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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O ESPÍRITO DO SENHOR ESTÁ SOBRE MIM

                                                                           
III DOMINGO DO TEMPO COMUM
    27 de Janeiro

Comentário Prof.Fernando


O ESPÍRITO DO SENHOR ESTÁ SOBRE MIM

Itrodução

       O texto lido por Jesus não foi escolhido por ninguém, mais sim pelo próprio Deus. Assim, ao ler aquelas palavras na sinagoga, Jesus se apresentou, e anunciou a sua missão na Terra... Continua


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Domingo, 27 de janeiro de 2013
3º Domingo do Tempo Comum

Missionários Claretianos

Santa Ângela de Mérici, Virgem (Memória facultativa).
Outros Santos do Dia:Avito (mártir da África), Cândida de Bañoles (viúva), Dácio, Juliano, Vicente e 27 companheiros (mártires da África), Devota de Córsega (virgem, mártir), Emério de Bañoles (abade), Gamelberto de Michaelsbuch (peregrino), Juliano de Sora (mártir), Juliano de Le Mans (bispo, mártir), Lobo de Châlons (bispo), Mário de Bodon (abade), Teodorico II de Orléans (monge, bispo), Vitaliano (papa).
Primeira leitura: Neemias 8,2-4a.5-6.8-10
Este é um dia de festa consagrada ao Senhor, nosso Deus
Salmo responsorial: 18(19),8.9.10.15 (R. Jo 6,63c)
A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma
Segunda leitura: 1 Corintios 12,12-30
Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um é um dos seus membros
Evangelho: Lucas 1,1-4;4,14-21

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu

O livro de Neemias fala de uma leitura pública e solene do livro da lei de Deus, Pentateuco, ou Torah para os judeus. Estamos em fins do século V a. C., os judeus há poucos anos regressara do deserto na Babilônia e a duras penas conseguiram reconstruir o templo, as muralhas da cidade, suas próprias casas. Enfrentam a hostilidade de muitos vizinhos invejosos que os imperadores persas haviam permitido regressar. Faz falta uma norma de vida, uma espécie de “constituição”, por meio da qual poderiam reger em todos os aspectos da vida pessoal, social e religiosa. Esdras, um líder carismático, respeitado por todos e considerado levita e escriba, quer dizer, sacerdote e mestre, lhes oferece essa lei, essa constituição que necessitam, proclamando solenemente, diante do povo reunido, a santa Lei de Deus.
Já vimos como o povo respondeu: comprometendo-se a cumpri a lei e guardá-la, chorando suas infidelidades e, a pedido dos líderes, celebrando uma festa nacional: a festa da promulgação da Lei divina. Deste esse remoto dia, quinhentos anos antes de Jesus Cristo, até hoje, os judeus ordenam sua vidas segundo os mandamentos da Toráh ou Pentateuco.
O texto de Lucas 4,14ss era sem relevância na vida prática da comunidade cristã até os anos 50, um texto esquecido, como tantos outros que hoje nos parecem fundamentais. Foi a teologia latino americana que colocou este texto em relevo. Lucas coloca-o no inicio da vida pública de Jesus. Pode não ter acontecido exatamente na ordem apresentada cronologicamente, porém sim na ordem da significação. Talvez as coisas podem não ter ocorrido assim (e não é possível saber historicamente), porém Lucas tem razão quando situa esta cena em seu evangelho como um início programático que contém, já e, germe, simbolicamente, toda a sua missão.
Jesus, sem dúvida, teve que interpretar muitas vezes sua própria vida com estes textos proféticos de Isaías. Parece obvio que Jesus tenha visto sua vida como o cumprimento, o prolongamento daquele anuncio profético da “Boa Nova para os pobres”. A missão de Jesus é o anúncio da Boa Nova da libertação. A “evangelização” (“eu-angelion” = boa noticia) não é mais que uma forma de libertação, a “libertação pela palavra”. As aplicações são muitas e diretas:
A missão cristã hoje, continuando a missão de Jesus, tem que ser... isto mesmo, ou seja: “continuação da missão de Jesus”, em sentido literal e direto. Ser cristão, será “viver e lutar pela causa de Jesus”, sentir-se chamado a proclamar a Boa Notícia tem que ser boa e tem que ser noticia. Não se pode subsistir semanticamente pelo catecismo ou pela “doutrina”; a “evangelização” de Jesus não foi uma “catequese eclesiástico-pastoral”...
A missão de Jesus não pode pretender ser neutra, “de centro”, “para todos sem distinção”, não inclinada nem para os ricos nem para os pobres... como pretendem tantas vezes os que confundem a Igreja com uma espécie de antecipação piedosa da Cruz Vermelha... O pior que se pode dizer do evangelho é que foi neutro, que não se pronuncia, que não opta pelos pobres. A pior ideologia seria a que ideologiza o evangelho de Jesus dizendo que é neutro e indiferente aos problemas humanos, sociais, econômicos e políticos, porque se referia somente ao “espiritual”.
Pode ser bom lembrar uma vez mais: Jesus está longe da beneficência e do assistencialismo... Não se trata de “fazer caridade” aos pobres, mas de inaugurar a ordem nova integral, a única que permite falar de uma libertação real... É importante cair na conta de que muitas vezes que se fala de uma opção preferencial pelos pobres se está claramente em uma mentalidade assistencial, muito distante do espírito de Lucas 4, 14ss.
A palavra evangelizadora, ou é ativa e prática na práxis de libertação, ou é anti-evangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata. É uma palavra que faz referencia à realidade e a confronta como projeto de Deus. “Evangelizar é libertar a Palavra” (Nolan). Uma palavra que não entra na historia, que não se pronuncia, que se mantém por cima dela ou nas nuvens, ou não mobiliza, são sacode, não provoca solidariedade (nem suscita inimigos)... não é herdeira da “paixão” do Filho de Deus.
Oração: Ó Deus que em tantos povos e religiões suscitastes desde o início dos tempos, por obra do Espírito, homens e mulheres capazes de intuir teu amor libertador pelos pobres e que em Jesus não destes o modelo perfeito: faze, te pedimos, que também nós hoje, em nosso dia-a-dia cumpramos o sonho dos profetas, sentindo-nos enviados a anunciar a Boa Noticia aos pobres e a todos os que necessitam converter-se aos pobres. Nos te pedimos, inspirados por Jesus, teu filho e irmão nosso. Amém.

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27 de janeiro - domingo

III DOMINGO DO TEMPO COMUM 27/01/2013
1ª Leitura Neemias  8, 2-4 a 5-6.8-10
Salmo João 6, 63 “As palavras que vos tenho dito são espírito e vida”
2ª Leitura 1 Cor 12, 12-30
Evangelho Lucas 1, 1-4: 4, 14-21

                                       “A PALAVRA ENCARNADA” -Diac. José da Cruz
Ao visitar Nazaré, cidade onde havia se criado, Jesus foi participar de uma celebração na sua comunidade, onde sempre fazia uma leitura e depois ajudava o povo a refletir, como fazem hoje nossos ministros leigos, que celebram a Palavra.
Podemos até imaginar a alegria do chefe da sinagoga quando viu Jesus chegar, ele era muito querido na comunidade, não só por ser uma pessoa simples, mas porque falava muito bem e demonstrava uma sabedoria superior aos sacerdotes, escribas e fariseus, sua catequese era bem prática e logo cativava. Por isso, ao vê-lo entrar na comunidade, o chefe da sinagoga foi logo pedindo para que ele fizesse uma leitura, porque parece que, como acontece me nossas comunidades, naquele dia o leitor escalado não apareceu.
Jesus escolheu o livro do profeta Isaias que era o seu preferido, porque já o havia lido várias vezes e tinha a nítida impressão de que o texto falava dele.
Conforme Lucas que escreveu este evangelho de maneira ordenada e após muito estudo, por este tempo Jesus estava iniciando o seu ministério, já havia sido batizado e enfrentara com muita coragem o diabo, que no deserto tentou desviá-lo da sua missão.
A verdade é que Jesus tinha uma grande vontade de sair pelo mundo, ajudando as pessoas e falando de uma coisa que sentia em seu coração, foi com certeza por isso que naquele dia voltou à comunidade, e quando já no ambão, começou a ler o profeta Isaias, na passagem onde diz “O Espírito do senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para levar a Boa notícia aos pobres, anunciar a libertação aos cativos e aos cegos e anunciar um ano de graças do Senhor”, seu coração começou a bater mais forte, percebeu que Deus não apenas falava para ele, mas falava dele, da sua vida, da sua história e da sua missão. Ele já havia sentido muito forte a presença desse Espírito de Deus no dia do seu batismo, e no confronto com o diabo no deserto, sentiu toda a força que o espírito lhe dava.
Nessa celebração as coisas ficaram muitas claras para ele: a libertação com que tanto sonhava junto com seu povo, ia muito além de uma libertação política, a palavra tinha a força de libertar o homem também e principalmente do mal que havia no coração, e que impedia de amar a Deus e aos irmãos. A opressão e a escravidão do seu povo era conseqüência de todo esse mal que havia dentro de cada homem, não só dos opressores. Precisava dizer isso aos pobres, aos cegos e oprimidos, que um tempo novo estava começando, com essa verdade que o Pai revelara através do profeta.
Todos olhavam fixamente para ele à espera da homilia, o mesmo espírito que o havia ungido acabara de transformá-lo na palavra Viva de Deus e por isso, sentando-se como faziam os grandes Mestres, disse: “Hoje se cumpriu essa passagem que acabastes de ouvir”
Também nós cristãos freqüentamos a celebração da palavra em nossas comunidades onde as leituras, mais do que falar para nós falam de nós, pois a história de Jesus é a nossa história, também nós recebemos a graça de Deus em nosso batismo, também nós recebemos a unção do Espírito Santo, não para termos ataques de histeria e entrarmos em transe, mas para termos a mesma coragem de Jesus para cumprir a nossa missão, anunciar a boa notícia aos pobres, oferecer a palavra libertadora a quem está cego e cativo, e falar de um tempo novo onde Deus manifesta todo o seu amor ao homem que o busca.
Para que haja essa interação entre nós e a palavra, é necessário que nossas celebrações sejam bem participadas e preparadas, de maneira bem organizada pensando em todos os detalhes e aí podemos apreender com o escriba Esdras que na primeira leitura nos oferece um ótimo roteiro para celebração da palavra de Deus, onde a assembléia, tocada pela palavra, corresponde com gestos que manifestam o que está no coração, diferente da liturgia do “oba-oba”, muito usada para se atrair multidões, e que ás vezes, com tantos gestos e movimentos, acaba ficando vazia justamente por não ser uma manifestação espontânea do que se tem no coração tocado pela palavra de Deus.
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...“ELE ME CONSAGROU COM A UNÇÃO PARA ANUNCIAR A BOA-NOVA AOS POBRES...” – Olívia Coutinho
III DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 27 de Janeiro de 2013
Evangelho de Lc 1,1-4;4,14-21

Neste terceiro domingo do tempo comum, somos agraciados com este belíssimo evangelho que é constituído por dois textos diferentes.
No primeiro texto, o evangelista  Lucas, apresenta o início de sua obra, uma obra rica em detalhes, que  tem como propósito, demonstrar a solidez e a credibilidade do fato histórico que marcou a história da humanidade: osurgimento de Jesus testemunhado por diversas  pessoas!  
O texto quer nos dizer, que depois  de um  estudo  minucioso e  de  se informar  cuidadosamente sobre a originalidade  dos acontecimentos,  Lucas iluminado pelo Espírito Santo, sente-se  impulsionado a escrever este fato histórico, usando fontes escritas e verbais.
A intenção do escritor sagrado,  é relatar detalhadamente   a vida e o  ministério de Jesus, do seu  nascimento a  sua ascensão, apresentando-nos por tanto,  o caminho de Jesus, como sendo o caminho  que trouxe o projeto de Deus para dentro da história humana.
A mensagem tem como destinatário, alguém, cujo nome é: “Teófilo”, que significa amigo de Deus. Podemos dizer então, que como amigos de Deus,  também nós, somos destinatários desta mensagem!
As palavras contidas neste texto, nos revelam a veracidade do testemunho dos evangelhos, assegurando-nos que eles não são fábulas, e sim, testemunho de fé daqueles que creram, que tiveram razões para crerem, e que  querem fazer com que outros  creiam, tendo razões para crerem.
O segundo texto do evangelho, nos fala da palavra de Deus num contexto comunitário, quando Jesus dá o primeiro passo de seu ministério,  assumindo  publicamente o compromisso de trazer de volta ao convívio do Pai, a humanidade corrompida pelo pecado.
O episódio acontece numa sinagoga, precisamente em Nazaré, onde Jesus viveu grande parte de sua vida oculta. O relato nos diz, que ao  abrir as escrituras Jesus encontra a passagem  onde  Pai,  pela boca do  profeta Isaías, o declara preparado para dar inicio a sua missão: “O espírito do senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”.
A partir de então, começa a  se desenrolar o plano de Deus que  mudou a história da humanidade, com Jesus trazendo  a imagem de um Deus que é Pai e que nos ama incondicionalmente. E assim, o Antigo Testamento deu lugar ao Novo!
O Deus de amor, que se manifestou ao povo na simplicidade de uma criança, volta a se manifestar na  humildade do jovem de Nazaré,  que se apresenta,  com o firme propósito de assumir com veemência a árdua missão  que a Ele fora  designada: dar ao povo de Deus um novo destino!
Jesus estava ciente do caminho difícil que teria pela frente, mas a certeza de que o Espírito do Senhor estava sobre Ele, lhe dava a certeza do êxito da missão!
Ao longo de toda sua trajetória terrena, Jesus em tudo que ia fazer, buscava O Pai,  por isto Ele  sempre tinha: “a palavra certa, no momento certo, para a pessoa certa”.
Vemos no evangelho de hoje, que o povo, cheio de encantamento,  percebe a diferença entre os ensinamentos  de Jesus e os  ensinamentos dos líderes daquela época, que falavam apenas o que ouviam dos outros, enquanto que Jesus falava com autoridade,  falava daquilo que conhecia, ou seja: o que ouvia do Pai!
Hoje todos nós somos convidados a conhecer a verdade que liberta, a viver esta verdade, fundamentados na palavra de Deus, só assim, vamos poder falar com autoridade,  tornando-nos pela força do Espírito Santo,  fonte de libertação para o outro!
 Em sua missão, Jesus iniciou uma nova criação e hoje, Ele coloca  em nossas mãos, a responsabilidade de dar continuidade a essa  missão libertadora, devolvendo a vida e libertando os oprimidos  por esta sociedade insensível, que tenta a qualquer custo abafar o seu grito.
Quando embebedamos desta fonte de vida que é Jesus, vamos a cada dia tornando não somente apreciadores de suas palavras, mas principalmente anunciadores desta palavra, com a nossa própria vida.
FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia 

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Evangelhos Dominicais Comentados

27/janeiro/2010 – 3o Domingo do tempo Comum

Evangelho: (Lc 1,4;4,14-21)


Com a força do Espírito, Jesus voltou para a Galiléia, e sua fama correu por toda a região. Ensinava nas sinagogas deles e era elogiado por todos. Chegou a Nazaré onde se tinha criado. Segundo seu costume, entrou num sábado na sinagoga e se levantou para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, deu com a passagem onde se lia: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar aos aprisionados a libertação, aos cegos a recuperação da vista, para pôr em liberdade os oprimidos, e para anunciar um ano da graça do Senhor. Jesus fechou o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se. Os olhos de todos os presentes na sinagoga se fixaram nele. Então começou a falar-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”.

COMENTÁRIO

Mais uma vez nos encontramos para falar de paz e das lutas por liberdade, por justiça e contra todo tipo de opressão. O evangelho de hoje fala exatamente sobre essas coisas. Podemos dizer que Jesus iniciou sua vida pública neste evangelho.

Jesus entra na sinagoga, lê um trecho da Sagrada Escritura, escrito pelo profeta Isaias (61,1-2) e ao terminar a leitura diz: "Hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura". Com essas palavras, Ele afirma que veio para libertar. A salvação se torna presente, através de Jesus.

Durante a celebração religiosa, na sinagoga, faziam-se duas leituras: uma da lei e outra dos profetas. Qualquer um dos participantes poderia oferecer-se para fazer uma leitura. Jesus ofereceu-se, levantou-se, escolheu esta passagem do profeta Isaias e fez a leitura.

Jesus iniciou a leitura, com estas palavras: "O Espírito do Senhor me consagrou para anunciar a Boa Nova aos pobres". Já pensou? Boa nova para os pobres? O que pode ser uma boa notícia para os pobres? Anunciar o que para esses marginalizados, sem alimentos, sem saúde, sem dignidade, sem nada?

Realmente, será que Jesus teria algo de bom para anunciar aos indigentes das praças e viadutos, aos idosos e menores abandonados? Que boa notícia poderia ter para os favelados, aposentados e desempregados?

A Boa Notícia para todos os excluídos chama-se inclusão, aceitação, amor, libertação. Jesus é a própria Liberdade, Ele veio para libertar-nos de tudo que nos separa de Deus e dos irmãos. Libertar-nos do egoísmo e da ganância que geram pobreza, divisão, opressão e violência.

Muitos ficaram entusiasmados com Jesus, porém poucos acreditaram em suas palavras e se escandalizaram com tudo que viam e ouviam. Era muito difícil acreditar no carpinteiro que se transformara no Messias. Se fosse hoje, acreditaríamos?

Imagine aquele amigo de infância, que freqüentou a mesma escola e que dividiu conosco os mesmos brinquedos. De repente cresceu e agora se apresenta como o libertador dos oprimidos, aquele que tem o poder de devolver aos cegos a visão. Dá para acreditar?

Para aquelas pessoas, certamente foi uma prova muito difícil. Nós somos privilegiados, nossa geração é privilegiada, pois não fomos submetidos a esse teste. Já encontramos tudo pronto.

Nascemos dois mil anos depois. Nesse intervalo, Jesus já nos deu milhares de provas do seu amor e do seu poder, por isso, só não vive suas Palavras e não acredita, quem não quer.

Nós temos provas evidentes, por isso seremos também mais cobrados. Mesmo assim, apesar de tantas provas, milhares e milhares não acolhem Jesus, não vão ao seu encontro, não vivem suas Palavras, não lutam por dignidade e justiça, nem promovem a paz.

Jesus identificou sua missão através da Palavra de Deus. Nós também precisamos fazer o mesmo. Evangelizar os pobres de espírito, libertar os oprimidos pela sociedade, remir os prisioneiros das superstições e tradições, recuperar as vistas daqueles que não querem enxergar e proclamar a Boa Nova a todos os povos.
Essa tarefa é nossa, esta é a missão de cada um dos seguidores de Jesus. 

(1634)

jorge.lorente@miliciadaimaculada.org.br- 27/janeiro/2013         


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Domingo 27
Lc 1,1-4; 4,14-21

Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura.
Este Evangelho tem duas partes:
1) Início do Evangelho de Lucas, em que ele declara a sua intenção.
2) Jesus, citando o profeta Isaías, expõe o programa da sua missão libertadora. Essa missão é de salvação integral, voltada prefencialmente para os excluídos da sociedade: pobres, cativos, cegos e oprimidos.
Par nós, como Igreja, continuarmos essa missão de Jesus a nós confiada, temos de denunciar qualquer opressão e exploração da pessoa humana. Denunciar e colaborar na libertação, como fazia Jesus. Temos de praticar e promover a justiça, combatendo as forças da morte presentes no mundo.
Contudo, não podemos julgar que o Reino de Deus se limita à libertação temporal, pois seu conteúdo fundamental é a salvação e a graça de Deus. Só a graça nos traz a completa libertação.
O primeiro passo é a nossa conversão para a justiça e o amor aos irmãos. Só se entende a libertação se ela partir de dentro de nós. Esse é o nosso desafio. Os pobres só se libertam quando nós nos tornamos pobres, evitando todo paternalismo. O paternalismo é justamente o rico ajudando o pobre e continuando no seu mundo de rico.
A reconstrução da figura original do homem, restabelecida e apresentada a nós na pessoa de Jesus Cristo, exige transforma “Cristo em minha vida e a minha vida em Cristo”. Pensar como Jesus pensou, falar como Jesus falou, amar como Jesus amou, viver como Jesus viveu.
É magnífico o trabalho dos artistas que restauram imagens, pinturas e afrescos que foram danificados. Cada um de nós é chamado a ser esse artista em nós mesmos e nos nossos irmãos. É a imagem de Deus, vocação original do homem, que é restaurada.
“Vós sois o corpo de Cristo” (1Cor 12). O amor mútuo, que nos leva à mútua colaboração, cada um com o seu dom, faz da Comunidade cristã o corpo vivo de Cristo presente ali no bairro. “Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. Este é o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também seu irmão” (1Jo 4,20-21).
Os primeiros cristãos procuraram por em prática essa denúncia de Jesus às injustiças da sociedade. Por isso muitos foram condenados à morte. Apesar disso, a Igreja não desiste de continuar essa missão de Jesus.
No programa, Jesus mistura o vertical e o horizontal, a dedicação ao corpo e a dedicação à alma. Ele não as separa, pois o próprio Criador não separou, criando-nos corpo, alma e espírito misturados. Quem ama verdadeiramente a Deus, ama também o seu próximo, privilegiando os excluídos. E esse amor inclui também a proteção à natureza, evidentemente.
Neste Evangelho, Jesus fala que veio proclamar o “ano da graça do Senhor”. Essa expressão é sinônima de “ano sabático”. O Povo de Deus do Antigo Testamento celebrava, a cada sete anos, o ano sabático, que não era nada mais que o descanso semanal do sábado ampliado para um ano todo. “Durante seis anos semearás a terra e recolherás os seus frutos. No sétimo ano, porém, deixarás de cultivar a terra, para que se alimentem os pobres, e os animais selvagens comam o resto” (Ex 23,10-11).
O “ano da graça do Senhor”, em Isaías (Is 61,1-2), está expresso como “ano do agrado do Senhor”. Portanto, é viver bem com Deus, obedecendo os seus mandamentos e fazendo a sua vontade. O livro do Deuteronômio determina que no ano sabático todas as terras deviam voltar às tribos originais, conforme foi dividido quando o povo chegou à Terra Santa. Também as dívidas deviam ser perdoadas e os escravos libertados.
Quando Jesus falou que veio proclamar o ano da graça do Senhor, ele quis dizer que, de agora para frente, todos os anos são sabáticos. O ano da graça do Senhor é um ano sabático permanente, não só para todos os anos, mas para todos os dias do ano. Esta é a lei do novo Povo de Deus, a Igreja.
Esse permanente ano da graça do Senhor, custou a morte de Jesus, como oferta total dele por nós. Amar não é dar coisas ao próximo, mas buscar a sua felicidade, mesmo que para isso precisemos sacrificar a nossa vida. “Ninguém tem maior amor do que aquele dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).
O amor só é verdadeiro se inclui, desde o começo, uma doação da vida. O amor, ou é total, ou não é amor. Amor parcial não existe, é apenas caricatura de amor ou egoísmo com o nome de amor. Quando vemos um mendigo na rua e lhe damos um trocado, ou apenas um sorriso, não lhe estamos dando apenas um trocado ou um sorriso, mas a nossa vida toda a ele, se necessário for.
O Evangelho mostra também o protagonismo do Espírito Santo na vida, obra e missão de Jesus. É o Espírito que intervém desde o seu nascimento e batismo. Nós também fomos ungidos pelo Espírito Santo no Batismo e na Crisma, a fim de atuar como Cristo atuou, vencendo o mal do mundo e sendo mensageiro da Boa Nova.
Havia, certa vez, um homem que admirava muito a criação de Deus, mas vivia encabulado com uma coisa: Por que nunca chegamos até o horizonte? A gente olha, ele está a um km de nós. Se caminhamos até lá, ele já foi para frente e está a mais um km de dós. Não entendo, dizia ele. E nas suas orações sempre pedia uma explicação para Deus.
Um dia, Deus apareceu para ele em sonho e lhe disse: “É para que você esteja sempre caminhando! O horizonte faz você ir para frente, por isso que você nunca o atinge”.
A continuidade da missão de Jesus na libertação tanto de nós mesmos como dos nossos irmãos, é como o horizonte. É um trabalho contínuo que só concluiremos no final da nossa vida, quando nos encontrarmos com Deus.
Maria Santíssima, a discípula fiel do Senhor, viveu de forma plena esse programa do seu Filho. Que ela nos ajude a vivê-lo também.
Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura.

Padre Queiroz
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Domingo 27.01.13

Lucas 1,1-4; 4,14-21
: A Palavra nos dá o norte e nos coloca em consonância com a Missão de Jesus que hoje é também a nossa missão- Maria Regina.
                                Jesus Cristo é a figura central de toda a Escritura e os acontecimentos que antecederam à Sua vinda foram um sinal para a humanidade de que Ele viria para cumprir a promessa de salvação de Deus Pai. Por isso mesmo, quando nós mergulhamos na Palavra de Deus nós percebemos a dimensão da Missão Salvadora de Cristo e como todas os fatos têm coerência dentro do Projeto de Deus para a humanidade. Mesmo para as coisas que, às vezes, nós não compreendemos, nós encontramos mais adiante, a resposta. A Palavra de Deus também nos ajuda a descobrir qual o itinerário que Deus já designou para que nós vivamos ajustados à Sua vontade e como nós podemos abraçar a salvação de Jesus.
                             A Palavra nos dá o norte e nos coloca em consonância com a Missão de Jesus que hoje é também a nossa missão. E foi analisando a Lei de Deus que Jesus também pôde compreender qual a missão que Lhe fora destinada. A força do Espírito impulsionava Jesus a reconhecer, abraçar e, até anunciar o seu ministério. No tempo preciso Ele entendeu que o Seu encargo seria levar a humanidade para Deus. Anunciar a boa nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos, recuperar a vista dos cegos e apregoar a misericórdia do Pai. Tudo isto Jesus cumpriu quando viveu aqui na terra e hoje continua cumprindo através de cada um de nós que entende que a sua missão é a mesma de Jesus.
                            O Espírito Santo é quem nos dá a unção para, em Nome de Jesus, também curar, libertar, restaurar a visão e alardear a sua misericórdia. Reflita – Você também tem buscado na Palavra o Caminho que Deus já traçou para sua vida? – Você se sente co-responsável com a Missão de Jesus? – Como você tem exercido essa missão? – Você tem encontrado ajuda do Espírito Santo? – Você tem procurado nas Escrituras também uma missão específica para você?
Amém
Abraço carinhoso
- Maria Regina

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Há três aspectos na liturgia da Palavra de hoje dignos de particular atenção.
Primeiro. O evangelho apresenta-nos o início da obra de Lucas. Aí tem-se uma dedicatória e uma apresentação da obra a um certo “Teófilo”. E Lucas afirma expressamente que “após um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti… Deste modo poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste”. Estas palavras nos revelam a seriedade do testemunho dos evangelhos. Não são fábulas, não são delírios! São, isto sim, um testemunho de fé! Testemunho de quem crê, de quem tem razões para crer e querem fazer com que outros creiam e creiam com razão profunda!
Num mundo de tantas verdades, de tantas mentirinhas, de tantas seitas, lendas e mitos… Num mundo que virou um enorme coquetel de religiões, onde cada um faz a sua, na sua medida e do seu modo, na proporção e no gosto do seu comodismo, é preciso recordar que somente em Cristo Deus revelou-se plenamente; somente Cristo é a Verdade do Pai; somente ele, o Caminho para Deus; somente nele, a Vida em abundância! Mas, ainda aqui, é preciso dizer mais, por mais chato que possa parecer! Cristo é o único Caminho, Verdade e Vida… mas não qualquer Cristo! Não um Cristo inventado, não um Cristo “meu”, do meu tamanho e do meu gosto! O Cristo que o Pai revelou, o Cristo vivo e atuante, é aquele presente na Palavra guardada, pregada e testemunhada pela Igreja com a assistência do Espírito Santo; é aquele que se dá nos sacramentos da Igreja; é aquele presente na Igreja que no Credo professamos como sendo única, católica e apostólica. Num mundo de tantas dúvidas, Cristo presente na sua Igreja católica seja a nossa certeza, a nossa segurança, o nosso rochedo!
Um segundo aspecto. Ainda o evangelho de hoje, nos apresenta Jesus na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção”. Quando deu-se esta consagração? No batismo às margens do rio Jordão. Há quinze dias meditávamos sobre este mistério: o Pai, o Senhor, ungiu Jesus com o Espírito Santo como Messias de Israel. E qual a sua missão? “consagrou-me com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista, para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Eis a missão de Jesus, o Messias: acolher, consolar, perdoar, libertar, fazer viver. Mas, para que experimentemos Jesus assim, é necessário que nós mesmos descubramos que somos pobres, que somos tão carentes, tão limitados, tão pequenos. Quando descobrimos isso, quando vemos que o mundo é assim, então experimentamos também que, em Jesus, Deus veio a nós, Deus deu-se a nós, Deus estendeu-nos as mãos, abriu-nos os braços e aconchegou-nos no coração.
É por isso que a pessoa, os atos e as palavras de Jesus são Boa-nova, Boa-notícia, ou, em grego, Evangelho! E a Boa-nova é precisamente esta: Deus nos ama, está conosco em Jesus; veio para ficar, para permanecer para sempre na nossa vida e no coração do mundo!
Aqui entra, precisamente, o terceiro aspecto da Palavra deste domingo: este Jesus permanece conosco na potência sempre presente e atuante do seu Espírito Santo, presente de modo potente e soberano na Igreja que Jesus fundou. Já no domingo passado, vimos que a Igreja é a Esposa do Cristo, cheia do vinho abundante do Espírito Santo, que nela suscitava tantos dons, tantos carismas, tantos ministérios, tanta vida. Pois bem, a segunda leitura da missa de hoje insiste nesta idéia e aprofunda-a ainda mais.
Porque Cristo ressuscitou e nos deu o seu Espírito Santo, nós, como Igreja, desde o nosso batismo, somos o Corpo de Cristo: “Vós, todos juntos, sois o Corpo de Cristo e, individualmente, sois membros deste Corpo”. É juntos, como comunidade, como membros da Igreja, que somos o Corpo vivo do Cristo; Corpo vivificado pelo Espírito Santo! É uma idéia, esta, que deveria estar sempre diante de nós! A Igreja não existe por ela mesma: ela vive do Espírito do Cristo; a Igreja não escolheu o Cristo: ela foi por ele amada, por ele fundada, por ele escolhida e é por ele sustentada e vivificada; o Cristo não pertence a Igreja: a Igreja é que pertence a Cristo e, na força do Espírito é sempre amada e renovada por ele. Ele nunca vai abandoná-la, nunca vai traí-la, nunca vai renegá-la!
E mais ainda: no seu Amor, isto é, no seu Espírito, ele suscita no corpo da Igreja, que é o seu Corpo, tantos membros diferentes, com dons e carismas tão diversos! É o que são Paulo nos recorda na leitura de hoje. Ninguém pode ser cristão sozinho! Cristo não é salvador pessoal de ninguém! Ele é o Salvador do Corpo que é a Igreja (cf. Ef. 5,23)! Nós somos salvos no Corpo de Cristo, enquanto membros do povo da Aliança, que é a Igreja. Nesta, quem nos une é o Amor de Cristo e nela, cada um de nós tem uma missão, uma função! Qual é a sua? Quais são as suas? Pai ou mãe de família, educando novos membros para o Corpo de Cristo? Agente de pastoral engajado diretamente na evangelização? Jovem que se esforça para dar um generoso testemunho de coerência e amor a Cristo? Empresário, funcionário público, empregado, que no seu trabalho procura ter um comportamento digno do Evangelho? Qual o seu papel na Igreja? Rico ou pobre, forte ou fraco, jovem ou ancião, todos temos como honra e dignidade ser membros do Corpo do Senhor, sustentados e vivificados pelo Espírito do Senhor, destinatários da salvação e da consolação que ele nos trouxe, do carinho e da ternura do Pai que ele derramou sobre nós.
Desde domingo passado que a Palavra vem nos questionando sobre o nosso modo de ser e viver nossa pertença a Cristo e à sua Igreja. Pensemos, e não recebamos em vão a graça de Deus, para que, um dia, possamos participar da vida plena daquele que Senhor que, feito homem por nós, vive e reina para sempre.
dom Henrique Soares da Costa
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A homilia de Jesus na sinagoga de Nazaré, primeiro ato da sua “vida pública” no Evangelho segundo Lucas, está resumida em três palavras: “Hoje a Palavra se realiza”. A Bíblia não é um museu nem um repertório de antiguidades. Ela fala hoje e deve realizar-se hoje.
Na leitura pública da Lei de Deus após a volta do exílio, o povo fica atento desde a manhã até o meio-dia; por fim todos se põem a chorar, pois entenderam que o que foi lido falava de sua vida, de sua história e do momento que viviam.
A Bíblia é escrita não para dar informações frias e objetivas ou para deixar documentos para museu ou para arqueólogos, e sim para formar segundo a justiça (2Tm. 3,16). Seu objetivo não é satisfazer a curiosidade dos historiadores, mas reforçar a fé e a prática dos discípulos. Existe para hoje, não para o passado. É como a eucaristia, que faz memória, se realiza e provoca.
1º leitura: Ne. 8,2-4a.5-6.8-10
O texto narra uma leitura pública da Lei de Deus. O povo voltou do cativeiro e a vida recomeça na terra de Judá. Novo começo exige renovação da aliança e, portanto, uma leitura solene e oficial da Lei do Senhor.
O povo todo se reúne como uma só pessoa. Mesmo os que não tinham sido levados para o exílio ou seus filhos, todos se consideram repatriados, em busca de – à luz da palavra de Deus – retomar a vida na terra que Deus lhes dera.
O leitor é o sacerdote e escriba Esdras. A experiência do exílio, longe do templo, então destruído, fez que a palavra de Deus se tornasse mais importante do que o culto. A leitura é solene e há tradução ou explicação para todos os que falavam o aramaico e já não entendiam tão bem o hebraico.
Ao final, o povo chora. O que foi lido falou de sua vida, dos últimos acontecimentos, de seus erros, de seus sofrimentos e das novas esperanças que agora eles viviam; tudo estava ali nos textos bíblicos que acabavam de ouvir. Por isso, choraram. Entretanto, voltam para casa felizes e reanimados, pois agora têm a luz da palavra de Deus para iluminar suas vidas.
2ª leitura: 1Cor. 12,12-30)
Continuamos lendo o capítulo 12 da primeira carta aos Coríntios. Paulo já havia insistido em que as diferenças de dons, ministérios e atividades não significam desigualdade, porque tudo deve colaborar para o bem comum.
Talvez alguns ainda não entendam bem o que isso significa e se prendam mais às diferenças, o que leva ao espírito de competição. Paulo usa, então, a comparação do corpo.
Não há ciúme nem espírito de competição entre os diferentes órgãos e membros do nosso corpo. Assim também invejas, ciúmes, vaidades e espírito de competição nunca podem fazer parte da vida cristã.
Evangelho: Lc. 1,1-4; 4,14-21)
A terceira leitura de hoje une dois trechos do Evangelho segundo Lucas: a introdução, onde ele conta como escreveu o evangelho, depois a leitura da Bíblia em Nazaré e a homilia de Jesus, que declara o objetivo de sua missão.
A Pontifícia Comissão Bíblica publicou, em abril de 1993, um documento sobre a interpretação da Bíblia na Igreja católica. Ali se diz que um dos maiores erros da leitura fundamentalista ou literal da Bíblia é confundir, no caso dos evangelhos, a última etapa – ou seja, os evangelhos como os temos hoje – com a primeira etapa, os fatos e palavras de Jesus que deram origem aos evangelhos. É o grande erro achar que os evangelhos contam tudo exatamente como aconteceu.
Na introdução ao Evangelho segundo Lucas, podemos encontrar estas quatro etapas da formação dos evangelhos:
1. os acontecimentos;
2. as pregações dos apóstolos e discípulos de Jesus;
3. vários escritos menores;
4. os evangelhos atuais, como estão na Bíblia.
Podemos observar: “Muitos tentaram escrever (3ª etapa) a história dos fatos (1ª etapa) assim como nos transmitiram (...) testemunhas oculares (...) ministros da Palavra (...) (2ª etapa) decidi também eu redigir (...) um relato ordenado” (4ª etapa).
O objetivo do evangelho é “para que conheças a solidez do ensinamento que recebeste”. É dar firmeza à fé do Teófilo, quer dizer, do amigo de Deus que cada um de nós pretende ser.
O segundo trecho descreve uma leitura pública da Escritura que, num sábado, Jesus faz durante a celebração da Palavra na comunidade de Nazaré, sua terra. Jesus lê e explica: “Essa passagem da Escritura se realiza hoje, aqui!” A reação é de espanto e, depois, de indignação. As pessoas começam se perguntando se ele não é o conhecido “filho de José” e terminam querendo jogá-lo no precipício. Mas, “passando pelo meio deles, ele seguiu seu caminho”.
Qual é a palavra da Escritura que Jesus aplica a si mesmo? É o programa de seu ano missionário segundo Lucas. O evangelista une duas passagens de Isaías: uma do capítulo 61,1-2 (“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres, enviou-me para anunciar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista”) e outra do capítulo 58,6 (“para dar liberdade aos oprimidos”), voltando por fim a 61,2 (“e proclamar o ano de graça da parte do Senhor”).
Certa vez alguém me perguntou: “Por que a Bíblia fala tanto em ‘evangelizar os pobres’ e não os ricos, que parecem estar mais distantes de Deus e da fé?” A missão de Jesus, resumida nessa citação de Isaías, é exatamente evangelizar, ou seja, levar boa notícia (é o que significa a palavra evangelizar) aos pobres, proclamar o ano da graça ou do agrado de Deus, o jubileu. Nesse ano, segundo Levítico 25,10, quem está preso por causa de dívida recupera a liberdade, quem devia tem suas dívidas perdoadas, quem perdeu suas terras, seu meio de vida, volta para a antiga propriedade. Isso não é boa notícia para os pobres? Para os ricos talvez não seja tão boa... Mas é a missão de Jesus.
É o programa de Jesus no Evangelho segundo Lucas: “Hoje essa palavra se realiza”. A preocupação com os pobres percorre todo o Evangelho de Lucas. Jesus não nasce num berço de ouro; seu berço é o cocho de um estábulo. Seu nascimento é anunciado aos pastores, gente pobre e temida, como os ciganos e os sem-terra de hoje. “Hoje nasceu para vós um salvador”: salvador dos pobres, ele será reconhecido na pobreza do berço. As viúvas pobres estão presentes neste evangelho bem mais do que nos outros. As parábolas próprias de Lucas falam do homem sem nome, roubado e caído à beira do caminho; falam dos pobres forçados a entrar para a festa do rei; falam do pobre Lázaro caído à porta do banquete diário do rico e do abismo que os separa aqui e na eternidade.
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Os olhos de todos se fixaram em Jesus
Ressoam aos nossos ouvidos as palavras  de Jesus na sinagoga de Nazaré. Mal e mal tinha ele começado sua atividade pública, mormente de  pregador andarilho e de alguém que se aproximava de toda sorte de miséria e de enfermidade.    Está em sua terra. Conforme  o  costume dirige-se à sinagoga em dia de sábado. Culto na sinagoga, louvor de Deus, auscultação da Palavra que animava a fé dos judeus.  Jesus é encarregado de fazer a leitura. Lê Isaías:  “O Espírito  do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para  anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar  a liberação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar um ano de graça  do Senhor”.  Solene texto em que o profeta olha para o amanhã  do povo e vislumbra o Ungido que realiza a obra de Deus.
Terminada a leitura  fecha o livro e o entrega   à pessoa encarregada de serviços  na sinagoga.  Lucas diz que ele sentou-se. Sentou-se como um mestre que ocupa a cátedra.  Depois daquela solene leitura as pessoas esperavam sua palavra. “Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.  Esperavam com avidez sua palavra.
E Jesus fez sua grande homilia, semelhante às que são feitas em  todas  as celebrações eucarísticas.  “As palavras que acabo de ler,  tiradas de nossas Escrituras Santas, se aplicam a mim. Mesmo sendo eu de origem simples de todos conhecida, filho do carpinteiro José,    devo afirmar que o Espírito me ungiu, fez com que eu recebesse a força e o perfume do óleo.  Sou o Cristo, em outras palavras, o Ungido.  Vim para me fazer presente perto de todos os pobres. O Pai quer me aproxime deles para anunciar uma  Boa Nova. Ele ama a todos e quer que eu me aproxime de modo especial dos mais  abandonados.  Chegaram os tempos definitivos.  Começa um mundo do novo. Abro as cortinas do mundo novo que é o Reino.   Eu sou o mensageiro da Boa Nova.  Eu, de alguma forma sou a Boa Nova, porque quem me vê, vê o Pai. Venho me aproximar dos que não se valem de suas  forças e  luzes,  mas são pobres.  Venho curar cegos, dar força aos joelhos que fraquejam,  abrir os ouvidos  aos surdos.  Vai começar um tempo novo:  as pessoas ouvirão os sons com os ouvidos exteriores, mas muitos captarão com os ouvidos do coração a cantiga de um mundo novo.  Venho anunciar um mundo novo em  que os que servem serão reis e os poderosos serão destronados. Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura”.
“Cada página do evangelho não é palavra morta, mas palavra viva  que Deus diz a nós e deve realizar-se hoje. O evangelho  não narra apenas a vida de Jesus, mas também a minha vida.  O evangelho nos contém, nos envolve. Por isso, a liturgia da Palavra não é uma simples lição de moral, nem a afirmação da esperança escatológica recebida  dos profetas; mas proclama o cumprimento do desígnio do Pai no hoje da vida e da assembléia. Não se contempla aí um  passado desaparecido, nem se imagina um futuro extraordinário, mas se vive o tempo presente como  lugar privilegiado da vinda do  Senhor. Portanto não se procura aplicar aos fatos  vividos pelos membros da assembléia  um ou outro texto inspirado, mas indicar que o acontecimento  vivido hoje pelos homens e pelos cristãos revela o desígnio de Deus  que se realiza em Cristo “ (Missal dominical da Paulus, p. 1095).
frei Almir Ribeiro Guimarães
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Pregação inaugural de Jesus
Lucas narra a atividade de Jesus com jeito de historiador. Não no sentido moderno da palavra – homem de escavações e bibliotecas -, mas no sentido antigo: alguém que sabe contar os fatos de modo que a gente os possa imaginar. Não existiam as atuais exigências da historiografia, a documentação consistia principalmente em depoimentos orais, recolhidos de modo empírico. Mesmo assim, Lucas colecionou os dados a respeito de Jesus, para dar um embasamento sólido à fé de seus contemporâneos, lá pelos anos 80 d.C., para mostrar-lhes melhor quem foi e o que fez Jesus de Nazaré.
Como bom narrador, Lc imagina Jesus iniciando sua pregação lá na sua terra, em Nazaré, na reunião de sábado na sinagoga (*). Os adultos podiam comentar a Lei a partir de um texto profético. Jesus abriu o rolo do profeta Isaías, no texto que fala da missão do mensageiro de Deus para instaurar a verdadeira justiça e liberdade, pelo fim da opressão e a realização de um ano sabático ou jubilar, para restituição dos bens alienados, com vistas a um novo início de uma sociedade realmente fraterna, como convém ao povo de Deus (cf. Dt. 15).
Proclamando que esta profecia se realiza no presente momento, “hoje”, Jesus: 1) se identifica como porta-voz estabelecido (“ungido”) por Deus e impulsionado por seu es­pírito (força e iluminação), para levar a “boa-nova” aos oprimidos; 2) anuncia o início de uma nova situação da comunidade, restaurada conforme a vontade de Deus: o tem­po messiânico. Nenhuma das duas coisas é muito evidente … O pronunciamento de Je­sus provocará uma reação negativa do povo (que será narrada no próximo domingo). Hoje, portanto, ficamos com a “declaração de programa” de Jesus: instaurar a realidade messiânica.
Por trás disso está toda uma história. Fazia muito tempo que se sonhava com um “ano de restituição”. Textos como Ne 5 nos mostram que o ano de restituição era uma necessidade desde muitos séculos, mas a Bíblia não conta que alguma vez tenha sido realizado. Era uma utopia. Jesus pretendia realizar a utopia? Ele queria converter as pessoas a Deus, mas a conversão se devia comprovar por sinais exteriores, e a realização da velha utopia do ano de restituição seria um sinal muito eloqüente.
A 1ª leitura fornece um pouco de “cultura bíblica”, necessária para imaginar os costumes e sentimentos do judaísmo pós-exílico referentes à leitura da Lei. Mostra o protótipo do culto sinagogal: a leitura da Lei. (A figura central, Esdras, contemporâneo de Neemias, pode ser considerado como o “pai do judaísmo”, quando, depois do exílio babilônico, as famílias de Judá voltam ao distrito de Jerusalém.)
Uma mensagem própria traz a 2ª leitura: a alegoria do corpo e dos membros. Essa alegoria, Paulo a aprendeu na escola: pertence à cultura greco-romana (fábula de Menênio Agripa). Paulo a aplica à Igreja: nenhum membro do corpo pode dizer a outro que não precisa dele. E, com certo humor (que desaparece na versão abreviada), fala também dos membros mais frágeis, que são circundados com cuidados maiores – alu­são aos capítulos iniciais da 1 Cor. onde Paulo critica os partidarismos e ambições que dividem a igreja de Corinto e lembra que Deus escolheu o que é fraco e pequeno neste mundo (1,26; cf. dom. próximo).
Existe na Igreja legítima diversidade, desde que se realize a necessária unidade: o pluralismo. O Espírito de Cristo revela-se, nos fiéis, de muitas maneiras: as diversas funções na comunidade, os diversos modos de expressar a consciência de sua fé, as diversas “teologias” fazem parte desta multiplicidade de órgãos, que constitui o corpo. Ninguém precisa reunir em si todas as funções e toda a teologia (12,30). Importa que todos contribuam para a edificação do único “corpo” de Cristo neste mundo – e corpo significa, biblicamente, o estar presente e atuante.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Jesus em Nazaré
Lucas não foi apóstolo e não vivenciou o ministério público de Jesus, por isso, teve que estudar muito os documentos, pesquisar e consultar os apóstolos e, principalmente, os escritos de Marcos, único documento íntegro na sua originalidade, para que pudesse escrever as tradições de Jesus e o início da Igreja. Uma das fontes de Lucas, também, pode ter sido Maria, a Mãe de Jesus, cujas palavras que se encontram no seu Evangelho só podiam ter vindo dela mesma.
Ter fé no evangelho é crer e aderir a Deus que entra na história da humanidade. Neste sentido, todos os cristãos são como “Teófilo” (nome que significa amigo de Deus), aquele a quem Lucas dedica seus escritos.
Após o Batismo, Jesus foi para o deserto, e ali foi tentado e venceu o mal. Agora Ele volta repleto da força do Espírito Santo, para a região da Galiléia, fazendo milagres e transformando a vida das pessoas, o que fez com que sua fama logo se espalhasse.
Jesus era israelita e, por isso, também frequentava as sinagogas aos sábados para rezar e ouvir as leituras e comentários da Lei e dos Profetas. Os que faziam as leituras eram membros da comunidade, pessoas instruídas ou visitantes que conheciam bem as Escrituras, e Jesus foi convidado, na Sinagoga de Nazaré, a proclamar a leitura. O fato de se levantar, pegar o livro, ler a Escritura e sentar-se para explicá-la, faz com que Ele seja visto como um Escriba e não como uma pessoa comum.
Somente Jesus poderia ler em primeira pessoa o texto de Isaías aplicando-o diretamente a Si, prenunciando Sua missão. Ele, objeto da profecia, está presente em Pessoa cheio do Espírito Santo, vindo anunciar aos humildes e pequeninos a salvação que liberta todos de tudo que os fazem sofrer, que os escravizam e que os afastam do Reino de Deus.
Ele é como o profeta anônimo que vem para consolar e dar vida ao povo, representado pelos pobres sem vida e sem acesso aos bens para sustentá-la, aos humildes, enfraquecidos e marginalizados pela ambição dos que governam.
O ‘ano da graça’ referido é o jubileu celebrado em Israel a cada 50 anos (o ano sabático). Aquele era o momento em que todos podiam recuperar os direitos que haviam sido perdidos: quem estava devendo recebia o perdão das suas dívidas; as terras que tinham sido entregues como hipoteca ou haviam sido roubadas eram devolvidas; e todo o povo recomeçava uma vida nova, porque a partilha dos bens voltava a ser o equilíbrio das relações sociais, e os marginalizados voltavam a fazer parte da sociedade. Portanto, é em Jesus que as profecias de Isaías se realizam, no ano da graça.
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As escrituras realizadas
O texto do profeta Isaías, lido na sinagoga de Nazaré, foi usado por Jesus para explicar sua identidade e missão. O profeta, num contexto bem determinado da história de Israel, falara do Messias a ser enviado por Deus, com a tarefa de trazer libertação para a humanidade: libertar as vítimas da pobreza, os encarcerados, os cegos, os cativos de toda sorte de opressão; enfim, todos os que padeciam qualquer sorte de escravidão.
Ao longo dos séculos, a esperança pela vinda deste Cristo libertador foi calorosamente acalentada no coração dos oprimidos, sem, contudo, vê-la realizada.
Jesus identificou-se com a pessoa messiânica descrita pelo profeta. Sentiu-se, pois, chamado a viver o que, outrora, Isaías tinha anunciado. Sua vida deveria tomar o rumo indicado no texto profético, que também haveria de ser seu referencial inspirador. Sabia-se chamado a concretizar o projeto de Messias libertador, conforme o profeta anunciara. Por isso, colocar-se-ia a serviço de todos os deserdados deste mundo, vítimas do egoísmo, para resgatar-lhes a dignidade e inseri-los no Reino querido pelo Pai.
Ao proclamar que esse texto da Escritura havia sido nele realizado, Jesus assumia um compromisso concreto de se tornar servidor dos pobres.
Oração
Espírito missionário, conforma minha vida com a de Jesus, colocando-me a serviço da libertação dos mais pobres e sofredores.
padre Jaldemir Vitório

Neste domingo iniciamos a leitura do Evangelho de Lucas. Os evangelistas têm seu modo próprio de ver a pessoa de Jesus. É sempre o mesmo Jesus, visto, porém, sob aspectos distintos. O evangelista tem uma teologia própria e escreve para os destinatários que ele tem em vista. Para isso ele seleciona dentre as muitas informações que possui, aquelas que lhe parecem mais significativas para a transmissão da sua mensagem.
Nesse sentido, Lucas não é Marcos, Marcos não é Mateus, e João se distingue ainda mais dos três primeiros. Todos falam de Jesus e do mesmo Jesus com uma visão teológica própria. Assim Lucas fez um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu com Jesus, procurou informar bem, e escreveu um Evangelho para mostrar que os ensinamentos que recebemos são sólidos.
Depois do batismo, Jesus foi a Nazaré, com a força do Espírito Santo e, na sinagoga, num dia de sábado, Ele anunciou a todos o seu programa, dizendo para que veio a este mundo. O anúncio foi feito na leitura das Escrituras Sagradas. Jesus tomou as palavras do profeta Isaías e disse a todos que elas se realizavam N'ele.
O Espírito do Senhor está sobre Jesus, que foi ungido para evangelizar os pobres; foi enviado para proclamar a libertação aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor. Isto está acontecendo agora, diz Jesus ao povo que o escutava. Isto está acontecendo N'ele e com Ele, porque foi sobre Ele e sua missão que o profeta Isaías escreveu.
Foi assim que aconteceu no passado, depois do exílio da Babilônia. Esdras e Neemias leram para o povo o Ensinamento do Senhor, que todos se comprometeram a seguir e guardar. Foi um dia de festa porque todos compreenderam que se tratava do anúncio do amor de Deus para com seu povo. É o que Jesus está fazendo na sinagoga de Nazaré, no início do seu ministério público. Ele está dizendo como Deus ama o seu povo. Deus ama Israel e ama toda a humanidade, por isso mandou o seu Filho em socorro de todos, mas, sobretudo dos que se encontravam sem proteção.
A evangelização dos pobres significa a transmissão de uma boa notícia a quem dela precisa; a libertação dos cativos e dos oprimidos lembra toda situação de injustiça que se abate sobre tanta gente neste mundo; os cegos resumem toda limitação física e a falta de visão das causas dos males da vida presente, sejam eles religiosos, morais ou sociais. O ano da graça do Senhor é o ano jubilar, no qual era possível se libertar da dependência das dívidas e recuperar a dignidade e a liberdade. Todos prestavam muita atenção em tudo o que Jesus estava dizendo e pareciam estar de acordo com Ele.
Deus é solidário com todos nós e fez conosco uma aliança de amor. Seu Filho veio a este mundo, experimentou a nossa fraqueza e o nosso sofrimento e revelou como Deus quer que a gente vá bem e seja feliz. O Espírito de Jesus desperta em nós a solidariedade. Por isso são Paulo nos ensina que formamos um grande corpo, o corpo da Igreja, que tem por cabeça o próprio Senhor Jesus e como membros todos os seus seguidores. Uns dependem dos outros e todos se interessam por todos e tratam com cuidado os membros mais fracos.
cônego Celso Pedro da Silva
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Jesus, o profeta que inaugura o reino de deus anunciado pelas escrituras
Qual foi a compreensão que o próprio Jesus teve da sua missão e da sua pessoa? Que relação de Jesus com as Escrituras pressupõe essa compreensão? Qual foi o papel desempenhado pelas Escrituras na formação da dita compreensão? Não podendo analisar todos os textos evangélicos susceptíveis de darem respostas a estas perguntas, vou centrar o estudo em Lc. 4,16-30. Segundo esse texto, Jesus declarou no ato inaugural da sua pregação que a sua obra realiza a missão do ungido de Deus que Is. 61,1-3 põe em cena. De aí que Lc. 4,16-30 me pareça ser particularmente pertinente para a questão da relação de Jesus com as Escrituras. No âmbito do estudo de Lc. 4,16-30, referir-me-ei a Mt 5,3-6 par Lc. 6,20-21 e Mt. 11,2-6 par Lc. 7,18-23, passagens que têm afinidades estreitas com esse texto. Abordarei também os Escritos do Mar Morto para saber como se posicionavam os seus autores em relação a Is. 61,1-3 e, de uma maneira geral, em relação às Escrituras.
Leitura cursiva do relato
O v. 16a é a introdução. Fornece várias informações de forma muito concisa
Os vv.16b-21 relatam o desenrolar de parte do oficio sinagogal do sábado de manhã. Esse ofício comportava os quatro elementos seguintes
1) Orações «<Escuta, Israel», orações, bênçãos);
2) Leitura da Lei (Seder)
3) Leitura dos profetas (haftara)
4) Homilia
É surpreendente que o texto comece com a leitura profética sem sequer mencionar a leitura da Lei, que era o elemento mais importante do ofício. De fato, a leitura profética era concebida como uma explicitação ou uma ilustração da Lei. Os vs. 16b-17 contam os preparativos para a leitura profética, que Jesus tomou a iniciativa de fazer. Qualquer homem adulto (judeu) podia fazê-Ia, assim como a homilia, contanto que fosse instruído e gozasse de boa reputação. Os vs. 18-19 citam a passagem do livro de Isaias que Jesus leu. De fato, Lc. 4,18-19 associa Is 61,1-2 e Is. 58,6, segundo uma prática que era então corrente. Cita Is. 61,1 e a primeira frase do v. 23c. Omite, sem razão aparente, a frase «para curar os corações desanimados" de Is 61,1, substituindo-a com a frase «para pôr em liberdade os oprimidos», tirada de Is 58,638.
O v. 20 menciona com precisão os gestos de Jesus e assinala a reação de curiosidade e de expectativa de parte da assembléia. No v. 21, Jesus toma a palavra para comentar a leitura
O v. 22 assinala uma primeira reação da assembléia. Ficam todos admirados com as palavras de Jesus. Elas ultrapassam tudo o que podiam esperar da boca de um conterrâneo que julgavam conhecer muito bem. Nos vs. 23-27 Jesus responde à surpresa e à admiração dos seus ouvintes. Adiantando-se-Ihes, começa por formular ele próprio o desafio que eles deviam ter na ponta da língua: faz na tua terra o que ouvimos dizer que tens feito em Cafarnaum (v. 23). Jesus responde ao desafio, primeiro, declarando que nenhum profeta é bem recebido na sua terra (v. 24); depois, ilustrando a sua declaração com os exemplos de Elias e Eliseu (vs. 25-27). Os vs. 28-29 dão uma segunda reação da assembléia totalmente diferente da primeira. Todos os ouvintes se enfurecem contra Jesus, expulsam-no da cidade e tentam assassiná-Io. O v. 30 conclui o relato com a reação de Jesus. Imperturbável e sem uma beliscadura, Jesus segue o seu caminho.
Lucas 4,16-30 e os seus paralelos Mc. 6,1-6 e Mt. 13,53-58
Marcos e Mateus assinalam a reação dos ouvintes, perplexos ou mesmo escandalizados perante a sabedoria de Jesus e o seu poder miraculoso. Em Lucas, a primeira reação dos ouvintes é de admiração e de surpresa. Segue-se nos três Evangelhos sinópticos, embora sob formas diferentes, o dito sobre o profeta que não é bem recebido na sua terra. Num desenvolvimento que lhe e próprio, Lucas prolonga a discussão ilustrando o dito com os exemplos de Elias e Eliseu (vs. 25-27). Finalmente, fá-Ia desembocar numa tentativa de assassínio, à qual Jesus escapa ileso (vs. 28-30).
Lucas escreveu uma versão aumentada do relato, com cerca do dobro da extensão das versões de Marcos e de Mateus. A maior parte dos elementos próprios a Lucas são citações proféticas ou referências a episódios proféticos. A achega lucaniana mais importante é a descrição do ofício sinagogal centrado na leitura de Is. 61,1-2 e Is 58,6 e, sobretudo, no comentário que Jesus faz desses textos (vs. 16b-17). O outro elemento próprio a Lucas mais importante são as referências às figuras proféticas de Elias e Eliseu (vs. 25-27).
Além de desenvolver o relato, Lucas mudou-o de lugar pondo-o no começo do Evangelho. Como consequência dessas duas alterações, o episódio da sinagoga de Nazaré tomou uma importância muito maior no Evangelho de Lucas do que a que tinha no Evangelho de Marcos e que lhe atribuiu Mateus. Embora diga que Jesus tinha pregado (Lc. 4,15) e feito milagres (Lc. 4,23) antes do episódio da sua intervenção na sinagoga de Nazaré, Lucas fez da dita intervenção o ato inaugural da atividade pública de Jesus no qual pronunciou o seu discurso programático39.
Note-se de passagem que a intervenção de Jesus na sinagoga de Nazaré tem semelhanças óbvias com a pregação de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (At. 13,13-52). Os dois episódios têm uma estrutura praticamente idêntica e correspondem-se. 0 primeiro antecipa o segundo e o segundo confirma o primeiro. A recusa da mensagem de Jesus por parte dos seus conterrâneos antecipa a sua recusa por parte de "Israel". A recusa da Boa Nova por parte de "Israel", levou a que ela fosse dirigida aos pagãos. Lc. 4,16-30 e At. 13,13-52 expressam a visão que Lucas tem não só da pessoa e da missão de Jesus, mas também da missão da Igreja. Segundo Lucas, essa missão desenrolou-se em dois tempos, primeiro junto dos judeus e depois junto dos pagãos. A esses dois tempos correspondem as duas partes da sua obra, o Evangelho e os Atos.
Francolino J. Gonçalves, op
No domingo passado iniciávamos o tempo comum em nossa liturgia e a Palavra de Deus nos convidava para a alegria, pois Deus ama a todos como um esposo sempre fiel! Quando meditávamos sobre as bodas de Caná na Galiléia éramos chamados a abandonar uma religião de purificações e méritos para recebermos o grande presente do abundante vinho novo trazido pelo Senhor, a religião do amor. Hoje tudo nos fala da importância de uma atenta escuta da Palavra de Deus em nossa caminhada de discípulos e do programa fundamental da missão de Jesus, o Cristo. Que nossas leituras nos ajudem mais uma vez.
Nossa primeira leitura (Ne. 8,2-4.5-6.8-10) é tirada do livro de Neemias. O povo de Israel havia voltado do cativeiro Babilônico inspirados nas palavras de esperança proclamadas por Isaias, como refletíamos na primeira leitura do domingo passado, começaram empreender a reconstrução de Jerusalém e do país. Infelizmente mais de cem anos já se haviam passado e a situação continuava difícil, existia muita confusão ainda: explorações, roubos, maldades, etc. O sacerdote Neemias percebe que o motivo principal desta situação conflitiva estava na ignorância da Lei Divina. Nosso texto de hoje então apresenta aquele sacerdote convocando o povo para escutar e compreender a Palavra de Deus, o que levou o povo a fazer a renovação da Aliança com Javé na festa das Tendas do ano de 398 a.C. Tal é a importância desta renovação do compromisso de Israel que a tradição judaica considera Esdras um segundo Moisés.
Quando lemos o relato da celebração realizada encontramos alguns elementos muito interessantes que muito bem podem ser aplicados nas “celebrações da Palavra” que hoje ainda realizamos.
Primeiramente vemos que o povo é convocado e estão reunidos em comunidade, não se trata apenas de um chamado individual para ouvir e entender melhor a Palavra divina, mas um convite comunitário. Isto nos ajuda a sempre compreendermos melhor a dimensão comunitária de nossa fé.
Ocorre então a leitura solene, feita não de qualquer lugar, mas de um estrado preparado para que o povo pudesse ouvir melhor e uma leitura feita de modo bem claro. De nada adianta proclamar a Palavra quando o povo não consegue ouvi-la com clareza, o que nos indica a necessidade de uma grande preocupação com o modo de comunicar. Temos hoje muitos meios a nossa disposição que facilitam neste aspecto da comunicação, mas será que os valorizamos e utilizamos?
Outro elemento não menos importante é que o povo escutava com atenção, havia assim um ambiente de escuta, visto que sabiam não estar diante de um livro apenas, mas de Deus que fala. Quantas vezes em nossos dias na nossa celebração falta este ambiente de escuta respeitosa, devido a barulhos e comportamentos inconvenientes dos participantes, não é?
Ainda temos a participação do povo em suas respostas de “Amém” e nos gestos corporais: ficam de pé, inclinam-se e prostram-se. Isto nos indica que aquela celebração era um verdadeiro diálogo, Deus falava e a comunidade dava sua resposta! A participação ativa e frutuosa é um elemento importantíssimo também em nossa celebração litúrgica e infelizmente ainda muitas vezes deixado de lado.
Depois encontramos a explicação da Palavra de Deus instruindo assim o povo, isto porque não adianta ouvir ou ler algo e não entender. Aqui encontramos o grande ministério da palavra tão fundamental para atualizar a Palavra divina e torna-la mais compreensível ao povo. Muitos não conseguem cumprir a vontade de Deus simplesmente porque a ignoram e outros porque a interpretam erroneamente. Também hoje é fundamental em nossa celebração litúrgica uma boa explicação das leituras, e para isto é dever daqueles que tem este especial serviço uma séria preparação.
O povo ouvindo a Palavra arrepende-se e refaz sua aliança com Deus, o que nos indica como fruto daquela celebração uma transformação de vida pessoal e especialmente comunitária. A palavra de Deus ouvida e entendida sempre produz seus frutos de vida nova.
Por fim acontece a despedida da comunidade celebrante e o convite a alegrarem-se em Javé fazendo verdadeira festa! Mas é bom estarmos atentos que o povo foi lembrado solenemente de que indo para casa deviam em suas festas dar de comer aos pobres ou aqueles que nada prepararam. Neste aspecto a mais pura tradição judaica de guardar o sábado sempre apontou para a alegria, a festa ao redor da mesa e a partilha com os mais necessitados. Os fariseus é que posteriormente transformaram o repouso sabático num peso repleto de um legalismo frio.
Contemplando a renovação da Aliança e a solene assembléia reunida, podemos entender melhor a importância de nos reunirmos em comunidade para a escuta da Palavra de Deus. Será que damos mesmo importância para as nossas celebrações?
A segunda leitura (1Cor. 12,12-30 ou a breve 1Cor. 12,12 - 14.27) é a continuação da segunda leitura do domingo passado onde Paulo explicava sobre os dons. É bom lembrar que o apostolo coloca como forma de discernir os dons de Deus o bem comum ou a construção da comunidade. A comparação do “corpo” usada por Paulo quer ajudar na compreensão de que os diversos serviços e dons são complementares e fazem parte de um único organismo. Como no corpo cada membro tem sua importância e um membro não pode fazer a função do outro, assim acontece na comunidade cristã onde tudo deve concorrer para o bem comum dos irmãos.
Seria muito interessante lermos o texto completo da leitura e não apenas o abreviado, perceberemos que Paulo fala da igual dignidade de todos os membros do corpo, mas também da necessidade de cercarmos com mais carinho os membros que são considerados mais fracos e até menos honrosos. Neste sentido estamos trilhando de modo claro a opção de Jesus pelos pequenos e fracos, pobres e marginalizados. É a busca do cuidado e zelo de uns pelos outros para que não haja divisão no corpo! Tudo aponta mais uma vez para o bem de todos na afirmação do apóstolo de que: quando um membro sofre todos sofrem com ele e quando um membro se alegra todos os outros com ele se alegram; isto é sem dúvida a solidariedade que deve unir profundamente todos como irmãos em Jesus (cf. 1Cor. 12,22-25).
Reflete Paulo que “todos juntos” somos o corpo de Cristo e sem duvida Jesus é sempre a cabeça deste único corpo que é a comunidade cristã. Acentua-se mais uma vez o importante aspecto comunitário de nossa identidade cristã, somos chamados a formar um corpo e a viver em comunhão uns com os outros.
No final do texto Paulo retoma o tema dos diversos dons fazendo um elenco da importância deles e os primeiros estão todos relacionados com o ensino da Palavra de Deus, como sempre Paulo coloca como o último dom o falar em línguas. (Cf. 1 Cor. 12,28 - 30).
Diante disto podemos nos perguntar seriamente se de fato damos valor a transmissão Palavra de Deus? Será que não seria por falta de uma melhor escuta e compreensão da Palavra divina que encontramos em nossas comunidades tantos problemas como: invejas, competições, ciúmes, busca de domínio e poder, marginalização dos pequenos e fracos, falta de acolhida, e tantas outras mazelas mais?
Tenhamos certeza de que o esforço de estarmos atentos a Palavra de Deus sempre nos ajudará na busca de uma vida cristã com mais unidade e mais amor.
No Evangelho (Lc. 1,1-4; 4,14-21) estamos diante de dois textos diferentes do Evangelho de são Lucas. A primeira parte é a introdução do Evangelho e a segunda parte nos apresenta o inicio do ministério de Jesus na Galiléia. Depois da introdução Lucas narra os episódios do nascimento de Jesus, em seguida apresenta João Batista e o batismo do Senhor, logo depois conta a tentação de Cristo no deserto e em seguida apresenta Jesus na sinagoga de Nazaré, o que corresponde a segunda parte do evangelho de nossa liturgia no dia de hoje.
Sabemos que depois de Pentecostes a comunidade cristã começou a espalhar-se por todo o mundo e os apóstolos que eram as testemunhas oculares da vida de Jesus foram dando os seus testemunhos. Baseados nestes testemunhos e no ministério da palavra, as comunidades foram transmitindo estes testemunhos às outras. Temos assim na origem dos escritos do Evangelho sem duvida nenhuma a chamada “tradição oral” que era justamente este processo de passar de um para o outro com fidelidade o que haviam recebido. Com certeza alguma coisa aqui e ali durante este período foi sendo escrita, mas só mais tarde é que esta tradição oral se cristalizou por escrito nos quatro evangelhos.
Lucas começa por afirmar que fez uma pesquisa muito séria e aponta suas fontes que foram as testemunhas oculares e os ministros da palavra. Ressalta perceber que Lucas fala de tudo como “acontecimentos”, o que desde o inicio quer mostrar para todos que a doutrina cristã não provém de um mito ou de uma lenda inventada por fanáticas mentes. É um acontecimento real, o Filho de Deus que se faz homem num dado momento da história e que vem morar no meio dos homens. Por isto Lucas afirma que fez um exame cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o principio e sua intenção é de narrar estes fatos para que os cristãos sintam-se mais fortes em sua fé.
Logo o objetivo do evangelho de Lucas, definido por ele mesmo, é que cada um ao lê-lo possa ficar mais forte e crescer na própria fé em Jesus o Cristo.
O texto é endereçado a um certo “Teófilo”, muitas diferentes interpretações se tem dado sobre este nome, mas a mais usual é que não seja um pessoal, isto porque podemos dizer que “Teófilo”, palavra grega, se traduz por “amigo de Deus”! Neste sentido o evangelho é endereçado a todos aqueles que são amigos de Deus e o procuram com sinceridade de vida.
Nesta primeira parte de nosso evangelho encontramos de modo claro a importância do ministério da Palavra para a transmissão da fé. Lucas buscou o fundamento do que escreveu nas testemunhas dos acontecimentos e nos ministros da Palavra! As duas leituras anteriores já haviam nos revelado de modo profundo à necessidade de estarmos atentos na escuta da palavra de Deus.
Na segunda parte de nosso texto Jesus se encontra na cidade onde foi criado e lá entra na sinagoga para o culto. Aos sábados, os judeus eram convocados a reunirem-se nas sinagogas para orar e escutar a Palavra de Javé. No culto sinagogal eram feitas duas leituras: a primeira tirada da Tora (ou Lei) e que era sempre explicada pelo que presidia a celebração, depois havia uma segunda leitura que era escolhida livremente e podia ser explicada por um adulto de mais de trinta anos.
Lucas nos afirma que Jesus voltou para a Galiléia e que sua fama estava se espalhando por toda à parte. Ali na Galiléia Jesus ensinava nas sinagogas e chegando na cidade de Nazaré onde fora criado também ensinou naquela sinagoga. Devemos notar que o evangelista faz questão de afirmar que era costume de Jesus ir a sinagoga todos os sábados para a celebração que lá se realizava.
Hoje, quanta gente entre nós, perde a celebração da eucaristia por qualquer motivo, até por motivos banais. E tudo isto sem contar aqueles muitíssimos batizados que não tem o costume de ir a Igreja aos domingos para estarem reunidos com os irmãos e partilharem da mesa da Palavra e da eucaristia.
O texto escolhido por Jesus foi tirado do profeta Isaias (Is. 61,1-2) e Lucas traz a versão deste texto justamente da tradução grega chamada “dos setenta”. Podemos afirmar que este texto usado pelo Senhor apresenta o seu “programa” de vida, sua auto-apresentação! Jesus adaptou-se ao modo de proceder na liturgia da sinagoga, leu a Palavra de pé e depois se sentou para ensinar. Naquela época os mestres ensinavam de fato sentados Lucas assim nos aponta que Jesus é verdadeiramente o Mestre de todos os mestres!
O texto lido fala da unção dada pelo Espírito de Deus para a missão e Jesus é aquele que realiza plenamente todas as profecias, pois ele é o consagrado, O ungido de Deus: o Cristo!
A missão de Jesus é trazer a “boa nova” e apalavra evangelho significa “boa noticia ou boa nova”. Qual é esta boa notícia? Sem duvida é o amor de Deus por todos, mas de modo especial pelos pobres, sofredores e oprimidos! Jesus com suas palavras, com sua vida e, sobretudo com sua entrega amorosa na cruz vem dizer a todos que Deus nos ama infinita e incondicionalmente! É sem duvida alguma uma mensagem de esperança e não de terror e de medo. Traz assim o Senhor a verdadeira revelação de quem é nosso Deus: não um tirano castigador mais um Pai amoroso! Jesus chega para trazer a libertação integral do ser humano de todas as opressões: físicas, representada nos cegos; econômicas, simbolizada nos pobres e políticas, apontada nos cativos, visto que muitos eram escravos de nações invasoras. Ainda é comunicada a alegre notícia de “um ano de graça” o que remete a instituição do ano sabático (Lv. 25,8-66; Ez. 7,13) onde de cinqüenta em cinqüenta anos a justiça devia ser restabelecida: terras devolvidas aos proprietários que a perderam, dividas perdoadas e escravos libertados. A boa nova de Jesus é justamente que este ano jubilar, que com ele começa, é definitivo estamos agora no tempo da redenção! Isto se depreende do fato de Jesus ao ler o trecho de Isaias (Is. 61,1-2) ter terminado antes do final do versículo dois que fala do dia da vingança de Deus! O messias prometido não veio para trazer destruição e castigo, mas redenção e perdão. Assim Jesus já começa a ensinar um novo modo de compreender quem é de fato Javé: o amor infinito e incondicional!
Depois da leitura todos os olhos estavam fixos em Jesus e este pormenor narrado por Lucas nos aponta a importância de voltarmos nosso olhar para o Senhor. Só em Jesus podemos compreender de modo mais pleno os escritos do Antigo Testamento, afinal tudo foi escrito em preparação à vinda do Salvador. Olhos voltados para Jesus, fixos e atentos é o que cada cristão deveria ter em sua busca de ser um fiel discípulo. Infelizmente ainda em nossos dias encontramos não poucas pessoas que fixam seus olhares em muitas outras direções e deixam Jesus de lado. Quanta busca temos hoje por revelações particulares a esta ou aquela pessoa e na maioria das vezes estas pretensas profecias falam de catástrofes, castigos e final do mundo. Enquanto isto muitos deixam de lado a escuta do evangelho e um sério estudo da Escritura Sagrada!
 Em seguida Jesus começou a explicar o texto lido e afirmou que “hoje” aquela profecia havia se cumprido, com isto queria dizer que com Ele chegara o tempo definitivo da graça e da redenção. Como Jesus aponta que a Palavra de Deus se cumpriu “hoje” naquele dia em Nazaré, podemos entender que a Palavra do Senhor tem sempre algo a nos dizer no “hoje” de nossas vidas concretas.
Caros irmãos hoje toda nossa reflexão gira em torno da importância na escuta da palavra de Deus. Em nossa primeira leitura percebemos como é importante atender ao convite para em assembléia escutarmos a Palavra e respondermos a ela com atitudes de conversão pessoal e comunitária. Com Paulo apóstolo notamos que os dons mais importantes são justamente os do ensino e transmissão da Palavra de Deus. No Evangelho vimos como Lucas buscou nas testemunhas da Palavra as bases de seu evangelho, e com Jesus participando do culto sinagogal em Nazaré notamos como a Palavra divina é sempre de esperança e libertação. Aliás, Jesus é a própria Palavra divina que se fez carne, é o Verbo Eterno do Pai! A boa nova do evangelho deve ser transmitida por todos nós, esta é nossa grandiosa missão de batizados e de confirmados!
Que nesta semana nos esforcemos por crescer no amor a Sagrada Escritura, em sua leitura e estudo pessoal. Muita gente tem belas bíblias em casa, mas não passam de enfeites, pois nunca são lidas. Ler e ouvir a Palavra é deixar se questionar por ela. Vamos fazer o propósito de em cada dia nos dedicarmos a leitura orante da Palavra, tomando um pequeno texto e rezando com ele, isto nos fará um bem enorme.
Temos tantas oportunidades para compreender melhor a Escritura, será que aproveitamos tantos cursos e livros que nos ajudam neste ponto?
Temos ainda que não esquecer de que nossa fé cristã não é algo individualista, mas vivida em comunidade. Como estamos vivendo a convocação semanal para estarmos em assembléia convocada por Deus para ouvi-lo? Por que às vezes nos omitimos facilmente de comparecer? E quando vamos a celebração será que realmente procurarmos estar atentos e aproveitar a Palavra do Senhor para nossa semana? É muitíssimo importante a participação de todo cristão na celebração dominical onde podemos nos alimentar da Palavra e de Jesus o pão do céu.
O Concilio Vaticano II procurou revalorizar a leitura e escuta da Palavra de Deus em todas as celebrações dos sacramentos e sacramentais. Mas na pratica pastoral isto muitas vezes ainda não acontece como deveria. E temos muitos cristãos que dão mais valor a diversos tipos de rezas e novenas do que a uma celebração da Palavra bem feita. Não estaria na hora de procurarmos aprender ou realizar melhor as “celebrações da Palavra”?
Sem dúvida precisamos deixar que a Palavra de Deus possa nos iluminar e mesmo examinar nossa vida pessoal e comunitária. Deus é sempre infinitamente maior do que tudo que possamos imaginar, Ele sempre têm o direito de questionar nosso modo pessoal de agir e até mesmo nossas práticas de vida eclesial. Se não nos abrirmos a sua Palavra, nunca sairemos do mesmo lugar e jamais poderemos cumprir sua Santíssima Vontade, que visa sempre o bem de cada pessoa e de toda a humanidade.
Caro Teófilo, dileto amigo de Deus, um ótimo domingo a você na certeza de que esta amizade com o Senhor sempre aumentará na escuta cotidiana de sua santa Palavra. Que como Maria irmã de Lázaro estejamos dispostos a estar sentados aos pés de Jesus para ouvi-lo, afinal discípulo não é quem fala, mas quem ouve atentamente (Cf. Lc. 10,38 - 42). Mas nunca nos esqueçamos também de ouvir o Senhor na voz que clama em nossos irmãos mais sofredores e pobres!
padre Antonio Luiz Heggendorn, CP
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