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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 22 de março de 2013

RAMOS E PAIXÃO DO SENHOR




RAMOS E PAIXÃO DO SENHOR
DIA 24 DE MARÇO - ANO C

Comentário Prof.Fernando



       A festa de ramos marca o início da Semana Santa que, por sua vez, é o centro do grande acontecimento da nossa fé, ou seja, o Mistério da paixão, morte e ressurreição de N.S.Jesus Cristo.  Hoje Jesus vem a nós não como um rei soberano, tirano e dominador. Mas como um Rei humilde e servidor. Continua


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COLABORAÇÃO DO PADRE FERNANDO GROSS
Salmo 88
e
Evangelho para o Domingo de Ramos
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“BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR”! - Olívia Coutinho
 24 DE MARÇO DE 2013 – DOMINGO DE RAMOS.

  
Iniciamos hoje a semana Santa!
Para nós, cristãos católicos, a semana Santa é um tempo forte, em que estaremos unidos em comunidade, para contemplarmos  os últimos  passos de Jesus à caminho da cruz e principalmente, para celebrarmos  a vida que a morte não venceu! 
A liturgia deste domingo, nos faz entrar no mistério do amor do Pai, nos prepara  para vivenciarmos  de maneira intensa, livre e amorosa, o acontecimento mais importante do ano litúrgico: A PÁSCOA DO SENHOR JESUS!
Aprendemos muito durante a nossa caminhada Quaresmal, mas ainda há muito que aprender, afinal,  temos uma missão muito importante: fazer chegar a tantos corações sombrios, a luz do Cristo Ressuscitado!
O caminho que percorremos durante estes quarenta dias, nos aproximou mais do amor, da bondade de Deus, nos trouxe  a certeza de que temos tudo para sermos  felizes: Temos um Pai que nos ama, que não desiste de nós, que enviou o seu  Filho para nos ensinar o caminho que nos leva até Ele!
Não pensemos que foi fácil para Jesus, passar por tamanho sofrimento, mesmo  sendo  o Deus, Jesus, na sua condição humana, assim como nós, não estava isento  das dores do corpo e da alma!
 Sabemos que Jesus poderia ter recusado a cruz, mas não o fez, em obediência ao Pai, em levar frente o seu projeto de Salvação. Uma  obediência que resultou na sua morte.  Morte, que  também não foi da vontade de Deus e sim, pela conseqüência da maldade humana.
 Deus poderia ter evitado o sofrimento de Jesus, mas o seu amor por cada um de nós, falou mais alto.  Por querer  reconstruir a aliança de amor, entre nós, quebrada pelo pecado,  Deus deixou que o seu Filho, pagasse com a vida, o preço do nosso resgate.
A entrada festiva de Jesus em Jerusalém marca o início de seu calvário.
Jesus entra em Jerusalém aclamado como Rei e Senhor da gloria, o Rei  e Senhor do  povo oprimido, do povo sem voz e sem vez. E para  identificar-se  com estes,  Jesus entra na cidade, montado num jumentinho, o meio de transporte  dos pobres!
A entrada triunfal de Jesus  em Jerusalém, foi uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, o Rei tão esperado e desejado pelos “pequenos!”
“As multidões que iam à frente de Jesus e os que o seguiam, gritavam:  “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Tamanha aclamação, provocou  ira nos seus adversários, que ao sentir  ameaçados de perder os seus  tronos,  apressaram em dar fim na pessoa de Jesus.
Nas celebrações da semana santa, nós nos comovemos diante das encenações da Paixão e morte de Jesus, achamos uma injustiça o que fizeram com Ele, mas será que nós, hoje,  não continuamos de alguma forma, fazendo o mesmo com Jesus, na pessoa do nosso irmão? Será que nós também, não estamos crucificando-O nas  nossas atitudes do dia a dia? Não podemos esquecer, de que toda vez que não praticamos a justiça, a solidariedade, que negamos ajuda ao nosso irmão, estamos também crucificando Jesus! E ao contrário, todo vez que praticamos a justiça, que promovemos o nosso irmão, estamos ressuscitando-O!
Rasguemos, pois, as vestes do “homem” velho, para revestirmos do “homem” novo, que aprendeu com Jesus a partilhar a vida, a ser vida para o outro, para que  assim, possamos  desde já, vivenciar o grande sentido da páscoa: Passagem... Vida nova... Renovação...
Celebrar a Páscoa é celebrar a vida, é resgatar valores, hoje tão esquecidos, como a fidelidade, a defesa da vida, o respeito humano...
Como verdadeiros seguidores de Jesus, devemos estar sempre disposto a enfrentar todo e qualquer desafio, para levar em frente a nossa missão de portadores e anunciadores do amor!
Com os pés no chão e o olhar para o alto, carreguemos a cruz de  Jesus, que é também a nossa cruz!
Carregar a Cruz de Jesus nos dias de hoje, significa navegar contra a maré, optando   pela justiça, pela  verdade  e a liberdade, sem medo das conseqüências dolorosas que este  caminho pode nos trazer.
Contemplando os últimos passos de Jesus, chegaremos a ressurreição!
Quiseram eliminar aquele que acolheu os pobres, os abandonados, que defendeu a vida, mas não conseguiram, pois a vida vence quando se diz "SIM", ao amor!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia
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DOMINGO DE RAMOS E PAIXÃO DO SENHOR – 24/03/2013
Autor Elias Fernandes | Data 7 de março de 2013

1a LEITURA – Is 50,4-7

Uma vez mais a liturgia nos apresenta um dos quatro cantos do servo sofredor. Desta vez é o terceiro canto. Quem é este personagem misterioso? Poderia ser o povo de Israel, uma pessoa anônima, talvez, até mesmo o profeta, ou quem sabe, simbolizaria o Israel messiânico, o Messias futuro! O certo é que o Primeiro Testamento vê claramente em Jesus a realização perfeita dos quatro cantos do Servo de Javé. Jesus é o Servo humilhado pelos homens e exaltado por Deus. A missão do Servo é “mostrar à custa das ofensas recebidas que o amor de Jesus é perene. Os exilados não precisam lamentar o aparente abandono de Javé, pois seu amor é eterno”. Qual a atitude de Javé para com o Servo? Dá-lhe a capacidade de falar para levar o conforto ao povo. Abre-lhe os ouvidos para que aprendendo como discípulo possa transmitir ao povo os ensinamentos de Deus. O Servo é um discípulo dócil e aplicado. Javé por fim lhe dá proteção. Quer dizer Javé prepara seu povo para a missão no meio do seu povo. Qual é a atitude do Servo fiel à missão recebida? É uma atitude de impressionante humildade, resignação e entrega total. Ele não oferece resistência àqueles que o torturam (dá as costas); submete-se a uma profunda humilhação, deixando-se arrancar a barba, entregando seu rosto aos ultrajes e cuspidas. A ignomínia não derruba o Servo. Ele conserva o seu rosto duro, quer dizer, para manter sua função de fiel discípulo e cumpridor de sua missão de Servo, ele não leva em conta as numerosas ofensas recebidas. Ele tem certeza que o Senhor Deus lhe presta auxílio. Ele tem certeza que não sairá frustrado. Israel é convidado a ter esta esperança e certeza do Servo. Diante de tudo o que aconteceu com Jesus, Servo de Javé e Nosso Senhor, nossa certeza e esperança são inabaláveis. São estes os nossos sentimentos de cristão diante do sofrimento?

2a LEITURA – Fl 2, 6-11

Este hino sintetiza a história de Jesus: o mistério de sua encarnação, morte e glorificação. Vemos primeiro um movimento descendente (vv. 6-8). É o gesto radical do Filho, seu mergulho mais profundo nas águas sujas da miséria humana. Jesus assumiu a condição dos mais excluídos: Deixou sua condição divina, seu modo glorioso de vida (v. 6) e, praticamente, tornou-se um nada (aniquilou-se a si mesmo). É o mistério da encarnação. Por solidariedade com os mais excluídos assumiu a condição de Servo, homem a serviço, homem sofredor (v. 7). O v. 8 refere-se à sua humildade e humilhação, à sua obediência perseverante, uma obediência até à morte e morte violenta, injusta, assassina. Jesus aceitou ser rejeitado, um excluído, o último da sociedade. Os que o excluíram e assassinaram continuam criminosos até hoje representados pelos que se consideram grandes, donos do poder, da política, donos do mundo.
Em segundo lugar vemos um movimento ascendente. É a ação do Pai que glorifica o Filho (vv. 9-11). É uma alusão ao mistério de sua ressurreição e ascensão. Em relação à primeira parte, o texto lembra a síntese do mistério cristão anunciado por Jesus: “Quem se humilha será exaltado, quem se exalta será humilhado”. O Pai exalta o Filho, glorifica-o, dá-lhe o Nome que está acima de todo o nome, restitui-lhe a condição divina anterior, glorificando também sua humanidade (v. 9). A ele todos, absolutamente todos, devem a honra e a adoração; os que estão nas alturas celestes, os que estão sobre a terra e os que estão debaixo da terra. Todos os seres criados estão submetidos ao nome de Jesus (v. 10). Deus Pai confere a Jesus o nome de “Senhor”. É sua identidade de ressuscitado. Jesus, glorificado pelo Pai, tornou-se Senhor de tudo e de todos. Por isso toda a língua, quer dizer, todo mundo deve confessar o senhorio de Jesus para a glória de Deus Pai (v. 11).
Com este hino, Paulo nos convida a termos os mesmos sentimentos de Jesus (v. 5): desapego, humildade, obediência e entrega total a serviço dos excluídos. “Quem se humilha será exaltado”. Se Deus nos chamasse hoje, estaríamos em condição de sermos exaltados?


EVANGELHO – Lc 22,14-23,56
Vamos seguir o itinerário de Jesus no relato da paixão.
Em Jesus se realizará a profecia do Servo sofredor. Ali acontecerá o aniquilamento total do Filho de Deus (Fl 2,6-8). O alto do calvário é o ponto mais baixo que Jesus alcançou no seu mergulho na miséria humana. É o seu encontro solidário com os mais excluídos. Depois do calvário começa o movimento ascendente (Fl 2,8-11) daquele que desceu para resgatar os excluídos. Seu êxodo termina na casa do Pai como Senhor glorificado.
A paixão começa com a Eucaristia (vv. 14ss), na qual Jesus se doa, antecipadamente, no pão e no vinho consagrados. Ali, Jesus anuncia a traição de Judas e ensina que o maior é aquele que serve, que faz o que Jesus está fazendo, que é capaz de doar a própria vida (Fl 2,7-8). Jesus anuncia a traição de Pedro (vv. 31ss) apesar de ter rezado tanto por ele e apesar de sua boa vontade. Jesus tem consciência de sua morte na cruz e diz simbolicamente que a vida cristã é uma luta (vv. 35ss). Em seguida Jesus se dirige para o monte das Oliveiras e se põe a rezar, mas está pronto a realizar a vontade do Pai. Sua oração foi intensa. Jesus estava angustiado. Duas vezes adverte os discípulos a rezarem para não caírem em tentação (vv. 39ss). Os vv. 47-53 narram a traição de Judas e a prisão de Jesus. Em seguida temos o episódio da negação de Pedro na casa do Sumo Sacerdote (vv. 54ss). Jesus começa a realizar nos pormenores a profecia do Servo Sofredor. Pela manhã, Jesus foi levado ao tribunal judeu (= Sinédrio), onde ele se revela o Filho de Deus (vv. 63-71). Depois é conduzido a Pilatos, quando o enchem de acusações e em seguida a Herodes, mas ali permanece em silêncio (23,1-12). Então ele é re-enviado a Pilatos que o declara inocente, mas os judeus pedem a sua morte e Pilatos acaba cedendo (23,13-25). Jesus leva sua cruz ao calvário com a ajuda de Nicodemos. Depois Jesus é crucificado e, antes de morrer, perdoa seus algozes e promete o paraíso a um dos dois criminosos que foram crucificados com ele (vv. 36ss). Às 15 horas Jesus morre para a salvação de todos. Representando os povos pagãos um oficial romano reconhece que Jesus era justo. Por fim Jesus é sepultado por José de Arimateia. Eis o drama do Servo Sofredor e Redentor dos homens.

Dom Emanuel Messias Oliveira
Bispo Diocesano de Caratinga
(33) 3321-4600
curiadiocesanacaratinga@hotmail.com
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Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

por José María Vegas, cmf


A liturgia do Domingo de Ramos convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.

A primeira leitura apresenta-nos um profeta anônimo, chamado por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projetos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste “servo” a figura de Jesus.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância, para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe.

O Evangelho convida-nos a contemplar a paixão e morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz, revela-se o amor de Deus - esse amor que não guarda nada para si, mas que se faz dom total.


Evangelho - Procissão - Mc 11,1-10


Bendito o que vem em nome do Senhor.


1Quando se aproximaram de Jerusalém, na altura de Betfagé e de Betânia, junto ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos,
2dizendo: 'Ide até o povoado que está em frente, e logo que ali entrardes, encontrareis amarrado um jumentinho que nunca foi montado.
Desamarrai-o e trazei-o aqui!
3Se alguém disser: 'Por que fazeis isso?', dizei: 'O Senhor precisa dele, mas logo o mandará de volta'.'
4Eles foram e encontraram um jumentinho amarrado junto de uma porta, do lado de fora, na rua, e o desamarraram.
5Alguns dos que estavam ali disseram: 'O que estais fazendo, desamarrando este jumentinho?'
6Os discípulos responderam como Jesus havia dito,e eles permitiram.
7Trouxeram então o jumentinho a Jesus,colocaram sobre ele seus mantos, e Jesus montou.
8Muitos estenderam seus mantos pelo caminho,outros espalharam ramos que haviam apanhado nos campos.
9Os que iam na frente e os que vinham atrás gritavam: 'Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!
10Bendito seja o reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos céus!'
Palavra da Salvação.


Primeira Leitura - Leitura do Livro do Profeta Isaías 50,4-7


Jesus, o “servo” sofredor que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido.


4O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo.
5O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás.
6Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas.
7Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado.
Palavra do Senhor.


Salmo Responsorial - Salmo 21


Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

Riem de mim todos aqueles que me vêem,
torcem os lábios e sacodem a cabeça:
'Ao Senhor se confiou, ele o liberte
e agora o salve, se é verdade que ele o ama!'

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

Cães numerosos me rodeiam furiosos,
e por um bando de malvados fui cercado.
Transpassaram minhas mãos e os meus pés
e eu posso contar todos os meus ossos.
Eis que me olham e, ao ver-me, se deleitam!

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

Eles repartem entre si as minhas vestes
e sorteiam entre si a minha túnica.
Vós, porém, ó meu Senhor, não fiqueis longe,
ó minha força, vinde logo em meu socorro!

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

Anunciarei o vosso nome a meus irmãos
e no meio da assembléia hei de louvar-vos!
Vós que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores,
glorificai-o, descendentes de Jacó,
e respeitai-o toda a raça de Israel!

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?


Segunda Leitura - Leitura da Carta de São Paulo aos Filipenses 2,6-11


Os acontecimentos que, nesta semana, vamos celebrar garantem-nos que o caminho do dom da vida não é um caminho de “perdedores” e fracassados: o caminho do dom da vida conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena.


6Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação,
7mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano,
8humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz.
9Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome.
10Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra,
11e toda língua proclame : 'Jesus Cristo é o Senhor', para a glória de Deus Pai.
Palavra do Senhor.


Evangelho - Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Marcos 14,1-15,47


“Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto”.


1Faltavam dois dias para a Páscoa e para a festa dos Ázimos. Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei procuravam um meio de prender Jesus à traição,
para matá-lo.
2Eles diziam: 'Não durante a festa,para que não haja um tumulto no meio do povo.' Derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura.
3Jesus estava em Betânia, na casa de Simão, o leproso. Quando estava à mesa, veio uma mulher com um vaso de alabastro cheio de perfume de nardo puro, muito caro. Ela quebrou o vaso e derramou o perfume na cabeça de Jesus.
4Alguns que estavam ali ficaram indignados e comentavam: 'Por que este desperdício de perfume?
5Ele poderia ser vendido por mais de trezentas moedas de prata, que seriam dadas aos pobres.' E criticavam fortemente a mulher.
6Mas Jesus lhes disse: 'Deixai-a em paz! Por que aborrecê-la? Ela praticou uma boa ação para comigo.
7Pobres sempre tereis convosco e quando quiserdes podeis fazer-lhes o bem. Quanto a mim não me tereis para sempre.
8Ela fez o que podia: derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura.
9Em verdade vos digo, em qualquer parte que o Evangelho for pregado, em todo o mundo, será contado o que ela fez, como lembrança do seu gesto.'
Prometeram a Judas Iscariotes dar-lhe dinheiro.
10Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os sumos sacerdotes para entregar-lhes Jesus.
11Eles ficaram muito contentes quando ouviram isso, e prometeram dar-lhe dinheiro. Então, Judas começou a procurar uma boa oportunidade para entregar Jesus. Onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?
12No primeiro dia dos ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus: 'Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?'
13Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: 'Ide à cidade. Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o
14e dizei ao dono da casa em que ele entrar: 'O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?'
15Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Ali fareis os preparativos para nós!'
16Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa. Um de vós, que come comigo, vai me trair.'
17Ao cair da tarde, Jesus foi com os doze.
18Enquanto estavam à mesa comendo, Jesus disse: 'Em verdade vos digo, um de vós, que come comigo, vai me trair.'
19Os discípulos começaram a ficar tristes e perguntaram a Jesus, um após outro: 'Acaso serei eu?'
20Jesus lhes disse: 'É um dos doze, que se serve comigo do mesmo prato.
21O Filho do Homem segue seu caminho, conforme está escrito sobre ele. Ai, porém, daquele que trair o Filho do Homem!Melhor seria que nunca tivesse nascido!' Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue, o sangue da aliança.
22Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e entregou-lhes, dizendo: 'Tomai, isto é o meu corpo.'
23Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele.
24Jesus lhes disse: 'Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos.
25Em verdade vos digo,não beberei mais do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus.'Antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.
26Depois de terem cantado o hino,foram para o monte das Oliveiras.
27Então Jesus disse aos discípulos: 'Todos vós ficareis desorientados, pois está escrito: 'Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão.'
28Mas, depois de ressuscitar, eu vos precederei na Galiléia.'
29Pedro, porém, lhe disse: 'Mesmo que todos fiquem desorientados, eu não ficarei.'
30Respondeu-lhe Jesus: 'Em verdade te digo, ainda hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.'
31Mas Pedro repetiu com veemência: 'Ainda que tenha de morrer contigo, eu não te negarei.' E todos diziam o mesmo.Começou a sentir pavor e angústia.
32Chegados a um lugar chamado Getsêmani, disse Jesus aos discípulos: 'Sentai-vos aqui, enquanto eu vou rezar!'
33Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir pavor e angústia.
34Então Jesus lhes disse: 'Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e que, se fosse possível, aquela hora se afastasse dele.
36Dizia: 'Abbá! Pai! Tudo te é possível: Afasta de mim este cálice! Contudo, não seja feito o que eu quero, mas sim o que tu queres!'
37Voltando, encontrou os discípulos dormindo. Então disse a Pedro: 'Simão, tu estás dormindo? Não pudeste vigiar nem uma hora?
38Vigiai e orai, para não cairdes em tentação! Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.'
39Jesus afastou-se de novo e rezou, repetindo as mesmas palavras.
40Voltou outra vez e os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados de sono e eles não sabiam o que responder.
41Ao voltar pela terceira vez, Jesus lhes disse: 'Agora podeis dormir e descansar. Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores.
42Levantai-vos! Vamos! Aquele que vai me trair já está chegando.' Prendei-o e levai-o com segurança!'
43E logo, enquanto Jesus ainda falava, chegou Judas, um dos doze, com uma multidão armada de espadas e paus. Vinham da parte dos sumos sacerdotes, dos mestres da Lei e dos anciãos do povo.
44O traidor tinha combinado com eles um sinal, dizendo: 'É aquele a quem eu beijar. Prendei-o e levai-o com segurança!'
45Judas logo se aproximou de Jesus, dizendo: 'Mestre!', e o beijou.
46Então lançaram as mãos sobre ele e o prenderam.
47Mas um dos presentes puxou a espada e feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha.
48Jesus tomou a palavra e disse: 'Vós saístes com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um assaltante.
49Todos os dias eu estava convosco, no Templo, ensinando, e não me prendestes. Mas isto acontece para que se cumpram as Escrituras.'
50Então todos o abandonaram e fugiram.
51Um jovem, vestido apenas com um lençol, estava seguindo a Jesus, e eles o prenderam.
52Mas o jovem largou o lençol e fugiu nu. Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?
53Então levaram Jesus ao Sumo Sacerdote, e todos os sumos sacerdotes, os anciãos e os mestres da Lei se reuniram.
54Pedro seguiu Jesus de longe, até o interior do pátio do Sumo Sacerdote. Sentado com os guardas, aquecia-se junto ao fogo.
55Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus, para condená-lo à morte, mas não encontravam.
56Muitos testemunhavam falsamente contra ele, mas seus testemunhos não concordavam.
57Alguns se levantaram e testemunharam falsamente contra ele, dizendo:
58'Nós o ouvimos dizer: 'Vou destruir este templo feito pelas mãos dos homens, e em três dias construirei um outro, que não será feito por mãos humanas!`'
59Mas nem assim o testemunho deles concordava. 60Então, o Sumo Sacerdote levantou-se no meio deles e interrogou a Jesus: 'Nada tens a responder ao que estes testemunham contra ti?'
61Jesus continuou calado, e nada respondeu. O Sumo Sacerdote interrogou-o de novo: 'Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?'
62Jesus respondeu: 'Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso, vindo com as nuvens do céu.'
63O Sumo Sacerdote rasgou suas vestes e disse: 'Que necessidade temos ainda de testemunhas?
64Vós ouvistes a blasfêmia! O que vos parece?' Então todos o julgaram réu de morte.
65Alguns começaram a cuspir em Jesus. Cobrindo-lhe o rosto, o esbofeteavam e diziam: 'Profetiza!' Os guardas também davam-lhe bofetadas. Nem conheço esse homem de quem estais falando.
66Pedro estava em baixo, no pátio. Veio uma criada do Sumo Sacerdote,
67e, quando viu Pedro que se aquecia, olhou bem para ele e disse: 'Tu também estavas com Jesus, o Nazareno!'
68Mas Pedro negou, dizendo: 'Não sei e nem compreendo o que estás dizendo!' E foi para fora, para a entrada do pátio. E o galo cantou.
69A criada viu Pedro, e de novo começou a dizer aos que estavam perto: 'Este é um deles.'
70Mas Pedro negou outra vez. Pouco depois, os que estavam junto diziam novamente a Pedro: 'É claro que tu és um deles, pois és da Galiléia.'
71Aí Pedro começou a maldizer e a jurar, dizendo: 'Nem conheço esse homem de quem estais falando.'
72E nesse instante um galo cantou pela segunda vez. Lembrou-se Pedro da palavra que Jesus lhe havia dito: 'Antes que um galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.' Caindo em si, ele começou a chorar. Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?
15,1Logo pela manhã, os sumos sacerdotes, com os anciãos, os mestres da Lei e todo o Sinédrio, reuniram-se e tomaram uma decisão. Levaram Jesus amarrado e o entregaram a Pilatos.
2E Pilatos o interrogou: 'Tu és o rei dos judeus?' Jesus respondeu: 'Tu o dizes.'
3E os sumos sacerdotes faziam muitas acusações contra Jesus.
4Pilatos o interrogou novamente: 'Nada tens a responder? Vê de quanta coisa te acusam!'
5Mas Jesus não respondeu mais nada, de modo que Pilatos ficou admirado.
6Por ocasião da Páscoa, Pilatos soltava o prisioneiro que eles pedissem.
7Havia então um preso, chamado Barrabás, entre os bandidos, que, numa revolta, tinha cometido um assassinato.
8A multidão subiu a Pilatos e começou a pedir que ele fizesse como era costume.
9Pilatos perguntou: 'Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?'
10Ele bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus por inveja.
11Porém, os sumos sacerdotes instigaram a multidão para que Pilatos lhes soltasse Barrabás.
12Pilatos perguntou de novo: 'Que quereis então que eu faça com o rei dos Judeus?'
13Mas eles tornaram a gritar: 'Crucifica-o!'
14Pilatos perguntou: 'Mas, que mal ele fez?' Eles, porém, gritaram com mais força: 'Crucifica-o!'
15Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus e o entregou para ser crucificado. Teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça.
16Então os soldados o levaram para dentro do palácio, isto é, o pretório, e convocaram toda a tropa.
17Vestiram Jesus com um manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça.
18E começaram a saudá-lo: 'Salve, rei dos judeus!' 19Batiam-lhe na cabeça com uma vara. Cuspiam nele e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele.
20Depois de zombarem de Jesus, tiraram-lhe o manto vermelho, vestiram-no de novo com suas próprias roupas e o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota.
21Os soldados obrigaram um certo Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, que voltava do campo, a carregar a cruz.
22Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota, que quer dizer 'Calvário'. Ele foi contado entre os malfeitores.
23Deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o tomou.
24Então o crucificaram e repartiram as suas roupas, tirando a sorte, para ver que parte caberia a cada um.
25Eram nove horas da manhã quando o crucificaram.
26E ali estava uma inscrição com o motivo de sua condenação: 'O Rei dos Judeus'.
27Com Jesus foram crucificados dois ladrões, um à direita e outro à esquerda.
(28)Porque eu vos digo: É preciso que se cumpra em mim a Palavra da Escritura: 'Ele foi contado entre os malfeitores.' A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!
29Os que por ali passavam o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: 'Ah! Tu que destróis o Templo e o reconstróis em três dias,
30salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!'
31Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, com os mestres da Lei, zombavam entre si, dizendo: 'A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!
32O Messias, o rei de Israel... que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!' Os que foram crucificados com ele também o insultavam. Jesus deu um forte grito e expirou.
33Quando chegou o meio-dia,houve escuridão sobre toda a terra, até as três horas da tarde.
34Pelas três da tarde, Jesus gritou com voz forte: 'Eli, Eli, lamá sabactâni?', que quer dizer: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?'
35Alguns dos que estavam ali perto, ouvindo-o, disseram: 'Vejam, ele está chamando Elias!'
36Alguém correu e embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e lhe deu de beber, dizendo: 'Deixai! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz.'
37Então Jesus deu um forte grito e expirou. Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa.
38Neste momento a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes.
39Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: 'Na verdade, este homem era Filho de Deus!'
40Estavam ali também algumas mulheres, que olhavam de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de Joset, e Salomé.
41Elas haviam acompanhado e servido a Jesus quando ele estava na Galiléia. Também muitas outras que tinham ido com Jesus a Jerusalém, estavam ali.
José rolou uma pedra à entrada do sepulcro.
42Era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, e já caíra a tarde.
43Então, José de Arimatéia, membro respeitável do Conselho, que também esperava o Reino de Deus, cheio de coragem, veio a Pilatos e pediu o corpo de Jesus.
44Pilatos ficou admirado, quando soube que Jesus estava morto. Chamou o oficial do exército e perguntou se Jesus tinha morrido há muito tempo.
45Informado pelo oficial, Pilatos entregou o corpo a José.
46José comprou um lençol de linho, desceu o corpo da cruz e o envolveu no lençol. Depois colocou-o num túmulo, escavado na rocha, e rolou uma pedra à entrada do sepulcro.
47Maria Madalena, e Maria, mãe de Joset, observavam onde Jesus foi colocado.
Palavra da Salvação.


Comentário - Realmente este homem era Filho de Deus?


O domingo de Ramos, pórtico da Páscoa, apresenta-nos um quadro unitário do que vamos contemplar, meditar e atualizar nestes dias. Em uma mesma celebração assistimos à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e o inicio do seu processo de morte na Cruz. A que se deve que a leitura da Paixão do Senhor se duplique durante a Páscoa, e se leia o Domingo (em versão de um dos sinóticos, neste ano B, Marcos), e se vai ler de novo (na versão de João) no dia propriamente de Paixão, na Sexta-feira Santa? Liturgicamente tem pleno sentido que a Paixão do Senhor se leia no Domingo, no dia em que os cristãos se reúnem para orar juntos. De outro modo, a Paixão não seria proclamada nunca no Domingo e no contexto da celebração eucarística, que é, precisamente, a memória dessa Paixão (pois na Sexta-feira não se celebra a eucaristia). Mas, ademais, deste modo preparamo-nos para entrar em profundidade nos mistérios que, passo a passo, vamos celebrar nos dias seguintes.
A Palavra de Deus a podemos ler hoje desde dois prismas diferentes e contrapostos, onde cada um dos quais tem sua verdade, mas que convém situar na justa perspectiva.
Um prisma, o que primeiro salta à vista, põe de relevo o drama que se desenvolve ante nós (e que a liturgia trata de sublinhar mediante a leitura inicial da entrada em Jerusalém, a procissão que a representa, a leitura dramatizada da Paixão, etc.). Ante nossos olhos se desenha o quadro paradóxico de um povo que acolhe a Jesus com entusiasmo como o enviado de Deus, e em poucos dias muda de parecer e pede aos gritos sua morte. Embora não está dito que fossem os mesmos os que gritassem uma coisa e a outra: possivelmente, na entrada triunfal fossem os discípulos que o acompanhavam desde a Galiléia, enquanto os que pediram sua morte eram pessoas de Jerusalém ou vindas à festa, manipuladas pelas autoridades do povo. O mal apresenta com frequência este rosto estúpido da massa que se move por inércia, semi-inconsciente da manipulação que a dirige. Mas depois do rumor e o estrondo dos gritos, percebemos outras manifestações do mal, todo um mostruário do mesmo: a debilidade e covardia dos discípulos, que atinge seu ápice na traição de Judas, acompanhada do detalhe do beijo, gesto de grande familiaridade que, no contexto da traição, resulta de um cinismo repugnante; as negações de Pedro; no assédio cheio de mentiras e hipocrisia no processo do Sanedrín (corte suprema da lei judia), no que é claro que pouco importa a verdade e a justiça, e do que se trata é de condenar a qualquer preço ao que resulta a todas as luzes, inocente; essa hipocrisia revela-se em toda sua crueza quando ante Pilatos se muda a acusação, de religiosa (blasfêmia), em política (ato de rebelião), já que o culto teológico pouco podia interessar ao solicitador romano; o qual, convencido da ausência de culpabilidade do réu, inclusive nas matérias que a ele podiam lhe interessar (ato de rebelião, alteração da ordem pública, ameaça para a pax romana), cede à injustiça (agravada pela libertação de um réu confesso de assassinato) por cálculo político ou por medo da alteração que, quem sabe, podiam levar ao fracasso sua carreira política. Em definitivo, podemos contemplar toda a cena com o estupor e a impotência de ver o inocente ultrajado, humilhado, torturado e entregue à morte.
Essa leitura pode ser transladada ao nosso mundo com extrema facilidade. Em ocasiões nos embarga a sensação de que este mundo está definitivamente perdido, de que o mal que reina nele é mais forte que qualquer renascer do bem e de justiça e de que os malvados se saem bem, porque sentem a tentação de pensar que, ao final, o mal compensa. Esta sensação desalentadora a cada qual pode a experimentar desde o peculiar prisma que compõe sua escala prioritária de valores. Terá quem sublinhe, sobretudo, as dimensões relativas à ética pessoal, familiar, sexual, etc., e considere que assistimos a uma progressiva degradação dos costumes e à dissolução de valores básicos como o respeito à vida, a família, a responsabilidade, o respeito, etc. Outros, em mudança, sublinharão mais as dimensões sociais, políticas, ecológicas do mal: os relacionamentos injustos e desequilibrados entre ricos e pobres, poderosos e fracos. Todas essas perspectivas são, pelo demais, conciliáveis, porque o mal, desgraçadamente, tem muitos rostos, além de muito poder. Estupidez, debilidade e temor, manipulação, traição, hipocrisia, mentira, cinismo, violência gratuita, humilhação do débil, crueldade, injustiça. São todas realidades que compõem uma rede que abarca ao mundo inteiro e que se concentram dramaticamente na Paixão de Cristo.
E, no entanto, o realismo desta perspectiva é aparente se ficamos somente nela. O mesmo que se realizamos uma leitura puramente negativa do mundo em que vivemos. Porque, voltando de novo ao relato da Paixão, se olhamos com mais detalhe, indo ao profundo dessa trama de acontecimentos marcados pelo selo do mal, não poderemos deixar de perceber a luz que emana de todos eles. Já a entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido como o que vem em nome do Senhor. É a expressão de uma fé e de uma esperança que não se têm de ver defraudadas, apesar de todas as aparências contrárias. É possível que alguns dos que acolheram a Jesus com entusiasmo caíssem dias depois nas presas da manipulação e pedissem aos gritos sua crucificação. Mas não está dito que todos os que lhe acolheram mudaram de lado; muitos sentiriam a derrota de Jesus como sua própria derrota, a de suas esperanças. Na apreensão, o processo ante o Sanedrín e Pilatos, no meio dos ultrajes e humilhações, na mesma Cruz, ressalta a dignidade de Cristo e sua confiança em seu Pai até o final. Isto é, Jesus, Ele mesmo, é a luz que ilumina a escuridão do momento, a bondade insubornável ante os embates do mal, a liberdade soberana para, apesar das adversidades sem limite e nelas mesmas, escolher o lado da vítima inocente em vez do dos verdugos. Isso mesmo está dizendo Jesus ao ser abatido, uma palavra de fôlego: está-nos dizendo de parte de quem está em Deus e daí é o que salva o homem ao final. Essa mesma luz que emana de Cristo nos permite ver o amor arrojado que, pese a tudo, move ao débil Pedro a assumir riscos e, literalmente, meter-se na boca do lobo em sua desesperada tentativa por seguir próximo ao mestre; as negações de Pedro são produto do temor, mas não da indiferença, como o mostram suas lágrimas. Vemos também a mesma luz e compaixão de um homem anônimo “que passava por ali”, Simão de Cireneu e as santas mulheres que olham desde longe e seguem esperando contra toda esperança quando José de Arimateia (outro lampejo de luz, proveniente desta vez do Sanédrio que condenou Jesus) faz rodar a pedra do sepulcro. E é também essa luz a que ilumina a consciência do centurião em uma confissão, “verdadeiramente este homem era Filho de Deus”, que é a revelação final à que tende todo o evangelho de Marcos desde sua primeira linha (“Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”), e que significativamente se na boca de um pagão, capaz de reconhecer o que os “próprios”  foram incapazes de ver: ao morrer Cristo o véu do templo rasga-se, fica atrás a antiga aliança, e estabelece-se uma nova, selada com o Sangue do Cordeiro Imaculado, aberta a todas as gentes sem distinção. É essa luz de Cristo, que segue a iluminar em torno de si a muitos dos protagonistas desta história, a que dá o verdadeiro sentido dos acontecimentos e a que alimenta nossa esperança: Jesus Cristo entregou-se livremente e por amor até a morte e uma morte de Cruz.
Isto é, vemos também neste relato a luz e os lampejos de um bem que segue em pé, com dignidade, sem ceder às acometidas do mal nem sucumbir a suas seduções, apesar de sua aparente derrota. E o que vemos neste relato podemos e devemos o ver também quando fazemos a leitura de nosso mundo. Não podemos deixar que a evidência do mal nos cegue para essa outra evidência, às vezes quase imperceptível, mais perseverante, tenaz, insubornável do bem e da luz. Nossa história (a história do mundo, as histórias mais locais que a compõem, nossa situação contemporânea, nossas pessoais biografias) encerra em si, ao mesmo tempo, a realidade do pecado e da graça: é a história do mal (a violência, a injustiça, a traição, o sofrimento), mas também são histórias de salvação: de entrega generosa, de fidelidade, de honestidade... Não podemos fechar os olhos ante a realidade do mal; mas não devemos sucumbir ao pessimismo de pensar que esse mal é a perspectiva única e vitoriosa (sentindo assim, de passagem, a tentação de se entregar a suas seduções). Nesta mesma história, em seus múltiplos níveis, existe a outra possibilidade, a que procede da luz de Cristo, de sua entrega por amor, de sua fidelidade insubornável. Em nossas mãos está a decisão de que lado queremos estar, a qual destas histórias queremos pertencer. Porque, embora as duas se entrecruzem em nós inevitavelmente (também nós colaboramos com o mal de um modo ou outro), podemos tomar a decisão de se pôr ao lado de Cristo, reconhecendo o mal que há em nós e aceitando a luz que nos apura e nos vai fazendo membros ativos dessa outra história de salvação.
Hoje, junto do centurião (que representa a todos os “iluminados” desta história), ao contemplar a Paixão de Cristo e essa outra paixão que se desenvolve diariamente em nossa atormentada história, somos convidados a confessar com esperança:“Verdadeiramente este homem era Filho de Deus”. E, por isso, Deus o levantou e o seguirá levantando,”sobretudo”, também sobre toda forma de mal. A derrota à que assistimos hoje é o início de uma vitória definitiva, a de Cristo, e, nele, a de todos nós.

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Evangelhos Dominicais Comentados

24/março/2013 – Domingo de Ramos

Evangelho: (Lc 22, 14-23.56)

Ao chegar a hora, Jesus se pôs à mesa com os apóstolos e lhes falou: “Desejei ardentemente comer esta Ceia da Páscoa convosco antes de sofrer. Pois eu vos digo: Nunca mais a comerei, até que ela se realize no reino de Deus”. Tomando um cálice, deu graças e disse: “Tomai este cálice e distribuí entre vós. Pois eu vos digo: Não mais beberei deste vinho até que chegue o reino de Deus”. E tomando um pão, deu graças, partiu-o e deu-lhes dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim”. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova aliança em meu sangue, derramado por vós. Eis, porém, que a mão de quem me vai entregar está comigo à mesa. Pois, segundo está determinado, o Filho do homem vai morrer, mas ai daquele homem por quem ele é entregue!” Eles começaram a perguntar uns aos outros quem dentre eles haveria de fazer uma coisa destas. Uma criada, vendo Pedro sentado junto ao fogo, fitou os olhos nele e disse: “Este homem também estava com ele”.

COMENTÁRIO

O Domingo de Ramos é o dia que nos introduz na Semana da Paixão do Senhor. Semana em que celebramos os principais acontecimentos de nossa redenção. A liturgia desta semana nos apresenta a narração completa da paixão e morte de Jesus. Narra os últimos dias de Jesus e toda trajetória de seu calvário

Na liturgia do Domingo de Ramos temos dois Evangelhos. Um proclamado antes da bênção dos ramos (Lc 19, 28-40) e este (Lc 22, 14-23.56) que estamos analisando, proclamado na Santa Missa. Neste evangelho, Lucas narra também a instituição da Eucaristia.

Segundo o evangelista, o momento é solene. Jesus sabe que este é o último encontro que terá com seus discípulos. Jesus se mostra comovido pela despedida e profundamente magoado por ter que passar também pelo dissabor de admitir que um de seus amigos irá traí-lo.

Depois de falar claramente que um daqueles que ali estava servindo-se na mesma mesa, iria traí-lo, todos os discípulos se interrogavam quem seria o traidor. Cada um conhecia a si próprio, mas o que pensar dos companheiros?

Como se diz popularmente, quem poderia colocar sua mão no fogo pelo companheiro e garantir que nenhum deles seria capaz de entregar o mestre? Realmente era difícil de acreditar que alguém seria capaz de tamanha maldade para com aquele que pregava o amor e a partilha.

Conhecendo a Jesus como todos conheciam, depois de conviverem com o Mestre por, aproximadamente, três anos, partilhando com Ele dos momentos de oração, pregação, milagres e dos seus ensinamentos de solidariedade, partilha e paz, não dá para acreditar que alguém pudesse traí-lo.

Infelizmente o inacreditável aconteceu; Jesus foi traído por alguém que o seguia e que afirmava ser seu amigo. No entanto, dois mil anos se passaram e, ainda hoje milhares de “amigos” de Jesus o traem e o renegam.

Pedro então, que dias antes dera seu testemunho de fé proclamado, com todas suas forças, e com extrema convicção, que aquele era o Messias, o Filho do Deus vivo. Esse mesmo Pedro se prontifica também a acompanhar Jesus na prisão e até mesmo na morte, se for necessário.

A resposta de Jesus à proposta de Pedro é direta e sem rodeios: “Pois eu lhe digo, Pedro, que hoje o galo não cantará antes que você, por três vezes, tenha negado que me conhece”.

As trinta moedas da atualidade têm diversas denominações. Alguns, que também se apresentam como amigos de Jesus abominam a cruz, pregam prosperidade, vida farta e garantem salvação, sem calvário. Simplesmente retiraram de suas bíblias estas palavras: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

Iniciamos dizendo que o Domingo de Ramos é o dia que nos introduz na Semana da Paixão do Senhor. Vamos então viver intensamente esta semana que deve levar-nos a meditar que nosso Deus não é um mercenário comerciante. Nossa salvação custou até a última gota de sangue de um Deus misericordioso, que não cobrou nenhum centavo para nos devolver a verdadeira vida.



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Este domingo sagrado celebra dois mistérios:
(1) a entrada solene do Senhor Jesus em Jerusalém para viver sua Passagem do mundo para o Pai e
(2) o Mistério de sua Paixão, morte e sepultura. Daí o título deste dia: domingo de Ramos e da Paixão. A procissão é de ramos; a missa é da paixão.
Que significa a entrada de Jesus em Jerusalém hoje? Ele é o descendente de Davi, o Filho de Davi e, portanto, o Messias prometido por Deus e esperado por Israel. Por isso o povo grita: “Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!” Jesus é saudado como o Rei de Israel, novo Davi, Messias que chega à Cidade de Davi! E Jesus, de fato, é Rei, é Messias! A festa de hoje é, em certo sentido, uma festa de Cristo Rei, Rei-Messias! É uma festa de exultação! Mas, estejamos atentos: ele entra na Cidade Santa montado não num cavalo, que simboliza poder e força, mas entra num jumentinho, usado pelos pobres nos serviços mais humildes e duros. Isto tem muito a nos dizer: Jesus é o Messias, mas um messias pobre, um messias servo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc. 10,45). O seu serviço é um só: “dar a vida em resgate por muitos”. Ele é o Messias-Servo Sofredor, do qual fala o profeta Isaías na primeira leitura da missa de hoje: "Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas... Mas o senhor Deus é meu Auxiliador, por isso sei que não serei humilhado". Ele é aquele que tomará sobre si as nossas faltas e será ferido pelas nossas feridas... Pois bem, é com este propósito que Jesus entra em Jerusalém hoje.
Quanto a nós, vamos com ele! Os ramos que trazemos nas mãos significam que reconhecemos Jesus como o Messias de Israel, prometido por Deus. Significam também que nos dispomos a segui-lo como o Servo que dá a vida na cruz. Levaremos estes ramos para casa. Devemos guardá-los num lugar visível durante todo o ano, para recordar nosso compromisso de seguir o Cristo num caminho de humildade e despojamento; segui-lo ainda quando não compreendermos bem os desígnios de Deus para nós... Seguir o Cristo, que confia no Pai até a morte e não se cansa de fazer da vida um serviço de amor. Seguir hoje em procissão com os ramos na mão significa proclamar diante do mundo que cremos nesse Jesus fraco, humilde, silencioso, crucificado... loucura para o mundo, mas sabedoria de Deus; fraqueza para o mundo, mas força de Deus!
Rejeitemos, então, por amor de Cristo, toda visão de um cristianismo de procura de curas, milagres, solução de problemas... um cristianismo que trai o Evangelho e renega a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo... um cristianismo falso, que enche templos e esvazia o escândalo da cruz! Lembremo-nos de Jesus Cristo! “Fiel é esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos!” (2Tm. 2,11s).
Que tenhamos a coragem de proclamar com a vida e as palavras esse Jesus, porque se nos calarmos “as pedras gritarão”...
Para a missa da Paixão do Senhor
Com esta Eucaristia, iniciamos a grande semana. Tomemos três frases da Paixão que acabamos de ouvir. Elas são suficientes para inspirar-nos hoje.
Primeira palavra: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer”. Esta frase do Senhor, saída do seu coração, é dirigida também a nós; é um convite a celebrarmos sua Páscoa, participando na liturgia desta semana Santa e na vida da todo dia, de suas dores para também participarmos de sua vitória, de sua Ressurreição. Comer com Cristo a santa Páscoa é nos dispor a participar de sua sorte, de seu caminho rumo à cruz e à ressurreição. Nunca esqueçamos: “ele esvaziou-se de si mesmo... fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou acima de tudo”.  Este é o caminho pascal de Jesus e nosso. Disponhamo-nos, portanto, a caminhar com ele. Aceitemos o seu convite para comer com ele esta Páscoa sagrada. Participemos ativa e piedosamente dos santos mistérios celebrados nestes dias e estejamos também dispostos a vivê-los na nossa vida.
Segunda palavra: “Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato”. Que afirmação tão dolorosa: um de nós, um que come com o Senhor, um que participa da sua Mesa, o entregou! Esta advertência de Jesus deve ser sempre recordada por cada um de nós, que participamos de sua Eucaristia! E que ninguém seja presunçoso como Pedro! Que humildemente nos perguntemos: “Mestre, serei eu?” Traímos Jesus como Judas quando buscamos nossos interesses, nossa lógica, nossas paixões, desprezando Aquele que nos convida a segui-lo... deixamo-lo, fugimos, buscando as facilidades de uma vida mundana, de valores mundanos, de uma lógica mundana... Seguimo-lo de longe, como Pedro, quando pretendemos ser cristãos sem nos comprometermos com ele, sem por ele a nada renunciarmos, sem nele empenharmos nossa vida! Não o reneguemos como Pedro; não lhe demos o beijo de Judas! Que possamos escutar, um dia, a afirmação do Senhor: “Vós ficastes comigo em minhas provações!”
Terceira palavra: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve”. Nesta frase do Senhor está o sentido do que celebraremos durante esta santíssima Semana. Ele mesmo disse que veio para servir e dar a vida em resgate da multidão (cf. Mc. 10,45). É assim que ele está em nosso meio: como aquele que dá a vida por nós, que se entrega por amor. Aquilo que ele realizou na sua existência toda, acolhendo, perdoando, curando, restaurando a esperança... isto é, entregando-se a nós e por nós, agora ele vai consumar até a morte e morte de cruz! Acolher esse serviço é reconhecer que Cristo morreu por nós, por nós entregou sua vida... e, assim, ser-lhe grato de todo o coração, como Paulo, que exclamava: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl. 2,20). Sejamos-lhe gratos: vivamos também nós por ele!
Caríssimos, estejamos de coração atento para vivenciar, nestes dias sagrados, tão grande mistério! Não recebamos em vão a graça de Deus: que aprendendo os ensinamentos de sua paixão, ressuscitemos com ele em sua glória.
dom Henrique Soares da Costa

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As leituras de hoje destacam a humildade como fundamento da obediência. Ser humilde é despojar-se do orgulho. É tornar-se uma pessoa integrada, que sabe lidar com todas as coisas e situações de forma harmoniosa. O orgulho desarmoniza, faz pessoas, ideias, objetos e situações ocuparem o lugar de Deus na vida do ser humano, tornando-o escravo de um ídolo. A palavra “obediência”, nos idiomas mais antigos, significa “prestar atenção”, “dar ouvidos”. A obediência de Jesus ao Pai significa, antes de tudo, que Jesus levou ao cumprimento pleno o projeto de amor de Deus para com o ser humano. Nem mesmo nos momentos difíceis ele voltou atrás no que ensinou e no que mostrou na própria vida a respeito de Deus e de seu reino de fraternidade universal. Nem mesmo a tortura da cruz o fez desistir de mostrar às pessoas quem é o Pai e qual a proposta dele ao ser humano. É nesse sentido que a cruz de Jesus é sinal de humildade e obediência.
Evangelho Lc. 22,14-23,56
Não se faça a minha vontade, Pai, mas sim a tua.
A Paixão de Jesus tem sua antecipação profética no relato da Ceia. Chegada a hora de sua saída para o Pai, Jesus põe-se a cear com seus discípulos. Essa última refeição que ele toma com os seus revela-se a prefiguração de sua entrega a Deus e da conclusão de sua missão. Por isso, ela é cheia de significados. A morte de Jesus não é um fracasso, um caminho sem saída, mas inauguração da paz e salvação plena na presença de Deus. É consequência de sua vida, de sua doação plena ao projeto de salvação operado por Deus na história humana. É a manifestação do reino de Deus, ou seja, da justiça e fidelidade. É o cume do anúncio do reino de Deus, proclamado desde a Galileia, o qual foi o programa de toda a sua atuação pública. Por isso, ao dizer “desejei ardentemente”, Jesus quis dar um significado à sua morte iminente. Ela é promessa de restauração da humanidade decaída. Nessa promessa, Jesus associa os discípulos a um gesto retomado do banquete judaico, inserindo os seus no mesmo destino: o destino de alguém que enfrenta a morte na firme esperança de antecipar a realeza de Deus no mundo e na história.
Após a ceia, Jesus vai ao monte das Oliveiras e, como de costume, ora ao Pai, princípio e fonte de seu ministério. Ao vislumbrar o destino que o aguarda, Jesus recorre ao Pai. Na agonia, pede que lhe afaste o cálice do sofrimento. Mas mantém-se fiel à vontade de Deus. Não uma vontade desejosa da morte de seu Filho, mas a que revela o amor fontal e fiel de Jesus àquele de quem tudo recebe. Em nome desse amor, Jesus permanece firme até o fim. E, movido por esse amor, enfrenta os que o capturam. É com esse amor e fidelidade filial que Jesus enfrenta a traição de Judas, a negação de Pedro, a dor e a humilhação infligida a ele por aqueles a quem fora enviado: seu povo.
No Sinédrio, Jesus é rejeitado de forma definitiva pelos líderes do seu povo. Diante do Sinédrio, o evangelista estabelece a posição e a identidade de Jesus em face da autoridade judaica. A identidade de Jesus é apresentada de forma progressiva: o Cristo (22,67), o Filho do homem, glorificado à direita de Deus (22,69), o Filho de Deus (22,70). Na expressão “Filho de Deus” está presente a profissão de fé cristã. O Filho do homem foi humilhado e menosprezado pela humanidade, mas agora está glorificado por Deus como um messias-rei (cf. Sl. 110,1).
Após ser rejeitado pela liderança religiosa, Jesus é submetido ao poder político, que, apesar de estar ciente de sua inocência, o condena. Acusado de rebeldia e subversão, Jesus é entregue à morte. Na obstinação dos sumos sacerdotes, dos magistrados e da multidão em condenar Jesus, transparece a total rejeição ao projeto de Deus realizado no homem de Nazaré. A morte de Jesus situa-se ao final de uma série de infidelidades e rebeliões obstinadas contra o projeto de Deus ao longo da história.
No caminho da cruz, Jesus deixa entender que na sua morte violenta se decide o destino do povo de Deus e da humanidade. O julgamento histórico de Deus abater-se-á sobre a cidade de Jerusalém, símbolo da humanidade infiel e rebelde aos apelos dos profetas.
Jesus é crucificado entre malfeitores. O que veio para buscar os perdidos encontra-se agora entre eles, partilhando da mesma sorte. E, aqui, revela-se o rosto salvador de Deus. O Libertador de Israel não tira o Messias da cruz nem o livra da vergonha e da violência, contudo permanece fiel ao amor também na situação mais extrema.
A inocência de Jesus é reconhecida por um dos criminosos ao seu lado. E este proclama sua total confiança em Jesus. A resposta do Filho de Deus é uma afirmação solene da salvação já hoje, da salvação escatológica que começa no hoje da história humana. Então o pecador arrependido pode escutar a “boa-nova”, o evangelho da salvação, que consiste na comunhão com Jesus no Reino dos justos. É com este último gesto de solidariedade que Jesus dá a salvação a quem crê e se converte.
Após sua morte, a ação de Deus é reconhecida pelo centurião, ao proclamar que Jesus era um homem justo. Mas a morte não é o fim e nos lança para o que acontecerá no amanhecer do primeiro dia da semana.
1ª leitura: Is. 50,4-7
Não foi rebelde nem voltou atrás
O texto mostra que, apesar dos sofrimentos, o Servo está empenhado em obedecer à vontade divina. Ele está qualificado para a obra que Deus o destinou a realizar. Essa qualificação transparece em duas afirmações:
1) Ele tem uma língua hábil para instruir as pessoas de sua época cansadas e desanimadas. A “língua hábil” significa que as palavras são pronunciadas por alguém que é uma autoridade no que diz, em vez de ser um “blá-blá-blá” sem consistência. A habilidade para fazer isso vem de uma relação íntima com Deus.
2) Ele tem ouvido de discípulo e toda manhã recebe a instrução vinda de seu contato com Deus. É alguém que está alerta, atento, acordado; é isso que significa a expressão “cada manhã”.
Enfim, ter a língua hábil e o ouvido atento constitui o missionário competente, que antes é discípulo dócil.
Os versículos 5 e 6 mencionam o sofrimento que é fruto do desempenho do discípulo missionário. Os mesmos versículos asseguram que, apesar das muitas dificuldades, o Servo mantém uma constância destemida e leva a cabo a obra para a qual foi escolhido.
O servo não se rebelou, isto é, não voltou atrás em sua missão quando a resposta às suas palavras de consolo aos desanimados foi a perseguição e a violência. Há uma descrição da dor e da vergonha que o Servo passou: foi açoitado, esbofeteado, teve a barba arrancada, foi insultado e cuspido. Naquela época, ter a barba arrancada era um dos maiores graus de dor e de vergonha para o homem oriental. Nenhuma dessas afrontas o fez desistir de sua missão.
O texto deixa entrever que o Servo poderia ter evitado esse sofrimento se tivesse voltado atrás na sua missão (v. 5). Várias expressões mostram isso: apresentar as costas, oferecer o queixo, não desviar o rosto.
Passar por todo esse sofrimento sem voltar atrás só foi possível porque o Senhor era aliado do Servo. Por causa dessa cumplicidade com o Senhor, o Servo não fracassou em sua missão (v. 7).
2ª leitura: Fl. 2,6-11
Assumiu a forma de servo e se humilhou, tornando-se obediente
Esse texto, um hino litúrgico inserido em um contexto missionário e pastoral, tem em vista a práxis cristã, e não abstrações sobre a essência de Deus.
A primeira parte do hino (vv. 9 - 11) se refere à atitude de Jesus, a qual deve ser tomada como exemplo por todos os cristãos.
Nesse texto bíblico encontramos um resumo da história da salvação. Jesus foi visto pela maioria dos seus contemporâneos apenas como um homem simples do povo. No entanto, ele pertencia também a outra esfera: era de condição divina (v. 6). Tornou-se humano, como tal viveu e morreu (vv. 7-8) e foi exaltado junto a Deus (vv. 9-11).
A ideia central do texto é que Cristo não quis apoderar-se da divindade ou usurpá-la, mas, sendo de condição divina, estava disposto a renunciar aos privilégios inerentes a ela em favor do ser humano.
É para essa atitude de desprendimento pela grandeza divina que Paulo chama a atenção de seus destinatários. Jesus se despojou dos privilégios específicos da natureza divina e adotou a postura de um servo. Essa atitude de serviço e obediência, até mesmo diante do tipo de morte mais vergonhosa em sua época, significa que Cristo não usou as prerrogativas divinas em favor de si mesmo.
A disposição para o despojamento em favor do ser humano é o que Paulo está propondo como critério para a vida cristã.
Esse Jesus que se humilhou até a morte na cruz, Deus o exaltou e submeteu a ele o universo em todas as suas dimensões. A menção de todos esses aspectos da história da salvação tem por objetivo fazer que os cristãos aprendam a viver com o mesmo desprendimento, consideração pelo ser humano e obediência a Deus que caracterizaram aquele a quem seguem: Jesus Cristo.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
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Ramos e Paixão do Senhor
Há alegria no ar. Jesus entra na capital religiosa de seu país. Entra saudado com ramos de oliveira, cantos de hosana.
“Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão, e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas nos prostrarmos aos seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter” (santo André de Creta).
O Mestre escolhe a pobreza total e radical para levar os homens à festa do amor de seu Pai. Jesus se esvazia em sua encarnação.  “Na encarnação Jesus fez sua a pobreza radical do homem perante Deus. Coerente com esta sua escolha, apoiou-se na palavra do Pai, que nas Escrituras lhe indica o caminho para cumprir sua missão; não se subtraiu à condição de homem pecador, e ao sofrimento que provém do egoísmo, nem aos limites da natureza humana, entre os quais, antes de tudo, a morte. Um homem como todos, um pobre em poder de todos;  assim mostra o sucinto e objetivo relato  dos evangelistas. Vemo-lo como uma vítima da intolerância e da injustiça, um amotinador ou, quando muito, um sacrificado pelos seus por um falaz calculo político. Mas, isto não bastaria para fazer dele um salvador. O que resgata sua morte, o que a transfigura - para ele e para nós – é o imenso peso de amor com que faz o dom da vida, para libertar-nos da violência e do ódio, do fanatismo e do medo, do orgulho e da autossuficiência; para tornar-nos - como ele - disponíveis a Deus e aos outros, capazes de amar e de perdoar, de ter confiança e reconstruir, de crer no homem ultrapassando as aparências e as deformações” (Missal dominical da Paulus, p. 250).
Demos ainda a palavra a André de Creta: “Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade e se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso de nossa infinita pequenez ; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos conduzir a si”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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“Jerusalém, Jerusalém!”
Como lema para o sentido lucano da Paixão de Jesus poderíamos escolher o texto de Lc. 13,34-35: “Jerusalém, Jerusalém … “. A vida de Jesus é uma grande subida a Jerusalém, realização da visita escatológica de Deus a seu santuário (cf. Ml. 3,1). Mas Jerusalém não reconhece a hora de sua visitação. Os pobres, a multidão dos discípulos, o reconhecem (19,37), mas os detentores do poder não o querem reconhecer, nem ouvir o testemunho dos pequenos (19,39-40). Por isso, Jerusalém será destruída, porque não reconheceu a hora de sua visitação (19,44; seria adequado prolongar a leitura da Entrada até o v. 44).
Ora, a salvação que Jesus traz torna-se eficaz na medida em que a assimilamos, numa vida semelhante à dele. O “caminho” de Jesus reassume o caminho de Israel (em Lc. 9,31, a subida a Jerusalém é chamada de “êxodo”). Mas é, sobretudo, a abertura do caminho da Igreja e dos fiéis (em At. 9,2 etc., a Igreja é chamada “o Caminho”). Jesus é o modelo do orante cristão (3,21; cf. 11,1-4 etc.). Agora, na hora decisiva da salvação, mais do que nunca o comportamento de Jesus é o modelo que os cristãos devem imitar, e seus passos, o caminho que eles devem seguir. Pois, se Jesus foi até Jerusalém e Gólgota, é daí que eles deverão partir, para que de Sião saia a salvação para o mundo inteiro (cf. Is. 2,3).
Lc acrescenta à narração de Mc algumas feições características: na última ceia, Jesus se coloca como exemplo de serviço (22,24-25); os discípulos deverão enfrentar a mesma hostilidade que ele (35-38); Jesus aparece como o modelo do homem justo e piedoso, não só reconhecido como tal pelas mulheres ao longo do caminho (23,27), mas, sobretudo, mostrando sua compaixão para com elas e para com seus filhos (23,28). Porém, é sobretudo na cruz que se manifestam em Jesus a graça e a bondade de Deus, como também seu perdão (tema caro a Lucas): promete o paraíso ao “bom ladrão” (23,39-43). Em vez do Sl. 22[2l], cujo início soa como desespero, Lucas coloca na boca do Cristo morrendo na cruz uma palavra de plena entrega de sua vida (23,46).
Também não faltam exortações para a vida cristã: Simão deve fortalecer seus irmãos na fé (22,21-32). Os discípulos, em Getsêmani, devem rezar para “não entrar na tentação” (22,40.46) (alusão ao perigo da apostasia, no tempo de Lc).
Vale a pena reler a Paixão segundo Lc tendo diante dos olhos as fórmulas do anúncio de Cristo pelos primeiros cristãos. Só alguns indícios: a acusação quanto à atividade de Jesus (23,5) é formulada conforme o querigma (cf. At. 10,37 ss.); a morte de Jesus provoca arrependimento (23,48), como também acontecerá quando os apóstolos proclamarem o “querigma” (cf. At. 2,37; 3,19 etc.). Para Lucas, narrar a Paixão de nosso Senhor não é obra de um historiador acadêmico, mas evangelização, provocar o confronto com o Filho de Deus hoje.

A morte do justo
Foi diante da morte do justo, que o mundo se compungiu.
Hoje, o relato da Paixão de N. Senhor segundo Lucas nos conta como os poderosos rivais, Herodes e Pilatos, tornam-se amigos à custa de Jesus, mandando-o de um para o outro como objeto de diversão. Conta também como um dos malfeitores crucificados com Jesus escarnece do sofrimento do justo. Por outro lado, vemos Simão de Cirene, ajudando Jesus a levar a cruz; as mulheres chorando o seu sofrimento; o bom ladrão solicitando a misericórdia de Jesus; o povão que se arrepende... Qual é a nossa atitude diante do sofrimento do justo? A de Herodes e de Pilatos? A das mulheres e do bom ladrão?
O oficial romano ao pé da cruz exclamou: “Realmente, este homem era um justo!” O que é ser justo, no sentido da Bíblia? Por que o justo sofre? A 1ª e a 2ª leitura nô-lo dizem: por obediência a Deus. Então, Deus manda sofrer? Não é isso horrível e cruel? Não, Deus não manda sofrer o justo, seu “filho”. Só manda amar. Amar até o fim. Mas quem ama, sofre! O justo que ama, sofre, não por causa da paixão sentimental, mas porque ele não quer ser infiel ao amor que começou a demonstrar, e que se opõe à violência dos donos de nosso mundo! Nesta fidelidade, o justo pode expirar como Jesus, dizendo: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Ser justo é corresponder àquilo que Deus espera de nós, colaborar com o seu plano. É fazer como o bispo Romero e tantos outros que deram a vida por aquilo que consideravam ser o desejo do Deus: o amor testemunhado aos mais pobres dentre seus filhos.
Diante da cruz do justo que morre, temos que optar: ou pelo lado dos que dão sua vida para viver e fazer viver o amor de Deus, ou pelo lado dos que se dão as mãos para suprimir a justiça; lado de quem carrega a cruz ou de quem a impõe...
Johan Konings "Liturgia dominical"
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O inocente condenado
A paixão de Jesus gira em torno de um paradoxo: um inocente condenado a morrer como os bandidos e os marginais. Seus acusadores foram incapazes de aduzir uma só prova consistente contra ele. A autoridade romana, que deveria confirmar a sentença de morte dada pelo tribunal judaico, declarou não ter encontrado em Jesus nada que justificasse uma punição. Foi por isso que Pilatos achou por bem enviá-lo a Herodes, cuja jurisdição abrangia a Galiléia, na tentativa de confirmar seu parecer. Ao ser enviado de volta, Pilatos deduziu que também Herodes nada havia apurado contra Jesus.
A atitude do Mestre, ao longo de todo o processo, foi de silêncio. Ele agia como o Servo Sofredor, que Isaías comparou com um cordeiro manso, levado ao matadouro. Seu silêncio justificava-se. Era impossível buscar a verdade dos fatos com quem estava fechado para a verdade. Não existe Lei para quem se arvora em senhor da vida e da morte do próximo. Toda tirania descamba para a injustiça.
A fragilidade de Jesus diante de seus carrascos tem a densidade de um gesto profético. Ele se recusou, até o fim, a entrar na ciranda da violência, que paga com a mesma moeda a injustiça sofrida. Não respondendo ao mal com o mal, Jesus conseguiu desarticulá-lo, mostrando que é possível ao ser humano não se deixar dominar por seus instintos perversos.
padre Jaldemir Vitório
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Neste domingo celebramos a Paixão e Morte de nosso Senhor Jesus Cristo, e no próximo, a sua gloriosa Ressurreição. Estamos ainda dentro da Quaresma, que terminará na quinta-feira santa à tarde, quando iniciaremos o Tríduo sacro, o centro de todo o ano litúrgico. Quem pode participar das celebrações apenas nos domingos celebra hoje a morte de Jesus na cruz; e no próximo domingo, a Páscoa da Ressurreição.
Quem pode participar todos os dias celebra hoje a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e sua morte, e dá início à semana santa. Na segunda-feira, a Igreja medita a unção em Betânia; na terça, o anúncio da traição de Judas e da negação de Pedro, e na quarta, a traição de Judas. Quinta-Feira Santa pela manhã, é o dia em que, nas catedrais, são abençoados os óleos para o batismo e para os enfermos, e é consagrado o óleo do crisma.
Na parte da tarde, terminando a Quaresma, inicia-se o Tríduo sacro com a celebração da Ceia do Senhor e do Lava-pés. Na sexta-feira se faz a solene ação litúrgica da Paixão e Morte do Senhor. Nesse dia não há missa, assim como no dia seguinte, sábado santo, em que o Senhor repousa no sepulcro. A Vigília pascal já faz parte do dia da Páscoa, por isso é celebrada depois do pôr do sol, terminando antes da aurora do Domingo de Páscoa.
Jesus entra em Jerusalém, a sua cidade, porque é lá que se devem realizar todas as profecias e toda a expectativa do povo de Israel, bem como de todas as nações. O impossível se torna real. A partir de Jerusalém é iniciado o grande e definitivo êxodo, aquele que importa de fato, o que parte deste mundo e chega à casa do Pai.
A cruz é plantada fora dos muros para que todos tenham acesso a ela e dela façam a ponte da salvação e da libertação. Ninguém mais precisa viver sob a dominação do demônio, do pecado e da morte. O descendente da mulher esmaga a cabeça da serpente, perdoa todas as nossas faltas suprimindo na cruz nosso título de dívida, e vence a morte para sempre.
Já não há mais condenação para os que estão em Cristo Jesus. Tendo conhecido nosso Senhor Jesus Cristo, não nos deixemos seduzir nem nos deixemos escravizar por coisa alguma. Na cruz está a vitória. Coloquemo-nos humildemente aos pés da cruz e deixemo-nos lavar com o sangue e a água que jorram do coração do Crucificado.
Sentados aos pés da cruz poderíamos meditar sobre a nossa participação em tudo o que está acontecendo. De Maria já se disse que ela guardava em seu coração tudo o que acontecia com Jesus, e meditava. Podemos meditar sobre o pouco conhecimento que temos de tudo o que Jesus fez por nós.
No entanto, nossa fé é de uma beleza extraordinária. Ela se alimenta na espiritualidade litúrgica e se torna sempre mais ativa na caridade. Aquele que crê tem no mundo uma presença transformadora. Examinemos as coisas mais simples com o conhecimento que temos do Evangelho e dos ensinamentos que estão no Catecismo.
O que significa a missa que celebramos cada domingo, como alimentamos a nossa vida espiritual na liturgia, onde adquirimos força para atuar na sociedade como consciência crítica de tudo o que vai contra a pessoa humana. Afinal, nós conhecemos a beleza da nossa "religião"? A resposta hoje deve ser dada aos pés da cruz.
cônego Celso Pedro da Silva
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Jesus, servo obediente de Deus
Hoje, começa a Semana Santa. Neste dia como na Sexta-Feira Santa, a palavra deve ceder lugar à contemplação. Entrando em Jerusalém, Jesus entra em sua cidade, para levar a termo a vontade do Pai. Entra como “Príncipe da Paz” que reconcilia a humanidade com Deus.
A primeira coisa a ter presente no relato da paixão é que Jesus é o servo obediente de Deus. Depois, que a traição contra Jesus é feita por um dos discípulos, por alguém que gozou do convívio com o Senhor. Mas não foi só um que o traiu, os outros onze também o abandonaram, diante da ameaça da morte. A pergunta se nos impõe: Onde estamos nós na paixão do Senhor?
Não será o sofrimento nem a morte que farão o Senhor sucumbir ou desistir do seu caminho para o Pai. Na hora decisiva, a última e definitiva entrega: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.
Carlos Alberto Contieri,sj
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A liturgia deste último domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.
A primeira leitura apresenta-nos um profeta anônimo, chamado por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projetos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste “servo” a figura de Jesus.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância, para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe.
O Evangelho convida-nos a contemplar a paixão e morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz revela-se o amor de Deus, esse amor que não guarda nada para si, mas que se faz dom total.
1ª leitura: Is. 50,4-7 - AMBIENTE
No livro do Deutero-Isaías (Is. 40-55), encontramos quatro poemas que se destacam do resto do texto (cf. Is. 42,1-9;49,1-13;50,4-11;52,13-53,12). Apresentam-nos uma figura enigmática de um “servo de Jahwéh”, que recebeu de Deus uma missão. Essa missão tem a ver com a Palavra de Deus e tem caráter universal; concretiza-se no sofrimento, na dor e no abandono incondicional à Palavra e aos projetos de Deus. Apesar de a missão terminar num aparente insucesso, a dor do profeta não foi em vão: ela tem um valor expiatório e redentor; do seu sofrimento resulta o perdão para o pecado do povo. Deus aprecia o sacrifício do profeta e recompensá-lo-á, elevando-o à vista de todos, fazendo-o triunfar dos seus detratores e adversários.
Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a ser um testemunho de Deus no meio do sofrimento em que vive? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.
O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”.
MENSAGEM
O texto dá a palavra a um personagem anônimo, que fala do seu chamamento por Deus para a missão. Ele não se intitula “profeta”; porém, narra a sua vocação, com os elementos típicos dos relatos proféticos de vocação.
Em primeiro lugar, a missão que este “profeta” recebe de Deus tem claramente a ver com o anúncio da Palavra. O profeta é o homem da Palavra, através de quem Deus fala; a proposta de redenção que Deus faz a todos aqueles que necessitam de salvação/libertação ecoa na palavra profética. O profeta é inteiramente modelado por Deus e não opõe resistência nem ao chamamento, nem à Palavra que Deus lhe confia; mas tem de estar, continuamente, numa atitude de escuta de Deus, para que possa depois apresentar – com fidelidade – essa Palavra de Deus para os homens.
Em segundo lugar, a missão profética realiza-se no sofrimento e na dor. É um tema sobejamente conhecido da literatura profética: o anúncio das propostas de Deus provoca resistências que, para o profeta, se consubstanciam quase sempre em dor e perseguição. No entanto, o profeta não se demite: a paixão pela Palavra sobrepõe-se ao sofrimento.
Em terceiro lugar, vem a expressão de confiança no Senhor, que não abandona aqueles a quem chama. A certeza de que não está só, mas que tem a força de Deus, torna o profeta mais forte do que a dor e o sofrimento. Por isso, o profeta “não será confundido”.
ATUALIZAÇÃO
¨ Não sabemos, efetivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a libertação/salvação aos homens… A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.
Jesus, o “servo” sofredor que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projeto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova para nós e para os nossos irmãos?
¨ Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o nosso mundo?

2ª leitura: Fl. 2,6-11 - AMBIENTE
A cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída majoritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador; gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália. A comunidade cristã, fundada por Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2Cor. 8,1-5), por quem Paulo nutria um afeto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita… O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade.
É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajetória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo.
MENSAGEM
Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino. Dado que os filipenses são cristãos, quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados, têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como é o exemplo de Cristo?
O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu – cf. Gn. 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.
Em traços precisos, o hino define o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento” assumiu mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.
No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projetos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o “Kyrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece Jesus como “o senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história.
É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que Paulo faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos; esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glorificação, à vida plena.
ATUALIZAÇÃO
¨ Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
¨ Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, nestes últimos dias antes da Páscoa, um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

Evangelho: Lc. 22,14-23,56 (longa) ou Lc. 23,1-49 (breve) - AMBIENTE
Com a chegada de Jesus a Jerusalém e os acontecimentos da semana santa, chegamos ao fim do “caminho” começado na Galileia. Tudo converge, no Evangelho de Lucas, para aqui, para Jerusalém: é aí que deve irromper a salvação de Deus. Em Jerusalém, Jesus vai realizar o último acto do programa enunciado em Nazaré: da sua entrega, do seu amor afirmado até à morte, vai nascer esse Reino de homens novos, livres, onde todos serão irmãos no amor; e, de Jerusalém, partirão as testemunhas de Jesus, a fim de que esse Reino se espalhe por toda a terra e seja acolhido no coração de todos os homens.
MENSAGEM
A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida. Desde cedo, Jesus apercebeu-Se de que o Pai O chamava a uma missão: anunciar a Boa Nova aos pobres, sarar os corações feridos, pôr em liberdade os oprimidos. Para concretizar este projeto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina “fazendo o bem” e anunciando a proximidade de um mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham o coração mais disponível para acolher o Reino; e avisou os “ricos”, os poderosos, os instalados, de que o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte.
O projeto libertador de Jesus entrou em choque – como era inevitável – com a atmosfera de egoísmo, de má vontade, de opressão que dominava o mundo. As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostos a arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus. Por isso, prenderam Jesus, julgaram-n’O, condenaram-n’O e pregaram-n’O na cruz.
A morte de Jesus é a consequência lógica do anúncio do Reino: resultou das tensões e resistências que a proposta do “Reino” provocou entre os que dominavam este mundo.
Podemos também dizer que a morte de Jesus é o culminar da sua vida; é a afirmação última, porém mais radical e mais verdadeira (porque marcada com sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e com gestos: o amor, o dom total, o serviço.
Na cruz de Jesus, vemos aparecer o Homem Novo, o protótipo do homem que ama radicalmente e que faz da sua vida um dom para todos. Porque ama, este Homem Novo vai assumir como missão a luta contra o pecado, isto é, contra todas as causas objectivas que geram medo, injustiça, sofrimento, exploração, morte. Assim, a cruz contém o dinamismo de um mundo novo – o dinamismo do Reino.
Para além da reflexão geral sobre o sentido da paixão e morte de Jesus, convém ainda notar alguns dados que são exclusivos da versão lucana da paixão:
· No relato da instituição da Eucaristia, só Lucas põe Jesus a dizer: “fazei isto em memória de Mim” (cf. Lc. 22,19). A expressão não quer só dizer que os discípulos devem celebrar o ritual da última ceia e repetir as palavras de Jesus sobre o pão e sobre o vinho; mas quer, sobretudo, dizer que os discípulos devem repetir a entrega de Jesus, a doação da vida por amor.
· Só Lucas coloca no contexto da última ceia a discussão acerca de qual dos discípulos seria o “maior” e a resposta de Jesus (cf. Lc. 22,24-27). Jesus avisa os seus que “o maior” é “aquele que serve”; e apresenta o seu próprio exemplo de uma vida feita serviço e dom. Estas palavras soam a “testamento” e convocam os discípulos para fazerem da sua vida um serviço aos irmãos, ao jeito de Jesus.
· No jardim das Oliveiras, só Lucas faz referência ao aparecimento do anjo e ao “suor de sangue” (cf. Lc. 22,42-44). Esta cena acentua a fragilidade humana de Jesus que, no entanto, não condiciona a sua submissão total ao projeto do Pai; e sublinha a presença de Deus, que não abandona nos momentos de prova aqueles que acolhem, na obediência, a sua vontade.
· Também no relato da paixão aparece a ideia fundamental que perpassa pela obra de Lucas: Jesus é o Deus que veio ao nosso encontro, a fim de manifestar a todos os homens, em gestos concretos, a bondade e a misericórdia de Deus. Essa ideia está presente no gesto de curar o guarda ferido por Pedro no Jardim do Getsemani (cf. Lc. 22,51); está também presente nas palavras de Jesus na cruz: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” – Lc. 23,34 (é desconcertante o amor de um Filho de Deus que morre na cruz pedindo desculpa ao Pai para os seus assassinos); está, ainda, presente nas palavras que Jesus dirige ao criminoso que morre numa cruz, ao seu lado: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso” – Lc. 23,43 (é desconcertante a bondade de um Deus que faz de um assassino o primeiro santo canonizado da sua Igreja).
· Todos os sinópticos falam da requisição de Simão de Cirene para levar a cruz de Jesus (cf. Mt. 27,32; Mc. 15,21); no entanto, só Lucas refere que Simão transporta a cruz “atrás de Jesus” (cf. Lc. 23,26). Este dado serve a Lucas para apresentar o modelo do discípulo: é aquele que toma a cruz de Jesus e O segue no seu caminho de entrega e de dom da vida (“se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-Me” – Lc. 9,23; cf. 14,27).
ATUALIZAÇÃO
Celebrar a paixão e morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil… Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir conosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes. 
Contemplar a cruz onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias. Significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens. Significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de um dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Bendito aquele que vem em nome do Senhor!
Com a celebração de Ramos abrimos solenemente a Semana Santa e o tríduo Pascal. Vejamos o que dizem as leituras bíblicas do dia.
A primeira leitura (Isaias 50,4-7) nos coloca diante do Servo Sofredor e de sua missão. A leitura da Paixão de Jesus segundo Lucas 23 apresenta a fidelidade e a determinação do Servo Sofredor. Na segunda leitura (Fl. 2,6-11) Paulo pede que examinemos se o nosso projeto de vida coincide com o de Jesus – Servo obediente até a morte na cruz.
Nos quatro cantos do Brasil as comunidades católicas comemoram hoje com alegria a entrada de Jesus em Jerusalém. Procissões são organizadas e o povo ergue ramos encenando o evento. “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumentinho. Anunciará a paz a todas as nações e o seu domínio irá de mar em mar, do rio Eufrates até os confins da terra” (Zacarias 9,9-10).
O Evangelho (Lc. 19,28-40) relata que Jesus entrou em Jerusalém montado num jumentinho sem cavalos e carros de guerra, sinal de humildade e mansidão. O povo alegre, louva, clama bendito! Viva Cristo Rei! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! Sabemos que pessoas que hoje aclamaram Jesus na mesma semana diante de Pilatos gritaram crucifica-o! Este acontecimento lembra nossa vida: Ora fiéis, ora infiéis. Sabemos das nossas incoerências, de nossas infidelidades e de nossas fraquezas. Tal qual a Igreja somos santos e pecadores. Ainda que digamos que não conhecemos o Filho, nosso Pai celestial continua nos admitindo como filhos. Aí está a chave da celebração da Semana Santa – recordamos o amor de Deus por nós. A entrada de Jesus em Jerusalém acontece em dia de festa. Aqueles que tramavam sua morte comentavam entre si: Não na festa, para que não haja tumulto entre o povo.
A catequese e a prática de Jesus arrastam multidões. As autoridades políticas e religiosas que tinham seu poder garantido a partir da dominação se irritam. O projeto de perseguição e morte de Jesus contou com a efetiva participação do poder político e religioso. Isto veremos na próxima reflexão com a grande festa da Páscoa cristã.
Pedro Scherer
O Senhor não fez do ser Deus uma usurpação
O Domingo de Ramos é marcado pela ambiguidade de atitudes e acontecimentos. Jesus é recebido com festa, mas depois é condenado à morte O povo que cantou “hosanas” também gritou “crucifica-o”, o Jesus triunfante na entrada em Jerusalém é aquele que seria humilhado na cruz. Também são contraditórios os personagens: Pilatos que não deseja a condenação, Pedro que se culpa pela sua covardia, Judas que trai o seu Mestre, o povo em geral...
Somos também contraditórios em muitos momentos de nossa vida. A integridade se caracteriza pela unidade de caráter, pela manifestação verdadeira do que realmente somos, a partir de nossos valores, de nossas escolhas mais profundas. Mas a incoerência nos persegue. Também somos Pilatos em nossas omissões, somos Pedro quando não temos coragem de assumir a radicalidade do Evangelho, somos Judas quando não acreditamos que o Senhor cumprirá o seu desígnio de amor. Somos aquela multidão que se une no momento de êxtase ao messias, mas o recusa diante da cruz.
“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de um escravo...” (2ª leitura). Este texto de São Paulo é muito profundo, pois manifesta a radicalidade da encarnação. Deus não usurpou de sua divindade, mas assumiu a dor humana mais profunda.  Também se sentia tentado a escolher o triunfalismo, mas não assumiu esta atitude. Jesus não escolheu o poder, não escolheu a fama, nem o elogio. Se a exaltação do povo foi o caminho para a humilhação de Jesus, o esvaziamento humilde do Senhor foi o caminho para a sua exaltação: “Por isso, Deus o exaltou sobremaneira...”.
As escolhas de Jesus nos levam a refletir sobre nossas escolhas. Também podemos escolher estar em evidência. Podemos aplaudir indevidamente ou sermos aplaudidos. Podemos escolher uma atitude religiosa de êxtase, de gratificação fácil. Podemos também projetar nossas esperanças em algum líder revolucionário ou em um pregador. Quantas vezes usurpamos de nossos cargos ou papéis sociais... O crucificado nos convida a uma outra opção: escolher a discrição, o serviço simples sem reconhecimento. As escolhas constituem um paradoxo: o triunfo fácil nos destrói, enquanto o caminho da cruz nos leva a verdadeira vida.
A narrativa da paixão é do evangelista Lucas. O terceiro evangelho deixa transparecer algo muito precioso no drama da condenação e morte de Jesus: ao morrer, o Senhor nos ensina a perdoar: deixa Judas o beijar, sem retrucar; olha com profundidade para Pedro enquanto o mesmo o nega; perdoa todos os seus assassinos, dizendo ao Pai que eles não sabem o que fazem; acolhe um bandido que na cruz clama por perdão. Se já é sublime ver Jesus curar o coração de Zaqueu, de Simão, da Samaritana, da adúltera arrependida, mais sublime ainda é vê-lo curar um pecador enquanto morre. Mesmo morrendo ainda sobram gotas de misericórdia, palavras cansadas e sofridas de amor. Diante deste amor, só podemos nos reconhecer pequenos. Quanto o nosso coração ainda precisa se expandir para amar com profundidade...
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Paixão de cristo na paixão dos jovens
Estamos terminando o tempo de Quaresma, iniciando o tempo Pascal;
A liturgia da Palavra faz apelos muito fortes para que caminhemos com Jesus rumo à entrega da vida como prova de amor.
A liturgia da Semana Santa nos mostra como Jesus assumiu pra valer a causa do Reino de Deus.
Sempre visto como um sinal de contradição, Jesus assume a coerência de sua missão com uma radical “obediência até a cruz”  nos recorda Paulo aos Filipenses. O Pai orienta as decisivas  decisões de vida de Jesus;
A Palavra de Deus transmitida por Isaias nos mostra que obedecer a Deus vai nos envolver  de forma perturbadora, pois  não há tranqüilidade no obedecer a Deus, no seguimento de Jesus. Vindos de fora e de dentro do próprio coração, há confrontos, ameaças, perseguições. A realidade do mal, em nós e na sociedade não nos permite dormir tranqüilos na vida cristã.
Tanto na liturgia da Palavra de domingo de Ramos como na da sexta da Paixão, a Palavra de Deus nos re-propõe os relatos da Paixão. Não é para mera memória saudosista ou piegas de Jesus sofredor, mas provocação para o confronto com as atuais paixões, se modo especial as sofridas pelos jovens.
A condenação apressada de Jesus nos pode fazer pensar nas apressadas condenações dos jovens, julgados muitas vezes como  descompromissados, como mero curtidores da vida, meros consumistas. Grupo quase inútil, como dizia uma cantiga de ontem.
Os conterrâneos mais ilustres de Jesus, os das classes que dominavam a nação, consideraram Jesus como alguém que deveria ser varrido da sociedade( recordar novamente  Isaias 50,4-7); Como ler, neste contexto, a denunciado processo de extermínio de adolescentes e jovens em nosso Brasil?  As autoridades negam os números denunciados pela Pastoral da Juventude, mas no dia em que os jornais publicavam a refutação do poder público, os mesmos jornais  registraram manchetes de  assassinatos de jovens. Para um coração salesiano, a eliminação de Jesus continua hoje na eliminação de adolescentes e jovens.
 A congregação Salesiana desafia o coração de pastor de cada salesiano ao reafirmar a sua condição de Místico, Profeta e Servidor dos jovens. A Palavra de Domingo de Ramos, dirigida aos Filipenses (Fl. 2,6-11)  e a nós hoje, pergunta sobre a qualidade de nosso atual serviço educativo-evangelizador: até que ponto estamos indo ao encontro de Jesus presente nos jovens com um serviço de educação que ajude os jovens a fazer de sua vida uma oferta a  serviço de uma sociedade mais fraterna?. Até que ponto, as atividades, todas as atividades, realizadas em cada uma de nossas obras, estão ajudando os jovens a “dar a vida” pelo próximo? Como estão se capacitando para “assumir as enfermidades e as dores” (Isaias 52.53) dos seus colegas mais pobres e em maior precariedade? Ou entre nós está se reafirmando o egoísta indicativo social de “cada um por si e Deus por todos”?
A Palavra apresenta na carta aos Hebreus nos aponta um decisivo empenho que também pode ser relacionado à recente posse do novo Papa, num conjunto de simplicidade e afastamento de anteriores pompas e requintados e requentados rituais, nos aponta para a decisividade de  sermos “atendidos por causa de nossa entrega a Deus” (cf. Hb. 5,7). Entrega a Deus de “todo coração, de toda alma, de todo entendimento” (Mt.  23,33). O que foi pela metade, o que de vez em quando, pode nos remeter ao termo “diábolos”( o que causa divisão). E Reino dividido….
Ou optamos pra valer pela primazia de Deus ou suores educativos e pastorais servirão somente para nossa própria notoriedade, que não é a da cruz ensangüentada.
A Igreja se sente desafiada a apresentar aos jovens cobertos de sangue e de sufocados de problemas, a luz no fim do túnel: a vida vitoriosa de Jesus Ressuscitado, para quem todo o ritual da Semana Santa direciona. Os jovens sonham com a vida mais bela, que só o Senhor da Vida pode oferecer.
padre José Benedito Araújo de Castro, sdb


1. Situando-nos
É domingo de Ramos. São os últimos passos da caminhada rumo à Páscoa. Com Jesus, caminhamos rumo à Jerusalém, agora, com ele entramos na cidade, cenário onde se desenvolverão os grandes mistérios de nossa fé. Hoje, carregando ramos em nossas mãos, somos convidados a contemplar o Deus quer, por amor, fez-se servo e se entregou para que o cálice e o pecado fossem vencidos e a vida nos triunfasse.
Com o domingo da Paixão do Senhor, descortina–se a Semana Santa em que a Igreja celebra os mistérios da salvação levados a cumprimento por Cristo nos últimos dias de sua vida, a começar pela entrada messiânica em Jerusalém (cf. Diretório sobre piedade popular e liturgia, n.138).
Na celebração deste dia integram-se a entrada de Jesus em Jerusalém e a sua Paixão. A recordação solene da entrada de Jesus em Jerusalém começou no século V. Os cristãos de Jerusalém reuniam-se no monte das Oliveiras, às primeiras horas da tarde, para uma longa liturgia da Palavra. Em seguida, ao entardecer, dirigiam-se à cidade de Jerusalém, levando ramos de palmeiras ou de oliveiras nas mãos. Hoje, domingo de Ramos, todos nós, exultantes, com ramos nas mãos, proclamamos que Jesus é o Messias, o ungido. Ao recebê-lo com as palmas da vitória, damos testemunho de seu triunfo sobre a morte, porque compreendemos, na fé, o significado de seu último sinal quando ressuscitou Lázaro: “eu sou a ressurreição e a vida!”
Os ramos abençoados que levaremos para nossas casas, após a celebração, lembram que estamos unidos a Cristo na mesma doação pela salvação do mundo, na labuta árdua contra tudo o que destrói a vida. “Tais ramos devem ser conservados antes de tudo como testemunho da fé em Cristo, rei messiânico, e na sua vitória pascal” (cf. Diretório sobre piedade popular e litúrgico, n.139).
2. Recordando a Palavra
O domingo de Ramos introduz a Semana da Paixão do Senhor. A liturgia, de hoje, nos oferece dois evangelhos de Lucas: um para a benção dos ramos (Lc. 19,28-40) e outro para a liturgia da Palavra – a narrativa da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (Lc. 22,14-23,56). Une-se ao mesmo tempo o triunfo régio de Cristo e o anúncio de seu sofrimento e morte na cruz. “Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa, para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef. 1,21)” (dos Sermões de Santo André de Creta, bispo. Domingo da Paixão do Senhor. Oficio das leituras. Liturgia das horas, vol. II p. 366).
A entrada de Jesus em Jerusalém consta nos escritos dos quatro evangelistas. O Evangelho de Lucas é conhecido como o Evangelho do caminho. Jesus está em constante movimento, caminhando de um povoado a outro, fazendo caminho de Belém a Jerusalém. O Nazareno passou por inúmeros lugares, do campo à cidade, sem repetir caminho, “fazendo o bem a todos”. Em Jerusalém, ponto final e culminante de sua caminhada missionária, Jesus é aclamado como “Filho de Davi”. Sua chegada à cidade se reveste de realeza, messianismo e contradição.
Lucas apresenta Jesus como uma grande autoridade, um mestre renomado. Sua entrada na metrópole não podia realizar-se no anonimato ou de surpresa. O jumento, inversamente do cavalo puro sangue, evoca a realeza, o poder e o reconhecimento popular. O fato de Jesus, o Messias, entrar triunfalmente em Jerusalém montado num jumentinho, revela que nele se cumprem as Escrituras: “Eis que o teu rei vem a ti: Ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumentinho, filho de uma jumenta” (Zc. 9,9). Ele é aclamado como rei ainda que não da forma como eram ovacionados os reis da época, ostentando pompa e arrogância. Jesus, herdeiro do trono de seu pai Davi, ingressa no centro político e religioso de Israel despojado e se apresenta de modo humilde e pacifico.
O povo aclama e Jesus se deixa aclamar. O despojamento do Messias contrasta com a espontânea e entusiasta manifestação do povo. Alegre, a multidão louva a Deus por todos os milagres que tinha visto. Aclama: “Bendito seja aquele que vem como Rei, em nome do Senhor! Paz no céu e gloria nas alturas”. A aclamação popular irrita e acirra os ânimos dos fariseus.
Preocupados com possíveis distúrbios da ordem social, pedem a Jesus que ordene à multidão de seus discípulos a se calar. Jesus rejeita seu pedido: “Se a manifestação popular for silenciada, as pedras gritarão”. Não há como silenciar certos acontecimentos, mesmo às vésperas do sacrifício da cruz. A manifestação festiva do povo anunciar o significado da palavra e da ação de Jesus. Ele alimentou a esperança da vitória do bem, da vida na perspectiva dos planos de Deus (Evangelho)
Os relatos da Paixão são preciosos testemunhos que as comunidade cristãs primitivas transmitem às gerações futuras. Eles constituem o cerne do Evangelho. Fazem parte do primeiro anúncio pascal e foram uma das primeiras partes das Escrituras transmitidas e escritas. As comunidades apostólicas procuram responder a perguntas centrais que lhes eram colocadas, tais como: “Se Jesus era o bendito de Deus, por que teve que passar pela cruz, escândalo e maldição? Por que a morte do justo inocente e do profeta de Deus?”. Das narrativas da Paixão, emerge a fé cristã: “Este Jesus que vocês crucificaram, Deus constitui Senhor e Cristo” (At. 2,36). Para o evangelista, os acontecimentos da Paixão constituem a realização das Escrituras e testemunham a missão do Filho de Deus (Lc. 22,14-23,56).
Para emoldurar a leitura da Paixão do Senhor, a liturgia deste domingo proclama o terceiro canto do Servo Sofredor (Is. 50,4-7). O povo de Israel, sob o peso das provações do exílio, começou a entender que os projetos salvíficos de Deus não acontecem necessariamente pela força da violência, antes, pela doação mansa do justo. Jesus, a Palavra de Deus feita carne, entrega sua vida para trazer a salvação da humanidade. A glorificação do “servo sofredor” revela que uma vida doada não termina em fracasso, mas em ressurreição, isto é, vida que gera nova vida (1ª leitura).
O Salmo 21 (22) é o grito de uma pessoa que, provada por um a intenso sofrimento e abandono, clama por auxilio. “Ó meu Deus e Pai, por que me abandonastes, clamo a vós e não me ouvis?”. É a súplica que nos leva a contemplar Jesus entregue aos sofrimentos da cruz.
O apóstolo Paulo, na perspectiva da Paixão do Senhor, exorta os filipenses a contemplarem o Filho de Deus que, inteiramente despojado, se fez servo e obediente à vontade do Pai, até a morte de cruz. O cristão deve ter como exemplo Jesus Cristo, servo sofredor humilde, que se fez de sua vida um dom para todos. Esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glória, à vida plena (2ª leitura Fl. 2,6-11).
3. Atualizando a Palavra
Jesus chega e entra em Jerusalém como rei messiânico, humilde e pacífico. Como servo sofredor, caminha rumo à Paixão mediante um ato de total despojamento: “Embora de condição divina, Cristo não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo” (Fl. 2,6).
O Domingo de Ramos é marcado, de uma parte, pelo mistério, pelo despojamento e pela entrega total e, de outra, pelo senhorio e pela glória do Filho de Deus. Este mistério é bem explicitado o prefácio de hoje: “Inocente, Jesus quis sofrer pelos pescadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua morte apagou nossos pecados e sua ressurreição nos trouxe vida nova”!
O despojamento do Messias contrasta com a espontânea e entusiasta manifestação do povo., Alegre, a multidão louva a Deus por todos os milagres  que tinha visto. Aclama: “Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas” (Lc. 19,38). Com o mesmo cântico entoado pelos anjos, após anunciarem aos pastores o nascimento do Salvador (Lc. 2,14), a multidão dos discípulos acolhe e aclama o Messias pelos caminhos de Jerusalém.
Era preciso proclamar, em alta voz, o que ele significa: a realização da esperança messiânica. O povo aclama a inauguração do novo tempo que privilegia os pobres. Novo tempo marcado pela humildade e ternura e não pela violência e pela força das armas. Por longos séculos, o povo vinha alimentando a esperança de um novo rei que haveria de restaurar a glória dos tempos do reinado de Davi.
A manifestação popular causa medo aos que vigiam a ordem em nome da lei. Os fariseus estavam encarregados de vigiar o comportamento de Jesus. Diante de sua hipocrisia e falsidade, Jesus taxativamente rejeita seu pedido: “Eu vos digo: se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc. 19,40). Não há como silenciar certos acontecimentos, mesmo às vésperas do sacrifício da cruz. A manifestação festiva do povo anunciar o significado da palavra e da ação de Jesus. Ele alimento a esperança de vitória, do bem, da vida na perspectiva dos planos de Deus.
O Evangelista João atesta que as comunidades, depois da glorificação de Jesus, compreenderam o significado profundo daquilo que a multidão proclamava no dia da entrada solene em Jerusalém (cf. Jo 12,16). Aclamar a Jesus e acolher o seu projeto. Por isso, para nós hoje, os ramos abençoados se transformam em sinais de compromisso com os crucificados de nossa sociedade. Em contrapartida, os poderosos preocupam-se e agitam-se.
O relato da Paixão é um convite a entrarmos na Semana Santa, preparando o coração para comemorar a Páscoa. Esta se constitui num chamado à vida nova, à vida no Espírito, que implica amor incondicional a Deus e ao próximo e cuidado fraterno da criação. Na celebração pascal, recebemos o Espírito do Ressuscitado para vivermos a vida nova, conforme rezamos na Oração Eucarística: “E, a fim de vivermos não para nós, mas para ele, que por nós morreu e ressuscitou, enviou de Vós, ó Pai, o Espírito Santo, como primeiro dom aos vossos fie4is, para santificar todas as coisas, levando à plenitude a sua obra” (Oração eucarística IV).
Celebrar a Paixão e Morte de Jesus é deixar-se maravilhar na contemplação de um Deus a quem o amor oblativo tornou frágil. Por amor veio ao encontro e assumiu a condição humana, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu as investidas do tentador, temeu a morte, suou sangue antes de aceitar o projeto do Pai, mas, mesmo incompreendido e abandonado, continuou amando. Desse amor brotou a vida em plenitude.Vida que Ele quis repartir com a humanidade até o fim dos tempos.
Contemplar a cruz onde se revela o amor e a entrega do Filho de Deus significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados nos dias atuais. Sobretudo os jovens que sofrem violência, que são explorados e excluídos; significa denunciar as causas geradoras do ódio, da injustiça e do medo. Significa empenhar-se em evitar que seres humanos continuem a crucificar seus semelhantes. Significa assumir a atitude de Jesus pela não violência, gerar novas relações de vida a partir da dinâmica do amor que conduz à ressurreição.
4. Ligando a Palavra com ação litúrgica
A liturgia do domingo de Ramos se constitui num apelo: “Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de (Betfagé) Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação” (Dos Sermões de santo André de Creta, bispo. Domingo da Paixão do Senhor. Oficio das leituras. Liturgia das horas, vol. II p. 366).
A Eucaristia é a oferta que a Igreja faz ao Pai da entrega total, da morte de Cristo na cruz. “Olhai com bondade para a oferta da vossa Igreja. Nela nós apresentamos o sacrifício pascal de Cristo, que vos foi entregue” (Oração eucarística VI-A). Aqui se consumam todos os sacrifícios que as Sagradas Escrituras descreveram nas liturgias da Antiga Aliança. “No mistério da sua obediência até a morte, e morte de cruz (Fl. 2,8), cumpriu-se a nova e eterna aliança” (Bento XVI. Sacramentum Caritatis, 9).
A Eucaristia é o memorial do aniquilamento (Kénosis) de Jesus, que teve inicio na sua Encarnação e se expressou na vida de serviço aos outros e, agora, consumado na Eucaristia, pelo oferecimento de seu Corpo e Sangue em alimento, para saciar a fome e a sede do ser humano. A “eucaristia é a doação que Jesus faz de si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus para cada ser humano. Neste sacramento admirável, manifesta-se o amor ‘maior’: o amor que leva a ‘dar a vida pelos amigos’” (Idem, 1).
A exortação do bispo santo André de Creta ressoa com particular significado neste domingo da Paixão do Senhor: “Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito… Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, – vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl. 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos”.
Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome dói Senhor, o rei de Israel” (Dos Sermões de santo André de Creta, bispo. Domingo da Paixão do Senhor. Oficio das leituras. Liturgia das horas, Vol. II p.367).


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