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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

JESUS CRISTO REI - SOLENIDADE



34º DOMINGO - SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO - TEMPO COMUM

 

Comentário Prof.Fernando


25 de Novembro de 2012
(Jo 18, 33b-37)
Naquele dia, Pilatos tornou a entrar no palácio, chamou Jesus e lhe perguntou: “És tu o rei dos judeus?” Jesus respondeu: “Perguntas por ti mesmo ou foram os outros que te disseram isto de mim?” Pilatos disse: “Por acaso eu sou um judeu? A tua nação e os sumos sacerdotes te entregaram a mim: o que fizeste?” Jesus respondeu: “Meu reino não é deste mundo. Se fosse deste mundo, os meus ministros teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. Pilatos disse-lhe então: “Logo, tu és rei?” Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”.
“Tu o dizes: eu sou rei". 
Introdução

"Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

        Prezado leitor, prezada leitora. Você que entrou neste Blog e está lendo este texto, você é uma pessoa da verdade, pois irá  escutar através dessa leitura, a voz de Jesus. Parabéns! Porém, não se acomode por isso. Porque a voz de Jesus, o Rei do universo, precisa ser escutada, praticada e anunciada.  Você está fazendo isso? Então,  mais uma vez, parabéns!
        Hoje é o último dia do ano litúrgico, o qual não coincide com o ano civil, que termina no dia 31 de dezembro.
        Jesus é o Rei no mundo de Hoje?  Um  mundo que passou por cima do nosso Rei, um mundo que refuta seu Evangelho, desdenha de sua Palavra, ridiculariza seus valores eternos, calunia os ministros de sua Igreja...
        Jesus é o Rei de um mundo de outros valores e de outras verdades. E por que? Porque meu reino não é desse mundo. Eu não sou um rei qualquer, Ele teria acrescentado: Eu sou o Rei que veio ao mundo para salvá-lo do pecado e não para condená-lo, eu sou o Rei que veio ao mundo para servir, e não para ser servido e venerado pelos homens. Eu sou o Rei que veio chamar os pecadores e não aos justos. Eu chamo os pecadores diariamente à conversão, mais eles estão surdos e não me ouvem.
        Jesus é o Rei sim. A Ele foi dado pelo Pai, todo o poder no céu e na terra. Jesus é o Cordeiro que foi imolado, oferecido ao Pai pela expiação dos nossos pecados. Ele é digno de receber, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele toda glória e poder por todos os séculos...    
        Jesus é o seu Rei? Jesus está reinando em sua vida? Você deixa Jesus governar a sua vida?
Quais são os reis dos nossos tempos? O Brasil já teve dois "reis": O "rei" da jovem guarda, Roberto Carlos e o "rei" Pelé, ou o  "rei" do futebol. Atualmente, outros "reis" surgem e vão embora, a maioria ligados ao futebol...
       Jesus não é um Rei nos moldes dos reis da terra. O que faziam os reis? Reinavam, governavam, e tinham poder até sobre o cidadão. Conquistavam e dominavam outros povos, agindo em desacordo com a justiça.
       O reinado de Cristo somente pode ser compreendido a partir da fé. Jesus disse: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim...” (Mc. 10,42s).
       Com essas palavras Jesus quis dizer que você e eu temos de imitar e seguir os seus passos, jamais podemos tiranizar os nossos irmãos. Ele é Rei sim, mais o seu reino não é desse mundo...  Ele é um Rei que lavou e beijou os pés dos discípulos. Os reis do mundo fariam isso?  Eis aí a diferença entre o reinado de Jesus e o reinado desse mundo!
       Com aquele gesto, O Rei Jesus nos convida hoje a seguir o seu exemplo, nos convida a segui-lo por essa trilha, de terreno irregular que nos faz cair e levantar, Ele nos convida a seguir não a estrada asfaltada, não o caminho  da glória, mas da humildade; não o caminho do sucesso a qualquer custo, mas da fidelidade a todo preço; não a estrada  das honras, mas do serviço.
       Nos tempos de Jesus, o povo esperava um Messias que o libertasse do domínio romano. Jesus os decepcionou, ao dizer: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. O povo queria soluções e respostas  imediatas como acontece hoje. Muitos vivem sem Deus, tentando resolver os seus problemas diários por sua própria conta, e quando a casa cai, quando a fatalidade chega, recorrem desesperados a pedir o auxílio de Deus...
       Assim como os judeus, queremos um Deus que satisfaça os nossos desejos, que resolva os nossos problemas e que seja para nós um recurso de salvação nas horas de perigo e desespero, e depois o colocamos de lado.
       Não, meu irmão. Não é por aí, não foi isso que Cristo pregou. Porque nós devemos ser fiéis aos ensinamentos.  “Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm. 2,11). Desse modo, Todas as vezes que esquecemos isso, fomos infiéis e indignos  de merecer as graças que tanto pedimos, e de pertencer o reinado de Cristo.
        "A mim foi dado todo o poder no céu e na terra" . Por isso Ele é o nosso Rei. Jesus é o Rei da vida. “não cairá uma folha da árvore sem que Deus o permita, todos os fios de nosso cabelo estão contados". E tem gente que não sabe disso, ou duvida disso. Se não sabem, a culpa é nossa, pois estamos catequizando muito mal!
DIA DOS LEIGOS
        Meus irmãos. A Igreja hoje também comemora o dia dos leigos atuantes na Igreja de Jesus Cristo, presença viva de Deus na Terra.  É o dia nacional dos cristãos leigos e leigas que unidos pela mesma fé,  batalham pela transformação desse mundo dominado pelas forças do mal. Caríssimo. Você também está convidado a fazer parte desse grupo. O grupo daqueles que pelo batismo são vocacionados, são chamados a ser o fermento na massa, e luz para o mundo o qual está mergulhado nas trevas; são os convocados a construir um mundo possível e necessário, um mundo que virou as costas para o seu Rei, e por isso sofre. Sofre os horrores da violência, e da inversão dos valores, e está exposto ao poder de satanás. Precisamos continuar lutando para que esse mundo gire em torno dos valores anunciados por Jesus, os valores do reino de Jesus Cristo.
Amém.
José Salviano.
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“O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO!” – Olívia Coutinho

DOMINGO: SOLENIDADE DA  FESTA DE CRISTO REI.

Dia 25 De Novembro de 2012

Evangelho  Jo 18, 33 - 37

 Neste último domingo do mês de novembro, a Igreja conclui o ano  litúrgico com a solenidade da festa de Cristo Rei, quando revivemos  a feliz conclusão da peregrinação de Jesus, junto a humanidade.
Iluminada pelo Espírito Santo, a igreja foi muito feliz em colocar esta solenidade nesta ocasião, pois é ao nosso Rei: NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, que devemos ofertar toda a nossa caminhada de fé realizada ao longo deste ano litúrgico que se finda.
O evangelho que é colocado diante de nós neste domingo, está inserido no processo final contra Jesus que culminou  na sua condenação, porém, os “alicerces” do Reino já estavam estabelecidos quando  Jesus é apresentado como  Rei:   o Rei do universo, que teve  como trono a cruz!
O evangelista concentra o tema da realeza de Jesus, nesta passagem de sua vida, para deixar  claro que tipo de rei Ele é. 
Jesus é o único  Rei   que se apresenta aos homens, sem nenhum aparato de segurança, pois no  Reino que Ele veio implantar,  a arma mais poderosa é o amor, a autoridade é  o serviço, o grande é aquele que serve, o perdão é a ponte que une os irmãos! Neste Reino não há lugar para a violência  e nem para o  ódio, as  operações de guerra, se  concentram nos serviço ao próximo, uma dessas operações, o próprio Jesus  realizou na véspera de sua morte, quando  numa atitude  de humildade e serviço, curvou-se  para lavar os pés dos apóstolos
 Ao apresentar o seu Reino a Pilatos, Jesus esclarece: “O meu Reino não é deste mundo.” Com esta afirmativa, Ele não quis dizer que o seu reinado começaria nos limiares Celestiais,  o que na verdade Jesus quis dizer, é que os valores que norteiam a vida no seu Reino, não são aceitos nos reinos do mundo, nos  reinos implantados pelos poderosos.
Embora o  Reino de Deus não seja deste mundo, o reinar de Jesus não está fora mundo! Em outras passagens do evangelho, o próprio Jesus  nos assegura: “O Reino de Deus já está entre vós”, o que nos  dá  a garantia de que, mesmo entre as turbulências dos outros reinos, podemos vivenciar, já aqui na terra, as alegrias do Reino do céu!
O modelo de rei visto pela lógica dos  homens em nada assemelha  a condição de rei aplicada a Jesus. O Seu reinar independe dos esquemas deste mundo, do toma lá dá cá.  O  reinar de Jesus,  só depende do querer do Pai!
Juntamente  com a festa de Cristo Rei,  celebra-se  também o dia do Leigo,  vocação imprescindível, na vida da Igreja, mas que  às vezes é pouco reconhecida  devido a nossa  tendência  em acreditar que vocacionados, são somente os padres, os  bispos  e religiosos.
Ser leigo (a) no mundo de hoje, chega a ser  um grande desafio, pois não é fácil dar testemunho de Jesus, vivendo no mundo, sem ser do mundo. 
“É importante tomarmos consciência de que os Leigos  ocupam importantes ministérios na Igreja,  entre tantos, assumem  a vocação particular de constituir família, o compromisso cristão de atuar profissionalmente com ética, dedicação e diferencial positivo, no sentido de ser uma pessoa diferente, no meio de tantas”. Enfim, leigos e leigas, assumem o grande desafio de serem pedras vivas da Igreja terrestre, são eles, os trabalhadores do Reino.
Como povo de Deus que peregrina aqui na terra, rumo a Pátria definitiva, somos  todos convidados a vivenciar o Reinado de Jesus, ciente de que; assim como Ele, nós também passamos pela cruz.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia
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25 de Novembro - Cristo Rei

CRSTO REI –  DOMINGO  25/11/2012
1ª Leitura  Daniel 7, 13-14
Salmo 92 (93) , 1 a “O Senhor é Rei e se revestiu de Majestade”
2ª Leitura AP 1, 5-8
Evangelho João 18, 33b – 37

“UM REINO QUE NÃO É DAQUI” – Diácono José Da  Cruz
A resposta de Jesus à Pilatos, de que o seu reino não é deste mundo, poderá ser mal interpretado, se não se conhecer o contexto do evangelho e o mal entendimento poderá resultar em uma religião extremamente espiritualista, alienada e descomprometida com as realidades terrestres que nos cercam. O cristão sempre tem que ter os pés no chão da história e o olhar no paraíso onde o reino irá atingir a sua plenitude pois o reino de Jesus não é uma utopia mas realidade concreta.
A igreja celebra neste domingo a Festa de Cristo Rei que marca o encerramento do ano litúrgico e convida-nos a refletir sobre a realeza de Jesus porque muito mais que súditos, com ele reinamos e vamos construindo o reino já nesta vida. Importante entendermos que não se trata de dois reinos, um terrestre e um celeste, mas de um único reino que um dia se tornará visível para toda humanidade.
Em sua vida pública Jesus viveu momentos em que poderia declarar-se rei, aliás, o povo e os próprios discípulos em alguns desses momentos quiseram fazê-lo um rei porém, Jesus sempre fugiu desse populismo que não leva a nada a não ser alimentar a vaidade humana.
A confirmação de sua realeza diante de Pilatos, se dá em um momento dramático quando Jesus está totalmente só e indefeso pois os amigos mais chegados o abandonaram, o povo, a quem ele saciou a fome, instigado pelas lideranças religiosas, haviam pedido a sua condenação, preferindo libertar Barrabás. É por tanto um momento de fracasso total e vergonhosa humilhação sendo assim, nessas condições totalmente desfavoráveis, que Jesus confirma que é rei.
Portanto, podemos compreender em um primeiro momento, que reinar com Jesus significa percorrer o difícil caminho do discipulado que vai sempre na contra mão dos projetos humanos, que buscam o Poder e o Ter como as únicas alternativas se ter o domínio não só de um grupo mas de todas as nações da terra, em um absolutismo cruel que atropela e faz sucumbir todos os sonhos e ideais de um povo, desencadeando ódio e violência entre classes, levantando barreiras entre as nações.
Neste sentido Jesus é o único rei que une e congrega todas as nações da terra, no mandato dos seus discípulos sua ordem foi bem clara: ”Ide a todas as nações”. Os grandes impérios humanos que existiram e que ainda vão existir, todos sem exceção irão se acabar porque só o Reino de Deus é eterno e jamais passará. Assim como no passado o rei Davi unificou o norte e o sul, Jesus unificou o mundo inteiro e o seu reino não terá fim.
A arma poderosa que Jesus usou, para expandir o seu reino e torná-lo conhecido no mundo inteiro, não foi o poder bélico de um exército grandioso, nem tão pouco a coragem e valentia dos seus seguidores, que no primeiro confronto com o poder, fugiram todos deixando o mestre entregue nas mãos dos seus perseguidores.
Também não fez uso do poder econômico já que nasceu, viveu e morreu pobre, muito menos utilizou o poder divino para impor à força o seu reino. Mas empregou a força do amor!
Amor que ele manifestou em tantos gestos de acolhimento e misericórdia com os pobres e pecadores pois Jesus nunca quis destruir os que se opuseram ao seu reino mas ao contrário, quis ganha-los oferecendo também a eles a salvação enquanto que os reinos do mundo destroem e eliminam quem se interpõe em caminho Jesus constrói, restaura,renova e edifica o homem todo, sem distinção de raça, cor ou religião.
Por isso como Igreja, sinal deste reino no meio dos homens, muito mais que súditos ou meros simpatizantes somos todos discípulos que devem ter o coração sempre aberto a Deus e aos irmãos, manifestando em nossos gestos e palavras aquele mesmo amor que na manhã de um domingo irrompeu da escuridão da morte derrotando para sempre todas as forças do mal, inaugurando um reino que é definitivo.

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Domingo.25.11.12
João 18,33b-37
: A verdade é que Deus quer salvar o mundo do reinado das trevas.- Maria  Regina

                                 Jesus foi humilhado e flagelado para nos mostrar que o reino de Deus vai mais além do que a nossa humanidade pode agüentar. Jesus foi argüido por Pilatos o qual queria saber se Ele era Rei. Sem responder de pronto Jesus também questionou a Pilatos: “Tu o dizes: eu sou rei”. Jesus confundia os sábios e as autoridades ao proclamar-se Rei com uma postura totalmente inversa da que têm os reis da terra. Jesus, porém, estava seguro do Seu encargo: “eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. Dizendo isto, Ele também nos conclama a sermos aqui na terra, reis diferentes dos que o mundo possui. Jesus nos convoca a sermos reis que proclamam o Caminho, a Verdade e a Vida e que só possuem um Rei, Ele mesmo, Jesus Cristo. A verdade é que Deus quer salvar o mundo do reinado das trevas. Todos os que lutam pelo projeto de Deus e escutam a voz de Jesus fazem parte desse reino de amor que não terá fim. Reflita – Você é da verdade? – Você tem escutado a voz do Senhor? – Na sua opinião, como deve portar-se um rei?
Amém
Abraço carinhoso
Maria  Regina
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Domingo, 25 de novembro de 2012
N. Sr. Jesus Cristo, Rei do Universo

Tu o dizes: eu sou rei.
-Missionários Claretianos

Santa Catarina de Alexandria, Virgem, Mártir (Memória facultativa)
Outros Santos do Dia: Adalberto e Guido de Casauria (monges), Alano de Lavaur (abade), Erasmo de Alexandria (mártir), Imina de Karlburg (duquesa, abadessa), Jucunda de Reggio (virgem), Mercúrio de Cesaréia (mártir), Moisés de Roma (presbítero, mártir).
Primeira leitura: Daniel 7,13-14
Seu poder é um poder eterno. 
Salmo responsorial: 92(93),1ab.1c-2.5 (R/.1a)
Deus é Rei e se vestiu de majestade, glória ao Senhor! 
Segunda leitura: Apocalipse 1,5-8
O soberano dos reis da terra fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai. 
Evangelho: João 18,33-37
Tu o dizes: eu sou rei.
A liturgia deste domingo mostra uma passagem do livro de Daniel. Em contraposição às pretensões de divindade e de domínio absoluto, típicas dos dominadores (gregos para a época do livro). Daniel vai mostrando as imagens do verdadeiro e eterno Deus. Estas descrições apocalípticas não devem ser tomadas em sentido literal. Melhor vê-las a partir da ótica da resistência, um recurso criado pelo hagiógrafo para alertar contra os perigosos efeitos de uma ideologia que pretende suplantar o poder e senhorio único do Deus bíblico. A historia demonstrou que tanto impérios como imperadores, reinos e reis fenecem, passam, acabam, e isso não vai mudar, pois somente uma coisa é imutável: o poder a glória e o reino de Deus a favor do oprimido, isso nunca passará. 
Pilatos já está informado da situação e por isso pergunta diretamente a Jesus: “És tu o rei dos Judeus?”. Jesus responde com outra pergunta: indaga ao inquiridor qual a origem dessa acusação, que acaba por se converter em aclamação. Pilatos não está interessado em estabelecer nenhum tipo de vínculo com Jesus, mas a realeza de Jesus vem proclamada, não pelos cidadãos de sua nação, mas pelos pagãos. 
Celebramos a solenidade de Cristo “Rei no Universo”. Daniel nos diz que o filho do homem recebe da parte do ancião poder e a soberania universal. Em contraste com esta imagem de Daniel, que foi assumida pelo cristianismo como uma prefiguração do reinado universal de Cristo, o evangelho nos apresente a o aumento do juízo político de Jesus diante de Pilatos. “Oficialmente” Jesus não se proclamou Rei, contudo este é o argumento pelo qual seus adversários querem que seja condenado. De fato, seus adversários já o condenaram à morte, só que eles não podiam executar a pena capital (Jo 18,31), que era direito exclusivo de Roma (jus gladii). Por isso a insistência de Pilatos para que fosse confirmada a sentença que eles já haviam ditado.  
Indiretamente Jesus responde à primeira pergunta de Pilatos’, porém faz um esclarecimento para que nem Pilatos e nem os acusadores possam entender: “Meu reinado ou minha realeza” não são deste mundo, e não deve ser entendido à maneira deste mundo”. O esclarecimento continua: “se minha realeza fosse ao estilo da nossa realidade, alguém me defenderia: um exército, e não teria caído nas mãos dos judeus”.  
Porém, Pilatos quer uma resposta clara, um sim ou não e de novo interroga: “Então, tu és rei?” Novamente João coloca nos lábios de um pagão a expressão que confirma a realeza de Jesus. Pilatos afirmou e assim é, porém, em seguida Jesus corrige as características dessa clareza: “para isso eu vim, não para dominar ou infundir terror, mas para servir à verdade”. 
Assim, pois, o evangelista deixa claro em que consiste a dimensão messiânica e real de Jesus. Não se trata de um rei ao estilo dos reinados temporais, mas ao estilo do que havia sido entrevisto no Antigo Testamento: a entrega, o serviço ao projeto do Pai, que é antes de tudo a justiça. Esta é a verdade de João: o projeto do Pai encarnado em Jesus. 
Pena que com o correr do tempo o conteúdo do interrogatório tenha sido desvirtuado, especialmente a resposta de Jesus sobre a origem de sua realeza. Algumas correntes cristologicas, que subsistem até hoje, defendem uma dimensão “espiritual” do reinado de Jesus. Segundo esse pensamento, a expressão “meu reino não é deste mundo” desconecta Jesus e seu evangelho de todo compromisso com a ordem temporal e com esta realidade concreta que vivemos, e o transfere a um mundo “espiritual” ou simplesmente ao mundo das idéias. 
Essa falsa interpretação tem vários reparos a serem feitos. Por uma parte, quando João fala de “mundo”, quase sempre o faz referindo-se à realidade habitada por seres humanos, onde se verificam as tendências mais contraditórias, das quais, as que interessam ao evangelista são aquelas que estão em oposição à vontade de Deus. Em uma palavra: “mundo” para João é uma forma sintética de referir-se a tudo que contradiz ao projeto divino. A comparação também pode ser equiparada com o termo “trevas”, em contraposição à luz.
“Meu reino não é deste mundo”, vale dizer: meu reino “não é desses reinos ou reinados que se opõem ao querer de Deus”. De fato, Jesus realizou toda sua ação sem nenhuma oposição à vontade do Pai. Se projetamos o reinado de Jesus para uma categoria extramundana, isto significaria deixar de reconhecer seu compromisso e sua incidência nos assuntos do dia a dia durante todo o seu ministério público, desde a Galileia até Jerusalém, Se o seu ministério tivesse sido somente de caráter “espiritual”, não teria havido confronto com as autoridades judaicas. Até mesmo de uma gruta, no deserto, poderia ter proclamado o que tinha de dizer e ponto. 
Outra conseqüência deriva de uma falsa interpretação dessa expressão que tem que ver com o cristão enquanto tal. Falar que Jesus e sua obra “não são deste mundo”, é não intrometer-se em assuntos temporais, ou não “meter-se em problemas...”. Essa corrente conta com muitos adeptos, tanto no campo católico como em outras denominações.
Os quatro evangelistas transmitem o compromisso de Jesus com a causa do Pai em favor dos pobres. Jesus manifesta, sim, o seu compromisso concreto com a política e com o social; o apelo é para que seus seguidores sigam o mesmo caminho. Não é necessário nem conveniente sublinhar a “realeza” de Jesus se isto implica tergiversar sobre seu projeto de vida. Jesus está mais para o poder-serviço aos oprimidos do que para uma concepção monártica e principesca de poder. Na verdade, Jesus dedicou toda sua vida e suas energias para desmascarar a luta contra esse tipo de estruturas. 
Oração
Ò Deus de todos os povos e de todos os nomes, de todas as religiões e de em todas as experiências religiosas… Faze-nos compreender que Jesus sempre promoveu uma evangelização que estabeleceu elos de união, amor, justiça, verdade e vida para todos. Que isto se cumpra em nossa vida. É o que te pedimos em nome de Jesus Cristo, teu filho, nosso irmão maior, transparência tua. Amém.

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Evangelhos Dominicais Comentados

25/novembro/2012 – Jesus Cristo Rei do Universo

Evangelho: (Jo 18, 33b-37)
Hoje é um dia festivo para o súdito fiel, pois celebramos Cristo Rei. O Único e Verdadeiro Rei. Rei do universo, Rei das nossas vidas, das nossas famílias e dos nossos corações.

Com a festa de Cristo Rei, nós encerramos este ano litúrgico (ano B). Na próxima semana estaremos comemorando o primeiro domingo do Advento. O Advento é um tempo de preparação para a vinda do Menino Deus, tempo de espera e início de mais uma caminhada no novo ano litúrgico. 

A festa de Cristo Rei do Universo é um prêmio para todo cristão, é a forma que a Igreja encontrou para coroar todos os esforços e trabalhos das comunidades através dessa grande festa. Uma festa que é, ao mesmo tempo, de extrema nobreza e humildade.

Festejamos Jesus, o Rei dos reis que, sendo Filho de Deus, não assumiu o poder nem os símbolos da grandeza humana, mas vestiu-se com as roupas da humildade, da simplicidade e da pobreza. Um Rei nobre por natureza, capaz de vencer sem destruir, fazendo do amor sua única arma.

Pilatos perguntou a Jesus se Ele era rei. Ao dizer: “Meu Reino não é daqui”, Jesus deixa claro que é um Rei diferente, que não usa de força nem de violência para conseguir seus objetivos. Jesus é um Rei que não oprime, que não explora, que não engana seus súditos.

O Reino de Jesus é um Reino de amor, de justiça, de paz e de fraternidade. Um Reino onde os direitos são iguais e respeitados. Um Reino onde as pessoas não são valorizadas pela cor, posição social ou conta bancária.

Parece utopia, mas esse Reino existe. Não só existe como não está distante, como imaginamos. É o Reino da partilha e da comunhão. Deve começar aqui na terra, na nossa família, na comunidade e estender-se por toda a eternidade.

“Venha a nós o vosso Reino!” Essa é a súplica que fazemos na oração que o Senhor nos ensinou. Nesse Reino, autoridade é serviço. Quem é o maior e primeiro, se faz o menor e o último. Esse é o Reino que nos espera. Um Reino de harmonia, onde a violência e o ódio cedem lugar ao amor e à paz.

Jesus finaliza dizendo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade. Só a verdade liberta. Para o cristão que vive a verdade já está reservado o Reino de Deus, um Reino sem muralhas onde as portas estão permanentemente abertas. Para entrar no Reino basta saber amar e perdoar.

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“O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele a glória e poder através dos séculos” (Ap. 5,12; 1,6). Estas palavras são da antífona de entrada da solenidade de hoje e dão o sentido profundo desta celebração de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo.
Uma pergunta que pode vir – deveria vir! – ao nosso coração é esta: Jesus é Rei? Como pode ser Rei, num mundo paganizado, num mundo pós-cristão, num mundo que esqueceu Deus, num mundo que ridiculariza a Igreja por pregar o Evangelho e suas exigências?... Pelo menos do Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo o mundo não quer saber... Como, então, Jesus pode ser Rei de um mundo que não aceita ser o seu reinado? E, no entanto, hoje, no último domingo deste ano litúrgico, ao final de um ciclo de tempo, voltamo-nos para o Cristo, e o proclamamos Rei: Rei de nossas vidas, Rei da história, Rei dos cosmo, Rei do universo. A Igreja canta, neste dia, na sua oração: “Cristo Rei, sois dos séculos Príncipe,/ Soberano e Senhor das nações!/ Ó Juiz, só a vós é devido/ julgar mentes, julgar corações”. O texto do Apocalipse citado no início desta meditação dá o sentido da realeza de Jesus: ele é o Cordeiro que foi imolado. É Rei não porque é prepotente, não porque manda em tudo, até suprimir nossa liberdade e nossa consciência. É Rei porque nos ama, Rei porque se fez um de nós, Rei porque por nós sofreu, morreu e ressuscitou, Rei porque nos dá a vida. Ele é aquele Filho do Homem da primeira leitura: “Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”. Com efeito, o reinado de Cristo não tem as características dos reinados do mundo.
(1) Ele é Rei não porque se distancia de nós, mas precisamente porque se fez “Filho do homem”, solidário conosco em tudo. Ele experimentou nossas pobrezas e limitações; ele caminhou pelas nossas estradas, derramou o nosso suor, angustiou-se com nossas angústias e experimentou tantos dos nossos medos. Ele morreu como nós, de morte humana, tão igual à nossa. Ele reina pela solidariedade. 
(2) Ele é Rei porque nos serviu: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc. 10,45). Serviu com toda a sua existência, serviu dando sempre e em tudo a vida por nós, por amor de nós. Ele reina pelo amor.
(3) Ele é Rei porque tudo foi criado pelo Pai “através dele e para ele” (Cl. 1,15); tudo caminha para ele e, nele, tudo aparecerá na sua verdade: “Quem é da verdade, ouve a minha voz”. É nele que o mundo será julgado. A televisão, os modismos, os sabichões de plantão podem dizer o que quiserem, ensinarem a verdade que lhes forem conveniente... mas, ao final, somente o que passar pelo teste de cruz do Senhor resistirá. O resto, é resto: não passa de palha. Ele reina pela verdade. 
(4) Ele é Rei porque é o único que pode garantir nossa vida; pode fazer-nos felizes agora e pode nos dar a vitória sobre a morte por toda a eternidade: “Jesus Cristo é a testemunha fiel e verdadeira, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra”. Ele reina pela vida.
Sim, Jesus é Rei: “Eu sou Rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo!” Mas seu Reino nada tem a ver com o triunfalismo dos reinos humanos – de direita ou de esquerda! Nunca nos esqueçamos que aquele que entrou em Jerusalém como Rei, veio num burrico, símbolo de mansidão e serviço. Como coroa teve os espinhos; como cetro, uma cana; como manto, um farrapo escarlate; como trono, a cruz. Se quisermos compreender a realeza de Cristo, é necessário não esquecer isso! A marca e o critério da realeza de Cristo é e será sempre, a cruz!
Hoje, assistimos, impressionados, a paganização do mundo, e perguntamos: onde está a realeza do Cristo? – Onde sempre esteve: na cruz: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. O Reino de Jesus não é segundo o modelo deste mundo, não se impõe por guardas, pela força, pelas armas: meu Reino não é daqui! É um Reino que vem do mundo do amor e da misericórdia de Deus, não das loucuras megalomaníacas dos seres humanos. E, no entanto, o Reino está no mundo: “Cumpriu-se o tempo; o Reino de Deus está próximo” (Mc. 1,15); “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou para vós” (Lc. 11,20). O Reino que Jesus trouxe deve expandir-se no mundo! Onde ele está? Onde estiverem o amor, a verdade, a piedade, a justiça, a solidariedade, a paz. O Reino do Cristo deve penetrar todos os âmbitos de nossa existência: a economia, as relações comerciais, os mercados financeiros, as relações entre pessoas e povos, nossa vida afetiva, nossa moral pessoal e comunitária.
Celebrar Jesus Cristo Rei do Universo é proclamar diante do mundo que somente Cristo é o sentido último de tudo e de todos, que somente Cristo é definitivo e absoluto. Proclamá-lo Rei é dizer que não nos submetemos a nada nem a ninguém, a não ser ao Cristo; é afirmar que tudo o mais é relativo e menos importante quando confrontado com o único necessário, que é o Reino que Jesus veio trazer. Num mundo que deseja esvaziar o Evangelho, tornando Jesus alguém inofensivo e insípido, um deus de barro, vazio e sem utilidade, proclamar Jesus como Rei é rejeitar o projeto pagão do mundo atual e proclamar: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele a glória e poder através dos séculos”. Amém (Ap. 5,12; 1,6).
Este é o último domingo do tempo comum, e a Igreja contempla, adora e proclama o seu Senhor, Jesus Cristo, como Rei e Senhor do universo! Depois de termos percorrido todo o ano litúrgico, começando lá atrás, com o Advento que nos preparava para o Natal; depois de termos atravessado a penitência quaresmal e o júbilo pascal, depois das trinta e três semanas do longo tempo comum, eis-nos agora, ao final do ano da Igreja, proclamando que o Senhor do universo, o Rei do tempo e da eternidade é o Cristo nosso Deus!
Rei do Universo! Título pomposo, esse! E pode nos levar à descrença e ao engano. À descrença, quando olhamos em torno a nós e constatamos que cada vez mais Cristo parece reinar menos! Como é Rei? Nossa sociedade é pós-cristã e neo-pagã, os traços do cristianismo e as marcas de respeito pelo Senhor Jesus vão se diluindo e desaparecendo rapidamente... Jesus não mais é rei nas famílias, Jesus não mais é rei nas nossas escolas, Jesus não mais é rei nos nossos ambientes de trabalho, não mais é rei nas nossas leis nem dos nossos legisladores e governantes... Hoje reina o paganismo, hoje reina o relativismo, hoje reina a banalização do que é sagrado... Não será, então, uma tremenda ilusão, uma alienação de quem não quer ver a verdade dos fatos, dizer que Cristo é Rei? Não estaria a Igreja tão tonta de ilusão, que pensa ainda como se fora dois ou três séculos atrás? O mundo nos grita aos ouvidos: "Não! Cristo não é mais Rei! Não queremos que esse aí reine sobre nós! Que reine a nossa ciência; que reine a nossa vontade, na terra como no céu; que reine nosso prazer; reinemos nós mesmos, como senhores do bem e do mal, do certo e do errado, da vida e da morte!" É assim, meus irmãos, que olhando a realidade atual, a festa de hoje pode nos levar à descrença, a uma tremenda tristeza, a um inapelável desânimo! Somos súditos de um Reino sem espaço e de um Rei sem trono nem poder... Parece que o Reino no qual apostamos não passa de um conto de fadas desmentido pela realidade tão dura, rude e poderosa...
Mas, esta visão deprimida e descrente somente pode ser possível se entendermos de modo enganoso a festa deste hoje. E é fácil compreendê-la assim, de modo errado. Vejamos, então! Quando afirmamos que Cristo é Rei, de que Reino estamos falando? De que modo de reinar? De que tipo de Rei? No Evangelho de hoje, Pilatos perguntou a Jesus: “Tu és Rei?” E Jesus confirma, mas esclarece: “O meu Reino não é deste mundo. Meu Reino não é daqui!” Eis! Um Reino que não é como os reinos deste mundo; um Reino que não tem de modo algum os critérios dos reinos daqui... Um Reino que não se vê pela dimensão do território, não se conta pelo poder de suas tropas... “Meu Reino não é daqui!” Trata-se, como diz o prefácio da missa de hoje, de um “reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz”. Jesus é Rei não porque manda em tudo e em todos; é Rei não porque o mundo o reconhece e o adora... Nada disso! É verdade que, ao fim da história humana, toda a criação e toda a humanidade serão por ele julgadas e nele transfiguradas. As palavras da primeira leitura desta Celebração não são uma brincadeira nem uma fábula: “Entre as nuvens do céu vinha um como Filho do Homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados poder, glória e realeza e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”... Certamente, a glória do Senhor se manifestará de modo claro, palpável e inapelável ante todos nós e toda a humanidade; certamente o Senhor haverá de nos julgar a todos e a cada um de nós; certamente, a nossa história e a história humana toda serão passadas a limpo no Cristo... Mas, Jesus será tudo isso porque ele é o Filho do Homem, isto é, aquele que se fez homem, se fez pequeno, tomando nossa pobre condição humana! Aqui está a chave para compreender o reinado de Jesus! Ele não é Rei porque é grande e mandão; ele é Rei porque é Servo, porque nos amou a ponto de dar a vida por nós e por toda a humanidade. Observem que toda vez que a liturgia de hoje fala da sua Realeza, proclama seu amor que fê-lo morrer por nós. Escutem: “Eis que vem sobre as nuvens e todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram. Todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele!” Compreendem? Aquele que vem como Deus, sobre as nuvens, aquele que será contemplado, reconhecido um dia por todos, é o mesmo que foi traspassado na cruz! Toda a humanidade que o traspassou baterá no peito, arrependida, chorosa, admirada de tanto amor! Vejam outra passagem, o versículo do Apocalipse, que o missal traz como antífona de entrada da Festa de hoje: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele a glória através dos séculos” (Ap. 5,12; 1,6). É impressionante, caríssimos: aquele que é digno de receber todo louvor não é forte e altivo como um leão, mas doce e pacífico como um cordeiro; o Cordeiro que foi imolado, transpassado por nós! Ele é digno não porque nos amedronta com sua grandeza, mas porque nos conquista com seu amor e sua generosidade a ponto de se ter deixado imolar por nós! É o “Jesus que nos ama, que nos libertou com seu sangue; que fez de nós um Reino e sacerdotes para o seu Deus e Pai... A ele a glória e o poder...”
Compreendem, caríssimos? O Reinado de Cristo não se impõe pela força, não se mede com a medida do mundo, não obedece aos nossos critérios! Cristo é Rei sim; é Senhor de todas as coisas, sim; haverá de nos julgar, sim: mas os seus modos, os seus tempos, os seus critérios não são os nossos! Por isso mesmo, a Festa de hoje não é um grito de triunfalismo tolo, mas sim uma firme e humilde proclamação do Senhorio de Cristo, na certeza de que o seu Reino já está presente no mundo. Este se manifesta nas coisas humildes e pequenas, a começar pela nossa vida. O Reino de Cristo deve aparecer sobretudo na vida da Igreja e na vida dos cristãos. Ali, onde o amor de Cristo é acolhido com doçura e bondade; ali, onde reina o amor e a caridade; ali onde o serviço e o perdão estão presentes; ali, onde se reza e se busca realmente levar a cruz com Cristo até a morte... É aí, nessas situações bem concretas, que o Reino de Cristo faz-se presente desde já... Cuidemos de ser atentos! Num mundo que adora tudo que é “mega” (mega-show, mega-evento, etc.), tudo quanto é vistoso e pirotécnico, o Reino se apresenta com critérios totalmente opostos!
Eis a grande lição da festa deste hoje: o tempo, a história, o cosmo... tudo corre para Jesus: ele é o Alfa e o Ômega, o A e o Z, o Primeiro e o Último! É nele, no critério da sua cruz, que tudo será avaliado, tudo será julgado! Ao Reinado de Cristo, um Dia – no seu Dia - tudo estará plenamente submetido! Mas, nunca esqueçamos: aquele que é nosso Rei e Juiz é o nosso Salvador, o humilde Filho do Homem, que se manifestará revestido de glória porque morreu por nós: “Jesus Cristo é a Testemunha fiel, o Primogênito dentre os mortos, o Soberano dos reis da terra”. A ele a glória pelos séculos dos séculos.
dom Henrique Soares da Costa

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O crucificado é rei eterno e universal
Introdução geral
Jesus Cristo é Rei universal. Seu reinado se manifesta em seu amor por todos e chegou ao ápice no seu sacrifício da cruz, caminho para sua glorificação. Ele é o Messias transcendente, que veio e retornará em poder.
Comentários dos textos bíblicos
1. I leitura (Dn. 7,13-14)
Após a visão de quatro animais (Dn. 7,2-8), Daniel reporta à visão do trono de Deus e de seu juízo sobre o mundo (v. 9-12). Os v. 13-14 mencionam a visão do filho de homem que se apresenta diante do trono de Deus. A partir do v. 15, o texto traz a interpretação das visões (v. 15-28).
O “filho de homem” é uma figura que ganhou grande importância na tradição judaica e cristã. Literalmente, significa “ser humano” (cf. Sl. 144,3; Jo. 16,21; Jr. 49,18.33 etc.). Mas não é simplesmente tal, pois é apresentada em forma de comparação: “como um filho de homem”. O “como” indica que ele é percebido numa visão, não distintamente, mas de modo pouco claro. Pode ou não ser um ser humano. Como, no livro, “homem” muitas vezes se refere a anjos ou seres celestes (cf. Dn. 8,15; 9,21; 10,5; 12,5-7), o “filho de homem” poderia representar um ser celestial.
Isso é confirmado pelo fato de ele vir “nas/com as nuvens do céu”, ou seja, ter origem celeste; ele é transcendente. No Novo Testamento, particularmente nos evangelhos, a expressão “filho de homem” referir-se-á quase exclusivamente a Jesus Cristo, o que bem expressará, além de outras características, sua origem divina.
Os quatro animais são representações esquemáticas de reis e reinos que se sucederam na história (não exatamente em número de quatro), até o reinado helenista da época de Daniel. Isso faz pensar que também o filho de homem seja uma figura régia. Como ele é associado aos santos do Altíssimo, que receberão o Reino (v. 18.27), pode ser considerado um ser individual que representa todo o povo que participará do Reino eterno.
O “filho de homem” se apresenta diante do Ancião, figura de Deus que vive para sempre.
Dele recebe o império, um domínio universal, permanente e indestrutível. Tomará, portanto, o lugar dos reinos que dominaram a história, que não são nem universais, nem permanentes, nem indestrutíveis.
Há um evidente contraste entre as feras que sobem do mar (v. 3) e o Filho de homem que vem nas nuvens do céu. Seu reinado não será mais fruto das vicissitudes de uma história que tantas vezes se apresenta dominada pelos poderes do caos (o mar), daquilo que é o oposto de Deus. Não são os poderes deste mundo que determinam a história, mas o verdadeiro senhor da história, que é Deus, que, afinal, fará triunfar seu Reino. E o fará através de alguém que vem de seu mundo divino. A comunidade pode então confiar que a última palavra pertence a Deus. E adquirir, assim, a chave para interpretar a história, para enfrentar perseguições, sem se deixar subjugar pelo aparente poder mundano, mas mantendo-se firme na fé no poder de Deus.
2. II leitura (Ap. 1,5-8)
O texto, que praticamente abre o livro do Apocalipse, apresenta a glória e o poder de Jesus Cristo e as consequências de sua obra para nós.
A pessoa de Jesus ocupa o centro da mensagem.
Diversos predicados seus são aí descritos.
a) Ele, o Ressuscitado, é rei, com poder e glória plenos (v. 5a.6b).
b) Ele vem. Ele vem “em meio a nuvens” (v. 7), como o “filho de homem” de Daniel, numa clara indicação de seu caráter transcendente e de seu domínio universal.
No v. 8, Deus se autoapresenta como “aquele que é e que era e que vem”. Trata-se de uma releitura de Ex 3,14, onde Deus se revela como o “Eu sou”. A tradição judaica já havia explicado esse nome com a expressão:
“aquele que é, que era e que será”. O Apocalipse, porém, muda essa fórmula, substituindo “o que será” pelo “o que vem”. Com isso, a expressão diz respeito a Deus Pai, que garante o que foi dito anteriormente (Ele é o alfa e o ômega em Ap. 21,6), mas, ao mesmo tempo, abre-se para indicar Jesus (ele é o alfa e o ômega em Ap. 22,13). No Apocalipse, marca-se de modo muito forte a unidade (na diversidade das Pessoas) entre o Pai e o Filho.
Aquele que vem é o Filho de Homem poderoso, mas que sofreu na cruz, que foi traspassado (v. 7, cf. Zc. 12,10.14), que derramou seu sangue (v. 5). A união da figura do Filho de Homem poderoso com a do traspassado de Zc. 12, dois aspectos tão contraditórios, mostra a novidade do Novo Testamento quanto ao Salvador.
Seu poder se manifesta não afastando a morte, mas assumindo-a e transformando-a.
Por isso, seu poder alcança a todos (v. 7), mesmo os responsáveis por sua morte. Seu triunfo será universalmente reconhecido.
c) Ele é Aquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados (v. 5). Sua obra de redenção, realizada na cruz (ele nos libertou, no passado), é fruto de seu amor, que não é um ato (só) passado, mas presente (ele nos ama).
Daí surgem as consequências para nós:
pelo poder de seu amor, somos libertados do pecado (v. 5) e, com isso, adquirimos dignidade régia e sacerdotal. O que era promessa para o povo judeu, após a libertação do Egito, se guardasse a aliança (cf. Ex. 19,6), agora se tornou realidade, por sua cruz e ressurreição. Aquilo que Jesus é, ele o participa a seus fiéis.
Se é assim, a comunidade eclesial tem só uma coisa a dizer: “a Ele seja a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém” (v. 6).
3. Evangelho (Jo. 18,33b-37)
A cena é a do processo contra Jesus. Pilatos pergunta-lhe se ele é o “rei dos judeus” (Jo. 18,33). Tal pergunta remete à acusação que o levou ao tribunal (cf. Jo. 19,31), da qual Pilatos se distancia (“Acaso sou eu judeu?”, v. 35), negando implicitamente que tivesse nela qualquer responsabilidade. Na boca do juiz romano, porém, tal pergunta poderia denotar certo desprezo pelos judeus, pois ele apresenta aos acusadores Jesus, já flagelado e escarnecido, como “o vosso rei” (cf. 19,14-15) e o caracteriza, no letreiro a ser colocado na cruz, como o “rei dos judeus” (19,19).
Jesus, porém, eleva o nível da pergunta de Pilatos. Responde com uma interrogação que lembra aquela que, nos sinóticos, fizera aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou? E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc. 8,27.29). Pilatos não alcança, porém, a interrogação de Jesus e responde enfocando o essencial no processo: “Que fizeste?” (v. 35). É neste momento que Jesus responde se ele é ou não o rei dos judeus: “Eu sou rei... Meu reino não é daqui” (v. 36-37). Jesus define sua realeza.
Ele não é “rei dos judeus”; é simplesmente “Rei”. Os judeus que a ele se opuseram não o aceitam como seu rei (cf. 19,15.21): seu rei é César. Sua realeza, embora abarque Israel (cf.
12,15), ultrapassa as fronteiras de Israel. Seu poder é universal.
Jesus possui dignidade régia, pois recebeu de seu Pai todo o poder (cf. 3,35; 10,29; 13,3).
Em sua cruz-ressurreição, em sua glorificação, ele inaugura sua realeza, ao desbancar o “príncipe deste mundo” (cf. 12,31-32).
A partir daqui, entende-se melhor o que significa que seu reino não seja deste mundo.
João indica normalmente, através da menção da origem (de onde é algo), o que tal coisa é. Sua realeza não vem deste mundo (cf. 6,15, onde recusa ser feito rei), embora se manifeste no mundo e para o mundo. Mas tem origem e é de natureza transcendente.
Assim, Jesus explica a Pilatos que não é um agitador político que quisesse impor seu poder pela violência. Seu reino não se reduz a pretensões mundanas, mas, mesmo começando a instaurar-se aqui, visa algo que ultrapassa essa história.
O v. 37 expressa positivamente a realeza de Jesus: ele tem origem divina, “veio” (do Pai) ao mundo. Ele é o revelador único da verdade salvífica e convida a aceitá-la. Aquele que “ouve a sua voz” e a acolhe começa a ser “da verdade”, entra no âmbito de seu poder vitorioso:
Minhas ovelhas ouvem a minha voz. Eu as conheço e elas me seguem.
Eu lhes dou a vida eterna.
Elas jamais perecerão e ninguém as arrebatará de minha mão (Jo. 10,27-28).
Ele é Rei, mas exerce sua realeza exatamente aceitando a cruz. Assim, ele instaura um reinado que contradiz os poderes mundanos, pautados tantas vezes pela violência. Seu reinado já se iniciou. Por sua glorificação, os reinos deste mundo já foram relativizados, e já tem lugar o reinado do Filho do Homem;
mas tal realidade ainda não penetrou todas as realidades desta história, o que ocorrerá somente quando “aquele que vem” (Ap. 1,8) completar sua obra redentora.
Dicas para reflexão
– Permito que Jesus exerça sua realeza na minha vida, na vida de minha comunidade, através da abertura à sua Palavra, à sua vontade, ao seu perdão, ao seu amor; e pela solidariedade com tantos que sofrem e procuram um sentido para a vida?
– Creio/cremos realmente na cruz como caminho para a glorificação? Ou procuro/procuramos a glória sem a cruz? Como isso se demonstra no dia a dia?
– Sei/sabemos discernir o que contribui para o reinado de Cristo daquilo que a ele se opõe e, ao contrário, contribui para o reino do maligno?
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Um Rei que morre de amor

Desde a nossa mais tenra idade fomos sendo levados a conhecer e amar a Cristo. Muitos, ao longo do tempo da vida, vão entrando em relação com o Cristo ressuscitado na Igreja e fazem-se discípulos do Senhor, são súditos do Cristo Rei.
Jesus, o Filho de Maria, foi o primeiro na intenção de Deus. Desde toda a eternidade, no seio da Trindade, o Pai queria exteriorizar seu amor desmedido pelos homens através da encarnação do Filho.  Antes que a criação existisse  a humanidade de Jesus já estava  no pensamento de Deus. O amor sem limites da Trindade se concretiza na encarnação do Verbo. Cristo Jesus é o primeiro no pensamento divino. Tudo para ele existe.  Tudo para ele é criado.   Esse  Jesus encarnado, o Verbo feito carne, toma essa carne no seio de Maria.  Ele é o primeiro na intenção de Deus. Ele é rei e centro de tudo.  Para ele foram criados os espaços siderais, as plantas e as flores, os rios e os mares, a lua e o sol, o ancião  que caminha curvado e a criança que agora vem à luz no meio da selva ou numa maternidade da cidade.  Tudo é dele.  Para ele tudo foi criado e tudo se sustenta  em vista dele. Cristo é rei.
Temos a idéia de que os reis da terra sejam poderosos e potentes. Vestem-se com luxo e se cobrem com jóias. Contam com soldados e  vivem em fortalezas. Cristo é rei de maneira diferente. Nasce na singeleza e  na pobreza.  Vive no meio dos simples.  Tem mesmo gosto de circular entre os sem vez e sem voz. Diz-se pobre e pobre é.  Não tem mesmo uma pedra para reclinar a cabeça. Um rei com os pés empoeirados e o corpo cansado.
Pilatos interrogando a Jesus quer saber se ele é rei ouve a resposta: “Tu o dizes, eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto; para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.
No alto da cruz  ele é o rei que morre de amor. Vemo-lo preso, amarrado, pregado, esse que era um missionário andarilho. Mal pode falar, aquele que era a Palavra. Aquele que é adorado pelos anjos se torna na cruz objeto de chacotas e brincadeiras de soldados. Sim, desde toda a eternidade ele foi o primeiro no pensamento de Deus e na cruz ganha toda credibilidade porque é um rei que morre de amor.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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O Reino da Verdade de Deus em Jesus Cristo

Tradicionalmente, o último domingo do ano litúrgico (Cristo-Rei) fala da consumação escatológica do mundo e da História. No ano A, o texto central era a parábola do último juízo, de Mt. 25. Neste ano B, ano do evangelista Mc, o evangelho do último domingo é tomado não de Mc, mas de Jo, que fornece uma espécie de “comentário teológico” a Mc. Pois, enquanto Mc descreve Jesus como o Enviado de Deus manifestando-se de modo velado, Jo. coloca a figura de Jesus na plena luz da glória divina, que nele se manifesta. Assim, podemos ler em Jo com clareza o que em Mc fica subjacente. Mc. “esconde” o caráter messiânico de Jesus, porque, de fato, o mundo se decepcionou, por não enxergar seu Reino. Jo, pelo contrário, afirma claramente que Cristo é Rei, mas explica também que seu Reino não é deste mundo (não pertence a homens fechados na sua auto-suficiência), e sim, o Reino do testemunho da verdade, que é Deus, Deus revelando-se em Jesus, na morte por amor. Pois é na sombra da cruz que Jesus identifica seu Reino com o testemunho da verdade. É na cruz que Jesus é, por excelência, a “Testemunha Fiel”, o “Rei dos reis” (2ª leitura). E Pilatos, alheio às preocupações de Jesus, sem o querer as confirma, exigindo com insistência que se coloque na cruz de Jesus o título: “Rei dos judeus”.
A 1ª leitura prepara-nos para a idéia de um reino transcendente, que não pertence aos homens, mas a Deus. Numa visão, Daniel vê quatro feras, que se entredevoram: imagem adequada para descrever as relações entre os impérios deste mundo. Dn. pensa nos assírios, babilônios, persas e sírios (o livro foi escrito durante o governo do rei sírio Antíoco Epífanes, perseguidor dos judeus na crise dos Macabeus). Mas poderíamos imaginar os impérios de hoje perfeitamente com as mesmas figuras, mesmo se estes impérios já não dependem de imperadores e sim de magnatas. No fim, porém, todos eles serão vencidos por uma figura de feições humanas “como que um filho de homens”, um ser humano; e este representa os “Santos do Altíssimo”, a corte celestial, os servidores de Deus (modo de imaginar uma intervenção de Deus mesmo; o judaísmo rodeou Deus de intermediários, pois não podia haver contato direto entre Deus e os homens). O “Filho do Homem”, em Dn. representa Deus mesmo. A ele pertencem o Poder, a Glória, o Juízo: ele tem a última palavra sobre o mundo e a História.
No N.T., o título de Filho do Homem é dado a Jesus. Este não se inscreve num “messianismo qualquer”. Sua missão é realmente transcendente, traz Deus presente, como última palavra de nossa existência e da História. Isso se confirma tanto pela parábola do último juízo (Cristo Rei/A) quanto pelo diálogo entre Jesus e Pilatos no evangelho de hoje. O Reino que Cristo instaura é muito diferente dos “reinos deste mundo”. Não que o Reino de Cristo seja alheio a este mundo. Está dentro dele, firmemente arraigado. Mas não pertence aos homens, porém a Deus. No Reino de Cristo, ninguém tem a última palavra sobre os outros, mas, pelo contrário, todos estão a serviço dos outros no amor e na doação. Quanto mais se desenvolvem estas atitudes, tanto mais realiza-se o Reino da Verdade e do Amor. Quanto mais o homem organiza seu mundo num instrumento de fraterno amor, em vez de opressão, tanto mais resplandece a face de Deus, que nos é possível identificar a partir da cruz de Cristo. Portanto, que o Reino de Jesus não é deste mundo, não significa que seus “súditos” não o precisam implantar neste mundo.
Quanto aos impérios deste mundo, se não acreditamos a lição da História, que ensina que todos eles se corrompem por dentro, acreditemos pelo menos na mensagem de Dn.: em última instância, estão submissos ao juízo de Deus. Nenhum deles determinará definitivamente a História. Mas, entretanto, oprimem a humanidade. De fato, se o nosso horizonte não superar os nossos limites bio-psicológicos, materiais, não tem muito sentido dizer que Deus tem “afinal” a última palavra. Porém, se acreditarmos naquilo que o evangelho de João diz do início até o fim – que devemos viver desde já uma vida além da dimensão “carnal” -, então encontraremos, na visão escatológica apresentada hoje, uma força para não nos entregar ao jogo dos poderes deste mundo, pois saberemos que eles não são decisivos. Quem for mesmo “materialista” não resistirá à tentação de se entregar a algum destes impérios, fazendo dele o todo de sua vida. Mas aquele que se entregar ao Reino da Verdade, que se manifesta no Cristo crucificado, terá a força de pôr o domínio material a serviço deste Reino, que não pertence a homem algum, mas faz as pessoas se pertencerem mutuamente no amor.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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A realeza de Jesus
A proclamação da realeza de Jesus deve ser entendida a partir do projeto de Reino anunciado por ele. Os modelos humanos não ajudam a compreender a condição de rei aplicada a Jesus. Seu reino não depende dos esquemas deste mundo, e sim, do querer do Pai.
Por ocasião da paixão de Jesus, as autoridades judaicas apresentaram-no como um subversivo, cujo ideal era tornar-se rei dos judeus, libertando o povo da opressão romana. Jesus, porém, recusou-se a se apresentar como um concorrente de Pilatos. O termo reino tinha, para ele, um significado muito diferente daquele que lhe davam os romanos. O reino de Jesus está sob o senhorio do Pai, que deseja ver todos os seus filhos viverem em comunhão. É um reino de verdade e de justiça, pois nele não se admite nenhuma espécie de marginalização ou opressão; tampouco, que se recorra ao dolo e à mentira para se prevalecer sobre os demais.
No Reino de Deus, a autoridade é serviço. Quem é grande, se faz pequeno; para ser o primeiro, é necessário tornar-se o último. A violência e o ódio aí não têm lugar. Quem quer fazer parte desse Reino deve saber perdoar e estar sempre disposto a se reconciliar.
Este é o Reino que Jesus veio implantar na história humana. Os adversários de Jesus estavam longe de poder compreendê-lo.
padre Jaldemir Vitório
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No 34º Domingo do Tempo Comum, celebramos a Solenidade de Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo. A Palavra de Deus que nos é proposta neste último domingo do ano litúrgico convida-nos a tomar consciência da realeza de Jesus; deixa claro, no entanto, que essa realeza não pode ser entendida à maneira dos reis deste mundo: é uma realeza que se concretiza de acordo com uma lógica própria, a lógica de Deus. O Evangelho, especialmente, explica qual é a lógica da realeza de Jesus.
A primeira leitura anuncia que Deus vai intervir no mundo, a fim de eliminar a crueza, a ambição, a violência, a opressão que marcam a história dos reinos humanos. Através de um “filho de homem” que vai aparecer “sobre as nuvens”, Deus vai devolver à história a sua dimensão de “humanidade”, possibilitando que os homens sejam livres e vivam na paz e na tranquilidade. Os cristãos verão nesse “filho de homem” vitorioso um anúncio da realeza de Jesus.
Na segunda leitura, o autor do Livro do Apocalipse apresenta Jesus como o Senhor do Tempo e da História, o princípio e o fim de todas as coisas, o “príncipe dos reis da terra”, Aquele que há-de vir “por entre as nuvens” cheio de poder, de glória e de majestade para instaurar um reino definitivo de felicidade, de vida e de paz. É, precisamente, a interpretação cristã dessa figura de “filho de homem” de que falava a primeira leitura.
O Evangelho apresenta-nos, num quadro dramático, Jesus a assumir a sua condição de rei diante de Pontius Pilatus. A cena revela, contudo, que a realeza reivindicada por Jesus não assenta em esquemas de ambição, de poder, de autoridade, de violência, como acontece com os reis da terra. A missão “real” de Jesus é dar “testemunho da verdade”; e concretiza-se no amor, no serviço, no perdão, na partilha, no dom da vida.
Leitura I - Dan. 7,13-14
Contemplava eu as visões da noite, quando, sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem.
Dirigiu-Se para o Ancião venerável e conduziram-no à sua presença.
Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído.
Ambiente
Já vimos, no domingo anterior, que o Livro de Daniel aparece na primeira metade do século II a.C., numa época em que o rei selêucida Antíoco IV Epífanes procurava impor, pela força, a cultura grega ao Povo de Deus. As imposições de Antíoco IV Epífanes foram, contudo, mal acolhidas e depararam com uma tenaz resistência, sobretudo por parte dos sectores mais tradicionais do judaísmo. Uns judeus optaram abertamente pela insurreição armada (como foi o caso de Judas Macabeu e dos seus heróicos seguidores); outros, contudo, optaram por fazer frente à prepotência dos reis helênicos com a sua palavra e os seus escritos.
O Livro de Daniel surge neste contexto. O seu autor é um judeu fiel à cultura e aos valores religiosos dos seus antepassados, interessado em defender a sua religião, apostado em mostrar aos seus concidadãos que a fidelidade aos valores tradicionais seria recompensada por Jahwéh com a vitória sobre os inimigos. Contando a história de um tal Daniel, um judeu exilado na Babilônia, que soube manter a sua fé num ambiente adverso de perseguição, o autor do Livro de Daniel pede aos seus concidadãos que não se deixem vencer pela perseguição e que se mantenham fiéis à religião e aos valores dos seus pais. Neste Livro, o autor garante-lhes que Deus está do lado do seu Povo e que recompensará a sua fidelidade à Lei e aos mandamentos.
O texto que nos é proposto integra a segunda parte do Livro de Daniel (Dan. 7,1-12,13). Aí o autor, recorrendo à “figura” da “visão”, apresenta-nos uma leitura profética da história, cuja finalidade é transmitir a esperança aos crentes perseguidos por causa da sua fé e dos seus valores tradicionais.
Na primeira das “visões” propostas (Dan. 7,1-28), o autor do Livro apresenta “quatro grandes animais” (o primeiro “era semelhante a um leão”; o segundo era “semelhante a um urso”; o terceiro era “parecido com uma pantera”; o quarto era “horroroso, aterrador e de uma força excepcional” e “tinha dez chifres”, embora lhe tivesse depois nascido um outro “chifre mais pequeno” que “tinha olhos como homem e uma boca que proferia palavras arrogantes” - Dan. 7,4-8). Esses “quatro animais” evocam a sucessão dos impérios humanos… O primeiro seria o império neo-babilónico, o segundo representaria o império dos medos, o terceiro referir-se-ia ao império persa e o quarto seria o império grego de Alexandre, do qual os reis selêucidas eram os herdeiros diretos. Os “dez chifres” desse quarto animal referem-se a uma série de dez reis que se sucederam uns aos outros; e o décimo primeiro chifre, mais pequeno do que os outros, seria, seguramente, Antíoco IV Epífanes, o rei perseguidor do Povo de Deus.
Em paralelo com o quadro histórico destes impérios - todos eles conotados com o mal, com o imperialismo, com a opressão, com a perseguição ao Povo de Deus - o autor coloca, numa outra cena, “um ancião” com os cabelos e as vestes brancos “como a neve; sentado num trono feito de chamas e servido “por milhares e dezenas de milhares”, esse “ancião” decretou a morte do décimo primeiro “chifre”, bem como o fim do poderio dos “quatro animais” (Dan. 7,9-12). É precisamente aqui que começa a cena descrita pelo texto da nossa primeira leitura: a entronização do “Filho do Homem” (Dan. 7,13-14).
Mensagem
A “visão” descrita por Daniel desde 7,1 amplia-se, agora, com o aparecimento de um “filho de homem”. Ao contrário dos “animais” apresentados nos versículos anteriores (que vêm do mar - na simbólica judaica, o reino do mal, da desordem, do caos, das forças que se opõe a Deus e à felicidade do homem), esse “filho de homem” aparece “sobre as nuvens do céu” (vers. 13) e tem, portanto, uma origem transcendente. Ele vem de Deus e pertence ao mundo de Deus.
O “filho de homem” recebe de Deus um reino com as dimensões do universo (“todos os povos e nações O serviram” - vers. 14) e um poder que não é limitado pelo tempo, nem pela finitude que caracteriza os reinos humanos (“o seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído” - vers. 14).
Com o anúncio do aparecimento “sobre as nuvens” desse “filho de homem”, o autor do Livro de Daniel anuncia aos crentes perseguidos por Antíoco IV Epífanes a chegada de um tempo em que Deus vai intervir no mundo, a fim de eliminar a crueza, a voracidade, a ferocidade, a violência (os reinos dos “quatro animais”), que oprimem os homens; em contrapartida, Deus vai devolver à história a sua dimensão de “humanidade”, possibilitando que os homens sejam livres e vivam na paz e na tranquilidade.
Para a teologia judaica, esse “filho de homem” que há-de chegar para instaurar o “reino de Deus” sobre a terra será o Messias (o “ungido”) de Deus. A sua intervenção irá pôr fim à perseguição dos justos e possibilitar a vitória dos santos sobre as forças da opressão e da morte. É esta esperança que anima os corações dos crentes na época imediatamente anterior à chegada de Jesus.
De acordo com vários textos neo-testamentários, Jesus aplicará esta imagem do “filho de homem que vem sobre as nuvens” à sua própria pessoa. Ao ser interrogado pelo sumo-sacerdote Caifás, Jesus assumirá claramente que é “o Messias, o Filho de Deus bendito”, o “Filho do Homem sentado à direita do Poder”, que virá “sobre as nuvens do céu” (Mc. 14,61-62). A catequese cristã primitiva retomará esta imagem para sublinhar a glória de Cristo e o poder soberano de Cristo sobre a história humana (cf. Act. 7,55-56). Para os cristãos, Cristo é, efetivamente, esse “filho de homem” anunciado em Dan 7, que irá libertar os santos das garras do poder opressor e instaurar o reino definitivo da felicidade e da paz.
Atualização
O texto que nos é proposto como primeira leitura na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, aparece inserido numa reflexão mais ampla sobre a história e sobre os valores sobre os quais são construídos os impérios humanos. Os reinos construídos pelos homens baseiam-se, frequentemente, num poder arrogante e são geradores de exploração, de miséria, de violência. Trata-se de uma realidade que os modernos impérios perpetuam e que, hoje como ontem, marca a história humana. A humanidade estará, irremediavelmente, condenada a viver sob o domínio da injustiça e da opressão? Nunca nos libertaremos desse ciclo de morte? Deus assiste, indiferente e de braços cruzados, a esta dinâmica de violência e de violação dos direitos mais elementares dos povos e das nações? O “profeta” autor do Livro de Daniel acredita que o reino do mal não será eterno e que Deus intervém na história para destruir essas forças de morte que impedem os homens de alcançar a liberdade, a paz, a vida plena. Numa época em que os imperialismos, os fundamentalismos, os colonialismos, a cegueira dos líderes das nações poderosas multiplicam o sofrimento de tantos homens e mulheres, a profecia de Daniel convida-nos à esperança e à confiança: Deus não abandona o seu Povo em marcha pela história e saberá derrubar todos os poderes humanos que impedem a realização plena do homem.
O anúncio de um “filho de homem” que virá “sobre as nuvens” para instaurar um reino que “não será destruído” leva-nos a Jesus. Ele veio ao encontro dos homens para lhes propor uma nova ordem, em que os pobres, os débeis, os fracos, os marginalizados, aqueles que não podem fazer ouvir a sua voz nos grandes areópagos internacionais não mais serão humilhados e espezinhados. Jesus introduziu na história uma nova lógica, substituindo a lógica do orgulho e do egoísmo, por uma lógica de amor, de serviço, de doação. É verdade que, mais de dois mil anos depois do nascimento de Jesus, esse reino ainda não se tornou uma realidade plena na nossa história; contudo, o reino proposto por Jesus está presente na vida do mundo, como uma semente a crescer ou como o fermento a levedar a massa. Compete-nos a nós, discípulos de Jesus, fazer com que esse reino seja, cada vez mais, uma realidade bem viva, bem presente, bem atuante no nosso mundo.
Salmo responsorial – Salmo 92 (93)
Refrão: O Senhor é rei num trono de luz.
O Senhor é rei, revestiu-Se de majestade, revestiu-Se e cingiu-Se de poder.
Firmou o universo, que não vacilará. É firme o vosso trono desde sempre, Vós existis desde toda a eternidade.
Os vossos testemunhos são dignos de toda a fé, a santidade habita na vossa casa por todo o sempre.
Leitura II - Ap. 1,5-8
Jesus Cristo é a Testemunha fiel, o Primogênito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra.
Àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus seu Pai, a Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém. Ei-l’O que vem entre as nuvens, e todos os olhos O verão, mesmo aqueles que O trespassaram;
e por sua causa hão-de lamentar-se todas as tribos da terra. Sim. Amen.
«Eu sou o Alfa e o Ômega», diz o Senhor Deus, «Aquele que é, que era e que há-de vir, o Senhor do Universo».
Ambiente
“Apocalipse” significa “manifestação de algo que está oculto”. O nosso “Livro do Apocalipse” - do qual é retirado o trecho da nossa segunda leitura - é um livro que se apresenta como uma “revelação” sobre “as coisas que brevemente devem acontecer” (Ap. 1,1) e que um tal João, exilado na ilha de Patmos (uma pequena ilha do Mar Egeu) por causa da sua fé, tem por missão comunicar aos seus irmãos na fé.
Estamos na fase final do reinado do imperador Domiciano (à volta do ano 95). As comunidades cristãs da Ásia Menor vivem numa grave crise interna, resultante das heresias, da falta de entusiasmo, da tibieza, da indiferença, do medo de dar testemunha da própria fé. Por outro lado, há também uma crise que resulta de causas externas, sobretudo da violenta perseguição que o imperador ordenou contra os cristãos: muitos seguidores de Jesus eram condenados e assassinados e outros, cheios de medo, abandonavam o Evangelho e passavam para o lado do império. Na comunidade dizia-se: “Jesus é o Senhor”; mas lá fora, quem mandava mesmo, como senhor todo-poderoso, era o imperador de Roma.
É neste contexto de crise, de perseguição, de medo e de martírio que vai ser escrito o Apocalipse. O objetivo do autor é levar os crentes a revitalizarem o seu compromisso com Jesus e a não perderem a esperança. Nesse sentido, o autor do livro começa por fazer um convite à conversão (primeira parte – Ap. 1-3); passa, depois, a apresentar uma leitura profética da história humana, que dá conta da vitória final de Deus e dos seus fiéis sobre as forças do mal (segunda parte - Ap. 4-22). Estes conteúdos são apresentados com o recurso sistemático ao símbolo (como é típico da literatura apocalíptica), o que torna este livro estranho e difícil mas, ao mesmo tempo, muito belo e interpelante.
O texto da segunda leitura de hoje apresenta-nos alguns dos primeiros versículos do Livro do Apocalipse. Trata-se de uma espécie de introdução litúrgica, onde se apresenta o diálogo litúrgico entre um leitor e a comunidade cristã reunida para escutar uma proclamação. Neste diálogo, a comunidade é convidada a aceitar Cristo como o centro da história humana, a razão de ser da comunidade, a coordenada fundamental à volta da qual se estrutura e organiza toda a vida cristã.
Mensagem
O leitor começa por apresentar Jesus à comunidade reunida para celebrar o seu Senhor, recorrendo a três títulos cristológicos (vers. 5a) que deviam fazer parte da catequese da comunidade joânica: “testemunha fiel”, “primogênito dos mortos”, “príncipe dos reis da terra”. Jesus é a “testemunha fiel” porque, com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos de serviço, de amor e de doação, com a sua entrega até à morte, testemunhou, de forma perfeita, o que Deus queria revelar aos homens e mostrou aos homens o rosto do Deus-amor. Jesus é o “primogênito dos mortos”, porque foi o primeiro a vencer a morte e o pecado e demonstrou-nos, com essa vitória, que quem vive nos caminhos de Deus não será vencido pela morte, mas está destinado à vida eterna. Jesus é o “príncipe dos reis da terra”, porque inaugurou uma nova forma de ser e um reino novo, de vida e de felicidade sem fim.
Depois de escutar esta proclamação, a comunidade, reconhecida, louva o seu Senhor: “àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus seu Pai, a Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém” (vers. 5b-6). Os membros da comunidade cristã têm consciência de que a entrega de Jesus na cruz é expressão do amor sem medida com que Ele ama todos os homens… Porque ama, Jesus libertou os homens do egoísmo e do pecado; porque ama, Jesus convidou os homens a integrar um reino novo, de amor e de paz; porque ama, Jesus associou os homens à sua missão, tornando-os sacerdotes que oferecem a Deus o culto das suas próprias vidas. Jesus inseriu os homens numa dinâmica de vida nova, aproximou-os de Deus, convidou-os a integrar a família de Deus. A comunidade cristã, consciente desta realidade, manifesta no culto o seu reconhecimento.
A “liturgia” prossegue com o leitor a recordar à comunidade reunida que Jesus há-de vir ao encontro dos seus, cheio de poder e majestade, a fim de inaugurar uma nova era de vida e de paz sem fim (“entre as nuvens” - vers. 7. A imagem é tirada do Antigo Testamento e está associada às manifestações de Deus. No Livro de Daniel - cf. Dan. 7,13 - o “filho de homem” que aparece sobre as nuvens está associado à vitória de Deus sobre os reinos e os poderes do mundo). Recorda-se, assim, aos crentes que a última palavra nunca é dos maus e dos perseguidores, mas sim de Deus. Por outro lado, todos os homens poderão ver o coração trespassado de Cristo (vers. 7a.b) e tomarão consciência de quanto Ele ama os homens. A vitória de Cristo concretizar-se- á através do seu amor, feito dom a todos os homens, sem exceção.
A comunidade manifesta a sua adesão a Cristo e às verdades proclamadas respondendo: “sim. Amén” (vers. 7c).
O leitor conclui a sua apresentação de Jesus, definindo-O como o princípio e o fim de todas as coisas (o “alfa” e o “ômega”, a primeira e a última letra do alfabeto grego), Aquele que é Senhor da História e que abarca a totalidade do tempo (“Aquele que é, que era e que há-de vir” – vers. 8). Os cristãos que participam nesta “liturgia” percebem, assim, que podem confiar incondicionalmente nesse Jesus que é a referência fundamental da história humana; e percebem, também, que são convidados a fazer de Jesus o centro das suas vidas.
Atualização
A figura de Jesus que é proposta à comunidade pelo autor do nosso texto é a figura do Senhor do Tempo e da História, princípio e fim de todas as coisas; é a figura do “príncipe dos reis da terra”, que há-de vir “por entre as nuvens” cheio de poder, de glória e de majestade para instaurar um reino definitivo de felicidade, de vida e de paz. Esta imagem de Jesus apela à confiança e à esperança: sejam quais forem as circunvoluções e as derrapagens da história humana, o caminho dos homens não será um caminho sem saída, destinado ao fracasso; mas será um caminho que desembocará inevitavelmente nesse reino novo de vida e de paz sem fim que Jesus veio anunciar e propor.
A ação de Jesus como Senhor da História não se concretizará, contudo, numa lógica de poder, de autoridade, de força, à imagem dos reis da terra. Na sua catequese, o autor do Livro do Apocalipse sublinha o amor de Jesus, manifestado no dom da vida para libertar os homens do egoísmo e do pecado, para os inserir numa dinâmica de vida nova, para os integrar na família de Deus. Jesus, o nosso rei, é um rei que ama os seus com um amor sem limites e que, por amor, ofereceu a sua vida em favor da liberdade e da realização plena do homem. Neste dia em que celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, somos convidados (com as comunidades a quem o Livro do Apocalipse se destinava) a agradecer pelo amor de Jesus que nos libertou do egoísmo e da morte; e somos convidados, também, a ter a mesma atitude de Jesus, substituindo os esquemas de egoísmo, de poder e de prepotência, pelo amor que se faz doação e serviço aos homens.
Na apresentação feita pelo autor do Livro do Apocalipse, os crentes são convidados a ver Jesus como o centro da história e a fazerem d’Ele a coordenada fundamental à volta da qual se constrói a existência humana, em geral, e a existência cristã, em particular. Jesus é, efetivamente, o centro da história humana? Que impacto tem a sua proposta na construção do nosso mundo? Jesus está, efetivamente, no centro das nossas comunidades cristãs? Ele é a referência fundamental para os crentes? Os seus valores, os seus ensinamentos condicionam a vida dos crentes, a sua forma de ver o mundo, os compromissos que eles assumem com os outros homens?
Aleluia - Mc. 11,9.10
Aleluia. Aleluia.
Bendito o que vem em nome do Senhor, bendito o reino do nosso pai David.
Evangelho - Jo. 18,33b-37
Naquele tempo, disse Pilatos a Jesus:
«Tu és o Rei dos judeus?» Jesus respondeu-lhe:
«É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de Mim?» Disseram-Lhe Pilatos:
«Porventura eu sou judeu?
O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim. Que fizeste?»
Jesus respondeu:
«O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui».
Disse-Lhe Pilatos:
«Então, Tu és Rei?» Jesus respondeu-lhe:
«É como dizes: sou Rei.
Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade.
Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».
Ambiente
O Evangelho da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, apresenta-nos uma cena do processo de Jesus diante de Pontius Pilatus, o governador romano da Judéia. Para trás havia já ficado o frente a frente de Jesus com os líderes judaicos, nomeadamente com Anás (sogro de Caifás, o sumo-sacerdote; Anás, apesar de ter deixado o cargo de sumo-sacerdote, continuava a ser um personagem muito influente e foi ele, provavelmente, quem liderou o processo contra Jesus - cf. Jo. 18,12-14.19-24).
Pontius Pilatus, o interlocutor romano de Jesus, governou a Judéia e a Samaria entre os anos 26 e 36. As informações de Flávio Josefo e de Fílon apresentam-no como um governante duro e violento, obstinado e áspero, culpado de ordenar execuções de opositores sem um processo legal. As queixas de excessiva crueldade apresentadas contra ele pelos samaritanos no ano 35 levaram Vitélio, o legado romano na Síria, a tomar posição e a enviá-lo a Roma para se explicar diante do imperador. Pontius Pilatus foi deposto do seu cargo de governador da Judéia logo a seguir.
Curiosamente, o autor do Quarto Evangelho descreve Pontius Pilatus como um homem fraco, indeciso e volúvel, uma espécie de marioneta habilmente manobrada pelos líderes judaicos. Esta apresentação - que contradiz os dados deixados pelos historiadores da época - não deve ter grandes bases históricas: deve ser, apenas, uma tentativa de livrar os romanos de qualquer culpa no processo de Jesus. Na época em que o autor do Quarto Evangelho escreve (por volta do ano 100), não era conveniente para os cristãos acusar Roma, afirmando a sua responsabilidade no processo que levou Jesus à morte. Assim, os escritores cristãos da época preferiram branquear o papel do poder imperial e, por outro lado, fazer recair sobre as autoridades judaicas toda a culpa pela condenação de Jesus.
Mensagem
O interrogatório de Jesus começa com uma pergunta direta, posta por Pontius Pilatus (vers. 33b): «Tu és o Rei dos judeus?» Este início de interrogatório revela qual era a acusação apresentada pelas autoridades judaicas contra Jesus: Ele tinha pretensões messiânicas; pretendia restaurar o reino ideal de David e libertar Israel dos opressores. Esta linha de acusação vê em Jesus um agitador político empenhado em mudar o mundo pela força, que fundamenta as suas pretensões e a sua ação no poder das armas e na autoridade dos exércitos. Esta acusação tem fundamento? Jesus aceita-a?
A resposta de Jesus situa as coisas na perspectiva correta. Ele assume-se como o messias que Israel esperava e confirma, claramente, a sua qualidade de rei; no entanto, descarta qualquer parecença com esses reis que Pontius Pilatus conhece (vers. 36). Os reis deste mundo apóiam na força das armas e impõem aos outros homens o seu domínio e a sua autoridade; a sua realeza baseia-se na prepotência e na ambição e gera opressão, injustiça e sofrimento… Jesus, em contrapartida, é um prisioneiro indefeso, traído pelos amigos, ridicularizado pelos líderes judaicos, abandonado pelo povo; não se impõe pela força, mas veio ao encontro dos homens para os servir; não cultiva os próprios interesses, mas obedece em tudo à vontade de Deus, seu Pai; não está interessado em afirmar o seu poder, mas em amar os homens até ao dom da própria vida… A sua realeza é de uma outra ordem, da ordem de Deus. É uma realeza que toca os corações e que, em vez de produzir opressão e morte, produz vida e liberdade. Jesus é rei e messias, mas não vai impor a ninguém o seu reinado; vai apenas propor aos homens um mundo novo, assente numa lógica de amor, de doação, de entrega, de serviço.
A declaração de Jesus causa estranheza a Pontius Pilatus. Ele não consegue entender que um rei renuncie ao poder e à força e fundamente a sua realeza no amor e na doação da própria vida. A expressão posta na boca de Pontius Pilatus «então, Tu és Rei» (vers. 37a) parece uma “deixa” de alguém para quem as declarações do seu interlocutor não são claras e que conserva a porta aberta a ulteriores explicações… Na sequência, Jesus confirma a sua realeza e define o sentido e o conteúdo do seu reinado.
A realeza de que Jesus Se considera investido por Deus consiste em «dar testemunho
da verdade» (vers. 37b). Para o autor do Quarto Evangelho, a “verdade” é a realidade de Deus. Essa “verdade” manifesta-se nos gestos de Jesus, nas suas palavras, nas suas atitudes e, de forma especial, no seu amor vivido até ao extremo do dom da vida. A “verdade” (isto é, a realidade de Deus) é o amor incondicional e sem medida que Deus derrama sobre o homem, a fim de o fazer chegar à vida verdadeira e definitiva. Essa “verdade” opõe-se à “mentira”, que é o egoísmo, o pecado, a opressão, a injustiça, tudo aquilo que desfeia a vida do homem e o impede de alcançar a vida plena. A “realeza” de Jesus concretiza-se, por um lado, na luta contra o egoísmo e o pecado que escravizam o homem e que o impedem de ser livre e feliz; por outro lado, a realeza de Jesus consuma-se na proposição de uma vida feita amor e entrega a Deus e aos irmãos. Esta meta não se alcança através de uma lógica de poder e de força (que só multiplicam as cadeia de mentira, de injustiça, de violência); mas alcança-se através do amor, da partilha, do serviço simples e humilde em favor dos irmãos. É esse “reino” que Jesus veio propor; é a esse “reino” que Ele preside.
A proposta de Jesus provoca uma resposta livre do homem. Quem escuta a voz de Jesus adere ao seu projeto e se compromete a segui-l’O, renuncia ao egoísmo e ao pecado e faz da sua vida um dom de amor a Deus e aos irmãos (vers. 37c). Passa, então, a integrar a comunidade do “Reino de Deus”.
Atualização
As declarações de Jesus diante de Pontius Pilatus não deixam lugar a dúvidas: Ele é “rei” e recebeu de Deus, como diz a primeira leitura, “o poder, a honra e a realeza” sobre todos os povos da terra. Ao celebrarmos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, somos convidados, antes de mais, a descobrir e interiorizar esta realidade: Jesus, o nosso rei, é princípio e fim da história humana, está presente em cada passo da caminhada dos homens e conduz a humanidade ao encontro da verdadeira vida. Os inícios do séc. XXI estão marcados por uma profunda crise de liderança a nível mundial. Os grandes líderes das nações são, frequentemente, homens com uma visão muito limitada do mundo, que não se preocupam com o bem da humanidade e que conduzem as suas políticas de acordo com lógicas de ambição pessoal ou de interesses particulares. Sentimo-nos, por vezes, perdidos e impotentes, arrastados para um beco sem saída por líderes medíocres, prepotentes e incapazes… Esta constatação não deve, no entanto, lançar-nos no desânimo: nós sabemos que Cristo é o nosso rei, que Ele preside à história e que, apesar das falhas dos homens, continua a caminhar conosco e a apontar-nos os caminhos da salvação e da vida.
No entanto, a realeza de Jesus não tem nada a ver com a lógica de realeza a que o mundo está habituado. Jesus, o nosso rei, apresenta-Se aos homens sem qualquer ambição de poder ou de riqueza, sem o apoio dos grupos de pressão que fazem os valores e a moda, sem qualquer compromisso com as multinacionais da exploração e do lucro. Diante dos homens, Ele apresenta-se só, indefeso, prisioneiro, armado apenas com a força do amor e da verdade. Não impõe nada; só propõe aos homens que acolham no seu coração uma lógica de amor, de serviço, de obediência a Deus e aos seus projetos, de dom da vida, de solidariedade com os pobres e marginalizados, de perdão e tolerância. É com estas “armas” que Ele vai combater o egoísmo, a auto-suficiência, a injustiça, a exploração, tudo o que gera sofrimento e morte. É uma lógica desconcertante e incompreensível, à luz dos critérios que o mundo avaliza e enaltece. A lógica de Jesus fará sentido? O mundo novo, de vida e de felicidade plena para todos os homens nascerá de uma lógica de força e de imposição, ou de uma lógica de amor, de serviço e de dom da vida?
Nós, os que aderimos a Jesus e optamos por integrar a comunidade do Reino de Deus, temos de dar testemunho da lógica de Jesus. Mesmo contra a corrente, a nossa vida, as nossas opções, a forma de nos relacionarmos com aqueles com quem todos os dias nos cruzamos, devem ser marcados por uma contínua atitude de serviço humilde, de dom gratuito, de respeito, de partilha, de amor. Como Jesus, também nós temos a missão de lutar – não com a força do ódio e das armas, mas com a força do amor – contra todas as formas de exploração, de injustiça, de alienação e de morte… O reconhecimento da realeza de Cristo convida-nos a colaborar na construção de um mundo novo, do Reino de Deus.
A forma simples e despretensiosa como Jesus, o nosso Rei, Se apresenta, convida-nos a repensar certas atitudes, certas formas de organização e certas estruturas que criamos… A comunidade de Jesus (a Igreja) não pode estruturar-se e organizar-se com os mesmos critérios dos reinos da terra… Deve interessar-se mais por dar um testemunho de amor e de solidariedade para com os pobres e marginalizados do que em controlar as autoridades políticas e os chefes das nações; deve preocupar-se mais com o serviço simples e humilde aos homens do que com os títulos, as honras, os privilégios; deve apostar mais na partilha e no dom da vida do que na posse de bens materiais ou na eficiência das estruturas. Se a Igreja não testemunhar, no meio dos homens, essa lógica de realeza que Jesus apresentou diante de Pontius Pilatus, está a ser gravemente infiel à sua missão.
Algumas sugestões práticas para o 34º domingo do tempo comum
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A palavra meditada ao longo da semana.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 34º Domingo do Tempo Comum (Solenidade de Cristo Rei), procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. Bilhete de evangelho.
Dois homens presentes para um processo: Pilatos e Jesus. O primeiro tem uma autoridade que vem dos homens, tem um poder sobre eles, é ele, em último grau, que decide sobre a vida de Jesus, libertação ou condenação à morte. Mas Pilatos exerce o seu poder sob o medo, a verdade mete-lhe medo. Face a este homem, Jesus apresenta-Se com a fraqueza de um condenado, a sua única força é o testemunho que presta à verdade. Jesus desarma Pilatos que pergunta: «que é a Verdade?». Este rei sem exército, com uma coroa de espinhos na cabeça, revestido de um manto vermelho, só pede uma coisa: que se escute a sua voz a fim de se pertencer como Ele à verdade. O drama que se desenrola no palácio de Pilatos é o drama da humanidade que procura onde está a verdade. Por vezes, ela vira-se para os poderosos deste mundo, que não sabem que só um pôde dizer «Eu sou a Verdade!» e que só a verdade nos pode tornar livres.
3. À escuta da palavra.
«Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade». E que é a verdade? – pergunta Pilatos. E nós também… Tantas formas de ver a verdade, mesmo nas religiões… Cada um procura fabricar a sua pequena verdade pessoal… Porém, a verdade só se pode encontrar em Jesus. Ele veio para olhar os homens à luz do olhar de seu Pai, para testemunhar esse olhar. Jesus pôde dizer “Eu sou a Verdade”, porque seu Pai encarregou-O de chegar a cada ser humano na última profundidade do ser. Só o olhar do Pai pode dizer a última verdade de cada ser. Este olhar só pode ser amor infinito. Eis porque Jesus não pode condenar ninguém, nem sequer Pilatos, nem os seus carrascos. Cristo Rei do universo? Sim, sob a condição de não se esquecer que o seu Reino não é somente o amor da verdade. É primeiramente a Verdade do Amor.
4. Para a semana que se segue…
Balanço anual… Acabar um ano é também dar graças por tudo aquilo que pudemos viver. Individualmente, em família e em comunidade, fazer o balanço do ano que passou… Recordar alguns momentos concretos do ano litúrgico que marcaram o dinamismo do crescimento da fé, a nível pessoal e comunitário…
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Estamos no último Domingo do Tempo Comum e assim encerrando o Ano Litúrgico “B” onde refletimos sobre o Evangelho de Marcos. A Igreja a partir da reforma do Vaticano II transferiu a Festa de Jesus Cristo Rei do Universo para o último Domingo do Tempo Comum sintonizando-a com a perspectiva própria do final do Ano Litúrgico e começo do Tempo de Advento. Cristo Rei é a principal Festa Litúrgica que antecede o início do Advento e as Festas Natalinas. “A Ele foram dados império, gloria e realeza (Daniel 7,13-14).” Em um mundo capitalista e extremamente consumista, que prioriza o lucro e o ter, esta Solenidade nos desafia para que cada cristão reveja suas atitudes e ações descobrindo o que significa o valor absoluto da vida pessoal e comunitária. A Festa de hoje nos convida a refletir sobre nosso desejo sincero de seguir Jesus reconhecendo seu Senhorio e aceitando sua proposta de vida: o Reino de Deus. A Solenidade de Cristo Rei nos remete ao título que os primeiros cristãos deram a Jesus após a sua ressurreição. Quando as autoridades políticas e religiosas tramavam a sua morte, Pilatos interroga Jesus para conhecer suas pretensões políticas e Jesus lhe assegura que seu Reino não é deste mundo e que seu trono é a cruz de onde governa, julga e santifica a humanidade. Ao longo do Ano Litúrgico fomos guiados pelo evangelista Marcos que foi lentamente revelando quem é Jesus. Percebemos que o Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império Romano. Jesus sendo Rei não nasceu em nenhum palácio, mas em uma manjedoura. Para provar sua total entrega e serviço a humanidade fez da cruz seu trono. Assim tornou-se modelo de Rei que veio para servir e não para ser servido. Jesus ao implantar um Reinado de justiça, amor e paz fez tudo com tamanha fidelidade que Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo nome: Jesus Cristo, Rei do Universo. Ele é o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim (Ap. 22,13). Participando com fé da Solenidade de hoje, devemos fazer um exame de consciência e verificar se o nosso Rei é realmente Jesus ou Pilatos! Será que o seguimento a Jesus e a prática da justiça do Reino são elementos que norteiam nossas práticas individuais e comunitárias? Se assim não for, então Jesus ainda não se tornou Rei do nosso universo pessoal e eclesial. O Evangelho nos indica o caminho e nos ensina a conquistar o Reino dos Céus.
Pedro Scherer
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“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz!”
Hoje é um dia festivo para o súdito fiel, pois celebramos Cristo Rei. O Único e Verdadeiro Rei. Rei do universo, Rei das nossas vidas, das nossas famílias e dos nossos corações.
Com a festa de Cristo Rei, nós encerramos este ano litúrgico (ano B). Na próxima semana estaremos comemorando o primeiro domingo do Advento. O Advento é um tempo de preparação para a vinda do Menino Deus, tempo de espera e início de mais uma caminhada no novo ano litúrgico.
A festa de Cristo Rei do Universo é um prêmio para todo cristão, é a forma que a Igreja encontrou para coroar todos os esforços e trabalhos das comunidades através dessa grande festa. Uma festa que é, ao mesmo tempo, de extrema nobreza e humildade.
Festejamos Jesus, o Rei dos reis que, sendo Filho de Deus, não assumiu o poder nem os símbolos da grandeza humana, mas vestiu-se com as roupas da humildade, da simplicidade e da pobreza. Um Rei nobre por natureza, capaz de vencer sem destruir, fazendo do amor sua única arma.
Pilatos perguntou a Jesus se Ele era rei. Ao dizer: “Meu Reino não é daqui”, Jesus deixa claro que é um Rei diferente, que não usa de força nem de violência para conseguir seus objetivos. Jesus é um Rei que não oprime, que não explora, que não engana seus súditos.
O Reino de Jesus é um Reino de amor, de justiça, de paz e de fraternidade. Um Reino onde os direitos são iguais e respeitados. Um Reino onde as pessoas não são valorizadas pela cor, posição social ou conta bancária.
Parece utopia, mas esse Reino existe. Não só existe como não está distante, como imaginamos. É o Reino da partilha e da comunhão. Deve começar aqui na terra, na nossa família, na comunidade e estender-se por toda a eternidade.
“Venha a nós o vosso Reino!” Essa é a súplica que fazemos na oração que o Senhor nos ensinou. Nesse Reino, autoridade é serviço. Quem é o maior e primeiro, se faz o menor e o último. Esse é o Reino que nos espera. Um Reino de harmonia, onde a violência e o ódio cedem lugar ao amor e à paz.
Jesus finaliza dizendo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade. Só a verdade liberta. Para o cristão que vive a verdade já está reservado o Reino de Deus, um Reino sem muralhas onde as portas estão permanentemente abertas. Para entrar no Reino basta saber amar e perdoar.
Jorge Lorente
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Quando o cardeal Aquiles Ratti, arcebispo de Milão, foi eleito papa no dia 6 de fevereiro de 1922 e tomou o nome de Pio XI, seu primeiro gesto foi uma surpresa para o povo italiano e para o mundo. Apresentou-se no balcão da Basílica de São Pedro e abençoou o povo reunido na Praça, fato que não acontecia desde 1870, quando Roma fora ocupada pelas forças italianas e declarada capital da Itália, e se criara a famosa Questão Romana, ficando o papa como prisioneiro dentro do Vaticano.
É que Pio XI iria resolver a velha questão: assinaria com o governo italiano o Tratado de Latrão e se criaria a cidade e estado do Vaticano. O que aconteceria em 11 de fevereiro de 1929.
Esse foi o fato mais importante do pontificado de Pio XI, que foi, sem dúvida, um grande Papa: o Papa das missões e da Ação Católica, o papa da cultura e das universidades católicas, das bibliotecas e da arte sacra. Seu pontificado encheu a Igreja de entusiasmo. Pensaram em dar-Ihe o título de Pio Magno.
Seu grande sonho era ver o mundo inteiro conquistado para Cristo e para o Evangelho. Tinha como lema "A paz de Cristo no Reino de Cristo". E instituiu a festa de Cristo Rei, cujos textos cantam jubilosamente a expansão do Reino de Cristo no mundo. Entre outros, este texto do Apocalipse: "Jesus Cristo é a Testemunha fiel, o primogênito dos mortos, o Príncipe dos Reis da terra" (Ap. 1,5)
Evidentemente não se trata de um reino feito de grandezas terrenas. "Meu reino não é deste mundo", disse Jesus diante de Pilatos (Jo 18,36). É o reino da verdade, da justiça, da fraternidade, da Paz. Não é um reino deste mundo, mas vive e se desenvolve dentro deste mundo. E seu empenho é impregnar com a seiva do Evangelho todas as realidades terrenas: a cultura, o trabalho, a família, a política, as relações internacionais. Tenho para mim - e muita gente pensa assim comigo - que o Concílio Vaticano II foi um dos maiores passos dados na História nesse sentido. O conjunto c de seus documentos, iluminados pela luz do céu e voltados com sincero interesse para as realidades do mundo, cria um clima de serena confiança para a expansão do reinado de Cristo. Pode-se falar de duas épocas da História: a de antes do Vaticano II e a de depois do Vaticano II. A paz de Cristo não conseguiu ainda estabelecer a paz em toda a real1dade humana, mas seus princípios vão sendo apregoados cada vez com mais clareza, e significam um sinal de esperança para todas as nações. A pregação da Igreja - que hoje acolhe com simpatia os novos recursos dos meios de comunicação - tem força e claridade bastante para orientar para o bem os rumos da civilização, aplaudindo o que é bom, retificando o que estiver errado, perdoando misericordiosamente as fraquezas, mas jamais compactuando com o mal.
E é forçoso reconhecer que a ação da Igreja está vivendo uma época particularmente rica de sua caminhada, graças - por que não dizê-Io? - à presença desse homem carismático que é o Papa João Paulo II. Ainda não se apagaram na memória da Igreja e do mundo os ecos de suas vibrantes palavras na homilia da missa inaugural de seu pontificado, celebrada na Praça de São Pedro na radiosa manhã de 22 de outubro de 1978: "Não tenhais medo de acolher a Cristo e de aceitar o seu poder! Ajudai o papa e todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, ou melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao seu poder salvador abrir os confins dos estados, os sistemas econômicos assim como os políticos, os vastos campos da cultura, da civilização e do progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem "o que é que está dentro do homem". Somente Ele o sabe!".
E é inegável que o papa, com sua palavra, com seus gestos, com o fascínio de sua presença, vai escancarando todas as portas - dos corações e das fronteiras das nações - ao suave Reino de Cristo. Ninguém honestamente pode desconhecer que foi sua palavra e sua presença que levaram a se abrir as fronteiras dos países do leste europeu para a presença livre do Evangelho de Cristo. Vai-se realizando o ideal do Pio XI: a paz de Cristo no Reino de Cristo.
padre Lucas de Paula Almeida, CM
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Celebramos hoje a grande solenidade de Jesus Cristo, rei do universo: corolário da missão de Jesus e culmine do ano litúrgico, que este domingo se completa. A Igreja não nos propõe, nesta solenidade, um grande gesto ou milagre de Jesus, coloca-nos nas vésperas da Sua morte: Jesus é apresentado como malfeitor a Pilatos.
Pilatos era o procurador na Judéia, província romana onde se encontrava Jerusalém (26-36 d.C.). Iniciou o seu governo desfilando nas ruas de Jerusalém com a insígnia do Imperador. Mais tarde tirou dinheiro do templo para construir um aqueduto e espalhou símbolos imperiais na cidade santa. O seu governo ficou marcado, entre outras coisas, por atitudes prepotentes contra o Povo judeu, as quais provocaram a intervenção de Roma. O risco de ser deposto, levou Pilatos a ‘ser politicamente mais correto’ com os judeus.
A cena do Evangelho deste Domingo desenrola-se exatamente no tribunal romano, a quem as autoridades religiosas entregam Jesus. Pilatos tentara convencer as autoridades religiosas a julgarem eles mesmos Jesus, porém, desejando eles, segundo o evangelista, a morte de Jesus, Pilatos era o único que a poderia decretar. Pilatos chamou-O e perguntou-Lhe de imediato: “És o Rei dos judeus?” Eis a pergunta chave do texto. Se o cego que mendigava, e que escutávamos há quatro domingos, chama Jesus filho de David, se Jesus é aclamado em Jerusalém como rei e filho de David pela multidão, se as autoridades religiosas suspeitam das Suas pretensões de restaurar o reino David, Pilatos, momentos antes de Jesus ser crucificado, pergunta-lhe diretamente: “És o Rei dos judeus?”
“Perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?” O Bom Jesus, inverte os papéis e questiona Pilatos acerca das suas motivações. Estaria Pilatos a repetir aquilo que ouvira da multidão e das autoridades judaicas? Estaria realmente interessado em conhecer Jesus? Que relação mantemos com o Bom Jesus? De medo? Apenas intelectual?
“Porventura eu sou judeu? Pilatos, rápida e bruscamente, descarta-se, primeiro, da fé judaica, depois, de qualquer responsabilidade na prisão de Jesus: “O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim.” Pilatos não se compromete, vive da amiguidade, mas interessa-se em ouvir Jesus: “Que fizeste?” Talvez pensasse ouvir de Jesus lamentos ou súplicas! Não! Jesus respondeu-lhe: “O meu reino não é deste mundo”. As palavras de Jesus são claras como fora clara a Sua atitude de retirar-se, depois da multiplicação dos pães, quando a multidão o desejava fazer rei. Jesus vive totalmente comprometido com o Pai e, sem ambiguidades, deseja elevar a humanidade ao Pai e não ser arrebatado pelas multidões. O reino de Jesus não é deste mundo!
Pilatos insistiu: “Então, Tu és Rei?” O vértice do poder romano em Jerusalém, reconhece, com espanto, que Jesus é Rei. “É como dizes: sou Rei.” Eis-nos, face a face, dois reinos: o Romano representado por Pilatos e o reino de Deus presente em Jesus. Pilatos ao serviço de si mesmo e dos seus projetos! Jesus ao serviço da humanidade! Pilatos dependente dos olhares do mundo. Jesus dependente do olhar amantíssimo de Deus. Pilatos, imagem do poder que se auto destrói, que luta contra si mesmo. Jesus, certeza do poder que humaniza e gera comunhão. Pilatos, incapaz de assumir a verdade. Jesus, oferece-a. Pilatos não teme mentir, maltratar, descartar-se, silenciar, lavar as mãos, para conservar o seu poder. Jesus não teme testemunhar a verdade, dar-se totalmente, perdoar antecipadamente, para elevar o homem à sua autêntica condição. De que lado estamos?
No primeiro século era comum moldarem-se vasos em cera. Alguns deles moldados com tanto empenho, carinho e dedicação que se tornavam transparentes. Uma pérola colocada no seu interior era perfeitamente vista de fora, ao ponto, de provocar o espanto: sem cera! Daí a origem da nossa palavra ‘sincera’ ou ‘sincero’. Queridos irmãos e irmãs: nós somos as pérolas de Deus, o tesouro maior, a glória do Seu reino. Apenas o Seu Amor faz brilhar toda a beleza, todo o encanto e talento que Ele nos destina. Um dia perguntaram a Jesus: ‘quando virá o reino de Deus?’ Jesus respondeu: “Não vem com aparência exterior, nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali” (Lc. 17,20-37). O reino de Deus acontece onde Jesus está presente, onde é acolhido como Rei e Senhor. O Reino de Deus acontece na liberdade do coração que escuta a Verdade anunciada e encarnada por Jesus.
Escuta Israel! Escute o mundo, escutemos nós, a verdade do Senhor Jesus. Para isso Ele veio ao mundo, para dar testemunho da verdade. A Verdade, segundo o quarto evangelista, é a própria realidade de Deus, manifesta nos gestos, nas palavras, no olhar de Jesus, que molda a nossa fragilidade, acarinha o nosso desejo, humaniza o nosso ser. Jesus enche-nos da Sua força de amor para nos transformar no Seu Amor. O Amor que antecipando o mal, domina-o. O Amor que antecipando a incompreensão, dialoga. O Amor que antecipando a dureza de coração, pacifica. O Amor que não depende dos laços de sangue, dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas da sabedoria do Amor, da sabedoria do perdão.
Esse é o Reino de Deus, esse é o reino de Jesus. O evangelista escolhe exatamente a hora da paixão, morte e ressurreição para se referir repetidamente a Jesus como rei. Jesus é rei na cruz, coroado pela dádiva pela humanidade. A cruz brilhou nas trevas e ressuscitou definitivamente o gênero humano. Apenas tomados pelos esplendor da cruz podemos compreender e abraçar o Reino de Jesus. Quem foi o primeiro a compreender e a confessar a imensidão dessa dádiva, o encanto do reino de Jesus? Foi aquele malfeitor crucificado ao lado de Jesus: “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.”
Estará a humanidade condenada a viver sob o domínio da injustiça e do mal? O Amor fez carne, habitou entre nós, venceu e dominou definitivamente a mentira e o egoísmo, tudo o que desconfigura a humanidade. Essa é a revelação de fé da comunidade, expressa no livro do Apocalipse: Jesus Cristo é a testemunha fiel, o rosto humano de Deus que olha a humanidade; é o primogênito dos mortos, pois venceu definitivamente o pecado e a morte; é o príncipe dos reis da terra, pois n’Ele a humanidade foi elevada ao reino do Pai. Jesus é aquele que o profeta Daniel contemplava vindo das nuvens do céu, a quem foi entregue o poder, a honra e a realeza, a quem todos os povos e nações hão-de servir.
‘Tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu, fora, procurando-Te!’ Palavras de santo Agostinho. O reino de Deus acontece no coração do homem, das famílias, da comunidade, nos corações que guardam a Verdade; a guardam dominando a mentira, a guardam amando sempre, socorrendo o necessitado, o pobre, o doente. Esses são os verdadeiros “guardas” que reinam com Jesus. Que a comunhão com o Corpo e Sangue de Cristo faça florescer e destine o nosso coração, o coração das nossas famílias, o coração da nossa comunidade ao Amor amantíssimo do Pai! Que Maria santíssima vele o nosso caminho!
frei Bernardo
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Entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem; foram-lhe dados poder, glória e realeza sobre todos os povos, nações e línguas - seu poder é eterno e seu reino não se dissolverá.
Jesus Cristo o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra vem: todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram. Eu sou o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que vem, o que tem poder sobre tudo.
Pilatos perguntou: Tu és o rei dos judeus? Jesus: Dizes isto por ti mesmo ou outros te disseram de mim? Mas o meu reino não é daqui. Então tu és rei? Respondeu: Eu sou rei, nasci, vim ao mundo para dar testemunho da verdade e todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.
Cristo, rei do universo
Adotado pela maioria das igrejas cristãs, protestantes ou católicas (romana e orientais) o calendário litúrgico termina celebrando “Cristo como Rei”. (O Advento prepara o Natal e dá início a um novo ano litúrgico – em 2012 será no dia 2 dezembro).

1.Um filho de homem
Na Palavra em Daniel, um poder eterno é dado a um “filho de homem”. Não se trata de um reino entre vários, mas especial e único, tão “natural” como o próprio universo que o poeta salmista identifica com toda a criação. Não é um “reino” no sentido político, como o que todas as nações e povos conhecem, mesmo com diferentes regimes ou tipos de organização social. É o própro reino da vida que inclui todas as coisas criadas. Ele nunca se dissolverá (Dn7) e serve a todos os homens.
Sabemos que o ser humano não soube e não sabe exercer esse “domínio” do universo sem causar-lhe também prejuízos, para outros, para si e para o mundo material que constitui sem ambiente vital. No simbolismo de Adão e Eva já está indicado esse “abandono” do paraíso da paz e um tipo de vida “fora” dos limites daquele projeto sonhado pelo Criador. Ainda no livro do Gênesis aparece o homem como autor (Caim) da morte do irmão (Abel). O discurso (uma parte comentada domingo passado) do cap. 13 de Marcos mostra a história humana feita de guerras (levantam-se nação contra nação e reino contra reino - verso 8) e ódio também entre as pessoas (verso 12: o irmão entregará à morte o irmão, e o pai, o filho, e os filhos se insurgem contra os pais dando-lhes a morte. De fato, isso é notícia todos os dias na Mídia. O vocabulário religioso cristalizou todas essas  loucuras no termo “pecado”.

2.O Filho do homem
Será um outro homem, perfeito na plenitude do “fazer a vontade” do Pai, aquele que vai renovar a criação. Com todos os seres humanos também nasceu num ponto da história. Ele, “nos dias de sua vida na Carne [humana] (...) como Filho que era, aprendeu pelo que sofreu a obediência [=escutar a voz de Deus e fazer sua vontade é, como o texto depois anuncia: salvar os que escutam o Filho]. Ele, uma vez perfeito [=completo, que atingiu a meta proposta], tornou-se para todos os que o obedecem o princípio da eterna salvação (Heb. 5,7-9) [retoma o sentido da “Obediência”].
O homem perfeito não é, no contexto bíblico, um escravo de Deus. É filho. E “fazer sua vontade” significa realizar a proposta divina para o homem que se traduz em paz, saúde-salvação, vida em plenitude ou felicidade na realização do amor. Cristo (ver o texto do Apocalipse) foi o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, tornando-se o soberano dos reis. A ele, que voltará em triunfo, todos os olhos verão (mesmo os que o perseguiram: também aqueles que o transpassaram. Esse homem completo é o verdadeiro Rei do universo. Ele é princípio (simbolizado na primeira letra do alfabeto grego= Alfa). Ele é também o acabamento (a última letra) de tudo o que existe. Ele tem presença  constante abarcando passado, presente e futuro: Eu sou o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que vem, o que tem poder total (“panto-krátor” em grego). As célebres pinturas cristãs antigas trazem Jesus Cristo Pantocrátor como uma das principais representações que constituem “Ícones” dos cristãos ortodoxos).

3.Visão de fora, visão de dentro
Pilatos traduz a posição típica do mundo que olha “de fora” para o “Reino” anunciado pelo Mestre de Nazaré. O diálogo em João 18 mostra duas linguagens. A romana só entende “poder” como domínio político, pois ele representava o invasor estrangeiro. Pilatos vive no confronto com os judeus subjugados. Por isso mandou escrever na cruz a frase que humilhava aquele povo “Jesus, nazareno, rei dos judeus”. Com certeza ele bem conhecia o desprezo dos judeus pelos galileus.
Jesus responde ao “És tu o rei dos judeus?” usando a lógica romana, o que soava mais ou menos assim: Você não acha que se fosse questão de política e poder, meus soldados viriam em meu socorro? E a nova pergunta de quem o vê “de fora” explica que seu “reino” não é deste mundo mas de outra “ordem” e que essa nova visão das coisas é um reino da Verdade e pessoas “da verdade” escutam sua voz. Aqui se volta ao tema bíblico da “obediência”, que é “escutar” a voz de Deus na vida. Pilatos tenta nova especulação sobre a “verdade” mas não vê mais um palmo à frente do nariz porque acaba na incoerência, ao declarar publicamente que o réu é inocente ao mesmo tempo que o entrega à morte injusta. Cedeu à chantagem dos hipócritas que ameaçaram: “Se o soltares não representas a César. Nosso rei é César, e ninguém mais” (Jo. 19,12 e 15).

4.Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz
Em muitas ocasiões da história, os seguidores de Jesus estiveram (estivemos?) mais interessados em poder e honras do que no “Reino”. Dirigentes e comunidades por mais de uma vez se preocuparam (nos preocupamos?) com uma igreja triunfalista dominando as massas e também as estruturas políticas, mais do que com o anúncio do evangelho. O reino de Cristo não é feito de guerras e conquistas. Está a serviço, sobretudo dos mais fracos e desprezados neste mundo. O Reino de Cristo é sempre maior que as fronteiras da Igreja e a expansão das igrejas necessariamente não significa crescimento do Reino. Europeus muitas vezes, sobretudo durante a colonização (do séc. 16 ao séc. 20), desprezaram e destruíram (nós desprezamos?) inúmeras civilizações e culturas. Fizeram-no em nome da expansão da fé cristã.
Como escreveu um teólogo mártir do nazismo em 9/4/1945: é grande o perigo de nos deixar levar ao desprezo dos outros; temos de aprender a olhar para eles não pelo que fazem ou deixam de fazer, mas pelo que sofrem. O próprio Deus não desprezou o homem. Por causa dos seres humanos se tornou um deles. (D.Bonhoeffer, R.S.).
prof. Fernando Soares Moreira
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Jesus Cristo, Rei do Universo
Cristo abertamente declarou a Pilatos, governador romano da Palestina: “Eu sou rei” (Jo. 18,38). Frente a frente com o Soberano do Universo, Pilatos tinha tudo para discernir que Jesus era Deus. As palavras do Mestre divino não tocam, porém, seu coração. É o próprio Redentor quem nos explica isto: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Aquele homem público vivia à sombra da falsidade e entraria na História como o protótipo do hipócrita.
Não encontraria nenhum mal naquele que trouxeram a seu tribunal e, no entanto, num gesto inteiramente incoerente, lavou as mãos e o entregou a seus inimigos. O segredo para atingir a grandeza do Filho de Deus, que é Rei, é se deixar guiar pela verdade,  Esta  leva à comunhão com Cristo ao se perceber e seguir as moções do Espírito que induz a admitir o Salvador como o Senhor absoluto de todas as coisas e de tudo  que há de mais profundo no ser humano. Isso requer muita humildade para dobrar a inteligência ao que Ele ensinou e curvar a vontade ao que Ele preceituou. Quem O descobre e O aceita se conforma com o que é objetivamente moral,  se submetendo, assim,  a este Rei que veio dar testemunho da verdade e é o Senhor do universo.
Então, quem crê em Jesus se liberta dos laços paralisantes do egoísmo, dominando a auto-suficiência. Resiste às tendências do mal para obedecer aos desígnios deste Mestre inigualável e se entrega, confiadamente, ao seu ardente amor. Isto, contudo, demanda coragem, determinação para acatar inteiramente a verdade divina, a verdade do Deus que é amor. Aí está o único caminho para acatar  a Cristo e para fazer a experiência daquela plenitude que é privilégio dos cidadãos de seu reino eterno. Todo cuidado é pouco para não se tornar surdo à voz discreta deste Soberano, como aconteceu com Pilatos. Isto é tanto mais necessário no contexto atual, no qual, como lembrou Bento XVI, reina um horripilo relativismo.
Este  desvio impera na sociedade moderna e é um dos maiores obstáculos para se aceitar a realeza de Jesus. Na sua preleção à Comissão Teológica Internacional dia 5 de outubro de 2007 o Papa alertou, principalmente sobre o relativismo ético. Este, de fato, leva a negar a objetividade intrínseca de tudo que o Filho de Deus testemunhou sobre a verdade. Ficam em cheque os princípios fundamentais da lei moral natural e a própria ordem democrática resta abalada nos seus fundamentos.
Contudo, pertencer a Cristo Rei é possuir à Verdade absoluta. Deste modo, se encontrará a liberdade oferecida pelo Redentor, a  paz e uma força da alma que só sua graça pode conceder. Para escutar sua voz é preciso, porém, conhecer profundamente tudo que Ele pregou. A verdadeira inspiração do súdito de Cristo Rei não pode advir das mensagens utópicas dos falsos formadores de opinião que se acham longe da visão cristã do mundo. O verdadeiro seguidor deste Rei não deve ir beber suas inspirações nas fontes malsãs de uma literatura hedonista, materialista, erotizante. O mundo secularizado de hoje se opõe à verdade que Cristo Rei trouxe a esta terra, por ser um mundo muitas vezes anticristão.
Quem vive em função dos programas televisivos, das atrações mundanas veiculadas pela internet, dos sites pornográficos e não para a fim de orar silenciosamente, entrando no seu coração e procurando alimentar sua fé na palavra de Deus, não será jamais um fiel servidor do Rei Jesus. Este promete  a imperturbabilidade que o mundo não oferece. Cumpre pertencer  a Cristo e somente a Ele. Trata-se de se viver inteiramente a realidade batismal, dando um sentido profundo à existência de quem se diz cristão. É mister que se lembre sempre que o palácio deste Rei é o coração de cada um de seus súditos. Ele quer que seu amor seja vitorioso e fonte de todas as alegrias, da felicidade integral.
Então se estará em condições de levar a toda parte seu reino de paz e de amor, de ternura e de bondade. São felizes os que são artesãos destas realidades sublimes por pertencerem de fato ao Reino de Amor oferecido por Jesus. Não se trata de um amor qualquer, mas amor generoso que procura a ventura de todos, porque descentralizado de si mesmo. Para viver sua realeza, Jesus escolheu o caminho da simplicidade, do sacrifício, da imolação. Assim sendo, seu reino é sem limites, reino de vida e de veracidade, de graça e santidade, de justiça e de dileção.
O que conta para quem O segue é acolher sua graça que transforma o coração humano. Ser súdito de Cristo Rei é, em síntese, tomar o caminho do serviço ao próximo, da dileção gratuita, do perdão. Jesus, entretanto, alertou: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”, ou seja, quem não é sincero, reto, será como Pilatos o qual não compreendeu a grandeza deste Rei.
cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho
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