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I N T E R N A U T A S - M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Jesus foi tentado no deserto!


I DOMINGO DA QUARESMA
DIA 17 DE FEVEREIRO

Jesus foi tentado no deserto!

 

Introdução


Caríssimos. A liturgia deste domingo nos convida a refletir sobre o jejum e sobre as tentações. ...Continua...

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A CONTRIBUIÇÃO DO PADRE FERNANDO GROSS
Salmo 83:
1° Domingo da Quaresma Ano C para 17 de fevereiro de 2013

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17 de fevereiro - 1º Domingo da quaresma

1º DOMINGO DA QUARESMA 17/02/2013
1ª Leitura Deuteronômio 26, 4-10
Salmo 90 (91), 15 b “Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória”
2ª Leitura Romanos 10, 8-13
Evangelho Lucas 4, 1-13
“AS TENTAÇÕES DE CRISTO”- Diac. José da Cruz

Em certa ocasião ganhei de um amigo um par de pneus especiais para colocar no meu carro,, que segundo ele, eram ótimos para rodar no meio da lama e em estradas de terra de pista irregular, sendo que meu amigo garantiu-me ainda que não havia obstáculo que os mesmos não ultrapassassem, porque eram feitos com borracha especial e que tinham uma alta resistência.Confesso que nunca soube ao certo se todos esses atributos dos pneus era mesmo verdade, simplesmente porque jamais passei com eles por terrenos ou estradas com essas características. Da mesma forma, a nossa fé só se pode mostrar verdadeira e autêntica em sua fidelidade, se for comprovada diante das tentações.
Poderíamos ainda como exemplo, citar o caso de uma pessoa que está fazendo regime e assegura a todos que já aprendeu a se controlar em relação aos alimentos, porém, não pode passar diante de uma padaria que acabará não resistindo aos doces e guloseimas expostas no balcão e deverá, para o seu bem, manter-se longe das “tentações”.Na vida do cristão isso não pode acontecer. Jesus Cristo não fugiu das tentações, mas as enfrentou com coragem, confirmando assim sua total fidelidade ao Projeto do Pai.
Quando temos medo de freqüentar “certos ambientes” ou estar na companhia de certas pessoas de má fama, estamos manifestando o desejo de correr das tentações porque no fundo, achamos que talvez o mal presente nelas, tenha mais força do que a graça de Deus que trazemos conosco. Se Jesus pensasse dessa forma, com certeza não teria freqüentado a casa dos pecadores e nem andado com mulheres como Maria Madalena, e nem chamado para o seu grupo pessoas como Mateus, cobrador de impostos.
Na primeira tentação, o diabo tenta convencer Jesus a tirar vantagem da sua condição divina “Olha, deixa de ser bobo e use o seu poder divino transformando essas pedras em pães para saciar a sua fome”. Usar o poder que algum cargo nos confere, na vida pública, na vida profissional e até mesmo na comunidade, para beneficiar-se a si próprio, como Jesus, teremos de saber resistir a essa tentação que é muito forte, pois se ele tivesse caído na lábia do tentador, não seria realmente um homem, mas teria apenas a aparência humana e seu sofrimento seria uma grande farsa.
Na segunda tentação está outro grande perigo: ter poder para dominar a tudo e a todos, ser influente e importante e fazer com que as pessoas venham todas “comer na palma da nossa mão”, como costuma se dizer para mostrar a nossa superioridade. Ser o dono da vida das pessoas, mandar e desmandar, o diabo ofereceu todos os reinos do mundo a Jesus, isso significa dizer que toda a humanidade estaria submetida a ele, e nesse caso o seu reino seria imposto e os homens não teriam escolha, seria obrigados a aceitá-lo. Prostrando-se aos pés do diabo, Jesus estaria aceitando fazer o seu “jogo”, usando o seu método diabólico. Contrariando a proposta sedutora do diabo, Jesus irá prostrar-se não a seus pés, mas aos pés dos discípulos, colocando em lugar do Poder o Servir. Precisamos tomar muito cuidado para que na comunidade não sejamos surpreendidos cedendo a esta tentação.
E finalmente a terceira tentação: exigir de Deus uma prova do seu amor para conosco isso é, “poderei me jogar do vigésimo andar de um prédio, que nada irá me acontecer porque Deus não irá permitir”, foi esse verbo que o apóstolo Pedro empregou, quando tentou convencer Jesus a fugir do seu destino – Deus não permita tal coisa, Senhor.Isso é tentar a Deus e colocá-lo á prova! Nos momentos mais difíceis de sua vida Jesus nunca duvidou do amor do Pai, nem mesmo quando estava na cruz do calvário, experimentando o fracasso aos olhos dos seus aos quais tanto amou.
As tentações de Jesus resumem bem, todas as tentações que enfrentamos nessa vida, sendo ocasiões oportunas para provar a nossa fidelidade ao projeto de Deus e a nossa capacidade de usarmos com sabedoria a liberdade que o próprio Deus nos concedeu. É assim que devemos buscá-lo nesta quaresma, através do jejum, da oração e da esmola, que nos ajudará no processo de conversão aproveitando ao máximo todos os momentos que a vida nos oferece, porque como vimos na liturgia da quarta feira de cinzas, este é o tempo favorável em que o Senhor se deixa encontrar. Importante também lembrar que as tentações evoluem, quanto mais resistência e força tivermos, mais forte ela irá voltar, o diabo sempre acha que no segundo embate ele levará vantagem. O texto afirma que o tentador deixou Jesus para voltar em outro tempo, que viria a ser na cruz do calvário onde se consolidou a vitória da Cruz, sinal da Fidelidade de Jesus ao Pai. Portanto, não descuidemos da retaguarda!
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 FIÉIS A CRISTO, VENCEREMOS TODAS AS TENTAÇÕES!  - Olívia Coutinho
 
 I DOMINGO DA QUARESMA
 
Dia 17 de Fevereiro de 2013
   
Evangelho de Lc 4,1-13
    
Estamos no início da Quaresma, um tempo de reflexão, que deve ser vivido com maior intensidade e espírito de fé! É um tempo, que nos sugere uma pausa, um desacelerar da nossa correria diária,  para fazermos um deserto interior! 
Precisamos fazer uma faxina geral no nosso coração, retirar os nossos excessos, a nossa vaidade, nossa auto-suficiência, para chegarmos à Páscoa do Senhor, com uma nova roupagem!
A liturgia deste tempo Quaresmal, tem como propósito, despertar em nós, o desejo de mudar de vida, de resgatar os valores que às vezes deixamos de lado, por estarmos muito ocupados com os nossos interesses pessoais.
O pecado interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas a porta do coração do Pai nunca se fecha, ela está sempre aberta para nos receber de volta, basta querermos voltar! Aproveitemos então, este tempo em que a graça e a misericórdia transbordam do coração do Pai, para voltarmos ao seu convívio!
 No evangelho de hoje, vemos que Jesus foi tentado a desistir de levar em frente a  sua missão, em troca de bens matérias.   A sua resposta foi imediata: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”!
Jesus foi tentado a aceitar e a confiar no poder do demônio, mas Ele respondeu com firmeza: ”Não tentarás o Senhor teu Deus”!
     O Filho de Deus, divino e humano, enfrentou e venceu o inimigo, por estar fortalecido pelo Espírito Santo, mesmo diante de tantas propostas sedutoras, Ele se manteve firme no propósito de levar em frente o plano de Deus: salvar a humanidade!
     Assim como aconteceu com Jesus, acontece também com cada um de nós, a tentação do TER, do PODER, do PRAZER, está sempre nos rondando. Precisamos estar constantemente vigilantes para não sermos pegos de surpresa, pois a tentação é oportunista, surge inesperadamente, principalmente quando nos propomos a mudar de vida, quando estamos enfraquecidos na fé, ou vivendo momentos de incertezas.
     Para nos seduzir, o mal chega até a nós, disfarçado do bem, por isto precisamos estar sempre atentos para não tornarmos presas fácies, deixando-nos enganar pelas aparências!
       Ninguém está livre das tentações, elas estão presentes em toda parte, principalmente onde existe o bem. Para vencer a tentação, é importante estarmos sempre em sintonia com Deus, perseverantes na fé, munidos da arma mais poderosa que temos ao nosso alcance: a oração!
     Na oração do Pai Nosso, Jesus nos ensinou a pedir ao Pai: “E não nos deixeis cair em tentação”...
  Que o Espírito Santo, que fortaleceu Jesus nas tentações, nos fortaleça também.  Que nenhuma proposta do mundo, nos convença a trocar o SER pelo TER.
Fieis a Cristo, venceremos todas as tentações!
 
FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia    

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Evangelhos Dominicais Comentados

17/fevereiro/2013 – 1o Domingo da Quaresma

Evangelho: (Lc 4, 1-13)


Mais uma vez estamos juntos para meditar a Palavra que é Vida, neste primeiro domingo da quaresma. Teremos quarenta dias para meditar os mistérios da nossa fé. Quaresma é tempo de jejum, penitência, oração e, acima de tudo, tempo de conversão.

Estamos iniciando também a Campanha da Fraternidade/2013, toda voltada para nossos jovens, cujo tema neste ano é: Fraternidade e Juventude, e tem como lema: Eis-me aqui, envia-me!  (Is 6,8)

O grande objetivo dessa campanha é propiciar aos nossos jovens um encontro pessoal com Jesus Cristo a fim de contribuir para sua vocação de discípulo missionário e agente transformador da sociedade, para a elaboração de seu projeto pessoal de vida, distante das tentações do maligno.
 
No Evangelho de hoje vemos que poder e glória são oferecidos para quem se prostrar diante do maligno e adorá-lo. Ninguém está livre da tentação. Jesus também foi procurado e tentado pelo demônio. O mundo inteiro foi-lhe oferecido. Bastaria prostrar-se e adorá-lo, mas Jesus não se deixou levar pela tentação e respondeu à tentação: “Está escrito: Adorarás ao Senhor teu Deus e só a ele servirás”.


Diante da derrota que conheceu frente a Jesus, o demônio voltou-se para o lado mais fraco. O alvo agora somos nós. Cuidado jovem, pois ele não mudou de ideia e sua proposta ainda está de pé. O demônio continua mais presente do que nunca, oferecendo milhares de vantagens para quem segui-lo.

O príncipe do mal não vai desistir nunca, seu único desejo é arrastar-nos para o seu reino. E, pelo jeito, analisando o mundo em que vivemos, com tanta ambição, concentração de riquezas e corrupção, parece que o demônio está conseguindo atingir seu objetivo.

Só existe uma arma capaz de aniquilar esse inimigo, é a mesma que Jesus usou e chama-se oração. Jesus permaneceu no deserto quarenta dias e quarenta noites orando e jejuando. Seu único alimento durante esse período foi a oração. Nela encontrou forças para superar o apetite e as tentações.

Na Bíblia, o número quarenta e a palavra deserto, são simbólicos. Quarenta significa muito tempo, assim como os quarenta anos de escravidão no Egito. No deserto, caminhando para a terra prometida, o povo judeu foi testado, foi posto a prova em sua fé. Deserto significa estar isolado, sozinho, recolhido em oração.

Jesus esteve durante quarenta dias, a sós, em profunda comunhão com Deus. No deserto foi tentado a transformar as pedras em pão e usar seu poder em proveito próprio; passou pela tentação da vaidade, de atirar-se do alto do templo e ainda pela tentação de arrogância e orgulho, de apossar-se de todos os reinos do mundo. Todas essas tentações Jesus superou graças à oração.

Quem conhece a Palavra de Deus e vive a oração, jamais se desvia do caminho certo. A oração complementada pela ação, por gestos concretos, com obras, abre os olhos e nos faz entender o Plano de Amor de Deus Pai. As obras nos levam à conversão. E o coração convertido encontra na Eucaristia a força necessária para viver a fé e vencer toda e qualquer tentação.
 
 (2346)



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Domingo 17.02.2013

Lucas 4,1-13
: Como Jesus precisamos estar alicerçados no evangelho, só assim venceremos toda a tentação e superaremos todas as dificuldades. - Maria Regina
                                    O Evangelho nos relata que o Espírito Santo guiou Jesus ao deserto. Lá Ele foi tentado pelo demônio que usou até a Escritura para confundi-Lo. Percebemos assim que Jesus, como homem, sofreu todas as dificuldades que um ser humano pode passar. Ele não foi poupado nem mesmo da tentação. Por isso, no momento em que Ele estava mais cheio do Espírito Santo, depois do Seu Batismo, o próprio Espírito o conduziu para o deserto para ser tentado. E foi também o Espírito Santo por meio da Palavra quem o guiou e o ajudou a não cair na tentação.
                                  O diabo, astuto e inteligente usou a própria Escritura para levar Jesus a cair nas três concupiscências da carne humana: prazer (comer), possuir (os reinos do mundo) e poder (ter proteção, desafiar a Deus). Mas foi também com a Palavra de Deus que Jesus rejeitou os apelos do inimigo. Para nós, homens e mulheres de hoje, fica o exemplo de Jesus: quando estamos cheios do Espírito Santo e alicerçados na Palavra de Deus, podemos vencer toda a tentação e superar todas as dificuldades. A quaresma é o tempo por excelência para que nós também nos deixemos guiar pelo Espírito Santo e assim purificarmos a nossa mente enfrentando os desafios da renúncia, do sacrifício e, mesmo que sejamos tentados  na nossa humanidade a Palavra de Deus será a nossa arma para vencermos as lutas. Reflita – Você tem sido também tentado (a) pelo inimigo de Deus? – Como você tem reagido? – O que você aprendeu com Jesus, hoje? – Você usa a Palavra de Deus como arma contra as investidas do inimigo?
Amém
Abraço carinhoso
- Maria Regina
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DOMINGO   Dia: 17/02/2013
Lc 4,1-13

J. Salviano Silva


Uma vez eu ouvi um padre dizer em seu sermão dominical: O demônio é como um cão feroz amarrado. Ele só morde se você chegar perto dele. Ficamos longe do demônio quando nos aproximamos de Deus o qual nos dará toda força necessária para resistirmos toda investida de satanás. Todos nós somos tentados constantemente. Porém quando estamos na paz e na amizade de Cristo, as tentações não nos derrubam.
As tentações estão em nossa volta e são mais perigosas quando somos jovens. É a moça de saia curta, é a viúva ainda jovem que sorri para nós, é o rapaz que insiste em procurar os olhos da mulher do próximo, é o contador da firma ou do banco que tem de empacotar aquele monte de notas de dinheiro e guardar no cofre pensando em suas dívidas, e em tudo o que poderia comprar com tanto dinheiro...
Tudo isso são tentações que nos incita a pecar, morrendo para a vida de graça e nos tornando merecedores do inferno.
Os filmes que mostram assaltos ou roubos são sempre campeões de bilheterias. Caso você esteja tramando um golpe na sua empresa, pense que hoje em dia, com a tecnologia, com as câmaras, a internet, e todo o avanço da informática, o mundo fica cada dia menor, e ninguém pode dizer que consegue sumir. Pegar o dinheiro e sumir, isso não existe mais. Se você escapar do GPS, sua mãe está indefesa eles vão localizá-la.
Resista à tentação, não se arrisque, não vale apena. Pense no pior lugar da Terra, a cadeia, se não está preocupado com o inferno!
"Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está preparado, mais a carne é fraca."
Jesus não está usando meias palavras, ou colocando panos quentes, Ele está se referindo ao pecado contra a castidade mesmo. Vigiar é tomar cuidado, se ligar, prestar atenção para não se envolver em nenhuma situação que nos leva mais cedo ou m, ais tarde ao pecado. A oração é o segundo conselho dado pelo Mestre para que possamos resistir às tentações. Satanás adora quem relaxa nas suas orações diárias. "...não nos deixeis cair em tentações, mas livrai-nos do mal. Amém." A coisa é tão séria que Jesus acrescentou na oração que nos ensinou, quando os discípulos pediram que os ensinasse a rezar, um pedido ao Pai para nos dar forças contra o pior mal. As tentações.
Vamos fugir de toda situação de pecado. Por que se seu espírito até pode está preparado, se você não se descuida, porém, a carne é fraca. O nosso corpo que transporta nossa alma invisível, é semelhante a um frágil vazo de barro que abriga uma planta.
Reze. Fica de olho. Não dê moleza para o demônio!


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Neste início de Quaresma, a liturgia faz-nos pensar na Páscoa. Isto porque o tempo quaresmal não é um fim em si mesmo, mas é caminho de luta e combate espiritual para bem celebrarmos, com o coração dilatado, a Páscoa do Senhor, maior de todas as festas cristãs.
Na primeira leitura, o Deuteronômio apresenta-nos o rito de oferta das primícias da colheita: ao apresentar ao Senhor Deus o fruto da terra, o israelita piedoso confessava que pertencia a um povo de estrangeiros e peregrinos, vindos do Pai Jacó, que não passava de um arameu errante. O israelita fiel recordava diante de Deus a história de Israel, história de escravidão e de libertação: “Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito... Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. Os egípcios nos oprimiram. Clamamos ao Senhor... e o Senhor ouviu a nossa voz e viu a nossa opressão... E o Senhor nos tirou do Egito... E conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra... Por isso eu trago os primeiros frutos da terra que tu me deste, Senhor”. Éramos ninguém e o Senhor nos libertou, deu-nos uma vida nova – eis o resumo da história e da experiência de Israel! Esta também é a nossa experiência, como Igreja, Novo Israel: “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Também a nossa história é de libertação: éramos escravos, todos nós, do grande Faraó, o Pecado que nos destrói e destrói o mundo. Mas Deus enviou o seu Filho numa carne de pecado (numa natureza sujeita às conseqüências do pecado): ele desceu a este mundo e entrou na nossa miséria, até a morte, a nossa morte. Deus o arrancou da morte; ressuscitou-o e fez dele Senhor e Cristo e quem nele crer e confessá-lo como Senhor na sua vida, encontra a salvação; encontra um novo modo de viver, encontra a paz, encontra já agora a comunhão com Deus e, depois, a Vida eterna! Assim, Israel nasceu da Páscoa do deserto; a Igreja nasceu da Páscoa de Cristo. Israel era escravo, atravessou o mar e o deserto e tornou-se um povo livre para o Senhor. Nós éramos escravos, éramos ninguém, atravessamos as águas do Batismo com Cristo, e ainda que caminhemos neste deserto da vida, somos um povo livre para o Senhor nosso Deus.
O tempo da Quaresma prepara-nos para celebrar este mistério tão grande! Recordemos que a ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição, é motivo da nossa comunhão com Deus é a razão da nossa fé cristã! Há apenas dois domingos, são Paulo dizia abertamente: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, ainda estais em vossos pecados!” (1Cor. 15,17). Pois bem, neste sagrado tempo quaresmal, a Igreja nos quer preparar para a santa Páscoa, para que revivamos em nós, pessoal e comunitariamente, a libertação que Cristo nos trouxe com a sua vitória. Por isso, a Quaresma é um tempo de combate espiritual e de luta contra o pecado. É um tempo de exame de consciência e de reorientação de nossa adesão ao Cristo Jesus. Só assim, atravessaremos o deserto dos quarenta dias rumo à Terra Prometida da Páscoa de Cristo, que se torna nossa Páscoa. Nosso caminho quaresmal recorda e celebra tantas quaresmas: a do dilúvio, quando durante quarenta dias e quarenta noites o Senhor Deus purificou a terra e a humanidade; a de Moisés, que durante quarenta dias e quarenta noites jejuou e orou sobre o Sinai para encontrar o Senhor que lhe daria a Lei; a de Israel, que caminhou no deserto durante quarenta anos; a de Elias profeta, que caminhou quarenta dias pelo deserto rumo ao Horeb, monte de Deus; a quaresma de Jesus, que antes de iniciar publicamente seu ministério, jejuou e orou quarenta dias e quarenta noites. Eis o caminho de Deus, eis o nosso caminho: caminho de combate espiritual, de busca de Deus, de luta interior, de conversão! Sem Quaresma ninguém celebra verdadeiramente a Páscoa do Senhor!
O evangelho de hoje, apresentando-nos as tentações de Jesus, nos ensina a combater: ele venceu Satanás ali, onde Israel fora vencido: Israel pecou contra Deus murmurando por pão; Jesus abandonou-se ao Pai e venceu; Israel pecou adorando o bezerro de ouro; Jesus venceu recusando dobrar os joelhos diante da proposta de Satanás; Israel pecou tentando a Deus em Massa e Meriba; Jesus rejeitou colocar Deus à prova. Nas tentações de Cristo estão simbolizadas as nossas tentações: a concupiscência da carne (o prazer e a satisfação desregrada dos sentidos), a concupiscência dos olhos (a riqueza e o apego aos bens materiais) e a soberba da vida (o poder e o orgulho auto-suficiente e dominador). Ora, Jesus foi tentado como nós, tentado por nossa causa, por amor de nós. Ele foi tentado como nós, para que nós vençamos como ele! Ele foi tentado não somente naqueles quarenta dias. O evangelho diz que “terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno”. A tentação de Jesus foi até a cruz, quando ele, no combate final, colocou toda a vida nas mãos do Pai e pelo Pai foi ressuscitado, tornando-se causa de vida e ressurreição para nós, que nele cremos, que o seguimos, com ele combatemos e o proclamamos Senhor ressuscitado.
Caminhemos neste santo tempo rumo à Páscoa; usemos como armas de combate no caminho quaresmal a oração, a penitência e a esmola do amor fraterno para que, ao final do caminho, sejamos mais conformes à imagem bendita do Cristo Jesus ressuscitado, nosso Senhor e Deus, vencedor do maligno e da morte, a quem seja a glória pelos séculos.
dom Henrique Soares da Costa


A Quaresma era, nos seus inícios, um tempo forte de preparação para o batismo. Na Quaresma, a pessoa que se tornaria cristã tinha a oportunidade de refletir mais e mais na nova vida que estava assumindo, assim como nas dificuldades que haveria de enfrentar para ser fiel ao evangelho no meio de um mundo pagão.
Hoje a situação não é muito diferente para todos os que pretendem viver de modo cristão. Se nos inícios, para celebrarem a sua fé, aconteceu aos cristãos ter de se esconder nos subterrâneos das catacumbas, atualmente podem celebrar o mais sagrado dos seus mistérios diante das câmeras bisbilhoteiras da televisão. Isso, porém, não quer dizer que tenha ficado fácil viver hoje de maneira autenticamente cristã.
As tentações de reduzir o sentido da vida ao bem-estar, ao consumismo fácil e até ao desperdício, as tentações dos ídolos do dinheiro e do mercado e os da religião milagreira, que põe a fé a serviço de interesses pessoais, estão fortemente presentes hoje, mais até do que no passado. E esses demônios se vencem com o jejum, com a oração, pela fé e por uma práxis centrada no evangelho.
1º leitura: Dt. 26,4-10
Os donativos das primícias, os primeiros frutos da colheita, eram ocasião para o judeu devoto recordar a presença de Deus na sua história e reconhecê-lo como único Senhor. A Quaresma também é ocasião de recordar as origens de nossa fé, lembrar-nos de onde viemos, para onde vamos e do Deus em que cremos.
O texto escolhido para a 1ª leitura de hoje deixa fora os primeiros versículos, que falam da entrega das primícias. Em outras religiões antigas, a entrega em um templo dos primeiros frutos da colheita celebrava um rito de fecundidade, como se fosse a nova descida de um deus ao interior da terra para torná-la fecunda.
A religião de Israel, porém, é uma religião histórica. Seu Deus não está na natureza nem tem que ver com um mito que apenas repete os ciclos naturais. Seu Deus é Javé, que se manifesta na história. E essa história tem começo e tem destino.
É uma história de libertação. Começa com um arameu errante, passa pela opressão sofrida no Egito e avança para a entrada na terra, com a posse de uma terra onde correm leite e mel. O errante se torna estável, o escravo se torna livre, o carente se torna senhor.
A solidariedade horizontal explicitada no v. 11, ausente do texto de hoje, inclui uma solidariedade vertical, que remete até a um primeiro pai de todos. Tudo o que sucedeu a cada geração faz parte da nossa vida.
2º leitura: Rm. 10,8-13
Falando a cristãos não judeus e tendo em vista cristãos judeus que retornavam para Roma em situação de inferioridade, Paulo insiste na igualdade entre todos perante a oportunidade de salvação.
Extremamente pobres, os judeus que viviam em Roma tinham sido expulsos da cidade, como diz um historiador daqueles tempos, “por causa das frequentes agitações provocadas (em seus bairros) por certo Crestos”. As agitações aconteciam por discussões em torno de Jesus, se seria ele o Messias (Cristo) ou não.
O fato é que agora Nero permitiu a volta dos judeus. Os cristãos judeus vão querer novamente se integrar nas comunidades de onde saíram, as quais agora só têm cristãos não judeus, também chamados simplesmente de gregos. Será fácil se entrosar com eles? Não serão os judeus humilhados mais uma vez? Por que a maioria deles não aceitou a fé em Jesus? A salvação é um privilégio dos não judeus?
Essas e outras perguntas fervilhavam na cabeça de Paulo quando escreveu aos romanos. No trecho lido hoje, ele fala da esperança de os judeus também chegarem à fé e à salvação em Jesus. Não há diferença: todos, judeus e não judeus, ou gregos, podem alcançar a salvação em Jesus.
Na liturgia da Quaresma, essas palavras vêm falar fortemente aos que se preparam para receber o batismo na Vigília de Páscoa.
Evangelho: Lc. 4,1-13
Jesus começa a sua missão com uma “quaresma”, 40 dias de provação e jejum. É só um ensaio e uma amostra. As forças do mal continuam lutando contra ele durante toda a sua vida e missão.
Bem característico do Evangelho de Lucas é a referência constante ao Espírito Santo. Repleto dele, Jesus se afasta do rio Jordão: pelo mesmo Espírito ali ele fora ungido como Messias e agora é conduzido pelo deserto por 40 dias de tentação ou prova. A luta é entre o Espírito, que é vida e liberdade, e o diabo, que é fanatismo e opressão.
É também próprio de Lucas indicar que essas tentações foram apenas um ensaio e amostra. Ele termina o episódio dizendo que o diabo se afastou para voltar no momento oportuno. Esse momento oportuno seria durante o tempo de atividade de Jesus, especialmente a ocasião da sua morte? Pode ser também a volta frequente das mesmas tentações sobre os discípulos de ontem e também de hoje.
A “quaresma” de Jesus se espelha nos 40 anos do êxodo, os 40 anos em que o povo de Deus viveu acampado no deserto, mudando de um lugar para outro em busca da terra prometida. O deserto e as tentações se assemelham. Podemos, assim, traçar um paralelo entre as tentações dos hebreus acampados no deserto, as tentações de Jesus e as tentações de hoje.
Tentações dos hebreus
Fome: Pedem pão, pedem carne, lembram as cebolas do Egito.
Idolatria: Ajuntam seus objetos de ouro para fazer um bezerro de ouro e adorá-lo.
Moisés cai na tentação e pergunta: “Será que Deus pode fazer brotar água desta pedra?”
Tentações de Jesus
Fome: “Manda que esta pedra se transforme em pão!”
Poder: “Toda essa riqueza será tua se te prostrares para me adorar!”
Providencialismo: “Joga-te daqui a baixo que Deus mandará seus anjos te carregarem!”
Tentações de hoje
Consumismo.
Poder, riqueza, aparência: “Em política e em negócios só não vale perder!”.
Religião de curas: “Joga fora esses remédios que Jesus vai te curar!”
Seria possível ver também, durante a atividade de Jesus no Evangelho segundo Lucas, a volta dessas mesmas tentações? Em 22,28, Jesus diz que os discípulos estiveram com ele em todas as suas tentações ou provações. Quais teriam sido essas provações? Não será muito difícil identificá-las em todo o evangelho e observar sua correspondência com as três amostras que temos aqui.
Quando, diante do entusiasmo da multidão por causa de suas curas, Jesus se retira para a montanha em oração, não está a indicar que não quer ser simples curandeiro? Quando diz que não tem sequer uma pedra onde reclinar a cabeça, não está falando de uma vitória contra a tentação do conforto, do consumismo? Quando, com muitíssima frequência no Evangelho segundo Lucas, Jesus critica os ricos e a riqueza, não estaria também vencendo essa tentação? E a última provação, corajosamente vencida, foi, sem dúvida, a morte de cruz.
A “Quaresma” de Jesus prepara-o para a missão. Aqui ele se treina para superar todas as dificuldades que hão de vir. Assim, aquele que se prepara para o batismo se exercita na Quaresma para, com Jesus, “vencer o mundo”.
Pistas para reflexão
Não seremos batizados novamente, mas a renovação do nosso batismo na Vigília de Páscoa tem de ter um significado verdadeiro. A cada dia temos de nos batizar novamente. E a “Quaresma” de Jesus deve ser modelo da nossa Quaresma.
O jejum significa domínio sobre o primeiro e mais forte instinto, o de sobrevivência. Significa coisas hoje muito esquecidas, como austeridade, respeito, saber seus limites, impor-se limites. A grande tentação hoje tem que ver com a palavra de ordem: “tem vontade, faz!”. Em nome da liberdade, impõe-se a libertinagem. O “senhor Mercado” exige isso, porque jejum, moderação, educação não dão lucro, e libertinagem dá.
As tentações que Jesus venceu estão nos vencendo. “Transforma essa pedra em pão!” As necessidades básicas, o pão, são primordiais, tanto que está o pão no centro do pai-nosso. Mas transformar as pessoas em consumidoras e reduzir o sentido da vida ao conforto e ao consumo nada tem que ver com o pão necessário para hoje. Não obstante, é a ordem do senhor Mercado e é o que mais se vê. Não é mentalidade comum a idéia de que viver bem significa gozar de todos os prazeres que a vida pode oferecer?
Poder e dinheiro: essas tentações existem hoje? É até difícil falar sobre isso; todos estão cansados de ver e saber. Mas não escapam a elas. O dinheiro se pode contar, somar ou diminuir. É muito visível. Outros valores, como honra, dignidade, respeito, solidariedade, não se podem contar nem somar, desaparecem diante do dinheiro. Dinheiro não tem qualidade, só quantidade. Em negócios e em política vale tudo, só não vale perder.
A religião de curas e milagres cresce como uma avalanche. O individualismo e a busca de soluções na religião para problemas psicológicos, afetivos, de saúde a até econômicos são fenômenos que parecem característicos dos nossos tempos. A fé já não é o comprometer-se com um Messias crucificado, mas acreditar na cura, acreditar que Jesus me livra das dificuldades. O centro da religião passa a ser eu.
Quaresma é lutar e vencer essas tentações como fez Jesus.
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Treinamento da fé
Mais uma vez o primeiro domingo da Quaresma, domingo da tentação de Jesus no deserto. Foi tentado pelo demônio e saiu-se vitorioso de todas as invectivas do pai da mentira.  Estamos, efetivamente, vivendo os dias favoráveis e oportunos da Quaresma.
● “A Quaresma  é uma subida à Páscoa, como os israelitas subiam a Jerusalém para apresentar suas ofertas e como Jesus  subiu para oferecer sua vida.  Nossa subida à Páscoa está sob o signo da  provação e a comprovação de  nossa fé. Encaminhamo-nos para uma grande renovação de nossa opção de fé. Se, nos primeiros tempos da Igreja, a Quaresma era a preparação para o batismo e a profissão de fé, para nós  é caminhada de aprofundamento e renovação de nossa fé.  Pois uma fé que não passa por nenhuma prova e não vence nenhuma tentação pode se tornar acomodada, morta. Ora, a renovação de nossa opção de fé não acontece na base de algum exercício piedoso ou cursinho teórico. É uma luta, como foi a tentação  de Jesus no deserto, ao longo de quarenta dias. A fé se confirma e se aprofunda em sucessivas decisões, como as de Jesus, quando resistia com firmeza e perspicácia às tentações mais sutis: riqueza, poder, sucesso.
Precisamos de treinamento em nossa opção por Deus. Antigamente, esse treinamento consistia no jejum, na mortificação corporal. Mas em nossa situação de América Latina, empobrecida e desigual, o treinamento da opção da fé se realiza  sobretudo na sempre renovada opção pelos pobres e excluídos, no adestramento para a solidariedade cristã. A Campanha da Fraternidade nos treina  para colocar nossa fé em prática. Adestra-nos para  enfrentar os demônios de hoje, a tentação da idolatria da riqueza, da dominação, da discriminação, da competição.  Exercitamos nossa opção de fé, praticando-a na solidariedade fraterna para, com Jesus, chegar à doação  da própria vida, na hora da grande prova. Quem não se exercitar, talvez não saberá resistir” (Johan Koning, Liturgia dominical, Vozes, p. 367).
● A Quaresma é um tempo de ascese.  “A ascese cristã  nunca foi fim em si mesma; é apenas um meio, um método a serviço da vida e como tal procurará adaptar-se às novas necessidades. Outrora, a ascese dos  Padres  do deserto impunha jejuns e privações intensas e extenuantes;  hoje a luta é outra. O homem não tem necessidade de sofrimento suplementar: cilício, cadeias de ferro, flagelações correriam o risco de extenuá-lo inutilmente.  A mortificação de nossa época  consistirá na libertação da necessidade de entorpecentes, pressa, ruídos, estimulantes, drogas, álcool sob todas as formas. A ascese consistirá acima de tudo no repouso imposto a si mesmo, na disciplina da tranquilidade, no silêncio  onde o homem pode concentrar-se para a oração, mesmo em meio a todos os ruídos  do mundo, no metrô, entre a multidão, nos cruzamentos de uma cidade.  Consistirá principalmente na capacidade de compreender dos outros, dos amigos, em cada encontro. O jejum,  ao contrário,  da maceração imposta, será a renúncia alegre do supérfluo, a sua repartição  com os pobres, um equilíbrio espontâneo, tranquilo” (Paul Evdokimow).
frei Almir Ribeiro Guimarães
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Jesus resiste à tentação
Quaresma, quadragésimo dia antes da Páscoa. Na Igreja das origens, era o tempo de preparação para o batismo na noite pascal. Aprendia-se o Credo. Por isso, a 1ª leitura de hoje cita o “credo do israelita”. Ao oferecer as primícias da terra, na primavera (= março-maio, na Palestina), o israelita se lembrava dos quarenta anos passados no deserto, sob a firme condução de Javé Deus, conclusão da peregrinação iniciada por Abraão nas origens do povo. Para ser liberto da escravidão, Israel atravessou o deserto durante quarenta anos, tempo de uma geração: o povo saiu renovado. Tudo isso, o israelita o recordava anualmente ao oferecer suas primícias a Deus.
O cristão, ao apresentar-se diante de Deus, seja na comunidade reunida em assembléia, seja no silêncio de seu coração, recorda uma outra libertação: a que libertou Jesus da morte e o fez passar para a glória, a “passagem” não do anjo exterminador, mas do Cristo, que significa também nossa passagem da morte para a vida. “Jesus é o Senhor… Deus o ressuscitou dos mortos” (Rm. 8,10; 2ª  leitura). Para poder proclamar esta fé, na noite do “novo dia”, Páscoa, o cristão passa um “tempo de quarentena”, para sair completamente renovado.
Também Jesus passou por um “tempo de quarentena” (evangelho). Reviveu toda a história do povo. Conheceu a tentação da fome (cf. Nm. 14), mas recordou o ensinamento de Deus: “Não se vive só de pão” (Dt. 8,3). Conheceu a tentação do bezerro de ouro, ou seja, de adorar um falso deus, que fornecesse riqueza (cf. Ex. 32); mas respondeu, com a palavra de Deus: “Só a Deus adorarás” (Dt. 6,13). Conheceu a tentação mais refinada que se pode imaginar, a de manipular o poder de Deus para encurtar o caminho; mas a experiência de Israel, resumida em Dt. lhe oferece novamente a resposta: “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Dt. 6,16). Jesus venceu o tentador no seu próprio terreno, o deserto, onde moram as serpentes e os escorpiões, onde Deus provou Israel, mas também Israel tinha colocado o próprio Deus à prova (Sl. 95[94],9). Jesus não tentou Deus, mas venceu o tentador. Pelo menos por enquanto, pois a grande tentação ficou para “a hora determinada” (cf. Lc. 22,3.31.39).
Em Lc, Jesus é o grande orante, o modelo do fiel. Jesus resistiu à tentação de tentar Deus: sinal de sua imensa confiança no Pai. Ele professa a fé no único Deus como regra de sua vida. Ele se alimenta com a palavra que sai da boca do Altíssimo. Nossa quaresma deve ser um estar com Jesus no deserto, para, como ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida. Como ele, com ele e por ele, pois é dando a Jesus o lugar central, que o damos a Deus também. Neste sentido, a quaresma é realmente “ser sepultado com Cristo”, para, na noite pascal, com ele ressuscitar.
Lc. traz as tentações em ordem diferente de Mt. (cf. ano A). Em Mt. o auge é a tentação de adorar o demônio; em Lc. o “transporte” para Jerusalém. Ora, todo o evangelho de Lc. é uma migração de Jesus para Jerusalém, e a tentação decisiva será a “tentação de Jerusalém”. Jesus resistirá a esse ataque decisivo, na mesma cidade de Jerusalém. Assim, as tentações prefiguram o caminho de Jesus. Por isso é tão importante que nós nos unamos a ele neste “tempo de quarenta”, em espírito de prova de nossa fé e vida.
É isso que lembra a oração do dia: tornar nossa vida conforme à do Cristo. O salmo responsorial é o Sl. 91 [90], que inspirou o Satanás para a terceira tentação, mas que também contém em si a resposta ao Satanás: a ilimitada confiança em Deus.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Durante o período da Quaresma, o cristão, quer seja na comunidade ou em um encontro pessoal com Deus, prepara seu coração para estar com Jesus no deserto, e dá a Deus o poder de conduzir sua vida.
Após ser batizado no Rio Jordão e apresentado por Lucas na Sua genealogia, Jesus é levado pelo Espírito Santo para o deserto e fica ali durante 40 dias antes de iniciar sua missão de evangelizar e curar. Esses quarenta dias são simbólicos, lembram os 40 dias que Moisés ficou na montanha para firmar aliança com Deus (onde recebeu os 10 mandamentos), os 40 dias que Elias permaneceu no monte Horeb, e ainda, os 40 anos do povo de Israel no deserto.
O deserto Palestino era um lugar perigoso, não era explorado e era habitado por animais selvagens, além de bandidos. Na Sagrada Escritura, é um lugar privilegiado de encontro com Deus, mas foi, para o povo de Israel, um tempo de prova e fracasso no êxodo durante 40 anos, e também para João Batista que ali viveu desde a adolescência. Porém, no que se refere ao tempo de Jesus, o deserto não foi somente um retiro de intimidade com o Pai, mas um lugar de luta extrema.
Jesus é o novo Adão. Ele é tentado como todo homem na carne, nos olhos e na soberba da vida, mas Sua fidelidade ao Pai se mantém preservada. Ele ficou sem comer durante os 40 dias e, sendo reconhecido como Filho de Deus, foi tentado pelo diabo a usar Seus poderes divinos para Seu benefício próprio.
A primeira tentação foi transformar as pedras em pães para saciar Sua fome. Mas Ele responde com as Palavras da Sagrada Escritura, sustento da fé. Ele se recusa a ser o Messias da abundância.
A segunda tentação é um esforço de fazer Jesus adorar outra pessoa que não seja Deus. O diabo afirma que o poder e a glória estão à disposição d’Ele, pois é mentiroso e enganador e muitos caíram nessa conversa antes e depois de Jesus que se manteve fiel ao Pai, e responde novamente com as Palavras do livro do Deuteronômio.  Ele se recusa a ser o Messias do poder.
Lucas apresenta a terceira tentação como o ápice de todas, focada em Jerusalém, centro de todo o poder, realçada como o lugar principal da obra da salvação de Jesus e da vida da Igreja primitiva. O diabo tenta fazer Jesus se desviar do caminho de obediência ao Pai, insultando-O para pôr a Palavra de Deus à prova. Ele se recusa a ser o Messias da vaidade.
Sem nada conseguir, o diabo afasta-se de Jesus até o tempo oportuno, quando voltará a tentá-Lo para testar a Sua condição de Filho amado de Deus na Sua Paixão.
A cena das tentações é simbólica e resume as dificuldades que a humanidade enfrenta desde sempre até hoje no que se refere ao projeto de Deus, e que Jesus teve que enfrentar e superar durante toda a sua vida. A palavra diabo significa empecilho, obstáculos que são apresentados nesta passagem como: a tentação da abundância de alimento que parece resolver tudo, a tentação do poder e da riqueza que gera a ambição, e a tentação do prestígio e da vaidade que se transforma em abuso de poder e da confiança em si mesmo.
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Vencendo as tentações
Os evangelhos não escamoteiam o fato da tentação na vida de Jesus. Se, por um lado, ao ser tentado, a humanidade do Messias fica patente, uma vez que todo ser humano é passível de tentação, por outro lado, a tentação evidencia a sua santidade.
Ao encarnar-se, Jesus assumiu plenamente a condição humana, sem exigir privilégios por ser Filho de Deus. Sendo assim, esteve sujeito a toda sorte de provações, como: abandonar o itinerário traçado pelo Pai para escolher um projeto de vida baseado no orgulho e na vanglória; usar mal o poder recebido do Pai, e realizar milagres para fazer-se reconhecido pelo povo. Foi tentado a desviar-se da cruz, e escolher o caminho fácil do pacto com as potências mundanas, a fim de realizar sua missão. Foi tentado a buscar fama e admiração, por meio de feitos espetaculares.
A santidade de Jesus revela-se na capacidade de vencer toda sorte de tentação, sem abrir mão do projeto do Pai, embora, devendo sofrer as conseqüências da ousadia de ser fiel.
A cruz será a suprema provação de Jesus. Não lhe faltará o desejo de ser poupado dela. Nem estará imune do pavor gerado por esta cruel circunstância. Todavia, ao superá-la, estará provado, mais do que nunca, ser ele o Filho de Deus, santo e fiel.
Oração
Espírito de fortaleza, permanece sempre comigo, nas horas da tentação, para que, como Jesus, eu seja firme em superá-las.
padre Jaldemir Vitório
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O filho de Deus obediente à vontade do Pai
A cena das tentações está intimamente vinculada à cena do batismo e à genealogia de Jesus: é como Filho de Deus que Jesus é tentado (cf. Lc. 4,3.9). Israel, depois de ter sido escolhido pelo Senhor como seu filho (Ex. 4,22), foi conduzido pelo deserto, através de uma coluna de fogo (cf. Is. 63,11.14), para ser tentado durante quarenta anos. A tipologia subjacente ao relato das tentações de Jesus é a do Êxodo.
As três cenas das tentações descrevem Jesus como Filho de Deus, obediente à vontade do Pai. Por essa razão, ele não cede à sedução de usar seus poderes ou sua autoridade de Filho para uma finalidade distinta da que é a sua missão. A tentação é a de utilizar a sua condição de Filho de Deus em benefício próprio. As três cenas fazem alusão às tentações do povo de Israel ao longo da travessia pelo deserto. O relato não visa nos fazer compreender que as tentações aconteceram num único momento da vida de Jesus; ele só pode ser lido e compreendido no conjunto do evangelho, pois as tentações acompanharam Jesus ao longo de toda a sua vida terrena.
Como Moisés, que antes de escrever as palavras da aliança jejua, assim também Jesus, antes de começar o seu ministério público. Depois de dias de jejum, a fome não aparece como uma tentação surpreendente. Ainda que o pão seja necessário para a vida, a vida do ser humano não se reduz aos seus bens, nem se resolve com um passe de mágica. A segunda tentação é a da ambição da realeza humana, que Jesus rejeita. Depois da multiplicação dos pães, querem fazer Jesus rei: "Jesus, porém, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, retirou-se, de novo, sozinho, para o monte" (Jo 6,15; Mc. 8,31-33; Mt. 27,42-43). Na cruz zombavam dele e gritavam: "Rei de Israel que é, desça agora da cruz e creremos nele!" (Mt. 27,42). A terceira tentação é a de realizar um sinal espetacular para ser crido e reconhecido. Em Jo 6,30s, temos uma questão do mesmo tipo: "Que sinal realizas para que vejamos e creiamos em ti?" A tentação de se fazer valer aos olhos dos homens e de buscar a sua própria glória é algo presente em toda a vida de Jesus. No entanto, a pedagogia de Jesus é de outra sorte para conduzir as pessoas à fé nele. A fidelidade de Jesus ao Pai, a clareza da vontade de Deus para a sua vida, a convicção de sua missão, a força do Espírito Santo recebida no batismo, permitem a Jesus não sucumbir nem cair no poder da tentação.
Carlos Alberto Contieri, sj

No início da Quaresma, a Palavra de Deus apela a repensar as nossas opções de vida e a tomar consciência dessas “tentações” que nos impedem de renascer para a vida nova, para a vida de Deus.
A primeira leitura convida-nos a eliminar os falsos deuses em quem às vezes apostamos tudo e a fazer de Deus a nossa referência fundamental. Alerta-nos, na mesma lógica, contra a tentação do orgulho e da auto-suficiência, que nos levam a caminhos de egoísmo e de desumanidade, de desgraça e de morte.
O Evangelho apresenta-nos uma catequese sobre as opções de Jesus. Lucas sugere que Jesus recusou radicalmente um caminho de materialismo, de poder, de êxito fácil, pois o plano de Deus não passava pelo egoísmo, mas pela partilha; não passava pelo autoritarismo, mas pelo serviço; não passava por manifestações espetaculares que impressionam as massas, mas por uma proposta de vida plena, apresentada com simplicidade e amor. É claro que é esse caminho que é sugerido aos que seguem Jesus.
A segunda leitura convida-nos a prescindir de uma atitude arrogante e auto-suficiente em relação à salvação que Deus nos oferece: a salvação não é uma conquista nossa, mas um dom gratuito de Deus. É preciso, pois, “converter-se” a Jesus, isto é, reconhecê-l’O como o “Senhor” e acolher no coração a salvação que, em Jesus, Deus nos propõe.
1ª leitura: Dt. 26,4-10 - AMBIENTE
O livro do Deuteronômio – do qual é retirada a primeira leitura de hoje – é aquele “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18º ano do reinado de Josias (622 a.C.) (cf. 2Re. 22). Neste livro os teólogos deuteronomistas – originários do norte mas, entretanto, refugiados no sul, em Jerusalém, após as derrotas dos reis do norte (Israel) frente aos assírios – apresentam os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém); esse Deus amou e elegeu Israel e fez com ele uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um povo único, unido, a propriedade pessoal de Jahwéh (portanto, não têm qualquer sentido as divisões históricas que levaram o Povo de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão).
O livro apresenta-se, literariamente, como um conjunto de discursos de Moisés, pronunciados nas planícies de Moab: antes de entrar na Terra Prometida, Moisés lembra ao Povo os seus compromissos para com Deus e convida os israelitas a renovar a sua aliança com Jahwéh.
Em concreto, o texto que hoje nos é apresentado faz parte de um bloco (cf. Dt. 12-26) que apresenta “as leis e os costumes” que o Povo da aliança devia pôr em prática nessa terra da qual iria, em breve, tomar posse. Uma dessas leis pedia que fossem oferecidos ao Senhor os primeiros frutos da terra e que o israelita fiel proclamasse, nesse contexto, a sua “confissão de fé”. Provavelmente, o costume é de inspiração cananeia: cada ano, por ocasião da recolha dos produtos da terra, o cananeu celebrava uma festa em honra de Baal, divindade da fecundidade e da vegetação, agradecendo-lhe os dons da terra. Israel, no entanto, sabia que não era a Baal mas a Jahwéh que devia agradecer tudo; a sua confissão de fé centrava-se, então, na ação de Deus em favor do seu Povo, sublinhando sobretudo a libertação do Egito, os acontecimentos da marcha pelo deserto, a eleição e o dom da Terra.
MENSAGEM
O gesto de oferecer os primeiros produtos da terra era, portanto, acompanhado de uma “confissão de fé”. No fundo, todo este “credo” que recapitula as antigas intervenções do Senhor em favor do seu Povo (eleição dos patriarcas, êxodo, dom da terra) tem como objetivo último afirmar e reconhecer que essa Terra Boa onde Israel construiu a sua existência é um dom de Deus; e não só a terra, mas tudo o que cresce sobre ela, é produto do amor de Deus em favor do seu Povo. É isso que significavam e simbolizavam as primícias que o israelita depositava sobre o altar, por meio do sacerdote.
Estas profissões de fé que os israelitas estavam obrigados a pronunciar periodicamente na liturgia faziam parte da pedagogia divina, que queria prevenir o Povo contra a tentação da idolatria. Por um lado, Israel era convidado a reconhecer quem era o seu Senhor e que tudo era um dom do amor de Jahwéh – não de outros deuses; por outro lado, Israel era convidado a libertar-se do orgulho, do egoísmo, da auto-suficiência e a reconhecer que tudo o que era e que tinha não era fruto das conquistas humanas, mas provinha de Jahwéh. Israel era, assim, convidado a reconhecer que só no amor e na acção de Deus encontrava a vida e a felicidade.
ATUALIZAÇÃO
• Uma das tentações frequentes na vida do homem moderno é colocar a sua vida, a sua esperança e a sua segurança nas mãos dos falsos deuses: o dinheiro, o poder, o êxito social ou profissional, a ciência ou a técnica, os partidos, os líderes e as ideologias ocupam com frequência nas nossas vidas o lugar de Deus. Quais são os deuses diante dos quais o mundo se prostra? Quais são os deuses que, tantas vezes, impedem que Deus ocupe, na minha vida, o primeiro lugar?
• O orgulho, o egoísmo, a auto-suficiência também levam o homem a prescindir de Deus. Os êxitos e as realizações são atribuídas exclusivamente ao esforço e ao gênio humano, como se o homem se bastasse a si próprio… Deus chega mesmo a ser visto, não como a referência última da nossa história e da nossa vida, mas como um estorvo que impede o homem de ser livre e de seguir o seu caminho de busca de felicidade. Onde nos leva um mundo que prescinde de Deus? Os caminhos que o homem constrói longe de Deus são caminhos onde encontramos mais humanidade, mais alegria, mais amor, mais liberdade, mais respeito pela justiça e pela dignidade do homem? Porquê?
• Tudo o que recebemos é de Deus e não nosso. Somos apenas administradores dos dons que Deus colocou à disposição de todos os homens. A nossa relação com os bens – mesmo os mais fundamentais – não pode, pois, ser uma relação fechada e egoísta: tudo pertence a Deus, o Pai de todos os homens e deve, portanto, ser partilhado. Como nos situamos face a isto? Os bens que Deus colocou à nossa disposição servem apenas para nosso benefício exclusivo, ou são vistos como dons de Deus para todos?
2ª leitura: Rm. 10,8-13 - AMBIENTE
A carta aos Romanos é considerada, por alguns exegetas, a “carta da reconciliação”. Estamos nos anos 57/58; a convivência entre judeo-cristãos e pagano-cristãos apresenta algumas dificuldades, dadas as diferenças sociais, culturais e religiosas subjacentes aos dois grupos. A comunidade cristã corre o risco de radicalizar as incompatibilidades e de se dividir… Nesta situação, Paulo escreve para sublinhar aquilo que a todos une. O centro da carta seria, de acordo com esta perspectiva, 15,7: “Acolhei-vos, pois, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus”.
O texto da segunda leitura pertence à primeira parte da carta (Rm. 1-11); o título desta parte pode ser: o Evangelho de Jesus é a força que congrega e que salva todo o crente (judeus e pagãos). Depois de demonstrar que todos os homens vivem mergulhados num ambiente de pecado (Rm. 1,18-3,20), mas que a “justiça de Deus” dá a vida a todos sem distinção (Rm. 3,21-5,11) e que é em Jesus que essa vida se comunica (Rm. 5,12-8,39), Paulo reflete sobre o desígnio de Deus a respeito de Israel (Rm. 9,1-11,36).
Neste texto, em concreto, Paulo põe em relevo aquilo que une judeus e gregos: a mesma fé em Jesus Cristo e na proposta de salvação que Ele traz.
MENSAGEM
Nos versículos anteriores (cf. Rm. 9,30-10,4), Paulo havia criticado o orgulho e a auto-suficiência dos judeus, que pensavam chegar à salvação à custa das obras que praticavam: se cumprissem as obras da Lei, Deus não teria outro remédio senão salvá-los. Ora, na perspectiva de Paulo, a salvação não é uma conquista humana, mas um dom gratuito de Deus que, na sua bondade, “justifica” o homem.
Essa auto-suficiência dos judeus levou-os a desprezar a salvação de Deus, oferecida gratuitamente em Jesus Cristo. Os pagãos, ao contrário, com simplicidade e humildade, acolheram a proposta de salvação que Jesus trouxe.
Então, tudo estará perdido para os judeus? Não. Basta-lhes acolher Jesus como “o Senhor” e aceitar a sua condição de ressuscitado: isso significa aceitar que Ele veio de Deus e que a proposta de salvação por Ele apresentada tem o selo de Deus.
Dessa forma nascerá um povo único, sem distinções de raça, cor ou estatuto social. O que é decisivo é acolher a proposta de salvação que Deus faz através de Jesus e aderir a essa comunidade de irmãos, “justificados” pela bondade e pelo amor de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• O orgulho e a auto-suficiência aparecem sempre como algo que fecha aos homens o caminho para Deus. Conduzem o homem ao fechamento em si próprio e a prescindir de Deus e dos outros. Os orgulhosos e auto-suficientes correspondem aos “ricos” das bem-aventuranças: são os que estão instalados nas suas certezas, no seu comodismo, no seu egoísmo e não estão disponíveis para se deixar desafiar por Deus e para acolher, em cada instante, a novidade e o amor de Deus. Por isso, são “malditos”: se não estiverem dispostos a abrir o seu coração a Deus, recusam a salvação que Deus tem para oferecer.
• Como nos situamos face a isto? A nossa religião é um cumprir escrupulosamente as regras para assegurar o “lugarzinho no céu”, ou é um aderir na fé à pessoa de Jesus e à proposta gratuita de salvação que, através d’Ele, Deus nos faz?
• Quando nos reunimos em assembléia e proclamamos Jesus como o nosso “Senhor”, somos uma verdadeira comunidade de irmãos, sem “judeu nem grego”, ou continuamos a ser uma comunidade dividida, com amigos e inimigos, ricos e pobres, negros e brancos, santos e pecadores, superiores e inferiores?
Evangelho: Lc. 4,1-13 - AMBIENTE
Estamos no começo da atividade pública de Jesus. Ele acabou de ser batizado por João Baptista e recebeu o Espírito para a missão (cf. Lc. 3,21-22). Agora, confronta-Se com uma proposta de atuação messiânica que pretende subverter a proposta do Pai.
Também aqui não estamos diante de uma reportagem histórica, feita por um jornalista que presenciou o desafio entre Jesus e o diabo, algures no deserto… Estamos, sim, diante de uma página de catequese, cujo objetivo é ensinar-nos que Jesus, como nós, sentiu a mordedura das tentações. Ele também sentiu a tentação de prescindir de Deus e de seguir um caminho humano de êxitos, de aplausos, de poder e de riqueza; no entanto, Ele soube dizer não a todas essas propostas que O afastavam do plano do Pai.
MENSAGEM
Lucas (como já o havia feito Mateus) vai apresentar a catequese sobre as opções de Jesus, em três episódios ou “parábolas”. O relato constrói-se em torno de um diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam a Escritura em apoio da sua opinião.
A primeira “parábola” sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material… No entanto, Jesus sabia que “nem só de pão vive o homem” e que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3, sugerindo que o seu alimento – a sua prioridade – é a Palavra do Pai.
A segunda “parábola” sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de prepotência, ao jeito dos grandes da terra. No entanto, Jesus sabe que esses esquemas são diabólicos e que não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt. 6,13, diz que só o Pai é o seu “absoluto” e que não se deve adorar mais nada: adorar o poder que corrompe e escraviza não tem nada a ver com o projeto de Deus.
A terceira “parábola” sugere que Jesus poderia ter construído um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo admirado e aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático dos super-heróis). Jesus responde a esta proposta citando Dt. 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus: aqui, “tentar” significa “não utilizar os dons de Deus ou a bondade de Deus com um fim egoísta e interesseiro”.
Apresentam-se, portanto, diante de Jesus, dois caminhos. De um lado, está a proposta do diabo: que Jesus realize o seu papel na história da salvação como um Messias triunfante, ao jeito dos homens. Do outro, está a escolha de Jesus: um caminho de obediência ao Pai e de serviço aos homens, que elimina qualquer concepção do messianismo como poder.
ATUALIZAÇÃO
• Frente a frente estão, hoje, a lógica de Deus e a lógica dos homens. A catequese que o Evangelho nos apresenta neste primeiro Domingo da Quaresma ensina que Jesus pautou cada uma das suas escolhas pela lógica de Deus. E nós, cristãos, seguidores de Jesus? É essa a nossa lógica, também?
• Deixar-se conduzir pela tentação dos bens materiais, do acumular mais e mais, do olhar apenas para o seu próprio conforto e comodidade, do fechar-se à partilha e às necessidades dos outros, é seguir o caminho de Jesus? Pagar salários de miséria aos operários e malbaratar fortunas em noitadas de jogo ou em coisas supérfluas (enquanto os irmãos, ao lado, gemem a sua miséria), é seguir o caminho de Jesus?
• Dentro de cada pessoa, existe o impulso de dominar, de ter autoridade, de prevalecer sobre os outros. Por isso – às vezes na Igreja – os pobres, os débeis, os humildes têm de suportar atitudes de prepotência, de autoritarismo, de intolerância, de abuso. A catequese de hoje sugere que este “caminho” é diabólico e não tem nada a ver com o serviço simples e humilde que Jesus propôs nas suas palavras e nos seus gestos.
• Podemos, também, ceder à tentação de usar Deus ou os dons de Deus para brilhar, para dar espetáculo, para levar os outros a admirar-nos e a bater-nos palmas. A isto Jesus responde de forma determinada: não utilizarás Deus em proveito da tua vaidade e do teu êxito pessoal.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Epístola aos Romanos 10,8-13
Uma das primeiras confissões de fé. Paulo a resume em três artigos: crer, confessar e ressurreição, esta como objeto dessa fé. E compara esta fé com as palavras da Escritura do AT, como sendo já prescritas pela voz de Deus. O que os antigos israelitas cumpriam com as filactérias, os cristãos podem realizar com o sinal da cruz, sendo esta última, também uma confissão de fé na Santíssima Trindade. Devemos, pois, fazer esse sinal externo como uma confissão de fé que será válida para nossa salvação, pois Jesus ressuscitado é a pedra de salvação. O credo do Shemá deve  ser substituído pelo credo da cruz.

PAULO APELA A ESCRITURA. Porém, que diz? “Perto de ti, a palavra está em tua boca e em teu coração”, isto é, a palavra da fé que anunciamos” (8)
QUE DIZ?: Paulo está argumentando com palavras da Escritura. E neste versículo cita as palavras do Deuteronômio 30,14: A palavra está bem perto de ti, está em tua boca e em tu coração para que a ponhas em prática.O Deuteronômio fala do mandato [Lei] do Senhor como não sendo um mandato promulgado em lugares afastados ou impossíveis como são os céus ou o mar, mas está perto de cada um. Para conhecer o evangelho não é preciso subir ao céu de onde procede Cristo ou descer aos infernos onde ele desceu, porque tanto de um lugar como de outro veio e falou de modo que todos os que quiseram possam ver sua figura e ouvir suas palavras. O mandato é basicamente o primeiro da Lei, que era recitado duas vezes ao dia por meio do Shemá. Daí que ele esteja na boca dos fieis israelitas. E se seguem os preceitos da Lei, os mandatos estarão tanto na frente como perto do coraçãonas filactérias que eram os escritos do Shemá a recitar  de manhã  e à noite e cuja recitação deveria preceder o momento da morte. Os quatro versículos, ou melhor passagens (Dt. 6,4-9 e 11,13-21 e Nm. 15,37-41) se consideravam como uma referência aos dez mandamentos. Além do Shemá, recitado em alta voz [pelo menos o Mezuzá = Dt. 6,4-9 e 11,13-21], temos as filactérias com duas caixinhas que continham o Shemá, segundo o mandato dos versículos do Êxodo e Deuteronômio (Êx 13,9- 19 e 16; Dt. 6,6 e Dt. 11,8). A Caixinha da cabeça tinha 4 compartimentos em cada um um dos versículos do Shemá; e a da mão esquerda, que ao levantar em oração, caia sobre o coração um só departamento, com os 4 versículos unidos na pequena tira de couro. As caixinhas eram colocadas durante a oração da manhã e da noite e retiradas após as mesmas. Explicitamente em Êx. 13,9 lemos: Para que tenhas em tua boca a lei de Jahveh e em Dt. 6,6 e estas palavras que eu te mando estarão sobre teu coração.
PALAVRA: Paulo usa Rema que é a palavra dita como oráculo, ou mandato e corresponde ao davar, ou omer com o significado de mandato, ordem, oráculo ou promessa quando provindo de Jahveh. E logicamente é a palavra de Deus na Escritura, ou Torah. Do dito acima, vemos como se cumpria entre os hebreus essa Escritura que estava na boca pela recitação do Shemá diário e em teu coração ela queda na caixinha sobre ele.
BOCA: Stoma especialmente temos em Mt 4, 4 não de pão só viverá o homem mas de toda palavra que procede da boca de Deus.
CORAÇÃO: Kardia (= cor) Na realidade, kardia pertence, como metáfora, a uma antiga suposição, em que o coração era a origem do pensamento e da vontade. De fato, o Kardia era antigamente o centro da vida física e espiritual. Hoje, vemos que o coração não tem semelhantes faculdades, pois é uma simples bomba de sangue, e sabemos que a base das mesmas é a mente. Já temos explicado a origem desta frase paulina tomada do AT, que ele usa para explicar o valor da fé em oposição aos mandatos da Lei.

A PROFISSÃO DA FÉ. Pois se confessares em tua boca Senhor (é) Cristo e creres em teu coração que o Deus dele o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (9).
CONFESSAR: omologeö cujo significado é concordar, consentir, acordar. Logo, é não negar ou confessar e finalmente, professar publicamente um credo ou louvar e aplaudir. Temos optado com o latim traduzindo confessar no sentido de declarar publicamente uma fé, como diz Jesus:Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus (Mt. 10,32). A confissão é que Cristo, o Ungido, é o Senhor, no sentido do novo Deus a ser adorado, pelo povo novo da nova Aliança.
CORAÇÃO: Já temos explicado o significado real e não unicamente literal do vocábulo. A boca deve ser instrumento veraz do que admitimos como verdadeiro em nosso pensamento. E qual é o credo que devemos admitir como base de nossa fé? Aquele que Paulo declara insistentemente em 1Cor 15: a ressurreição de Jesus dentre os mortos.
RESSUSCITOU: para Paulo esta é a verdade fundamental do cristianismo: crer na ressurreição de Cristo e crer na nossa ressurreição é acreditar uma vida, diante da qual, esta da terra é como escória e lixo; e, portanto, devemos viver na esperança de um mundo melhor e definitivo.
SERÁ SALVO: Paulo repete o que João disse como palavra de Jesus: Por isso quem crê no Filho tem a vida eterna (Jo 3,36), conclusão do evangelista diante da afirmação de Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra viverá (Jo 11,25).
CONSEQUÊNCIA: Já que com (o) coração se crê para justiça com (a) boca se aclama para salvação(10)
CORAÇÃO: já temos falado que em linguagem atual, devemos traduzir por mente o leb ou kardia antigos, sempre que os usemos em termos simbólicos.
JUSTIÇA: a Dikaiosunë que na Setenta é a tradução de Tsedek, tem estes conceitos no AT:
1) Como probidade ou integridade de conduta: Quem vive com integridade e pratica a justiça e o de coração fala a verdade (Sl 15,2). Guia-me pelas veredas da justiça [tsedek] por amor de seu nome. (Sl 23,3)
2) Justiça em sentido de direito: Julgará com justiça os pobres e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra… E será a justiça o cinto de seus quadris(Is. 11,4). No NT o grego emprega dikaiosunë no sentido de probidade ou conduta irrepreensível, em conformidade com a lei. Assim devemos entender Mt. 3,15: convem que cumpramos toda justiça. E bemaventurados são aqueles que têm fome e sede de justiça.
3) Paulo fala da justiça de Deus a começar em Rm. 1,17. Significa, sem dúvida, a essência divina que é bondade e que busca o bem das criaturas. Com Paulo tem um significado peculiar:
1) quando afirmado de Cristo: é sua pureza , sem pecado, é a santidade de Deus.
2) No homem se identifica com a observância integral dos mandamentos.
3) Mas especialmente em Paulo, tem um significado diferente do acreditado entre os judeus e os cristãos judaizantes: atributo, em virtude do qual, Deus salva; e chega a ser fidelidade de Deus, força salvadora que justifica o homem, convertendo-o em amigo de Deus e filho, com participação da vida divina o que constitui a graça santificante, como em Rm. 3,21-26: Mas agora, independentemente da Lei, a justiça de Deus foi manifestada …pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem… gratuitamente justificados em sua graça, em virtude da libertação realizada em Jesus Cristo. Foi a Ele que Deus destinou para servir de expiação por seu sangue… a fim de justificar quem vive da fé em Jesus. É  a graça recebida no batismo que tem estas consequências: conversão, arranca o homem do pecado, acolhe a justiça de Deus, é merecida pela paixão de Cristo e, portanto, gratuita de nossa parte, colabora com a moção divina livremente, obra excelente do amor de Deus e participação da vida divina, que por isso recebe o nome de santificante ou divinizante.
SALVAÇÃO: esse conjunto de favores divinos recebe o nome de justificação. Como consequência dessa graça ou mercê de Deus, o homem está destinado à vida eterna. Por isso é considerado salvo. O amor divino nele permanece e como tal filho, terá como fim a vida eterna, própria de Deus.

CONFIRMAÇÃO. Pois diz a Escritura: “Todo aquele que nele crê não será envergonhado” (11)
É uma repetição em diminutivo do versículo 9,33 da mesma epístola: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo: aquele que nela crê não será confundido. Ambas têm uma base em Is. 28,16: Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra preciosa, angular, solidamente assentada: aquele que crer, não foge. Eis algumas traduções diferentes do não foge: non festinet (Vulg), non turbabitur(Nova Vulg), não se apressará, não vacilará, não será abalado, will never be dismayed. A este oráculo, apela Jesus em Mt. 21,42. Porém, a Setenta traduz o verbo chush com significado de se apressar por Kataischinthë, futuro passivo de kataischinö cujo significado é desonrar, ou envergonhar. Logicamente, das diversas traduções, vemos que a de Paulo segue a Setenta, versão que era a usada pelos primitivos cristãos e que com suas citações elevaram a verdadeira Escritura. Foi a contundência da Setenta, que mostrava Jesus como Cristo, a que levou os judeus a novas traduções ao grego, como eram Áquila, Símaco e Teodocião. Hoje a Setenta é a Bíblia grega do AT usada pelos católicos e evangélicos. Dependendo de que versão usamos, hebraica ou grega, optaremos por não se apressará (praticamente sem muito sentido) ou não se envergonhará (que tem sentido próprio). A passagem de Mateus explica isso da pedra em lábios de Jesus: A pedra que os construtores rejeitaram foi a que se tornou pedra angular : isto é obra do Senhor, coisa admirável para nossos olhos (Mt. 21,42)

NULIDADE DE DIFERENÇA. Porque não existe diferença tanto do judeu como do grego, já que o mesmo (é) o Senhor de todos, rico para todos os invocantes (12).
Na sua vocação particular de ser apóstolo dos gentios, e de pregar a estes o seu evangelho, Paulo agora desce ao terreno peculiar e casuístico: visto que a fé, e não a Lei, é a causa da salvação e da entrada no novo povo que tem como base essa pedra que é Cristo, não pode existir diferença entre ambos os povos.
DIFERENÇA: Diastolë, distinção, ou diferença, sai unicamente 3 vezes em Paulo. Pois sedo o mesmo o Senhor [Jesus] e sendo rico não há porque existir diferenças. Todos são súditos e formam o novo povo da nova aliança e existe para todos amplamente uma riqueza ilimitada. Pedindo, não diminui a fortuna que é infinita e existe riqueza em abundância para todos. Como dizia Sta. Teresinha, uns têm um copo maior e outros menor; mas todos eles serão cheios até a borda.

CAUSA DE SALVAÇÃO. Porque todo aquele que invocar o nome de (o) Senhor será salvo(13).
INVOCAR: o Epikaleö (= invocare] ser nomeado, acusar e invocar; pois toda prece iniciava-se com a invocação do nome da divindade. Daí, invocar o nome do Senhor, que logicamente é Cristo.
SALVO: É a grande preocupação de Paulo. E esta afirmação esta explicitamente escrita em Joel 3, 5: Então todo o que invocar o nome do Senhor será salvo. O profeta fala do dia grande do Senhor, dia de juízo, pois será o dia do Senhor julgar (Idem 4,2 segundo a TEB, tradução de Josafat). Com esta declaração Paulo substitui o Jahveh do AT pelo Cristo Jesus do NT. Nós dependemos de Cristo assim como o antigo povo de Israel dependia de Jahveh. Cristo é nossa salvação. Por isso, o anjo explica aos pastores: Nasceu-vos hoje, na  cidade de Davi, um salvador que é o Cristo Jesus. (Lc. 2,11)

Evangelho: Lc. 4,1-13
Estas tentações não são meramente humanas, mas messiânicas: satanás intenta afastar Jesus do campo assinalado pelo Pai para completar uma obra que é um caminho de humilhação e sofrimento, o caminho da cruz, que termina com seu sacrifício. Por isso lhe mostra uma via gloriosa e triunfalista, esperada por sua vez pelos próprios judeus, que talvez fundavam esta sua opinião nos mesmos textos de que se serve o espírito tentador. Por outra parte, as tentações de Jesus têm sua imagem típica nas tentações do deserto do povo de Israel. Satanás substitui o povo de Israel e Javé está representado por Jesus, que responde às tentações com as palavras da Escritura. O deserto de Jesus representa o deserto do povo e assim ele mesmo está tipificado no guia e legislador Moisés. Ou melhor, talvez Jesus represente o novo povo de Deus que é tentado em sua pessoa pelo inimigo sob aparência de uma correta conduta religiosa. A fome [1ª tentação]: Israel tenta a Javé  e essa prova serve, segundo Dt. 8,3 para um novo alimento saído da boca de Deus: Javé te humilhou, fez com que sentisses fome e te alimentou com o maná….para que aprendas que não só de pão vive o homem, mas de tudo aquilo que sai da boca de Javé. Na segunda tentação que o povo fez a Deus vemos como aquele o rejeita por uma maior segurança em Êx 32,1 e por isso, pede que um novo deus seja forjado para que os guie no caminho do deserto, porque Moisés demorava a descer do monte. Na terceira tentação, o povo reclama, colocando à prova Javé, dizendo: Está Javé no meio de nós, ou não? E Deus responde por boca de Moisés: Não tentareis a Javé vosso Deus  como o tentastes em Massa. É uma desconfiança na providência de Javé que o salmista rejeita em Sl 91, 11: Javé ordenou a seus santos anjos que te guardassem em todos os teus caminhos; te carregarão em seus braços, para que teu pé não tropece em pedra alguma.

CHEIO DE ESPÍRITO DIVINO. Jesus, pois, cheio de espírito divino desde o Jordão, então foi coagido no espírito para o deserto (1).
O ESPÍRITO. As traduções vernáculas falam do Espírito Santo, como se fosse a terceira pessoa da Trindade. Esse artigo definido não está no original grego. Qual a diferença? Jesus, que foi batizado no espírito, uma vez recebido o batismo de água de mãos do Batista, agora é levado por esse espírito ao deserto. Esse espírito é chamado de sagrado, ou divino, para distingui-lo do espírito impuro que tem sua origem em forças demoníacas ou malignas. O espírito santo é um Dom de Deus, fonte de atividade criativa ou profética. Corresponde ao enthusiasmos grego em que o homem é possuído pela força do deus correspondente. Fazer e atuar como Deus quer, e falar o que Deus decidir, é estar cheio do espírito santo. Esse espírito está dirigindo o homem, independente de sua mente ou NOUS, e dos apetites de seu corpo. É assim que Jesus foi guiado, ou melhor, coagido (passiva teológica) ao ermo, ou sertão da Judéia. O artigo definido indica um lugar conhecido, como era o deserto de Judá, lugar montanhoso, ermo e árido com total ausência de moradores humanos. O grego diz que o fez subir até o deserto. Lucas dirá que o fez voltar ao deserto. Ambas as expressões são perfeitamente exatas, caso o deserto seja o da Judeia. O Jordão estava a mais de 300 mt. sob o nível do mar no lugar onde o Batista batizava; e o deserto, com artigo, era precisamente o lugar montanhoso que se encontrava a bastante altura do nível do mar, entre Jerusalém e a margem ocidental do mar Morto. No caso de que João estivesse batizando perto das planícies de Basan [em Enon, perto de Salim], também podemos falar de subir, pois o Jordão estava a 200 mt. sob o nível do mar e as alturas de Golan o marginavam. Pelo que diz respeito a Lucas, este diz que Jesus voltou do Jordão e foi impelido pelo Espírito ao deserto. Em ambos os casos o agente da ação do movimento de Jesus foi o Espírito de que estava possuído após o batismo, segundo Lucas (4,1). Alguém poderá dizer: se no Pai-nosso rezamos não nos deixes cair na tentação como é agora o Espírito quem causa a ocasião da tentação? Devemos pensar que a linguagem bíblica não distingue entre causa e ocasião e entre causas segundas e primárias. Hoje diríamos que o Espírito conduziu Jesus para o deserto e assim foi facilitada a obra do tentador que, segundo os conceitos do tempo, era o lugar povoado pelos demônios com o qual a tentação era previsível.
O DESERTO:
a) Deserto real: O eremos grego é um lugar descampado, solitário, [desertus, desamparado, abandonado, solitário] que como adjetivo tem o  mesmo significado; ao qual voltou, ou se desviou desde o Jordão. Com artigo, e referido com um verbo que significa subir, indicaria que esse deserto é o famoso de Judá. Deserto por ser lugar inóspito, não por ser um deserto de areia, já que o deserto de Judá é um deserto abrupto, pedregoso e principalmente estéril. Unicamente na primavera existe alguma vida vegetal. Tem 80 Km. de comprimento, por 20 ou 25 Km. de largura. É uma área montanhosa, desabitada, entre Jerusalém e o mar morto. Unicamente há uma fonte de águas termais em Engadi que formava ao seu redor um oásis fértil, cheio de palmeiras, vinhas e árvores de bálsamos. Ao seu redor existem numerosas covas. Foi o lugar escolhido por Davi para fugir de Saul e onde este esteve nas mãos do futuro rei que poupou sua vida (1Sm. 24,1-12). Na parte mais alta não havia nada, a não ser pedras como as que o diabo assinala para serem convertidas em pão. Em Lucas, nosso caso, o eremos aparece 12 vezes. Das 4 vezes que o deserto se refere ao Batista, uma delas está em plural [nos desertos] lugares que eram as moradias de João antes de tornar público seu anúncio como arauto do Messias. No deserto, é a frase com a qual o evangelista distingue dos lugares desertos onde Jesus se retirava para orar oulugar deserto onde ele multiplica os pães. Unicamente no deserto é que o pastor abandona as 99 ovelhas para buscar a transviada (15,4). Somente Mateus usa esta expressão [no deserto] no início da pregação de João, o Batista, determinando praticamente o lugar: pregando no deserto da Judeia(3,1). Mas é estranho que João batizasse no Jordão, pregando no deserto de Judeia, situado este a mais de 20 Km. de distância do rio.  Certamente o lugar onde João batizava não poderia ser chamado de deserto de Judeia. Consequentemente, Mateus não pode ser tomado como referência geográfica para os sucessos do batismo de Jesus e sua retirada ao deserto. Onde estava, pois, este deserto no qual encontramos feras, impossíveis de serem achadas no deserto da Judeia? Muito mais confiança oferece João que situa Betabara [ou Betânia do outro lado do Jordão] como o lugar em que Jesus foi batizado, ao norte, em território da Decápolis e perto da Galileia. Perto de Betabara encontramos lugares desertos como era a morada habitual do endemoninhado geraseno, que segundo Lucas, era impelido pelo demônio para os lugares desertos (Lc. 8,29). Tudo isso indica que o deserto não é um nome restritivo a um determinado lugar, ou nome próprio, mas nome comum, determinado por sua solidão e inabilitação. Logicamente, podemos afirmar, sem descartar em absoluto a postura tradicional, que o deserto ao qual Jesus se retirou estava muito mais próximo da Galileia do que da Judeia, que o deserto das tentações eram os montes do que antigamente chamava-se de Gileade, [escabroso] e que ao norte do mesmo estava Basã, de cuja região eram famosos os touros, ao parecer selvagens (Sl. 22,13), ou vacas que moravam nas montanhas (Am. 4,1). Uma confirmação de que não era o deserto da Judeia podemos vislumbrar em João 3,22: Depois disso Jesus veio para o território da Judeia. Isso indica que o batismo de Jesus, que precede de imediato a sua ida ao deserto, não foi feito na Judeia mas muito próximo da Galileia, e que  o deserto de Jesus era um deserto comum.
b) BÍBLICO: na Bíblia, o deserto tem dois sentidos, um negativo, como terra estéril, maldita de Deus e habitada pelos espíritos impuros. O deserto era terra medonha e terrível não abençoada por Deus, em que o povo se encontrava como enterrado na terra (Êx. 14.3). Na linguagem bíblica, a aridez do deserto é símbolo de uma terra à qual Deus nega sua bênção e, portanto, privada de chuva e fertilidade. Neste sentido é comparado com a cidade que foi objeto do castigo divino (Lc. 13,35). E o outro positivo, como lugar e época privilegiada em que Deus dirigia o povo para a terra prometida. Do deserto se pensava que devia proceder o Messias para a instalação do seu reino (Mt. 24,26). Historicamente, Israel viveu no deserto 40 anos. A solidão do povo com Jahvéh transformou a vida, de extrema penúria em época privilegiada,  em que Israel nasceria como povo e teria como único guia o Senhor Jahvéh (Ex. 13,21-22). Foi o lugar da purificação e experimentação da pobreza do povo (Dt. 8,2-5) para que aprendesse que não só de pão vive o homem (Dt 8,2-5). O deserto é sinal de salvação (Is. 35,1-10). Os profetas anunciavam as promessas do reino, dizendo que o deserto se transformaria em jardim, donde as feras seriam inofensivas (Is. 32,15-17). Isto deve ser tomado em conta para ver como, sob os fatos narrados, existe um simbolismo que não devemos desprezar.

O JEJUM. Por quarenta dias, estando sendo tentado pelo diabo, e não comeu nada nesses dias; e acabados eles, depois teve fome (2).
QUARENTA DIAS: Lucas fala só de dias mas Mateus e Marcos falam também de noites. Como devemos entender os quarenta dias e quarenta noites de Mateus e Marcos? Os judeus, como atualmente os árabes no período do Ramadão, jejuavam de sol a sol. O jejum terminava com o dia, aproximadamente seis da tarde. Por isso os dois evangelistas acrescentam as quarenta noites. Uma outra questão é se o número 40 corresponde a um tempo matemático ou cronológico, ou é um número redondo, mais ou menos prolongado, em razão da falta de adjetivos indefinidos nas línguas semitas. Neste último caso, facilitaríamos a exegese para manter a saúde de Jesus, sem recorrer a causas sobrenaturais. O tempo é comparável ao de Moisés no Sinai (Êx. 24,18) e ao de Elias no caminho do Horeb (1Rs. 19,8).
SENDO TENTADO: o verbo usado pelos três evangelistas que narram os fatos éPeirazo, na sua forma passiva e como particípio [peirasmenos ser tentado, outentare em latim]. É o verbo usado para experimentar se uma pessoa é digna de respeito ou merece confiança. Os fariseus experimentaram Jesus em várias ocasiões (Mt. 19,3). O próprio Jesus experimentou o comportamento de seus discípulos ante o problema de como alimentar a multidão que o seguia num lugar inóspito. É nesse sentido de experimentar qual poderia ser o comportamento de Jesus como Filho de Deus, que o tentador o experimenta em situações limites. O peirasmós [tentação] tinha dois diferentes sentidos:
1) Um sentido bom, experimental, como ver se uma coisa é boa.
2) Um sentido mau: experimentar a fé, a virtude, o caráter, de uma pessoa. E neste sentido, está a solicitação ao pecado. Também podemos dividir a tentação em três apartados segundo a causa: Deus que inflige os males como justiça ou como repreensão. O Homem que testa Deus como se não tivesse confiança, tal como fizeram os israelitas em Massa e Meribá. Finalmente osÍmpios ou homens maus que tentam os justos e a paciência divina. Evidentemente o tentador é no nosso caso o diabo do qual falaremos mais tarde. E a tentação é para saber que tipo de homem extraordinário era esse Jesus que estava jejuando durante um tempo tão prolongado, separado de todo contato humano. Daí que as duas primeiras tentações estejam precedidas de uma condição que é a base da experiência que pretende: Se és Filho de Deus, ou melhor: Se filho fosses do Deus, como parece indicar o grego.
O DIABO: é tradução grega da palavra Satãn [adversário] que a setenta também mantém como Satanás. Diabo é o nome derivado do verbo diaballein(caluniar), o Diábolos grego, como adjetivo, significa caluniador, difamador (Tt. 2,3). Como substantivo, calúnia e caluniador ou adversário. Claro que com o artigo definido aponta ao inimigo de Deus, Satanás. Lucas usa também o nome de Satanás em outras ocasiões (Lc. 10,18 ou 22,3.31). Era o inimigo especial de Jesus e, portanto, dos planos de Deus. Os Setenta traduzem Satanás, ou Satã (oponente, adversário, acusador, fiscal) sempre porDiábolos. Mateus usa o grego diábolos no relato paralelo das tentações e Marcos, Satanás. Quem era ele, segundo o pensamento contemporâneo dos judeus em tempo de Jesus? Era o príncipe dos demônios. Distinguem perfeitamente os autores sagrados entre príncipe e Senhor. Miguel é o príncipe dos anjos e príncipe do povo de Deus (Ap. 12,7 e Dn. 12,1). Senhor é o Deus único e seu Filho Jesus Cristo (Fp. 2,10-11) a quem foi-lhe dado todo poder (Ef. 1,20-21). O próprio César não quis ser chamado imperator, mas príncipe do senado. Princeps de primus capiens (ocupante do principal lugar) era o primeiro a votar no senado em tempo da República, e em tempo do Império era o filho do Imperador. O Diabo (grego), ou Satanás (hebraico) era, pois, um personagem real, individual, que se intitula a si mesmo como Senhor do mundo ou dos reinos da terra (Lc. 4,5-6) e que João diz ser o príncipe (archon) deste mundo (16,11) que será lançado fora, pois se aproxima o momento do julgamento do mundo, quando Jesus for elevado na cruz (como rei). Os judeus pensavam que determinadas doenças eram produto da posse demoníaca como a loucura, a epilepsia, a paralisia e até a mudez. E falavam do príncipe ou maioral dos demônios como sendo Belzebu (Lc. 11,15). Os demônios têm em grego duas palavras: daimon masculino ou feminino, que é uma divindade inferior do mundo que Platão chama o mundo do Demiurgo, em que temos os deuses, os gênios, os demônios e as almas. E daimonion, neutro, diminutivo de daimon, com o mesmo significado de ser intermédio entre deuses e homens. Para os gregos podiam ser bons, como o daimon de Sócrates ou maus como os causadores de diversas doenças. Lucas usa ambos, daimonem 8,29 ou daimonion em 4,33. Podemos, pois, afirmar que ambos são equivalentes. Também, segundo o pensar da época, os demônios moravam nos lugares áridos (Lc. 11,24), desérticos ou inabitados como eram as casas em ruína. Daí que o ermo era o lugar onde se encontravam de modo especial e por isso foi levado a ele Jesus, para aí ser tentado. O Diabo era o chefe, e especialmente no NT é considerado o inimigo frontal de Jesus e de sua obra redentora, de modo que impede o fruto da semente no coração do homem (Lc. 8,12). Aparece pela primeira vez em forma de serpente no Gênese. Com o nome de Satã aparece pela primeira vez em 1Cr. 21, 1, como causa impulsora do recenseamento feito por Davi. Ele é um dos principais personagens do livro de Jó, constituindo o opositor a Javé e pretendendo, através de sérios males, abalar a fé do justo em seu Deus. Finalmente aparece no livro do profeta Zacarias que dá uma definição de Satã como sendo o personagem que estava à direita do anjo de Javé para acusar o sumo-sacerdote Josué a quem defende o anjo. Em Tobias temos o nome de Asmodeo [Asmodaus o demônio mau, como o define o grego] que, por não ser o livro escrito em hebraico, não sai em bíblias evangélicas e é considerado deuterocanônico pela Igreja e apócrifo pelos evangélicos. Parece que depois do exílio o nome de Satã, assim como o de outros espíritos malignos, foi eliminado e proibido. O diabo é, pois, uma pessoa singular que recebe outros nomes como Abadom [destruição] em hebraico e Apoliom em grego (Ap 9,11). Ambos os termos têm o mesmo significado: destruidor ou destruição, sendo o seu ofício o de príncipe das regiões infernais ou do abismo, tendo como ministério a morte e o estado de desordem e perturbação da terra. O mal é seu fim e o produz até nos corpos, por meio da possessão. Jesus identifica o diabo com Satanás na última rejeição de sua solicitação: Retira-te, Satanás (10). E o rejeitará com as mesmas palavras [ypage, Satanás] com as quais afastará a proposta de Pedro (16,23) contrária ao ministério messiânico, projeto do Pai. Jesus reconhece o poder de Satanás como príncipe (senhor ou rei é só Deus) deste mundo (Mt. 12,16). Marcos diz claramente que o Diabo era Satanás (1,13) nas tentações do deserto. Satanás ou o diabo tem, segundo Jesus, um ofício principal: ser o inimigo do projeto de salvação do homem do qual Jesus era causa principal por meio do seu messiado ou Reino. Jesus é o semeador da verdade [meu reino é a verdade e para isso vim ao mundo] e no campo do mundo existe um inimigo que semeia joio [a mentira] entre o trigo: ele é o diabo (Mt. 13,39). É o pai da mentira e dos que não aceitam a verdade (Jo 8,44). Não só é pai da mentira, mas como diz o livro da Sabedoria o pai da morte, pois por causa da inveja do diabo, a morte entrou no mundo e a experimentam os que lhe pertencem (2,24). Seu pecado é a soberba (1 Tm 3,6). É o semeador do joio contra a obra de Deus (Mt. 13,39). A ele estávamos sujeitos por meio do pecado e da morte que o seguiu (Rm. 5,12). Escravos do pecado, somente o Filho consegue nos libertar (Jo. 8,36). É o grande dragão, a antiga serpente, chamado Diabo e Satanás (Ap. 12,9) para quem foi preparado o fogo do inferno (Mt. 25,41), mas que terá um tempo de domínio sobre a terra antes de ser totalmente derrotado (Ap. 12,12 e 20,2 e 10). O Diabo, pois, com artigo determinado, existe. Os demônios, que geram determinadas doenças que hoje a ciência logra explicar, não existem mais; porém existem como anjos do mal, tentadores dos homens santos de modo especial, que só podem atuar por permissão divina; e em raríssimas ocasiões sua influência poderá se transformar em posse demoníaca. De fato, na história eclesiástica do Brasil não temos um só caso comprovado, segundo afirma o padre Quevedo. Como conclusão podemos dizer que o relato de hoje é um paradigma da luta entre duas pessoas: O Logos, como Jesus, e o Diabo, como tentador.
O JEJUM: no judaísmo clássico pressupõe completa abstenção de alimento e bebida. Os judeus tinham dois dias de completo jejum de ocaso a ocaso, ou dia e noite: o Dia da Expiação e o dia 9 do mês Av [quinto mês correspondente a julho-agosto]. Os demais dias de jejum eram do nascer do sol até seu ocaso, como os dias de Ramadão dos árabes. Nos dias de jejum os jejuantes costumavam se sentar no chão vestidos de aniagem [o famoso saco] e com cinzas sobre a cabeça (2 Sm. 12,16; Est. 4, 1e Jn. 3,6). Se o jejum de Jesus foi de 40 dias e noites sem comer e possivelmente sem beber, foi um fato extraordinário que não podia passar por alto ao diabo, que como demônio habitava nos lugares desérticos (Mt. 12,43), segundo a crenças da época. Em termos médicos atuais, o jejum prolongado produz um estado de neurose em que o real e o imaginário podem se confundir. Seria esta a explicação da visão diabólica de Jesus, e de seus transportes ao templo e à montanha alta onde todos os reinos estavam representados? É uma hipótese que não é totalmente descartável. Entre as causas do jejum está a preparação para estar em contato com Deus como fez Moisés que precisamente subiu a uma montanha desértica e jejuou 40 dias e 40 noites sem comer nem beber (Êx. 34,28). Mas é possível do ponto de vista humano um homem jejuar 40 dias de 24 horas sem ser um super-homem? Caso possa beber água, a resposta é sim. Porém existem alguns fenômenos que aparecem após um determinado número de dias, especialmente uma confusão mental, que se origina por falta de alimento energético nos neurônios cerebrais. A realidade e a imaginação se confundem. E o estado do paciente é semelhante ao de brotes de esquizofrenia. Talvez assim, a ciência moderna, desse modo, explique os traslados de Jesus e as visões correspondentes. O que não é possível é passar tanto tempo sem beber. Do ponto de vista bíblico, Jesus é comparado com Moisés (Êx 34,28) e com Elias (1Rs. 19,8. Ambos estiveram 40 dias em jejum. Mas os  dois foram fortalecidos pela intervenção especial de Javé.

1ª TENTAÇÃO PROPOSTA. Então disse a Ele o diabo: Se Filho és de(o) Deus diz a esta pedra para que se torne pão (3).
Para Marcos o período dos quarenta dias e quarenta noites foi um tempo de tentação sem explicar quais e quantas. Para os outros dois sinópticos, as tentações foram principalmente três, sem que com isso possamos excluir outras. Uma coisa é clara: a tentação foi externa à pessoa de Jesus, tendo origem em quem será seu inimigo implacável, que, no caso, aparentemente pretende ser seu amigo. Aí está o perigo da tentação: confundir o discurso do mal com a palavra do bem de Deus. Geralmente nós, os humanos, ouvimos a palavra da paixão do momento, da escolha imediata, da felicidade sem esforço, da fortuna repentina, da vida fácil, do amor egoísta. O sacrifício, a abnegação, o desprendimento, a privação, e até o esforço, o que poderíamos chamar a cruz de cada dia, são motivos de repulsa e rejeição. Mas vejamos como foram vencidas as tentações do maligno por Jesus.
FILHO DE DEUS: como mais tarde veremos, as tentações são motivadas pela frase se és filho do Deus. O artigo serve para indicar entre os muitos deuses o único verdadeiro. O Diabo, que vamos indicar como agente pessoal, com a maiúscula correspondente após o artigo definido, estabelece uma proclamação de fé, chamando Jesus filho do (Senhor) Deus, indicando com isso a existência desse único Deus. Que significa a frase filho do Senhor Deus em lábios de Satanás? O povo de Israel, por ser escolhido, é o amado filho de Deus. Também o rei davídico é filho de Deus, pois representa o povo. Na anunciação, o anjo declara que o menino a ser concebido será filho do Altíssimo (do Elyon = Altíssimo ou Supremo). Após o batismo de Jesus no Jordão, a voz ouvida pelo Batista foi: Tu és o meu filho, o amado. Em ti encontrei agrado [satisfação]. Ou se preferimos, de ti sinto orgulho. Teve notícia desta epifania o Diabo? Aparentemente satanás unia o Messias com um atributo especial de ser amado especialmente como filho por Deus. Por isso dirá Lucas que saiam muitos demônios de doentes gritando: Tu és o Cristo, o filho do (Senhor) Deus (Lc. 4,41). Provavelmente essa filiação tinha muito com a que Davi profetizou em Sm. 2,7: Tu és meu filho, eu, hoje te gerei. Essa filiação dava ao Messias uma série de qualidades distintivas como a profecia, a realeza, o sacerdócio. Como profeta, à semelhança de Elias e Eliseu teria o poder de realizar milagres. O diabo vem dizer: eu sei que és filho de Deus. Se, portanto, queres te comportar como tal, podes muito bem transformar estas pedras em pão. Não sejas bobo e sacia tua fome. O que o diabo pede é que Jesus use seus poderes sobrenaturais em proveito próprio, para saciar sua fome.

A RESPOSTA. Então respondeu Jesus a ele dizendo: Está escrito: não sobre pão só viverá o homem, senão sobre toda palavra de Deus (4).
Jesus sabe que a petição é um desafio à sua entrega aos planos do Pai em que sua vida é dar-se e não receber. Por isso a resposta é que, segundo a palavra divina, (a Escritura) não só de pão vive o homem. É também uma citação de Dt. 8,3: O senhor humilhou Israel e o deixou ter fome e sustentou-o com o maná que nem tu, nem teus antepassados conheciam, tudo para te mostrar que o homem não só vive do pão, há de viver o homem, mas que o homem vive de tudo aquilo que sai da boca de Deus. Qual é o verdadeiro sentido da resposta de Jesus? Segundo o que temos visto através dos textos, parece que podemos deduzir que Jesus opta pela obediência às leis divinas ou naturais, que respeita, mesmo estando em grande necessidade, porque sabe que Deus proverá a essa necessidade sem a intervenção sobrenatural. Ele inaugura um novo povo de Deus [é o simbolismo do qual temos falado com Jesus representando o novo Israel] em que a comida não será tão essencial como a palavra de Deus, que deve ser aceita e obedecida. Ou seja, antes de procurar o pão, devemos saber qual é a vontade de Deus e cumpri-la fielmente.

2ª TENTAÇÃO PROPOSTA. Então, tendo-o elevado o Diabo a um monte alto, mostrou-lhe todos os reinos do império romano num instante de tempo (5). E lhe disse o Diabo: A ti darei todo este domínio e a magnificência dos mesmos, porque a mim foi entregue e a quem quero, a dou (6). Se, portanto, tendo te prostrado na minha frente, serão todos teus (7). Tu ergo si adoraveris coram me erunt tua omnia.
OS REINOS: Lucas fala de que o conduziu ao alto, mostrando todos os reinos civilizados (da oikumene, ou seja do império), num instante de tempo. Parece que podemos identificar esta visão com uma aparência imaginária, como temos declarado acima. Mentiroso como sempre, o Diabo afirma que o poder, ou domínio e a glória, faustosidade ou magnificência [doxa] desses reinos lhe pertenciam. Realmente o Império Romano era o domínio de Satanás, porque seu fundamento era a idolatria, que Daniel descreve como os reinos saindo do fundo do mar [o abismo onde estava o reino das trevas ou de Satanás], contrários ao povo de Deus, especialmente o quarto, que o perseguiu de forma violenta (Dn. cap 7). Por que reinos, se na realidade era o império que os dominava e ao qual o oikoumenes se referia? Não esqueçamos que nesse império havia reis como o nabateu, ou tetrarcas como Antipas, etc. que eram mais ou menos independentes, desde que pagassem certos tributos ao César. Neste caso, Satanás trata Jesus como futuro Messias/Rei, assim como anteriormente o reconheceu como profeta. O diabo quer tirá-lo da obediência ao Pai e frustrar a entrega do Filho, como servo, dando-lhe o que ele mesmo, o Diabo, como rebelde e soberbo, tinha presunçosamente almejado: o domínio absoluto do mundo dos homens.
A PROSKINESE era o ato de submissão de um súdito ao seu rei, ou de um vencido ao vencedor, reconhecendo sua superioridade. Tratando-se de ato religioso a proskinese significava adoração. O Diabo pede uma submissão a seu poder para assim entregar os reinos e transformar o Messiado do Ungido de Deus num Messiado submisso ao poder das trevas. Era a história com um giro de 180 graus.

A RESPOSTA. Então, tendo respondido, disse Jesus: retira-te atrás de mim, Satanás. Pois está escrito: prostrar-te-ás ante o Senhor teu Deus e a Ele só servirás (8).
As citações de Mateus e Lucas são idênticas e não correspondem literalmente ao texto grego dos setenta. Ambos empregam dois verbos proskineou elatreuo, que significam prostrar-se em sinal de admitir a superioridade e oferecer obediência e adorar como Deus. Jesus claramente indica que o diabo não tem lugar em sua vida. Por isso a palavra final é UPAGE, retira-te, vá embora. A resposta de Jesus é uma citação de Dt. 6,13: Temerás o Senhor teu Deus e a ele adorarás e a ele servirás e pelo seu nome jurarás. O advérbioMONO [só] não pertence ao texto original, mas enfatiza o vínculo com o único Senhor de Israel. Jesus se mostra obediente até a morte como dirá Paulo (Fp. 2,8). No simbolismo antes explicado, vemos o povo, representado por Jesus, dando uma resposta de obediência e culto ao único Senhor verdadeiro: teu Deus.

3ª TENTAÇÃO. Então o conduziu até Jerusalém e o pôs de pé sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és o Filho de (o) Deus, lança-te daqui embaixo (9). Pois está escrito que enviará seus anjos sobre ti para te guardarem (10). E que em suas mãos te tomarão para que não choques o pé contra uma pedra.
PINÁCULO: o termo grego pterigyon, significa ângulo, de pterix que significa asa, sendo, pois o significado de pterygion, extremo, barbatana, asa pequena. Como fala do ierós, qual era o pterigion [asa ou extremo] do templo? Não existe ente os comentaristas uma ideia clara. Devemos pensar num dos quatro ângulos da parte externa do templo, ou seja, dos quatro pórticos que o rodeavam. Deles, a parte mais alta era o Pórtico Real do sul. Deste lugar Jesus devia saltar para que se cumprisse o salmo 91 sobre o justo que em Deus confia. Existia entre os contemporâneos de Jesus a opinião de que o Messias devia se apresentar, descendo das alturas do templo, no átrio do mesmo, diante da multidão que o aclamava. Seria este o sinal que esperavam os fariseus e saduceus em Mt. 16,1 ou Lc. 11,16? Como o Diabo pede um milagre, daí que inicia seu discurso com se és Filho do (Senhor) Deus. E reforça sua petição com um texto dos salmos (91,12) em que o justo é declarado sob proteção especial : Pois disseste: O Senhor é o meu refúgio; fizeste do Altíssimo a tua morada, nenhum mal te sucederá; praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque a seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos para não tropeçares nalguma pedra. O maligno interpreta este texto para argumentar uma confiança temerária na providência divina, para interpretar de modo atrevido e arriscado a vontade de Deus. Ou talvez para que Jesus demonstrasse, como pediam os fariseus, que ele era realmente o Messias, submetendo Deus a uma prova de origem humana. Sabemos como Jesus rejeitou a proposta dos fariseus, afirmando que nenhum sinal seria dado,  exceto o sinal de Jonas [a ressurreição]. O milagre era uma atuação totalmente divina que interrompe as leis da natureza. Jesus devia viver uma vida humana e como tal atuar, a não ser por impulsos do Espírito Santo, não para se salvar, mas para salvar os outros. Daí que ele nunca realizara milagres em seu favor. O caso estava no mesmo nível que o grito dos fariseus ao pé da cruz: a outros salvou, a si mesmo não pode salvar! Se és filho de Deus desce da cruz e creremos em ti (Mt. 27,42).

A RESPOSTA. Então, tendo respondido, lhe disse Jesus que está dito: Não tentarás ao Senhor teu Deus (12)
A resposta de Jesus é tomada de Deuteronômio 6,16-18: Não tentes a Javé teu Deus como o tentastes em Massa (17). Observa cuidadosamente os mandamentos de Javé, teu Deus, e também os testemunhos e estatutos que ele te ordenou (18). Faz o que é justo e bom aos olhos de Javé para que tudo te corra bem. Tentar significa por à prova. A prova, a qual submeteram os filhos de Israel o poder e a fidelidade divina, está encerrada nesta frase do Êxodo 17,7: Está Javé no meio de nós, ou não? A tentação consistia, ante a dificuldade de achar água, pensar: está o Senhor conosco ou não está? Significaria: devemos confiar nele ou permitirmos outro deus para nós? É tratar de ver se Deus está sempre da parte de uma pessoa, faça o que faça esta pessoa de sua vida. No nosso caso, a tentação consistiria em obrigar o Senhor a realizar um ato extraordinário e tremendamente temerário. Era obrigar o Senhor a realizá-lo sem causa nenhuma justificável. A resposta de Jesus é a de admitir a verdadeira vontade de Deus que está em não querer fazer fatos extraordinários quando a vida deve ser vivida de forma comum. O resto é tentar o Senhor como fizeram em Massa os israelitas segundo Dt 6, 16. Nesta tentação Jesus representa o povo de Israel no deserto diante da presença sobrenatural de Deus.

A RETIRADA. Então, acabada toda tentação, o Diabo afastou-se dele até ocasião oportuna (13).
KAIRÓS: a tradução  do kairos grego nada tem a ver com o tempo. Significa medida conveniente, ocasião, conjuntura favorável, lugar oportuno. Daí que a tradução do tempo deve ser sempre acompanhada com um adjetivo para indicar ser um tempo oportuno ou propício. Esse momento foi no tempo de sua paixão, quando Jesus afirmará que essa é a vossa hora e o poder das trevas(Lc. 22,53). Os outros dois evangelistas falam que imediatamente após a tentação os anjos o serviam.
Conclusões e pistas
1) É um pouco estranha esta referência às tentações de Jesus, visto que aparentemente nada aportam à mensagem evangélica. Nada disso: as respostas de Jesus são respostas à pergunta de muitos judeus e contemporâneos sobre o uso do milagre pelo Filho de Deus todo-poderoso. Por que tendo em suas mãos o poder divino só o usou para curar doenças e aplacar fomes alheias? Por que, sendo Filho de Deus não desceu da cruz e esmagou seus inimigos (Mt 27,40)? Como é possível que podendo com um sinal estupendo reduzir oposições e mostrar com total evidência a sua divindade, não o fizesse (Lc. 11,16)? A resposta a estas questões está nas palavras com as quais Jesus rejeita as tentações. Devemos estudá-las com atenção.
2) Já que também nós, em determinadas circunstâncias, tentamos o Senhor: por que a mim, por que tenho eu de ser sujeito de determinada desgraça e infelicidade? Será que tenho que mudar de Senhor?
3) Passando do sujeito individual ao coletivo: por que tantas guerras, por que tanto mal no mundo? Deus que pode tudo, por que permite que os bons sejam os mais vulneráveis e os maus os mais seguros e felizes em suas vidas atuais? A resposta seria, sem dúvida, a que nos deu Jesus: Deus ama também seus inimigos.
4)Uma pergunta óbvia: Os traslados, a presença do Diabo foram reais ou foram fatos imaginários? Cremos ter dado a resposta: o jejum prolongado transforma em realidade o que podemos chamar sonho ou imaginação.
5) Jesus representa o novo povo de Deus e as tentações de Jesus respondem às que sofrem os membros da sua Igreja: O pão material pode ser o fim principal do evangelho; o poder pode substituir o serviço e finalmente esperar que Deus faça o milagre de mostrar-se com um sinal extraordinário, especialmente quando tudo parece estar contrário aos seus adoradores, situados na cruz do sofrimento ou da humilhação.
padre Ignácio de Nicolás Rodríguez
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Otimismo na luta
G. K. Chesterton, converteu-se ao catolicismo em 1922. Para esse ilustre escritor inglês a Igreja católica era um autêntico milagre porque se mantêm otimista em meio ao pessimismo generalizado. Escrevendo sobre o otimismo se perguntava: “Por que se publica no jornal a seguinte notícia: ‘Ontem um pedreiro caiu do andaime e morreu’? Não seria mais inteligente e, sobretudo mais consolador anunciar: "Ontem 68.224 pedreiros no país não caíram do andaime"? De fato, por pouco que se pense, dada a fragilidade dos andaimes e o distraído que os homens são, é muito mais extraordinário que 68.224 não caiam do andaime que um só tenha caído.”
O otimismo deveria estar sempre presente na nossa luta por agradar ao bom Deus. Alguns se queixam de que ser santo é muito difícil, que lutam sem nada conseguir, que voltam a cair nos mesmos pecados. Mas talvez não pensam que Deus os tem protegido sempre durante as tentações e de que seguir o Senhor é verdadeiramente belo. Precisamos ser mais otimistas! Jesus Cristo também foi tentado, não pela sua própria concupiscência, pois Jesus Cristo não tinha o pecado original. Cristo quis ser tentado – como explica santo Tomás de Aquino – para trazer-nos o auxílio em nossas tentações; para que sejamos cautelosos, assim nenhum santo, por mais que o seja, confie em si mesmo nem se julgue imune de toda e qualquer tentação; para dar-nos o exemplo ao instruir-nos como devemos vencer as tentações do demônio; para que tenhamos confiança em sua misericórdia que sempre nos socorre em todas as nossas necessidades.
No nosso caso, santo Afonso Maria de Ligório diz que “Deus permite as tentações em primeiro lugar, para que através delas conheçamos melhor a nossa debilidade e a necessidade que temos da ajuda de Deus para não cair (…); em segundo lugar, Deus permite-as para que cada um aprenda a viver desprendido das coisas materiais e deseje mais fervorosamente chegar à contemplação  de Deus no céu (…); e, em terceiro lugar, para nos enriquecer de méritos (…)”.
Uma fé ardente no Senhor e uma luta constante através da oração e da penitência são os remédios contra toda e qualquer tentação. Por outro lado, a tentação ainda não é pecado, pecado é consentir na tentação. Podemos, ademais, demonstrar muito amor a Deus enquanto somos tentados. Inclusive, depois de vencidos numa determinada tentação, deveríamos perguntar-nos se nós lutamos de verdade para não ofender a Deus que nos ama tanto. Essa luta, mais intensa ou menos intensa, mostra também o nosso amor ao Senhor: pouco ou muito, o amor a Deus existe em nós e é ele que deve fazer com que nos distanciemos do pecado.
São Lucas (4,1-13) e são Mateus (4,1-11) deixaram muitos pormenores sobre o jejum e as tentações de Jesus Cristo. Jesus luta contra a tentação da seguinte maneira: na força da Palavra: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Lc. 4,12); na força do jejum: “Nem só de pão vive o homem” (Lc. 4,4); desprezando as sugestões do demônio, ao não dar-lhe atenção: “Para trás, Satanás” (Mt. 4,10); fixando-se no seu Pai do céu: “Adorarás ao Senhor, teu Deus e a Ele prestarás culto” (Mt. 4,10). Aprendamos do Senhor: ler as Sagradas Escrituras, fazer penitência, orar, olhar mais para Deus e para os demais que para nós mesmos são meios eficazes na nossa luta contra as tentações.
E, por último, não sejamos ingênuos: quem se põe na boca do lobo está esperando ser comido. Não se brinca com a tentação! Alguns não querem pecar por gula, mas sempre buscam satisfazer os caprichos na comida; outros até não queriam pecar contra a castidade, mas ficam lendo porcaria, assistindo bobagem, brincando com fogo no namoro e depois… um antigo refrão dizia que “o homem é fogo, a mulher é palha, vem o demônio e sopra”; outros, finalmente, não queriam pecar por orgulho, mas não param de falar de si mesmos. “Não nos deixeis cair em tentação”, peçamos mais uma vez ao nosso Pai do céu.
padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa
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As tentações de Jesus
No primeiro domingo da Quaresma os cristãos são levados ao deserto a fim de viverem um momento de intensa oração (Lc. 4,1-13),tal como Jesus que “foi conduzido pelo Espírito Santo”. O deserto na Bíblia é o lugar privilegiado para o encontro com Deus; foi assim para o povo de Israel que nele habitou durante quarenta anos; para Elias, que nele passou quarenta dias; para João Batista que para lá se retirou desde a sua adolescência. Jesus consagra este costume e vive na solidão durante quarenta dias. No entanto, para Jesus o deserto não é apenas o lugar de retiro e da intimidade com Deus, mas também o campo de batalha suprema onde foi tentado pelo demônio.
Jesus, o novo Adão, transforma o deserto em paraíso. Ele o realiza, colocando o ser humano em seu devido lugar, onde a verdadeira vida não está no pão material, mas na palavra que sai da boca de Deus. Acabada toda a tentação, o diabo o deixou até o tempo oportuno. Este tempo oportuno será o de sua paixão que acontece também em Jerusalém.
As tentações do deserto ensinam que, onde quer que se fomentem intenções ambiciosas, ânsias incontroladas de poder, de triunfo, de gloria, lá se esconde a intriga de satanás. Para destruir estas e outras possíveis inclinações para o mal, é necessário manter firme a palavra de Jesus; “adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás” (Lc. 4,8); isto é, é indispensável à decisão para rejeitar qualquer proposta que impeça o reconhecimento e o serviço de Deus como único Senhor. “Como fazia todas as coisas para nos ensinar – diz são João Crisóstomo-, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo inesperado.
Jesus quis ensinar-nos com o seu exemplo que ninguém deve considerar-se dispensado de passar por provas. Ensina-nos também, com a sua conduta, como devemos vencer as tentações e como tirar proveito das provas que iremos passar. Ele, ”permite as tentações e serve-se delas, providencialmente, para te purificar, para te fazer santo, para te desprender melhor das coisas da terra, para te conduzir aonde Ele quer e por onde quer para te fazer feliz numa vida que não seja cômoda e para te dar maturidade, compreensão e eficácia no teu trabalho apostólico com as almas e…, sobretudo, para te fazer humilde, muito humilde!” (S. Canals, Reflexões espirituais, pág.98).
Uma outra lição que Jesus nos deixa é que ninguém deve considerar-se seguro e isento de tentações; mostra-nos a maneira de vencê-las e exorta-nos, por fim, a que tenhamos confiança na sua misericórdia já que Ele também experimentou as tentações (cf. Hb. 2,18 ).
Nas tentações do Senhor estão resumidas todas as que podem acontecer ao homem: “não diria a Sagrada Escritura, comenta Santo Tomás, que acabada toda a tentação o diabo se retirou d’Ele se nas três não se achasse a matéria de todos os pecados. Porque a causa das tentações são as causas das concupiscências: o deleite da carne o afã de glória e a ambição de poder” (Suma Teológica, III, q. 41,4).
O Senhor queria ensinar-nos os meios para vencer o diabo: a oração o jejum, a vigilância, não dialogar com a tentação, ter nos lábios as palavras de Deus na escritura, e por a confiança no Senhor. Essas são as armas.
Contamos sempre com a graça de Deus para vencer qualquer tentação. E, além das armas já indicadas, para vencer nesta batalha espiritual, podemos acrescentar outras como: a sinceridade e franqueza com o diretor espiritual, a Eucaristia e o Sacramento da Penitência (confissão), um generoso espírito de mortificação cristã, a humildade de coração e uma devoção terna e filial à Virgem Maria…
O Senhor está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e nos diz afetuosamente: “ confiai: Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). É no Senhor que nos apoiamos, pois “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5 ). Como diz são Paulo: “tudo posso naquele que me fortalece” (Fl. 4,13). O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? (Sl. 26,1).
Continuemos a caminhada da quaresma. Quarenta dias nos separam da grande festa da Páscoa. Trilhemos o caminho da conversão proposta pela Campanha da Fraternidade, cujo lema: “não podeis servi a Deus e ao dinheiro”, nos convida a optar por Deus com todo o nosso ser.
mons. José Maria Pereira
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O Filho de Deus rejeita a tentação de tomar outras vias e obedece à vontade de Seu Pai
Também eu, quando estava no mundo, corria muitas vezes pelas estradas de Espanha, encantado por ver o velocímetro do meu carro marcar 90 Km à hora! Que disparate! Quando me apercebi de que não tinha mais horizontes, sofri a decepção típica daquele que tem a liberdade deste mundo, pois a terra é pequena e depressa lhe damos a volta. O homem está rodeado de horizontes pequenos e limitados. Para quem tem a alma sedenta de horizontes infinitos, os da terra não bastam: abafam-no, não há mundo que lhe chegue e só encontra o que procura na grandeza e imensidão de Deus. Homens livres que percorreis o planeta, não tenho inveja da vossa vida neste mundo; fechado num convento e aos pés do crucifixo, tenho uma liberdade infinita, tenho um céu, tenho Deus. Que sorte tão grande ter um coração apaixonado por Ele! [...]
Pobre irmão Rafael! [...] Continua a aguardar, continua a esperar com essa doce serenidade que a esperança certa proporciona; permanece imóvel, pregado, prisioneiro do teu Deus, ao pé do Seu tabernáculo. Escuta ao longe o ruído que fazem os homens que desfrutam dos breves dias da sua liberdade no mundo; escuta ao longe as suas vozes, os seus risos, os seus choros, as suas guerras. Escuta e medita um momento; medita sobre um Deus infinito, o Deus que fez o céu e a terra e os homens, o Senhor absoluto dos céus e da terra, dos rios e dos mares; Aquele que, num instante, só por assim o querer, fez sair do nada tudo aquilo que existe.
Medita por momentos na vida de Cristo e verás que não há nela, nem liberdades, nem barulho, nem burburinho de vozes; verás o Filho de Deus submetido ao homem; verás Jesus obediente, submisso e numa paz serena, tendo como única regra de vida fazer a vontade de Seu Pai. E, finalmente, contempla Cristo pregado na cruz. De que serve então falar de liberdades?
são Rafael Arnaiz Baron (1911-1938), monge trapista espanhol
Escritos espirituais, 15/12/1936
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O caminho quaresmal – como toda a nossa peregrinação terrena – se fundamenta essencialmente, orientados para a Páscoa, numa profissão de fé, da qual a penitência é uma conseqüência, ou melhor,  uma explicitação. 
Profissão de fé, não somente direta segundo a formula litúrgica, mas encarnada na vida cotidiana segundo um estilo de vida conforme ao Senhor Jesus.
Por esta razão, a Quaresma é um tempo no qual, seguindo a profissão de fé de Israel, estruturada na passagem da escravidão para a liberdade (cfr. Dt. 26,4-10), devemos refletir e decidir-nos para a  nossa passagem – mudança – do pecado à Graça, e assim também nós inclinar-nos em adoração (cfr. Dt. 26,10) diante de Cristo Ressuscitado.
2)
É diante de Cristo Ressuscitado – Jesus e Senhor - que se renovará a nossa profissão de fé: “crer que Deus o ressuscitou dos mortos” (Rm. 10,9) para ter aquela liberdade de espírito pela qual “Todo aquele que nele crer não ficará confundido” (Rm. 10,11) e na qual todos – judeus e gregos – somos unidos no mesmo Senhor (cfr. Rm. 10,12).
Será uma profissão de fé não limitada ao aspecto formal, mas expressão do nosso ser total, “boca e coração” (Rm. 10,8), uma invocação de um nome que é “o Nome do Senhor”, um nome que dá a salvação (Rm. 10,13).
3)
Em Jesus, “tentado pelo diabo durante quarenta dias no deserto” (Lc. 4,1), temos, certa maneira, especificas "profissões de fé" todas as vezes que Ele invoca a Escritura como resposta que fundamenta a oposição ao diabo: 1) “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”; 2) “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás”; 3) “A Escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’” (Lc. 4,4.8.12).
Estas “profissões de fé” de Jesus devem ser as nossas como resposta às tentações do diabo.
padre Ausilio Chessa
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Jesus é tentado pelo demônio para a Igreja aprender, que se vai até ele por meio de muitas tribulações e tentações.
A vida dos mortais está cheia de laços de escândalos e de redes de ilusões, armadas contra o gênero humano por aquele gigante caçador, inimigo do Senhor, que é chamado Nemrod. Quem é esse verdadeiro gigante senão o demônio, que se revolta contra o próprio Deus? Os laços das tentações e as armadilhas das insídias são, pois, chamadas redes do demônio. E porque o inimigo estendera essas redes em toda parte e apanhara quase todos, tornou-se necessário que aparecesse alguém mais forte e poderoso, que as pudesse romper e abrir o caminho para aqueles que o seguiam.
Eis porque o Salvador, antes de se unir à Igreja como Esposo, é tentado pelo demônio, para que, vencendo pela tentação as redes das tentações, olhasse e chamasse a si a Igreja, ensinando-lhe e mostrando-lhe que não se chega a Cristo pelo ócio e pelas delícias, mas por meio de muitas tribulações e tentações. Não havia, com efeito, outro que pudesse superar essas redes. Pois todos, como está escrito, pecaram (Rm. 3, 23); e de novo, como diz a Escritura: Não há nenhum justo sobre a terra, que faça o bem sem jamais pecar (Ecl. 7, 20); e ainda: “Ninguém está isento de pecado, nem mesmo se sua vida tiver durando um só dia”.
Somente Jesus, nosso Senhor e Salvador, não pecou; mas o Pai o fez pecado por nós (2Cor. 5, 21), enviando-o numa condição semelhante àquela da humanidade pecadora para, justamente por causa do pecado, condenar o pecado em nossa condição humana (cf. Rm. 8, 3). Entrou, pois, naquelas redes, mas foi o único que não pôde ser envolvido por elas; pelo contrário, tendo-as rompido e reduzido a pedaços, faz com que sua Igreja confie, para que ouse doravante romper os laços e ultrapassar as redes, dizendo com toda alegria: Nossa alma como um pássaro escapou do laço que lhe armara o caçador; rompeu-se o laço, e assim nós conseguimos libertar-nos (Sl. 123 [124], 7).
Quem, pois, rompeu o laço senão o único que não podia permanecer prisioneiro? Embora tenha morrido, foi voluntariamente que morreu, e não como nós, por causa do pecado. Só ele foi livre entre os mortos. E, porque só ele foi livre entre os mortos, tendo vencido quem tinha o poder da morte, libertou os cativos que estavam retidos pela morte. Não só ressuscitou a si mesmo dos mortos, mas também despertou, ao mesmo tempo, os que estavam prisioneiros da morte, introduzindo-os nos céus. Subindo, pois, ao alto, levou consigo os cativos, não libertando apenas as almas, mas ressuscitando também os seus corpos, conforme atesta o Evangelho: Os corpos de muitos santos ressuscitaram e apareceram a muitos, e entraram na cidade santa do Deus vivo, Jerusalém (cf. Mt. 27, 52.53).  
Homiliæ in Cantica, lib. III, 14, 27-33 (Sources Chrétiennes 376, 670-675)
Das Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, de Orígenes, presbítero
Evangelho segundo São Lucas 4, 1-13
Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, e era tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. Disse-lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se transforme em pão.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem.» Levando-o a um lugar alto, o diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do universo e disse-lhe: «Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se te prostrares diante de mim, tudo será teu.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Em seguida, conduziu-o a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, a fim de que eles te guardem; e também: Hão-de levar-te nas suas mãos, com receio de que firas o teu pé nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.» Tendo esgotado toda a espécie de tentação, o diabo retirou-se de junto dele, até um certo tempo.
No primeiro domingo da quaresma, a Igreja nos propõe um texto evangélico que narra as tentações de Jesus. Hoje poderíamos colocar a seguinte pergunta: Existe realmente o tentador? Existe realmente o demônio? Uma pessoa dotada de inteligência, de vontade, superior a nosso mundo humano e que busca por todos os meios desviarmos de Deus? Não seria o demônio uma espécie de inconsciente coletivo, de alienação coletiva, uma soma simbólica de todos os males que acontecem neste mundo? Não cremos no demônio, porque crer significa confiar em, entregar-se a, e nós cremos em Deus. Mas a revelação judaico-cristã, mantida pela Igreja, fala-nos da existência desta criatura tenebrosa que não devemos temer por que somos de Cristo, mas devemos levar a sério na nossa existência. Aqueles todos que discutem a respeito da existência de satanás, na sua maior parte são pessoas de livros, de gabinete, são pessoas que escrevem, que lutam com uma idéia do demônio, mas nunca toparam com a realidade do mesmo. Bodeler, que evidentemente não era um exemplo de santo, nos dizia muito ajuizadamente que a maior tática de satanás é fazer com que se chegue à conclusão de que ele não existe e assim poder trabalhar com maior liberdade. Nós levamos a sério a existência de uma inteligência do mal, mas ela não circula pelas bibliotecas ou pelos livros, não é ali o seu lugar e ao demônio não interessam essas teses a seu respeito. Aonde ele se encontra mais propriamente é na vida dos Santos, a começar por Jesus Cristo. Basta que uma pessoa se converta ou tome a decisão de mudar radicalmente a sua vida, o que falo de uma pessoa, posso também falar de uma comunidade, para que imediatamente um sem números de dificuldades e entravas comecem a aparecer. Não, Satanás não se importa com os grandes pecadores, este já estão do seu lado. Satanás não suporta a existência dos Santos. Não suporta a existência daqueles que levam a sério o evangelho e é exatamente nesta vida cristã séria que nós neste mundo, podemos fazer a experiência de sua existência, não para sermos vencidos, mas para considerarmos, mais que vencedores por Jesus Cristo. As tentações de Cristo são as nossas tentações. Cristo as venceu antecipadamente em nosso favor, e durante as nossas tentações podemos já chamar a vitória porque Cristo, o mais forte, está do nosso lado.
mons. Inácio José Schuster

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«Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto [...], onde era tentado pelo diabo»
Recordemos que o primeiro Adão foi expulso do paraíso para o deserto, para que a nossa atenção se concentre na maneira como o segundo Adão (1Cor. 15, 45) regressa do deserto ao paraíso. Vede, com efeito, como a primeira condenação é desenredada, depois de ter sido enredada, como são restabelecidos os benefícios divinos sobre os vestígios dos benefícios antigos. Adão vem de uma terra virgem, Cristo vem da Virgem; aquele foi feito à imagem de Deus, Este é a imagem de Deus (Col. 1, 15); aquele foi colocado acima de todos os animais irracionais, Este acima de todos os seres vivos. Por uma mulher veio a insensatez, por uma virgem a sabedoria; a morte veio de uma árvore, a vida pela cruz. Um, despido das vestes espirituais, concebeu para si uma veste de folhas de árvore; o Outro, despido da veste deste mundo, deixou de desejar uma veste material (Jo. 19, 23). Adão foi expulso do deserto, Cristo vem do deserto; porque Ele sabia onde se encontrava o condenado que queria reconduzir ao paraíso, já liberto do seu pecado. [...] Aquele que tinha perdido a rota que seguia no paraíso não era capaz de reencontrar a rota perdida no deserto, sem ter quem o guiasse. As tentações são numerosas, o esforço com vista à virtude é difícil, é fácil dar passos em falso e cair no erro. [...] Sigamos pois a Cristo, conforme está escrito: «É ao Senhor vosso Deus que deveis temer e seguir» (Dt. 13, 5). [...] Sigamos, pois, os Seus passos, e poderemos passar do deserto ao paraíso.
Santo Ambrósio (c. 340-397), Bispo de Milão e Doutor da Igreja
Comentário sobre o Evangelho de Lucas, IV, 7-12; PL 15,1614 (a partir da trad. Brésard, 2000 ans A, p. 88)

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Jesus resiste à tentação
Quaresma, quadragésimo dia antes da Páscoa. Na Igreja das origens, era o tempo de preparação para o batismo na noite pascal. Aprendia-se o Credo. Por isso, a primeira leitura de hoje cita o “credo do israelita”. Ao oferecer as primícias da terra, na primavera, o israelita se lembrava dos quarenta anos passados no deserto, sob a firme condução de Javé Deus, conclusão da peregrinação iniciada por Abraão nas origens do povo. Para ser liberto da escravidão, Israel atravessou o deserto durante quarenta anos, tempo de uma geração: o povo saiu renovado. Tudo isso o israelita recordava anualmente ao oferecer suas primícias a Deus. O cristão, ao apresentar-se diante de Deus, seja na comunidade reunida em assembléia, seja no silêncio de seu coração, recorda uma outra libertação: a que libertou Jesus da morte e o fez passar para a glória, a “passagem” não do anjo exterminador, mas do Cristo, que significa também nossa passagem da morte para a vida. “Jesus é o Senhor… Deus o ressuscitou dos mortos” (Rm. 8, 10; segunda leitura). Para poder proclamar esta fé, na noite do “novo dia”, a Páscoa, o cristão passa um “tempo de quarentena”, para sair completamente renovado. Também Jesus passou por um “tempo de quarentena” (evangelho). Reviveu toda a história do povo. Conheceu toda a tentação da fome, mas recordou o ensinamento de Deus: “Não se vive só de pão”. Conheceu a tentação do bezerro de ouro, ou seja, de adorar um falso Deus, que fornecesse riqueza; mas respondeu com a palavra de Deus: “Só a Deus adorarás”. Conheceu a tentação mais refinada que se pode imaginar, a de manipular o poder de Deus para encurtar o caminho; mas a experiência de Israel, resumida em Deuteronômio, lhe oferece novamente a resposta: “Não tentarás o Senhor teu Deus. Jesus venceu o tentador no seu próprio terreno, o deserto, onde moram as serpentes e os escorpiões, onde Deus provou Israel, mas também Israel tinha colocado o próprio Deus à prova. Jesus não tentou Deus, mas venceu o tentador. Pelo menos por enquanto, pois a grande tentação ficou para a “hora determinada” – a hora da entrega de Cristo assumindo a cruz. Em Lucas, Jesus é o grande orante, o modelo do fiel. Jesus resistiu a tentação de tentar Deus: sinal de sua imensa confiança no Pai. Ele professa a fé no único Deus como regra de sua vida. Ele se alimenta com a palavra que sai da boca do Altíssimo. Nossa quaresma deve ser um estar com Jesus no deserto, para, como Ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida. Como ele, com ele e por ele, pois é dando a Jesus o lugar central, que o damos a Deus também. Neste sentido, a quaresma é realmente “ser sepultado com Cristo”, para, na noite pascal, com ele ressuscitar. Lucas traz as tentações em ordem diferente de Mateus. Em Mateus, o auge é a tentação de adorar o demônio; em Lucas, o “transporte” para Jerusalém. Ora, todo o evangelho de Lucas é uma migração de Jesus para Jerusalém, e a tentação decisiva será a “tentação de Jerusalém”. Jesus resistirá a esse ataque decisivo, na mesma cidade de Jerusalém. Assim, as tentações prefiguram o caminho de Jesus. Por isso é tão importante que nós nos unamos a ele neste “tempo de quarenta”, em espírito de prova de nossa fé e vida. A Quaresma é uma subida à Páscoa, como os israelitas subiam a Jerusalém para oferecer sua ofertas e como Jesus subiu para oferecer sua vida. Nossa subida à Páscoa está sob o signo da provação e comprovação de nossa fé. Encaminhamo-nos para a grande renovação de nossa opção de fé. Se, nos primeiros tempos da Igreja, a Quaresma era preparação para o batismo e a profissão de fé, para nós é caminhada de aprofundamento e renovação de nossa fé. Pois uma fé que não passa por nenhuma prova e não vence nenhuma tentação pode se tornar acomodada, morta. Ora, a renovação da nossa opção de fé não acontece na base de algum exercício piedoso ou cursinho teórico. É uma luta como foi a tentação de Jesus no deserto, ao longo de quarenta dias. A fé se confirma e se aprofunda em sucessivas decisões, como as de Jesus, quando resistia com firmeza e perspicácia às tentações mais sutis: riqueza, poder sucesso.
padre Pacheco

Viver a quaresma do Espírito
“Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”. A Igreja sempre é movida pelo fogo do Espírito Santo. A Igreja vive um tempo lindo, 40 dias de reflexão, quaresma. Jesus cheio no deserto foi guiado pelo Espírito Santo e lá foi tentado por 40 dias. Jesus é o nosso exemplo. Deus se fez homem, e viveu tudo como a gente, ele se fez humano. Hoje na palavra que Jesus movido pelo espírito e ali foi tentado pelo diabo por 40 dias, ele não comeu para viver o jejum. Temos um Deus que viveu as nossas sensações. Um Deus que chorou, sentiu emoções. Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’. Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno”.
“Se você alimentar a dúvida, o demônio pode tomar conta de você!” diz Pe. Antonello.
Sem o Espírito Santo nada acontece, se deixe guiar por Ele. A nossa vida é um deserto, nesta vida terrenos devemos nos defender de satanás, da nossa fraqueza. A vida é luta, mas tudo deve ser vivido com alegria. É preciso vencer as tentações. O primeiro pecado que nos leva a tristeza é a gula, cuidado com a gula nesta quaresma. A gula chama outros pecados na sexualidade e outros.
O evangelho do primeiro domingo da Quaresma narra-nos sempre as tentações de Jesus no deserto. Este ano ouviremos a versão de São Lucas, pois é o evangelista do ano C. Este evangelho é muito apropriado para o início do tempo da Quaresma: assim como Jesus, antes de iniciar a sua pregação, a sua missão de levar a boa nova do amor de Deus a todos os povos, passou quarenta dias no deserto, também nós temos quarenta dias de preparação para a Páscoa. O deserto é um espaço simbólico: um lugar ideal para nos afastarmos do cotidiano; um espaço de silêncio, de reflexão, de encontro com Deus; mas também é um lugar de provação, de correção, apropriado para vencer as tentações e dizer sim a Deus. A Quaresma terá que ser um tempo e um espaço de deserto para rever a nossa vida à luz do evangelho. Hoje, seria bom relembrar alguns momentos da celebração de quarta-feira de Cinzas. Para a maioria dos fiéis, a Quaresma começa com este domingo, porque na quarta-feira de Cinzas não puderam estar na celebração, devido aos seus trabalhos. Será bom recordar o significado deste tempo de conversão com os sinais e símbolos próprios que expressam a austeridade, a penitência, a luta contra o mal.
Como diz a Oração Coleta de hoje: “Concedei-nos, Deus onipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho”. Enquanto Jesus esteve no deserto, teve que enfrentar as tentações, símbolo da luta contra o mal e contra tudo aquilo que nos afasta de Deus. As tentações são provas pelas quais se pode discernir a profundidade e a firmeza da fé. Nas dificuldades da vida, podem-se viver tentações que põem à prova a firmeza da fé. O crente pode ter êxito numa provação (sai fortalecido) ou pode consenti-la.
Todos nós nos podemos identificar com as três tentações do evangelho. A tentação de converter as pedras em pão, como se o material fosse o mais importante na vida! A tentação de adorar o diabo ou aspectos materiais (dinheiro, prazer, o próprio eu), esquecendo que Deus é o Único a quem devemos adorar! A tentação de se atirar do pináculo do templo, pedindo a Deus o milagre e assim envaidecermo-nos perante os outros! Além destas, na nossa vida encontramos muitas outras tentações: egoísmo, busca de nós próprios; idolatria, adorando o que não se deve adorar; materialismo, fixando somente o olhar nas coisas terrenas e não nos valores espirituais. São tentações idênticas às do povo de Israel quando fazia a sua travessia no deserto, seduzido pelos deuses falsos; idênticas também às que Jesus teve de vencer, por exemplo, quando o queriam fazer rei e ele evitou. A Quaresma é o nosso esforço para vencer as tentações, como Jesus, para lutar contra o mal e contra tudo aquilo que nos afasta de Deus.
O Prefácio de hoje diz-nos: “Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna”. O objetivo de todo este esforço (vencer as tentações) é purificar e fortalecer a nossa fé que, por vezes, ainda muito frouxa ou se deixa levar pelo ambiente social circundante.
A primeira leitura, excerto do livro do Deuteronômio, é a profissão de fé e de gratidão que os israelitas, ainda hoje, memorizam para a rezar frequentemente: “Meu pai era um arameu errante..”. Este pai é Abraão e com ele Deus fez a sua aliança com o povo de Israel. Este povo soube agradecer a Deus e conservar a memória das suas intervenções salvíficas. Que bom seria se todos assim procedêssemos!
São Paulo recorda-nos na segunda leitura que temos a fé muito perto de nós: na nossa boca e no nosso coração. “Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo”, porque, como diz a Escritura, “todo aquele que crê no Senhor não será confundido”. Em conclusão: o primeiro domingo da Quaresma convida-nos a renovar a nossa vida e a fortalecer a nossa fé; a fazer um tempo de deserto para nos reencontrarmos com o Senhor e lutar contra tudo aquilo que nos afasta Dele; fazer um caminho de conversão interior do qual teremos que sair renovados, fortalecidos, tendo como meta e horizonte a Páscoa.
padre Antonello
1º leitura: Deuteronômio 26,4-10
Oferta das primícias ao Senhor
Estes versículos são importantes no Antigo Testamento, pois contêm o “Pequeno Credo Histórico” (Von Rad). Este Credo é uma profissão de fé do israelita, resultado de uma longa história de turbulências, opressões, sofrimentos, lutas e finalmente posse da terra prometida. Faz memória dos prodígios que Deus realizou ao longo da história. Contém todos os elementos constitutivos da fé dos primeiros tempos de Israel. Exprime o núcleo da fé hebraica e a caracteriza como fé histórica, ou seja, tem como conteúdo não uma doutrina, mas um evento no relacionamento com Deus. O texto é resultado da caminhada do povo e de sua fé em Deus libertador, que se manteve ao lado do povo oprimido.
O trecho contém um rito, uma oferta e a profissão de fé. Todo israelita, ao colher os frutos da terra (primícias), devia apresentá-los a Javé. Esse gesto tinha um duplo significado. Por um lado, suscitava a memória de que o processo de libertação e a posse da terra são dons de Deus concedidos ao povo. Por outro lado, a oferta dos dons a Deus estimulava à generosidade, à superação da tentação da ganância e do acúmulo de bens. Por fim, o rito se encerrava com um almoço para os mais próximos e para os levitas (v. 11).
Depois de fazer a oferta das primícias a Javé, o israelita professava sua fé em Deus libertador: “Meu Pai era um arameu..." (v. 5), fazia a memória das minorias migrantes, sem terra, forçadas a buscar a sobrevivência em ambientes estranhos que as escravizavam, e lembrava a ida ao Egito e o grito de invocação de ajuda ao Senhor. Nesta situação, Deus fez uma opção pela minoria oprimida, ouvindo o seu clamor, libertando-a (v. 8) e conduzindo-a á terra prometida (v. 9).
Por isso, a fé do israelita está ancorada na história, e a expressão dessa fé é a gratuidade e a ação de graças (v. 10a). Para o israelita, a oferta das primícias era a memória dos atos libertadores de Javé, que agiu ao lado deles, e não como as divindades pagãs dos povos vizinhos, que também tinham ritos semelhantes, mas, ao oferecer os frutos da terra, recitavam o mito da divindade. Após esta profissão de fé, o ofertante se prostrava diante de Deus libertador em adoração e reconhecimento.
2º leitura: Romanos 10,8-13
Se você crer de coração, será salvo
Faz parte de uma seção onde Paulo mostra a fidelidade de Deus e a incredulidade de Israel (cap. 9–11). Em Jesus Deus concedeu anistia à humanidade, pois sozinha ela não podia chegar à salvação. Em Jesus, Deus se tornou próximo das pessoas, libertando-as com sua morte e ressurreição. Assim, a salvação não é exercício da pura prática da lei, como acreditava o povo do Antigo Testamento, mérito exclusivo das pessoas, pois se praticassem os mandamentos Deus seria obrigado a salvá-las.
A justiça é pura graça de Deus em Cristo. Portanto, resta aos cristãos reconhecer que Cristo é o Senhor, ou seja, está em pé de igualdade com Deus e adquiriu este título em virtude de sua obediência ao Pai. Mas não basta proclamar que Cristo é o Senhor. É necessário crer com o coração que Deus o ressuscitou. O coração é a sede das opções da vida. Portanto, crer com o coração é a prática cristã capaz de traduzir em obras, em gestos concretos e libertadores a fé que se professa. É pôr em movimento um processo de libertação, do qual ninguém fique excluído.
A salvação vem da profissão de fé de que Cristo é o Senhor ressuscitado.
Evangelho: Lucas 4,1-13
Tentação de Jesus no deserto
O evangelista apresenta as tentações de Jesus, que são uma síntese de todas as tentações que padeceu durante sua ação libertadora. Lucas inseriu estas tentações depois de descrever a sua genealogia. Com isso, quis mostrar que Jesus é humano como qualquer outra pessoa. Portanto, as tentações que ele sofreu são iguais às nossas.
Esta narrativa se encontra apenas em Lucas e em Mateus. Teve sua origem provavelmente num ambiente eclesial, interessado em definir com exatidão o sentido do título Filho de Deus. De fato, no sentido semítico, ele podia designar um semideus, que devido ao seu nascimento divino tinha uma grande força, da qual se servia para sua vantagem própria. A tradição sobre as tentações nega esta possibilidade e afirma o sentido bíblico do Filho de Deus, ou seja, o executor obediente e cheio de fé da vontade do Pai. As tentações podem ser consideradas históricas, embora a redação do diálogo seja da comunidade primitiva. Além do mais, a tentação não tem apenas um caráter pedagógico, para nos ensinar a vencê-las.
As tentações ocorrem no deserto, que para o Antigo Testamento lembra o tempo da gestação do profeta de Deus para o povo. Foi nele que os hebreus forjaram a duras penas a nova sociedade livre da opressão. Os quarenta dias (simbólicos) lembram os quarenta dias que Moisés permaneceu na montanha na intimidade com Deus, a fim de escrever o contrato da nova sociedade (Êxodo 34,28). Lembram ainda os quarenta anos do deserto, com suas tendências de volta ao Egito, mesmo que fosse para viver como escravos, desde que com a barriga cheia. Lembram ainda o tempo que Elias ficou no Horeb e depois desceu para transformar a sociedade completamente, do ponto de vista político e religioso (1 Reis 19,8).
O Diabo tem um plano para perverter o projeto de Deus. A primeira tentação lembra o dom do maná no deserto. Ele propõe a Jesus que se sirva de seus dons messiânicos para seu próprio interesse (v.3). Jesus se recusa a ser o Messias da abundância, pois o projeto de Deus vai além das promessas eleitoreiras (Deuteronômio 8,3). Não basta o pão, o projeto de Deus é maior.
Na segunda tentação o Diabo tenta perverter o plano de Deus mediante a usurpação do poder: “Eu lhe darei todas as riquezas...” Jesus se recusa a ser o Messias do poder (Deuteronômio 6,13). Absolutizar o poder é repetir a opressão do faraó.
Na terceira tentação o Diabo tenta Jesus para que abuse do poder de Deus, a fim de se livrar da morte, usando o Salmo 90,11-12. Jesus é convidado a atirar-se do pináculo do Templo. Mas ele se recusa a ser o Messias do prestígio (Deuteronômio 6,16), o que é idolatria. Segundo a tradição, o pináculo era o lugar da manifestação do Messias.
O Diabo se afastou de Jesus para voltar a tentá-lo no tempo oportuno. O tempo oportuno é o final da ação libertadora de Jesus, em que ele iria enfrentar os soldados e os chefes dos judeus (Lucas 22,1-3).
Reflexão
Iniciamos a Quaresma, caminho anual de preparação à Páscoa, centrado no fato fundamental da história do homem pecador, que não pode encontrar em si mesmo a estrada da salvação. Somente Deus pode oferecê-la. Pecador e escravo, o homem não pode pagar seu próprio resgate, mas somente Deus que se fez homem.
Neste domingo, os temas polarizam sobre a fé e a provação da fé. A fé cristã é histórica. Certamente, fé é uma palavra muito genérica, pois muitos dizem ter fé porque acreditam no Absoluto. Para outros ela é uma atitude psicológica de confiança. Para outros, ainda, é simplesmente uma prática religiosa. Em todas essas atitudes existe o germe, mas não a verdadeira fé que a Bíblia nos ensina.
Para a Bíblia, ter fé é reconhecer que Deus segue nossas vidas de perto, tem em si as diversas reações da liberdade humana diante dos acontecimentos. A história do povo hebreu, especialmente de sua saída do Egito, é um exemplo claro desta posição de Deus. Deus escutou suas lamentações e os hebreus acreditaram quando reconheceram Deus em suas vidas. Fé é, portanto, reconhecer que Deus atua de acordo com um plano para conduzir os homens para a salvação.
Para nós, cristãos, crer em Deus é reconhecer que ele agiu em Cristo para nos salvar. É crer que Jesus é o Senhor porque Deus o ressuscitou.
Os evangelistas escreveram os evangelhos para que não se perdesse a lembrança do que aconteceu realmente e para recolher o testemunho “daqueles que foram testemunhas desde o início”, para “dar testemunho da solidez do ensinamento” (Lucas 1,1-4). As palavras de hoje nos dizem que em Jesus se manifestou o plano divino da vitória sobre o mal. Assim, o mal não é invencível.
Como Jesus, o cristão pode passar por provações em sua vida. A tentação do materialismo, em que o homem tem fome do pão material, ou seja, de tudo o que supõe o ter e o gastar com coisas, é a primazia do ter sobre o ser e a dissociação entre fé e vida. Como cristãos devemos subordinar os bens a nós, pois produzir e gastar como atitude fundamental em nossa vida não é compatível com o Evangelho. Além disso, a primazia do ter sobre o ser gera o egoísmo, o exclusivismo, a falta de partilha, a injustiça, a desigualdade, a insatisfação diante das necessidades artificiais.
Ser e amar é a única solução para os problemas humanos, porque leva à partilha e ao reconhecimento do outro como irmão.
O Evangelho nos mostra que não podemos pretender fazer nosso caminho sem padecer alguma provação. As tentações são fruto de nossa debilidade intrínseca. Somos fruto das tentações do inimigo, que quer nos iludir com sugestões. Entretanto, o mundo atual é marcado pelo sinal da descrença, pelo ateísmo militante ou pelo agnosticismo indiferente. O grito “Deus está morto” do Zaratustra de Nietzsche confirmou o surgimento de ídolos que querem ocupar o lugar de Deus destronado. Para muitos, a imagem do homem técnico da pós-modernidade suplanta a imagem de Deus que morreu. “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e o homem lhe paga com a mesma moeda, criando Deus também à sua imagem e desejo“ (Voltaire).
Jesus é em tudo igual a nós, menos no pecado. Quis submeter-se à tentação no início de sua missão, no momento em que se preparava com o jejum e a oração. O Diabo tenta dissuadi-lo do seu propósito, sugerindo-lhe outros meios mais rentáveis, mais fundados na realidade humana. Jesus não se deixou levar pelos argumentos falsos do Demônio, mas manteve sua escolha ancorada na vontade de Deus.
Também nós nos encontramos diariamente diante de duas encruzilhadas. Qual devemos tomar? É muito fácil, por sugestão do tentador, por nossa fraqueza ou por influência de idéias que nos circundam, tomar o caminho mais curto e mais cômodo. Ao contrário, o caminho mostrado pela palavra de Deus parece cheio de sacrifícios.
É preciso fazer um pequeno programa nesta Quaresma, pequeno, mas eficaz, um programa que consista em conhecer melhor a palavra de Deus que chegue até o coração. E ao mesmo tempo partir para a realização prática desta palavra na vida diária, apesar das tentações.
O relato das tentações lembra os três momentos do caminho do povo hebreu no deserto em direção a Canaã.
1) A fome, a murmuração e o dom do maná - Deus permitiu a fome para ensinar que o homem não vive só de pão (Deuteronômio 8,2). Jesus viveu esta tentação, mas, ao contrário do povo hebreu, venceu-a. Como Jesus, os cristãos devem fazer a experiência do deserto e das tentações na saída do Egito. Todos os israelitas foram batizados na nuvem e no mar, todos comeram o mesmo pão espiritual... (vs. 2-4). É a mesma a situação dos cristãos que receberam os sacramentos da iniciação (Dupont). Por isso devem preocupar-se em não sucumbir às tentações, como Israel. Hoje as tentações são as dos bens materiais, em detrimento da moral, da família, da saúde, de Deus...
2) A falta de água - Os israelitas murmuravam: “Deus está conosco?” E pedem um milagre a Deus: que mostre água. Onde Israel sucumbiu, Jesus saiu vencedor e não iria obrigar Deus a intervir em seu favor. Hoje muitos querem ensinar a Deus o que fazer: Por que Deus não acaba com o mal? Sempre faço o bem e veja o que me acontece: uma desgraça!
3) O impacto com a terra de Canaã - Deus havia advertido o povo de que, ao entrar na terra prometida, encontraria um povo pagão, e lhe disse: “Vocês devem adorar somente a mim” (Deuteronômio 6,15; Êxodo 23,20). O povo de Israel sucumbiu, pensou em receber favores do povo conquistado unindo-se a ele na adoração dos ídolos. Jesus passou pelo mesmo caminho, mas venceu. E os cristãos, quantos ídolos adoram? Sucesso, moda, status, símbolos…
A Quaresma é um tempo de adesão madura a Deus, pois é um dom, mas também uma procura. A Quaresma é um tempo para mergulhar na palavra de Deus, que nos faz discernir entre o bem e o mal.
Se o Diabo tentou Jesus, quanto mais a nós. Isto porque satanás é um anjo mau, capaz de tornar-se atraente, enganador, inclusive de citar a Palavra de Deus. Sua função é nos separar de Deus, nos convencer a caminhar com as próprias forças, propor-nos sucesso e segurança contra o projeto de Deus.
“O ódio de satanás é reservado aos santos“ (Bernanos). Não é só nos fenômenos excepcionais (droga, alcoolismo, violência...) que se reconhece a intervenção de Satanás, mas também nas ações normais, do dia-a-dia, quando a quimera do ter-poder-prazer tende a nos desviar da obediência da fé...
“Parece-me que certas ironias sobre o conteúdo doutrinal nascem de um conhecimento incorreto de como Cristo e os apóstolos rejeitaram o Diabo“ (Rahner).
A Quaresma é um tempo de preparação para a Páscoa, a festa litúrgica mais importante. Para chegar a esta festa, a Igreja nos propõe quarenta dias de preparação. A Quaresma é um tempo de meditação, de oração, de caridade. É um tempo para aprofundar mais os mistérios da fé, com o jejum, a esmola, a oração.
padre José Antonio Bertolin, OSJ
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Um comentário:

  1. Estas reflexões nos ajudam em nossa formação como catequistas e acima de tudo no fortalecimento de nossa fé!

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