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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A PECADORA PERFUMOU OS PÉS DE JESUS

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Comentário Prof.Fernando


Dia 16 de junho
Evangelho: (Lc 7, 36-8,3)
A PECADORA PERFUMOU OS PÉS DE JESUS...

-A PECADORA PERFUMOU E BEIJOU OS PÉS DE JESUS-José Salviano


            Aquela mulher que beijou e perfumou os pés de Jesus, era conhecida naquela cidade, como uma pecadora. O Evangelho não fala em detalhes sobre os seus pecados, porém, com certeza, ela era uma pessoa que pecava contra a castidade.  E o seu gesto de enxugar com lágrimas e beijar os pés de Jesus, não pode ser considerado um ato erótico, como alguns pensam, mas sim, significa o seu reconhecimento de ser uma pecadora e de estar diante do Filho de Deus, O Salvador. Continua...

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XI DOMINGO DO TEMPO COMUM 16/06/2013
1ª Litura  2Samuel 12, 7-10.13
Salmo 31 (32) ,5ad”Então eu vos confessei o meu pecado. E vós perdoastes a pena do meu pecado”
2ª Leitura Gálatas 2, 16.19-21
Evangelho Lucas 7, 36-8,3

A Consciência do Pecado” - Diac.José da Cruz


Na sociedade globalizante e consumista da qual fazemos parte, onde vale tudo para ser feliz, seduzido pelas facilidades da vida moderna, na medida em que o homem avança em ritmo acelerado na tecnologia e na ciência, experimenta uma evolução rápida e espantosa. Porém, por outro lado todo esse sucesso da comunidade científica aumenta no ser humano a prepotência e a auto suficiência, assumindo o lugar de Deus, quando se apresenta como senhor de sua vida e de seus atos, conhecedor do bem e do mal, e arrogando-se o direito de decidir sua própria vida.
Temos visto recentemente em uma emissora de TV uma campanha publicitária onde determinada corrente ideológica defende abertamente o aborto e uma mulher elegante e liberada convence o telespectador de que o aborto está entre as demais conquistas da mulher moderna, que por isso têm todo direito de decidir o que fazer com seu corpo, sem dar satisfação a ninguém, muito menos a Deus, cuja lei é considerada retrógrada.
E assim, nessa sociedade mais do que nunca antroprocêntica, o homem arrogante vai dando o seu grito de independência, decretando a morte de Deus e o fim do pecado, como se Deus atrapalhasse os planos de ser feliz, da humanidade.
Mas e os discípulos de Jesus, membros de tantas igrejas cristãs, como se posicionam diante dessa sociedade que “liberou geral” em uma verdadeira maratona do “vale tudo” na busca do prazer, sucesso e felicidade?
A voz profética de Natã na primeira leitura, despertou no rei Davi a consciência do seu delito, do seu procedimento totalmente contrário à palavra de Deus, pois colocou Urias na frente de batalha para que este morresse e assim ele pudesse possuir a sua esposa. Essa atitude penitente permitiu ao rei experimentar a alegria do amor de Deus.
Precisamos admitir que estamos enfermos, para sermos curados pela misericórdia divina. O salmo 51 é um dos mais belos da sagrada escritura, com seu caráter profundamente penitencial mostra-nos o rei Davi humilde e penitente, que reconhece o seu pecado “Pequei contra o Senhor”.
Mas o pior enfermo é aquele que não admite a sua enfermidade, procurando esconde-la com práticas religiosas e uma aparência piedosa diante dos irmãos. O Fariseu Simão, que convidara Jesus para jantar em sua casa, não é má pessoa ao contrário, sua conduta é irrepreensível já que cumpre todos os deveres para com Deus e o próximo e como bom teólogo, conhece a Palavra de Deus, suas promessas e suas leis dadas a Moisés.
Já a mulher tem má fama, é conhecida como pecadora sendo moralmente desqualificada, e por sua conduta está excluída da comunidade porque é considerada impura, mas há algo em sua vida que a difere do fariseu piedoso: conheceu Jesus e descobriu-se amada e querida por ele, apesar dos seus inúmeros pecados e a experiência desse amor a leva a reconhecer-se pecadora, sentindo no coração não um remorso doloroso, mas sim uma incontida alegria que procurou manifestar na casa do fariseu, lavando e ungindo os pés daquele que a fez descobrir o verdadeiro amor.
O fariseu mantinha com Deus uma relação sem dúvida piedosa, mas como se sentia justificado pelas suas obras, dava-se o direito de julgar os que estavam em pecado, excluindo-os de sua companhia, e sentindo-se merecedor do amor de Deus e sua salvação.
Note-se que Jesus não condena a conduta e o modo de viver do fariseu, e nem tão pouco aprova a vida pecaminosa da mulher, apenas realça o modo como ambos se relacionam com Deus. Certamente essa experiência com o Mestre Jesus mudou para sempre a vida daquela mulher mostrando-nos que a iniciativa é sempre de Deus e que somente quando descobrimos o seu amor em nossa vida, é que percebemos o quanto somos pecadores por não correspondermos a esse amor.
Simão admirava Jesus, mas não via nele nada de especial, porque a lei, tradição, o rito e suas boas obras não o deixavam sentir o quanto Deus o amava, manifestando este amor em Jesus. A religião do perfeicionismo e do moralismo é sempre muito triste porque nela, o homem mantém com Deus não uma relação de filho, amado e querido, mas apenas de um empregado, que cumpre seu dever junto ao patrão, merecendo deste o justo salário.
A verdadeira autêntica e única religião têm como base um amor que não se prende a qualquer lei moral ou norma de conduta, mas sim ao encanto e fascínio de Cristo Jesus, cujo olhar, gesto e palavras tem o poder de tocar nosso coração, fazendo-nos renascer e recuperar nossa dignidade de filhos de Deus, despertando-nos esse desejo incontido de estar a seus pés, como essa mulher, naquela noite imemorável na casa de Simão. Que o formalismo religioso não mate em nós a alegria desse amor grandioso!
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“TUA FÉ TE SALVOU. VÁ EM PAZ!”- Olívia Coutinho

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 16 de Junho de 2013

Evangelho de Lc 7, 36-50

Quando projetamos a nossa vida, tendo como ponto de referencia nós mesmo, tornamos auto-suficiente, não saímos do nosso “eu”.  Cheios de nós mesmos, e vazios de Deus, não  envolvemos  no seu  projeto de vida nova, que tem como referência unicamente Jesus! 
 Escondidos no manto da bondade, nos aparentamos como pessoas corretas, cumpridora das normas religiosas, seguidores de Jesus,  quando  na prática, agimos de forma contrária a Dele, deixamos a lógica de Deus que é o amor, para viver a lógica dos homens.
Precisamos ter a  humildade de reconhecer as nossas imperfeições, para que possamos nos alto – corrigir. Esvaziando  de nós mesmos, nos preenchemos de Deus, e assim teremos  um coração transparente,  aberto ao amor, um coração misericordioso, semelhante ao coração de Jesus, que acolhe aqueles que aos olhos do mundo não são merecedores de uma nova chance.
Deus tem um projeto de vida plena oferecida gratuitamente a todos: a salvação. E o que Ele  nos indica como caminho de salvação, é que tenhamos um coração largo para amar, um olhar de misericórdia para com aqueles que muitas vezes,  só precisam de se sentirem amados para mudar de vida!
Sem uma adesão concreta a proposta de vida nova, anunciada por Jesus, ficamos no superficial da fé, e  ao invés de nos tornar caminho  para o retorno daqueles que se enveredaram pelos caminhos contrários aos caminhos de Deus, contribuímos para que eles se percam ainda mais, com a nossa indiferença, com o nosso preconceito. E assim, vamos  tomando  uma postura de juiz, condenando o nosso irmão, sem dar a ele uma oportunidade de rever a sua vida, de experimentar uma vida nova em Jesus!
Um verdadeiro seguidor de Jesus, nunca vê o outro como caso perdido, como alguém irrecuperável, pelo contrário, ele, assim como o próprio Jesus, não desiste do outro, pois  acredita no seu retorno à Vida.
É o que Jesus nos mostra no evangelho de hoje, ao acolher com amor, uma mulher de vida errante, que até então, não tivera a oportunidade  de experimentar uma vida pautada nos valores do reino!
A narrativa vem nos mostrar um  belíssimos testemunho de amor e de fé: uma mulher discriminada,  vence todas as barreiras do preconceito e vai até Jesus, banha os seus pés com suas lágrimas, os enxuga com os seus cabelos, cobre-os de beijos e unge-os com perfume!  Seu nome,  não fora revelado, a sua identidade foi anulada pelo rótulo que a sociedade impiedosamente  lhe impôs: “a pecadora” rótulo  que a tornava desonrada aos olhos de todos, menos aos olhos misericordiosos  de Jesus.
 Este encontro transformador,  se deu na casa de um fariseu que convidou Jesus para almoçar com ele. 
          O texto não nos diz, mas tudo nos leva a crer, que neste episodio, nenhuma palavra foi dirigida a Jesus, tudo decorreu no mais profundo silencio, a cena por si só, falou tudo, ou seja, falou de amor e de fé,  de um amor e de uma  fé que tocou Jesus, mostrando-nos mais uma  vez a grandiosidade do seu coração misericordioso.  
O fariseu, se escandaliza com a audácia daquela mulher anônima, que invade a sua casa para encontrar-se com  Jesus, e se escandaliza ainda mais  com a atitude de Jesus que a acolhe  com amor.
A conclusão do fariseu diante de tal cena, foi de que Jesus não era um profeta, pois na visão dele, se  Jesus fosse um profeta,  o seu comportamento diante daquela mulher, seria diferente.  Indignado, com a atitude de Jesus, ele sequer pronuncia o seu nome, se referindo a Ele como: “este homem”...
Muitos de nós criticamos a atitude deste fariseu, mas muitas  vezes, temos atitudes semelhantes a dele, ao contrário de Jesus, só  vemos os erros dos outros  e não a pessoa na sua essência, apontamos   o dedo para o outro, esquecendo de que não somos modelos de perfeição.
O fariseu, cheio de si  mesmo, lançou sobre aquela mulher, um olhar de condenação,  enquanto que Jesus, lançou sobre esta mesma mulher, um olhar de misericórdia!  Jesus  vê o amor transbordar em seu coração e lhe concede o perdão, libertando-a  da pior de todas as escravidões: a escravidão do pecado!
É com este mesmo olhar de misericórdia, que Jesus olha para cada um de nós! Coloquemos em nossa vida, a mensagem do inesgotável perdão de Deus, olhando o outro, com o olhar misericordioso de Jesus!
Jesus entrou na casa do fariseu, como uma luz, mas quem acolheu esta luz, não foi ele, e sim,  uma  mulher marginalizada, que a partir de então, teve a sua vida transformada. 
 Hoje, Jesus quer entrar na nossa casa, no nosso coração, estamos abertos para acolhe-Lo como esta luz transformadora?  
Deixemo-nos conduzir por esta luz que é Jesus, sem nunca esquecer: o mais Santo de todos os Santos será sempre um pecador perdoado.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia


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Evangelhos Dominicais Comentados

16/junho/2013– 11o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Lc 7, 36-8,3)

(Enquanto Jesus comia na casa de um fariseu, uma mulher pecadora trouxe um vaso feito de alabastro cheio de perfume, se pôs atrás de Jesus, junto aos pés, chorando. Começou a banhar-lhe os pés com as lágrimas e enxugá-los com os seus cabelos; beijava os pés e os ungia com o perfume. Ao ver isso, o fariseu que o tinha convidado ficou pensando: “Se este homem fosse profeta, saberia que esta mulher é uma pecadora”. Jesus então disse a Simão): “Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro cinqüenta. Como não tivessem com que pagar, perdoou os dois. Quem deles o amará mais?” Simão respondeu: “Suponho que seja aquele a quem perdoou mais”. Disse-lhe Jesus: “Julgaste bem”. E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa e tu não me deste água para lavar os pés. Ela banhou meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Tu não me saudaste com o beijo. Ela, desde que entrei, não parou de me beijar os pés. Tu não me ungiste a cabeça com óleo. Ela me ungiu-me os pés com perfume. Por isso, eu te digo que perdoados lhe são os muitos pecados, porque ela mostrou muito amor. Mas aquele a quem pouco se perdoa, mostra pouco amor”. E Jesus disse à mulher: “Os teus pecados estão perdoados”. Os convidados começaram a se perguntar: “Quem é este que perdoa até os pecados?” E Jesus disse à mulher: “A tua fé te salvou. Vai em paz”!

COMENTÁRIO

Hoje celebramos a misericórdia de Deus para com os pecadores. Como é bom saber que sempre existe esperança para o filho que reconhece suas fraquezas, reconhece os seus erros, que se arrepende, que se aproxima e pede perdão.

Jesus não recusa nenhum convite para entrar nos lares, basta convidá-lo. Foi exatamente isso que fez um fariseu chamado Simão. Ele preparou sua casa, abriu as portas e convidou Jesus para uma refeição. Convidou também “gente graúda”, a elite, a nata da sociedade, outros fariseus, doutores da lei e escribas.

Mesmo sabendo que lá estariam essas pessoas, Jesus não fez nenhum tipo de discriminação, aceitou o convite e lá estava na hora combinada. Simão deve ter vestido sua melhor roupa e devia estar muito honrado e orgulhoso. Afinal estava ali, em sua casa, uma das pessoas mais populares da região.

Poucos tiveram esse privilégio. Milhares de pessoas tentavam aproximar-se de Jesus para, pelo menos, tocar em suas vestes e ele, um fariseu, o estava recebendo em sua casa. Tamanho era seu orgulho, que se esqueceu de saudar o visitante, conforme exigiam os costumes daquela época.

Jesus fez de conta que não percebeu a indelicadeza do anfitrião, não disse nada e só tocou no assunto na hora certa. Lucas nos fala que também compareceu ao jantar uma conhecida pecadora da região.

O que se sabe sobre ela, além de sua vida irregular e pecadora, é que era uma mulher de certa posição social. Seu nome não aparece no texto, porém a tradição popular afirma que se tratava de Maria Madalena.

Naquele tempo as estradas eram poeirentas e, devido ao calor, usavam-se sandálias abertas. Ao receber um hóspede, era costume saudá-lo com o beijo da paz em sinal de amizade, e oferecer água para lavar os pés, além de perfumes. Perfumar a cabeça do convidado era sinal de especial atenção para com o visitante.

Para facilitar nossa reflexão, vamos ressaltar a falha do fariseu. Numa época de leis severas e normas rigorosas, como pôde acontecer tamanha gafe? Jesus, um convidado todo especial, não teve a recepção que merecia e não recebeu nenhuma dessas cortesias. Esse esquecimento do anfitrião é imperdoável!!!

Que nada! Seria imperdoável se o convidado fosse outro. Certamente qualquer pessoa no lugar de Jesus iria sentir-se ofendida e humilhada. Talvez virasse as costas e fosse embora. Não perdoaria uma atitude tão descortês e jamais aceitaria outro convite para retornar àquela casa.  

Para Jesus não existe a palavra imperdoável. Nosso Deus é Amor e Perdão. Faz questão de deixar transparecer seu enorme desejo de perdoar e de estar presente em nossa morada. Sua única exigência para aceitar um novo convite é o arrependimento, é o sincero desejo de não mais pecar.

Jesus não exige cerimonial para se aproximar. Quantas vezes agimos como o fariseu. Para recepcionar Jesus no Natal vestimos a melhor roupa, limpamos e iluminamos a casa inteirinha, preparamos até serviço de “Buffet” com muitos assados, frutas, finas bebidas e presentes. Um número enorme de convidados e um protocolo negligenciado.

Lembramos dos mínimos detalhes, mas esquecemos da presença de Deus, do arrependimento e da reconciliação. Esquecemos de pedir perdão, de abraçá-lo, de beijá-lo e de ungir seus pés com o perfume do verdadeiro amor. Nosso hóspede conhece nossos pensamentos, por isso precisamos viver o amor. O amor leva ao perdão, e o perdão, é a grande prova da existência de Deus.
(1382)     jorge.lorente@miliciadaimaculada.org.br – 16/junho/2013   
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Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela mostrou muito amor-Claretianos

Domingo, 16 de junho de 2013
11º Domingo do Tempo Comum
Santos do Dia:Aureliano de Arles (bispo), Aureo (bispo de Mayence), Beno de Meissen (bispo), Cetino de Oran (bispo), Ciríaco e Julita, sua mãe (mártires de Tarso), Curigo de Wales (bispo), Ferréolo e Ferrúcio (presbíteros, mártires de Besançon), Lutgarda de Aywières (virgem), Similiano de Nantes (bispo), Simplício de Bourges (bispo), Tikon de Chipre (bispo).
Primeira leitura:2 Samuel 12, 7-10.13
O Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás. 
Salmo responsorial: 31, 1-2.5.7.11
Eu confessei, afinal, meu pecado e perdoastes, Senhor, minha falta. 
Segunda leitura: Gálatas 2, 16.19-21
A Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim.
Evangelho: Lucas 7, 36 – 8,3
Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela mostrou muito amor.
Na primeira leitura, Davi, o rei eleito por Deus, pecou gravemente. Cometeu adultério com Betsabé, esposa de um dos seus generais mais leais, depois mandou matar o esposo enganado. Zombou do próprio Deus, ao arrogar-se o direito abusivo sobre a vida e a morte em beneficio de seus desejos depravados, relativizando a realeza absoluta de Deus, única fonte do autêntico direito.
Isto merece um castigo. Porém, o rei reconhece seu delito e se manifesta humildemente arrependido. Mostra assim a profundidade de sua fé, apesar de seu pecado. Por isso Deus o perdoa. Davi ficará para sempre como o exemplo vivo do homem que, sobrepondo-se às suas misérias, se situa na dinâmica do divino que, sem desatender a justiça, aplica a misericórdia e o perdão a quem se arrepende.
Na segunda leitura, Paulo não cessa de combater a mentalidade quem impele o homem a pensar que graças às suas boas ações tem direitos diante de Deus. A religião, fundada sobre a obediencia da lei e sobre um contrato “te dei, deves dar-me”, falseia a verdadeira relação com o Senhor. Este tipo de religião conduziu o judaismo a rejeitar a mensagem de misericordia de Jesus, para fechar-se em seu frio esquema da legalidade vazia. A fé transforma radicalmente esta mentalidade e nos abre ao amor divino tal como se mostrou em Jesus.
No evangelho, uma mulher se atreve a estragar uma sobremesa cuidadosamente preparada. A arrogante intrometida, não somente quebra as leis da boa educação, mas além disso, comete uma infração de tipo religioso: um ser impuro não deve manchar a casa de um homem socialmente puro (um fariseu).
Por um momento Cristo perde sua dignidade de profeta aos olhos de seu anfitrião: “Se este fosse profeta, saberia quem é esta mulher que o está tocando e o que é: uma pecadora”. Diante da situação apresentada, Jesus utiliza o recurso dos sábios: o método socrático de induzir à conclusão correta a partir dos argumentos corretos. Em vez de corrigir o anfitrião, convida-o a sair de sua ignorância e a reconhecer que o verdadeiro pecador é ele; o fariseu que acredita ser puro.
A mulher não enganou ninguém: ela repetiu os gestos de sua profissão; a mesma atitude sensual que teve com todos os amantes. Porém, nessa tarde seus gestos não têm o mesmo sentido. Agora expressam seu respeito e a mudança de seu coração. O perfume, ela o comprou com suas próprias economias, o preço de seu “pecado”. E sem duvidar, rompe o frasco (cf. Mc 14,3), para que não seja recuperado nenhuma gota do preciso perfume. Uma vez mais, um gesto fino e elegante.
Surgem aqui duas dimensões da salvação. Por uma parte, aparece a liberdade, própria do amor. Nessa ceia o fariseu tinho tudo previso e preparado. Porém, basta que uma mulher, impelida por seu coração, entre sem ter sido convidada e a sobremesa munda totalmente. Por outra parte, o episódio revela a libertação oferecida por Jesus.
O Messias proclama, com seus atos e palavras, que o homem já não está condeado à escravidão da lei e de uma religião alienante. O cristão é um ser libertado sobre a base dessa fé, feito amor prático pregado por Jesus: “tua fé te salvou”. Na antiguidade as prostitutas eram consideradas escravas; socialmente não existiam.
Contudo, esta tarde uma prostituta escuta as palavras de absolvição e de canonização, pois fez o gesto sacramental e expressa sua decisão de mudar de vida. Assim se coloca à cabeça do evangelho. Que outra coisa podem significar as palavras de Cristo: “teus pecados estão perdoados? É a mesma coisa que dizer: “Maria, és uma santa”.
Oração:Ó misterio infinito, em quem cremos presente no processo da vida e na historia do cosmos… Faze que sejamos capazes de compreender que a força que tudo sustenta é o Amor e nós mesmos somente alcançamos a felicidade no amor. Nós te pedimos, apoiados no exemplo de Jesus, unidos a todos os homens e mulheres que te buscam por muitos caminhos. Amém.

Claretianos

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Décimo Primeiro Domingo Comum

A liturgia da Igreja,neste domingo,nos convida a viver o ciclo dos domingos do Tempo Comum. Vamos seguir durante estes meses a pregação de Jesus, tal como nos é dada pelo evangelista Lucas. Atentos a esta catequese, procuremos compreender melhor como, no nosso caminhar habitual, colaboramos com o plano de Deus manifestado em Jesus Cristo. Sabemos que o Senhor nos fala a cada dia. Mas, na celebração dominical não é apenas a cada um de nós que ele se dirige: é à comunidade reunida em seu nome. Todos nós nos sentimos envolvidos neste anúncio da Boa Nova: todos nos sentimos responsáveis, uns pelos outros, para que a palavra do Senhor seja acolhida e posta em prática.
A liturgia deste domingo apresenta o tema sempre atual do pecado e do perdão. Através dos nossos erros e acertos, narrados na Escritura, descobrimos que é próprio de Deus ter compaixão e perdoar. A Igreja tem como missão transmitir esta mensagem de misericórdia, para que o homem possa olhar confiadamente para Deus e esperar dele o perdão.
O evangelho proclamado hoje ( Lc 7,36-8,3 ) faz-nos contemplar, nas palavras e nos gestos de Cristo,o amor de Deus. Ele põe em confronto, aos olhos de Jesus, a vida da pecadora e a vida do fariseu. Contemplamos aqui as atitudes de duas pessoas perante o amoroso Jesus: a mulher, que se sentiu amada e demonstrou amor, e o fariseu, que, com seu egoísmo, não reconheceu o amor do Senhor nem lhe demonstrou amor. O contraste não poderia ser mais marcante: de um lado, Simão, fariseu, com fama de santo, convida e recebe formalmente Jesus em sua casa; do outro lado, uma mulher, anônima, reputada pecadora, intrusa na casa do “santo”, agindo de forma esquisita. A pecadora tem um encontro de amor e de perdão, e, na fé, encontra salvação. Com o fariseu não se dá o mesmo. Ele é o tipo que se considera justo, credor de Deus, rico diante dele. Mas a salvação vem de Deus e se destina a quem se sente pequeno e humilde diante dele. O próprio Jesus mostra o caminho da misericórdia: Ele veio a nós na humildade da sua encarnação, na dor da sua paixão, na solidão de sua morte, na pobreza e materialidade da sua eucaristia.
Que, na celebração de hoje, inclinemos nossos corações para acolher a ternura e amor de Deus que vai além de nossas ações e méritos. Que o fervor da Igreja da primeira hora, descrita nos Atos dos Apóstolos, reacenda em nós a chama do amor, do perdão e da misericórdia na Igreja de hoje.

Pe. Raimundo Neto



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        A mulher lavou e beijou os pés de Jesus - Helena Serpa
Jesus Cristo é o maior revolucionário no campo das concepções dos relacionamentos humanos. Na Sua passagem aqui na terra Ele demonstrou que o pensamento de Deus é completamente inverso a tudo o que é posto em prática segundo a mentalidade do mundo. Mesmo para aqueles que eram mestres em relação à Lei de Deus, Jesus impunha com autoridade o verdadeiro sentido dos preceitos divinos. 
Por isso, não deixava passar as oportunidades de acolher pecadores e perdoar pecados, de consolar os miseráveis e dar dignidade àqueles que eram excluídos da sociedade. Neste episódio da “pecadora perdoada” o Senhor nos ensina que o amor que nós demonstramos nos nossos relacionamentos e a confiança que nós temos na misericórdia de Deus são chaves que abrem a porta do perdão de Deus para nós e o maior motivo para que nós sejamos absolvidos das nossas transgressões.
Os gestos daquela mulher tocaram profundamente o coração de Jesus que percebeu nela um verdadeiro arrependimento e uma fé inconteste. Apesar de ser conhecida na cidade como pecadora ela não se incomodou com o que os “fariseus” diriam dela e enfrentou a todos para estar aos pés de Jesus banhando-lhes com suas lágrimas e ungindo-os com o perfume valioso. Para ela nada importava mais do que receber o perdão de Jesus e demonstrar a Ele o seu grande amor. Jesus perdoou-lhe os pecados e disse por que o fez: “porque ela mostrou muito amor”. Meditando sobre essa mensagem nós precisamos ter plena consciência de que o perdão que nós esperamos de Deus está condicionado ao nosso coração contrito e cheio de bons propósitos e à nossa real confiança na Sua misericórdia.
O perfume valioso se compara à nossa oração nos momentos em que nós dedicamos a estar perto de Nosso Senhor, às nossas lágrimas de arrependimento. Nós também demonstramos muito amor quando vencemos as barreiras e empecilhos para encontramos tempo de beijar os pés de Jesus e com a nossa oração penitente escutar dele as palavras: “Teus pecados estão perdoados, a tua fé te salvou”. Beijar os pés de Jesus é adorá-Lo através dos nossos irmãos e irmãs. Portanto, nós temos muitas oportunidades para também, como a mulher da história, comprovar o nosso amor por Jesus. Meu irmão,minha irmã vamos refletir: O que você “tem feito” para ser perdoado dos seus erros ou pecados? Você tem demonstrado amor nas ações do seu dia a dia? Como está a sua vida de oração? Você tem estado aos pés de Jesus, arrependido ?
Helena Serpa
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Convém iniciar a meditação sobre a Palavra do Senhor deste domingo recordando a primeira e principal das Bem-aventuranças; aquela que resume todas as demais: “Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus” (Mt. 5,3).
O Evangelho de hoje afirma que “Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus”. Que Boa-nova é esta, que Jesus pregava? Que nele, Deus se revelava como Pai cheio de amor e misericórdia, que se volta para o homem, inclina-se em direção a ele, para acolhê-lo, perdoá-lo, e caminhar com ele. Este anúncio requer uma decisão nossa: a conversão, isto é, um coração aberto à Boa-nova de Jesus; um coração capaz de acolher a presença salvífica de Deus e, cheio do amor do Senhor, abrir-se também para os outros, sobretudo para os pobres sejam de que pobrezas forem. E por que Jesus afirma que é dos pobres o Reino dos Céus? Esta pergunta é a chave para compreender as leituras de hoje. Vejamos.
Quem é o pobre na Bíblia? De que pobre Jesus está falando? Pobre é todo aquele que se encontra numa situação extrema, situação de fraqueza e impotência; pobre é todo aquele que se encontra numa situação limite na vida. O gravemente doente é um pobre, o que não tem casa e comida é um pobre, o discriminado e perseguido é um pobre, o que se sente só e sem amor é um pobre, o aidético, o que foi derrotado, o que foi incompreendido, o que foi pisado pelo peso da existência… Notemos que a pobreza em si não é um bem. E por que Jesus proclama os pobres bem-aventurados, dizendo ser deles o Reino dos Céus? Porque o pobre, na sua pobreza, toca o que a vida humana é realmente: precária, débil, incerta, dependente de Deus. Normalmente, nossa tendência é esquecer essa realidade, procurando mil muletas, mil apoios, mil ilusões: bens materiais, saúde, prestígio, amigos, ninho afetivo, poder… e julgamo-nos auto-suficientes, senhores de nós mesmos, perdendo a atitude de criança simples e confiante diante de Deus. Assim, auto-suficiente, ricos para nós mesmos, não nos achamos necessitados de um Salvador, fechamo-nos para o Reino que Jesus veio anunciar. Só o pobre pode, com toda verdade, tocar a debilidade da vida com toda crueza e verdade e, assim, os pobres têm muito mais possibilidades de abrir-se para o Reino.
As leituras deste Domingo ilustram-nos esta realidade. Primeiro, a pobreza de Davi que, apesar de forte militarmente e rei de Israel, não hesita em reconhecer seu pecado com toda humildade diante do profeta do Senhor: “Pequei contra o Senhor” – diz o rei. Davi não usa máscara, não procura justificar-se com desculpas esfarrapadas. Reconhece-se pequeno, frágil, limitado… humilha-se ante o Senhor. A resposta do Senhor é imediata: “De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás”. Depois, as duas figuras contrapostas do Evangelho: de um lado Simão, cheio de si, de sua própria justiça, seguro de si próprio, julgando-se em dia com Deus e com seus preceitos e, por isso mesmo, fechado para a misericórdia e a delicadeza para com os outros. Jesus o desmascara: “Quando entrei na tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés… Tu não me deste o beijo de saudação… Tu não derramaste óleo na minha cabeça”. Simão, cheio de si, nunca pensou de verdade que precisasse de um Salvador e, por isso, não foi aberto para Jesus e para o Reino. Recebeu Jesus exteriormente, mas não aderiu a ele interiormente, de todo coração! Por outro lado, a mulher pecadora, adúltera pública, derrama as lágrimas e o coração aos pés de Jesus, com toda simplicidade, com toda sinceridade, do fundo de sua miséria… Reconhece-se pecadora, quebrada, infiel; sem máscara nenhuma, mostra-se ao Senhor e suplica sua misericórdia. Por isso, pode ouvir: “Teus pecados estão  perdoados. Vai e paz!”
Somente quando experimentamos, de fato, esta pobreza, podemos verdadeiramente acolher Deus que nos vem em Jesus como Salvador. Caso contrário, diremos que cremos nele, mas somente creremos de fato em nós e em nossas mil riquezas econômicas, afetivas, sociais, psicológicas, espirituais… Assim, do alto da nossa auto-suficiência, tornamo-nos incapazes de acolher de verdade o Reino. Não é este o drama do mundo? Com nossa ciência, com nosso divertimento, com nossa liberação total, com nossos bens de consumo… quem precisa de um Salvador? Temos tudo, somos ricos, estamos bem assim e, sozinhos, nos bastamos!
Pois bem: faz parte do núcleo da convicção cristã que não nos bastamos, que somos pobres e, sozinhos, jamais nos realizaremos plenamente. É o que são Paulo exprime na segunda leitura da Missa: aos cristãos de origem judaica, ele recordava que a salvação não vem das obras da Lei de Moisés, de nossa própria bondade, mas unicamente da fé em Jesus, presente de Deus, misericórdia de Deus para nós. É esta, muitas vezes, a nossa dificuldade: compreender que somos todos pobres diante de Deus; precisamos dele, a ele devemos abrir nossa mente, nosso coração, nossa vida. Aí, sim, o Reino de Deus começará a acontecer e Deus em Cristo reinará de verdade na nossa vida e, através de nós, na vida do mundo.
Que nos perguntemos: sou pobre ou sou rico? Reconheço devedor e dependente de Deus, realmente? Tenho-o como meu Salvador e minha riqueza? Aposto nele a minha vida? Tenho consciência que a vida não é minha de modo absoluto, mas é um do qual deverei prestar contas ao doador? O Senhor nos ajude e ilumine nosso coração e nossa mente!
dom Henrique Soares da Costa
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Os textos deste domingo tratam do tema do perdão dos pecados. A compreensão a respeito desse assunto vai se aperfeiçoando ao longo da tradição judaico-cristã. Deus se revela como misericórdia. Ele perdoa ao pecador arrependido por maior que possa ser o pecado por este cometido. O reconhecimento da transgressão à lei divina e o arrependimento sincero demonstram a determinação de deixar-se conduzir pela vontade de Deus, manifestada nas palavras do profeta. É o que podemos constatar na atitude do rei Davi perante a denúncia do profeta Natã (I leitura). Jesus exerce o poder de perdoar pecados, mesmo contestado pelos adversários. Ele é o rosto misericordioso de Deus presente no meio da humanidade pecadora. O perdão de Jesus revela que sua prioridade é a pessoa humana, chamada a ser livre e íntegra (evangelho). O perdão é a manifestação da justiça de Deus baseada não nos méritos humanos, mas na grandeza de seu amor. Todos somos pecadores e necessitados da intervenção divina para nos salvar. Jesus Cristo, pela sua morte, redimiu-nos dos pecados e nos resgatou para a vida. Pela fé acolhemos essa graça e nos deixamos moldar por Jesus Cristo (II leitura). O perdão que Deus nos concede gratuitamente nos torna capazes de amar como ele nos ama, superando todo egoísmo e construindo relações justas e fraternas.
1º leitura (2Sm. 12,7-10.13): Deus perdoa ao pecador arrependido
Davi foi ungido para governar o povo de Israel. Deus o abençoou e o defendeu das armadilhas dos inimigos. Como escolhido de Iahweh, deveria agir exemplarmente e seguir os mandamentos. No ápice de seu poder, porém, Davi esquece-se de servir a Deus e abnegar-se em favor do povo. Enquanto seus soldados estão em batalha, Davi permanece tranquilamente em seu palácio, usufruindo de uma vida mansa e descomprometida. Deixa-se conduzir pela luxúria e comete a primeira violação grave: adultério com Betsabeia, a mulher de Urias, general de seu exército. Ao constatar que ela engravidara, o rei deixa-se conduzir pelo orgulho e comete a segunda violação grave: assassinato. Manda que posicionem Urias no lugar mais perigoso numa guerra contra os amonitas, a fim de que fosse ferido e morresse. O desrespeito a esses dois mandamentos da Lei de Deus lhe valeria a morte (cf. Lv. 20,10 e 24,17).
Davi parece não dar-se conta da gravidade de seus pecados. O poder obscureceu a sua consciência. Deus, porém, que perscruta os corações, envia o profeta Natã, que, ao apresentar-se ao rei, lhe conta uma história de dois homens: um rico que retira de um pobre o único bem que este possuía (cf. 2Sm. 12,1-4). Davi, na sua pretensão de justo, mostra-se indignado contra tal explorador. Natã, então, aponta o culpado: “Esse homem és tu!”. Lembra-lhe toda a trajetória da sua vida e como Deus lhe manifestou o seu amor. Os pecados de Davi não consistiram numa traição somente a Urias, mas a todo o povo de Israel e ao próprio Deus.
A intervenção do profeta Natã acorda a consciência adormecida de Davi, que reconhece seu pecado e se arrepende com sinceridade. Deus lhe perdoa e o livra da morte. Porém não o livra das consequências provenientes de suas faltas. A responsabilidade dos atos deve ser assumida. O perdão, de todo modo, proporciona a nova oportunidade de entrar na dinâmica do amor de Deus. Davi pode voltar a governar com justiça, respeitando a Lei de Deus e o direito de todas as pessoas à vida digna. O perdão reconduz a pessoa arrependida ao caminho da vontade divina.
Evangelho (Lc. 7,36-8,3): Jesus, o rosto misericordioso de Deus
O Evangelho de Lucas aprofunda, de maneira especial, o tema da misericórdia. É o caminho que proporciona a inclusão de todas as pessoas na proposta de amor e salvação revelada em Jesus. A casa de Simão, o fariseu, serve de cenário para a mensagem a ser assimilada e jamais esquecida pelas comunidades cristãs. O fariseu convida Jesus para comer com ele, em sua casa. Casa e comida são dois elementos que apontam para o projeto de “comunhão de mesa”. As comunidades primitivas reuniam-se nas casas para atualizar a memória de Jesus, a oração, a partilha da comida e a ceia...
Sentar-se à mesma mesa representava a determinação de relacionar-se na igualdade e na fraternidade, sem discriminação de raça, sexo ou classe social, expressando as mesmas convicções religiosas. Este projeto, porém, não foi tão tranquilo. A dificuldade maior se deu na relação entre cristãos de origem judaica e cristãos gentios. Além disso, na época da redação do Evangelho de Lucas, percebe-se forte tendência de discriminar as mulheres, abafando o seu protagonismo na animação das comunidades cristãs.
O fato de Jesus aceitar o convite do fariseu demonstra que o mestre não faz acepção de pessoas. Sente-se livre em qualquer ambiente. É portador do amor de Deus que se estende a todos, sem discriminação. Na mesa há outros convivas. Entre eles dificilmente estariam também mulheres. Decerto seriam os amigos de Simão, pertencentes ao mesmo partido farisaico. Estariam, quem sabe, também os apóstolos?
A narrativa apresenta uma mulher que aparece de repente e se coloca aos pés de Jesus. Ela é da cidade, sem nome e conhecida como pecadora. Trouxe um frasco de perfume precioso e, entre lágrimas, unge os pés de Jesus, beija-os e enxuga-os com os cabelos. Os detalhes da ação da mulher revelam profundo sentimento de amor e gratidão. Simão, diante do que está vendo, não ousa criticar abertamente a atitude de Jesus, mas em seu coração põe em dúvida a sua qualidade de profeta, pois está acolhendo uma pecadora.
A parábola que Jesus conta tem por finalidade desmascarar a atitude de superioridade e arrogância da parte dos que se consideravam justos diante de Deus. Tem endereço certo. A concepção farisaica de justiça divina relacionava-se com o cumprimento das leis. O perdão dos pecados e a salvação estariam condicionados pela observância legalista. Essa segurança que o sistema religioso lhe dava impedia o fariseu de entender e acolher a gratuidade do perdão e da salvação. Somente quem deve muito, isto é, quem tem consciência profunda de seus pecados conseguirá fazer a experiência do amor sem limites de Deus.
A mulher pecadora irrompe, sem pedir permissão, naquele ambiente fechado e excludente. Sua atitude faz abrir os olhos para enxergar a presença de Jesus, o Filho de Deus, que vem trazer o perdão e a paz sem atrelamento ao sistema legalista do Templo. Na pessoa e na proposta de Jesus, a mulher se sente contemplada. É acolhida como sua discípula; pode comungar da mesma mesa da Palavra e do Pão; pode fazer parte da mesma Igreja, o Corpo de Jesus.
Não é difícil perceber que a narrativa tem uma função de denúncia da exclusão de mulheres que, com muita probabilidade, está em processo na época da redação do evangelho, pelo final do primeiro século. O texto exerce também a função de atualização da proposta de Jesus, que inclui no seu seguimento tanto os homens – os Doze – como as mulheres: Maria Madalena, Joana, Susana e várias outras. Diz delas o que não diz dos Doze: serviam a Jesus com seus bens (cf. 8,1-3).
2º leitura (Gl. 2,16.19-21): A vida nova em Cristo
Paulo, com base em sua experiência pessoal, procura anunciar uma de suas descobertas mais profundas: a salvação não provém da observância da Lei, mas do amor gratuito de Deus. Ele sabe o que diz: foi fariseu praticante e, agora, após ser encontrado por Jesus, percebe as coisas de forma totalmente diferente. A cruz de Jesus, para Paulo, é a chave por excelência que permite abrir a mente e o coração para a verdadeira compreensão do desígnio divino. Está plenamente convencido de que as obras humanas, a circuncisão e o cumprimento das leis não garantem a salvação. Se assim fosse, Jesus Cristo teria morrido inutilmente. Se ainda depositamos nossa confiança no poder dos ritos e normas como condicionantes de salvação, então não precisamos de Jesus Cristo.
Mas não! Jesus veio e nos amou de tal maneira que entregou sua vida por nós. Portanto, na cruz de Jesus, encontra-se o segredo da justificação. Somos todos pecadores! Na cruz de Jesus podemos morrer também nós para tudo o que impede o acolhimento da gratuidade do amor de Deus. Nesta entrega confiante pela fé reside a verdadeira justiça que nos faz viver como novas criaturas. A vida iluminada pela fé no Filho de Deus, que morreu por nós, torna-nos verdadeiramente livres.
Pistas para reflexão
O tempo em que vivemos prima pela superficialidade das relações entre nós e com Deus. Paramos e meditamos muito pouco. Damos pouca atenção à palavra de Deus. Rezamos apressadamente. Priorizamos celebrações triunfalistas. Vivemos dispersos e não encontramos o essencial.
São Paulo descobriu que somente Deus nos realiza profundamente. Somente sua graça nos transforma. Ela nos foi dada plenamente na morte de Jesus. A cruz tornou-se a chave para entendermos o amor infinito de Deus. Nele podemos apostar com toda a confiança, entregando-lhe a nossa vida inteira. Jesus é nosso mestre. A seus pés nos lançamos com tudo o que somos e temos, como fez a mulher pecadora na casa do fariseu. Como seus discípulos missionários, assumimos sua cruz como caminho de vida nova.
A misericórdia divina, se permitirmos, pode penetrar o mais profundo do nosso ser e nos transformar em criaturas novas. Se, no passado, cometemos muitas e graves faltas, podemos, no presente, acolher o perdão de Deus e entrar numa nova dinâmica de vida. O rei Davi é um exemplo nesse sentido. Necessitamos radicalmente do perdão que nos liberta e nos devolve a integridade. Uma pessoa reconciliada com Deus sente-se inteira e feliz. Sente-se fortalecida para irradiar esse amor, exercitando o perdão sincero e profundo a partir de si mesma e de sua casa.
– Podem-se incentivar os gestos de perdão e reconciliação entre o casal, pais e filhos, vizinhos, Igrejas, religiões, povos... Pode-se também valorizar o sacramento da penitência e da reconciliação e oferecer momentos celebrativos especiais para a sua administração...
Celso Loraschi
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As delicadezas do coração de uma mulher arrependida
Jesus impressionou a muitos que o ouviam. Havia, certamente os que o observavam à distância e nada mais. Outros queriam vê-lo mais de perto, espreitar suas reações ao que lhe era dito. Lucas nos fala de um fariseu que convidou Jesus para uma refeição.
Certamente tudo tinha sido cuidadosamente preparado. O encontro era para “funcionar” bem. Uma pessoa estranha ao círculo do fariseu, sabendo que Jesus estaria naquela casa, para lá se dirigiu. Tratava-se de uma mulher conhecida na cidade como quem levava um vida má, indecente.  Ela veio preparada para homenagear esse Jesus do qual queria mais uma vez se acercar. Mas sobretudo  dizer de sua gratidão através do presente de um perfume. Afinal de contas ele tinha tocado profundamente seu interior.
Para esse encontro ela havia trazido um frasco de alabastro com perfume; molhava os pés de Jesus com suas lágrimas e enxugava-os com os cabelos, cobria de beijos e os ungia com perfume.    E o fariseu observava a tudo. A partir do fato ficou convencido de que esse homem  não podia ser um profeta. Se o fosse ele saberia quem era aquela mulher…uma perdida. Lá estava acolhendo com agrado aquelas homenagens que se situavam no limite da decência.
Jesus chamou, então, o fariseu num canto  e tentou esclarecer  as coisas. Tratava-se de uma pobre criatura que precisava refazer sua vida…uma devedora de milhões que precisava ser perdoada para que sua vida fosse uma vida de verdade.  Os justos não precisam ver suas contas de dividas rasgadas… E nesse momento  Jesus fala das delicadeza do coração da mulher arrependida.  Ao lado do fariseu,  Jesus aponta para a mulher:  “Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa não tiveste a delicadeza de me oferecer água para lavar as mãos. Ela banhou meus pés com as lágrimas do carinho e do arrependimento e os enxugou com seus cabelos… Por que queres ver malícia e maldade onde existe  delicadeza e gratidão. Tu foste seco comigo…não me deste o beijo de saudação e ela… bem viste o que fez…Não me deste óleo perfumado e ela   ungiu meus pés…Por isso, com tanta delicadeza e coração  ela merece ser perdoada, mesmo que sua dívida seja enorme.  Mostra muito amor a quem se perdoa largamente”.
Jesus se se volta para a mulher e declara seus pecados perdoados.  “Tua fé te salvou… vai em paz…”. Belo desfecho!
frei Almir Ribeiro Guimarães
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O amor da pecadora e o perdão de seu pecado
Ao ler o evangelho de hoje, a gente se pergunta o que foi primeiro: o amor ou o perdão. Jesus diz: “Têm-lhe sido perdoados seus muitos pecados, porque muito amou”, e: “Têm sido perdoados teus pecados … tua fé te salvou” (Lc. 7,47-50). Será que os pecados foram perdoados porque mostrou muito amor, ou o contrário? A narração não permite distinguir claramente, mas também não importa, pois o mistério do perdão é que se trata de um encontro entre o homem contrito e Deus que deseja reconciliação. A contrição é o amor que busca perdão e o perdão é a resposta de Deus a este amor. A contrição é o amor do pecador, que se encontra com o amor de Deus, que é: perdão.
Jesus ilustra este mistério com uma dessas parábolas chocantes bem ao gosto de Lc: dois devedores, um com pouca e outro com muita dívida, são absolvidos. Quem é que gostará mais do homem que os absolveu? Quem tinha a dívida maior. É o caso desta meretriz, que lhe demonstrou efusivamente gestos de carinho e afeição. Mas o outro está aí também: o anfitrião de Jesus, que demonstrou pouco calor na acolhida de seu hóspede. Será que ele tinha poucas dívidas, portanto, recebeu pouco perdão e por isso só pôde amar um pouquinho? Então, seria bom “pecar firmemente e amar mais firmemente ainda”? A realidade talvez seja diferente. Pode ser que alguém não reconhece quanta dívida tem e, por isso, recebe pouca absolvição e mostra pouco amor. Já começa por aí: porque tem pouco amor, não é capaz de reconhecer a grande dívida que tem para com Deus, pois não percebe quão pouco ele corresponde ao amor infinito…
Medido com o critério de Deus, ninguém é justo. Todos são pecadores. Porém, os que fazem pecados “notáveis” tomam mais facilmente consciência de sua pecaminosidade. É o caso da meretriz, no evangelho, e de Davi, na 1ª leitura. Os que fazem pecados mais difíceis de avaliar e acusar, como sejam o orgulho, a auto-suficiência, a inveja e coisas assim, mais dificilmente são lembrados de sua injustiça. Talvez observem perfeitamente as regras do bom comportamento. Os judaizantes da 2ª leitura, que querem impor aos pobres pagãos da Galácia as “obras da Lei” como meio de salvação, transformariam os gálatas em seres auto-suficientes iguais a si. “Não, diz Paulo, isso não posso permitir. Se fossem estas obras da Lei que salvassem, Jesus não precisava ter morrido” (Gl. 2,2l).
Quem nos livra de nossa dívida é Deus. Só ele, que criou nossa vida, é capaz de restaurá-la na sua integridade. Quando perdoa pecados, Jesus revela que Deus está com ele (o que os comensais perceberam: Lc 7,49). Pedir perdão é dar a Deus uma chance para refazer em nós a obra de seu amor criador. Mas quem pouco o ama, não lhe dá essa chance …
A liturgia de hoje nos ensina outra coisa ainda. Davi foi lembrado de seu pecado por um porta-voz de Deus, o profeta Natã. Quando Natã lhe conta uma história bem semelhante à sua própria, Davi exclama: “Tal homem deve morrer” (2Sm. 12,5; seria bom incluir na 1ª  leitura o trecho imediatamente anterior, a parábola de Natã). Mas para que reconheça seu próprio caso, é preciso que Natã lhe diga: “Esse homem és tu!” Nós temos em nós mesmos um porta-voz de Deus, que nos diz: “Esse homem és tu!”: nossa consciência. É preciso escutá-la. Então saberemos quão pouco correspondemos ao amor de Deus que fundou nossa via e a dos nossos irmãos. Então também entrarão em ação o amor do pecador, que se chama “contrição”, e o amor de Deus, que se chama “perdão”.
O salmo responsorial, Sl. 32[3l], medita essa realidade. Ter seu pecado a descoberto diante de Deus e dos homens e apesar disso ser acolhido no amor de Deus e da comunidade é a maior felicidade (e a razão fundamental por que existe o sacramento da penitência).
Segundo a oração do dia, nada podemos sem a graça de Deus. Por isso, pedimos essa graça, para em nossos projetos e sua execução estarmos de acordo com o que Deus ama.
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Ao longo das histórias bíblicas, podemos perceber que, oferecer água a um convidado para que este lave os pés, era um sinal de hospitalidade. No livro do Gênesis, o versículo 4 do Capítulo 18, por exemplo, descreve Abraão recebendo desta forma três visitantes.
O evangelho de hoje coloca Jesus diante de um fariseu e de uma pecadora. O fariseu (palavra que significa separado), de nome Simão, era uma pessoa influente na cidade e adquiriu estatus de piedoso e cumpridor das leis. Em circunstâncias normais, ele jamais receberia uma prostituta em sua casa, pois ela era uma pessoa impura, e portanto, uma hóspede indesejada. O hóspede desejado era Jesus, e Simão ao recebê-Lo, por esquecimento ou pretensão, não segue as tradições orientais de boas vindas. Porém, ao ver uma mulher considerada de má fama por seus pecados entrar, lavar os pés de Jesus com suas lágrimas, secar com seus cabelos e perfumá-los como uma forma de arrependimento de seus erros, Simão faz um julgamento preconceituoso, imaginando que, sendo um profeta, Jesus devia saber estar diante de uma pecadora e que, ao deixar-se tocar por ela conforme as tradições, isso O deixaria impuro.
Jesus, ao perceber a indignação de seu anfitrião, conta-lhe uma parábola que o faz comparar suas atitudes com as da pecadora, para que perceba que, toda falha por maior que seja é digna de perdão e, quanto maior o perdão, maior a gratidão.
É difícil definir se o grande amor e o verdadeiro arrependimento daquela mulher fizeram com que Jesus perdoasse seus pecados, ou se o perdão dado a ela por Jesus fez com que ela se arrependesse e O amasse verdadeiramente.
Por viver segundo as leis da época, o fariseu considera-se livre de pecado e, por isso, sem necessidade de perdão, o que lhe torna arrogante e preconceituoso. Ele se julga piedoso, mas sua piedade não condiz com a proposta de Jesus, pois ele acredita não precisar do perdão de Deus.
Na sociedade de hoje pode-se encontrar ainda muitos “fariseus”, pessoas que querem mostrar à sociedade uma conduta considerada correta, mas que não percebem o quanto são hipócritas ao esconder seus erros e apontar os erros dos outros. Não é preciso cometer grandes erros para obter um grande perdão e, sim, reconhecer-se pecador procurando o perdão e amando ao próximo sem julgar seus erros, pois este é o caminho para encontrar a misericórdia de Deus e o perdão de seus pecados.
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Quem amou mais?
O contraste entre o comportamento do fariseu Simão e o da pecadora anônima ficou evidenciado na censura de Jesus. Durante um banquete em que este homem convidara o Mestre para uma refeição, fez um julgamento errado a respeito dessa mulher. Seguro de sua santidade, o fariseu olhou com desprezo para a pecadora que se pusera a lavar os pés do hóspede Jesus, com suas lágrimas, e a enxugá-los com seus cabelos, beijá-los e ungi-los com óleo perfumado.
O mau juízo de Simão atingiu também a pessoa de Jesus. Se fosse um profeta verdadeiro, saberia que se tratava de uma mulher de má-fama, e recusaria deixar-se tocar por ela. A conivência com o gesto da mulher nivelava-o com ela. Conclusão: Jesus não podia ser o Messias verdadeiro.
A reação do Mestre desmascarou o fariseu. Este, além de pensar mal da mulher e de Jesus, não se comportara como exigiam os bons costumes: não ofereceu ao hóspede água para lavar os pés, nem lhe deu o ósculo de acolhida, como sinal de hospitalidade. Essa mulher, no entanto, fizera tudo isso, com o mais profundo amor e humildade. Enfim, sempre movida por amor, a mulher fizera o papel de verdadeira anfitriã. Ela, sim, havia aberto as portas de sua casa - o coração - para acolher Jesus, e tornou-se digna de participar da salvação oferecida pelo Messias Jesus. O fariseu, porém, ficou de fora!
padre Jaldemir Vitório
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Uma mulher pecadora vai procurar Jesus. Ela não o encontra por acaso. Ela vai até onde Ele está. E não vai de qualquer jeito. Ela se prepara e sabe por que está indo, por isso leva consigo um vaso de perfume. Ela tinha uma intenção concreta e sabia por que estava levando um vaso de perfume.
Jesus estava na casa de um fariseu chamado Simão, pois havia sido convidado para uma refeição. O fariseu o convidou, mas, de fato, não o acolheu. O costume mandava que se oferecesse ao convidado água para lavar os pés, óleo para perfumar os cabelos e que fosse recebido com um beijo de saudação.
O fariseu não fez nada disso para Jesus. Por que então o convidou, se não o recebeu como devia ter feito? Jesus reclamará dizendo claramente a Simão o que ele não fez, mas não reclama só por reclamar, exigindo alguma coisa para si, mostrando-se ofendido pela atitude de Simão. Nada disso. Jesus é capaz de entender por que Simão procedeu dessa maneira, mas aproveita a ocasião para mostrar a todos quem naquela casa o estava acolhendo de verdade, quem, no meio de todos os convidados, era a pessoa que merecia um destaque.
Na casa de Simão estava alguém que não tinha sido convidado, que entrou por decisão própria, porque queria se encontrar com Jesus. Era uma mulher, que nem nome tinha nessa história.
A mulher anônima não tinha sido convidada e, no entanto, fez todos os gestos de acolhida para Jesus. Os convidados estavam reclinados num tipo de divã.
Quem entrasse no local tinha diante de si, num primeiro nível, os pés dos que estavam reclinados. A mulher que se aproxima vai de encontro aos pés de Jesus e os molha com suas lágrimas e os unge com o óleo perfumado. Ela sabe por que está fazendo isso. Suas lágrimas o dizem. Se na sociedade em que vivia ela só era útil se não aparecesse nem se desse a conhecer, junto de Jesus ela era alguém com novas possibilidades de vida. Jesus perdoa seus pecados e a envia em paz. Era tudo o que ela buscava. Ela não teve receio de mostrar publicamente que sabia amar, assim como Jesus não teve receio de mostrar a todos que podia se relacionar abertamente com aquela mulher.
Não foi assim com Simão, o fariseu dono da casa. Ele sabia quem era aquela mulher, mas não quis se revelar. Apenas pensou, não falou, não se expressou. Onde foi que Simão conheceu a mulher anônima? Por que não fez como Jesus e se relacionou publicamente com ela? Isso teria prejudicado sua boa fama? Aquela mulher era muito interessante, desde que não aparecesse. Aparecendo, tornava-se um perigo. Era melhor mantê-la oculta.
Jesus ao contrário conversa com a mulher abertamente, valoriza-a, renova suas esperanças, dá-lhe novo alento, anima-a a continuar vivendo e a buscar uma vida nova. Ao mencionar algumas mulheres que colaboravam com os apóstolos na obra da evangelização, o autor sagrado nos mostra como todos, homens e mulheres, podemos ser diferentes, mudar nossas atitudes, recomeçar a vida e seguir adiante. Ninguém será sempre necessariamente aquilo que é neste momento. Se lhe forem dadas oportunidades e meios, e a pessoa quiser, seja ela quem for, terá sempre chance de se renovar.
cônego Celso Pedro da Silva
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A identidade de Jesus, profeta
O texto do evangelho está situado na primeira parte do evangelho segundo Lucas, onde a questão é a identidade de Jesus. Especificamente, nesta parte de ele ser profeta. Jesus é convidado para um jantar na casa de um fariseu de nome Simão. Uma pecadora da cidade entra na casa e lava os pés de Jesus com as suas lágrimas, enxuga-os com seus cabelos e os unge com perfume (vv. 37-38). Aqui em nosso texto, esta sua identidade de profeta é posta em questão pelos fariseus: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é a mulher que está tocando nele: é uma pecadora!” (v. 39). O que significam os gestos da mulher? Quem perdoa os pecados, Jesus ou Deus?
Nos vv. 41-42, Jesus, para responder à objeção do fariseu, conta uma parábola que não se aplica adequadamente ao contexto imediato. A parábola visa ressaltar a gratuidade do credor – é ele quem perdoa, não importa qual seja a dívida. No v. 47, lemos: “Teus pecados estão perdoados”. O passivo divino empregado indica que é Deus quem perdoa, e Jesus é quem anuncia este perdão. Deus perdoou a mulher por sua fé em Jesus. Os gestos da mulher não são simplesmente um sinal de arrependimento, mas profunda fé naquele para quem ela oferece tais gestos. Ela crê em Jesus, o médico, que chama os pecadores à conversão (cf. 5,31-32). Isto não significa que o perdão é devido à fé, mas que a fé é necessária para acolher o dom do perdão. A fé purifica. A resposta à gratuidade do perdão recebido será o amor por Jesus, expresso no seguimento e na ajuda dada a Jesus e seus discípulos (cf. 8,1-3).
Carlos Alberto Contieri,sj
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A liturgia deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador; por isso, Ele multiplica “a fundo perdido” a oferta da salvação. Da descoberta de um Deus assim, brota o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrados na sua família.
A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia.
Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena.
O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim.
1º leitura: 2Sm. 12,7-10.13 - AMBIENTE
O “Livro de Samuel” (dividido em duas partes) é um livro que nos apresenta os primórdios da monarquia, em Israel. Não é, contudo, um livro escrito por políticos, por historiadores ou por sociólogos; é um livro escrito por teólogos, empenhados em fazer catequese e em ler a história passada à luz da fé. Não lhes interessa demasiado que a sua perspectiva seja uma leitura rigidamente objetiva dos acontecimentos; interessa-lhes, sobretudo, que a sua leitura ajude os crentes a tirar conclusões acerca de Deus e da forma de Deus atuar.
O texto que hoje nos é proposto faz parte de um conjunto de tradições sobre o reinado de David (cf. 2Sm. 7-20). Depois de descrever o pecado de David (que cometeu adultério com Betsabé e mandou que o marido desta – Urias, soldado do exército de David – fosse colocado num lugar arriscado, no combate contra os amonitas, a fim de que corresse riscos e morresse – cf. 2Sm. 11,1-27), o autor deuteronomista apresenta – pela voz do profeta Nathan – a reação de Deus diante do pecado do rei. Estamos em Jerusalém – nesta altura, capital do Israel unificado – nos primeiros anos do séc. X a.C.
MENSAGEM
Deus poderá pactuar com esta atitude egoísta e prepotente do rei? De forma nenhuma. Pela boca do profeta Nathan, o autor deuteronomista anuncia que Deus não fica indiferente diante da injustiça cometida e que pede contas ao agressor. Daí os castigos anunciados contra David e a sua casa.
O autor deuteronomista escreve muitos anos depois destes acontecimentos. Ele conhecia uma série de desgraças que, entretanto, se tinham abatido sobre a família de David (morte violenta de três filhos de David: Amon – cf. 2 Sm. 13,23-39; Absalão – cf. 2 Sm. 18,9-15; e Adonias – cf. 1 Re. 2,24-25). Naturalmente, não foram castigos de Deus, mas acontecimentos históricos normais, típicos de uma época violenta, em que a luta pelo poder terminava, tantas vezes, em tragédias pessoais e familiares; mas esses acontecimentos foram lidos pelo teólogo como sinais claros de que Jahwéh não estava disposto a pactuar com as injustiças e as arbitrariedades cometidas pelo rei. A mensagem do nosso “catequista” é evidente: Deus não deixa passar em claro a atitude daqueles que se aproveitam do poder para fins egoístas e desfazem a vida dos irmãos.
A última palavra do texto é, no entanto, de esperança. Confrontado com o seu crime, David reconhece, com humildade, o seu comportamento errado e pede perdão; e Deus acaba por perdoar a sua falta. Desta forma, o deuteronomista resume a lógica de Deus, que condena o pecado, mas que não abandona o pecador. Assim, o nosso catequista está a enviar uma mensagem aos homens do seu tempo: apesar das nossas falhas, a misericórdia de Deus não nos abandona e dá-nos sempre a hipótese de recomeçar.
ATUALIZAÇÃO
A reflexão fundamental que este texto nos apresenta é à volta da “lógica” de Deus: Ele não pactua com o pecado, mas manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador. É esta a nossa “lógica” quando alguém nos magoa ou ofende?
O exercício do poder é, tantas vezes, uma forma de “levar a água ao seu moinho”. O nosso tempo é fértil em figuras que, para proteger os seus interesses pessoais ou os interesses dos seus partidos e ideologias, arrastam populações inteiras por caminhos de morte e de sofrimento. Que sentido é que isto faz? Nós cristãos, filhos de um Deus que não suporta o egoísmo e a injustiça, podemos pactuar com estas situações? Podemos, tranquilamente, votar naqueles que cometem injustiças gritantes? A atitude de David, ao reconhecer humildemente a sua falta, é uma atitude que nos questiona pela sua sinceridade, honestidade e coerência. Contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos “assassinos do volante”, que nunca têm culpa de nada; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos cinzentos gestores das sociedades anónimas, que provocam catástrofes ambientais e não têm culpa; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos governantes que deixam ruir pontes e morrer pessoas, mas nunca têm qualquer culpa… O exemplo de David convida-nos a assumir, com coerência, as nossas responsabilidades e a ter vontade de remediar as nossas ações erradas; convida-nos, também, ao arrependimento e à conversão – condições essenciais para que o pecado desapareça das nossas vidas.
2º leitura: Gl. 2,16.19-21 - AMBIENTE
As comunidades cristãs da Galácia (centro da Ásia Menor) conheceram, pelos anos 56/57, um ambiente de alguma instabilidade. A culpa era de certos pregadores cristãos de origem judaica que, chegados à zona, procuravam impor aos gálatas a prática da Lei de Moisés (cf. Gal. 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gal. 2,3-4; 5,2; 6,12). São, ainda, esses “judaizantes” que, nas primeiras décadas do cristianismo, tanta confusão trouxeram às comunidades cristãs de origem pagã.
Paulo não está disposto a pactuar com estas exigências. Para ele, esta questão não é secundária, mas algo que toca no essencial da fé: se as obras da Lei são fundamentais, é porque Cristo, por si só, não pode salvar. Isto será verdadeiro? Quanto a esta questão, Paulo tem ideias claras: Cristo basta; a Lei de Moisés não é importante para a salvação.
É neste ambiente que Paulo escreve aos gálatas. Diz-lhes que os ritos judaizantes apenas os prenderão numa escravatura da qual Cristo já os tinha libertado. O tom geral da carta é firme e veemente: era o essencial da fé que estava em causa.
Depois de analisar a situação (cf. Gal. 1,6-10), de dizer que tem um mandato de Cristo para anunciar o Evangelho aos pagãos (cf. Gal. 1,11-24) e de se defender da acusação de pregar um evangelho próprio, diferente do pregado pelos outros apóstolos (cf. Gal 2,1-10), Paulo vai anunciar o “seu” Evangelho (que é o Evangelho da Igreja, o mesmo que é anunciado pelos outros apóstolos): não é a Lei e as obras que salvam, mas a fé.
MENSAGEM
Neste texto que nos é proposto, Paulo apresenta uma espécie de síntese daquilo que ele considera o autêntico Evangelho.
Na primeira parte (vs. 16), Paulo sustenta que a salvação vem, única e exclusivamente, por Cristo. É por Cristo que somos “justificados” e não pelas obras da Lei. “Justificação” é, aqui, sinônimo de “salvação”. Significa que a “justiça de Deus” (que não é a estrita aplicação das leis, como no tribunal, mas é a fidelidade de Deus aos compromissos que Ele assumiu para com o seu Povo, no sentido de salvá-lo) derrama gratuitamente sobre o homem o amor e a misericórdia, mesmo quando o homem pecador não merece. Ora, Deus “salva” o homem pecador, não por ele cumprir a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus (“crer” significa aderir a Ele, seguil’O).
Na segunda parte (vs. 19-21), a reflexão de Paulo gira à volta da ação de Cristo e da ação da Lei, no sentido de “salvar” o homem. A Lei salva? Não. Ao crucificar Jesus, a Lei demonstrou que não gerava vida, mas morte; desqualificou-se, assim, e demonstrou a sua falência no sentido de conduzir à vida plena o homem que estava sob a sua jurisdição. Depois de ser responsável pela morte de Cristo, a Lei não terá qualquer legitimidade para se impor e já não será vista por ninguém como geradora de vida.
Cristo, por seu lado, com a sua vida e, sobretudo, com a sua morte (provocada pela Lei) mostrou a todos a falência da Lei e libertou os homens de um regime que apenas criava escravatura e morte.
Quanto a si, Paulo identifica-se plenamente com Cristo. Sendo um com Cristo, Paulo também foi crucificado pela Lei e descobriu, com Cristo, que a Lei não gerava vida, mas morte. Assim, ele aprendeu que só Cristo dá vida e que só Cristo liberta. É na identificação com esse Cristo do amor e da entrega total (“que me amou e Se entregou por mim”) e não na Lei, que Paulo descobre a vida plena, a vida do Homem Novo.
Conclusão: a Lei gera morte; só Cristo salva. Esta é a convicção profunda que Paulo procura passar aos gálatas.
ATUALIZAÇÃO
O texto põe em relevo, em primeiro lugar, a atitude de Deus para com o homem. O nosso Deus não é o Deus que aplica rigorosamente as leis (nesse caso o homem pecador não teria acesso à salvação), mas é o Deus que, de forma gratuita, “justifica” o homem. O acesso à vida em plenitude não é uma conquista humana, mas um dom gratuito, que brota da bondade de Deus. De Deus não podemos exigir nada, mesmo que nos tenhamos “portado bem” e cumprido as regras: de Deus, podemos apenas esperar a graça da salvação como dom gratuito e incondicional. Isto retira-nos qualquer legitimidade para assumir atitudes de arrogância e auto-suficiência, quer em relação a Deus, quer em relação aos nossos irmãos.
É preciso ter consciência de que “Cristo basta”. Muitas vezes a nossa caminhada religiosa alicerça-se em aspectos folclóricos, que são absolutizados e considerados essenciais. Inventamos comportamentos “religiosamente corretos” e procuramos impô-los, discutimos leis, magoamos as pessoas por causa de preceitos legais, marginalizamos e catalogamos por causa dos princípios de um código legal e esquecemos que Cristo é o único essencial. A comunidade cristã deixa de ser verdadeiramente a comunidade dos que aderem a Cristo. Que sentido é que isto faz, à luz da catequese de Paulo?
Paulo chama, ainda, a atenção para a nossa identificação com Cristo. O cristão é aquele que se identifica com Cristo no seu amor e na sua entrega e que, nesse caminho, encontra a verdadeira vida, a vida em plenitude. É esse o caminho que eu procuro seguir? A minha vida desenrola-se de tal forma que eu posso dizer – como Paulo – “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”? A vida de Cristo circula em mim e aparece, aos olhos dos meus irmãos, nos meus gestos, nas minhas palavras, no meu amor?
Evangelho: Lc. 7,36 – 8,3 - AMBIENTE
O texto situa-nos na primeira parte do Evangelho segundo Lucas. Convém recordar que esta primeira parte se desenrola na Galileia, sobretudo à volta do lago de Tiberíades. Durante essa fase, Jesus vai concretizando o seu programa: trazer aos homens – sobretudo aos pobres e marginalizados – a liberdade e a salvação de Deus. Toda esta primeira parte é, aliás, dominada pelo anúncio programático da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e mandar em liberdade os oprimidos” (cf. Lc. 4,16-30). Este episódio põe em evidência um tema caro a Lucas: a misericórdia de Jesus frente àqueles que necessitam de libertação. O episódio anterior terminou com uma descrição de Jesus como amigo dos pecadores (cf. Lc. 7,34); agora, este princípio vai ser ilustrado com um fato real.
O episódio situa-nos no ambiente de um banquete, em casa de um fariseu chamado Simão (o “banquete” é, neste contexto, o espaço da familiaridade, da irmandade, onde os laços entre as pessoas se estabelecem e se consolidam). Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até aceitam sentar-se à mesa com Ele (cf. Lc. 11,37;14,1) e preveni-l’O em relação à ameaça de Herodes (cf. Lc. 13,31). Lucas está, no que diz respeito a esta questão, bem mais perto da realidade histórica do que Marcos e, sobretudo, do que Mateus (que, influenciado pelas polemica da Igreja primitiva com os fariseus, apresenta sistematicamente os fariseus como adversários de Jesus).
MENSAGEM
A perspectiva fundamental deste episódio tem a ver com a definição da atitude de Jesus (e, portanto, de Deus) para com os pecadores.
A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.
A ação da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vs. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vs. 41-42), parece significar, não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.
A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contacto com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reação de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para os libertar, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.
O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O fato de o “mestre” se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem exceção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.
ATUALIZAÇÃO
Em primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar a sua família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.
A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente corretos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais?
A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.
Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades?
Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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“Teus pecados estão perdoados – tua fé te salvou. Vai em paz!”
A liturgia do 11º domingo do tempo comum, trilha o caminho do perdão e do amor. A primeira leitura tirada do segundo livro de Samuel capítulo 12 fala de Davi que reconhece seu pecado. O texto afirma que nenhum crime é maior que o perdão de Deus. Basta que as pessoas se arrependam e busquem com sinceridade se reconciliar com Deus e com os irmãos. Quem nunca foi perdoado dificilmente vai perdoar e quem nunca foi amado terá dificuldade em amar.
O texto do Evangelho (Lucas 7,36-8,3) relata que Jesus aceitou o convite de um conceituado fariseu para uma refeição em sua casa. Um imprevisto aconteceu: Uma mulher conhecida na cidade como pecadora (prostituta) se aproximou de Jesus, chorando muito começou a banhar-lhe os pés com as lágrimas e enxugava-os com seus cabelos ungindo-os com perfume. Então, Jesus disse à mulher: “Teus pecados estão perdoados – tua fé te salvou. Vai em paz!” Os fariseus murmuravam entre eles dizendo: “Como pode este homem perdoar pecados? Se este homem fosse realmente um profeta, saberia quem é a mulher que está tocando nele.” Conhecendo o pensamento maldoso dos fariseus que não se consideravam pecadores Jesus contou-lhes a parábola do credor que tinha dois devedores (Lucas 7) para ensinar que é a experiência de ser perdoado que leva ao amor. Por ficar numa atitude de julgamento o fariseu não é capaz de fazer a experiência do perdão e do amor de Deus.
Sabemos que Jesus veio com a missão de salvar a todos, para reconciliar com o Pai os pecadores, mas para que isso ocorra é necessário que o pecador reconheça a sua culpa e acolha a salvação. Muitas vezes procuramos nos esconder de nossas culpas e erros dificultando a ação de Deus. Esconder-se sobre normas legais e rituais como faziam os fariseus não é garantia de salvação. A fé sempre é necessária para acolher o perdão de Deus. Deus perdoa a mulher pecadora por sua fé em Jesus Cristo. Deus perdoa porque ama – nos amamos porque fomos perdoados. O Evangelho de hoje também é conhecido como o episódio da mulher pecadora perdoada. Estudiosos (teólogos) acreditam que a mulher pecadora agiu assim porque percebeu em Jesus a misericórdia do Deus-Amor que perdoa sempre.
Vimos que ao contrario dos fariseus Jesus não julgou, nem questionou sobre o passado daquela mulher, simplesmente valorizou seu gesto e desejo de receber o perdão de Deus. No episódio da mulher pecadora Jesus não só perdoou seus pecados, mas para a surpresa dos fariseus disse: “Tua fé te salvou. Vai em paz!”
Pedro Scherer
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O julgamento e o farisaísmo estão ainda bem presentes hoje. É mais fácil falar dos erros dos outros do que admitir os próprios limites. É também fácil se sentir como um não devedor por obedecer algumas prescrições, fazer certos ritos, frequentar certas celebrações.
O Senhor nos mostra que a justiça hipócrita daquele que deseja apedrejar, criticar e condenar a todo custo é bem diferente de seu amor gratuito. Jesus quebra os preconceitos da sociedade: não importa se uma mulher (ainda mais pecadora) não pode o tocar, não importam as aparências, mas o significado mais profundo de um pequeno gesto, o que os olhos desatentos não veem. Os olhos de Simão e do restante da plateia são de julgamento ao verem aquela cena inesperada e desconcertante.
A mulher do Evangelho era desprezada. Os pecadores eram impuros e deveriam ficar afastados para não contaminar. Ao verem uma mulher daquele gênero, os judeus cuspiam no chão. Como hoje também são considerados impuros os bêbados, os moradores de rua, os pedintes, as mulheres prostituídas... Ainda hoje, classificamos as pessoas, afastamo-nos de quem não convém. Mas aquela mulher pecadora experimentou o perdão... Suas lágrimas não foram de remorso, mas seu choro foi expressão de gratidão e de amor. A gratuidade de Deus não vê limites. Sempre há uma nova chance, uma nova oportunidade para experimentar a graça do perdão. A reconciliação não é um sentimentalismo, também não é uma culpa doentia que destrói o coração.
Constantemente podemos nos sentir em ruptura, fragmentados, sem comunhão com o Senhor. Há uma culpa positiva como desta adúltera e de Davi em sua experiência de assassinato. Este tipo de culpa leva a retomada da vida a partir da experiência da misericórdia. Há também uma culpa destrutiva, que não nos permite admitir que somos imperfeitos, levando-nos a nos frustrar quando não somos puros e imaculados. Isso porque queremos manter a imagem positiva de nós mesmos, desejamos comprar a benevolência de Deus a partir da nossa aparência de santidade. Esta falsa culpa não serve, não reconcilia por amor, mas por vaidade pessoal. Experimentar de modo positivo a misericórdia divina é decisivo para nos sabermos amados pelo Senhor.
Simão é o símbolo da justiça. Para ele, Deus perdoa e ama aqueles que são fiéis (justos), ou seja, cumpridores do preceito. Já a mulher pecadora é símbolo da gratuidade, da visão de um Deus que ama a todos e perdoa sempre, independente dos pecados. Ele só deseja a nossa abertura, o nosso coração agradecido e ciente da gratuidade. São Paulo nos deixa claro que a lei não liberta (2ª. Leitura). Não é o cumprimento de pequenas normas, mas o amor e a gratuidade de Deus que estão no coração das Escrituras. Não basta fazer tudo certinho e não experimentar o amor gratuito que procede de Deus. A fidelidade é fruto do amor e da misericórdia, não do medo de um Juiz severo que ávido por nos colocar no inferno, do temor destrutivo que separa a comunidade entre santos e pecadores. Se nosso seguimento carrega o medo, estamos longe de sermos cristãos.
“Ela muito amou!” “Ama e faze o que queres!” (santo Agostinho). Não serão os pecadinhos do dia a dia que nos levarão para o inferno. Não serve uma moral individualista e atomizada. O Pai de Jesus Cristo nos quer comprometidos com o seu Reino, com o testemunho, com um novo coração e com a nova mentalidade transformada por seu amor. Precisamos nos deixar tocar pelo amor misericordioso de Deus e procurar fazer o bem. O que construímos de bom neste mundo, por amor, ficará intacto, e é a razão de existirmos neste mundo.
“Ele é sempre mais que um convidado, se põe a mesa, nutrindo a vida; olha os corações e põe de lado toda aparência, cura a ferida! Ela muito amou, tem a minha paz, vai seguir caminho sem temor. Sabe quem eu sou e será capaz de espalhar na terra o meu amor!” (fr. Fabreti e Thomas Filho)
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Evangelho: Lc. 7, 36 – 8,3
1. Deus ama e, por isso, perdoa.
O episódio da pecadora perdoada (só se encontra em Lucas) sempre inquietou os estudiosos: os gestos da prostituta (v. 38) provocaram o perdão de Jesus ou são sinais de gratidão pelo perdão recebido? A maioria dos estudiosos crê que a pecadora agiu assim porque percebeu em Jesus a misericórdia do Deus que perdoa. De fato, o amor de Deus precede o amor humano. Deus ama e, por isso, perdoa. Nós, porque nos sentimos perdoados, respondemos com gestos de amor e gratidão.
2. Proclamar “o ano da graça do Senhor”.
De fato, o programa libertador de Jesus consiste, entre outras coisas, em proclamar “o ano da graça do Senhor” (cf. 4,19) para os pobres e marginalizados. Além disso, a misericórdia é a síntese do “sermão da planície” (6,20-49). Em Lucas 7,34 Jesus é acusado de ser comilão e beberrão, amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores. Em base a esses dados, podemos crer que a prostituta sentiu que algo de novo estava acontecendo em sua vida, por causa da prática de Jesus.
3. Veremos:
a. dois hóspedes estranhos – vv. 36-39
b. a gratidão que responde ao amor gratuito – vv. 40-50
c. os marginalizados participam do anúncio da Boa Nova do Reino de Deus – 8,1-3
a. dois hóspedes estranhos – vv. 36-39
4. Uma hóspede indesejada . O fariseu que convida Jesus para uma refeição é uma pessoa influente na cidade. Por ser fariseu (palavra que significa “separado”), adquiriu status de piedoso e cumpridor da Lei. Em circunstâncias normais, jamais teria admitido a presença de uma prostituta dentro do seu lar, pois ela é pessoa ritualmente impura. É, portanto, hóspede indesejada.
5. Dois hóspedes: um desejado e o outro, sequer tolerado ! O hóspede desejado é Jesus. Mas o fariseu se escandaliza pelo fato de o Mestre se deixar tocar, perfumar e beijar por quem fazia dessa “arte” seu ganha-pão. Para o fariseu, Jesus estaria aceitando o jogo perigoso da prostituta, entendendo os gestos dela como sedução declarada. Dois hóspedes haviam entrado em sua casa, cada qual com sua fama: um era o profeta, o outro, a prostituta. Ele convidado; ela, nem sequer, tolerada, mas “convidada”, pela prática de Jesus, a experimentar o amor do Pai.
b. a gratidão que responde ao amor gratuito – vv. 40-50
6. Um enigma!
Naquele tempo era costume, durante os banquetes, propor enigmas para distração dos convidados e das pessoas que, embora não fossem convidadas, apareciam para “apreciar” o grande acontecimento. Coisa de orientais e, da parte do fariseu, ostentação de poder. Jesus tomou a iniciativa, mostrando que está bem à vontade, e provoca a “piedade” de Simão com uma questão em forma de historieta (vv. 40-43). A conclusão é muito evidente, apesar da cautela (“acho que…”) do fariseu: aquele ao qual foi perdoado mais demonstrará maior gratidão.
7. Gestos de acolhida: quem acolheu?
O fariseu se descuidara dos principais gestos de acolhida: oferecer água para lavar os pés, o beijo de boas-vindas, o óleo derramado sobre a cabeça do hóspede (vv. 44-46). A prostituta fez tudo isso porque “acolheu” em sua vida aquele que manifesta a misericórdia de Deus e não discrimina as pessoas. O que ela está fazendo são gestos de gratidão pelo fato de Jesus ter-se solidarizado com os marginalizados e pecadores, convivendo com eles (cf. 7,34).
8. Acolher Jesus enquanto revelação da misericórdia de Deus.
Mas o pecado de Simão não consiste em ter esquecido as regras de bem acolher as pessoas. É mais grave.
8.1. Ele não é capaz de acolher Jesus enquanto revelação da misericórdia de Deus para com os marginalizados. Ele se julga “separado” e “piedoso”. Mas sua piedade não condiz com a proposta de Jesus. Crê não precisar do perdão de Deus. E por assim crer, não o obtém.
8.2. Por isso, a expressão: “a quem se perdoa pouco também mostra pouco amor” (v. 47b), soa desta forma: “quem não sente necessidade de ser perdoado, não é perdoado, e se torna exemplo clássico de ingratidão e fechamento ao amor de Deus”.
8.3. Nesse sentido, todos são, perante Deus, igualmente devedores de uma dívida impagável. Mas o que é impossível do ponto de vista humano, é possível por causa do amor gratuito de Deus. E a resposta das pessoas só pode ser a gratidão que responde ao amor gratuito.
9. Jesus… é quem perdoa nossos pecados!
A exclamação dos convidados revela quem é Jesus: “quem é este que até perdoa pecados?” (v. 49). Jesus é aquele que veio inaugurar o “ano da graça do Senhor” (4,19), e, a partir desse fato, todos são convidados. Os que se consideram “separados”, “justos” ou “piedosos” se auto-excluem da salvação e do perdão gratuitos de Deus (cf. parábola do fariseu e do publicano).
c. os marginalizados participam do anúncio da Boa Nova do Reino de Deus – 8,1-3
10. Uma nova sociedade a partir dos excluídos.
O início do capítulo 8 está ligado ao episódio que acabamos de ver.
10.1. A prostituta – à qual Jesus diz: “seus pecados estão perdoados… sua fé a salvou. Vá em paz!” (7,48.50) – é símbolo de todos os marginalizados que, com ele, constroem a nova sociedade.
10.2. Para a mentalidade da época (e quem sabe, para a nossa também), era escandaloso um mestre ser auxiliado por mulheres – e que tipo de mulheres! – no anúncio de suas propostas. A proposta de Jesus é a Boa Nova do Reino de Deus nas cidades e nos campos, ou seja, para todos (8,1). As mulheres que ajudam Jesus são pes-soas reintegradas em sua dignidade (“… haviam sido curadas de maus espíritos e doenças”, v. 2) e, sobretudo, mulheres nas quais Jesus descobriu grandes potencialidades em vista do Reino de Deus.
11. Partilha é a novidade . Ajudando a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam, essas mulheres revelam um dos pilares sobre os quais, segundo Lucas, o Reino se constrói: a partilha. De fato , o Jesus de Lucas valoriza muito a economia de sobrevivência presente nas aldeias, baseada na troca e na partilha. A esmola – muito cara a Lucas (cf. 11,41; 12,33) – não consiste em dar uns trocados a quem necessita; pelo contrário, é a partilha de tudo o que se é e se tem. E aí o Reino lança raízes.
1ª leitura: 2Sm. 12,7–10.13
12. A busca do ideal de justiça para todos. Antes de se tornar rei de Israel, Davi liderou um grupo de pessoas que passavam dificuldades, endividadas e descontentes com a política de Saul, primeiro monarca (cf. 1Sm. 22,2). Perseguindo sempre o ideal da justiça para todos, conseguiu unir ao redor de sua pessoa todas as tribos, consolidando assim o império e tornando-se rei sobre todo o Israel (2Sm. 5,3).
13. Tarefa principal: promover e preservar a justiça no país. Chefe guerreiro e suporte da justiça tornou-se também o chefe da linhagem messiânica: ele seria o ancestral do messias que deveria vir. Davi foi, ao longo de toda a história de Israel, o símbolo do rei que promoveu a justiça e a paz. De fato, as principais tarefas da autoridade política consistiam na defesa contra as agressões externas (e para tanto o rei devia sair à guerra contra os inimigos do povo) e na promoção e preservação da justiça dentro do país.
14. Uso do poder em benefício próprio. Depois que consolidou o império, Davi deixou que o poder lhe fizesse a cabeça. Em 2Sm. 11 se diz que ele não mais vai à guerra para defender o povo, mas fica em casa gozando as mordomias do poder. E o que acontece quando uma autoridade deixa de lado os interesses do povo? Fatalmente essa pessoa usará o poder em proveito próprio. Foi o que aconteceu com Davi. Em vez de ir à guerra para defender o povo, serve-se dele. Torna-se adúltero, violento, hipócrita e assassino (cf. 2Sm 11).
15. “Esse homem merece a morte!”…
“Você é esse homem!” Nosso texto faz parte dos acontecimentos posteriores ao adultério de Davi, sua hipocrisia e abuso do poder, matando Urias para lhe roubar a esposa. O profeta Natã conta ao rei uma estorinha comovente. Este, sentindo-se responsável pela manutenção da justiça no país e pensando que o transgressor seja outra pessoa, dá a sentença: “Esse homem merece a morte!” Dada a sentença, o profeta revela quem é o réu: “você é esse homem!” (cf. 12,7).
16. As injustiças cometidas contra as pessoas são crimes contra Deus.
Por que Davi é réu de morte? Porque pagou com a injustiça os favores de Deus. Os versículos 7-8 enumeram cinco desses favores: “eu te ungi rei de Israel, eu te salvei das mãos de Saul, eu te dei a casa do teu senhor, eu coloquei suas mulheres em teus braços, eu te dei a casa de Israel e de Judá, e se isso te parece pouco, vou acrescentar outros favores”.
16.1. As injustiças cometidas contra as pessoas são crimes contra Deus, pois ele é o defensor dos fracos e das vítimas dos abusos do poder.
16.2. Davi reconhece que, adulterando com a mulher de Urias, tentando hipócritamente esconder o fato, e, por fim, mandando matar Urias, pecou contra o Deus de Israel, que é o Deus da justiça. E Deus, por meio de seus profetas, vai à raiz da injustiça, desmascarando o mandante do crime, e não tanto seus executores.
17. A violência se volta contra o violento ! Quais as consequências da ganância de Davi? “Tu feriste com a espada Urias, o hitita… por isso, a espada nunca mais se afastará da tua casa” (vv. 9-10). A ganância de Davi levou três de seus filhos à morte violenta: Amnon, Absalão e Adonias. Os três foram violentos e abusaram do poder. Desse modo o trecho de hoje mostra que, cedo ou tarde, a violência se volta contra o violento.
18. O perdão de Deus é sempre maior… basta que as pessoas se arrependam.
A palavra profética desnuda a arrogância do poder que explora e mata o povo. Davi reconhece seu pecado: “Pequei contra o Senhor”. Deus, – que é proposta de salvação sempre aberta, – perdoa os que se arrependem, por maior que tenha sido seu pecado: “O Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!” (v. 13). Nenhum crime é maior que o perdão de Deus. Basta que as pessoas se arrependam.
2ª leitura: Gl. 2,16.19-21
19. Uma religião que “compra” a salvação. Na carta aos Gálatas Paulo não se cansa de combater um tipo de religião mercantilista, através da qual se pretende “comprar” a salvação. Essa era a religião pregada pelos judeu-cristãos. Mediante as boas ações (cumprimento da Lei) as pessoas acreditavam ter direitos sobre Deus. Trata-se, no fundo, de religião pervertida que inverte as relações ser humano-deus.
20. A religião verdadeira.
A prática de Jesus o demonstra muito bem: ele anunciou o amor gratuito e primeiro de Deus (evangelho), ao qual as pessoas respondem com a fé. A fé, portanto, é abrir-se ao amor gratuito do Pai, revelado em seu Filho único, que deu a vida como prova de amor.
21. O homem não é justificado pelas obras da Lei.
O tema central da carta aos gálatas é este: “O homem não é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo. Nós abraçamos a fé em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da Lei, porque ninguém será justificado pelas obras da Lei” (2,16).
22. Resposta amorosa ao amor primeiro de Deus.
Ao longo da carta, de forma polêmica, Paulo desenvolve esse tema. A religião autêntica começa pela fé no amor de Deus, e jamais deixa de ser resposta amorosa ao amor primeiro do Deus que chamou à vida por meio da morte e ressurreição de seu Filho.
23. Minhas garantias de salvação!
Os judeu-cristãos impunham a prática da Lei e a circuncisão como garantias de salvação. Ora, esse tipo de religião anula o evento central da nossa fé: o mistério pascal. Nós já fomos salvos, inocentados e perdoados de nossos pecados mediante a oferta de Cristo que nos amou e se entregou por nós (cf. v. 20). A fé nele é quem no-lo garante, não permitindo que, desejando obrigar Deus a nos salvar por causa de nossas boas ações, invalidemos a morte de Cristo (cf. v. 21).
24. Religião da Lei = compra da salvação pelas boas obras!
Paulo propõe ruptura radical com a religião da Lei, que procura comprar a salvação mediante as boas obras: “pela Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus” (v.19).
24.1. Ser cristão é estar em clima de contínua gratuidade pela salvação e perdão obtidos com a morte e ressurreição de Jesus.
24.2. O que vai além disso é mercantilismo (quando não se torna também simonia), falsa piedade, religião que coloca as pessoas acima de Deus e Deus a serviço delas. É a religião do fariseu (evangelho); ele se auto-exclui da salvação que Deus oferece gratuitamente, pois tenta ganhá-la por méritos próprios (se é que os tem!), ao invés de senti-la presente como graça.
25. “Jesus me amou e se entregou por mim”: esta é para Paulo a raiz da religião. A iniciativa de perdoar e salvar vem de Deus. A respostas das pessoas é a fé no ato de amor, mediante o qual Jesus deu sua vida. Mas não nos iludamos: não se trata de fé extática ou abstrata. Para Paulo, a fé em Jesus que amou e se entregou traz como consequência “estar crucificado com Cristo”, fazendo dele o centro da vida e ação: “Eu vivo, mas já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim!” (vv. 19b-20a).
Refletindo...
1. O mistério do perdão.
Ao ler o evangelho de hoje a gente se pergunta o que foi primeiro: o amor ou o perdão. Jesus diz: “tem lhe sido perdoados seus muitos pecados, porque muito amou!” e “tem sido perdoados seus pecados … tua fé te salvou” (Lc. 7,47-50). Será que os pecados foram perdoados
porque mostrou muito amor, … ou o contrário? A narração não permite distinguir claramente, mas também não importa, pois:
- o mistério do perdão é que se trata de um encontro entre o homem contrito e Deus que deseja a reconciliação.
- A contrição é o amor que busca perdão e o perdão é a resposta de Deus a este amor.
- A contrição é o amor do pecador, que se encontra com o amor de Deus que é perdão.
2. Pouco amor = pouco perdão ! Jesus ilustra este mistério com uma dessas parábolas chocantes bem ao gosto de Lucas: dois devedores, um com pouco e outro com muita dívida, ambos são absolvidos.
2.1. Quem é que gostará mais do homem que os absolveu? Quem tinha a dívida maior. É o caso desta meretriz, que lhe demonstrou efusivamente gestos de carinho e afeição.
2.2. Mas o outro está aí também: o anfitrião de Jesus, que demonstrou pouco calor na acolhida de seu hóspede. Será que ele tinha poucas dívidas, portanto, recebeu pouco perdão e por isso só pôde amar um pouquinho?
2.3. ENTÃO, seria bom “pecar” firmemente e amar mais firmemente ainda ?” A realidade talvez seja diferente. Pode ser que alguém não reconhece quanta dívida tem e, por isso, recebe pouca absolvição e mostra pouco amor. Já começa por aí: porque tem pouco amor, não é capaz de reconhecer a grande dívida que tem para com Deus, pois não percebe quão pouco ele corresponde ao amor infinito …
3. O critério de tudo é Deus e, não nós ! Medido com o critério de Deus, ninguém é justo. Todos são pecadores.
3.1. Porém, os que fazem “pecados notáveis” tomam – mais facilmente -consciência de sua pecaminosidade. É o caso da meretriz e de Davi.
3.2. Os que fazem “pecados mais difíceis” (diria melhor, “mais sutis”) de avaliar e acusar, como sejam o orgulho, a autossuficiência, a inveja e coisas assim, mais dificilmente são lembrados de sua injustiça. Talvez observem perfeitamente as regras do bom comportamento.
3.3. Os judaizantes da 2ª leitura, que querem impor aos pobres pagãos da Galácia as “obras da Lei” como meio de salvação, transformariam os gálatas em autossuficientes iguais a si. “NÃO, diz Paulo, isso não posso permitir. Se fossem estas obras da Lei que salvassem, Jesus não precisava ter morrido” (Gl 2,21).
4. Só quem criou é capaz de restaurar! Quem nos livra de nossa dívida é Deus. Só ele, – que criou nossa vida, – é capaz de restaurá-la na sua integridade. Quando perdoa pecados, Jesus revela que Deus está com ele (o que os comensais logo perceberam: Lc 7,49). Pedir perdão é dar a Deus uma chance para refazer em nós a obra de seu amor criador. Mas quem pouco o ama, não lhe dá essa chance …
5. Há sempre um profeta (porta-voz) de Deus dentro de nós! A liturgia de hoje nos ensina ainda outra coisa. Davi foi lembrado de seu pecado por um porta-voz de Deus, o profeta Natã. Quando Natã lhe conta uma história bem semelhante à sua própria, Davi exclama: “tal homem deve morrer! Mas para surpresa sua e para que reconheça seu próprio caso, é preciso que Natã lhe diga: “esse homem és tu!” Nós temos em nós mesmos um porta-voz de Deus  que nos diz: “esse homem és tu!”: nossa consciência. É preciso escutá-la. Então saberemos quão pouco correspondemos ao amor de Deus que fundou nossa vida e a dos nossos irmãos. Então também entrarão em ação o amor do pecador, que se chama “contrição”, e o amor de Deus que se chama “perdão”.
6. Ser acolhido no amor de Deus.
O salmo responsorial 32 medita essa realidade. Ter seu pecado a descoberto diante de Deus e dos homens e apesar disso ser acolhido no amor de Deus e da comunidade é a maior felicidade e a razão fundamental pela qual existe o sacramento da penitência. Feliz o homem que foi perdoado e cuja falta foi encoberta! Feliz o homem a quem o Senhor não olha mais como sendo culpado, e em cuja alma não há falsidade! Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: eu irei confessar meu pecado! E perdoastes, Senhor, a minha falta. Sois para mim proteção e refúgio; na minha angústia me haveis de salvar, e envolvereis a minha alma no gozo.
7. Tudo com a graça de Deus. Segundo a oração do dia, nada podemos sem a graça de Deus. Por isso, pedimos essa graça, para em nossos projetos e sua execução estarmos de acordo com o que Deus ama. Ó Deus – força daqueles que esperam em vós, - sede favorável ao nosso apelo e, – como nada podemos em nossa fraqueza, - dai-nos sempre o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme vossa vontade.
8. Quem Deus prefere!
Será que Deus se sente mais feliz com a fria irrepreensibilidade dos “bem comportadinhos” ou com a afetuosa efusão dos excluídos e pecadores? Aliás, os próprios “irrepreensíveis”, se sentem felizes?
9. Sempre há um mistério por trás das aparências.
Por isso, não julgue nunca. Jesus não tinha medo de pessoas mal-afamadas. Jesus até aceitou o carinho de uma prostituta. Enquanto estava, à maneira oriental, deitado à mesa na casa do fariseu Simão, chegou uma prostituta, regou-lhe os pés com suas lágrimas, secou-os com seus cabelos e perfumou-os com rico perfume, adquirido com o dinheiro do pecado. Escândalo para a “gente de bem”. Mas Jesus aponta o mistério profundo que está agindo por trás das aparências: a mulher mostrou tanto amor, porque encontrou tamanho perdão! Enquanto o fariseu não demonstrou nenhum carinho porque achava que nada tinha a ser perdoado … Enquanto o fariseu continua “na sua”, a pecadora encontra a salvação: “tua fé te salvou!”
10. Espécies diversas de fariseus.
Há muitas espécies de fariseus, de pessoas satisfeitas consigo mesmas. Há os fariseus clássicos, os bem “comportadinhos”, que se julgam melhores que os outros e acham que, – por força de sua virtude - eles tem méritos, direitos e até privilégios diante de Deus. Mas há também os que acham que sua sem-vergonhice descarada os torna mais honestos que os outros. Lá no fundo do templo, rezam assim: “eu te agradeço, Senhor, porque sou um humilde pecador, não como aquele orgulhoso fariseu lá na frente…”
11. Somos justificados pela fé.
De outro modo ensina-nos a mesma coisa a 2ª leitura. Somos justificados pela fé. Quem nos torna justos é Deus, não porque o merecemos, mas porque nos confiamos a ele na fé. Não é bom arvorar-se em juiz em causa própria, e muito menos em causa alheia…
11.1. Quem se julga justo e perfeito, que lhe pode acrescentar Deus? É melhor deixar-se declarar justo e sem culpa por Deus, mediante o seu perdão, e amá-lo de todo o coração.
11.2. Cumprir a lei (judaica ou outra) é bom, mas não me livra de minha culpa. Só Deus pode abolir minha culpa, pois todo pecado atinge finalmente a ele, nosso sumo bem. Ele aboliu a culpa demonstrando quanto ele nos ama: permitiu que seu Filho Jesus desse sua vida por nós. Este amor é maior que nossa culpa. Jesus o leva dentro de si. Jesus pode perdoar o mal que marcou nossa vida. Nós mesmos, não. Só nele nosso mal encontra perdão.
11.3. Quem assim, pela fé, se torna amigo de Deus, porque encontrou em Jesus o amor, não pode mais deixar de amar. Torna-se outra pessoa. A GRAÇA RECEBIDA DE GRAÇA não pode tornar-se um pretexto para continuar ecando. Só se entra na amizade de Deus pela fé e pelo amor.
12. Abrir-se em gratidão.
A lição de hoje é esta: são amigos de Deus (justos) aqueles que reconhecem diante de Deus sua dívida de amor e dele recebem a remissão. Então, abrir-se-ão em gestos de gratidão, semelhantes aos gestos da pecadora.
prof. Ângelo Vitório Zambon

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