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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 23 de fevereiro de 2013

TRANSFIGURAÇÃO - ANO C



II DOMINGO DA QUARESMA
Domingo dia 24 de fevereiro Ano "B"

Comentário Prof.Fernando


Jesus transfigurado

            Transfiguração é uma mudança que pode ser para melhor, ou para pior. Pode ser bonita, e atraente,  ou feia e repugnante. Hoje, estamos festejando a  mudança no rosto de Jesus que o tornou luminoso como o sol e que ficou conhecida como “Transfiguração”.  Continua


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Domingo, 24 de fevereiro de 2013
2º Domingo da Quaresma

Missionários Claretianos

Santos do Dia:Adélia (rainha, viúva), Betto de Auxerre (monge, bispo), Edilberto (rei), João Theristus (monge), Modesto de Trèves (bispo), Montano, Lúcio e Companheiros (mártires da África), Pretextato de Rouen (bispo, mártir), Primitiva (provável mártir de Roma), Sérgio da Capadócia (presbítero, mártir).
Primeira leitura:Gênesis 15,5-12.17-18
Eu dou, disse ele, esta terra a teus descendentes
Salmo responsorial:
 26(27),1.7-8.9abc.13.14 (R. 1a)
O senhor é minha luz e minha salvação, de quem eu terei medo?
Segunda leitura:
 Filipenses 3,17-4,1
Continuai assim, firmes no Senhor
Evangelho:
 Lucas 9,28b-36
Este é meu filho muito amado, ouvi-
Depois de eliminar todas as expectativas a respeito de si mesmo, próprias do tempo, depois de se apresentar como messias, será morto, porém salvará a todos. Depois disso, diz que os seguidores devem continuar o mesmo caminho, devem passar pelas mesmas cruzes e até pelo martírio e isto a cada dia... Texto de difícil compreensão. Porém, quando tudo parece perdido, ele se manifesta transfigurado: Isto é o que vos espera! Cruz e ressurreição vão jutos, a ponto de ser impossível separá-los. A ressurreição dá um sentido novo e frutífero a uma vida que é gasta e entregue, como o fruto dá sentido ao grão enterrado. A transfiguração é uma antecipação; um “eclipse ao contrário”: uma luz no meio da noite. Dá um sentido completamente novo à vida e à morte! Torna compreensível a maravilhosa reflexão de Helder Câmara: “O que não tem razão para viver, não tem uma razão para morrer”.
Pobres de nós se nos aburguesamos, se nos instalamos ou nos acomodamos! O “que bom estarmos aqui” é, evidentemente, “não saber o que se diz”. “Cambia, todo cambia” diz a canção espanhola... a Quaresma é “tempo de mudança” e Pedro quer “acomodar-se aí”... Muitos não querem saber de mudanças: “mais vale o mal conhecido, que o bem por conhecer”, sentenciam! Que diferença!
A transfiguração é dizer para nós mesmos: “Isto e o que os espera”, é dizer que vale a pena. Todo processo de conversão e mudança tem sentido porque temos uma rocha firma, temos alguém que não muda e garante nossa vida fecunda, um “ressuscitado que é o crucificado” (J. Sobrino). Por isso a importância que tem “escutar” Jesus. É a voz do profeta do final dos tempos, do profeta como Moisés, que nos mostra o caminho da vida, o caminho do êxodo que é caminho de Páscoa. O que celebramos na Quaresma não é um fato “piedoso” no sentido comum do termo; é um fato vital, de vida; um abandonar-se e comprometr-se, um dar a vida. P
É um voltar-se para Cristo presente nos irmãos. Como todas as alianças da
Bíblia, a aliança com Abraão é selada com sangue; Jesus selou, em seu sangue, uma aliança “nova e eterna”. Já não é sangue de animais que dá a vida e é sinal de aliança, agora é o sangue de Cristo, seu amor, sua via unida ao sangue de tantos mártires que, com sua morte transfigurada, dão via a tantos mortos vitimas da violência e da injustiça. Não é que Deus queira o sangue, certamente, mas que o amor nunca é mais verdadeiro como quando chega até o final e, no caso de Jesus, até dar a via, que é o sinal de amor por excelência.
Estamos diante de uma aliança que é amor oferecido em generosidade, e que cada cristão confirma e reafirma “cada dia” em seu derramamento de sangue, seja no amor cotidiano, como o martírio doloroso de tantos irmãos nossos latino-americanos. E se a morte é o maior dos absurdos; Cristo, a partir de sua morte e ressurreição (hoje vislumbrada na transfiguração), apostar a vida, gastá-la na luta pela justiça e solidariedade,pela verdade e pela vida, é o acontecimento frutífero por excelência, já que Cristo associa a si mesmo a uma multidão de irmãos. Não é que Deus queira que alguém morra.
Ele é Deus de vida, não de morte – porém nada há mais doador de vida que o amor, por isso é Deus de amor. Deus nos quer sempre, a cada dia, doando via, ainda que diante da injustiça, da violência e do pecado, essa busca de dar vida possa implicar ter que dar a vida mesmo. Porém, como sempre, é a vida e o amor o que conta, é a vida pelo reino, é um dar a  vida para que outros vivam. Uma morte que dá vida, dá sentido a tantas vidas mortas....
Oração: Ó Deus, nosso Pai: como o evangelista Lucas, também nós cremos que de fato na vida de Jesus tu mesmo nos diriges tua Palavra. Faze que, iluminados por ela, possamos transfigurar e olhar de um modo novo as realidades que também temos que transformar, unidos a todos os homens e mulheres que, iluminados também de mil modos por tua palavra universal, caminham para o mesmo “outro mundo possível”, que tu queres ajudar-nos a construir entre todos os povos da humanidade mundializada. Nós te pedimos por Jesus, filho teu e irmão nosso. Amém.

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24 de Fevereiro- II Domingo quaresma

II DOMINGO DA QUARESMA 24/02/2013
1ª  Leitura Gênesis 15,5-12.17-18
Salmo 26 (27) , 1 a “O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem     temerei?”
2ª Leitura Filipenses 3, 17- 4,1
Evangelho Lucas 9,28b-36

“TRANSFIGURAÇÃO” - Diac. José da Cruz

Eu estava empolgadíssimo ouvindo o relato sobre um filme, assistido por um amigo meu, que voltou cheio de entusiasmo falando maravilhas do mesmo e narrando com precisão o início, quando toda a história começa a se desenvolver, mas, porém, ao chegar na parte principal, quando todo o mistério seria revelado, bastante sem graça ele confessou-me que só se lembrava do final porque, dominado pelo sono acabou dormindo no melhor da história, que raiva que me deu! Com Pedro, Tiago e João aconteceu à mesma coisa no alto daquele monte onde Jesus havia subido para rezar, como frisa o evangelista, e justamente na hora em que Moisés e Elias, personagens importantes do Antigo Testamento, conversavam com Jesus sobre o seu “Êxodo”, os discípulos nada viram e nem ouviram, simplesmente porque pegaram no sono.
Esse “dormir” teológico sempre aparece na Escritura Sagrada para mostrar como o homem é pequeno diante do grandioso mistério de Deus, no paraíso o homem dormia quando Deus tirou uma de suas costelas para fazer a mulher, no Horto da Oliveira à cena se repetirá, quando os discípulos dormem em um momento em que Jesus vive a sua angústia. Quando dormimos não sabemos nada do que se passa ao nosso redor, portanto, na vida de fé, dormir é não perceber a ação de Deus em nossa vida.
Ainda bem que eles tiveram bom censo e diferente do meu amigo, decidiram não contarem nada a ninguém sobre tudo o que tinha acontecido no alto da montanha – afirma o evangelho em seu final – e particularmente acho que fizeram muitíssimo bem porque se saíssem falando, não iriam dizer coisa com coisa, pois no fundo não haviam compreendido nada daquelas coisas que estavam acontecendo com o Mestre. Ao anunciarmos Jesus e falarmos do seu evangelho, devemos fazer com muita clareza e convicção, caso contrário corremos sempre o risco de ficarmos fantasiando o Cristo do evangelho.
Subir em uma montanha não é tarefa das mais fáceis, requer esforço, concentração e muita atenção, pois qualquer escorregão, além de poder ser fatal, a gente ainda perde todo o esforço do trabalho já feito. Jesus havia subido á montanha para rezar e nós também “subimos”, isso é, fazemos a nossa ascese quando nos entregamos à verdadeira oração, aquela onde Deus nos envolve na sua vida de comunhão, como aquela nuvem envolveu os discípulos, e revela-nos quem somos e qual a nossa missão.
Essa experiência nós a podemos fazer na oração pessoal, ou quando nos reunimos na comunidade, em torno da Palavra e da Eucaristia, onde celebramos a paixão, morte e ressurreição de Jesus, isso é, celebramos as dores e os fracassos, o amargor do cálice da derrota, mas também a glória da ressurreição, que marcou o seu êxodo, tema da conversa entre os dois personagens e Jesus.
Mas sempre há os cristãos-soneca, que também dormem o tempo todo, isso é, participam de todo este mistério sem compreendê-lo e vivenciá-lo em seu dia a dia e daí, como o apóstolo Pedro, acordam assustados, com a vontade de armarem as tendas do comodismo, fechando-se em seu grupo ou em sua comunidade, para fugir dos desafios que missão certamente lhes trará, são aqueles cristãos que só querem sombra e água fresca.
Para compreender todo o mistério, uma só coisa é necessária; ouvir com atenção as palavras de Jesus o Filho de Deus! “Escutai o que ele diz...”, dia a voz que sai do meio da nuvem, sigam pelo caminho que ele indicar, vivam do modo como ele viveu, ponham o evangelho no coração, e teremos enfim o Reino dentro de nós, irradiando muita vida e esperança, pois a transfiguração mostra-nos a glória na qual seremos envolvidos, porém, também lembra-nos que há todo um êxodo a ser percorrido, um caminho que não será dos mais fáceis, mas somente nele é que encontraremos as pegadas Daquele que venceu e foi glorificado pelo Pai.
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Domingo 24.02.2013
Lucas 9,28b-36
À medida que Cristo vive em nós, começamos a demonstrar, o caráter e a natureza do Cristo que habita em nós - Maria Regina.
                                Levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar. Enquanto rezava Seu rosto se transfigurou e a Sua roupa ficou branca e brilhante. Os discípulos que estavam perto de Jesus viram-no conversando com Moisés e Elias e ouviram a voz de Deus do meio da nuvem, testemunhando em favor do Seu Filho: “Este é o meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!” O Evangelho de São Lucas nos relata que antes disso, os discípulos estavam com muito sono, tiveram medo, no entanto diante da glória de Deus desejaram construir três tendas, talvez, para que não se rompesse aquela aparição e eles pudessem permanecer no meio daquele quadro esplendoroso.
                             No quadro da transfiguração de Jesus a aparição de Moisés e Elias representa a Lei e os Profetas que revelam o ministério de Cristo, escolhido do Pai para, pela Sua Morte e Ressurreição salvar a humanidade inteira. Mergulhando no mistério da transfiguração percebemos também que a Trindade se manifesta plenamente: o Pai, na voz; o Filho, no homem; o Espírito, na nuvem clara. E Jesus revela Sua glória divina confirmando o que as Escrituras prenunciam.
                            Assim também acontece com cada um de nós que é convidado por Jesus a subir a montanha e, com Ele permanecer em oração. Mesmo que estejamos cansados e sonolentos  quando nos abandonamos em oração meditando a Palavra, nós também podemos contemplar Jesus sob a luz do céu, ouvir a Voz do Pai e sentir a ação do Espírito Santo. Quando nos pomos a orar nós também conhecemos a glória de Deus por meio das moções e visualizações que nos são manifestadas pelo Espírito. Somos também transfigurados  quando temos uma experiência com Jesus ressuscitado, porque assumimos um jeito de ser todo novo, diferente do que estávamos acostumados a viver. Assim sendo, a intimidade com Jesus e o estar com Ele em oração, nos vai transfigurando e nos conformando à Sua pessoa fazendo com que experimentemos cada dia mais a Sua ação Redentora.
                            Com efeito, à medida que Cristo vive em nós, começamos a demonstrar na nossa vida diária, o caráter e a natureza do Cristo que habita em nós. A Sua luz fulgurante dentro de nós faz também com que sejamos transfigurados e possamos dar testemunho de que Ele é o Filho de Deus, escolhido para dar vida ao mundo. Então, nós podemos descer da montanha para enfrentar embaixo, no campo, as feras que nos atacam e investem contra nós a fim de nos fazer desistir. A nossa perseverança na oração é a arma que empunhamos para não cair na tentação.Reflita – Você tem subido a montanha para orar com Jesus? – Como tem sido essa experiência: você tem ouvido a voz do Pai e acolhido as moções do Espírito? – A Luz de Jesus tem também lhe transfigurado? – Você tem notado alguma transformação em você? – O que mudou? Reflita sobre isso!
Amém
Abraço carinhoso
- Maria Regina

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“ESTE É O MEU FILHO, O ESCOLHIDO. ESCUTAI O QUE ELE DIZ”! - Olívia Coutinho

II DOMINGO DA QUARESMA

Evangelho de  9, 28-36

Estamos no segundo domingo da quaresma, nos preparando para vivermos  com intensidade a Páscoa do Senhor Jesus!
Junto com a Quaresma, a Igreja nos apresenta  a Campanha da Fraternidade, com suas preocupações e desafios: “FRATERNIDADE E JUVENTUDE”.  Lema: “EIS ME AQUI, ENVIA-ME”(Is 6,8) É a Igreja no Brasil, convidando-nos  a voltar o nosso olhar para a juventude e a sua realidade!
Neste tempo reflexivo, somos convidados a  contemplar a luz de Cristo, para que possamos,  iluminados por ela, viver a nossa realidade humana, dentro do plano de Deus, no respeito e no cuidado com a vida.
Se quisermos tomar parte com Jesus, o nosso primeiro passo tem que ser a conversão.  A conversão nos abre à luz de Cristo, nos tira da escuridão das treva, nos fazendo enxergar e  desmascarar os projetos que nos mantém à sombra da injustiça e da pobreza!
Iluminados pela luz de Cristo, tornaremos uma luz peregrina, a resgatar aqueles que estão  nas trevas, os que ainda não conheceram a luz!
Em muitas situações, ser luz,  pode implicar grandes riscos, porém, o pior risco, é de não  aceitarmos  o desafio de ser luz, o que pode nos condenar à pior de todas as trevas: estar longe de Jesus!
 Aproveitemos pois, este tempo precioso para revisar o quanto há de luz e o quanto há de sombras em nossa vida!
Somos  filhos amados do Pai, que mais uma vez deseja percorrer o caminho que  Jesus percorreu, atualizando esta caminhada no contexto do mundo de hoje.
O Evangelho que a liturgia deste domingo coloca diante de nós, nos mostra a belíssima cena da transfiguração de Jesus!
 “Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago e subiu a montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante.”
A transfiguração  de Jesus, foi o prenúncio do seu retorno glorioso ao céu!
 A cena revela aos discípulos, a Sua  intimidade com o Pai, assegurando-os da Sua ressurreição após Sua morte de cruz!
Na transfiguração, os discípulos Pedro, Tiago e João, puderam visualizar o encontro de Jesus com o Pai. A partir de então, eles, que andavam tristes, desapontados com as últimas revelações  de Jesus, sobre a proximidade de sua morte, se encheram de alegria, com a  certeza de que a vida e ação de Jesus, não terminaria com a sua morte.
Assim como Pedro desejou construir três tendas para que eles pudessem ficar no alto da montanha com Jesus, longe dos perigos e sem precisar batalhar a vida, nós também, certamente desejaríamos  o mesmo, essa  pode  ser a  nossa grande tentação dos dias de hoje: buscar nossa comodidade sem pensar no outro. 
Jesus é muito claro: rezar, ouvir e meditar a palavra de Deus é muito bom e O agrada muito, mas precisamos descer do alto da “montanha”, ir mais além, andar com os pés neste chão duro, com olhar sempre voltado para as margens do caminho, pois é lá, que estão os rostos desfigurados de tantos irmãos, que contam  conosco para se transfigurarem!
Precisamos sair de nossas tendas, do nosso  comodismo, descruzar os  nossos braços, desvendar os  nossos olhos e nos por à caminho!
O episódio da transfiguração deve nos animar ao longo de toda nossa vida, especialmente quando esta transfiguração mostra o lado da cruz. Jesus nos ensina com a própria vida a não temermos a cruz, Ele nos trouxe a certeza de que a cruz não é sinal de morte e sim, sinal de vida!
Guardemos dentro de nós, o brilho do rosto transfigurado de Jesus, brilho que nos  servirá de farol,  para iluminar as  travessias escuras de nossa  vida.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia 

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Evangelhos Dominicais Comentados

24/fevereiro/2013  – 2o Domingo da Quaresma

Evangelho: (Lc 9, 28b-36)


Mais uma vez estamos juntos neste Domingo, dia do Senhor. Na liturgia de hoje nós celebramos a Transfiguração de Jesus. O rosto de Jesus mudou de aparência, transfigurou-se diante das pessoas que estavam ao seu lado.

Jesus subiu a montanha para orar, mas não fez isso sozinho, arrastou consigo seus discípulos. Jesus sabia da importância da oração e fazia questão de partilhar esses momentos com seus amigos. Pedro, Tiago e João aceitaram o convite e acompanharam Jesus.

Além de Lucas, a transfiguração de Jesus também é narrada por Mateus (17,1-9) e por Marcos (9,2-10). Todos são unânimes em afirmar que as roupas de Jesus ficaram brancas e reluzentes, e que seu rosto mudou de aparência, enquanto orava.

Jesus aproveita esta passagem, para mostrar-nos a capacidade de transformação da oração. A oração muda nossa vida, transforma a angústia em esperança e o comodismo em ações. A mudança é total. A oração muda até a nossa fisionomia.

Revestidos de glória, Elias e Moisés conversavam com Jesus. O assunto era a sua morte. Discutiam como seria o sofrimento que o Messias experimentaria em Jerusalém. Aos poucos Jesus ia se inteirando do difícil caminho que haveria de percorrer.

Para executar sua missão o Salvador do Mundo deveria dar tudo de si, inclusive sua vida. Não havia outro jeito, o Plano de Salvação do Pai incluía sua paixão e morte de cruz. Jesus, extremamente humano, encontrou na oração, no diálogo com seu Pai, a força e a coragem necessárias para enfrentar a difícil caminhada.

Esse é o grande exemplo que Jesus nos deixa: é como se estivesse dizendo para mim e para você: "Nos momentos difíceis, quando as barreiras parecem intransponíveis, quando parecer não existir nenhuma saída, recorra ao Pai, Ele vai lhe iluminar. Você também vai se encher de luz e resplandecer".

Jesus nos diz ainda: "Não faça nada sozinho, pense na comunidade, divida, evangelize. Suba a montanha e arraste consigo o maior número possível de pessoas para orar. Viva e ensine a oração, ela nos coloca em comunhão com Deus. Lembre-se que onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles". (Mt 18,20)

Através da transfiguração, Jesus anuncia que pelo caminho do sofrimento, carregando com dignidade a nossa cruz, chegamos à ressurreição e à glória eterna. Diante de todos o Pai se manifesta e declara em alta voz, para que todos ouçam, "este é o Meu Filho, o escolhido, escutai o que ele diz!"

Desta vez é o próprio Pai quem nos envia seu recado. Suas palavras sugerem atenção e obediência. Veja que boa notícia: com estas palavras o Pai quer dizer que irão resplandecer e encher-se de brilho o rosto e as vestes daquele que escutar e por em prática, tudo aquilo que diz o seu Filho.

 (1473 / 1501)


Diálogo  ocorrido há aproximadamente 400 anos, entre  Jean Baptiste Colbert - ministro de estado do rei Luis XIV e  Jules Mazarino - primeiro ministro da França:
Colbert: - Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço ? 
Mazarino: - Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se ! Todos os Estados o fazem! 
Colbert: - Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis? 
Mazarino: - Criando outros. 
Colbert: - Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres. 
Mazarino: - Sim, é impossível. 
Colbert: - E sobre os ricos? 
Mazarino: - Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres. 
Colbert: - Então, como faremos? 
Mazarino: - Colbert! Tu pensas como um queijo, como um doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. 
É a classe média !
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Transfiguração

Antes de tudo, duas observações:
1) A Palavra de Deus, neste domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado;
2) chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração. Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal?
Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de seu pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn. 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!” Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “’Traze-me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”. Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé... Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor... E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa: “quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo... Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”. Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor!
Fixemos a atenção no evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” - e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar seu Deus e Pai! E o Pai o transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima: “Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que o envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex. 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex. 40,34-38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1Rs. 8,10-13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc. 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas. Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espíritas, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos! Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus... sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles vêem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da morte de Jesus, de sua Páscoa! Sua paixão e morte vão conduzi-lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossa dúvidas tão persistentes é Jesus!
Mas, por que este evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a de 2010 e a da eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos são Paulo: “Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!” Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fiéis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na glória imperecível.

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Amados irmãos em Cristo, para compreendermos o que Senhor nos quer dizer hoje, com estas leituras da sua santa Palavra, é necessário recordar que estamos no caminho quaresmal e que este caminho, que nos leva à luz da celebração pascal, é imagem do próprio caminhar nosso neste mundo: caminho por entre trevas e luzes, crises e bonanças, momentos de profunda dor e de grande consolação. No caminho da Quaresma, como naquele outro, da vida, o Senhor nos educa, nos prova, nos consola, nos conforma à sua cruz e nos prepara para participar da sua gloriosa ressurreição.
Tomemos, pois, com um coração de discípulos, as leituras deste hoje. Por que a Igreja coloca a luz do Tabor na sobriedade quaresmal? Não assentaria mais este texto no tempo pascal? Tudo é luz no Tabor, tudo é glória de Cristo! Mas, observemos:
(1) Jesus sobe ao monte para rezar, para buscar a vontade do Pai. Já aqui temos uma bela lição quaresmal. Se o nosso Salvador rezou durante toda a sua vida, como nós poderíamos não rezar? Como poderíamos nos dar ao luxo de pensar poder ser verdadeiramente cristãos sem buscar sintonizar nosso coração com o coração de Cristo, que é imagem do coração do Pai? Rezando, Jesus é transfigurado na glória do Pai, que é o próprio Espírito Santo, representado pela nuvem luminosa. Também nós, caríssimos, perseverando na oração, traremos certamente em nós o reflexo da glória de Deus que resplandece na face de Cristo – e este é o objetivo da Quaresma: fazer-nos participantes da alegria pascal, plena da glória do Ressuscitado.
(2) Pensai agora naqueles que aparecem sobre o Tabor: Moisés, que representa a Lei, e Elias, que representa os profetas de Israel. Eis a mensagem clara: a Lei e os profetas dão testemunho da paixão do Senhor, que irá consumar-se em Jerusalém. A cruz não é um absurdo, mas parte de um desígnio de Deus, desígnio de salvação e de vida, de modo que seria uma tristeza, uma miséria, um cristão desejar ser discípulo de Cristo Jesus fugindo da cruz, comportando-se como inimigo da cruz do Senhor! Será o próprio Senhor ressuscitado quem recordará aos discípulos de Emaús que era necessário que o Cristo sofresse para que entrasse na glória; será o próprio Senhor quem mostrará que tudo isto fora anunciado na Lei e nos profetas, representados hoje por Moisés e Elias (cf. Lc 24,26-27). Quando, pois, a cruz – misteriosa cruz! – bater à porta de nossa vida, não pensemos que tudo é sem sentido, não duvidemos da presença e do amor do Senhor. Também ali, na nossa cruz, na nossa hora, ele está presente e nos convida a participar do seu sofrimento, que conduz à ressurreição! Não nos comportemos como inimigos da cruz de Cristo, buscando uma fé de comodismo, de falta de compromisso, de concessão ao pecado e ao relaxamento na vida espiritual! Na Quaresma o Senhor nos convida a tomarmos com ele nossa cruz, lutando contra o nosso pecado e nossos vícios para participarmos na sinceridade e na verdade da sua vitória pascal!
(3) Pensemos nestes Moisés e Elias: como Abraão, que na primeira leitura aprendeu a crer mesmo na noite e na angústia, vigiando e esperando o Senhor, também esses dois que veem a glória de Cristo no Tabor, tiveram que caminhar na oração e no jejum para chegar a contemplar a glória de Deus: Moisés jejuou quarenta dia no cimo do Sinai antes de ver a glória do Senhor; Elias caminhou quarenta dias até o Horeb (que é o mesmo Sinai) para encontrar a Deus. E agora, esses dois, aparecem no brilho da glória de Jesus, o Deus perfeito, Santo de Israel! Eis a mensagem clara: como Abraão, que somente viu a glória de Deus no meio da noite depois da vigília e da provação, como Moisés e Elias, que somente viram o resplendor da glória do Senhor após o combate e a penitência, assim também nós, se quisermos de verdade ser inundados da glória pascal, devemos combater o combate quaresmal!
Assim, vivamos conforme o que aprendemos dos Apóstolos e dos santos cristãos que nos precederam na fé! Vivamos como quem sabe que aqui estamos de passagem, a caminho: “somos cidadãos do céu. De lá aguardamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso”, esse mesmo corpo de glória que hoje refulge no Tabor. Como nosso pai Abraão, combatamos na fé, na esperança, na obediência amorosa ao Senhor, para que no meio da noite de nossa vida, vejamos o fulgor do Senhor, que é fiel e não nos abandona jamais! Como hoje nos exorta São Paulo, “continuai firmes no Senhor”, pois ele é fiel, ele jamais nos deixará e, após o caminho desta vida dar-nos-á a graça incomparável de participar de sua glória eterna pelos séculos dos séculos. Amém.
dom Henrique Soares da Costa
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No segundo domingo da Quaresma também se encontra, todos os anos, o episódio da transfiguração, cada vez à luz de um dos evangelhos sinópticos. Ainda no início, é bom olhar um pouco melhor para o caminho e para a chegada. Para quem se prepara para o batismo ou para renovar os compromissos do seu batismo e vivê-lo melhor, será bom também ver o que se pode aprender do episódio.
Este ano a versão é a de Lucas, que nem fala de transfiguração, mas apenas do rosto de Jesus transformado pela oração e da brancura e brilho de suas roupas.
Fala da morte de Jesus como um êxodo, uma saída semelhante à dos hebreus da escravidão do Egito. Jerusalém é o ponto central para Lucas, tanto no evangelho quanto no livro dos Atos dos Apóstolos. Se a rede de comunidades cristãs fundadas por Paulo era acusada de negar sua origem judaica, Lucas contesta, colocando Jerusalém sempre no centro. O êxodo ou saída de Jesus que se dá em Jerusalém pode ter, então, vários significados.
Jerusalém e tudo o que ela significa ter-se-ão transformado em outro Egito, nova “casa da escravidão”? A saída de Jesus da cidade explica-se pela necessidade de ele ser crucificado fora dela – o que era normal e exigido pela Lei, pois a crucifixão torna impuro o lugar – ou também significa uma saída que ele abriu para a humanidade? A morte de cruz é um êxodo, uma saída, porque escapa totalmente a uma leitura e interpretação de Dt 21,23 (quem morre pendurado é maldito por Deus)?
1º leitura (Gn. 15,5-12.17-18)
Abrão está velho e sem filhos. Deus dá-lhe a esperança de tornar-se pai de enorme multidão. O fogo que passa entre as metades de animais sacrificados simboliza que Deus está firmando um compromisso com Abrão.
Abrão é modelo do patriarca ou pai grandioso, lembrado por inúmeras gerações. Ele, porém, não é pai grandioso (o significado do seu nome) por causa de seu vigor físico – já estava velho e debilitado quando Javé lhe prometeu grande descendência. Deus é que fez dele o pai da multidão (significado do nome Abraão). Para tanto, bastou-lhe acreditar na promessa de Deus. Sua fé fê-lo merecer, fez que o cumprimento da promessa lhe fosse de justiça.
Javé prometeu-lhe também que seria proprietário da terra onde estava. Para garantir isso a Abraão, fez com ele uma aliança.
As alianças ou contratos antigos eram firmados com um rito de sangue. O mais comum era as partes contratantes passarem entre metades de animais sacrificados, pronunciando imprecações ou “rogando pragas”, como se dissessem: “Aconteça-me o mesmo que a estes animais se eu não cumprir o que foi contratado!”.
A promessa de Deus adquire, então, o caráter de uma aliança. Ao cair da tarde, no claro-escuro, fumaça e tocha passam por entre as metades dos animais sacrificados. Fumaça e tocha, o obscuro e a luz, simbolizam o Deus Javé. Ele é, ao mesmo tempo, o totalmente outro, que se encontra na obscuridade da fumaça, e o luzeiro, tocha que clareia e mostra o caminho.
Javé se compromete com Abrão, pai grandioso, que se tornará Abraão, pai da multidão, a dar-lhe um chão, a propriedade de uma terra.
2º leitura (Fl. 3,17 – 4,1)
Paulo alerta a comunidade contra os que querem exigir que os cristãos não judeus também se circuncidem e se submetam às normas da antiga religião. Reduziam, além disso, a religião a controle de alimentos. Será que Deus está no estômago? Nós pomos fé em Jesus morto e ressuscitado. A salvação para nós passa pela cruz.
Paulo foi fariseu e fiel observante de todas aquelas normas. Perseguiu os cristãos por julgar absurda a afirmação de que um crucificado era a salvação que Deus havia mandado ao mundo, pois um crucificado é, segundo Dt. 21,23, maldito por Deus.
Quando entendeu, entretanto, que Jesus era mesmo o Messias, o Cristo, deixou de lado tudo o que para si era o único caminho de salvação, a observância de todas aquelas leis, e passou a seguir Jesus crucificado. Por isso, pede que os filipenses o imitem, sigam o exemplo seu e de outros e não se deixem iludir.
Os que querem se apoiar somente na observância da Lei são inimigos da cruz de Cristo, tiram-lhe toda a importância. Isso faz Paulo chorar. O destino desses é a destruição, enquanto cabe aos cristãos aguardarmos a transformação da nossa humilde pessoa à imagem do Cristo ressuscitado e glorioso.
Com a importância tão grande que dão às prescrições alimentares, parecem dizer que seu Deus está no estômago. Sua glória é a circuncisão, que se encontra naquilo que o homem busca esconder, porque sente vergonha. Em tudo são contraditórios.
Evangelho (Lc. 9,28b-36)
Jesus já falou e voltará a falar da sua paixão. É nesse meio que Lucas situa a transfiguração. A morte humilhante de Jesus não é o fim, é a saída. Tudo está na Bíblia, a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias). Os discípulos não escutam.
Marcos e Mateus situam o episódio no sexto dia, e Lucas, no oitavo. Não o fazem porque tiveram informações diferentes, mas porque olham de maneira diversa o significado do episódio. O sexto dia lembra o dia da criação do homem: é certamente no contexto da criação de nova humanidade que Marcos quer entender a transfiguração. O “mais ou menos” oitavo dia de Lucas mostra que ele conhecia o texto de Marcos, mas queria lembrar o oitavo dia, o começo da nova criação do universo. Depois do descanso do sétimo, é novamente o primeiro dia, o dia da ressurreição de Jesus com seu significado cósmico e até ecológico.
Jesus leva à montanha Pedro, Tiago e João. Pedro é aquele que, logo após afirmar ser Jesus o Messias, não admitiu que pudesse ser um Messias sofredor, humilhado pelos poderosos. Tiago e João, em Mc. 10,35 - 38 (em Mt é a mãe deles, e Lucas só fala de uma discussão sobre quem seria o maior), pediram a Jesus os primeiros lugares na sua glória ou poder e provocaram a discussão sobre qual o maior entre os doze. Os três precisam de boa lição e por isso são levados à montanha, sozinhos, à parte (Mc e Mt), ao encontro com Deus (Lc).
Só Marcos e Mateus usam o verbo transfigurar, metamorfosear. Lucas diz apenas que o rosto de Jesus mudou de aparência enquanto ele orava.
Só Lucas explicita o teor da conversa de Jesus com Moisés e o profeta Elias, representantes das Escrituras do Primeiro Testamento, então divididas em Lei de Moisés e Profetas. Conversavam sobre a paixão de Jesus que deveria ocorrer em Jerusalém.
O Primeiro Testamento fala de um Messias sofredor. O ponto mais alto disso se encontra nos quatro poemas do livro de Isaías chamados de Cânticos do Servo de Javé (Is. 42,1-7; 49,1-8; 52,13-53,12). O projeto de Deus é esse mesmo, mas aos três discípulos ele interessa pouco. Lucas diz que, enquanto Jesus conversava com Moisés e Elias, eles caem no sono.
Lucas fala da morte humilhante de Jesus em Jerusalém – para onde em seguida vão começar a subir (os três discípulos não querem entender isso) – como o êxodo de Jesus. Ele foi morto fora da cidade. Jerusalém era o centro da terra onde correm leite e mel. A terra da liberdade agora se tornou outro Egito, “a fornalha da escravidão”, e não aceita Jesus.
Jesus sai de lá como Moisés saiu do Egito, liderando um povo que buscava a terra da fartura e da liberdade. Assumir a cruz é difícil, é complicado, é humilhação e morte, mas é a saída, é o novo êxodo.
A voz de Deus é fundamental. “O meu filho, o eleito” corresponde exatamente ao começo do primeiro poema do Servo de Javé, que na tradução dos Setenta está “o meu menino, o escolhido”. A cruz será a realização plena daquilo que dizem esses poemas. Os principais discípulos não estão querendo ouvir isso da boca de Jesus, mas Deus diz: “Escutai-o!”.
A nuvem, a sombra e também o medo de ver Deus lembram a presença divina na manifestação do Sinai. Quem eles agora devem ouvir é Jesus, a voz da nova aliança, que eles não eram capazes nem tinham o desejo de ouvir quando anunciava a própria morte.
Pedro parece querer pôr Jesus em pé de igualdade com os representantes do Primeiro Testamento. Nada de novo, Jesus é apenas mais um, igual a Moisés e a Elias. Propõe fazer uma tenda para cada um (pensava numa festa das Tendas?), a fim de que os três se estabeleçam e fiquem ali. Por outro lado, fala por falar, sem saber o que diz ou o que dizer.
Depois de a voz de Deus se fazer ouvir, Jesus se encontra só: ele sozinho resume toda a Escritura. Ele está a sós com eles, mas, com eles, parece que continua sozinho para enfrentar os inimigos em Jerusalém.
Pistas para reflexão
Jesus estará ainda hoje enfrentando sozinho o caminho da cruz? A cruz terá deixado mesmo de ser um escândalo, algo absurdo e incompreensível? Não é preferível falar da glória, do poder, do prestígio? Falar de cruz hoje dá sono; cruz, sacrifício em favor do outro, são coisas fora de moda!
A ressurreição não se explica sem a cruz. A ressurreição vem justificar a cruz, dar a aprovação de Deus a esse caminho tão estranho. A chegada dá razão ao caminho, a ressurreição dá razão à cruz.
Pedro, Tiago e João terão entendido tão mal a caminhada de Jesus? Sem dúvida, os evangelistas estavam pensando sobretudo nos dirigentes e fiéis de suas comunidades: eram eles certamente que não estavam entendendo bem o caminho de Jesus e começavam a se envolver mais com disputas de poder e prestígio. Como diz o pessoal da roça, o evangelista “está batendo na carroça para o burro entender”. Esses que têm dificuldade de entender não seremos nós, hoje?
Haverá outra saída para a humanidade, para seus problemas sociais, políticos, ecológicos, que não seja a cruz, a coragem de se sacrificar pelo outro, por todos, pelo todo?
Outro dia uma criança disse: “Para a gente viver em comunidade, é preciso passar pela cruz!”.
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Uma claridade que aponta para a claridade
No segundo domingo da Quaresma somos convidados a subir a montanha com Pedro, Tiago e João e a contemplar o rosto iluminado do Senhor Jesus. Os apóstolos fizeram uma experiência única que nunca haveriam de esquecer: experiência de luminosidade que apontava para a claridade da ressurreição do Senhor. Hoje é o domingo da Transfiguração. Mas, atenção ainda não é páscoa. O que se tornara claridade na montanha ainda atravessarias as trevas da paixão e da morte.
O relato da transfiguração proclamado na liturgia deste domingo é de Lucas. A experiência da claridade de Deus em Jesus se passa num contexto de oração. “Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João e subiu à montanha para rezar”. Jesus entra em contato íntimo com o Pai. Deixa-se possuir inteiramente pelo olhar do Pai. E a intimidade é tão forte que, naquele momento, aparece no rosto de Jesus a sua mais íntima identidade:  ele é a luz que nasce da luz. Ele é Deus de Deus, luz da luz.  “Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”.
Lucas, no capítulo nove de seu texto, faz Jesus começar sua caminhada para Jerusalém, palco final e definitivo de sua missão e vida. No momento da luminosidade “dois homens estavam conversando com  Jesus: eram Moisés e Elias”. Lucas afirma: “Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Misturam-se luz e sombra. Há claridade ofuscante e a sombra da morte. Pedro e seus companheiros estão com sono. De repente, acordam e fazem a experiência da glória de Deus. Parece que o céu tinha descido sobre a terra. Luz, glória, presença do céu na terra!
Pedro deseja perpetuar aquele momento. Propõe que sejam fincadas tendas para que o céu não deixe a terra! Os apóstolos entram na nuvem de Deus, na “nuvem” da presença do Altíssimo. Têm medo. Há um espanto. Nunca esquecerão esse momento. Quando nos aproximamos do Deus vivo temos que tirar as sandálias dos pés e pedir que um anjo nos purifique os lábios com uma brasa ardente. No meio de toda essa experiência há uma voz que vem do alto: “Este é o meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!” Somos cidadãos do mundo da claridade quando nos dispomos a escutar o Filho amado do Pai.  Paulo escreve aos filipenses: “Nós somos cidadãos do céu. De lá aguardamos o nosso salvador, o Senhor Jesus Cristo.  Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso  com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas”.
Esse Jesus que tem o corpo transfigurado transfigurará nosso corpo, nosso irmão corpo, por meio do qual encontramos a Deus e os irmãos. Esse corpo que não está fadado à destruição mas à glorificação. Os que participam do mistério pascal de Cristo, os que descem às trevas do túmulo e sobem ressuscitados com Cristo somos pessoas transfiguradas.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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Jesus transfigurado: perspectiva da vitória
O caminho de Jesus e a antecipação de seu termo em Jerusalém formam, dentro da teologia de Lc., o quadro de referência para a interpretação do evangelho de hoje. Um pouco antes de tomar resolutamente o caminho de Jerusalém (Lc. 9,51), Jesus, ”em oração” (em Lucas, Jesus é o modelo do orante), tem uma entrevista com Moisés e Elias, representantes da “Lei e dos Profetas”, precursores escatológicos (cf. Ml. 3,22-24). Eles falam com ele sobre o “êxodo” que ele há de “cumprir” em Jerusalém (Jesus repete a história do povo: cf. domingo passado). Este “êxodo” é a passagem para sua glorificação, como insinua 9,51 (“os dias de seu arrebatamento”). Jesus está para completar seu êxodo, o caminho que o Pai lhe planejou. O Pai está presente, na “nuvem” (como Deus no deserto). Com mais clareza do que nos sinais corriqueiros de Jesus, o Pai quer revelar aos discípulos que ele é seu Filho amado, a quem devemos obedecer, isto é, de quem nos devemos tomar discípulos e seguidores. No seu caminho para a glória, caminho que passa pela cruz (Jerusalém), Jesus é mostrado na forma “consumada”, gloriosa, para que os seus seguidores sejam confortados na fé e na confiança.
Deus dá sinais para que acreditemos. Contudo, estes sinais não são a plena visão, pois, se fossem, já não precisaríamos acreditar. Assim fez Deus também com Abraão. Este tinha assumido sua caminhada na obediência da fé (Gn. 12), mas não tinha descendência. Deus lhe jurou que lhe daria descendência, e Abraão acreditou, o que lhe foi imputado como justiça (15,6) (1ª leitura). O sinal da promessa é um sacrifício, mas o “trabalho” não é nada fácil: os urubus estão aparentemente mais interessados nas carnes recortadas do que Deus, e Abraão tem que esperar, cansado, o pôr-do-sol e a escuridão, para ver Deus passar como um fogo devorador entre os pedaços da vítima. Neste momento, Deus faz aliança com Abraão.
Aliança e promessa no caminho. Será necessário começar a caminhar, para ter esta experiência? O que transparece na glorificação de Cristo não é apenas a sua própria vitória em Jerusalém, mas o nosso destino final. Os apóstolos não entenderam isso; queriam construir no monte Tabor três tendas para permanecer com Jesus na sua glória. Ainda não sabiam que o caminho da ressurreição passava pela paixão (cf. Lc. 24,46). E também não sabiam que eles mesmos deveriam seguir este caminho até o fim, para chegar à sua vitória e consumação na glória. “Nossa pátria está no céu”, responde Paulo àqueles que se fixam em questões materiais, cujo deus é sua barriga (2ª leitura)! Nossa pátria está no céu: daí esperamos a nova vida de Cristo, para, com ele, sermos transfigurados na glória de seu corpo transformado. A linguagem de Paulo deixa transparecer uma polêmica com um conceito transviado da corporeidade. Não o corpo de nossa barriga ou vergonha, mas o corpo glorioso de Cristo, que com poder transforma o nosso: eis nosso destino, nossa honra.
Neste conjunto enquadra-se maravilhosamente o salmo responsorial: procurarei a face do Senhor (cf. canto da entrada). Porém, só o olho puro pode contemplar Deus (cf. Mt. 5,8; 6,22-23). Que Deus purifique “nosso olhar espiritual”, para que possamos contemplar sua glória (oração do dia): este é nosso grande pedido no momento em que somos convidados para, no meio do caminho, contemplar a destinação gloriosa e retomar com renovado ânimo a caminhada.
Teilhard de Chardin, sacerdote e paleontólogo, pretendia dirigir nosso olhar para a plenificação do Universo em Cristo (cf. Cl. 1,15-20). Os teólogos da práxis política nos despertam para as utopias socioeconômicas, para nos dar uma perspectiva de esperança e uma razão de fé. Tudo isso pode ser útil, assim como Deus quis dar um sinal a Abraão, e Jesus, uma intuição da glória a seus discípulos. Porém, não façamos disso aí nossas “três tendas”: são apenas visões para nos animar no caminho da fé que é esperança.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Transfiguração
Esta passagem da transfiguração de Jesus acontece no monte Tabor, com três de seus discípulos, uma semana depois de Ele anunciar aos apóstolos o que aconteceria ao chegar a Jerusalém, por ocasião da festa da Páscoa dos judeus, onde sofreria rejeição, dor, sofrimento, e morte.
O local do acontecimento é semelhante à experiência de Moisés com Deus no monte Sinai: o topo da montanha e a presença da nuvem.
Em todos os momentos importantes da vida de Jesus, Ele se apresenta rezando, em sinal de preparação para cumprir a missão que o Pai lhe confiou, o que acontece também no momento da Transfiguração, em que Ele estava rezando e, momentaneamente, se apresenta como na sua glória nos céus, e o seu rosto e as suas vestes tornam-se cheios de luz, representando a Ressurreição do Filho de Deus, que contrasta com o sofrimento e a humilhação do Filho do Homem na sua Paixão, momento em que derrama seu sangue como aliança entre Deus e os homens, pois assim é Jesus: divino e humano. Na nossa humanidade também somos chamados à transformação para chegarmos a glória de Deus, através do nosso próprio êxodo (caminhada de fé, caridade e amor). 
Moisés e Elias, importantes figuras do 1º Testamento (Antigo Testamento) e que haviam visto a glória de Deus sobre a montanha, aparecem conversando com Jesus sobre a morte e o sofrimento Dele. Uma nuvem, símbolo do Espírito Santo, aparece e os cobre, e se ouve uma voz do céu dizendo: ”Este é o Meu Filho, o Escolhido, ouvi-O.”
Moisés representa o legislador, aquele que leva as Leis até o povo, e Elias é o Profeta que denuncia o comportamento do povo, anunciando o seu futuro com base naquilo que estão vivendo no presente. Deus falou ao povo por meio deles.
Os discípulos que dormiam profundamente tal qual acontecerá na agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, na sexta-feira da Paixão, acordam, vêem a presença dos dois homens conversando, ouvem a voz dos céus, e se tornam testemunhas do que vai acontecer a Jesus.
A expressão ‘ouvi-O’ mostra a importância de ouvirem, darem atenção devida ao que Jesus vinha conversando com os apóstolos sobre a sua paixão, morte e ressurreição, além da importância da missão e compromisso daqueles que O seguem.
Segundo Santo Tomás de Aquino, ‘A Trindade inteira apareceu nesta passagem: o Pai, na voz; o Filho, no homem; o Espírito na nuvem clara.’
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santidade revelada
Os discípulos estavam longe de conhecer o Mestre, com quem partilhavam a vida e a missão. Nada de extraordinário havia em Jesus, que o distinguisse dos demais seres humanos. Com certeza, alguns traços de sua personalidade faziam dele uma pessoa especial. Contudo, nada que o fizesse impor-se às pessoas, obrigando-as a confessarem sua condição de Filho de Deus.
A transfiguração revelou aos três discípulos escolhidos o que, em Jesus, está além das aparências: sua santidade. Tudo, na cena, aponta para isto. Jesus transfigurou-se, enquanto estava em oração, em profunda intimidade com o Pai. Seu rosto assumiu uma nova fisionomia. A candura fulgurante de suas vestes, e tudo o mais, apontavam para a riqueza interior do Mestre. O ápice da experiência dá-se quando o Pai proclama-o com sendo seu Filho amado. Não resta lugar à dúvida: a humanidade de Jesus encobria sua santidade, que o colocava na esfera divina.
A proposta dos discípulos, encantados com o que viram, não convenceu a Jesus. Querer ficar no alto do monte, contemplando a glória do Mestre, não era um desejo viável. Era preciso descer a montanha e, com ele, caminhar até a cruz. Só então, para sempre, o fulgor de sua glória despontaria na ressurreição.
padre Jaldemir Vitório
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Promessa de Ressurreição
Esse relato da transfiguração está presente, com pequenas variantes, nos três primeiros evangelhos. O modelo para o relato de Lucas é o de Marcos. Do ponto de vista literário, o relato é uma prolepse dos acontecimentos de Jerusalém: "conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém" (v. 31), isto é, a paixão, morte e ressurreição.
Na montanha, lugar de encontro com Deus, Pedro, Tiago e João são admitidos na oração de Jesus e podem contemplar, na glória, Jesus juntamente com Moisés e Elias; ambos aparecem "revestidos de glória" (v. 31), o que sugere a promessa da ressurreição. O que faz com que o rosto de Jesus seja transfigurado, na sua oração, é que ele mantém a sua face voltada para o Pai. É a comunhão com o Pai que transfigura e revela o mistério do Filho. A visão da glória de Jesus (cf. v. 32) faz com que Pedro tome a iniciativa de fazer a proposta de construir três tendas (cf. v. 33). Mas a sua sugestão cai no vazio, pois é Deus que os envolve na nuvem, ou seja, os faz participar da intimidade divina. O medo que eles sentem corresponde à entrada na presença de Deus; eles sabem que ver  Deus é morrer (Jz. 6,23; 13,22; Ex. 33,20). Na verdade, diz o evangelista, Pedro "nem sabia o que estava dizendo" (v. 33). O que Pedro não compreende é que a verdadeira tenda, o lugar da presença de Deus, é Jesus. Aos discípulos cabe, então, descer da montanha e acompanhar Jesus na sua subida para Jerusalém.
O leitor do evangelho, prevenido pelo relato para não sucumbir ante o "escândalo" da paixão e morte de Jesus, é convidado a percorrer o mesmo caminho, encorajado pela antecipação da experiência pascal. A voz que sai da nuvem e interpreta o acontecimento (v. 35) retoma a voz por ocasião do batismo (3,22; Is 42,1); a diferença que dessa vez a declaração do Pai se abre aos discípulos: Jesus é um profeta poderoso em gestos e palavras - trata-se de escutá-lo. A transfiguração não se oferece à visão, mas à fé que faz ver. Pedro, Tiago e João foram testemunhas oculares (Lc. 1,1-4), mas "ficaram calados e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto" (v. 36). Será preciso esperar a realização de tudo o que foi sugerido pelo relato para, então, eles poderem, impulsionados pelo Espírito do Ressuscitado, dar o seu testemunho, pois será impossível deixar de falar sobre o que viram e ouviram (cf. At. 4,20).
Carlos Alberto Contieri,sj
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As leituras deste domingo convidam-nos a refletir sobre a nossa “transfiguração”, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.
A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente. Com Abraão, somos convidados a “acreditar”, isto é, a uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel às promessas.
A segunda leitura convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência e de triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.
O Evangelho apresenta-nos Jesus, o Filho amado do Pai, cujo êxodo (a morte na cruz) concretiza a nossa libertação. O projeto libertador de Deus em Jesus não se realiza através de esquemas de poder e de triunfo, mas através da entrega da vida e do amor que se dá até à morte. É esse o caminho que nos conduz, a nós também, à transfiguração em Homens Novos.
1ª leitura: Gn. 15,5-12.17-18 - AMBIENTE
A primeira leitura de hoje faz parte das chamadas “tradições patriarcais” (Gn. 12-36). São “tradições” que misturam “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nômades que circularam pela Palestina e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob – tinham os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. O deus aceite pelo grupo era o potencial concretizador desse ideal.
É neste “ambiente” que este texto nos coloca. Diante de Deus, Abraão lamenta-se (cf. Gn. 15,2-3) porque a sua vida está a chegar ao fim e o seu herdeiro será um servo – Eliezer (conhecemos contratos do séc. XV a. C. onde se estipula, em caso de falta de filhos, a adoção de escravos que, por sua vez, se comprometiam a dar ao seu senhor uma sepultura conveniente. Parece ser a esse costume que o texto alude). Qual será a resposta de Deus ao lamento de Abraão?
MENSAGEM
A primeira parte deste texto começa com Deus a responder a Abraão e a garantir-lhe uma descendência numerosa “como as estrelas do céu” (v. 5). Na sequência, o narrador deixa Abraão a contemplar em silêncio o céu estrelado e volta-se para o leitor, comunicando-lhe os seus próprios juízos teológicos (v. 6): Abraão acreditou em Jahwéh e, por isso, o Senhor considerou-o comojusto. A fé (usa-se o verbo “‘aman”, que significa “estar firme”, “ser leal”, “acreditar plenamente”) de que aqui se fala traduz uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios de Deus; a justiçaé um conceito relacional, que exprime um comportamento correto no que diz respeito a uma relação comunitária existente: aqui, significa o reconhecimento de que Abraão teve um comportamento correto na sua relação com Jahwéh, ao confiar totalmente em Deus e ao aceitar os seus planos sem qualquer dúvida ou discussão.
Há ainda o complemento habitual da promessa: a garantia de uma terra (v. 7). Os dois temas – descendência e posse da terra – andam associados, nestes casos.
A segunda parte do texto apresenta Deus a fazer os preparativos de um misterioso cerimonial. Trata-se de um rito de conclusão de uma aliança, conhecido sob esta ou outra forma semelhante em numerosos povos antigos: cortavam-se os animais em dois e colocavam-se as duas metades frente a frente; quem subscrevia a aliança passava entre as duas metades de animais e pronunciava contra si próprio uma espécie de maldição, para o caso de ser responsável pela quebra do pacto.
Seguindo o modo como entre os homens se garantia a máxima firmeza contratual, o catequista bíblico acentua a ideia de um compromisso solene e irrevogável que Deus assume com Abraão. A promessa de Deus fica assim totalmente garantida.
Repare-se, ainda, num outro pormenor: Deus não exigiu nada a Abraão, em troca, nem Abraão teve que passar no meio dos animais mortos (só Deus passou, no “fogo ardente”). A promessa de Deus a Abraão é, pois, totalmente gratuita e incondicional.
ATUALIZAÇÃO
Apesar da contínua reafirmação das promessas, Abraão está velho, sem filhos, sem a terra sonhada e a sua vida parece condenada ao fracasso. Seria natural que Abraão manifestasse o seu desapontamento e a sua frustração diante de Deus; no entanto, a resposta de Abraão é confiar totalmente em Deus, aceitar os seus projetos e pôr-se ao serviço dos desígnios de Jahwéh. É esta mesma confiança total que marca a minha relação com Deus? Estou sempre disposto – mesmo em situações que eu não compreendo – a entregar-me nas mãos de Deus e a confiar nos seus desígnios?
O Deus que se revela a Abraão é um Deus que se compromete com o homem e cujas promessas são garantidas, gratuitas e incondicionais. Diante disto, somos convidados a construir a nossa existência com serenidade e confiança, sabendo que no meio das tempestades que agitam a nossa vida Ele está lá, acompanhando-nos, amando-nos e sendo a rocha segura a que nos podemos agarrar quando tudo o resto falhou.
2ª leitura: Fl. 3,17 - 4,1 - AMBIENTE
Na prisão (em Éfeso?), Paulo agradece aos Filipenses a preocupação manifestada (eles até enviaram dinheiro e um membro da comunidade para ajudar Paulo no cativeiro), dá notícias, exorta-os à fidelidade e põe-nos de sobreaviso em relação aos falsos pregadores do Evangelho de Jesus. Estamos no ano 56/57, provavelmente.
O texto que nos é proposto como segunda leitura faz parte de um longo desenvolvimento (cf. Fl. 3,1 - 4,1), no qual Paulo avisa os Filipenses para que tenham cuidado com “os cães”, os “maus obreiros”, os “falsos circuncidados” (cf. Fl. 3,2).
Quem são estes, a quem Paulo se refere de uma forma tão pouco delicada? Muito provavelmente, são esses cristãos de origem judaica (”judaizantes”) que se consideravam os únicos perfeitos e detentores da verdade, que exigiam aos cristãos o cumprimento da Lei de Moisés e que, dessa forma, lançavam a confusão nas comunidades cristãs do mundo helênico. As duras palavras de Paulo resultam da sua revolta diante daqueles que, com a sua intolerância, com o seu orgulho e auto-suficiência, confundiam os cristãos e punham em causa o essencial da fé (o Evangelho não é o cumprimento de ritos externos, mas a adesão à proposta gratuita de salvação que Deus nos faz em Jesus).
MENSAGEM
Os Filipenses têm diante de si dois possíveis e muito diferentes exemplos a seguir.
Um é o de Paulo, que se considera um atleta de fundo, que já começou a sua corrida, mas tem consciência de que ainda não atingiu a meta; outro é o desses pregadores “judaizantes” que alardeiam participar já, de forma plena e definitiva, no triunfo de Cristo. Paulo recusa este triunfalismo e não duvida em pedir aos Filipenses que não imitem o exemplo de orgulho desses pregadores, mas o exemplo do próprio Paulo.
Aos Filipenses e a todos os cristãos, Paulo avisa que em nenhum caso devem considerar-se como atletas já vitoriosos e coroados de glória, mas como atletas em plena competição, esperando alcançar a meta e a vitória. A salvação não está consumada; encontra-se ainda em processo de gestação. É um processo em que o cristão vai amadurecendo progressivamente, sob o signo da cruz de Cristo.
Quanto a esses, “cujo deus é o ventre” (Paulo visa aqui, com alguma ironia, as observâncias alimentares dos “judaizantes”), que põem o “orgulho na sua vergonha” (sem dúvida, a circuncisão, sinal da pertença ao “povo eleito”) e “colocam o seu coração nas coisas terrenas” (alguns pensam que Paulo se refere, aqui, a certas práticas libertinas), esses esqueceram o essencial e estão condenados à perdição (v. 19).
O nosso destino definitivo, segundo Paulo, não é um corpo corruptível e mortal, mas um corpo transfigurado pela ressurreição. Como garantia de que será assim, temos Jesus Cristo, Senhor e Salvador.
ATUALIZAÇÃO
Neste tempo de transformação e renovação, somos convidados pela Palavra de Deus a ter consciência de que a nossa caminhada em direção ao Homem Novo não está concluída; trata-se de um processo construído dia a dia sob o signo da cruz, isto é, numa entrega total por amor que subverte os nossos esquemas egoístas e comodistas.
Considerar-se (como os “judaizantes” de que Paulo fala) como alguém que já atingiu a meta da perfeição pela prática de alguns ritos externos (as normas alimentares e a circuncisão, para os “judaizantes”, ou as práticas de jejum e abstinência, para os cristãos) é orgulho e auto-suficiência: significa que ainda não percebemos onde está o essencial – na mudança do coração. Só a transformação radical do coração nos conduzirá a essa vida nova, transfigurada pela ressurreição.
EVANGELHO: Lc. 9,28b-36 - AMBIENTE
Estamos no final da “etapa da Galileia”; durante essa etapa, Jesus anunciou a salvação aos pobres, proclamou a libertação aos cativos, fez os cegos recobrar a vista, mandou em liberdade os oprimidos, proclamou o tempo da graça do Senhor (cf. Lc. 4,16-30). À volta de Jesus já se formou esse grupo dos que acolheram a oferta da salvação (os discípulos). Testemunhas das palavras e dos gestos libertadores de Jesus, eles já descobriram que Jesus é o Messias de Deus (cf. Lc. 9,18-20). Também já ouviram dizer que o messianismo de Jesus passa pela cruz (cf. Lc. 9,21-22) e que os discípulos de Jesus devem seguir o mesmo caminho de amor e de entrega da vida (cf. Lc. 9,23-26); mas, antes de subirem a Jerusalém para testemunhar a erupção total da salvação, recebem a revelação do Pai que, no alto de um monte, atesta que Jesus é o Filho bem amado. Os acontecimentos que se aproximam ganham, assim, novo sentido.
Para o homem bíblico, o “monte” era o lugar sagrado por excelência: a meio caminho entre a terra e o céu, era o lugar ideal para o encontro do homem com o mundo divino.
É, portanto, no monte que Deus Se revela ao homem e lhe apresenta os seus projetos.
MENSAGEM
O relato da transfiguração de Jesus, mais do que uma crônica fotográfica de acontecimentos, é uma página de teologia; aí, apresenta-se uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que através da cruz concretiza um projeto de vida.
O episódio está cheio de referências ao Antigo Testamento. O “monte” situa-nos num contexto de revelação (é “no monte” que Deus Se revela e que faz aliança com o seu Povo); a “mudança” do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex. 34,29); a nuvem indica a presença de Deus conduzindo o seu Povo através do deserto (cf. Ex. 40,35; Nm. 9,18.22;10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt. 18,15-18; Mal. 3,22-23). Eles falam com Jesus sobre a sua “morte” (”exodon” – “partida”) que ia dar-se em Jerusalém. A palavra usada por Lucas situa-nos no contexto do “êxodo”: a morte próxima de Jesus é, pois, vista por Lucas como uma morte libertadora, que trará o Povo de Deus da terra da escravidão para a terra da liberdade.
A mensagem fundamental é, portanto, esta: Jesus é o Filho amado de Deus, através de quem o Pai oferece aos homens uma proposta de aliança e de libertação. O Antigo Testamento (Lei e profetas) e as figuras de Moisés e Elias apontam para Jesus e anunciam a salvação definitiva que, n’Ele, irá acontecer. Essa libertação definitiva dar-se-á na cruz, quando Jesus cumprir integralmente o seu destino de entrega, de dom, de amor total. É esse o “novo êxodo”, o dia da libertação definitiva do Povo de Deus.
E o “sono” dos discípulos e as “tendas”? O “sono” é simbólico: os discípulos “dormem” porque não querem entender que a “glória” do Messias tenha de passar pela experiência da cruz e da entrega da vida; a construção das “tendas” (alusão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas, no deserto?) parece significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, de festa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus.
ATUALIZAÇÃO
O fato fundamental deste episódio reside na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o plano salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de Si próprio por amor. É dessa forma que se realiza a nossa passagem da escravidão do egoísmo para a liberdade do amor. A “transfiguração” anuncia a vida nova que daí nasce, a ressurreição.
Os três discípulos que partilham a experiência da transfiguração recusam-se a aceitar que o triunfo do projeto libertador do Pai passe pelo sofrimento e pela cruz. Eles só concebem um Deus que Se manifesta no poder, nas honras, nos triunfos; e não entendem um Deus que Se manifesta no serviço, no amor que se dá. Qual é o caminho da Igreja de Jesus (e de cada um de nós, em particular): um caminho de busca de honras, de busca de influências, de promiscuidade com o poder, ou um caminho de serviço aos mais pobres, de luta pela justiça e pela verdade, de amor que se faz dom? É no amor e no dom da vida que buscamos a vida nova aqui anunciada?
Os discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem também não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, mas alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, a experiência de Jesus obriga a continuar a obra que Ele começou e a “regressar ao mundo” para fazer da vida um dom e uma entrega aos homens nossos irmãos. A religião não é um “ópio” que nos adormece, mas um compromisso com Deus que Se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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No segundo domingo da Quaresma tudo gira em torno da Transfiguração do Senhor (evangelho) que prepara os discípulos para enfrentar a morte d'Ele na cruz e compreender, mais tarde, a sua Páscoa de Ressurreição. Abraão também passa por uma profunda transfiguração: a escuta do que Deus lhe diz transforma sua vida e, pela fé, torna-se pai de um grande povo (1ª leitura). Paulo, por sua vez, fala-nos da transfiguração do nosso corpo (2ª leitura) num corpo glorioso, como o de Cristo ressuscitado, numa perspectiva de eternidade.
É um tema que está bem de acordo com o espírito da Quaresma porque o que nós procuramos neste tempo é a “transfiguração“ de nossa vida desfigurada numa existência luminosa e radiante. Será preciso, no entanto, subir ao monte Tabor da oração e entrar no mistério de Deus para poder enfrentar as dificuldades e contradições da vida.
1ª leitura: Gênesis 15,5-12.17-18
A santidade do ser humano (“justiça”, diz a Bíblia) consiste na sua entrega confiante a Deus, que garante cumprir o que promete mesmo que ainda nada possa ser verificado. Abrão pede um sinal e Deus lhe oferece a sua Aliança.
A “aliança” era um acordo em que ambos os lados se comprometiam entre si e era concluído com um rito, no qual os contraentes passavam entre animais sacrificados e divididos ao meio: quem violasse a aliança teria a mesma sorte que aqueles animais. Neste caso, somente Deus, como uma tocha de fogo, passa entre os animais. O compromisso é assumido por Deus de forma unilateral e Ele irá realizar o prometido.
Deus desafia Abrão com este rito de promessa e “Abrão acreditou em Javé, e isso lhe foi creditado como justiça”. Este é um dos fundamentos usados por Paulo para fundamentar a sua doutrina segundo a qual a justificação vem pela fé e não pelas obras realizadas de acordo com a Lei de Moisés, de forma que todos aqueles que acreditam são, pela fé, filhos de Abraão.
2ª leitura: Filipenses 3,17– 4.1
Paulo, que deixou tudo por causa da fé em Cristo, se apresenta como modelo para a comunidade de Filipos, alertando-a quanto a dois sistemas de vida totalmente contrapostos: viver fechado em si mesmo, procurando apenas a própria satisfação (“o deus deles é o ventre... e seus pensamentos... coisas da terra”) ou viver abertos à fé pela qual “esperamos ansiosamente o Senhor Jesus Cristo como Salvador”.
Os que agem conforme ao primeiro modelo são “inimigos da cruz de Cristo”. Nós, os que tentamos agir conforme o segundo modelo, sabemos que “a nossa cidadania... está lá no céu”. A vida cristã se orienta pelo testemunho de tantas pessoas irmanadas na esperança de um mundo novo que só se realizará com a vinda definitiva do Senhor Ressuscitado. Ele vai nos fazer partícipes de sua ressurreição porque “vai transformar nosso corpo..., tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso”. É isto que dá sentido à nossa perseverança.
Evangelho: Lucas 9, 28b -36
Lucas nos diz que Jesus subiu à montanha “para rezar” e “enquanto rezava, seu rosto mudou”. A oração sossegou seu espírito, dissipou toda sombra e o encheu de luz para perceber o seu caminho. Se lermos o Evangelho com atenção poderemos notar que, antes de um acontecimento importante, Jesus está sempre em oração.

Nesta ocasião, fazendo um alto no caminho para o Calvário, o Senhor se retira com Pedro, Tiago e João para orar na montanha, lugar simbólico do encontro com Deus, e por um momento deixa transparecer através de seu corpo a gloria de sua divindade (“seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”).
Na linguagem bíblica, “a glória de Jesus” significa o esplendor da transcendência ou a santidade de Deus, Isto quer dizer que aquilo que estava escondido desde a Encarnação do Senhor (o fato de no seu interior habitar a plenitude da divindade) veio à tona mostrando que Ele é a máxima revelação de Deus ao homem. É por isso que “estavam conversando com Jesus... Moisés e Elias”, os máximos representantes do Antigo Testamento (Moisés = a Lei e Elias = os profetas). É neste contexto que a voz do Pai («Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz!») vem confirmar a identidade de Jesus, convidando a humanidade toda a escutar a sua Palavra.
Tão forte foi essa experiência mística que, para os discípulos, a historia tinha chegado ao fim e só queriam eternizar esse momento («Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias») 9. Pedro e os discípulos estavam atordoados (“dormiam profundamente”...“Pedro não sabia o que estava dizendo”...“ficaram com medo”) só depois da Ressurreição compreenderam e souberam anunciar “a glória de Jesus” que tinham experimentado.
É assim que acontece conosco. Por enquanto será necessário superar a tentação de instalar-nos, como queria Pedro, em nossas pequenas “tendas” de “bons católicos” com muito de comodismo e falta de solidariedade... Não podemos ficar parados no seguimento de Jesus. Ele nos envia a prolongar a nossa experiência de Deus no compromisso com os irmãos. O encontro com Deus na oração tem que levar-nos ao encontro com os outros porque, no meio da escuridão, das frustrações e das crises, a luz de Cristo transfigurado precisa iluminar o sentido da vida humana.
Só uma vida transfigurada pela experiência de fé é capaz de fazer brotar a esperança. Isto faz parte da nossa missão!
Palavra de Deus na vida
A voz do alto: «Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz!» deve ter sido o momento forte da experiência mística que os discípulos Pedro, Tiago e João tiveram com Jesus lá no monte Tabor.
Hoje, diante daquela voz: «Este é o meu Filho... Escutem o que ele diz!» podemos perguntar-nos... o que significa escutar Jesus? É uma pergunta que todos nós e a própria Igreja, temos que responder porque questiona profundamente a nossa vida porque só escuta, de forma autêntica e sincera quem se deixa questionar pela Palavra do Senhor e se dispõe a agir de acordo com ela.
A resposta a esta pergunta é muito prática e não há como enganar-se. Será preciso saber se a nossa vida de cristãos está de acordo com a nossa fé e, portanto, estamos sendo sinceros e autênticos em praticar aquilo em que acreditamos. Isto é “escutar” Jesus. Do contrário, podemos estar apenas “ouvindo” sem “escutar” e corremos o risco de comportar-nos como “inimigos da cruz de Cristo”, como nos diz hoje São Paulo.
A Transfiguração do Senhor deve levar-nos a mostrar o seu rosto aos outros enquanto estivermos caminhando nesta vida em direção à Páscoa Eterna porque, se escutarmos mesmo a voz do Senhor dentro da realidade em que vivemos, vai acontecer que “refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor, que é Espírito” como escreve são Paulo na 2 Corintios 3,8. Quanto bem faz a pessoa que irradia paz e não semeia discórdias; que é alegre mesmo sofrendo dificuldades; que é prestativa, generosa, compreensiva, atenciosa... Quando um cristão age assim, deixa transparecer algo da glória do Senhor e os que convivem com ele o percebem.
A transfiguração do Senhor, enfim, é o modelo de nossa própria transfiguração (“Ele vai transformar nosso corpo..., tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso”) e a voz do Pai é o convite a percorrer o caminho de Jesus para que, tanto nós como o mundo em que vivemos, mudemos o rosto desfigurado pelo pecado e a roupa manchada pelo mal, brilhe de brancura como sinal de libertação.
Pensando bem...
+ Visto que a voz do Pai nos manda escutar Jesus será que a Palavra de Deus é nosso alimento de cada dia? Deixamo-nos questionar por ela quando nos corrige ou quando nos desafia oferecendo-nos novas pistas?
+ Às vezes a oração nos anima, como aos discípulos no monte Tabor, mas é bom não esquecer que toda oração deve partir da realidade e voltar para a realidade da vida, isso sim, transfigurados e transformados para dar testemunho do que “vimos e ouvimos”.
padre Ciriaco Madrigal
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Do rosto transfigurado aos rostos desfigurados
Contemplar o rosto ! Uma chave de leitura para o evangelho da Transfiguração e de outros textos bíblicos e litúrgicos deste Domingo é-nos oferecida pela antífona de entrada: “Procurai o seu rosto. O teu rosto eu procuro, ó  Senhor. Não escondais de mim o vosso rosto”. Uma resposta a esta súplica insistente chega do cimo de uma montanha, onde Jesus se transfigurou diante de três discípulos escolhidos: “o seu rosto mudou de aspecto e as suas vestes tornaram-se de um branco fulgurante” (v. 29). Os evangelistas insistem sobre o esplendor luminoso que manifesta exteriormente a identidade de Jesus; de fato, a luz é sinal do mundo de Deus, da alegria, da festa. Aqui, a luz não vem de fora, mas emana de dentro da pessoa de Jesus. Por isso mesmo Lucas sublinha o fato de que Jesus  “subiu ao monte para rezar, e enquanto rezava, o seu rosto mudou de aspecto” (v. 28-29). É da sua relação com o Pai que Jesus sai dinamicamente transformado: a plena identificação com o Pai resplende no seu rosto.
O caminho de transformação interior é o mesmo seja para Jesus seja para o apóstolo: a oração, vivida como escuta-diálogo de fé e de abandono humilde a Deus, tem a capacidade de transformar a vida do cristão e do missionário. De fato, a contemplação,  a oração é a experiência fundamental da missão. Essa foi também a experiência de Pedro, certo de não ter andado “atrás de fábulas artificiosamente inventadas”, tendo sido uma das “testemunhas oculares... quando estávamos com Ele na santa montanha” (2Pd. 1,16.18). No meio da confusão e do medo (v. 33.34), Pedro teria preferido evitar aquele misterioso “êxodo” – aquela partida que havia de ter lugar em Jerusalém – sobre qual Moisés e Elias falavam com Jesus (v. 31); ele bem gostaria de fazer parar o tempo durante aquela visão estupenda do Reino (v. 33), como se fosse uma perene “festa das tendas” (Zc. 14,16-18). Mais tarde, superada a crise dos dias da paixão, prevalecerá em Pedro e nos seus companheiros a experiência de intimidade com o Mestre, e a escuta do Filho predileto do Pai (v. 35). Assim, os apóstolos confirmaram a sua vocação e o seu compromisso por uma corajosa missão de anúncio, até ao martírio. “Escutai-O!” disse aquela voz do meio da nuvem (v. 36). O Papa Bento XVI comenta bem a atualidade desta ordem.
Pedro precisou de sair dos seus esquemas mentais – puramente humanos – para entrar no modo de pensar de Deus (Mt. 16,23). O mesmo acontece com Abraão (1ª leitura), de cuja vida este segundo Domingo da Quaresma nos apresenta um acontecimento emblemático (o chamamento, o filho Isaac, a aliança). A Abraão – velho, sem terra e sem filhos – Deus promete uma terra e uma descendência, mas pede-lhe, da sua parte, uma adesão total do coração, a fidelidade à aliança (v. 18). Abraão aprende que o fato de crer não é uma ação periférica, mas comporta uma real deslocação do baricentro da própria vida para Deus. É pela fé, como explica S. Paulo (II leitura), que temos a força de permanecer “fortes no Senhor” (v. 4,1) mesmo nas provas, e de não nos comportarmos “como inimigos da cruz de Cristo” (v.18), mas como amigos que O esperam “como salvador” (v.20).
O rosto transfigurado e fascinante de Jesus é um prelúdio da sua realidade post-pascal e definitiva; a mesma que nos é prometida também a nós. E nesta vocação à vida e à glória que se encontra o fundamento da dignidade de toda a pessoa humana, que de maneira nenhuma deve ser deturpada. Infelizmente, também hoje, em tantos países, encontramos o rosto de Jesus frequentemente desfigurado em tantos rostos humanos, como afirma o documento dos Bispos latino-americanos em Puebla (México, 1979): “Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire, na vida real, traços muito concretos , nos quais deveríamos reconhecer a semelhança de Cristo sofredor, do Senhor que nos interroga e nos interpela” (n. 31). E vem, em seguida, uma série de outras deturpações: o rosto de crianças doentes, abandonadas, exploradas; rostos de jovens desorientados e explorados; rostos de indígenas e de afro-americanos marginalizados; rostos de camponeses abandonados e explorados; rostos de operários mal pagos, desempregados, despedidos; rostos de anciãos marginalizados na sociedade familiar e civil (cfr Puebla 32-43). E a lista poderia continuar com as situações que cada um de nós conhece no seu próprio ambiente. São outros tantos apelos insistentes à consciência dos responsáveis das nações e aos missionários do Evangelho de Jesus.
padre Romeo Ballan
“Eis o dom e o compromisso para cada um de nós no período quaresmal: ouvir Cristo, como Maria. Ouvi-lo na sua Palavra, conservada na Sagrada Escritura. Ouvi-lo nos próprios acontecimentos da nossa vida, procurando ler neles as mensagens da Providência. Enfim, ouvi-lo nos irmãos, de maneira especial nos pequeninos e nos pobres, nos quais o próprio Jesus exige o nosso amor concreto. Ouvir Cristo e obedecer à sua voz: este é o principal objetivo, o única que conduz à plenitude da alegria e do amor” (Bento XVI - Angelus do 2º domingo de Quaresma - 12.3.2006)
1ª leitura: Gn. 15,5-12.17-18
O que nós temos neste texto? A aliança de Deus com Abraão. Deus fez uma promessa a Abraão. Abraão acredita. Esta fé lhe é creditada como justiça. O sinal de que Deus vai cumprir sua promessa é dado no rito da aliança.
A aliança e seu rito – a aliança é sempre bilateral, quer dizer, as duas pessoas envolvidas tinham que assumir o compromisso. O rito da aliança era concluído assim: dividiam alguns animais e colocavam as partes uma diante da outra. Os contraentes passavam no meio. Quem violasse o contrato teria a mesma sorte dos animais. Interessante no nosso texto é que é só o Senhor, através do símbolo do fogo, que passa entre os animais. Isto significa que Deus nunca será infiel à sua promessa de conceder vida e liberdade àqueles que nele confiam. Veja o texto forte de 2Tm. 2,13: “Se lhe somos infiéis, ele, no entanto, permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo”.
A promessa – Deus promete duas coisas que eram as aspirações mais profundas de Abraão e de todo o povo da Bíblia: descendência e terra.
Justiça e fé – “A justiça do homem consiste em acreditar nas promessas de Deus, mesmo quando as aparências e fatos indicam o contrário, mesmo quando se espera contra toda a esperança (Rm 4,18 – cf. todo o capítulo 18 da carta aos Hebreus). Em sua polêmica, a salvação pela fé e não pelas obras da Lei, Paulo cita essa passagem de Gn 15,5 em Rm 4,3-9. É bom ler todo o capítulo 4.
Cristo nos faz uma promessa de vida nova através da sua morte e ressurreição. Em quem acreditamos? Naquilo que fazemos ou naquilo que Deus fez por nós em Jesus Cristo?
2ª leitura: Fl. 3,17-4,1
A carta aos filipenses pode ser lida como se fosse a compilação de três cartas escritas em momentos distintos. A primeira 4,10-20: agradecimentos pelos auxílios recebidos na prisão. A segunda seria uma exortação à unidade e notícias pessoais: 1,1-3 + 4,2-7 + 4,21-23. A terceira seria um ataque a falsos doutores, inimigos da cruz de Cristo: 3,1b-4,1 + 4,8-9. Como vemos nosso trecho pertence à terceira carta. Ele nos apresenta de um lado os amigos da cruz de Cristo, onde Paulo é o modelo a ser imitado, do outro lado “os inimigos da cruz de Cristo”, um contra modelo a ser evitado. O interesse dos amigos da cruz de Cristo, os cristãos, está no céu. O interesse dos inimigos da cruz de Cristo está no ventre, etc.
Paulo – o modelo – Não se trata de um orgulho ou vaidade de Paulo. Aliás, os filipenses são convidados a observar não apenas Paulo, mas também os que vivem com a mesma coragem de fazer uma opção radical por Cristo (cf. 3,7-8; 1,21). No fundo, a preocupação de Paulo é ajudar os filipenses a distinguir os verdadeiros dos falsos líderes e se colocar como ponto de referência para os filipenses, diante do contratestemunho dos inimigos da cruz de Cristo. Onde está o interesse dos que são de Cristo? No céu, pois eles, mesmo atuando na terra, já são cidadãos do céu. A espera do retorno de Cristo é ansiosa, pois, com seu poder, ele vai transformar o nosso corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso. Eis a importância do respeito ao corpo, pois nosso corpo tem um destino glorioso.
Os judaizantes – o contra modelo – Os inimigos da cruz de Cristo são os judaizantes, são os que não acreditam no valor salvífico da cruz de Cristo. A salvação deles ainda está no fiel cumprimento da Lei antiga, levando a sério a distinção entre os alimentos puros e impuros (o deus deles é o estômago), vendo na circuncisão (o que é vergonhoso) o sinal da pertença ao povo de Deus e, portanto, sinal da salvação. Mas Paulo garante que o fim deles é a perdição, pois seus pensamentos estão nas coisas da terra, não nas coisas do céu (cf. Cl. 3,2).
Quem são hoje os inimigos da cruz de Cristo?
Evangelho: Lc. 9,28b-36
É o Evangelho da transfiguração, embora Lucas não use esta palavra, para seus leitores vindos do paganismo não confundirem o episódio com uma metamorfose das divindades pagãs. Lucas diz que o rosto de Jesus mudou de aparência.
Enquanto rezava, Jesus se transfigura. Jesus está sobre uma montanha para rezar e leva consigo Pedro, Tiago e João. A montanha é um lugar de oração a sós. O Jesus de Lucas está sempre rezando, principalmente antes de decisões importantes. A montanha relembra também o lugar de tentações de um projeto mundano. Mas Jesus vence o demônio e consolida o projeto divino de salvar os homens através da cruz. Durante a oração Jesus se transfigura.
Moisés, Elias e Jesus conversam sobre o seu êxodo
Moisés e Elias aparecem na glória e conversam com Jesus sobre seu êxodo em Jerusalém. Moisés representa a Lei; Elias representa os profetas. É que as promessas do Primeiro Testamento vão se realizar em Jesus. Para Lucas este v. 31 é o ponto alto do episódio. O que significa o êxodo de Jesus? A palavra relembra toda a caminhada da libertação do povo do Egito até à Terra Prometida. Jesus também quer libertar o povo oprimido. Isto ele vai fazer superando as tentações do comodismo, do egoísmo e triunfalismo e subindo para Jerusalém numa subida sem retorno, para lá enfrentar a morte e de lá continuar sua subida ou êxodo até à casa do Pai (cf. 9,51 que marca esta decisão de Jesus).
A atitude de Pedro, Tiago e João
Eles dormiam. Quando acordaram viram a glória de Jesus. Quando Moisés e Elias iam se afastando, Pedro sem saber o que estava dizendo, mas sentindo a paz das alturas, propõe fazer três tendas, querendo prolongar aquela cena. Ele não sabia que a transfiguração-ressurreição só acontece depois do Calvário. Nisto foram recobertos com a sombra de uma nuvem que representa a presença de Deus, daí o medo.
A voz de Deus
Da nuvem Deus declara: “Este é meu Filho, o escolhido, escutem o que ele diz”. Jesus é o Filho, superior aos servos Moisés e Elias. Só que ele vai assumir a missão de Servo de Adonai, o escolhido (cf. Is. 42,1) para a libertação-transfiguração do seu povo através da cruz. O Primeiro Testamento conduz a Jesus e se eclipsa com a sua chegada. A única voz autorizada agora é a dele. Diante desse mistério ainda incompreensível os discípulos se calam.
Como ajudar hoje na transfiguração do rosto tão desfigurado do nosso povo sofrido?
dom Emanuel Messias de Oliveira
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A Transfiguração: uma experiência intensa de Deus
“Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, os seus vestidos eram de uma brancura fulgurante”
As leituras deste II Domingo da Quaresma estão marcadas com simbolismos que são próprios de tempos longínquos, em que o religioso, o lendário, o mítico e o real se juntam na procura constante do sentido da vida, do futuro e daqueles maravilhosos aspectos que nos transcendem, que vão mais além do que vivemos e sentimos todos os dias.
1ª leitura: Gênesis 15, 5-18
Promessa e Aliança aos que acreditam em Deus
1. A leitura de hoje apresenta-nos Abraão a quem é dito para contar as estrelas do céu significando que todos os que confiarem em Deus serão o seu povo, a sua família. É isto o que se quer representar muito especialmente e é esse o sentido da “aliança” que Deus faz com ele. A narrativa é muito do estilo bíblico, recordando, inclusivamente, a revelação de Iavé no Êxodo, mas agora aplicada a Abraão, chamando-o na sua a terra, a Babilónia. Deus resolve o drama do pai do povo, prometendo-lhe uma aliança, e nela, um filho, porque essa aliança não pode perdurar senão de geração em geração. É um relato ancestral em alguns aspectos, mas actualizado com o tema do compromisso de Deus através do berit (aliança). A teologia impõe-se desde logo à narrativa, em todos os aspectos. A “intriga” do relato resolve-se na promessa; a angústia do pai crente encontra em Deus o que a vida de todos os dias não lhe oferece: um filho, um futuro, um nome de geração em geração.
2. Alguns elementos desta narrativa só podem ser do narrador crente, o eloísta, (ainda que os vv 5-6 sejam de tradição iavista a qual em Abraão ultrapassa uma experiência e um sentido religioso, muito posterior em Israel. Temos outro texto da aliança com Abraão no Génesis 17, (mas este relato é da tradição sacerdotal). Abraão não podia ser tão definidamente “monoteísta”, mas isso não quer dizer que o relato não tenha todos os ingredientes religiosos da Antiguidade para salientar que na vida o religioso conta muito. A fé tem a ver com o ser humano e com o mistério da vida e da descendência. Com as suas próprias forças, o homem não pode oferecer a si próprio um futuro. Abraão, desde a sua religião de deuses ou Deus familiar, fica apenas com as estrelas; é sinal de que Alguém conduz a nossa existência. Sob o símbolo do animal dividido, no rito ancestral, Deus passa no símbolo da brasa acesa.
3. Vemos, na nossa leitura, uma iniciativa exclusivamente divina: é aquilo a que chamou um compromisso “unilateral” de Deus, ainda que seja verdade que se espera a confiança (emunah) do pai do povo. A teologia da aliança, como sabemos, é determinante no povo bíblico e embora a primeira aliança seja a do Sinai, para selar a libertação do Egipto, não podia faltar um sinal que expressasse a aliança e o compromisso de Deus com o pai de um povo de crentes. Assim o verá, acertadamente, São Paulo na sua Carta aos Gálatas (Gl 3) quando considera que as promessas foram feitas a Abraão se cumprem quando todos os homens, judeus ou pagãos, puderem fazer parte desse povo, simplesmente pela sua fé em Deus, como Abraão.
2ª leitura: Filipenses 3,17-4,1
A Transfiguração de Paulo pela Cruz
1. A nossa leitura tem umas ressonâncias muito características: Paulo convida a comunidade a imitar os seus sentimentos e a não ser seguidora dos seus adversários que são inimigos da cruz de Cristo, porque é a cruz de Cristo, apesar do seu aparente fracasso, a único que nos garante uma vida verdadeira, uma vida que vai para lá da morte, e que nos fará cidadãos do céu. O Deus da cruz é o único que pode transformar a nossa história, os nossos anseios, os nossos fracassos, a nossa fragilidade num grito de liberdade e de vida, para além desta história, porque foi o único Deus que Se comprometeu com a humanidade.
Evangelho: Lucas 9, 28-36
A transfiguração a partir da oração
1. Onde é que nos leva o Evangelho de hoje? Se seguirmos o texto desde o início: subiu ao monte para rezar. Isto é muito característico de Lucas e sempre em momentos importantes da vida de Jesus. O monte não tem nome em nenhum dos evangelistas (cf. Mt. 17,1-9; Mc. 9,2-10). O evangelista Lucas, à sua maneira, quer mostrar-nos, por um pequeno instante, com os discípulos, que essa vida não está limitada por nada nem por ninguém. Quem escuta hoje, neste domingo da Quaresma esta passagem do Evangelho ficará surpreendido, porque não lhe será fácil entender tudo o que acontece. Mas devemos pensar que Lucas, pegando na tradição de Marcos, o primeiro evangelista que a assumiu de outros, sabe que na sua comunidade haverá dificuldades em entendê-la. De qualquer modo, desbastou um pouco a sua linguagem e a sua intenção catequética. A transfiguração é uma cena cheia de conteúdo simbólico. É como um alento que Deus concede a Jesus no seu caminho para Jerusalém, para a Paixão e morte, com o objectivo de, como que antecipadamente, conseguir alcançar a meta. Só a partir da oração é que é possível – pensa Lucas – vislumbrar o que sucede na alma de Jesus. Este colóquio que Jesus mantém com as duas personagens do Antigo Testamento, Moisés e Elias, representam a Lei e os Profetas e, com eles, inicia um diálogo em profundidade sobre a sua partida (êxodo), sobre o seu futuro, em definitivo, sobre a sua morte.
2. A transfiguração requer, portanto, uma preparação para a hora tão decisiva que espera Jesus. Os discípulos mais conhecidos acompanham Jesus neste momento, como sucederá também no relato de Getsemaní, no momento da Paixão, mas tanto ali como aqui, o verdadeiro protagonista é Jesus, porque é Ele que enfrenta as consequências da sua vida e do Evangelho que pregou. No entanto, os discípulos aqui são envolvidos numa experiência profunda, transcendente, que os faz evadirem-se de toda a realidade. Duas personagens, Moisés e Elias, que subiram, cada um em momentos diferentes ao Sinai para se encontrarem com Deus, são agora testemunhas desta experiência. A presença destes personagens “ornamentam” a cena, mas não a enchem. Na realidade, a cena está plena de conteúdo com a voz divina que proclama algo de extraordinário. Quem está ali é Alguém mais importante do que Moisés e Elias, que a Lei e os Profetas – o que já é dizer muito! Na verdade, a cena configura-se simplesmente com um “homem” que reza intensamente a Deus para que não Lhe faltem forças para o seu “êxodo”, na sua ida para Jerusalém. Tudo num monte que não tem nome e não é preciso procurá-lo, embora a tradição posterior lhe tenha chamado o Tabor.
3. Tudo aconteceu – segundo são Lucas – “enquanto orava”, o que é especialmente significativo. Estas coisas intensas, espirituais, transformadoras, só podem acontecer na outra dimensão humana. É a dimensão na qual se revela que, apesar de tudo, o Filho de Deus está ali. Os discípulos viveram algo intenso, algo que não esperavam (ainda que não se diga que estivessem a rezar e esta diferença deve ser tida em conta); mas Jesus, que tinha vivido esta experiência mais intensamente que eles, sabe, contudo, que tem de descer do monte misterioso da transfiguração para seguir o seu caminho, para Se aproximar dos necessitados, para dar de beber aos sedentos e de comer aos famintos da Palavra da vida. O seu “êxodo” não pode ser como Pedro e os seus discípulos que pretendiam ficar lá instalados. Fica muito por fazer, e deixar órfãos os homens que não tinham subido às alturas espirituais e misteriosas da transfiguração, seria como abandonar o seu caminho de profeta do Reino de Deus. Provavelmente, Jesus viveu e deu a viver aos seus experiências profundas; a da transfiguração que se descreve aqui pode ser uma delas, mas esteve sempre muito perto das realidades mais quotidianas. No entanto, isso valeu-lhe para ir descobrindo que, como profeta, tinha que chegar a dar a vida pelo Reino.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro
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A Igreja no mundo
Apóstolos e profetas ficaram cheios de alegria na ascensão à montanha.
A montanha tornou-se, assim, a imagem da Igreja e foi aí que Jesus unificou aí as duas Alianças de que a Igreja se tornou depositária. Ele mesmo nos deu a conhecer que é o dispensador das duas: a primeira Aliança para conter os seus mistérios; a outra para manifestar a glória das suas obras.
Simão diz: é bom ficarmos aqui; Senhor.
Que dizes, Simão? Se ficarmos aqui, quem realizará as promessas dos Profetas? Como é que se realizarão as palavras que Eu proferi? Como é que a Igreja será construída e como é que tu receberás as chaves do Reino dos céus?
Simão disse ainda: Façamos aqui três tendas, uma para Ti, outra para Moisés e uma para Elias.
Enviado para construir a Igreja no mundo, ei-lo que faz uma tenda na montanha! Simão contempla Jesus de uma maneira ainda humana e coloca-O ao lado de Moisés e de Elias. Mas Jesus mostra-lhe imediatamente que não precisa de tenda.
Autor anónimo sírio da antiguidade
Marie-dominique moliné, O.P.
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Chave de leitura
Poucos dias antes, Jesus anunciara que Ele, o Filho do Homem, devia ser rejeitado e crucificado pelas autoridades (Lc. 9,22; Mc. 8,31). Segundo a informação do Evangelho de Marcos e de Mateus, os discípulos, sobretudo Pedro, não entenderam o anúncio de Jesus e ficaram escandalizados com a notícia (Mt. 16,22; Mc 8,32). Jesus reagiu duramente e dirigiu-se a Pedro chamando-o Satanás (Mt. 16,23; Mc. 8,33). E isto aconteceu, porque as palavras de Jesus não correspondiam ao ideal de Messias glorioso que eles tinham na mente. Lucas não fala da reacção de Pedro e da resposta dura que Jesus lhe deu, mas relata, como fazem os outros, o episódio da Transfiguração, entendido por ele como uma ajuda dada por Jesus para que os discípulos pudessem superar o escândalo e mudar a ideia que tinham a respeito do Messias (Lc. 9,28-36). Levando consigo os três discípulos, Jesus sobe a uma montanha para rezar e, na oração, transfigura-se. No decurso da leitura do texto, é bom observar o que se segue: “Quem aparece na montanha para conversar com Jesus? Qual é o tema da conversa? Qual é a conduta dos discípulos?”.
Algumas perguntas
O que é que mais gostaste neste episódio da Transfiguração? Porquê?
Quem acompanha Jesus à montanha? Por que o fazem?
Moisés e Elias aparecem sobre a montanha junto a Jesus. Que significado têm estas personagens do Antigo Testamento, para Jesus, para os discípulos e para as comunidades dos anos oitenta? E para nós?
Qual é a profecia do Antigo Testamento que se realiza nas palavras do Pai referente a Jesus?
Neste episódio qual é a conduta dos discípulos?
Já tiveste alguma transfiguração na tua vida? Como te ajudou a experiência da transfiguração para assumir melhor a tua missão?
Compara a descrição de Lucas acerca da Transfiguração (Lc. 9,28-36) com a descrição que faz da Agonia de Jesus no Horto (Lc. 22,39-46). Procura ver se são semelhantes. Qual o significado dessa semelhança?
O contexto do discurso de Jesus
Nos dois capítulos precedentes do Evangelho de Lucas, impõe-se a novidade trazida por Jesus e crescem as tensões entre o Novo e o Antigo Testamento. Jesus dá-se conta de que ninguém compreendera a sua proposta e muito menos a sua pessoa. O povo pensava que fosse como João Baptista, Elias, ou qualquer dos Profetas (Lc. 9,18-19). Os discípulos aceitavam-no como Messias, mas como um Messias glorioso, segundo a propaganda do governo e da religião oficial do Templo (Lc. 9,20-21). Jesus procurou explicar aos discípulos que o caminho previsto pelos profetas era um caminho de sofrimento, pelo papel assumido em favor dos desfavorecidos, e o discípulo só poderia ser discípulo se também ele tomasse a sua cruz (Lc. 9,22-26). Mas não teve muito êxito. É no contexto de crise que acontece a Transfiguração. Nos anos trinta a experiência da Transfiguração teve um significado muito importante na vida de Jesus e dos discípulos, visto tê-los ajudado a superar a crise de fé e a mudar de idéias acerca do Messias. Nos anos oitenta, época em que Lucas escreve para as comunidades cristãs da Grécia, o significado da Transfiguração intensificou-se e propagou-se. À luz da Ressurreição de Jesus e da expansão da Boa Nova entre os pagãos em quase todos os países, desde a Palestina até à Itália, a experiência da Transfiguração começava a ser vista como uma confirmação das comunidades cristãs em Jesus, Filho de Deus. Os dois significados estão presentes na descrição e interpretação da Transfiguração no Evangelho de Lucas.
Comentário do texto
Lucas 9,28
O momento de crise. Várias vezes Jesus teve conflitos com o povo e as autoridades religiosas e civis da época (Lc. 4,28-29; 5,20-21; 6,2-11; 7,30-39; 8,37; 9,9). Ele sabia que não lhe permitiam fazer o que estava a fazer. Mais cedo ou mais tarde prendê-lo-iam. Além disso, naquela sociedade, o anúncio do Reino, como Jesus o fazia, não era tolerado. Ou fazia marcha-atrás, ou esperava-o a morte! Não havia outra alternativa. Mas Jesus não retrocede. Por isso, no horizonte aparece a cruz, já não como possibilidade, mas como certeza (Lc. 9,22). Junto à cruz aparece a tentação de continuar o caminho do Messias glorioso e não o do Servo sofredor e crucificado, anunciado pelo profeta Isaías (Mc. 8,32-33). Nesta hora difícil, Jesus sobe à montanha para orar, levando consigo Pedro, Tiago e João. Na oração encontra força para não se desviar da sua missão (cf. Mc. 1,35).

Lucas 9,29
A mudança que acontece durante a oração. Apenas Jesus ora, o seu aspecto muda e aparece glorioso. O seu rosto muda de aspecto e o seu vestido aparece branco e refulgente. É a glória que os discípulos imaginavam para o Messias. Esta mudança de aspecto mostra-lhes que Jesus, na verdade, era o Messias que todos esperavam. Mas o que se segue ao acontecimento da Transfiguração indicará que o caminho para a glória é muito diferente daquele que eles imaginavam. A Transfiguração será um apela à conversão.

Lucas 9,30-31
Aparecem dois homens que falam com Jesus. Junto a Jesus, na mesma glória, aparecem Moisés e Elias. Falam com Jesus acerca do “êxodo” que deveria realizar em Jerusalém. Assim, diante dos discípulos, a Lei e os Profetas confirmam que Jesus é verdadeiramente o Messias glorioso, prometido no Antigo Testamento e esperado por todo o povo. Além disso, confirmam que o caminho para a glória passa pela via dolorosa do êxodo. O “êxodo” de Jesus é a sua Paixão, Morte e Ressurreição. Por meio do seu “êxodo”, Jesus rompe o domínio da falsa idéia divulgada, quer pelo governo quer pela religião oficial, que a todos mantinha prisioneiros da visão de um Messias glorioso e nacionalista. A experiência da Transfiguração confirmava que Jesus com a sua opção de Messias-Servo era uma ajuda para libertar os discípulos das falsas idéias acerca do Messias, e também uma ajuda para que descobrissem o novo significado do Reino de Deus.

Lucas 9, 32-34
A reação dos discípulos. Os discípulos estavam a cair de sono. Quando despertaram, puderam ver a glória de Jesus e os dois homens que falavam com ele. Mas a reação de Pedro indica que não se deram conta da glória com que Jesus apareceu diante deles. Como acontece conosco tantas vezes, só nos damos conta do que nos interessa. O resto escapa à nossa atenção. “Mestre, é bom estarmos aqui”. Já não queremos descer da montanha! Quando se fala da cruz, tanto no monte da Transfiguração como no Jardim das Oliveiras (Lc 22, 45), os discípulos dormem. Gostam mais da glória do que da cruz! Não lhes agrada ouvir falar da cruz. Desejam assegurar o momento da glória do monte e oferecem-se para construir três tendas. Pedro não sabia o que dizia. Enquanto Pedro fala, uma nuvem desce do alto e envolve-os com a sua sombra. Lucas diz-nos que os discípulos tiveram medo quando a nuvem os envolveu. A nuvem é símbolo da presença de Deus. A nuvem acompanhou a multidão dos israelitas no seu caminho pelo deserto (Ex. 40,34-38; Nm. 10,11-12). Quando Jesus subiu ao céu, foi coberto por uma nuvem e não o viram mais (At. 1,9). Um sinal de que Jesus entrara para sempre no mundo de Deus.

Lucas 9,35-36
A voz do Pai. Uma voz faz-se ouvir da nuvem e diz: “Este é o meu Filho predileto. Escutai-o”. Com esta mesma frase o profeta Isaías anunciara o Messias-Servo (Is. 42,1). Depois de Moisés e Elias, agora é o próprio Deus quem apresenta Jesus como Messias-Servo, que alcançará a glória através da cruz. E deixa-nos uma advertência final: “Escutai-o!”. No momento em que a voz celeste se faz ouvir, Moisés e Elias desaparecem e Jesus fica sozinho. Isto significa  que de agora em diante é só Ele quem interpreta as Escrituras e a Vontade de Deus. Ele é a Palavra de Deus dirigida aos discípulos: “Escutai-o!”.
A afirmação “Este é o meu Filho predileto. Escutai-o” era muito importante para as comunidades cristãs dos finais dos anos oitenta. Por meio desta afirmação, Deus Pai confirmava a fé dos cristãos em Jesus como Filho de Deus. No tempo de Jesus, ou seja, por volta dos anos trinta, a expressão Filho do Homem indicava uma dignidade e uma missão muito elevada. O próprio Jesus relativizaria o termo e dizia que todos são filhos de Deus (cf. Jo 10,33-35). Mas pouco a pouco o título Filho de Deus converteu-se no resumo de todos os títulos, mais de cem, que os primeiros cristãos deram a Jesus na segunda metade do século primeiro. Nos séculos seguintes, foi no título Filho de Deus que a Igreja concentrou toda a sua fé na pessoa de Jesus.
Mais aprofundamento
A Transfiguração é narrada nos evangelhos de Mateus (Mt. 17,1-9), Marcos (Mc. 9,2-8) e Lucas (Lc 9,28-36). Isto indicava que este episódio continha uma mensagem muito importante. Como dissemos, tratou-se de uma ajuda muito grande para Jesus, para os seus discípulos e para as primeiras comunidades cristãs. Confirmou Jesus na missão de Messias-Servo. Ajudou os discípulos a superarem a crise que a cruz e o sofrimento lhes causavam. Levava as comunidades a aprofundarem a sua fé em Jesus, Filho de Deus, Aquele que revelou o Pai e que se converteu na nova chave interpretativa da Lei e dos Profetas. Ainda hoje a Transfiguração continua a ser uma ajuda para ultrapassar as crises que o sofrimento e a cruz nos causam. A voz do Pai dirige-se aos discípulos e a nós: “Este é o meu Filho predileto. Escutai-o!”.
No Evangelho de Lucas há uma semelhança muito grande entre a Transfiguração (Lc. 9,28-36) e a cena da Agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras (Lc. 22,39-46). Pode-se perceber o seguinte: nos dois episódios, Jesus sobe a uma montanha para orar e leva consigo três dos seus discípulos: Pedro, Tiago e João. Nas duas ocasiões, Jesus muda de aspecto e transfigura-se diante deles: glorioso na Transfiguração, suando sangue no Jardim das Oliveiras. Nas duas vezes aparecem figuras celestiais para o confortar: Moisés e Elias e um anjo do céu. Tanto na Transfiguração como na Agonia no Jardim das Oliveiras, os discípulos dormem, estão alheados do que está a acontecer e parece que não entendem nada. No fim dos dois episódios, Jesus reúne-se de novo aos seus discípulos. Sem dúvida alguma, Lucas teve a intenção de realçar a semelhança entre estes dois episódios. Qual é? Meditando e rezando chegaremos a entender o significado que ultrapassa as palavras e a perceber a intenção do evangelista. O Espírito Santo ajudar-nos-à.
Há momentos na vida em que o sofrimento é tão grande que uma pessoa chega a pensar: Deus abandonou-me! E de improviso ela descobre que Ele jamais se afastou, mas que a pessoa tinha os olhos fechados e não se dava conta da presença de Deus. Então tudo muda e se transfigura. É a Transfiguração! Acontece cada dia na nossa vida.
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Deus se faz nosso aliado
Neste Domingo reflitamos sobre nossa transfiguração. Pensemos na conversão a Deus. Ele prometeu a Abraão descendência numerosa como as estrelas. Abraão nos convida a acreditar. Precisamos dessa confiança, sem ela nossa vida não caminha.
Deus é fiel às suas promessas. Nossa existência precisa ser serena e confiante. Em qualquer perigo Deus está conosco. Ele não nos abandona.
Na segunda leitura, os Filipenses têm dois exemplos a seguir. Um é o de Paulo. Ele já começou a sua corrida. Mas falta atingir a meta. Garante já participar do triunfo de Cristo. Paulo pede aos Filipenses que sigam o seu exemplo. Outro é dos pregadores judaizantes, que diziam participar de forma plena e definitiva no triunfo de Cristo.
Ninguém, aqui, nesta terra é perfeito. Precisamos, cada dia, mudar nosso coração.
Chegaremos, assim, no final, à ressurreição.
A Transfiguração de Jesus nos mostra que a cruz oferece aliança e libertação.
Os discípulos, testemunhas da Transfiguração, não querem descer do Tabor. Lá não existe problema. Mas Jesus adverte-os para voltar. A vida é dom de entrega aos irmãos.
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"Transfiguração de Jesus!”
Esse relato da transfiguração está presente, com pequenas variantes, nos três primeiros evangelhos. O modelo para o relato de Lucas é o de Marcos. Do ponto de vista literário, o relato é uma prolepse dos acontecimentos de Jerusalém: ". conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém" (v. 31), isto é, a paixão, morte e ressurreição. Na montanha, lugar de encontro com Deus, Pedro, Tiago e João são admitidos na oração de Jesus e podem contemplar, na glória, Jesus juntamente com Moisés e Elias; ambos aparecem "revestidos de glória" (v. 31), o que sugere a promessa da ressurreição. O que faz com que o rosto de Jesus seja transfigurado, na sua oração, é que ele mantém a sua face voltada para o Pai. É a comunhão com o Pai que transfigura e revela o mistério do Filho. A visão da glória de Jesus (cf. v. 32) faz com que Pedro tome a iniciativa de fazer a proposta de construir três tendas (cf. v. 33). Mas a sua sugestão cai no vazio, pois é Deus que os envolve na nuvem, ou seja, os faz participar da intimidade divina. O medo que eles sentem corresponde à entrada na presença de Deus; eles sabem que ver Deus é morrer (Jz 6,23; 13,22; Ex 33,20)
Na verdade, diz o evangelista, Pedro "nem sabia o que estava dizendo" (v. 33). O que Pedro não compreende é que a verdadeira tenda, o lugar da presença de Deus, é Jesus. Aos discípulos cabe, então, descer da montanha e acompanhar Jesus na sua subida para Jerusalém. O leitor do evangelho, prevenido pelo relato para não sucumbir ante o "escândalo" da paixão e morte de Jesus, é convidado a percorrer o mesmo caminho, encorajado pela antecipação da experiência pascal. A voz que sai da nuvem e interpreta o acontecimento (v. 35) retoma a voz por ocasião do batismo (3,22; Is 42,1); a diferença que dessa vez a declaração do Pai se abre aos discípulos: Jesus é um profeta poderoso em gestos e palavras - trata-se de escutá-lo.
A transfiguração não se oferece à visão, mas à fé que faz ver. Pedro, Tiago e João foram testemunhas oculares (Lc 1,1-4), mas "ficaram calados e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto" (v. 36). Será preciso esperar a realização de tudo o que foi sugerido pelo relato para, então, eles poderem, impulsionados pelo Espírito do Ressuscitado, dar o seu testemunho, pois será impossível deixar de falar sobre o que viram e ouviram (cf. At. 4,20).
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Subiu ao monte para orar
Diz-nos o Evangelho de são Lucas: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu ao monte para orar”. Como é profunda esta expressão e como é significativo o comportamento de Jesus que se retira frequentemente para o monte a rezar, arrastando consigo os seus amigos a fim de os associar ao seu caminho. É o seu e o nosso caminho interior que vai da Galileia a Jerusalém. Jesus não gosta de caminhar sozinho, não é um herói solitário. Liga o seu destino a um grupo de pessoas frágeis e limitadas que ele quer transformar. É o encontro com Deus que transforma a vida.
Contemplar - “O aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de um brancura refulgente”. Jesus transfigura-se durante a oração. A oração verdadeira muda as pessoas. Contemplar transforma a pessoa. O homem torna-se naquilo que contempla com os olhos do coração. Torna-se naquilo que ama e naquilo que reza. Deus, que é luz imensa, derrama-a continuamente sobre nós na sua Palavra, no Pão e no Vinho, no seu Amor.
Sobe também tu ao monte Tabor nesta quaresma, pondo de lado as tuas coisas, os teus afazeres, para te ocupares daquilo que é essencial na tua vida: o encontro com Deus. O que deverias fazer na normalidade da tua vida fá-lo sobretudo agora, neste tempo favorável que o Senhor te oferece para conheceres melhor os seus dons.
Pede-nos são Anselmo, um grande filósofo e teólogo do séc. XII: “Deixa um momento as tuas ocupações habituais, ó homem; entra um instante em ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te apoquentam e liberta-te agora das inquietações que te absorvem. Entrega-te uns momentos a Deus. Descansa por algum tempo na sua presença. Entra no íntimo da tua alma. Remove tudo, exceto Deus e o que te possa ajudar a procurá-lo. Encerra as portas da tua habitação e procura-o no silêncio”.
A Transfiguração é a meta do teu peregrinar quaresmal. Os gestos de conversão e de solidariedade, de renúncia ou de jejum, que realizares durante este tempo, servirão para te tornares mais livre a fim de contemplares a claridade do Mestre que te chama mais para o alto. Lembra-te de que o cristianismo, mais do que religião da penitência ou da mortificação, é sobretudo a religião do Tabor que nos permite subir com Jesus até ao Gólgota, onde se transfigura e fecunda a nossa dor. Sobe para o alto e Deus te iluminará.
Escutar - Contemplar e escutar. Escutar é o segundo verbo desta cena do Evangelho. “Este é meu Filho muito amado, escutai-o”. Quem escuta Jesus torna-se como ele. Escutá-lo quer dizer ser transformados por ele. A sua Palavra chama, faz existir, cura, muda o coração, faz florescer a vida, dá beleza e ilumina a nossa noite. A fé judaico-cristã, antes de ser a fé da visão, é a fé da escuta. Escutar é uma palavra-chave na Escritura: encontramo-la 1.100 vezes no Antigo Testamento e 445 no Novo. É procurar e acolher a luz de Deus para os nossos problemas pessoais ou comunitários para os aprendermos a gerir à luz da sua vontade. É interpelar a Deus sobre os nossos deveres e sobre os seus planos a nosso respeito. “Fala, Senhor, que o teu servo escuta!”.
Como é bom, Senhor, estarmos aqui!... - É bom, mas não suficiente. Os Apóstolos são convidados por Jesus a descer do monte. O que viram, contemplaram e assimilaram não é para consumo próprio, mas deve ser testemunhado aos outros através das obras de evangelização e de caridade efetiva, escutando o grito dos irmãos. Se o mundo pagão ou descrente se impressiona com o nosso rosto transfigurado, fala mais alto o testemunho da nossa vida. As pessoas não ligam tanto ao modo como ouvimos a Deus, mas como ouvimos e socorremos os nossos irmãos. Oração é indissociável da missão. É bem verdade que, como dizia o grande teólogo Bonhoeffer, “uma pessoa que não é capaz de entrar em solidão com Deus, não é capaz de comunhão com os irmãos”. E vice-versa: “Quem não é capaz de fazer comunhão com os outros não é capaz de solidão com Deus”. Quanto mais rezarmos, mais sentido de Igreja teremos. Mais nos tornaremos corpo de Cristo que reza em nós pelo mundo inteiro. Quanto mais me alimentar de Cristo na contemplação, mais vontade hei-de ter de comunhão com os outros, distribuindo os seus sentimentos de amor, de perdão, de mansidão e de misericórdia. A oração conduz sempre à vida, mas de um modo renovado. É para a vida ordinária de cada dia que somos convidados a levar a luz, a graça, a força do encontro que tivemos com o Senhor. Da contemplação à comunhão.
Darci Vilarinho
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Um comentário:

  1. Amo as homilias de Dom Henrique Soares, elas me são de grande utilidade quando tenho que partilhar com os irmãos a palavra nos domingos!

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