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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 15 de março de 2013

MADALENA-NÃO PEQUES MAIS... - V DOMINGO DA QUARESMA


V DOMINGO DA QUARESMA

DOMINGO DIA 17 DE MARÇO

Comentário Prof.Fernando



Introdução

MADALENA - O AMOR E A MISERICÓRDIA DE DEUS FOI MAIOR QUE O SEU PECADO.

 

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“... EU TAMBÉM NÃO TE CONDENO.”- Olívia Coutinho

V DOMINGO DA QUARESMA

Dia 17 de Março de 2013

Evangelho de Jo 8,1-11


Estamos no quinto domingo da quaresma, já nos aproximando  do ponto  mais alto da  nossa caminhada cristã: A PÁSCOA DO SENHOR JESUS!
Já podemos alargar um pouco  mais os nossos passos,  passar de uma percepção ainda ingênua, para uma visão lúcida da vontade de Deus.
A riqueza das leituras que nos foram apresentadas neste  tempo Quaresmal, produziu frutos, levou-nos  a  redescobrir os  valores que devem nortear a nossa vida, valores, que o  mundo enganador, tenta camuflar com os seus contra-valores!
Aprendemos muito nesta caminhada de fé, mas ainda há muito que aprender, afinal, temos uma missão muito importante: fazer chegar aos corações sombrios, a luz do Cristo ressuscitado!
Muitos querem conhecer esta Luz, mas desconhece o caminho para chegar até Ela. E nós, que vivenciamos esta experiência, temos o compromisso de nos tornar caminho, para que outros possam também vivenciar esta alegria!
Ninguém consegue se encontrar, sem antes ter um encontro Jesus! Conhecer Jesus, é descobrir o verdadeiro sentido da vida, é enriquecer-se preservando o coração “pobre”!
 A  nossa riqueza maior, é  a nossa dependência de Deus e a pobreza do nosso coração, é o esvaziamento de nós mesmos para nos entregar a esta dependência!
O evangelho de hoje, nos convida a pautar a nossa vida no exemplo de Jesus, que  sempre colocou a pessoa humana acima de qualquer lei. Para Jesus, não é através do castigo da  intolerância que se liberta alguém da escravidão  do pecado, e sim, através do amor. O  amor gera vida, transforma corações,  faz uma pessoa nascer de novo! 
De um lado, o texto que a liturgia deste domingo  nos apresente,  nos mostra mais uma vez, o amor misericordioso de Jesus, para com uma mulher que fora colocada diante Dele, pelos mestres da lei e fariseus, acusada de adultério. O episódio nos mostra claramente a atitude de Jesus frente ao pecado e ao pecador. Jesus não exime aquela mulher de sua culpa, afinal o pecado tem conseqüências graves. Jesus  não aceita o “pecado,” mas  jamais aceitaria  pactuar com uma lei que mata em nome de Deus, seria  contradizer todas suas pregações, que tem como foco o amor e a vida na sua totalidade.
Do outro lado, vemos a hipocrisia dos  mestres da lei e fariseus, que escondiam  atrás de uma  intolerância contra aquela  mulher, a intenção de incriminar Jesus. Para eles, qualquer decisão tomada  por Jesus, seria motivo para incriminá-Lo. Por tanto, no pensar deles, Jesus não tinha saída. Se Ele a condenasse, a multidão se voltaria  contra Ele, afinal, autorizar um apedrejamento a alguém, seria  uma contradição de tudo que Ele pregava. Por outro lado, se Jesus absorvesse àquela mulher, estaria infligindo a lei de Moisés. Mas Jesus, na sua sabedoria Divina, em poucas palavras, golpeia todo tipo de hipocrisia dos mestres e Lei e fariseus: “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe a primeira pedra. Com isto, Jesus transfere para os seus adversários  a responsabilidade de condená-la ou não.
Podemos tirar daí, uma grande lição: diante de Jesus e de todos que estão com Ele, o mal não tem vez!
O mal planejado pelos doutores da lei e fariseus  ao usar aquela mulher como armadilha para pegar Jesus, reverteu num bem para ela, que ao ser levada para a morte, ganhou a vida, num encontro pessoal com Jesus! Um encontro transformador, que a tirou das trevas para a luz!
Se fosse prevalecer o que Jesus disse, o  único que poderia apedrejá-la  seria Ele,  pois somente Ele não tinha pecado. Porém, Ele  não a condenou  e sim, a libertou da pior escravidão do ser humano: a escravidão do pecado. “Ninguém a condenou? Eu também não te condeno. Podes ir e, de agora em diante não peques mais.”
Completamente libertada da escravidão do pecado,  aquela mulher,  certamente tornou-se uma fiel seguidora de Jesus,  comprometida com o seu  projeto de libertação.
O amor é a  lógica de Deus, Deus é amor!

FIQUE NA PAZ DE JESUS - Olívia 

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João 8,1-11
DOMINGO 17 de março
   “Quem não for pecador atire a primeira pedra.” -Maria Regina
                              Aquela mulher surpreendida em adultério foi colocada no meio do povo que a condenava a ser apedrejada, para que se cumprisse a Lei. No entanto, enquanto todos queriam apedrejá-la, Jesus, o único Santo, O Justo, a perdoava para que se cumprisse a Lei da Misericórdia de Deus. Todos já sabiam que ela teria que ser apedrejada, segundo a lei de Moisés. Estava escrito e não poderia ser diferente, mas Jesus nem precisou argumentar muito nem debater com os acusadores. Somente com o gesto de escrever na areia e de falar aos circunstantes: “quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Assim, Ele conseguiu com que o povo se afastasse, a começar pelos mais vividos, mais experientes. Esta é a prova de que só Deus conhece o nosso coração, os nossos motivos e as nossas razões. “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais!” Nós nunca podemos condenar alguém, porque pecou nem tampouco atirar pedra em alguém quando ele erra.
                           Jesus não eximiu a mulher do pecado, mas não a condenou e teve para com ela, misericórdia. Nós que queremos seguir a Jesus precisamos aprender a compreender as fraquezas do nosso próximo e, ao mesmo tempo, ajudá-lo a reencontrar o caminho novo que o Senhor abre para ele. A conversão daquela mulher partiu da misericórdia que Jesus usou para com ela. Se ela tivesse sido apedrejada, com certeza, não teria se convertido, talvez, pudesse ter se emendado, com medo de infringir a lei, no entanto a revolta e a dor permaneceriam dentro do seu coração. No entanto, nós sabemos que aquela mulher teve a sua vida completamente transformada por causa do amor com que ela foi acolhida por Jesus. Pensamos que somente adultera o homem ou a mulher que trai um ao outro, porém existe o adultério espiritual, quando negamos a Jesus Seu Senhorio e prevaricamos em busca de outros deuses que tentam preencher o nosso vazio espiritual.
                      Olhamos para os “adúlteros” e as “adúlteras” públicos e nos sentimos superiores a eles porque não fizemos o mesmo. Porém, Jesus falou para todos de uma maneira bem clara: “quem não tiver pecado”, isto é, quem não for pecador atire a primeira pedra. O pecado é uma traição a Deus, seja ele qual for. Somos sim homens e mulheres adúlteros e necessitados de misericórdia. Precisamos ter consciência disso. Quando Jesus escreveu na areia Ele estava pensando também em nós!Reflita – Você tem aprendido com Jesus a ser misericordioso (a)? – Você costuma também condenar e jogar pedras nas pessoas porque erram? – Com quem você tem traído a confiança de Deus? – Qual o seu menor pecado? – Será que o pecado tem tamanho?
Amém
Abraço carinhoso
-Maria Regina
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17 de março- V Domingo da Quaresma

V DOMINGO DA QUARESMA 17/03/2013
1ª Leitura Isaias 43, 16-21
Salmo 125(126),3 “Sim, o Senhor fez por nós grandes coisas; ficamos exultantes de alegria”
2ª Leitura Filipenses 3,8-14
Evangelho João 8, 1-11
“Perdão... uma nova oportunidade” -Diac. José da Cruz

Reflexão do Evangelho por Diácono José da Cruz
A pior coisa, para um torcedor durante um campeonato, é quando o time para o qual torcemos, está precisando vencer, não para ser campeão, mas sim para fugir do rebaixamento. O torcedor em cada partida nem sonha mais com o título, mas só em não ser rebaixado.
Na nossa vida de Fé, muitas vezes, por causa do desânimo do pecado, nosso e dos outros, paramos de sonhar com o “Céu” e ficamos a vida inteira lutando para não sermos “rebaixados” para o inferno. Será que foi para isso que Deus nos fez? Claro que não! Pois, para quem tem Fé, o “melhor ainda está por vir” e podemos sonhar sim, porque Jesus Cristo, o Filho de Deus acredita em nós, e mais ainda, nos dá condições totais na sua Graça, de alcançarmos a plenitude do Ser, que o Pai criou, á sua imagem e semelhança.
Em nossa sociedade, sempre marcada por uma grande hipocrisia, há certas classes sociais que são condenadas previamente enquanto que outras “castas” podem cometer certos delitos, mesmo no campo moral ou ético, pois gozam de certa imunidade. Mas, os mais frágeis, ou os que com nada podem contar, como é o caso dessa “Mulher Adúltera”, ficam expostos ao ridículo e ao moralismo exacerbado de classes sociais elitizadas, e também, de maneira pecaminosa, por algumas categorias religiosas,que as rotulam de “irrecuperáveis”, por outro lado, o sistema parece investir muito mais na construção de novos presídios do que em um projeto sério de re-socialização da população carcerária, e quando se gasta na construção de presídios, é como se dissesse ao delinqüente :: “Pode cometer crime a vontade, que vamos construir mais presídios”.
Os escribas e Fariseus, isso é, a classe dominante e pensante, já havia condenado a mulher pecadora, só queriam aproveitar a ocasião e colocar Jesus contra a parede, para também condená-lo, pois um Mestre verdadeiro, no campo da moral e dos bons costumes, concordaria com a Lei de Moisés, pecou, tinha que pagar, e pagar caro, no caso dos fragilizados, ignorados pela lei, e sem nenhum direito.
Eles não acreditavam que aquela mulher pudesse se regenerar, e nem queriam lhe dar uma nova chance, estavam desejosos de mandá-la para o “paredão” e expulsá-la do convívio dos “salvos” e moralmente perfeitos. Uma comunidade verdadeiramente cristã, nunca irá proceder desta forma. Contrariando esse modo preconceituoso de pensar, Jesus de Nazaré, que é o primogênito de toda a criatura, sendo o homem perfeito, e a perfeita imagem e semelhança de Deus, não condena, porque sabe que aquela mulher tem toda possibilidade de se regenerar.
Não condenar, não significa concordar com o pecado, fechar os olhos para a ação pecaminosa cometida pela pessoa, ao contrário, Jesus acredita e aposta todas as suas fichas no ser humano, que é capaz de sair da “armadilha” do pecado, e dar a volta por cima, resgatando a sua dignidade perdida, pois, a partir da Encarnação do Senhor, nenhum homem será mais condenado, a Salvação por ele oferecida dá essa possibilidade maravilhosa de recomeçar, de levantar-se da queda e seguir em frente, para alcançar o seu destino glorioso que é a Vida Plena na Casa do Pai.
Falta muito, em nossas relações com as pessoas, essa postura de Jesus, que não condena e que sabe perdoar, pois perdão significa uma nova oportunidade, uma nova chance, para a esposa infiel, para o marido que é um traste, para o Filho ou a Filha rebelde, perdido nas drogas, no mundo da marginalidade, para o empregado mau caráter, para o Patrão desonesto, para o corrupto, para a prostituta, há muitos que gritam e imploram por uma nova chance, entretanto, já estão marcados para ser “apedrejados” em praça pública, como aquela mulher. Em nossa sociedade só se investe e se acredita em quem produz em quem é economicamente ativo, em quem tem posses para adquirir bens de consumo, o resto é lixo, e para esse resto não há novas chances ou oportunidades de se reerguer.
Voltando a comparação com o time de Futebol, Jesus Cristo é como aquele técnico paciente, empenhado, e até ousado, que quando todos estão contra, e não acreditam em uma “virada” da equipe, ele trabalha nos treinamentos, procura conhecer as deficiências e o potencial de cada atleta e tem sempre palavras de incentivo “Olha, vamos recomeçar, vocês vão conseguir, eu acredito em vocês, estamos juntos nessa, vamos em frente, vocês tem condições de “virar esse jogo”.
“Mulher, onde estão os que te acusavam?” Ninguém te condenou, nem eu te condeno,. “Vai e não tornes a pecar”. Isso lembra o meu confessor, no retiro que fizemos recentemente, onde, antes da absolvição, disse-me sorrindo, Jesus está lhe dizendo neste momento “Coragem meu amigo, tente de novo, eu estarei contigo, você vai conseguir”. Esse é o nosso Deus, cheio de misericórdia, que ainda aposta todas as suas fichas no Ser humano, porque o ama apaixonadamente.
Não sei se o time de nossa cidade será campeão, certamente é esse o desejo da direção, do seu técnico e da sua torcida. De um modo muito mais intenso, no coração de Deus, manifestado em Jesus, há esse desejo, de que toda a humanidade se salve, para chegar à Vida Plena, Deus acredita em nosso potencial, foi ele que nos deu a sua Graça santificadora e restauradora, só depende de nós....pois diferente das “oportunidades humanas”, sempre tão “manipuladas” a favor de alguém, essa Graça Divina é para todos....Basta querer...”Vá e não tornes a pecar, mostra a tua força, o teu valor, mostra a capacidade que tens, na minha graça, de virar o jogo da sua vida, e deixar que no seu coração, o Bem supremo triunfe!”

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DIA 17/03
Jo 8,1-11

Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.
Este Evangelho, do 5º domingo da quaresma, nos traz a cena da mulher adúltera, que estava para ser apedrejada e Jesus a libertou.
Os mestres da Lei e os fariseus fizeram uma armadilha “para terem motivo de o acusar”. Eles tinham certeza que Jesus não ia aprovar o apedrejamento, pois ele sempre defendia os mais fracos. E, não aprovando, iria contra a Lei de Moisés e podia ser, por isso, condenado à morte.
Mas Jesus teve uma saída magistral. Jogou o problema nas próprias autoridades que ali estavam, transformando-as de juízes em réus: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.
Assim, não só libertou a mulher, mas deixou para nós uma grande mensagem: Deus ama os que erram, e quer que os amemos, pois todos nós erramos também. O melhor estímulo para uma pessoa se recuperar é sentir-se amada e perdoada do erro que fez.
Deus mesmo fez isso, quando a humanidade pecou. Ele nos mandou seu Filho que veio com amor, para salvar e não para condenar. “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” Jo 3,17). Admirada com esse gesto, a Igreja canta, no exultet da vigília pascal: “Ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor!”
Nós somos convidados a imitar esse gesto de Jesus, no nosso caso, com mais razão, porque somos nós que fazemos a lama na qual as pessoas escorregam e caem. Foi isso que Jesus quis mostrar, quando disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Nós também somos pecadores, e temos parte de culpa nos erros que os outros cometem, pois são frutos deste mundo pecador, que ajudamos a construir.
Em vez de jogar pedras, devemos abraçar a todos os que erram, desde a criança que comete pequenas travessuras, até os que praticam grandes crimes. Abraçar os que estão na lama, mesmo que fiquemos enlameados também.
Os jovens costumam dizer: “Estou na fossa”. Uma fossa cheira mal. Mesmo assim, devemos abraçar os que estão lá dentro, e dar-lhes a mão para que saiam. E sempre, sem perder a paciência, mesmo que caiam mil vezes.
“Podes ir, e de agora em diante não peques mais.” Jesus não disse que a mulher era inocente, nem fez pouco caso do erro dela. O que fez a diferença foi que Jesus não a condenou por que ela errou, mas a abraçou por que ela errou, para ajudá-la a se levantar e ser feliz.
Muitos chamam os que praticam crimes de “bandidos”. Esta palavra tem uma conotação farisaica, porque quem a usa divide a sociedade em dois grupos: os “bons”, entre os quais se coloca, e os que não são bons. Jesus condenou essa divisão, pois colocou uma pedra nas mãos desses que se consideram “bons”. É perigoso jogar pedras, porque elas podem voltar a nós.
Todos somos um pouco bandidos. Talvez os que tiveram boa formação e boa família são mais bandidos do que os coitados e coitadas que nunca aprenderam o caminho certo. “Eu sou pior do que ele ou ela”, é o que devíamos pensar com humildade, ao ouvir falar de crimes e pecados. Se não chegamos a fazer aquilo, é por pura graça e misericórdia de Deus.
A grande imprensa é como urubu: só procura carniça. E, ao se referir aos que praticam os crimes, comporta-se exatamente como aqueles mestres da Lei e fariseus. E quantos de nós vão na onda, pegando em pedras para apedrejar aquele criminoso!
A Lei de Moisés, citada pelos mestres da Lei e fariseus, está em Dt 22,22s e em Lv 20,10. Segundo ela, a mulher adúltera devia ser apedrejada. Mas não só ela, também o homem com quem ela adulterou (Cf caso da Susana, em Dn 13). Acontece que os fariseus, que eram machistas, aplicavam a Lei somente para as mulheres.
A prostituição feminina é muito ligada à luta pela sobrevivência. A sociedade pecadora compra tudo, até o corpo da mulher. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
Certa vez, uma jovem da roça, líder de uma Comunidade, foi fazer tratamento médico numa cidade grande, onde ficou hospedada na casa de uma família de parentes, durante alguns meses. As famílias católicas vizinhas, ao saberem do seu trabalho de líder cristã, começaram a convidá-la para rezar o terço em suas casas. Ela ouviu vários comentários negativos a respeito de uma vizinha que morava sozinha. As pessoas diziam à moça: “Naquela casa ali mora uma mulher que não presta!” Entretanto, a jovem, na sua prática pastoral, não deu muita importância aos comentários, e procurou aproximar-se da tal “mulher que não presta”. De início, aproveitava os momentos em que ela saía de casa, para conversar. Dias depois, foi convidada pela mulher para ir à sua casa. A jovem ouvia mais do que falava, porque percebia que a senhora sentia necessidade de falar e de se abrir com alguém. Resultado: as duas ficaram amigas. A mulher começou a participar dos terços, e acabou nos vizinhos aquele “estigma” de “mulher que não presta”. Depois que a jovem voltou para a roça, ficou sabendo que aquela mulher se transformou, tornando-se uma pessoa alegre e social.
O amor transforma as pessoas. O amor é tão necessário ao ser humano como a água para o peixe.
Que Maria Santíssima, a imaculada, nos ajude a olhar para dentro de nós mesmos, antes de atirar pedras!
Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.
Padre Queiroz


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Evangelhos Dominicais Comentados

17/março/2013– 5o Domingo da Quaresma

Evangelho: (Jo 8, 1-11)


Celebramos hoje o Quinto Domingo da Quaresma. No próximo domingo comemoramos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, é o Domingo de Ramos. É a abertura da Semana Santa, quando estaremos celebrando os principais acontecimentos da nossa redenção.

Quaresma é tempo de conversão, oração, jejum e abstinência, mas é também tempo de meditar o amor de Deus Pai que tanto amou a humanidade, a ponto de dar o seu próprio Filho para salvá-la. Deus Filho, obediente ao Projeto de Salvação, assumiu a condição humana, foi julgado e condenado pelos homens.

Brincar de jurado, criticar e julgar são os passatempos preferidos do ser humano. O evangelho de hoje não é diferente. Mais uma vez, o Salvador é colocado a prova pelos fariseus e doutores da lei. A mulher adúltera é usada como argumento para testar Jesus e fazê-lo cair em contradição. Jesus porém, aproveita a oportunidade para mostrar que o amor de Deus não tem limites.

Importante ressaltar algumas coisas deste evangelho: João inicia dizendo que Jesus foi rezar no monte das Oliveiras. Habitualmente Jesus fazia isso. A oração estava presente em seu dia-a-dia. Primeiro preparou-se espiritualmente e depois voltou ao templo para ensinar.



A ação é complemento da oração. Esse exemplo de Jesus mostra que o trabalho deve ser precedido pela oração. Este gesto confirma suas palavras: "Nem só de pão vive o homem". A oração sem o gesto concreto não tem valor, assim como, as grandes obras filantrópicas são vazias sem a oração.

O objetivo dos fariseus era desmoralizar Jesus. Se ele perdoasse aquela mulher, poderiam acusá-lo de ir contra a lei e, se a condenasse, teriam um excelente argumento para comprovar que Jesus não era bem aquilo que diziam. Procuravam uma forma de mostrar que Jesus também tinha o seu lado cruel.

O evangelista frisa que Jesus agachou-se. Agachar-se e escrever no chão, significa isolar-se de tudo que está acontecendo ao redor, significa indiferença. Com essa atitude, Jesus quis demonstrar que não desejava se intrometer naquele julgamento, pois sabia das verdadeiras intenções daquelas pessoas.

Diante de tanta insistência para que opinasse a respeito, Jesus dá a resposta certa, apesar de não ser a esperada: "Quem estiver sem pecado, pode atirar a primeira pedra". Essas palavras tiveram o efeito de uma ducha super-gelada, mexeram com a consciência de cada um.

Nenhuma pedra foi atirada. Discretamente foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, talvez por acumularem mais pecados que os jovens. Jesus já nos avisou sobre os efeitos nocivos do pecado. Certamente essa mulher merecia punição, mas não pelas mãos de outros pecadores.

Jesus condena o pecado, mas perdoa o pecador, prega igualdade e justiça sem perder a mansidão. Não diz que não devem apedrejar para não se por contra a lei, mas também não manda apedrejar, pois não veio para julgar, mas sim para recuperar o que estava perdido.
 
Jesus prega a igualdade e condena a justiça machista dos fariseus, branda demais para com os homens e extremamente rigorosa para com as mulheres. Ao dizer "Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais", Jesus resgata a dignidade da mulher, e mostra que o arrependimento é o preço do perdão, pois a misericórdia de Deus está acima dos nossos pecados.

(1994)

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Vai se intensificando a preparação para o Tríduo sacro que nos faz celebrar a santa Páscoa. Desde a segunda-feira passada, as leituras do Evangelho de João apresentam-nos Cristo em tensão com os judeus, tensão que culminará com sua morte. Hoje, a liturgia permite que cubramos as imagens de roxo ou branco, exprimindo o jejum dos nossos olhos: a necessidade de purificar o olhar de nosso coração, para irmos direto ao essencial: “a caridade, que levou o Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo” (oração da coleta). A partir de amanhã, segunda-feira, este clima de preparação para o mistério pascal intensifica-se ainda mais com o Prefácio da Paixão, rezado em cada missa.
Por tudo isso, o profeta Isaías, em nome do Senhor, nos convida a olhar para frente, para o mistério que é maior que qualquer outra ação de Deus: o mistério do Filho em sua paixão, morte e ressurreição: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis”. Mais que a criação, mais que a travessia do mar Vermelho, mais que a água jorrada da rocha... o Senhor fará algo definitivo! Ele abrirá uma estrada no deserto, fará correr rios em terra seca! Pensemos estas imagens à luz da Páscoa: o Senhor Jesus nos abrirá no deserto da morte – e das mortes da vida – uma estrada de vida, um caminho para o Pai: “Vós me ensinareis o caminho da vida!” O Senhor Jesus fará brotar de seu lado aberto o rio da graça, o rio dos sacramentos, do batismo (água) e da Eucaristia (sangue) que regam e fertilizam a nossa pobre existência! “Eis que eu farei coisas novas!”
Nunca esqueçamos que a Páscoa do Senhor – Passagem deste mundo para o Pai, atravessando o tenebroso vale da morte – é também a nossa Páscoa: Passagem pela vida neste mundo, que terminará com Cristo na plenitude do Pai; mas também, já agora, Passagem sempre renovada do pecado para a graça, dos vícios para a virtude, de uma vida centrada em nós mesmos, para uma vida centrada com Cristo em Deus. É este, precisamente, o sentido do Evangelho deste Domingo: a mulher pecadora, renovada pelo perdão do único que poderia condená-la, porque o único Inocente: “Eu não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Diante do Cristo, o Inocente que por nós será entregue e por nós livremente entregar-se-á, como não nos reconhecermos culpados? Como não termos vergonha de julgar e condenar os demais? Como não nos sentirmos amados, acolhidos e perdoados por Aquele que nos lavou com o seu sangue, nos aliviou com suas dores e nos revivificou com a sua Ressurreição? Afinal, quem é essa mulher adúltera? Não é Israel, que se prostituiu? Não é a Igreja, quando nos seus filhos pecadores, trai o Evangelho? Não somos nós, cada um de nós, com nossas infidelidades, covardias e incoerências? Todos pecadores, todos necessitados do perdão, todos perdoados e acolhidos por Aquele que não tem pecado!
Pensemos no Senhor Jesus, naquela sua caridade, naquele seu amor, que o levou a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo! Pensemos com o comovente pensamento de São Paulo. É um testemunho comovente de um amor apaixonado: “Considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor”. Conhecer a Cristo significa unir-se a ele, participar de sua experiência, de seu caminho, de seu destino... “Por ele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele... experimentar a força da sua ressurreição, ficar em comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos.” São palavras estupendas! Perder tudo por Cristo, perder-se em Cristo, tudo relativizar por Cristo e em relação a Cristo, ter na vida e fazer da vida uma única paixão: estar unido a Cristo no seu sofrimento e na sua ressurreição, completando em mim o que falta de suas dores e experimentando já agora - e um dia, de modo pleno -, o poder vitorioso da sua Ressurreição. O que são Paulo deseja? Viver na sua vida, na sua carne, nos seus dias, a Páscoa do Senhor. Deseja que seus sofrimentos e desafios estejam unidos aos de Cristo e sejam vividos em Cristo e no amor de Cristo para também experimentar na carne e na vida – na carne da vida! – a vitória de Cristo. Isto é conhecer Jesus Cristo! Não um conhecimento teórico, exterior, mas um conhecimento coração a coração, vida a vida, lágrima a lágrima, vitória a vitória! Este deve – deveria – ser o caminho normal de todo o cristão! Esta é a verdadeira ciência, que transcende qualquer outra ciência; esta, a verdadeira teologia, o verdadeiro conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo!
Está próxima a Páscoa, a festa dos cristãos! Nestes dias santíssimos, unamo-nos intimamente ao Senhor Jesus Cristo, deixemos que o Santo Espírito reproduza em nós os seus sentimentos de total confiança no Pai e total entrega amorosa aos irmãos, à humanidade. Sigamos o exemplo do Apóstolo: “Uma coisa eu faço: esquecendo o que ficou para trás, eu me lanço para o que está à frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus”. Cristo Jesus! Que nome tão doce, que consolo tão grande, que esperança tão certa, que prêmio tão imperecível. A ele – e só a ele – toda a glória e toda a honra!
dom Henrique Soares da Costa
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Jesus é posto à prova
Neste quinto domingo da Quaresma, a liturgia da Palavra está centrada no apelo de não permitir que a recordação do passado impeça o progresso no caminho de Deus: ". esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente." (Fl. 3,13).
O evangelho descreve uma cena dramática: uma mulher pega em adultério está para ser apedrejada até a morte. O Levítico prescreve: "o homem que cometer adultério com a mulher do próximo deverá morrer, tanto ele como a mulher com quem cometeu o delito" (Lv. 20,10; ver também: Dt. 22,22-24).
Os escribas e os fariseus, que se dizem justos, são os que conduzem a mulher até Jesus. Mas onde está o homem envolvido no mal? De fato, a Lei de Moisés interditava o adultério (Ex. 20,14; Dt. 5,18), como eles diziam. A pergunta deles a Jesus é para colocá-lo à prova. O silêncio de Jesus revela o pecado dos acusadores - vão se retirando um a um. No face a face entre a mulher e Jesus, em que a verdade de cada um é iluminada, a palavra de Jesus liberta, mostra a misericórdia de Deus e abre um caminho novo: "Ninguém te condenou? Eu também não te condeno! Vai, e de agora em diante não peques mais" (vv. 10-11).
Carlos Alberto Contieri,sj
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Não são as pedras, mas o amor que dá vida nova
A “vida nova” é o tema das três leituras deste domingo. Já a anunciava o profeta Isaías (I leitura) ao exilados de Babilónia anunciando o regressa à pátria: “Eis que eu faço uma coisa nova: agora mesmo começa a germinar”. A promessa era acompanhada por dois sinais eloquentes: uma estrada no deserto e rios de água na estepe (v. 19). Para Paulo (2ª leitura) a vida nova é uma pessoa, Cristo Jesus, o único tesouro, perante o qual tudo o resto é lixo (v. 8). É Ele a única meta a conquistar, correndo com todo o esforço possível. Paulo sente este compromisso, não como um peso, mas como uma resposta de amor para com Cristo que o tinha conquistado (v. 12.14). É por isso mesmo que deseja anunciá-lo a todos.
“Ao amanhecer” (Evangelho), na esplanada do templo de Jerusalém, teve início uma vida nova também parta uma mulher “surpreendida em flagrante adultério” (v. 4). Uma mulher a lapidar segundo a lei, atirada para ali como um farrapo à frente de Jesus, única acusada de um crime que, por definição supõe um cúmplice se, porém, se volatilizou... Jesus salva-a das pedras com atitudes surpreendentes, que levam a uma completa mudança de situação: antes de mais, o silencio que desarma, da parte de Jesus, depois aqueles sinais (historicamente) indecifráveis no chão (v. 6.8), e finalmente o desafio a atirar a primeira pedra (v. 7), desmascarando toda a hipocrisia daqueles acusadores legalistas com corações de pedra.
Ao fim, a mulher e Jesus ficam sós: ‘a miséria e a misericórdia’, comenta S. Agostinho. Jesus fala à mulher: ninguém tinha falado com ela, tinham-na arrastado com empurrões e acusações. Fala-lhe, não com a linguagem da rua, mas com respeito, reconhecendo a sua dignidade: chama-a ‘mulher’, como costumava chamar a sua mãe (Jo 2,4; 19,26). Jesus distingue entre ela – mulher frágil, por certo – e o seu erro, que Ele não aprova: o adultério é e continua a ser um pecado (Mt 5,32), mesmo no caso de um desejo desonesto (Mt. 5,28; e o IX mandamento). Jesus condena o pecado mas não a pecadora; não se limita a analisar o passado, mas lança de novo a vida, abre de novo ao futuro. O centro da narração não é o pecado, mas o coração de Deus que quer que nós vivamos. É esta a imagem de Deus-amor que Jesus quer dar a conhecer: que a mulher experimente que Deus a ama assim como ela é. Deste modo, a mulher, sentindo-se respeitada, amada e protegida, é capaz de acolher o convite de Jesus a não voltar a pecar (v. 11). O amor é o primeiro, o único mandamento. Deus salva amando. Só o amor é capaz de converter e salvar!
Este texto ‘incômodo’ do Evangelho teve uma histórica difícil: é omitido em vários códices antigos, e é deslocado em outros. Há mesmo quem pense que o autor não seja João, mas Lucas, dado o seu estilo e a mensagem muito semelhante à “parábola do padre misericordioso” (ver Lucas 15), no Evangelho do Domingo passado), com vários personagens: a mulher, no papel do filho mais novo; os escribas e os fariseus em linha com o filho mais velho; e Jesus que entra perfeitamente no papel do Pai. Tal possibilidade é sublinhada também por um autor moderno: “Texto insuportável, que falta em vários manuscritos. A consciência moral e também a consciência religiosa dos homens não pode admitir que Cristo se recuse a condenar a mulher... Foi surpreendida em flagrante delito; cometeu um dos pecados mais graves que  Lei conheça... Cristo confunde os acusadores recordando-lhes a universalidade do mal: também eles, espiritualmente, são adúlteros; também eles, de um ou de outro modo atraiçoaram o amor. ‘Quem estiver sem pecado...’ Ninguém está sem pecado, e ele conclui dizendo: «Vai, e não voltes a pecar»: uma frase que abre um futuro novo” (Ollivier Clément).
Este texto evangélico constitui uma página intensa de metodologia missionária para o anúncio, a conversão, a educação à fé e aos valores da vida. O amor gera e regenera a pessoa, torna-a livre; Jesus educa ao amor vivido na liberdade e na gratuidade. Somente com estas condições se compreende porque devemos deixar cair as pedras que trazemos nas mãos para atirar contra os outros. O fato que sejam os mais velhos quem começa a ir embora (v. 9) revela neles um sentido de culpa, de vergonha, mostra que entenderam a lição? Enfim, fica bem claro que quem luta pela igualdade de oportunidades entre a mulher e o homem, seja qual for o contexto específico, encontra em Jesus um precursor ideal, um pioneiro e um aliado.
padre Romeo Ballan
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«A conversão nunca é de uma vez para sempre, mas é um processo, um caminho interior de toda a nossa vida. Este itinerário de conversão evangélica certamente não pode limitar-se a um período particular do ano: é um caminho de cada dia, que deve abraçar toda a existência, todos os dias da nossa vida. Nesta óptica, para cada cristão e para todas as comunidades eclesiais, a Quaresma é a estação espiritual propícia para se treinar com maior tenacidade na busca de Deus, abrindo o coração a Cristo. Santo Agostinho certa vez disse que a nossa vida é uma única prática do desejo de nos aproximarmos de Deus, de nos tornarmos capazes de deixar entrar Deus no nosso ser» (Bento XVI - Audiência geral ao início da Quaresma, quarta-feira de Cinzas, 21.2.2007)
1º leitura: Is. 43,16-21
Estamos em pleno exílio babilônico e o profeta anônimo (Deutero-Isaías por volta do ano 550) procura reanimar as esperanças de retorno à Pátria. Ciro está conseguindo vitórias e mais vitórias sobre os caldeus. O profeta interpreta o fato à luz da fé. O Senhor, Criador, Redentor e Rei de Israel está se servindo do seu servo Ciro para libertar Israel (cf. vv. 14-15).
Os vv. 16 - 17 são memórias das ações libertadoras de Javé. O v. 16 lembra a passagem pelo Mar Vermelho. O v. 17 alude à destruição do exército do faraó que perseguia os israelitas.
O v. 18 curiosamente convida a esquecer o passado. Por quê? Porque o que Javé vai fazer agora é uma coisa nova, muito mais fantástica do que as maravilhas do Êxodo. É aqui no v. 19 e seguintes que o profeta reanima as esperanças dos exilados. Esta coisa nova já começou a acontecer. As conquistas de Ciro são um pré-anúncio. No Êxodo o deserto foi cruel e hostil ao povo. Javé vai abrir uma entrada no deserto e vai fazer correr rios no sertão.
Diante dessas maravilhas em favor de Israel até os animais selvagens darão glória a Javé, pois dando água para fazer matar a sede do seu povo Javé favorece toda a criação, renovando a vida. O v. 21 profetiza também o louvor de Israel para com seu criador.
As ações de Javé são imprevisíveis. Nesse sentido devemos rezar e alimentar nossas esperanças. Se Javé se serviu de Ciro, não poderia também servir-se do novo governo para restaurar nossas estradas, suscitar vida nas favelas, despertar esperanças para os excluídos? Como poderemos ser instrumentos nas mãos de Deus?
2º leitura: Fl. 3,8-14
Poderíamos dividir a carta aos filipenses em três bilhetes que mais tarde foram apresentados pela comunidade como se fosse uma só carta.
1) 4,10 - 20 - bilhete de agradecimento.
2) 1,1-3-1a + 4,2-7 + 4,21-23 - exortações à unidade e notícias pessoais.
3) 3,1b - 4,1 + 4,8-9 - ataques aos falsos doutores.
Nosso texto, portanto faz parte do terceiro bilhete. Havia um grupo de cristãos que vinham do judaísmo e queria judaizar o cristianismo. Eles são chamados judaizantes. Eles queriam forçar a comunidade a seguir as leis judaicas. Paulo critica o rito da circuncisão na carne e dá um sentido espiritual à circuncisão. Os judeus-cristãos que ainda se preocupam com a circuncisão são comparados aos pagãos que eram chamados de cães.
O ponto de referência da vida do cristão é Cristo e não a Lei de Moisés. Por isso Paulo descreve seu passado irrepreensível segundo a Lei. Mas afirma que, depois que ele conheceu Jesus Cristo, seu passado perdeu o sentido. Pode até ser considerado como uma perda. Nada é maior e mais importante que o conhecimento que agora ele possui de Jesus Cristo.
Aliás, diante de Jesus Cristo tudo que ele conquistou antes pode ser considerado como lixo desprezível. O mais importante agora é ganhar Jesus Cristo, mas não com a justiça da Lei e sim pela justiça que vem de Deus através da fé em Jesus Cristo.
Paulo agora, dizem os vv. 10 e 11, topa tudo por causa de Jesus Cristo, quer até mesmo enfrentar sofrimento e morte iguais aos de Jesus para alimentar sua esperança e também participar com Jesus da ressurreição dos mortos. Usando a imagem do atleta que corre para alcançar o prêmio, Paulo deixa claro que já foi conquistado por Cristo, mas a perfeição é uma meta que está no fim da corrida. O importante para Paulo não é gloriar-se das conquistas já alcançadas, mas continuar a correr. E para você o que é importante? Entrar em campo ou ser espectador ou, quem sabe, atleta aposentado?
Evangelho: Jo 8,1-11
Jesus está de manhãzinha ensinando no Templo. O Templo se torna símbolo da exclusão de Jesus e de todos os excluídos da sociedade e da religião judaica. Para excluir Jesus os senhores do Templo (fariseus e doutores da lei) condenam uma adúltera que pelo adultério deveria ser excluída, juntamente com o adúltero, não somente da religião, mas até mesmo da vida através de pedradas. Era a Lei. Eles queriam saber a opinião de Jesus (v. 5). Mas para eles a adúltera já está condenada. Eles queriam servir-se dela para condenar também a Jesus (v. 6). Diante da pergunta Jesus se inclina e escreve com o dedo no chão. Depois Jesus se ergue e com voz de quem conhece profundamente as fraquezas humanas, com o coração de quem veio para acolher, perdoar e não condenar, Jesus diz solenemente: "Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra". Esta frase pulveriza os corações de todos aqueles que ainda não vivem estas sentenças lapidares de Jesus: "Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados, perdoai e sereis perdoados" (Lc. 6,37). Os pretensos juízes da excluída são incluídos na categoria de réus. E devagar foram saindo conscientes de seus pecados. O texto ainda precisa que os mais velhos saíam primeiro. Sozinhos, Jesus e a mulher começam o diálogo libertador. Jesus se levanta e pergunta: "Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?". A esta pergunta a mulher provavelmente ergue a cabeça e não vendo ninguém responde admirada: "Ninguém, Senhor!". O círculo opressor que oprimia e queria condenar havia-se desfeito. Entretanto restava diante da mulher uma única pessoa que isenta de todo o pecado poderia condená-la. Só que Jesus ficou não para condenar, mas para absolver, resgatar e salvar. É o coração do Pai misericordioso que fala por Jesus: "Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais". Jesus condena o pecado, não o pecador. Como o mundo seria diferente se aprendêssemos a lição de Jesus?
dom Emanuel Messias de Oliveira
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A mulher pecadora
Iniciemos essa reflexão com as palavras do papa emérito Bento XVI: “O trecho evangélico narra o episódio da mulher adúltera, em duas cenas sugestivas: na primeira, assistimos a uma disputa entre Jesus, os escribas e os fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante e, segundo a prescrição contida no livro do Levítico (20,10), condenada à lapidação. Na segunda cena, descreve-se um breve e comovedor diálogo entre Jesus e a pecadora”.

Versículos 1-2
“Dirigiu-se Jesus para o monte das Oliveiras. Ao romper da manhã, voltou ao templo e todo o povo veio a ele. Assentou-se e começou a ensinar”.
“Cristo assentou-se e começou a ensinar” – O Catecismo (427) diz que “só Cristo ensina. Todo e qualquer outro o faz apenas na medida em que é seu porta-voz, consentindo em que Cristo ensine pela sua boca [...]. Todo o catequista deveria poder aplicar a si próprio a misteriosa palavra de Jesus: “A minha doutrina não é minha, mas d’Aquele que Me enviou” (Jo 7,16)”.
O beato João Paulo II disse que “também nós somos convidados, especialmente durante este tempo da Quaresma, a deixar-nos conquistar pelo Senhor: pelo fascínio da Sua palavra de salvação, pela força da Sua graça e pelo anúncio do Seu amor redentor”.
Versículos 3 – 5: “Os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério. Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. Moisés mandou-nos na lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso?”
O papa emérito Bento XVI disse que a cena desse Evangelho “é cheia de dramaticidade: das palavras de Jesus depende a vida daquela pessoa, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores hipócritas fingem confiar-lhe o julgamento, enquanto na realidade é precisamente Ele quem querem acusar e julgar. Ao contrário, Jesus está “cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14): Ele sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado, mas salvar o pecador, e desmascarar a hipocrisia”.
O beato João Paulo II explicou: “Acusado até de estar contra a Lei, Jesus é “posto à prova”:  se perdoa a mulher colhida em flagrante adultério, dir-se-á que transgrediu os preceitos de Moisés; se a condena, dir-se-á que foi incoerente com a mensagem de misericórdia para com os pecadores.Mas Jesus não cai na armadilha. Com o seu silêncio, convida cada um a reflectir sobre si próprio”.

Versículos 6–9
“Perguntavam-lhe isso, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra. Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra. Inclinando-se novamente, escrevia na terra. A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele”.
O Papa Emérito Bento XVI disse que não interessa a Jesus “vencer uma disputa acadêmica a propósito de uma interpretação da lei mosaica, mas a sua finalidade consiste em salvar uma alma e revelar que a salvação só se encontra no amor de Deus. Foi por isso que veio a terra, por isso há-de morrer na cruz e o Pai ressuscitá-lo-á, no terceiro dia”.

“Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra”
Observa santo Agostinho “que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (Comentário ao Evangelho de João, 33,5). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa. E qual é a sua sentença? “Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra”.
O beato João Paulo II ensinou que Jesus “desperta a consciência do pecado nos homens que a acusam para apedrejá-la, manifestando assim a sua profunda capacidade de ver as consciências e as obras humanas segundo a verdade. Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, e antes de tudo, uma confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça « masculina », dos vossos abusos?”
O papa emérito Bento XVI disse que “Jesus coloca-se imediatamente a favor da mulher; em primeiro lugar, escrevendo no chão, palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas fica impressionado, e depois pronunciando aquela frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra” (Jo 8,7) e dê início à lapidação”.

“Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”
Santo Agostinho observa que, “respondendo, o Senhor respeita a lei e não abandona a sua mansidão. Depois, acrescenta que com estas suas palavras obriga os acusadores a entrarem em si mesmos e, refletindo sobre si próprios, a descobrirem-se também eles pecadores. Por isso, atingidos por estas palavras como por uma flecha tão grande como uma trave, um por um foram-se embora”.
Versículos 10 – 11: “Então ele se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?  Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Disse-lhe então Jesus: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”.
O papa emérito Bento XVI disse: “Portanto, um após outro, os acusadores que queriam provocar Jesus vão-se embora “a começar pelos mais velhos, até aos últimos”. Quando todos se foram, o Mestre divino permanece a sós com a mulher. O comentário de Santo Agostinho é conciso e eficaz: “Relicti sunt duo: misera et misericordia, só permanecem as duas: a miserável e a misericórdia”.
“Vai e não tornes a pecar” – O Beato João Paulo II disse: “Enquanto o homem tende a identificar o pecador com o seu pecado, negando-lhe deste modo qualquer saída, o Pai celeste, ao contrário, enviou o Seu Filho ao mundo para oferecer a todos uma via de salvação. Cristo é essa via: ao morrer na cruz, Ele redimiu os nossos pecados.  Jesus repete aos homens e mulheres de todas as épocas: “Eu não te condeno; vai e doravante não tornes a pecar”.
O papa emérito Bento XVI disse que “Jesus, absolvendo a mulher do seu pecado, introduziu-a numa vida nova, orientada para o bem: “Nem Eu te condeno; vai e doravante não tornes a pecar”.
A Palavra diz: “Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente,  persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo” (Fl. 3,12-14).
Conclusão
Concluímos essa reflexão com as palavras do Beato João Paulo: “Hoje, a liturgia da Quaresma propõe-nos a página do Evangelho de João, que apresenta Cristo e uma mulher surpreendida em adultério. O Senhor não a condena, pelo contrário, salva-a da lapidação. Não lhe diz: não pecaste, mas: Eu não te condeno, vai e doravante não tornes a pecar (Jo 8,11). Na realidade, só Cristo pode salvar o homem, porque assume o seu pecado e dá-lhe a possibilidade de mudar”.
Jane Amábile
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"De agora em diante não peques mais"
Deus nos convida a superar nossas fraquezas, medos e ignorâncias.
Na primeira leitura, o profeta anuncia a iminência da libertação e compara a saída da Babilônia e a volta à Terra Prometida com o êxodo do Egito. Esta recordação não é somente para lembrar algo extraordinário ocorrido há séculos. A lembrança do passado é válida quando alimenta a esperança e prepara para um futuro. Um futuro que novamente manifestará o amor de Deus por seu povo.
No evangelho temos diante de Jesus uma mulher que, de acordo com a Lei, tinha cometido uma falta que merecia a morte. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade de ouro para testar a reta conduta de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei; para Jesus, trata-se de revelar a atitude de Deus frente ao pecado e ao pecador.
Apresentada a questão, Jesus não procura minimizar o pecado ou desculpar o comportamento da mulher. Ele sabe que o pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz… No entanto, também não aceita pactuar com uma Lei que, em nome de Deus, gera morte.
Jesus convida os acusadores a tomar consciência de que o pecado é uma consequência dos nossos limites e fragilidades e que Deus entende isso. Quando os escribas e fariseus se retiram, Jesus sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida: convida-a, apenas, a seguir um caminho novo de liberdade e de paz.
A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas de vida; a proposta que Deus faz através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova. É preciso reconhecer, com humildade e  simplicidade, que necessitamos do amor e da misericórdia de Deus para chegar à vida plena. A única atitude que faz sentido, é assumir para com os nossos irmãos a tolerância e a misericórdia de Deus.
Lembremo-nos de Paulo, que está consciente de que, partilhar a vida e o destino de Cristo, implica um esforço diário. É possível o fracasso, pois o nosso orgulho e egoísmo estão sempre à espreita. O caminho da entrega da vida é exigente. Quem quer chegar à vida nova, à ressurreição, tem de seguir esse caminho.
Neste tempo de Quaresma, somos convidados a deixar definitivamente para trás o passado e aderir à vida nova que Deus nos propõe. A Quaresma é ocasião para nos desinstalar. Ela questiona nosso comodismo.
Nos convida a olhar para o futuro e a ir além de nós mesmos, na busca de uma nova humanidade.
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“Quem não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”
Essa história parece muito mais semelhante aos temas do Evangelho de Lucas do que do o Evangelho do discípulo amado. De fato, não aparece nos manuscritos mais antigos de Lucas, e só aparece pela primeira vez em versões do século terceiro. Por isso, a maioria dos estudiosos acha que originalmente esta história circulava nas comunidades como uma tradição independente. O copista que a inseriu talvez fizesse por achar que ilustrasse duas frases do quarto Evangelho: “Eu julgo a ninguém” (Jo 8,15) e “Quem de vocês pode me acusar de pecado?” (Jo 8,46). O tema do perdão de uma mulher pecadora é tipicamente lucano. Alguns manuscritos situam esse texto no Evangelho de Lucas durante as controvérsias da Semana Santa – o que parece ser um contexto mais adequado.
O problema apresentado a Jesus pelos fariseus é semelhante àquele do imposto em Lc. 21,27-38. A Lei judaica prescreveu a pena de morte para uma mulher casada, pega em adultério (Dt. 22,23-24). Mas, segundo João 18,31, os romanos tinham retirado dos judeus o direito de condenar alguém à morte. Portanto, se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei civil dos romanos; se ele negasse esta pena, estaria contra a lei religiosa mosaica. É uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César, ou a questão sobre o divórcio em Mt. 19,3-9. Que os seus interlocutores não se interessam pela Lei se manifesta pelo fato de só acusarem a mulher e não o seu parceiro! Uma atitude machista tão comum ainda na nossa sociedade.
Não se esclarece o que foi que Jesus escreveu no chão. Alguns autores vêem uma referência a uma frase em Jeremias: “Aqueles que se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram Javé, a fonte de água viva” (Jr. 17,13). Assim, seria uma indicação que os verdadeiros culpados são aqueles que se davam o direito de condenar a mulher.
Perguntando da mulher se os seus acusadores não a tinham condenado, Jesus deixa claro que ele não se identifica com eles. Ele não veio para condenar, mas para salvar! Por isso a mulher está livre para ir – mas não para pecar de novo!
O texto ilustra mais uma vez o recado central que vimos no Evangelho do último domingo – Deus é um Deus de misericórdia, e não de condenação. Ele condena o pecado, o mal, mas não a pessoa. Como em Lucas 15,1-2 também no texto de hoje as pessoas que mais deviam se preocupar em manifestar o rosto misericordioso do Pai, se preocupavam mais em condenar, a partir de um legalismo que desconhecia a misericórdia. Jesus, do outro lado, valoriza a Lei (pede que a mulher não continue a pecar), mas tem compaixão diante da fraqueza humana. Aliás, é notável que, nos Evangelhos, Jesus nunca é duro ou rígido com as pessoas que manifestam nas suas vidas sinais da fraqueza humana, mas é contundente com os que não têm compaixão nem misericórdia, e que escondem o verdadeiro rosto de Deus através do seu legalismo e auto-suficiência.
Quantas vezes nas Igrejas – até hoje – se manifesta muito mais a dureza de uma mentalidade legalista do que a compaixão de um Deus que é “rico em misericórdia?”. Neste tempo quaresmal, preocupemo-nos em sermos manifestação do Deus verdadeiro, misericordioso e compassivo, a exemplo de Jesus, que soube distinguir bem entre o pecado e o pecador. “Nem eu te condeno, vá e não peca mais!” Lembremos das palavras sábias e profundas do Documento da Aparecida no seu número 147:
. “O/a discípulo/a-missionário/a há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para os pobres e pecadores” .  Jesus nos dá o exemplo no texto de hoje.
padre Tomaz Hughes, SVD
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Vai se intensificando a preparação para o Tríduo sacro que nos faz celebrar a santa Páscoa. Desde a segunda-feira passada, as leituras do Evangelho de João apresentam-nos Cristo em tensão com os judeus, tensão que culminará com sua morte. Hoje, a liturgia permite que cubramos as imagens de roxo ou branco, exprimindo o jejum dos nossos olhos: a necessidade de purificar o olhar de nosso coração, para irmos direto ao essencial: “a caridade, que levou o Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo” (oração da coleta). A partir de amanhã, segunda-feira, este clima de preparação para o mistério pascal intensifica-se ainda mais com o Prefácio da Paixão, rezado em cada missa.
Por tudo isso, o profeta Isaías, em nome do Senhor, nos convida a olhar para frente, para o mistério que é maior que qualquer outra ação de Deus: o mistério do Filho em sua paixão, morte e ressurreição: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis”. Mais que a criação, mais que a travessia do mar Vermelho, mais que a água jorrada da rocha... o Senhor fará algo definitivo! Ele abrirá uma estrada no deserto, fará correr rios em terra seca! Pensemos estas imagens à luz da Páscoa: o Senhor Jesus nos abrirá no deserto da morte – e das mortes da vida – uma estrada de vida, um caminho para o Pai: “Vós me ensinareis o caminho da vida!” O Senhor Jesus fará brotar de seu lado aberto o rio da graça, o rio dos sacramentos, do batismo (água) e da Eucaristia (sangue) que regam e fertilizam a nossa pobre existência! “Eis que eu farei coisas novas!”
Nunca esqueçamos que a Páscoa do Senhor – Passagem deste mundo para o Pai, atravessando o tenebroso vale da morte – é também a nossa Páscoa: Passagem pela vida neste mundo, que terminará com Cristo na plenitude do Pai; mas também, já agora, Passagem sempre renovada do pecado para a graça, dos vícios para a virtude, de uma vida centrada em nós mesmos, para uma vida centrada com Cristo em Deus. É este, precisamente, o sentido do Evangelho deste Domingo: a mulher pecadora, renovada pelo perdão do único que poderia condená-la, porque o único Inocente: “Eu não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Diante do Cristo, o Inocente que por nós será entregue e por nós livremente entregar-se-á, como não nos reconhecermos culpados? Como não termos vergonha de julgar e condenar os demais? Como não nos sentirmos amados, acolhidos e perdoados por Aquele que nos lavou com o seu sangue, nos aliviou com suas dores e nos revivificou com a sua Ressurreição? Afinal, quem é essa mulher adúltera? Não é Israel, que se prostituiu? Não é a Igreja, quando nos seus filhos pecadores, trai o Evangelho? Não somos nós, cada um de nós, com nossas infidelidades, covardias e incoerências? Todos pecadores, todos necessitados do perdão, todos perdoados e acolhidos por Aquele que não tem pecado!
Pensemos no Senhor Jesus, naquela sua caridade, naquele seu amor, que o levou a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo! Pensemos com o comovente pensamento de São Paulo. É um testemunho comovente de um amor apaixonado: “Considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor”. Conhecer a Cristo significa unir-se a ele, participar de sua experiência, de seu caminho, de seu destino... “Por ele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele... experimentar a força da sua ressurreição, ficar em comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos.” São palavras estupendas! Perder tudo por Cristo, perder-se em Cristo, tudo relativizar por Cristo e em relação a Cristo, ter na vida e fazer da vida uma única paixão: estar unido a Cristo no seu sofrimento e na sua ressurreição, completando em mim o que falta de suas dores e experimentando já agora - e um dia, de modo pleno -, o poder vitorioso da sua Ressurreição. O que são Paulo deseja? Viver na sua vida, na sua carne, nos seus dias, a Páscoa do Senhor. Deseja que seus sofrimentos e desafios estejam unidos aos de Cristo e sejam vividos em Cristo e no amor de Cristo para também experimentar na carne e na vida – na carne da vida! – a vitória de Cristo. Isto é conhecer Jesus Cristo! Não um conhecimento teórico, exterior, mas um conhecimento coração a coração, vida a vida, lágrima a lágrima, vitória a vitória! Este deve – deveria – ser o caminho normal de todo o cristão! Esta é a verdadeira ciência, que transcende qualquer outra ciência; esta, a verdadeira teologia, o verdadeiro conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo!
Está próxima a Páscoa, a festa dos cristãos! Nestes dias santíssimos, unamo-nos intimamente ao Senhor Jesus Cristo, deixemos que o Santo Espírito reproduza em nós os seus sentimentos de total confiança no Pai e total entrega amorosa aos irmãos, à humanidade. Sigamos o exemplo do Apóstolo: “Uma coisa eu faço: esquecendo o que ficou para trás, eu me lanço para o que está à frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus”. Cristo Jesus! Que nome tão doce, que consolo tão grande, que esperança tão certa, que prêmio tão imperecível. A ele – e só a ele – toda a glória e toda a honra!
dom Henrique Soares da Costa

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O termo justiça, na Bíblia, denota conformidade com um padrão. Significa amoldar-se à vontade de Deus com base na Escritura. Justiça, portanto, é a qualidade de estar conforme com o que Deus espera do ser humano. Basicamente, o justo é descrito como alguém que faz a vontade de Deus em relação ao outro. Os textos de hoje chamam a atenção sobre o que é a verdadeira justiça ou sobre o que agrada a Deus e lhe dá louvor.
Evangelho (Jo 8,1-11)
Ajustar-se à vontade de Deus é praticar a misericórdia
Os fariseus querem uma prova concreta para incriminar e prender Jesus. Este retorna ao templo para ensinar a multidão presente naquele lugar. Enquanto ensinava, os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério e, recorrendo à Lei de Moisés, inquiriram-lhe sobre que sentença daria (v. 6). Naquele tempo, o adultério não era considerado somente a relação sexual. Aquela mulher poderia apenas ter se insinuado para um homem e isso já a identificava como adúltera. Nesse contexto, uma pessoa pode adulterar sozinha (cf. Mt. 5,27; Jesus aplica essa lei também para o homem).
Os fariseus põem Jesus à prova, pois, de um lado, não poderia ficar contra a Lei, o que seria um pretexto para acusá-lo de blasfêmia, e, de outro, era de conhecimento público sua misericórdia para com os pecadores.
Jesus, de imediato, não responde, parece ignorá-los. Sabe que a preocupação de seus interlocutores, nesse momento, não é saber a vontade de Deus para ajustar-se a ela, mas apenas ter algo concreto para incriminá-lo. Quando insistem, Jesus responde de forma inesperada, modificando o enfoque da questão e os envolvendo no assunto: “Quem dentre vós não tiver pecado atire a primeira pedra”. Nessa reviravolta, Jesus não recusa o juízo de Deus, mas deseja que os fariseus o apliquem primeiramente a si mesmos. E, como o conceito de adultério era muito mais amplo naquela época que nos dias atuais, então os interlocutores já não têm como continuar com a acusação sobre a mulher, visto que também são culpados, ainda que não tenham sido surpreendidos anteriormente.
Não tendo como continuar, cada um vai embora, começando pelos mais velhos – os mais prudentes. Assim, Jesus fica a sós com a mulher e lhe dirige a palavra, perguntando se alguém a condenou. Diante da resposta dela, ele afirma que também não a condena. A mulher é despedida de forma imperativa por Jesus, que lhe ordena que não peque mais.
Jesus se revela, nesse episódio, como o enviado do alto que mostra o rosto misericordioso de Deus, mas também o seu juízo. A justiça do ser humano é, principalmente, condenatória, diferente do juízo de Deus. A justiça de Deus é feita de perdão e de orientação para a mudança de vida. Na atitude de Jesus para com a mulher pecadora, não se revela apenas a sua identidade messiânica e profética, posta em xeque pelos fariseus, mas manifesta-se, sobretudo, a fé da mulher que confiou no seu juízo e por isso saiu justificada. Também se revela a incredulidade dos que se recusam a enxergar o testemunho de Jesus, o enviado do Pai.
1º leitura (Is. 43,16-21)
Um povo para louvar o Deus misericordioso
O texto descreve o retorno do povo de Deus à terra prometida, depois do exílio na Babilônia, como um grande evento, comparável unicamente à travessia do mar durante a saída do Egito (vv. 16-17). Mas, no mesmo texto, Deus promete fazer coisas maiores ainda (vv. 18-19). O Senhor fará algo novo, e os eventos salvíficos do passado – embora não devam ser esquecidos, porque a revelação é progressiva – não devem ser lembrados numa perspectiva saudosista.
O Deus libertador que abriu um espaço no mar para o povo passar é o mesmo que fará um caminho no deserto. Isso não deve ser tomado ao pé da letra, mas compreendido como atos salvíficos de Deus em favor de seu povo.
Abrir um caminho no deserto, em vez de contorná-lo, significa que Deus tem urgência em fazer o povo voltar para a terra de sua herança. As caravanas que saíam da Babilônia em direção a Israel levavam muito tempo contornando o deserto.
Deus não se limitará a libertar o seu povo, mas cuidará dele como no passado, fazendo surgir rios no deserto, onde antes tinha feito brotar água da rocha. A repetição ampliada das maravilhas do êxodo do Egito é testemunha de que Deus escolheu e constituiu um povo (v. 20) para o seu louvor (v. 21).
Toda a criação é atingida pelos atos salvíficos de Deus em favor do ser humano. Isso é mostrado simbolicamente quando o autor afirma que os animais do deserto agradecem a Deus (v. 20) porque, na sua infinita misericórdia, o Senhor supre a sede do povo durante a viagem de volta à terra prometida.
Esse simbolismo do louvor dos animais está em contraposição ao louvor do ser humano endereçado a Deus. Na concepção bíblica, o verdadeiro louvor consistia em um sacrifício de ação de graças (Lv. 7,12) cujo aspecto fundamental era uma conduta reta, ajustada à vontade de Deus (Sl. 50,23). Palavras bonitas endereçadas a Deus, mas unidas a obras injustas, faziam o louvor não ser aceito (Sl. 50,13.23b).
2º leitura (Fl. 3,8-14)
A vida cristã é ajustar-se a Cristo
Paulo dirige-se aos filipenses para exortá-los a configurar suas vidas à de Cristo num perfeito ajustamento à vontade de Deus. Para reforçar suas palavras, o apóstolo usa a própria história de vida. Nos versículos anteriores ao texto da liturgia de hoje, ele faz uma lista de seus títulos dentro do judaísmo. A verdadeira intenção dessa postura do apóstolo é mostrar aos seus destinatários que a sua fé em Jesus Cristo o tinha levado a uma mudança radical de vida e de perspectiva. O encontro com o Ressuscitado o fez considerar de forma totalmente diferente tudo o que antes eram coisas importantes para si.
Paulo descobriu que conhecer e agradar a Deus é o mesmo que entregar-se a Cristo, viver como ele viveu e, se necessário for, morrer como ele morreu. Essa é a verdadeira justiça, que vem da fé, e não do legalismo.
Depois de ter se dado conta da riqueza que é a verdadeira justiça, ou seja, a configuração da própria vida à de Cristo, o apóstolo se conscientiza que ainda há longo caminho a percorrer, pois ainda não chegou à perfeição, isto é, à maturidade cristã. Contudo, sua união com Cristo o leva a avançar, tendo em vista esse alvo almejado. Essa união inclui uma participação nos sofrimentos de Jesus como parte do processo de maturidade cristã. Sofrimento é algo que todo ser humano sente, mas sofrer unido a Cristo significa ter uma participação também na sua ressurreição.
Trata-se de santidade ativa, ajustamento ao que Deus espera do ser humano por meio da configuração a Cristo. Não se trata de esforço para comprar a salvação mediante um relacionamento com Deus baseado na retribuição. Antes, significa uma resposta à salvação, dom de Deus, dada com a própria vida. Trata-se de fazer da própria vida um louvor agradável a Deus
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
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Deus lança longe de si o pecado do passado
Nas três leituras de hoje, encontramos o tema da libertação do passado. “No mais penseis nas coisas anteriores, não mais olheis o passado. Eis que faço algo novo; já está brotando. Não o enxergais? (Is. 43,18; 1ª leitura). Na visão do profeta acontecem um novo paraíso e um novo êxodo ao mesmo tempo, um caminho no deserto e os animais cantando o louvor de Deus: Israel volta do Exílio (Is. 43,19-20). O povo proclama o que Deus fez (43,20): “Quando o Senhor reconduziu os exilados de Sião, parecia um sonho” (Sl. 126[125];salmo responsorial).
“Eu esqueço o que fica atrás de mim e me estico para acatar o que tenho diante de mim”(Fl. 3,13; 2ª leitura): reflexão de Paulo, sempre mais próximo da morte (está na prisão) e de seu porto desejado. Pois diante dele está Cristo, que o salvou. Atrás dele fica uma vida de fariseu, que ele considera como esterco (3,8), porque o afastou da verdadeira justificação em Cristo Jesus. De fato, enquanto era fariseu, pretendia justificar-se a si mesmo pelas obras da Lei. Só depois que Cristo o “alcançou”, descobriu que  a justiça vem de Deus, que, em Cristo, concede sua graça aos que crêem. Para Paulo, conversão é bem outra coisa que voltar a viver decentemente – o bom propósito da Quaresma! É quase o contrário (pois, como fariseu, ele vivia “decentemente”). É deixar Deus estabelecer em sua vida uma nova escala de valores, tendo por centro um crucificado. Será que, para nós, o centro de nossa vida é o Crucificado ou apenas um crucifixo de ouro e marfim? Cristo pregou na cruz toda a auto-suficiência humana, para que acontecesse, sem empecilhos, a obra da graça de Deus. Será que nós crucificamos nossa auto-suficiência, nossa vontade de “nos recuperar” em vez de nos perder nos braços do Crucificado?
Quem já perdeu tudo tem maior facilidade para isso. O evangelho de hoje (um fragmento solto inserido no evangelho de João) nos apresenta uma pessoa que não tinha mais nada a perder senão a vida; e esta também já estava quase perdida, os “justos” já estavam com as pedras na mão para a apedrejar. Ela tinha sido apanhada em adultério! (Como ainda entre nós, hoje, também na antigüidade judaica o homem podia ter suas aventuras, a mulher, porém, não.) Os “justos” pedem a opinião de Jesus, pois tinha fama de liberal, e queriam apanhá-lo em contradição com a Lei. Jesus escreve algo na areia; a acusação, a sentença? Não o sabemos. E responde: “Quem não tem culpa, lance a primeira pedra”. E volta a escrever na areia. Os “justos” vão embora, a começar pelos mais velhos. (Espontaneamente, pensamos naqueles anciãos de Dn. 13, que, depois de ter acusado Suzana, tiveram de mostrar quanta hipocrisia e podridão a velhice tinha acumulado neles.) “Mulher, ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não peques mais”. O passado foi apagado, como as palavras na areia. Ela é nova criatura: de pecadora, tornou-se a que não peca mais. Se tivesse sido apedrejada, seria para sempre a pecadora apedrejada. Agora, ela é a “não mais pecadora”. Mas, para isso, era preciso que seu pecado fosse apagado; e isso, só Deus o podia fazer.
Procuremos reconhecer em nós esta experiência de Israel, de Paulo, da adúltera, a experiência de sermos estabelecidos em condições novas, por exemplo, por uma autêntica confissão (com restituição de injustiça cometida e todas as demais exigências). Notaremos que não fomos nós, que nos libertamos, mas a graça de Deus, pelo sinal eficaz de Cristo. Mas essa renovação pode chegar também por outros caminhos. Por um convite de participar numa comunidade que nos coloque num novo ambiente, numa nova solidariedade. Há muitas maneiras para Deus realizar sua nova criação. Demos-lhe uma chance.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Jesus é posto à prova
Neste quinto domingo da Quaresma, a liturgia da Palavra está centrada no apelo de não permitir que a recordação do passado impeça o progresso no caminho de Deus: ". esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente." (Fl. 3,13).
O evangelho descreve uma cena dramática: uma mulher pega em adultério está para ser apedrejada até a morte. O Levítico prescreve: "o homem que cometer adultério com a mulher do próximo deverá morrer, tanto ele como a mulher com quem cometeu o delito" (Lv. 20,10; ver também: Dt. 22,22-24).
Os escribas e os fariseus, que se dizem justos, são os que conduzem a mulher até Jesus. Mas onde está o homem envolvido no mal? De fato, a Lei de Moisés interditava o adultério (Ex. 20,14; Dt. 5,18), como eles diziam. A pergunta deles a Jesus é para colocá-lo à prova. O silêncio de Jesus revela o pecado dos acusadores - vão se retirando um a um. No face a face entre a mulher e Jesus, em que a verdade de cada um é iluminada, a palavra de Jesus liberta, mostra a misericórdia de Deus e abre um caminho novo: "Ninguém te condenou? Eu também não te condeno! Vai, e de agora em diante não peques mais" (vv. 10-11).
Carlos Alberto Contieri,sj
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A liturgia de hoje fala-nos (outra vez) de um Deus que ama e cujo amor nos desafia a ultrapassar as nossas escravidões para chegar à vida nova, à ressurreição.
A primeira leitura apresenta-nos o Deus libertador, que acompanha com solicitude e amor a caminhada do seu Povo para a liberdade. Esse “caminho” é o paradigma dessa outra libertação que Deus nos convida a fazer neste tempo de Quaresma e que nos levará à Terra Prometida onde corre a vida nova.
A segunda leitura é um desafio a libertar-nos do “lixo” que impede a descoberta do fundamental: a comunhão com Cristo, a identificação com Cristo, princípio da nossa ressurreição.
O Evangelho diz-nos que, na perspectiva de Deus, não são o castigo e a intolerância que resolvem o problema do mal e do pecado; só o amor e a misericórdia geram ativamente vida e fazem nascer o homem novo. É esta lógica – a lógica de Deus – que somos convidados a assumir na nossa relação com os irmãos.
1º leitura: Is. 43,16–21 - AMBIENTE
O Deutero-Isaías (autor deste texto) é um profeta anônimo, da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética entre os exilados. Estamos no séc. VI a.C., na Babilônia. Os judeus exilados estão frustrados e desorientados, pois a libertação tarda e Deus parece ter-Se esquecido do seu Povo. Sonham com um novo êxodo, no qual Jahwéh Se manifeste, outra vez, como o Deus libertador.
Na primeira parte do “livro da consolação” (Is. 40-48), o profeta anuncia a iminência da libertação e compara a saída da Babilônia e a volta à Terra Prometida com o êxodo do
Egito. É neste contexto que deve ser enquadrada a primeira leitura de hoje.
MENSAGEM
Este oráculo de salvação começa por recordar a “mãe de todas as libertações” (a libertação da escravidão do Egito). Mas evocar essa realidade não pode ser uma fuga nostálgica para o passado, um repousar inerte na saudade, um refúgio contra o medo do presente (se assim for, esse passado vai obscurecer a perspectiva do Povo, impedindo-o de reconhecer os sinais que já se manifestam e que anunciam um futuro de liberdade e de vida nova)… A lembrança do passado é válida quando alimenta a esperança e prepara para um futuro novo. Na ação libertadora de Deus em favor do Povo oprimido pelo faraó, o judeu crente descobre um padrão: o Deus que assim agiu é o Deus que não tolera a opressão e que está do lado dos oprimidos; por isso, não deixará de Se manifestar em circunstâncias análogas, operando a salvação do Povo escravizado.
De fato – diz o profeta – o Deus libertador em quem acreditamos e em quem esperamos não demorará a atuar. Aproxima-se o dia de um novo êxodo, de uma nova libertação. No entanto, esse novo êxodo será algo de grandioso, que eclipsará o antigo êxodo: o Povo libertado percorrerá um caminho fácil no regresso à sua Terra e não conhecerá o desespero da sede e da falta de comida porque Jahwéh vai fazer brotar rios na paisagem desolada do deserto. A atuação de Deus manifestará, de forma clara, o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Diante da ação de Jahwéh, o Povo tomará consciência de que é o Povo eleito e dará a resposta adequada: louvará o seu Deus pelos dons recebidos.
ATUALIZAÇÃO
♦ O nosso Deus é o Deus libertador, que não Se conforma com qualquer escravidão que roube a vida e a dignidade do homem e que nos pede, permanentemente, que lutemos contra todas as formas de sujeição. Quais são as grandes formas de escravidão que impedem, hoje, a liberdade e a vida? Neste tempo de transformação e de mudança, o que posso eu fazer para que a escravidão e a injustiça não mais destruam a vida dos homens meus irmãos?
♦ A vida cristã é uma caminhada permanente, rumo à Páscoa, rumo à ressurreição.
Neste tempo de Quaresma, somos convidados a deixar definitivamente para trás o passado e a aderir à vida nova que Deus nos propõe. Cada Quaresma é um abalo que nos desinstala, que põe em causa o nosso comodismo, que nos convida a olhar para o futuro e a ir além de nós mesmos, na busca do Homem Novo. O que é que, na minha vida, necessita de ser transformado? O que é que ainda me mantém alienado, prisioneiro e escravo? O que é que me impede de imprimir à minha vida um novo dinamismo, de forma que o Homem Novo se manifeste em mim?
2º leitura: Fl. 3,8–14 - AMBIENTE
A carta aos Filipenses é uma carta “afetuosa e terna” que Paulo escreve da prisão aos seus amigos de Filipos. Os cristãos desta cidade, preocupados com a situação de Paulo, enviaram-lhe dinheiro e um membro da comunidade (Epafrodito), que cuidou de Paulo e o acompanhou na solidão do cárcere. Com o coração cheio de afeto, Paulo agradece aos seus queridos filhos de Filipos; e, por outro lado, avisa-os para que não se deixem levar pelos “cães”, pelos “maus obreiros” (Fl. 3,2) que, em Filipos como em todo o lado, semeiam a dúvida e a confusão. Quem são estes? São ainda esses “judaizantes”, “os da mutilação” (Fl. 3,2), que proclamavam a obrigatoriedade da circuncisão e da obediência à Lei de Moisés.
O texto que nos é proposto insere-se nesse discurso de polêmica contra os adversários “judaizantes” (cf. Fl. 3). Paulo pede aos Filipenses que não se deixem enganar por esses falsos pregadores, super-entusiastas, que se apresentam com títulos de glória e que parecem esquecer que só Cristo é importante.
MENSAGEM
Ao exemplo e à pregação desses “judaizantes”, que alardeiam os mais diversos títulos de glória, Paulo contrapõe o seu próprio exemplo. Ele tem mais razões do que os outros para apresentar títulos (ele que foi circuncidado com oito dias; que é hebreu genuíno, filho de hebreus, da tribo de Benjamim; que foi fariseu e que viveu irrepreensivelmente como filho da Lei – cf. Fl. 3,5-6); mas a única coisa que lhe interessa – porque é a única coisa que tem eficácia salvadora – é conhecer Jesus Cristo. É claro que os termos conhecer econhecimento devem ser aqui entendidos no mais genuíno sentido da tradição bíblica, quer dizer, no sentido de “entrar em comunhão de vida e de destino” com uma pessoa. Aquilo que ele procura agora e que é o fundamental é identificar-se com Cristo, a fim de com Ele ressuscitar para a vida nova.
Os Filipenses – e, claro, os crentes de todas as épocas – farão bem em imitar Paulo e esquecer tudo o resto (a circuncisão, os ritos da Lei, os títulos de glória são apenas “prejuízo” ou “lixo” – v. 8). Só a identificação com Cristo, a comunhão de vida e de destino com Cristo é importante; só uma vida vivida na entrega, no dom, no amor que se faz serviço aos outros, ao jeito de Cristo, conduz à ressurreição, à vida nova.
Mais um dado importante: Paulo está consciente que partilhar a vida e o destino de Cristo implica um esforço diário, nunca terminado; é, até, possível o fracasso, pois o nosso orgulho e egoísmo estão sempre à espreita e o caminho da entrega e do dom da vida é exigente. Mas é o único caminho possível, o único que faz sentido, para quem descobre a novidade de Cristo se apaixona por ela. Quem quer chegar à vida nova, à ressurreição, tem de seguir esse caminho.
ATUALIZAÇÃO
♦ Neste tempo favorável à conversão, é importante revermos aquilo que dá sentido à nossa vida. É possível que detectemos no centro dos nossos interesses algum desse “lixo” de que Paulo fala (interesses materiais e egoístas, preocupações com honras ou com títulos humanos, apostas incondicionais em pessoas ou ideologias…); mas Paulo convida a dar prioridade ao que é importante – a uma vida de comunhão com Cristo, que nos leve a uma identificação com o seu amor, o seu serviço, a sua entrega. Qual é o “lixo” que me impede de nascer, com Cristo, para a vida nova?
♦ É preciso, igualmente, ter consciência de que este caminho de conversão a Cristo é um caminho que está, permanentemente, a fazer-se. O cristão está consciente de que, enquanto caminha neste mundo, “ainda não chegou à meta”. A identificação com Cristo deve ser, pois, um desafio constante, que exige um empenho diário, até chegarmos à meta do Homem Novo.
Evangelho – Jo 8,1-11 - AMBIENTE
Esta pequena unidade literária não pertencia, inicialmente, ao Evangelho de João: ela rompe o contexto de Jo. 7-8, não possui as características do estilo joânico e o seu conteúdo não se encaixa neste Evangelho (que não se interessa por problemas deste gênero). Além disso, é omitida pela maior parte dos manuscritos antigos; e as referências dos Padres da Igreja a este episódio são muito escassas. Outros manuscritos colocam-no dentro do Evangelho, mas em sítios diversos, por exemplo, no final do mesmo – como fazem algumas versões modernas da Bíblia. Numa série de manuscritos, encontramo-la no Evangelho de Lucas (após Lc. 21,38), que seria um dos lugares mais adequados, dado o interesse de Lucas em destacar a misericórdia de Jesus. Trata-se de uma tradição independente que, no entanto, foi considerada pela Igreja como inspirada por Deus: não há dúvida que deve ser vista como “Palavra de Deus”.
Seja como for, o cenário de fundo coloca-nos frente a uma mulher apanhada a cometer adultério. De acordo com Lv. 20,10 e Dt. 22,22-24, a mulher devia ser morta. A Lei deve ser aplicada? É este problema que é apresentado a Jesus.
MENSAGEM
Temos, portanto, diante de Jesus uma mulher que, de acordo com a Lei, tinha cometido uma falta que merecia a morte. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade de ouro para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei; para Jesus, trata-se de revelar a atitude de Deus frente ao pecado e ao pecador.
Apresentada a questão, Jesus não procura branquear o pecado ou desculpabilizar o comportamento da mulher. Ele sabe que o pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz… No entanto, também não aceita pactuar com uma Lei que, em nome de Deus, gera morte. Porque os esquemas de Deus são diferentes dos esquemas da Lei, Jesus fica em silêncio durante uns momentos e escreve no chão, como se pretendesse dar tempo aos participantes da cena para perceber aquilo que estava em causa. Finalmente, convida os acusadores a tomar consciência de que o pecado é uma consequência dos nossos limites e fragilidades e que Deus entende isso: “quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. E continua a escrever no chão, à espera que os acusadores da mulher interiorizem a lógica de Deus – a lógica da tolerância e da compreensão. Quando os escribas e fariseus se retiram, Jesus nem sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida: convida-a, apenas, a seguir um caminho novo, de liberdade e de paz (“vai e não tornes a pecar”).
A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas uma lógica de vida; a proposta que Deus faz aos homens através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova, à conversão, à transformação, à libertação de tudo o que oprime e escraviza; e destruir ou matar em nome de Deus ou em nome de uma qualquer moral é uma ofensa inqualificável a esse Deus da vida e do amor, que apenas quer a realização plena do homem.
O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar… os outros. Jesus denuncia, aqui, a lógica daqueles que se sentem perfeitos e auto-suficientes, sem reconhecerem que estamos todos a caminho e que, enquanto caminhamos, somos imperfeitos e limitados. É preciso reconhecer, com humildade e simplicidade, que necessitamos todos da ajuda do amor e da misericórdia de Deus para chegar à vida plena do Homem Novo. A única atitude que faz sentido, neste esquema, é assumir para com os nossos irmãos a tolerância e a misericórdia que Deus tem para com todos os homens.
Na atitude de Jesus, torna-se particularmente evidente a misericórdia de Deus para com todos aqueles que a teologia oficial considerava marginais. Os pecadores públicos, os proscritos, os transgressores notórios da Lei e da moral encontram em Jesus um sinal do Deus que os ama e que lhes diz: “Eu não te condeno”. Sem excluir ninguém, Jesus promoveu os desclassificados, deu-lhes dignidade, tornou-os pessoas, libertou-os, apontou-lhes o caminho da vida nova, da vida plena. A dinâmica de Deus é uma dinâmica de misericórdia, pois só o amor transforma e permite a superação dos limites humanos. É essa a realidade do Reino de Deus.
ATUALIZAÇÃO
♦ O nosso Deus – di-lo de forma clara o Evangelho de hoje – funciona na lógica da misericórdia e não na lógica da Lei; Ele não quer a morte daquele que errou, mas a libertação plena do homem. Nesta lógica, só a misericórdia e o amor se encaixam: só eles são capazes de mostrar o sem sentido da escravidão e de soprar a esperança, a ânsia de superação, o desejo de uma vida nova. A força de Deus (essa força que nos projeta para a vida em plenitude) não está no castigo, mas está no amor.
♦ No nosso mundo, o fundamentalismo e a intransigência falam frequentemente mais alto do que o amor: mata-se, oprime-se, escraviza-se em nome de Deus; desacredita-se, calunia-se, em razão de preconceitos; marginaliza-se em nome da moral e dos bons costumes… Esta lógica (bem longe da misericórdia e do amor de Deus) leva-nos a algum lado? A intolerância alguma vez gerou alguma coisa, além de violência, de morte, de lágrimas, de sofrimento?
♦ Quantas vezes nas nossas comunidades cristãs (ou religiosas) a absolutização da lei causa marginalização e sofrimento. Quantas vezes se atiram pedras aos outros, esquecendo os nossos próprios telhados de vidro… Quantas vezes marcamos os outros com o estigma da culpa e queimamos a pessoa em “julgamentos sumários” sem direito a defesa… Esta é a lógica de Deus? O que nos interessa: a libertação do nosso irmão, ou o seu afundamento?
♦ Neste caminho quaresmal, há duas coisas a considerar: Deus desafia-nos à superação de todas as realidades que nos escravizam e sublinha esse desafio com o seu amor e a sua misericórdia; e convida-nos a despir as roupagens da hipocrisia e da intolerância, para vestir as do amor.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra
A liturgia que neste fim de semana vamos celebrar, mostra-nos que o passado não pode ser um peso a atrapalhar a nossa caminhada. É preciso esquecer o que ficou para trás e lançar-se, com o entusiasmo de São Paulo, à construção do nosso futuro (2ª leitura). Um futuro sempre promissor como o profeta Isaías faz ver a seu povo que ficava chorando a liberdade perdida e não percebia nem acreditava no futuro que Deus estava lhe preparando (1ª leitura). É isto que Jesus faz com a mulher adúltera (evangelho). Oferecendo-lhe o perdão do seu passado, infunde nela o ânimo e a confiança necessária para levantar-se e caminhar à procura de uma nova vida.
1ª leitura: Isaias 43,16-21
Fazendo uma comparação com o êxodo do Egito, Isaías fala da nova libertação da escravidão da Babilônia como um acontecimento tão grandioso quanto aquele. Os exilados voltarão para a sua terra por uma estrada no deserto, agora transformado em oásis. O povo liberto será testemunha da ação de Deus em sua nova história.
Neste texto, o profeta Isaías manda esquecer o sofrimento do passado e abrir os olhos para o futuro porque Deus está “fazendo uma coisa nova” como expressão do seu perdão e da sua misericórdia e nada há que possa segurar o seu desejo de salvação para com o povo de Israel e, por extensão, com a humanidade toda.
É uma palavra que serve para nós hoje. Seremos capazes de descobrir o lado positivo do mundo em que vivemos ou ficaremos pensando que o passado sempre foi melhor? Deus, pela boca do profeta, nos chama a ser pessoas de esperança que olham para o futuro com confiança.
2ª leitura: Filipenses 3,8-14
Paulo contrapõe dois modos de vida diferentes entre si: o “velho” (a Lei de Moisés) e o “novo” (a lei do amor proclamada por Jesus). Para Paulo a nova forma de vida vem dada pelo “conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo” que aparece com toda sua força quando experimentamos seu amor.
Aderir a Cristo leva consigo a renúncia à auto-suficiência. Ele mesmo, Paulo, um rabino fariseu observante da Lei de Moisés, reconhece que a salvação e a justiça (“aquela justiça que vem de Deus e se apóia sobre a fé”) não dependem das obras da Lei mas, da fé em Jesus e de uma vida movida pelo Espírito, como dom de Deus.
A vida de Paulo mudou depois do seu encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco e agora só deseja “conhecer a Cristo” não com um conhecimento teórico, mas como uma experiência profunda de comunhão de vida com o Senhor ressuscitado (“o poder da sua ressurreição e a comunhão em seus sofrimentos, para tornar-me semelhante a ele em sua morte, a fim de alcançar,... a ressurreição dos mortos”). O resto é “tudo como lixo”, comparado com Jesus Cristo. Ele, além de ser o motivo do cambio radical na vida do apóstolo, é a meta onde se dirige “a fim de ganhar Cristo e estar com ele”.
Para ninguém pensar, porém, que já alcançou seu objetivo e chegou à perfeição, não duvida em usar uma metáfora esportiva comparando sua existência com uma corrida de obstáculos para alcançar um prêmio que nunca ninguém pensou conseguir (“lanço-me em direção à meta, em vista do prêmio do alto, que Deus nos chama a receber em Jesus Cristo”). Eis aqui um belo exemplo do que deve significar Cristo para todos nós!
Evangelho: João 8,1-11
O evangelho deste Domingo nos apresenta uma das passagens mais belas sobre a atitude de Jesus para com os pecadores. Ao longo do seu ministério Jesus teve sempre uma atitude acolhedora e misericordiosa para com eles, mas no evangelho de hoje deixa bem claro que, para julgar alguém por causa do pecado, é preciso estar livre dele. É por isso que só Deus pode julgar.
Os doutores da Lei e os fariseus estavam usando aquela mulher “para pôr Jesus à prova e ter um motivo para acusá-lo”. Se Ele fosse coerente com o que pregava teria que colocar-se contra o cumprimento da Lei e seria condenado. Se Ele aceitasse a condenação da mulher, ficaria desautorizado diante do povo que o admirava por revelar um Deus de amor e misericórdia. Uma armadilha perfeita. Pensavam que não tinha saída.
Jesus nem olha para eles, nem responde (“inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo”), não se pronuncia contra o castigo pelo adultério que estava prescrito na Lei de Moisés. Diante da insistência deles, porém, decide pronunciar a sentencia. Mas não contra a mulher, e sim, contra cada um deles («Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra»). Se for para cumprir a Lei, que se cumpra para todos: também para os homens adúlteros. Por que seria condenada só a mulher?
Numa sociedade machista como aquela, com uma só frase Ele virou o jogo transformando os acusadores em acusados, colocando-os ante o tribunal da própria consciência. Não precisou dizer mais nada. O efeito foi devastador: ficaram mudos e “foram saindo um a um” (conheciam muito bem os podres uns dos outros como para alguém ter a coragem de atirar a sua pedra). Com certa ironia, o evangelista comenta que foram saindo de fininho, “começando pelos mais velhos”. Dá para ver que a hipocrisia tinha deitado raízes naquele grupo curtido de fanáticos.
Chega, por fim, a hora da verdade. A mulher adúltera fica sozinha na frente do Senhor, o único que poderia condená-la por ser isento de pecado. Agora é quando Jesus encontra realmente a mulher. Ela levanta os olhos e vê alguém que olha para ela de forma diferente. Não é o olhar de cobiça ou de condenação a que estava acostumada. É um olhar de misericórdia, amor e compreensão porque Ele não veio condenar e sim salvar (só há salvação onde há misericórdia e perdão). Nesse momento, Ele proclama a lei do perdão e da misericórdia: “Eu não a condeno”. Perdoando, Jesus mostra que acredita na pessoa e lhe dá motivos de esperança. A adúltera deve a própria salvação ao olhar de Jesus que a chama a uma nova vida: “pode ir, e não peque mais”. Isto desperta tudo de bom que existe nela, suas possibilidades, seu verdadeiro valor. O olhar de Jesus salvou a mulher tanto das pedras quanto dela mesma.
Palavra de Deus na vida
A questão da mulher adúltera, certamente colocou Jesus num sério aperto. Mas Ele reage de uma forma surpreendente (“inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo”). Estaria reproduzindo simbolicamente as palavras do profeta? (“Todos aqueles que... se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram Javé, a fonte de água viva” - Jeremias 17,13). A sentença que Ele pronuncia a seguir é um dardo que vai direto à consciência deles e de cada um de nós: «Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra». Antes de “atirar pedras” é preciso examinar o próprio comportamento e a própria consciência.
Quem somos nós para julgar alguém? Mesmo assim, existe em nós uma certa tendência de atirar pedras nos outros! Pensamos que podemos ser juízes de alguém por sermos melhores do que ele? Às vezes nem o somos; mas, lá no fundo, precisamos de um «bode expiatório» que nos permita projetar sobre ele a nossa má consciência. Isto nos causa um alivio danado. É fácil observar como aqueles que gostam de julgar e condenar escondem muita podridão dentro de si, mesmo que se digam “bons católicos” e “gente religiosa”. E o que se diz do individuo, pode se dizer da sociedade em que vivemos. Estes «bodes expiatórios» tem diversos nomes, mas o esquema é sempre o mesmo.
Jamais um cristão pode alimentar em seu coração o desejo de condenar alguém. É preciso esgotar todos os meios para reerguer, com todo respeito, àquele que pensamos estar caído e restaurar sua vida. Não há coisa pior do que a crítica destrutiva, nada mais cruel do que comentar pelas costas os erros do nosso irmão. A única atitude construtiva é o olhar de misericórdia sobre aquele que erra. A única palavra possível é a voz amiga que convida à mudança de vida, alimenta a esperança e estende a mão para ajudar. Juiz dos outros, somente Deus!
Pensando bem...
+ Normalmente caminhamos entre dois extremos. Quando queremos ser tolerantes com os outros, facilmente caímos no relativismo ético do “vale-tudo”. Quando não queremos vacilar em nossos princípios, tornamo-nos duros com as pessoas, faltando ao preceito do amor ao próximo. O pior é que costumamos ser tão tolerantes conosco quanto intransigentes com os outros!...
Para encontrar o termo médio, que tal a famosa frase de santo Agostinho: “Devemos odiar o pecado, mas amar o pecador”?
+ Meditemos nas palavras de José Antonio Pagola: «O que está na origem e na raiz de toda a ação de Jesus, o que inspira e configura toda a sua vida é sempre o amor compassivo. Vive compenetrado pela misericórdia: se compadece com a dor e o sofrimento do povo, sofre com as pessoas e transforme esse sofrimento em principio interno de sua ação».
Teus desenhos, Senhor...
Teus desenhos no chão tiveram um efeito surpreendente, Senhor.
o círculo moralista e acusador se quebrou e pela primeira vez,
a sós contigo, me senti livre.
Teus desenhos no chão foram o espelho que me fizeram ver o meu rosto triste;
meu ser pobre e vacilante, meus medos de sempre.
Teus desenhos no chão criaram em mim um silêncio penetrante,
pois desvelaram a trágica parodia em que vivemos
quando pensamos ser melhores do que os outros.
Teus desenhos no chão devolveram-me a dignidade perdida,
quando teu dedo suave e firme desenhou meu novo rosto sorridente.
Depois te levantaste serenamente e me olhaste nos olhos,
me beijaste e me disseste: vá e vive..!
Não me atrevi a abraçar-te, mas levo teus desenhos tatuados em mim para sempre. (F.Ulibarri)
padre Ciriaco Madrigal
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Não são as pedras, mas o amor que dá vida nova
A “vida nova” é o tema das três leituras deste domingo. Já a anunciava o profeta Isaías (I leitura) ao exilados de Babilónia anunciando o regressa à pátria: “Eis que eu faço uma coisa nova: agora mesmo começa a germinar”. A promessa era acompanhada por dois sinais eloquentes: uma estrada no deserto e rios de água na estepe (v. 19). Para Paulo (2ª leitura) a vida nova é uma pessoa, Cristo Jesus, o único tesouro, perante o qual tudo o resto é lixo (v. 8). É Ele a única meta a conquistar, correndo com todo o esforço possível. Paulo sente este compromisso, não como um peso, mas como uma resposta de amor para com Cristo que o tinha conquistado (v. 12.14). É por isso mesmo que deseja anunciá-lo a todos.
“Ao amanhecer” (Evangelho), na esplanada do templo de Jerusalém, teve início uma vida nova também parta uma mulher “surpreendida em flagrante adultério” (v. 4). Uma mulher a lapidar segundo a lei, atirada para ali como um farrapo à frente de Jesus, única acusada de um crime que, por definição supõe um cúmplice se, porém, se volatilizou... Jesus salva-a das pedras com atitudes surpreendentes, que levam a uma completa mudança de situação: antes de mais, o silencio que desarma, da parte de Jesus, depois aqueles sinais (historicamente) indecifráveis no chão (v. 6.8), e finalmente o desafio a atirar a primeira pedra (v. 7), desmascarando toda a hipocrisia daqueles acusadores legalistas com corações de pedra.
Ao fim, a mulher e Jesus ficam sós: ‘a miséria e a misericórdia’, comenta S. Agostinho. Jesus fala à mulher: ninguém tinha falado com ela, tinham-na arrastado com empurrões e acusações. Fala-lhe, não com a linguagem da rua, mas com respeito, reconhecendo a sua dignidade: chama-a ‘mulher’, como costumava chamar a sua mãe (Jo 2,4; 19,26). Jesus distingue entre ela – mulher frágil, por certo – e o seu erro, que Ele não aprova: o adultério é e continua a ser um pecado (Mt 5,32), mesmo no caso de um desejo desonesto (Mt. 5,28; e o IX mandamento). Jesus condena o pecado mas não a pecadora; não se limita a analisar o passado, mas lança de novo a vida, abre de novo ao futuro. O centro da narração não é o pecado, mas o coração de Deus que quer que nós vivamos. É esta a imagem de Deus-amor que Jesus quer dar a conhecer: que a mulher experimente que Deus a ama assim como ela é. Deste modo, a mulher, sentindo-se respeitada, amada e protegida, é capaz de acolher o convite de Jesus a não voltar a pecar (v. 11). O amor é o primeiro, o único mandamento. Deus salva amando. Só o amor é capaz de converter e salvar!
Este texto ‘incómodo’ do Evangelho teve uma histórica difícil: é omitido em vários códices antigos, e é deslocado em outros. Há mesmo quem pense que o autor não seja João, mas Lucas, dado o seu estilo e a mensagem muito semelhante à “parábola do padre misericordioso” (ver Lucas 15), no Evangelho do Domingo passado), com vários personagens: a mulher, no papel do filho mais novo; os escribas e os fariseus em linha com o filho mais velho; e Jesus que entra perfeitamente no papel do Pai. Tal possibilidade é sublinhada também por um autor moderno: “Texto insuportável, que falta em vários manuscritos. A consciência moral e também a consciência religiosa dos homens não pode admitir que Cristo se recuse a condenar a mulher... Foi surpreendida em flagrante delito; cometeu um dos pecados mais graves que  Lei conheça... Cristo confunde os acusadores recordando-lhes a universalidade do mal: também eles, espiritualmente, são adúlteros; também eles, de um ou de outro modo atraiçoaram o amor. ‘Quem estiver sem pecado...’ Ninguém está sem pecado, e ele conclui dizendo: «Vai, e não voltes a pecar»: uma frase que abre um futuro novo” (Ollivier Clément).
Este texto evangélico constitui uma página intensa de metodologia missionária para o anúncio, a conversão, a educação à fé e aos valores da vida. O amor gera e regenera a pessoa, torna-a livre; Jesus educa ao amor vivido na liberdade e na gratuidade. Somente com estas condições se compreende porque devemos deixar cair as pedras que trazemos nas mãos para atirar contra os outros. O fato que sejam os mais velhos quem começa a ir embora (v. 9) revela neles um sentido de culpa, de vergonha, mostra que entenderam a lição? Enfim, fica bem claro que quem luta pela igualdade de oportunidades entre a mulher e o homem, seja qual for o contexto específico, encontra em Jesus um precursor ideal, um pioneiro e um aliado.
padre Romeo Ballan
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«A conversão nunca é de uma vez para sempre, mas é um processo, um caminho interior de toda a nossa vida. Este itinerário de conversão evangélica certamente não pode limitar-se a um período particular do ano: é um caminho de cada dia, que deve abraçar toda a existência, todos os dias da nossa vida. Nesta óptica, para cada cristão e para todas as comunidades eclesiais, a Quaresma é a estação espiritual propícia para se treinar com maior tenacidade na busca de Deus, abrindo o coração a Cristo. Santo Agostinho certa vez disse que a nossa vida é uma única prática do desejo de nos aproximarmos de Deus, de nos tornarmos capazes de deixar entrar Deus no nosso ser» (Bento XVI - Audiência geral ao início da Quaresma, quarta-feira de Cinzas, 21.2.2007)
1º leitura: Is. 43,16-21
Estamos em pleno exílio babilônico e o profeta anônimo (Deutero-Isaías por volta do ano 550) procura reanimar as esperanças de retorno à Pátria. Ciro está conseguindo vitórias e mais vitórias sobre os caldeus. O profeta interpreta o fato à luz da fé. O Senhor, Criador, Redentor e Rei de Israel está se servindo do seu servo Ciro para libertar Israel (cf. vv. 14-15).
Os vv. 16 - 17 são memórias das ações libertadoras de Javé. O v. 16 lembra a passagem pelo Mar Vermelho. O v. 17 alude à destruição do exército do faraó que perseguia os israelitas.
O v. 18 curiosamente convida a esquecer o passado. Por quê? Porque o que Javé vai fazer agora é uma coisa nova, muito mais fantástica do que as maravilhas do Êxodo. É aqui no v. 19 e seguintes que o profeta reanima as esperanças dos exilados. Esta coisa nova já começou a acontecer. As conquistas de Ciro são um pré-anúncio. No Êxodo o deserto foi cruel e hostil ao povo. Javé vai abrir uma entrada no deserto e vai fazer correr rios no sertão.
Diante dessas maravilhas em favor de Israel até os animais selvagens darão glória a Javé, pois dando água para fazer matar a sede do seu povo Javé favorece toda a criação, renovando a vida. O v. 21 profetiza também o louvor de Israel para com seu criador.
As ações de Javé são imprevisíveis. Nesse sentido devemos rezar e alimentar nossas esperanças. Se Javé se serviu de Ciro, não poderia também servir-se do novo governo para restaurar nossas estradas, suscitar vida nas favelas, despertar esperanças para os excluídos? Como poderemos ser instrumentos nas mãos de Deus?
2º leitura: Fl. 3,8-14
Poderíamos dividir a carta aos filipenses em três bilhetes que mais tarde foram apresentados pela comunidade como se fosse uma só carta.
1) 4,10 - 20 - bilhete de agradecimento.
2) 1,1-3-1a + 4,2-7 + 4,21-23 - exortações à unidade e notícias pessoais.
3) 3,1b - 4,1 + 4,8-9 - ataques aos falsos doutores.
Nosso texto, portanto faz parte do terceiro bilhete. Havia um grupo de cristãos que vinham do judaísmo e queria judaizar o cristianismo. Eles são chamados judaizantes. Eles queriam forçar a comunidade a seguir as leis judaicas. Paulo critica o rito da circuncisão na carne e dá um sentido espiritual à circuncisão. Os judeus-cristãos que ainda se preocupam com a circuncisão são comparados aos pagãos que eram chamados de cães.
O ponto de referência da vida do cristão é Cristo e não a Lei de Moisés. Por isso Paulo descreve seu passado irrepreensível segundo a Lei. Mas afirma que, depois que ele conheceu Jesus Cristo, seu passado perdeu o sentido. Pode até ser considerado como uma perda. Nada é maior e mais importante que o conhecimento que agora ele possui de Jesus Cristo.
Aliás, diante de Jesus Cristo tudo que ele conquistou antes pode ser considerado como lixo desprezível. O mais importante agora é ganhar Jesus Cristo, mas não com a justiça da Lei e sim pela justiça que vem de Deus através da fé em Jesus Cristo.
Paulo agora, dizem os vv. 10 e 11, topa tudo por causa de Jesus Cristo, quer até mesmo enfrentar sofrimento e morte iguais aos de Jesus para alimentar sua esperança e também participar com Jesus da ressurreição dos mortos. Usando a imagem do atleta que corre para alcançar o prêmio, Paulo deixa claro que já foi conquistado por Cristo, mas a perfeição é uma meta que está no fim da corrida. O importante para Paulo não é gloriar-se das conquistas já alcançadas, mas continuar a correr. E para você o que é importante? Entrar em campo ou ser espectador ou, quem sabe, atleta aposentado?
Evangelho: Jo 8,1-11
Jesus está de manhãzinha ensinando no Templo. O Templo se torna símbolo da exclusão de Jesus e de todos os excluídos da sociedade e da religião judaica. Para excluir Jesus os senhores do Templo (fariseus e doutores da lei) condenam uma adúltera que pelo adultério deveria ser excluída, juntamente com o adúltero, não somente da religião, mas até mesmo da vida através de pedradas. Era a Lei. Eles queriam saber a opinião de Jesus (v. 5). Mas para eles a adúltera já está condenada. Eles queriam servir-se dela para condenar também a Jesus (v. 6). Diante da pergunta Jesus se inclina e escreve com o dedo no chão. Depois Jesus se ergue e com voz de quem conhece profundamente as fraquezas humanas, com o coração de quem veio para acolher, perdoar e não condenar, Jesus diz solenemente: "Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra". Esta frase pulveriza os corações de todos aqueles que ainda não vivem estas sentenças lapidares de Jesus: "Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados, perdoai e sereis perdoados" (Lc. 6,37). Os pretensos juízes da excluída são incluídos na categoria de réus. E devagar foram saindo conscientes de seus pecados. O texto ainda precisa que os mais velhos saíam primeiro. Sozinhos, Jesus e a mulher começam o diálogo libertador. Jesus se levanta e pergunta: "Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?". A esta pergunta a mulher provavelmente ergue a cabeça e não vendo ninguém responde admirada: "Ninguém, Senhor!". O círculo opressor que oprimia e queria condenar havia-se desfeito. Entretanto restava diante da mulher uma única pessoa que isenta de todo o pecado poderia condená-la. Só que Jesus ficou não para condenar, mas para absolver, resgatar e salvar. É o coração do Pai misericordioso que fala por Jesus: "Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais". Jesus condena o pecado, não o pecador. Como o mundo seria diferente se aprendêssemos a lição de Jesus?
dom Emanuel Messias de Oliveira
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A alegria no Deus da misericórdia
"Vai e não tornes a pecar"
Antes de entrar na grande semana da nossa Redenção, o Domingo V da Quaresma oferece-nos, nas suas leituras, essa dimensão inaudita e irrepetível do que é o projeto de salvação a nosso respeito. Do livro de Isaías, da Carta aos Filipenses ao Evangelho de João emanam os tons mais íntimos do projeto de Deus que quer renovar todas as coisas, que perdoa até ao fundo do ser sem qualquer outra contrapartida que não seja a maior disponibilidade humana.
1ª leitura: Isaías 43,16-21
Memória libertadora
1. O texto de Isaías recorda o momento culminante da atuação de Deus no Antigo Testamento: a libertação do Egito. Aqui, já sabemos, o povo escravo recebeu a identidade na sua liberdade. É este o credo da sua fé que se repete de geração em geração. Não há nada mais importante para o povo de Deus do que recordar essa proeza divina libertadora. Pois bem, isto é apenas o começo do que Deus quer fazer por nós, pela humanidade, pela história. E Deus quando promete uma coisa cumpre-a. Será essa linguagem simbólica da libertação, da passagem no mar, da água e do maná no deserto - o que se quiser -  para anunciar o que de novo que nos vai fazer.
2. Recordar o passado é bom, não para a nostalgia, mas precisamente para nos renovarmos. É exatamente isto que o Deutero-Isaías propõe. As raízes estão fielmente no passado e não se pode cortar a trama da história de um povo, de uma religião que, na sua essência, é libertadora. Um povo sem história é um povo sem raízes. Mas a memória, para ser autêntica, deve construir-se e ler-se em chave profética, e não exatamente jurídica ou nostálgica. Quando nós, os cristãos, lemos a história de Jesus e a intervenção de Deus na sua vida e, muito especialmente, na sua morte, fazemos memória profética que mostra que o Deus de Israel, o Deus do Egito não adormeceu, mas está sempre a conceder vida onde nós, os homens, semeamos escravidão ou tragédias. 
2ª leitura: Filipenses 3,8-14
A verdadeira experiência do Senhor
1. Esta é uma das passagens mais íntimas e pessoais do apóstolo Paulo, que nos fala do que é para ele "ter conhecido a Cristo"; por Ele, tudo lhe parece uma perda, por Ele, tudo o que neste mundo é brilho, a ele, Paulo, parece esterco. O curioso é que um capítulo tão decisivo como este da carta aos Filipenses se preste a umas certas dúvidas sobre a autenticidade: é de Paulo? Não é, mas então, será outra carta diferente da que temos vindo a ler desde Fl. 1,1-3, 1a? Eu inclino-me claramente para a hipótese de ser uma carta diferente da que se pode ler até 3,1a… Desde logo, a mudança de tom que se produz em 3 1b não é justificável com o tom íntimo de todo o texto anterior da carta. Mas, daí a pensar que Paulo não está a falar com estas palavras, as da leitura de hoje, no meu entender, não se justificaria. É um retrato muito pessoal, muito decisivo, das suas opções, da sua conversão, de como deixou de ser um fanático da Lei, para ser um "enamorado" de Cristo, da sua paixão e da sua ressurreição. Não temos uma descrição do que Paulo sentiu na sua alma ao "converter-se" e muitos autores nos dizem que esta é a melhor estampa do que o apóstolo experimentou na sua alma ao passar do judaísmo ao cristianismo.
2. Conhecer a Cristo, o seu Evangelho, viver no horizonte da fé pascal é ter encontrado o sentido da sua vida e da felicidade por que lutou no judaísmo. Agora, diz Paulo, tudo é diferente: não tem que parecer nem justificar-se a si mesmo, nem tentar ser o primeiro ou o melhor…isso não vale nada. Isso era o que vivia antes da sua conversão, chegando mesmo a perseguir os cristãos para ser o primeiro dos judeus, como bom discípulo rabínico. Ter "conhecido" Cristo é ter experimentado a força do amor de Deus. Não esqueçamos que "conhecer" não tem aqui o sentido de gnosis ou conhecimento intelectual, mas o sentido bíblico de yd ' e o daat Eloim dos profetas.
(Os. 4,1.6; 5,4; Jr. 2,8; 4,22; 9,2.5 em oráculos de ameaça ou de salvação: Os. 2,22; Jr. 31, 34 ou Is. 28, 8) é a experiência de Deus, do que é santo ou a mesmo a experiência do amor entre homem e mulher. Agora, tem sentido a verdadeira libertação de tudo o que mata e escraviza neste mundo.
Evangelho: João 8,1-11
O Deus da dignidade dos pequenos
1. A passagem da mulher adúltera (muito provavelmente um texto de Lucas que na passagem e transmissão dos textos passou ao Evangelho de João) é uma peça fundamental da vida; é uma lição que nos revela de novo por que é que Paulo se referia ao Senhor ressuscitado; neste Senhor estava bem presente o Jesus de Nazaré da passagem evangélica. O livro do Levítico diz: se um homem comete adultério com a mulher do seu próximo, ambos serão castigados com a morte (Lv. 20,10). E o Deuteronômio, por seu lado, exige: levá-los-eis aos dois às portas da cidade e aí serão lapidados até morrerem (Dt. 22,24). Estas eram as penas estabelecidas pela Lei. Não podemos duvidar de que Deus nunca exigiu isto, mas a cultura da época impunha tais castigos como exigência moral. Jesus não podia estar de acordo com tal: nem com as leis de lapidação e morte nem com a ignomínia de somente o ser mais débil ter de pagar publicamente. A leitura "profética" que Jesus faz da Lei mostra uma religião e uma moral sem coração e sem entranhas. Jesus não mandou buscar o "companheiro" para que juntos pagassem. O que indigna Jesus é a dureza de coração dos fortes que oculta no puritanismo a aplicação de uma lei tão injusta quanto desumana.
2. Vemos uma mulher indefesa a enfrentar sozinha a ignomínia da mentira e da falsidade. Onde estava o seu companheiro de pecado? Será que só os fracos – e, neste caso, uma mulher – é que são os culpados? Para Deus - e assim o entende Jesus - não se trata de procurar os culpados, mas de refazer a vida, de encontrar uma saída em direção à libertação e à graça. Os poderosos deste mundo, em vez de curarem e salvarem, cuidam de condenar e castigar. Mas o Deus de Jesus sente uma verdadeira alegria quando pode exercer a sua misericórdia. Porque a justiça de Deus, muito diferente da Lei, realiza-se na misericórdia e no amor consumado. Aqui está onde Deus se sente justo com os seus filhos. Adivinhamos que na consciência mais pessoal Jesus sente, neste momento, sem o dizer, como é que Ele tem de fazer a vontade divina. A isso o obrigaram os poderosos, como em Lc. 15,1 O obrigaram a justificar por que comia com publicanos e pecadores. Jesus perdoa o seu pecado (que ninguém se escandalize com a sua permissividade), mas enfrenta, de forma diferente, a situação e o próprio pecado.
3. Jesus ouve, atento, as acusações daqueles que tinham encontrado a mulher que perdia a dignidade com um qualquer (provavelmente estava entre os acusadores, mas como era homem, parece que tinha direito de acusar), e o que nos ocorre é precisamente que Ele quer que essa dignidade lhe seja devolvida para sempre. É isso que Deus faz constantemente com os seus filhos. Assim se explica, pois, o que dizia o livro de Isaías que tudo será pequeno com o que Deus vai oferecer aos homens. São estas pequenas coisas que desvalorizam as atuações do passado, mesmo que seja a libertação do Egito. Porque o Deus da libertação do Egito tem de ser eternamente libertador para cada um, na sua circunstância pessoal. É o que sucede no caso concreto da mulher da passagem do Evangelho de hoje. De nada lhe valia a ela se falasse do Deus libertador do Egito, se os escribas, os responsáveis, a deixassem sozinha para sempre. Jesus é, pois, o melhor intérprete do Deus da libertação que tem piedade e escuta os clamores e os sofrimentos dos que padecem de todo o peso de uma sociedade e de uma religião sem misericórdia.
4. Qual o significado de "aquele que está livre de pecado atire a primeira pedra"? Por que é que Jesus reage assim? Não podemos imaginar que os que levam a mulher são todos maus ou, inclusivamente, adúlteros. Não é isso. Mas sim pecadores de uma ou outra forma. Então, se todos somos pecadores, por que é que nos sentimos mais humanos a julgar os outros? Não, não é uma questão de haver pecados e pecados. É verdade que há. Mas porque muito simplesmente quando é o nosso pecado, todos queremos perdão e misericórdia. Os grandes pecados também pedem misericórdia e, desde logo, nenhum pecado, perante Deus, exige a morte. Portanto, deveríamos fazer uma leitura humana e teológica. Toda a religião que exige a pena de morte para os pecados… deixa de ser uma verdadeira religião, porque Deus não quer a morte do pecador. Isto deveria ser uma conquista absoluta da humanidade.
fray Miguel de Burgos Núñez
tradução de Maria Madalena Carneiro
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Um olhar que ama
A mulher caiu sob o olhar do Homem, daquele Homem que não era como os outros. O caso não foi mais além, mas podia ter isso muito longe. A luz daqueles olhos é o único tribunal. Mas atenção! O que aconteceu àquela mulher pode acontecer-nos a nós também - e acontecerá mais cedo ou mais tarde . É, aliás, esta a moral deste episódio do Evangelho e o fundamento de toda a moral defensável.
Sim, a única coisa importante e decisiva que nos pode acontecer é cair sob o olhar de Jesus Cristo. O que é preciso temer dia e noite até ao fundo do nosso ser e com um temor de amor, não é bem o inferno dos nossos medos e fantasmas – esse inferno tão carnal de que Ele se ri baixinho - mas a inocente nudez do olhar de Jesus Cristo, e o veredicto desta Luz que nos atravessa de um lado ao outro e nos examina.
 De temer, o fato de sermos feridos por essa Luz de amor e arriscarmo-nos a separar-nos dela, desde o instante em que nos crermos justos e cometermos aquele atentado que é a violência do poder, a qualquer nível.
Jesus vai olhar para nós, Jesus olha-nos neste momento a olho nu, e é assim, sem nenhum aparato, sem nenhum espalhafato, o julgamento final.
ir. François Cassingena-Trévedy, O.S.B
Marie-dominique moliné, O.P.
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A mulher pecadora
Iniciemos essa reflexão com as palavras do papa emérito Bento XVI: “O trecho evangélico narra o episódio da mulher adúltera, em duas cenas sugestivas: na primeira, assistimos a uma disputa entre Jesus, os escribas e os fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante e, segundo a prescrição contida no livro do Levítico (20,10), condenada à lapidação. Na segunda cena, descreve-se um breve e comovedor diálogo entre Jesus e a pecadora”.

Versículos 1-2
“Dirigiu-se Jesus para o monte das Oliveiras. Ao romper da manhã, voltou ao templo e todo o povo veio a ele. Assentou-se e começou a ensinar”.
“Cristo assentou-se e começou a ensinar” – O Catecismo (427) diz que “só Cristo ensina. Todo e qualquer outro o faz apenas na medida em que é seu porta-voz, consentindo em que Cristo ensine pela sua boca [...]. Todo o catequista deveria poder aplicar a si próprio a misteriosa palavra de Jesus: “A minha doutrina não é minha, mas d’Aquele que Me enviou” (Jo 7,16)”.
O beato João Paulo II disse que “também nós somos convidados, especialmente durante este tempo da Quaresma, a deixar-nos conquistar pelo Senhor: pelo fascínio da Sua palavra de salvação, pela força da Sua graça e pelo anúncio do Seu amor redentor”.
Versículos 3 – 5: “Os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério. Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. Moisés mandou-nos na lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso?”
O papa emérito Bento XVI disse que a cena desse Evangelho “é cheia de dramaticidade: das palavras de Jesus depende a vida daquela pessoa, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores hipócritas fingem confiar-lhe o julgamento, enquanto na realidade é precisamente Ele quem querem acusar e julgar. Ao contrário, Jesus está “cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14): Ele sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado, mas salvar o pecador, e desmascarar a hipocrisia”.
O beato João Paulo II explicou: “Acusado até de estar contra a Lei, Jesus é “posto à prova”:  se perdoa a mulher colhida em flagrante adultério, dir-se-á que transgrediu os preceitos de Moisés; se a condena, dir-se-á que foi incoerente com a mensagem de misericórdia para com os pecadores.Mas Jesus não cai na armadilha. Com o seu silêncio, convida cada um a reflectir sobre si próprio”.

Versículos 6–9
“Perguntavam-lhe isso, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra. Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra. Inclinando-se novamente, escrevia na terra. A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele”.
O Papa Emérito Bento XVI disse que não interessa a Jesus “vencer uma disputa acadêmica a propósito de uma interpretação da lei mosaica, mas a sua finalidade consiste em salvar uma alma e revelar que a salvação só se encontra no amor de Deus. Foi por isso que veio a terra, por isso há-de morrer na cruz e o Pai ressuscitá-lo-á, no terceiro dia”.

“Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra”
Observa santo Agostinho “que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (Comentário ao Evangelho de João, 33,5). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa. E qual é a sua sentença? “Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra”.
O beato João Paulo II ensinou que Jesus “desperta a consciência do pecado nos homens que a acusam para apedrejá-la, manifestando assim a sua profunda capacidade de ver as consciências e as obras humanas segundo a verdade. Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, e antes de tudo, uma confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça « masculina », dos vossos abusos?”
O papa emérito Bento XVI disse que “Jesus coloca-se imediatamente a favor da mulher; em primeiro lugar, escrevendo no chão, palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas fica impressionado, e depois pronunciando aquela frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra” (Jo 8,7) e dê início à lapidação”.

“Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”
Santo Agostinho observa que, “respondendo, o Senhor respeita a lei e não abandona a sua mansidão. Depois, acrescenta que com estas suas palavras obriga os acusadores a entrarem em si mesmos e, refletindo sobre si próprios, a descobrirem-se também eles pecadores. Por isso, atingidos por estas palavras como por uma flecha tão grande como uma trave, um por um foram-se embora”.
Versículos 10 – 11: “Então ele se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?  Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Disse-lhe então Jesus: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”.
O papa emérito Bento XVI disse: “Portanto, um após outro, os acusadores que queriam provocar Jesus vão-se embora “a começar pelos mais velhos, até aos últimos”. Quando todos se foram, o Mestre divino permanece a sós com a mulher. O comentário de Santo Agostinho é conciso e eficaz: “Relicti sunt duo: misera et misericordia, só permanecem as duas: a miserável e a misericórdia”.
“Vai e não tornes a pecar” – O Beato João Paulo II disse: “Enquanto o homem tende a identificar o pecador com o seu pecado, negando-lhe deste modo qualquer saída, o Pai celeste, ao contrário, enviou o Seu Filho ao mundo para oferecer a todos uma via de salvação. Cristo é essa via: ao morrer na cruz, Ele redimiu os nossos pecados.  Jesus repete aos homens e mulheres de todas as épocas: “Eu não te condeno; vai e doravante não tornes a pecar”.
O papa emérito Bento XVI disse que “Jesus, absolvendo a mulher do seu pecado, introduziu-a numa vida nova, orientada para o bem: “Nem Eu te condeno; vai e doravante não tornes a pecar”.
A Palavra diz: “Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente,  persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo” (Fl. 3,12-14).
Conclusão
Concluímos essa reflexão com as palavras do Beato João Paulo: “Hoje, a liturgia da Quaresma propõe-nos a página do Evangelho de João, que apresenta Cristo e uma mulher surpreendida em adultério. O Senhor não a condena, pelo contrário, salva-a da lapidação. Não lhe diz: não pecaste, mas: Eu não te condeno, vai e doravante não tornes a pecar (Jo 8,11). Na realidade, só Cristo pode salvar o homem, porque assume o seu pecado e dá-lhe a possibilidade de mudar”.
Jane Amábile

O texto de hoje leva-nos a meditar acerca das desavenças entre Jesus e os escribas e fariseus. Jesus, pelo seu modo de pregar e de agir, não é um homem estimado pelos doutores da lei e pelos fariseus. Por isso, procuram por todos os meios acusá-lo e eliminá-lo. Põem diante dele uma mulher, surpreendida a cometer adultério, para saber da própria boca de Jesus se deviam ou não cumprir a lei que ordenava a morte de uma mulher por lapidação se fosse encontrada a cometer adultério. Queriam provocar Jesus. Fazendo-se passar por pessoas observantes da lei, servem-se da mulher para argumentar contra Jesus.
A história repete-se muitas vezes. Nas três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – sob o pretexto de fidelidade a Deus, foram condenadas e massacradas muitas pessoas. Ainda hoje isto acontece. Sob a capa da fidelidade às leis de Deus, muitas pessoas estão marginalizadas, da comunhão e até da comunidade. Criam-se leis e costumes que excluem e marginalizam certas categorias de pessoas.
Durante a leitura de Jo 8,1-11 convém fazer a leitura como se o texto fosse um espelho em que se reflete o nosso rosto. Lendo-o, procuremos ter em conta os comportamentos, as palavras e os gestos das pessoas que aparecem no episódio: escribas, fariseus, a mulher, Jesus e as pessoas.
Contexto literário
Os especialistas nas Escrituras afirmam que o Evangelho de João cresce lentamente, isto é, foi escrito pouco a pouco. Através do tempo, até finais do século I, os membros das comunidades de João, na Ásia Menor, recordavam e acrescentavam detalhes aos fatos da vida de Jesus. Um destes fatos, a que se acrescentaram estas particularidades, é o texto de hoje, o episódio da mulher que está à beira de ser lapidada (Jo 8,1-11). Pouco antes deste texto, Jesus dissera: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba!” (Jo 7, 37). Esta declaração provoca muitas discussões (Jo 7,40-53). Os fariseus ridicularizam o povo, considerando-o ignorante por acreditar em Jesus. Nicodemos reage e diz: “Porventura a nossa Lei julga alguém sem primeiro o escutar e saber o que faz?” (Jo 7,51-52). Depois do nosso texto encontramos uma nova declaração de Jesus: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8,12), que provoca uma discussão com os judeus. Entre estas duas afirmações, com as consequentes discussões, aparece o episódio da mulher que a lei condenara, mas que Jesus perdoa (Jo 8,1-11). O contexto anterior e posterior sugere que o fato foi inserido para esclarecer que Jesus, luz do mundo, ilumina a vida das pessoas e aplica melhor a lei do que os fariseus.
Comentário do texto
João 8,1-2: Jesus e o povo.
Depois da discussão, descrita no final do capítulo sétimo (Jo 7,37-52), todos voltam para casa (Jo 7, 53). Jesus não tem casa em Jerusalém e, por isso, vai para o Monte das Oliveiras. Aí encontra um jardim, onde costumava passar a noite em oração (Jo 18, 1). No dia seguinte, antes do sol nascer, Jesus encontra-se de novo no templo. O povo aproxima-se dele para o escutar. Habitualmente as pessoas sentavam-se em círculo à volta de Jesus e ele ensinava-as. O que ensinaria Jesus? Seguramente o que ensinava era muito belo visto que as pessoas chegavam antes do nascer do sol para o escutar.
João 8, 3-6a: As provocações dos adversários. Chegam alguns escribas e fariseus que trazem consigo uma mulher surpreendida em flagrante adultério. Colocam-na no centro do círculo entre Jesus e o povo. Segundo a lei, esta mulher deve ser lapidada (Lv. 20,10; Dt. 22,22.24). Dizem: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei Moisés mandou-nos lapidar tais mulheres. E tu, que dizes?”. Era uma provocação, uma armadilha. Se Jesus dissesse: “Aplicai a lei”, os escribas diriam ao povo: “Não é tão bom como parece, porque manda matar a mulher”. Se dissesse. “Não a mateis”, diriam: “Não é tão bom como parece porque não observa a lei”. Sob a capa da aparente fidelidade a Deus, manipulam a lei e servem-se de uma mulher para poderem acusar Jesus.

João 8,6b: a reação de Jesus: escreve na terra.
Parecia uma armadilha sem escapatória. Mas Jesus não se assusta nem fica nervoso. Antes pelo contrário. Com calma, como uma pessoa dona da situação, inclina-se e começa a escrever na terra com o dedo. Que significado tem escrever na terra?Alguns afirmam que Jesus escreve na terra os pecados dos acusadores. Outros, que é um simples gesto de quem é dono da situação e não faz caso das acusações . Mas é também possível que se trate de um ato simbólico, a alusão a qualquer coisa muito comum. Se tu escreves qualquer coisa na terra, na manhã seguinte não encontrarás o que escreveste, porque o vento ou a chuva apagaram-na e fizeram-na desaparecer. Encontramos uma alusão ao que estamos a dizer em Jeremias, onde se lê que os nomes atribuídos a Deus são escritos na terra, quer dizer que não têm futuro. O vento ou a chuva farão desaparecê-los (cf. Jr. 17,13). Talvez Jesus queira dizer: o pecado que acusais a esta mulher, Deus já o perdoou com estas letras que estou a escrever na terra. De agora em diante os pecados não serão mais recordados.

João 8, 7-8: segunda provocação e a mesma reação de Jesus.
A calma de Jesus enerva os adversários. Insistem e querem uma opinião de Jesus. Jesus levanta-se e diz: “Quem de vós está sem pecado atire a primeira pedra”. E inclinando-se começa de novo a escrever na terra. Não entra numa discussão estéril e inútil acerca da lei quando, na realidade, o problema é outro. Jesus altera o centro da discussão. Em vez de permitir que se coloque a luz da lei sobre a mulher para a condenar, quer que os seus adversários se examinem à luz do que a lei exige deles. Jesus não discute a letra da lei. Discute e condena a conduta malévola de quem manipula as pessoas e a lei para defender os interesses que são contrários a Deus, autor da lei.

João 8,9-11: epílogo final: Jesus e a mulher.
A resposta de Jesus desconcerta e desarma os adversários. Os fariseus e escribas retiram-se envergonhados, um após outro, “começando pelos mais velhos”. Aconteceu o contrário do que eles queriam. A pessoa condenada pela lei não era a mulher mas eles mesmos que se tinham por fiéis à lei. Finalmente Jesus fica a sós com a mulher. Jesus levanta-se e dirige-se a ela: “Mulher, onde estão? Ninguém te condenou?”. Ela responde: “Ninguém, Senhor!”. E Jesus diz: “Tampouco eu te condeno. Vai, e não peques mais”. Jesus não permite que ninguém use a lei de Deus para condenar o irmão, mesmo quando o irmão é pecador. Quem tem uma trave no próprio olho não pode acusar quem tem no olho somente uma palha. “Hipócrita, tira primeiro a trave dos teus olhos e então poderás ver bem para tirar a palha do olho do teu irmão” (Lc. 6,42).
Este episódio, melhor do que qualquer outro ensinamento, revela que Jesus é a luz do mundo (Jo 11, 12) que faz aparecer a verdade. Faz ver o que está escondido nas pessoas, no seu mais íntimo. À luz da palavra de Jesus, os que pareciam ser os defensores da lei, mostram-se cheios de pecados e eles próprios o reconhecem e saem um após outro, começando pelos mais velhos. E a mulher, considerada culpada e ré da pena de morte, está de pé diante de Jesus, perdoada, redimida, cheia de dignidade (cf. Jo 3,19-21). O gesto de Jesus fá-la renascer e restitui-a como mulher e filha de Deus.
As leis sobre a mulher no Antigo Testamento e a reação das pessoas
Desde Esdras e Neemias que a tendência oficial era a de excluir a mulher de qualquer atividade pública e de não a considerar idônea para exercer funções na sociedade, exceto a função de esposa e mãe. O que contribuía sobretudo para esta marginalização era precisamente a lei da pureza. A mulher era declarada impura por ser mãe, esposa e filha: por ser mulher. Por ser mãe: quando dava à luz, era imunda (Lv. 12,1-5). Por ser filha: o filho que nasce torna-a impura durante quarenta dias (Lev 12, 2-4); e todavia ainda mais a filha que a torna impura durante oitenta (Lv. 12,5). Por ser esposa: as relações sexuais, supõe deixar em estado de impureza durante um dia completo tanto o homem como a mulher (Lv. 15,18). Por ser mulher: a menstruação torna-a impura durante uma semana e causa impureza aos outros. Quem toca numa menstruada deve purificar-se (Lv. 15,19-30). E não é possível que uma mulher mantenha a sua impureza em segredo porque a lei obriga os outros a denunciá-la (Lv. 5,3).
Esta legislação tornava insuportável a convivência diária em casa. Sete dias, cada mês, a mãe de família não podia repousar no leito, nem sentar-se numa cadeira, muito menos tocar o filho ou o marido, se não queria que não se contaminassem. Esta legislação era fruto de uma mentalidade segundo a qual a mulher era inferior ao homem. Alguns provérbios mostram esta descriminação da mulher (Ecl. 42,9-11; 22,3). A marginalização chegava a tal ponto que se considerava a mulher como a origem do pecado e da morte e causa de todos os males (Ecl. 25,24; 42,13-14). Deste modo justificava-se e mantinha-se o privilégio e o domínio do homem sobre a mulher. No contexto da época, a situação da mulher no mundo da Bíblia não era melhor nem pior do que a das outras pessoas. Trata-se de uma cultura geral. Ainda hoje há muitas pessoas que continuam a ter esta mentalidade. Mas como hoje, assim também antes, desde o princípio da história da Bíblia, houve muitas reações contra a exclusão da mulher, sobretudo depois do exílio, quando se conseguiu expulsar a mulher estrangeira considerada perigosa (cf. Es. 9,1-3; 10,1-3). A resistência da mulher cresceu ao mesmo tempo que a marginalização era mais pesada. Em vários livros sapienciais descobrimos a voz desta resistência: Cântico dos Cânticos, Rute, Judite, Ester. Nestes livros a mulher aparece não tanto como mãe ou esposa, mas como mulher que sabe usar a beleza e a feminilidade para lutar pelos direitos dos pobres e, deste modo, defender a Aliança do povo. É uma luta não tanto a favor do templo ou das leis abstratas mas a favor da vida do povo.
A resistência da mulher contra a sua exclusão encontra também eco em Jesus. Eis alguns episódios do acolhimento que Jesus lhes dava:
A prostituta: Jesus acolhe-a e defende-a contra os fariseus (Lc. 7,36-50).
A mulher encurvada: Jesus defende-a contra o chefe da sinagoga (Lc. 13,10-17).
A mulher considerada impura é acolhida sem ser censurada, e é curada (Mt. 5,25-34).
A samaritana, considerada como hereje, é a primeira a receber o segredo de que Jesus é o Messias (Jo 4,26).
A mulher estrangeira é ajudada por Jesus e esta ajuda-o a descobrir a sua missão (Mt. 7,24-30).
As mães com os filhos, rejeitados pelos discípulos, são acolhidos por Jesus (Mt. 19,13-15).
As mulheres são as primeiras a experimentar a experiência de Jesus ressuscitado (Mt. 28,9-10; Jo 20,16-18).

"De agora em diante não peques mais"
Deus nos convida a superar nossas fraquezas, medos e ignorâncias.
Na primeira leitura, o profeta anuncia a iminência da libertação e compara a saída da Babilônia e a volta à Terra Prometida com o êxodo do Egito. Esta recordação não é somente para lembrar algo extraordinário ocorrido há séculos. A lembrança do passado é válida quando alimenta a esperança e prepara para um futuro. Um futuro que novamente manifestará o amor de Deus por seu povo.
No evangelho temos diante de Jesus uma mulher que, de acordo com a Lei, tinha cometido uma falta que merecia a morte. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade de ouro para testar a reta conduta de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei; para Jesus, trata-se de revelar a atitude de Deus frente ao pecado e ao pecador.
Apresentada a questão, Jesus não procura minimizar o pecado ou desculpar o comportamento da mulher. Ele sabe que o pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz… No entanto, também não aceita pactuar com uma Lei que, em nome de Deus, gera morte.
Jesus convida os acusadores a tomar consciência de que o pecado é uma consequência dos nossos limites e fragilidades e que Deus entende isso. Quando os escribas e fariseus se retiram, Jesus sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida: convida-a, apenas, a seguir um caminho novo de liberdade e de paz.
A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas de vida; a proposta que Deus faz através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova. É preciso reconhecer, com humildade e  simplicidade, que necessitamos do amor e da misericórdia de Deus para chegar à vida plena. A única atitude que faz sentido, é assumir para com os nossos irmãos a tolerância e a misericórdia de Deus.
Lembremo-nos de Paulo, que está consciente de que, partilhar a vida e o destino de Cristo, implica um esforço diário. É possível o fracasso, pois o nosso orgulho e egoísmo estão sempre à espreita. O caminho da entrega da vida é exigente. Quem quer chegar à vida nova, à ressurreição, tem de seguir esse caminho.
Neste tempo de Quaresma, somos convidados a deixar definitivamente para trás o passado e aderir à vida nova que Deus nos propõe. A Quaresma é ocasião para nos desinstalar. Ela questiona nosso comodismo.
Nos convida a olhar para o futuro e a ir além de nós mesmos, na busca de uma nova humanidade.
“Quem não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”
Essa história parece muito mais semelhante aos temas do Evangelho de Lucas do que do o Evangelho do discípulo amado. De fato, não aparece nos manuscritos mais antigos de Lucas, e só aparece pela primeira vez em versões do século terceiro. Por isso, a maioria dos estudiosos acha que originalmente esta história circulava nas comunidades como uma tradição independente. O copista que a inseriu talvez fizesse por achar que ilustrasse duas frases do quarto Evangelho: “Eu julgo a ninguém” (Jo 8,15) e “Quem de vocês pode me acusar de pecado?” (Jo 8,46). O tema do perdão de uma mulher pecadora é tipicamente lucano. Alguns manuscritos situam esse texto no Evangelho de Lucas durante as controvérsias da Semana Santa – o que parece ser um contexto mais adequado.
O problema apresentado a Jesus pelos fariseus é semelhante àquele do imposto em Lc. 21,27-38. A Lei judaica prescreveu a pena de morte para uma mulher casada, pega em adultério (Dt. 22,23-24). Mas, segundo João 18,31, os romanos tinham retirado dos judeus o direito de condenar alguém à morte. Portanto, se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei civil dos romanos; se ele negasse esta pena, estaria contra a lei religiosa mosaica. É uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César, ou a questão sobre o divórcio em Mt. 19,3-9. Que os seus interlocutores não se interessam pela Lei se manifesta pelo fato de só acusarem a mulher e não o seu parceiro! Uma atitude machista tão comum ainda na nossa sociedade.
Não se esclarece o que foi que Jesus escreveu no chão. Alguns autores vêem uma referência a uma frase em Jeremias: “Aqueles que se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram Javé, a fonte de água viva” (Jr. 17,13). Assim, seria uma indicação que os verdadeiros culpados são aqueles que se davam o direito de condenar a mulher.
Perguntando da mulher se os seus acusadores não a tinham condenado, Jesus deixa claro que ele não se identifica com eles. Ele não veio para condenar, mas para salvar! Por isso a mulher está livre para ir – mas não para pecar de novo!
O texto ilustra mais uma vez o recado central que vimos no Evangelho do último domingo – Deus é um Deus de misericórdia, e não de condenação. Ele condena o pecado, o mal, mas não a pessoa. Como em Lucas 15,1-2 também no texto de hoje as pessoas que mais deviam se preocupar em manifestar o rosto misericordioso do Pai, se preocupavam mais em condenar, a partir de um legalismo que desconhecia a misericórdia. Jesus, do outro lado, valoriza a Lei (pede que a mulher não continue a pecar), mas tem compaixão diante da fraqueza humana. Aliás, é notável que, nos Evangelhos, Jesus nunca é duro ou rígido com as pessoas que manifestam nas suas vidas sinais da fraqueza humana, mas é contundente com os que não têm compaixão nem misericórdia, e que escondem o verdadeiro rosto de Deus através do seu legalismo e auto-suficiência.
Quantas vezes nas Igrejas – até hoje – se manifesta muito mais a dureza de uma mentalidade legalista do que a compaixão de um Deus que é “rico em misericórdia?”. Neste tempo quaresmal, preocupemo-nos em sermos manifestação do Deus verdadeiro, misericordioso e compassivo, a exemplo de Jesus, que soube distinguir bem entre o pecado e o pecador. “Nem eu te condeno, vá e não peca mais!” Lembremos das palavras sábias e profundas do Documento da Aparecida no seu número 147:
. “O/a discípulo/a-missionário/a há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para os pobres e pecadores” .  Jesus nos dá o exemplo no texto de hoje.
padre Tomaz Hughes, SVD

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