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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Comentário Prof.Fernando


Comentário Prof.Fernando(*)      3º Quaresma                             03março2013
3ª de 4 sem.p/ a Páscoa                                 – a figueira e o tempo –

Ex 3,1-8a.13-15   Sl 103   1Cor 10,1-6.10-12   Lc 13,1-9

Eu vi a aflição do meu povo, ouvi seu clamor, conheço seus sofrimentos. Desci para libertá-los   O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo   não desejemos coisas más. Quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.
(os que Pilatos mandou matar): esses galileus eram mais pecadores do que os outros  ? (num acidente, 18 morreram): eles mais culpados do que os outros? Eu digo que não.
Cuida da figueira uma no mais e, então, se não der frutos, aí sim a cortarás.

·                 Acontecimentos na vida e também a morte precisam ser interpretados. No tempo de Cristo era comum pensar como “castigo” de Deus tudo que acontecia de mal. Seja a violência de Pilatos, seja acidentes de trabalho, como a morte de 18 operários na torre de Siloé. O Mestre de Nazaré diz “Não” a tais interpretações. Elas nascem de uma visão distorcida sobre Deus – reduzido à figura de juiz ou carrasco, em vez da imagem de Pai.
·                 A bíblia traz muitas histórias, relatos, poesia, cantos, aventuras de heróis nacionais, profecias, descrição de guerras, memórias do passado nacional mais recente e legendas do passado distante. Debaixo de todas essas camadas está a Palavra. É preciso escutá-la o Gênesis, primeiro livro da Lei israelita, ao Apocalipse, último do Testamento dos cristãos. A Lei, os Profetas e demais Escritos da bíblia hebraica, bem como Evangelhos e outros textos dos cristãos, são construídos a partir do mesmo fio condutor (motivo de fundo ou tema musical desse “filme”): o Criador está presente na vida humana trazendo libertação e indicando caminhos para redenção ou salvação. “Vi a aflição do meu povo, desci para libertá-lo” marca o início da constituição do povo bíblico. Ele deve tornar-se um sinal, um farol ou um guia para toda a humanidade, que procura um sentido para a vida.
·                 O anúncio básico da Fé de Israel é também o dos cristãos: Deus é bom. Indulgente, paciente, compassivo (salmo). Cabe ao ser humano responder a ele, no tempo da vida. “Não desejar coisas más”; “estando de pé, cuidar para não cair”, aconselha o apóstolo. O tema de hoje é o tempo, no qual vivemos. O Juízo, o Julgamento (decisões de prêmio ou castigo) não existe – como diz um ditado popular : “aqui se faz, aqui se paga”. Tal provérbio apenas exprime nossa sede de Justiça. O Mestre, ao contrário, conta a parábola da espera paciente de Deus. Ele sempre espera o fruto da figueira, ano após ano.
·                 Catequese e pregação nas igrejas às vezes falam mais de pecado do que da graça, mais de moral do que da Palavra de Deus, mais de castigos do que do Amor. O Amor foi inventado por quem “foi o primeiro a nos amar” (ou: nos amou primeiro) – cf.1Jo4,19. A mensagem (única, original, inigualável) tanto no A.Testamento como nos escritos cristãos apontam para uma convicção básica: ele nos amou primeiro; tudo o mais é resposta.
·                 Assim, o “1º mandamento” é nossa resposta: querer a Deus acima de tudo, respeitando seu Nome e reservando um tempo para “olhar” para ele (adoração, culto – também em comunidade), escutando sua Palavra, balbuciando nossas palavras para lhe falar (Oração) seja pronunciando nossas súplicas e desejos, seja contemplando seu Mistério, tão grande como um abismo ou o mar profundo. O “segundo mandamento”, dizia o Mestre, é semelhante. Inclui outras “orientações para bem viver” no tempo deste mundo, respeitando o “sagrado” que há na vida e dignidade dos outros, isto é, sem feri-los, material ou moralmente, sem mentira, traição ou corrupção. Em suma, nosso velho conhecido, o Decálogo, “os 10 mandamentos”, não são outra coisa que nossa resposta à proposta do Criador. Não são eles o fundamento da Fé, mas a Fé lhes dá fundamento.
·                 Quem nos cria, sustenta, resgata e pacientemente espera por nós (salmo) nos dá vida e liberdade. Podemos produzir frutos, como a figueira da parábola. Deixar-se impregnar do sol e da chuva, deixar-se absorver, nas raízes, pelo alimento divino na terra. É tempo de “produzir” o bem, para alimentar outros com frutos de paz. Como escrevia um místico contemporâneo (H.Nowen, 1932-96) dizendo haver grande diferença entre produzir frutos; e ter sucesso: este, fala de força e traz recompensas e fama; frutos, porém, nascem do que é frágil e vulnerável, sendo, por outro lado, únicos ou especiais, como um filho concebido na vulnerabilidade, como a comunidade que se forma na partilha de dificuldades, como intimidade e amizade, que surgem ao cuidarmos das feridas uns dos outros.
·                  Religião nem sempre consegue ser alimento e adubo para a figueira. Sem a Fé, ela vira apenas rito social, costume folclórico. Por sua vez a Fé que não contemplar a bondade divina pode reduzir-se a puro medo: de sempre escorregar nas mesmas falhas e de viver em culpa, temendo a condenação. O medo tem efeito tóxico sobre a Fé, pois tende a negar que seja possível a Salvação. Ora, salvação é cura, restauração da vida, conquista da saúde completa que inclui imortalidade – chamada no cristianismo de ressurreição.
·                 Todo tempo é tempo de voltar o olhar para o que é eterno e consistente. Quaresma é um “ciclo litúrgico” de preparação para a Páscoa da libertação. Tempo de “conversão” (voltar-se e tomar outra direção). Quem está sempre cuidando da figueira? O empregado da parábola pede mais um ano para nós. O Mestre de Nazaré é um lavrador como nós nas terras humanas. Cuida da figueira estéril e nos torna capazes de dar fruto no devido tempo.

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http://homiliadominical2.blogspot.com.br  (*) Prof.(Usu-Rio) Educação, teologia e ética.

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