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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM


XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 14 de Outubro.

Comentários Prof.Fernando



Evangelho: (Mc 10, 17-30)
Jesus caminhava, quando alguém veio correndo, ajoelhou-se diante dele e disse: “Bom Mestre, o que devo fazer para ganhar a vida eterna?” Jesus respondeu-lhe: “Por que me chamas de bom? Ninguém é bom a não ser Deus! Conheces os mandamentos: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não darás testemunho falso, não prejudicarás ninguém, honra pai e mãe”. Ele disse: “Mestre, tudo isso eu tenho observado desde a minha juventude”. Jesus olhou para ele com amor e disse: “Só te falta uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me”. Mas ao ouvir isso, ele ficou triste e foi embora abatido, porque possuía muitos bens. Jesus olhou em volta e disse aos discípulos: “Como será difícil para o rico entrar no reino de Deus”. Os discípulos se espantaram com estas palavras. Jesus, porém, insistiu: “Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. Eles ficaram ainda mais espantados e se perguntavam: “Então, quem pode salvar-se?” Jesus olhou para eles e disse: “Para os seres humanos isso é impossível, mas não para Deus; pois para Deus tudo é possível”. Então Pedro começou a dizer-lhe: “Olha, nós abandonamos tudo e te seguimos”. Jesus respondeu: “Eu vos asseguro: ninguém que deixou casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e do Evangelho, deixará de receber já no tempo presente cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras no meio de perseguições, e no mundo vindouro, a vida eterna”.

Como é difícil para o rico  entrar no Reino de Deus!

Introdução
       Muito cuidado!  Pois a riqueza pode nos dar a sensação de que não precisamos de Deus!
O jovem rico que se aproxima de Jesus e pergunta o que ele deveria fazer para entrar no Reino dos Céus, era bom menino. Pois ele já observava todos os principais mandamentos da Lei de Deus. Porém, Jesus lhe propõe uma tomada de decisão muito radical, que o faria entrar em choque com toda a sua família. Talvez se aquele jovem não dependesse dos pais, ele até teria vendido uma boa parte de sua fortuna. Porém, o que mais o incomodava, era a reação da família.
A riqueza dá ao ser humano uma sensação de extremo poder,  e superioridade  de tal forma que fica quase impossível um rico sentir compaixão dos que passam necessidade. Para a maioria deles, a pobreza existe por culpa dos pobres, os quais, para eles, em sua grande maioria não passam de vagabundos, e preguiçosos, quando na realidade, nem sempre é assim. Pois de modo geral, a pobreza existe por causa da concentração da riqueza nas mãos de poucos.
Se por um lado o pobre reza humildemente e pede a Deus que tenha misericórdia de suas dificuldades, o rico em toda sua abundância, nem se lembra de Deus, pois se julga um deus por ele poder comprar quase tudo.  Isso mesmo. Ele pode comprar “quase”  tudo.  Porque não compra a imortalidade, a saúde plena, a felicidade e a vida eterna.  
O puro fato de ser rico em si, na verdade não é um pecado mortal e não podemos afirmar categoricamente que isso já lavra a sentença de condenação eterna do ser humano. Porém, o que complica a salvação dos nossos irmãos,  é a arrogância, a soberba, a falta de humildade, o olhar de desprezo para com os humildes, e a falta de caridade daqueles que possuem muitos bens materiais, e não percebem que tudo o que está sobrando nas casas deles, está faltando nas casas dos pobres.
Você pode ser rico e estar na amizade com Deus. Porém o que lhe atrapalha, são os outros ricos, que o excluiriam do seu convívio social, se você fosse um rico caridoso, religioso e humilde.  Assim, nem todos os ricos são iguais, porém eles precisam se comportar como os demais, com arrogância, com ar de superioridade, com muito orgulho, para manter as aparências, ou seja, precisam manter a sua fama de maus, digo, de poderosos.
Nota-se que aquele jovem rico do Evangelho, é um caso desses. A sua tristeza depois da penitência ou lição  de casa dita por Jesus, foi exatamente, pelo fato dele não saber como fazer para cumprir aquela sentença que lhe foi sugerida ou decretada.  Dentro de si, talvez ele até concordasse que não poderia levar a sua fortuna para a vida eterna, porém, se desfazer dela era um problema sócio-familiar muito grande.
Ser rico ou muito famoso como os astros da música ou do cinema, também é problema.  Isto porque eles não podem andar pela rua despreocupados como qualquer pobre faz. O medo de ser seqüestrado é mais apavorante do que o medo do pobre de perder o emprego e não ter o que comer. Porque o poderoso sabe que não obstante o seu sorriso e sua descontração, o perigo está por perto, e não adianta todo aquele aparato de segurança. Pois quando tem de acontecer, acontece.
Prezado irmão rico. Lembre-se de que tudo que possui, foi pela permissão de Deus. Sua fortuna talvez não tenha sido necessariamente um presente de Deus, principalmente se o que você possui, a sua riqueza foi adquirida  de forma ilícita. Mas digamos que  Deus deixou isso acontecer, pois Ele não interfere na nossa liberdade. Lembre-se também que nada, mais absolutamente nada do que tem, você levará para a outra vida. Terá de aproveitar tudo aqui. Então aproveite para fazer toda caridade que puder, assim, talvez quem sabe, não será tão difícil a sua entrada na vida eterna! Pois para Deus nada é impossível! Lembra?
Seja rico, mas salva tua alma!
 José Salviano.
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Seguem mais dois vídeos
Abraço e uma semana abençoada por Deus!
Pe. Fernando Gross

http://www.youtube.com/watch?v=Q6cSAZRWl9s&feature=youtu.be

e

http://www.youtube.com/watch?feature=player_profilepage&v=13H9Cup076I#!
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14 de outubro 28º Domingo

28º DOMINGO DO TC – 14/10/2012
1ª Leitura Sabedorias 7, 7-11 -  Salmo 89 (90)   -  2ª Leitura Hebreus 4, 12-13
Evangelho Marcos 10. 178-30

                  “O CÉU NÃO ESTÁ A VENDA...” - Diac. José da Cruz

“Bom Mestre, o que devo fazer para alcançar a Vida Eterna?” É a pergunta que uma pessoa muito boa e piedosa da comunidade, dirige a Jesus no evangelho desse domingo.
O conceito de um “céu” que pode ser conquistado com boas obras, está muito arraigado em todos nós porque é esta a pedagogia que se aplicou por muito tempo na educação dos filhos e na escola. “Seja bonzinho, estude bastante e passe de ano, que no final do ano eu te dou “aquele” presente que tanto você quer”.
Na minha classe do antigo primário, eu sentava-me na fila “B” onde os colegas nos chamavam de “burrinhos”, ás vezes só os alunos da fila “A” saiam para o recreio, como estímulo para continuarem a ser bons, pois os “bons” são sempre premiados. É normal que a maioria ainda pense assim em relação à Vida Eterna.
Mas Jesus desmonta este esquema mercantilista quando afirma, logo de início, que somente Deus é bom. Em seguida menciona a observância de cinco mandamentos nas relações com o próximo: adultério, fraude, falso testemunho, furto e a honra ao Pai e à Mãe. Note-se que não se tratam de simples preceitos mais de uma relação fundamentada no amor e na comunhão, sempre marcada pela verdade, na vivência de algo que não se trata de uma simples aparência, mas que provém do interior, das virtudes presentes no coração de quem crê verdadeiramente e ama a Deus e ao seu reino.
O coração dessa pessoa, que se aproximou de Jesus, se encheu de alegria, pois sentiu, na resposta de Jesus, que estava no caminho certo, respondendo todo cheio de si, que já praticava tudo isso desde a sua infância. Então, olhando para ele Jesus o amou. Quando Deus nos ama ele nos quer por inteiro, ele quer ser o único em nossa vida e assim, Jesus convidou aquela pessoa a dar mais um passo para a perfeição na Santidade, pois só lhe faltava uma coisa: “vá, venda tudo o que tens e dá aos pobres”
Esta última frase “dar aos pobres” é rica em significado, pois pobres são pessoas que têm necessidades, é exatamente essa a nossa condição diante de Deus, precisamos sempre dele, de sua Graça e Salvação, do seu amor e da sua misericórdia. Ser pobre em espírito é ter esta consciência !
O evangelho nos relata que aquela pessoa foi embora triste, porque no fundo achava que suas virtudes morais e aquela vida piedosa desde a infância, já eram suficientes para conquistar a Vida eterna. A sua riqueza, que era muita conforme menciona o e texto, considerada uma bênção, era um sinal de que sua vida virtuosa tinha a aprovação de Deus. “Sejam bons, pratiquem o evangelho, cumpram todas as obrigações para com Deus e a sua Igreja, principalmente dando o dízimo, e a sua vida vai melhorar porque Deus lhes abençoará dando-lhe prosperidade” Enfim, Deus me dá, porque eu mereço...
Essa religião dos merecimentos não nos conduzirá a Vida Eterna, podemos ter a certeza! A Graça e a Salvação que Deus nos concedeu em Jesus Cristo é puro dom imerecido. Na pobreza em espírito nos sentimos totalmente dependentes de Deus.
Não é o nosso patrimônio, o capital ou a riqueza que temos, que nos dá felicidade e segurança nessa vida, mas o senhor nosso Deus. Por isso, quando não temos a Sabedoria de Deus, e não sabemos nos relacionar com os bens deste mundo, eles se tornam um grande obstáculo e será muito difícil um rico entrar no Reino de Deus. Os discípulos ficaram assombrados justamente porque a riqueza, como já refletimos, era considerada uma bênção, dada a quem a merecesse.
Quem então poderá se salvar? E diante dessa pergunta Jesus fala da grande novidade, nada há que o homem possa fazer que mereça a Salvação, ela é dada e oferecida gratuitamente por Deus a todos os homens. O apóstolo Pedro ainda pensa em uma religião do merecimento quando menciona a si e aos demais, que deixaram tudo para seguir a Jesus.
E aí vem a outra grande novidade que eles não sabiam: a Vida Eterna já começa nesta vida e atinge a sua plenitude na eternidade.
Quem colocou toda sua confiança e esperança em Cristo Jesus, fazendo somente dele a razão da sua esperança, nunca mais terá necessidade de nada em sua vida, e assim terá de volta o cêntuplo, como garante o evangelho.


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Domingo, 14 de outubro
Evangelho - Mc 10,17-30


Vende tudo o que tens e segue-me!


Neste Evangelho, Jesus nos ensina que a pobreza voluntária é necessária para entrar no Reino de Deus. O Evangelho tem três partes:
1ª) Um homem rico quer seguir a Jesus, mas Jesus coloca como condição que ele venda todos os seus bens e dê aos pobres. Claro que pode acontecer que os próprios pobres digam ao homem: “Está bem, seus bens agora são nossos. Mas nós lhe pedimos que os administre para nós”. Assim, o homem deixa de ser rico e se torna administrador de bens que não são dele. Muitos e muitas hoje fazem isso e continuam aparentemente donos dos bens que antes possuíam.
2ª) Jesus instrui os discípulos sobre a questão da riqueza. Ela é tão arraigada na pessoa rica, que é mais fácil um camelo (animal) passar pelo buraquinho de uma agulha (dessas agulhas normais, com as quais as costureiras remendam roupa). Quer dizer: é impossível. Mas para Deus tudo é possível. O que Jesus não aceita é segui-lo pela metade.
3ª) A recompensa de Deus para quem se desprende dos bens materiais por amor a Cristo é generosa: A pessoa ganha cem vezes mais tudo o que renunciou.
O Evangelho começa dizendo que Jesus saiu a caminhar. Ele estava sempre caminhando, indo atrás das ovelhas. Não ficava parado, esperando que elas o procurassem.
Quando o homem rico de aproximou, “Jesus olhou para ele com amor”. Jesus sempre nos olha com amor. Entretanto, se alguém quer segui-lo, aí ele é exigente e, antes que a pessoa dê o primeiro passo, Jesus já coloca a condição mais importante: renunciar ao outro “deus” que são os bens materiais. Isso porque não podemos levar uma vida dupla, servindo a dois senhores (Cf Lc 16,13).
O amor é por si mesmo totalizante. Os namorados, por exemplo, não aceitam que seu parceiro ou parceira divida o amor com outra pessoa.
O Evangelho diz que o homem “foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico”. A riqueza trás uma felicidade ilusória, que leva sempre à tristeza.
Não é Deus que fecha a porta do Céu ao rico; é ele que não quer entrar. A felicidade ilusória e o apego levam o rico até a matar pessoas por causa de alguns centavos. Ele se torna tão auto-suficiente, que pensa não precisar nem de Deus.
A riqueza tira o gosto pelas coisas de Deus, cega os olhos, ensurdece os ouvidos e torna o coração duro como pedra. “Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). O rico passa inevitavelmente da posse de bens para a posse de pessoas. Ser dono de bens pode, mas ser dono de pessoas Deus não aceita!
Muitos acham que a questão do uso dos bens materiais não faz parte da vida cristã. Mas faz sim, e de cheio. Todas as vezes que Jesus falou do juízo final, ele colocou como ponto central do julgamento a partilha dos nossos bens materiais com os necessitados.
“Enquanto houver um pobre em vosso meio, a vossa Missa foi mal rezada” (Um santo padre da Igreja primitiva). Mais do que pobres, eles são empobrecidos, isto é, a sociedade é que os fez pobres. “Os pobres não precisam de esmola, precisam de justiça” (Madre Teresa de Calcutá).
“... e terás um tesouro no Céu.” Seguir a Jesus integralmente é o melhor tesouro que podemos adquirir. É uma riqueza que “a traça não corrói e o ladrão não rouba”. O resto é tudo vaidade. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 12,8), exceto amar a Deus e só a ele servir. “Tudo para mim é lixo, exceto o seguimento de Jesus Cristo” (S. Paulo). “Buscai os bens do alto...” (S. Paulo).
Havia, certa vez, um sitiante que tinha em seu sítio dois cavalos. De longe, pareciam cavalos normais, mas, quando se olhava bem, percebia-se que um deles era cego. Contudo, o dono não se desfez dele e arrumou-lhe um companheiro, um cavalo mais jovem.
Quando alguém fica observando, logo ouve o barulho de um sino que está amarrado no pescoço do cavalo mais novo. Assim, o cavalo cego sabe onde está seu companheiro e vai até ele. Ambos passam o dia comendo e no fim do dia o cavalo cego segue o companheiro até o estábulo.
Quem observa, logo percebe que o cavalo que tem o sino está sempre olhando se o outro o acompanha. Às vezes pára para esperá-lo. E o cavalo cego guia-se pelo som do sino, confiante que o outro o está levando para o caminho certo.
Como colocou no instinto dos animais, Deus não se desfaz de nós, quando temos alguma deficiência ou limitação. A pobreza é uma limitação, e Deus quer amparar os pobres, através daqueles que têm um pouquinho mais de recursos, que somos nós.
O Anjo Gabriel saudou Maria Santíssima com a expressão “cheia de graça”. Esta é a sua riqueza. Que ela nos ajude a ter a coragem de renunciar a tudo, a fim de ganhar as riquezas do céu.
Vende tudo o que tens e segue-me!

Padre Queiroz

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Domingo 14.10.12

Marcos 10,17-30
Fazer a vontade de Deus não  é apenas cumprir os mandamentos... -  Maria Regina.
O ser humano tem desejo de santidade. O exemplo do jovem rico é uma confirmação disso. Viver apenas os mandamentos não nos basta. Cumprir a lei é pouco diante do anseio que temos de perfeição, de liberdade, de sairmos de nós mesmos  e alçar o livre vôo dos filhos de Deus criados à Sua imagem e semelhança. Jesus deu ao jovem rico a receita que serve também para nós: “vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu!” O que será preciso vender? Para que nós possamos sair de nós, precisamos nos descartar de tudo que nos aprisiona, que nos escraviza, de tudo que nos impede de voar para fora da mesmice da nossa vidinha medíocre de “cumprir a obrigação” e amealhar, colocando sobre nós uma carga pesada ou levando uma bagagem difícil de carregar que dificulta a viagem que empreendemos.
Devemos parar de olhar apenas os nossos  próprios interesses para alcançar os interesses de Deus e fazer a Sua vontade.Reflita – É difícil para você também vender tudo o que você possui e dar aos pobres? – O que é que você possui de tão importante a ponto de tornar impossível a sua entrada no reino do céu? – O que você está amealhando? – O que você já conseguiu deixar para seguir Jesus?
Amém.
Abraço carinhoso de
-  Maria Regina.
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O REINO DE DEUS DEVE SER PRIORIDADE EM NOSSAS VIDAS! – Olívia Coutinho

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 14 de Outubro de 2012

Evangelho de Mc 10,17-30

Outubro, mês das missões, um tempo forte que sempre chega repleto de apelos ao nosso coração, nos motivando a assumir o nosso compromisso missionário, seja na  família, na  comunidade  ou na sociedade.
A todo instante, somos  chamados  a sermos missionários, a agirmos de um jeito diferente, transparente,  na vivencia e no anúncio  do amor de Deus, construindo um novo céu aqui na terra! A cada dia somos desafiados nesta construção, que podemos chamar de Reino de amor de justiça e paz.
Não tem como ser um seguidor de Jesus, sem estar aberto à MISSIONARIEDADE, pois é próprio de todo seu seguidor, desejar e empenhar-se para que todos façam a mesma experiência que ele fez do encontro com O Senhor!
A vida do missionário é uma verdadeira oferta de amor, implica em renuncias, desapegos, requer disposição, coragem para ultrapassar barreiras. O missionário precisa estar  livre interiormente, estar disposto a dividir seu  tempo,  sua vida com o outro, principalmente com os que estão abandonados  às margens do caminho.
O mundo está cheio de conflitos, necessitando urgentemente de mais diálogo, de pessoas corajosas, que não se curvam diante dos desafios, porque desejam levar a paz onde a vida se desfaz!
Ser missionário é colocar-se à disposição de Deus como instrumento a ser usado por Ele, como e onde se fizer necessário, é além das palavras, dar testemunho de Jesus com a própria vida!
Para sermos  missionários, não precisamos necessariamente percorrer grandes distâncias, basta-nos fazer a difícil viagem de sair de nós mesmo para  ir ao encontro do outro, do novo, do diferente! Para isso, precisamos nos libertar dos nossos apegos, de tudo que distancia o humano do humano e consequentemente o humano do Divino.
  O evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, vem nos alertar sobre os perigos da riqueza, que muitas vezes torna um obstáculo na nossa caminhada com Jesus ao encontro do Pai.
O texto nos fala do encontro de um jovem rico com Jesus, enquanto Ele caminhava para Jerusalém. Um encontro, que tinha tudo para ser marcante  definitivo na vida daquele jovem, se não fosse  a força do fascínio da riqueza, que o  puxou para trás, impedindo-o de usufruir da riqueza maior: fazer parte do reino de Deus!
No relato, nota-se que a tristeza tomou conta daquele jovem, que esteve tão perto da verdadeira felicidade, que a deixou escapar de suas mãos, por não conseguir desapegar-se dos bens matérias.
“É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” Estas palavras de Jesus, deixaram os discípulos apreensivos: ora, se para os ricos, que pela mentalidade judaica, eram vistos como sendo de Deus, era tão difícil entrar no reino de Deus, imagine para eles, que eram pobres, vistos como pecadores! Mesmo estando juntos do Mestre, eles ainda não haviam entrado na dinâmica do Reino, ainda  não se sentiam suficientemente  seguros, quanto ao que lhes reservaria o futuro. Faltava-lhes compreender, que a visão de Jesus, sobre "valores", era totalmente diferente da visão do mundo.
Os ensinamentos  que Jesus nos passa no dia de hoje, são desafiadores, principalmente  para  muitos nós, que tem “alma de rico” isto é,  que deixa-se levar  por atitudes egoísticas,  atitudes que nos distancia dos valores do evangelho.
É importarmos conscientizarmos de que Jesus não condena a riqueza, o que Ele condena é o apego, o grande inimigo que nos impede de colocarmos o Reino de Deus como prioridade em nossas vidas.

FIQUE NA PAZ DE JESUS!- Olívia 
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Evangelhos Dominicais Comentados

14/outubro/2012 – 28o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Mc 10, 17-30)


COMENTÁRIO

Hoje, queremos ofertar nossas orações, e o nosso abraço forte, aos professores e professoras, cujo dia nós celebraremos amanhã, dia 15 de outubro, mês missionário.

Será coincidência a comemoração do dia do professor acontecer no mês das missões? Certamente que não! O professor, a professora, são missionários natos, são evangelizadores que têm que ter na "ponta da língua" uma resposta para os jovens cheios de dúvidas.

No evangelho de hoje, Jesus também se depara com um jovem, cheio de dúvidas, que lhe faz uma pergunta e espera, como todos nós, uma resposta que lhe agrade. "Que devo fazer para ganhar a vida eterna?" A pergunta, até que é simples, já a resposta... nem tanto.

Jesus não perde uma oportunidade para ressaltar a bondade de Deus. Ele aproveita esta pergunta para dizer que só Deus é bom, o princípio e a razão de tudo. A primeira parte da resposta até que agradou ao jovem, parecia que era só continuar observando alguns mandamentos e pronto, o céu estaria garantido.

No entanto, Jesus diz que só lhe falta uma coisa para ganhar um tesouro no céu; só lhe faltava vender tudo o que tinha e dar aos pobres. Agora complicou, é muita exigência! Desfazer-se dos bens já não é coisa fácil, imagine então, doar tudo aos pobres.

Jesus convida esse jovem e a cada um de nós a segui-lo, mas deixa claro que não basta respeitar a justiça, é preciso, acima de tudo, lutar contra a injustiça. Respeitar as leis é um dever do cidadão. Lutar em favor dos pobres, oprimidos e marginalizados, é obrigação do cidadão cristão.

Estamos vivendo o mês missionário, tempo de oração, mas acima de tudo, de ação. Por isso, vamos rezar pelos missionários e pelas missões, no entanto, não podemos esquecer que a oração deve ser complementada pela ação.

Agir significa abandonar as riquezas e desfazer-se dos bens. Despojar-se não é coisa fácil, é enorme o apego às coisas terrenas. Na verdade, as riquezas, os bens que dificultam o nosso caminhar com Jesus, nem sempre são bens palpáveis. Nem sempre são bens imóveis ou objetos de ouro.

Na maioria das vezes essas riquezas, esses bens, chamam-se egoísmo, comodismo ou covardia para assumir a evangelização e a luta por justiça e paz. Fechar os olhos, fingir que não vê o menor abandonado, o sem-teto, o sem-terra e o sem-nada, são empecilhos para a nossa caminhada, são os maiores obstáculos para a entrada no Reino de Deus.

"Que devo fazer para ganhar a vida eterna?" Quantas vezes já fizemos essa mesma pergunta. Na verdade perguntamos por perguntar, pois já sabemos a resposta. Dois mil anos se passaram e Jesus não mudou seu modo de pensar, mesmo assim, vivemos a expectativa de receber uma resposta mais amena e menos exigente.

A pobreza e o desapego de que Jesus nos fala estão associados à entrega total que fazemos de nossa vida pela causa de seu Projeto de Salvação. Ele sabe da nossa boa vontade, mas conhece também o nosso comodismo. Sabe que nós o amamos, que queremos estar ao seu lado, mas sabe também que almejamos a felicidade eterna sem dar nada em troca.

Nunca é demais lembrar desta boa notícia que Jesus nos deixou: Ao pobre e despojado estão reservadas maravilhas que os olhos humanos jamais viram.             
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 (2450)


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Domingo, 14 de outubro de 2012
28º Domingo do Tempo Comum
Missionários Claretianos
Santos do Dia: São Calixto I, Papa e Mártir (Memória facultativa), Angadreme de Beauvais (abadessa), Bernardo de Arpino (peregrino, mártir), Bocardo de Würzburg (monge, bispo), Carpônio, Evaristo e Prisciano (mártires de Cesaréia da Palestina), Domingos Lauricatus (eremita), Donaciano de Rheims (bispo), Fortunata de Cesaréia (virgem, mártir), Fortunato de Todi (bispo), Gaudêncio de Rimini (bispo, mártir), Justo de Lião (bispo), Manaco de Wales (abade), Rústico de Trèves (bispo), Saturnino e Lupo (mártires).
Primeira leitura: Sabedoria 7,7-11
Em comparação à sabedoria, julguei sem valor a riqueza.
Salmo responsorial: Salmo 89 (90),12-13.14-15.16-17 (R./ 14)
Saciai-nos, ó Senhor, com vosso amor, e exultaremos de alegria!
Segunda leitura: Hebreus 4,12-13
A Palavra de Deus julga pensamentos e intenções do coração.
Evangelho: Marcos 10,17-30 ou abrev. 17-27
Vende tudo o que tens e segue-me.
A primeira leitura, tomada do livro da Sabedoria, expressa a preferência da Sabedoria frente a todos os bens da terra. O sábio coloca na oração de Salomão a superioridade dos valores espirituais em relação aos materiais, sujeitando-os todos ao dom da sabedoria e da prudência para o governo do seu povo.
No texto da carta aos Hebreus, o autor descreve a força transformadora da Palavra de Deus; faz eco às profundas raízes veterotestamentarias. Efetivamente, em Isaias 42,9, O autor havia comparado a Palavra de Deus com a espada; Jeremias a havia apresentado como uma realidade operante por si mesma (Jr 23,29).
A ação salvadora da Palavra no ouvinte é descrita como algo “penetrante até o ponto de divisão entre alma e espírito”. Aí, no santuário da intimidade do coração da pessoa, da comunidade ouvinte ativa, essa voz salvadora mostra os caminhos de libertação; aí onde reside a vontade e a decisão de aceitá-la ou de rejeitá-la, onde se aninha o mais denso do ser humano: seus interesses, seus afetos, sua liberdade e até onde a Palavra chega; ela questiona, é incisiva, libertadora e transformadora. Por isso, o autor da carta coloca intencionalmente as palavras do “coração, desejos, intenções”, como abarcando nessas categorias a integralidade da pessoa humana. Deus e sua Palavra, “mais íntimo que eu mesmo”, na expressão de Santo Agostinho, conhece até os segredos mais recônditos do coração. O mais absoluto mistério humano está patente ante seus olhos. Por isso, a palavra é juiz imparcial, que conhece amando o que ocorre na conduta humana e no coração de homens e mulheres.
A imagem do caminho é central no evangelho de Marcos (cf Mc 10,17). Estamos diante do tema do seguimento de Jesus. Nesse sentido vai a pergunta daquele que unicamente Mateus chama “o jovem rico” (19, 22); para Marcos (e Lucas) parece tratar-se de uma pessoa mais velha que pergunta: como herdar a vida? (cf Mc 10, 17). Jesus começa por remeter a Deus; sua bondade está no início de tudo. Isto equivale a resumir a primeira tábua dos mandamentos. Em seguida enuncia explicitamente os correspondentes à segunda tábua, com um acréscimo importante (que só se encontra em Marcos): “não sejas injusto” (v. 19). A frase é algo assim como um sumario da lista do que se lembra. Trata-se da condição mínima que a pessoa de fé se preocupa. Com simplicidade o rico diz que tudo isso havia observado (cf v. 20), não há nada de arrogante nessa afirmação. Essa era a convicção dos sábios da época: a lei pode ser cumprida plenamente.
Porém, seguir Jesus implica em algo mais exigente. Jesus convida o jovem a ser um dos seus. Ele não deve abandonar somente a riqueza, mas doá-la aos pobres e aos necessitados. Essa atitude colocava o personagem do evangelho em condições de seguir Jesus (cf v. 21). Não basta respeitar a justiça, é preciso também controlar a ânsia de acumular riqueza. Porem, deixar as posses teve como resultado uma exigência muito dura ao que pergunta; como muitos de nós, preferiu uma vida crente resignada a uma cômoda mediocridade (cf v. 22). “Crer sim, porém nem tanto”. Professar a fé em Deus, ainda que negando-nos a colocar em prática sua vontade. Jesus aproveita a ocasião para colocar as coisas às claras com seus discípulos: o apego ao dinheiro e ao poder que ele confere é uma dificuldade maior para entrar no Reino (cf v. 23). A comparação que se segue é severa: alguns já tentaram suavizá-la, pretendendo, por exemplo, que houvesse na cidade portas pequenas chamadas “agulhas” ... Bastava o camelo agachar-se para poder entrar pelo olho da agulha...
Os discípulos, porém, entenderam bem a mensagem. O assunto é apresentado como quase impossível. Passar pelo olho da agulha significa colocar sua confiança em Deus e não na riqueza. Não é fácil nem pessoalmente, nem como Igreja, aceitar esta proposta; seguindo os discípulos nos perguntamos, com realismo: “então, quem poderá se salvar?” (cf v. 26). O dinheiro dá segurança, permite ser eficazes, dizemos. O Senhor recorda que nossa capacidade de crer somente em Deus é uma graça (cf v. 27).
Como comunidade de discípulos, como Igreja, devemos renunciar à segurança oferecida pelo dinheiro e pelo poder. Isso é ter o “espírito de sabedoria” (Sb 7,7), aceitar que ela seja nossa luz (cf v. 10). A sabedoria nos leva à palavra de Deus, cujo fio corta todo nosso compromisso com o prestigio mundano. Diante dela nada fica oculto, todas as nossas cumplicidades aparecem com claridade (Hb 4,12-13). Como crentes, como Igreja, seremos capazes de passar pelo olho da agulha?

Uma leitura ecológica
O mundo, a humanidade, se encontra hoje, também diante do desafio de ter que passar pelo “olho de uma agulha” se quer conseguir... não a vida eterna celestial, mas simplesmente a sobrevivência terrestre.
É um “buraco de agulha” novo. Nunca nos havíamos percebido nessa situação. Sempre, desde vários milhões de anos, desde que o homo ET mulier sapientes são o que são, o ser humano percebeu a terra como ilimitada, inesgotável, quase infinita, capaz de absorver impassível nosso projeto de desenvolvimento continuo, infinito.
Porém, faz somente cinco séculos (Magalhães, 1522) se deu conta de que a terra não era uma superfície plana infinita, mas uma superfície esférica, fechada sobre si mesma, e portanto, limitada. E somente no final do século XX quando foi descoberto que seu projeto humano de desenvolvimento poderia topar com os limites da terra. Assim foi proclamado profeticamente, solitariamente, no famoso livro do Clube de Roma “Os limites do Crescimento”, 1972, que não foi escutado. Porém, sua profecia foi confirmada e ratificada na mudança do século (“Mais além dos limites do crescimento, 1992), ao denunciar que estávamos em perigo de sobrecarga (“overshot”) para além da capacidade do planeta de absorver e regenerar os recursos que consume.
Esse perigo já se tornou realidade oficialmente no dia 23 de setembro de 2008: os cientistas que acompanham o estado do Planeta, especialmente a Global Foot Print Network falaram do “Dia da sobrecarga”, o “Earth Overshoot Day”, dia em que calculam que temos sobrepujado em 30% a capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Nesse momento necessitamos mais de uma terra para atender a nossa subsistência. O informe do Desenvolvimento Humano do PNUD 2007-2008 confirmou a denuncia e, de outra maneira e com outros dados, confirmou que se toda a humanidade adotasse um nível de vida como o dos EEUU ou Europa, necessitaríamos de nove planetas.
Portanto, podemos nos despedir da vida eterna para a humanidade. O planeta continuará, pois já passou por crises semelhantes, porém continuará... sem o ser humano. Estamos numa época que faz tempo começou: é a “sexta extinção”. A anterior, a quinta, faz 65 milhões de anos, consequência do efeito de um meteorito segundo as atuais hipóteses, causou a desaparecimento dos dinossauros. A sexta, a presente, atualmente em curso acelerado, está sendo causada por uma espécie biológica concreta, a única que chegou a converter-se em força geológica e parece que vai ser profunda, e que levará consigo dois terços das espécies atuais (entre elas a que está causando tudo isso). Nada de “vida eterna”; a condenação a uma “morte anunciada” é iminente.
Porém, somente uma coisa deves fazer se queres ainda alcançar a salvação... uma prolongação da vida: abandona o “sistema” que te leva à morte, centrado obsessivamente no enriquecimento material, cego ao custo ecológico, e passa a adotar um novo estilo de vida, um novo paradigma, uma nova forma de olhar o planeta, compreendendo que és terra e depende dela e que em vez de viver de costas para ela e em guerra contra ela, deves viver em amizade e em relação carinhosa e simbiótica com ela.
O tema seria muito mais longo, porque é também muito profundo. É muito mais que o tema do “cuidado” para com a natureza... É isso, sim, porém, muito mais. A Agenda Latinoamericana 2010 propõe a necessidade de enfrentar a fundo o tema de nossa “conversão e reconversão ecológica”, do cristianismo (incluída nossa teologia, nossas crenças e nossa espiritualidade). Todos os cristãos deveríamos insistir em nossas comunidades em: tocar, tornar presente, estudar o tema, “planetariamente mais urgente”... Outra sugestão: organizar grupos de estudo, materiais para a educação popular, textos e reflexões para organizar em nossas comunidades uma reflexão profunda sobre o tema: http://latinoamericana.org/2010/info
Oração
Ó Deus, nosso Pai, que nos confiaste a responsabilidade pelo sustento de nossa própria vida e a de nossos filhos. Ajuda-nos a ter uma sadia relação com o econômico, que evite tanto o romantismo idealista ou espiritualista, como o materialismo sem ideais. E livra-nos, sobretudo, de colocar o econômico acima da justiça e do amor. Por Cristo nosso Senhor. Amém!

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Antes de mais nada, fixemos nosso olhar em Jesus nosso Senhor: ele é a Sabedoria de Deus, como diz São Paulo (cf. 1Cor. 1,24.30). Ele é aquela de que fala a primeira leitura de hoje. Sim, caríssimos no Senhor: encontrar Jesus vale mais que os cetros e tronos; em comparação com essa bendita Sabedoria, saída do Pai no ventre da Virgem, as riquezas são sem valor porque ela é a grande riqueza de nossa existência.
Por isso, vale a pena amar nosso Jesus, Sabedoria de Deus, mais que a saúde e a beleza; vale a pena possuí-lo mais que a luz, pois o esplendor que ele irradia não se apaga. – Sim, Senhor bendito, os que te amam brilham como o sol, como o sol ao amanhecer! Tu és a luz do mundo, o esplendor do Pai, a luz de nossos olhos, a Sabedoria que dá sentido à nossa vida! Contigo todos os bens desta vida nos são dados; sem ti nada é verdadeiramente bom, nada durável, nada encherá verdadeiramente o nosso coração! Bendito seja tu, Senhor Jesus, Sabedoria eterna, saída da boca do Pai para dar luz e sentido ao universo!
Jesus é também a Palavra do Pai, Palavra viva, definitiva, eterna. A Palavra de Deus, caríssimos, não é primeiramente a Bíblia. A Palavra de Deus por excelência é Jesus: “No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus. Tudo foi feito por ela e sem ela nada foi feito de tudo quanto existe. E a Palavra se fez carne e habitou entre nós!” (Jo. 1,1-2.14) Eis, portanto: a Bíblia somente é a Palavra de Deus porque dá testemunho de Jesus – e não de qualquer Jesus, mas do Jesus crido, adorado, testemunhado e enunciado pela Igreja católica, fundada pelo próprio Cristo e por ele sustentada na sua Palavra pela força do Espírito Santo da Verdade, que conduz sempre a Igreja à verdade plena! Fora disso, a Bíblia já não é Palavra de Deus, mas confusão e caminho para o erro! Eis! Voltemos o olhar para Cristo: Ele é “a Palavra de Deus, viva e eficaz e mais cortante que qualquer espada de dois gumes. Ela julga os pensamentos e as intenções do coração”. Isso nós sabemos, irmãos; isso experimentamos, quando tantas vezes somos questionados pelo Senhor Jesus, que penetra até o íntimo de nós, com sua verdade, com sua exigência, com os projetos que tem a nosso respeito. Cristo é esta Palavra viva e definitiva de Deus: “E não há criatura que possa ocultar-se diante dela. Tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas”. Por isso mesmo, o Senhor é o critério de nossa existência: quem nele crê tem a vida; quem não crê não conhecerá nunca o verdadeiro e pleno sentido da vida! – Bendito sejas tu, Senhor Jesus, Palavra e Verdade do Pai! Dá-nos a graça de vivermos em ti, de compreendermos que tu és a nossa vida e que somente em ti nossa existência será realmente plena de sentido e atingirá o fim para que fomos criados. A ti a glória, ó Cristo, Sabedoria e Palavra do Pai! A ti nosso amor, nossa adoração, nossa ilimitada entrega e confiança, a ti a nossa vida toda inteira, ó Cristo nosso Deus!
Agora, amados em Cristo, podemos compreender o Evangelho deste hoje. Pensemos bem: A pergunta que este alguém faz a Jesus, não é aquela mesma que nós tantas vezes fazemos? Não é a pergunta definitiva da nossa existência? “Bom Mestre, que devo fazer de bom para ganhar a vida eterna?” - Eis Senhor, qual dos caminhos da vida seguir? Qual me levará para mais longe ou para mais perto de ti? Dize-me, Mestre Bom!
A resposta de Jesus surpreende: “Por que me chamas de bom? Só Deus é o Bom!” É verdade: só o Pai é o Bom, é a fonte eterna de toda bondade, como só o Pai é o Santo, e a fonte de toda Santidade. E, no entanto, o próprio Senhor afirma: “Tudo que o Pai tem é meu. Eu e o Pai somos um. Quem me vê, vê o Pai!” Por isso mesmo, sem medo, podemos dizer todos os domingos: “Só vós sois o Santo, só vós o Senhor, só vós o Altíssimo, Jesus Cristo, com o Espírito Santo na glória de Deus Pai!” Sim, meus caros, Jesus é Bom porque vem do Pai, porque tudo recebeu do Pai e participa plenamente da plenitude de plena bondade que é o Pai! Mas, “tu conheces os mandamentos!” – Jesus é prático, meus caros: indica ao alguém que vem a ele os mandamentos; e notem bem: os mandamentos da segunda tábua, aqueles que falam do amor e do respeito pelo próximo! Vede, amados no Senhor, como o seguimento a Jesus exige atitudes muito concretas na nossa vida! Aquele lá, que buscava a vida respondeu feliz: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude!” Meus irmãos, nessa resposta há uma coisa boa e outra ruim. A coisa boa é que este homem é realmente observante da Lei de Deus; a coisa ruim é que ele parece satisfeito consigo mesmo; prece que, para ele, a religião consiste em fazer, em observar normas. Pronto. Fazendo isso, tudo bem! Notai, caríssimos, que também aquele fariseu que rezava no Templo estava satisfeito porque cumpria todos os preceitos; e os cumpria mais da conta! Ah, meus irmãos, que para o Senhor isso não basta! O Senhor é exigente, o Senhor olha o coração, o Senhor, Palavra “tão penetrante como espada de dois gumes”, quer saber de nossas intenções e não se contenta com nada menos que nosso coração e nossa vida! “Jesus olhou para ele com amor, e disse: ‘Só uma coisa te falta: vai, vende tudo que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” Meus irmãos, como Jesus é bonito, como é sábio, como é exigente, como vai direto ao ponto! Primeiro, vede como olha aquele lá: com amor, com aquele amor eterno com que nos amou e reservou para nós o seu amor! Nunca esqueçamos: suas exigências são exigências de amor! Na verdade, o Senhor deseja fazer aquele homem passar de uma religião de simples fazer coisas e cumprir preceitos para uma religião de amar de verdade: “Vai, vende tudo que és, moço! Vai, deixa-te a ti mesmo; larga essa preocupação contigo! Deixa-te vendendo tudo; abre-te para os outros, repartindo teus bens e teu amor e, depois, estarás pronto de verdade para experimentar o quanto eu sou o Bom: “Vem e segue-me!” Tu me chamaste de Bom sem saber o que isso queria dizer... Vem comigo, deixa tudo por mim e verás de verdade que eu sou o Bom, o teu Bem, todo Bem, o sumo Bem! Será livre, mocinho; encontrarás a vida em abundância! Deixa-te por mim e tu me encontrarás e, encontrando-me, encontrarás a própria vida!
Mas, não! Esse risco aquele lá não queria correr. Queria uma religião arrumadinha, que lhe oferecesse garantias; uma religiãozinha burguesa, na qual se sirva a Deus para servir-se de Deus... Arriscar tudo por esse Mestre de Nazaré? Deixar e deixar-se? Era demais! “Quando ele ouviu isso, ficou abatido, foi embora cheio de tristeza porque era muito rico”. Vede, meus irmãos, como nós somos! Vede qual a nossa tentação! Esse homem era rico de bens materiais, rico de apego a si próprio, rico de se buscar a si mesmo, mas pobre de amor a Deus e pobre de generosidade para com os outros; pobre de sonhos, pobre de ideal, pobre de generosidade, pobre de grandeza interior... Ele queria ser aquilo que Cristo abomina: um cristão burguês, acomodado na vidinha medíocre, de fácil moral e fáceis compromissos... cristãos que rastejam como vermes quando deveriam voar alto como as águias...
Daí a dura constatação de Jesus: “Como é difícil para os riscos entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!’ A palavra é clara: é mais fácil um camelo passar pela agulha fininha, que um rico entrar no Reino. E por quê? Porque a riqueza – seja qual for ela – tende a nos apegar, a nos fechar, a nos fazer pensar que nos bastamos! Somente quem for pobre de coração pode entrar no Reino, pois só quem é pobre deixa que Deus reine de verdade na sua vida! E como é difícil para nós, tão fáceis de sermos iludidos, compreender isso! Desapeguemo-nos, caríssimos, de nós mesmos; deixemo-nos para poder encontrar a vida verdadeira. Nunca será digno de Jesus quem não tiver a coragem de tudo deixar por Jesus: “Quem tiver deixado tudo por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida, com perseguições e, no futuro, a vida eterna” = se deixar para receber, não deixou nada; se deixar para receber nunca amou, não compreendeu a Palavra!
Os apóstolos não compreenderam isso – como também muitas vezes nós não compreendemos e não compreendem de modo algum aqueles que falam em seguir Jesus só para ter lucro. Basta ver na televisão, os falsos pregadores, de falsos evangelhos, que não passam da velhice pecaminosa disfarçada. Basta pensar na maldita teologia da prosperidade: “serve a Deus e ficarás rico!” Quem deixa para receber, nada deixou; quem deixa esperando recompensas, nunca amou; quem segue o Senhor pensando em pagamentos, nunca compreendeu a Palavra!
dom Henrique Soares da Costa

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Viver com sabedoria
As leituras deste segundo domingo do mês das Missões nos levam a refletir sobre os verdadeiros valores que devem orientar a nossa vida. A primeira leitura apresenta o testemunho de uma pessoa (é atribuído a Salomão) que suplicou ao Senhor pelo dom da sabedoria, considerada o maior de todos os tesouros e a mãe de todos os bens. O evangelho de Marcos apresenta um homem rico que não consegue ser sábio. Ele procura Jesus para perguntar-lhe a respeito do que deve fazer para herdar a vida eterna. A orientação que Jesus lhe dá o deixa entristecido, pois implicaria na renúncia ao acúmulo dos bens para partilhar com os pobres. O homem sai pesaroso, e Jesus, olhando ao seu redor, radicaliza: “É mais fácil um camelo entrar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Essa afirmação causou espanto até mesmo aos discípulos e questiona profundamente também os cristãos de hoje. É um exemplo que evidencia o que a carta aos Hebreus proclama: “A Palavra de Deus é mais penetrante do que uma espada de dois gumes (...)”.
1ª leitura (Sb. 7,7-11): O dom da sabedoria
O livro da Sabedoria é resultado da reflexão dos judeus que se encontram em Alexandria, no Egito, ao redor do ano 50 antes de Cristo.
O tema da sabedoria faz contraponto à ideologia dos governantes do Egito com suas atitudes de dominação e de perseguição aos judeus. O caminho da sabedoria não segue a proposta idolátrica dos ímpios que concebem a vida como oportunidade para toda espécie de prazer, desfrutando gananciosamente dos bens presentes e perseguindo os justos. Em sua autossuficiência, descartam por completo a existência de Deus e não acreditam na vida após a morte. Os justos, porém, têm a Deus por pai e confessam que ele criou o ser humano para a imortalidade (cap. 2). A vida, portanto, não se resume no gozo do momento presente. Seu sentido verdadeiro somente as pessoas sábias
conhecem. Para dar maior importância e credibilidade à proposta da sabedoria, o escrito é atribuído a Salomão, que, na tradição judaica, é considerado o rei sábio por excelência (mesmo que historicamente ele não tenha sido tão sábio e tão justo como se apregoava). Esse Salomão
idealizado pelos autores do livro tem consciência de ser uma pessoa comum como todas as demais, que nasceu e cresceu como todos os humanos e sabe que sua vida na terra é transitória. Sua grande preocupação é viver e governar segundo a justiça. Isso será possível pela aquisição da sabedoria que vem de Deus. Por isso, ele a invoca com persistência e Deus a concede generosamente.
A sabedoria é contemplada como o maior bem que uma pessoa possa adquirir, acima de todo poder e de toda riqueza, “pois todo o ouro, ao lado dela, é como um punhado de areia”. Deve ser amada “mais que a saúde e a beleza”. Essas coisas passageiras somente adquirem seu valor verdadeiro quando iluminadas pelo brilho da luz sem ocaso, que é o da
sabedoria, “a mãe de todas as coisas”. Por ela distingue-se o verdadeiro absoluto em quem devemos colocar toda a confiança.
Quando o livro foi escrito, o povo de Israel tinha conhecimento de que a sabedoria fazia parte dos dons do Espírito de Deus, conforme anunciara o profeta Isaías referindo-se à descendência de Davi: “Sobre ele repousará o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor do Senhor” (Is. 11,2). A sabedoria, junto com os demais dons do Espírito Santo, nos possibilita orientar a nossa vida segundo os desígnios
de Deus. É dom de Deus e, por isso, deve-se pedir com confiança. Jesus constatou que a sabedoria divina é revelada de modo especial entre os pobres e pequeninos e é ocultada aos grandes e “inteligentes” deste mundo (Mt. 11,25-26).
Evangelho (Mc. 10,17-30): Qual o jeito sábio de viver?
Jesus, com seus discípulos, encontra-se em caminhada para Jerusalém. Essa viagem tem, sobretudo, uma finalidade pedagógica. O episódio do homem rico vem proporcionar uma oportunidade especial para Jesus esclarecer qual a relação que seus seguidores devem ter com os bens materiais. O homem rico é representativo de todos os que se consideravam justos por cumprir a lei de Deus, conforme as orientações do sistema religioso oficial. A mentalidade dominante via na riqueza o sinal concreto de bênção divina (teologia da retribuição).
Aquele homem estava convencido disso e dirige-se a Jesus cheio de confiança em seus próprios méritos. Ele corre e ajoelha-se diante de Jesus. Demonstra que estava ansioso por encontrar-se com o “bom Mestre” para ser confirmado em sua mentalidade e em suas atitudes. Jesus, porém, o desarma já de início (talvez por perceber uma intenção de bajulação): “Ninguém é bom a não ser Deus”.
O homem manifesta preocupação com a conquista da vida eterna. Considera-se uma pessoa justa, um judeu perfeito e, portanto, em seu íntimo espera que Jesus lhe diga que está no rumo certo. De fato, no primeiro momento, Jesus o interpela sobre o caminho indicado pelos mandamentos. Porém, cita somente aqueles que se referem à relação com o próximo, acrescentando “não defraudes ninguém”. É uma indicação de que os muitos bens que o homem possuía eram resultado
da defraudação dos bens devidos aos outros.
Cai por terra a concepção teológica de que o acúmulo seria sinal de bênção divina. Estaria o homem disposto a entrar na dinâmica da teologia do Reino de Deus?
Jesus lhe demonstra muito amor mostrando-lhe como poderia ser verdadeiramente livre, sábio e justo: “Vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Como se vê, enquanto o homem está preocupado com a vida eterna para si mesmo, Jesus preocupa-se com os seres humanos que neste mundo não possuem o necessário para viver. A vida eterna está garantida para quem segue a Jesus na prática do amor com as pessoas necessitadas. É no serviço abnegado ao próximo que encontramos a plena realização já neste mundo. Assim contribuímos na construção de uma sociedade nova – o Reino de Deus –, que se fundamenta nas relações de justiça e de fraternidade. Para isso, precisamos vencer o grande empecilho que é o apego aos bens materiais. Aquele homem rico não conseguiu dar o passo de aceitar o convite de Jesus, tornar-se seu discípulo e ter um tesouro no céu. Decepcionado com o desfecho do diálogo com Jesus, foi-se embora entristecido, “pois era possuidor de muitos bens”. Apesar de ser cumpridor das leis religiosas oficiais, demonstrou que seu deus era o dinheiro.
Jesus continua a aprofundar a reflexão com seus discípulos: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus... É mais fácil um camelo entrar pelo fundo da agulha...”. O contraste evidente entre o camelo e o buraco de uma agulha mostra a impossibilidade de um rico de renunciar às seguranças e ao poder que a riqueza lhe dá para promover a justiça social.
O espanto dos discípulos revela que também eles ainda estão imersos na mesma lógica do homem rico: “Então, quem pode ser salvo?”.
A resposta que Jesus lhes dá ressalta que a graça de Deus pode proporcionar a conversão também para os ricos, “pois para Deus tudo
é possível”.
Aos discípulos que deixam tudo para segui-lo, Jesus lhes garante que usufruirão dos benefícios do Reino de Deus, isto é, da sociedade justa e fraterna. Nela não haverá discriminação nem miséria e, sim, acolhida,
afeto, partilha e vida em abundância para todos e, “no mundo futuro, a vida eterna”. É uma proposta construída pelos que se fazem últimos e servos de todos e contradiz (por isso atrai perseguição) a dos primeiros (ricos e poderosos).
Todos estão convidados por Jesus a desvencilhar-se da escravidão do dinheiro para tornarem-se agentes de um novo mundo. Esse é o jeito sábio de viver.
2ª leitura (Hb. 4,12-13): A eficácia da Palavra de Deus
Após a morte, ressurreição e ascensão de Jesus, as comunidades cristãs alimentam sua vida de fé e de amor especialmente através da Palavra de Deus. O breve texto da carta aos Hebreus faz parte de um contexto maior (3,1-13), onde os autores aprofundam o tema da fé como condição para entrar no repouso de Deus. Constata-se que as comunidades a quem a carta é dirigida encontram-se em situação de sofrimento, de dúvidas e de instabilidade quanto à perseverança na fé em Jesus Cristo.
O acontecimento do Êxodo é evocado como luz e força para a caminhada dos cristãos, na certeza de que alcançarão o repouso prometido por Deus. Para isso, deverão permanecer vigilantes para não cair nas mesmas tentações em que caiu o povo de Israel na caminhada
pelo deserto quando endureceu o coração e não ouviu a voz do Senhor.
As comunidades cristãs formam o novo povo de Deus em caminhada para a terra prometida. Como no antigo Êxodo, o caminho guarda perigos de toda espécie. Conquistarão o repouso prometido os que perseverarem
na fé em Jesus, o verdadeiro líder que guia o povo à terra da liberdade e da paz. Deus falou de muitos modos antigamente através dos profetas e, agora, através de seu Filho Jesus (Hb. 1,1).
A prática da Palavra de Deus se dá no seguimento de Jesus. Ele é Palavra viva porque produz vida em abundância. Ele afirmou que suas palavras são “espírito e vida” (Jo. 6,63); não é letra morta; Jesus, a Palavra que se fez carne, trouxe vida ao mundo. Ela é eficaz porque Deus realiza o que diz, cumpre o que promete; é eficaz também porque quem a pratica produz  muitos e bons frutos, da mesma maneira como
fez Jesus. Ela é cortante como uma espada de dois gumes, isto é, não há realidade que ela não possa penetrar, não há segredos que não possam ser descobertos, não há transgressão que não possa ser denunciada, não há escuridão que não possa ser iluminada, enfim, não há situação que não possa ser transformada.
Ela julga as disposições e as intenções do coração colocando tudo a descoberto. Baseadas  na Palavra de Deus, as comunidades cristãs podiam confiar plenamente nas promessas divinas e caminhar com coragem e perseverança na fidelidade ao seu plano de amor e de salvação que se realizou plenamente em Jesus Cristo. Nós podemos também!
III. Pistas para reflexão
– O discípulo missionário do Senhor vive com sabedoria que vem de Deus. Por ela sabemos discernir e praticar os verdadeiros valores. Sabemos responder com generosidade à vocação que Deus nos dá. Por ela exercemos a profissão com honestidade. A pessoa sábia resiste a toda espécie de maldade e se torna portadora da graça de Deus no mundo. A pessoa sábia é a que se esforça para fazer o bem sempre e em todo lugar... – A sabedoria se adquire e se cultiva pela oração e pela meditação da Palavra de Deus.
Esta se constitui como o fundamento para a vida de fé e de perseverança no caminho do bem. A Palavra de Deus é viva, eficaz, cortante como espada de dois gumes, torna-nos verdadeiros...
– Somos peregrinos neste mundo, em caminhada para a terra prometida. Sem a Palavra de Deus nos desorientamos levados por tantas outras “palavras” que o mundo nos oferece, como o apelo ao acúmulo de bens
materiais, ao consumismo, à preocupação com o prestígio social, à busca ansiosa do prazer.
Precisamos aprender com Jesus a não entrar na mentalidade dominante e a desvencilhar-nos de todas as amarras que tornam nossos passos pesados. Seguir a Jesus é aprender a caminhar na liberdade e leveza que se dá pela atitude de partilha e serviço mútuo.
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Daqueles que são sábios
Marcos diz que Jesus “saiu a caminhar”.  É sempre assim… Sempre a caminho, de lugar  em lugar,  olhando paisagens novas, tentando encontrar  outros andarilhos.  Andarilhos que se deslocam de um lado para o outro, andarilhos  que, mesmo sem caminhar, estão andando pelas alamedas de seu interior,  buscando, caminhando, procurando.
Quando Jesus caminhava, segundo o texto do evangelho, veio alguém,  correndo,  ajoelhar-se diante do Mestre.  Disse mais ou menos o seguinte:  “Bom Mestre, tenho ouvido tua fala.  Por vezes  fico muito pensativo.  Tu te mostras tão afável e, ao mesmo tempo tão exigente.  Quero ganhar a vida eterna.  Talvez pudesses me explicar melhor o que vem a ser essa vida eterna. Pressinto que se trata de um estado interior todo possuído por Deus, um interior fadado a viver em plenitude.  Que devo fazer para obter tanto?”
Jesus responde: “Moço, tu conheces os mandamentos:  entrega tua vida cotidianamente a Deus.  Ama-o sobre todas as coisas.  Canta salmos em seu  louvor e procura ser dele.  E tu conheces tudo o mais: lealdade, respeito pela vida e pela honra dos semelhantes,   pelo teu corpo e pelo corpo dos outros.  Enfim, tu hás de observar os mandamentos”.  O homem não tinha outra resposta senão a de que sempre observara tudo o que Jesus estava apontando.
Marcos  diz que Jesus olhou para ele com amor. Bela expressão.  Esse  Jesus de ontem e de hoje  continua querendo chamar os que dele se acercam para uma vida  mais densa  na linha de um seguimento generoso.  Belas e fortes as palavras de Jesus:  “Só uma coisa te falta; vai vende tudo o que tens e dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!”.  A resposta de Jesus se reveste de radicalidade. Aquele olhar de amor  estava acompanhado de uma exigência:  deixar coisas e afetos menos importantes, vender bens e ilusões,  esvaziar-se de seus pequenos  projetos,  sentir as necessidades que demanda o mundo novo de Jesus, desapegar-se.  Jesus dá  a entender  que  se assim ele fizesse teria a plenitude da vida…
Esse homem não foi sábio.  Não tinha ele meditado na página do Livro da Sabedoria da primeira leitura  que faz um elogio da sabedoria:  “Amei-a mais do que a saúde e a beleza e quis possuí-la mais do que a luz, pois o esplendor que dela irradia  não se apaga.  Todos os bens me vieram com ela, pois uma riqueza incalculável está em suas mãos”.  O homem não foi capaz de dar o salto que o libertaria de sua mediocridade e superficialidade.  Preferiu  permanecer no que  é menos elevado.
Triste a conclusão de Marcos: “Quando ele ouviu isso, ficou muito abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico”.
Até que ponto conseguimos olhar nos olhos do Senhor e responder seu apelo  com generosidade?  O mais importante não é viver um cristianismo mecânico e funcional. O homem sábio é aquele que arrisca sua vida no seguimento do Senhor que chama para as alturas…
frei Almir Ribeiro Guimarães
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Ser discípulo: investir tudo no reino
Existe, no judaísmo, toda uma tradição que considera a sabedoria como o maior bem que se possa alcançar na terra (1ª leitura). Seu valor supera tantas outras coisas consideradas valiosas: pedras preciosas, ouro etc. Mesmo a saúde não vale tanto quan­to ela. Ora, se uma coisa vale mais do que outra, e se impuser uma opção entre as duas, a gente tem que abandonar a que menos vale. É o que acontece com o Reino de Deus. Encontramos no evangelho de hoje um homem que combinava riqueza e vida decente (12). Tudo bem, sem problemas. Está à procura da “vida eterna”, a vida do “século dos séculos”, ou seja, do tempo de Deus, que ninguém mais poderá tirar. Poderíamos dizer: procura a verdadeira sabedoria, o rumo ideal de viver. Pedagogicamente, Jesus lhe lembra primeiro o caminho comum: observar os mandamentos. O homem responde que já está fazendo isso aí. Então, Jesus o conscientiza de que isso não é o suficiente. Coloca-o à prova. Se realmente quer o que está procurando, terá de sacrificar até sua riqueza (não vale a sabedoria do A.T. mais do que ouro?). O homem desiste, e vai embo­ra. E Jesus fica triste, pois simpatizou com ele (evangelho).
Humanamente falando, é impossível um rico entrar no Reino que Jesus traz pre­sente; tem amarras demais. Mas para Deus, tudo é possível. O homem rico quis entrar no Reino de Deus na base de suas conquistas: a vida decente, a observância dos mandamentos, a sabedoria inócua de ouvir mestres famosos, entre os quais Jesus de Nazaré (10,17; Jesus já rompe sua estrutura mental, insinuando que por trás do título “bom mestre”, que o homem lhe atribui, se esconde a exigência de uma obediência total, pois só Deus é bom…). Ora, o que Jesus lhe pede é, exatamente, superar este modo auto-su­ficiente de proceder. Jesus quer que ele se entregue nas mãos de Deus, desistindo da vida decente cuidadosamente construída na base do trabalho, do comércio, do bom comportamento. Vender tudo e dar aos pobres, e depois, vir a seguir Jesus, fazer parte daquela turma de aventureiros galileus que Jesus reuniu em redor de si. Humanamente impossível. Só é possível para quem se entrega a Deus. É este o teste que Jesus aplicou. O homem rodou.
O resto do evangelho de hoje diz a mesma coisa em outros termos. Pedro, entusiasta, comparando-se com o rico, exclama que eles, os Doze, abandonaram tudo e se­guiram a Jesus: que receberão agora? Jesus não confirma que Pedro realmente abandonou tudo, embora no momento da vocação parecesse que sim (1,16-20). Mas repete a exigência de colocar realmente tudo o que não for o Reino no segundo plano; e então a recompensa será o cêntuplo de tudo que se abandonou. Podemos verificar isso na reali­dade: sendo o Reino, desde já, a comunhão no amor de Deus, já recebemos irmãos e irmãs e pais e parceiros e tudo ao cêntuplo, neste tempo; e ainda (retomando o início da perícope, cf. 10,17): “a vida eterna”, no tempo que é o de Deus.
Jesus não exige árido ascetismo, fuga do mundo, e sim, correr o risco de ir ao mundo em sua companhia, abandonando tudo o que nos possa impedir de fazer do Reino o critério decisivo. Já o próprio modo de abandonar faz parte do Reino: dar aos pobres (sempre há pessoas para quem nossos bens são mais vitais do que para nós mesmos). Neste sentido, o caminho da vida não é tanto o resultado de cálculo e esforço humano, mas de entusiasmo divino – ao qual nos entregamos com a lucidez que só a luz de Cristo nos dá. A 2ª leitura acentua a mensagem do evangelho. Continua a Carta aos Hebreus. Jesus encama a Palavra de Deus, ativa na História, decisiva como uma espada de dois gumes: diante dela, devemos optar; neutralidade não existe.
A oração do dia merece ser proferida num ambiente de extrema concentração: a graça de Deus nos preceda e acompanhe para que prestemos atenção ao bem que somos chamados a fazer. Não somos nós que inventamos o bem, Deus o coloca como tarefa no nosso caminho. Por isso, devemos pertencer plenamente a ele, para que não passemos ao lado sem perceber as oportunidades que nos são oferecidas.
A liturgia segue o texto de Mc., no qual o homem não é um jovem rico e no qual não usa o termo “Reino dos Céus”, como estamos acostumados a ouvir no texto de Mt., mas sim, “Reino de Deus”.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Homem rico
Esta passagem do Evangelho traz um exemplo concreto que ajuda Jesus a instruir seus discípulos sobre as riquezas e o que os espera no futuro. O Jesus que Marcos apresenta é exigente.
Alguém vai ao encontro de Jesus, sente-se livre, vai correndo! É um homem judeu, sem nome (pode ser qualquer pessoa), que O chama e O reconhece como o Bom Mestre, pois se ajoelha em sinal de respeito e adoração.
Jesus o acolhe com amor. Este é um homem descente, que respeita os mandamentos, o início do caminho para se alcançar o Reino de Deus. Mas, isso não é o suficiente para ganhar a vida eterna. Jesus, então, aproveita para esclarecer a pretensão que os homens têm de achar que são bons, pois afirma que só Deus é bom verdadeiramente!
A pergunta que o homem rico faz é sobre a vida futura. Ele quer saber o que deve fazer para ganhar a vida eterna. Jesus não lhe apresenta uma solução mágica, ao contrário, pede que venda todos os seus bens, despojando-se de todo o seu dinheiro dando-o aos pobres e O siga.
Jesus o convida a ser Seu discípulo e quer que ele se entregue nas mãos de Deus, deixando para trás uma vida construída com trabalho e bom comportamento, algo, a princípio humanamente impossível. Esta condição assusta o homem que vai embora triste porque suas qualidades humanas não são suficientes para superar o apego aos bens materiais. É necessário ter uma atitude concreta, mas o homem rico estava preocupado unicamente com a sua própria vida.
Para alcançar o Reino de Deus não é preciso acumular riquezas, pois aquele que se salva não é o que mais possui bens, e sim aquele que partilha os bens, dando possibilidade de vida para todos.
Os pobres têm maior facilidade em arriscar tudo para alcançar a vida eterna porque não têm apego e nem bens para se apegarem; têm menos a perder materialmente, o que torna mais fácil a entrega.
A riqueza é símbolo do trabalho humano e meio para se fazer o bem e também símbolo de caridade quando praticada em favor dos homens e da vida; ela aparece nos Evangelhos como um grande obstáculo para a salvação, não por ser algo ruim, mas pelo fato do homem se apegar mais a ela do que ao próprio Deus.
O camelo era o maior animal conhecido, e o buraco da agulha, a menor abertura possível, o que demonstra a dificuldade do rico para entrar no Reino de Deus, porém, somente Deus pode salvar o homem convertendo seu coração para o amor e a partilha. A pobreza que Jesus propõe ao homem não significa ‘não ter nada’, mas comprometer-se prioritariamente com o Reino de Deus, e com os irmãos menos favorecidos.
Os discípulos, representados por Pedro, que abandonaram tudo para seguir Jesus, também ficam admirados com a resposta Dele e questionam quem então terá a vida eterna, quem será salvo?
Jesus não faz nenhuma exigência com relação a Deus e apresenta o cumprimento dos mandamentos que devem ser obedecidos e que dizem respeito ao relacionamento com o próximo.
Só após a obediência aos mandamentos, o desapego e a partilha dos bens é que o caminho se abre para seguir Jesus e alcançar a vida eterna.
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O perigo da riqueza
A opção radical pelo Reino exige liberdade interior que torne o cristão capaz de colocar sua vida integralmente nas mãos de Deus. A relativização dos bens deste mundo, quando se trata de fazer a vontade divina, é expressão desta liberdade. Quando estes bens  impedem o cristão de obedecer a essa vontade, é sinal de que Deus tem um concorrente em seu coração. É isso um indício de idolatria.
O homem rico pensava estar em dia com Deus pelo fato de cumprir o Decálogo. Desde o tempo de sua juventude, não havia transgredido os mandamentos. A pergunta que dirigiu a Jesus: "o que devo fazer para possuir a vida eterna?" talvez manifestasse sua preocupação por algo mais, requerido por Deus. O passo básico havia sido dado. Era possível avançar?
A resposta de Jesus foi para ele um grande desafio: seria uma prova de sua liberdade diante da riqueza, de sua disposição para partilhar e de seu desejo de servir. 
Ao dar as costas para Jesus e ir embora, triste e aflito, o homem rico demonstrou que sua riqueza estava acima da vontade de Deus, e sua obediência aos mandamentos não tinha consistência. Talvez a riqueza dele tivesse sido acumulada de forma egoísta, sem solidariedade com os pobres, aos quais nunca foram motivados a ajudar. Preferiu garantir o tesouro terreno, em detrimento do tesouro nos céus, por estar ainda muito distante da vida eterna.
padre Jaldemir Vitório
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Quem é bom?
Aquele que vem correndo e cai de joelhos diante de Jesus representa o piedoso observante da Lei, ansioso e temeroso da morte. As suas acentuadas reverências podem ocultar certo exibicionismo, característico das relações entre pessoas de posses. Assim também o título com que se dirige a Jesus: "Bom Mestre...", o qual Jesus rejeita. Em resposta a este homem, Jesus lhe recorda os tradicionais mandamentos da Lei, acrescentando, contudo, um: "não defraudarás ninguém", que diz respeito à apropriação injusta de bens. O homem, então, afirma que tudo tem observado. Jesus lhe propõe, então, o passo fundamental que leva à comunhão de vida com Deus, na eternidade: o despojamento das riquezas e a partilha com os pobres. O piedoso apegado às riquezas, entristecido, rejeita o caminho da vida eterna. É um homem sem sabedoria (primeira leitura). Mesmo que pessoalmente possa não ser injusto, esse homem, ao manter sua riqueza, ela própria fruto da injustiça, está conivente com a injustiça da sociedade, com seu sistema e suas estruturas econômicas opressoras e exploradoras.
Superar o obstáculo das riquezas é impossível para os homens submissos à ganância, porém para Deus tudo é possível. A palavra de Deus é mais penetrante do que uma espada de dois gumes (segunda leitura), é capaz de extirpar a ambição das riquezas, gerando o amor ao próximo.
Em contraste àquele homem, o evangelista Marcos apresenta o testemunho de Pedro que afirma sua fé e sua adesão ao seguimento de Jesus, declarando seu desapego de tudo. Nos evangelhos, comumente, Pedro fala representando a comunidade de discípulos.
A opção de Pedro é pelo abandono do apego ao bem privado e o gozo do bem partilhado, comunitário. É o caminho do seguimento de Jesus na construção do mundo novo de justiça e paz. Evidencia-se a proposta da rejeição desta estrutura social, dividida entre privilegiados, opressores e ricos, e excluídos, oprimidos e explorados. É um projeto que contraria a acumulação capitalista privada resultante da exploração do trabalho dos pequenos empobrecidos. Este projeto, assumido por causa de Jesus e do evangelho, suscitará a perseguição por parte dos poderosos beneficiários de seu projeto de acumulação financeira em um mercado global. O projeto de Jesus, em andamento, significa a inserção na vida eterna do "mundo futuro". É o mundo novo possível, com a renúncia ao bem privado, na partilha do bem comum, em comunhão com a natureza, com o próximo e com Deus, na Paz e na vida plena.
José Raimundo Oliva
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A liturgia do 28º domingo do tempo comum convida-nos a refletir sobre as escolhas que fazemos; recorda-nos que nem sempre o que reluz é ouro e que é preciso, por vezes, renunciar a certos valores perecíveis, a fim de adquirir os valores da vida verdadeira e eterna.
Na primeira leitura, um “sábio” de Israel apresenta-nos um “hino à sabedoria”. O texto convida-nos a adquirir a verdadeira “sabedoria” (que é um dom de Deus) e a prescindir dos valores efêmeros que não realizam o homem. O verdadeiro “sábio” é aquele que escolheu escutar as propostas de Deus, aceitar os seus desafios, seguir os caminhos que Ele indica.
O Evangelho apresenta-nos um homem que quer conhecer o caminho para alcançar a vida eterna. Jesus convida-o renunciar às suas riquezas e a escolher “caminho do Reino” – caminho de partilha, de solidariedade, de doação, de amor. É nesse caminho – garante Jesus aos seus discípulos – que o homem se realiza plenamente e que encontra a vida eterna.
A segunda leitura convida-nos a escutar e a acolher a Palavra de Deus proposta por Jesus. Ela é viva, eficaz, atuante. Uma vez acolhida no coração do homem, transforma-o, renova-o, ajuda-o a discernir o bem e o mal e a fazer as opções corretas, indica-lhe o caminho certo para chegar à vida plena e definitiva.
1ª leitura: Sb. 7,7-11 - Ambiente
O “livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante o séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e concepções do mundo helênico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o “justo” e o “ímpio” no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh).
Estamos em Alexandria (Egito), num meio fortemente helenizado. As outras culturas – nomeadamente a judaica – são desvalorizadas e hostilizadas. A enorme colônia judaica residente na cidade conhece mesmo, sobretudo nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e de Ptolomeu Dionísio (80-52 a.C.), uma dura perseguição. Os sábios helênicos procuram demonstrar, por um lado, a superioridade da cultura grega e, por outro, a incongruência do judaísmo e da sua proposta de vida… Os judeus são encorajados a deixar a sua fé, a “modernizar-se” e a abrir-se aos brilhantes valores da cultura helênica.
É neste ambiente que o sábio autor do Livro da Sabedoria decide defender os valores da fé e da cultura do seu Povo. O seu objetivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, o autor pretende deixar este ensinamento fundamental: só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade.
O texto que nos é proposto integra a segunda parte do livro (cf. Sb. 6,1-9,18). Aí, o autor apresenta o “elogio da sabedoria”. Este “elogio da sabedoria” pode dividir-se em três pontos… No primeiro (cf. Sb. 6,1-21), há uma exortação aos reis no sentido de adquirirem a “sabedoria”; no segundo (cf. Sb. 6,22-8,21), há uma descrição da natureza e das propriedades da “sabedoria”, aqui apresentada como o valor mais importante entre todos os valores que o homem pode adquirir; no terceiro (cf. Sb. 9,1-18), aparece uma longa oração do autor, implorando de Jahwéh a “sabedoria”.
O que é esta “sabedoria” de que aqui se fala? É, fundamentalmente, a capacidade de fazer as escolhas corretas, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem ao êxito, à realização, à felicidade. Na perspectiva dos “sábios” de Israel, esta “sabedoria” vem de Deus e é um dom que Deus oferece a todos os homens que tiverem o coração disponível para o acolher. É preciso, portanto, ter os ouvidos atentos para escutar e o coração disponível para acolher a “sabedoria” que Deus quer oferecer a todos os homens.
O autor deste “elogio da sabedoria” apresenta-se a si próprio como o rei Salomão (embora o nome do rei nunca seja referido explicitamente). Na realidade, o “Livro da Sabedoria” não vem de Salomão (já vimos que é um texto escrito no séc. I a.C., por um judeu da Diáspora, possivelmente de Alexandria); mas Salomão, o protótipo do rei sábio era, para os israelitas, a pessoa indicada para apresentar a “sabedoria” e para a recomendar a todos os homens. Usando uma ficção literária, o autor coloca, pois, na boca de Salomão este discurso sapiencial.
Mensagem
Salomão pediu a Deus a “sabedoria” e ela foi-lhe concedida (v. 7). Há aqui uma alusão discreta ao episódio narrado em 1 Re 3,5-15, que conta como Salomão, ainda um jovem rei inexperiente, se dirigiu a um santuário em Guibeon e pediu a Deus “um coração cheio de entendimento para governar o povo, para discernir entre o bem e o mal” (1Re. 3,9); e Deus, correspondendo a este pedido, deu-lhe “um coração sábio e perspicaz” (1Re 3,12).
Para o rei, a “sabedoria” tornou-se o valor mais apreciado, superior ao poder, à riqueza, à saúde, à beleza, a todos os bens terrenos (vs. 8-10a). Ela é a “luz” que indica caminhos e que permite discernir as opções corretas a tomar. Ao contrário dos bens terrenos, ela não se extingue nem perde o brilho (v. 10b): é um valor duradouro, que vem de Deus e que conduz o homem ao encontro da vida verdadeira, da felicidade perene.
Contudo, a “sabedoria” não afastou este rei dos outros bens… Pelo contrário, a opção pela “sabedoria” fê-lo encontrar “todos os bens” e “riquezas inumeráveis” (v. 11), pois a “sabedoria” está na base de todos eles. É ela que lhe permite gozar os bens terrenos com maturidade e equilíbrio, sem obsessão e sem cobiça, colocando-os no seu devido lugar e não deixando que sejam eles a conduzir a sua vida e a ditar as suas opções.
Atualização
A “sabedoria” é um dom de Deus que o homem deve acolher com humildade e disponibilidade. Ela não chega a quem se situa diante de Deus numa atitude de orgulho e de auto-suficiência; ela não atinge quem se fecha em si próprio e constrói uma vida à margem de Deus; ela não encontra lugar no coração e na vida de quem ignora Deus, os seus desafios, as suas propostas. O “sábio” é aquele que, reconhecendo a sua finitude e debilidade, se coloca nas mãos de Deus, escuta as suas propostas, aceita os seus desafios, segue os caminhos que Ele indica. Talvez um dos grandes dramas do homem do século XXI seja o prescindir de Deus e de passar com total indiferença ao lado das propostas de Deus. Dessa forma, construímos com frequência esquemas de egoísmo, de violência, de exploração, de ódio, que desfeiam o mundo e magoam aqueles que caminham ao nosso lado. Em que é que eu aposto: na minha “sabedoria” (que tantas vezes me conduz por caminhos de injustiça, de divisão, de sofrimento, de infelicidade) ou na “sabedoria” de Deus (que sempre me conduz ao encontro da vida plena e da felicidade sem fim)?
Todos nós temos determinados valores que dirigem e condicionam as nossas opções, as nossas atitudes, os nossos comportamentos. A uns damos mais importância; a outros damos menos significado… O nosso texto convida-nos a ter cuidado com a forma como hierarquizamos os valores sobre os quais construímos a nossa vida… Há valores efêmeros e passageiros (o dinheiro, o poder, o êxito, a moda, o reconhecimento social…) que não podem ser absolutizados. Eles não são maus, por si próprios; não podemos é deixar que eles tomem conta da nossa vida, condicionem todas as nossas opções, nos escravizem de tal modo que nos levem a esquecer outros valores mais importantes e mais duradouros. Os valores efêmeros não servem para encher completamente a nossa vida de significado e não nos garantem a vida verdadeira. Têm o seu lugar na nossa existência; mas não podem crescer de tal forma que açambarquem todo o espaço livre no nosso coração e na nossa vida.
O “sábio” autor do nosso texto garante-nos que escolher a “sabedoria” não significa prescindir de outros valores mais materiais e efêmeros. Por vezes, existe a ideia de que acolher as propostas de Deus e seguir os seus caminhos significa renunciar a tudo aquilo que nos pode tornar felizes e realizados… Não é verdade. Há valores, mesmo efêmeros, que são perfeitamente compatíveis com a nossa opção pelos valores de Deus e do Reino. Não se trata de nos fecharmos ao mundo, de renunciarmos definitivamente às coisas belas que o mundo nos pode oferecer e que nos dão segurança e estabilidade; trata-se de darmos prioridade àquilo que é realmente importante e que nos asseguram, não momentos efêmeros, mas momentos eternos de felicidade e de vida plena.
2ª leitura: Hb. 4,12-13 - Ambiente
Já vimos, no passado domingo, que a Carta aos Hebreus é um sermão destinado a comunidades cristãs instaladas na monotonia e na mediocridade, que se deixaram contaminar pelo desânimo e começaram a ceder à sedução de certas doutrinas não muito coerentes com a fé recebida dos apóstolos… O objetivo do autor deste “discurso” é estimular a vivência do compromisso cristão e levar os crentes a viver uma fé mais coerente e empenhada. Nesse sentido, o autor apresenta o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, cuja missão é pôr os crentes em relação com o Pai e inseri-los nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã. Uma vez comprometidos com Cristo, os crentes devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma, o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar a sua experiência de fé, enfraquecida pela acomodação, pela monotonia e pelo arrefecimento do entusiasmo inicial. O texto que nos é proposto está incluído na segunda parte da Carta aos Hebreus (cf. Hb. 3,1-5,10). Aí, o autor apresenta Jesus como o sacerdote fiel e misericordioso que o Pai enviou ao mundo para mudar os corações dos homens e para os aproximar de Deus. Aos crentes pede-se que “acreditem” em Jesus – isto é, que escutem atentamente as propostas que Cristo veio fazer, que as acolham no coração e que as transformem em gestos concretos de vida. O texto que nos é proposto é uma espécie de hino a essa Palavra de Deus que Jesus Cristo veio trazer aos homens. O objetivo do autor, com esta reflexão, é levar os crentes a escutar atentamente a Palavra proposta por Jesus.
Mensagem
A Palavra de Deus transmitida aos homens por Jesus não é um conjunto de frases ocas, vagas, estéreis, que se derramam sobre os homens mas que “entram por um ouvido e saem por outro”, e que não têm impacto na vida daqueles que as escutam; mas é uma Palavra viva, atuante, transformadora e eficaz, que uma vez escutada, entra no coração do homem como uma espada afiada e transforma os seus sentimentos, os seus pensamentos, os seus valores, as suas opções, as suas atitudes. Ao entrar nos corações, a Palavra de Deus torna-se também o juiz das ações do homem. Aí, no centro onde se formam os sentimentos, onde nascem os pensamentos, onde se definem os valores, onde são feitas as opções (de acordo com a antropologia judaica, é no coração que tudo isto acontece), a Palavra de Deus confronta-se com os desejos secretos do homem, com as suas verdadeiras intenções, com os valores a que o homem dá prioridade, com a sinceridade das posições que o homem assume na sua relação com Deus, com o mundo e com os outros homens… E a Palavra de Deus aprecia, discerne, pesa e pronuncia o seu julgamento sobre o homem. A Palavra de Deus, mesmo que pareça frágil e débil, é uma força decisiva que enche a história e que traz ao homem a vida e a salvação.
Atualização
O autor do nosso texto pretende levar os seus interlocutores a escutar e a valorizar a Palavra de Deus que chega aos homens através de Jesus, pois só essa Palavra é salvadora e libertadora; só ela indica ao homem o caminho certo para chegar à vida plena e definitiva. Qual o lugar e o papel que a Palavra de Deus assume na minha vida? Sou capaz de encontrar tempo para escutar a Palavra de Deus, disponibilidade para a discutir e partilhar, vontade de confrontar a minha vida com as suas exigências?
A Palavra de Deus é viva, atuante, eficaz e renovadora – diz o nosso texto. Ela deveria ter um impacto positivo e transformador nas nossas vidas, nas nossas famílias, nas nossas comunidades, na sociedade à nossa volta… No entanto, a Palavra de Deus é proclamada diariamente nas nossas liturgias e continuamos a escolher valores errados, a erguer barreiras de separação entre pessoas, a marcar a nossa relação comunitária pela inveja, pelo ciúme, pela discórdia, a perpetuar mecanismos de injustiça, de violência, de exploração, de ódio… Será que a Palavra de Deus, depois de dois mil anos, perdeu a sua eficácia e a sua força transformadora? Não. O que acontece é que escutamos, acolhemos e apreendemos outras “palavras” e passamos com indiferença ao lado da Palavra de Deus. É preciso voltarmos a “escutar” a Palavra de Deus – isto é, a ouvi-la com os nossos ouvidos, a acolhê-la no nosso coração, a deixarmos que ela nos transforme e se expresse em gestos concretos de vida nova. Sem o nosso “sim”, a Palavra de Deus não encontra lugar no nosso coração e na nossa vida.
A Palavra de Deus ajuda-nos a discernir o bem e o mal e a fazer as opções corretas. Ela ecoa no nosso coração, confronta-nos com as nossas infidelidades, critica os nossos falsos valores, denuncia os nossos esquemas de egoísmo e de comodismo, mostra-nos o sem sentido das nossas opções erradas, grita-nos que é preciso corrigir a nossa rota, desperta a nossa consciência, indica-nos o caminho para Deus. Para que esta Palavra seja eficaz é preciso, contudo, que não nos fechemos nessa atitude de auto-suficiência que nos torna surdos àquilo que põe em causa os nossos esquemas pessoais; mas é preciso que, com humildade e simplicidade, aceitemos questionar-nos, transformarmo-nos, convertermo-nos.
•A nossa vivência de fé desenrola-se, muitas vezes, à volta de fórmulas de oração repetitivas, de práticas devocionais, de ritos fixos e imutáveis, de tradições cheias de pó, de grandes manifestações que, no entanto, têm pouca profundidade… E a Palavra de Deus é relegada, na experiência de fé de tantos crentes, para um papel muito secundário. É preciso que a Palavra de Deus esteja no centro da nossa experiência de fé e da nossa caminhada existencial. É ela que nos questiona, que nos transforma, que nos indica caminhos, que nos permite discernir a vontade de Deus a nosso respeito.
Evangelho: Mc. 10,17-30 - Ambiente
Depois de deixar “a casa” (cf. Mc. 10,10), Jesus continua o seu caminho através da Judéia e da Transjordânia, em direção a Jericó (cf. Mc. 10,46), percorrendo um percurso geográfico que constitui a penúltima etapa da sua viagem para Jerusalém. Contudo, o caminho que Jesus faz com os discípulos é também um caminho espiritual, durante o qual Jesus vai completando a sua catequese aos discípulos sobre as exigências do Reino e as condições para integrar a comunidade messiânica. Desta vez, a questão posta por um homem rico acerca das condições para alcançar a vida eterna dá a Jesus a oportunidade para avisar os discípulos acerca da incompatibilidade entre o Reino e o apego às riquezas. Na perspectiva dos teólogos de Israel, as riquezas são uma bênção de Deus (cf. Dt. 28,3-8); mas a catequese tradicional também está consciente de que colocar a confiança e a esperança nos bens materiais envenena o coração do homem, torna-o orgulhoso e auto-suficiente e afasta-o de Deus e das suas propostas (cf. Sal 49,7-8; 62,11). Jesus vai retomar a catequese tradicional, mas desta vez na perspectiva do Reino.
Mensagem
A primeira parte do nosso texto (vs. 17-27) é uma catequese sobre as exigências do Reino e do seguimento de Jesus. Um homem ajoelha-se diante de Jesus e pergunta-Lhe o que tem de fazer para “alcançar a vida eterna” (v. 17). Não se trata, desta vez, de alguém que vem questionar Jesus para O experimentar: a postura do homem, a sua atitude de respeito, denunciam-no como alguém sincero e bem-intencionado, realmente preocupado com essa questão vital que é a vida eterna. No Antigo Testamento, a ideia de vida eterna aparece, pela primeira vez, em Dn. 12,2 e é retomada noutros textos tardios… Para alguns teólogos da época do judaísmo helenístico, os justos que se mantiverem fiéis a Deus e à Lei não serão condenados ao sheol (onde os espíritos dos mortos levam uma existência obscura, no reino das sombras), mas ressuscitarão para uma vida nova, de alegria e de felicidade sem fim, com Deus (cf. 2Mc. 7,9.14.36). A vida eterna de que falam os teólogos desta época parece já incluir a ideia de imortalidade (cf. Sb. 3,4; 15,3). É provavelmente isto que inquieta o tal homem que se encontra com Jesus: o que é necessário fazer para ter acesso a essa vida imortal que Deus reserva aos justos?
A primeira resposta de Jesus não traz nada de novo e remete o homem para os mandamentos da Torah: “não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe” (vers. 19). De acordo com a catequese feita pelos mestres de Israel, quem vivesse de acordo com os mandamentos da Lei, receberia de Deus a vida eterna. O viver de acordo com as propostas de Deus é, também na perspectiva de Jesus, um primeiro patamar para chegar à vida eterna.
O homem explica, porém, que desde sempre a sua vida foi vivida em consonância com os mandamentos da Lei (v. 20). É uma afirmação segura e serena, que o próprio Jesus não contesta. O homem não é um hipócrita, mas um crente religiosamente empenhado e sincero. Não há aqui, por parte deste homem, qualquer sinal de orgulho e de auto-suficiência; mas a sua atitude e as questões que ele põe mostram a sua inquietação, a sua procura, a sua busca da definição do verdadeiro caminho para a vida eterna. Jesus reconhece a sinceridade, a honestidade, a verdade da busca deste homem; por isso, olha para ele “com simpatia” (vers. 21) e resolve convidá-lo a subir a um outro patamar nesse caminho para a vida eterna: convida-o a integrar a comunidade do Reino.
Ora, esse novo patamar tem um outro grau de exigência… Jesus aponta três requisitos fundamentais que devem ser assumidos por quem quiser integrar a comunidade do Reino: não centrar a própria vida nos bens passageiros deste mundo, assumir a partilha e a solidariedade para com os irmãos mais pobres, seguir o próprio Jesus no seu caminho de amor e de entrega (v. 21). Apesar de toda a sua boa vontade, o homem não está preparado para a exigência deste caminho e afasta-se triste. Marcos explica que ele estava demasiado preso às suas riquezas e não estava disposto a renunciar a elas (v. 22). O homem de que se fala nesta cena é um piedoso observante da Lei; mas não tem coragem para renunciar às suas seguranças humanas, aos seus esquemas feitos, aos bens terrenos que lhe escravizam o coração. A sua incapacidade para assumir a lógica do dom, da partilha, do amor, da entrega, tornam-no inapto para o Reino. O Reino é incompatível com o egoísmo, com o fechamento em si próprio, com a lógica do “ter”, com a obsessão pelos bens deste mundo.
A história do homem rico que não está disposto a integrar a comunidade do Reino, pois não está preparado para viver no amor, na partilha, na entrega da própria vida aos irmãos, serve a Jesus para oferecer aos discípulos mais uma catequese sobre o Reino e as suas exigências. O “caminho do Reino” é um caminho de despojamento de si próprio, que tem de ser percorrido no dom da vida, na partilha com os irmãos, na entrega por amor. Ora, quem não é capaz de renunciar aos bens passageiros deste mundo – ao dinheiro, ao sucesso, ao prestígio, às honras, aos privilégios, a tudo isso que prende o homem e o impede de dar-se aos irmãos – não pode integrar a comunidade do Reino. Não se trata apenas de uma dificuldade, mas de uma verdadeira impossibilidade (“é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” – v. 25): os bens do mundo impõem ao homem uma lógica de egoísmo, de fechamento, de escravidão que são incompatíveis com a adesão plena ao Reino e aos seus valores. O discípulo que quer integrar a comunidade do Reino deve estar sempre numa atitude radical de partilha, de solidariedade, de doação.
Marcos propõe-nos, depois, a reação alarmada, ansiosa, desorientada, dos discípulos face a esta exigência de radicalidade: “quem pode, então, salvar-se?” (vers. 26). Em resposta, Jesus pronuncia palavras de conforto, apresentando o poder de Deus como incomparavelmente maior do que a debilidade humana (“aos homens é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível” – vers. 27). A ação de Deus – gratuita e misericordiosa – pode mudar o coração do homem e fazê-lo acolher as exigências do Reino. É preciso, no entanto, que o homem esteja disponível para escutar Deus e para se deixar desafiar por Ele.
Na segunda parte do nosso texto (vs. 28-30) os discípulos, pela voz de Pedro, recordam a Jesus que deixaram tudo para o seguir. A renúncia dos discípulos não é, contudo, uma renúncia que se justifica por si mesma e que tem valor em si mesma… Os discípulos de Jesus não escolhem a pobreza porque a pobreza, em si, é uma coisa boa; nem deixam as pessoas que amam pelo gosto de deixá-las… Quando os discípulos de Jesus renunciam a determinados valores (muitas vezes valores legítimos e importantes), é em vista de um bem maior – o seguimento de Jesus e o anúncio do Evangelho. Jesus confirma a validade desta opção e assegura aos discípulos que o caminho escolhido por eles não é um caminho de perda, de solidão, de morte, mas é um caminho de ganho, de comunhão, de vida.
Esta opção dos discípulos será sempre incompreendida e recusada pelo mundo. Por isso, os discípulos conhecerão também a perseguição e o sofrimento. As tribulações não são um drama imprevisto e sem sentido: os discípulos devem estar preparados para as enfrentar, pois sabem que terão sempre de viver com a oposição do mundo, enquanto se mantiverem fiéis a Jesus e ao Evangelho.
Aconteça o que acontecer, os discípulos devem estar conscientes de que a opção pelo Reino e pelos seus valores lhes garantirá uma vida cheia e feliz nesta terra e, no mundo futuro, a vida eterna.
Atualização
O que é preciso fazer para alcançar a vida eterna? Trata-se de uma questão que inquieta todos os crentes e que certamente já pusemos a nós próprios, com estas ou com outras palavras semelhantes. Jesus responde: é preciso, antes de mais, viver de acordo com as propostas de Deus (mandamentos); e é preciso também assumir os valores do Reino e seguir Jesus no caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos. Isto não significa, contudo, que a vida eterna seja algo que o homem conquista, com o seu esforço, ou que resulte dos méritos que o homem adquire ao percorrer um caminho religiosamente correto. A vida eterna é sempre um dom gratuito de Deus, fruto da sua bondade, da sua misericórdia, do seu amor pelo homem; no entanto, é um dom que o homem aceita, acolhe e com o qual se compromete. Quando o homem vive de acordo com os mandamentos de Deus e segue Jesus, não está a conquistar a vida eterna; está, sim, a responder positivamente à oferta de vida que Deus lhe faz e a reconhecer que o caminho que Deus lhe indica é um caminho de vida e de felicidade.
Quando falamos em vida eterna, não estamos a falar apenas na vida que nos espera no céu; mas estamos a falar de uma vida plena de qualidade, de uma vida que leva o homem à sua plena realização, de uma vida de paz e de felicidade. Deus oferece-nos essa vida já neste mundo e convida-nos a acolhê-la e a escolhê-la em cada dia da nossa caminhada nesta terra; no entanto, sabemos que só atingiremos a plenitude da vida quando nos libertarmos da nossa finitude, da nossa debilidade, das limitações que a nossa humanidade nos impõem. A vida eterna é uma realidade que deve marcar cada passo da nossa existência terrena e que atingirá a plenitude na outra vida, no céu.
Na perspectiva de Jesus, a vida eterna passa pela adesão a esse Reino que Ele veio anunciar. Jesus, com a sua vida, com as suas propostas, com os seus valores, veio propor aos homens o caminho da vida eterna. Quem quiser “alcançar a vida eterna” tem de olhar para Jesus, aprender com Ele, segui-l’O, fazer da própria vida – como Jesus fez da sua vida – uma escuta atenta das propostas de Deus e um dom de amor aos irmãos. Toda a nossa caminhada, todos os nossos esforços, toda a nossa busca visam alcançar a vida eterna. Muitas vezes, a lógica do mundo sugere que a vida eterna está na acumulação de dinheiro, na concretização dos nossos sonhos de “ter” mais coisas, na conquista de poder, no reconhecimento social, nos privilégios que conquistamos, nos cinco minutos de exposição mediática que a televisão proporciona… Nós, crentes, sabemos, contudo, que os bens deste mundo, embora nos proporcionem bem estar e segurança, não nos oferecem a vida eterna; essa vida eterna que buscamos ansiosamente está nesse caminho de amor, de serviço, de dom da vida que Cristo nos ensinou a percorrer.
A história do homem rico, que buscava a vida eterna mas não estava disposto a prescindir da sua riqueza, alerta-nos para a impossibilidade de conjugar a vida eterna com o amor aos bens deste mundo. A riqueza escraviza o coração do homem, absorve todas as suas energias, desenvolve o egoísmo e a cobiça, leva o homem à injustiça, à exploração, à desonestidade, ao abuso dos irmãos… É, portanto, incompatível com o “caminho do Reino”, que é um caminho que deve ser percorrido no amor, na solidariedade, no serviço, na partilha, na verdade, no dom da vida aos irmãos. Podemos levar vidas religiosamente corretas, frequentar a Igreja, dar o nosso contributo na comunidade, ocupar lugares significativos na estrutura paroquial; mas, se o nosso coração vive obcecado com os bens deste mundo e fechado ao amor, à partilha, à solidariedade, não podemos fazer parte da comunidade do Reino.
Jesus confirma, no final do texto que nos é proposto, a validade desse caminho de renúncia e de desprendimento que os discípulos aceitaram percorrer. Mais: Jesus garante que não se trata de um caminho de fracasso e de perda, mas de um caminho que realiza plenamente os sonhos e as necessidades dos homens que O escolheram. Seguir o “caminho do Reino” não é, portanto, aceitar viver infeliz e sacrificado nesta terra, com a esperança de uma recompensa no mundo que há-de vir; mas é, livre e conscientemente, escolher um caminho de vida plena, de realização, de alegria, de felicidade. O cristão não é um pobre coitado condenado a passar ao lado da vida e da felicidade; mas é uma pessoa que renunciou a certas propostas falíveis e parciais de felicidade, pois sabe que a vida plena está em viver de acordo com os valores eternos propostos por Jesus.
Jesus avisa aos discípulos que o “caminho do Reino” é um caminho contra a corrente, que gerará inevitavelmente o ódio do mundo e que se traduzirá em perseguições e incompreensões. É uma realidade que conhecemos bem… Quantas vezes as nossas opções cristãs são criticadas, incompreendidas, apresentadas como realidades incompreensíveis e ultrapassadas por aqueles que representam a ideologia dominante, que fazem a opinião pública, que definem o socialmente correto… Precisamos, todavia, de estar conscientes de que a perseguição e a incompreensão são realidades inevitáveis, que não podem desviar-nos das opções que fizemos. Para nós, seguidores de Jesus, o que é realmente importante é a certeza de que o “caminho do Reino” é um caminho de vida eterna.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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“Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?”
No domingo passado refletimos sobre a dignidade do matrimônio cristão dentro do Plano de Deus. A liturgia do 28º domingo do tempo comum convida a cada um de nós ao discernimento sobre a coerência de vida (terrena) sobre o modo de agir no tempo presente em meio às riquezas a fim de não comprometer a vida futura (celeste). Qual o caminho da verdadeira felicidade? A primeira leitura (Livro da Sabedoria 7,7-11) descreve uma pessoa que se dirige a Deus para pedir sabedoria. A sábia atitude de confiar em Deus suplicando sabedoria revela tratar-se de pessoa que realmente sabe o que quer. Comportamento semelhante teve Salomão quando pediu discernimento e sabedoria para governar o seu povo. Salomão compreendeu que mais importante que poder e riquezas é a amizade do Senhor Deus. O Evangelho (Mc. 10,17-30) trilha o mesmo caminho falando de um jovem muito rico que se aproxima de Jesus dizendo: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” O desprendimento das riquezas – No tempo de Jesus muitas pessoas pensavam que o critério para entrar no Reino de Deus consistia em cumprir as leis e preceitos. No jovem rico Jesus fixa um olhar afetuoso e explica que os bens, a riqueza, tudo deve ser partilhado com os necessitados. Foi então que surgiu a discussão sobre a salvação e o comentário: “Como é difícil entrar no Reino de Deus!” O jovem rico do Evangelho tem sede de Deus, porém tem dificuldade em abrir mão dos bens materiais e partilhar sua riqueza com os pobres. Perdeu assim, a chance de encontrar a pérola preciosa – o bem maior. Olhando para os discípulos Jesus diz: “Filhinhos, quão difícil é entrar no Reino de Deus para aquele que põe sua confiança somente no dinheiro!” O administrador sábio usa os seus bens para ajudar a promover outros a terem uma vida melhor. Jesus adverte o jovem rico sobre o perigo do apego aos bens terrenos, alertando que a conquista da Vida Eterna, não se assegura acumulando riquezas. Pelo contrário, aqueles que se preocupam em juntar tesouros neste mundo terão dificuldade em conseguir entrar no Reino de Deus. A Palavra de Deus questiona: Qual o caminho que queremos seguir? A quem queremos servir? Em outra passagem disse Jesus: “Não podeis servir a dois senhores (Lc. 16,1-15)”. O Profeta (Amós 8,4-7) adverte: “O Senhor Deus jamais esquecerá a exploração e opressão que praticares contra os irmãos mais fracos”. O ensinamento de Jesus propõe a partilha, a justiça social, fraternidade e solidariedade. Faça isto e encontrarás felicidade. Pense nisto e tenha uma semana abençoada.
Pedro Scherer
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Que hei de fazer para ter a vida eterna
Afigura de destaque no dia de hoje é o jovem cujo atributo é “muito rico”. Trata-se de alguém muito importante humanamente falando e que também poderia ser aproveitado para uma grande empresa como era o Reino de Deus. Parecendo que não, o episódio mostra que o Reino não só não consiste em bens materiais, como também exige o desprendimento deles. O diálogo entre Jesus e o jovem é profundo, como profundo, exigente e amável é o olhar de Jesus, que Marcos refere por três vezes.
O próprio jovem começa por pôr a questão mais profunda, a que ninguém se pode esquivar, a da salvação: Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna? Jesus olha novamente para o Jovem e responde como se ele não fosse bom: Por que você me chama de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. Você conhece os mandamentos: “Não mate, não cometa adultério, não roube, não dê falso testemunho contra ninguém, não tire nada dos outros, respeite o seu pai e a sua mãe.
O jovem cumpria os mandamentos, Mestre, desde criança eu tenho obedecido a todos esses mandamentos. E por isso insiste. O que me falta ainda? Se de um lado vemos a preocupação do jovem pela sua salvação do outro vemos que não basta observar a lei para ser apto para o Reino de Deus. Falta muito mais do que se o jovem poderia imaginar: Falta mais uma coisa para você fazer: vá, venda tudo o que tem e dê o dinheiro aos pobres e assim você terá riquezas no céu. Depois venha e me siga. Faltava o desprender-se das riquezas, a entrega, a generosidade, a alegria profunda de dar e de se dar sem pôr condições.
A cena do jovem que se retirou triste oferece uma ocasião para Jesus voltar a expor a doutrina da pobreza evangélica e do desprendimento. Mas não se limita a insistir no perigo das riquezas para se ser bom, à maneira dum sábio grego: “é impossível que um homem extraordinariamente bom seja extraordinariamente rico” Platão; Jesus fala da impossibilidade de entrar no Reino de Deus, o que deixa os discípulos assombrados a ponto de se perguntarem: Então, quem é que pode se salvar?
Mas Jesus insiste e lhes indica a infalibilidade de Deus nas suas promessas: a Deus tudo é possível, pois Ele pode conceder a graça de uma pessoa usar bem as riquezas, ou mesmo até de renunciar radicalmente aos bens terrenos.
Exige-se de nós uma profunda reflexão do que somos e temos. Tanto ricos quanto pobres precisamos ir à busca das coisas do alto. Precisamos viver o desprendimento independentemente do estilo de vida que levemos. Que aqueles que se fizeram pobres, amem a sua pobreza, porque por que deles é o reino de Deus. Que aqueles que nasceram ou se tornaram ricos, descubram o valor da misericórdia, da generosidade, da partilha, da solidariedade, e, sobretudo se lembre de que de nada adianta ganhar o mundo, se depois perde a própria alma.
padre João Francisco Ribeiro


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