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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 7 de março de 2013

Comentário Prof.Fernando


Comentário Prof.Fernando(*) 4ºdom/de4 em prep.p/PÁSCOA       10março2013
http://homiliadominical2.blogspot.com.br                                    – um homem tinha dois filhos –
Josué 5,9-12   Salmo 34   2Coríntios 5,17-21   Lucas 15,1-3.11-32
Hoje tirei a desonra de cima de vós. Não mais tiveram o maná mas comeram dos frutos da terra.
O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo. Deus por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação (somos embaixadores dele). Aquele que não cometeu pecado Deus o fez pecado por nós para que nele nos tornemos justiça de Deus.
os mestres da Lei criticavam: Ele acolhe os pecadores e faz refeição com eles. Contou-lhes esta parábola: Um homem tinha dois filhos (...) Quando ainda estava longe seu pai o avistou e sentiu compaixão, correu-lhe ao encontro abraçou-o e cobriu-o de beijos (,,,) Vamos fazer um banquete. O filho mais velho (...) ficou com raiva e não queria entrar. O pai insistia com ele (...) Então o pai lhe disse: Filho tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu.É preciso festejar e alegrar-nos porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado.

Hebreus, Jesus e os cristãos: a Páscoa é passagem para a terra da liberdade
·                     O 1º texto refere-se à liberdade conquistada na primeira parte da posse da terra prometida. Até ali não faltou o pão de cada dia em forma de um alimento misterioso (o Maná) capaz de dar força para o caminhante. Os frutos estão na posse da terra prometida. O texto da 2ª carta aos coríntios também fala de dois momentos. O passado é “velho”, agora chegou o que é “novo”. O contexto da é a autodefesa de Paulo, acusado por opositores na comunidade. Ele volta ao centro de sua pregação: a reconciliação é proposta universal e não é limitada em fronteiras de raça, cultura, ou tradição religiosa. A todos é oferecida.
·                     A mesma tensão existe no embate da mentalidade escravizada por tradições humanas frente ao anúncio original do “novo” da Boa-Notícia (evangelho). Lucas, sobretudo no cap. 15 mostra a hipocrisia social, política e religiosa própria dos fariseus, escribas e outros dirigentes do povo e, por outro lado, o comportamento do Mestre de Nazaré, capaz de romper tradições e costumes antigos, quando discriminam e afastam os “excluídos”.

Da religião que divide à experiência do reencontrar dignidade
·                     Para a cultura antiga participar da mesma mesa significava muito mais do que hoje o estar juntos na mesma refeição. Era um sinal forte de amizade e intimidade. As atitudes do Mestre entram em choque com o mundo “certinho” dos donos da Lei que manipulavam a religião e o povo. Jesus almoça com todas as pessoas e se aproxima principalmente dos mais doentes e excluídos, como se vê nas narrativas de milagres. A divisão era provocada pelos líderes que não queriam “gente de bem” contaminada por “pecadores”, termo que designava vários grupos como: funcionários do fisco, leprosos, prostitutas, aleijados e deficientes, sobretudo mentais, e, em geral, pobres e pessoas comuns. Elas nem chegavam a conhecer nem podiam praticar (cf Lc11,46: sobrecarregais com fardos superiores às suas forças, mas nem vós mesmos os tocais) as mais de 600 leis e regras criadas depois de Moisés. Eram pessoas que praticamente viviam na chamada “impureza legal” e que, portanto, podiam “contaminar” outros. Tal era o contexto no qual Lucas traz as 3 “parábolas da misericórdia”: moeda perdida, ovelha perdida e o filho perdido. E reencontros.

A quem é dirigida a parábola
·                     É um pensamento espontâneo dizer que a parábola é destinada aos “perdidos”, isto é, aos “pecadores”. Mas a história não termina com a volta arrependida do filho que saiu da casa paterna, entre ofensas ao pai e na arrogância que lhe valeu desperdiçar a vida. Texto e contexto mostram que Jesus conta as três parábolas para criticar seus interlocutores e inimigos fariseus e escribas. Esses “faziam teologia” para ter “pureza religiosa” e manter à distância, inclusive física, os “pecadores” na sociedade, gente pobre e humilhada. Os “excluídos”, ao contrário, “faziam experiência” – abraçados pelas atitudes do Mestre – da “inclusão”, vindo a conhecer a ternura do Pai. Acolhidos como pessoas, conheciam o significado do perdão e a reconciliação, participando da intimidade da mesa na casa do Pai. Não criaram “doutrinas” contra as dos Doutores da Lei: perceberam e vivenciaram o sentido da vida no contato direto com o Filho de Deus que sentava à mesa com eles. O Mestre os abraçava e envolvia. Era o encontro da festa da parábola: entre comer e beber, com direito à música e dança da alegria e da amizade.

Aprendendo com os não crentes
·                     Os agnósticos, os não crentes em geral, e até muitos auto-intitulados ateus (além de não crer, acusam religiões de obstáculo ao moderno), às vezes estão no grupo dos rejeitados pelos próprios cristãos, ou católicos e protestantes ou pentecostais e ortodoxos. Tem sido dado a Ratzinger um título (um pouco simplista) de “conservador” (cf. mídia e alguns círculos eclesiais), Como Bento XVI lutou contra a pedofilia e a corrupção instaladas também “dentro do templo”. A expulsão dos vendilhões do templo foi lembrada por ele ao promover a criação (2011) do “Pátio dos gentios” – um espaço aberto a crentes e não crentes para diálogo franco onde todos possam expor as próprias convicções. Essa idéia foi anunciada em 2009 no discurso de 21 de dezembro e é resumida a seguir:
·                      (...) a palavra de Jesus cita Isaías: o templo deveria ser uma casa de oração para todos os povos (cf.Is56,7eMc11,17). Ele pensava no chamado “Pátio dos gentios” (era dali que acabava de expulsar negócios externos de modo a ficar o espaço livre para os gentios que ali queriam orar ao único Deus. (...) Espaço de oração para todos os povos: Jesus pensava em pessoas que conhecem Deus, por assim dizer, só de longe, estão insatisfeitas com os seus deuses, ritos e mitos e desejam o Puro e o Grande, mesmo se Deus permanece para eles o "Deus desconhecido" (cf.At17,23). Também elas deviam poder orar ao Deus desconhecido (...). Penso que a Igreja deveria também abrir uma espécie de "átrio dos gentios", onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus sem o conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja. Ao diálogo com as religiões deve acrescentar-se hoje sobretudo o diálogo com aquelas pessoas para quem a religião é uma realidade estranha, para quem Deus é desconhecido, mas que têm vontade não de permanecer simplesmente sem Deus, mas dele aproximar-se pelo menos como Desconhecido.
·                     O “Pátio dos gentios” tem promovido encontros entre crentes (em geral, cristãos) e não crentes (gentios) na Europa. Ainda não apresenta reflexos em outras regiões. Por outro lado, a parábola nos leva a considerar que – mais do que explicações e doutrinas (vale também para intelectuais e outros que participam do Pátio dos Gentios) – qualquer pessoa deseja conhecer átrios e todos os cômodos da Casa comum. Em outras palavras, os “gentios” precisam ver nos cristãos (ou em outras religiões) o testemunho do amor e a experiência da alegria.

Um homem tinha dois filhos...
·                     Cristãos não estão isentos da crítica dirigida aos escribas, fariseus e aos vendilhões do templo. Há sempre um “irmão mais velho” que prefere justiça à misericordiosa e descomunal bondade Pai. Esperemos não fazer o papel do “irmão mais velho”. Mas quem é o filho perdido? É justo entender que é o pecador que se arrepende. Entretanto há muitas formas de estar “perdido”. Como acima foi exemplificado sobre os “gentios” (não crentes), o ser humano atual vive na angústia (já bem o lembraram filósofos contemporâneos) procurando o sentido da vida. Nosso mundo é pluralista não sendo mais “conduzido” pela mão da cristandade.
·                     Perdida talvez esteja a própria humanidade perplexa, pois não vê como acabar com a corrupção, essa epidemia no interior da nações que, no plano mundial cria guerras e fome, porque há uma corrida pelo poder sobre a água e a produção de alimentos, sobre a riqueza produzida não só pelo trabalho mas também pelo tráfico de armas, drogas, órgãos, pessoas...
·                     Finalmente, o “filho pródigo” é o próprio Cristo. Na parábola, o filho egocêntrico afasta-se do pai para o consumista voraz de todos os bens da terra. Na Encarnação, é o Filho que se “afasta” do Pai (Paulo diz: esvaziou-se a si mesmo assumindo a forma de escravo; Filipenses 2). Um “exílio” motivado pelo Amor. Está longe do Pai na escuridão daquele grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Paulo usa uma expressão forte: “aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado, para nele sermos a justiça de Deus”.
·                     Cristo assumiu caminhar como o fazem todos os seres humanos, para que pudessem reencontrar o caminho da casa paterna. Lucas usa termos carregados com o sentido “pascal” (relativos à morte/ressurreição). Assim termina a parábola: É preciso festejar e alegrar-nos porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado,

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(*) Prof.(Usu-Rio) educação, teologia e ética. fesomor2@gmail.com

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