.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 21 de maio de 2013

Comentário Prof.Fernando


Comentário Prof.Fernando(*)                              DEUS “são três” – 26 maio 2013

TRÊS PESSOAS OU DEUSES? E ISSO IMPORTA?
·                     A maioria dos cristãos certamente acha que confessar Deus como Único e ao mesmo tempo como “Trindade” não tem muita importância. Para os não crentes o assunto faz parte de mitos antigos ou lembra, pelo menos, os múltiplos nomes da diversidade divina que apresentam religiões exóticas e distantes de nossa cultura ocidental. Com efeito, que diferença faz se os cristãos chamam Deus com os nomes de “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo”? ou Criador, Todo-Poderoso ou Salvador? Algumas dúvidas poderão talvez ser esclarecidas num breve comentário aos textos próprios da solenidade deste 26 de maio de 2013, segundo o calendário usado por católicos e protestantes (cristãos ortodoxos celebram a Trindade no mesmo dia de Pentecostes: neste ano, a 23 de junho.
– ELE CONDUZ O MUNDO COM SABEDORIA –
·                    Escutai o que diz a Sabedoria: Deus ainda não havia feito o mundo e eu já provava a felicidade brincando junto dele todo dia e,depois, brincava com os filhos dos homens (do livro dos Provérbios, 8). Para o povo bíblico Deus dirige o mundo com Sabedoria. Para o autor de Provérbios (que faz a Sabedoria falar como uma pessoa) tudo é um Mistério de diálogo e tudo é bom (mesma apreciação é feita pelo Gênesis ao falar da criação). Nesse poema, a Sabedoria “conversa” com o Criador “antes” do mundo existir, participa da criação, “brincando”, com o Criador e, depois do mundo criado, com os “filhos dos homens”. Nesse diálogo, tudo é intimidade e alegria.
– UM POUCO DE HISTÓRIA –
·                    Na Bíblia não se fala em “Trindade”. Já foi um grande passo ter conseguido o povo de Israel diferenciar-se de outras culturas crendo num Deus Único, que transcende as forças da natureza e dos poderes políticos. No Novo Testamento de redação crista, os Apóstolos (cf. livro dos Atos) e, nos séculos seguintes, os escritores (teólogos) conhecidos como os “pais – ou padres – da igreja” por seus escritos e discursos, serão os responsáveis pelo uso e divulgação de termos e conceitos que vão construir o conceito de “Trindade”. A primeira geração vai falar de sua experiência de convívio com o Mestre que não ficou prisioneiro da morte: os primeiros capítulos de Atos mostra o “Kerýgma” – anúncio nuclear e condensado da fé cristã – que é principalmente proclamar a ressurreição do Mestre de Nazaré. As gerações posteriores, acreditando no testemunho de sucessivas comunidades, vão elaborar teologicamente os conceitos produzidos pela reflexão sobre a fé. Novos termos são criados. Controvérsias e debates são provocados.
·                    O próprio Jesus de Nazaré em sua pregação – conforme os registros da transmissão oral de testemunhas oculares e no posterior registro em pergaminhos que formaram os “evangelhos” e as cartas dos apóstolos – chamava o Deus de Israel de “Pai”. Nos escritos de Mateus, Marcos e Lucas, ouvimos nos lábios de Jesus, repetidas vezes, a expressão “Filho do Homem”. São outros que o chamam de “Filho de Deus”. Nos escritos joaninos, ao final do primeiro século, é retomado o termo “Filho do Homem”, porém é mais nítido o caráter cristológico do “Filho” de Deus. Ainda durante sua pregação o Mestre Nazaré também anunciou aos discípulos a vinda, após sua morte e ressurreição, do “Espírito”, Consolador e Advogado, para confirmá-los na fé e iluminar seus ensinamentos. (Pentecostes é o dia dessa vinda do Espírito).
– CONTROVÉRSIAS –
·                     A “Sabedoria” (que convive eternamente com o Criador, no Antigo Testamento) será reinterpretada no N.Testamento, como figura do próprio Cristo. Alguns escritores da Patrística (conjunto de obras e sermões dos primeiros séculos) identificam a “Sabedoria de Deus” com o Espírito (por ex., Irineu e Teófilo de Antioquia). Orígenes, no entanto, identifica-a com o Filho, uma interpretação que vai prevalecer daí em diante, principalmente no confronto com o “Arianismo”. Esta corrente era defendida por Ario que consideravam Jesus mera criatura, negando-lhe a igualdade com Deus. Constantino – imperador também do Oriente a partir de 324 d.C. – procurava uniformidade na adoração em todo seu vasto império, agora “cristão”, ou, pelo menos, não mais perseguidor do cristianismo. Diante do Arianismo, ele convoca o concílio de Nicéia (hoje: Iznik, na Turquia). Com apenas 2 votos contrários e 300 favoráveis, estabeleceu-se um consenso das igrejas. Eram elas, na maioria, orientais. Do ocidente vieram apenas 5 delegações e o próprio papa romano foi representado por 2 sacerdotes. O Concílio encerrou a controvérsia cristológica e uma de suas conclusões finais tornou-se a primeira parte do Credo, até hoje aceito pelas igrejas cristãs:
Cremos em um só Deus(...) E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é., da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial do Pai (...)
– PAULO, NO ANO 57 D.C. –
·                     Justificados pela fé, temos paz com Deus por N.S.J.Cristo que nos deu acesso ao mundo da Graça; porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (da carta aos Romanos 5). Por volta do ano 57 d.C. Roma E dezenas de outras cidades do Império, tem sua comunidade cristã que vive em conflito com os judeus da Diáspora que não aderiram à Fé no ressuscitado. Também internamente: conflitos entre cristãos de origem judaica e os de origem pagã. Procurando restabelecer a paz, Paulo argumenta com Abraão, pai de todos os crentes, circuncidados ou incircuncisos. Mas acrescenta: Deus nos fez justos pela fé por Jesus Cristo ( verso 1); e: o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (verso 5). Não existe o termo “Trindade”, mas ele refere-se ao Mistério da Graça: pela fé, dada por Jesus, vive o cristão na esperança da Glória e tem o amor, que é dom do Espírito, dado a todos.
– CONCEITOS, VERDADES (TEÓRICAS E PRÁTICAS) –
·                    A elaboração teológica cria conceitos, tirados em geral da filosofia da época, e da experiência humana ou das metáforas e comparações da linguagem. Aqui usamos aspas pois o conceito diz menos do que pretendemos. Analogias são óbvias com termos como “pai” e “filho”. Também o “espírito” que, em sentido original fala de sopro, respiração ou vento. Ainda assim, o significado habitual não é suficiente. Deus é e não é pai como os humanos. O mesmo vale para “filho”. Teorias e vocabulário buscam iluminar com a inteligência as convicções professadas no Credo, no que se crê.
·                    Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade (cf. Jo16). Não é uma “Verdade” propriamente de tipo intelectual, é um saber de tipo mais existencial (ele já dissera antes: Eu sou a Verdade. A Fé cristã não se baseia em aceitar dogmas e verdades, mas é acreditar em Alguém, cuja proposta de vida se aceita seguir ao conhecer o anúncio que vem desde as primeiras testemunhas (resumido no Credo dos Apóstolos). O grande intelectual Agostinho em cuja vastíssima obra encontramos 15 livros sobre a Trindade afirma (livro 7, 6.11): nós os chamamos três Pessoas (não falamos três deuses ou três essências, apenas porque queremos ter uma palavra que exprima como se deva conceber a Trindade, e para ter o que responder ao nos perguntarem: Três o quê?
·                    O que descrevemos da comunicação de Deus a nós (“para o exterior”) é também o que podemos “saber” sobre a Trindade em si (no seu “interior”). Para nós, ele é Pai (nosso criador); é Filho (face visível que revela o Pai); é Espírito (que “sopra” as palavras com que nos dirigimos a ele: Abbá, Paizinho, diz o Apóstolo. Em “si mesmo” Deus também se “constitui” como “relações”: o “Filho” é a Palavra pronunciada eternamente pelo “Pai” (cf. João 1: no princípio (“arché”) era o Verbo e o Verbo “interagia” (estava voltado para) com Deus e Deus era o Verbo). “Arché” significa princípio/começo (neste caso = sempre, pois “Deus” por definição está “além” do tempo). “Arché” também é causa ou “princípio ativo” das coisas, do que existe. Aproxima-se do sentido dado por Anaximandro, filósofo do séc.VIII a.C. O “movimento” (eterno gerar do Filho; e ele “responde”: está voltado para o Pai é Amor “recíproco” e união (“eu e o Pai somos Um” –Jo10,30). Esse “fluxo” de Amor “constitui” o “Espírito”.
·                     As ciências aproximam-se do mundo lenta e progressivamente, com medidas e paradigmas. Diante do Mistério da vida humana (e o mesmo vale para a perspectiva da Fé), nosso progresso é ainda mais dependente de conceitos e analogias sempre em revisão. A “Lista de Schindler” como seu inverso, por ex. a estupidez nazista, não  cabem em análises num tubo de ensaio. Do Mistério nos aproximamos aos poucos e frequentemente incapazes de assimilar sua mensagem. Na despedida Jesus dizia a seus amigos: tenho muitas coisas a vos dizer, mas ainda não sois capazes de compreendê-las agora; quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade (Jo16,12-15). Crer é ter a certeza de que o Espírito mora dentro do ser humano. Os que aceitam o Mistério da Trindade sabem que não podem traduzi-lo numa equação. Mas podem ter uma vida e uma prática de vida, como bem expressa o teólogo J.A. Pagola, no resumo de seu comentário sobre a Trindade:
Jesus chama Deus de “Pai” porque o experimenta como a Presença da bondade que quer para suas criaturas uma vida mais humana. Desse Mistério do Bem [nasce] o projeto de seus seguidores: ajudar e curar todos os filhos e filhas de Deus, pois seguir Jesus [cristianismo] é espalhar a Boa Notícia e trabalhar por mais justiça e paz. Jesus se experimenta como “Filho” desse Deus e sua paixão por ele se traduz em compaixão pelos que sofrem ou precisam de uma presença amiga, por isso viveu aliviando dores, defendendo os desprezados, oferecendo misericórdia e perdão. E ele, que sempre agiu impulsionado pelo “Espírito” de Deus, dá esse mesmo Espírito a quem continua seu projeto para a humanidade. Assim vivemos, os cristãos, na prática, o mistério da “Trindade”.
ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo
(*).Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) fesomor2@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário