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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 28 de maio de 2013

Comentário Prof.Fernando

Comentário Prof.Fernando(*) (2ºdom. depois de Pentecostes): Fé mais q.ideologias
9ºdom.tempo Comum 2 junho 2013
– Israel, Galácia e Roma –
·                  se um estrangeiro que não pertence a teu povo vier de terra distante para rezar neste templo, Senhor, escuta e atende a seus pedidos 1Rs 8,41; algumas pessoas vos estão perturbando e querendo mudar o evangelho de Cristo Gl 1.1; mas ordena com a tua palavra e o meu empregado ficará curado. Eu também estou debaixo de autoridade, mas tenho soldados que obedecem às minhas ordens...  Jesus, admirado, disse à multidão que o seguia: Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé: Lc 7.1.
·                  O grande rei Salomão talvez sem o saber, prenuncia o universalismo da fé, embora não possamos deixar de imaginar que talvez tivesse também interesse político para manter boas relações com outros reinos a partir do Templo que ele tinha construído. No livro 1ºde Reis (c.11) diz-se que Salomão acabou introduzindo ídolos de outras religiões na Cidade e no reino.
·                  Paulo, que levara o evangelho aos gálatas, condena os costumes religiosos que se infiltram em todas as comunidades primitivas cristãs, exigindo práticas antigas que contrariam a liberdade do evangelho. Reaparece aqui o conflito entre a Fé e aqueles costumes que sempre tentam reduzir o cristianismo apenas a uma religião entre outras.
·                  Mais incisivo ainda será o próprio Mestre de Nazaré. Declara, diante de seu povo e de seus discípulos que é um estrangeiro, um pagão (um romano, odiado pelo povo) quem tem a maior fé, a que ele não havia mais visto em Israel. Por sua profissão militar, o romano argumenta conhecer bem o sistema de comando e de autoridade. E declara que Jesus tem poder e autoridade para curar o seu empregado doente.
– não pode haver religião sem fé –
·                  Em tempos de pluralismo cultural e religioso devemos perguntar se o anúncio da Fé cristã tem por objetivo primordial o crescimento das instituições religiosas ou a libertação do ser humano de toda violência e sofrimento, principalmente nesta semana marcada (pelo feriado ou feriadão?) pela meditação própria dessa tradição de “Corpus Christi”. É uma tradição de devoção popular, iniciada em meados do século XIII que logo se espalhou pela Alemanha e pouco a pouco pela Europa. De Portugal herdamos no Brasil os tapetes coloridos feitos com flores, terra ou areia para enfeitar a procissão.
·                  A reflexão que hoje se impõe diz respeito à inevitável tensão entre os níveis da Fé profunda (ou da religiosidade individual, ou das muitas formas que hoje estão sendo chamadas também de “espiritualidade”) e as práticas (sociais, culturais e de organização histórica) constitutivas da Religião. Devemos perguntar-nos se é possível aceitar a Eucaristia (para além da devoção e da tradição) esquecidos de trabalhar (de alguma forma) pela superação da fome no mundo. A fome não é só de pão, pois ela está relacionada com a carência de cidadania, do exercício dos direitos humanos, como saúde, educação, segurança pública, democracia sem corrupção, etc.
– a pessoa e o tijolo –
·                  Na meditação matutina (Casa de Santa Marta, 16 de maio) Francisco, o papa católico, falando a dirigentes da organização Cáritas Internacional disse: Vivemos uma época de crise muito grave, muito grave. E não é somente crise econômica. Esse é um aspecto. Não somente crise cultural, é outro aspecto. Não é somente uma crise de fé. É uma crise na qual é o ser humano que sofre as conseqüências dessa instabilidade. Hoje está em perigo a pessoa humana. Está em perigo a carne de Cristo. (…) Há um Midrasch muito bonito, de um rabino da idade Média, contando sobre a torre de Babel. Para elas custava muito fazer tijolos: trazer o barro, amassá-lo, acrescentar palha, por na forma, cozê-lo. Levantando os tijolos para o alto da torre – quando caía um era um drama: castigavam quem lançou, quem não pegou... era praticamente um problema de Estado. Tinha custado tanto! O tijolo era um tesouro. Mas, se caía um operário não acontecia nada. Esse Midrash reflete o que se passa hoje. Há desequilíbrio nos investimentos financeiros: grande drama, reuniões internacionais, todos se mobilizam. Mas, se as pessoas morrem de fome, morrem de doença. Bem... aí, que Deus te ajude. Para mim esse Midrash reflete nossa civilização que está confusa e, em vez de fazer crescer a Criação para que o Homem seja mais feliz e seja a melhor imagem de Deus, instaura – a palavra é dura mas creio que exata – a cultura do descartável. O que não serve se descarta, se joga no lixo: crianças, velhos – com uma eutanásia camuflada... e os marginalizados. Essa a crise que estamos vivendo. (…) São João Crisóstomo dizia claramente: Por que vens enfeitar a Igreja e não cuidas do corpo de Cristo que está passando fome?
– responsabilidade política acima das ideologias –
·                  No mesmo dia, em discurso feito a novos embaixadores que apresentavam suas credenciais, foi ainda mais duro: considerados os progressos em vários âmbitos, a humanidade vive uma espécie de viragem na sua história. Não podemos deixar de nos alegrar com os resultados positivos, que concorrem para o bem-estar autêntico da humanidade, por exemplo, nos campos da saúde, educação e comunicação. Mas há que reconhecer também que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo continua a viver dia a dia numa precariedade de consequências funestas. Aumentam algumas patologias, com as suas consequências psicológicas; o medo e o desespero apoderam-se do coração de numerosas pessoas, mesmo nos Países considerados ricos; a alegria de viver vai diminuindo; a imoralidade e a violência aumentam, torna-se mais evidente a pobreza. Tem-se de brigar para viver, reduzidos muitas vezes a uma vida pouco dignificante. A meu ver, uma das causas desta situação reside na relação que temos com o dinheiro, aceitando o seu predomínio sobre nós e as nossas sociedades. Assim a crise financeira, que estamos a atravessar, faz-nos esquecer a sua origem (...) numa profunda crise antropológica, ou seja, na negação da primazia do homem. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-8) encontrou uma nova e cruel versão na idolatria do dinheiro e na ditadura de uma economia realmente sem fisionomia nem finalidade humanas. A crise mundial, que envolve as finanças e a economia, parece evidenciar as suas deformações e, sobretudo, a sua grave carência de perspectiva antropológica, que reduz o homem a uma única das suas exigências: o consumo. Pior ainda, hoje o próprio ser humano é visto como um bem de consumo, que se pode usar e jogar fora. Começamos a cultura do jogar fora. (...) Enquanto os rendimentos duma minoria crescem de maneira exponencial, os da maioria vão-se exaurindo. Este desequilíbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, negando assim o direito de controle aos Estados, que têm precisamente a responsabilidade de prover ao bem comum. Instaura-se uma nova tirania, invisível e às vezes virtual, que impõe, unilateralmente e sem recurso possível, as suas leis e regras. Além disso, a dívida e o crédito afastam os Países da sua economia real, e os cidadãos do seu poder real de compra. Depois vem juntar-se a isto uma corrupção tentacular e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A avidez de poder e riqueza não conhece limites.(...) Neste sentido, encorajo os peritos financeiros e os governantes dos vossos Países a terem em conta estas palavras de São João Crisóstomo: «Não partilhar com os pobres os próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles» (Homilia sobre Lázaro, 1, 6: PG 48, 992D).
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(*).Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) fesomor2@gmail.com


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