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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 24 de maio de 2013

SANTÍSSIMA TRINDADE ano C


SANTÍSSIMA TRINDADE

 

 

DOMINGO 26 DE M AIO

Comentário Prof.Fernando

 

Introdução

 

-SANTÍSSIMA TRINDADE - José Salviano


            O mistério da Trindade Santa não poder ser entendido pela razão ou pela inteligência, humana, mas sim, pela FÉ. Sem fé não é possível compreender e aceitar o mistério de um Deus Uno e Trino.  Pela inteligência o ser humano não tem condições de penetrar nos mistérios de Deus, de conhecer a sua essência, de entender plenamente como Deus é. Continua...


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TRINDADE: MODELO DE VIDA PARA A VIDA DA COMUNIDADE! Olívia Coutinho

DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Dia 26 de Maio de 2012

Evangelho de Jo 16,12-15

Mais uma vez, nos unimos no mesmo espírito de fé, para com muita alegria, celebrar a festa da  Santíssima Trindade! É a festa do amor, quando a Igreja nos convida a contemplar o mistério inefável e insondável da Trindade Santa! Mergulhar na profundidade deste mistério, é fazer a experiência da imensidão do amor de Deus, que para relacionar-se conosco, quis se fazer família: como Pai, Ele nos criou, como  Filho nos redimiu e, como Espírito Santo nos santifica.
Ao Colocar esta festa no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, a Igreja vem nos lembrar que cada domingo é uma  festa da Santíssima trindade, pois o  domingo é o dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou e que o Espírito Santo nos santificou, descendo sobre a igreja nascente. Por tanto, todo domingo, devemos contemplar este mistério Trinitário!
No antigo testamento, não se fala da Família Trinitária, é Jesus quem a revelou a nós, entreabrindo o véu que  encobria de nossos olhos a grande alegria de poder fazer parte da família de Deus: do  Pai, do Filho e do Espírito Santo.
No  evangelho de hoje, vemos mais uma vez, a preocupação de Jesus com os discípulos, que tinham muita dificuldade em compreender os acontecimentos que estavam por vir! Na sua grande compreensão, Jesus  insiste em fazer  brotar em seus corações, sentimentos positivos, garantindo-lhes que tudo que até então, era de difícil  compreensão para eles, lhes tornaria claro, quando eles tivessem  revestidos da presença  iluminadora do Espírito Santo.“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de compreender agora. Quando, porém vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá a verdade.” Estas palavras de Jesus, dirigidas aos discípulos, nos estimulam,  a estarmos  sempre abertos a ação do Espírito Santo e  embebidos no amor de Deus Pai, que tudo fez para não nos deixar órfãos!
Na celebração deste domingo, a palavra central que deve ressoar nos nossos ouvidos  e  entrar no nosso coração, é a  “confiança”, confiança  na família Trinitária, onde encontramos o amparo do Pai, a segurança do Filho e a força  iluminadora do espírito Santo!
O Espírito Santo, é a permanente presença de Jesus em nós, é Ele que nos faz entender, nas  mais diferentes circunstâncias de nossa  vida, o sentido das palavras de Jesus que guardamos em nosso coração. Daí, a importância de guardarmos sempre as suas palavras, ainda  que não  tenhamos entendido-as no momento.
É o Espírito Santo que nos  revela  a verdade que é Jesus, que nos faz enxergar o sentido de suas palavras e perceber  a sua manifestação nos acontecimentos. O Espírito Santo  é o guia que nos remete  ao Senhor, que nos faz pertencer a família trinitária! A sua presença em nós, é  tão forte, que nos faz enxergar até mesmo o que está oculto aos olhos do mundo.
As palavras, os sinais de Jesus, estão constantemente diante dos nossos olhos, seja na Sagrada Escritura, nos acontecimentos do nosso dia a dia, pena, que nem sempre captamos a sua mensagem, falta-nos a abertura ao Espírito  Santo. Sem esta abertura, todos os ensinamentos de Jesus, se tornam em vão, passam desapercebidos aos nossos sentidos, não entram no nosso coração!
“O Espírito Santo não falará por si mesmo, mas dirá tudo que tiver ouvido...”  Esta afirmação de Jesus, vem nos dizer que  nenhuma pessoa da trindade  Santa,  age individualmente, um exemplo que deve ser seguido por cada um de nós!
Professar a nossa fé na Santíssima Trindade, não significa somente  reconhecê-la, mas tomá-la como modelo para nossa vida pessoal e comunitária. 
Quando traçamos sobre nós, o sinal da cruz, invocando a  Santíssima Trindade, podemos ter certeza, que novos horizontes se abrirão para nós e tudo que nos parecer obscuro, tornará  claro!
Viver a vida trinitária é fazer a mesma trajetória de Jesus, é viver comunitariamente, priorizando sempre os valores do Reino!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia

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Festa da Santíssima Trindade 26/05/2013
1ª  LEITURA (Provérbios 8,22-31)
SALMO RESPONSORIAL (Sl 8): - "Ó Senhor nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo!"
SEGUNDA LEITURA (Romanos 5,1-5)
EVANGELHO (João 16,12-15)
“TRINDADE NOSSA FAMÍLIA”
Diac. José da Cruz

Chacrinha, o velho Guerreiro, revolucionou a TV com a sua comunicação irreverente nos programas de auditório ao vivo, foi um grande comunicador e há até uma frase sua que marcou o público “eu não vim para explicar, vim para confundir”. Há muita gente que pensa que Deus quis nos confundir ao revelar-se um Deus Trino, uma verdade ilógica, uma aberração matemática, segundo o raciocínio humano, pois 1 nunca será igual a 3, entretanto, é o contrário do que dizem, porque o homem jamais teria condições de penetrar no mistério de Deus, e, as leituras desse domingo, da Festa da Santíssima Trindade, mostram-nos como Deus se revela, permitindo ao homem contemplar toda a beleza desse amor.
Então penso que o maior e verdadeiro comunicador de todos os tempos é o Espírito Santo, chamado por Jesus neste evangelho, de Espírito de Verdade, que nos comunica não só quem é Deus, mas também quem somos. E a pedagogia de Deus é perfeita, sem queimar nenhuma etapa, respeitando os limites do homem na sua dificuldade de compreender, e se revela aos poucos, na medida em que o homem amadurece em sua fé, é, portanto uma revelação pessoal, pois um comunicador de massa nos moldes que a mídia nos coloca, não sabe na verdade quem são as pessoas com quem se comunica, seu jeito de ser, suas dores e angústias, suas dificuldades, além do que, nem sempre o que a mídia nos comunica é verdadeiro, aliás, na maioria das vezes são “verdades” inventadas para se vender uma idéia, um conceito ou um produto. Mas Deus nos dá um tratamento personalizado, pois o Espírito Santo nos conduz à Verdade que é ele próprio.
O homem é muito especial estando sempre no centro do projeto de Deus, basta ver a obra da criação em seus detalhes, feita com grande sabedoria, tudo foi preparado para que o homem fosse feliz, a sabedoria aqui mencionada em Provérbios, é como o amor de uma mãe que prepara com todo carinho o enxoval e o quarto onde o seu filho irá viver após o nascimento, amor que acolhe e que se alegra em ficar junto e a sabedoria de Deus tinha prazer de ficar junto com os filhos dos homens, o belo e perfeito, se apaixonando pelo feio e imperfeito. Nenhum Deus é assim, só o Pai de Jesus!
O nosso Deus nunca foi um enigma que desafia os homens a decifrá-lo, ao contrário, torna-se acessível em Jesus Cristo, no qual pela fé somos justificados, isso não significa que alcançaremos à salvação de maneira passiva, pois a segunda leitura da carta de Paulo aos Romanos, nos propõe o desafio de testemunharmos nossa esperança, que é Jesus Cristo, em meio às tribulações deste mundo.
As palavras de Jesus aos discípulos são consoladoras nesse sentido, porque na verdade eles estão tomados pela tristeza, por causa da idéia de que o senhor irá deixá-los, não haviam se dado conta de que a volta de Jesus ao Pai, iria perpetuar a presença de Jesus junto a eles, através do Espírito Santo. Os pecados e as misérias humanas não conseguem impedir essa comunicação de Deus aos homens, aberta a partir de Jesus Cristo, poderia se dizer que o emissor se comunica perfeitamente bem, mesmo que o receptor não seja muito eficiente, pois Deus nunca desiste do homem e o seu amor é eterno, comprovado em Jesus Cristo, ápice da revelação desse amor, que nos insere na vida de Deus através da comunhão.
Celebrar a Santíssima Trindade não é celebrar um mistério insondável, mas é sentir uma grande alegria, ao saber o quanto Deus nos ama, e se desdobra para nos alcançar e nos manter sempre junto a si. Uma galinha que abre suas asas para proteger e abrigar os pintinhos, uma águia que carrega sobre as asas seus filhotes para que apreendam a voar, são alegorias que aparecem na Bíblia e que facilitam à nossa compreensão a respeito de Deus. Enfim, embora não merecedores, somos todos membros desta Família Do PAI, do FILHO e do ESPÍRITO SANTO. (Festa da Santíssima Trindade)

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Evangelhos Dominicais Comentados

26/maio/2013 – Santíssima Trindade

Evangelho: (Jo 16, 12-15)

Muitas coisas ainda tenho para dizer-vos, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas do que ouvir, e vos anunciará as coisas futuras. Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará. Tudo que o Pai tem é meu. É por isso que eu disse: receberá do que é meu e vos anunciará.

COMENTÁRIO

Hoje a Igreja comemora uma grande festa, que nos enche de alegria. Comemoramos hoje a unidade. Celebramos a Festa da Santíssima Trindade: Deus, que é Pai, que é Filho, e que é Espírito Santo.

O dia de hoje nos recorda aquele primeiro catecismo, de perguntas e respostas, do tempo de catequese. Lembra-nos daquela pergunta que a catequista nos fazia: “O Pai é Deus? O Filho é Deus? O Espírito Santo é Deus?”

A resposta era dada de forma cantada. Mal acabava de perguntar e respondíamos com toda força -Siiim! -e novamente a catequista perguntava - então são três deuses? - Nãão! - gritávamos - são três pessoas distintas, mas um só Deus.

As três pessoas da Santíssima Trindade são um só Deus, porque todas três têm uma só e a mesma natureza divina. Não é fácil entender essa verdade que está muito acima da nossa inteligência. Porém, muito mais importante do que tentar entender, é aceitar e amar a Trindade Divina.

Para tentar explicar o mistério da Santíssima Trindade, alguns catequistas a comparam a um bolo. Os três ingredientes básicos; a farinha, o ovo e o fermento têm características diferentes, porém juntos, formam uma mistura homogênea.

É impossível separá-los e um complementa o outro. Talvez esse exemplo ajude, mas crer na Santíssima Trindade não é uma questão de culinária, de matemática e nem de lógica, é uma questão de fé.


Jesus, o Filho, fala que tem ainda muitas coisas para dizer aos discípulos, e que eles não seriam capazes de entender, pois ainda não haviam recebido o Espírito Santo. Diz também que, tudo que Deus Pai possui é seu, e que o Espírito da Verdade os ensinará a entenderem tudo isso.

Temos aqui a presença da Santíssima Trindade. Um só Deus em três pessoas. Deus que é Pai, que é Filho e que é Espírito Santo. Um mistério profundo, inexplicável. A razão não consegue entendê-lo, mas a fé, esta sim, pode aceitá-lo; porque a fé é um dom de Deus.

Ao Pai, se atribui de modo especial a obra da criação; ao Filho é atribuída a redenção da humanidade; e ao Espírito Santo, a renovação da vida. O Espírito Santo é o amor que une o Pai ao Filho. As três Pessoas divinas estão presentes em tudo. É consolador sabermos que Deus não é egoísta, nem solitário. É um Deus comunidade de amor, é família, são três pessoas unidas no amor.

Assim também somos nós. Quando vivemos a união e o amor fraterno, a partilha e a solidariedade. Quando realmente vivemos tudo isso na família, no ambiente de trabalho, na comunidade, seja onde for, estamos dando testemunho da presença do Deus Trindade.

Portanto, tudo o que fizermos na vida, vamos fazê-lo em nome da Ssma Trindade. Sempre que fazemos o sinal da cruz, é o nosso Deus, uno e trino que estamos invocando. Vamos sempre fazer o sinal do cristão com muita convicção. Fazer o sinal da cruz em público, ao passar em frente a uma igreja na rua ou no ônibus, é uma forma de evangelizar, é uma demonstração de fé e coragem.

Vamos nos aproximar do Deus Trino e como Maria santíssima, viver em nós a plenitude da presença das três pessoas. Maria, humildemente, deixou o coração se sobrepor à razão. Acreditou e aceitou o pedido do seu Pai, desposou o Espírito Santo e tornou-se a mãe do Filho. Veja que boa notícia: O batismo fez de nós Templos de Deus e morada da Santíssima Trindade.

Com muita alegria vamos encerrar este nosso momento de fé, dando glórias ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, amém!!!

(1999 - 1170)

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Terminado o tempo pascal com a solenidade de Pentecostes, a liturgia celebra a Santíssima Trindade. Após proclamar nos santos mistérios que o Pai entregou o Filho por amor ao mundo na potência do Espírito Santo e, no mesmo Espírito Eterno, o ressuscitou dos mortos para nossa salvação, a Solenidade de agora é um modo que a Igreja encontra para louvar, engrandecer e adorar na proclamação exultante, o amor sem fim da Trindade Santa.
Estejamos atentos: por confessar a fé na Santa Trindade, os cristãos têm um modo absolutamente original de compreender Deus. Os judeus sabem que Deus é um só; aquele que os arrancou da terra do Egisto, da casa da servidão. Ouvimos falar dele na primeira leitura: Reconhece hoje e grava em teu coração, que o Senhor é o Deus lá em cima no céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele". Os muçulmanos afirmam que não há outro Deus a não ser o único Deus de Abraão. Neste sentido, esta é também a nossa fé. Deus é um só, uma Essência eterna, infinita, onipotente, imutável. Deus é absolutamente um, que não pode ser multiplicado nem dividido: ele é Amor todo inteiro, inteiro na Beleza, inteiro na Infinitude, inteiro na Onipotência e na Onipresença. Pois bem, como os judeus e como os muçulmanos nós confessamos firmemente que só há um Deus, absolutamente uno, Senhor do céu e da terra, diferente e para além de tudo quanto existe, de tudo quanto possamos compreender e imaginar.
No entanto, caríssimos, contemplando Jesus ressuscitado, todo glorificado, todo divinizado na sua natureza humana por obra do Espírito de Deus, nós proclamamos com o Novo Testamento e todas as gerações cristãs, que o nosso Salvador, o nosso Jesus amado, é Deus bendito pelos séculos, enviado pelo Pai, que é Deus, para nossa salvação; enviado na potência do Espírito que é também divino e divinizante, Paráclito que não é algo de Deus, mas Alguém de Deus, uma Pessoa, na qual o Pai ressuscitou o Filho Jesus e, habitando em nós, dá testemunho da divindade do Pai e do Filho, enche-nos de vida divina, guia-nos, sustenta-nos, ilumina-nos. Ouviram, amados, as palavras de São Paulo na segunda leitura? Davam testemunho das Três divinas pessoas: do Pai que enviando em nós o Espírito do Filho nos faz filhos no bendito e único filho Jesus. Eis o que dizia o Apóstolo: "O próprio Espírito se une ao nosso espírito para nos atestar que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo"... Então, eis a nossa fé, que transborda a humana lógica, transcende o balbuciar de nossa pobre linguagem, ultrapassa nossos limitados e tateantes paradigmas: Deus é um só, absolutamente. Enquanto a natureza humana, apesar de genericamente uma só, se multiplica nos indivíduos humanos, a natureza divina é absolutamente una, indivisível e imultiplicável, una não só genérica, mas também numericamente; e, no entanto, essa natureza é, ao mesmo tempo e perfeitamente, Pai, Filho e Santo Espírito. A natureza divina está todinha no Pai e, incompreensivelmente, todinha no Filho e, ainda, todinha no Espírito Santo. A unidade em Deus é incompreensível, absolutamente perfeita e eterna. Assim sendo, em Deus não há três vontades iguais, mas uma só vontade; não há três poderes iguais, mas um só poder, não três consciências iguais, mas uma só consciência. Mais uma vez: Deus é absolutamente UM! E, no entanto, os três divinos são absolutamente diversos: só o Pai gera, só o Filho é gerado, só o Espírito é a própria Geração; só o Pai é o Amante, só o Filho é o Amado, só o Espírito é o Amor.
E neste amor que circula de modo eterno, perfeito e feliz, o Pai, eterno Amante, tudo criou através do Filho, eterno Amado, na potência do Espírito Santo, eterno Amor. E, por isso, o mundo existe, as estrelas brilham, a vida brota e, sobretudo, nós existimos. Vimos do Pai, pelo Filho, no Espírito; vivemos no Pai pelo Filho no Espírito; vamos para o Pai, através do Filho no Espírito, Trindade Santa, nossa vida e plenitude eterna. É assim que os cristãos confessam o seu Deus como eterno amor, amor vivo e circulante que, gratuita e livremente, se derrama sobre o mundo e sobre a nossa vida. De fato, nós conhecemos o amor de Deus e sua vida íntima porque o Pai amou tanto o mundo, a ponto de enviar o seu Filho e, pelo Filho, derramou no nosso coração o Espírito do Filho que, em nós, clama Abbá, Pai. Por isso, podemos dizer que Deus é amor e, quem não ama, não conhece a Deus! E toda esta vida divina, amados, nos é dada desde o Batismo, quando fomos mergulhados no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e cresce em nós a cada dia, nos sacramentos e na vida cristã, preparando-nos para nosso destino eterno: plenos do Espírito, sermos totalmente inseridos no Cristo e nele configurados, para contemplar eternamente o Pai!
Eis um pouquinho, um balbuciar do mistério da santa, consubstancial e eterna Trindade, a quem a glória e o louvor pelos séculos dos séculos.

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É estranho celebrar com uma festa litúrgica a Santíssima Trindade, pois a Trindade Santa é celebrada em toda a vida cristã e, particularmente, em toda e cada Eucaristia. Recordemos que a Missa é glorificação da Trindade Santíssima, na qual o Filho se oferece e é por nós oferecido ao Pai no Espírito Santo, para a salvação nossa e do mundo inteiro. Mas, aproveitando a festa hodierna, façamos algumas considerações que nos ajudem na contemplação e adoração desse Mistério tão santo, que nos desvela a vida íntima do próprio Deus.
Poderíamos começar com uma pergunta provocadora: como a Igreja descobriu a Trindade? Descobriu, como duas pessoas se descobrem: revelando-se! Duas pessoas somente se conhecem de verdade se conviverem, se forem se revelando no dia-a-dia, se se amarem. Só há verdadeiro conhecimento onde há verdadeiro amor. É costume dizer-se que ninguém ama o que não conhece; pois, que seja dito também: ninguém conhece o que não ama. O amor é a forma mais profunda e completa de conhecimento! Foi, portanto, por puro amor a nós, à nossa pobre humanidade, que Deus quis dirigir-se a nós, revelar-se, convivendo conosco, abrindo-nos seu coração, dando-nos a conhecer e a experimentar seu amor... E fez isso trinitariamente! Então, desde o início, a Igreja experimentou Deus na sua vida concreta, e o experimentou trinitariamente, como Pai, como Filho e como Espírito Santo. Antes de falar sobre a Trindade, a Igreja experimentou a Trindade!
 Primeiramente, o Senhor Deus incutiu no coração do povo de Israel e da própria Igreja que ele é um só: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é um só!” Um porque não pode haver outro ao seu lado, Um porque não pode ser multiplicado, Um porque não pode ser dividido e Um porque deve ser o único horizonte, o único apoio, a única rocha de nossa existência: ele, o Senhor Deus, é o único absoluto, o único que é, sem princípio e sem fim, sem mudança e sem limite! Jamais poderemos imaginar tal grandeza, tal plenitude, tal suficiência de si mesmo! Deus É – e basta! Tudo o mais apenas existe porque vem dele, daquele que É! Mas, ele não é um Deus frio: sempre apresentou-se ao povo de Israel como um Deus amante, um Deus de misericórdia e compaixão, um Deus que não sossega enquanto não levar à plenitude da vida as suas criaturas. Por isso, com paciência e bondade, conduziu o seu povo de Israel, formando-o, educando-o, orientando-o e prometendo um futuro de bênção e plenitude, de eternidade e abundância de dons, que se concretizaria com um personagem que ele enviaria: o Messias, seu Ungido.
Esse Messias prometido, nós, cristãos, o reconhecemos em Jesus, nosso Senhor. Ele é o enviado de Deus, do Deus único, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, Deus do povo de Israel. A esse Deus tão grande e tão santo, Jesus chamava de Abbá – Papai: o meu Papai! A si mesmo, Jesus se chamava “o Filho” – Filho único, unigênito de Deus, Filho Amado! Mais ainda: o próprio Jesus, que veio para nós e por amor de nós, agiu neste mundo, em nosso favor, com uma autoridade que ultrapassava de longe a autoridade de um simples ser humano: ele agia como o próprio Deus. Não só interpretava a Lei de Moisés, como também a modificou e a ultrapassou; perdoava os pecados, exigia um amor e uma obediência absolutos à sua pessoa... amor que somente Deus pode exigir. Jesus se revelava igual ao Pai, absolutamente unido a ele: “Eu e o Pai somos uma coisa só! Quem me vê, vê o Pai. Eu estou no Pai e o Pai está em mim”. Após a ressurreição, a Igreja compreendeu, impressionada, maravilhada: Jesus não somente é o enviado daquele Deus a quem chamava de “Pai”, mas ele é igual ao Pai: ele é Deus como o Pai, é eterno como o Pai, é o Filho amado pelo Pai desde toda a eternidade. Então, o Deus de Israel é Pai, Pai eterno, Pai eternamente, que eternamente gera no amor o Filho amado. Por amor, ele nos enviou este Filho: “Verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu em tudo a condição humana, menos o pecado. Anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos, a liberdade, aos tristes, a alegria”. E para realizar o plano de amor do Pai, “entregou-se à morte e, ressuscitando dos mortos, venceu a morte e renovou a vida”.
Mas, há ainda mais: o Filho, ressuscitado e glorificado, derramou sobre seus discípulos o Espírito Santo, que é o próprio Amor que o liga ao Pai. Este Espírito de Amor não é uma coisa, não é simplesmente uma força, não é algo: é Alguém, é o Amor que une o Pai e o Filho, e agora é, na Igreja de Cristo, o Paráclito-Consolador, Aquele que dá testemunho de Jesus morto e ressuscitado, Aquele que vivifica e orienta a Igreja, Aquele que renova em Cristo todas as coisas. Ele é o Dom que o Filho ressuscitado recebeu do Pai e derramou sobre a Igreja, para santificar todas as coisas. Este Espírito permanece no nosso meio na Palavra e nos sacramentos; este Espírito conserva a Igreja unida na mesma fé e na mesma caridade fraterna, este Espírito é a Força divina, a Energia criadora que nos ressuscitará, como ressuscitou o Filho Jesus para a glória do Pai.
É assim que a Igreja confessa um só Deus, imutável, indivisível, perfeito, eterno, absolutamente um só. Mas confessa e experimenta igualmente que este Deus único é real e verdadeiramente Pai, Filho e Espírito Santo, numa Trindade de amor perfeito e perfeitíssima Unidade. A oração inicial da Missa de hoje, exprime este Mistério: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade, que é o Filho, e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente”.
Continuemos, então, a nossa Eucaristia, na qual torna-se presente sobre o Altar a oferta do Filho que, por nós, entregou-se ao Pai num Espírito eterno.
Ao Pai, ao Filho e ao Santo Espírito, Trindade santa a consubstancial, a glória e o louvor pelos séculos dos séculos.
dom Henrique Soares da Costa

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A fé em Deus Trindade nos leva a reconhecer a beleza e a profundidade da realidade humana. Deus é UM em três pessoas, mistério de amor e comunhão, perfeita unidade na diversidade. A comunidade humana encontrará a sua verdadeira realização à medida que buscar conviver numa relação de igualdade entre todos os seus membros, respeitando as diferenças. Pela fé tivemos acesso a essa revelação. Pela fé conhecemos a Deus e entramos na sua intimidade. O caminho que nos conserva na comunhão com Deus e com os irmãos é o da sabedoria. Ela é a primeira de todas as obras divinas, a que orienta o destino de tudo e de todos (I leitura). Dessa relação íntima com Deus e com o próximo provêm a paz, a perseverança nas tribulações e a firmeza no amor, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (II leitura). Ele nos dá a conhecer toda a verdade revelada em Jesus Cristo (evangelho). Essa certeza nos faz assumir com convicção e destemor a missão de testemunhar, no meio deste mundo, o amor que torna possível a inclusão de todos os seres numa sociedade justa e fraterna, imagem e semelhança da Trindade santa.
2º leitura (Rm. 5,1-5): A esperança não decepciona
Um dos temas prioritários que Paulo se dedica a aprofundar, especialmente na carta aos Romanos, é o da justificação pela fé. Para ele, não é o cumprimento das leis nem qualquer obra humana que nos tornam justos diante de Deus. Se assim fosse, a justificação teria por base os méritos pessoais. Paulo parte da premissa de que todos somos radicalmente pecadores e, portanto, necessitados da intervenção gratuita de Deus. Ela se deu em Jesus Cristo, o libertador de todos os pecados. Por meio dele, Deus realizou sua ação misericordiosa de salvação para todo o gênero humano.
Percebe-se que Paulo indica um processo de amadurecimento no caminho da fé, até que, de livre vontade e com consciência lúcida, aceitemos a Jesus como nosso salvador e vivamos, como ele nos ensinou, na vontade divina. Pelo seu sangue ele nos reconciliou com Deus e nos concede a paz em plenitude. A paz de que o texto nos fala carrega o sentido do termo hebraico shalom, o qual indica o estado de perfeita intimidade e harmonia entre os seres humanos, com a natureza e com Deus. Dele provêm todas as bênçãos que garantem uma vida de dignidade, de bem-estar e de profunda alegria.
A fé, portanto, não se reduz ao assentimento racional a um sistema doutrinário. Também não consiste apenas em momentos de oração. A fé é a atitude de entrega total e confiante a Deus, que nos salva mediante seu Filho, Jesus Cristo. Por meio dele, pela fé, temos acesso à graça da salvação, nos mantemos e nos alegramos nela.
Tudo isso nos motiva a nos gloriar em Deus mesmo nas tribulações, pois “a tribulação produz a perseverança, a perseverança produz a fidelidade comprovada e a fidelidade comprovada produz a esperança”. Trata-se da esperança militante, manifestada por meio do empenho cotidiano em acolher e fazer frutificar o amor de Deus derramado pelo Espírito Santo em nossos corações. Essa esperança “não engana”.
Evangelho (Jo 16,12-15): O Espírito da verdade
O texto faz parte do “livro da comunidade”, também conhecido como o “livro da glorificação” (Jo 13-17). Após o gesto do lava-pés, Jesus faz um longo discurso de despedida. De modo afetuoso, anuncia aos discípulos a sua partida iminente. É um discurso que possui caráter de testamento. De coração aberto, Jesus revela tudo o que recebera de seu Pai e demonstra a íntima relação entre ambos. Os discípulos, porém, demonstram incompreensão diante das palavras de Jesus. Apesar de conviverem com Jesus por um bom tempo, permanecem num estágio de imaturidade espiritual. São incapazes de apreender o sentido verdadeiro do testamento de Jesus. Necessitam de ajuda.
O texto faz, então, referência ao Espírito Santo, que dará prosseguimento à missão de Jesus. Ele instruirá os discípulos e os libertará das amarras que impedem o reconhecimento do Salvador. É o Espírito que conduz à verdade plena que é o próprio Jesus Cristo, Deus encarnado, conforme já havia anteriormente se revelado: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). A verdade é, pois, a própria realidade divina manifestada no amor de Jesus, que entrega sua própria vida em resgate da vida de todos. Jesus reza para que os discípulos sejam santificados na verdade (17,17.19) e possam viver na perfeita unidade, assim como ele e o Pai são UM (17,21-23).
A comunidade de João demonstra a sua caminhada de amadurecimento na fé em Jesus Cristo. As novas circunstâncias que emergem do contexto ao redor do final do século I exigem novas reflexões e novas posturas. Cresce a compreensão a respeito de Jesus, de sua íntima relação com o Pai e de sua missão de amor neste mundo. Ilumina-se, com maior profundidade, o sentido da morte e ressurreição de Jesus. Ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (10,10).
Os discípulos e discípulas são convidados a abrir-se às novas interpretações e exigências suscitadas pelo Espírito Santo no contexto histórico em que vivem. Prestar atenção no Espírito é assumir os desafios da história e viver, com novas expressões e novo ardor, o mesmo amor revelado em Jesus.
As três pessoas divinas são manifestamente citadas no texto. Entre elas há perfeita comunicação e perfeito entendimento. Essa realidade divina, em toda sua beleza e profundidade, é comunicada por Jesus aos seus discípulos. O Pai deu tudo ao Filho; assim também o Filho dá a conhecer tudo o que recebeu do Pai aos seus filhos e filhas. Podemos aqui trazer presente o que são Paulo escreve: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. E vocês não receberam um espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abba! Pai! O próprio Espírito assegura ao nosso espírito que somos filhos e filhas de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, herdeiros junto com Cristo...” (Rm. 8,16-17).
1º leitura (Pr. 8,22-31): A exaltação da sabedoria
O livro dos Provérbios apresenta a sabedoria como uma personagem. Ela já estava com Deus mesmo antes da criação do mundo. Ou melhor: ela é a primeira obra da criação e toma parte ativa em todas as outras coisas criadas por Deus, como se fosse mestre de obras ou arquiteto. Deus e a sabedoria, portanto, estão em íntima comunhão; Deus é a própria sabedoria personificada.
O texto quer ressaltar que todas as coisas têm sua fonte em Deus; cada ato criador é manifestação de sua sabedoria eterna e soberana; cada criatura é comunicação de seu próprio ser infinito. O livro da Sabedoria diz que ela “tudo atravessa e penetra”, é o próprio “hálito do poder de Deus e a pura emanação da glória do Onipotente” (Sb. 7,24-25).
O último versículo desta 1ª leitura revela a imensa satisfação que a Sabedoria encontra na superfície da terra e o seu prazer de estar entre os seres humanos. A terra e seus habitantes são obras divinas. A relação íntima da Sabedoria com o Criador, desde toda a eternidade, ocorre agora com as criaturas. Da mesma maneira que esteve presente nos atos da criação de Deus, está presente para governar o universo, conservar a ordem e dirigir a vida dos habitantes da terra. Vemos que a Sabedoria guarda uma ligação muito estreita com a missão do Espírito Santo, conforme vai ser concebida no Segundo Testamento.
PISTAS PARA REFLEXÃO
A festa da Santíssima Trindade é momento especial para refletir sobre nossa própria identidade e missão no mundo. Somos a família humana, formada por povos diversos e de culturas diferentes. Somos homens e mulheres chamados a nos acolher no respeito mútuo e na igualdade de direitos. Somos diferentes uns dos outros: na diferença nos completamos. Somos diversos: na diversidade nos unimos.
No texto da carta aos Romanos, ouvimos que o amor de Deus se revela com total benevolência e gratuidade. De nossa parte, resta-nos acolhê-lo com gratidão e perseverar na fidelidade a esse amor sem limites. A justificação pela fé não legitima atitudes de egoísmo e acomodação, mas nos incentiva a viver segundo o modo de Deus agir em nós: na doação plena e gratuita. É um caminhar na esperança militante que nos faz viver, aqui e agora, a vida plena que nos será dada por Deus, sabendo que a “esperança não decepciona”.
O livro dos Provérbios fala da Sabedoria que convive intimamente com Deus. Tudo o que ele faz é expressão de seu próprio ser; portanto, o universo, com tudo o que nele existe, é penetrado pelo espírito da sabedoria divina. Todas as coisas são revestidas de dignidade e devem ser respeitadas, conforme nos orienta a verdadeira sabedoria. De acordo com o modo pelo qual nos relacionamos entre nós e com todas as coisas criadas, colhemos frutos de bênção ou de maldição, de vida ou de morte...
No evangelho, Jesus nos promete o Espírito Santo para nos ajudar a viver conforme o modelo da Trindade santa, a perfeita comunidade. “O mistério da Trindade é a fonte, o modelo e a meta do mistério da Igreja... Uma autêntica proposta de encontro com Jesus Cristo deve estabelecer-se sobre o sólido fundamento da Trindade-Amor. A experiência de um Deus uno e trino, que é unidade e comunhão inseparável, permite-nos superar o egoísmo para nos encontrarmos plenamente no serviço para com o outro”. Neste sentido, as comunidades eclesiais de base caracterizam-se como “casas e escolas de comunhão” (DAp 155, 170 e 240).
– A celebração da festa da Santíssima Trindade é uma boa oportunidade de valorizar as diferentes manifestações do amor de Deus na comunidade e no mundo: os serviços e ministérios, as etnias, as denominações e tradições religiosas, os movimentos e organizações sociais, as iniciativas diversas em favor da vida, da ecologia etc.
Celso Loraschi
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O Deus-conosco se revela na práxis da comunidade cristã
O texto é a conclusão do Evangelho de Mateus. Pode ser dividido em três momentos: a. Um relato de aparição (vv. 16-17); b. instrução de Jesus aos discípulos (vv. 18-20a); c. promessa (v. 20b).
a. A experiência do Ressuscitado (16-17)
Inicia-se falando dos onze discípulos que se dirigem à Galileia, ao monte que Jesus havia indicado (v. 16). A comunidade dos discípulos tomou o rumo certo: a Galileia. É bom lembrar o que significa para o evangelista essa localização. Para entendê-lo, devemos recordar o início da atividade de Jesus. Ele começa sua missão na Galileia das nações (ler Mt. 4,12-17), no meio daquela gente pisada e marginalizada, a fim de levar-lhe a boa notícia da libertação e da vida do Reino. É para lá que os discípulos se dirigem. É o lugar do testemunho e ação da comunidade cristã. Os discípulos, em Jesus e a partir dele, dão início à práxis cristã.
Mateus fala também de um monte como ponto de encontro de Jesus com sua comunidade. Não se trata de localizar geograficamente esse ponto de encontro. É um monte que recorda a atividade de Jesus. Nesse sentido, o monte é o das tentações (4,8-10), o da transfiguração (17,1-6), mas sobretudo o monte sobre o qual Jesus anunciou seu programa missionário: o monte das bem-aventuranças (5,1-7,29). Agindo assim, a comunidade se torna autêntica discípula. Identifica-se com Jesus e seu projeto (os discípulos se prostram diante dele).
Contudo, há sempre o risco de não acolher plenamente o significado da prática de Jesus na vida da comunidade: “ainda assim alguns duvidaram” (v. 17b). O verbo duvidar (edistesan em grego), ao longo do Evangelho de Mateus, encontra-se somente aqui e em 14,31, onde Pedro duvida e afunda na água. Duvidar, portanto, comporta a falta de fé, mas também a falta de percepção maior da prática de Jesus que vence todas as formas de morte e alienação. Dúvida é ter medo do risco e do compromisso. É um alerta que acompanha constantemente a comunidade cristã, impelindo-a a uma atitude de conversão permanente ao projeto de Deus.
b. O poder de Jesus é passado à comunidade (vv. 18-20a)
Durante sua vida terrena, Jesus agia como aquele homem ao qual Deus dera seu poder (cf. 9,6-8), fazendo que as pessoas glorificassem a Deus. Agora, ressuscitado, possui “toda autoridade no céu e sobre a terra” (v. 18b). Essa autoridade plena foi-lhe dada pelo Pai (o passivo “me foi dada” refere-se a Deus) e é muito próxima aos homens (Jesus “se aproximou dos discípulos”, v. 18a). Não só está próxima, como é entregue, por Jesus, à comunidade cristã: “Vão e façam que todos os povos se tornem meus discípulos” (v. 19a). A Galileia é o ponto de partida, e a meta é fazer que o projeto de Deus alcance a todos, tornando-os povo de Deus e realizando assim a promessa feita a Abraão (Gn. 17,4s; 22,18). O botão que acende a luz do projeto de Deus é a prática da justiça, pois é assim que Jesus se apresenta no Evangelho de Mateus: “Devemos cumprir toda a justiça” (Mt. 3,15).
Os meios para fazer que todos os povos se tornem discípulos de Jesus, isto é, capazes de uma prática de justiça que realize o Reino, são dois: o batismo em nome da Trindade (v. 19b) e a catequese que visa à observância de tudo o que Jesus ensinou (v. 20a).
• O batismo é feito em nome da Trindade. Batiza-se em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O texto grego de Mateus emprega a preposição eis, para não confundi-la com a preposição en. Com isso, afirma que o batismo em nome da Trindade é a vinculação pela qual o ser humano está plenamente comprometido com o projeto de Deus revelado no Filho e atualizado na práxis cristã, iluminada pelo Espírito. Ser batizado em nome da Trindade significa dedicação total, consagração, posse da Trindade a serviço da justiça.
• O segundo meio é a catequese que leva a observar tudo o que Jesus ensinou. O que foi que Jesus ensinou? A síntese dos mandamentos de Jesus está no sermão da montanha (5,1-7,29). É a esse código de práxis cristã que se referirá toda a catequese da comunidade primitiva e das comunidades cristãs de hoje. Essa catequese não é outra coisa senão a recordação da prática de Jesus, visando à prática cristã.
c. Jesus é aquele que caminha conosco (v. 20b)
O Evangelho de Mateus termina com uma promessa: “Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (v. 20b). Mateus havia iniciado o evangelho apresentando Jesus como o Emanuel (Deus-conosco; cf. 1,23) e o conclui, mostrando-o continuamente vivo e presente na vida da comunidade. Jesus não se afasta do mundo; pelo contrário, firma sua indestrutível presença na história, ao mesmo tempo história de Deus e dos homens a serviço da justiça que traz o Reino para dentro da nossa caminhada.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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O mistério da Santíssima Trindade era desconhecido no Antigo Testamento e, somente à luz da Revelação podemos descobrir seu significado.
Ao longo do tempo, Deus se dá a conhecer de diferentes formas. Primeiramente, Ele se apresenta na figura do Pai, O Criador, Aquele que dá a vida, ensina os caminhos e corrige os erros de seus filhos, mas, sobretudo os ama de forma incondicional.
Todos os ensinamentos do Deus Pai se realizam no Deus Filho, que vive no meio dos homens, sente o que eles sentem e sofre a dor da mesma forma que eles. O Deus Filho anuncia uma vida nova com um novo jeito de amar com a mesma intensidade com que Ele amou, sem esperar nada em troca.
O Deus Filho, ao voltar para o Deus Pai, depois da Sua ressurreição, deixa para o seu povo, o Deus Espírito Santo (o mesmo Espírito que O animou em sua vida terrena), para conduzi-lo ao verdadeiro projeto de Deus, dando continuidade à missão de pregar e viver o Amor. O Espírito Santo é aquele que conduz a comunidade à verdade completa que é o próprio Jesus que se auto-definiu como ‘a Verdade’, ou seja, Ele é a expressão máxima da fidelidade de Deus, Aquele que caminha com o povo, sendo parceiro e aliado fiel na caminhada.
O Espírito Santo dá aos homens o entendimento dos ensinamentos de Jesus através dos tempos e em diferentes lugares. Foi este mesmo Espírito que inspirou os discípulos a compreenderem e reconhecerem a Jesus como o verdadeiro Filho de Deus.
Tudo é comum entre as três pessoas da Santíssima Trindade que é a expressão da perfeita Comunidade.
Elas possuem uma só natureza Divina, mas sem perder a própria identidade. Não é o Pai maior que o Filho, nem o Filho maior que o Espírito Santo. Há entre as três Pessoas uma perfeita comunhão de vida, verdade e amor.
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Através de Jesus Deus se revela na sua plenitude
É a primeira festa litúrgica na retomada do tempo comum.
O termo “Trindade” não parece nem no Antigo nem no Novo Testamento. Para a tradição bíblica, o que Deus é, Uno e Trino, é dito narrativamente, isto é, na longa história da revelação de Deus ao seu povo. É na história, com suas vicissitudes, e, sobretudo, na história de Jesus Cristo, que Deus se revela como Pai, Filho e Espírito Santo.
O que Deus é desde toda eternidade, o que ele é desde o início, só pôde ser compreendido à luz da Ressurreição do Cristo e da efusão do Espírito Santo. O último na ordem da compreensão é o primeiro na ordem do ser, diz o axioma filosófico.
Os quatro evangelhos, cada um a seu modo, apresentam a dificuldade dos discípulos de compreenderem os gestos e palavras de Jesus e de fazerem a experiência de que em Jesus e por ele é que se chega à verdade plena, isto é, ao que Deus é, pois é ele quem descortina o mistério de Deus. O Espírito Santo continua a missão de Jesus: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a verdade” (v. 13). A luz dada como dom do Ressuscitado permitirá compreender o que não era possível até então: “Tenho muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de compreender agora” (v. 12; ver também: Lc. 24,25-26).
Nesse contexto de João, o Espírito Santo é apresentado como um hermeneuta: “vos guiará em toda a verdade” (v. 13), “dirá tudo quanto tiver ouvido” (v. 13). O Espírito não fala por conta própria, pois ele é um com o Pai e o Filho; vivem numa profunda comunhão.
O Espírito Santo anuncia o que há de vir (cf. v. 13). O futuro do discípulo é a sua participação, não obstante a perseguição e a morte, na vitória de Cristo sobre o mal e a morte (1Cor. 15). É nessa esperança que a comunidade de fé é chamada a viver, pois “a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm. 5,5).
Carlos Alberto Contieri,sj

A solenidade  que hoje celebramos não é um convite a decifrar  a mistério  que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.
A primeira leitura sugere-nos a contemplação do Deus criador. A sua bondade e o seu amor estão inscritos e manifestam-se aos homens na beleza e na harmonia das obras criadas (Jesus Cristo é “sabedoria” de Deus e o grande revelador do amor do Pai).
A segunda leitura convida-nos a contemplar o Deus que nos ama e que, por isso, nos “justifica”,  de  forma  gratuita  e  incondicional.  É  através  do  Filho  que  os  dons  de Deus/Pai se derramam sobre nós e nos oferecem a vida em plenitude.
O  Evangelho  convoca-nos,  outra  vez,  para  contemplar  o  amor  do  Pai,  que  se manifesta na doação e na entrega do Filho e que continua a acompanhar a nossa caminhada  histórica  através  do Espírito.  A meta  final  desta  “história  de amor”  é a nossa inserção plena na comunhão com o Deus/amor, com o Deus/família, com o Deus/comunidade.
1ª leitura: Pr. 8,22-31 - AMBIENTE
O Livro dos Provérbios apresenta  uma  coleção de “ditos”,  de “sentenças”, de “máximas”, de “provérbios” (“mashal”), onde se cristaliza o resultado da reflexão e da experiência (“sabedoria”) dos “sábios” antigos (israelitas e alguns não israelitas), empenhados em definir as regras para viver bem, para ter êxito, para ser feliz. Alguns dos materiais aí apresentados podem ser do séc. X a. C.; outros, no entanto, são bem mais recentes.
O texto que nos é hoje proposto faz parte de um bloco de “instruções” e “advertências” que vai de 1,8 a 9,6. Trata-se da parte mais  recente do “livro dos  Provérbios” (segundo os especialistas, não pode ser anterior ao séc. IV ou III a. C.).
O capítulo  8 do “livro  dos Provérbios” (do qual é retirado  o texto  que hoje nos é proposto) apresenta-nos um discurso posto na boca da própria “sabedoria”, como se ela  fosse uma pessoa:  trata-se  de  um  artifício  literário, através do qual o autor pretende  dar força e intensidade  dramática  ao convite que ele lança no sentido de acolher e amar a “sabedoria”. Na primeira parte desse discurso (v. 1-11), o autor apresenta o “púlpito” de onde a “sabedoria” vai discursar (o cume das montanhas, a encruzilhada dos caminhos, as entradas das cidades, os umbrais das casas), os destinatários da mensagem (todos os homens) e apela à escuta das palavras que ela vai pronunciar; na segunda parte (vs. 12-21), o autor apresenta as “credenciais” da “sabedoria”  (ela possui a ciência,  a reflexão, o conselho, a equidade,  a força)  e o prémio reservado àqueles que a acolhem; na terceira parte (vs. 8,22-31) – que é a que nos interessa diretamente – o autor reflete sobre a origem da sabedoria e a sua função no plano de Deus.
MENSAGEM
Em primeiro lugar, diz-se que a “sabedoria” tem origem em Deus. O autor do texto põe na boca da “sabedoria” a forma hebraica “qânâny” (“gerou-me”) para expressar a responsabilidade de Deus na origem da “sabedoria” (v. 22).
Afirma também que ela é a primeira das obras de Deus. Antes de serem lançadas as estruturas do cosmos, a “sabedoria” já existia (vs. 24-29); mais, ela estava lá, tendo um papel interveniente  na criação:  no v. 30, a “sabedoria”  é apresentada  como “arquiteto” (“amon”), isto é, como assistente ativo de Deus na obra criadora (embora certas  versões  antigas  leiam como  “amun” – “criança”  – o que  sugere a ideia da “sabedoria” como uma “criança” feliz que brinca e se deleita no meio da obra criada). Em terceiro lugar, a “sabedoria” afirma que o seu interesse e deleite é estar “junto dos filhos dos homens” (v. 31): ela dirige-se aos homens e o seu objetivo é “ser para os homens”. Ela desempenha, portanto, um papel em favor dos homens.
Qual é esse papel? A perícope está dominada por três palavras, que aparecem no princípio, no meio e no fim: “Jahwéh” (v. 22), “sabedoria” (“eu” – v. 30) e “homens” (v. 31). Esta “coluna vertebral” revela, desde já, o objetivo do autor do texto: ao dizer que a “sabedoria” tem origem em Jahwéh, está em íntima relação com Deus e se destina aos homens, está a sugerir-se que ela tem a capacidade de pôr os homens em relação e contacto com Deus. Através dessa realidade criada que a “sabedoria” viu nascer, ela espevita a inteligência dos homens, leva-os a Deus, atrai- os para Deus. A “sabedoria”, presente desde sempre na criação, revela aos homens a grandeza e o amor do Deus criador.
A tradição judaica acabará por identificar esta “sabedoria” com a Torah (cf. Ba 3,38-4,1; Pirkê Rabbí Eliezer, III, 2). Por outro lado, os autores neo-testamentários, conhecedores  dos livros sapienciais, atribuirão  a Jesus algumas das características que este texto atribui à “sabedoria”: Paulo chama a Jesus “sabedoria” e “sabedoria de Deus” (cf. 1 Cor 1,24.30); considera também que Jesus, como a “sabedoria” de Prov 8, existe antes de todas as coisas e desempenhou um papel privilegiado na criação do mundo (cf. Cl. 1,16-17); por sua vez, o “prólogo” do Quarto Evangelho atribui ao “Lógos”/Jesus os traços da “sabedoria” criadora de Pr. 8 (diz que Jesus é anterior à criação – cf. Jo 1,1) e que Ele deu existência a todas as obras criadas – cf. Jo 1,3).
Os Padres da Igreja verão nesta “sabedoria”, pré-criada e anterior à restante obra de Deus, traços de Jesus Cristo ou do Espírito Santo.
ATUALIZAÇÃO
♦ A referência ao Deus que tudo criou para nós com sabedoria faz-nos pensar num Pai providente e cuidadoso, que tem um projeto bem definido para os homens e para o mundo. Contemplar a criação é descobrir, na beleza e na harmonia das obras criadas, esse Pai cheio de bondade e de amor. Somos capazes de nos sentirmos “provocados” pela criação de forma que, através dela, descubramos  o amor e a bondade de Deus?
♦ Olhando para a obra de Deus, aprendemos que o homem não é um concorrente de Deus, nem Deus um adversário do homem. Ao homem compete reconhecer o poder e a grandeza de Deus e entregar-se,  confiante, nas mãos desse Pai que tudo criou com cuidado e que tudo nos entrega com amor. Entregamo-nos  nas mãos d’Ele, não como adversários, mas como crianças que confiam incondicionalmente no seu pai?
♦O desenvolvimento desordenado e a exploração descontrolada dos recursos da natureza põem em causa a harmonia desse “mundo bom” que Deus criou e que nos confiou. Temos o direito de pôr em causa, por egoísmo, a obra de Deus?
♦  A contemplação da obra criada leva ao espanto e ao louvor. Somos capazes de nos extasiarmos diante das coisas que Deus nos oferece e de deixarmos que a nossa admiração se derrame em louvor e agradecimento?
2ª leitura: Rm. 5,1-5 - AMBIENTE
Quando Paulo escreve aos romanos, está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para Jerusalém. Tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom 15,19-20) e queria levar o Evangelho ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a carta para contatar a comunidade de Roma e apresentar aos romanos e a todos os crentes os principais problemas que o ocupavam (entre os quais sobressaía a questão da unidade – um problema bem presente na comunidade de Roma, afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.
Paulo aproveita, então, para sublinhar que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Depois de notar que todos os homens vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20), Paulo acentua que é a “justiça de Deus” que dá vida a todos sem distinção (cf. Rom 3,1-5,11). Neste texto, que a segunda leitura de hoje nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.
MENSAGEM
Paulo parte da ideia de que todos os crentes – judeus, gregos e romanos – foram justificados pela fé. Que significa isto?
Na  linguagem  bíblica,  a justiça é, mais do que um conceito jurídico,  um  conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, à sua maneira de ser e aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, se Jahwéh Se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade, da misericórdia e do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele aplica os mecanismos legais quando o homem infringe as regras;  significa,  sim, que a bondade,  a misericórdia,  o amor, próprios do “ser” de Deus, se manifestam em todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi correto no seu proceder. Paulo, ao falar do homem justificado, está a falar do homem pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe um veredicto  de graça que o salva do pecado e lhe dá, de modo totalmente gratuito, acesso à salvação. Ao homem é pedido somente que acolha,  com  humildade e confiança, uma graça que não depende dos seus méritos e que se entregue completamente  nas mãos de Deus. Este homem, objeto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gl. 6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rm. 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rm. 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf. Rm. 8,17; Gl. 4,6-7).
Quais os frutos que resultam deste acesso à salvação que é um dom de Deus? Em primeiro lugar, a paz (v. 1). Esta paz não deve ser entendida em sentido psicológico (tranquilidade, serenidade), mas no sentido teológico semita de relação positiva com Deus e, portanto, de plenitude de bens, já que Deus é a fonte de todo o bem.
Em  segundo  lugar,  a esperança (vs. 2-4). Trata-se desse dom que nos  permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. Não se trata de alimentar um otimismo fácil e irresponsável, que permita  a evasão  do presente;  trata-se  de encontrar  um sentido  novo  para  a vida presente, na certeza de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão.
Em terceiro lugar, o amor de Deus ao homem (vs. 5-8). O cristão é, fundamentalmente, alguém a quem Deus ama. Como prova desse amor que age em nós através do Espírito, está Jesus de Nazaré a quem Deus “entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores”.
Tudo aquilo que enche a vida do crente, que lhe dá sentido, é um dom de Deus Pai que, através de Jesus, demonstra o seu amor e que, pelo Espírito, derrama continuamente esse amor sobre nós.
ATUALIZAÇÃO
♦ Na Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho conosco. Apesar de os homens insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na auto-suficiência,  no pecado, Deus  continua  a amar  e a fazer-nos  propostas  de  vida.  Trata-se  de  um  amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.
♦ A vinda de Jesus Cristo ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar conosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência  para nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude.
♦ A presença do Espírito acentua no nosso tempo – o tempo da Igreja  – essa realidade de um Deus que continua presente e atuante, derramando o seu amor ao longo do caminho que dia a dia vamos  percorrendo e impelindo-nos à renovação, à transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo.
♦  Está em moda uma certa atitude de indiferença face a Deus, ao seu amor e às suas  propostas.  Em  geral,  os  homens  de  hoje  preocupam-se  mais  com  os resultados  da  última  jornada  do  campeonato  de  futebol,  ou  com  as  últimas peripécias da “telenovela das nove” do que com Deus ou com o seu amor. Não será tempo de redescobrirmos o Deus que nos ama, de reconhecermos o seu empenho em conduzir-nos rumo à felicidade plena e de aceitarmos essa proposta de caminho que Ele nos faz?
Evangelho: Jo 16,12-15 - AMBIENTE
Estamos no contexto da última ceia e do discurso de despedida que antecede a “hora” de Jesus.
Depois de constituir a comunidade do amor e  do serviço  (cf. Jo 13,1-17) e de apresentar o mandamento fundamental que deve dar corpo à vida dessa comunidade (cf. Jo 15,9-17), Jesus vai definir a missão da comunidade  no mundo: testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito (cf. Jo 15,26-27).
Jesus avisa, no entanto, que  o caminho  do testemunho  deparará  com a oposição decidida da religião estabelecida e dos poderes de morte que dominam o mundo (cf. Jo 16,1-4a); mas os discípulos contarão com o Espírito: Ele ajudá-los-á e dar-lhes-á segurança  no  meio  da perseguição  (cf. Jo 16,8-11).  De  resto,  a comunidade  em marcha pela história encontrar-se-á muitas vezes diante de circunstâncias históricas novas, diante  das  quais  terá  de  tomar  decisões práticas:  também aí se  verá  a presença do Espírito, que ajudará a responder aos novos desafios e a interpretar as circunstâncias à luz da mensagem de Jesus (cf. Jo 16,12-15).
MENSAGEM
O tema fundamental  desta leitura tem, portanto, a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em caminhada pelo mundo.
Jesus  começa  por dizer  aos discípulos que há muitas  outras  coisas  que eles  não podem compreender de momento (v. 12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os discípulos para a verdade, que comunicará tudo o que ouvir a Jesus  e  que interpretará o que está para vir (v. 13). Isto significa que Jesus não revelou tudo o que havia para revelar ou que a sua proposta de salvação/libertação ficou incompleta?
De forma nenhuma. As palavras de Jesus acerca da ação do Espírito referem-se ao tempo da existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à “parusia”. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja, continuar a captar, na fé, a Palavra  de Jesus e a guiar a vida por ela? A resposta  de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a minha proposta continue a ecoar todos os dias  na  vida  da  comunidade  e no  coração  de  cada  crente;  além  disso,  o Espírito ensinar-vos-á  a entender  a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição  e a discernir, a partir das circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não apresentará uma doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.
Aonde  irá  o  Espírito  buscar  essa  verdade  que  vai  transmitir  continuamente  aos discípulos? A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – v. 14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos, comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.
A última expressão deste texto (v. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por ação do Espírito.
ATUALIZAÇÃO
♦ O Espírito  aparece,  aqui,  como  presença  divina  na  caminhada  da comunidade cristã, como essa realidade que potencia a fidelidade dinâmica dos crentes às propostas que o Pai, através de Jesus, fez aos homens. A Igreja de que fazemos parte tem sabido estar atenta, na sua caminhada histórica, às interpelações do Espírito? Ela tem procurado, com a ajuda do Espírito, captar a Palavra eterna de Jesus e deixar-se guiar por ela? Tem sabido, com a ajuda do Espírito, continuar em  comunhão  com  Jesus?  Tem-se  esforçado,  com  a  ajuda  do  Espírito,  por responder às interpelações  da história e por atualizar, face aos novos desafios que o mundo lhe coloca, a proposta de Jesus?
♦ Sobretudo, somos convidados a contemplar o mistério de um Deus que é amor e que,  através  do  plano  de  salvação/libertação  do  Pai,  tornado  realidade  viva  e humana em Jesus, e continuado pelo Espírito presente na caminhada dos crentes, nos conduz para a vida plena do amor e da felicidade total – a vida do Homem Novo, a vida da comunhão e do amor em plenitude.
♦ A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se  na nossa  linguagem  imperfeita  das  três  pessoas.  O Deus  família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue “dizer” o mistério de Deus.
♦ As nossas comunidades  cristãs são, realmente,  a expressão  desse Deus que é amor  e  que  é  comunidade  –  onde  a  unidade  significa  amor  verdadeiro,  que respeita a identidade e a especificidade do outro, numa experiência verdadeira de amor, de partilha, de família, de comunidade?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Com algo de frequência, ouve-se dizer que o mistério da SS.ma Trindade, que celebramos neste domingo, não interessa muito para a vida cristã de todos os dias. Três Pessoas e um só Deus; um Pai que desde sempre é Pai, um Filho que desde sempre é engendrado, um Espírito Santo que eternamente procede do Pai e do Filho; um Pai que em quanto Pessoa não é o Filho, mas que segundo a divindade coincide absolutamente com o Filho, pois são uma única substância...certamente, tudo isso é muito escuro para a nossa pobre mente humana, é muito longe da nossa experiência de todos os dias e das nossas prioridades práticas.
Neste sentido, não deveríamos calar-nos respeitosamente ante o mistério de Deus, reconhecer com toda humildade e sensatez que não podemos conhecer Deus, precisamente porque é Deus? Para além de ser uma empresa fútil, não será um pecado de soberba querer investigar e conhecer a “vida interior” de Deus, a vida das Pessoas divinas e as suas relações?
A tudo isso devemos responder que não, mesmo se, evidentemente, temos de reconhecer que, sendo Deus o Mistério por excelência, só o podemos conhecer nesta vida de modo muito limitado. Mas ao mesmo tempo, devemos apressar-nos a dizer que foi Deus mesmo a querer revelar-nos o Mistério íntimo da sua Vida trinitária.
Podemos constatá-lo nas leituras deste domingo. São Paulo, na segunda leitura, nos assegura que “estamos em paz com Deus [Deus aqui quer dizer “Deus Pai”] por Nosso Senhor Jesus Cristo”. E depois Paulo continua dizendo que “a esperança não engana, porque o amor de Deus [Deus Pai] foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Num parágrafo, são Paulo mencionou a Trindade e o papel que cada uma das Pessoas desempenhou na nossa salvação. Ora sabemos que este homem não era um teórico, um homem amigo de especulações filosóficas. O seu interesse nas cartas era sobretudo prático, ou seja, ajudar os cristãos à altura da sua missão. Se ele menciona o mistério trinitário era por ser convencido de sua importância para a vida dos crentes. De fato a Vida trinitária é fundamental, pois para isso veio Cristo: para salvar-nos e para introduzir-nos na Vida interior das Pessoas divinas.
São João, no Evangelho, citando Cristo, é ainda mais explícito: O Espírito Santo “me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso, vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará”. Como é que Cristo pode dizer que “tudo o que o Pai tem é meu”? Só se ele mesmo for Deus, pode dizer isso. No evangelho de Mateus, Cristo chega a dizer que ninguém conhece o Pai se não o Filho e que ninguém conhece o Filho senão o Pai. Mas quem pode conhecer Deus? Só Deus pode conhecer Deus.
Mas voltemos à pergunta inicial, para completar a resposta: porquê Deus quis revelar-nos a sua vida íntima, ou seja, a comunidade das três Pessoas divinas? Não é pouca coisa...dar a conhecer o seu coração, é tornar-se vulnerável. Não revelamos a nossa intimidade, senão a pessoas da mais alta confiança, porque dar o seu coração a alguém é expor-se a grandes sofrimentos se esta pessoa usar mal os conhecimentos que lhe demos ou então se ela nos tratar com indiferença. Como é diverso ser desprezado por um desconhecido e ser tratado mal por um amigo que nos conhece por dentro e por fora! Porquê Deus toma este risco de revelar-nos o seu interior e de expor-se à indiferença de seres tão irresponsáveis como nós? Radicalizemos ainda mais a questão com esta observação: como sacerdote, posso celebrar a Missa e transformar o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo de forma muito indigna, se quiser, até mesmo dentro de um ritual satânico, por exemplo. E nem o papa pode retirar-me este poder... Porquê Deus expõe-se a tudo isso?
A resposta é só uma: por amor. Deus dá-se para salvar-nos. Poderia não fazê-lo, mas Ele é amor. Então Deus revela-nos a sua Vida interior, não se fecha aos nossos olhares, porque é amor. E por isso é tão importante o conhecimento das três Pessoas da Trindade. Porque isso revela-nos o que significa o amor. Mas não só isso: revela-nos que o amor é tudo.
Tudo o que o Pai tem, dá ao Filho, tudo o que Filho tem dá ao Pai. Isso é o amor! Mas não só, esse dar-se um ao outro é fecundo e desta fecundidade surge o Espírito Santo. Por isso, por exemplo, a anticoncepção nunca poderá ser cristã. O amor na sua essência, o amor tal como o vemos em Deus é fecundo e, se não o for, torna-se pouco a pouco egoísta, pois pode ser tão egoísta o “amor privado” a dois, como o puro amor do individuo a si mesmo. Como vemos, é muito importante mirarmos Deus, para sabermos, até nas coisas mais práticas, como devemos viver o amor, pois somos imagem de Deus, imitadores d’Ele.
Por outro lado, se Deus é Trindade e, por isso, comunidade de amor, então o amor é tudo. As outras religiões nunca o poderão entender como nós. Porque o divino, nelas, é solitário, não pode ser qualificado de amor. “Mas e o politeísmo”? podem perguntar. Os deuses do Olimpo e de qualquer “Olimpo”, são no fundo seres bastante solitários, centrados cada um em si mesmo. Enquanto que, em Deus, no Deus cristão, cada Pessoa dá tudo às outras. A partilha chega a tal radicalidade que não são três deuses, três indivíduos separados, mas um só. Por isso, também, o amor entre os homens, como imitação do divino, nunca será demasiado radical, nunca ninguém de nós poderá sentar-se satisfeito e dizer “basta já dei suficientemente aos outros”.
A radicalidade da nossa vida cristã é tal que só se pode viver no abandono a Deus, numa confiança total n’Ele. Sim, o amor que Deus nos pede é absolutamente superior a todas as nossas forças. Mostra-o suficientemente a repugnância de grande parte do mundo cristão para seguir integramente os ensinamentos da nossa fé sobre a sexualidade, por exemplo. Para sermos realmente cristãos, devemos entrar no mundo sobrenatural da fé, da oração frequente e do abandono a Deus, devemos renascer completamente como criaturas novas, com uma mudança profunda da nossa psicologia, mentalidade, esperanças, etc. O caminho é árduo, mas posso dizer-lhes que os resultados são esplêndidos. A nova vida que Deus quer dar-nos já aqui eclipsa por completo as aspirações e satisfações mundanas. E não poderia ser de outra forma: Deus é Deus, só Ele tem a chave da vida.
padre Antoine Coelho, LC
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