuno...
Coloquemos nossa esperança em Jesus, agarremo-nos a ele, agasalhemo-nos no seu coração pela oração, a escuta da sua Palavra, a contemplação da sua adorável pessoa, a participação nos seus sacramentos! Deixemos de lado a preguiça, a descrença, a pasmaceira espiritual e corramos com ânimo e alegria seguindo o Senhor! E que ele nos faça sentir, desde agora, a felicidade de viver o seu amor e fazer da vida um cântico de amor a ele, que é bendito pelos séculos dos séculos.
dom Henrique Soares da Costa
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O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida.
Ao cobiçar os primeiros lugares, os mais altos cargos e as honras mais elevadas, os dois irmãos, Tiago e João, queriam, na minha opinião, ter autoridade sobre os outros. É por isso que Jesus Se opõe à sua pretensão deles, e põe a nu os seus pensamentos secretos dizendo-lhes: «Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos.» Por outras palavras: Se ambicionais o primeiro lugar e as maiores honras, procurai o último lugar, aplicai-vos a tornar-vos os mais simples, os mais humildes e os mais pequenos de todos. Colocai-vos atrás dos outros. Tal é a virtude que vos trará a honra a que aspirais. Tendes junto a vós um exemplo notável: 'Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por todos' (Mc. 10,45). Eis como obtereis glória e celebridade. Olhai para Mim: Eu não procuro honras nem glória e, no entanto, o bem que faço é infinito.
Bem sabemos que, antes da Encarnação de Cristo e da Sua vinda a este mundo, tudo estava perdido e corrompido; mas, depois de Ele Se ter humilhado, tudo restabeleceu. Aboliu a maldição, destruiu a morte, abriu o paraíso, acabou com o pecado, escancarou as portas do céu para levar para lá as primícias da nossa humanidade. Propagou a fé em todo o mundo. Expulsou o erro e restabeleceu a verdade. Fez subir a um trono real as primícias da nossa natureza. Cristo é o autor de bens infinitamente numerosos, que nem a minha palavra nem nenhuma palavra humana poderiam descrever. Antes da Sua vinda a este mundo só os anjos O conheciam; mas, depois de Ele Se ter humilhado, toda a raça humana O reconheceu.
são João Crisóstomo (c. 345-407)
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Homilia contra o anomeanismo

Aquilo que as delongas do tempo não permitiam conhecer, a fé já o contemplava
A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus e prostrou-se para lhe fazer um pedido (Mt. 20,20). Queres ver a fé desta mulher? Considera o momento em que faz o seu pedido. Quando apresenta sua súplica, quais são as circunstâncias de sua petição? A cruz estava preparada, a paixão se aproximava, a milícia dos judeus já organizara suas fileiras. O Senhor fala de sua morte, os discípulos se agitam à vista da paixão, tremem ao seu anúncio, perturbam-se com o que ouvem, sua coragem vacila. É então que aquela mãe aparece e penetra no meio dos apóstolos. Tenta captar o  favor real, implorando um trono para seus filhos.
Que dizes, mulher? Ouves falar de cruz e pedes um trono? Fala-se de paixão e tu cobiças a realeza? Que os discípulos se entreguem ao medo, que compartilhem suas preocupações ante o perigo. De onde te vem a procura de uma tão grande dignidade? Em tudo o que se disse ou se fez, o que te levou a ambicionar a realeza? A evocação da paixão, a espera da cruz te levam a pretender tais bens? Vejo, disse ela, a paixão, mas, em espírito, percebo a ressurreição. Vejo erguer-se a cruz, mas vejo também abrir-se o céu. Vejo os cravos e contemplo o trono.
Há algum tempo vi uma virgem-mãe grávida de um fruto, não da natureza, mas da graça, e um nascimento que provinha de misterioso desígnio, não de uma união natural. Vi uma estrela que movimentou o Oriente na direção desse nascimento. Ouvi a exclamação de João: Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo (Jo. 1,29). Vi os milagres caírem do céu, tão numerosos como flocos de neve. Vi com que autoridade o Senhor dava ordens, escutei quando ele disse: Também vós havereis de sentar-vos em doze tronos (Mt. 19,28).
Vejo o futuro com os olhos da fé. A mulher antecipa as palavras do ladrão. Na cruz, este dizia: Lembra-te de mim, quando entrares em teu Reino (Lc. 23,42). Ela, antes da cruz, suplica em vista do Reino: Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda (Mt. 20,21).
Ó desejo que supera o sofrimento! Ó desejo inclinado unicamente para a consideração de algo que ainda vem! Aquilo que as delongas do tempo não permitiam conhecer, a fé já o contemplava.
são Basílio de Selêucia
Dos Sermões - Oratio 24 (Patrologia Grega 24, 282-283)
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Quem é cego quer ver. Quem tem olhos não quer enxergar
O texto de hoje traz a discussão dos discípulos pelo primeiro lugar. Pelo jeito, os discípulos continuavam cegos! Enquanto Jesus insistia no serviço e na doação, eles teimavam em pedir os primeiros lugares no Reino, um à direita e outro à esquerda do trono. Sinal da ideologia dominante da época tinha penetrado profundamente na mentalidade dos discípulos. Apesar da convivência de vários anos com Jesus, eles não tinham renovado sua maneira de ver as coisas. Eles olhavam para Jesus com o olhar antigo. Queriam uma retribuição pelo fato de seguir a Jesus. Vamos conversar mais sobre isto.
Comentando
1. Marcos 10,35-37 - O pedido pelo primeiro lugar
Os discípulos não só não entendem, mas continuam com suas ambições pessoais. Tiago e João pedem um lugar na glória do Reino, um à direita e outro à esquerda de Jesus. Querem passar na frente de Pedro! Não entenderam a proposta de Jesus. Estavam preocupados só com os próprios interesses. Isto reflete a briga e as tensões que existiam nas comunidades no tempo de Marcos, e que existem até hoje nas nossas comunidades.
2. Marcos 10,38-40 - A resposta de Jesus
Jesus reage com firmeza: "Vocês não sabem o que estão pedindo!" E pergunta se eles são capazes de beber o cálice que ele, Jesus vai beber e se estão dispostos a receber o batismo que ele vai receber. É o cálice do sofrimento, o batismo de sangue! Jesus quer saber se eles, em vez do lugar de honra, aceitam entregar a vida até a morte. Os dois respondem: "Podemos!" Parece uma resposta da boca para fora, pois, poucos dias depois, abandonaram Jesus e o deixaram sozinho na hora do sofrimento (Mc. 14,50). Eles não têm muita consciência crítica, nem percebem sua realidade pessoal. Quanto ao lugar de honra no Reino ao lado de Jesus, quem o dá é o Pai. O que ele, Jesus, tem para oferecer é o cálice e o batismo, o sofrimento e a cruz.
3. Marcos 10,41-44 - Entre vocês não seja assim
Neste final da sua instrução sobre a cruz, Jesus fala, novamente, sobre o exercício do poder (cf. Mc. 9,33-35). Naquele tempo, os que detinham o poder, não prestavam contas ao povo. Agiam conforme bem entendiam (cf. Mc. 6,17-29). O Império Romano controlava o mundo e o mantinha submisso pela força das armas, e, assim, através de tributos, taxas e impostos, conseguia concentrar a riqueza dos povos na mão de poucos lá em Roma. A sociedade era caracterizada pelo exercício repressivo e abusivo do poder. Jesus tem outra proposta. Ele diz: "Entre vocês não deve ser assim! Quem quiser ser o maior, seja o servidor de todos!" Ele traz ensinamentos contra os privilégios e contra a rivalidade. Inverte o sistema e insiste no serviço como remédio contra a ambição pessoal.
4. Marcos 10,45: O resumo da vida de Jesus
Jesus define a sua missão e a sua vida: "Não vim para ser servido, mas para servir!" Veio para dar sua vida em resgate para muitos. Ele é o Messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (cf. Is. 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). Aprendeu da mãe que disse: "Eis aqui a serva do Senhor!" (Lc. 1,38). Proposta totalmente nova para a sociedade daquele tempo.
Alargando
A fé é uma força que transforma as pessoas
A Boa Nova do Reino anunciada por Jesus era como um fertilizante. Fazia crescer a semente da vida que estava escondida no povo, escondida como fogo em brasa debaixo das cinzas das observâncias sem vida. Jesus soprou nas cinzas e o fogo acendeu, o Reino desabrochou e o povo se alegrou. A condição era sempre a mesma: crer em Jesus.
Mas quando o medo toma conta, a fé desaparece e a esperança se apaga. Na hora da tempestade, Jesus reclamou da falta de fé dos discípulos (Mc. 4,40). Eles não acreditavam, pois tinham medo (Mc. 4,41). Por falta de fé dos moradores de Nazaré, Jesus não pôde fazer aí nenhum milagre (Mc. 6,6). Aquele povo não quis acreditar, porque Jesus não era como eles queriam que ele fosse (Mc. 6,2-3). Foi ainda a falta de fé que impediu os discípulos de expulsar "um espírito mudo" que maltratava um menino doente (Mc. 9,17). Jesus os criticou: "Ó gente sem fé!" (Mc. 9,19). E indicou o caminho para reanimar a fé: "Essa espécie de demônios não pode ser expulsa a não ser pela oração" (Mc. 9,29).
Jesus estimulava as pessoas a ter fé nele e, por conseguinte, a criar confiança em si mesmas (Mc. 5,34.36; 7,25-29; 9,23-29; 10,52; 12,34.41-44). Ao longo das páginas do Evangelho de Marcos, a fé em Jesus e na sua palavra aparece como uma força que transforma as pessoas. Ela faz receber o perdão dos pecados (Mc. 2,5), enfrenta e vence a tempestade (Mc. 4,40), faz renascer as pessoas e aciona nelas o poder de se curar e de se purificar (Mc. 5,34). A fé consegue vencer a própria morte, pois a menina de 12 anos ressuscitou graças à fé de Jairo, seu pai, na palavra de Jesus (Mc. 5,36). A fé faz o cego Bartimeu enxergar de novo: "Tua fé te salvou!" (Mc. 10,52). Se você disser à montanha: "Atire-se ao mar!", ela vai cair no mar, contanto que você não duvide no coração (Mc. 11,23-24). "Para quem tem fé tudo é possível!" (Mc. 9,23). "Tende fé em Deus!" (Mc. 11,22). Pelas suas conversas e ações, Jesus despertava no povo uma força adormecida que o próprio povo não conhecia. Assim, Jairo (Mc. 5,36), a mulher do fluxo de sangue (Mc. 5,34), o pai do menino epilético (Mc. 9,23-24), o cego Bartimeu (Mc. 10,52) e tantas outras pessoas, pela fé em Jesus, fizeram nascer vida nova em si mesmas e nos outros.

O verdadeiro seguidor de Jesus é pessoa justa que oferece como o Cristo, seus dons e sua vida em favor de muitos e não busca a própria glória, mas a do Reino de Deus. Deste modo, neste XXIX domingo do tempo comum, Jesus nos propõe algo difícil: servir, e não buscar ser servidos. A Palavra de Deus nos convida a permanecer firmes na fé e no serviço fraterno e humilde ao povo necessitado.
Neste domingo, vemos que o serviço generoso e gratuito é o referencial do cristão, mas há sempre um risco de preferirmos o prestígio e escolhermos ser servidos. Portanto, a liturgia de hoje nos convida ao compromisso com o projeto de Jesus, que nos dá lição de doação e nos revela sua missão.
Nesse sentido, encontramos em cada um dos três evangelhos sinóticos três "anúncios da Paixão", nos quais Jesus adverte seus discípulos sobre as provações que ele pressente que sobrevirão em Jerusalém, para onde se dirigem.
Em sequência aos segundo e terceiro anúncios, os evangelistas Mateus e Marcos narram a aspiração dos discípulos por usufruírem o poder. Estes evangelistas fazem, assim, um contraste entre o projeto libertador de Jesus, vulnerável à repressão dos poderosos, e a incompreensão desses discípulos apegados à mentalidade de disputa e conquista do poder.
Assim, o episódio narrado no evangelho de hoje vem em seguida ao terceiro anúncio da Paixão. Jesus e os discípulos estão se dirigindo a Jerusalém e o ministério de Jesus se aproxima do fim.
Veja que, depois de cerca de três anos de convívio - outono de 27 à primavera de 30-, os discípulos ainda manifestam incompreensão em relação à novidade de Jesus.
Fato surpreendente é que João, um dos discípulos mais próximos de Jesus, acompanhado de seu irmão, Tiago, manifestam suas aspirações em estarem à direita e à esquerda de Jesus, imaginando que ele assumiria o poder, ou seja: a "glória" em Jerusalém.
Mas para surpresa dos dois, particularmente para João, é que quando Jesus é suspenso na cruz, serão dois marginalizados que estarão à sua direita e à sua esquerda, em duas cruzes.
Diante das pretensiosas e equivocadas reivindicações dos discípulos e das contendas entre eles, Jesus faz uma crítica do exercício do poder neste mundo. Rejeitando, de maneira generalizada, o abuso de poder dos chefes das nações e de seus grandes, Jesus reafirma a novidade do Reino.
Todavia, enquanto a sociedade é dividida entre poderosos opressores e oprimidos explorados, Jesus propõe a conquista da unidade a partir da humildade e do serviço, resgatando-se a vida dos mais excluídos e marginalizados.
Não podemos perder de vista que, na visão judaico-deuteronômica, é pelo castigo e sacrifício que se purificam os pecados. Percebe-se, na primeira leitura, que o profeta Isaías apresenta o povo exilado na Babilônia sob a imagem do "Servo de Javé", e que por seu sofrimento seria justificado e glorificado com o poder, conforme o "projeto do Senhor". Assim também na segunda leitura que, sob esta mesma visão, o sofrimento final de Jesus foi também assim interpretado.
Note que a carta aos Hebreus, a partir da imagem dos sacerdotes que ofereciam os sacrifícios no Templo de Jerusalém, atribui a Jesus ressuscitado o caráter de "eminente sumo sacerdote que atravessou os céus"; esta eminência está no fato de que "Cristo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha" (Hb. 9,14), ao mesmo tempo como sacerdote e vítima. Louvar a cruz de Jesus como instrumento meritório de salvação da humanidade é consequência da doutrina sacrifical do Antigo Testamento.
Esta compreensão não corresponde à realidade do Deus de amor, que tudo cria pelo amor e a todos comunica sua vida divina e eterna pelo amor carinhoso, paterno e materno.
Concluindo, ressaltamos que na encarnação, Deus nos deu seu Filho, Jesus. E o próprio Jesus dedicou sua vida, convivendo com os discípulos e as multidões, para a libertação e o resgate da vida de todos, neste mundo. A vida de Jesus é um testemunho do amor que tudo transforma e gera a vida que permanece para sempre.
diácono Miguel A. Teodoro
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O verdadeiro seguidor de Jesus é pessoa justa que oferece como o Cristo, seus dons e sua vida em favor de muitos e não busca a própria glória, mas a do Reino de Deus. Deste modo, neste XXIX domingo do tempo comum, Jesus nos propõe algo difícil: servir, e não buscar ser servidos. A Palavra de Deus nos convida a permanecer firmes na fé e no serviço fraterno e humilde ao povo necessitado.
Neste domingo, vemos que o serviço generoso e gratuito é o referencial do cristão, mas há sempre um risco de preferirmos o prestígio e escolhermos ser servidos. Portanto, a liturgia de hoje nos convida ao compromisso com o projeto de Jesus, que nos dá lição de doação e nos revela sua missão.
Nesse sentido, encontramos em cada um dos três evangelhos sinóticos três "anúncios da Paixão", nos quais Jesus adverte seus discípulos sobre as provações que ele pressente que sobrevirão em Jerusalém, para onde se dirigem.
Em sequência aos segundo e terceiro anúncios, os evangelistas Mateus e Marcos narram a aspiração dos discípulos por usufruírem o poder. Estes evangelistas fazem, assim, um contraste entre o projeto libertador de Jesus, vulnerável à repressão dos poderosos, e a incompreensão desses discípulos apegados à mentalidade de disputa e conquista do poder.
Assim, o episódio narrado no evangelho de hoje vem em seguida ao terceiro anúncio da Paixão. Jesus e os discípulos estão se dirigindo a Jerusalém e o ministério de Jesus se aproxima do fim.
Veja que, depois de cerca de três anos de convívio - outono de 27 à primavera de 30-, os discípulos ainda manifestam incompreensão em relação à novidade de Jesus.
Fato surpreendente é que João, um dos discípulos mais próximos de Jesus, acompanhado de seu irmão, Tiago, manifestam suas aspirações em estarem à direita e à esquerda de Jesus, imaginando que ele assumiria o poder, ou seja: a "glória" em Jerusalém.
Mas para surpresa dos dois, particularmente para João, é que quando Jesus é suspenso na cruz, serão dois marginalizados que estarão à sua direita e à sua esquerda, em duas cruzes.
Diante das pretensiosas e equivocadas reivindicações dos discípulos e das contendas entre eles, Jesus faz uma crítica do exercício do poder neste mundo. Rejeitando, de maneira generalizada, o abuso de poder dos chefes das nações e de seus grandes, Jesus reafirma a novidade do Reino.
Todavia, enquanto a sociedade é dividida entre poderosos opressores e oprimidos explorados, Jesus propõe a conquista da unidade a partir da humildade e do serviço, resgatando-se a vida dos mais excluídos e marginalizados.
Não podemos perder de vista que, na visão judaico-deuteronômica, é pelo castigo e sacrifício que se purificam os pecados. Percebe-se, na primeira leitura, que o profeta Isaías apresenta o povo exilado na Babilônia sob a imagem do "Servo de Javé", e que por seu sofrimento seria justificado e glorificado com o poder, conforme o "projeto do Senhor". Assim também na segunda leitura que, sob esta mesma visão, o sofrimento final de Jesus foi também assim interpretado.
Note que a carta aos Hebreus, a partir da imagem dos sacerdotes que ofereciam os sacrifícios no Templo de Jerusalém, atribui a Jesus ressuscitado o caráter de "eminente sumo sacerdote que atravessou os céus"; esta eminência está no fato de que "Cristo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha" (Hb. 9,14), ao mesmo tempo como sacerdote e vítima. Louvar a cruz de Jesus como instrumento meritório de salvação da humanidade é consequência da doutrina sacrifical do Antigo Testamento.
Esta compreensão não corresponde à realidade do Deus de amor, que tudo cria pelo amor e a todos comunica sua vida divina e eterna pelo amor carinhoso, paterno e materno.
Concluindo, ressaltamos que na encarnação, Deus nos deu seu Filho, Jesus. E o próprio Jesus dedicou sua vida, convivendo com os discípulos e as multidões, para a libertação e o resgate da vida de todos, neste mundo. A vida de Jesus é um testemunho do amor que tudo transforma e gera a vida que permanece para sempre.
diácono Miguel A. Teodoro
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"O pedido de Tiago e João!”.
Encontramos em cada um dos três evangelhos sinóticos três "anúncios da Paixão", nos quais Jesus adverte seus discípulos sobre as provações que ele pressente que sobrevirão em Jerusalém, para onde se dirigem. Em sequência aos segundo e terceiro anúncios, os evangelistas Mateus e Marcos narram a aspiração dos discípulos por usufruírem o poder. Estes evangelistas fazem, assim, um contraste entre o projeto libertador de Jesus, vulnerável à repressão dos poderosos, e a incompreensão desses discípulos apegados à mentalidade de disputa e conquista do poder. O episódio narrado no evangelho de hoje vem em seguida ao terceiro anúncio da Paixão. Jesus e os discípulos estão se dirigindo a Jerusalém e o ministério de Jesus se aproxima do fim. Depois de cerca de três anos de convívio (outono de 27 à primavera de 30), os discípulos ainda manifestam incompreensão em relação à novidade de Jesus. É João, um dos discípulos mais próximos de Jesus, e seu irmão, Tiago, que manifestam suas aspirações em estarem à direita e à esquerda de Jesus, imaginando que ele assumiria o poder (a "glória") em Jerusalém. Porém, quando Jesus é suspenso na cruz, são dois marginalizados que estão à sua direita e à sua esquerda, em duas cruzes.
Diante das pretensiosas e equivocadas reivindicações dos discípulos e das contendas entre eles, Jesus faz uma crítica do exercício do poder neste mundo. Rejeitando, de maneira generalizada, o abuso de poder dos chefes das nações e de seus grandes, Jesus reafirma a novidade do Reino. Enquanto a sociedade é dividida entre poderosos opressores e oprimidos explorados, Jesus propõe a conquista da unidade a partir da humildade e do serviço, resgatando-se a vida dos mais excluídos e marginalizados.
Na visão judaico-deuteronômica, é pelo castigo e sacrifício que se purificam os pecados. O profeta Isaías (Segundo Isaías) apresenta o povo exilado na Babilônia sob a imagem do "Servo de Javé", que por seu sofrimento seria justificado e glorificado com o poder, conforme o "projeto do Senhor" (primeira leitura). Sob esta mesma visão, o sofrimento final de Jesus foi também assim interpretado. A carta aos Hebreus (segunda leitura), a partir da imagem dos sacerdotes que ofereciam os sacrifícios no Templo de Jerusalém, atribui a Jesus ressuscitado o caráter de "eminente sumo sacerdote que atravessou os céus"; esta eminência está no fato de que "Cristo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha" (Hb. 9,14), ao mesmo tempo como sacerdote e vítima. Louvar a cruz de Jesus como instrumento meritório de salvação da humanidade é consequência da doutrina sacrifical do Antigo Testamento. Esta compreensão não corresponde à realidade do Deus de amor, que tudo cria pelo amor e a todos comunica sua vida divina e eterna pelo amor carinhoso, paterno e materno.
Na encarnação, Deus nos deu seu Filho, Jesus. E o próprio Jesus dedicou sua vida, convivendo com os discípulos e as multidões, para a libertação e o resgate da vida de todos, neste mundo. A vida de Jesus é um testemunho do amor que tudo transforma e gera a vida que permanece para sempre.

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O Filho do Homem veio para dar a sua vida como resgate para muitos.
A primeira leitura de hoje, tomada da segunda parte do livro de Isaías, nos fala da missão do “servo sofredor”, isto é, daquele redentor do povo de Deus que oferece sua vida para ver o nascimento de uma nova possibilidade, de uma nova descendência. Este poema nos fala mais de esperança, de tenacidade e de luta, que de sofrimento passivo ou resignação.
A missão do servo do Senhor não é ver seu corpo destroçado, mas servir de ponte para as novas gerações de crentes que vão se inspirar em seu particular estilo de vida. Por esta razão, a “nova descendência” não se refere, nem ao texto nem a interpretação cristã, aos descendentes biológicos, mas a uma nova geração de pessoas comprometidas com a causa de Deus em favor de seu povo, o povo pobre, dolorido e oprimido.
O Salmo serve de ponte entre a primeira e a segunda leitura, ao recordarmos a palavra de Deus, que se identifica por sua capacidade para ajudar-nos a reconhecer a verdade. Uma verdade que não é um assunto metafísico ou etéreo, mas a encarnação do projeto de Deus na historia por meio da justiça e do direito.
A carta aos Hebreus insiste em um tema que com freqüência nos refunde na memória: a mediação de Jesus para compreender o desígnio de Deus. Se prescindimos dele, do que ele fez e do que ele significa para nós, estaremos esvaziando o cristianismo de sua essência.
Lucas evangelista, o grande cronista da igreja primitiva, cuja memória como santo celebramos precisamente hoje, nos deixou, em dois tomos, uma obra de singular beleza e valor. Em seu evangelho toma o esquema empregado por Marcos e Mateus, porém remonta a primeira etapa de Páscoa para descobrir como o Espírito age sobre a nova criação e suscita um dinamismo profético que constitui, congrega e envia ao novo povo de Deus.
O Evangelista está consciente da imperiosa necessidade de recuperar a memória das ações, palavras e trajetória de Jesus. As jovens gerações se sentiam tentadas por um Jesus que se reduzia a uma idéia, ou a uma resposta simpática de Jesus, porém, ainda que isto tenha sido um bom começo, seria necessário ir à verdadeira fonte dessa historia, que era a vida mesma de Jesus em seu célebre caminho da Galiléia a Jerusalém.
Precisamente um dos ensinamentos de Jesus foi sua capacidade certeira de debelar as ambições de poder que se ocultavam nas aparentemente melhores intenções, como a de marchar com ele para seu destino. Jesus tem essa grande capacidade de confrontar todas as pessoas e a contraluz colocar em evidencia todas essas piruetas que faz a consciência para evadir a vontade de Deus e deixar-se arrastar pelos pseudo-valores da cultura vigente que conduzem à busca desaforada do poder.
O penúltimo domingo de outubro a Igreja católica celebra como o Domingo Mundial das Missões. Muitos dos católicos de mais idade, recordamos que quando fomos alunos saímos, um dia como o de hoje, às ruas, com uma lata nas mãos, para fazer uma coleta econômica em favor das missões. Em algumas sociedades muito católicas, aquilo formou parte de uma paisagem religiosa urbana quase tradicional, que já desapareceu. Deixou-se de fazer... simplesmente por preguiça ou por descuido? Hoje, a perspectiva é mais ampla e nos parece que somos afetados pelas razões clássicas da “secularização” da sociedade. Mas há algo mais: também há razões que se refiram as mesmas “Missões”.
Em um tempo como o que vivemos, marcado radicalmente pelo pluralismo religioso, e marcado também crescentemente pela sua teologia, o sentido do “missionário” e da “universalidade cristã” mudaram profundamente. Até agora, em muitos casos, o missionário era sinônimo de “converter” ao cristianismo (ao catolicismo concretamente em nosso caso) aos “gentios”, e a “universalidade cristã” era sentida como a centralidade do cristianismo: nós éramos a religião central, a (única) querida por Deus e, portanto, a religião-destino da humanidade. Todos os povos (universalidade) estavam destinados a abandonar sua religião ancestral e a fazer-se cristãos (a converter-se)... O “proselitismo” estava justificado; mais, era o melhor que podíamos fazer pela humanidade: o fim justificava os meios.
Tudo isto, logicamente, evoluiu. Compreendemos perfeitamente que as religiões e as culturas (todas, não somente a nossa), viveram, desde as origens, ilhadas, sem sentido de pluralidade. Uma espécie de “efeito ótico” e, ao mesmo tempo, uma certa lei de “psicologia evolutiva” humana fez com que se convertessem a si mesmas, cada uma, como únicas, e como “centrais” (pensando cada uma que eram o centro absoluto da realidade), igual que cada uma que eram o centro absoluto da realidade), igual que cada um de nós, quando crianças, começamos a conhecer a realidade a partir do nosso egocentrismo psicológico inevitável, e igual a todos os humanos pensaram que sua terra e até “o planeta Terra”, eram o centro do mundo e até do cosmos. Somente com a expansão do conhecimento e com a experiência da pluralidade, as pessoas, os povos e as culturas se dão conta de que não são o centro, mas de que há outros centros, e são capazes de amadurecer e de descentralizar de si mesmo reconhecendo a realidade.
Todas as religiões, não somente a nossa, estão desafiadas a entrar neste amadurecimento e este reconhecimento de uma perspectiva panorâmica muito mais ampla que aquela na qual viveram precisamente “toda” sua historia os vários (ainda que poucos) milênios de sua existência. A religiosidade, a espiritualidade do ser humano, é muito mais ampla e muito mais antiga (dezenas de milênios ao menos) que qualquer de nossas religiões. Dar ao tempo sagrado de nossa religião a centralidade e unicidade cósmica e universal decisiva que costumamos dar, talvez necessite uma reavaliação mais ponderada.
O pensamento religioso mais sereno e maduro se inclina cada dia mais para uma revalorização generosa para as outras religiões e a um aprofundamento do sentido de modéstia e de pluralismo, que não é claudicação diante de nada, mas abertura de coração ao chamado divino que hoje sentimos, vibrante e poderoso, para uma convergência universal que antes não conseguíamos captar. Ocasião oportuna para apresentar esses desafios e para aprofundá-los na homilia, na reunião da comunidade, no grupo de estudo, ou na aula com os alunos, para quem é professor.
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Os Filhos de Zebedeu
Tiago e João, os filhos de Zebedeu, foram até ele e disseram-lhe, "Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir". Ele perguntou: "Que quereis que vos faça?". Disseram: "Concede-nos, na tua glória, sentarmo-nos um à tua direita, outro à tua esquerda". Jesus lhes respondeu: "Não sabeis o que estais pedindo. Podeis beber o cálice que eu vou beber e ser batizados com o batismo com que serei batizado?". Eles disseram-lhe: "Podemos". Jesus replicou-lhes: "Do cálice que eu beber, vós bebereis, e com o batismo com que eu for batizado, sereis batizados. Todavia, o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim concedê-lo, mas é para aqueles a quem está preparado".
Ouvindo isso, os dez começaram a indignar-se contra Tiago e João. Chamando-os, Jesus lhes disse: "Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos".
No evangelho de hoje os dois filhos de Zebedeu fazem a Jesus um pedido ambicioso (vv. 35ss.) que lhe dá ocasião para aprofundar e explicitar o tema da sua paixão, associando a ela a sorte de seus discípulos.
No v. 37 Tiago e João, uns dos primeiros a aceitarem o chamado do Mestre, estão convencidos de que possuem algo a mais para ocupar os primeiros lugares nesse reino messiânico glorioso que, segundo a convicção geral dos discípulos, Jesus vai inaugurar em Jerusalém. Apesar dos repetidos anúncios de Jesus, eles ainda cultivam a expectativa terrena da glória e querem conquistar os lugares de honra.
O cálice, o batismo (v. 38). Em muitos textos do antigo testamento e do judaísmo o cálice era metáfora das vertigens e sofrimentos com que Deus provava os pecadores (cf. Jr. 25,15; S1 11,6; 65,9, etc). Jesus usará a mesma imagem (Mc. 14,36). O termo batismo evoca a imersão nas ondas do sofrimento (cf. Lc. 12,50).
"Para aqueles a quem está preparado" (v.40). O Mestre retruca que eles foram chamados sim a participar da sua entronização messiânica, mas não em base a direitos de privilégios humanos, e sim por livre e gratuita iniciativa do Pai.
"Dar a sua vida em resgate por muitos" (v. 45). Jesus parte da indignação humana dos outros discípulos (v. 41), a fim de declarar o estatuto fundamental que deve regular as relações da comunidade eclesial. Ele contesta radicalmente o modelo de autoridade despótico que vigora entre as nações, no mundo pagão; e propõe paradoxalmente, como modelo de autoridade, duas figuras que estão do lado contrário: o servo e o escravo. Esses dois exemplos, porém, não são genéricos. Representam concretamente a escolha de Jesus: para Ele, servir significa ser até o fim obediente e fiel à vontade do Pai, na mesma linha do servo de Javé do Isaías (cf. primeira leitura), que se faz solidário com os homens.
Aceitando a sua morte como ato de amor e libertação dos homens da escravidão do pecado, Jesus entrega à comunidade dos discípulos um modelo de amor supremo que ela é chamada a pôr em prática e prolongar na vida.
padre Fernando Armellini - Celebrando a Palavra
 temas de pregação dos padres dominicanos
Revista “O Mílite”
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Não dominar, mas servir
Reaparece hoje um assunto com o qual já nos encontramos nas páginas do Evangelho. E a ambição dos apóstolos de ocuparem os melhores lugares no reino do Messias. Eram ainda tão imperfeitos! Não descera ainda sobre eles o Espírito Santo. E desta vez Tiago e João vem apresentar explicitamente a Jesus sua pretensão. Vêm acompanhados de sua mãe, Salomé, esposa de Zebedeu. E, na redação de Mateus, é ela própria quem faz o pedido: "Dize que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e outro à tua esquerda no teu reino" (Mt. 20,21). É quase comovedor ver essa humilde mulher do povo pedir para os seus filhos o que lhe parecia ser o melhor para eles. Não estava pensando em
responsabilidades de governo. Estava deslumbrada com a idéia de ver seus filhos sentados nos lugares de mais alta distinção no esplendor da corte. Já os antigos padres sab1am desculpar a audácia dessa mulher, que seguia os impulsos de seu coração materno.
A resposta de Jesus é da mais alta sabedoria: "Não sabeis o que estais pedindo! Podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados no batismo em que eu vou ser mergulhado?" (Mc. 10,38). Eles, na ânsia de ver atendido o que haviam pedido a Jesus, respondem que sim, sem nem bem compreender o alcance das palavras do Mestre. O cálice que Ele ia beber era o cálice dos sofrimentos da Paixão. Embora a palavra "cálice" se encontre usada muitas vezes como imagem para indicar a alegria - aliás, nós mesmos falamos em "taça dos prazeres" - o uso dos profetas consagrou a palavra para dizer de preferência o sofrimento, como quando se referem à taça da ira de Deus (Is. 51,17). Na agonia do Getsêmani, Jesus vai pedir ao Pai que - se possível – afaste dele o amargo cálice da Paixão, colocando, porém, acima de tudo, a vontade do Pai. E Jesus vai beber esse cálice até o fim. Da mesma forma o "batismo" em que Ele vai ser batizado é a imagem do mar de sofrimentos em que vai ser mergulhado.
Tiago e João eram corajosos. Jesus Ihes havia dado até o curioso apelido de "Boanerges" que quer dizer "filhos do trovão" (Mc. 3,17); mas certamente nessa hora não sabiam o que estavam aceitando. Jesus aceitou sua oferta. Tiago morreu decapitado no ano de 44, por ordem de Agripa I. E João, embora tenha vivido mais que todos os apóstolos e tenha morrido no exílio da ilha de Patmos em idade muito avançada, passou também pelos tormentos do martírio. Há em Roma uma igreja dedicada a São João "ante Portam Latinam" - porque fica justamente em frente à porta Latina - onde ele foi mergulhado numa caldeira de óleo fervendo, sobrevivendo só por milagre de Deus. Encontra-se testemunho disso em São Jerônimo e em Tertuliano.
É fácil calcular quanto as pretensões de Tiago e João tenham sido mal recebidas pelos outros apóstolos. Eles se irritaram grandemente contra os dois filhos de Zebedeu. Foi preciso que Jesus os chamasse a todos e fizesse cair sobre eles as palavras de uma alta lição: "Sabeis como procedem os chefes das nações. Tratam-nas como senhores, e seus grandes exercem poder sobre elas. Convosco não há de ser assim. Aquele que quiser ser grande, seja o vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, obedeça a todos os outros". E coroou com esta sublime declaração: "Porque o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc. 10,42-45).
A Igreja guarda essa lição de Jesus com o maior carinho. E todo cristão sincero sabe que não está no mundo para dominar e subjugar os outros. Sabe, inclusive, que, quando ocupa um alto cargo na comunidade, não é para se prevalecer de seu poder, mas para estar a serviço de todos.
Como que para comemorar a bela lição de Jesus, há uma praxe singular na Igreja: Em certos documentos da maior importância, o Papa se intitula "Servo dos servos de Deus". A bula da convocação do Concílio Vaticano, por exemplo, do Papa João XXIII, começa assim: "João, bispo, Servo dos Servos de Deus, para perpétua memória do acontecimento". Somos todos servos de Deus. E o papa quer estar a serviço de todos nós. Autoridade serviço. Isso é cristianismo!
padre Lucas de Paula Almeida, CM
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Partilha tua Fé
No mês de outubro, a Igreja intensifica as atividades para despertar a consciência e a vida missionária. Hoje, promove também a coleta mundial para as Missões, para atividades de promoção humana e evangelização, sobretudo onde as necessidades materiais são mais urgentes. As leituras bíblicas e a mensagem do papa motivam essa realidade.
A 1º leitura apresenta o "Servo de Javé" (Is. 53,10-11).
Isaías apresenta o Messias como uma pessoa insignificante e desprezada pelos homens, através do qual se revela a vida e a salvação de Deus. O Messias não será um rei de grande poder, mas um humilde "servo sofredor".
Cristo, o grande missionário do Pai, "não veio para ser servido, mas para servir".
Na 2ª leitura, Paulo afirma que Cristo foi para nós um grande Sacerdote, mediador entre Deus e os homens, que resgatou com sua morte na cruz e continua intercedendo por nós junto ao Pai (Hb. 4,14-16).
No Evangelho, Jesus educa para a Missão os seus apóstolos, ainda impregnados pelos falsos conceitos de grandeza da época (Mc. 10,35-45). Jesus continua sua caminhada para Jerusalém e, na sua catequese, faz o 3º anúncio da Paixão.
Dois discípulos íntimos de Jesus lhe fazem uma pergunta estranha: "Mestre, faça que nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda, na tua glória".
Os demais apóstolos reagem indignados, pois todos eles tinham as mesmas pretensões. A resposta de Jesus foi taxativa: "Não sabeis o que pedis…"
A procura dos primeiros lugares pelos dois irmãos, e a indignação dos outros dez apóstolos revelam muito bem a mentalidade dos discípulos, que alimentavam sonhos pessoais de grandeza, de ambição e de poder. Jesus convida os discípulos a não se deixarem levar por sonhos de ambição, de grandeza, de poder e domínio, mas a fazerem de sua vida um dom de amor e de "serviço".
E Jesus apresenta seu exemplo: "O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.
Mensagem do papa: «Chamados a fazer brilhar a Palavra da verdade».
Neste ano, a celebração do dia mundial das missões reveste-se dum significado muito particular. A ocorrência do cinqüentenário do início do Concílio Vaticano II, a abertura do Ano da fé e o sínodo dos bispos cujo tema é a nova evangelização concorrem para reafirmar a vontade da Igreja se empenhar, com maior coragem e ardor, na missão, para que o Evangelho chegue até aos últimos confins da terra.
Eclesiologia missionária.
«Os homens, à espera de Cristo, constituem ainda um número imenso»... «Não podemos ficar tranqüilos, ao pensar nos milhões de irmãos, que ignoram ainda o amor de Deus»... Cristo «hoje, como outrora, envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra». E esta proclamação «não é para a Igreja uma contribuição facultativa: é um dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos. Por conseguinte, temos necessidade de reaver o mesmo ímpeto apostólico das primeiras comunidades cristãs, que, apesar de pequenas e indefesas, foram capazes, com o anúncio e o testemunho, de difundir o Evangelho por todo o mundo conhecido de então.
A prioridade da evangelização.
Também hoje a missão deve ser o horizonte constante e o paradigma de toda a atividade eclesial, porque a própria identidade da Igreja é constituída pela fé no Mistério de Deus, que se revelou  em Cristo para nos dar a salvação, e pela missão de O testemunhar e anunciar ao mundo até ao seu regresso.
Fé e anúncio.
O anseio de anunciar Cristo impele-nos também a ler a história para nela vislumbrarmos os problemas, aspirações e esperanças da humanidade que Cristo deve sanar, purificar e plenificar com a sua presença. De fato, a sua Mensagem é sempre atual, e é capaz de dar resposta às inquietações mais profundas de cada homem... Isto exige, antes de mais, uma renovada adesão de fé pessoal e comunitária ao Evangelho de Jesus Cristo. Com efeito, um dos obstáculos ao ímpeto da evangelização é a crise de fé, patente não apenas no mundo ocidental mas também em grande parte da humanidade, que no entanto tem fome e sede de Deus e deve ser convidada e guiada para o pão da vida e a água viva, como a Samaritana que vai ao poço de Jacob e fala com Cristo. (Jo. 4,1-30).
O anúncio faz-se caridade
«Ai de mim, se eu não evangelizar!»: dizia o apóstolo Paulo (1 Cor. 9 16). Esta frase ressoa, com força, aos ouvidos de cada cristão e de cada comunidade cristã em todos os Continentes. Mesmo nas Igrejas dos territórios de missão, Igrejas em grande parte jovens e freqüentemente de recente fundação, já se tornou uma dimensão conatural a missionariedade, apesar de elas mesmas precisarem ainda de missionários.
Queridos irmãos, invoco sobre a obra de evangelização ad gentes, e de modo particular sobre os seus obreiros, a efusão do Espírito Santo, para que a Graça de Deus a faça avançar mais decididamente na história do mundo. Apraz-me rezar assim com o Beato John Henry Newman: «Acompanhai, Senhor, os vossos missionários nas terras a evangelizar, colocai as palavras certas nos seus lábios, tornai frutuosa a sua fadiga». Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja e Estrela da Evangelização, acompanhe todos os missionários do Evangelho.
padre Antônio Geraldo Dalla Costa
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Estamos recordados das palavras do Evangelho do último domingo: “Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? (...) “Vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.”
Aquele homem, incapaz de deixar as suas riquezas, retornou triste. Jesus, pelo contrário, continuou confiante o Seu caminho para Jerusalém na companhia dos discípulos, que O seguiam assustados e cheios de medo (Mc. 10,32). Então anunciou-lhes pela terceira vez, “Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos-sacerdotes e aos doutores da Lei, e eles vão condená-lo à morte e entregá-lo aos gentios. E hão-de escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e matá-lo. Mas, três dias depois, ressuscitará” (Mc. 10,33-34).
No seguimento dessas palavras, Tiago e João dizem: - “Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir. (...) Concede-nos que, na Tua glória, nos sentemos um à Tua direita e outro à Tua esquerda.” Se, no Domingo passado, o homem questionava Jesus sobre o que fazer para ter a vida eterna, hoje, Tiago e João, dando por garantida a sua presença na glória de Jesus, pedem-Lhe um lugar de destaque. Se aquele homem procurava o caminho para a vida eterna, os dois Apóstolos, sem a ele se referirem, disputam ‘lugares’ na vida eterna. “Não sabeis o que pedis” – diz-lhes Jesus.
Que glória desejam os dois Apóstolos? A glória do Pai ou a dos homens? A glória da Vida dada por Jesus ou a do poder e do dinheiro? (cf. Dn. 7,13-14) A glória de Jesus é a Vida do Pai, é a transfiguração da humanidade no esplendor de Amor do Pai (Mc. 9,2-10).
Jesus nunca desejou ou propôs um reino na terra, nem centrou o Seu discurso num futuro desencarnado do presente! Os fariseus pediram-Lhe um sinal do céu, mas Jesus não lhes satisfez as suas intenções (Mc. 8,11-13). Jesus transfigurou-se diante de João, Tiago, e Pedro, mas pediu-lhes que não contassem o que tinham visto, senão depois de ter ressuscitado (Mc. 9,2-10). Alguns saduceus interrogaram-O acerca de quem seria, na ressurreição, a mulher que tivera vários maridos; Jesus respondeu-lhes que quando ressuscitarem, nem eles se casarão, nem elas serão dadas em casamento, mas serão como anjos no Céu (Mc. 12,18-27)O Reino, diz Jesus, consumar-se-á quando o Filho do Homem vier reunir os seus eleitos da extremidade da terra à extremidade do céu (cf. Mc. 13); virá finalmente quando a humanidade num mesmo desejo acolher o Amor!
Esse é o destino de glória que Jesus nos oferece, o reencontro com o Amor que nos criou. Que atitude tomas perante a imensidão desta dádiva? “Nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir.” João e Tiago são incapazes de compreender o valor do dom dado. Jesus veio cumprir a vontade do Pai de elevar a humanidade à Sua glória, enquanto aqueles apóstolos desejam que Jesus cumpra a vontade deles, - um lugar de destaque na glória! Pensam segundo os seus interesses e referências, como se em Deus houvesse lugares de primeira e segunda classe, ou se a glória de Jesus fosse terrena! As suas pretensões provocam a divisão na comunidade.
Os restantes apóstolos, ao escutarem as pretensões de João e Tiago, indignam-se contra eles. Estariam indignados pela incompreensão de Tiago e João, ou por terem semelhantes pretensões? Quantas vezes nos perturbamos com as palavras dos outros quando, sobretudo, colidem com os nossos interesses? Quantas vezes agimos como Jesus?
A atitude de Jesus é bem diferente daquela dos apóstolos: “Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o batismo com que Eu vou ser batizado?”. Eles prontamente responderam que sim, mas estavam longe de O compreender! Beber o cálice de Jesus é viver a radicalidade da Cruz ressuscitada. Receber o Seu batismo é deixar que o Amor habite em nós e no coração do mundo.
Jesus vive em total serenidade, apresenta o Seu terceiro anúncio da Sua paixão, morte, e ressurreição; continua o Seu caminho em direção a Jerusalém; escuta as confusões, a ignorância, e os interesses dos Apóstolos e esclarece-os: a Sua vontade é a vontade do Pai; não há primazias ou reservas na glória; o Seu reino não é desta terra; não promete contrapartidas, nem se serve do Seu poder senão para cumprir a vontade do Pai!
“Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós.” O projeto do Pai não se conforma, de modo nenhum, com a lógica de subjugação, egoísmo, privilégios terrenos, exclusão. “Não deve ser assim entre vós” – diz Jesus.
“Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos.” Assim como Jesus se fez nada aos olhos do mundo e tudo aos olhos do Pai, para que toda a humanidade ficasse sem nada de pecado e cheia do Seu Amor, assim somos chamados a ser nada para o mundo e tudo para o Pai.
Essa foi a experiência de são Francisco. Diante do crucifixo de são Damião abriu totalmente o seu coração à vontade do Pai: ‘Senhor, que queres que eu faça? Senhor, que queres que eu faça?’ Vestiu o pobre leproso, em quem viu Cristo na fragilidade do mundo para a vencer com o Seu amor. Francisco despojou-se totalmente dos poderes terrenos: ‘o meu verdadeiro Pai é o Pai do Céu.’
Que queremos da vida? Quais são as nossas motivações e desejos? Que queremos de Deus? Seguimos a lógica do prestígio, da primazia, do ter, da vaidade, do eu e do meu? Vivemos do Pai, da lógica da humildade, do serviço, da verdade, da comunhão, da fidelidade?
“O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos.” Jesus resgatou-nos, salvou-nos da escravidão do pecado. Enquanto os Apóstolos disputam os primeiros lugares na ilusão duma glória humana, Jesus, o autêntico sumo sacerdote, superando o pecado, insere a humanidade no trono da Sua graça. Essa é a Sua missão, esta é a Sua glória: elevar o homem à sua condição, elevá-lo a Deus.
Podiamos perguntar-nos como é que Jesus, sendo Deus, assumiu o serviço como modo de vida. O servir de Jesus não é serviçal (douleu,w). O Seu servir (diakone,w) serve a redenção do homem à sua condição de Homem junto de Deus. Jesus não se fez humilde, a Humildade é o Seu ser, Jesus não se sujeitou à condição de servo, essa é a Sua condição junto do Pai e dos homens. O Seu servir, coroado na hora da Cruz (Mc. 10,45), é a proposta que faz aos homens (Jo. 12,26) e a mesma que confia aos anjos (Mc. 1,13).
A profunda unidade entre a glória de Jesus e o Seu serviço, em contraste com os interesses de primazia dos Apóstolos, é evidenciada no nosso texto e nos seus paralelos sinópticos. Mateus coloca o pedido na voz da mãe de Tiago e de João, não se refere à glória, mas ao Reino de Jesus, e apresenta praticamente as mesmas palavras de Jesus acerca do serviço (Mt. 20,24-28). Lucas refere-se, em plena Última Ceia, a uma discussão entre os Apóstolos sobre qual deles seria o maior, e à intervenção de Jesus, “o maior entre vós seja o menor, e aquele que governa, como aquele que serve. (...) Eu estou no meio de vós como aquele que serve. (...) Eu disponho do Reino a vosso favor, como meu Pai dispõe dele a meu favor, a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu Reino. E haveis de sentar-vos, em tronos, para julgar as doze tribos de Israel” (Lc. 22,24-30).
João, num relato diferente, apresenta as palavras sobre o serviço no decorrer do lava-pés: “Se Eu vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. (...) “Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. (...) Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna. Se alguém me serve, que me siga, e onde Eu estiver, aí estará também o meu servo. Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo” (Jo. 13).
Uma criança ‘desenhou’ a glória de Jesus, colocou à Sua esquerda a humildade e à direita o serviço e chamou-a de Amor. As palavras de Jesus, nos quatro evangelhos, são explícitas quanto à unidade entre o serviço e a glória, entre a humildade e a consumação do reino. O Bom Jesus chama-nos ao Seu caminho, ao Seu cálice, ao Seu Batismo. Os Apóstolos desejavam outra glória, outro caminho! Apenas o caminho de Jesus eleva a humanidade à glória do Amor. O humilde prospera nas obras do Pai, supera os seus sofrimentos, e salva muitos. O humilde compreende a grandeza de Jesus e segue-O sem medo.
frei Bernardo
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Cristo, o servidor por excelência
Entre as revelações que Jesus fez de sua pessoa e de sua missão não menos significativa sua assertiva: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos” (Mc. 10,45). Sua salvação se estende até os confins da terra através da obra missionária da Igreja. Sua redenção deve chegar a todos os homens.
Paradoxo sublime que só o amor explica, ou seja, Jesus que participa com o Pai e o Espírito Santo da soberania do mundo, é também um servidor de todos, vindo servir até o fim, até dar sua vida pela humanidade. Trata-se do servidor sofredor de Isaías cuja missão foi expiar os pecados como explicou são Paulo. Assim se expressou o apóstolo: “Cristo foi morto pelas nossas faltas segundo a Escritura”. Ele se tornou o Sacerdote dos bens futuros. Entrou no santuário não feito por mãos humanas, mas através de seu próprio sangue para oferecer aos homens uma redenção eterna. Pelo seu sacrifício, como único verdadeiro sacerdote e vítima, Ele apagou as obras mortas das prevaricações humanas e tomou sobre si a dívida devida às rebeliões contra Deus.
Pelo seu martírio abriu as portas do céu e aí faz penetrar os que sabem receber os efeitos deste seu maravilhoso serviço. Este gesto grandioso reintegra a todos no amor do Pai e os faz participantes da vida divina. É por causa desta obra salvífica que o Ser Supremo contempla o homem regenerado, preparando-lhe assim a vida eterna e o colocando em condições de entrar na felicidade sem fim.
Entretanto, como Deus aceitou o serviço de Jesus que se prolonga inclusive na Eucaristia, Pão rompido pela remissão dos pecados e Sangue oferecido pela vida do mundo, Ele nos prepara também para o serviço a exemplo de seu Filho, devendo cada um participar da obra  da evangelização. Cumpre, de fato ao seu discípulo ser um missionário continuando por toda parte o trabalho salvador do Redentor. O bem-aventurado João Paulo II na sua encíclicaRedemptoris Missio lembrou como deve ser intensa a cooperação na atividade missionária, da qual todo batizado é co-responsável. É  esta atitude resultado da maturidade da fé que leva à imitação do divino Servidor. Daí, de acordo com os carismas de cada um, a obrigação de participar das diversas pastorais que oferecem um meio prático de serviço aos irmãos.
É preciso, além disto, o apostolado da oração e do sacrifício pela conversão dos pecadores e nas intenções daqueles que, longe da pátria, se entregam às lides missionárias, procurando levar o Evangelho às regiões mais longínquas da terra. Tudo isto mostra a vitalidade da Igreja, quando há um senso real de serviço ao próximo e uma participação generosa nas atividades eclesiais para que todos estejam nos caminhos da salvação. Não se pode, porém, nunca esquecer que a fidelidade dos batizados é uma condição primordial para que o Evangelho seja anunciado e para que a Igreja possa cumprir sua missão nesta terra.
O serviço que o cristão deve prestar se baseia essencialmente na autenticidade de sua vida, mesmo porque já dizia o padre Antônio Vieira que “palavras sem obras são tiro sem bala: atroam mas não ferem. A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra”. Cabe ao cristão, servidor do Evangelho, pregar Jesus por toda parte, mas lembra o citado Vieira que “o pregar, que é falar, faz-se com a boca; o pregar, que é semear faz-se com as mãos. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras”.
De fato, a mensagem da salvação deve estar autenticada pelo testemunho de vida do discípulo de Cristo. A edificação da Igreja depende do modo como o cristão se comporta na sociedade. Isto significa estar a serviço do reino da justiça, da verdade e da paz. Jesus que veio não para ser servido, mas para servir, quer que seus seguidores sejam seus jardineiros que cuidam daqueles que, sem a ajuda do bom exemplo que alicerça a palavra, não serão flores que perfumem este mundo.
Há no mais profundo de muitos corações, embora sufocados pelas paixões e pelos vícios, o anseio de respirar o amor de Deus. Eles necessitam daqueles que os levarão a contemplar a presença divina, despertando a beleza que há dentro de cada ser humano. Jesus, o servidor por excelência, escolhe cada um de nós para levar seu olhar misericordioso, sua palavra de vida àqueles juntos dos quais vivemos. Esta missão é caminho de esperança para muitos. Como se dizia antigamente no final dos Encontros de Treinamento de liderança cristão, é preciso clamar: “Cristo conta com você, engajado no serviço do Evangelho”. É que é belo ser apóstolo!
cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho
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Liderança é serviço aos irmãos
Era uma vez uma mãe muito pobre. O marido partira para buscar trabalho e nunca mais dera notícias. Sozinha cuidava da filharada. Na dupla jornada, as crianças e a casa, além de lavar e passar roupas para fora, sentia-se fatigada. Mas não desanimava e muito menos reclamava da vida. Seu objetivo era claro e definido. Sentia dentro de si a força da liderança e do poder em fazer dos seus filhos seres humanos bons. Gente significativa que iria fazer a diferença por onde passassem. Ela havia compreendido o verdadeiro sentido do Poder e da Liderança: servir aos seus filhos, cuidando para que se tornassem mais.
Jesus enfrenta, Marcos nos conta no Evangelho deste domingo, dificuldades com o entendimento, por parte dos discípulos, do que seja poder e liderança. Nenhuma novidade, eis que esta confusão se faz presente em meio à humanidade desde sempre.
Confunde-se seus conceitos achando se tratar da postura daquele que se coloca no “topo da pirâmide”. Tem-se por aí a percepção “luxurienta” de poder e liderança como se representassem e, pior ainda, autorizassem o domínio de alguns poucos, vistos como privilegiados, sobre os demais abaixo, em posição subalterna.
É senso comum que ser poderoso, assumindo liderança, resume-se simplesmente à capacidade de ordenar e se ser automaticamente obedecido, independente, inclusive, daquilo que haja sido determinado. Neste sentido a liderança e o poder implicam ter sobre as pessoas a visão manipuladora de “mão de obra” ou “massa de manobra”, prontas a executar, sem reflexão alguma, o que é mandado.
Não é nada disto o Poder e a Liderança (com maiúsculas) devem ser observados desde a planície. São dons de Deus e só encontram sentido quando utilizados de maneira a auxiliar os outros a subirem, com eles, a montanha. O exercício do Poder e da Liderança nada mais é do que fazer com que as pessoas à volta se tornem mais capazes, corajosas e autônomas.
Por isto precisamos bem mais do que buscar exemplos de poder e liderança dentre gente famosa (política, negócios, artes, educação, religião...), é melhor que os procuremos nas vizinhanças. Líder e poderoso é o pai e a mãe que dão asas para que os filhos voem.
Também líder e poderoso é a professora que acredita nos seus alunos, olha-os respeitosa, sabedora de que são capazes de muito mais do que imaginam e por isto é exigente. Desafia-os a se superarem.
Líder e poderoso é o gerente que faz com que sua equipe se mantenha motivada e comprometida com o cumprimento do bom propósito da sua organização. Líder e poderoso enfim é todo aquele que não deixa que se contente com a mediocridade.
Faz com que se busque, incansavelmente, o mais.
É desta verdade que vem nos falar Jesus. A partir da visão equivocada dos filhos de Zebedeu, nos mostra que poderoso e líder é quem serve. Aqui é preciso atenção, eis que como eles, também nos acostumamos a mirar essas palavras sob o prisma do mando. Aquele que quiser ter poder que sirva. Quem desejar ser verdadeiro líder que se ponha a cuidar dos demais.
Servir e cuidar são dois verbos básicos para se compreender o exato sentido do poder e da liderança. Quem desempenha o Poder exerce a autoridade e esta nada mais é do que fazer com que o próximo cresça. Trata-se de apoiá-lo para que se torne maior e mais competente do que é hoje.
Quem tem poder jamais poderá guardá-lo para si próprio. Seu sentido se fará real na media em que busque “empoderar” os demais. Poder pelo poder é tentação vazia. Nada mais é do que o pecado da luxúria. O uso do outro para seu próprio prazer.
Liderança é serviço. O líder é aquele que se põe a cuidar atenciosamente dos próximos. É fazer isto por Amor e não porque espere retribuição daquele que foi servido e cuidado. O líder é o menor e como é difícil assumirmos esta verdade.
Essa inversão dos valores da liderança está já tão arraigado, que é possível não nos darmos conta de que “ministro” não é o grande, mas o menor, o mínimo, aquele que está em prontidão para o serviço dos irmãos.
A liderança se faz no exercício da influência e esta, para ser positiva, precisa se dar na horizontalidade, de igual para igual. Nunca de cima para baixo. Uma boa metáfora para o líder é observá-lo como se fora escada para que o outro suba e vá se tornando mais humano, mais santo.
Fernando Cyrino
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A oferta da vida como ação sagrada
Os textos bíblicos da liturgia deste domingo apresentam o “servo de Deus” que entrega livremente a sua vida como sacrifício expiatório.
A etimologia da palavra “sacrifício” indica uma “ação sagrada”, portanto, relacionada com a realização da vontade divina. O “servo de Deus” para o profeta Isaías Segundo é o povo de Israel exilado na Babilônia. No meio do sofrimento, esse “servo” descobre a missão divina de levar sobre si as dores e transgressões de muitos e não somente de suas próprias faltas. Por meio do seu povo sofredor, Deus realiza seu desígnio de salvação para muitos outros povos (I leitura). As comunidades cristãs vêem nesses textos a prefiguração de Jesus, o “servo sofredor” que veio ao mundo “não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”, como exprime o evangelho de Marcos. Os discípulos devem tomar consciência de que seguem um Messias antitriunfalista e, por isso, devem renunciar a toda ambição de poder e tornar-se servos uns dos outros (Evangelho). Pela entrega de sua vida como sacrifício expiatório, Jesus tornou-se o único e eterno sacerdote, capaz de compadecer-se de nossas fraquezas, pois se fez solidário conosco em tudo, menos no pecado (II leitura). Podemos nos aproximar dele com toda a confiança, pois é fonte de eterna misericórdia e de abundantes graças.
1ª leitura (Is. 53,10-11) - O sofrimento solidário
Esse pequeno texto de Isaías Segundo faz parte do 4º cântico do servo de Deus (52,13-53,12). Os autores elaboram uma nova teologia a partir da realidade dos exilados na Babilônia. Revelam o significado do sofrimento pelo qual passam os oprimidos.
Deus os assumiu como o seu servo amado e deu-lhes uma missão muito especial. Todos vão testemunhar a incrível transformação pela qual Deus faz passar o seu “servo sofredor”.
Até os opressores são obrigados a reconhecer.
Eles diziam a respeito do servo: “Não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar. Era desprezado e abandonado (...), familiarizado com o sofrimento, como pessoa de quem todos escondem o rosto (...); não fazíamos caso nenhum dele. Nós o tínhamos como vítima do castigo, ferido por Deus e
humilhado (...)”. Porém, esses mesmos vão exclamar admirados: “No entanto, eram nossos sofrimentos que ele levava sobre si, eram nossas dores que ele carregava” (53,2-4).
A palavra profética ilumina o sentido que está por trás dos acontecimentos. Deus se revela de modo surpreendente em cada contexto histórico. Quem poderia imaginar que um punhado de gente desprezada e abandonada se transformaria em sujeitos de redenção para muitos, até mesmo para seus opressores que se convertem? É da vontade divina que os pequeninos se tornem veículos de sua graça para o mundo. Essa consciência que vai crescendo no meio dos exilados, com a animação da profecia, os enche de coragem e esperança. O sofrimento passa a ser concebido não mais como castigo divino, mas como desdobramento da atitude de fidelidade à vontade divina. A pessoa justa sofre porque segue os desígnios de Deus e, por isso, contrapõe-se aos planos dos dominantes. Ao invés de fazer o jogo dos vingativos e violentos, assume sobre si as transgressões e dores do povo. Livre e conscientemente oferece sua vida em resgate da justiça para todos. A atitude de fidelidade a Deus com todas as consequências faz do “servo sofredor” um vitorioso sobre a maldade do mundo. Não só isso. Porque ele oferece a sua vida como sacrifício expiatório garantirá o triunfo do plano de Deus, que é a vida em plenitude para todos.
Evangelho (Mc. 10,35-45) - Jesus, o servo sofredor
As comunidades cristãs primitivas enfrentaram, como acontece nas comunidades de hoje, diversos conflitos internos. Um deles referia-se à disputa de poder entre as lideranças. Competições, ciúmes e invejas se manifestam também entre os cristãos. São manifestações que contradizem o ensinamento e a prática de Jesus. Um dos objetivos do evangelho de Marcos é “voltar às fontes” originais da fé em Jesus Cristo. Os seus autores procuram recuperar a memória de Jesus de Nazaré a fim de que os cristãos permaneçam fiéis ao seu projeto e não se deixem contaminar pela ideologia de poder.
Já se passaram aproximadamente quarenta anos após a morte e ressurreição de Jesus. A maioria das testemunhas oculares de Jesus histórico já morreu. A segunda geração de cristãos, diante de novos desafios, necessita de orientações sólidas. Para isso, nada melhor do que ver e ouvir de novo o que Jesus fez e disse.
O evangelho de Marcos concebe a viagem de Jesus com seus discípulos – da Galileia até Jerusalém (8,22-10,52) – como um caminho pedagógico. Nessa viagem, Jesus se preocupa, de maneira especial, em abrir os olhos dos discípulos para que compreendam que tipo de Messias ele é. Não basta confessar publicamente que Jesus é o Cristo, como fez Pedro em nome de todos (8,29). É necessário superar a ideia de que o Messias seria um líder poderoso prestes a manifestar domínio e glória. De fato, o episódio imediatamente anterior ao texto deste domingo revela que os discípulos carregam a pretensão de tirar proveito do poder que Jesus conquistaria ao entrar na capital. Tiago e João lhe pedem encarecidamente que sejam distinguidos dos demais e possam sentar um à direita e outro à esquerda de Jesus em sua glória. Os demais discípulos ficam indignados contra os dois numa demonstração de divisão interna pela disputa de poder. Jesus os chama e, com paciência e misericórdia, mostra-lhes as atitudes que devem ser renunciadas e as que devem ser praticadas pelos seus verdadeiros seguidores.
Há um jeito de ser que caracteriza os cristãos, totalmente diferente do que é adotado pelos grandes e importantes deste mundo: enquanto estes dominam as nações, os discípulos devem fazer o contrário: “Aquele que quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos”. Os critérios de Jesus subvertem os valores apregoados pela ideologia oficial.
Os seus critérios são os do Reino de Deus.
Somente pelo serviço abnegado de uns aos outros é que se estabelecem as relações sociais de justiça, paz e fraternidade.
Os discípulos ainda não conseguem captar o sentido das palavras de Jesus. Não conseguem imaginar um Messias sem honra e sem privilégios.
Como poderiam seguir um sujeito que escolhe ser servo quando poderia ser rei? Jesus não desiste: nessa caminhada pedagógica, ele anuncia por três vezes que o Messias deverá sofrer e ser morto; ele alerta que para segui-lo é necessário carregar a cruz. Seus ensinamentos são autenticados pelo testemunho concreto de sua vida: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Constata-se aqui uma íntima relação com o “servo sofredor” do profeta Isaías Segundo, conforme a primeira leitura da liturgia deste domingo. Jesus assume sua missão de fidelidade ao plano de salvação de Deus, entregando livremente sua vida. Abandonado e desprezado até pelos seus discípulos, doa-se por inteiro como vítima expiatória. Ele nos resgatou da morte para a vida.
As comunidades de Marcos e as comunidades de hoje são convidadas a analisar suas relações internas à luz do ensinamento e do testemunho de Jesus. Não há argumentos que possam justificar atitudes de superioridade de uns sobre os outros. As funções ou cargos necessários para dinamizar a evangelização não podem ser usados para benefícios e privilégios pessoais. No seguimento de Jesus, não há lugar para “grandes” e sim para “servidores”; não há lugar para “primeiros” e sim para “servos de todos”.
2º leitura (Hb. 4,14-16) - Jesus solidário com nossas fraquezas
O texto de Hebreus aprofunda o tema do sacerdócio de Jesus Cristo. Os interlocutores certamente conhecem o sistema sacerdotal do judaísmo em que o sumo sacerdote exercia a função de mediador entre Deus e a comunidade, entrando uma vez por ano no Santo dos Santos (o lugar mais sagrado do templo de Jerusalém) para realizar o rito de purificação dos pecados em nome de todo o povo. Agora é Jesus o único mediador entre Deus e a humanidade. Não há mais necessidade de ofertas e sacrifícios nem no templo nem em qualquer outro lugar. Jesus mesmo se ofereceu em sacrifício, uma vez por todas, como expiação por todos os nossos pecados.
Ele veio inaugurar a nova e definitiva Aliança.
Com sua ascensão, Jesus atravessou os céus e encontra-se junto de Deus Pai, onde exerce o seu sacerdócio eterno em favor de toda a humanidade. Tendo ele assumido a condição humana, experimentou em seu próprio corpo os limites e as fraquezas próprios de cada pessoa. Em tudo se fez igual a nós, menos no pecado. Fez-se solidário com os nossos
sofrimentos até à morte. Foi incompreendido, perseguido, maltratado, abandonado e condenado como um marginal desprezível. Como “servo sofredor”, carregou sobre si as dores da humanidade, garantindo a redenção para todos, também para os que o crucificaram.
Ora, se Jesus foi tão radicalmente solidário com os seres humanos, cada um de nós pode aproximar-se dele sem nenhum receio, com total confiança. Ele nos compreende perfeitamente e sabe compadecer-se de nossas fraquezas. Ele é a fonte de graças e pleno de misericórdia. Seu sacerdócio é permanente e eficaz.
Os autores da carta aos Hebreus transmitem às comunidades cristãs, formadas principalmente por judeus convertidos, a convicção de que estão vivendo um novo tempo. Por isso, mesmo em situação de sofrimento, devem permanecer firmes na profissão de fé e aproximar-
se de Jesus com toda a confiança para receber a ajuda oportuna. Os cristãos podem caminhar na certeza do amor sem limites de Deus, revelado no sacrifício (= ação sagrada) expiatório de Jesus.
Pistas para reflexão
– Somos servos e servas de Deus. O povo de Israel, no exílio da Babilônica, animado pela ação profética, descobre sua vocação de ser “servo de Deus”. O sofrimento em que se encontra não é mais motivo de desânimo ou tristeza. Assumido livremente numa nova dimensão de fé, torna-se o meio pelo qual o povo percebe a presença amorosa de Deus que lhe oferece uma missão especial: carregar as dores e as transgressões do mundo. Através do seu “servo sofredor”, Deus irradia sua misericórdia e manifesta sua salvação a toda a humanidade. A partir dessa “teologia do servo sofredor”, podemos refletir sobre como Deus se revela hoje através das pessoas excluídas.
– Seguir a Jesus com sinceridade. O Evangelho de hoje chama a atenção para as influências que as ideologias de poder podem exercer sobre nós. Seguir a Jesus é renunciar à busca de fama e de prestígio e tornar-se servidor. Rompendo com toda forma de poder e assumindo a condição de servo, Jesus nos resgatou para a vida e abriu o caminho para uma sociedade justa e fraterna. Nossa prática cotidiana corresponde ao testemunho de Jesus?
– Jesus fez-se solidário conosco. Ele conhece nossas fraquezas. Podemos contar sempre com sua misericórdia. Ele é o único e eterno sacerdote que se oferece para que tenhamos vida em plenitude. A carta aos Hebreus nos alerta: “Permaneçamos firmes na profissão de fé”. Podemos caminhar com segurança nos passos de Jesus, oferecendo a nossa vida, com liberdade e consciência, na prática do amor e da justiça.
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Jesus veio para servir e dar sua vida
Podemos gostar de crucifixos de marfim, com gotas de sangue em rubis, como era a moda nas mansões coloniais do século XVIII. Mas não gostamos de um homem diminuído, quebrado, mutilado, ofensa à humanidade. Ora, Deus gosta – não por sadismo (como se precisasse de castigar alguém), mas por verdadeiro amor, que é comunhão, pois se reconhece no justo que foi esmagado por causa da justiça. Num só justo assim, Deus mesmo assume a dívida de muitos, de todos. Os judeus aprenderam isso no exílio babilônico. Não se sabe quem foi o justo torturado pelos ímpios, do qual fala Is. 52,13-53,12 (1ª leitura), mas sabemos o que Israel dele aprendeu: enquanto diante dele cobriam o rosto, aprenderam que ele carregou os pecados do povo e morreu por eles.
Como é possível isso? “Chorarão sobre aquele que traspassaram” (Zc.12,10). Parece que a humanidade precisa ver em alguém o resultado de sua malícia, para dela se arrepender. As reivindicações sociais só são concedidas depois de algumas (ou muitas) mortes. Os movimentos de emancipação só vencem quando há mártires. Infeliz humanidade, que só aprende de suas vítimas. Por isso é que Deus ama os que são vitimados. Não porque goste de vingança e sangue, mas porque eles são os seus melhores profetas, seus porta-vozes. Ele se identifica com eles, exalta-os, inclusive, na própria veneração do povo, que, venerando-os, se arrepende de suas faltas e por eles é perdoado e verdadeiramente libertado. Deus ama duplamente o justo sacrificado: a primeira vez, por ser justo e testemunhar a justiça; a segunda, porque seu sangue leva os outros à justiça.
O justo padecente é o modelo conforme o qual Jesus concebe sua missão (evangelho). Entretanto, os seus melhores discípulos pretendem reservar-se os lugares de honra no Reino (Mt.19,16ss abranda a situação, dizendo que foi a mãe deles que o pediu … ). Jesus então lhes ensina que tais pretensões cabem aos poderosos deste mundo, mas não têm vez no Reino de Deus. No Reino de Deus se deve beber o cálice de Jesus, receber o batismo que ele recebe – e os discípulos, sem entender o que Jesus quer dizer, confirmam que eles farão isso. Como, de fato, o fizeram, depois que o exemplo de Jesus lhes ensinara o que estas figuras significavam.
O “poder” no Reino de Deus consiste no servir. O amor só tem poder enquanto ele é doado e se coloca a serviço. Para atingir o coração (e a Deus interessa só isso) é preciso penetrar até o nível da liberdade da pessoa. Ninguém ama por constrangimento. A liberdade surge quando alguém pode tomar ou não tomar determinada decisão. Diante da força que se impõe, não há liberdade. Diante do serviço de alguém que se toma submisso a mim, posso decidir alguma coisa. Por isso, Jesus quer estar a serviço, para que se possa livremente decidir que “reino” se prefere.
Servir é ser pequeno. Ministro (servo) tem a ver com mínimo. Frente ao pequeno, o homem revela o que tem no seu coração: bondade ou sede de poder. Jesus quis ser pequeno, para que os corações se revelassem, não tanto a ele e Deus, que os conhece, mas a si mesmos, pois o maior desconhecido para mim é meu próprio coração. Assumindo o caminho do paciente testemunho da verdade, divergente das conveniências da sociedade dominante, Jesus se tomou servo e fraco, sempre exposto e sem defesa. Tornou-se cordeiro (cf. Is. 53,7). O resultado só podia ser o que de fato aconteceu. Foi eliminado, e até seus discípulos tiveram vergonha dele. Mas, muito mais do que no caso do justo de Is 53, Jesus tomou-se “pedra de toque” dos corações e da sociedade toda, com suas estruturas e tudo.
Esta é a mensagem que Mc nos deixa entrever a partir do 3° anúncio da Paixão (Mc. 10,32-34; estes versículos poderiam ser incluídos na leitura, para mostrar melhor que as palavras sobre o servir não são apenas uma crítica aos filhos de Zebedeu, mas uma interpretação do caminho do Cristo).
A 2ª leitura cabe bem neste contexto litúrgico. Embora a figura do sacerdote não seja exatamente a do Servo, entendemos perfeitamente que é o Cristo-Servo que, pela fidelidade à sua missão, se torna o verdadeiro “santificador”. Hb acentua que exatamente a participação de Jesus nos mais profundos abismos da condição humana – exceto o pecado – o qualifica para ser o melhor sacerdote imaginável. Um sacerdote que não está do outro lado da barra, mas que participa conosco. E, num seguinte passo, dirá ainda que este sacerdote não precisa de sacrifícios alheios à nossa condição humana (portanto, meramente simbólicos), mas torna sua própria vida instrumento de salvação.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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A grandeza de servir
O Reino de Deus introduziu nova ordem de relações entre as pessoas, muito diferente da mentalidade do mundo. Para quem é mundano, a grandeza consiste em exercer o domínio sobre as pessoas, e mostrar-se cheio de poder, porque a submissão lhe parece fruto do medo. O serviço prestado ao tirano não resulta de um ato amoroso, mas revela-se uma pesada obrigação.
O Reino, pelo contrário, segue na direção oposta. O domínio transforma-se em serviço. O dominado assume a feição do irmão a quem se deve amar e servir. O poder não é utilizado para oprimir, antes, para libertar. A relação de escravidão transforma-se em relação de fraternidade. A grandeza, portanto, para o discípulo do Reino não consiste em ser servido, mas em servir e oferecer a própria vida para que o outro possa crescer.
Foi por esta razão que Jesus convidou Tiago e João a mudarem de mentalidade e pensarem segundo os critérios do Reino. O pedido que fizeram ao Mestre talvez escondesse o desejo de exercerem poder sobre os demais companheiros de discipulado, numa espécie de dominação. Pretendiam ocupar um lugar de destaque junto de Jesus, para usufruir do poder. Jesus denunciou esta maneira errada de pensar.
O discípulo deve espelhar-se nele, enviado pelo Pai para colocar-se a serviço da humanidade e dar a vida pela salvação de todos. Esta é a sua grandeza!
padre Jaldemir Vitório
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Crítica ao exercício do poder
Encontramos em cada um dos três evangelhos sinóticos (Mt. Mc. Lc.) três "anúncios da Paixão", nos quais Jesus adverte seus discípulos sobre as provações que ele pressente que sobrevirão em Jerusalém, para onde se dirigem. Em sequência aos segundo e terceiro anúncios, os evangelistas Mateus e Marcos narram a aspiração dos discípulos por usufruírem o poder. Estes evangelistas fazem, assim, um contraste entre o projeto libertador de Jesus, vulnerável à repressão dos poderosos, e a incompreensão desses discípulos apegados à mentalidade de disputa e conquista do poder. O episódio narrado no evangelho de hoje vem em seguida ao terceiro anúncio da Paixão. Jesus e os discípulos estão se dirigindo a Jerusalém e o ministério de Jesus se aproxima do fim. Depois de cerca de três anos de convívio (outono de 27 à primavera de 30), os discípulos ainda manifestam incompreensão em relação à novidade de Jesus. É João, um dos discípulos mais próximos de Jesus, e seu irmão, Tiago, que manifestam suas aspirações em estarem à direita e à esquerda de Jesus, imaginando que ele assumiria o poder (a "glória") em Jerusalém. Porém, quando Jesus é suspenso na cruz, são dois marginalizados que estão à sua direita e à sua esquerda, em duas cruzes.
Diante das pretensiosas e equivocadas reivindicações dos discípulos e das contendas entre eles, Jesus faz uma crítica do exercício do poder neste mundo. Rejeitando, de maneira generalizada, o abuso de poder dos chefes das nações e de seus grandes, Jesus reafirma a novidade do Reino. Enquanto a sociedade é dividida entre poderosos opressores e oprimidos explorados, Jesus propõe a conquista da unidade a partir da humildade e do serviço, resgatando-se a vida dos mais excluídos e marginalizados.
Na visão judaico-deuteronômica, é pelo castigo e sacrifício que se purificam os pecados. O profeta Isaías (segundo Isaías) apresenta o povo exilado na Babilônia sob a imagem do "Servo de Javé", que por seu sofrimento seria justificado e glorificado com o poder, conforme o "projeto do Senhor" (primeira leitura). Sob esta mesma visão, o sofrimento final de Jesus foi também assim interpretado. A carta aos Hebreus (segunda leitura), a partir da imagem dos sacerdotes que ofereciam os sacrifícios no Templo de Jerusalém, atribui a Jesus ressuscitado o caráter de "eminente sumo sacerdote que atravessou os céus"; esta eminência está no fato de que "Cristo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha" (Hb. 9,14), ao mesmo tempo como sacerdote e vítima. Louvar a cruz de Jesus como instrumento meritório de salvação da humanidade é consequência da doutrina sacrifical do Antigo Testamento. Esta compreensão não corresponde à realidade do Deus de amor, que tudo cria pelo amor e a todos comunica sua vida divina e eterna pelo amor carinhoso, paterno e materno.
Na encarnação, Deus nos deu seu Filho, Jesus. E o próprio Jesus dedicou sua vida, convivendo com os discípulos e as multidões, para a libertação e o resgate da vida de todos, neste mundo. A vida de Jesus é um testemunho do amor que tudo transforma e gera a vida que permanece para sempre.
José Raimundo Oliva
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A liturgia do 29º domingo do tempo comum lembra-nos, mais uma vez, que a lógica de Deus é diferente da lógica do mundo. Convida-nos a prescindir dos nossos projetos pessoais de poder e de grandeza e a fazer da nossa vida um serviço aos irmãos. É no amor e na entrega de quem serve humildemente os irmãos que Deus oferece aos homens a vida eterna e verdadeira.
A primeira leitura apresenta-nos a figura de um “Servo de Deus”, insignificante e desprezado pelos homens, mas através do qual se revela a vida e a salvação de Deus. Lembra-nos que uma vida vivida na simplicidade, na humildade, no sacrifício, na entrega e no dom de si mesmo não é, aos olhos de Deus, uma vida maldita, perdida, fracassada; mas é uma vida fecunda e plenamente realizada, que trará libertação e esperança ao mundo e aos homens.
No Evangelho, Jesus convida os discípulos a não se deixarem manipular por sonhos pessoais de ambição, de grandeza, de poder e de domínio, mas a fazerem da sua vida um dom de amor e de serviço. Chamados a seguir o Filho do Homem “que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida”, os discípulos devem dar testemunho de uma nova ordem e propor, com o seu exemplo, um mundo livre do poder que escraviza.
Na segunda leitura, o autor da Carta aos Hebreus fala-nos de um Deus que ama o homem com um amor sem limites e que, por isso, está disposto a assumir a fragilidade dos homens, a descer ao seu nível, a partilhar a sua condição. Ele não Se esconde atrás do seu poder e da sua onipotência, mas aceita descer ao encontro homens para lhes oferecer o seu amor.
1º leitura: Is. 53,10-11 - Ambiente
O nosso texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is. 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anônimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilônia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C.
A missão do Deutero-Isaías é consolar os exilados judeus. Nesse sentido, ele começa por anunciar a iminência da libertação e por comparar a saída da Babilônia ao antigo êxodo, quando Deus libertou o seu Povo da escravidão do Egito (cf. Is. 40-48); depois, anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is. 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is. 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de uma personagem misteriosa e enigmática, que os biblistas designam como o “Servo de Jahwéh”: ele é um predileto de Jahwéh, a quem Deus chamou, a quem confiou uma missão profética e a quem enviou aos homens de todo o mundo; a sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra; o sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo; Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.
O texto que nos é proposto é parte do quarto cântico do “servo de Jahwéh”. Nele, porém, o “Servo” não fala; quem proclama este “cântico” parece ser um coro, que percebeu, no aparente sem sentido da vida do “Servo”, um profundo significado à luz da lógica de Deus.
Mensagem
A primeira parte do nosso texto (vs. 2-3) apresenta-nos o “Servo de Jahwéh”. Não se diz quem é ele, quais são os seus pais, qual é a sua terra. É uma figura anônima, sem história, obscura, ignorada, insignificante à luz dos critérios humanos. Recorrendo à imagem vegetal, o profeta compara-o a uma raiz crescida no deserto, marcada pela aridez do ambiente circundante, sem beleza e sem características que atraiam o olhar ou a atenção dos homens (v. 2). Mais: é uma figura desprezada e abandonada pelos homens, que vêem o seu sofrimento como um castigo de Deus e que tapam o rosto diante dele para não se contaminarem (vers. 3). Numa época em que o sofrimento é sempre visto como castigo pelo pecado, o notório sofrimento desse “Servo” devia aparecer, aos olhos dos seus concidadãos, como o castigo de Deus para faltas particularmente graves…
À luz dos critérios de avaliação usados pelos homens, o “Servo” é um fracassado, um vencido, um ser trágico, abandonado por Deus e desprezado pelos homens. Seguramente, ele nunca será contado entre os grandes, os vencedores, aqueles que têm um papel preponderante na construção do mundo e da história.
À luz da lógica de Deus, porém, a existência do “Servo” não é uma existência insignificante, perdida, sem sentido… O sofrimento que o atingiu ao longo de toda a existência não é num castigo de Deus por causa dos seus pecados pessoais, mas um sacrifício de reparação que justificará os pecados de muitos. A palavra “reparação” aqui utilizada pelo Deutero-Isaías é um termo cúltico por excelência. Refere-se a um ritual sacrificial através do qual o crente vétero-testamentário oferecia um animal em sacrifício e, por essa oferta, alcançava de Deus o perdão para os seus pecados. Ao dizer que o sofrimento do “Servo” é um sacrifício de reparação, o profeta está a dizer que esse sofrimento não é, nem um castigo, nem uma inutilidade; mas é um sofrimento que servirá para eliminar o pecado e para gerar vida nova para toda a comunidade do Povo de Deus (os muitos de que fala o texto). Ao abençoar o seu “Servo”, ao dar-lhe “uma posteridade duradoura”, uma “vida longa” (v. 10) e a possibilidade de “ver a luz” (v. 11), Deus garante a verdade e a autenticidade da vida do “Servo”.
Dito por outras palavras: o autor deste texto está convencido de que uma vida vivida na simplicidade, na humildade, no sacrifício, na entrega e no dom de si mesmo não é, aos olhos de Deus, uma vida maldita, perdida, fracassada; mas é uma vida fecunda e plenamente realizada, que trará libertação, verdade, esperança e amor ao mundo e aos homens.
Os primeiros cristãos, impressionados pela beleza e pela profundidade deste texto, utilizaram-no frequentemente para procurar compreender a figura de Jesus, que “morreu pela salvação do povo”. Em Jesus, esta enigmática figura do “Servo de Jahwéh” alcançou o seu pleno significado.
Atualização
•O nosso texto mostra, uma vez mais, como os valores de Deus e os valores dos homens são diferentes. Na lógica dos homens, os vencedores são aqueles que tomam o mundo de assalto com o seu poder, com o seu dinheiro, com a sua ânsia de triunfo e de domínio, com a sua capacidade de impor as suas idéias ou a sua visão do mundo; são aqueles impressionam pela forma como vestem, pela sua beleza, pela sua inteligência, pelas suas brilhantes qualidades humanas… Na lógica de Deus, os vencedores são aqueles que, embora vivendo no esquecimento, na humildade, na simplicidade, sabem fazer da própria vida um dom de amor aos irmãos; são aqueles que, com as suas atitudes de serviço e de entrega, trazem ao mundo uma mais valia de vida, de libertação e de esperança. Qual destes dois modelos faz mais sentido para mim? Quando, no dia a dia, tenho de estabelecer as minhas prioridades e de fazer as minhas escolhas, deixo-me conduzir pela lógica de Deus ou pela lógica dos homens? Quem são as pessoas que eu admiro, que eu tenho como modelos, que me impressionam?
• Onde está Deus? Onde podemos encontrar o seu rosto, as suas propostas, os seus apelos e desafios? Apresentando-nos a figura desse “Servo” insignificante e desprezado pelos homens, mas através do qual se revela a vida e a salvação de Deus, o nosso texto lembra-nos que Deus, seguindo a sua lógica muito própria vem, tantas vezes, ao nosso encontro na pobreza, na pequenez, na simplicidade, na fragilidade, na debilidade… Conscientes desta realidade, poderemos perceber a presença de Deus a nosso lado nos pequenos gestos que todos os dias testemunhamos e que nos dão esperança, nas coisas simples e banais que nos enchem o coração de paz, nas pessoas humildes que o mundo despreza e marginaliza, mas que são capazes de gestos impressionantes de serviço, de partilha, de doação, de entrega… Não nos deixemos enganar: Deus não está naquilo que é brilhante, sedutor, majestoso, espampanante; Deus está na simplicidade do amor que se faz dom, serviço, entrega humilde aos irmãos.
• Qual o sentido do sofrimento? Porque é que há tantas pessoas boas, honestas, justas, generosas, que atravessam a vida mergulhadas na dor e no sofrimento? Trata-se de uma pergunta que fazemos frequentemente e que o autor do quarto cântico do “Servo” também punha a si próprio. A resposta que ele encontra é a seguinte: o sofrimento do justo não se perde; através dele, os pecados da comunidade são expiados e Deus dará vida e salvação ao seu Povo. Trata-se, sem dúvida, de uma resposta incompleta, parcial, não totalmente satisfatória; mas encontra-se já nesta resposta a convicção de que, nos misteriosos caminhos de Deus, o sofrimento pode ser uma dinâmica geradora de vida nova. Jesus Cristo demonstrará, com a sua paixão, morte e ressurreição, a verdade desta afirmação.
2º leitura: Hb. 4,14-16 - Ambiente
Já vimos, nos domingos precedentes, que a Carta aos Hebreus se destina a comunidades cristãs em situação difícil, expostas a tribulações várias e que, por isso mesmo, estão fragilizadas, cansadas e desalentadas. Os crentes que compõem essas comunidades necessitam urgentemente de redescobrir o seu entusiasmo inicial, de revitalizar o seu compromisso com Cristo e de apostar numa fé mais coerente e mais empenhada.
Nesse sentido, o autor da “carta” apresenta-lhes o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, cuja missão é pôr os crentes em relação com o Pai e inseri-los nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã. Uma vez comprometidos com Cristo, os crentes devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma, o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar a sua experiência de fé, enfraquecida pela hostilidade do ambiente, pela acomodação, pela monotonia e pelo arrefecimento do entusiasmo inicial.
O texto que nos é proposto está incluído na segunda parte da Carta aos Hebreus (cf. Heb. 3,1-5,10). Aí, o autor apresenta Jesus como o sacerdote fiel e misericordioso que o Pai enviou ao mundo para mudar os corações dos homens e para os aproximar de Deus. Aos crentes pede-se que “acreditem” em Jesus – isto é, que escutem atentamente as propostas que Cristo veio fazer, que as acolham no coração e que as transformem em gestos concretos de vida.
Mensagem
Jesus é, para todos os crentes, o grande sumo-sacerdote que “atravessou os céus” para alcançar misericórdia para todos os crentes (v. 14). A expressão “atravessou os céus” refere-se, naturalmente, à realidade da encarnação: Jesus, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens como sumo-sacerdote, a fim de eliminar o pecado que impedia a comunhão entre os homens e Deus e levar os homens ao encontro de Deus. Aqui evoca-se o esforço de Deus, através do seu Filho, no sentido de refazer uma comunidade de vida com os homens e de os reconduzir ao encontro da vida eterna e verdadeira.
Diante dessa ação incrível de Deus, fruto do seu amor pelo homem, os crentes devem responder com a fé – isto é, com a aceitação incondicional da proposta de Jesus (“conservemos firme a fé que professamos”). Aderir à proposta de Jesus é reentrar na comunhão com Deus, assumir-se como família de Deus, receber de Deus vida em abundância.
Apesar de ser Filho de Deus, Jesus, o sumo-sacerdote, não é, no entanto, um ser celestial estranho, incapaz de perceber os crentes na sua dramática luta de todos os dias, na sua fragilidade face à perseguição, na sua dificuldade em vencer o confronto com o egoísmo, a acomodação, a preguiça, a monotonia… Ele próprio foi submetido à mesma prova, conheceu a mordedura das mesmas tentações, experimentou as mesmas dificuldades. No entanto, Ele soube sempre manter-Se fiel a Deus e aos seus projetos, mostrando-nos que também nós podemos viver na fidelidade a Deus e às suas propostas (vers. 15).
Nós, os seguidores de Jesus, não estamos numa situação desesperada, apesar das nossas falhas e incoerências. Podemos e devemos aceitar a proposta de Jesus e dirigir-nos a Deus, na certeza de que seremos acolhidos por Ele como filhos muito amados. Graças a Jesus, o sumo-sacerdote que veio ao nosso encontro, que experimentou e entendeu a nossa fragilidade, que restabeleceu a comunhão entre nós e Deus, que nos leva ao encontro de Deus e que nos garante a sua misericórdia, estamos agora numa nova situação de graça e de liberdade. Podemos, com tranquilidade e confiança, sem qualquer medo, aproximar-nos desse “trono da graça” de onde brota a vida eterna e verdadeira. Esta certeza deve ajudar-nos e dar-nos esperança nos momentos mais dramáticos da nossa caminhada pela história (vers. 16).
Atualização
• Em total consonância com as outras leituras deste domingo, o autor da Carta aos Hebreus fala-nos de um Deus que ama o homem com um amor sem limites e que, por isso, está disposto a assumir a fragilidade dos homens, a descer ao seu nível, a partilhar a sua condição. Ele não se esconde atrás do seu poder, da sua autoridade, da sua importância, da sua onipotência; Ele não tem medo de perder a sua dignidade ou as suas prerrogativas divinas quando assume a pobreza, a fragilidade, a debilidade dos homens… Na lógica de Deus, o que é mais importante não é aquele que protege a sua autoridade e a sua importância através de barreiras intransponíveis, mas é aquele que é capaz de descer ao encontro dos últimos, dos desclassificados, dos marginalizados, dos sofredores, para lhes oferecer o seu amor. É esta a lógica de Deus – lógica que somos chamados a compreender, a assumir e a testemunhar.
• Os seguidores de Cristo são, naturalmente, convidados, a assumir o seu exemplo… Assim como Cristo, por amor, vestiu a nossa fragilidade e veio ao nosso encontro, também nós devemos – despindo-nos do nosso egoísmo, da nossa acomodação, da nossa preguiça, da nossa indiferença – ir ao encontro dos nossos irmãos, vestir as suas dores e fragilidades, fazer-nos solidários com eles, partilhar os seus dramas, lágrimas, sofrimentos, alegrias e esperanças. Não podemos, do alto da nossa situação cômoda, limpa, arrumada, decidir que não temos nada a ver com o sofrimento do mundo ou com a carência que aflige a vida de um nosso irmão. Somos sempre responsáveis pelos irmãos que conosco partilham os caminhos deste mundo, mesmo quando não os conhecemos pessoalmente ou mesmo que deles estejamos separados por fronteiras geográficas, históricas, étnicas ou outras.
• Ao assegurar-nos que nada temos a temer pois Deus ama-nos, quer integrar-nos na sua família e oferecer-nos vida em abundância, o nosso texto convida-nos a encarar a vida e os seus caminhos com serenidade e confiança. Os cristãos são pessoas serenas e com o coração em paz. Estão conscientes de que as suas fragilidades e debilidades não os afastam, nunca, de Deus e do seu amor.
Evangelho: Mc. 10,35-45 - Ambiente
Continuamos a percorrer, com Jesus e com os discípulos, o caminho para Jerusalém. Marcos observa que, nesta fase, Jesus vai à frente e os discípulos seguem-n’O “cheios de temor” (cf. Mc. 10,32). Haverá aqui alguma má vontade dos discípulos, por causa das últimas polemicas e das exigências radicais de Jesus? Este “temor” resultará do fato de Jesus se aproximar do seu destino final, em Jerusalém, destino que o grupo não aprova? Seja como for, Jesus continua a sua catequese e, mais uma vez (é a terceira, no curto espaço de poucos dias), lembra aos discípulos que, em Jerusalém, vai ser entregue nas mãos dos líderes judaicos e vai cumprir o seu destino de cruz (cf. Mc. 10,33-34). Desta vez, não há qualquer reação dos discípulos.
Já observamos, no passado domingo, que o caminho percorrido por Jesus e pelos discípulos é, além de um caminho geográfico, também um caminho espiritual. Durante esse caminho, Jesus vai completando a sua catequese aos discípulos sobre as exigências do Reino e as condições para integrar a comunidade messiânica. A resposta dos discípulos às propostas que Jesus lhes vai fazendo nunca é demasiado entusiasta.
O texto que nos é proposto desta vez demonstra que os discípulos continuam sem perceber – ou sem querer perceber – a lógica do Reino. Eles ainda continuam a raciocinar em termos de poder, de autoridade, de grandeza e vêem na proposta do Reino apenas uma oportunidade de realizar os seus sonhos humanos.
Mensagem
Na primeira parte do nosso texto (vs. 35-40), apresenta-se a pretensão de Tiago e de João, os filhos de Zebedeu, no sentido de se sentarem, no Reino que vai ser instaurado, “um à direita e outro à esquerda” de Jesus. A questão nem sequer é apresentada como um pedido respeitoso; mas parece mais uma reivindicação de quem se sente com direito inquestionável a um privilégio. Certamente Tiago e João imaginam o Reino que Jesus veio propor de acordo com Dn. 7,13-14 e querem assegurar nesse Reino poderoso e glorioso, desde logo, lugares de honra ao lado de Jesus. O fato mostra como Tiago e João, mesmo depois de toda a catequese que receberam durante o caminho para Jerusalém, ainda não entenderam nada da lógica do Reino e ainda continuam a refletir e a sentir de acordo com a lógica do mundo. Para eles, o que é importante é a realização dos seus sonhos pessoais de autoridade, de poder e de grandeza.
Uma vez mais Jesus vê-se obrigado a esclarecer as coisas. Em primeiro lugar, Jesus avisa os discípulos de que, para se sentarem à mesa do Reino, devem estar dispostos a “beber o cálice” que Ele vai beber e a “receber o batismo” que Ele vai receber. O “cálice” indica, no contexto bíblico, o destino de uma pessoa; ora, “beber o mesmo cálice” de Jesus significa partilhar esse destino de entrega e de dom da vida que Jesus vai cumprir. O “receber o mesmo batismo” evoca a participação e imersão na paixão e morte de Jesus (cf. Rm. 6,3-4; Cl. 2,12). Para fazer parte da comunidade do Reino é preciso, portanto, que os discípulos estejam dispostos a percorrer, com Jesus, o caminho do sofrimento, da entrega, do dom da vida até à morte. Apesar de Tiago e João manifestarem, com toda a sinceridade, a sua disponibilidade para percorrer o caminho do dom da vida, Jesus não lhes garante uma resposta positiva à sua pretensão… Jesus evita associar o cumprimento da missão e a recompensa, pois o discípulo não pode seguir determinado caminho ou embarcar em determinado projeto por cálculo ou por interesse; de acordo com a lógica do Reino, o discípulo é chamado a seguir Jesus com total gratuidade, sem esperar nada em troca, acolhendo sempre como graças não merecidas os dons de Deus.
Na segunda parte do nosso texto (vs. 41-45), temos a reação dos discípulos à pretensão dos dois irmãos e uma catequese de Jesus sobre o serviço.
A reação indignada dos outros discípulos ao pedido de Tiago e de João indica que todos eles tinham as mesmas pretensões. O pedido de Tiago e de João a Jesus aparece-lhes, portanto, como uma “jogada de antecipação” que ameaça as secretas ambições que todos eles guardavam no coração.
Jesus aproveita a circunstância para reiterar o seu ensinamento e para reafirmar a lógica do Reino. Começa por recordar-lhes o modelo dos “governantes das nações” e dos grandes do mundo (v. 42): eles afirmam a sua autoridade absoluta, dominam os povos pela força e submetem-nos, exigem honras, privilégios e títulos, promovem-se à custa da comunidade, exercem o poder de uma forma arbitrária… Ora, este esquema não pode servir de modelo para a comunidade do Reino. A comunidade do Reino assenta sobre a lei do amor e do serviço. Os seus membros devem sentir-se “servos” dos irmãos, apostados em servir com humildade e simplicidade, sem qualquer pretensão de mandar ou de dominar. Mesmo aqueles que são designados para presidir à comunidade devem exercer a sua autoridade num verdadeiro espírito de serviço, sentindo-se servos de todos. Excluindo do seu universo qualquer ambição de poder e de domínio, os membros da comunidade do Reino darão testemunho de um mundo novo, regido por novos valores; e ensinarão os homens que com eles se cruzarem nos caminhos da vida a serem verdadeiramente livres e felizes.
Como modelo desta nova atitude, Jesus propõe-Se a Si próprio: Ele apresenta-Se como “o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos” (v. 45). De fato, toda a vida de Jesus pode ser entendida em chave de amor e serviço. Desde o primeiro instante da encarnação, até ao último momento da sua caminhada nesta terra, Ele pôs-se ao serviço do projeto do Pai e fez da sua vida um dom de amor aos homens. Ele nunca Se deixou seduzir por projetos pessoais de ambição, de poder, de domínio; mas apenas quis entregar toda a sua vida ao serviço dos homens, a fim de que os homens pudessem encontrar a vida plena e verdadeira.
O fruto da entrega de Jesus é o “resgate” (“lytron”) da humanidade. A palavra aqui usada indica o “preço” pago para resgatar um escravo ou um prisioneiro. Atendendo ao contexto, devemos pensar que o resgate diz respeito à situação de escravidão e de opressão a que a humanidade está submetida. Ao dar a sua vida (até à última gota de sangue) para propor um mundo livre da ambição, do egoísmo, do poder que escraviza, Jesus pagou o “preço” da nossa libertação. Com Ele e por Ele nasce, portanto, uma comunidade de “servos”, que são testemunhas no mundo de uma ordem nova – a ordem do Reino.
Atualização
• No centro deste episódio está Jesus e o modelo que Ele propõe, com o exemplo da sua vida. A frase “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos” (Mc. 10,45) resume admiravelmente a existência humana de Jesus… Desde o primeiro instante, Ele recusou as tentações da ambição, do poder, da grandeza, dos aplausos das multidões; desde o primeiro instante, Ele fez da sua vida um serviço aos pobres, aos desclassificados, aos pecadores, aos marginalizados, aos últimos. O ponto culminante dessa vida de doação e de serviço foi a morte na cruz – expressão máxima e total do seu amor aos homens. É preciso que tenhamos a consciência de que este valor do serviço não é um elemento acidental ou acessório, mas um elemento essencial na vida e na proposta de Jesus… Ele veio ao mundo para servir e colocou o serviço simples e humilde no centro da sua vida e do seu projeto. Trata-se de algo que não pode ser ignorado e que tem de estar no centro da experiência cristã. Nós, seguidores de Jesus, devemos estar plenamente conscientes desta realidade.
• O episódio que nos é hoje proposto como Evangelho mostra, contudo, a dificuldade que os discípulos têm em entender e acolher a proposta de Jesus. Para Tiago, para João e para os outros discípulos, o que parece contar é a satisfação dos próprios sonhos pessoais de grandeza, de ambição, de poder, de domínio. Não os preocupa fazer da vida um serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos; preocupa-os ocupar os primeiros lugares, os lugares de honra… Jesus, de forma simples e direta, avisa-os de que a comunidade do Reino não pode funcionar segundo os modelos do mundo. Aqui não há meio-termo: quem não for capaz de renunciar aos esquemas de egoísmo, de ambição, de domínio, para fazer da própria vida um serviço e um dom de amor, não pode ser discípulo desse Jesus que veio para servir e para dar a vida.
• Ao apresentar as coisas desta forma, o nosso texto convida-nos a repensar a nossa forma de nos situarmos, quer na família, quer na escola, quer no trabalho, quer na sociedade. A instrução de Jesus aos discípulos que o Evangelho deste domingo nos apresenta é uma denúncia dos jogos de poder, das tentativas de domínio sobre aqueles que vivem e caminham a nosso lado, dos sonhos de grandeza, das manobras patéticas para conquistar honras e privilégios, da ânsia de protagonismo, da busca desenfreada de títulos, da caça às posições de prestígio… O cristão tem, absolutamente, de dar testemunho de uma ordem nova no seu espaço familiar, colocando-se numa atitude de serviço e não numa atitude de imposição e de exigência; o cristão tem de dar testemunho de uma nova ordem no seu espaço laboral, evitando qualquer atitude de injustiça ou de prepotência sobre aqueles que dirige e coordena; o cristão tem sempre de encarar a autoridade que lhe é confiada como um serviço, cumprido na busca atenta e coerente do bem comum…
• Na comunidade cristã encontramos também, com muita frequência, a tentação de nos organizarmos de acordo com princípios de poder, de autoridade, de predomínio, à boa maneira do mundo. Sabemos, pela história, que sempre que a Igreja tentou esses caminhos, afastou-se da sua missão, deu um testemunho pouco credível e tornou-se escândalo para tantos homens e mulheres bem intencionados… Por outro lado, testemunhamos todos os dias, nas nossas comunidades cristãs, como os comportamentos prepotentes criam divisões, rancores, invejas, afastamentos… Que não restem dúvidas: a autoridade que não é amor e serviço é incompatível com a dinâmica do Reino. Nós, os seguidores de Jesus, não podemos, de forma alguma, pactuar com a lógica do mundo; e uma Igreja que se organiza e estrutura tendo em conta os esquemas do mundo não é a Igreja de Jesus.
• Na nossa sociedade, os primeiros são os que têm dinheiro, os que têm poder, os que frequentam as festas badaladas nas revistas da sociedade, os que vestem segundo as exigências da moda, os que têm sucesso profissional, os que sabem colar-se aos valores politicamente corretos… E na comunidade cristã? Quem são os primeiros? As palavras de Jesus não deixam qualquer dúvida: “quem quiser ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos”. Na comunidade cristã, a única grandeza é a grandeza de quem, com humildade e simplicidade, faz da própria vida um serviço aos irmãos. Na comunidade cristã não há donos, nem grupos privilegiados, nem pessoas mais importantes do que as outras, nem distinções baseadas no dinheiro, na beleza, na cultura, na posição social… Na comunidade cristã há irmãos iguais, a quem a comunidade confia serviços diversos em vista do bem de todos. Aquilo que nos deve mover é a vontade de servir, de partilhar com os irmãos os dons que Deus nos concedeu.
• A atitude de serviço que Jesus pede aos seus discípulos deve manifestar-se, de forma especial, no acolhimento dos pobres, dos débeis, dos humildes, dos marginalizados, dos sem direitos, daqueles que não nos trazem o reconhecimento público, daqueles que não podem retribuir-nos… Seremos capazes de acolher e de amar os que levam uma vida pouco exemplar, os marginalizados, os estrangeiros, os doentes incuráveis, os idosos, os difíceis, os que ninguém quer e ninguém ama?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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