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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PEDRO e PAULO

MISSA DO DIA 30 DE JUNHO


PEDRO e PAULO

Comentário Prof.Fernando



Mateus 16, 13-19

PEDRO e PAULO - José Salviano


           

            Nesta festa de São Pedro e São Paulo queremos agradecer a Deus pela existência desses dois gigantes da nossa Igreja em seus primórdios, os quais, se empenharam na missão de continuar a essa obra salvadora  a qual foi  fundada Pelo próprio Cristo. Foram eles que numa doação sem igual na História, e cheios do Espírito Santo com muita fé e coragem, se dedicaram a evangelização que marcou o início da Igreja Católica. Continua



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SOLENIDADE PEDRO E PAULO 30/06/2013
1ª Leitura Atos 12, 1-11
Salmo 33(34),5 “Procurei o Senhor e ele me atendeu, livrou-me de todos os temores”
2ª Leitura 2Timóteo, 4-6-8.17-18
Evangelho Mateus 16, 13-19
As Colunas da Igreja... -Diac. José da Cruz
Festa de São Pedro e São Paulo, que celebramos nesse domingo, nos faz pensar na origem de nossas comunidades. Como tudo começou? Quando foi a primeira celebração, quem fez? Como é que a comunidade cresceu e se desenvolveu para chegar aos dias de hoje? Uma coisa é muito certa, o fundador ou fundadores, deve ter feito uma experiência muito profunda com Jesus Cristo, pois sem isso, a comunidade não teria um alicerce, alguém em quem apoiar-se para poder crescer e cumprir a sua missão.
Comecemos a falar primeiro de Paulo, cuja teologia, isso é, o modo como ele começou a pensar as coisas de Deus, depois do encontro com Jesus no caminho para Damasco, foi tão marcante na vida das comunidades, que esse apóstolo é mencionado como o segundo fundador da nossa Igreja. De fato, seria difícil pensarmos em uma igreja universal, presente no mundo inteiro, em outras culturas e nações, sem nos lembrar de Paulo, aquele que pregou aos gentios que eram pessoas de outra cultura. Paulo não ficou só na mística, se assim o fizesse, teria fundado uma outra religião e arrastaria milhares de adeptos, porém, sistematizou alguns pontos doutrinários importantes, organizou as comunidades que havia iniciado, e o mais bonito, mesmo pensando um pouco diferente do Chefe dos Apóstolos, manteve-se firme em comunhão com ele e os irmãos da Igreja de Jerusalém, com quem aliás, sempre foi solidário , ao organizar coletas que levava para a Igreja mãe.
São Paulo é o modelo fiel do cristão autêntico, que faz a experiência com Jesus, se encanta com o seu ensinamento, desfaz o seu projeto de vida por causa dele e torna-se um fiel seguidor do evangelho, dando por ele a própria vida como aconteceu em seu martírio.São Paulo sempre acreditou nas comunidades, mesmo quando havia indícios de desunião, problemas internos, contendas e divisões, acreditava nas pessoas e mantinha com elas uma boa relação, mesmo que se tratasse de Pedro, que tinha uma linha mais tradicionalista, causa de algumas divergências bastante sérias entre ambos mas Paulo nunca deixou de amá-lo por causa disso. Ele mesmo manifestava essa sua flexibilidade, quando afirmava que se fazia um com todos e não tinha dificuldade de conviver com as pessoas. Outra coisa importante na pessoa de Paulo, é que ele promoveu uma ação evangelizadora em ambiente hostil á Cristo e ao seu evangelho, era corajoso e nunca teve medo de anunciar a Verdade. Isso nos leva a pensar que muitas vezes somos negligentes, quando ficamos esperando que as pessoas venham procurar nossa pastoral ou movimento, parece que a gente não se sente seguro para falar do evangelho no meio do mundo, lá onde as pessoas precisam escutar esse anúncio, porque achamos que não vão gostar e que algumas vão ser contra. Se São Paulo pensasse assim, milhares de pessoas, ontem e hoje, não teriam conhecido a Jesus.
São Pedro é chamado o príncipe dos apóstolos, isso é, aquele que iniciou o apostolado, e vemos no evangelho de hoje, porque o próprio Cristo o constituiu chefe da sua igreja. Ele conseguiu enxergar em Jesus algo muito mais do que se falava, o povo via nele um Messias Profeta, comparável a João Batista ou a Elias, outro grande profeta na História de Israel, mas esse pensamento era fruto de uma ideologia, e a era messiânica que todos aguardavam com ansiedade, representava uma nova política, uma inversão do quadro, o Messias era um libertador Político, enviado por Deus sim, porém, com uma missão terrena.
O apóstolo Pedro, que fala em nome do grupo, consegue fazer essa transição, do Messias Histórico e Ideológico, para o Messias Espiritual, ele não era enviado por Deus mas sim o próprio Deus. O que Jesus falava e fazia, todos viam, e a partir disso embalavam o sonho e a esperança de dias melhores para o povo de Israel, mas sempre em uma perspectiva terrena.
A confissão de Pedro manifesta pela primeira vez no meio do grupo, a Fé em uma Salvação que supera toda e qualquer realização humana, onde o homem atinge a plenitude do seu ser, divinizando aquilo que é humano. Cesaréia de Filipe é terra de pagãos, cercado por rochas sobre as quais há edificações habitadas pela elite do império romano. A igreja de Cristo está no meio do mundo, porém edificada sobre a fé professada por toda comunidade, que tem como base a fé professada por Pedro, naquele dia.
Como Pedro e Paulo, que sejamos nessa igreja um apoio seguro para os que ainda não crêem, porque não conhecem a Cristo e acima de tudo, nunca nos esqueçamos que Jesus Cristo edificou o reino sobre pessoas como Pedro e Paulo, instrumentos aparentemente fracos, mas que pela ação da graça operante e santificante do Batismo que receberam, tornaram-se perenes, transpondo fronteiras e todas as barreiras que separa os homens, para anunciar Jesus Cristo, o Filho de Deus, aquele que plenificou o nosso existir. (São Pedro e São Paulo MATEUS 16, 13-19)
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PEDRO E PAULO: DOIS PILARES QUE SUSTENTAM A NOSSA IGREJA! - Olívia Coutinho
FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO
Evangelho Jo 21,15-19
Dia 30 de Junho de 2013

Com muita alegria, celebramos hoje, a festa dos dois pilares que sustentam a nossa Igreja: São Pedro e São Paulo.
 Vindos de realidades diferentes, estes dois homens, Pedro, um simples pescador e Paulo, um Judeu culto de origem romana, deixam-se conquistar por Jesus e se entregam por inteiros a serviço do Reino de Deus, e assim como o próprio Jesus, deram a vida pela causa deste Reino!
Olhando a escolha de Pedro para conduzir a Igreja, podemos perceber que Jesus fundou a sua Igreja sobre a fragilidade humana, ela foi fundada sobre a responsabilidade de um homem sujeito a falhas!
Jesus não edificou a sua igreja sobre homens considerados grandes aos olhos do mundo, mas sobre Pedro, um homem de origem simples, que representa os homens de toda história da Igreja: homens santos e pecadores!
O evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, chama a nossa atenção, sobre a responsabilidade de quem confessa o seu amor à Jesus! Confessar que amamos Jesus, implica em comprometimento com a sua causa, em assumir a responsabilidade de cuidar daquilo que é do Pai! 
Jesus, não precisaria fazer perguntas a Pedro, para certificar do seu amor por Ele, afinal, como sendo o próprio Deus, Ele sabia que Pedro o amava! Ao perguntar três vezes se Pedro  o amava, Jesus quis chamar a sua atenção e hoje a nossa, sobre a responsabilidade de quem confessa o seu amor por Ele!  
Antes de entregar a Pedro, a responsabilidade de conduzir a sua Igreja, Jesus não questiona o seu passado, não lhe faz nenhuma exigência, a não ser o seu comprometimento em transformar o seu amor por Ele, em cuidado com o que lhe é mais precioso: o povo de Deus!
Ao convocar Pedro, para a liderança de sua Igreja, Jesus demonstra a sua compreensão para com a fragilidade humana. Com esta convocação, Ele faz um passeio amoroso no coração de Pedro, um coração duramente castigado pelo remorso de tê-Lo negado por três vezes e no seu  amor misericordioso, Jesus mostra a Ele, que o seu vacilo na fé, não o separou Dele!  
Entregando a Pedro a responsabilidade de conduzir o seu rebanho, Jesus dá a entender que já o havia perdoado e que Ele conhecia a grandiosidade do seu coração, razão pela qual, Ele o escolhe como o Pastor das ovelhas do Pai!
A partir desta convocação de Pedro, a igreja missionária, fundamentada no amor a Jesus, conduzida pelo Espírito Santo, sobre a liderança de Pedro, dá o seu primeiro passo rumo a uma nova Jerusalém!
O amor a Jesus é o fundamento de toda comunidade cristã, portanto, numa comunidade, cujo centro é Jesus, um líder não se destaca pela sua autoridade, e sim, pelo seu amor a Jesus transformado em serviço!
A missão da Igreja consiste em revelar aos homens, a vida nova que brota da ressurreição de Jesus! Sua grande riqueza está na abertura à todos os povos e culturas! A Igreja é unidade, é  a guardiã do amor, do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo!
 Pedro e Paulo são modelos de discípulos, missionários, com suas virtudes e fraquezas, mas sobre tudo, pelo seu amor e fidelidade a Cristo e a sua Igreja.

Nesta solenidade de hoje, unamos em oração pelo nosso Papa Francisco.

São Pedro e São Paulo roguem a Deus  por nós!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia

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Evangelhos Dominicais Comentados

30/junho/2013 – São Pedro e São Paulo

Evangelho: (Mt 16, 13-19)


Na liturgia, hoje celebramos a festa dos apóstolos São Pedro e São Paulo. Paulo, de perseguidor dos cristãos, transformou-se num dos maiores defensores do cristianismo. Hoje, carinhosamente também nos lembramos do Santo Padre o Papa Francisco, o legítimo sucessor de São Pedro.

O Papa é o verdadeiro representante de Jesus na terra. Jesus fez de Simão Pedro a pedra de sustentação da sua Igreja, pois encontrou muita firmeza e sinceridade nas suas palavras. "Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo!" 

Esta afirmação foi feita pelo Espírito Santo, através de Pedro. Nestas palavras encontramos a grande prova da presença do Espírito Santo entre os apóstolos. O evangelho de hoje sugere que nos deixemos guiar pelo Espírito. O Espírito Santo encoraja, abre os olhos e os corações.

Alguns achavam que Jesus era João Batista, outros diziam que era Elias ou algum dos profetas. Ainda hoje, ouvimos muitas referências a respeito de Jesus. Dois mil anos depois e ainda o chamam de homem excepcional, de grande mestre ou dizem que Jesus foi o maior dos profetas. Muitos o conhecem por diversos títulos, poucos o reconhecem como Verdadeiro Deus.

“Quem sou eu para vocês?” Já pensou, se Jesus aparecesse hoje e nos fizesse esta pergunta, o que diríamos? É provável que a nossa resposta seria igualzinha àquela de Pedro. Sem pestanejar, e talvez sem muita convicção, gritaríamos essa frase feita: “Tu és o Messias, o Filho de Deus Vivo!”

Provavelmente, Jesus insistiria para obter uma resposta individual e concreta. Talvez dissesse: “É isso mesmo que você pensa, ou é o que você ouve desde pequeno na catequese, nas homilias e, até mesmo em aulas de teologia?”  

“Quero saber mais” - diria. “Quero uma resposta lá do fundo do seu coração; que influência eu exerço em sua vida e quais as mudanças que essa fé trouxe para a sua vida familiar, profissional e comunitária?” Diria ainda, “Só mais uma perguntinha: o que você tem feito para propagar essa verdade?”

O que responder? É bom estarmos preparados, pois certamente seremos cobrados. Somos batizados, somos Igreja, e como membros dessa Família temos que evangelizar, gritar com convicção, para que o mundo todo ouça que Jesus, o Ungido, o Messias e Verdadeiro Deus está entre nós. 

Feliz aquele que acredita e propaga o que o Pai do Céu revelou. Feliz aquele que assume a sua função na construção do Reino. Sejamos pedra, sejamos Pedro, homem de fé, que apesar dos seus momentos de covardia e de fraquezas, sabia humildemente arrepender-se e recomeçar tudo de novo.

Hoje comemoramos também São Paulo. Paulo não fez parte do grupo dos doze, mas foi chamado por Jesus no momento em que se preparava para prender muitos cristãos. Paulo não fechou seus ouvidos. Ouviu e entendeu as Palavras de Jesus. Deixou-se invadir pelo Espírito Santo e entregou-se de corpo e alma ao serviço da evangelização.

Paulo mudou, transformou-se. Passou de perseguidor a seguidor de Jesus Cristo. Aquele que exterminava cristãos entregou sua própria vida para levar vida às comunidades cristãs. Foi radical a mudança de Paulo.

É exatamente isso que Jesus espera de cada um de nós. Quer que nos tornemos Pedros, quer ver-nos convertidos em Paulos. Jesus quer ver suas ovelhas apascentadas e quer que façamos das nossas vidas uma carta viva, com exemplos concretos, de como viver o amor.

(1710) 


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“Eis os santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”.
Estas palavras que o missal propõe como antífona de entrada desta solenidade, resumem admiravelmente o significado de são Pedro e são Paulo. A Igreja chama a ambos de “corifeus”, isto é líderes, chefes, colunas. E eles o são.
Primeiramente, porque são apóstolos. Isto é, são testemunhas do Cristo morto e ressuscitado. Sua pregação plantou a Igreja, que vive do testemunho que eles deram. Pedro, discípulo da primeira hora, seguiu Jesus nos dias de sua pregação, recebeu do Senhor o nome de Pedra e foi colocado à frente do colégio dos Doze e de todos os discípulos de Cristo. Generoso e ao mesmo tempo frágil, chegou a negar o Mestre e, após a ressurreição, teve confirmada a missão de apascentar o rebanho de Cristo. Pregou o Evangelho e deu seu último testemunho em Roma, onde foi crucificado sob o imperador Nero. Paulo não conhecera Jesus segundo a carne. Foi perseguidor ferrenho dos cristãos, até ser alcançado pelo Senhor ressuscitado na estrada de Damasco. Jesus o fez se apóstolo. Pregou o Evangelho incansavelmente pelas principais cidades do império romano e fundou inúmeras igrejas. Combateu ardentemente pela fidelidade à novidade cristã, separando a Igreja da sinagoga. Por fim, foi preso e decapitado em Roma, sob o imperador Nero.
O que nos encanta nestes gigantes da fé não é somente o fruto de sua obra, tão fecunda. Encanta-nos igualmente a fidelidade à missão. As palavras de Paulo servem também para Pedro: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Ambos foram perseverantes e generosos na missão que o Senhor lhes confiara: entre provações e lágrimas, eles fielmente plantaram a Igreja de Cristo, como pastores solícitos pelo rebanho, buscando não o próprio interesse, mas o de Jesus Cristo. Não largaram o arado, não olharam para trás, não desanimaram no caminho... Ambos experimentaram também, dia após dia, a presença e o socorro do Senhor. Paulo, como Pedro, pôde dizer: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar...”
Ambos viveram profundamente o que pregaram: pregaram o Cristo com a palavra e a vida, tudo dando por Cristo. Pedro disse com acerto: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”; Paulo exclamou com verdade: “Para mim, viver é Cristo. Minha vida presente na carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. Dois homens, um amor apaixonado: Jesus Cristo! Duas vidas, um só ideal: anunciar Jesus Cristo! Em Jesus eles apostaram tudo; por Jesus, gastaram a própria vida; da loucura da cruz e da esperança da ressurreição de Jesus, eles fizeram seu tesouro e seu critério de vida.
Finalmente, ambos derramaram o sangue pelo Senhor: “Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”. Eis a maior de todas a honras e de todas as glórias de Pedro e de Paulo: beberam o cálice do Senhor, participando dos seus sofrimentos, unido a ele suas vidas até o martírio em Roma, para serem herdeiros de sua glória. Eis por que eles são modelo para todos os cristãos; eis por que celebramos hoje, com alegria e solenidade o seu glorioso martírio junto ao altar de Deus! Que eles intercedam por nós na glória de Cristo, para que sejamos fiéis como eles foram.
Hoje também, nossos olhos e corações voltam-se para a Igreja de Roma, aquela que foi regada com o sangue dos bem-aventurados Pedro e Paulo, aquela, que guarda seus túmulos, aquela, que é e será sempre a Igreja de Pedro. Nós sabemos que ela é a esposa do Cordeiro, imagem da Jerusalém celeste. Conhecemos e veneramos o ministério que o Senhor Jesus confiou a Pedro e seus sucessores em benefício de toda a Igreja: ser o pastor de todo o rebanho de Cristo e a primeira testemunha da verdadeira fé naquele que é o“Cristo, Filho do Deus vivo”. Sabemos com certeza de fé que a missão de Pedro perdura nos seus sucessores em Roma. Hoje, a missão de Pedro é exercida por Bento XVI. Ao santo Padre, nossa adesão filial, por fidelidade a Jesus, que o constituiu pastor do rebanho. Não esqueçamos: o papa será sempre, para nós, o referencial seguro da comunhão na verdadeira fé apostólica e na unidade da Igreja de Cristo. Quando surgem, como ervas daninhas, tantas e tantas seitas cristãs e pseudo-cristãs, nossa comunhão com Pedro é garantia de permanência seguríssima na verdadeira fé. Quando o mundo já não mais se constrói nem se regula pelos critérios do Evangelho, a palavra segura de Pedro é, para nós, uma referência segura daquilo que é ou não é conforme o Evangelho.
Rezemos, hoje, pelo nosso santo Padre, Bento. Que Deus lhe conceda saúde de alma e de corpo, firmeza na fé, constância na caridade e uma esperança invencível. E a nós, o Senhor, por misericórdia, conceda permanecer fiéis até a morte na profissão da fé católica, a fé de Pedro e de Paulo, pala qual, em nome de Jesus, “Cristo Filho do Deus vivo”, os santos apóstolos derramaram o próprio sangue.
Ao Senhor, que é admirável nos seus santos e nos dá a força para o martírio, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
Solenidade de são Pedro e são Paulo
Hoje celebramos o glorioso martírio dos santos apóstolos Pedro e Paulo, aqueles “santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”. Pedro, aquele a quem o Senhor constituiu como fundamento da unidade visível da sua Igreja e a quem concedeu as chaves do Reino; Paulo, chamado para ser apóstolo de um modo único e especial, tornou-se o Doutor das nações pagãs, levando o Evangelho aos povos que viviam nas trevas. Um pela cruz e o outro pela espada, deram o testemunho perfeito de Cristo, derramando seu sangue e entregando a vida em Roma, por volta do ano 67 da nossa era.
Esta solenidade hodierna dá-nos a oportunidade para algumas ponderações importantes.
A Igreja é apostólica. Esta é uma sua propriedade essencial. João, no Apocalipse, vê a Jerusalém celeste fundada sobre doze alicerces com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (cf. 21,14). Eis: a Igreja não pode ser fundada por ninguém, a não ser pelo próprio Senhor, que a estabeleceu sobre o testemunho daqueles Doze primeiros que ele mesmo escolheu. Seu alicerce, portanto, sua origem, seu fundamento são o ministério e a pregação apostólicas que, na força do Espírito Santo, deverão perdurar até o fim dos tempos graças à sucessão apostólica dos bispos católicos, transmitida na consagração episcopal. Dizer que nossa fé é apostólica significa crer firmemente que a fé não pode ser inventada nem tampouco deixada ao bel-prazer das modas de cada época; crer que a Igreja tem como fundamento os apóstolos significa afirmar que não somos nós, mas o Cristo no Espírito Santo, quem pastoreia e santifica a Igreja pelo ministério dos legítimos sucessores dos apóstolos. O critério daquilo que cremos, a regra da nossa adesão ao Senhor Jesus, a norma da nossa fé é aquilo que recebemos dos santos apóstolos uma vez para sempre. Só a eles e aos seus legítimos sucessores o Senhor confiou a sua Igreja, concedendo-lhes a autoridade com a unção do Espírito para desempenharem o ofício de guiar o seu rebanho pelos séculos a fora. Olhemos para Pedro e Paulo e renovemos nosso firme propósito de nos manter alicerçados na fé católica e apostólica que eles plantaram juntamente com os demais discípulos do Senhor. Hoje, quando surgem tantas comunidades cristãs que se auto-intitulam “igrejas” e se auto-denominam “apostólicas”, estejamos atentos para não perder a comunhão com a verdadeira fé, transmitida de modo ininterrupto e fiel na única Igreja de Cristo, santa, católica e apostólica.
Um outro aspecto importante é o significado de ser apóstolo: ele não é somente aquele que prega Jesus, mas, sobretudo, aquele que, escolhido pelo Senhor, com ele conviveu, nele viveu e, por ele, entregou sua vida. Os apóstolos testemunharam Jesus não somente com a palavra, mas também com o modo de viver e com a própria morte. Por isso mesmo, seu martírio é uma festa para a Igreja, pois é o selo de tudo quanto anunciaram. O próprio são Paulo reconhecia: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor. Trazemos, porém, este tesouro em vasos de argila para que esse incomparável poder seja de Deus e não nosso. Incessantemente trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo. Assim, a morte trabalha em nós; a vida, porém, em vós” (2Cor. 4,5.7.10.12). Eis o sinal do verdadeiro apóstolo: dar a vida pelo rebanho, com Jesus e como Jesus, gastando-se, morrendo, pra que os irmãos vivam no Senhor! Por isso a alegria da Igreja na festa de hoje: Pedro e Paulo não só falaram, não só viveram, mas também morreram pelo seu Senhor; e já sabemos pelo próprio Cristo-Deus que não há maior prova de amor que dá a vida por quem amamos! Bem-aventurado é Pedro, bendito é Paulo, que amaram tanto o Senhor a ponto de darem a vida por ele! Nisto são um exemplo, um modelo, uma norma de vida para todos nós. Aprendamos com eles!
Um terceiro aspecto que hoje podemos considerar é a ação fecunda da graça de Cristo na vida dos seus servos. O exemplo de Pedro, o exemplo de Paulo servem muito bem para nós. Bento XVI, ao ser eleito, afirmou humildemente que se consolava com o fato de Deus saber trabalhar com instrumentos insuficientes: quem era Simão, chamado Pedro? Um pescador sincero, mas rude, impulsivo e de temperamento movediço. No entanto, foi fiel à graça, e tornou-se Pedra sólida da Igreja, tão apegado ao seu Senhor, a ponto de exclamar, cheio de tímida humildade: “Senhor tu sabes tudo; tu sabes que te amo” (Jo 21,17). Quem era Saulo de Tarso, chamado Paulo? Um douto, mas teimoso e radical fariseu, inimigo de Cristo. Tendo sido fiel à graça, tornou-se o grande Apóstolo de Jesus Cristo, tão apaixonado pelo seu Senhor, a ponto de nos desafiar: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo!” (1Cor 11,1). Eis, caros meus, abramo-nos também nós à graça que o Senhor nos concede para a edificação da sua obra, para a construção do seu Reino, e digamos como são Paulo: “Pela graça de Deus sou o que sou, e sua graça em mim não foi em vão” (1Cor. 15,10).
Ainda um derradeiro aspecto, amados no Senhor. Nesta hodierna solenidade somos chamados a refletir sobre o ministério de Pedro na Igreja. Simão por natureza foi feito Pedro pela graça. Pedro quer dizer pedra. Eis, portanto, Simão Pedra. “Tu és Pedro e sobre esta Pedra eu edificarei a minha Igreja. Eu te darei as chaves do Reino” (Mt. 16,16 ss). O ministério petrino é mais que a pessoa de Pedro. Seu serviço será sempre o de confirmar os irmãos na fé em Cristo, Filho do Deus vivo, mantendo a Igreja unida na verdadeira fé apostólica e na unidade católica. É este o ministério que até o fim dos tempos, por vontade do Senhor, estará presente na Igreja na pessoa do sucessor de Pedro, o bispo de Roma, a quem chamamos carinhosamente de papa, pai. O papa é o Pastor supremo da Igreja de Cristo porque somente a ele o Senhor entregou de modo supremo o seu rebanho. Aquilo que entregou aos doze e a seus sucessores, os bispos, entregou de modo especial a Pedro e a seus sucessores, o papa: “Tu me amas mais que estes? Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15). Estejamos atentos, caríssimos: nossa obediência, nossa adesão, nosso respeito, nossa veneração pelo santo Padre não é porque o achamos simpático, sábio, ou de pensamento igual ao nosso, mas porque ele é aquele a quem o Senhor confiou a missão de confirmar os irmãos. Nossa certeza de que ele nos guia em nome de Cristo vem da promessa do próprio Senhor: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos” (Lc. 22,31-32). É porque temos certeza da eficácia da oração de Jesus por Pedro e seus sucessores, que aderimos com fé ao ensinamento do santo Padre. Estejamos certos de uma coisa: quem não está em comunhão com o papa está fora da plena comunhão visível com a Igreja de Cristo, que é a Igreja católica.
dom Henrique Soares da Costa - www.padrehenrique.com
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Combateram o bom combate
A Igreja celebra o martírio de Pedro e de Paulo na mesma data porque eles estiveram unidos no mesmo propósito: seguir Jesus até a morte. Ambos são alicerces vivos do edifício espiritual que é a Igreja. Pedro evangelizou os judeus, Paulo fez a mensagem de Jesus chegar às demais nações. A incessante pregação de ambos foi fecundada com o martírio. Eles deram provas de até que ponto pode ir o ser humano quando elege o projeto de Deus como opção de vida. Não foram pessoas apenas de palavras, mas testemunhas de que a fé remove as montanhas do egoísmo. O modo como viveram e como morreram questiona o comodismo de nossa fé.
Evangelho (Mt. 16,13-19)
As portas do inferno não vencerão
No evangelho de hoje, Jesus faz duas perguntas aos discípulos. Na primeira, ele quer saber o que as pessoas em geral estão dizendo a respeito dele e, na segunda, o que os discípulos pensam sobre ele.
Com essas perguntas, pode parecer que Jesus está fazendo uma pesquisa, para ver se a mensagem dele está agradando ao público ou se ele terá de mudar alguma coisa que aumente o índice de audiência. Na verdade, Jesus está ocupado em construir, na consciência coletiva, a identidade dele, ou seja, quer estabelecer exata compreensão a respeito do Messias e, além disso, mostrar que tipo de Messias ele é. Jesus faz essas perguntas aos discípulos porque sabe que da correta assimilação de sua identidade depende a correta compreensão de sua mensagem. Se alguém entende de forma errada quem é Jesus, compreenderá erroneamente a sua mensagem e terá uma práxis totalmente diferente daquela que ele espera.
Na resposta dos discípulos à primeira pergunta são explicitadas as diversas esperanças messiânicas de Israel.
Pedro toma a iniciativa para responder à pergunta feita aos discípulos sobre a identidade de Jesus. Mas é a comunidade dos discípulos, representada por Pedro, quem diz corretamente quem é Jesus e qual sua missão. A resposta da comunidade representada por Pedro é uma profissão de fé no “Cristo, Filho do Deus vivo”. 
Essa profissão de fé não é fruto da lógica e do esforço humano, mas é revelação divina, pois quem o revela à comunidade é o próprio Pai, que está no céu. Foi a abertura da comunidade à revelação divina que possibilitou reconhecer o Cristo e confessar a fé nele. E é sobre a fé confessada no Cristo, Filho do Deus vivo, que a Igreja é edificada. A expressão “esta pedra” refere-se à confissão de fé e é um trocadilho com a palavra “Pedro”, por cujos lábios ela é pronunciada. O fundamento da Igreja é Jesus, pedra angular (Mt. 21,42), confessado por Messias/Cristo pela comunidade de seus seguidores.
Porque a comunidade dos seguidores confessou a verdadeira identidade de Jesus como Messias/Cristo, pedra angular ou fundamento, ela recebeu “as chaves do reino” (e não da Igreja). O termo “chaves” significa ter acesso e, nesse caso, remete a Is. 22,22. Então, é tarefa da Igreja cuidar da obra divina, não como um proprietário – pois o reino é de Deus –, mas como um mordomo ou despenseiro que cuida da casa de seu verdadeiro senhor, ao qual prestará contas de seu serviço. E cuidar do reino significa fazer com que ele cresça neste mundo.
Então a principal tarefa da comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja, é proporcionar o avanço do reino dos céus (ou de Deus). Esse avanço significa uma ofensiva contra tudo o que se constitui em antirreino (representado pelo termo “inferno”). “As portas”, naquela época como hoje, significavam o poder de defesa. Uma cidade (murada) com portas resistentes tinha grande poder de defesa numa batalha. “As portas do inferno não resistirão” significa que a comunidade dos discípulos de Jesus faz o reino avançar contra o antirreino (o inferno), e, por mais fortes que sejam os poderes de defesa (as portas) do inferno, não conseguirão resistir por muito tempo e por fim o reino vencerá e será instaurado plenamente. As portas do antirreino cairão.
Em função do avanço do reino, uma das tarefas da Igreja é “ligar ou desligar”, mas isso não diz respeito a uma autoridade soberana do líder da Igreja. O sentido de “ligar ou desligar” diz respeito ao âmbito da comunhão entre o fiel e a comunidade, ou melhor, ao sacramento da reconciliação. É precisamente no âmbito do ministério da reconciliação que a Igreja exerce a tarefa de excluir oficialmente um membro da comunhão plena ou readmiti-lo (reconciliá-lo), uma vez cumpridas certas condições.
Assim, “ligar” significa “algemar” alguém, ou seja, deixá-lo preso ao pecado; e “desligar” significa romper os laços com que o pecado escraviza o ser humano, readmitindo o pecador arrependido à comunidade salvífica.
Desse modo, “ligar ou desligar” significa fundamentalmente a faculdade de perdoar os pecados, reconciliando o pecador com Deus, mediante a visibilidade do sacramento, e impondo-lhes condições e obrigações que sejam o sinal da verdadeira conversão.
1ª leitura (At. 12,1-11)
Foi lançado na prisão
Na primeira leitura, Pedro é envolvido no mesmo destino de Jesus, primeiramente porque foi preso na festa dos Pães sem fermento (a Páscoa). Além disso, o texto começa com a decisão do rei Herodes de tentar destruir a Igreja, prendendo e matando seus líderes. O rei deseja remover os pilares da casa para fazer a construção inteira ruir. A prisão de Pedro não é um fato isolado – na mesma época, Tiago (filho de Zebedeu) foi martirizado. O governante condena pessoas inocentes para garantir a própria popularidade, algo semelhante ao que foi feito a Jesus.
Os detalhes sobre como Pedro estava sendo guardado pelos soldados romanos querem apenas assegurar que uma fuga seria impossível. Enquanto Pedro estava preso, a Igreja reunida orava incessantemente, solidarizando-se com a situação dele, pois constituíam um só corpo no Senhor. E ao fervor da oração Deus respondeu com a libertação. Na noite anterior ao dia em que Herodes apresentaria Pedro ao sinédrio para ser condenado, Deus agiu em resposta à oração da Igreja. 
O texto enfatiza que Pedro dormia enquanto esperava o próprio julgamento e condenação. Ele teve dificuldade para saber se o que estava acontecendo era real, o que significa que não esperava a libertação. E, se mesmo assim conseguia dormir, era porque confiava plenamente em Deus e estava preparado para morrer por sua fé. Enquanto Pedro está sendo libertado, o texto faz questão de ressaltar novamente que a prisão era de segurança máxima e que, apesar de todas as precauções, Herodes não conseguiu o seu intento de destruir a Igreja.
2ª leitura (2Tm. 4,6-8.17-18)
Terminei minha carreira, guardei a fé
O texto da segunda leitura se refere ao momento em que Paulo estava preso e pensava que seria condenado à morte. Suas palavras não revelam nenhuma amargura, mas a serenidade de quem se abandonou nas mãos de Deus. O apóstolo estava pronto para ser imolado, isto é, estava à disposição para ser morto por causa do evangelho. Além disso, considera que a morte por causa do evangelho é aceita por Deus como verdadeira oferta ou sacrifício. 
A vida do cristão é comparada a uma batalha e a um esporte de Olimpíada: “Combati o bom combate, terminei minha carreira” (v. 7), mas em tudo a fé saiu vitoriosa; faltava apenas subir ao pódio e receber a coroa de louros que confirmava a vitória. Isso significa que o apóstolo sabe que Deus não deixará sua morte sem resposta; a última palavra não é da morte, mas de Deus, que dá vida plena aos que nele se abandonam. A ressurreição não significa um prêmio, mas sim que Deus partilha a vida que lhe é própria (eterna) com aqueles que lhe doaram a vida humana e efêmera. A ressurreição é grande dom de Deus e não simples troca de uma vida por outra; a vida que doamos a Deus em nada se compara à vida eterna que ele gratuitamente nos dá. Por isso não é um prêmio. A coroação de que o apóstolo fala significa que a última ação é de Deus, e não do carrasco.
Pistas para reflexão
– As prisões dos dois apóstolos atestam que somente é verdadeiro discípulo de Cristo quem por ele enfrenta perseguições e martírios, mantendo a fé/fidelidade. Os exemplos de Pedro e Paulo mostram que a Igreja não é edificada sobre homens, mas sobre a confissão de fé no Cristo ressuscitado e ressuscitador. Tal confissão de fé não é apenas um discurso de belas palavras, mas testemunho de vivência na fidelidade a Deus custe o que custar, mesmo que seja a própria vida. Muitas pessoas se orgulham de que Cristo tenha entregado as chaves do reino para Pedro e não se lembram de que as chaves significam serviço. Outras pessoas se ufanam de que Pedro tenha recebido a missão de “ligar e desligar” e não sabem que o objetivo disso é manter a Igreja numa fé autêntica e operante no mundo. 
– É oportuno que o presidente da celebração evite aumentar o orgulho de ser católico e destaque a humildade de ser cristão, pois foi isto que Cristo nos ensinou. Também deve ficar claro, mesmo quando Pedro é o padroeiro do lugar, que a festa é também de são Paulo. Ambos são as duas colunas principais da Igreja.
Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

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Simplesmente Pedro e Paulo
Novamente vivemos a alegria da solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Ao longo do ano litúrgico há outras comemorações de um e de outro: a festa da conversão de Paulo e a cátedra de Pedro.  Na presente solenidade os dois aparecem juntos e a coleta do dia  exprime bem o sentido da festa: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar são Pedro e são Paulo, concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos desses apóstolos que nos deram as primícias da fé.
Pedro, o pescador, o homem de pés no chão, preocupado com o trabalho duro de ir mar adentro, de passar noites e noites no mar da Galiléia. É chamado pelo Mestre.  Simão passa a ser chamado de Rocha, de Pedra, de Pedro.  Mostra, em vários lugares do Novo Testamento, um carinho e um amor muito grande pelo Mestre.  Quer mesmo tirar da espada e matar os que o perseguem… Quando muitos parecem  hesitar  ele prorrompe num grito de confiança: “A quem iremos, Senhor?  Só tu tens palavras de vida eterna”.  Declara que está disposto a acompanhar o Mestre até a morte.  Sua maravilhosa biografia, no entanto, revela também momentos de fragilidade. Uma empregada, no pátio da casa do governador romano, diz que ele era também  discípulo desse  Jesus que estava sendo julgado.  Pedro nega o Mestre.  El Grecco, o grande pintor espanhol,  representou belissimamente o rosto de Pedro, depois da negação, com uma lágrima no canto dos olhos.
Esse, que no seu próprio dizer, amava o Senhor mais do que os outros  nunca haveria de se esquecer da experiência que tivera na montanha da  transfiguração quando vira o rosto do Senhor transmutado e transfigurado.  Belamente a primeira leitura de hoje relata:  “Enquanto Pedro era mantido na prisão a Igreja rezava continuamente a  Deus por ele”.
Saulo de Tarso era judeu convicto. Não podia admitir que  Jesus um homem fosse tido como Deus. Os discípulos de  Jesus de Nazaré estavam  equivocados.  O Senhor, no entanto, escolhe esse  homem para uma missão admirável e única.  Ele seria o grande pregador do Evangelho às nações. Ele faria com que a Boa Nova atingisse os confins da terra. Converte-se, se reveste de força, anuncia a Palavra, cria comunidades, escreve cartas, penetra no mistério de Cristo, na altura, largura e comprimento do amor de Deus. Não sabe se é melhor continuar a pregar ou morrer e entrar na glória.  Tem como lixo e esterco tudo quem não é Cristo Jesus. Na epistola proclamada nesta liturgia ele diz:  “O Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim  integralmente e ouvida por todas as nações.”
Pedro e Paulo são decantados e exaltados  no prefácio da missa de  hoje:  “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a  igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o evangelho da salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje,  por toda a terra, igual veneração”.

OUTRA HOMILIA

Festa solene de duas colunas de nossa fé. A fé que professamos recebemos como herança dos apóstolos, de modo especial de Pedro e Paulo.
Pedro era pescador de Betsaida. Mais tarde se fixou em Cafarnaum. Seu irmão André foi quem o introduziu  Simão no grupo que começava a seguir Jesus. Talvez ele tivesse sido preparado para esse encontro pelo testemunho e pela fala de João Batista. Jesus muda o nome do pescador Simão para o de Pedro, rocha, pedra. Ele é uma das primeiras testemunhas da ressurreição do Mestre. Depois da Ascensão toma a frente da comunidade. Vemos claramente isto nos relatos da primeira metade dos Atos dos Apóstolos. Suas intervenções em público, seus discursos seguem basicamente o seguinte esquema: Jesus foi o eleito, passou a vida fazendo o bem, foi perseguido, padeceu o martírio da cruz, ressuscitou e, em seu nome, é pregado o evangelho para a conversão dos pecadores. Vemo-lo nitidamente à frente de seus companheiros. A missão que lhe fora confiada não elimina os traços de seu temperamento: experimenta medo, nega o Mestre, não quer deixar que Jesus lhe lave os pés, num veemente ímpeto corta a orelha de um servo. Paulo o enfrenta porque Pedro insiste ainda nas práticas religiosas obsoletas dos judeus.
Podemos destacar algumas de suas atitudes cheias de nobreza e  que mostram seu coração ardoroso: vive com intensidade a experiência luminosa da transfiguração de Jesus e sugere ao mestre que sejam feitas três tendas ali para eternizar aquele momento. No discurso do pão da vida quando todos parecem abandonar Jesus ele faz a famosa declaração: “A quem iremos, Senhor, só tu tens palavras de vida eterna”. No famoso episódio de Cesaréia de Filipe proclamado hoje na liturgia encontramos a solene declaração da messianidade de Jesus: “Tu és o Messias, o filho do Deus vivo”.
Paulo, depois de sua conversão na estrada de Damasco, experimenta uma profunda transformação. Tem consciência de que lhe foi  reservada  uma tarefa especial:  anunciar o mistério de Cristo aos gentios. Transforma-se num missionário andarilho. Percorre toda a região do Mediterrâneo em quatro viagens missionárias. Não se cansa. Sofre tudo por Cristo. Em sua fala transparece a força do Evangelho que é uma pessoa que pode revolucionar as pessoas e o mundo. É responsável de ser instrumento da ação do Cristo ressuscitado.  Com os convertidos e alguns de seus colaboradores mais diretos vai fundando comunidades de fé na gentilidade. Essas comunidades vão se somar às que iam surgindo a partir da herança de Israel. Desenvolve um imenso apostolado epistolar de cunho doutrinário e exortativo.  Suas epístolas enriqueceram imensamente o trabalho de evangelização que a Igreja estava  desenvolvendo e que realiza até nossos dias. Preso, na qualidade de cidadão romano, quer ser julgado na capital do Império. Para lá se dirige e ali dá a vida. Sem nos darmos conta fomos formando nosso homem interior a partir do ardente palavra de Paulo. Fazemos nossas palavras de Paulo: “Para mim,  viver é Cristo”. “Tenho por lixo tudo o que não for Cristo Jesus”. “Quando sou fraco é que sou forte”.   “Tudo posso naquele que me conforta”.
frei Almir Ribeiro Guimaeães
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Missão a todos, na unidade
A festa que hoje celebramos é popularmente reconhecida como o dia do papa, sucessor de Pedro. Mas não podemos esquecer que, ao lado de Pedro, é celebrado também Paulo, o apóstolo, o missionário por excelência. A figura de Pedro é destacada principalmente na primeira leitura e no evangelho; a de Paulo, na segunda leitura. Mas a primeira leitura cria um espaço para falar dos dois: mostra que Deus está com seus enviados. Baseando-se na compreensão popular dos dois santos, pode-se combinar, nesta celebração, a idéia da pessoa de referência na Igreja, como foi Pedro, e a do incansável missionário, que foi Paulo. O lema que se pode repetir na pregação é: “Missão a todos, na unidade”.
1º leitura (At. 12,1-11)
A primeira leitura, tomada dos Atos dos Apóstolos, narra o episódio da prisão e libertação de Pedro. Por volta de 43 d.C., o rei judeu, Herodes Agripa I, vassalo dos romanos, mandou executar o apóstolo Tiago, filho de Zebedeu. Depois mandou aprisionar Pedro. Mas o “anjo do Senhor” o libertou, como libertou os israelitas do Egito. A comunidade recorreu à arma da oração: é Deus quem age, ele é o libertador. Assim, Pedro é libertado da prisão pelo anjo do Senhor. Este feito confirma sua missão especial na Igreja, ressaltada no evangelho. O significado desse episódio pode ser estendido à vida de Paulo, que, conforme At. 16,16-40, viveu uma experiência semelhante, além de muitas outras situações de perigo e aperto (cf. 2Cor. 11,16-33).
Evangelho (Mt. 16,13-19)
O evangelho apresenta Pedro como a pedra ou rocha da Igreja. A situação é a seguinte: Jesus havia enviado os Doze em missão, e eles tomaram conhecimento das reações do povo diante de Jesus, além do acontecido com João Batista, decapitado por Herodes Agripa. Quando os discípulos voltam da missão, Jesus lhes pergunta quem o povo e quem eles mesmos dizem que ele é. Pedro responde pelos Doze e chama Jesus de Messias (em grego, Cristo: cf. Mc. 8,29) e Filho de Deus (como diz Mt. 16,16; cf. 14,33). Enquanto o relato de Marcos (Mc. 8,27-30) é mais simples, o de Mateus mostra que Jesus reage à profissão de fé feita por Pedro em nome dos Doze com três observações.
Primeiro, reconhece nela uma inspiração divina: “não foi um ser humano [literalmente, ‘carne e sangue’] que te revelou isso” (Mt. 16,17). Além disso, muda o nome de Simão, chamando-o, com um jogo de palavras, de Pedro, porque “sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e o poder [literalmente, ‘as portas’] do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt. 16,18). Enfim, Jesus confia a Pedro o serviço de governar a comunidade (as “chaves” e o poder de ligar e desligar, ou seja, obrigar e deixar livre, poder de decisão), com ratificação divina (“será ligado/desligado no céu”, Mt. 16,19).
Jesus dá a Simão o nome de Pedro, “pedra”, que sugere solidez: Simão deve ser a “pedra” (rocha) que dará solidez à comunidade de Jesus (cf. Lc. 22,32). Isso não é um reconhecimento de suas qualidades naturais, embora possamos supor que Simão deva ter sido um bom empresário de pesca! Pelo contrário, não se refere ao que Pedro foi, mas ao que será. Trata-se de uma vocação que o transforma. Muitas vezes, na Bíblia, a imposição de um novo nome significa que a pessoa recebe nova vocação e deverá transformar-se para corresponder.
Na Bíblia, ser “rocha” é, antes de tudo, um atributo de Deus mesmo, o “Rochedo de Israel” (cf. Dt. 32,4 etc.). Jesus, com certeza, não quer colocar Pedro no lugar do “Rochedo de Israel”, mas o incumbe, por assim dizer, de uma missão que tenha qualidade análoga. A firmeza e a proteção evocadas pela imagem da rocha não são algo que Simão Pedro tem em si mesmo (ele negará conhecer Jesus na hora em que deveria testemunhar), mas são a firmeza e a proteção de Deus das quais ele é constituído “ministro”, e essa “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (cidade fortificada, reino) do inferno não poderão nada contra a Igreja. Esse ministério está a serviço do reino dos céus (maneira de Mateus dizer o reino de Deus). Assim como as chaves das portas da cidade são entregues a seu prefeito (cf. Is. 22,22), assim Pedro recebe o governo da comunidade que instaura o reino de Deus no mundo. Em Mt. 18,18, autoridade semelhante é exercida pela comunidade, mas Pedro tem uma responsabilidade específica, unificadora, que dá solidez à Igreja.
2º leitura (2Tm. 4,6-8.17-18)
A segunda leitura evoca Paulo. Ele, que sempre trabalhou com as próprias mãos, está agrilhoado; na defesa, ninguém o assistiu. Contudo, fala cheio de gratidão e esperança. “Guardou a fidelidade”: a sua e a dos fiéis. Aguarda com confiança o encontro com o Senhor. Ofereceu sua vida no amor, e o amor não tem fim (cf. 1Cor. 13,8). Seu último ato religioso é a oblação da própria vida (cf. Rm. 1,9; 12,1). Sua vida está nas mãos de Deus, que a arrebata da boca das feras.
Sua vocação se deu por ocasião da aparição de Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, Paulo se transformou em apóstolo e realizou, mais do que os outros apóstolos, a missão de ser testemunha de Cristo até os confins da terra (At. 1,8). Apóstolo dos pagãos, tornou realidade a universalidade da Igreja, da qual Pedro é o guardião. A segunda leitura que hoje ouvimos é o resumo de sua vida de plena dedicação à evangelização entre os pagãos, nas circunstâncias mais difíceis: a palavra tinha de ser ouvida por todas as nações (2Tm. 4,17). A ninguém podia ficar escondida a luz de Cristo! O mundo em que Paulo se movimentava estava dividido entre a religiosidade rígida dos judeus farisaicos e o mundo pagão, entre a dissolução moral e o fanatismo religioso. Nesse contexto, o apóstolo anunciou o Cristo crucificado como a salvação: loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas alegria verdadeira para quem nele crê. Missão difícil. No fim de sua vida, Paulo pôde dizer que “combateu o bom combate e conservou a fé”. Essa afirmação deve ser entendida como fidelidade na prática, tanto de Paulo como dos fiéis que ele ganhou. Como Cristo, o bom pastor, não deixa as ovelhas se perder, assim também o apóstolo, enviado de Cristo, as conserva nesse laço de adesão fiel, marca de sua própria vida.
Missão a todos, na unidade
Conforme o evangelho, Simão responde pela fé dos seus irmãos. Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro, que significa sua vocação de ser “pedra”, rocha, para que seja edificada sobre ele a comunidade dos que aderem a Jesus na fé. Pedro deverá dar firmeza aos seus irmãos (cf. Lc. 22,32). Essa “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: o reino do inferno não poderá nada contra a Igreja, que é uma realização do reino do céu.
A libertação da prisão, lembrada na primeira leitura, ilustra essa promessa. Jesus confia a Pedro “o poder das chaves”, o serviço de administrador de sua “cidade”, de sua comunidade. À medida que a Igreja é realização (provisória, parcial) do reino de Deus, Pedro e seus sucessores, os papas, são “administradores” dessa parcela do reino.
Eles têm a última responsabilidade do serviço pastoral. Pedro, sendo aquele que “responde” pelos Doze, administra ou governa as responsabilidades da evangelização (não a administração material). Quem exerce esse serviço hoje é o papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma, cidade que, pelas circunstâncias históricas, se tornou o centro a partir do qual melhor se exercia essa missão. Pedro recebe também o poder de “ligar e desligar” – o poder da decisão, de obrigar ou deixar livre –, exatamente como último responsável da comunidade (a qual também participa nesse poder, como mostra Mt. 18,18). Não se trata de um poder ilimitado, mas de responsabilidade pastoral, que concerne à orientação dos fiéis para a vida em Deus, no caminho de Cristo.
Se Pedro aparece como fundamento institucional da Igreja, Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Transformado por Cristo em mensageiro seu (“apóstolo”), ele realiza, por excelência, a missão dos apóstolos de serem testemunhas de Cristo “até os extremos da terra” (cf. At. 1,8). As cartas a Timóteo, escritas na prisão em Roma, são a prova disso, pois Roma é a capital do mundo, o trampolim para o evangelho se espalhar por todo o mundo civilizado daquele tempo. Paulo é o “apóstolo das nações”. No fim da sua vida, pode entregá-la como “oferenda adequada” a Deus, assim como ensinou (Rm 12,1). Como Pedro, ele experimenta Deus como o Deus que liberta da tribulação (cf. a primeira leitura).
Hoje, celebra-se especialmente o “dia do papa”. Isso enseja uma reflexão sobre o serviço da responsabilidade última. Importa libertar-nos de um complexo antiautoritário de adolescentes. Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado – diferentes, mas complementares. As duas foram necessárias para que pudéssemos comemorar, hoje, os cofundadores da Igreja universal. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Essa complementaridade pode provocar tensões (cf. Gl. 2); por exemplo, as preocupações de uma “teologia romana” podem não ser as mesmas que as de uma “teologia latino-americana”. Mas a polêmica em torno da teologia da libertação, poucos anos atrás, mostrou que tal tensão pode ser extremamente fecunda e vital para a Igreja toda. Hoje, sabemos que o pastoreio dos fiéis – a pastoral – não é exercido somente pelos “pastores constituídos” como tais, pela hierarquia. Todos os fiéis são um pouco pastores uns dos outros. Devemos conservar a fidelidade a Cristo – a nossa e a dos nossos irmãos – na solidariedade do “bom combate”.
E qual será, hoje, o bom combate? Como no tempo de Pedro e Paulo, a luta pela justiça e pela verdade em meio a abusos, contradições e deformações. Por um lado, a exploração desavergonhada, que até se serve dos símbolos da nossa religião para fins lucrativos; por outro, a tentação de largar tudo e dizer que a religião é um obstáculo à emancipação humana. Nossa luta é, precisamente, assumir a libertação em nome de Jesus, sendo-lhe fiéis; pois, na sua morte, ele realizou a solidariedade mais radical que podemos imaginar.

OUTRA HOMILIA

1) Pedro: Simão responde pela fé dos seus irmãos (evangelho). Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro, que significa sua vocação de ser pedra, rocha, para que Jesus edifique sobre ele a comunidade daqueles que aderem a ele na fé. Pedro deverá dar firmeza aos seus irmãos (cf. Lc. 22,32). Esta “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (= cidade, reino) do inferno (o poder do mal, da morte) não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do “Reino do Céu” (de Deus).
A libertação da prisão ilustra esta promessa (1ª leitura). Jesus lhe confia também “o poder das chaves”, i.é, o serviço de “mordomo” ou administrador de sua casa, de sua família, de sua comunidade ou “cidade”. Na medida em que a Igreja é realização (provisória, parcial) do Reino de Deus, Pedro e seus sucessores, os Papas, são “administradores” dessa parcela do Reino de Deus (dos “Céus” no sentido de “Deus”... nada a ver com a figura de Pedro como porteiro do céu no sentido do “além”..).
Eles têm a última responsabilidade do serviço pastoral. Pedro, sendo aquele que “responde pelos Doze”, administra ou governa as responsabilidades da evangelização (não a administração material...). Quem exerce este serviço hoje é o papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma (de Roma, por causa das circunstâncias históricas).
Pedro recebe também o poder de “ligar e desligar” - o poder da decisão, de obrigar ou deixar livre -, exatamente como último responsável da comunidade (em Mt 18,18, esse poder é dado à comunidade como tal, evidentemente sob a coordenação de quem responde por ela). Não se trata de um poder ilimitado, mas da responsabilidade pastoral, que concerne à orientação dos fiéis para a vida em Deus, no caminho de Cristo.
2) Paulo: Se Pedro aparece como fundamento institucional da Igreja, Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão do Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, transforma-se em mensageiro de Cristo; “apóstolo”. É ele que realiza, por excelência, a missão dos apóstolos, de serem testemunhas de Cristo “até aos extremos da terra” (At 1,8).
As cartas a Tímóteo, escritas da prisão em Roma, são a prova disto, pois Roma é a capital do mundo, o trampolim para o Evangelho se espalhar por todo o mundo civilizado daquele tempo. Ele é o “apóstolo das nações”. No fim da sua vida, pode oferecer sua vida como “oferenda adequada” a Deus, assim como ele ensinou (Rm 12,1). Como Pedro, ele experimenta Deus como um Deus que liberta da tribulação (2ª leitura).
Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. As duas foram necessárias para que pudéssemos comemorar, hoje, os fundadores da Igreja universal. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária.
Essa complementaridade pode provocar tensões (cf. Gl. 2); as preocupações de uma “teologia romana” podem não ser as mesmas que as de uma “teologia latino-americana”. A recente polêmica em tomo da Teologia da Libertação mostrou que tal tensão pode ser extremamente fecunda e vital para a Igreja toda.
Hoje, celebra-se especialmente o “Dia do Papa”. Enseja uma reflexão sobre o serviço da responsabilidade última. Importa libertar-nos de um complexo antiautoritário de adolescentes. Devemos crescer para a obediência adulta, sem mistificação da autoridade, nem anarquia. O “governo” pastoral é um serviço legítimo e necessário na Igreja. Mas importa observar também que aquele que tem a última palavra deve escutar as penúltimas palavras de muita gente.
padre Johan Konings, sj - www.paulus.com.br
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A liturgia de hoje, celebra são Pedro e são Paulo, os dois pilares de fundação da Igreja que, de formas diferentes e complementares, edificaram a Igreja de Jesus. É a festa da fé de são Pedro que reconheceu, antes de qualquer outro, Jesus como o Messias, e foi escolhido por Ele para ser a pedra fundamental da Igreja, por isso comemoramos também hoje o dia do papa, e de são Paulo que passou de perseguidor a perseguido por aceitar a missão para qual Jesus o convidou, de levar seus ensinamentos a todos: pagãos, reis e também ao povo de Israel, missão esta que ele cumpriu com dedicação e especial criatividade missionária.
Pedro, um homem simples, um pescador sem cultura que ao longo dos evangelhos se revela cheio de contrastes, se recusa a ter os pés lavados por Jesus, mas de imediato pede que Ele o lave por completo; diz que jamais abandonaria Jesus, mas em seguida quando Jesus é condenado, ele o nega três vezes. No entanto, o poder do Espírito Santo transforma esse homem simples e intempestivo em um líder sensato e dinâmico que, juntamente com seus irmãos em Cristo, funda a igreja de Jesus e a comanda com firmeza, como uma rocha. Jesus confiou também a ele as chaves do Reino dos céus, conferindo-lhe autoridade para governar Sua igreja, Seu povo. Já o poder de ligar e desliga, é o poder de tomar decisões e de absolver ou não os pecados.
Paulo, por sua vez, não era um discípulo que caminhou com Jesus durante sua vida terrena, ou se quer era seu seguidor, na verdade perseguia os cristãos e, no caminho de Damasco, na sua última perseguição a eles, Jesus o convida a conversão, e mais do que isto, quer que ele seja Seu apóstolo para levar a Sua palavra a todas as nações, missão esta que Paulo cumpre com coragem e determinação. Mas, seu marco principal é a criatividade de sua catequese, que faz brotar a fé em Cristo em todos os que o escutam, quer seja oralmente ou através de suas cartas repletas do Espírito Santo. Perto de sua morte, Paulo deixa em sua segunda carta a Timóteo 4,7, o seu mais belo ensinamento: “Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé”, pois não importa as adversidades que se tem no dia a dia, a Fé deve ser sempre conservada.
São Pedro e são Paulo eram muito unidos na missão, e o compromisso de Evangelizar eles cumpriram à risca, correndo risco de vida, sem medo, iluminados com a força do Espírito de Jesus que os fortalecia a cada dia, em todos os lugares.
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Fé e missão
A missão de liderança confiada a Pedro exigiu dele uma explicitação de sua fé. Antes de assumir o papel de guia da comunidade, foi preciso deixar claro seu pensamento a respeito de Jesus, de forma a prevenir futuros desvios.
Se tivesse Jesus na conta de um messias puramente humano, correria o risco de transformar a comunidade numa espécie de grupo guerrilheiro, disposto a impor o Reino de Deus a ferro e fogo. A violência seria o caminho escolhido para fazer o Reino acontecer.
Se o considerasse um dos antigos profetas reencarnados, transformaria a Boa-Nova do Reino numa proclamação apocalíptica do fim do mundo, impondo medo e terror. De fato, pensava-se que, no final dos tempos, muitos profetas do passado haveriam de reaparecer.Se a fé de Pedro fosse imprecisa, não sabendo bem a quem havia confiado a sua vida, correria o risco de proclamar uma mensagem insossa, e levar a comunidade a ser como um sal que perdeu seu sabor, ou uma luz posta no lugar indevido.
Só depois que Pedro professou sua fé em Jesus, como o “Messias, o Filho do Deus vivo”, foi-lhe confiada a tarefa de ser “pedra” sobre a qual seria construída a comunidade dos discípulos: a sua Igreja. Entre muitos percalços, esse apóstolo deu provas de sua adesão a Jesus, selando o seu testemunho com a própria vida, demonstração suprema de sua fé. Portanto, sua missão foi levada até o fim.
padre Jaldemir Vitório
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"Não chores, meu filho; não chores, que a vida é luta renhida: Viver é lutar.” Gonçalves Dias brindou a nossa literatura poética com o “Canto do Tamoio”, que sabe que a vida é combate. O mesmo poeta coloca na boca de I-juca Pirama, “aquele que há de ser morto”, que é o significado do nome tupi, um canto de morte: “Meu canto de morte, guerreiros, ouvi”. Assim também Paulo anuncia e canta a sua morte: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”.
A vida é um combate e Paulo combateu para valer. Como o atleta na pista, iniciou uma corrida e chegou ao fim. Venceu, pois guardou a fé! “A vida é combate que os fracos abatem; que os fortes, os bravos, só podem exaltar.” Pedro e Paulo são fortes, e seu combate hoje os exalta.
Tacapes, arcos, flechas, espada, cruz, explosivos, desprezo, zombaria são outros tantos instrumentos de morte que se abatem sobre o que corre e que luta.
A fé o ilumina para que veja além, além da cruz, além da espada. Hoje, diz o Santo Padre, há o martírio do menosprezo, da zombaria. O livro do Apocalipse conta que os cadáveres das duas testemunhas ficaram expostos na praça da Grande Cidade. Contudo, um sopro de vida penetrou-os e eles se puseram de pé. E eles subiram para o céu na nuvem, e seus inimigos os contemplaram (cf. Ap 11).
Pedro e Paulo são as colunas de toda a Igreja e em particular da Igreja de Roma, onde está o sucessor de Pedro.
At. 12,1-11 – O livro dos Atos dos Apóstolos relata as atividades apostólicas de São Pedro e de São Paulo. Os atos de Pedro terminam com sua prisão, no capítulo 12, e o capítulo 13 inicia o relato da ação missionária de Paulo, embora a conversão de Paulo apareça na primeira parte, no capítulo 9, e Pedro esteja presente na assembleia de Jerusalém, capítulo 15. Os atos de Pedro terminam com o seu êxodo. A saída milagrosa da prisão descreve na realidade o fim da vida de Pedro. Guiado por um anjo, as portas se abrem, os soldados não interferem e Pedro parte para um outro lugar. Como seus pais no Egito, Pedro sai em busca da liberdade perfeita na Terra Prometida.
Sl. 33 (34) – O Senhor livrou os seus santos apóstolos de todos os temores. Seu anjo vem acampar ao redor de quem teme somente o Senhor, e traz a salvação. O Salmista nos convida a fazer a experiência da bondade e da suavidade do Senhor.
2Tm. 4,6-8.17-18 – Paulo se prepara para o martírio e escreve sua última carta, dirigindo-a a Timóteo, seu querido companheiro de missão. Sua vida foi um combate, e um bom combate que ele venceu. Como os atletas que correm na pista, Paulo também correu e chegou ao fim, pronto para a premiação. E, em tudo isso, ele guardou a fé, que iluminou os seus caminhos. Também ele está pronto para o seu êxodo.
Mt. 16,13-19 – “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” – disse Pedro, quando Jesus perguntou o que seus discípulos pensavam d’Ele. Talvez naquele momento Pedro não soubesse bem o que estava dizendo. Ele vivia, como todo mundo, sua limitação histórica, mas, o importante é que essas palavras não eram dele e sim do Pai do Céu. Pedro recebe uma graça especial para poder identificar o Filho de Deus encarnado e com ela recebe o encargo de conduzir com segurança a sua Igreja.

OUTRA HOMILIA

A filha de Jairo
Doença e morte fazem parte do nosso cotidiano, mas continuam sendo um mistério. A morte é sempre misteriosa. Não a entendemos. E a doença traz interrogações ainda maiores. Devemos morrer, não podemos ficar aqui eternamente, pois envelhecemos. Mas, poderíamos morrer sem dores. Por que a doença e a dor, e, às vezes, dor insuportável, levam a pessoa a desejar a morte?
O Livro da Sabedoria diz que “Deus não fez a morte, nem tem prazer com a destruição dos vivos. Ele criou todas as coisas para existirem”. Um pouco antes, o texto bíblico da Sabedoria dizia que a morte é procurada por nós. Ela existe e é uma realidade, mas não como obra de Deus, e somos nós que vamos ao seu encontro com nossa vida extraviada. Nós mesmos causamos a nossa ruína (cf. Sb 1,12). É verdade que podemos evitar muitos transtornos em nossa vida cuidando bem da saúde, mas é também verdade que ficamos doentes e, de alguma maneira, temos de morrer. Se Deus nos criou para a imortalidade e foi ação do demônio que introduziu a morte no mundo, temos que colaborar com Deus e não com o demônio, em benefício nosso.
Deus, que não se deixa vencer, encontrou um jeito de vencer a morte e nos livrar do poder demoníaco. Solidário conosco, Deus Filho se encarnou e aceitou experimentar a morte para vencê-la em sua ressurreição. Na Páscoa do Senhor, cantamos: “Ó morte, onde está tua vitória?”. Para quem não tem fé a morte pode significar simplesmente o fim de tudo. Cessam os nossos movimentos, nossa existência termina, somos consequentemente reduzidos a pó. Se não há vida depois da morte, temos que nos agarrar a esta vida e afastar de nós tudo o que é força de morte.
 No entanto, quem tem fé sabe, por revelação, que a vida continua. Alguns pensam que a vida continua apenas para os bons. Os maus desaparecem. Nós acreditamos que a vida continua para todos na salvação ou na condenação. Qual é o desejo de Deus, segundo a sua própria palavra? Seu desejo é que todos tenham vida, e vida em abundância. Jesus mostra que esta é a vontade de Deus ao curar a mulher que sofria um fluxo de sangue e ao ressuscitar a filhinha de Jairo, o chefe de uma sinagoga. Mas é preciso ter fé e ter alguém que nos pegue pela mão e nos faça levantar e andar.
Nós acreditamos que a morte aconteceu no dia do nosso Batismo, quando a velha criatura do pecado ficou nas águas da Fonte batismal. Agora, o que vai acontecer será uma passagem deste mundo para o Pai numa bela viagem, realmente bela, que nos leva ao encontro da Face do Senhor na eternidade feliz. Sabemos que aqueles que ficam sofrem com a separação, mas se refazem na certeza da ressurreição. Enquanto estamos a caminho, vamos nos ajudando, dando-nos a mão, apoiando-nos mutuamente. Ao chamar a filha de Jairo à vida, ao curar a mulher doente que n’Ele tocou, Jesus reafirma o que diz o Livro da Sabedoria: “Nas criaturas do mundo não há nenhum veneno de morte e não é a morte que reina sobre a terra”.
São Paulo estimula os cristãos de Corinto a ajudarem financeiramente os cristãos de Jerusalém que passavam fome por causa da seca. Esse estímulo vale para nós sempre. Como consequência do pecado, a doença e a morte trazem sofrimento. Ajudemo-nos com os bens materiais a diminuir a dor humana e a entender com a fé o significado salvífico do sofrimento neste mundo.
cônego Celso Pedro da Silva
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Confissão de Pedro
Esta narrativa da "confissão de Pedro" se completa e encontra seu sentido pleno com a narrativa seguinte sobre o primeiro "anúncio da paixão", com o diálogo conflitivo entre Jesus e Pedro. Estas narrativas são encontradas nos três evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus, e Lucas, porém com destaques próprios em cada um destes evangelistas.
Marcos, que é o primeiro dos evangelhos canônicos a ser escrito, situa a passagem narrada no momento em que Jesus encerra seu ministério entre os gentios da Galiléia e das regiões vizinhas, iniciando o caminho para Jerusalém, em ambiente de exclusividade judaica, onde se dará o confronto final com os chefes de Israel. Marcos se preocupa em mostrar que Jesus rejeita o título messiânico, indicativo de ambição e poder, afirmando-se como o simples e humilde humano, cheio do amor de Deus e comunicador deste amor que dura para sempre. Um sinal de seu despojamento é a sua vulnerabilidade à morte programada pelos chefes do Templo e das sinagogas. Lucas, por sua vez, despreocupa-se com a situação temporal e geográfica do episódio narrado, colocando-o em um momento de oração de Jesus, e conclui sua narrativa, como Marcos, registrando a rejeição sumária de Jesus ao título messiânico.
No texto de Mateus, acima, encontramos duas de suas características dominantes. Mateus acentua a dimensão messiânica de Jesus e já apresenta sinais da instituição eclesial nascente. Mateus escreve na década de 80, quando os discípulos de Jesus oriundos do judaísmo estavam sendo expulsos das sinagogas que até então freqüentavam. Mateus pretende convencer estes discípulos de que em Jesus se realizavam suas esperanças messiânicas moldadas sob a antiga tradição de Israel. Daí o acentuado caráter messiânico atribuído a Jesus por Mateus. Os cristãos, afastados das sinagogas, começam a estruturar-se em uma instituição religiosa própria, na qual a figura de referência é Pedro, já martirizado em Roma. Embora no Segundo Testamento se perceba conflitos entre Pedro e Paulo (cf. Gl. 2,11-14), a liturgia os reúne em uma só festa. Pedro é lembrado pelo seu testemunho corajoso diante da perseguição e Paulo, por seu empenho missionário em territórios da diáspora judaica.
José Raimundo Oliva
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1º leitura – At. 12,1-11 - AMBIENTE
O texto que nos é hoje proposto encerra praticamente a primeira parte do livro dos Atos dos Apóstolos (a história da expansão do cristianismo dentro das fronteiras palestinas – cf. At. 1-12). Lucas narra, neste texto, uma nova perseguição à Igreja de Jesus.
Esta perseguição é obra de Herodes Agripa I, neto do famoso Herodes, o Grande. O imperador Calígula deu-lhe, por volta do ano 37, os antigos territórios de Filipe (Itureia, Traconítide, Bataneia, Gaulanítide e Auranítide); mais tarde (ano 40), confiou-lhe ainda os antigos territórios de Herodes Antipas (Galileia e Pereia). Depois do assassínio de Calígula, Herodes Agripa prestou vários serviços ao imperador Cláudio, o qual lhe ofereceu o governo da Samaria e da Judeia (ano 41). Assim, Herodes Agripa I reinou praticamente sobre toda a Palestina entre os anos 41 e 44. Morreu subitamente no ano 44, durante uma cerimónia pública.
Herodes Agripa I preocupou-se bastante em não se incompatibilizar com os líderes judaicos. Por isso, foi muito cuidadoso em observar as prescrições da Lei de Moisés (embora essa preocupação tenha sido mais por política do que por convicção: fora do território judaico, Herodes Agripa I vivia à maneira helénica). Foi, provavelmente, com o mesmo objetivo que ele tentou suprimir a “seita cristã”, mandando executar Tiago e prendendo Pedro.
Este Tiago de que se fala no nosso texto é o filho de Zebedeu, irmão de João. Tiago era, com toda a certeza, um pregador ativo do Evangelho de Jesus e um membro importante da comunidade cristã de Jerusalém. Com esta morte violenta, Tiago “bebeu do mesmo cálice”, conforme lhe foi anunciado pelo próprio Jesus (cf. Mc. 10,38).
Estamos no ano 42.
Esta perseguição atingiu também outros membros da comunidade cristã de Jerusalém. O próprio Pedro foi preso, neste contexto, embora tenha sido, posteriormente, libertado. Os dados avançados por Lucas – no texto que nos é hoje proposto – sobre a prodigiosa libertação de Pedro não devem ser rigorosamente históricos; mas devem ser, sobretudo, uma catequese sobre a forma como Deus cuida da sua Igreja e dos discípulos que dão testemunho da salvação.
MENSAGEM
No livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas procura mostrar como o plano salvador de Deus para os homens continua a cumprir-se, mesmo depois da partida de Jesus para junto do Pai. Os discípulos de Jesus são agora, no meio do mundo, as testemunhas desse projeto de libertação que Deus ofereceu aos homens através de Jesus Cristo.
Como é que o mundo acolhe o testemunho dos discípulos? Deus deixa as testemunhas do seu projeto de salvação entregues à sua sorte, à mercê da perseguição e da incompreensão do mundo? O texto que nos é proposto como primeira leitura procura responder a estas questões.
1. Os elementos históricos avançados por Lucas sobre a morte de Tiago e a prisão de Pedro, no contexto da perseguição contra a Igreja durante o reinado de Herodes Agripa I (vs. 1-4), mostram como o testemunho do projeto libertador de Deus no mundo gera sempre confronto com as forças da opressão e da morte. Trata-se de uma realidade que não deve deixar os discípulos surpreendidos, pois o próprio Jesus teve que percorrer o caminho da cruz (a indicação de que Pedro foi preso no dia dos Ázimos e, portanto, muito próximo do dia de Páscoa, pode sugerir uma correspondência com a Páscoa de Jesus: o caminho que Pedro está a seguir é o mesmo caminho do Mestre). Por outro lado, a oposição do mundo não pode nem deve calar o testemunho que os discípulos são chamados a dar.
2. Enquanto Pedro estava na prisão, a Igreja orava por ele (v. 5). A indicação mostra uma comunidade cristã unida, em que os crentes estão próximos e solidários, apesar da distância e das grades da prisão. Por outro lado, o fato de a libertação de Pedro acontecer enquanto a Igreja “orava instantemente a Deus por ele” mostra como Deus escuta a oração da comunidade.
3. A maravilhosa história da libertação de Pedro (vs. 6-11) mostra a presença efetiva de Deus na caminhada da sua Igreja e a solicitude com que Deus cuida daqueles que dão testemunho do seu projeto de salvação no meio dos homens. O relato está construído com elementos maravilhosos e prodigiosos que não são, certamente, de caráter histórico (o aparecimento do “anjo do Senhor”, a luz que iluminou a cela da cadeia, a passagem pelos guardas sem que nenhum deles se tivesse apercebido da fuga do prisioneiro, a abertura milagrosa da porta da prisão); mas pretendem sublinhar a presença de Deus e apor no testemunho dos apóstolos o “selo de garantia” de Deus. Não há dúvida: Deus está com os apóstolos e, diante da oposição do mundo, garante a autenticidade da proposta apresentada por eles.
ATUALIZAÇÃO
·  Como cenário de fundo da nossa primeira leitura, está o fato de a comunidade cristã (aqui representada por Pedro) ser uma comunidade que tem como missão dar testemunho do projeto libertador de Deus no meio dos homens. A Igreja que nasce de Jesus não é uma comunidade fechada em si própria, ou que vive apenas de olhos postos no céu à espera que Deus, de forma mágica, renove o mundo; mas é uma comunidade comprometida com a transformação do mundo, que testemunha – com palavras e com gestos concretos – os valores de Jesus, do Evangelho e do mundo novo.
·  O nosso texto mostra que o anúncio da proposta de salvação que Deus faz aos homens gera sempre oposição. Essa oposição vem, especialmente, daqueles que querem perpetuar os mecanismos de exploração, de injustiça, de morte; mas também pode vir de quem está comodamente instalado na escravidão e não tem a coragem de questionar as cadeias que o prendem… Em qualquer caso, a oposição traduz-se sempre em atitudes de incompreensão, de desrespeito, ou mesmo de perseguição declarada. Uma Igreja que procura ser fiel ao mandato de Jesus e testemunhar a libertação de Deus ver-se-á sempre confrontada com esta realidade. Todos nós, discípulos de Jesus, chamados a testemunhar a vida de Deus na sociedade, no nosso local de trabalho, na nossa família, conhecemos a oposição, as calúnias, os sarcasmos, a dificuldade em que levem a sério o nosso testemunho… Tal fato não deve preocupar-nos demasiado: é a reação lógica do mundo quando se sente questionado pelos valores de Jesus. Para nós, o que é importante é afirmar, com sinceridade e verticalidade, os valores em que acreditamos.
·  A história de Pedro que hoje nos é proposta garante-nos que, nos momentos de perseguição e de oposição, o nosso Deus não nos abandona. Ele será sempre uma presença reconfortante e libertadora ao nosso lado, dando-nos a coragem para continuarmos a nossa missão e para darmos testemunho dos valores do Reino. O cristão não tem medo porque sabe que Deus está com ele e que, por isso, nenhum mal lhe acontecerá.
· A nossa história sugere também a importância da união e da solidariedade da comunidade, sobretudo para com os irmãos que estão longe ou que estão em situações dramáticas de sofrimento. A oração é uma forma de manifestar essa solidariedade e a comunhão que deve unir todos os irmãos, membros da mesma família de fé.

2º leitura – 2 Timóteo 4,6-8.17-18 - AMBIENTE
O Timóteo destinatário desta carta é um cristão nascido em Listra (Ásia Menor), de pai grego e de mãe judeo-cristã. A partir de certa altura, tornou-se um companheiro inseparável de Paulo; foi a ele que Paulo confiou importantes missões e a quem encarregou da responsabilidade pastoral das Igrejas da Ásia Menor. Segundo a tradição, foi o primeiro bispo da comunidade cristã de Éfeso.
É muito duvidoso que seja Paulo o autor desta carta: a linguagem, o estilo e mesmo a doutrina apresentam diferenças consideráveis em relação a outras cartas paulinas; além disso, o contexto eclesial em que esta carta nos situa é mais do final do séc. I ou princípios do séc. II do que da época de Paulo (o grande problema destas cartas já não é o anunciar o Evangelho, mas o “conservar a fé”, frente aos falsos mestres que se infiltram nas comunidades e que ensinam falsas doutrinas).
De qualquer forma, quem escreve a carta refere-se à vida de Paulo como uma vida integralmente preenchida pelo amor a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. Estamos numa época em que as comunidades cristãs se debatiam com as perseguições organizadas, a falta de entusiasmo dos crentes e as falsas doutrinas… Ao recordar, desta forma, o exemplo de Paulo, o autor desta carta pretende convidar os crentes em geral (e os animadores das comunidades, em particular) a redescobrirem o entusiasmo por Jesus e pelo testemunho da Boa Nova libertadora que Jesus veio propor aos homens.
MENSAGEM
O autor da carta apresenta-se na pele de Paulo, prisioneiro em Roma; e, nessa pele, faz um balanço final da sua vida e da sua entrega ao serviço do Evangelho.
A vida de Paulo foi, desde o seu encontro com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, uma resposta generosa ao chamamento e um compromisso total com o Evangelho. Por Cristo e pelo Evangelho, Paulo lutou, sofreu, gastou e desgastou a sua vida num dom total, para que a salvação de Deus chegasse a todos os povos da terra.
No final, ele sente-se como um atleta que lutou até ao fim para vencer e está satisfeito com a sua prestação. Resta-lhe receber essa coroa de glória, reservada aos atletas vencedores (e que Paulo sabe não estar reservada apenas a ele, mas também a todos aqueles que lutam com o mesmo denodo e o mesmo entusiasmo pela causa do “Reino”).
Para definir a sua vida como dom total a Deus e aos irmãos, Paulo utiliza aqui uma imagem bem sugestiva: a imagem da vítima imolada em sacrifício. Paulo fez da sua vida um dom total, ao serviço do Evangelho; a sua entrega foi um sacrifício cultual a Deus. Agora, para que o sacrifício seja total, só resta coroar a sua entrega com o dom do seu sangue… A referência à oferta “em libação” faz referência aos sacrifícios em que se vertia o vinho sobre o altar, imediatamente antes de ser imolada a vítima sacrificial.
Há duas maneiras de dar a vida por Cristo: uma é gastá-la dia a dia na tarefa de levar a libertação que Cristo veio propor a todos os povos da terra; outra é derramar, de uma vez, o sangue por causa da fé e do testemunho de Cristo… Paulo conheceu as duas modalidades; imitar Paulo é um desafio que o autor da carta a Timóteo faz aos discípulos do seu tempo e de todos os tempos.
Na segunda parte do nosso texto (vs. 16-18), o autor desta carta põe na boca de Paulo o lamento desiludido de um homem cansado que, apesar de ter oferecido a sua vida como dom aos irmãos se sente, no final, votado ao abandono e à solidão… Mas, apesar de tudo, Paulo tem consciência de que Deus esteve a seu lado ao longo da sua caminhada, lhe deu a força de enfrentar as dificuldades, o livrou de todo o mal e lhe dará, no final da caminhada, a vida definitiva. Daí o louvor com que Paulo termina: “glória a Ele por todo o sempre. Ámen”.
É esta a atitude que o autor da carta pede aos seus irmãos: apesar do desânimo, do sofrimento, da tribulação, descubram a presença de Deus, confiem na sua força, mantenham-se fiéis ao Evangelho: assim recebereis, sem dúvida, a salvação definitiva que Deus reserva a quem combateu o bom combate da fé.
ATUALIZAÇÃO
· Paulo foi uma das figuras que marcou, de forma decisiva, a história do cristianismo. Ao olharmos para o seu exemplo, impressiona-nos como o encontro com Cristo marcou a sua vida de forma tão decisiva; espanta-nos como ele se identificou totalmente com Cristo; interpela-nos a forma entusiasmada e convicta como ele anunciou o Evangelho em todo o mundo antigo, sem nunca vacilar perante as dificuldades, os perigos, a tortura, a prisão, a morte; questiona-nos a forma como ele quis viver ao jeito de Cristo, num dom total aos irmãos, ao serviço da libertação de todos os homens. Paulo é, verdadeiramente, um modelo e um testemunho que deve interpelar, desafiar e inspirar cada crente.
·  O caminho que Paulo percorreu continua a não ser um caminho fácil. Hoje, como ontem, descobrir Jesus e viver de forma coerente o compromisso cristão implica percorrer um caminho de renúncia a valores a que os homens dos nossos dias dão uma importância fundamental; implica ser incompreendido e, algumas vezes, maltratado; implica ser olhado com desconfiança e, algumas vezes, com comiseração… Contudo, à luz do testemunho de Paulo, o caminho cristão vivido com radicalidade é um caminho que vale a pena, pois conduz à vida plena.
·  Concordo? É este o caminho que eu me esforço por percorrer? Convém ter sempre presente esse dado fundamental que deu sentido às apostas de Paulo: aquele que escolhe Cristo não está só, ainda que tenha sido abandonado e traído por amigos e conhecidos; o Senhor está a seu lado, dá-lhe força, anima-o e livra-o de todo o mal. Animados por esta certeza, temos medo de quê?

Evangelho – Mateus 16,13-19 - AMBIENTE
O Evangelho deste domingo situa-nos no norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão, em Cesareia de Filipe (na zona da atual Bânias). A cidade tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.
O episódio que nos é proposto ocupa um lugar central no Evangelho de Mateus.
Aparece num momento de viragem, quando começa a perfilar-se no horizonte de Jesus um destino de cruz. Depois do êxito inicial do seu ministério, Jesus experimenta a oposição dos líderes e um certo desinteresse por parte do Povo. A sua proposta do Reino não é acolhida senão por um pequeno grupo – o grupo dos discípulos.
É, então, que Jesus dirige aos discípulos uma série de perguntas sobre Si próprio.
Não se trata, tanto, de medir a sua quota de popularidade; trata-se, sobretudo, de tornar as coisas mais claras para os discípulos e confirmá-los na sua opção de seguir Jesus e de apostar no Reino.
O relato de Mateus é um pouco diferente do relato do mesmo episódio feito por outros evangelistas (nomeadamente Marcos – cf. Mc. 8,27-30). Mateus remodelou e ampliou o texto de Marcos, acrescentando a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus e a missão confiada a Pedro.
MENSAGEM
O nosso texto pode dividir-se em duas partes. A primeira, de caráter mais cristológico, centra-se em Jesus e na definição da sua identidade. A segunda, de caráter mais eclesiológico, centra-se na Igreja, que Jesus convoca à volta de Pedro.
Na primeira parte (vs. 13-16), Jesus interroga duplamente os discípulos: acerca do que as pessoas dizem d’Ele e acerca do que os próprios discípulos pensam.
A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Batista”, “Elias”, “Jeremias” ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem, apenas, que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspectiva dos “homens”, Jesus é, apenas, um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vs. 13-14). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade do Messias, nem a profundidade do mistério de Jesus.
A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (v. 16). Nestes dois títulos, resume-se a fé da Igreja de Mateus e a catequese aí feita sobre Jesus. Dizer que Jesus é “o Cristo” (Messias) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva. No entanto, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é apenas o Messias: é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” é aplicada aos anjos (cf. Dt. 32,8; Sal. 29,1; 89,7; Job. 1,6), ao Povo eleito (cf. Ex. 4,22; Os 11,1; Jer. 3,19), aos vários membros do Povo de Deus (cf. Dt. 14,1-2; Is. 1,2; 30,1.9; Jer. 3,14), ao rei (cf. 2Sm. 7,14) e ao Messias/rei da linhagem de David (cf. Sal. 2,7; 89,27). Designa a condição de alguém que tem uma relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o “Filho de Deus” significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus uma relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza os projetos do Pai no meio dos homens. Os discípulos são convidados a entender dessa forma o mistério de Jesus.
Na segunda parte (vs. 17-19), temos a resposta de Jesus à confissão de fé da comunidade dos discípulos, apresentada pela voz de Pedro. Jesus começa por felicitar Pedro (isto é, a comunidade) pela clareza da fé que o anima. No entanto, essa fé não é mérito de Pedro, mas um dom de Deus (“não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai que está nos céus” – v. 17). Pedro (os discípulos) pertence a essa categoria dos “pobres”, dos “simples”, abertos à novidade de Deus, que têm um coração disponível para acolher os dons e as propostas de Deus (esses “pobres” e “simples” estão em contraposição com os líderes – fariseus, doutores da Lei, escribas – instalados nas suas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrir o coração aos desafios de Deus).
O que é que significa Jesus dizer a Pedro que ele é “a rocha” (o nome “Pedro” é a tradução grega do hebraico “Kephâ” – “rocha”) sobre a qual a Igreja de Jesus vai ser construída? As palavras de Jesus têm de ser vistas no contexto da confissão de fé precedente. Mateus está, portanto, afirmando que a base firme e inamovível, sobre a qual vai assentar a Ekklesia de Jesus é a fé que Pedro e a comunidade dos discípulos professam: a fé em Jesus como o Messias, Filho de Deus vivo.
Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe “as chaves do Reino dos céus” e o poder de “ligar e desligar”. Aquele que detém as chaves, no mundo bíblico, é o “administrador do palácio”… Ora o “administrador do palácio”, entre outras coisas, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano… Por outro lado, a expressão “atar e desatar” designava, entre os judeus da época, o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou re-introduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro para “administrador” e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino (atenção: todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino; mas aqueles que não estão dispostos a aderir às propostas de Jesus não podem aí ser admitidos).
Trata-se, aqui, de confiar a um homem (Pedro) um primado, um papel de liderança absoluta (o poder das chaves, o poder de ligar e desligar) da comunidade dos discípulos? Ou Pedro é, aqui, um discípulo que dá voz a todos aqueles que acreditam em Jesus e que representa a comunidade dos discípulos? É difícil, a partir deste texto, fazer afirmações concludentes e definitivas. O poder de “ligar e desligar”, por exemplo, aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf. Mt. 18,18). Provavelmente, o mais correto é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada essa comunidade que se reúne em volta de Jesus e que proclama a sua fé em Jesus como o “Messias” e o “Filho de Deus”. É a essa comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir. Isso não invalida que Pedro fosse uma figura de referência para os primeiros cristãos e que desempenhasse um papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria (as comunidades a que o Evangelho de Mateus se destina).
ATUALIZAÇÃO
· Quem é Jesus? O que é que “os homens” dizem de Jesus? Muitos dos nossos conterrâneos vêem em Jesus um homem bom, generoso, atento aos sofrimentos dos outros, que sonhou com um mundo diferente; outros vêem em Jesus um admirável “mestre” de moral, que tinha uma proposta de vida “interessante”, mas que não conseguiu impor os seus valores; alguns vêem em Jesus um admirável condutor de massas, que acendeu a esperança nos corações das multidões carentes e órfãs, mas que passou de moda quando as multidões deixaram de se interessar pelo fenômeno; outros, ainda, vêem em Jesus um revolucionário, ingênuo e inconseqüente, preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos, preocupados em manter o “statu quo”.
Estas visões apresentam Jesus como “um homem” – embora “um homem” excepcional, que marcou a história e deixou uma recordação imorredoira. Jesus foi, apenas, um “homem” que deixou a sua pegada na história, como tantos outros que a história absorveu e digeriu?
Para os discípulos, Jesus foi bem mais do que “um homem”. Ele foi e é “o Messias, o Filho de Deus vivo”. Definir Jesus dessa forma significa reconhecer em Jesus o Deus que o Pai enviou ao mundo com uma proposta de salvação e de vida plena, destinada a todos os homens. A proposta que Ele apresentou não é, apenas, uma proposta de “um homem” bom, generoso, clarividente, que podemos admirar de longe e aceitar ou não; mas é uma proposta de Deus, destinada a tornar cada homem ou cada mulher uma pessoa nova, capaz de caminhar ao encontro de Deus e de chegar à vida plena da felicidade sem fim. A diferença entre o “homem bom” e o “Messias, Filho de Deus”, é a diferença entre alguém a quem admiramos e que é igual a nós, e alguém que nos transforma, que nos renova e que nos encaminha para a vida eterna e verdadeira.
·  “E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão não significa papaguear lições de catequese ou tratados de teologia, mas sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para O seguir… Quem é Cristo para mim?
· É sobre a fé dos discípulos (isto é, sobre a sua adesão ao Cristo libertador e salvador, que veio do Pai ao encontro dos homens com uma proposta de vida eterna e verdadeira) que se constrói a Igreja de Jesus. O que é a Igreja? O nosso texto responde de forma clara: é a comunidade dos discípulos que reconhecem Jesus como “o Messias, o Filho de Deus”. Que lugar ocupa Jesus na nossa experiência de caminhada em Igreja? Porque é que estamos na Igreja: é por causa de Jesus Cristo, ou é por outras causas (tradição, inércia, promoção pessoal…)?
· A Igreja de Jesus não existe, no entanto, para ficar a olhar para o céu, numa contemplação estéril e inconsequente do “Messias, Filho de Deus”; mas existe para O testemunhar e para levar a cada homem e a cada mulher a proposta de salvação que Cristo veio oferecer. Temos consciência desta dimensão “profética” e missionária da Igreja? Os homens e as mulheres com quem contatamos no dia a dia – em casa, no emprego, na escola, na rua, no prédio, nos acontecimentos sociais – recebem de nós este anúncio e este convite a integrar a comunidade da salvação?
· A comunidade dos discípulos é uma comunidade organizada e estruturada, onde existem pessoas que presidem e que desempenham o serviço da autoridade. Essa autoridade não é, no entanto, absoluta; mas é uma autoridade que deve, constantemente, ser amor e serviço. Sobretudo, é uma autoridade que deve procurar discernir, em cada momento, as propostas de Cristo e a interpelação que Ele lança aos discípulos e a todos os homens.
p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho
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– A vocação de Pedro.
– O primeiro discípulo de Jesus.
– A sua fidelidade até o martírio.
Esta solenidade data dos primeiros tempos do cristianismo. “Os apóstolos Pedro e Paulo são considerados por todos os fiéis cristãos, com todo o direito, como as primeiras colunas, não somente da Santa Sé romana, mas também da Igreja universal do Deus vivo, disseminada por toda a terra” (Paulo VI). Fundadores da Igreja de Roma, Mãe e Mestra das demais comunidades cristãs, foram eles que impulsionaram o seu crescimento com o supremo testemunho do “seu martírio, padecido em Roma com fortaleza: Pedro, a quem Nosso Senhor Jesus Cristo escolheu como fundamento da sua Igreja e bispo desta esclarecida cidade, e Paulo, o Doutor das gentes, mestre e amigo da primeira comunidade aqui fundada” (Paulo VI). No Brasil, transfere-se esta festa para o primeiro domingo depois de 29 de junho.
I. SIMÃO PEDRO, como a maior parte dos seguidores de Jesus, era natural de Betsaida, cidade da Galiléia, às margens do lago de Genesaré. Era pescador, como o resto da família. Conheceu Jesus por intermédio de seu irmão André, que pouco tempo antes, talvez naquele mesmo dia, tinha passado uma tarde inteira em companhia de Cristo, juntamente com João. André não guardou para si o tesouro que tinha encontrado, “mas, cheio de alegria, correu a contar ao seu irmão o bem que tinha recebido”1.
Pedro chegou à presença do Mestre. Intuitus eum Iesus... “Jesus, fitando-o...” O Mestre cravou o olhar no recém-chegado e penetrou até o mais íntimo do seu coração. Como teríamos gostado de contemplar esse olhar de Cristo, capaz de mudar a vida de uma pessoa! Jesus olhou para Pedro de um modo imperioso e tocante. Nesse pescador galileu, ou melhor, para além dele, Jesus via toda a sua Igreja através dos tempos. O Senhor mostrou conhecê-lo desde sempre: Tu és Simão, filho de João! E também conhece o seu futuro: Tu te chamarás Cefas, que quer dizer Pedro. Nestas poucas palavras condensavam-se a vocação e o destino de Pedro, a sua tarefa neste mundo.
Desde o começo, “a situação de Pedro na Igreja é a da rocha sobre a qual se levanta o edifício”2. Toda a Igreja – e a nossa própria fidelidade à graça – tem como pedra angular, como alicerce firme, o amor, a obediência e a união com o Sumo Pontífice; “em Pedro, robustece-se a nossa fortaleza”3, ensina São Leão Magno. Olhando para Pedro e para toda a Igreja na sua peregrinação terrena, vemos que lhes podem ser aplicadas as palavras pronunciadas por Jesus: Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre rocha4. Rocha que, com as suas debilidades e defeitos, um dia foi escolhida pelo Senhor: um pobre pescador da Galiléia e os seus sucessores ao longo dos séculos.
O encontro de Pedro com Jesus deve ter impressionado profundamente os que o presenciaram, familiarizados como estavam com as cenas do Antigo Testamento. O próprio Deus tinha mudado o nome do primeiro Patriarca: Chamar-te-ás Abraão, que quer dizer Pai de uma multidão5. Também mudara o nome de Jacó pelo de Israel, que quer dizer Forte diante de Deus6. Agora, a mudança de nome de Simão não deixava de revestir-se de certa solenidade, no meio da simplicidade do encontro. “Eu tenho outros desígnios a teu respeito”, foi o que Jesus lhe deu a entender.
Mudar o nome equivalia a tomar posse de uma pessoa, ao mesmo tempo que era designar-lhe uma missão divina no mundo. Cefas não era nome próprio, mas o Senhor impõe-no a Pedro para indicar-lhe a função que desempenharia como seu Vigário e que lhe seria revelada de modo pleno mais tarde7. Nós podemos examinar hoje, na nossa oração, como é o nosso amor por aquele que faz as vezes de Cristo na terra: se rezamos diariamente por ele, se difundimos os seus ensinamentos, se o defendemos prontamente quando é questionado ao recordar a doutrina da Igreja, que é a mesma de sempre e que jamais mudará, ainda que mude o que os homens e as sociedades acham ou deixam de achar. Que alegria damos a Deus quando Ele vê que amamos, com obras, o seu Vigário aqui na terra!
II. ESTE PRIMEIRO ENCONTRO de Pedro com o Mestre não foi a chamada definitiva. Mas desde aquele instante o Apóstolo sentiu-se cativado pelo olhar de Jesus e por toda a sua Pessoa. Não abandona o seu ofício de pescador, mas acompanha Jesus e escuta os seus ensinamentos. É bem provável que tenha presenciado o primeiro milagre do Senhor em Caná, onde conheceu Maria, a Mãe de Jesus.
Um dia, às margens do lago, depois de uma pesca excepcional e milagrosa, Jesus convidou-o a segui-lo definitivamente8. Pedro obedeceu imediatamente – o seu coração fora sendo preparado pouco a pouco pela graça – e, deixando tudo, seguiu o Senhor, como discípulo disposto a compartilhar em tudo a sorte do Mestre.
Tempos depois, encontravam-se em Cesaréia de Filipe e, enquanto caminhavam, Jesus perguntou aos seus: E vós, quem dizeis que eu sou? Respondeu Simão Pedro e disse: Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo9. Mal pronunciou estas palavras, Cristo prometeu-lhe solenemente o primado sobre toda a Igreja10. Como Pedro se lembraria então do que Jesus lhe dissera uns anos antes, quando seu irmão André o levara até Ele: Tu te chamarás Cefas...!
Pedro não mudou de maneira de ser tão rapidamente como mudou de nome. Não manifestou do dia para a noite a firmeza que o seu novo nome indicava. A par de uma fé firme como rocha, vemos nele um caráter às vezes vacilante. Certa vez, chegou até a ser motivo de escândalo para o Senhor, ele que seria o fundamento da Igreja de Cristo11.
Deus conta com o tempo para formar cada um dos seus instrumentos, como conta também com a boa vontade de cada um deles. Nós, se tivermos a boa vontade de Pedro, se formos dóceis à graça, iremos convertendo-nos em instrumentos idôneos para servir o Mestre e para levar a cabo a missão que nos confiou. Até os acontecimentos que parecem mais adversos, os nossos próprios erros e vacilações, se recomeçarmos uma vez e outra, se abrirmos o coração ao sacerdote na direção espiritual, haverão de ajudar-nos a estar mais perto de Jesus, que não se cansa de suavizar e polir os nossos modos rudes e toscos. E é provável que, em momentos difíceis, cheguemos a ouvir como Pedro: Homem de pouca fé, por que duvidaste?12 E veremos Jesus ao nosso lado, estendendo-nos a mão.
III. JESUS TEVE especiais manifestações de afeto para com Pedro; no entanto, nos momentos dramáticos da Paixão, quando Jesus mais precisava dele, quando estava só e abandonado, Pedro negou-o.
Depois da Ressurreição, porém, numa ocasião em que Pedro e os outros Apóstolos tinham voltado ao antigo ofício de pescadores e se achavam em plena faina, Jesus foi procurá-lo especialmente a ele, e manifestou-se através de uma segunda pesca milagrosa, que lhe evocaria aquela outra após a qual o Mestre o convidara definitivamente a segui-lo e lhe prometera que seria pescador de homens. Agora, Jesus espera os discípulos nas margens do lago e, servindo-se de coisas materiais – uns peixes, umas brasas... –, sublinha diante deles o realismo da sua presença e reata ao mesmo tempo o tom familiar que imprimia ao seu convívio com os discípulos. Quando acabaram de comer, Jesus disse a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?...13
Depois anunciou-lhe: Em verdade te digo: Quando eras jovem, tu te cingias e ias aonde querias; quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará aonde não queres ir14. Quando São João escreveu o seu Evangelho, esta profecia já se tinha cumprido; é por isso que o Evangelista acrescenta: Jesus disse isto para indicar com que morte Pedro havia de glorificar a Deus. Depois o Senhor recordou a Pedro aquelas palavras memoráveis que um dia, anos atrás, nas margens daquele mesmo lago, tinham mudado para sempre a vida de Simão: Segue-me.
Uma piedosa tradição conta que, durante a cruenta perseguição de Nero, Pedro saía de Roma, a instâncias da própria comunidade cristã, em busca de um lugar mais seguro. Junto às portas da cidade, cruzou-se com Jesus que carregava a Cruz. E quando Pedro lhe perguntou: “Aonde vais, Senhor?” (Quo vadis, Domine?), ouviu a resposta do Mestre: “Vou a Roma para deixar-me crucificar novamente”. Pedro entendeu a lição e voltou para a cidade, onde o esperava a sua cruz.
Esta lenda parece um último eco daquele protesto de Pedro contra a cruz, quando o Senhor anunciou pela primeira vez a sua paixão15. Pedro morreu pouco tempo depois. Um historiador antigo refere que o Apóstolo pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por sentir-se indigno de morrer como o seu Mestre, de cabeça para o alto. O martírio do Príncipe dos Apóstolos é recordado por São Clemente, seu sucessor no governo da Igreja romana16. Pelo menos desde o século III, a Igreja comemora neste dia, 29 de junho, o martírio de São Pedro e São Paulo17, o dies natalis, o dia em que aqueles que foram as duas colunas da Igreja viram novamente a Face do seu Senhor e Mestre.
Apesar das suas fraquezas, Pedro foi fiel a Cristo, até dar a vida por Ele. Isto é o que lhe pedimos ao terminarmos esta meditação: fidelidade, apesar das contrariedades e de tudo o que nos seja adverso. Pedimos-lhe fortaleza na fé, como o próprio Pedro pedia aos primeiros cristãos da sua geração: que saibamos resistir fortes in fide18. “Que podemos pedir a Pedro para nosso proveito, que podemos oferecer em sua honra senão esta fé, na qual têm as suas origens a nossa saúde espiritual e a nossa promessa, por ele exigida, de sermosfortes na fé?”19
Esta fortaleza é a que pedimos também à nossa Mãe Santa Maria, para sabermos conservar a nossa fé sem ambigüidades, com serena firmeza, seja qual for o ambiente em que tenhamos de viver.
(1) São João Crisóstomo, em Catena Aurea, vol. VII, pág. 113;
(2) Paulo VI, Alocução, 24-XI-1965;
(3) São Leão Magno, Homilia na festa de São Pedro Apóstolo, 83, 3;
(4) Mt 7, 25;
(5) cfr. Gen 17, 5;
(6) cfr. Gen 32, 28;
(7) cfr. Mt 16, 16-18;
(8) cfr. Lc 5, 11;
(9) Mt 16, 15-16;
(10) Mt 16, 18-19;
(11) cfr. Mt 16, 23;
(12) Mt 14, 31;
(13) Jo 21, 15 e segs.;
(14) Jo 21, 18-19;
(15) cfr. Otto Hophan, Los Apóstoles, Palabra, Madrid, 1982, pág. 88;
(16) cfr. Paulo VI, Exort. Apost. Petrum et Paulum, 22-II-1967;
(17) João Paulo II, Angelus, 29-VI-1987;
(18) 1 Pe 5, 9;
(19) Paulo VI, Exort. Apost. Petrum et Paulum, 22-II-1967.
Francisco Fernández-Carvajal
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Evangelho: Mt. 16,13 – 19
1. Dentro do contexto do trecho de hoje (que vai até o v. 28) Pedro recebe a revelação de que Jesus é o Messias: “não foi alguém de carne e sangue que te revelou isso, e sim meu Pai do céu” (v. 17b). Mas para Pedro a revelação do Jesus-Messias não passa por um Jesus plenamente humano a ponto de enfrentar a morte. Pedro está ligado ainda a um Messias glorioso e poderoso (mentalidade da época).
2. Tanto que, logo após Jesus confirmar que Pedro será a pedra sobre a qual edificará a sua Igreja (v. 18-19), o mesmo Jesus vai dizer-lhe que ele é pedra de tropeço (satanás), porque não pensa do modo de Deus, mas do modo humano (v. 22-23).
3. A seguir Jesus vai mostrar as conseqüências para quem reconhecê-lo como Messias (vv. 24-28: tomar a cruz … perder a vida … que adianta ganhar o mundo inteiro …). O reconhecimento de Jesus-Messias conduz ao testemunho e à cruz. Pedro vai fazer um longo processo de conversão para identificar sua vida com a do Mestre. Vai deixar de lado um Messias à moda humana (à nossa imagem e semelhança) para tornar-se discípulo à imagem e semelhança de Jesus-Messias-Servo (1ª leitura).
4. Pedro recebe o título de satanás, porque não é inspirado pelo Pai, mas pelo inimigo, o rival que tem um projeto oposto ao do Pai (4,10), a pedra que se transforma em tropeço (cf. Is. 8,14-15). Pedro não aceita a paixão de seu Mestre porque não compreende o valor fecundo que ela tem.
5. Pedro (e nós também) tinha dificuldade em aceitar do seu Mestre os anúncios da paixão: um primeiro e antecipado anúncio da paixão em Mt 16,21-28, outro anúncio rápido em Mt. 17,22-23 e mais um novo anúncio da paixão em Mt. 20,17-19. Mateus e sua comunidade antecipam o anúncio da paixão e morte, iluminados pela Páscoa. Jesus vai ao encontro do seu destino, segundo a vontade do Pai plenamente aceita.
6. Veremos: a. quem é Jesus? – vv. 13-16
b. a comunidade nasce do reconhecimento de quem é Jesus – vv. 17-18
c. o projeto de Deus continua na comunidade – v. 19
a. Quem é Jesus? – vv. 13-16
7. Pedagogicamente Jesus leva os discípulos para longe de Jerusalém, centro do poder político, econômico e ideológico. Cesaréia de Filipe é uma espécie de “periferia” e terra que espera um anúncio qualificado acerca de quem é Jesus. Assim, a partir dessa realidade, – longe das influências ideológicas do centro, – é que os discípulos são convidados a dar uma resposta plena de quem é Jesus. (… será que hoje nós podemos dizer plena-mente quem é Jesus se estivermos comprometidos com os centros de poder?)
8. Dois momentos do episódio. Primeiro Jesus pergunta o que as pessoas (os outros) dizem dele (v. 13). A diversidade das respostas revela a insuficiência em responder à pergunta “quem é Jesus”, qualificando-o mais como um precursor dos tempos messiânicos. A sociedade e as pessoas tem uma visão distorcida de Jesus exatamente por causa da sua humanidade. O título de “Filho do Homem” o situa no chão da vida de todos os mortais, ele é carne e osso como qualquer um de nós. Por isso acontecem as distorções: João Batista, Elias, Jeremias ou um dos profetas (v. 14). Eles o situam na tradição profética, não ultrapassam a barreira do antigo, do velho (não há nada de novo ou de boa nova).
9. Num segundo momento Jesus interpela diretamente os discípulos: “para vocês quem sou eu?” (v. 15). Pedro responde: “Tu és o Messias (o Cristo), o Filho do Deus vivo!”(v. 16). Essa resposta é um dos pontos altos do evangelho de Mateus que tem a preocupação de mostrar Jesus enquanto Emanuel (=Deus conosco) e o Salvador (Jesus = Deus salva – cf.1,25). Jesus é a realização das expectativas messiânicas, o porta-dor da justiça que cria sociedade e história novas. Ele supera, portanto, a barreira do velho e introduz a grande “novidade” (o novo).
b. a comunidade nasce do reconhecimento de quem é Jesus – vv. 17-18
10. Reconhecer Jesus desse modo é ser bem-aventurado (v. 17), porque através dele o cristão mergulha no projeto de Deus realizado em Jesus. Ninguém chega a entender “quem é Jesus” a não ser mediante o compromisso com suas propostas (a justiça do Reino) que são as mesmas do Pai.
11. O reconhecimento de Jesus é fruto da vivência de seu projeto (prática da justiça). E a partir de pessoas que, como Pedro, o reconhecem e o confessam é que nasce a comunidade (v. 18a). Essa confissão é forte como a rocha, porém, não é fácil confessar. A comunidade cresce em meio aos conflitos (as portas do inferno ou o poder da morte), onde forças hostis procuram derrubar o projeto de Deus.
12. E Jesus confia a grande responsabilidade da liderança a quem o confessa como Messias. Qual a função dessa liderança?
12.1. Conservar – no meio dos conflitos decorrentes da prática da justiça, – a firme convicção de que o projeto de Deus irá triunfar (o poder da morte – a injustiça – não vai vencer). A função do líder é manter viva a esperança da comunidade em torno da justiça que inaugura o Reino.
12.2. Testemunhar, – mediante o contínuo processo de conversão-confissão, – que a salvação e a vida provêm de Deus. Conversão (explicitada nos vv. 21-23) onde Jesus mostra seu verdadeiro Messianismo através do sofrimento, rejeição e morte (ou seja, enfrentando o centro do poder que mantém a injustiça causadora da morte do povo). Pedro, antes pedra de edificação, se torna “satanás”, pois propõe um messianismo diferente (já rejeitado por Jesus nas tentações – cf. 4,1-11).
13. A conversão de Pedro (e… dos cristãos) é a conversão ao Cristo que sofre, é rejeitado e morre por causa da justiça do Reino. Confessar é aderir a ele com todas as conseqüências que o testemunho acarreta. O Mestre não é do jeito que Pedro imagina. O Mestre não é do jeito que nós imaginamos. O Mestre, justa-mente por ser o Mestre, quer que nós sejamos do jeito que ele é.
c. o projeto de Deus continua na comunidade – v. 19
14. Jesus, o Messias, o Enviado, realiza o projeto de Deus num contexto de conflitos e violência, passando pela morte e vencendo-a. Seu messianismo é uma luta em favor da justiça do Reino e contra as injustiças que promovem a morte. E o cristianismo, o que é? É o prolongamento da ação de Cristo que promove a justiça e a torna possível. O poder de Jesus é um poder que comunica vida. Sua prática o demonstra. Seu nome o comprova.
15. E quem ele quer como colaboradores seus? Aqueles que estão dispostos a confessá-lo, pois é a partir do testemunho que nasce a comunidade de Cristo (“construirei a minha Igreja”). E mais. Jesus faz com que suas testemunhas participem do seu poder de vida (“darei as chaves do Reino do Céu”).
16. Os projetos de morte tem poder, mas um poder relativo. O poder da comunidade das testemunhas de Cristo é o poder do mesmo Cristo: é o próprio Jesus quem age na comunidade, permitindo-lhe ligar e desligar. É Jesus quem construirá e dará do que é seu. A comunidade administra esse poder a partir do testemunho que vive e anuncia. Agindo assim, demonstra quem é a favor e quem é contra Jesus.
17. E Pedro? Sua liderança, em que consiste? Sua função é:
- ser o ponto de união da comunidade que Cristo edificou com sua vida, morte e ressurreição;
- organizá-la para que seja continuadora do projeto de Deus;
- ser aquele que (-a partir da prática do Mestre-) leva a comunidade ao discernimento e aceitação de tudo o que promove a vida e ao discernimento e rejeição de tudo o que patrocina e provoca a morte.
1ª leitura: At. 12,1-11
18. Paixão de Pedro, paixão de Jesus.
19. Jesus deixara claro aos discípulos que aceitá-lo como Messias e testemunhá-lo significaria enfrentar e superar conflitos. Mas também deixara claro que é ele quem constrói a comunidade dos que crêem e lhe confere o seu próprio poder. No livro dos Atos dos Apóstolos vemos de um lado a comunidade que sofre por causa dos conflitos e perseguições e do outro a experiência concreta da solidariedade de Deus, que a liberta de situações difíceis.
20. Depois do capítulo 12, os Atos praticamente ignoram Pedro. Lucas passa a se preocupar com a dinâmica da evangelização na pessoa de Paulo itinerante.
21. O capítulo 12 fala de uma comunidade perseguida pelo poder opressor de Herodes Agripa I (neto de Herodes,o grande, aquele dos inocentes), que fere de morte os líderes cristãos (vv. 1-2). Herodes mata por interesses políticos (v. 3a): agradar aos judeus. Nesse clima de perseguição Pedro é posto na prisão pela terceira vez. A intenção de Herodes é apresentá-lo ao povo após a festa da Páscoa (o povo certamente teria pedido a morte de Pedro e, concordando, Herodes se isentava de culpa).
22. No plano de Lucas o episódio pode se chamar a “páscoa de Pedro” à semelhança da “páscoa de Jesus” (Lc. 22-24).
22.1. Acontece com Pedro o mesmo que acontecera com Jesus. Há inclusive coincidência de datas: a referência à festa dos pães sem fermento (v. 3 com Lc. 22,1). Assim como o Pai libertou Jesus da morte, o anjo do Senhor liberta Pedro da prisão.
22.2. O aparato repressivo de Herodes (dezesseis soldados vigiando, Pedro amarrado com duas correntes, dois soldados amarrados às correntes de Pedro) ressalta:
- de um lado, o medo da sociedade estabelecida frente a quem luta pela justiça,
- e, de outro lado, a intervenção maravilhosa de Deus, que imobiliza e rompe as cadeias do poder opressor de modo inesperado. Até o fato de Pedro achar que tudo não passa de uma visão põe em primeiro plano a perfeita solidariedade de Deus para com os seus fiéis.
23. Face à perseguição que se dirige à alta direção da Igreja, às testemunhas imediatas de Jesus, a resistência da comunidade se dá em forma de fervorosa oração que sobe constantemente a Deus (v. 5) e de confiança de que ele não abandona os que lhe são fiéis. Deus é aquele que liberta continuamente a comunidade dos seus seguidores. Da mesma forma que libertou Jesus da morte, também conduzirá a comunidade através dos conflitos, na continuidade do anúncio do projeto de Deus. E a comunidade, por sua vez, reproduzirá em sua vida a paixão e a páscoa de Jesus, que é uma “paixão” por um mundo novo e libertado.
2ª leitura: 2Tm 4,6-8.17-18
24. Paixão de Paulo, paixão de Jesus.
25. O trecho pertence ao chamado ‘testamento de Paulo’. Ele está acorrentado, prestes a morrer. E aproveita para fazer uma revisão de sua vida, olhando o passado e olhando o futuro. Para ele, tudo é graça de Deus.
26. Chegou o momento de dar o grande testemunho. Seu sangue derramado, ele interpreta como sacrifício de valor expiatório: “já fui oferecido em libação” (v.6a). A libação de vinho, água ou óleo era, nos sacrifícios judaicos, derramado sobre a vítima (Ex. 29,40; Nm. 28,7). O sangue, que Paulo irá derramar, fará aumentar e incrementar a evangelização. A partida do apóstolo é descrita como dissolução, ou seja, soltar as velas, permitindo ao barco partir. A morte não é o fim, mas o início da nova viagem. É o último gesto de auto-entrega, a porta de entrada para a meta definitiva. Qual meta? “O Senhor… me levará para o seu Reino eterno” (4,18b).
27. Olhando o passado, Paulo tem consciência de ter cumprido sua missão de forma exemplar, com garra e constância. Usa o exemplo do soldado: “combati o bom combate”, e do atleta que corre no estádio: “terminei minha corrida”. Mas o fundamental para ele é ter corrido em vista da evangelização: “guardei a fé!” (v. 7).
28. Olhando para o futuro tem esperança de receber a coroa da justiça. Como o atleta vitorioso recebia a coroa da vitória, Paulo receberá a coroa da justiça, que é símbolo da imortalidade, da vitória, da alegria e da recompensa que Deus, justo juiz, conferirá a ele e a todos os que esperam e lutam com amor para que o projeto de Deus seja conhecido e aceito (v. 8)
29. A seguir relata os últimos acontecimentos de sua vida e o que se passou no tribunal. Como aconteceu com Jesus, também aconteceu com ele: “todos me abandonaram” (cf. Mt. 26,31). Ele não teve advogado de defesa. Prisioneiro sem advogado,… sem amigos,… sem recursos. Contudo, Paulo não se ressente disso, e pede que “isto não lhes seja levado em conta” (v. 16) como Jesus: “Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem” (Lc. 23,24).
30. O comparecimento de Paulo perante o tribunal é motivo de testemunho “a fim de que a mensagem fosse proclamada e ouvida por todas as nações” (v. 17b; cf. Lc. 21,13). A paixão de Paulo é o prolongamento da paixão de Jesus (cf. Cl. 2,14: “completo em minha carne o que falta nas tribulações de Cristo”).
31. – O apóstolo não tem mais esperança de viver, embora sua sentença tenha sido retardada por um pouco de tempo (v. 17c).
- Contudo, sua esperança se fundamenta – não numa salvação momentânea, – mas na intervenção definitiva de Deus que o levará salvo para o seu Reino (v. 18a).
- Abandonado por todos, sua única esperança é Jesus. E isso se torna motivo de profunda alegria, que o leva a render graças e a dar glória a Deus enquanto viver (v. 18b).
R e f l e t i n d o
1. A comemoração dos santos na Igreja nos leva a participar da vida do Cristo que foi assumida e encarnada por eles. Nos santos se manifesta o que Deus faz por nós e como ele é admirável. Este é o significado da festa para nossa comunidade.
2. Mais do que recorrer à intercessão dos santos, o importante é perguntar-nos quem foi realmente aquela pessoa? Que conflitos viveu, que dificuldades passou e superou, que pecados cometeu? Isto porque os santos não foram isentos de limitações e pecados (não eram anjos!). O que importa realmente é que diante das próprias limitações e apesar delas e dos próprios pecados, eles fizeram opção radical por seguir Jesus Cristo, confiantes na graça do Espírito e na misericórdia do Pai.
3. Hoje a pergunta é: quem foi Pedro? Quem foi Paulo? Como viveram? O que fizeram da própria vida? Qual foi o centro (o ideal) da vida deles? Por que (por qual motivo) viveram desse jeito?
4. Ajudando a responder estas perguntas, o evangelho de hoje propõe a pergunta fundamental para a nossa vida de cristãos: quem é Jesus para nós?
5. Mateus, na sua narrativa, começa de longe, com Jesus perguntando: ”quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Aí é fácil. Eles respondem logo dizendo o que os outros pensam: João Batista, Elias, Jeremias ou um dos profetas. Dizer o que os outros dizem, repetir opiniões e convicções alheias é fácil. Mas Jesus vai ao ponto central: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
6. Esta é a verdadeira pergunta. Aquela que merece resposta verdadeira: vós (não os outros!) o que pensais? Quem responde a esta pergunta conhece o risco que corre. Repetir simplesmente a idéia dos outros não compromete. Será sempre a opinião dos outros, não tem nada a ver conosco (comigo!), não nos envolve em nada, não nos compromete …
7. A verdade da resposta de Pedro revela a identidade de Jesus: “o Cristo, o Filho do Deus vivo!” Essa resposta comprometeu Pedro com Jesus, pois reconheceu quem ele é e a ele aderiu. Jesus acolhe esse comprometimento profundo de Pedro e o chama de bem-aventurado. Pedro reconhece do fundo do coração (não é uma simples idéia da sua cabeça ou uma constatação!), faz um ato de fé e de entrega a esse Mestre. Essa resposta tem conseqüências!
8. Quais conseqüências? Quando não conhecemos (ou reconhecemos) verdadeiramente “quem é Jesus”, não podemos seguí-lo nem aderir a ele e ao seu projeto de vida. Seguiremos as opiniões dos outros, as convicções dos outros, talvez o caminho dos outros, … mas não o caminho de Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo!
9. Apesar dessa confissão de fé e dessa adesão, Pedro continua com suas limitações. Não aceita que Jesus fale de sua paixão (e Jesus o chama de satanás); não queria que Jesus lhe lavasse os pés; usa a espada no monte das oliveiras; negou Jesus três vezes… e depois no primeiro momento da história da Igreja fica indeciso diante dos problemas dos não-judeus e das tradições judaicas.
10. Entretanto, Jesus o estabelece como ponto de comunhão (tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja!) entre os discípulos. Ele será o responsável por manter unidos aqueles homens (tão diferentes) no seguimento de Jesus, o Mestre. Ele não é melhor que ninguém, talvez um dos mais “fracos” dos discípulos, pois, além de abandonar Jesus no pior momento, também o renegou. Por que Jesus o escolheu? Porque Pedro (apesar dos seus pecados) se entregou totalmente no seguimento de Jesus: “tu sabes que eu te amo! Tu sabes o quanto eu te amo! Tu sabes que eu sou fraco… mas tu sabes também o quanto te amo!”
11. Essas dificuldades e limitações de Pedro no seguimento de Jesus fazem dele um homem comum, de carne e osso, “humano” como todos nós. Pedro é um homem verdadeiro, espontâneo, honesto. Quando reconhece que errou volta atrás, se arrepende e continua seu comprometimento com o Mestre. Comprometimento que levou até às últimas conseqüências: perseguido, preso e martirizado.
12. Pedro foi um homem muito parecido conosco, muito humano nas suas limitações e quedas. Mas principalmente foi um homem verdadeiro (honesto consigo mesmo!) que descobriu a verdadeira identidade de Jesus e o seguiu verdadeiramente (entrega total, de corpo e alma) … até o fim!
13. E Paulo? Paulo de Tarso tem na 2ª leitura de hoje um resumo da sua vida, feito por ele mesmo, pouco antes do seu martírio. Nesse momento ele relembra as dificuldades por que passou, reafirma sua adesão a Cristo e, mais uma vez, toma consciência da sua pertença ao Senhor e da certeza do seu amor misericordioso.
14. Em trechos dos Atos ou de suas cartas ficamos conhecendo a rica personalidade de Paulo: judeu, fariseu observante e zeloso, discípulo do rabino Gamaliel, versado nas Sagradas Escrituras, ferrenho procurador e defensor da verdade. E também radical perseguidor dos cristãos por acreditar que eram contra o Deus verdadeiro.
15. O encontro e o reconhecimento de Jesus (quem és tu, Senhor? Eu sou Jesus a quem tu persegues!… At. 9,5) muda completamente a sua vida: de perseguidor para ardente evangelizador (ai de mim se não evangelizar!). Quando Paulo encontra a verdade da sua vida, não hesita em abraçá-la e seguí-la radicalmente, apesar de todas as dificuldades e todas as perseguições.
16. De personalidade forte, “briguento”, muitas vezes “radicalista”, Paulo será o grande responsável pela abertura do cristianismo a todos os povos (ele é o grande evangelizador, o grande missionário de Jesus Cristo… e, olha, ele era o grande perseguidor dessa mensagem!). Ele é a peça-chave para o primeiro movimento de “saída” e “inculturação” do novo modo de vida que estava nascendo. Sem Paulo, o cristianismo não seria o mesmo de hoje.
17. A celebração do martírio de Pedro e Paulo revela-nos o Mistério Pascal em três aspectos:
a. o enraizamento do Amor do Pai, como Jesus experimentou;
b. a resistência fundamentada na participação da Ceia-memória do Senhor e no testemunho de sua Palavra;
c. a experiência da vida fraterna (um só coração e uma só alma!).
Enquanto participamos da Páscoa do Senhor acontecida no testemunho-martírio de Pedro e Paulo vemos realizada em nós a Paixão de Jesus e sua Ressurreição.
18. Somos também continuadores e continuadoras da experiência apostólica: discípulos, missionários, testemunhas, mártires (martyria = testemunho). E o mundo inteiro e todas as gentes tem direito a esse anúncio de vida, a esse testemunho de vida: “ai de mim se eu não evangelizar!”
19. Temos tanta certeza do caminho dos apóstolos-mártires que rezamos:
- “Que Ele faça de nós uma oferenda perfeita para alcançarmos a vida eterna com os vossos santos: a Virgem Maria, Mãe de Deus, os vossos apóstolos e mártires” (oração eucarística II).
- “Esperamos entrar na vida eterna com a Virgem, Mãe de Deus e da Igreja, os apóstolos e todos os santos, que, na vida, souberam amar a Cristo e aos irmãos” (oração eucarística V).
- Celebrando a memória desses santos, dispomo-nos à mesma transformação de vida que viveram: “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”!
prof. Ângelo Vitório Zambon
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