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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 11 de junho de 2013

Comentário Prof.Fernando

Comentário Prof.Fernando(*) (4ºdom. pós-Pentecostes):
11º dom. do tempo Comum 16 junho 2013
– O BEM, OS BONS E OS MAUS –

Passarinho assassinado
·                  Há poucos dias Passarinho (mendigo e deficiente) foi assassinado. Tinha cerca de 70 anos e falava sozinho, trôpego, pelas ruas de meu bairro. Deu no jornal, dia 9: “morador de rua encontrado morto”. Reação em redes sociais: “noticia errada: ele levou ao menos um tiro antes de ser jogado de um barranco”.Andava lentamente, nem tinha condição de agredir ninguém. Às falava alto às portas de lanchonetes e era, por isso, agredido verbalmente. Não teve – como a prostituta que também está na história de hoje – quem o salvasse da humilhação. Ao contrário: alguém decidiu eliminá-lo das ruas. Dificilmente serão descobertos assassinos, até porque era um mendigo morador de rua, pobre e negro. O mendigo estava entre os marginais (que nos incomodam porque nos lembram sermos todos frágeis e mortais). Mataram-no talvez em nome da moral e dos bons costumes... Deixo o registro in memoriam (tive ocasião de defendê-lo, certa ocasião, de ser maltratado). Mas não consegui também fazer mais por resgatá-lo em sua dignidade. Preciso do perdão, como todos nós, incluídos naquela palavra: “eles não sabem o que fazem”.

O Perdão é compaixão de Deus. O amor é resposta a quem nos amou primeiro.
 O Tema próprio (Pr.6) neste 4ºpós-Pentecostes, ou 11º Comum, é a presença do Mistério de Deus em Jesus de Nazaré. Ele é vida e transformação da vida humana. É imediato, no evangelho de hoje, o tema do Perdão. Precisamos aprofundar a reflexão, porém, para situar esse tema no contexto total da Boa Notícia que o Mestre de Nazaré procura espalhar pelas aldeias e cidades em sua breve passagem pelo tempo-espaço que habitamos. Paulo assinala, em Gálatas 2, que a salvação humana não depende de normas, mas da Fé. Ela nos concede a própria vida (divina) em nosso mundo humano: justificados pela fé em Cristo e não pela prática da Lei. Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé (Gl 2,16.19-21).

Na parábola, o “credor que perdoa” é o mesmo “Pai” da história do Filho pródigo
·                 No evangelho o Mestre de Nazaré conta a parábola do credor de duas dívidas, uma pequena e outra muito maior para ressaltar o gesto da prostituta da cidade que demonstrava arrependimento com suas lágrimas e derramando perfume em seus pés (ao passo que o dono da casa não recebera como qualquer anfitrião deveria fazer, pelo costume de boa educação): Ela trouxe um frasco com perfume e ungia seus pés... Certo credor tinha dois devedores e perdoou os dois: qual dele o amará mais? E disse à mulher: Tua fé te salvou. Vai em paz. Lc 7,36-8,3 (alternativa:7,36-50; outras leituras alternativas também constam do Lecionário C.R): 1Rs 21:1-10(11-14) ou 2 Sm11:26-12:10,13-15 e, para o N.T. todos os versos em Gl2: 15 a 21. Repitamos: o tema central hoje não são as Dívidas. É a Vida. Que vem pela Fé. É a Paz. Que vem pelo Perdão (Amor).

Os personagens: a Vida contra as aparências
·                  Aquele profeta diferente, que veio de uma aldeia perdida da Galiléia, traz uma reviravolta aos conceitos e ao comportamento “social” habitual. O personagem central da cena não é a prostituta nem Simão, o fariseu. É o Mestre que ensina um novo modo de viver. Ao lado desse personagem central – (Gálatas o aponta como a fonte da Vida (já não sou eu que estou vivo mas ele vive em mim! ), estão os demais personagens. Ali está Simão, um fariseu,  com seus pensamentos de bom moço acreditando em sua superioridade social e moral. Ali está também uma prostituta. Sua posição nesse quadro é inversa: posição de humildade e aos pés daquele Rabino. Lembremos que esse é um gesto típico (na literatura antiga e bíblica) do desejo de aprender, “ser discípulo” e ouvir atentamente as palavras do Mestre. Ela passou a acreditar que ele vai transformar sua vida. Aquela mulher não tem nome, não é ninguém na sociedade. Sobrevive pela profissão de ganhar dinheiro e favores dos “homens de bem” da cidade. Eles parecem “superiores”: podem pagar e presentear porque – paradoxalmente – eles não têm o que todos mais querem: amor. Mas tratam a(s) mulher(es) como sua propriedade – como é normal nas sociedades patriarcais e machistas. São, como adolescentes simplórios, facilmente seduzidos pela figura da prostituta (perfume, modo de se pentear e se vestir). Hoje ela gasta o perfume para ungir e os cabelos para enxugar lágrimas. Sobre os pés do Mestre.

Captar (ou não) a Bondade (os sinais da “Presença”)
·                  Jesus, como de costume Anda na contramão da opinião corrente. Não segue os “dogmas” sociais. A prostituta percebeu a presença de Deus no meio do povo no olhar daquele homem que não condena. Ele acolhe, respeita e se compadece de todos, mas, principalmente dos desvalidos, desprezados, doentes, empobrecidos. Simão, age como diz Paulo hoje, aos Gálatas: vive sob a lei. Observe-se que a prostituta teve sua imagem colada – indevidamente – com a de outra mulher, que foi identificada como Maria de Mágdala, descrita no evangelho de João. A prostituta, porém, não tem nome. É símbolo de todos os anônimos e excluídos à margem da sociedade “de bem”. Faz parte do grupo desprotegido dos órfãos e das viúvas. Do grupo dos deficientes e mendigos. Dos leprosos afastados do convívio social. Prostitutas, como os “possessos”, também são “apropriadas” por outros (até sexualmente “possuídas”), quando tratadas como se abusa de crianças, se discrimina minorias, se faz tráfico de pessoas, ou se eliminam da cidade os moradores de rua.

Com qual personagem nos identificamos?
·                  Tendemos em geral a nos identificar com Simão, o seguidor da lei e dos bons costumes, como quem tem uma posição social respeitável. Não gostamos de pecados pois só gostamos de “boas maneiras”, à mesa ou na vida social. A questão que Jesus levanta, no entanto, não é sobre aquela mulher, nem um debate sobre prostituição e sexo (como insinuava Simão, pensando com seus botões). Ela vai deixar de ser uma “marginal”, por reconhecer a presença misteriosa de Deus em sua vida. Pela primeira vez, afinal, não foi tratada como objeto mas outro Sujeito capaz de tomar a defesa de sua dignidade. É bom repetir que precisamos corrigir uma visão corriqueira sobre este texto: o “núcleo” da mensagem da parábola não trata do “tamanho” ou “quantidade” dos pecados (dívidas). Jesus quer corrigir Simão fazendo contraste entre a percepção (diferente) da mulher e a do fariseu a respeito do Cristo. Simão não conseguiu ver quem era o Mestre. Mas (bem-aventurados os pobres porque o Reino é deles) em seu “vazio” a prostituta aceitou a Presença da Bondade. O contexto não indica que as lágrimas da mulher são – como ficou na expressão que a confundiu com Maria : lágrimas de uma “madalena arrependida”... Suas lágrimas são de emoção, de alegria e de gratidão. De algum modo ela foi capaz de perceber que o Mestre transformou sua vida. Os evangelhos não são relatos jornalísticos mas didáticos, visando um ensino espiritual para as comunidades cristãs. Também a Nicodemos (como aqui, a Simão, de outro modo) Jesus ensinava que é preciso “nascer de novo”. E redescobrir a vida.

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(*).Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) fesomor2@gmail.com

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