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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura...


NOSSOS PESARES PELAS VÍTIMAS DA TRAGÉDIA EM SANTA MARIA

                                                                          
IV DOMINGO DO TEMPO COMUM
     03 de fevereiro
Lucas 4,21-30)
Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura...

        Não seja uma mulher ou um  homem mesquinho!  Agrade a Deus, agradando de verdade os seus filhos que são os nossos irmãos!    Essa é a única forma de ter uma vida tranqüila. Pois o uso da força para que todos colaborem  com a sua causa, tem duração curta ou limitada.

        Amemos uns aos outros como Deus nos amou ... LEIA MAIS


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Leitura orante do Salmo 81 - Diocese de Santos - Pe. Fernando Gross

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JESUS O PROFETA DE ONTEM DE HOJE E DE SEMPRE! – Olívia Coutinho
IV DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 03 de Fevereiro de 2013
Evangelho de Lc  4,21-30

O caminho do profeta, é um caminho marcado pela perseguição, pela rejeição e até mesmo pela  incompreensão dos que fazem parte do seu convívio!
Jesus, o profeta de ontem, de hoje e de sempre, passou por esta  experiência, além de rejeitado pelas autoridades políticas e religiosas,  também foi  rejeitado  pelos seus conterrâneos.
O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta, nos trás uma amostra dos desafios enfrentados pelos profetas de ontem e que os profetas de hoje continuam enfrentando! Como podemos observar no relato, no caminho do profeta, está presente  a cruz, já que são muitos  os que tentam  calar a sua voz, o que é impossível, pois nem a morte consegue calar a voz do profeta, é justamente  depois de sua morte, que a sua  voz  passa a ressoar com mais força ainda, no coração da humanidade, chegando a todos os confins da terra, assim como aconteceu com Jesus!
O texto que nos é apresentado hoje é a  continuidade do evangelho do domingo anterior, que fala do retorno de Jesus  a sua cidade de origem, quando Ele experimenta no corpo e na alma a dor da rejeição, que certamente doeu mais forte ainda, por partir dos seus próprios conterrâneos, aqueles  que deveriam ser os primeiros a acolhê-Lo.   
A admiração pelas palavras de Jesus, manifestada a princípio por aquele  povo, cai  por terra quando a identidade do Messias, anunciado pelos profetas do antigo testamento vem  a tona.  Em resumo, os conterrâneos de Jesus, que julgavam conhecê-Lo, ficaram somente  no superficial,  na sua condição social, o mais importante, estava longe de ser percebido por eles: o Rosto humano do  Pai, se revelando no filho de um carpinteiro!
Certamente, os habitantes de Nazaré,  esperava por um  Messias, extraordinário, milagreiro, que realizasse as suas vontades, por isto não aceitaram um Messias de aparência  simples, que tinha um olhar voltado para os pequenos, os pobres, os marginalizados, os oprimidos.
Os compatriotas de Jesus, tiveram  nas mãos a chave da felicidade, mas não se deram conta desta preciosidade, por isto desperdiçaram a graça de Deus e como conseqüência, não alcançaram as primícias da fé! Ali, Jesus não realizou muitos milagres, não por retaliação, mas pela falta de fé daquele povo.     
Será  que nós  também, não temos atitudes semelhantes ao do  povo de Nazaré? Será  que aceitamos o recado de  Deus, que sempre chega até a nós, por meio das pessoas simples?  Dificilmente  reconhecemos a presença de Deus e a sabedoria presente nas  pessoas simples,  temos uma forte tendência a acreditar somente  nas palavras retóricas das pessoas  de alto "nível intelectual", com isso, deixamos escapar as mensagens que Deus quer nos passar através dos “pequenos”,  esquecendo  de que Jesus, o  Mestre de todos os mestres, o profeta Maior de todos os tempos, serviu-se de meios humanos bem simples, para anunciar o reino de Deus!
 Infelizmente a humanidade ainda continua divida, uns acolhe a voz do profeta e se dispõe a mudar de vida, outros, ignoram a sua  fala, preferindo continuar  no caminho  do pecado.
A rejeição contra Jesus, narrada no evangelho, não interrompeu o anúncio do Reino, que continua através dos incansáveis profetas de hoje: homens e mulheres que se embrenham pelo caminho da cruz, dispostos a dar a vida se preciso for, pela causa do Reino.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia 


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03 Fevereiro -Domingo

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM 03/02/2013
1ª Leitura Jeremias 1, 4-5 . 17-19
Salmo 70 (71) “Minha boca proclamará vossa justiça”
2ª Leitura 1Cor 12,31-13,13
Evangelho Lucas 4, 21-30
"Ser Profeta" - Diac. José da Cruz

Um dia alguém me disse em brincadeira, que ser profeta é “Ser do Contra”. O profetismo no contexto bíblico nunca poderá ser confundido com extremismo radical, nem com alguma ideologia de ordem social ou política, pois a pessoa do profeta não está comprometida com nenhuma instituição humana, nem mesmo a religiosa, pois os laços de uma Fé encarnada na história, o prendem ao Deus vivo que vai se revelando na Verdade.
O Sacramento do santo Batismo nos reveste da missão profética ao fazer-nos membros de uma Igreja comprometida com o anúncio daquilo que é verdadeiro: o evangelho de Cristo na sua essência, sem adaptações ou fundamentalismo. O profeta não fala em nome próprio porque não é o dono da palavra, mas apenas servo.
A iniciativa é sempre de Deus, pois como Jeremias, somos conhecidos, consagrados e escolhidos ainda no ventre materno e temos na graça de Deus toda a força e a coragem para cumprir sem medo a missão. O profeta é do contra sim, quando as idéias e as atitudes não conferem com a vontade de Deus porque ferem a vida, liberdade e a dignidade do homem. Trata-se de um anúncio e uma denúncia, não feita com radicalismo, amargor, mas com firmeza.
Jesus é por excelência o Profeta do Pai, não só fala em nome de Deus, mas ele é o próprio Deus. A sabedoria do seu ensinamento causa admiração e encanta as multidões por onde passa, inclusive à sua comunidade em Nazaré, onde ele se revela como ungido de Deus, revestido de uma missão. Mas os seus conterrâneos, em vez de se encherem de alegria ao perceberem em Jesus a presença de Deus, ao contrário, começam a levantar suspeita e desconfiança sobre a sua pessoa, pois fechados em seus estreitos horizontes, achavam impossível Deus Altíssimo agir em Jesus de Nazaré, filho de Maria e José, carpinteiro de profissão, pessoa simples ali da terra.
Hoje em dia também é difícil uma pessoa simples de origem humilde mostrar o seu valor, pois em uma sociedade tão competitiva, ás vezes somente os letrados e diplomados conseguem ter suas idéias aceitas. Em nossas comunidades cristãs muitas vezes e infelizmente cometemos esse mesmo pecado quando valorizamos mais o ministro do que a própria Palavra. O ministério ordenado, bem como todos os outros ministérios da nossa igreja, antes de tudo estão a serviço do povo de Deus, mas às vezes a própria comunidade se prende excessivamente ao formalismo e à instituição dando crédito apenas à palavra de alguém revestido de autoridade. Quantas vezes presenciei pessoas que voltaram para suas casas da porta da igreja, ao tomarem conhecimento de que a celebração seria presidida por um ministro leigo...
Foi mais ou menos isso que aconteceu com Jesus na sinagoga de Nazaré, ele falava com grande sabedoria, porém era um leigo, não pertencia a elite dos escribas ou a classe sacerdotal, ou ao seleto grupo dos Doutores da Lei. Apegados ás tradições e ao formalismo religioso, os conterrâneos de Jesus não conseguem vislumbrar nele algo de novo e o rejeitam simplesmente porque ele não se enquadra nos padrões religiosos pré determinados e nem realiza sinais prodigiosos.
A Salvação trazida pela graça de Deus, só produz o seu efeito quando encontra receptividade e abertura no coração do homem independente da sua raça, ideologia, condição social ou até mesmo credo religioso. Pois ao tomarem conhecimento desta verdade através de Jesus, que citou o exemplo da viúva de Sarepta, e de Naamã, o sírio, beneficiados pela ação profética de Elias e Eliseu, respectivamente, os conterrâneos de Jesus, tomados pela fúria, o expulsaram da comunidade e tentaram matá-lo. Somente uma fé madura e um coração totalmente aberto à graça de Deus, poderá nos levar à compreensão de que a Salvação que Jesus oferece é para todos os homens.
Pensar diferente disso é menosprezar a caridade, a maior de todas as virtudes, é querer caminhar sozinho, adentrando no atalho da mediocridade e da hipocrisia
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Evangelhos Dominicais Comentados

03/fevereiro/2013 – 4o Domingo do tempo Comum

Evangelho: (Lc 4, 21-30)


 

Aqui estamos novamente, para juntos meditarmos a Palavra de fé e de esperança do Santo Evangelho. As Palavras de Jesus causam admiração e, ao mesmo tempo, estranheza a ponto do povo querer linchá-lo. Este evangelho é uma seqüência do domingo anterior.

Lembra-se? Jesus estava na sinagoga, onde fez uma leitura e, ao terminar de ler afirmou: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura". Seus amigos e conterrâneos elogiam a sabedoria e as palavras de Jesus. Estavam admirados com o que viam, até que... lembraram-se de algo muito importante:

Como puderam esquecer-se disso? Aquele que ali estava dizendo maravilhas era alguém que conheciam desde sua infância. Nascido em Nazaré, criado entre eles e filho de José, um humilde e pobre carpinteiro. Depois que se lembraram disso suas palavras perderam a beleza, perderam a credibilidade e Jesus foi rejeitado.

"Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria". Com essas palavras Jesus quer explicar o motivo pelo qual não faz milagres em Nazaré. Sabia que se fizesse milagres seria questionado e desprezado, pois para aquele povo, Ele era simplesmente o filho de um operário.

Ainda hoje é assim. Supervalorizamos o rico forasteiro desconhecido e taxamos de incompetentes os pobres da região. Se não estiver trajando terno e gravata, se não tiver título de doutor, se não usar colarinho branco, não acreditamos em suas palavras nem no seu poder de realização.

O fato de todos o conhecerem deveria ser um motivo a mais para acreditarem nele, mas não é o que acontece. Jesus então se recusa a fazer milagres para provar que é o Messias. O povo sente inveja e fica enfurecido quando Jesus fala dos milagres operados em favor de estrangeiros e não dos judeus.

Diante do povo enfurecido, Jesus tenta mostrar que o que lhes falta é fé, por isso não recebem milagres. O milagre, a graça de Deus não são coisas que compramos em lojas, elas são bênçãos que recebemos gratuitamente através de orações e de ações, através da fé.

Deus sempre reserva para seus filhos o melhor, tudo o que precisam e não o que querem. A graça, nem sempre se traduz em milagres pomposos, em curas impossíveis e principalmente, não pode ser entendida como estabilidade financeira e ausência de problemas.

Estão transformando a religião num grande e lucrativo comércio. Tem muita gente por ai vendendo graças e bênçãos. É bom lembrar que o dinheiro é capaz de comprar remédio, mas não a saúde; comprar seguro de vida, mas não a vida.

Não é com milagres estrondosos que o Reino de Deus se impõe, mas com amor, fraternidade, perdão e partilha. Jesus entregou-se gratuitamente. Não cobrou nenhum centavo pelo milagre da libertação da humanidade.

Essa é a missão do cristão. Gratuitamente deve promover a paz, a libertação e a reconciliação. Jesus não veio para um grupo seleto, veio para todos. O amor não tem preço, a única exigência é o coração puro, simples e aberto.

(2474)


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Domingo

Lucas 4,21-30


: Apesar de ser santo e justo Jesus também foi vítima da incredulidade das pessoas que O conheciam por ser Ele apenas o filho de José! - Maria Regina.

                      Apesar de ser santo e justo Jesus também foi vítima da incredulidade das pessoas que O conheciam por ser Ele apenas o filho de José! Assim Ele nos orienta e dá o seu próprio testemunho: “nenhum profeta é bem recebido em sua pátria!” Quando percebemos o chamado de Deus para falar em Seu Nome, o primeiro lugar onde nós queremos fazer sucesso é no ambiente em que as pessoas nos acolhem e nos admiram, porém nem sempre somos acolhidos e admirados, porque seguimos os ensinamentos de Deus. Para todos nós é difícil evangelizar às pessoas no lugar aonde todos nos conhecem.
                     Por isso, é natural, que na nossa casa, no meio em que vivemos, tenhamos dificuldades de anunciar o Evangelho e falar em nome de Deus. As pessoas esperam de nós uma perfeição que ainda não atingimos e muitas vezes também nós as decepcionamos e damos contra testemunho, por isso a ação evangelizadora torna-se mais difícil. O ser humano espera por coisas extraordinárias para acreditar, no entanto Deus se manifesta por meio das pessoas mais simples e das coisas mais corriqueiras da nossa existência.
                   Por isso, também, nós não alcançamos os nossos propósitos porque não realizamos coisas mirabolantes. Assim foi também no tempo de Jesus. Por isso, é que Ele nos recorda as figuras de Elias que fez prodígios na vida de uma viúva que não pertencia ao povo de Israel e Naamã, o sírio, que procurou Eliseu longe da sua terra para ser curado da lepra. Às vezes não fazemos sucesso onde queríamos, mas o Senhor nos envia a alguém a quem nem imaginamos, para que por nosso meio ela possa obter cura e libertação. Reflita – A quem você se sente chamado  a evangelizar? – Você já fez a experiência de ir à busca dessas pessoas? – Para você o que é evangelizar? – Você acredita que dentro da sua casa possa haver algum profeta, alguém que fala em nome de Deus?
Amém
Abraço carinhoso

- Maria Regina.
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03 de fevereiro
Lc 4,21-30
Pe. Carlos Henrique Nascimento


Então ele começou a falar. Ele disse: - Hoje se cumpriu o trecho das Escrituras Sagradas que vocês acabam de ouvir. Todos começaram a elogiar Jesus, admirados com a sua maneira agradável e simpática de falar, e diziam: - Ele não é o filho de José? Então Jesus disse: - Sem dúvida vocês vão repetir para mim o ditado: "Médico, cure-se a você mesmo." E também vão dizer: "Nós sabemos de tudo o que você fez em Cafarnaum; faça as mesmas coisas aqui, na sua própria cidade." E continuou: - Eu afirmo a vocês que isto é verdade: nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra. Eu digo a vocês que, de fato, havia muitas viúvas em Israel no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e meio, e houve uma grande fome em toda aquela terra. Porém Deus não enviou Elias a nenhuma das viúvas que viviam em Israel, mas somente a uma viúva que morava em Sarepta, perto de Sidom. Havia também muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi curado. Só Naamã, o sírio, foi curado. Quando ouviram isso, todos os que estavam na sinagoga ficaram com muita raiva. Então se levantaram, arrastaram Jesus para fora da cidade e o levaram até o alto do monte onde a cidade estava construída, para o jogar dali abaixo. Mas ele passou pelo meio da multidão e foi embora.

No Evangelho do domingo passado, víamos que Jesus, andando de cidade em cidade, ficava famoso; as pessoas já o conheciam e o admiravam. Num dia de sábado, ele retorna a Nazaré, cidade onde cresceu, entra na sinagoga e lê em voz alta um trecho do profeta Isaías. Todos os que estavam ali o observavam, curiosos para saber o que Ele tinha pra dizer. Para estes, Jesus leu Is 61,1-2 e explicou que naquele momento em que estava lendo, todos que o escutavam, experimentavam o cumprimento daquela Palavra de Deus, a qual tornava-se verdadeira “hoje”. Este “hoje” nunca acaba. Ainda continua, agora! Graças a Jesus, os cegos recobram a vista, os prisioneiros são libertados, aos pobres é anunciada a Boa Nova. O que Jesus disse é um programa de vida não só para Ele, mas para todos que O seguem.
No Evangelho de hoje, que é continuação daquele que Lucas começou a contar domingo passado, vemos como terminou a visita de Jesus a sua cidade. Esta informação é significativa, pois nos mostra um Jesus ligado a um determinado lugar, a pessoas. Também nós temos este sentimento em relação ao lugar onde nascemos, onde passamos nossa infância e ao qual de tempos em tempos gostamos de retornar para rever amigos e familiares.
A reação dos habitantes de Nazaré tem dois aspectos com relação a Jesus: por um lado, estes ficaram “admirados com as palavras cheias de encanto que saíam de sua boca” (4,22). Por outro lado, com a pergunta: “Não é este o filho de José?”, todos ficaram surpresos com tudo o que Jesus diz e faz, porque, no fundo, em Nazaré, todos já o conheciam há muito tempo. Sabem que Ele é o filho de Maria e de José, O viram quando menino brincar pelas ruas da cidadezinha com outras crianças. Todos se lembravam quando Ele estava lá na carpintaria, trabalhando com seu pai. Todos sabiam como Jesus tinha crescido modestamente e sem estudar, e agora fala com encanto e autoridade.
Mas, tem outra coisa: os habitantes de Nazaré souberam que enquanto anuncia a Boa Nova, Jesus também realiza milagres; e, também eles, não vêem a hora de Jesus fazer algum sinal no meio deles. Porém, para a sua surpresa, Jesus deixa claro que não fará nenhum milagre. Frente às indagações, Ele não permanece calado e cita um provérbio popular: “nenhum profeta é bem aceito em sua pátria”. Que no nosso contexto, se expressa melhor assim: “santo de casa não faz milagre”. Jesus ilustra isso, relembrando os profetas Elias e Eliseu, os quais operaram milagres para pessoas que não pertenciam ao seu povo. Na verdade, Jesus é impedido de fazer milagres em Nazaré por causa da incredulidade das pessoas.
“Quando ouviram estas palavras de Jesus”, todos ficaram decepcionados e com muita raiva. Sentiram-se ofendidos, e querem expulsar Jesus da cidade. Jesus é rejeitado. Que momento difícil! Podemos pensar nas pessoas empurrando, insultando Jesus. Ele sente essa corrente de rejeição que se move contra ele, que O conduz ao monte a fim de lançá-lo ao precipício. É uma cena de ficar assustado. Porém, Jesus não se deixa levar por aquela raiva nem por aqueles gritos: permanece tranquilo. Sem dizer nada, se mistura à multidão e retoma seu caminho. Podemos imaginar com quanto desgosto. Tinha chegado a Nazaré em meio a aplausos, e agora deve escapar em silêncio.
Ninguém está livre da rejeição, nem mesmo Jesus Cristo esteve. Ser rejeitado e sentir-se rejeitado certamente não são experiências agradáveis. Quem já passou por uma grande rejeição sabe muito bem o sentimento que ela provoca. Jesus passou por essas experiência, sentiu-se rejeitado e desprezado por sua própria gente. Também em nossas comunidades, isso acontece bastante. Pessoas sentem-se não aceitas, não acolhidas.
Há muitas causas de rejeição: abuso físico, verbal, sexual, emocional; conflitos no lar, adoção, abandono, infidelidade no casamento, deficiências física e mental, divórcio, rejeição dos colegas, etc. E isto traz muitas consequências negativas durante a vida das pessoas, como a rebelião, a ira, a amargura, a culpa, a inferioridade, a mania de criticar, o medo, a desesperança, a dureza, a desconfiança, o desrespeito, a competição, o ciúme, o perfeccionismo, o consumo de drogas e ácool etc. Tudo isso mostra de alguma forma o resultado de uma rejeição sofrida. Enfim, Jesus não tinha de enfrentar aquela rejeição por sua própria causa. Ele não tinha problemas. Nós sim temos problemas! Assim, Ele, voluntariamente, desejou vir e tomar nossos problemas, nossas feridas, nossa dores e até nossas rejeições , e levá-las a Si mesmo. Ele nos ensina que “hoje” (a cada instante) se cumpre sua Palavra, a qual, nos encoraja a continuar o caminho, deixando o que passou para trás e prosseguindo para o alvo que é o próprio Jesus.

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Se procurarmos uma idéia que dê unidade as leituras da Missa de hoje, encontraremos a fé. Comecemos pelo Evangelho. Após ler o trecho do rolo de Isaías, “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu... para levar a Boa Nova aos pobres e proclamar o Ano da graça do Senhor”, Jesus afirma, cheio de autoridade: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. É uma afirmação ousada. Somente quando o Messias viesse tal Escritura seria cumprida. Jesus, portanto, apresenta-se como o Messias. E o encanto de seu ensinamento dá testemunho de que ele é verdadeiro... Mas, infelizmente, crer não é fácil... sobretudo quando Deus nos visita de modo humildade, corriqueiro, nas coisas pequenas e banais. E, assim, os nazarenos se escandalizam com Jesus: “Não é este o filho de José?” Como pode alguém nosso, alguém tão do nosso meio ser o Messias? Como pode Deus se manifestar por este, que cresceu e viveu entre nós? Santo de casa não faz milagre! Gostamos do excepcional, da novidade, do exótico! O quanto é necessário sermos abertos para discernir a Palavra e o apelo do Senhor naqueles que nos são enviados e convivem conosco! O quanto precisamos aprender que Deus não é somente Deus de longe, mas também Deus de perto! A mesma experiência o profeta Jeremias fizera antes de Jesus. E o Senhor ordena que seu profeta fale e que não tenha medo, ainda que seja incompreendido e rejeitado pelo seu povo e seus parentes: “Não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles. Eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze... Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque estou contigo para defender-te!”
Por um lado, o Senhor exige fé e confiança absoluta daqueles que ele envia, de seus profetas; por outro lado, espera daqueles aos quais o profeta é enviado, espera do seu povo, a capacidade de discernir, de acolher, de crer! E quantas vezes não cremos: pensamos que Deus se calou, que não mais se manifesta, não mais nos dirige a Palavra. E, no entanto, o Senhor nos interpela por seus profetas, por aqueles que , tantas vezes, são na Comunidade e na vida uma palavra de Deus para nós! Caso não sejamos abertos à Palavra, corremos o risco de perdê-la. É o que Jesus recorda aos nazarenos: a viúva pagã de Sarepta e o leproso Naamã, também ele pagão, foram mais abençoados que as viúvas e os leprosos de Israel, porque foram abertos... Os nazarenos sentiram-se ofendidos porque Jesus insinuou que eles não tinham fé e não sabiam discernir nele Aquele que o Pai enviara... e terminam por expulsar Jesus de sua cidade. É dramático: a falta de fé fez os nazarenos expulsarem o Messias, o Enviado de Deus. A falta de fé e discernimento, a cegueira do coração, a dureza e o fechamento para as novidades de Deus, podem fazer o mesmo conosco: expulsar do coração e da vida aqueles que nos trazem a Palavra do Senhor e sua vontade a nosso respeito.
Mas, por sua vez, aqueles que são testemunhas do Senhor e ministros do Evangelho, devem estar preparados para a possibilidade de serem rejeitados. Somente os falsos pregadores, os malditos vendedores do Evangelho, os missionários de televisão, é que pregam uma adesão a Jesus fácil e que resolve nossos problemas. Na verdade, seguir o Cristo nos amadurece e nos faz, muitas vezes, enfrentar problemas e contradições. Qualquer um que queira colocar-se a serviço do Senhor, deve preparar-se para tal contradição:“Meu filho, se te ofereceres para servir o Senhor, prepara-te para a prova. Endireita teu coração e sê constante... Tudo o que te acontecer, aceita-o, e nas vicissitudes que te humilharem, sê paciente” (Eclo 2,1.4). Como Jesus e os profetas que vieram antes dele, o serviço e a fidelidade ao Evangelho nos colocam em dificuldades e provações! É a dor do Reino de Deus!
A mesma visão de fé que faz distinguir os profetas do Senhor, também nos abre os olhos para reconhecer nos outros irmãos de verdade, irmãos no Senhor, e amá-los de todo o coração. É este o verdadeiro dom, o maior carisma de que fala São Paulo na segunda leitura. Aí, o Apóstolo não fala de um amor-sentimento, amor-simpatia, amor-amizade, mas do amor-caridade, o amor de Deus, que é o Espírito Santo derramado em nossos corações, amor que é capaz de dar a vida... amor como aquele do Cristo que nos amou primeiro e amou-nos até o fim! É este amor, que nasce da raiz do amor a Deus, da abertura para Deus, da intimidade com Deus, que dá sentido a todas as coisas. E sem ele, nada tem sentido para o Reino de Deus... nem a fé! Em última análise, quem salva não é a fé, mas o amor que dá vida e sabor à fé! E o amor a Deus, que desabrocha no amor aos irmãos, é concreto, tem que ser concreto: pode ser visto na paciência, na benignidade, na generosidade, na humildade, na gratuidade, na mansidão, na retidão, na verdade... E São Paulo recorda que um amor assim é coisa de adultos na fé. Quem não ama é imaturo na fé, é criança que pensa e age como criança! Só o amor nos amadurece, só o amor nos faz ver os outros e a vida com os olhos de Deus
Eis, então, de modo resumido, o desafio, o convite da Palavra de Deus hoje:
(1) uma fé, uma capacidade de acolher o Senhor, de tal modo que reconheçamos que ele vem a nós na palavra e no testemunho de tantos irmãos e irmãs que conosco convivem;
(2) uma fé capaz de suportar com paciência e alegria os reveses da missão que Deus nos confiou e
(3) uma fé capaz de desabrochar em amor aos irmãos; amor provado e revelado em atitudes concretas.
Creiamos: somos a Igreja, Comunidade do Senhor Jesus, continuamente vivificada e orientada pelo seu Espírito de amor! Arrisquemos crer; arrisquemos viver de amor... e experimentaremos a doçura do Senhor e a alegria de viver como irmãos.


Caríssimos irmãos, comecemos nossa meditação da santa Palavra de Deus com os olhos fixos em Jesus: na sinagoga de Nazaré ele exerce sua missão de Messias de Israel e sofre as conseqüências de tal missão; conseqüências que o levarão à cruz...
Jesus anuncia que o Reino do Pai chegou: ele o Filho veio trazer o “Ano da graça do Senhor” – basta recordar o evangelho do Domingo passado...
O nosso bendito Salvador, meus caros, não veio por si mesmo. Como Jeremias, na primeira leitura deste hoje, Jesus foi enviado e desde o seio materno marcado para a missão de salvar a humanidade. Ele bem poderia rezar ao seu Pai do céu com as palavras do Salmista hoje: “Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, desde o seio maternal, o meu amparo. Vós me ensinastes desde a minha juventude e até hoje canto as vossas maravilhas”. Assim viveu Jesus, meus irmãos, assim pregou, assim se portou: unicamente comprometido com a vontade do Pai, colocando nele seu amor refúgio e confiança. Quantas vezes não terá ele, o nosso Senhor, rezado estas palavras que rezamos na Missa deste Domingo: “Eu procuro meu refúgio em vós, Senhor: que eu não seja envergonhado para sempre! Sede uma rocha protetora para mim, um abrigo bem seguro que me salve!” Se olharmos bem, o nosso Jesus nunca buscou sua própria vontade ou sua glória, mas somente a vontade e a glória do Pai e, cheio de coragem, foi fiel em dizer o que tinha que dizer e anunciar o que tinha que anunciar. Nele, cumpriram-se perfeitamente as palavras dirigidas a Jeremias profeta: “Vamos, levanta-te! Comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer! Não tenhas medo! Eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze. Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo!”
Caríssimos em Cristo, o nosso caminho e o nosso modo de viver não podem ser diferentes daquele do nosso Mestre e Senhor! Também nós, hoje, somos chamados a viver plenamente – como ele viveu – na vontade do nosso Deus e Senhor; somos chamados a dizer ao mundo, sem medo nem meias palavras, o pensamento do Deus único e verdadeiro, como Jesus o fez! E seremos muita vez incompreendidos como ele foi, mas experimentaremos sua força, seu consolo, sua presença. Eis a nossa missão profética, como batizados. Tal missão não é ser crítico e mal-educados, mas ser dóceis à voz do Senhor e anunciar ao mundo a doçura e alegria da salvação, mas sem esconder suas exigências e rupturas que ela provoca!
E o modo de temperar nossa vida e nossa missão com a sabedoria de Cristo é, precisamente, aquele que São Paulo nos indica na segunda leitura: o amor-caridade. Este amor não é um sentimento qualquer, mas o próprio amor de Deus derramado em nosso coração pelo Espírito (cf. Rm 5,5). É este amor de Deus em nós, amados em Cristo, que dá o valor a tudo quanto digamos e façamos, é este amor que nos fará compreender tudo com o coração de Cristo, é este amor que nos dá a justa medida; finalmente, este amor nos une a Deus que é amor e nos faz participar daquele amor com que Cristo nos amou e se entregou por nós até a morte, como hoje, na sinagoga de Nazaré. Incompreendido, ele não desanimou, ultrajado, não revidou, expulso da sinagoga, continuou em paz o seu caminho, mesmo já compreendendo que ele terminaria na cruz.
Assim, amados irmãos, aprendamos do Senhor este amor ou, melhor ainda, supliquemos ao Senhor tal amor, recordando que esse amor é fruto da presença do próprio Espírito de amor em nós. Assim, arrisquemos ainda neste terceiro milênio, a viver o amor e, por amor, dar Jesus ao mundo. Só nele experimentaremos a presença do Senhor, como aquela viúva de Sarepta, e seremos curados de nossas lepras, como o sírio Naamã. Nunca esqueçamos: só o amor revela o sentido e o valor a todas as coisas. Este amor é de Deus, nos aparece em Cristo, e nos é derramado pelo Santo Espírito. Viver nele é viver o céu na terra e iluminar as trevas do mundo. Que o Senhor no-lo conceda. Amém.
dom Henrique Soares da Costa

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No Domingo passado refletíamos sobre a missão de Jesus e a nossa, que não é outra coisa do que a participação na missão d'Ele. Hoje (03/02/2013) veremos que toda missão provem da vocação. É assim que o profeta Jeremias é chamado e enviado para a missão, tendo que suportar a incompreensão e a oposição de seus conterrâneos (1ª leitura). É o mesmo que aconteceu com Jesus (evangelho). A firmeza que ambos demonstraram é sinal do amor com que assumiram sua missão. O amor supera o mal (2ª leitura) e dá sentido à nossa vida.
PALAVRA DE DEUS NA BÍBLIA
1ª Leitura: Jeremias 1, 4-5.17-19
4 Recebi a palavra de Javé que me dizia: 5 «Antes de formar você no ventre de sua mãe, eu o conheci; antes que você fosse dado à luz, eu o consagrei, para fazer de você profeta das nações». 17 Quanto a você, arregace as mangas, levante-se e diga a eles tudo o que eu mandar. Não tenha medo; senão eu é que farei você ter medo deles. 18 Eu hoje faço de você uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze contra o país inteiro: contra os reis de Judá e seus chefes, contra os sacerdotes e contra os proprietários de terras. 19 Eles farão guerra contra você, mas não o vencerão, pois eu estou com você para protegê-lo» - oráculo de Javé.
A vocação de Jeremias é apresentada aqui como a soma de três fatores. A eleição de parte de Deus, a consagração do profeta e o envio para a missão.
A eleição divina é anterior à existência humana e não simplesmente um acréscimo («Antes de formar você no ventre de sua mãe, eu o conheci»); a consagração faz parte da história pessoal («antes que você fosse dado à luz, eu o consagrei»); a missão recebida consiste em dizer “o que eu mandar” e tem uma dimensão claramente universal, como será mais tarde a missão de Jesus («para fazer de você profeta das nações»). São elementos da vocação de Jeremias que também fazem parte da nossa própria vocação: escolhidos que fomos por Deus desde o seio materno e consagrados pelo Batismo como filhos d'Ele, somos enviados como testemunhas e profetas do Evangelho ao ambiente em que vivemos.
É bom salientar que Jeremias é um verdadeiro profeta não pelo seu valor pessoal, mas porque Deus o escolheu para esta missão desde o seio materno. Seria de se esperar que o profeta enviado por Deus tivesse aceitação e sucesso, porém, não é isso que acontece. A pesar da proteção divina (“eu estou com você para protegê-lo”), terá que superar os obstáculos (“arregace as mangas, levante-se”) e será perseguido por um povo que não quer reconhecer a voz de Deus. Mesmo assim, conseguirá transmitir a mensagem (“diga a eles tudo o que eu mandar”) e dará conta da sua missão.
É algo bem semelhante ao que acontece conosco. Se quisermos responder ao chamado de Deus, logo iremos descobrir que a fé, se levada a sério, pode trazer-nos problemas. Mas é o destino e a glória de quem assume a vocação profética de cristão.
2ª Leitura: 1Coríntios 12, 31- 13, 13
31 Aspirem aos dons mais altos. Aliás, vou indicar para vocês um caminho que ultrapassa a todos. 1 Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse o amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente. 2 Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada.3 Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, nada disso me adiantaria.4 O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho.5 Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor.6 Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade.7 Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.8 O amor jamais passará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência também desaparecerá.9 Pois o nosso conhecimento é limitado; limitada é também a nossa profecia.10 Mas, quando vier a perfeição, desaparecerá o que é limitado.11 Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança,raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto,deixei o que era próprio de criança.12 Agora vemos como em espelho de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido.13 Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor.A maior delas, porém, é o amor.
O texto que lemos nesta carta de São Paulo é uma espécie de “hino ao amor”. Com ele insiste na idéia de que o “caminho que ultrapassa a todos” e o centro do Evangelho é o mandamento do amor, que sintetiza toda a vontade de Deus.
Os outros dons ou carismas, desde os mais estimados (“línguas”, “profecia”, “conhecimento”, “fé”) até os mais heróicos (“ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas”), dependem do amor e nada valem sem ele. Ser ou não ser capaz de amar é o que determina ser ou não ser cristão. Tudo dá em nada quando falta o amor.
Nos vers.4 a 7, Paulo descreve sabiamente o amor por aquilo que é (e não é) e por aquilo que faz (e não faz) com todo um leque de qualidades que abrange o melhor do comportamento humano. O amor é a força de Deus e também a força da pessoa que caminha com Deus. É a essência do testemunho cristão justamente porque “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.
Comparado com os outros dons e carismas, “o amor jamais passará”. Dentre as três virtudes teologais, “a fé, a esperança e o amor... a maior delas... é o amor” porque da fé um dia não mais precisaremos quando contemplarmos Deus face a face, a esperança será finalmente alcançada na vida futura e feliz, mas o único que permanecerá por toda a eternidade será nossa união com Deus no amor que nunca acaba.
Evangelho: Lucas 4, 21-30
21 Então Jesus começou a dizer-lhes: «Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.» 22 Todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: «Este não é o filho de José?» 23 Mas Jesus disse: «Sem dúvida vocês vão repetir para mim o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum.» 24 E acrescentou: «Eu garanto a vocês: nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25 De fato, eu lhes digo que havia muitas viúvas em Israel, no tempo do profeta Elias, quando não vinha chuva do céu durante três anos e seis meses, e houve grande fome em toda a região. 26 No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, e sim a uma viúva estrangeira, que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27 Havia também muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu. Apesar disso, nenhum deles foi curado, a não ser o estrangeiro Naamã, que era sírio.» 28 Quando ouviram essas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29 Levantaram-se, e expulsaram Jesus da cidade. E o levaram até o alto do monte, sobre o qual a cidade estava construída, com intenção de lançá-lo no precipício. 30 Mas Jesus, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.
Como vimos no domingo passado, Jesus, ao dizer na sinagoga «Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir», apropria-se das palavras do profeta Isaías dando destaque ao “ano da graça do Senhor” e omitindo “o dia da vingança do nosso Deus”, como escreveu Isaías 61,2b. Desta forma dá a entender que este “ano de graça” que Ele vai iniciar estará aberto a todos os povos porque o nosso Deus é um Deus de todos e não propriedade do povo de Israel.
No inicio, todos prestam atenção e “aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca”. Depois nasce a dúvida em seus corações por causa da origem humilde de Jesus («Este não é o filho de José?»). Jesus percebe a sua hostilidade, mas insiste em que é profeta («Eu garanto a vocês: nenhum profeta é bem recebido em sua pátria») mostrando que Deus se revela e fala pelos pobres e excluídos, age fora das fronteiras de Israel como aconteceu com a “viúva estrangeira” no tempo do profeta Elias e com “o Naamã, que era sírio”, além de leproso, no tempo do profeta Eliseu. Isto acabou provocando uma brusca mudança no seu auditório que, primeiro o admirava pelas “palavras cheias de encanto que saíam da sua boca” e, a partir desse momento, “todos na sinagoga ficaram furiosos” passando a rejeitá-lo violentamente por estar dando a entender que a salvação é para todos sem distinção.
No entanto, Jesus “passando pelo meio deles” prossegue seu caminho, para construir a nova história que engloba toda a humanidade. Foi esta idéia que Paulo mais tarde desenvolveu marcando a diferença entre o cristianismo e o judaísmo.
PALAVRA DE DEUS NA VIDA
A primeira frase que chama a nossa atenção no episódio da sinagoga de Nazaré é: «Este não é o filho de José?». Mostra a contradição na cabeça daquele povo entre a sabedoria de Jesus e o fato dele ser de família simples e não pertencer à classe dos sacerdotes e letrados. Como pode um homem do povo saber tanto?
Preconceito é isso: julgar a pessoa pelas aparências e não pelo que ela é; fechar-se diante das evidências e achar que aquele que não tem estudo, não pertence à classe dominante, não tem destaque social... não tem valor. A nossa vida está cheia disso, nós mesmos somos vítimas dessa cegueira intelectual.
A segunda frase : “Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». Uma tentativa de desprestigiar o mensageiro para rejeitar a mensagem como se a verdade não tivesse valor em si mesma e dependesse de quem a transmite. É claro que toda palavra dada tem que ir acompanhada do próprio testemunho, mas desprezar a verdade por causa da pessoa é preconceito puro e duro. A mente aberta aprende não das pessoas mas da própria vida.
A terceira frase é: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. É a queixa de Jesus ao perceber o fechamento deles e a impossibilidade de ser ouvido no meio onde tinha crescido e por pessoas com as quais tinha convivido só porque pensavam que o conheciam muito bem e era apenas um deles.
Nós já sabemos como acaba a história. É muito fácil para nós julgar a reação do povo de Nazaré que não queria enxergar muito além do seu costume. Mas não será que muitas vezes nós fazemos o mesmo? Frequentemente pensamos que conhecemos bem àqueles que nos rodeiam (os pais, os filhos, os vizinhos, os companheiros de trabalho) e, por causa disso, não lhes prestamos atenção.
No caso de Jesus foi mais triste. Definitivamente, tentar que as pessoas se sentissem iguais, sem privilégios; irmanados com a humanidade inteira; perdoando e devolvendo a dignidade perdida; convidando a participar da liberdade, da verdade e da vida... parecia uma utopia irrealizável e sem sentido naquela sua cidade. Lá, como em nossa sociedade, mandava a lei do mais forte que controla a opinião pública, domina com sua influência e escraviza a mente das pessoas.
PENSANDO BEM...
+ Deus nos escolhe e chama cada um de nós a fim de realizar uma missão na vida. Pode não ser fácil, mas não estamos sós; Deus nos dá a força necessária para realizá-la. Esta missão se alimenta do amor com que a assumimos porque o amor leva sempre à doação e este é o modo que temos de amar a Deus. Para levar a cabo a nossa missão haverá que superar obstáculos (nunca será um caminho de rosas). No entanto, com a confiança depositada em Deus, saberemos ser fieis.
+ Amar as pessoas significa estar sempre abertos ao mistérios delas. Nunca achar que as conhecemos o bastante como para pensar que já sabemos o que elas pensam ou do que elas precisam e, sobretudo, nunca deixar que o preconceito dirija nosso modo de pensar para não cairmos do cavalo, um dia, e sermos obrigados a reconhecer: “Não sabia que ela era assim...”?
padre Ciriaco Madrigal

Tudo tinha começado muito bem em Nazaré, havia as bases – e boas esperanças ! – para um futuro esplêndido. Na sinagoga da sua terra natal, Jesus tinha-se apresentado bem (Lc. 4,16-21, Evangelho de Domingo passado), tinha feito suas as palavras do grande profeta do passado, Isaías, assumindo o seu programa: escolha dos pobres, libertação da doença e da opressão, e um ano de graça para todos. Os olhos de todos estavam fixos nele, e escutavam atentos às suas palavras (Evangelho), maravilhados com as suas palavras de graça (v. 22). Mas a situação muda em pouco tempo: à admiração sucede-se a inveja que é típica entre conterrâneos. Mas quem pensa ele que é, este filho de José? Depois seguem-se, surpreendentemente, as incompreensões maiores, os insultos, o desprezo (v. 28), a rejeição, e mesmo a tentativa de o linchar v. 29). Como explicar esta mudança de atitude para com o conterrâneo, que já era famoso em outras zonas pelos seus ensinamentos e pelos milagres que fazia?
Antes de mais, é provável que uma tal mudança não se tenha dado numa só manhã, em poucas horas; podemos hipnotizar uma sucessão de ocasiões sucessivas que, depois, o evangelista agrupou, tratando-se de acontecimentos que tiveram lugar na mesma povoação de Nazaré. Para Lucas, a apresentação de Jesus em Nazaré é uma introdução a toda a sua vida, a sua missão e a sua morte: aí encontramos o seu programa, a escolha dos pobres, a libertação do mal, o ano de misericórdia; e aí vemos também a desilusão do povo e a progressiva hostilidade para com Jesus, até o atirarem para “fora da cidade... para o deitarem a baixo”, mas ele “afastou-se” (v. 29-30). Palavras que aludem à morte sobre o Calvário e à ressurreição de Jesus.
Na base desta rejeição progressiva de Jesus está certamente a falta de fé nela por parte dos nazarenos e dos seus próprios familiares, como notam os evangelistas (Mt. 13,58; Mc. 6,6; Jo. 7,5). Além disso, alguém terá ficado desiludido porque chegou só a “promulgar o ano de misericórdia do Senhor”, sem continuar com o versículo seguinte, sobre o “dia da vingança de Deus (Is 61,2), para exterminar os opressores. Obviamente, Jesus não nega tal vingança, mas compreende-a somente em termos de misericórdia: Deus não vence o mal usando a violência, vence-o com a misericórdia. Um Mistério novo, difícil! Poderemos entendê-lo somente à luz que nos vem do Deus-crucificado. Jesus não se acomoda aos sonhos políticos da suas gente, antes, toma as devidas distâncias das expectativas puramente humanas que eles têm. É esse o sentido dos dois provérbios que ele cita (v. 23-24) e dos exemplos dos profetas Elias e Eliseu, que preferiram os estrangeiros (a viúva de Sarepta e o sírio Naaman), em vez de ajudarem as viúvas e os leprosos de Israel (v. 25-27). A ente de Nazaré já não estavam nada contentes por o ilustre conterrâneo ter preferido estabelecer-se na cidade de Cafarnaum, comercial e pagã (v. 23); e muito menos gostavam da idéia que o novo plano de salvação de Deus abrangesse também todos os outros povos. O contraste entre a mentalidade livre e generosa de Jesus e a mentalidade interesseira e mesquinha dos nazarenos era inevitável. Um tal conflito permanece uma possibilidade sempre real, para o desconforto dos evangelizadores de todos os tempos e lugares. A história pessoal e pastoral de tantos missionários, conscientes da vocação específica que receberam,  está repleta de rejeições e incompreensões do mesmo tipo – com pessoas de mentalidade fechada e litigiosa. Foi esta também a experiência de Jeremias (I leitura), que tinha consciência de Deus o tinha conhecido e chamado deste o seio materno (v. 5). Por isso mesmo o jovem profeta sente-se investido com a força de Deus “como um muro de bronze contra todo o país, contra o rei... contra os sacerdotes” (v. 18); “hão-de fazer-te guerra”, mas Deus encoraja-o: “eu estarei contigo para te salvar” (v. 19). Esta experiência de se sentir escolhido, amado, enviado e chamado a viver no amor, está na linha daqueles “carismas mais altos”, de que nos fala S. Paulo (II leitura), que conclui dizendo que, de todas as virtudes, “a maior é a caridade” (v. 13).
Um desafio permanente - o do amor – a viver com coerência e tenacidade, mesmo até sofrer a perseguição e a morte. Como Jesus, como os Apóstolos, como os grandes missionários e missionárias da história. Como os líderes da não-violência ativa – por ex. Gandhi, cuja morte recordaremos no dia 30 de Janeiro; M. L. King, de quem recentemente recordamos o aniversário no dia 15/1; Raoul Follereau, apóstolo dos leprosos, para os quais hoje se celebra o dia mundial, e tantos outros profetas do nosso tempo. Entre as vítimas recentes (2006), de quem hoje se celebra a memória, houve 24 missionários e missionárias de quem em breve faremos memória.
Palavra do Papa
“É com a paz que uma colheita de justiça é semeada pelos obreiros da paz” (St. 3,16-18). Estas palavras fazem pensar no testemunho de muitos cristãos que, com humildade e no silêncio, consomem a própria vida ao serviço dos outros, pela causa do Senhor Jesus, trabalhando concretamente como servos do amor e, por isso, ‘artífices’ da paz. Por vezes pede-se a certas pessoas o supremo testemunho do sangue... Não há dúvida de que seguir Cristo é difícil, mas como Ele mesmo diz, somente quem perde a sua vida por causa dele e do Evangelho salvá-la-á (cfr. Mc 8,35), dando pleno sentido à sua própria existência. Não existe outro caminho para ser seus discípulos, não há outro caminho para dar testemunho do seu amor e tender para outra perfeição evangélica”.
padre Romeo Ballan

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1º leitura: Jr. 1,4-5.17-19
vs. 4-5 – Conhecimento, consagração e missão – Deus, criador de todas as coisas, aquele que modelou e deu vida ao primeiro homem (Gn. 2,7), conhece todas as pessoas antes de sua existência. O v. 5 afirma que Deus conhecia Jeremias antes de seu nascimento, antes mesmo de sua concepção no seio de sua mãe. Interessante é que não apenas o conhecia, mas o consagrou, o reservou, o separou para uma missão especial. É claro que ele vai tomar conhecimento disso mais tarde e isso vai exigir dele uma comunhão íntima com Deus e um conhecimento mais direto de seu pensamento. Qual é a missão? É ser profeta para as nações. A revelação dessa missão acontece agora no tempo do rei Josias, no décimo terceiro ano de seu reinado, por volta do ano 627 a.C. O verbo está no presente. Trata-se aqui da “entronização de suas funções e da notificação de sua missão (cf. vv. 9 - 10)”. Essa missão mergulhará o profeta em muitos conflitos.
vs. 17-19 – Fortalecido, o profeta deve anunciar tudo sem medo. A quem?
Aqui o profeta é enviado contra os reis de Judá e seus ministros, ou seja, contra o poder político que está fazendo política suja, corrupta e em próprio benefício. Contra os sacerdotes, ou seja, o poder religioso que está coligado com o poder político para usufruir de maiores privilégios. É enviado também contra os proprietários de terras ou latifundiários que representam o poder econômico que explorava os pequenos agricultores e até os expulsavam do campo.
É claro que estes três poderes perseguirão o profeta, mas ele não deve temê-los, (v. 17) pois Deus estará com ele (v. 19). Deus vai fortalecê-lo como uma fortaleza, como uma coluna de ferro, como uma muralha de bronze (v. 18). Contra quem a comunidade exerce hoje sua missão profética?
2ª leitura: 1Cor. 12,31 - 13,13
O v. 31 é um convite a ambicionar dons superiores; e este caminho maissublime Paulo vai indicar no capítulo 13, é o caminho do amor-ágape. Por que este convite a ambicionar dons superiores? Por causa da infantilidade dos corintos (cf. v. 11) na busca vergonhosamente competitiva dos carismas extraordinários como o dom das línguas que nenhum benefício trazia para a comunidade. Estava faltando para os corintos a base de todos os carismas que é o amor ativo e solidário, fundamentado numa fé adulta, amadurecida. Possuir carismas como promoção pessoal e vaidade é contra testemunho, é infantilismo.
“O hino ao amor” do capítulo 13 corresponde à segunda parte da parábola do corpo, que falava da solidariedade dos membros na unidade (12,12 ss.). Sem o amor-ágape é impossível a solidariedade na unidade de um só corpo. 1Cor 13 embora fale do amor de Deus, ou seja, do amor com o qual Deus ama, não fala diretamente do amor a Deus, mas do amor aos irmãos. O hino pode ser dividido em três partes.
1) vs. 1-3 – A superioridade do amor – Paulo enumera aqui os dons mais ambiciosos, falar em línguas, profecia, ciência, mesmo a fé, a “caridade”- esmola e até mesmo o sacrifício da própria vida. Se isso tudo for feito por vaidade e orgulho e não por amor-solidário de nada vale.
2) vs. 4-7 – As obras do amor-ágape, do amor solidário – O amor não se define de maneira abstrata, mas concreta, pela ação que ele provoca. Paulo apresenta aqui um elenco de 15 expressões para mostrar o que é e o que não é amor solidário. Amor não é sentimento, nem exibicionismo mas solidariedade com os mais fracos e necessitados. Além disso, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (v. 7).
3) vv. 8-13 – a perenidade do amor – Todos os carismas são passageiros. Tudo passa. Só o amor permanece. Tudo é limitado e imperfeito. Só o amor não tem limites, só o amor é perfeito, coisa de adultos na fé (v. 11). Fé, esperança e amor sim, devem ser levados em conta, pois elas nos introduzem desde agora no domínio das realidades que nunca passarão. Mas, no fundo, até mesmo a fé e a esperança só permanecem neste mundo, portanto são também passageiras.
No céu elas serão substituídas pela visão de Deus face a face (cf. v. 12). No céu só haverá de permanecer o AMOR, por isso Paulo diz que agora permanecem fé, esperança e amor, mas o amor é o maior. O amor é o nome concreto da fé de quem põe em Deus toda a sua esperança.
Evangelho: Lc. 4,21-30
Jesus é rejeitado pelos seus conterrâneos (vs. 22-23)
O v. 21 anuncia a realização da Escritura no hoje da vida do povo, que está escutando Jesus. Só vai depender da aceitação. Há num primeiro momento uma predisposição dos ouvintes em escutar Jesus. Eles lhe prestam testemunho e se espantavam com suas palavras que lhes anunciavam a graça ou o amor benevolente de Deus. Mas, num segundo momento, o povo coloca dois obstáculos à mensagem de Jesus. O primeiro obstáculo é a encarnação de Jesus. A pergunta: “Não é esse o Filho de José?” implica numa rejeição de um Messias simples, comum, conhecido, nascido no meio do povo. O povo esperava um Messias espetacular capaz de ações mágicas e miraculosas. O provérbio: “médico, cura-te a ti mesmo” quer indicar que Jesus não é capaz nem mesmo de libertar seus próprios familiares da opressão e miséria, por isso não serve. O segundo obstáculo é a busca de milagres. Eles querem que Jesus faça milagres em Nazaré como faz em Cafarnaum. Querem o exibicionismo de Jesus, querem um Jesus atuando em seu próprio favor. Mas Jesus se recusa a cair nas tentações de 4,1 - 12. Por esses dois obstáculos o hoje da salvação não se realiza para o povo de sua terra.
A abertura para os pagãos (vs. 24-30)
Acontece com Jesus o que aconteceu com os profetas: não é bem acolhido em sua pátria. Rejeitado pelo seu povo, Jesus anuncia sua abertura para os pagãos, contando dois episódios acontecidos com o profeta Elias e outro com o profeta Eliseu. Elias, no tempo da fome, apesar de saber que havia muitas viúvas em Israel, vai, sob ação de Deus, socorrer uma viúva estrangeira em Sarepta na Sidônia (cf. 1Rs 17). Eliseu, por sua vez, apesar de saber que havia muitos leprosos em Israel, purifica o sírio Naaman (cf. 2Rs. 5). O que Jesus quer dizer? Ele quer dizer que quando o povo rejeita os profetas de Deus, Deus aproveita para mostrar seu amor aos que estão fora de Israel. Interessante é que os de fora acolhem o Deus dos profetas e sua mensagem. Sua fé é até mesmo maior do que a do povo escolhido. Assim Lucas apresenta a mensagem universal de Jesus aberta a todos os povos.
A reação do povo de Nazaré (vs. 28-30)
Eles entendem o que Jesus queria dizer e enchem-se de cólera, expulsam Jesus da cidade e querem precipitá-lo morro abaixo. Esse gesto é uma prefiguração do assassinato do profeta de Nazaré por parte de Israel. O v. 30 sem forçar a presença de um milagre quer indicar que o itinerário de Jesus para Jerusalém, onde morrem os profetas, começa aqui (cf. v. 9,51). Por isso Jesus passa no meio deles e segue seu caminho.
Como nós cristãos estamos acolhendo hoje a mensagem de Jesus?
dom Emanuel Messias de Oliveira
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Neste 4º Domingo do Tempo Comum a liturgia coloca diante de nós o conflito surgido entre Jesus e as pessoas de Nazaré. Aconteceu num sábado, durante a celebração da Palavra na sala da comunidade, depois da leitura que Jesus fez de um texto do Profeta Isaías. Jesus cita o Profeta Isaías para apresentar o seu plano de ação e, imediatamente, faz um brevíssimo comentário. Num primeiro momento todos ficaram admirados e contentes. Mas, quando se deram conta do alcance e do significado do programa de Jesus relativamente às suas vidas, revoltaram-se e queriam matá-lo. Conflitos deste tipo dão-se ainda hoje. Aceitamos o outro na medida em que se comporta de acordo com as nossas ideias, mas, quando o outro decide admitir na comunidade pessoas excluídas por nós, aparece o conflito. Foi o que aconteceu em Nazaré.
O Evangelho deste Domingo começa no versículo 21, com um breve comentário de Jesus. Tomamos a liberdade de incluir no comentário os versículos anteriores, de 16 a 20. Isto permite-nos tomar consciência do texto de Isaías citado por Jesus e entender melhor o conflito.
Contexto de então para situar o texto
No antigo Israel, a grande família, ou clã, ou a comunidade, era a base da convivência social. A proteção da família e das pessoas era a garantia para possuir a terra, o veículo principal da tradição e da defesa da identidade das pessoas. Era um modo concreto de encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Defender o clã, a comunidade, era o mesmo que defender a aliança com Deus.
No tempo de Jesus, uma dupla escravidão recaía sobre as pessoas e contribuía para a desintegração do clã, da comunidade: 1) – a escravidão da política do governo de Herodes Antipas e 2) – a escravidão da religião oficial. Por causa do sistema de exploração e de repressão da política de Herodes Antipas, política apoiada pelo império romano, muitas pessoas não tinham morada fixa, estavam excluídas das restantes e não tinham trabalho (Lc. 14, 21; Mt. 20, 3.5-6). O clã, a comunidade, estava debilitada por causa disso. As famílias e as pessoas estavam sem ajuda e sem defesa. A religião oficial, mantida pelas autoridades religiosas da época, em vez de reforçar a comunidade, de modo que pudesse acolher os excluídos, aumentava ainda mais esta escravidão. A Lei de Deus era usada para legitimar a exclusão e a marginalização de muitas pessoas: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possuídos pelo demônio, publicamos, enfermos, mutilados, paraplégicos. Tudo isto era contrário à fraternidade sonhada por Deus para todos. Deste modo, quer pela situação política e econômica, quer pela ideologia religiosa, tudo contribuía para enfraquecer a comunidade local e impedir a manifestação do Reino de Deus. Jesus reage perante esta situação do seu povo e apresenta um programa para alterar a situação. A experiência que Jesus tem de Deus como Pai de amor, possibilita-lhe valorar e perceber o que estava errado na vida do seu povo.
Comentário do texto
Lucas 4, 16: Jesus chega a Nazaré e participa na reunião da comunidade. Impulsionado pelo Espírito Santo, Jesus foi à Galileia e começa a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus (Lc. 4, 14). Andando pelas aldeias e ensinando nas sinagogas, chega a Nazaré. Vem à comunidade em que, desde menino, tinha participado nas reuniões semanais durante trinta anos. No sábado seguinte à sua chegada, segundo o seu costume, Jesus foi à sinagoga para participar na celebração e levanta-se para ler.
Lucas 4, 17-19: Jesus lê uma passagem do Profeta Isaías. Naquele tempo liam-se duas leituras nas celebrações de sábado. A segunda era tomada dos livros históricos ou dos profetas, e era escolhida pelo leitor. O leitor podia escolher. Jesus escolheu o texto do Profeta Isaías que apresenta o resumo da missão do Servo de Deus, e que refletia a situação do povo da Galileia no tempo de Jesus. Em nome de Deus, Jesus toma posição para defender a vida do seu povo, assume como sua a missão do Servo de Deus, e usando as palavras de Isaías, declara diante de todos: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Is. 61, 1-2). Esta última expressão era o mesmo que proclamar um ano jubilar. Ou seja, Jesus convida o povo da sua cidade a começar de novo, a refazer a história, desde a raiz (Dt. 15, 1-11; Lev. 25, 8-17).
Lucas 4, 20-21: Perante um público atento, Jesus liga a Bíblia com a vida das pessoas. Terminada a leitura, Jesus entrega o livro ao servidor e senta-se. Jesus não é ainda um coordenador da comunidade, é leigo, e como tal, participa na celebração, como todos os outros. Estivera ausente da comunidade durante algumas semanas, unira-se ao movimento de João Baptista e tinha-se feito batizar por ele no rio Jordão (Lc. 3, 21-22). Além disso, passou mais de quarenta dias no deserto, refletindo acerca da sua missão (Lc. 4, 1-2). Naquele sábado, depois do seu retorno à comunidade, Jesus é convidado para ler. Todos estão atentos e curiosos: “Que dirá?”. O comentário de Jesus é muito breve, mais ainda, brevíssimo. Atualiza o texto, une-o à vida das pessoas, dizendo:  “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir”.
Lucas 4, 22: Reação contraditória do público. A reação por parte das pessoas é dupla. Em primeiro lugar, uma atitude atenta de admiração e de aclamação. Depois, imediatamente, uma reação de desconfiança. Dizem: “Não é este o filho de José?”. Por que estão escandalizados? Jesus fala de acolher os pobres, os cegos, os prisioneiros, os oprimidos. Mas eles não aceitam a sua proposta. E assim, no mesmo momento em que Jesus apresenta o seu projeto de acolher os excluídos, ele mesmo é excluído! Mas o motivo é também outro. É importante tomar atenção aos pormenores nas citações que o Evangelho de Lucas faz do Antigo Testamento. No segundo Domingo do Advento, ao comentar Lc. 3, 4-6, Lucas apresenta uma citação mais longa de Isaías para mostrar que a abertura aos pagãos estava já prevista pelos profetas. Aqui acontece algo de parecido. Jesus cita o texto de Isaías até onde é dito: “proclamar um ano de graça do Senhor”, e corta o resto da frase que diz: “e um dia de vingança do nosso Deus, para consolar todos os aflitos” (Is. 62, 2b). As pessoas de Nazaré não estão de acordo que a frase sobre a vingança contra os opressores do povo tenha sido cortada. Eles queriam que o Dia da vinda do Reino fosse um dia de vingança contra os opressores do povo. Os aflitos veriam assim restabelecidos os seus direitos. Mas neste caso, a vinda do Reino não traria uma mudança real do sistema injusto. Jesus não aceita este modo de pensar, não aceita a vingança. A sua experiência de Deus como Pai ajudava-o melhor a entender o significado exato das profecias. A sua reação, contrária à das pessoas de Nazaré, faz-nos ver que a antiga imagem de Deus, como juiz severo e vingativo, era mais forte do que a Boa Nova de Deus, Pai amoroso que acolhe os excluídos.
Lucas 4, 23-24: Jesus critica a reação das pessoas. Jesus interpreta a reação das pessoas e considera-a como uma forma de inveja: “Médico, cura-te a ti mesmo. Tudo o que ouvimos o que aconteceu em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra!”. Jesus era conhecido em toda a Galileia (Lc 4, 14) e as pessoas de Nazaré não gostavam que Jesus, um filho da sua terra, fizesse coisas boas noutras terras e não na sua. Mas a reação tem uma causa ainda mais profunda. Inclusivamente se Jesus tivesse feito as mesmas coisas que fez em Cafarnaum, as pessoas não acreditariam nele. Eles conheciam Jesus: “Quem é este para nos ensinar? Não é o filho de José?” (Lc. 4, 22). Ainda hoje, acontece tantas vezes o mesmo: quando um leigo ou uma leiga pregam na igreja, muitos não aceitam, saem e dizem: “Ele(a) é como nós: não sabe nada!”. Não acreditam que Deus possa falar por intermédio das pessoas mais comuns. Marcos acrescenta que Jesus ficou admirado com a incredulidade do seu povo (Mc. 3, 6).
Lucas 4, 25-27: Iluminação bíblica por parte de Jesus, citando Elias e Eliseu. Para confirmar que a sua missão era verdadeiramente a de acolher os excluídos, Jesus serve-se de duas passagens da Bíblia muito conhecidas: a história de Elias e de Eliseu. As duas realçam e criticam o fechamento mental das pessoas de Nazaré. No tempo de Elias existiam muitas viúvas em Israel mas o profeta foi enviada a uma viúva estrangeira de Sarepta (1Re. 17, 7-16). No tempo de Eliseu havia muitos leprosos em Israel mas Eliseu foi enviado a ocupar-se de um leproso estrangeiro da Síria (2Re. 5, 14). Aqui aparece novamente a preocupação de Lucas em mostrar que a abertura aos pagãos vem do próprio Jesus. Jesus teve as mesmas dificuldades que as comunidades do tempo de Lucas tiveram.
Lucas 4, 28-30: Reação furiosa das pessoas que querem matar Jesus. A utilização destas duas passagens da Bíblia causa entre as pessoas ainda mais raiva. A comunidade de Nazaré chega até ao ponto de querer matar Jesus. Mas ele mantém a calma. A raiva dos outros não o desvia do seu caminho. Lucas indica como é difícil ultrapassar a mentalidade de privilégio e de fechamento em relação aos outros. Hoje acontece o mesmo. Muitos de nós, católicos, fomos educados na mentalidade de acreditar que somos melhores do que os outros e que para alcançar a salvação devem ser como nós. Jesus não pensava assim.
O significado do ano jubilar
No ano 2000, o Papa João Paulo II convidou os católicos a celebrarem o jubileu. Faz parte da vida a celebração de datas importantes pois faz descobrir o começo e reaviva-o. Na Bíblia, o Ano Jubilar era uma lei importante. No começo, cada sete anos era decretado que as terras vendidas ou hipotecadas fossem restituídas ao clã que as possuía anteriormente. Cada um devia poder voltar à suas propriedades. Deste modo impedia-se a formação de latifúndios e era garantida às famílias a sua sobrevivência. Havia a obrigação de vender a terra, de resgatar os escravos e de perdoar as dívidas (cf. Dt. 15, 1-18). Não era fácil celebrar o ano jubilar em cada sete anos (cf. Jer. 34, 8-16). Depois do exílio começou a ser celebrado de cinquenta em cinquenta anos (Lv. 25, 8-17). O objetivo do Ano Jubilar era e continua a ser a de restabelecer os direitos dos pobres, acolher os excluídos e reintegrá-los na comunidade. Era uma ocasião para rever o caminho percorrido, para descobrir e corrigir erros e voltar a começar de novo. Jesus começa a sua pregação proclamando um novo jubileu, um Ano de Graça da parte do Senhor.

 Ser profeta hoje requer também de nós muita coragem para denunciar as injustiças da nossa sociedade capitalista e cheia de preconceitos.
Como Jeremias, somos chamados a gritar com nossa voz e nossa vida os valores do Reino de Deus, para sensibilizar os corações cheios de “ídolos” a se tornarem mais humanos e mais abertos aos apelos dos pobres. O profeta é o homem que vive de olhos voltados para Deus e de olhos voltados para o mundo “um olho na Bíblia irmão, caminhar com os pés no chão, um outro na vida da comunidade se faz comunhão.” Vivendo em comunhão com Deus saberemos qual será o seu projeto para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. Mas os planos de Deus não são utopia. É realidade que exige de nós audácia, pois a denúncia profética implica, tantas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte como a de Dom Oscar Romero, a de Irmã Doroth e de muitos outros que banharam este chão com o seu sangue e que, como Cristo, doaram suas vidas por amor aos excluídos.
E este mesmo amor é a mística, ou seja, é a força que moveu e move esta coragem de anunciar e denunciar. Amor “ágape”, amor de Deus doado a nós sem interesse, amor oblativo, amor que é a essência de toda a ação missionária da Igreja. Amor que sustenta nossa opção, mesmo quando somos rejeitados e vistos como inimigos, assim como Jesus foi visto em sua própria terra.
Os “seus” o rejeitaram, pois queriam espetáculos e a presença de um homem simples como eles os incomodou. E é justamente aí que os verdadeiros profetas se revelam: homens simples, mas que fazem diferença com suas atitudes e formas de amar. Como Jesus, não tenhamos medo. No nosso cotidiano, no nosso trabalho, em nossa família, em nossa comunidade sejamos a Boca de Deus a gritar pelo o mundo afora: “irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra, um novo mar, e nesse dia os oprimidos numa só voz a liberdade irão cantar.” Sejamos, portanto: profetas do amor!
O hoje de Deus
No início do Evangelho do 4º Domingo Comum (Ano C), tal como no Domingo anterior, está uma indicação temporal muito importante: “Cumpriu-se hoje esta palavra da Escritura que acabais de ouvir”, diz Jesus aos seus conterrâneos para mostrar como é importante o hoje de Deus. Hoje mesmo. É o hoje da encarnação do Verbo de Deus na história humana. É o hoje da passagem de Deus pela minha vida. É o hoje de cada dia e de cada momento em que Deus bate à porta do nosso coração. Se o tivermos livre de outras inquietações, saberemos escutá-lo abertamente. Poderemos abrir ou fechar a nossa porta. “Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações”. A palavra hoje não aparece muitas vezes no Evangelho, mas é importante quando aparece. “Nasceu-vos hoje um Salvador”, dizem os anjos aos pastores de Belém. Em Cafarnaum, depois da cura do paralítico, todos dizem abertamente: “Hoje vimos coisas maravilhosas”. Jesus dirá na casa de Zaqueu: “Hoje entrou nesta casa a salvação”. A Pedro, que está disposto a morrer com Jesus, Ele diz: “Hoje, antes de o galo cantar, me negarás três vezes”. Ao bom ladrão colocado a seu lado junto à cruz, dirá: “Hoje estarás comigo no paraíso”. “Ide hoje trabalhar para a minha vinha” diz o pai aos dois filhos. Um diz que sim, mas depois não vai. O outro diz que não, mas depois arrepende-se e vai. Hoje. “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Hoje é o presente, o único tempo que temos para pedir e para receber, para crer e para esperar, para amar e recomeçar.
O tempo presente - O tempo que corre e não volta é o grande dom que Deus nos oferece para que o usemos reconhecida e responsavelmente. Embora tudo seja inexoravelmente “devorado” pelo tempo, permanece intacto o bem que fizermos. Todos os segundos que tivermos vivido no amor de Deus e do próximo ficarão para sempre na eternidade de Deus que é Amor. Sim, é importante viver o tempo presente, porque só esse nos pertence. É essa a recomendação constante da revelação cristã: “Não andeis preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua aflição”, lê-se em S. Mateus. “Não vos angustieis com coisa nenhuma”, diz-nos S. Paulo. E S. Pedro acrescenta: “Confiai ao Senhor todas as vossas preocupações, porque Ele cuida de vós”. É a certeza de que há um Pai que nos ama imensamente, cuida de nós, acompanha-nos momento a momento e conhece o que nos faz falta.
Viver o momento presente, na certeza do amor gratuito de Deus Pai, tornou-se ao longo dos séculos um dos pilares da espiritualidade cristã. O ensinamento dos santos, especialistas na qualidade de vida, não deixa dúvidas: “Tu sabes, ó meu Deus -  repetia Santa Teresinha – que para te amar sobre a terra só tenho o dia de hoje”. E acrescentava: “Ocupemo-nos unicamente do momento presente. Cada instante é um tesouro”. Não há ações grandes e ações pequenas. Todas e cada uma têm um valor infinito aos olhos de Deus. “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para dar louvor a Deus”, recomenda-nos S. Paulo.
O presente como sacramento - É o quotidiano que se eleva da monotonia dos dias ao mais alto nível espiritual. Até o comer e o dormir, o trabalho repetitivo e monótono, o estudo, o desporto, o tempo livre, uma conversa amiga, uma doença... tudo pode tornar-se matéria-prima com que forjar o homem novo à imagem de Cristo. Cada pessoa, cada circunstância, cada ação podem tornar-se sacramento da nossa comunhão com Deus. O segredo está em fazer coincidir a nossa vontade por vezes rebelde e caprichosa com a sublime vontade de Deus. E a vida torna-se mais simples, porque está toda concentrada sobre o amor com que vivemos o momento presente. Não cruzemos os braços à espera de acontecimentos extraordinários, mas saboreemos o quotidiano, sabendo muito bem que é aqui e agora que se constrói a nossa santidade.
Darci Vilarinho
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Ambicionai, pois, os carismas os mais excelentes, e contudo, por via de hipérbole vos mostro um caminho (31).
AMBICIONAI: o verbo Zëloö é estar zeloso no sentido de ter uma dedicação extrema por uma determinada pessoa ou ideologia. A tradução mais exata seria ter zelo ou diligência extrema por uma ideia ou coisa. Assim, os fariseus e Paulo em especial, tinham zelo por Deus. É o desejo em perseguir um objeto, ou o desvelo por um objetivo que se transforma em ambição. É neste sentido, que temos traduzido o verbo. Aspirai ou procurai são outras traduções válidas.
MAIS EXCELENTES: o grego Kreittön é o comparativo de Kratus [forte, poderoso, firme]. No caso, significa mais favorável ou lucrativo e mais excelente. Melhor, como em 1Cor. 7,9: é melhor se casar que se queimar. De fato, a bíblia NASB traduz Kreittön por better [= melhor] com uma única exceção: Hb. 7,7 em que greater é a preferida como contraste com lesser: o inferior é abençoado pelo superior. VIA DE HIPÉRBOLE: Upérbole precedido porKata transforma em advérbio o nome que significa lançado além, e metaforicamente preeminência, excelência. E como advérbio, além de toda medida, excelentemente, preeminentemente. As traduções variam: a mais conforme é um caminho sobremodo excelente. A nossa tradução como via de hipérbole pode se entender por via de excelência, que dá no mesmo.

Se falo nas línguas dos homens e dos anjos, mas não tenho amor, me tornei um bronzeribombando ou um címbalo repicando (13,1).
LÍNGUAS DOS ANJOS: Paulo pensa que os anjos também têm suas próprias línguas, pois quando falam com os humanos usam a língua destes. Vejamos a tradição do tempo. Os fariseus – e Paulo era um deles- acreditavam que as línguas criadas na confusão da Babilônia, eram tantas como as nações: 70. A língua hebraica era a língua primitiva da criação humana, aquela de Adão e Eva. Esta era a língua usada pelos anjos. O anjo Gabriel conhecia todas as línguas [especialmente o aramaico- com Zacarias e Maria-, e o medo, segundo o livro de Tobias]. Os outros anjos só falavam o hebraico e por isso, só apresentavam ao trono de Deus as preces feitas em hebraico. Algo desta crença temos na idade média quando o hebraico, o grego e o latim eram as línguas eclesiásticas e as eslavas foram rejeitadas como impróprias até que o Papa Adriano II aceitou as traduções de Cirilo e Metódio. De fato, anjos não falam nenhuma língua, porque não tem boca nem língua. Caso Paulo pensasse numa língua material como um som de frequência física audível, ele teria a intenção de aludir a uma expressão extremamente sublime que o homem não tem capacidade de exprimir. Ou seja, poderíamos traduzir embora falasse a língua mais sublime e pura que possa existir, pois, pela ação do Espírito, poderiam falar os homens semelhante idioma. Que os anjos se comunicam entre si é um fato que deve ser admitido, pois são criaturas racionais. Como? Na cultura incipiente nos tempos de Paulo, era uma língua especial que ninguém explicava. Paulo não afirma que tal língua existisse, mas que essa comunicação poderia ser feita pela língua de um homem com tal que estivesse movido pelo Espírito. Não é a língua mesma, mas a variedade e superioridade das diferentes existentes ou possíveis no mundo, que constituem o termo comparativo.
AMOR: usando Agapë. Em grego temos  4 palavras que são traduzidas por amor: Eros, ou amor sexual. Storgë como amor familiar entre pais e filhos, ou membros de uma família. Filia, de um amor fraternal ou entre amigos. Finalmente, Agapë, um amor de entrega sem demandas, que ama embora seja rejeitado, um amor de sacrifício, de negação da gente pelo bem do outro. Geralmente assim é definido o amor de Deus, embora tenhamos o amor do pecado (os homens amaram mais as trevas - Jo. 3,19) e o amor do mundo (Não ameis o mundo - 1Jo. 2,15) que podem absorver as energias e vitalidade de uma pessoa. Agapë é traduzido ao latim por caritas e dilectio, Exemplos:quem nos separará do amor [agapë/caritas] de Cristo? (Rm. 8,35) e o amor[agapë/dilectio] não pratica o mal contra o próximo (Rm. 13,3). Neste período, Paulo usa agapë, que é traduzido ao latim por Charitas. E pode ser tanto o amor infuso como é o amor dos grandes místicos e seria carisma, ou amor como virtude; e então, seria o amor do qual Paulo fala nesta perícope e que acompanha a fé e a esperança (vs. 13). Pelos atributos a este amor concedidos, podemos pensar no amor como virtude teologal e não como carisma infuso.
BRONZE: Que em grego é chalkis e em latim aes palavras que tomam o metal pelo instrumento. Também chalkis significa dinheiro assim como prata em espanhol. A fala do bronze é ëchon, do verbo ëcheö [bramar, retumbar, ressonar]. Um outro instrumento é o CÍMBALO, semelhante aos pratos e que era usado como instrumento de percussão, principalmente em cerimônias religiosas. O seu som era como o som de uma campainha, um retintim tímido, pois eram considerados como pequenos sinos achatados e com grandes asas. Logicamente nada dizem em particular semelhantes instrumentos quando usados.

E se tiver profecia e conhecer os mistérios todos e todo saber e se tiver toda a fé de modo a mover montanhas, mas não tiver amor, nada sou (2).
MUSTËRIA: o termo indica coisas ocultas, secretas, especialmente se são os segredos dos iniciados religiosos, ou para um cristão, os planos divinos ocultos aos pecadores e conhecidos pelos santos. Paulo dá o objeto desses mistérios como sendo um conhecimento de tudo quanto é possível conhecer. FÉ:Claramente temos aqui a fé como carisma infuso que Paulo descreve como capaz de mover montanhas, sem dúvida, como uma citação implícita das palavras de Jesus Mt 17,20.
SE NÃO TIVER AMOR: com estas palavras, Paulo não fundamenta unicamente a vida na terra como seguimento de Jesus, modelo do amor que se entregou portodos nós, mas também diz da essência da vida eterna, que é o amor como único motivo e objeto da mesma. Como filhos, participamos da vida trinitária de Deus, que em palavras de João, é AMOR. Jesus o revelou em seu testamento : Nisto conhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros como eu vos tenho amado (Jo 15,12).

E se eu distribuir todos os meus bens e se der meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada me aproveita (3).
OS BENS: o Uparchonta grego indica possessões, bens, riquezas. Responde talvez ao convite de Jesus: Vende, se queres ser perfeito, os bens e dá aos pobres (Mt 19,21). Não parece que tenhamos uma melhor disposição ao desprendermos dos bens externos que esta de entregar aos pobres os bens.
SER QUEIMADO: é uma outra maneira, esta, íntima, de sacrifício. Se a anterior era o sacrifício do dinheiro, este é o sacrifício do próprio corpo. Embora ambos sejam considerados como boas obras, elas nada valem se não existir o amor. Não seria mártir Estevão se ao morrer não tivesse pronunciado as palavras de perdão para seus algozes (At. 7,60). Mas quais são as qualidades do verdadeiro amor? Paulo as descreve na continuação.
O amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não é vaidoso, não é orgulhoso (4). Os atributos que constituem os complementos do verbo ser indicam como deve ser o verdadeiro amor: MAKROTHUMEI, do verbo correspondente, significa suportar pacientemente, especialmente injúrias e ofensas, ser indulgentes com os outros. Em Mt. 18,26 o escravo diz a seu senhor: tem paciência comigo e tudo te devolverei. Em todos os casos, a paciência é parte da tradução bíblica como vemos pelo latim da Vulgatapatiens.
CHRËSTEUETAI: é benigna; e só sai neste versículo. Não tem INVEJA. Na realidade, o verbo usado Zëloö tem como significado primário ser zeloso, estar cheio de um espírito de dedicação e entrega. Um exemplo em 1 Cor. 14,1:Segui o amor, mas procurai com zelo os dons espirituais. Mas também significa ter inveja, como em At. 7,9 : Os patriarcas tornaram-se invejosos de José.
VAIDOSO: o verbo Perpereumai significa jactar-se, e é hápax neste versículo.
ORGULHOSO: é andar inchado, ensoberbecido, arrogante, como em 1Cor. 4,6:de modo que ninguém se torne arrogante a favor de um, em detrimento de outro. Em todas estas características encontramos como base, a humildade, o espírito de serviço e de entrega, próprio do verdadeiro amor. Esse amor que constitui a base da Lei: Amarás (Mt. 22,37-39). De modo que o amor constitui a razão do obrar e o objetivo da aspiração de toda criatura que quer ser filho de um Deus que se define como AMOR.
Não age inconvenientemente, não busca as coisas próprias, não se irrita,não cogita a maldade (5).Continua Paulo enumerando as características negativas que impedem o verdadeiro amor, mais fáceis de descrever que as positivas.
AGIR INCONVENIENTEMENTE: Aschemoneö é agir indecorosamente como em 1Cor. 7,36: se alguém julga que trata sem decoro a sua filha (1Cor. 7,36). Uma tradução inglesa fala de quem não se comporta de maneira rude ou de modo grosseiro. O latim traduz ambitiosus, que pode ser traduzido por jactancioso, intrigante, ostensivo.
IRRITAR-SE: Paroxunö significa provocar, irritar-se, zangar-se. Na única outra vez que aparece é em At. 17,16 quando o espírito de Paulo ficou revoltado ao ver a cidade de Atenas cheia de ídolos.
NÃO COGITA A MALDADE: logizomai tem o significado de considerar, avaliar, cogitar muito mais do que o simples pensar. É uma ação voluntariamente consentida e refletida. Kakon é o mal, que pode ser também desgraça, injúria.Pilatos pergunta: que mal fez ele [Jesus]? Cogitar o mal é, pois, querer ou praticar uma coisa que seja em prejuízo do próximo. Contrariamente ao rico, que só recebeu bens na sua vida, Lázaro só recebeu males (Lc. 16,25). Traduziríamos, pois, não deseja o mal do próximo. Dizem de uma tribo da Indonésia que tem como costume guardar como memória as ruindades dos inimigos, suspensas do telhado de suas cabanas. A maioria de nós faz isso. Porém ao contemplarmos o verdadeiro amor poderíamos afirmar que não existe uma boa ação que tenha como motivo um pensamento ruim.
Não se alegra pela iniquidade, mas se congratula com a fidelidade (6). Agora, Paulo inicia uma série de qualidades positivas do amor/agapë. Em primeiro lugar, toma como consideração a felicidade que é uma consequência do amor: A felicidade não está na Adikia que é traduzida por injustiça, mas que na realidade tem um significado muito mais amplo: é o de todo ato oposto à Lei, ou ato pecaminoso. A Melhor tradução é a dada pela Vulgata: iniquitas. Neste caso, encontramos  a felicidade e a alegria é na Alëtheia que é traduzida geralmente por verdade mas que, como oposta a iniquidade que, na realidade, é uma desobediência ou infidelidade às leis divinas, podemos traduzir por fidelidade às mesmas. Lemos em Jo 3,21: quem pratica a fidelidade que geralmente é traduzido por verdade e que como tal tradução não faz muito sentido. E o sentido de Rm. 15,8, quando fala da fidelidade  de Deus para confirmar as promessas feitas aos nossos pais. Ou a frase em verdade que muito melhor seria traduzida por fielmente ou com fidelidade, como aquela em que o fariseu diz de Jesus que ensina o caminho de Deus epi aletheias [de modo fiel]. Ou Jo 4,23 a hora em que adorarão em espírito e fidelidade [muito melhor que em verdade], pois é neles que o Pai encontra seus adoradores.Modernamente Jo 1,17, charis kai aletheia é traduzido por graça e fidelidade[gratia et veritas latino]. Paulo usa a alëtheia tou Theou como fidelidade de Deus que engrandece minha infidelidade. Quando se trata de Deus a pistis não pode ser traduzida por fé, mas toma seu significado original de fidelidade como em Hb. 11,11 em que se fala da pistis [fidelidade] de quem recebeu a boa nova.

Tudo aguenta, tudo confia, tudo espera, tudo suporta (7).
AGUENTA: do verbo Stegö com o significado de tolerar, aguentar, sofrer.
CONFIA: O verbo Pisteuö tem um sentido, só bíblico, de acreditar, crer, como traduz a Vulgata. Mas aqui parece que confiar é o mais apropriado.
ESPERA: como Elpizö é esperar.
SUPORTA: o verbo Upomeneö tem o significado de suportar, sofrer, resistir. Estas qualidades do amor indicam que a humildade e o serviço são inerentes ao mesmo. Spurgeon chama estas quatro virtudes companheiras afáveis do amor.
O amor, de maneira alguma, decai, portanto as profecias desaparecerão como as línguas cessarão como o conhecimento será anulado (8).
DECAI: do verbo Ekpiptö cujo significado é cair, tombar, desmoronar, desabar, ruir. Contrariamente às profecias, que do verbo Katargeö deixam de agir ou cessam em suas funções, assim como as línguas que param, suspendem ou são interrompidas, segundo o verbo Pausö, o amor permanece. E Paulo repete o mesmo verbo katargeö para o conhecimento que não terá como agir em todo tempo. Tudo indica a precariedade e temporalidade desses carismas tão desejados pelos de Corinto.
Parcialmente, pois, conhecemos e parcialmente profetizamos (9). Quando, pois, vier o completo, então o parcial será abolido (10). Paulo dá a razão dod porquê essa decadência: a imperfeição dessas qualidades que devem ser substituídas por outras mais perfeitas ou completas. Tendo estas últimas, o imperfeito é inútil e até inconveniente.

Quando eu era infante como infante falava, como infante pensava, como infante raciocinava, mas quando me tornei adulto aboli as coisas do infante (11). Pois vemos agora por meio do espelho e em enigma. Então, porém, face com face; agora conheço parcialmente; então, porém, compreenderei como sou compreendido (12).
Com este exemplo, Paulo ilumina seu raciocínio. Uma coisa é a fala, o pensamento e o conhecimento de um infante. Esta palavra originalmente indicava aquele que não falava ou seja um bebê, que traduzimos por infante, pois para bebê temos o broto ou brefos grego.
ADULTO: é o Anër que indica um homem adulto ao distingui-lo por idade de um menino. Também significa varão para diferenciá-lo da mulher, ou marido para separá-lo da esposa. Paulo continua com o exemplo da imperfeição dada pelos espelhos antigos da época, que consistiam de uma lâmina de prata mais ou menos polida. Precisamente, Corinto era famosa por seus espelhos de metal polido. Era também uma visão por enigmas, com significado de um dito ou fato de difícil interpretação. Segundo Paulo, esta vida terrena é só um passo para a definitiva, em que tudo será compartilhado com Deus, pois o veremos face a face, pessoalmente, como Moisés, que falava com o Senhor face a face como um homem fala com seu amigo (Êx. 33,11). Em Nm. 12,8 o Senhor diz que fala com Moisés boca a boca, claramente e não por enigmas, pois vê a forma do Senhor. Claro que esta forma foi vista de costas (Êx. 33,23). Nesta vista e conhecimento consiste, segundo Tomás de Aquino, a visão que é a base da glória celeste. A frase como sou compreendido tem o sentido de conhecimento completo, total, e por isso, usamos compreender. Paulo usa a comparação de como sou conhecido, uma passiva que indica ser conhecido por Deus. Dizem do Aquinate que teve uma revelação de Deus, de tal forma, que nunca mais escreveu porque não podia com palavras humanas descrever o que interiormente experimentou. É inútil descrever a um surdo de nascimento como são os sons que os não privados da audição experimentam. Só sabemos que a felicidade dos bem-aventurados será mui superior à que experimentaram os grandes místicos, que tiveram um contato íntimo com Deus e seus mistérios.
Agora, pois, permanece(m) fé, esperança, amor, destas  três: porém o amor a melhor delas (13). Esta é a conclusão sobre a excelência dos dons espirituais que não podemos confundir com os que modernamente chamamos de carismas, já que estes são infusos e operam modo divino, e o que Paulo nomeia na continuação são virtudes infusas que operam modo humano, mas são as que realmente permanecem, ao contrário dos carismas estritos que são temporais. A fé, a esperança e o amor são as três virtudes teologais, por meio das quais nos ligamos a Deus em conhecimento, em desejo e como amado. Mas o principal de todas é o amor, que constitui a base e essência da vida cristã. São virtudes permanentes sem as quais nenhum cristão pode viver como tal em graça de Deus.

O texto evangélico nos apresenta a cena da sinagoga de Nazaré. Os conterrâneos de Jesus, que O conheceram desde menino, são incapazes de superar o escândalo da Encarnação de Deus na raça humana. Segundo os modernos comentaristas, houve duas visitas de Jesus a Nazaré: uma no início de seu ministério, coroada de êxito: e admiravam-se das palavras cheias de graça que saiam de sua boca (Lc. 4,22). Na segunda, foi incompreendido e rejeitado, escandalizando-se dele (Mt. 13,57). Na primeira, se apresenta como o profeta anunciado por Is. 61,1ss. que vem libertar cativos, como vimos no domingo anterior. Na segunda, Mateus e Marcos apresentam, nas pessoas de seus conterrâneos, o fracasso de sua missão entre os judeus a quem chama degeração má e adúltera (Mt. 24,34). Vejamos cada um dos versículos por separado. Como sempre, oferecemos uma tradução direta do grego, comparando-a com a Vulgata latina e dando uma interpretação, a mais ajustada possível, aos costumes da época, fundada quase sempre nos velhos textos do AT.
AS HAFTAROTH. Começou, então, dizer diante deles: porque hoje tem-se cumprido a escrita esta em vossos ouvidos (21).
A palavra Haftaroth é o plural de Haftará palavra que significa conclusão. Era um trecho dos Neviim (profetas) que era lido em voz alta na sinagoga, após a leitura da Torá (Lei) ou melhor da Parashá (trecho da Lei lido no dia) com o qual finalizava praticamente o serviço matutino (Shaharit) do sábado. Houve épocas na história, em que a leitura da Lei foi proibida. Portanto os judeus liam trechos dos profetas que não estavam proibidos pelas autoridades pagãs que os dominavam, especialmente na época de Antíoco Epífanes, e cada semana liam um trecho, supostamente semelhante ao da Torá proibida, pois o trecho da Haftará trata geralmente do assunto similar ao texto da Torá ao qual corresponde. A referência mais antiga com respeito à leitura da Haftará está em At. 13,15 em que Paulo se levanta para comentar a leitura da Lei e dos Profetas. A leitura era, melhor dizendo, uma recitação ou canto de tom monótono (cantinela espanhola ou cantillation inglesa) como costumam fazer os judeus hoje em dia. Tinham sinais de entonação sobre as letras para dar maior ênfase a determinadas palavras do parágrafo. Estes sinais eram osteamim, que como sinais musicais, eram conhecidos com o nome de nigun[melodia]. Os judeus não consideram essa leitura melodiosa como canto verdadeiro e por isso falam de recitar ou ler. Nesta ocasião, como explicamos em anterior artigo, a Haftará lida era o texto de Isaías 61,1-2 com algumas diferenças entre os textos grego e massorético (os que fixaram o texto hebraico hoje definitivo, da palavra Massorá = tradição). O importante é que Jesus não comenta os pobres como nas bem-aventuranças (Lc. 6,20), mas insiste no tempo de salvação, aqui e agora. Após, pois, a leitura do trecho, Jesus entregou o rolo ao assistente (Hyperetes ou seja servidor) e sentou-se. Sabemos pela tradição que nesta época os livros da Torá eram rolos de pergaminho, enrolados em duas varas curtas que terminavam em sendas romãs, uma coroa, um escudo de prata com os símbolos das 12 tribos, semelhante ao pendurado no peito do sumo sacerdote, embora este Tass ouTzit não esteja em uso pelos sefardies (judeus de origem hispana). O pergaminho tinha um forro de seda ou veludo, que estava bordado nas bordas. Após a leitura, o servidor enrolava o rolo da direita até não ficar espaço entre os dois rolos, e amarrava o conjunto com uma faixa. Entregue o rolo, Jesus sentou-se. A palavra sagrada era escutada de pé. A palavra e os comentários dos sábios eram escutados sentados. Daí que Jesus, uma vez terminada a leitura, se assentasse. A cadeira, chamada cathedra (cátedra) tem um significado ritual e dogmático muito sugestivo (Mt. 23,2). Como exemplo, a Igreja celebra a festa da cátedra de são Pedro como símbolo de sua infalibilidade em matéria de fé e costumes. Na basílica do Vaticano temos essa cátedra representada como trono iluminado através da luz filtrada do Espírito Santo, figurado em forma de pomba por Bernini, no que é chamada a glória do dito arquiteto. As atuais leituras da Haftará lembram as épocas em que a liberdade religiosa foi restringida. Também recordam aos judeus os outros livros santos da Tanaká, bíblia total formada pelas iniciais de Torá (lei),Neviim (profetas) e Ketuvim (hagiógrafos), fora da Lei, que são importantes para a religião e cultura hebreias.

A ADMIRAÇÃO. E todos testemunhavam d´Ele e admiravam-se sobre as palavras de elegância emergentes de sua boca e diziam: não é este o filho de José? (22).
São três as afirmações deste versículo: o testemunho favorável dos ouvintes, a admiração que suas palavras sábias suscitavam neles e a incredulidade sobre sua origem conhecida, que não prognosticava semelhantes maravilhas. O testemunho está unido a admiração. Ouviam coisas novas e bem elaboradas e aparentemente lógicas, que outros mestres da Lei nem tinham conhecimento e nem sabiam expressar. Falava com autoridade como afirma Mateus 7,29. Temos traduzido por elegância a palavra graça que significa favor, atrativo, encanto e quando se fala de uma homilia ou um discurso, podemos pensar em beleza, elegância, excelência de estilo. Era só o estilo, a maneira elegante de dizer as coisas ou era a base de suas afirmações que cativavam seus conterrâneos? Possivelmente as duas coisas. Por essa forma de falar, suscitou-se uma certa incredulidade entre os ouvintes. De onde Lhe vem esta sabedoria, se perguntavam os compatriotas (Mt. 13,54), que Marcos confirma em 6,2. Era a sabedoria ou conhecimento superior que todos admiravam. Uma interpretação nova das Escrituras nunca escutada dos lábios dos mestres conhecidos da Lei. Quem era Ele, um filho de um artesão sem estudos, sem importância ou relevância entre os concidadãos? Como um homem, de quem se conhecia um pai ignorante quanto à ciência da Lei, e que era um filho que nada tinha feito para merecer qualquer mestrado na mesma, se atrevia a proclamar semelhante autoridade? Porque Jesus interpreta a Escritura de modo a se declarar Ele mesmo profeta. Por isso diz que os dois exemplos, o de Elias e o de Eliseu provam que Ele tampouco realizaria milagres em sua terra,porque ninguém é profeta na sua pátria (24). A asseveração está confirmada por Mateus (13,57) e Marcos (6,4) onde, em outros termos, lemos que um profeta é desestimado, não tem crédito em sua pátria, no ambiente de sua casa e de sua família.

A RESPOSTA DE JESUS. Então lhes disse: "Certamente me direis esta parábola: médico cura a ti mesmo, quantas (coisas) ouvimos feitas em Cafarnaum, faz também aqui em tua pátria" (23)
MÉDICO: Jesus cita um provérbio. Mashal é o título dado ao mesmo, que Lucas traduz por parábola: Médico cura-te a ti mesmo. Os judeus tinham com o mesmo significado, as máximas de “médico cura tua coxeadura” ou “vai curar a ti mesmo”. O parágrafo seguinte nos aclara que Lucas não escreve uma história cronologicamente ordenada. Interessam-lhe os fatos e as verdades teológicas. Sem ter narrado cura ou milagre algum, os habitantes de Nazaré esperam que Ele faça entre eles o que já tinha feito em Cafarnaum (23). É ilógico porque tem como base o que não foi notificado de antemão. Segundo Lucas, só temos um ensino nas sinagogas sem milagres ou poderes. E imediatamente narra a sua presença em Nazaré, onde parece que Lhe exigem algum sinal ou portento. Mateus dirá que Jesus não conseguiu fazer muitos poderes por causa da incredulidade deles. Os poderes que conseguiu fazer eram algumas curas de doentes, impondo sobre eles as mãos (Mc. 6,5).

AMÉM. Disse, pois: Amém vos digo que nenhum profeta é aceito na sua pátria (24). Pois em verdade vos digo: Muitas viúvas havia nos dias de Elias em Israel, quando fechou-se o céu durante três anos e seis meses de modo que houve uma grande fome sobre toda a terra (25)
AMÉM: Lucas emprega poucas vezes o Amém (7) em seu evangelho e sempre com afirmações que indicam uma autoridade como a que a tradição atribuía a Moisés após sua visão no Sinai (amém lego umim, amen dico vobis, em verdade vos digo). O Amém aparece 31 vezes em Mateus, 15 em Marcos e 25 em João. No AT aparece 13 vezes e as 3 letras hebraicas que o compõem significam: El Melek Neeman [= Deus Rei Fiel]. Mas sempre se usava como resposta a uma maldição, como uma afirmação do que foi dito ser verdadeiro, ou como epílogo a uma bênção que se deseja se transforme em realidade. Uma única vez o Amém se identifica com o próprio Deus o Deus Amém em Is. 65,16. E Jesus toma esta atitude ao iniciar determinadas afirmações. O próprio Lucas nos dá a tradução desta palavra no versículo 25: sobre a verdade eu vos digo. Nela afirma seu atributo como profeta falando em nome de Deus ou como o Deus Encarnado que Ele era. Os rabis, como juramento de suas afirmações, declaravam Beemet (com fidelidade), que poderíamos traduzir logicamente como fidelidade à lei e costumes. Como vemos, Jesus não se atém aos antigos, mas à verdade, da qual Ele é representante supremo: Sou a Verdade (Jo 14,6). Precisamente por essa última razão, o amém não foi usado como afirmação diante do verbo dizer ou afirmar por nenhum dos apóstolos ou profetas da primitiva Igreja. Esta afirmação de Jesus é corroborada pelos dois exemplos de duas grandes figuras do javismo em tempos difíceis como eram os de Acab e Jezrael no reino do norte, Israel. Jesus, ao apresentar os dois exemplos, indiretamente se apresenta como um profeta que iguala em portentos a Elias, o maior dos profetas do AT e ao seu sucessor Eliseu que recolheu o manto e com ele o espírito de Elias e assim obteve o poder de realizar milagres (2 Rs. 2,9-13). Em 1Rs. 17,14 Elias afirma:Assim diz Senhor Deus de Israel. A essa afirmação corresponde o amém de Jesus. É, pois, uma afirmação muito grave que foi, sem dúvida, a causa de querer matá-lo. Não somente se iguala com os dois grandes profetas, mas usa termos que nenhum mortal poderia usar: Amém no lugar de beemet. Jesus é fiel unicamente a si mesmo como a Escritura afirma de Javé. Por isso, a ira dos compatriotas e seu desejo de apedrejá-Lo.
FECHOU-SE O CÉU: na realidade os três anos e meio é uma expressão tirada do castigo de Antíoco Epífanes que perseguiu os judeus segundo esse período, mas que em 1Rs. 18,1 só dura três anos. O período de castigo era pois, um período aproximado, sem precisão matemática. O significado passivo de se fechar o céu indica uma atuação direta de Javé, e com isso a fome chegou a toda a terra. A palavra terra não tem o sentido atual universal do planeta, mas o restrito de eretz Israel ou terra de Israel. A fome é, segundo a Escritura, um castigo divino de 3 anos pelo pecado de Davi (2Sm. 24,13). Também Tiago (5,17) recolhe essa tradição que parece própria dos livros apocalípticos como Dn. 7,25 (um tempo, dois tempos e metade de um tempo). Não existe outra fonte para saber a duração do castigo por causa da impiedade de Acab, rei de Israel.

ELIAS. Porém a nenhuma delas foi enviado Elias senão a Sarepta de Sidônia, a uma mulher viúva (26).
O verbo em passiva, foi enviado, indica que Elias atuou por mandato divino. Logo o exemplo tem uma razão transcendente que o torna um magnífico paradigma para nele fundar o argumento, como Jesus disse. A viúva não pertencia ao povo de Israel e era esse o motivo em que Jesus se apóia para rebater o raciocínio de seus compatriotas. Ele não estava ai para favorecer seus concidadãos, mas para cumprir a vontade de Deus.

ELISEU. E muitos leprosos havia sob Eliseu, o profeta, em Israel; e nenhum deles foi limpo, senão Neeman (sic) o sírio (27).
sob indica não jurisdição, mas tempo no qual viviam tanto Eliseu como os numerosos leprosos da época. O acento não está tanto no número, mas na procedência dos enfermos e na unicidade da cura. A lepra, na Escritura, provavelmente era uma nominação comum para diversas doenças de pele como psoríase, tinha, lúpus, carcinomas, ceratoses, eczemas, pênfigos, etc. e a lepra propriamente dita, devida ao micobacterium leprae ou doença de Hansen. As doenças de pele eram comuns na época de Eliseu. E entre tantos, só um sírio, Naamã, um estranho, foi o escolhido para ser curado. À parte a nacionalidade do curado, está a singeleza de seu caso. Não todos são curados, nem a maioria, mas em casos pontuais e extraordinários e isso serve para os dias de hoje.

A REAÇÃO. Então encheram-se todos de ira na sinagoga ouvindo essas coisas (28).
Havia dois motivos:
1) O orgulho inusitado de Jesus que se intitulava mais do que profeta, comparando-se aos maiores vultos proféticos de Israel e
2) A negativa de realizar qualquer prodígio em sua cidade, que segundo os costumes da época devia ser privilegiada com respeito às outras comunidades. Além do orgulho pessoal havia um desprezo para com seus conterrâneos que resultava intolerável. Jesus afirma que conseguiu melhores resultados em qualquer outro lugar, do que conseguiria na sua aldeia. Indiretamente, Jesus os compara com os perseguidores dos antigos profetas como Acab e Jezabel, além de afirmar que a nenhuma viúva entre eles (os de sua aldeia) foi enviado e que nenhum deles seria curado. Marcos conclui esta visita de modo diferente: é Jesus quem fica admirado pela falta de confiança do seu povo n´Ele e por isso não pode curar a ninguém à exceção de uns poucos doentes, que para Mateus eram de pouca importância como indica a palavra arrostós.Por isso, muitos afirmam que houve duas visitas, uma delas com resultados insignificantes. A outra, com revolta e expulsão violenta. Ver logo o que consideramos a verdadeira razão para matá-lo.

INTENTO DE DESPENHÁ-LO. E tendo se levantado, o arrojaram fora da cidade e conduziram até o alto do monte sobre o qual a sua cidade estava edificada para despenhá-lo (29).
Como a um malfeitor que a lei mandava ser executado fora da cidade, expulsam Jesus e intentam despenhá-lo do cume do morro que dominava a vila. Embora não fosse uma morte tradicional temos o caso dos dez mil edomitas que foram assim mortos pelos judeus em tempo de Amasias, rei de Judá (2Cr. 25,13). A pergunta é: por que os ouvintes da sinagoga de Nazaré intentam matar Jesus? Só a raiva não é motivo suficiente. A resposta é, sem dúvida, o trecho de Dt. 18,20-22: O profeta que tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que não lhe mandei … esse profeta deve morrer. E se perguntares: “Como posso distinguir a palavra que não vem do Senhor?” Nisto terás um sinal: se não acontecer o que aquele profeta disse em nome do Senhor, o Senhor não disse tal coisa, mas foi o profeta que o inventou por presunção de seu espírito, e por isso não o temerás. Ao usar o Amém, Jesus se colocava como voz de Javé e ao dizer que se cumpriam as palavras de Isaías, Ele assumia uma profecia do antigo profeta como própria. Ao se negar a fazer um milagre, Ele ficava como falsa testemunha diante dos seus ouvintes, e a lei do Deuteronômio recaia sobre ele. Devia se cumprir o que a Lei ordenava. Seria um linchamento injusto também do ponto de vista da lei, pois não se podia julgar nem condenar em dia de sábado. Êx. 35,3 ao ordenar que não devia ser aceso fogo nesse dia, impedia que o fogo fosse aplicado como pena de morte e daí deduziam que outro castigo da mesma natureza era também proibido pela lei. O problema é que a atual Nazaré não tem semelhante montanha cortada em precipício e que este só se pode encontrar a 3 km. de distância, que ultrapassa em muito o caminho do sábado. Uma solução é que existissem dois tempos diferentes entre o tumulto da sinagoga e a solução de despenhar Jesus, que teria sucedido em tempo diferente, mas que a cronologia de Lucas, totalmente imperfeita como notamos no início, reuniu numa única jornada. Finalmente, os compatriotas decidiram que Jesus não estava bem da cabeça ou enlouqueceu (Mc. 3,21), fato que os inimigos atribuíam ao demônio (Jo 8,48). Tanto Mateus como Marcos calam sobre o mal resultado desta visita de Jesus a Nazaré e unicamente afirmam que não pode realizar ali grandes milagres fora  algumas curas sem importância. Isso realça a vida oculta de Jesus escondida no trabalho de um artesão.

FINAL. Porém, Ele, tendo passado por meio deles, prosseguia (seu caminho) (30).
Assim, como por milagre, Jesus se despede definitivamente de sua cidade e optará como própria a casa de Pedro em Cafarnaum.
PISTAS
1) Lucas enfoca, de modo global, a missão de Jesus como um fracasso a partir da perspectiva de seus conterrâneos mais imediatos. E assim repetir-se-ia em termos mais abrangentes ao contemplá-la do ponto de vista da nação judaica. O episódio de Nazaré é, pois, paradigmático. Sua pátria não é a pequena Nazaré, mas toda a Palestina. Esse seu fracasso dá-se também nos que esperam um Jesus pregador/milagreiro, para satisfazer deficiências corporais ou carências materiais. E há tantas Igrejas que nisso colocam o fundamental do evangelho! Não podemos esquecer, porém, que a proclamação fundamental do evangelho é a pessoa de Cristo.
2) O mundo moderno, dirigido fundamentalmente por slogans publicitários, admite Jesus como figura secundária, relegado por vultos de primeira categoria  como futebolistas, atores e cantores, que ocupam o ranking superior de sua escolha. Ou a história nada conta de autêntico e verdadeiro ou ela está mal contada e a culpa é nossa, ministros e testemunhas de Sua palavra. Não sabemos como vender nossa melhor mercadoria, porque muitas vezes usamos o mashal para explicar fenômenos históricos com o qual a vida de Jesus se transforma num conjunto de parábolas sem base real.
3) As palavras de Isaías comentadas por Jesus iniciaram a famosa opção preferencial pelos pobres, que o papa mudou em amor preferencial pelos mesmos. Comentava um sacerdote: não é só mudança de palavras mais suaves, mas mudança total de visão: na primeira opção o trabalho evangélico se torna humano e individual e a teologia se transforma em antropologia, com o que isso acarreta de incerteza, reducionismo ideológico. Quando é o amor com o qual optamos pelos pobres, nos referimos principalmente ao amor de Deus, como fundamento e jamais equivocaremos o caminho porque é assim que podemos traduzir (o wai hebraico pode ter também o significado deporque) o anúncio angélico: glória a Deus no mais alto dos céus porque oferece paz aos homens que ele ama.
4) O versículo 22 indica claramente que o filho do Panthera – apelido da família segundo escritos judaicos e antigos documentos cristãos – jamais deixou sua terra para exibir uma ciência e sabedoria de origem tibetana, como afirma o que hoje podemos chamar de lenda de pura ficção.
5) O uso do amém no lugar do beemet indica a autoridade de Jesus a respeito da sabedoria dos mestres da lei que eram unicamente comentaristas de uma tradição humana. Jesus se revela como profeta e fala em nome de Deus, usando o Amém no lugar de Assim diz o Senhor, dos antigos profetas.
padre Ignácio de Nicolás Rodríguez
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Acabamos de escutar que “nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra”. E por quê? Eu acho que não se pode responder a essa pergunta se antes não se sabe o que é um profeta. Como você imagina o imagina? Às vezes se pensa que o profeta é um ser absorto em contemplação, um tanto distraído, num estado de exaltação mística que o faz praticamente alienado da terra; outras vezes, como um sujeito estranho, com umas roupas estragadas, barbas sem fazer, uma pessoa que vive denunciando e gritando contra tudo aquilo que é oposto à causa de Deus; a terceira imagem que me vem à mente é a de um homem que parece que tem uma bola de cristal para adivinhar o futuro, profeta acaba sendo alguém que sabe o futuro. Pura imaginação! Eu nunca vi nenhuma dessas três imagens na vida real.
Há algum tempo, você e eu refletimos o evangelho juntos e talvez você tenha observado que um dos nossos objetivos, talvez o principal, é encontrar nas páginas do evangelho o próprio Jesus Cristo que vem ao nosso encontro no nosso cotidiano. Trata-se de buscar força, exemplo e luz para a vida do cristão normal. No evangelho, Cristo nos encontra e nós o encontramos. Jesus participa do nosso dia-a-dia, no qual não acontece praticamente nada espetacular. Dentro desse realismo evangélico, profeta é qualquer cristão: esse homem ou essa mulher, pai ou mãe de família, jovem ou ancião, criança ou adolescente, que se veste normal, com amigos normais, em pleno uso de suas faculdades mentais e que, com a sua vida e com a sua palavra, anunciam Jesus Cristo no mundo de hoje no próprio ambiente. Profeta é você, profeta sou eu.
O profeta é uma pessoa que foi introduzida no Mistério de Cristo através do Batismo, que “viu” – com os olhos da fé – o Pai e o Filho e o Espírito Santo, e entendeu o plano de Deus para a humanidade e para cada ser humano. Depois dessa proximidade com Deus, o cristão-profeta se dedica a anunciá-lo convencido de que seguir o desígnio de Deus é o que realmente realiza o ser humano em quanto tal. Essa visão sobrenatural do profeta pode produzir, e de fato produz, verdadeiros choques na cultura atual cuja visão materialista, hedonista e naturalista se vê denunciada. No entanto, a denúncia é uma conseqüência do anúncio. Eu acho que não deveríamos descrever como tarefa principal do profeta a denúncia, mas o anúncio. Nós somos anunciadores e edificadores. O cristão não é um desmancha-prazer, um destruidor de coisas boas, um amargado com vontade amargar a vida dos outros. Se um filho de Deus chega a destruir algo é simplesmente como conseqüência do anúncio de edificação. Como os fundamentos nem sempre estão prontos para receber o evangelho, eles caem, mas imediatamente se construirá e se fará um edifício muito mais forte e belo que o anteriormente edificado.
Neste sentido, entende-se a frase do Senhor quando diz que o profeta não é aceito na sua própria terra e, no entanto, Jesus não diz que isso tenha que ser sempre assim. O cristão, onde quer que esteja deve procurar conquistar todos para Cristo com o seu humanismo e o anúncio do Evangelho. E se o profeta e sua mensagem não forem aceitos? Pelo menos fez a sua parte. Aplicar-se-á a frase do Senhor de que não é aceito, mas não se dedicará a sentir-se vítima dos demais e a reclamar, simplesmente sacudirá a poeira dos seus pés contra aqueles que não querem receber o seu anúncio e se dedicará a outros. Além do mais, com paz, com serenidade e com um sorriso nos lábios, deixará o caminho aberto caso queiram voltar a buscar a verdade de Deus junto a ele, profeta de Cristo.
Uma última consideração: um profeta de Deus diz sempre a verdade. Procurará dizê-la sempre com graça humana e sobrenatural, mas a dirá! Uma coisa é a simpatia para dizer as coisas, outra é enganar. Desses últimos profetas estamos fartos: eles deveriam falar em nome de Deus e não falam, leigos que tem vergonha de dizer que são católicos, sacerdotes que não tem coragem de falar que utilizar anticoncepcional é pecado, jornalistas que disfarçam a verdade com meias mentiras. Não! Assim não se é profeta! Não podemos ser como cães que não ladram.
padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa
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Missão do profeta
O Evangelho do IV domingo comum (Lc. 4,21-30) mostra como Jesus é rejeitado na própria terra. Após sua pregação na sinagoga de Nazaré, “todos testemunhavam a seu respeito, e espantavam-se das palavras cheias de graça que saíam de sua boca. E diziam: “Não é o filho de José?” (Lc. 4,22).
Pressentindo os protestos, Jesus responde: “Nenhum profeta é bem recebido na sua terra” (Lc. 4,24). Mas, nem por isso muda de atitude. Pelo contrário, procura demonstrar-lhes que o homem não pode ditar leis a Deus e que Deus tem a liberdade de distribuir os seus dons a quem quer. Recorda o caso da viúva da Sarepta e o do estrangeiro Naaman, único leproso curado por Eliseu. Jesus quer fazer compreender aos seus contemporâneos que veio trazer a salvação, não a uma cidade ou a um povo concreto, mas a todos os homens, e que a graça divina não se vincula a uma pátria, a uma raça, ou a méritos pessoais, mas é totalmente gratuita. A oposição dos nazarenos torna-se violenta. Cegos pela pequenez de suas mentes e magoados por não conseguirem o que pretendiam, “lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte, a fim de o precipitar dali.” (Lc. 4,29).
Tal é a sorte que o mundo guarda para aqueles que, como Cristo, têm por missão o anúncio de verdade. O verdadeiro profeta deve contar com a rejeição e a perseguição. O profeta incomoda porque exige mudança de atitude, exige conversão. Por isso, normalmente é perseguido. Como vimos em Lc. 4,29, Jesus foi expulso e ameaçado de morte. A missão  do profeta é passar, é testemunhar, seja qual for o resultado. Sua fortaleza é Deus. Confirma-o o episódio bíblico, a vocação de Jeremias, que tão bem se relaciona com o Evangelho de Lc. 4,21–30).
Na primeira leitura (Jr. 1,4–5.17–19) a escolha de Jeremias (sua vocação) como profeta, antes de nascer, mas, ao tomar conhecimento, por revelação divina, quando jovem, desta eleição, treme e, pressentindo futuras contrariedades, quer recusar. Mas Deus anima-o: “Não temas porque estarei contigo para te livrar” (Jr. 1,8). O homem escolhido por Deus, para ser porta-voz da Sua palavra, pode contar com a Graça de Deus que se lhe antecipa e o acompanhará em todas as situações. Não lhe faltarão contrariedades, perigos e riscos, tal como não faltaram aos profetas e ao próprio Jesus. Apesar disso, Deus também o anima, tal como aconteceu a Jeremias: “Eles combaterão contra ti, mas não te vencerão, pois Eu estarei contigo para te proteger” (Jr. 1,19).
O melhor caminho para profetizar, ou seja testemunhar o Bem, revelar o próprio Deus presente e atuante no mundo, apontar para Deus, o sumo Bem, é, sem dúvida, a caridade, exaltada por são Paulo na 2ª leitura de hoje (1Cor. 12,31 – 13,13). Pela prática da caridade manifesta-se a presença de Deus no cristão. A caridade é  expressão da bondade, reflexo do próprio Deus.
O Espírito Santo nos fala de umas revelações entre os homens completamente desconhecidas do mundo pagão, pois têm um fundamento totalmente novo. “Todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes, (Mt. 25,40). Com a ajuda da Graça, o cristão descobre Deus no seu próximo; sabe que todos somos filhos do mesmo Pai e irmãos de Jesus Cristo.
A virtude sobrenatural da caridade não é um mero humanitarismo. “O nosso amor não se confunde com atitude sentimental, nem com a simples camaradagem, nem com o  propósito pouco claro de ajudar os outros para  provarmos a nós mesmos que somos superiores . É conviver com o próximo, venerar (…) a imagem de Deus que há em cada homem, procurando que também ele a contemple, para que saiba dirigir-se a Cristo” (são Josemaría Escrivã - Amigos de Deus - nº. 230).
Sem a caridade, a vida ficaria vazia… A falta de caridade embota a inteligência para o conhecimento de Deus e da dignidade do homem. A virtude da esperança também se torna estéril sem a caridade, “pois é impossível alcançar aquilo que não se ama” (santo Agostinho).
Recorramos à Virgem Maria para que Ela nos ensine a relacionar-nos com os outros e a amá-los, pois é Mestra da caridade. A caridade será distintivo pelo qual se reconhecerá que somos discípulos de Cristo (Jo. 13,35).
mons. José Maria Pereira

O texto deste domingo é a continuação do domingo passado, como nos recorda o v. 21: «Hoje cumpriu-se esta Escritura aos vossos ouvidos». Hoje inicia o tempo da salvação: o acento é posto na Palavra, uma palavra acontecimento (cf. Act 10,36-37); a mesma palavra que também para os leitores de Lucas, e para todas as gerações cristãs, torna presente o Hoje inaugurado por Jesus em Nazaré. Tal anúncio torna-se, pois, importante. O Hoje da salvação chegou porque as Escrituras se cumprem em Jesus.
A primeira reação não é de hostilidade mas de incompreensão. Os conterrâneos de Jesus não conseguem ver o nexo entre as «palavras de graça» e a origem de Jesus conhecida por todos: «Não é ele o filho de José?». A pergunta esconde uma ambiguidade que Jesus, logo a seguir, irá desmascarar. É como se dissessem: «Não é um dos nossos? Não temos nós direitos sobre ele?». Os nazarenos querem apoderar-se de Jesus para usá-lo em seu proveito. Repete-se, substancialmente, a primeira tentação do deserto (4,3).
Assim se compreende a reação dura de Jesus que começa por citar o provérbio bem conhecido: «Médico, cura-te a ti mesmo!». A escolha do dito popular contém um anúncio da tentação presente nas palavras do malfeitor no Calvário: «Não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!». Jesus reage contra a pretensão dos nazarenos de monopolizar a sua atividade, limitando-a à sua terra natal. Jesus deve ir mais longe.
«Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria». Jesus, como profeta messiânico, insere-se no destino dos profetas que sempre foram rejeitados pelo povo de Israel. O tempo da salvação, anunciado e oferecido, não pode tornar-se realidade para aqueles que o recusam: assim será para Israel, que se fecha ao cumprimento das promessas.
As figuras de Elias e Eliseu, célebres representantes do profetismo, conferem ao texto um caráter típico e exemplar. Elias quase nunca foi acolhido pelo seu povo e grande parte da sua atividade desenvolveu-se fora dos confins de Israel, tendo socorrido uma viúva fenícia. Eliseu, que lhe sucede, cura apenas um leproso que era sírio.
Como estrangeiros, a viúva e o leproso eram considerados separados de Israel. O desígnio da salvação manifestado pela Escritura é claro: a boa nova é destinada a todos sem exceção («Toda a carne verá a salvação de Deus»: 3,6). A história repete-se e o profeta, que não é escutado entre os seus, vai oferecer a salvação aos gentios. Para Lucas, a verdade desta cena cumpre-se de modo total na missão entre os gentios narrada no livro dos Atos.
A parte final do texto sublinha de novo a reação de todos. Levantam-se com a intenção de matar Jesus. É o conflito já anunciado por Simeão: «Este menino foi colocado para a queda e o ressurgimento de muitos em Israel, e como sinal de contradição». É a sorte dos profetas (cf. 13,33). Tal como no momento da paixão, Jesus é levado para fora da cidade, mas passa pelo meio deles e «seguiu o seu caminho». Não se trata duma simples fuga ou dum desaparecimento milagroso, mas a apresentação do agir de Jesus: Jesus em caminhada desde Nazaré, sua terra natal, até Cafarnaum, por todo o país dos judeus (4,43ss), até Jerusalém (9,51) o centro de Israel. Este esquema corresponde, de modo contrário, à visão dos Atos: uma igreja missionária, em viagem, desde Jerusalém à Samaria, até aos confins da terra, cujo centro é Roma.
padre Franclim Pacheco
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O profeta não é bem recebido em sua casa
Na sinagoga de sua cidadezinha, Jesus havia acabado de ler no livro do Profeta Isaias: O Espírito do Senhor me ungiu para anunciar a boa notícia aos pobres (Lucas 4,16-19). Sentado, observado por todos com atenção, ele proclama: Hoje se cumpriu aos vossos olhos essa passagem da Escritura (Lucas 4,21). Suas palavras despertam admiração e respeito. Mas ao mesmo tempo, escândalo: Não é este o filho de José? (Lucas 4,22).
Qual a causa de tanto espanto? (Lc. 4,22-24)
Jesus havia afirmado que o Espírito estava sobre ele. Logo sobre ele, uma pessoa simples ali da aldeia, o filho de José, que todo mundo conhecia! Ele não era sequer sacerdote do Templo! Com que ousadia afirmava ter recebido o Espírito? Por trás destas perguntas, ainda nos dias de hoje, está outra indagação: será mesmo verdade que a salvação vem dos pequeninos?
Mas não era só isso! Sob ação do mesmo Espírito, ele havia proclamado o Ano Jubileu, ano de graça do Senhor, ano do perdão das dívidas (Lucas 4,19), como lemos em Deuteronômio 15,1-18 e em Levítico 25,8-55. De muitas leis, o judaísmo não se esquecia, mas esta era melhor não lembrar: aceitar o Ano Jubileu significaria parar de acumular, dar descanso à terra, perdoar de dívidas contraídas pelos mais pobres, buscar a igualdade... Melhor tapar os ouvidos.
Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria, conclui Jesus (Lucas 4,24). Com essa frase, ele mesmo dá o critério da autenticidade de seu ministério: a rejeição. Na história de seu povo, verdadeiros profetas e profetizas eram rejeitados (cf. Jeremias 26,11; Amós 7,10-13).
Os de casa rejeitam, quem é estrangeiro acolhe (Lc. 4,25-27)
Jesus recorre à vida de seu povo, a histórias bem conhecidas na Bíblia para ajudar a comunidade a superar o escândalo.
A primeira é a da Viúva de Serepta, cujo nome, infelizmente, não foi preservado. Havia muitas viúvas no meio do povo judeu e Elias foi enviado a uma viúva estrangeira em Serepta, na Sidônia. A história está em 1Reis 17 e é uma passagem muito bonita: Elias chega faminto, é acolhido por uma mulher e uma criança também famintos. Há relação de confiança e de acolhida, e as vidas são salvas. Não só a da viúva e de seu filho, mas também a do próprio Elias. A segunda história tem a mesma lógica: havia muitos leprosos a serem curados em Israel, mas Eliseu cura novamente um estrangeiro, o sírio Namã (2Reis 5).
Se os de dentro do seu povo não o aceitam, Jesus deixa claro que encontrará fé e adesão entre os de fora. E o questionamento se nos faz automático: estamos nós, pessoas que nos julgamos "de dentro", aceitando de verdade a proposta? Que testemunho a sociedade cristã ocidental vem dando à humanidade? Ou continuamos aceitando a perseguição a nossos profetas e profetizas?
Passou no meio deles e prosseguiu o caminho (Lucas 4,28-30)
O Evangelho de Lucas foi escrito entre os anos 80 e 90 do primeiro século do cristianismo. E recolheu, como todos os evangelhos, histórias contadas de boca em boca, a tradição oral das comunidades. A escolha das duas histórias (a de uma viúva e de um leproso, ambos estrangeiros) mostra com clareza a preocupação da comunidade de Lucas em mostrar que a abertura ao diferente, aos estrangeiros e estrangeiras, já vinha de Jesus. Um bom "puxão de orelhas" para nossas comunidades ainda permeadas de tanto preconceito, de resistência ao ecumenismo e de tão pouco diálogo interreligioso!
E o que fazer com gente de nossas comunidades que finge não enxergar e que não quer abrir a cabeça e o coração? Não adianta o confronto direto, é melhor passar no meio deles e seguir o caminho (Lucas 4,30). É preciso encontrar estratégias de resistência e de sobrevivência para que o projeto não seja lançado no precipício. Com a ternura de sempre, com a força e a graça do Espírito!
Edmilson Schinelo
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Primeira leitura: Jeremias 1,4 - 5.17 - 19
Vocação de Jeremias
Jeremias recebeu o chamado de Deus no ano 627 a.C., quando Josias, rei piedoso e fiel, reinava em Judá. Ele prometeu uma reforma religiosa para o povo, a fim de levá-lo à plena fidelidade à Aliança, e terminou em 587. No tempo de Josias, o profeta exerceu seu ministério em paz, mas com a morte do rei enfrentou muitas provações e contrariedades, chegando a lamentar-se com Deus por tê-lo chamado à vocação de profeta.
Como o profeta superou este conflito? Com a confiança em Deus, e Deus mostrando-se aliado a ele. Jeremias teve consciência de que Deus o chamou para uma missão e o investiu de uma missão altamente importante, como porta-voz do próprio Deus. Este chamado é gratuidade (desde o seio materno), é um sinal de amor, bondade, e precisa ser correspondido mesmo nas dificuldades.
O profeta é enviado contra os reis de Judá e seus ministros, para incomodar os que detêm o poder religioso e político, os que fazem da política um jogo de interesses próprios, para desestabilizar o poder político absolutizado.
Ele é enviado contra os sacerdotes, para com suas palavras desestabilizar o sacerdócio falso, o poder religioso. Ele mesmo era descendente da casta sacerdotal de Abiatar.
Ele é enviado contra os latifundiários, os donos do poder econômico que, à custa da exploração, apoderavam-se das terras, expulsando do campo os pequenos agricultores.
Estes três poderes moverão perseguição contra o profeta, mas a força de Deus estará com ele . Deus se mostra aliado de Jeremias. O mesmo aconteceu com Jesus, que foi processado pelos três poderes, mas saiu vitorioso.
Deus lhe fala que, “antes de plasmá-lo no seio materno”, ou seja, antes de modelá-lo, como o oleiro faz com o barro, Deus o conhecia e o havia consagrado “quadàsh”, ou seja, separado dentre todos os homens. Deus fez dele uma fortaleza, uma coluna de ferro, um muro de bronze. Todas essas imagens exprimem a invencibilidade do profeta.
Segunda leitura: 1 Coríntios 12,31 - 13,13
Hino à caridade
A comunidade de Corinto era rica em dons e carismas. Diante disto, Paulo faz uma consideração sobre o amor, que é o dom mais precioso. Incentiva os coríntios a buscarem os dons mais altos, pois o amor é a base de tudo, é a nota característica dos cristãos, e devia ser também dos coríntios, os quais sempre estavam competindo em carismas especiais.
Paulo sabe que o dom das línguas é o mais ambicionado pelos cristãos desta comunidade. Por isso, admoesta que, se ele não serve para a edificação da comunidade, é como um sino barulhento que irrita os ouvidos.
Em segundo lugar, Paulo fala dos dons da profecia, do conhecimento de todos os mistérios, da ciência, da fé extraordinária, que sem a solidariedade não são nada, visto que os coríntios ambicionavam os dons para se promoverem.
No versículo 3 Paulo vai além. Fala da distribuição de todos os bens, de entregar até o próprio corpo às chamas, mas se isso não for por amor de nada vale. Em seguida mostra quinze expressões para indicar o que é ser solidário. Amor é ação concreta em favor de alguém, dos mais necessitados, não é sentimento, mas atitude concreta. Esta solidariedade é marcada pelo equilíbrio na busca do bem comum (tudo desculpa, tudo crê, tudo espera...).
Cabe à comunidade escolher entre o transitório e o permanente, pois o amor jamais passará.
Evangelho: Lucas 4,21-30
Jesus é rejeitado pelos nazarenos
Este trecho descreve uma síntese de tudo o que aconteceu na vida e na ação de Jesus. Em Nazaré, ele leu o texto do Dêutero-Isaías na sinagoga, aplicando a si as palavras do profeta e fazendo entender que os tempos messiânicos haviam começado. Isto trazia dificuldade para os nazarenos, que pensavam num messianismo feito de milagres, sinais e triunfos. Isto tornou o povo incrédulo, excluindo o “hoje” salvífico de Deus.
Mas, quais os obstáculos que os nazarenos viram em Jesus?
01) A sua encarnação. “Não é este o filho do carpinteiro?" (v. 22). O povo esperava um Messias espetacular, capaz de fazer milagres. Era impossível que o Messias tivesse vindo de uma origem conhecida por todos. O provérbio “Médico, cura-te a ti mesmo” pode ter este significado: “Olhe para você mesmo, pobre, sem proteção social, incapaz de libertar os próprios familiares da opressão e da miséria”.
02) A busca de milagres: “Faça em Nazaré o que ouvimos dizer que você fez em Cafarnaum” (v. 23). Jesus se recusou a ser ídolo, a fazer sinais em benefício próprio, não quis o prestígio do poder.
Por isso, a situação de Jesus foi igual à dos profetas antigos rejeitados. Jesus lembra o episódio de Elias e Eliseu. A rejeição dos profetas serve de ocasião para que Deus se manifeste aos que estão fora de Israel e os salve.
Reflexão
Os conterrâneos de Jesus não o aceitaram. Isto nos faz pensar que não basta um certo relacionamento com Jesus para sermos salvos. Não basta nascermos numa família cristã.
Para muitos, Jesus é apenas um guarda-chuva protetor, é invocado apenas para pedir proteção. Como quando o tempo está bom o guarda-chuva é esquecido, não há necessidade dele, assim a fé se torna uma coisa chata, inútil, sem valor. Devemos perguntar-nos se não estamos contaminados com a mentalidade secular do nosso tempo, com o descartável. Se nossa fé não é só um resíduo, se o ser cristão representa algo importante.
Quem segue Jesus o segue com amor, como um profeta que se empenha no seguimento feito de amor, de doação...
Exprime o seu empenho na oração, no perdão e sobretudo na conversão, na luta contra o mal, o orgulho, a ambição, a sensualidade, o egoísmo etc.
Os nazarenos expulsaram Jesus da cidade porque ele tinha se proclamado Messias. Nós o expulsamos todas as vezes que preferimos outros deuses e não o reconhecemos como nosso Senhor.
Jesus, no discurso da sinagoga, declara-se ungido pelo Espírito Santo para a libertação do homem, o mesmo Espírito que falou pelos profetas do Antigo Testamento e atua na comunidade eclesial com dons e carismas. Este Espírito não é suficientemente conhecido e vivenciado pela maioria dos cristãos.
Paulo nos lembra o chamado “hino da caridade” e diz que a virtude da caridade não é um mero humanitarismo. Nosso amor não se confunde com a atitude sentimental, nem com a simples camaradagem, nem com o propósito de ajudar os outros para provar a nós mesmos que somos superiores. O amor do próximo é o mandamento novo, o distintivo do cristão. Nele a medida do nosso amor ao próximo é o próprio amor divino: “Como eu os amei”. O amor que Deus colocou em nossos corações é sobrenatural.
Sem a caridade tudo é vazio. A eloqüência mais sublime de todas as obras seria como o bater de um sino que dura um instante e desaparece. A falta de caridade embota a inteligência para o conhecimento de Deus e da dignidade do homem. Quem não ama não conhece a Deus.
Paulo aponta as qualidades que adornam a caridade: A caridade é paciente. A paciência é necessária para nos fazer aceitar com serenidade os possíveis defeitos, as susceptibilidades ou o mau humor das pessoas. É uma virtude que nos leva a esperar o momento apropriado para corrigir, a dar uma resposta amável. É uma grande virtude para a convivência. Por meio dela imitamos Deus, que é paciente com nossos erros.
A caridade é benigna, ou seja, disposta a acolher a todos com benevolência. A benignidade só se enraíza num coração generoso.
A caridade não é invejosa, pois da inveja nascem inúmeros pecados contra a caridade: a murmuração, a satisfação com a adversidade do próximo e a tristeza diante de sua prosperidade. A inveja é, como diz são Tomas de Aquino, “a mãe do ódio”.
A caridade não é jactanciosa, não se ensoberbece. Sem humildade não pode haver amor. O orgulhoso não consegue olhar para além de sua pessoa, de suas qualidades, de seus talentos, e neste panorama mesquinho os outros nunca aparecem.
A caridade não é interesseira. Não pede nada para a própria pessoa, dá sem calcular o que pode receber de volta.
A caridade não guarda rancor, não conserva agravos pessoais, tudo desculpa. A caridade crê em tudo, tudo espera, tudo suporta, sem nenhuma exceção.
A caridade nunca termina. A fé será substituída pela visão beatífica, a esperança pela posse de Deus, mas a vida eterna será um ato ininterrupto de caridade.
A caridade nos insta continuamente a ser ativos no amor com uma palavra amável, evitando a murmuração, dirigindo uma palavra de alento, intercedendo junto a Deus por alguém, dando um bom conselho, sorrindo, ajudando a criar um clima mais descontraído e risonho na família, no trabalho... Quando crescemos na caridade, todas as virtudes se enriquecem e se tornam mais fortes. E nenhuma delas é virtude verdadeira se não estiver impregnada de caridade. “Você tem tanto de virtude quanto de amor, e não mais”.
padre José Antonio Bertolin, OSJ
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O profeta não repete o que todos deveriam estar cansados de ouvir. O profeta vê o que outros não veem, testemunha o que Deus vê e como Deus vê a realidade. Não fala em seu nome, e sim em nome de Deus – por isso é profeta. Mas o Mercado não admite contestação, não admite que se fuja do pensamento único. Não quer testemunho de outra verdade que não seja a sua. O profeta, além disso, está sempre em sua terra, qualquer lugar é sua pátria, porque a verdade de Deus não tem pátria.
Na tarde do dia 18 de março do ano passado, na Guatemala, o padre Lourenço Rosebaugh e mais quatro padres viajavam para uma reunião. Foram cercados por homens mascarados e armados que, em seguida, abriram fogo, matando o pe. Lourenço. Americano, nascido em 1935, entrou para a Congregação dos Oblatos de Maria Imaculada em 1955 e foi ordenado padre em 1963. Por ter, em protesto contra a Guerra do Vietnã, promovido a queima de documentos de alistamento militar, ficou preso por dois anos. Em 1975 veio para o Brasil e passou a viver com moradores de rua no Recife. Foi preso e torturado. Nosso regime militar não lhe deu um fim por pressão diplomática dos EUA, e só foi libertado por interferência direta da esposa do então presidente americano, Jimmy Carter. Doente, voltou aos Estados Unidos em 1980. Aí foi preso novamente por divulgar clandestinamente a última homilia de dom Oscar Romero. Mais tarde foi para El Salvador, a fim de viver entre os pobres. Teve de se afastar para um retiro e por problemas familiares. Em seguida voltou à América Latina, para a Guatemala, onde foi morto.
O profeta não é bem recebido em sua pátria e em lugar nenhum, porque qualquer lugar é pátria sua.
1º leitura: Jr. 1,4-5.17-19
O jovem Jeremias sente o chamado de Deus e as dificuldades da missão de profeta, mas também o apoio e a segurança que lhe vêm do mesmo Deus.
O texto selecionado para a leitura de hoje não inclui a manifestação de insegurança de quem se sentia jovem demais, a confirmação, o alcance de sua missão e dois símbolos da tarefa do profeta e do momento histórico em que vai agir. Ele deverá enfrentar sem medo as autoridades e anunciar o pensamento de Deus diante da iminente invasão do império babilônico (vv. 6-16).
O texto de hoje, nos primeiros versículos (4-5), lembra que desde sempre Javé queria Jeremias profeta; antes que nascesse, já o consagrava e o fazia seu profeta. Ninguém é profeta por acaso; o profeta é querido por Deus antes mesmo de sua existência.
Ele é consagrado, separado para a função, a qual é mais importante que a do sacerdote e a do rei. Tem autoridade para denunciar, em nome de Deus, tanto a má administração e as intrigas políticas como a falsidade do culto. E essa função não se restringe ao seu povo: será profeta para as nações. O profeta tem voz universal.
Na segunda parte do texto de hoje, Deus dá força ao profeta, que não deve deixar de dizer nada do que Deus lhe diz, nada do que percebe ser o pensamento de Deus. Não deve ter medo, sempre o pior conselheiro. Se a cidade de Jerusalém poderá ser invadida, suas muralhas demolidas e suas colunas derrubadas, o profeta será mais resistente, será muralha de bronze e coluna de ferro. Não fica sem perseguição, mas Deus estará com ele para defendê-lo.
2º leitura: 1Cor. 12,31-13,13
Depois de comentar o valor, o significado e as dificuldades dos dons carismáticos, Paulo fala agora do caminho sem defeitos e superior a todos.
Os capítulos 12, 13 e 14 da primeira carta aos Coríntios estão interligados pelo que tecnicamente se chama paralelismo quiástico ou cruzado, correspondendo-se assim: (12) A- Os dons carismáticos; (13) B- O caminho superior; e (14) A’- Os dons carismáticos. Seria como um sanduíche de pão com carne ou recheio: as duas fatias de pão seriam os capítulos 12 e 14, em que Paulo fala dos carismas; a carne ou recheio seria o capítulo l3, em que Paulo fala do caminho superior a tudo o mais. É o texto da 2ª leitura de hoje.
O caminho superior a tudo é o que se chama caridade ou amor. Nenhuma das duas palavras, contudo, satisfaz plenamente.
A língua grega tem a palavra filía, que significa a simples amizade, a palavra eros, que significa o amor de ordem sexual, e a palavra agape, que era pouco utilizada. Foi esta que Paulo escolheu para indicar o amor cristão, que não se identifica com a simples amizade nem traz a marca egoísta do desejo sexual.
O amor cristão é, acima de tudo, solidariedade, superação do sistema do império de dependência e clientelismo. Nós nos amamos, somos solidários, somos iguais, somos irmãos, e não dependentes uns dos outros.
Podemos notar como o texto de hoje faz alusões diretas ou indiretas aos dons tão valorizados no movimento carismático de Corinto. Assim, sem o amor, falar em línguas seria como um bronze que vibra ou címbalos (instrumentos semelhantes aos pratos de uma banda de música) barulhentos. Lembra o dito popular: “Lata vazia é que faz barulho”.
Até quando Paulo fala das características do amor cristão, a solidariedade, podemos perceber alusões indiretas aos perigos que ele via no movimento em Corinto: o amor não é isso, não é aquilo etc.
Mesmo entre as três virtudes principais, chamadas de teologais, a caridade ou amor tem a primazia. A fé termina quando nossos olhos se abrem para Deus definitivamente (lembrar que o espelho daquele tempo não era como o de hoje, mas apenas uma peça de bronze bem polido). A esperança termina quando alcançamos o esperado, maior do que aquilo que esperávamos. Só o amor permanece e chega à plenitude na eternidade.
Evangelho: Lc. 4,21-30
Jesus, na sua terra, fala com clareza do seu programa e da falta de fé dos conterrâneos. Querem matá-lo, mas, passando pelo meio deles, ele segue em frente.
Na leitura que fez na sinagoga, Jesus interrompeu o texto de Isaías antes da frase: “o dia da desforra do nosso Deus”. Essa frase se desenvolve no texto de Isaías, afirmando que as nações que tinham escravizado Israel viriam a ser suas escravas. Jesus omitiu tudo isso, e os ouvintes, familiarizados com os textos bíblicos, certamente perceberam. A salvação que ele hoje realiza é universal, não é nacional nem particularista.
A reação dos conterrâneos começa com admiração pelas palavras agradáveis que saíam da boca de Jesus. Acharam linda a fala de Jesus comentando o ano do agrado de Deus anunciado por Isaías.
Logo em seguida, vem o espanto: “Esse aí não é o filho de José?”. Lucas, que começou seu evangelho falando do nascimento virginal de Jesus e, depois, disse que ele “era considerado filho de José”, aqui não faz questão desse porém. Os conterrâneos continuam enganados quanto à verdadeira identidade de Jesus.
Jesus se antecipa e, antes que o questionem, retoma a fala, comparando Nazaré e Cafarnaum. Há aí uma incoerência: Lucas ainda não narrou a atuação de Jesus em Cafarnaum; como vai compará-la com o que acontece em Nazaré? Marcos e Mateus, por seu turno, situam a visita de Jesus a Nazaré depois de ele ter centralizado sua atividade em Cafarnaum. A incoerência não importa; Lucas quis situar a visita de Jesus a Nazaré no início da sua atividade missionária para fazer dessa visita um manifesto do programa de Jesus.
Cafarnaum era considerada uma cidade impura porque ali viviam muitos gentios; continuava, no entanto, sendo cidade israelita. Mas Jesus ainda vai além: fala de milagres feitos pelos famosos profetas Elias e Eliseu em favor de não israelitas. Ele também veio para os não israelitas.
Do espanto, os conterrâneos de Jesus passam à indignação. Entendem o significado universal da missão que Jesus se atribui e pretendem precipitá-lo do alto da colina, uma alternativa para o apedrejamento. “Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu seu caminho.”
PISTAS PARA REFLEXÃO
A fé costuma ser muito bem-aceita enquanto não toca na vida cômoda e nos interesses pessoais ou de grupo. Já dizia alguém: “O povo gosta de rezar porque rezar não lembra os pecados, e reunião lembra!”.
No trecho do evangelho de hoje os que querem matar Jesus não têm sucesso, pois “passando pelo meio deles, Jesus seguiu seu caminho”. Os que se consideravam donos de Jesus, bons conhecedores dele, quando o veem se mostrando aberto a todos, já não o aceitam e querem dar-lhe um fim.
Corremos o risco de nos considerar donos de Jesus e de sua mensagem. Somos capazes de dizer tudo o que se pode ou não se pode fazer em nome da fé em Jesus e na sua Igreja.
A preocupação muitas vezes é apenas manter e conservar as estruturas. Mas o profeta é livre desses condicionamentos: está ligado apenas a Deus, que o sustenta, e ao que Deus quer que ele diga.
O profeta é um eterno suspeito, um eterno perseguido. Quem prefere se dar muito bem com as estruturas, sentir-se confortável e tranquilo diante de tudo o que manda neste mundo, jamais será capaz de assumir a missão profética.
Os profetas estão em extinção; sua voz é calada e todas as portas se fecham para eles. Se Deus os chama, há os homens que os impedem de se manifestar ou de ser ouvidos. O peso das estruturas e dos interesses é tão grande, que ninguém mais se arvora em profeta ou, então, sua voz não encontra eco, porque o eco também está proibido. Quem não se arrisca a ser precipitado morro abaixo jamais será profeta.
Na eucaristia celebramos o gesto profético supremo da coerência até a morte e morte de cruz, única capaz de abrir caminho para a mesa comum.

Jesus rejeitado em sua própria terra
Hoje encontramos a resposta de várias perguntas que ficaram abertas no domingo anterior. Será mesmo que Jesus veio para instaurar o ano de remissão das dívidas (Lc. 4,19)? Jesus teria desejado realizar materialmente a utopia? Parece que Lc. o único evangelista que aborda este tema, quer dizer algo mais. Na sua descrição, ele reúne diversos elementos. A citação de Is. 61,1-3, na boca de Jesus (Lc. 4,16-19), tem por quadro uma combinação de Mc. 1,21 (ensino na sinagoga) e 6,1-6 (rejeição em Nazaré). Percebemos uma correspondência de teor teológico entre o v. 19, “um ano ‘agradável’ (dektón) da parte do Senhor”, e o v. 24: “nenhum profeta é ‘agradável’ (dektós) em sua terra”. A citação do “ano de graça” não é relacionada, por Lc, com uma mera reforma social, mas com a pessoa de Jesus mesmo. Jesus anuncia o “ano agradável da parte do Senhor”, a encarnação dos dons de Deus para seu povo, especialmente para os pobres e humildes (cf. Dt. 15). Mas o povo de Nazaré não recebe com agrado o profeta que o anuncia … Nazaré aplaude a mensagem do ano de remissão, mas rejeita aquilo que o profeta em pessoa representa: a salvação universal. A restauração dos empobrecidos é a porta de entrada da salvação universal, pois o que é para todos tem de começar com os últimos, os excluídos.
A rejeição acontece de mansinho, e devemos admirar novamente a arte narrativa de Lc. Primeiro, o povo admira Jesus e suas palavras. Mas sua admiração é a negação daquilo que Jesus quer. Desconhecendo o “Filho de Deus” (cf. 3,22-23), tropeçam na sua origem por demais comum: “Não é este o filho de José” (4,22). Jesus toma a dianteira. Prevendo que eles apenas quererão ver suas façanhas, como as fez em Cafarnaum (Lc pressupõe aqui Mc. 1,21ss), Jesus lança um desafio: ele não é um médico para uso caseiro. Como nenhum profeta é agradável à sua própria gente (cf. 1ª leitura), sua missão ultrapassa os morros de Nazaré. E insiste: Elias, expulso de Israel, ajudou a viúva de Sarepta, na Fenícia, e Eliseu curou o sírio Naamã … Os nazarenses, ciosos, não agüentam essas palavras e querem jogar Jesus no precipício (uma variante do apedrejamento). Mas Jesus, com a autoridade do Espírito que repousa sobre ele, passa no meio deles e vai adiante … Nazaré perdeu sua oportunidade, prefigurando assim a sorte da “pátria” do judaísmo: “Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes quis eu reunir teus filhos … ” (Lc. 13,34-35) – “Ah, se neste dia conhecesses a mensagem da paz … Não reconheceste o dia em que foste visitado!” (19,41-44). Trata-se da visita de Deus a seu povo e ao santuário (cf. Ml. 3,1), que não foi “agradável”, “bem recebida”.
A 2ª  leitura é o hino do amor-caridade (1Cor. 13). Do amor efetivo e afetivo, pois seria errado entender a “caridade” num sentido insípido, inumano, como frio cumprimento de deveres caritativos. Amor é essencialmente afeição, uma questão de engajamento da personalidade toda, uma certa paixão (por isso, faz sofrer). Amor é sempre afetuosa doação, perder-se para o bem do outro. Não há um amor para a vida normal e uma “caridade” para fins religiosos. A gente só tem um coração.
Na homilia, este tema do amor poderia preceder o tema do evangelho, a rejeição da “afetuosa” oferta de salvação de Deus em Jesus Cristo. Com vistas à atualidade, pode-se sublinhar que Nazaré faz valer prerrogativas que nada têm a ver com o plano de Deus, pois este é para todos; ironicamente, rejeitando seu “santo de casa”, Nazaré rejeita também o plano de Deus que ele encarna: levar a boa-nova aos pobres (14,18). Pois tal plano é incompreensível para uma mentalidade auto-suficiente, preocupada com prerrogativas próprias e precedências particulares.
Mensagem
A Boa Nova para todos e o profeta rejeitado
Depois de todos os esforços para integrarmos em nossas comunidades ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, constatamos que as discriminações, as panelinhas, os particularismos continuam. Quem mora mais perto da igreja matriz deve ser melhor atendido … Quem tem algum primo padre tem direito a cerimônias melhores… Muitos pensam que Deus está ai só para eles! A Igreja é realmente para todos, ou somente para gente de bem, “gente da casa”?
Os antigos israelitas achavam que a aliança de Deus pertencia exclusivamente a eles. Também achavam que bastava ser israelita para ter a salvação garantida. Não aguentavam que os seus profetas os criticassem. Por isso, quando Deus manda o profeta Jeremias,já o prepara desde o início para enfrentar a resistência de seu povo (1ª  leitura). Semelhante resistência também a encontra Jesus, especialmente na sua própria terra, Nazaré. Ele anuncia que o Reino de Deus e a libertação se destinam também aos pagãos, e mesmo com prioridade (evangelho). Aos que ciosamente esperam dele milagres para sua própria cidadezinha, Jesus lembra que os milagres de Elias e Eliseu favoreceram estrangeiros. Por isso, seus conterrâneos querem precipitá-lo da colina de sua cidade. Mas Deus o toma firme e inabalável – como o tinha prometido a Jeremias. Com autoridade assombrosa, Jesus atravessa o corredor polonês formado pelos que ameaçam sua vida.
A Igreja, corpo e presença de Cristo, deve anunciar ao mundo a salvação para todos, sem discriminação ou privilégio. Ser “gente da casa” (católico de tradição) não tem peso algum. A boa-nova é para todos quantos quiserem converter-se. A primeira exigência do ser cristão é não ser egoísta, não querer as coisas só para si – nem as materiais, nem as espirituais. O evangelho é privilégio nenhum. Excluir quem quer que seja, por pertencer a outra classe, ideologia ou ambiente, está em contradição direta com o evangelho e a prática de Jesus. O evangelho é para todos. Se alguém, por força de sua cabeça fechada, tapa os ouvidos, problema dele. Portanto, que “os da casa” não rejeitem o profeta que se dirige a outros …
Para anunciar a boa-nova a todos, a Igreja “toda profética” não deve ser escrava de privilégios e influências alheias. Deve falar com a desinibição que caracteriza os profetas. Os que nela possuem o carisma profético devem destacar-se por sua autenticidade, sua coragem de: mártir, sua simplicidade, que deixa transparecer o Reino de Deus em sua vida.
Johan Konings "Liturgia dominical"

A rejeição de Jesus em Nazaré
Hoje encontramos a resposta de várias perguntas que ficaram abertas no domingo anterior. Será mesmo que Jesus veio par instaurar o ano de remissão das dividas (Lc. 4,19)? Jesus teria desejado realizar materialmente a utopia? Parece que Lc, o único evangelista que aborda este tema, quer dizer algo mais. Na sua descrição, ele reúne diversos elementos. A citação de Is. 61,1-3, na boca de Jesus (Lc. 4,16-19), tem por quadro uma combinação de Mc. 1,21 (ensino na sinagoga) e 6,1-6 (rejeição em Nazaré). Percebemos uma correspondência de teor teológico entre o v. 19, “um ano ‘agradável’ (dektón) da parte do Senhor”, e o v. 24: “nenhum profeta é ‘agradável’ (dektós) em sua terra”. A citação do “ano de graça” não é relacionada, por Lc. com uma mera reforma social, mas com a pessoa de Jesus mesmo. Jesus anuncia o “ano agradável da parte do Senhor”, a encarnação dos dons de Deus para seu povo, especialmente para os pobres e humildes (cf. Dt. 15). Mas o povo de Nazaré não recebe com agrado o profeta que o anuncia... Nazaré aplaude a mensagem do ano de remissão, mas rejeita aquilo que o profeta em pessoa representa: a salvação universal. A restauração dos empobrecidos é a porta de entrada da salvação universal, pois o que é para todos tem de começar com os últimos, os excluídos.
A rejeição acontece de mansinho, e devemos admirar novamente a arte narrativa de Lc. Primeiro, o povo admira Jesus e suas palavras. Mas sua admiração é a negação daquilo que Jesus quer. Desconhecendo o “Filho de Deus” (cf. 3,22-23), tropeçam na sua origem por demais comum: “Não é este o filho de José” (4,22). Jesus toma a dianteira. Prevendo que eles apenas quererão ver suas façanhas, como as fez em Cafarnaum (Lc. pressupõe aqui Mc. 1,21ss), Jesus lança um desafio: ele não é um médico para uso caseiro. Como nenhum profeta é agradável à sua própria gente (cf. 1ª leitura), sua missão ultrapassa os morros de Nazaré. E insiste: Elias, expulso de Israel, ajudou a viúva de Sarepta, na Fenícia, e Eliseu curou o sírio Naamã... Os nazarenses, ciosos, não aguentam essas palavras e querem jogar Jesus no precipício (uma variante do apedrejamento). Mas Jesus, com a autoridade do Espírito que repousa sobre ele, passa no meio deles e vai adiante... Nazaré perdeu sua oportunidade, prefigurando assim a sorte da “pátria” do judaísmo: “Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes quis eu reunir teus filhos...” (Lc. 13,34-35) – “Ah, se neste dia conhecesses a mensagem da paz... Não reconheceste o dia em que foste visitado!” (19,41-44). Trata-se da visita de Deus a seu povo e ao santuário (cf. Ml. 3,1), que não foi “agradável”, “bem recebida”.
A 2ª leitura é o hino do amor-caridade (1Cor. 13). Do amor efetivo e afetivo, pois seria errado entender a “caridade” num sentido insípido, inumano, como frio cumprimento de deveres caritativos. Amor é essencialmente afeição, uma questão de engajamento da personalidade toda, uma certa paixão (por isso, faz sofrer). Amor é sempre afetuosa doação, perder-se para o bem do outro. Não há um amor para a vida normal e uma “caridade” para fins religiosos. A gente só tem um coração.
Na homilia, este tema do amor poderia preceder o tema do evangelho, a rejeição da “afetuosa” oferta de salvação de Deus em Jesus Cristo. Com vistas à atualidade, pode-se sublinhar que Nazaré faz valer prerrogativas que nada têm a ver com o plano de Deus, pois este é para todos; ironicamente, rejeitando seu “santo de casa”, Nazaré rejeita também o plano de Deus que ele encarna: levar a boa-nova aos pobres (14,18). Pois tal plano é incompreensível para uma mentalidade autossuficiente, preocupada com prerrogativas próprias e precedências particulares. 
A BOA-NOVA PARA TODOS E O PROFETA REJEITADO
Depois de todos os esforços para integrarmos em nossas comunidades ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, constatamos que as discriminações, as panelinhas, os particularismos continuam. Quem mora mais perto da igreja matriz deve ser mais bem atendido... Quem tem algum primo padre tem direito a cerimônias melhores... Muitos pensam que Deus está aí só para eles! A Igreja é realmente para todos, ou somente para gente de bem, “gente da casa”?
Os antigos israelitas achavam que a aliança de Deus pertencia exclusivamente a eles. Também achavam que bastava ser israelita para ter a salvação garantida. Não aguentavam que os seus profetas os criticassem. Por isso, quando Deus manda o profeta Jeremias, já o prepara desde o início para enfrentar a resistência de seu povo (1ª leitura). Semelhante resistência, também a encontra Jesus, especialmente na sua própria terra, Nazaré. Ele anuncia que o reino de Deus e a libertação se destinam também aos pagãos, e mesmo com prioridade (evangelho). Aos que ciosamente esperam dele milagres para sua própria cidadezinha, Jesus lembra que os milagres de Elias e Eliseu favoreceram estrangeiros. Por isso, seus conterrâneos querem precipitá-lo da colina de sua cidade. Mas Deus o torna firme e inabalável – como o tinha prometido a Jeremias. Com autoridade assombrosa, Jesus atravessa o corredor polonês formado pelos que ameaçam sua vida.
A Igreja, corpo e presença de Cristo, deve anunciar ao mundo a salvação para todos, sem discriminação ou privilégio. Ser “gente da casa” (católico de tradição) não tem peso algum. A boa-nova é para todos quantos quiserem converter-se. A primeira exigência do ser cristão é não ser egoísta, não querer as coisas só para si – nem as materiais, nem as espirituais. O evangelho é privilégio nenhum. Excluir quem quer que seja, por pertencer a outra classe, ideologia ou ambiente, está em contradição direta com o evangelho e a prática de Jesus. O evangelho é para todos. Se alguém, por força de sua cabeça fechada, tapa os ouvidos, problema dele. Portanto, que “os da casa” não rejeitem o profeta que se dirige a outros...
Para anunciar a boa-nova a todos, a Igreja “toda profética” não deve ser escrava de privilégios e influências alheias. Deve falar com a desinibição que caracteriza os profetas. Os que nela possuem o carisma profético devem destacar-se por sua autenticidade, sua coragem de mártir, sua simplicidade, que deixa transparecer o Reino de Deus em sua vida.
padre Jaldemir Vitório
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Passando pelo meio deles...
O versículo 21b ("Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir") e os versículos 22-23, onde encontramos uma reação positiva dos ouvintes presentes na sinagoga de Nazaré ao comentário de Jesus sobre o trecho do livro do Profeta Isaías, poderiam nos levar a entender que os pobres, os cativos, os cegos, os oprimidos fossem os destinatários da mensagem, aos quais Jesus é enviado. No entanto, nos versículos 22-27, Jesus exclui os Nazarenos de sua mensagem salvífica. E a evocação dos fatos tirados do ciclo de Elias e Eliseu estabelece um paralelo entre Israel e Nazaré. Nazaré passa a ser o protótipo da rejeição de Jesus por Israel. Jesus é um profeta não somente porque ele sabe-se enviado, mas porque é rejeitado. Eis o critério que permite verificar a autenticidade de sua vocação: "... nenhum profeta é aceito na sua própria terra" (v. 24). O profeta é consciente das dificuldades na realização da missão, por isso é chamado a viver na confiança: "Farão guerra contra ti, mas não te vencerão, porque estou contigo para te defender, oráculo do Senhor" (Jr 1,19). Não há nada nem ninguém que possa impedir o Senhor de continuar o seu caminho de realização da vontade do Pai: ". passando pelo meio deles, continuou o seu caminho" (v. 30).
Carlos Alberto Contieri, sj
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Levaram-no e o expulsaram da cidade, porém ele passou no meio deles.
Este texto de Lucas acentua a dimensão controvertida do anúncio de Jesus e justifica o anúncio aos gentios. Jesus é o ungido pelo Espírito de Deus, de Isaías, para anunciar a Boa Nova aos pobres e proclamar a liberdade aos cativos.
Cheios de admiração, os presentes na sinagoga, sob a influência de seus mestres fariseus, passam a rejeitar Jesus. Deixam-se dominar pelo espírito religioso nacionalista, segregacionista e esperançoso de glória e poder. O messias devia manifestar-se de maneira imponente, e suas origens seriam desconhecidas. Daí o tom de desprezo no questionamento: "Não é este o filho de José?". Lucas registra uma sentença helênica pronunciada por Jesus: "Médico, cura-te a ti mesmo". Jesus menciona Elias e Eliseu, e destaca a confiança nestes profetas, por parte de dois pagãos: a viúva de Sidônia e o sírio Naamã. Fica assim caracterizada a adesão dos gentios a Jesus, enquanto os judeus o desprezam. Levam Jesus ao alto da montanha para atirá-lo abaixo. Situamo-nos no clima da narrativa das tentações, que antecedem a atual narrativa. Jesus, porém, continua o seu caminho.
A Palavra de Deus restaura o ânimo das comunidades diante de eventuais insucessos na tarefa missionária. Esta se fortalece pela confiança no amor eficaz. Em Jeremias, encontramos também o modelo da fortaleza de quem confia no Senhor.

O tema da liturgia deste domingo convida a refletir sobre o “caminho do profeta”: caminho de sofrimento, de solidão, de risco, mas também caminho de paz e de esperança, porque é um caminho onde Deus está. A liturgia de hoje assegura ao “profeta” que a última palavra será sempre de Deus: “não temas, porque Eu estou contigo para te salvar”.
A primeira leitura apresenta a figura do profeta Jeremias. Escolhido, consagrado e constituído profeta por Jahwéh, Jeremias vai arrostar com todo o tipo de dificuldades; mas não desistirá de concretizar a sua missão e de tornar uma realidade viva no meio dos homens a Palavra de Deus.
O Evangelho apresenta-nos o profeta Jesus, desprezado pelos habitantes de Nazaré (eles esperavam um Messias espetacular e não entenderam a proposta profética de Jesus). O episódio anuncia a rejeição de Jesus pelos judeus e o anúncio da Boa Nova a todos os que estiverem dispostos a acolhê-la – sejam pagãos ou judeus.
A segunda leitura parece um tanto desenquadrada desta temática: fala do amor – o amor desinteressado e gratuito – apresentando-o como a essência da vida cristã. Pode, no entanto, ser entendido como um aviso ao “profeta” no sentido de se deixar guiar pelo amor e nunca pelo próprio interesse… Só assim a sua missão fará sentido.

LEITURA I – Jer. 1,4-5.17-19
Leitura do Livro de Jeremias
No tempo de Josias, rei de Judá, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:
«Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi;
antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações.
Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar.
Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença.
Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra.
Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar».
AMBIENTE
A atividade profética de Jeremias começa por volta de 627/626 a.C. (quando o profeta teria pouco mais de vinte anos) e prolonga-se até depois da queda de Jerusalém nas mãos dos Babilônios (586 a.C.). O cenário dessa atividade é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).
É uma época muito conturbada, quer a nível político, quer a nível religioso. Judá acabou de sair dos reinados de Manassés (698-643 a.C.) e de Amon (643-640 a.C.), reis ímpios que multiplicaram no país os altares aos deuses estrangeiros e levaram o Povo a afastar-se de Jahwéh. Na época em que Jeremias começa o seu ministério profético, o rei de Judá é Josias (640-609 a.C.): trata-se de um rei bom, que procura eliminar o culto aos deuses estrangeiros e concentrar a vida litúrgica de Judá num único lugar – o Templo de Jerusalém. No entanto, a reforma religiosa levada a cabo por Josias levanta algumas resistências; por outro lado, é uma reforma que é mais aparente do que real: não se pode, por decreto e de repente, corrigir o coração do Povo e eliminar hábitos religiosos cultivados ao longo de algumas dezenas de anos.
É neste ambiente que Jeremias é chamado por Deus e enviado em missão.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto apresenta o relato que Jeremias faz do seu chamamento por Deus. Mais do que uma reportagem do “momento” em que Deus chamou o profeta, trata-se de uma reflexão e de uma catequese sobre esse mistério sempre antigo e sempre novo a que chamamos “vocação”.
A vocação profética, na perspectiva de Jeremias, é, em primeiro lugar, um encontro com Deus e com a sua Palavra (“a Palavra do Senhor foi-me dirigida…” – vers. 4). A Palavra marca, a partir daí, a vida do profeta e passa a ser, para ele, a única coisa decisiva.
Em segundo lugar, a vocação é um desígnio divino: foi Deus que escolheu, consagrou e constituiu Jeremias como profeta. Dizer que Deus “escolheu” o profeta (literalmente, “conheceu” – do verbo “yada‘”) é dizer que Deus, por sua iniciativa, estabeleceu desde sempre com ele uma relação estreita e íntima, de forma que o profeta, vivendo na órbita de Deus, aprendesse a discernir os planos de Deus para os homens e para o mundo. Dizer que Deus “consagrou” o profeta significa que Deus o “reservou”, que o “pôs à parte” para o seu serviço. Dizer que Deus “constituiu” o profeta “para as nações” significa que Deus lhe confiou uma missão, missão que tem um alcance universal. Tudo isto, no entanto, resulta da ação e da escolha de Deus, é iniciativa de Deus e não escolha do homem.
Na segunda parte do texto, temos o envio formal do profeta. Ele deve ir “dizer o que o Senhor ordenar”, sem medo nem servilismo, enfrentando os grandes da terra, armado apenas com a força de Deus. É a definição do “caminho profético”, percorrido no sofrimento, no risco, na solidão, no conflito com todos os que se opõem à proposta de Deus. A leitura de hoje termina com um convite à confiança: “não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar” – vers. 19).
A vida de Jeremias realizou, integralmente, o projeto de Deus. A propósito e a despropósito, Jeremias denunciou, criticou, demoliu e destruiu, edificou e plantou. Não teve muito êxito: a família, os amigos, o povo de Jerusalém, as autoridades, os sacerdotes, viraram-lhe as costas, marginalizaram-no, perseguiram-no e maltrataram-no. No entanto, Jeremias nunca renunciou: Deus invadiu-lhe de tal forma a vida, e a paixão pela Palavra de Deus “apanhou-o” de tal forma, que o profeta viveu até ao fim, com a máxima intensidade, a sua missão.
ATUALIZAÇÃO
Considerar, para reflexão, as seguintes questões:
• Os “profetas” não são uma classe de animais extintos há muitos séculos, mas são uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no mundo e para recriar a história. Quem são, hoje, os profetas? Onde estão eles?
• No Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus a todos nos convocou? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus se dirige aos homens?
• O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo (numa mão a Bíblia, na outra o jornal diário). Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir. Somos estas pessoas, simultaneamente em comunhão com Deus e atentas às realidades que desfeiam o nosso mundo?
• A denúncia profética implica, tantas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte (Óscar Romero, Luther King, Gandhi…). Como lidamos com a injustiça e com tudo aquilo que rouba a dignidade dos homens? O medo, o comodismo, a preguiça, alguma vez nos impediram de ser profetas?
• Em concreto, em que situações sou chamado, no dia a dia, a exercer a minha vocação profética?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 70 (71)
Refrão: A minha boca proclamará a vossa salvação.
Em Vós, Senhor, me refugio, jamais serei confundido.
Pela vossa justiça, defendei-me e salvai-me, prestai ouvidos e libertai-me.
Sede para mim um refúgio seguro, a fortaleza da minha salvação.
Vós sois a minha defesa e o meu refúgio: meu Deus, salvai-me do pecador.
Sois Vós, Senhor, a minha esperança, a minha confiança desde a juventude.
Desde o nascimento Vós me sustentais, desde o seio materno sois o meu protetor.
A minha boca proclamará a vossa justiça, dia após dia a vossa infinita salvação.
Desde a juventude Vós me ensinais e até hoje anunciei sempre os vossos prodígios.
LEITURA II – 1 Cor. 12,31-13,13
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Aspirai com ardor aos dons espirituais mais elevados.
Vou mostrar-vos um caminho de perfeição que ultrapassa tudo:
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa ou como címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu possua a plenitude da fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou.
Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita.
A caridade é paciente, a caridade é benigna;
não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa;
não é inconveniente, não procura o próprio interesse;
não se irrita, não guarda ressentimento;
não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá;
mas a caridade não acaba nunca.
De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos.
Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança.
Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil.
Agora vemos como num espelho e de maneira confusa, depois, veremos face a face.
Agora, conheço de maneira imperfeita, depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.
AMBIENTE
Há quem chame a este texto “o Cântico dos Cânticos da nova aliança”. Também se lhe chama, habitualmente, o “hino ao amor”.
À primeira vista, este “elogio do amor” poderia parecer uma página completamente desligada do contexto anterior (a discussão acerca dos carismas). Na realidade, este texto apresenta afinidades claras, tanto a nível literário como a nível temático, com os capítulos precedentes, bem como com os capítulos seguintes. Ainda que possamos retirar este hino do seu contexto, sem que ele perca o sentido, a verdade é que Paulo quer aqui dizer, sem meias palavras e de forma clara e contundente, que só há um carisma absoluto: o amor.
MENSAGEM
Antes de mais, convém dizer que o amor de que Paulo fala aqui é o amor (em grego, “agape”) tal como ele é entendido pelos cristãos: não é o amor egoísta, que procura o próprio bem, mas o amor gratuito, desinteressado, sincero, fraterno, que se preocupa com o outro, que sofre pelo outro, que procura o bem do outro sem esperar nada em troca. Desse tipo de relacionamento, nasce a Igreja – a comunidade dos que vivem o “agape”.
O nosso texto desenvolve-se em três estrofes. Na primeira (13,1-3), Paulo sustenta que, sem amor, até as melhores coisas (a fé, a ciência, a profecia, a distribuição de esmolas pelos pobres) são vazias e sem sentido. Só o amor dá sentido a toda a vida e a toda a experiência cristã.
Na segunda estrofe (13,4-7), Paulo apresenta literariamente o amor como uma pessoa e sugere que ele é a fonte e a origem de todos os bens e qualidades. A propósito, Paulo enumera quinze características ou qualidades do verdadeiro amor: sete destas qualidades são formuladas positivamente e as outras oito de forma negativa; mas todas elas se referem a coisas simples e quotidianas, que experimentamos e vivemos a todos os instantes, a fim de que ninguém pense que este “amor” é algo que só diz respeito aos santos, aos sábios, aos especialistas.
A terceira estrofe (13,8-13) estabelece uma comparação entre o amor e o resto dos carismas. A questão é: este amor de que se disseram coisas tão bonitas é algo imperfeito, temporal e caduco como o resto dos carismas? Este amor – responde Paulo – não desaparecerá nunca, não mudará jamais. Ele é a única coisa perfeita; por isso permanecerá sempre. Fica, assim, confirmada a superioridade incontestável do amor frente a qualquer outro carisma – por muito que seja apreciado pelos coríntios ou por qualquer comunidade cristã, no futuro.
ATUALIZAÇÃO
Para refletir, ter em conta as seguintes questões:
• O amor cristão – isto é, o amor desinteressado que leva, por pura gratuidade, a procurar o bem do outro – é, de acordo com Paulo, a essência da experiência cristã. É esse o amor que me move? Quando faço algo, partilho algo, presto algum serviço, é com essa atitude desinteressada, de puro dom?
• Desse amor partilhado nasce a comunidade de irmãos a que chamamos Igreja. O amor que une os vários membros da nossa comunidade cristã é esse amor generoso e desinteressado de que Paulo fala? Quando a comunidade cristã é palco de lutas de interesses, de ciúmes, de rivalidades egoístas, que testemunho de amor está a dar?
ALELUIA – Lc. 4,18
Aleluia. Aleluia.
O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a proclamar aos cativos a redenção.
EVANGELHO – Lc. 4,21-30
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo:
«Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».
Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca.
E perguntavam: «Não é este o filho de José?»
Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’.
Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum».
E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra.
Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia.
Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã».
Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga.
Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo.
Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.
AMBIENTE
Estamos na sequência do episódio que a liturgia de domingo passado nos apresentou. Jesus foi a Nazaré, entrou na sinagoga, foi convidado a ler um trecho dos Profetas e a fazer o respectivo comentário… Leu uma citação de Is 61,1-2 e “atualizou-o”, aplicando o que o profeta dizia, a Si próprio e à sua missão: “cumpriu-se hoje mesmo este trecho da Escritura que acabais de ouvir”.
O Evangelho de hoje apresenta a reação dos habitantes de Nazaré à acção e às palavras de Jesus.
MENSAGEM
O episódio da sinagoga de Nazaré é, já o dissemos atrás, um episódio “programático”: a Lucas não interessa descrever de forma coerente e lógica um episódio em concreto acontecido em Nazaré por altura de uma visita de Jesus, mas enunciar as linhas gerais do programa que o Messias vai cumprir – linhas que o resto do Evangelho vai revelar.
O programa de Jesus é, como vimos a semana passada (o texto de Is 61,1-2 e o comentário posterior de Jesus demonstram-no claramente), a apresentação de uma proposta de libertação aos pobres, marginalizados e oprimidos. No entanto, esse “caminho” não vai ser entendido e aceite pelo povo judeu (isto é, os “da sua terra”), que estão mais interessados num Messias milagreiro e espetacular. Os “seus” rejeitarão a proposta de Jesus e tentarão eliminá-l’O (anúncio da morte na cruz); mas a liberdade de Jesus vence os inimigos (alusão à ressurreição) e a evangelização segue o seu caminho (“passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”), até atingir os que estão verdadeiramente dispostos a acolher a salvação/libertação (alusão a Elias e Eliseu que se dirigiram aos pagãos porque o seu próprio povo não estava disponível para escutar a Palavra de Deus).
Neste texto programático – já o dissemos, também, a semana passada – Lucas anuncia o caminho da Igreja: a comunidade crente toma consciência de que, em continuidade com o caminho de Jesus, a sua missão é levar a Boa Nova aos pobres e marginalizados – como Elias fez com uma viúva de Sarepta ou como Eliseu fez com um leproso sírio. Se percorrer esse caminho, a Igreja viverá na fidelidade a Cristo.
ATUALIZAÇÃO
A reflexão sobre este texto pode considerar as seguintes questões:
• “Nenhum profeta é bem recebido na sua terra”. Os habitantes de Nazaré julgam conhecer Jesus, viram-n’O crescer, sabem identificar a sua família e os seus amigos mas, na realidade, não perceberam a profundidade do seu mistério. Trata-se de um conhecimento superficial, teórico, que não leva a uma verdadeira adesão à proposta de Jesus. Na realidade, é uma situação que pode não nos ser totalmente estranha: lidamos todos os dias com Jesus, somos capazes de falar algumas horas sobre Ele; mas a sua proposta tem impacto em nós e transforma a nossa existência?
• “Faz também aqui na terra o que ouvimos dizer que fizestes em Cafarnaum” – pedem os habitantes de Nazaré. Esta é a atitude de quem procura Jesus para ver o seu espetáculo ou para resolver os seus problemazinhos pessoais. Supõe a perspectiva de um Deus comerciante, de quem nos aproximamos para fazer negócio. Qual é o nosso Deus? O Deus de quem esperamos espetáculo em nosso favor, ou o Deus que em Jesus nos apresenta uma proposta séria de salvação que é preciso concretizar na vida do dia a dia?
• Como na primeira leitura, o Evangelho propõe-nos uma reflexão sobre o “caminho do profeta”: é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão, com o risco… É, no entanto, um caminho que Deus nos chama a percorrer, na fidelidade à sua Palavra. Temos a coragem de seguir este caminho? As “bocas” dos outros, as críticas que magoam, a solidão e o abandono, alguma vez nos impediram de cumprir a missão que o nosso Deus nos confiou?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 4º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. A ASSEMBLEIA, UM POVO DE IRMÃOS.
O célebre hino à caridade de Paulo, que a segunda leitura nos dá para meditar, recorda como é importante a caridade entre irmãos… na assembléia! É aí que deve acontecer em primeiro lugar a atenção ao outro, o acolhimento do outro, o respeito pelo outro. Parafraseando São Paulo, poderíamos dizer: “Podemos cantar os mais belos cânticos do mundo, mas se nos falta o amor fraterno, nada somos!” Na missa, Cristo manifesta a sua presença: na sua Palavra; sob as espécies do pão e do vinho; na pessoa do sacerdote; e na assembléia reunida em seu nome! Será que uma assembléia, cujos membros se comportam como “desconhecidos”, manifesta verdadeiramente a presença do Senhor da Vida?
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
“Deus, Tu que nos conheces melhor que ninguém, Tu que és a nossa força na provação e que estás ao nosso lado para nos libertar, nós Te damos graças.
Nós Te pedimos por todos os profetas de hoje, por aqueles que resistem aos poderosos pedindo o respeito pelos pobres e pelos fracos, por aqueles que mostram ao nosso mundo o caminho de uma vida mais justa e mais libertadora”.
No final da segunda leitura:
“Pai, nós Te damos graças pelo teu amor infinito, que nos revelaste em Jesus, teu Filho, porque Ele teve paciência, esteve ao serviço, não procurou o seu interesse, tudo suportou, fez-Te confiança em tudo.
Nós Te recomendamos todas as famílias cristãs: enche-as do teu Espírito de amor, como nós Te pedimos na celebração dos casamentos”.
No final do Evangelho:
“Deus fiel e paciente, bendito sejas pela mensagem de graça que saía da boca do teu Filho Jesus. Nós Te bendizemos pelos profetas que enviaste outrora aos pagãos, porque Tu queres a salvação e a felicidade de todos os homens.
Nós Te pedimos pelas nossas cidades, onde a mensagem do Evangelho provoca as mesmas oposições e rejeições que outrora em Nazaré. Que o teu Espírito sustente a nossa fé”.
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Jesus não deixa ninguém indiferente. Os seus compatriotas admiram-se, espantam-se com o seu ensino, ficam furiosos, tentam expulsá-los da cidade… Mas é em Nazaré que Jesus inicia a sua pregação. As pessoas sabem quem Ele é, conhecem a sua profissão, a sua família, mas ignoram o seu mistério. Como poderiam imaginar que Ele vem de Deus, que é o Filho de Deus? É necessário o tempo de provação para que os seus olhos se abram, os olhos da fé postos à prova pela morte e ressurreição do seu compatriota. E, vemo-lo bem ao longo de todo o Evangelho, são aqueles que nunca ninguém imaginou que vão fazer acto de fé e beneficiar das palavras e dos gestos de salvação do Filho de Deus. Como os profetas Elias e Eliseu, Jesus manifesta que Deus ama todos os homens; a salvação que veio trazer é oferecida a toda a humanidade.
5. À ESCUTA DA PALAVRA.
Sabemos como as multidões são versáteis. Basta ver a atitude da multidão em Jerusalém: ora aclama Jesus, ora pede a sua more. A mesma versatilidade acontece com os habitantes de Nazaré. Têm reações diferentes e interrogam-se, pois conhecem bem a identidade familiar de Jesus. Jesus avança no seu ensino e faz referência a dois episódios do Antigo Testamento, no tempo de Elias e de Eliseu: a viúva estrangeira e o general sírio, que beneficiam dos gestos salvíficos de Deus e não os filhos de Israel! Por outras palavras, diz que os habitantes de Nazaré são como os seus antepassados: não acolhem o tempo da visita de Deus. Da admiração, os habitantes passam ao ódio. E nós, hoje? Interroguemo-nos sobre a nossa atitude para com Jesus: a sua palavra surpreende-nos? Pomos de lado as suas palavras que nos provocam, para não nos pormos em questão? Preferimos ficar na nossa tranquilidade?
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II, cujos temas estão em harmonia com os do Evangelho.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO…
No hino de Paulo que lemos neste domingo e que é uma das suas páginas mais célebres, o apóstolo indica-nos “um caminho superior a todos os outros”: não o caminho do amor-paixão, não o caminho do amor-amizade, mas o caminho do amor-caridade: o caminho da ágape. E para falar deste amor, em vez de dar definições, ele mostra-o em ação e utiliza 15 verbos: ter paciência, servir, não invejar, não se vangloriar, não se orgulhar, etc. Este hino eleva-nos, inflama-nos… mas proíbe-nos de sonhar: estes 15 verbos são verbos para a ação! Uma sugestão: reler este texto, substituindo “caridade” por “Cristo”. A ágape é Cristo que ama em nós!
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Se não tiver caridade...
No Evangelho de hoje, vemos que os habitantes de Nazaré reagiram mal às palavras de Jesus.
Pouco tempo antes, parecia que tinham gostado muito de O ouvir. A certa altura, porém, os seus sentimentos mudaram. Primeiro, ficaram com inveja dos milagres que Jesus já tinha feito numa outra cidade. E depois, sentiram-se chocados e até enfurecidos, quando Jesus lhes disse que a sua vida era falsa, não dava frutos.
Jesus falou-lhes com grande firmeza, mas não foi para os condenar, mas sim para os corrigir, para os ajudar a melhorar.
No entanto, como já O conheciam desde criança, não reconheceram autoridade a Jesus. Não perceberam que Jesus era diferente, e que essa diferença vinha de Deus.
É verdade que estes homens não sabiam ainda, nem podiam saber, que Jesus era o Filho de Deus. Mas, pelo menos, podiam ter sido sensíveis à força das palavras de Jesus, podiam ter sido tocados pela sua bondade e serenidade, podiam ter sido humildes, e reconhecer que Jesus, evidentemente, tinha razão.
Em vez disso, porém, foram obstinados, soberbos e arrogantes, e mais ainda violentos, a ponto de levarem Jesus "até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo".
Mas Jesus, com a sua simplicidade irresistível e o seu poder divino, como refere são Lucas, "passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho". Jesus passou pela sua vida, e não O receberam. A vida daqueles homens continuou estéril, triste e injusta, como antes.
Como é que nos situamos diante de Jesus? Quem é Jesus para nós? É importante colocar esta questão, porque dela depende que a nossa vida mude, ou fique na mesma. Reconhecemos autoridade a Jesus para intervir na nossa vida?
Pela graça da fé, acreditamos e sabemos que Jesus não é apenas mais um, entre tantos homens que fizeram ou disseram coisas extraordinárias. Os profetas da Antiga Aliança, como Jeremias, de quem falava a 1ª leitura, foram objeto de uma escolha especial, e dirigiram-se aos homens em nome de Deus, apesar da sua fragilidade e imperfeição pessoal.
Mas Jesus é único! Jesus traz em Si todo o mistério de Deus e toda a experiência do homem. Por ser Deus como o Pai e homem como nós, Jesus tem "autoridade" para nos corrigir, para nos emendar, para nos converter, e tem poder para renovar radicalmente a nossa vida.
Mas esta vida nova só existirá verdadeiramente, se em nós houver a caridade, como ensina são Paulo, na 1ª carta aos Coríntios. É costume definir a caridade como o amor gratuito, que busca o bem do outro. A caridade é "amor do próximo, radicado no amor de Deus": esta é uma bela definição da caridade, apresentada por Bento XVI (Deus Caritas est, n. 19).
São Paulo, porém, não procura definir a caridade, mas, através de 15 verbos, ilustra os seus efeitos, que se traduzem em outras tantas virtudes, que os Coríntios provavelmente desprezavam:
A caridade "é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva [isto é, não se vangloria] nem é orgulhosa [isto é, não se ensoberbece]; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".S. Paulo conhecia com certeza cristãos em Corinto que eram fortes, mas não eram "pacientes" nem benignos"; ou que pareciam 'extraordinários', mas afinal tendiam a "buscar o seu próprio interesse".
Muitos alegravam-se com a injustiça, ou guardavam ressentimento, não suportavam a menor imperfeição. não perdoavam, desistiam dos outros.
Em face disso, são Paulo vai ao ponto de dizer: "se não tiver caridade, nada sou". Posso ter muitos dons, muitos bens, muita ciência, ser muito competente em muitas matérias, mas, "se não tiver caridade, nada sou", "de nada me aproveita".
Finalmente, são Paulo põe em antítese o presente ("agora"), e o futuro ("depois"): "Agora", sempre que nos falta a caridade, e também a fé e a esperança, "vemos como num espelho, de maneira confusa".
Mas, "depois", [isto é, então] quando vivermos de verdade estas três virtudes essenciais, "veremos face a face".
Esta expressão: "face a face" costuma referir-se ao céu, à vida eterna, e de fato é no céu que adquire o seu pleno sentido, mas aqui são Paulo parece estar ainda a referir-se apenas ao plano deste mundo.
"Agora", sem caridade, "conheço de modo imperfeito". Mas "depois, conhecerei como sou conhecido". A caridade é que nos permite conhecer os outros, e nesse conhecimento autêntico dos outros encontramo-nos a nós mesmos.
A fé e a esperança não existirão no céu, mas, juntamente com a caridade, são essenciais para a vida cristã.
E como sem elas a nossa vida humana seria sempre limitada e pobre, vamos agradecer a Deus estes supremos dons, que recebemos desde o nosso batismo, e pedir que, pela misericórdia de Deus, todos os homens e mulheres do mundo os possam receber, para conhecerem, esperarem e amarem de verdade.
cônego José Manuel dos Santos Ferreira

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