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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sábado, 22 de junho de 2013

QUEM O POVO DIZ QUE EU SOU?


CARO LEITOR. VEJA QUEM ESTÁ POR TRÁS
DAS MANIFESTAÇÕES NO BRASIL.
 O PADRE RICARDO E SUA EXPLICAÇÃO
SOBRE UM POSSÍVEL GOLPE D ESTADO.


XII DOMINGO DO TEMPO COMUM
DOMINGO 23 DE JUNHO

Comentário Prof.Fernando



            Comecemos a nossa reflexão pela carta de Paulo, o qual nos diz que todos somos filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo.  Sim, Paulo. Somos filhos de Deus, porém, muitos desses filhos hoje estão sendo abandonados pelos pais... Continua...

AFINAL, POR QUE O BRASILEIRO ESTÁ INDIGNADO? José Salviano


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XII DOMINGO DO TEMPO COMUM 23/06/2013
Diac. José da Cruz
1ª Leitura Zacarias 12, 10-11, 13,1
Salmo 62,2 abcd 2e -4.5-6,8-9
Evangelho Lucas  9, 18-24

Parece estranho que naquela altura da caminhada, Jesus dirija a seus discípulos uma pergunta tão provocante “Quem sou eu para vocês?”.. Tem-se a impressão de que, até ele ficou meio receoso de ir direto ao assunto, e primeiro perguntou a eles, quem o povo dizia que era ele, e quando o coitado do Pedro deu aquela resposta no “capricho”, Jesus parece ter sido “duro”dando um solene “cala boca”, exigindo que ele não contasse a ninguém, parece que queria guardar segredo sobre a sua pessoa e missão, Que problema havia, na resposta de Pedro?
Quando vamos à celebração da Palavra ou da santa Missa, quando recebemos algum sacramento, quando vivemos o nosso dia a dia, rezando em alguns momentos, trabalhando ou estudando, dirigindo no transito, conectados a internet, assistindo TV, em um estádio de futebol, em uma chácara ou na piscina, na praia ou no campo, nos desafios do trabalho pastoral ou no exercício de um ministério, será que a nossa conduta é coerente com aquilo que pensamos de Jesus?
Jesus não está preocupado com a sua imagem, ou conceito ou o discurso que se faz dele, mas quer saber qual a importância dele em nossa vida, nas decisões do dia a dia, em certas atitudes que somos obrigados a tomar, na vida em família, na comunidade, no trabalho ou na escola, quando estamos alegres ou tristes, quando estamos atarefados e com mil preocupações á cabeça, ou quando estamos tranqüilos e em paz, quando estamos endividados ou quando pagamos todas as nossas contas, é aí que precisamos definir quem é ele em nossa vida, o que ele representa, ou a diferença que faz, crer ou não crer, viver a Fé ou ignorá-la, assumir ou não assumir o Batismo, ser igreja ou não ser de nada... ir sempre, vestir a camisa, ou ir de vez em quando e manter um pé atrás, sempre desconfiados com essa Igreja de Cristo, conduzida por homens. Note-se que a indagação é feita ao grupo e que podemos interpretar assim: qual é o Jesus de nossas comunidades e paróquias? Pois é aí que somos Igreja.
O discurso que se faz sobre Jesus é sempre muito bonito, certos pregadores conseguem arrancar lágrimas dos seus ouvintes. Mas... e depois... .o que muda ou o que fica? Na verdade, nesse 12º Domingo do tempo comum, estamos diante de dois modelos distintos, o Jesus da Pós Modernidade, que é um Jesus bem light, liberal, bem açucarado, sem muitas exigências, um Jesus que “pega leve” e vai minimizando ou relativizando a Lei do Senhor e os valores do evangelho, o caráter doutrinário em questões polêmicas como: pena de morte, aborto, do adultério e todas essas coisas que nos incomodam. Um Jesus bem aprumado, olhos azuis, loiro, dois metros de altura, de um Jesus que pede uma conversão, que não precisa ser tão radical. Um Jesus que vira e mexe, faz algum milagre, chamando unicamente para si, a responsabilidade de fazer as mudanças acontecerem, se a coisa não anda e está emperrada, chama Jesus e está resolvido. Esse Jesus da Pós Modernidade faz um sucesso tremendo, lota templos, estoura a audiência, agrega multidões e acima de tudo, ajuda a encher os cofres dos espertalhões da Fé, que juram ser os emissários de Deus, podendo garantir ainda nesta vida, um cantinho no céu para os que forem fiéis seguidores desse “Jesus” idealizado pela Pós modernidade.
O Jesus que se apresenta diante dos discípulos e diante de todos nós, neste evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum, não é um Jesus de muito sucesso. Principalmente por que fala em sofrimento, padecimento, rejeição e morte, uma catástrofe para a Pós Modernidade, quem vai querer seguir um Jesus assim? Nós mesmos, que somos cristãos de “carteirinha”, quantas vezes, diante de um sofrimento iminente, não rezamos, pedindo para que Deus afaste de nós tal dissabor... Não é mesmo? Sofrimento e pós modernidade, são palavras que não combinam.
E no final do evangelho, o que já era ruim, ficou ainda pior: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e siga-me, pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas quem sacrificar a sua vida, por causa de mim, irá salva-la”. Com um discurso assim, as Igrejas irão esvaziar-se, e Jesus vai ficar falando sozinho, porque renúncia e desapego, também não combinam de forma alguma, com a pós-modernidade, que nos ensina a sempre ganhar, nunca perder!
Será que não existe aí uma alternativa? Um modo mais brando de se viver a Fé e freqüentar a comunidade, sem que haja necessidade de encarar uma “cruz” no meio do caminho? Infelizmente nas palavras de Jesus não há atenuantes, ou aceitamos viver esses ensinamentos, ou então desistimos, tiramos o time de campo, enquanto ainda é tempo, mesmo porque, o Reino é uma proposta... “Se alguém quiser...”
Ninguém precisa casar na igreja, batizar-se, fazer catequese, ser confirmado na Fé, confessar-se, receber a Eucaristia, receber o Sacramento da Ordem, ou a unção que nos fortalece na enfermidade, enfim, ninguém é obrigado a crer no Senhor Jesus e ser discípulo, e nem por isso Deus irá deixar de amar, aquele que assim agir. Trata-se de uma proposta, para quem quiser desinstalar o sistema em sua vida, contaminado pelo hacker do pecado, e reiniciar o processo, agora configurado com o homem novo Jesus Cristo, o primogênito de toda criatura. Uma proposta revolucionária para homens e mulheres ousados, dispostos a transformar o mundo com o seu testemunho, porque tem forças suficientes na graça de Deus, mastigando os “freios” da pós modernidade, libertando-se do cabresto e trilhando um caminho novo, fazendo uma história nova, exatamente nas pegadas de Jesus de Nazaré, Aquele que vai á frente das comunidades, mostrando a plenitude que aguarda todos os que vivem pela Fé, sem medo de Ser Feliz, passando pela “morte” que leva á Vida.
Deixo para as comunidades cristãs, essa pergunta que sempre me faço: Que Jesus é o nosso? Será que podemos anunciá-lo com toda firmeza e convicção, ou como Pedro, ouviremos dele um solene “cala a boca?” ( 12º Domingo do Tempo Comum – Lc 9, 18-24)

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“E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU”? - Olívia Coutinho
XII DOMINGO DO TEMPO COMUM
Dia 23 de Junho de 2013
Evangelho de Lc 9, 18-24

É pela fé que reconhecemos Jesus como o nosso Deus e Senhor, o que não é fruto do esforço humano, mas sim, do acolhimento a este  dom de Deus que  é a fé.
Não basta reconhecer Jesus como Deus e Senhor, e nem ser somente  um seu admirador, é preciso ir mais além, comprometer-se com Ele, testemunhá-Lo no nosso dia a dia, aceitar o seu chamado, aderindo à sua proposta de vida nova!
Nossa opção por Jesus, deve ser radical, estar com Ele em toda e qualquer situação, ser um cristão por inteiro!
Muitas vezes, professamos a nossa fé em Jesus e até sentimos atraídos pelas suas propostas, mas quando tomamos conhecimento de que no seguimento a Ele, inclui a cruz, tendemos a recuar,  sinal de que ainda não temos uma fé suficientemente  madura para aceitarmos  o desafio da cruz!
O evangelho que a liturgia de hoje nos apresenta, vem nos despertar para a importância  de conhecer Jesus, de nos tornar  íntimos Dele!
O texto nos diz, que Jesus, no desejo de saber se os seus discípulos, já haviam entendido o seu messianismo, lança-lhe duas perguntas. “Quem dizem o povo que eu sou? Para esta pergunta, surgiu várias resposta, afinal, é fácil responder em nome do outro, não compromete! Já  quando esta mesma pergunta, é direcionada aos discípulos, vem o silencio, afinal,  desta vez, a pergunta requer uma resposta pessoal, o que é  mais difícil, pois exige  comprometimento! 
Pedro, foi o único que respondeu com firmeza: “Tu és o Messias de Deus”. Esta resposta de Pedro, é  fruto da sua convivência com Jesus,  ele  reconhece Jesus como Sendo  o Cristo de Deus, mas continua caminhando na obscuridade, ainda carregando consigo a mentalidade do mundo, alimentando dentro de  si,  a ideia de um messias glorioso sem a cruz.
 Mesmo afirmando reconhecer a identidade de Jesus, Pedro demonstra não  haver  assumido de fato a condição  de um verdadeiro discípulo de Jesus.
E Jesus, que conhece tudo, percebe  a dificuldade dos discípulos  em aceitar o desafio da cruz, por isto insiste em   fazê-los compreender que, sem a cruz, é impossível entender quem é Ele e o que significa  segui-Lo.
Jesus proíbe severamente aos discípulos de revelar a sua identidade a quem quer que fosse, afinal, um povo que esperava um Messias triunfalista com poderes políticos, jamais aceitaria um Messias  na condição de servo. Ele sabia que não seria reconhecido como  Filho de Deus  sem antes passar pela cruz!
Hoje, depois  de ter passado pela cruz, de nos ter dado tão grande prova de amor, Jesus não nos faz mais  perguntas, mas Ele espera de cada um de nós, uma resposta de amor!
Façamos a nós mesmo uma pergunta: “O que temos  feito da nossa  vida, que custou a vida de Jesus? Com certeza, a nossa resposta chegará até  Ele, não com palavras, mas com as nossas atitudes do dia a dia. É nas ações do nosso dia a dia, que vamos respondendo  ao seu  tão grande amor!
Sem  aprofundarmos no conhecimento à Jesus, ficamos  no superficial da fé, na lógica dos homens,  não vamos compreender, que, para ganhar a vida, é preciso passar pela cruz, assim como Jesus passou.
O seguimento a  Jesus inclui  à cruz, pois a nossa  adesão a Ele, nos leva a atitudes que contrariam  os seus opositores.
Carregar a cruz, não é buscar  sofrimento, e sim, viver as conseqüências  de uma vida pautada no exemplo de Jesus, de uma vida coerente com o evangelho.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia

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Evangelhos Dominicais Comentados

23/junho/2013 – 12o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Lc 9, 18-24)

Estando Jesus orando a sós com os discípulos, perguntou-lhes: “Quem as multidões dizem que eu sou?” Responderam-lhe: “Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros ainda, que ressuscitou algum dos antigos profetas”. Perguntou-lhes então: “E vós, quem dizeis que eu sou?” – “O Cristo de Deus”, respondeu Pedro. Mas Jesus proibiu-lhes severamente falar disso a quem quer que fosse. E acrescentou: “O Filho do homem deve sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. E disse a todos: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará”.

Como sempre o fazia, Jesus estava rezando num lugar retirado para melhor se concentrar. Após a oração, Jesus interroga os discípulos: “Quem diz o povo que eu sou?” Jesus não precisava fazer essa pergunta. Ele, o próprio Deus, certamente sabia de tudo o que se passava nas mentes das pessoas.
Mas, Jesus queria ouvir uma resposta vinda de seus discípulos. Afinal eles andavam no meio do povo e sabiam a opinião popular. Ao perguntar quem o povo achava ser ele, Jesus quer mostrar-nos a importância de levar a sério a opinião e as necessidades dos nossos comandados.
O pastor, o líder comunitário, o coordenador de pastoral, devem manter-se atentos e cumprir com zelo suas obrigações paroquiais e trabalhos pastorais, colocar-se a serviço para que possam ser verdadeiramente úteis à comunidade.
Após tomar ciência do pensamento do povo, Jesus foi além e questionou-os: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou?” “tu és o Messias, o Filho de Deus!” Respondeu Pedro com toda convicção. Em outro momento, para mostrar que a nossa fé é um dom de Deus, Jesus afirma que quem revelou isso a Pedro foi o Espírito Santo.
O Espírito Santo revela os mistérios de Deus para todos, convidando-nos a aderir à sua causa. No entanto, só uma pequena porção da humanidade responde a este chamado de fé. Somente alguns aceitam ouvir e seguir o Messias Filho do Deus Vivo. Somente alguns dizem: “Sim, aqui estou, Senhor!”
Jesus insiste em convidar-nos a segui-lo, mas respeita nossa decisão. Também deixa claro que segui-lo não é fácil. O caminho é difícil, pedregoso e a porta ao final, é estreita. Poucos passarão, poucos poderão ultrapassá-la. A recompensa, a garantia de glória eterna, exige sacrifício, exige renúncia.

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo!” - disse Jesus – Renunciar a si próprio quer dizer, renunciar ao egoísmo, aos bens supérfluos, ao poder e à ganância, à vaidade e influência política. Renunciar a tudo que nos distancia de Deus, e que nos impede de continuar o trabalho missionário de Jesus no mundo.

“Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim vai salvá-la”. Com estas palavras o Mestre quer ensinar que só encontra sentido para viver quem doa sua existência e se desgasta por causa dele em favor dos irmãos.

Essa doação Jesus espera encontrar em cada um de nós. Oferece-nos também a cruz, porém, não mais como instrumento de morte. Com sua ressurreição, Jesus transformou a cruz em ponte para a vida. Por isso, quer ver-nos carregando nossa cruz com dignidade, não como motivo de sofrimento, mas sim como meio de santificação e de salvação para nós e para toda a humanidade.

Aos seus discípulos e a Pedro, Jesus proibiu severamente que falassem, a quem quer que fosse, que ele era o Messias. Entretanto, a nós, ele pede insistentemente, que nossa coragem se redobre e que saiamos a campo gritando por toda parte que o Cristo ressuscitou, que está vivo, e quer habitar em nossos lares e em nossos corações!

Esta é a Boa notícia de hoje.

(4038)


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Tu és o Cristo de Deus.-Claretianos

Domingo, 23 de junho de 2013
12º Domingo do Tempo Comum
Santos do Dia:Agripina de Roma (virgem, mártir), Edeltrudes (viúva, monja), Félix de Sutri (mártir), Hidulfo de Lobbes (monge), João de Roma (mártir), José Cafasso (presbítero), Liberato de Cambrai (bispo), Pedro de Juilly (monge), Tiago de Toul (bispo), Tomás Garnet (jesuíta, mártir), Zeno e Zenas (mártires).
Primeira leitura: Zacarias 12, 10-11
Contemplarão aquele a quem transpassaram. 
Salmo responsorial: 62, 2.3-4.5-6.8-9
A minh’alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus! 
Segunda leitura: Gálatas 3, 26-29
Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo.
Evangelho: Lucas 9, 18-24
Tu és o Cristo de Deus. O Filho do Homem deve sofrer muito.
A primeira leitura faz referencia aos tempos messiânicos. “Derramarei sobre a casa de Davi um espírito de graça e de oração. E olharão aquele que transpassaram” e chorarão como quem chora um primogênito. O “transpassado” lembra o Servo de Javé, figura de Cristo em sua paixão. João conclui a crucifixão de Jesus dizendo: “para que se cumpram as escrituras: olharão para aquele que transpassaram”. Deus concede a conversão do coração por meio de uma vítima, que é Cristo, o servo paciente; seu corpo transpassado será visto com o olhar salvador da fé.
A segunda leitura aborda o tema da lei mosaica como desnecessária. Abolida depois da vinda de Cristo, a fé nele é o que nos justifica diante de Deus. Paulo, na carta aos Gálatas, alerta aos judeu-cristãos que não queriam se desapegar das formas judaizantes e que viam com receio a doutrina e a práxis do apóstolo.
Por isso, depois de afirmar a função transitória e pedagógica da lei, Paulo afirma o passo e a realização atual das promessas na vida de Cristo e a fé no Evangelho. Cristo é o acontecimento decisivo da historia de salvação; pela fé nele e pelo batismo somos constituídos filhos de Deus e nele justificados. Ao dizer “todos” Paulo acentua que não somente os judeus, mas também as demais raças e povos são destinatários da salvação de Cristo.
Quanto ao Evangelho, três partes compõem a leitura: 1). A confissão messiânica de Pedro (vv.18-22); 2). O primeiro anuncio da Paixão (v.22); Lucas omitiu a repreensão que Jesus dirige a Pedro quando este, ante o anuncio da paixão, se opõe a isto; 3). As condições para o seguimento de Jesus Cristo (vv. 23-24).
Lucas é o único a notar a oração de Jesus que precede a confissão de messianidade e o anuncio da Paixão (v. 18). Como a figura do Messias na mente dos apóstolos estava repleta de triunfalismos terrenos, Jesus os educa nesse grande mistério do Reino: sua Paixão e Morte (v. 22). Finalmente temos uma passagem que nos faz lembrar o discurso apostólico de Mateus 10: condições que Jesus pede a seus seguidores: abnegação, disponibilidade absoluta e sofrimento efetivo (vv.23-24).
Se queremos seguir Jesus, temos que aceitar suas condições e entendê-las como ele as entende. Negar-se a si mesmo equivale a “não ter nada que ver” com a pessoa que se renega. Negar-se a si mesmo é descentrar-se. Não ser já o centro de seu próprio projeto. É colocar a vida inteira a serviço do outro, nesse caso o projeto de Jesus.
A isto Jesus chama perder a vida por ele. E quem o faça assim, “ganhará”, salvará a sua vida. A condição posta por Jesus para segui-lo não pretende tirar o valor e sim orientar nossas energias e valores para a construção do Reino que ele iniciou negando-se, também ele, a si mesmo, para cumprir em tudo a vontade do Pai.
Em que consiste carregar a cruz? É acaso suportar tudo sem reclamar como se toda contrariedade viesse do próprio Deus. É submeter-se à dor pela dor, como se a dor fosse um valor em si mesmo? Jesus Cristo quer dizer que todos os discípulos tem que estar dispostos a viver da mesma maneira que ele viveu, mesmo sabendo que esse estilo de vida vai causar a perseguição e até a morte.
Essa é a cruz de Jesus e também deve ser a nossa. Não inventemos cruzes à nossa medida, não nos preocupemos em buscá-las e nem nos preocupemos demais por elas. Sigamos os passos de Jesus e outros colocarão as cruzes em nós, antes mesmo que o pensemos.
Negar-se a si mesmo e carregar a cruz equivale a tornar seu, de cada um de nós, o caminho de Jesus. Ele se negou a tomar o poder à força, e a fama como meios para servir e salvar os homens. Jesus escolheu o único caminho que conduz ao coração do homem: a solidariedade com todos os desgraçados da terra.
Este foi o caminho de Jesus e este tem que ser nosso caminho se queremos estar com ele, segui-lo. Tentar seguir Jesus a partir da instalação, a falta de compromisso, o pacto com os poderosos, ainda que possa parecer muito razoável, é um falso caminho. É pensar como os homens e não como Deus.
Oração: Ó Deus, Pai misericordioso, que quiseste preparar os caminho de teu Filho com o envio de João Batista como seu “precursor”; faze de nós todos “precursores” de teu Filho, para que aplainemos os caminhos e eliminemos os obstáculos ao crescimento do amor e da unidade, por nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo.


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A Palavra que hoje escutamos coloca-nos diante da questão fundamental de nossa fé: quem é Jesus de Nazaré? Sejamos espertos; estejamos atentos a um detalhe importantíssimo: Jesus distingue a pergunta sobre a opinião do mundo daquela outra, sobre a fé dos discípulos. “Quem diz o povo que eu sou?” E as opiniões são humanas e, portanto, incompletas, parciais, superficiais: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. Ainda hoje é assim: o mundo não poderá jamais compreender Jesus em sua profundidade e verdade última. Uns acham-no um sábio; outros, um iluminado, ou um filósofo, ou um humanista, ou um revolucionário romântico, do tipo Che Guevara; outros acham-no, sinceramente um alienado ou um falso profeta... Em geral, o mundo atual, vê-lo quase como um mito, bonzinho, romântico, mas sem muita serventia prática...
Mas, Jesus, pergunta aos discípulos, pergunta a nós: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta de Pedro é perfeita, é completa: “Tu és o Cristo, o Ungido, o Messias de Deus”. Esta resposta não veio da lógica humana, da inteligência ou da esperteza de Pedro. Em Mateus, Jesus afirma-o claramente: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está no céu” (Mt. 16,17). A afirmação do Senhor é clara, direta e gravíssima: carne e sangue, isto é, a só inteligência humana, não pode alcançar quem é Jesus! Somente na revelação do Pai, isto é, somente na experiência da fé da Igreja, nós podemos ter acesso ao mistério de Cristo, à sua realidade profunda. Portanto, não nos deve surpreender se o mundo tem dificuldade de crer realmente, de aceitar seriamente o Cristo e as exigências do seu Evangelho! Não devemos nos importar muito com o que as revistas e as ciências (história, sociologia, antropologia...) dizem a respeito de Jesus. Elas não conseguem penetrar no núcleo do seu mistério; ficam sempre no limiar, na soleira. Então, é na escuta fiel e devota da Palavra, na oração pessoal, na vida da comunidade eclesial, no empenho sincero e sacrificado de viver o Evangelho com suas exigências e, sobretudo, na celebração dos santos mistérios que podemos fazer uma experiência autêntica de quem é Jesus. Não cremos simplesmente no Jesus que a ciência ou a história podem apreender; cremos no Cristo crido, adorado, experimentado e anunciado pela Igreja, a partir do testemunho dos apóstolos!
Mas, tem mais! O núcleo do mistério de Cristo é o mistério de sua cruz. Observe-se bem: assim que Pedro afirma que Jesus é o Messias, ele precisa, esclarece que tipo de Messias ele é: "O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado... deve ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. Somente na cruz o discípulo pode reconhecer em profundidade o seu Senhor. Mas, a cruz não é um teoria; é uma realidade em nossa vida e na vida do mundo: a cruz da solidão, do fracasso, da doença, das lágrimas, da pobreza, da morte... Somente quando abraçamos na nossa cruz a cruz de Cristo, podemos, então, compreendê-lo: “Se alguém me quer seguir, quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me!” Fora da cruz, fora do seguimento de Cristo até o fim, não há verdadeiro conhecimento do Senhor, não há a mínima possibilidade de uma verdadeira comunhão com ele. São Paulo nos emociona, quando afirmou: “O que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele.. para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição” (Fl. 3,7-11). É preciso que rejeitemos claramente um cristianismo bonzinho, almofadinha, burguês, bem comportadinho, que agrade ao mundo! O cristianismo é radical, é escandaloso, na sua essência, é incompreensível ao mundo “A linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem!” (1Cor. 1,18) – Será que não andamos meio esquecidos disso? E, no entanto, “para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus” (1Cor. 1,19). Na fé, contemplamos a cruz do Senhor, tão dura para ele e para nós, e vemos nela a fonte de purificação e de vida de que fala a primeira leitura da missa de hoje. Do coração amoroso e ferido do Cristo, brota a vida do mundo e o sentido último da nossa existência. As palavras são impressionantes: “Derramarei um Espírito de graça e de oração... Eles olharão para mim. Quanto ao que traspassaram, haverão de chorá-lo, como se chora a perda de um filho único, e hão de sentir por ele o que se sente pela morte de um primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte acessível para a ablução e a purificação”.
Eis o escândalo: não cremos na tocha olímpica, não cremos que a globalização trará a salvação, não cremos que a ciência salve o ser humano dos demônios e monstros do seu coração, não cremos que a tecnologia nos faça mais felizes, não cremos que o esporte traga a paz universal, não esperamos que o prazer e o poder nos saciem o coração! Não somos idólatras para a perdição! Cremos que Jesus é o Cristo; cremos que pela sua encarnação, cruz e ressurreição ele nos deu uma vida nova, uma torrente de vida na potência do seu Espírito Santo. Cremos que Jesus é a nossa verdade, o nosso caminho e o sentido último da realidade. Por isso nele fomos batizados, dele nos alimentamos e nele queremos viver.
Quando levarmos isso a sério, seremos cristãos e iluminaremos o mundo. Que o Senhor no-lo conceda por sua misericórdia.
dom Henrique Soares da Costa
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O Filho de Deus se fez um de nós. Revelou o rosto misericordioso do Pai. Formou uma comunidade de discípulos. Ensinou-lhes o caminho do reino de Deus. Junto às pessoas excluídas, manifestou-lhes o poder de Deus que liberta, cura, perdoa, sacia... Jesus conta com os seus seguidores. Envia-os em missão para continuarem a sua obra. A compreensão a respeito de Jesus dá-se, porém, gradativamente. Predomina nos discípulos a ideia triunfalista de Messias. Precisam ainda tomar consciência do verdadeiro significado do seguimento de Jesus. Não basta crer que ele é o Messias. Jesus assume o caminho da cruz, e não a postura triunfalista; solidariza-se com a dor da humanidade que anseia por libertação (evangelho). Na história de Israel, o sofrimento foi sendo entendido como processo de purificação do pecado e de encontro com o verdadeiro Deus que ouve a súplica do povo em crise (I leitura). Como filhos e filhas de Deus, somos chamados à autêntica liberdade, deixando-nos guiar pelo seu Espírito. Restabelece-se a dignidade e a igualdade entre todos, superando as barreiras de raça, gênero e classe social (II leitura). São importantes indicações para todas as pessoas de boa vontade que desejam viver uma vida nova, com renovado entusiasmo e realismo histórico.
1º leitura (Zc. 12,10-11; 13,1): Deus ouve a súplica do povo
Os estudiosos distinguem, no livro de Zacarias, dois blocos distintos: o primeiro (Zc 1-8) teria sido escrito ao redor do ano 520 a.C., duas décadas após o exílio da Babilônia. Neste bloco, os autores apontam os pecados do povo como causadores do exílio. Deus, porém, concede o perdão e defende os interesses dos repatriados. Jerusalém e o Templo (que está sendo reconstruído) são projetados como fonte de bênçãos e de um futuro messiânico de paz e de alegria para o povo.
O segundo bloco (Zc. 9-14), escrito em torno do final do século IV a.C. e, portanto, mais recente do que o primeiro, apresenta um conteúdo centrado no messianismo. Jerusalém – a casa de Davi – é considerada como centro do mundo; é o lugar onde Deus mostra sua ternura e proteção ao povo “transpassado” pelo sofrimento, causado especialmente pelas dominações externas e por seus tentáculos internos. Desde a invasão babilônica em 587 a.C., quando a cidade e o templo de Jerusalém foram arrasados, muita gente foi morta e muitos foram expatriados de sua terra. A idolatria é reconhecida como a causa desses acontecimentos lamentáveis.
Deus mostra-se extremamente solícito com o clamor do povo que chora e se lamenta, reconhecendo seus pecados. Deus mesmo vai purificá-lo, enviando-lhe um “espírito de graça e de súplica” para que todos voltem o olhar para ele. Espírito de graça porque Deus será reconhecido como aquele que ama na gratuidade, apesar das infidelidades do povo; espírito de súplica porque o povo, em situação de extrema necessidade, se volta para Deus com fé e confiança, invocando sua ajuda e proteção.
Jerusalém, com a vida nova adquirida por intervenção divina, transforma-se em fonte irradiadora de purificação e bênção. Podemos aqui lembrar a leitura que a comunidade joanina vai fazer a respeito de Jesus, morto em Jerusalém, o “transpassado” para o qual todos voltarão seus olhos (Jo 19,37). O Messias assassinado na cruz torna-se a fonte de todas as bênçãos para a humanidade.
Evangelho (Lc. 9,18-24): que tipo de Messias é Jesus?
A compreensão do messianismo de Jesus por parte de seus discípulos foi acontecendo lentamente. Imersos na ideologia religiosa do Templo, esperavam um Messias com poder de monarca, da linhagem de Davi, capaz de libertar o povo da dominação romana...
Portanto, se essa era a mentalidade dominante a respeito do Messias, ela deveria causar grandes problemas para os políticos da época. De fato, vários líderes messiânicos foram simplesmente exterminados antes de Jesus. Nenhuma das respostas dadas a Jesus sobre o que as multidões diziam a seu respeito contempla a idéia de Messias. Lucas reserva essa concepção para Pedro, o representante dos discípulos: “Tu és o Messias de Deus”.
Imediatamente Jesus os proíbe severamente de espalhar essa afirmação para outras pessoas. Ele conhece os seus seguidores e sabe que estão ainda fanatizados pela ideologia dominante. Podem dar azo ao seu fanatismo e comprometer a missão de Jesus. Eles sabem que Jesus é o Messias, mas ainda não compreendem que tipo de Messias é Jesus.
Segundo Lucas, Jesus vai dedicar uma caminhada inteira (novo êxodo), da Galileia a Jerusalém, ao empenho especial de educar os discípulos na verdadeira compreensão do Messias. O início dessa caminhada se dá em 9,51, quando Jesus “toma a firme decisão de partir para Jerusalém”. Antes disso, ele faz dois anúncios de sua paixão e morte. No primeiro, logo após a declaração teórica, por parte dos discípulos, de que ele é o Messias: “É necessário que o Filho do homem sofra muito, seja rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e escribas, seja morto e ressuscite ao terceiro dia” (9,22). No segundo anúncio (9,44-45) Jesus prepara os discípulos para o destino do Messias, alertando-os: “Abram bem os ouvidos... O Filho do homem será entregue às mãos dos homens”. O terceiro anúncio (18,31-34) Jesus o fará em plena caminhada, próximo a Jerusalém: “De fato, ele será entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros, depois de açoitá-lo, eles o matarão...”. Apesar da tríplice insistência, os discípulos “não entenderam nada”...
A cruz e a morte estão intimamente ligadas ao messianismo de Jesus. A concepção triunfalista cai por terra. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me.” A escolha de Jesus é o caminho do “servo sofredor”, inspirado no Segundo Isaías (Is 40-55). Decorre daí que o seguimento de Jesus se concretiza por meio de rupturas e opções. Rupturas com toda forma de egoísmo e poder; com toda preocupação de buscar o brilho próprio dos que dominam... Opções pelo serviço humilde e abnegado em vista de uma sociedade de amor, de justiça e de paz. De fato, Jesus não anuncia a sua morte como fato definitivo. A ressurreição é o destino dos que dão a vida pelo Reino. O êxodo pelo qual Jesus tem de passar, incluindo a própria morte, vai possibilitar a entrada na terra da liberdade e da vida plena, onde já não haverá egoísmo nem dominação de nenhuma espécie.
2º leitura (Gl. 3,26-29): Revestidos de Cristo
Neste texto, Paulo continua explicando às comunidades cristãs a importância da fé em Jesus Cristo como caminho de superação de todo legalismo. A Lei funcionou como “pedagogo” enquanto ainda estávamos num estágio imaturo. Com seus preceitos e proibições, foi útil para nos ajudar a descobrir o que pode nos levar à maldição e o que atrai a bênção. O problema é que a lei nos tornou seus dependentes e até nos escravizou, a ponto de condicionar a salvação ao cumprimento de inúmeras normas.
Com o advento de Jesus, é-nos dado o tempo da maturidade. Então, podemos sair da dependência da Lei e abraçar a autêntica liberdade de filhos e filhas de Deus. Não se pode voltar atrás, sob o risco de anular a graça de Deus.
Pela fé em Jesus Cristo nos tornamos semelhantes a ele. Pelo batismo nos revestimos de Jesus, mergulhamos na sua própria vida. A Lei fazia distinção de pessoas e legitimava a exclusão de mulheres, pobres e estrangeiros. Agora nos tornamos uma unidade na diversidade. Portanto, “não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e livre, entre homem e mulher”. Ficam assim eliminadas as barreiras que nos separavam, seja de raça, de gênero ou de classe social. Pertencendo, assim, a Cristo, somos herdeiros da promessa que Deus fez a Abraão de uma descendência numerosa e feliz.
Pistas para reflexão
Temos a graça de conhecer a Jesus por meio do testemunho dos discípulos que o conheceram pessoalmente e também das comunidades cristãs primitivas. Constatamos que o seguimento de Jesus se dá num processo de compreensão gradativo. Assim como aconteceu com os seus discípulos, todos nós somos contaminados com falsas ideologias que vão introduzindo pseudovalores, segundo os interesses dos que dominam a sociedade.
Desde o âmbito familiar, os pais tendem a educar os filhos para serem os melhores, os mais fortes, os mais espertos... Ao entrar na escola, a maior preocupação é vencer na vida, entendendo isso como ter dinheiro, fama e poder. Num mundo competitivo como o nosso, há pouco lugar para o serviço humilde e para uma política que vise à inclusão de todas as pessoas nas condições de uma vida digna. É grande ainda a discriminação entre pessoas devido à sua condição social, à cor da pele ou ao sexo. Precisamos realizar um “novo êxodo” rumo a uma terra sem males, onde as diferenças sejam respeitadas e acolhidas; onde as relações se fundamentem na dignidade intrínseca de cada ser humano; onde a liberdade se concretize em ações em favor da vida sem exclusão.
Como filhos e filhas de Deus, podemos desenvolver sempre melhor a potencialidade divina que está em nós; como mulheres e homens, podemos exercitar cotidianamente o serviço mútuo, dando-nos as mãos para construir o reino de Deus. Jesus nos ensinou o caminho da vida plena, caracterizado pelas rupturas com o poder que domina e pelas opções de profunda solidariedade com o povo transpassado pelo sofrimento. Somos convidados a seguir a Jesus, o Messias. Lembremos, porém, que em seu messianismo não ambicionou fama e triunfalismo, mas escolheu livremente ser fiel ao Pai, sendo servo de todos até a morte.
– Podem-se levantar algumas situações evidentes de discriminação e de exclusão na família e na sociedade... Ressaltar as atitudes de serviço humilde e anônimo de muitas pessoas normalmente esquecidas e desvalorizadas... Esclarecer quais as rupturas e as opções a serem feitas pelos seguidores e seguidoras de Jesus...
Celso Loraschi
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Esse questionante e questionador Jesus
“E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus” (Lc. 9,20).
Jesus ficou satisfeito com a resposta de Pedro. Ele e os apóstolos estavam num lugar retirado. Jesus rezava. São feitas perguntas aos apóstolos. Jesus quer saber o que andam dizendo a seu respeito. Uns dizem isto e outros, aquilo: João Batista, Elias, um dos profetas. Vocês… o que vocês dizem? Pedro disse: “Tu és o Ungido de Deus”. Jesus ficou satisfeito com a resposta. Mas ainda não era o tempo de dizê-lo aos quatro ventos. Mais tarde seria essa lição de casa dos apóstolos: anunciar a primazia de Cristo, aquele que tinha vindo da parte do Pai, o ungido para ser o artífice de um Mundo Novo.
Zacarias, muitos anos antes de Cristo, escreveu uma página admirável que foi escolhida como  primeira leitura da liturgia da palavra deste domingo. O Altíssimo promete derramar  sobre a casa de  Davi  um espírito novo. Há uma profecia mais do que clara sobre esse Ungido que é Cristo que aponta para o momento em que ele dá a vida pelos seus. “Eles olharão para mim. Ao que eles feriram de morte hão de chorá-lo, como se chora a perda de  um filho único, e hão de sentir por ele a dor que sente pela morte de um primogênito. Naquele dia haverá um grande pranto em Jerusalém como foi o de Adrademon, no campo de Magedo. Naquele dia haverá uma fonte acessível à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém, para ablução e purificação”. Seríamos tentados de ver no Coração do Redentor dilacerado no alto da cruz uma realização dessa palavra de Zacarias.
Pelo instante o Mestre pede que os apóstolos não digam quem ele é, que aguardem o momento exato. Jesus faz esse predição de seu fim: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser  rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei, deve ser morto e ressuscitar no último dia”
Cristo Jesus, filho de Maria, filho do Pai eterno, Deus feito carne feito historia, feito gente, feito dom, feito pão, feito caminho. Felizes aqueles que, ao longo da caminhada da vida, vão se tornando íntimos desse Jesus que é o sentido de suas vidas.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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Reconhecer e seguir o Messias padecente
Já no ano B, a liturgia insistiu muito nas predições da Paixão de Jesus, que, em Marcos, formam a espinha dorsal da seção mais significativa do evangelho Lc introduz no meio das três predições a ”grande viagem” de Jesus (Lc. 9,51-18,14). Assim, o tema da predição da paixão aparece só uma vez na liturgia do Ano C: uma razão a mais para lhe dedicar toda a atenção (evangelho).
A situação é a seguinte: Jesus vive um dos seus momentos de intimidade com Deus (Lc. 9,18), talvez refletindo sobre o sentido dos sinais messiânicos que lhe é dado fazer (precede imediatamente, em Lc. 9,10-17, a multiplicação dos pães). Quer conscientizar seus discípulos daquilo que o Pai lhe faz ver. Pergunta quem, na opinião dos homens, ele é; e, depois de respostas “aproximativas” (João Batista, Elias), pergunta também por quem os discípulos o têm. Pedro se torna porta-voz dos seus companheiros e diz: “Tu és o messias de Deus”. Jesus lhes manda guardar esta intuição para si e explica por quê: o Filho do Homem deve sofrer e morrer, mas também ser ressuscitado. O povo ainda não entenderia isso. Só o entenderão depois de o ter traspassado, o que não deixa de ser mais um “cumprimento” das Escrituras, ou seja, da estranha lógica de Deus (cf. Zc. 12, 10-11,1ª leitura; Is 53 etc.). Pois Jesus é o ponto final e a plenitude de toda uma linhagem de profetas rejeitados, messias assassinados, e de todos os “servos” e “pobres de Deus”. A pedagogia de Deus, que consiste em converter o homem não pela força, mas pelo exemplo do amor até o fim, atinge a plenitude em Jesus de Nazaré.
O que Jesus diz “a todos” (Lc. 9,23, expressamente) é que eles devem segui-lo, assumindo sua cruz. A melhor maneira para entender Jesus é  fazer a mesma coisa que ele. Não são as teorias cristológicas que nos ajudam a conhecer e entender Jesus, mas o viver como ele viveu, morrer como ele morreu. Fazer a experiência do mundo e de Deus que ele fez, isso é que nos torna seus discípulos, dignos do nome de “cristãos”. Quando a gente compara a palavra do seguimento em Lc 9,23 com Mc 8,34, que lhe serviu de modelo, a gente descobre que Lc acrescentou algo: “cada dia”. Tornar sua cruz não acontece apenas no caminho do Gólgota, mas na vida de cada dia (Lc é o evangelista que mais pensa na situação do cristão comum). Quem não sabe assumir as pequenas cruzes de cada dia, nunca será um mártir do amor até o fim.
Lucas escreve isso com uma finalidade pedagógica, de acordo com seu espírito helenístico, que dava muita importância à “ascese”, o “exercício” (foram os gregos que inventaram o treinamento esportivo). Porém, os pequenos sacrifícios do dia-a-dia não são apenas exercícios esportivos. Eles são exercícios do amor de Cristo. São a manifestação, até nos mínimos detalhes de nossa vida, de quanto temos constantemente diante dos olhos seu amor por nós, manifestado na cruz. A cruz do dia-a-dia é nossa participação da Cruz do Calvário, da qual recebe todo o seu valor.
Temos agora também critérios para distinguir entre o verdadeiro seguimento de Jesus no caminho da Cruz e o superficial entusiasmo que, como um parasita, tira a força e sufoca o verdadeiro amor a Cristo. Muitos que andam com ostentativo crucifixo no peito não têm a mínima intenção séria de viver o que a cruz significa. Consideram Jesus talvez como um João Batista ou Elias redivivo, ou seja, um cara sensacional, mas não estão dispostos a viver no dia-a-dia o que ele viveu. Fazem de Jesus um subterfúgio, uma escusa, uma fachada que os dispensa de qualquer chamado à conversão: “Sou homem de igreja, ninguém me precisa dizer o que devo fazer!” Sobretudo, quando cheiram no ar algo que possa mexer com sua posição social, algo como a opção pelos pobres … Devem aprender a assumir sua cruz, no dia-a-dia, não com espírito revoltado (“Que é que fiz para merecer isso e aquilo, eu que rezo tanto?”), mas com o amor do Cristo, que tem compaixão dos mais sofridos. Então, reconhecerão que sua cruz não é a enxaqueca do dia depois da festa de aniversário, mas a incapacidade de criar uma sociedade justa, em que todos tenham vez.
Entre cristãos, é impossível perpetuar e aprofundar sempre mais o abismo que divide as pessoas social e culturalmente. Pelo batismo, mudamos de personalidade: somos todos “Cristo”, todos iguais aos olhos de Deus, todos seu filho querido: não há mais homem e mulher, judeu e grego, senhor e escravo (2ª leitura). Não deverá esta igualdade escatológica manifestar-se também no dia-a-dia de uma sociedade que se chama cristã?
Johan Konings "Liturgia dominical"
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Jesus já havia caminhado por entre as nações durante algum tempo, dando ao povo grandes provas de seu poder e do seu amor, perdoando, ensinando e curando os doentes. Porém o povo Judeu esperava um Messias que estava descrito no livro de Isaías como um rei soberano que governaria com justiça, empunhando espada para libertá-lo da exploração do Império Romano. Este povo não compreendeu que o Reino de Jesus, o qual o profeta Isaías se referia, não era deste mundo e, por isso, ele (povo judeu) não O reconhece como o Messias e, sim, acredita que é mais um profeta, e continuam esperando o Messias até os dias de hoje.
No Evangelho deste domingo, encontramos Jesus em um momento de intimidade com o Pai. Os discípulos se aproximam e Ele lhes pergunta: “Quem diz o povo que eu sou?”
Os discípulos respondem que o povo acha que Ele é João Batista, Elias ou um dos profetas que ressuscitou. Jesus, porém, quer realmente saber o que pensam os seus discípulos, e então volta a sua pergunta diretamente a eles que, na pessoa de Pedro, O reconhece como o Messias – palavra hebraica que significa ‘ungido’.
Quando Jesus faz a pergunta aos discípulos, Ele recebe uma resposta que denota que as pessoas não chegaram a descobrir a Sua identidade. Porém, a resposta de Pedro, resume o que Jesus é e faz: como Mestre, como Profeta e como revelador com plenos poderes, ou seja, o Ungido pelo Espírito de Deus. Com a sua palavra e ação Ele revela e ensina quem é Deus e qual é o seu projeto: a liberdade e a vida para todos.
Jesus proíbe os discípulos de revelar a sua verdadeira identidade, pois só depois de Seu sofrimento, morte e ressurreição, com o cumprimento das Escrituras, as pessoas poderiam compreender seus ensinamentos. Então Ele deixa bem claro as três condições para cada um segui-Lo:
- A renúncia – é preciso renunciar os próprios interesses colocando os projetos de Deus sempre em primeiro lugar;
- O sacrifício – Aceitar a cada dia os desafios da fé e estar pronto para enfrentá-los com amor e dedicação;
- Seguir Seus passos – Procurar agir em todo momento como Ele.
Ser cristão, seguir a Jesus, é bem mais que usar um crucifixo no peito, aprender algumas orações e se dizer um cristão, é preciso um comprometimento verdadeiro, um dedicar-se ao amor ao próximo como o próprio Jesus ama, e assumindo, a cada dia, a missão dada por Ele.
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Anunciando a paixão
A questão apresentada por Jesus aos discípulos, a respeito de sua identidade, situa-se num momento crucial de sua vida. Por um lado, as multidões não haviam compreendido bem o tipo de messianismo vivido pelo Mestre. Ele se apresentava como Messias-servo, ao passo que o povo esperava um Messias cheio de glória e majestade. Por outro lado, autoridades políticas, como Herodes, perguntavam-se: "Quem poderá ser este de quem ouço tais coisas?" O que se passava com os discípulos? Sua fé era consistente e estavam realmente preparados para subir com Jesus até Jerusalém?
A questão apresentada aos discípulos visava explicitar-lhes a fé no Messias Jesus. A resposta de Pedro, embora verdadeira, carecia de reparos. O Messias estava destinado a sofrer nas mãos dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia. A causa do sofrimento estaria relacionada com seu modo de viver. Longe de buscar glórias mundanas, Jesus colocava-se ao lado dos pobres e marginalizados, vivia uma experiência de Deus muito diferente da preconizada pela religiosidade da época, anunciava um Reino de igualdade e solidariedade, muito mais exigente do que, até então, se conhecia. Sua morte decorreria de sua opção de ser solidário e servidor. Daí o Pai decidir ressuscitá-lo.
Quem quisesse segui-lo, deveria considerar atentamente este aspecto. Caso contrário, estaria nutrindo esperanças vãs.
padre Jaldemir Vitório
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A vida é ganha na entrega sem reservas
O texto do evangelho deste domingo, conhecido como “profissão de fé de Pedro”, seguido do anúncio da paixão, morte e ressurreição, é a sequência do relato da confusão de Herodes que, ouvindo falar de Jesus, não pode conhecer sua verdadeira identidade (vv. 7-9); e do relato da multiplicação dos pães em que Jesus alimenta abundantemente uma multidão de uns cinco mil homens (vv. 10-17). A dupla pergunta posta aos discípulos revela a preocupação de Jesus de que sua missão e a sua verdadeira identidade não estejam sendo compreendidas. O autor do quarto evangelho apresenta esta preocupação de modo claro: “Vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes e ficastes saciados” (Jo 6,26).
Na primeira parte do texto há uma dupla pergunta: “Quem dizem as multidões que eu sou?” (v. 18), e “quem dizeis que eu sou?” (v. 20). À resposta acerca da opinião da multidão, Jesus não faz nenhum comentário. A resposta acerca da opinião da multidão confirma a suspeita de incompreensão. Mesmo que a pessoa de Jesus suscite perguntas e provoque a opinião das pessoas, a multidão continua voltada para o passado de Israel, incapaz de perceber e reconhecer a irrupção da visita salvífica de Deus (Lc. 1,68; 7,16). É a vez de os discípulos se engajarem na resposta à pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta é mais importante para os discípulos do que para Jesus. Dela dependerá a adesão ou não ao Senhor. Pedro, como porta-voz de todos os demais, toma a iniciativa: “O Cristo de Deus” (v. 20). Isto significa: o Messias prometido e esperado, aquele que é habitado pelo Espírito Santo (cf. Lc. 3,22; 4,1.18). Jesus impede os discípulos de divulgarem o que Pedro acaba de proclamar. Isto porque será preciso esclarecer de que Messias se trata; talvez o Messias que Jesus é não seja exatamente o que os próprios discípulos pensavam ter encontrado (ver: Mc. 8,32-33). Mas também é verdade que cada um deve dar a sua resposta. É neste ponto que Jesus anuncia, pela primeira vez no evangelho segundo Lucas, sua paixão, morte e ressurreição (v. 22). Este anúncio tem consequências para os Doze como para todos os discípulos. Em primeiro lugar, eles devem se distanciar da opinião da multidão e se engajarem, na fé, na verdadeira missão de serviço, e não de poder. Em segundo lugar, o caminho de Jesus passa a ser o caminho necessário de todos os que aderem, pela fé, e livremente, à sua pessoa: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo…” (v. 23). A cruz passa a fazer parte da vida do discípulo. É a forma de superar todo egoísmo que fecha a pessoa sobre si mesma. Paradoxalmente, a vida é ganha na entrega sem reservas: “... quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará” (v. 24).
Carlos Alberto Contieri,sj
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A liturgia deste domingo coloca no centro da nossa reflexão a figura de Jesus: quem é Ele e qual o impacto que a sua proposta de vida tem em nós? A Palavra de Deus que nos é proposta impele-nos a descobrir em Jesus o “messias” de Deus, que realiza a libertação dos homens através do amor e do dom da vida; e convida cada “cristão” à identificação com Cristo – isto é, a “tomar a cruz”, a fazer da própria vida um dom generoso aos outros.
O Evangelho confronta-nos com a pergunta de Jesus: “e vós, quem dizeis que Eu sou?” Paralelamente, apresenta o caminho messiânico de Jesus, não como um caminho de glória e de triunfos humanos, mas como um caminho de amor e de cruz. “Conhecer Jesus” é aderir a Ele e segui-l’O nesse caminho de entrega, de doação, de amor total.
A primeira leitura apresenta-nos um misterioso profeta “trespassado”, cuja entrega trouxe conversão e purificação para os seus concidadãos. Revela, pois, que o caminho da entrega não é um caminho de fracasso, mas um caminho que gera vida nova para nós e para os outros. João, o autor do Quarto Evangelho, identificará essa misteriosa figura profética com o próprio Cristo.
A segunda leitura reforça a mensagem geral da liturgia deste domingo, insistindo que o cristão deve “revestir-se” de Jesus, renunciar ao egoísmo e ao orgulho e percorrer o caminho do amor e do dom da vida. Esse caminho faz dos crentes uma única família de irmãos, iguais em dignidade e herdeiros da vida em plenitude.
1ª leitura: Za. 12,10-11;13,1 - AMBIENTE
Como o livro de Isaías, o livro de Zacarias não pode ser atribuído a um só e mesmo profeta. Só os capítulos 1-8 podem ser atribuídos a esse Zacarias, filho de Baraquias (cf. Za. 1,1.7), que atuou em Jerusalém no pós-exílio e teve um papel preponderante na reconstrução do Templo (estamos à volta de 520 a.C.).
Os capítulos 9-14 parecem ser uma outra coleção de textos, que provêm de um, ou mais provavelmente de vários autores tardios; costuma falar-se deste conjunto de textos usando a designação “Deutero-Zacarias”.
A época em que os textos do Deutero-Zacarias apareceram também é muito discutida (a partir das referências históricas do livro, é possível deduzir todas as épocas, desde o séc. VIII até ao séc. II a.C.). No entanto, a opinião mais difundida atualmente é a que situa a redação destes capítulos em finais do séc. IV e durante o séc. III a.C. (o ambiente parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedônia).
O texto que nos é proposto integra uma coleção que vai de 12,1 a 14,21. Essa coleção apresenta-nos um mosaico de temas diversos, embora unidos por uma certa expectativa messiânica. Depois do anúncio da intervenção definitiva de Deus na pessoa de um rei/messias que, na humildade, procurará instaurar o reino ideal (cf. Za. 9,9-10) e da referência a um “pastor” enigmático que virá apascentar o rebanho de Deus (cf. Za. 11,4-17), os textos apresentam-nos um conjunto de oráculos que se referem à salvação e glória de Jerusalém. É nesse enquadramento que podemos situar o nosso texto.
MENSAGEM
O profeta começa por anunciar a efusão de um espírito de piedade e de súplica sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém: esse espírito irá provocar uma transformação interior que colocará toda a gente na órbita de Deus, numa atitude de confiança e de abertura a Deus.
Tal acção resultará da atividade profética de um misterioso “trespassado”. Primeiro, o autor identifica-o com Deus (“olharão para mim”, a quem trespassaram”); mas, logo a seguir, a frase distingue de novo Deus e o misterioso personagem evocado. O “’ly” (“para mim”) significa, provavelmente, que o próprio Deus Se sente atingido pela morte infligida ao seu enviado.
Quem é este personagem? Há quem o identifique com o rei Josias, morto em Meggido em combate contra os egípcios (cf. 2Re. 23,29-30); há, também, quem diga que esta figura se inspira no sumo sacerdote Onias III (cf. 2 Mac 4,34) ou em Simão Macabeu (cf. 1 Mac 16,11-17; se este personagem fosse Simão Macabeu, teríamos de colocar a redação deste texto na segunda metade do séc. II a.C.). Pode, ainda, ser um qualquer profeta cujo nome desconhecemos… De qualquer forma, trata-se de um mártir inocente e anônimo, por cuja morte os habitantes de Jerusalém se tornaram responsáveis. A figura que melhor ilumina esta passagem ainda é a do “servo sofredor” de Is 53, mesmo se os termos utilizados são bastante diferentes. Como acontece com o “servo de Jahwéh”, o sacrifício deste mártir inocente é fonte de transformação dos corações (cf. Za. 12,10) e de purificação (cf. Za. 13,1): a contemplação dessa vítima inocente iniciará no Povo um processo de arrependimento e de purificação.
A repetida evocação de David neste contexto (cf. Za. 12,7-8.10.12; 13,1) liga este personagem com a promessa messiânica.
João, o autor do Quarto Evangelho, verá em Jesus, morto na cruz e com o coração trespassado pela lança do soldado, a concretização da figura aqui evocada (cf. Jo 19,37).
ATUALIZAÇÃO
¨ Esta figura do “trespassado” faz-nos pensar em todos os “profetas” que lutam pela justiça e pela verdade e que são torturados, vilipendiados, massacrados por causa do seu testemunho incômodo. A identificação do “trespassado” com o próprio Deus diz-nos que o profeta nunca está só e perdido face ao ódio do mundo, mas que Deus está sempre do seu lado; diz-nos, também, que é de Deus que brota a missão profética, mesmo quando ela incomoda e questiona os homens.
¨ Fomos constituídos profetas no momento da nossa opção por Cristo (batismo). Como se tem “cumprido” a nossa missão profética? Na fidelidade e no empenho, ou na preguiça e no comodismo? No medo que paralisa, ou na inquebrantável confiança no Deus que está ao nosso lado?
¨ Como acolhemos a interpelação e o questionamento dos outros profetas que Deus envia ao nosso encontro? Com desprezo e arrogância, com frieza e indiferença? Ou com a convicção de que é o próprio Deus que, através deles, nos interpela?
¨ Este texto garante-nos que o sofrimento por causa do testemunho profético não é em vão. Do testemunho profético – mesmo quando “cumprido” na dor, na dificuldade, no fracasso aos olhos do mundo – resultará sempre a transformação dos corações, a conversão e, portanto, o nascimento de um mundo novo.
2ª leitura: Gl. 3,26-29 - AMBIENTE
Continuamos a ler essa carta enviada aos habitantes da região central da Ásia Menor (Galácia), onde se discute se Cristo basta para chegar à salvação ou são precisas também as obras da Lei. Já sabemos que, para Paulo, só Cristo salva; por isso, os gálatas são convidados a fazer “ouvidos de mercador” às exigências dos “judaizantes” e a não se preocuparem com a circuncisão, nem com outras exigências da Lei de Moisés.
Este texto, em concreto, aparece na segunda parte da carta aos Gálatas (cf. Gl. 3,1-6,18), em que Paulo apresenta uma reflexão sobre o cristão e a liberdade. Nos versículos anteriores, Paulo comparara a Lei a um “carcereiro” (cf. Gl. 3,23) e a um “pedagogo” greco-romano (cf. Gl. 3,24). Estas duas imagens são bem elucidativas: o carcereiro da época era, com muita frequência, exemplo de crueldade; e o pedagogo (geralmente um escravo pouco instruído que acompanhava a criança à escola e a mantinha disciplinada) também não era muito apreciado e evocava a imagem de reprimendas e castigos. É verdade, considera Paulo (cf. Gl. 3,25), que é melhor ser conduzido pela mão do que perder-se no caminho; mas seria uma estupidez aspirar a viver sempre no cárcere ou considerar como um ideal ser sempre conduzido pela mão, sem experimentar a liberdade.
MENSAGEM
Aos gálatas, tentados a voltar à escravidão da Lei, Paulo recorda a experiência libertadora que resultou da sua adesão a Cristo.
Pelo batismo, os crentes foram “revestidos de Cristo” e tornaram-se “filhos de Deus”. Dizer que os crentes foram “revestidos de Cristo” significa que entre os batizados e Cristo se estabeleceu uma relação que não é apenas exterior, mas que toca o âmago da existência: pelo batismo, os cristãos assumiram a existência do próprio Cristo e tornaram-se, como Ele, pessoas que renunciaram à vida velha do egoísmo e do pecado, para viverem a vida nova da entrega a Deus e do amor aos irmãos. Em todos os crentes circula, agora, a vida do próprio Cristo; essa vida veste-os completamente, da cabeça aos pés.
A primeira consequência que daqui resulta é que os cristãos são livres: eles receberam de Cristo uma vida nova e não estão mais sujeitos à escravatura do egoísmo, do pecado e da morte.
A segunda consequência que daqui resulta é que os cristãos são iguais. Identificados com Cristo (porque todos – judeus e não judeus, homens e mulheres – foram revestidos da mesma vida), não há qualquer diferença ou discriminação quanto à raça, ou ao sexo; todos são “filhos”, com igual direito quanto à herança (todos são filhos do mesmo Pai e todos têm acesso, em Cristo, à mesma vida plena). A “salvação” que Cristo trouxe significa a igualdade fundamental de todos.
A questão é esta: depois de experimentar isto, os gálatas estarão dispostos a ser, outra vez, escravos?
ATUALIZAÇÃO
¨ O cristão é, fundamentalmente, aquele que se “revestiu de Cristo”. Que significa isto, em concreto? Que assinamos um documento no qual nos comprometemos a viver como batizados? Que respeitamos apenas as leis e orientações da hierarquia? Que nos comprometemos somente a ir à missa ao domingo, a ir a Fátima uma vez por ano e a rezar o terço de vez em quando? Ou significa que assumimos o compromisso de viver como Cristo, de assumir os seus valores, de fazer da nossa vida um dom de amor, de nos entregarmos até à morte para construir um mundo de justiça e de paz para todos?
¨ Para os judeus, contemporâneos de Jesus e de Paulo de Tarso, os pagãos e as mulheres eram gente discriminada. “Dou-te graças, Deus altíssimo – diz uma célebre oração rabínica – porque não me fizeste pagão, escravo ou mulher”. Paulo proclama, neste texto, que, a partir da nossa identificação com Cristo, toda a discriminação entre os homens e, sobretudo entre os cristãos, carece de sentido. A Igreja soube tirar as consequências deste fato? Como acolhemos os estrangeiros, os discriminados, os divorciados, os homossexuais, os drogados, as mulheres? Como filhos iguais do mesmo Deus, ou como irmãos “coitados”, que é preciso tolerar e tratar com caridade mas que não são iguais nem têm a mesma dignidade dos outros?
Evangelho: Lc. 9,18-24 - AMBIENTE
Estamos na fase final da etapa da Galileia. Jesus passou algum tempo a apresentar o seu programa e a levar a Boa Nova aos pobres, aos marginalizados, aos oprimidos (cf. Lc. 4,16-21). À volta d’Ele, foi-se formando um grupo de “testemunhas”, que apreciaram a sua atuação e que se juntaram a esse sonho de criar um mundo novo, de justiça, de liberdade e de paz para todos. Agora, antes de começar a etapa decisiva da sua caminhada nesta terra (o “caminho” para Jerusalém, onde Jesus vai concretizar a sua entrega de amor), os discípulos são convidados a tirar as suas conclusões acerca do que viram, ouviram e testemunharam. Quem é este Jesus, que se prepara para cumprir a etapa final de uma vida de entrega, de dom, de amor partilhado? E os discípulos estarão dispostos a seguir esse mesmo caminho de doação e de entrega da vida ao “Reino”?
MENSAGEM
A cena de hoje começa com a indicação da oração de Jesus (v. 18). É um dado típico de Lucas que põe sempre Jesus a rezar antes de um momento fundamental (cf. Lc. 5,16; 6,12; 9,28-29; 10,21; 11,1; 22,32.40-46; 23,34). A oração é o lugar do reencontro de Jesus com o Pai; depois de rezar, Jesus tem sempre uma mensagem importante – uma mensagem que vem do Pai – para comunicar aos discípulos. A questão importante que, no contexto do episódio de hoje, Jesus tem a comunicar, tem a ver com a questão: “quem é Jesus?”
A época de Jesus foi uma época de crise profunda para o Povo de Deus; foi, portanto, uma época em que o sofrimento gerou uma enorme expectativa messiânica. Asfixiado pela dor que a opressão trazia, o Povo de Deus sonhava com a chegada desse libertador anunciado pelos profetas – um grande chefe militar que, com a força das armas, iria restaurar o império de seu pai David e obrigar os romanos opressores a levantar o jugo de servidão que pesava sobre a nação. Na época apareceram, aliás, várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”, criaram à sua volta um clima de ebulição, arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram, invariavelmente, chacinados pelas tropas romanas. Jesus é também um destes demagogos, em quem o Povo vê cristalizada a sua ânsia de libertação?
Aparentemente, Jesus não é considerado pelas multidões “o messias”: o Povo identifica-o, preferentemente, com Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus, reservado para o anúncio do grande momento da libertação do Povo de Deus (v. 19); talvez a sua postura e a sua mensagem não correspondessem àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.
Os discípulos, no entanto, companheiros de “caminho” de Jesus, deviam ter uma perspectiva mais elaborada e amadurecida. De fato, é isso que acontece; por isso, Pedro não tem dúvidas em afirmar: “Tu és o messias de Deus” (v. 20). Pedro representa aqui a comunidade dos discípulos – essa comunidade que acompanhou Jesus, testemunhou os seus gestos e descobriu a sua ligação com Deus. Dizer que Jesus é o “messias” significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, da linha davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos.
Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um “messias” político, poderoso e vitorioso e apressa-se a desfazer possíveis equívocos e a esclarecer as coisas: Ele é o enviado de Deus para libertar os homens; no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida (v. 22). No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz: é aí, na entrega da vida por amor, que Ele realizará as antigas promessas de salvação feitas por Deus ao seu Povo.
A última parte do texto (vs. 23-24) contém palavras destinadas aos discípulos: aos de ontem, de hoje e de amanhã. Todos são convidados a seguir Jesus, isto é, a tomar – como Ele – a cruz do amor e da entrega, a derrubar os muros do egoísmo e do orgulho, a renunciar a si mesmo e a fazer da vida um dom. Isto não deve acontecer em circunstâncias excepcionais, mas na vida quotidiana (“tome a sua cruz todos os dias”). Desta forma fica definida a existência cristã.
ATUALIZAÇÃO
¨ O Evangelho de hoje define a existência cristã como um “tomar a cruz” do amor, da doação, da entrega aos irmãos. Supõe uma existência vivida na simplicidade, no serviço humilde, na generosidade, no esquecimento de si para se fazer dom aos outros. É esse o “caminho” que eu procuro percorrer?
¨ Na sociedade em geral e na Igreja em particular, encontramos muitos cristãos para quem o prestígio, as honras, os postos elevados, os tronos, os títulos são uma espécie de droga de que não prescindem e a que não podem fugir. Frequentemente, servem-se dos carismas e usam as tarefas que lhe são confiadas para se auto-promover, gerando conflitos, rivalidades, ciúmes e mal-estar. À luz do “tomar a cruz e seguir Jesus”, que sentido é que isto fará? Como podemos, pessoal e comunitariamente, lidar com estas situações? Podemos tolerá-las – em nós ou nos outros? Como é possível usar bem os talentos que nos são confiados, sem nos deixarmos tentar pelo prestígio, pelo poder, pelas honras? Tem alguma importância, à luz do que Jesus aqui ensina, que a Igreja apareça em lugar proeminente nos acontecimentos sociais e mundanos e que exija tratamentos de privilégio?
¨ Quem é Jesus, para nós? É alguém que conhecemos das fórmulas do catecismo ou dos livros de teologia, sobre quem sabemos dizer coisas que aprendemos nos livros? Ou é alguém que está no centro da nossa existência, cujo “caminho” tem um real impacto no nosso dia a dia, cuja vida circula em nós e nos transforma, com quem dialogamos, com quem nos identificamos e a quem amamos?
¨ É na oração que eu procuro perceber a vontade de Deus e encontrar o caminho do amor e do dom da vida? Nos momentos das decisões importantes da minha vida, sinto a necessidade de dialogar com Deus e de escutar o que Ele tem para me dizer?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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Jesus é o Messias (Lucas 9,18-24)
Certo dia, Jesus estava rezando num lugar retirado e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” Diante desta primeira pergunta cada discípulo diz o que o povo anda dizendo a respeito de Jesus e a conversa flui naturalmente, pois a pergunta inócua não compromete uma vez que expressa a opinião dos outros: “Uns dizem que és Elias, outros que és João Batista, outros dizem...” A partir do momento que a conversa é olho no olho e diante da segunda pergunta: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Todos se calam, menos Pedro. Aqui a resposta vai comprometer e trazer conseqüências. “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo!” Foi a resposta firme e corajosa de Simão Pedro. Vimos que a resposta inicial dos discípulos denota que as pessoas não chegaram a descobrir a verdadeira identidade de Jesus e o projeto salvífico de Deus. A resposta de Pedro em nome dos discípulos é a grande profissão de fé que sintetiza o que Jesus realizou na Galiléia. Este texto do Evangelho é conhecido como: Profissão de fé de Pedro seguido do anúncio da paixão, morte e ressurreição.
Da profissão de fé ao seguimento
Sabemos que não basta declarar e aceitar que Jesus é o Messias. É preciso rever a idéia a respeito do Messias, o qual, para construir a nova história, enfrenta os que não querem uma sociedade justa e fraterna. Por isso, Ele vai sofrer, ser rejeitado e brutalmente assassinado. O Evangelho apresenta ainda três condições para ser discípulo do Messias que enfrenta as estruturas de morte: Renunciar a si mesmo, tomar diariamente a cruz e seguir Jesus. Renunciar a si mesmo significa desfazer-se da ambição pessoal pelo poder e dominação. Ser discípulo-missionário é enfrentar perseguições da sociedade injusta capaz de matar o autor da vida. Seguir Jesus supõe uma mudança de vida, um compromisso de viver de outra forma minha relação com os outros, com a natureza e comigo mesmo. A exemplo de Pedro, reconhecer Jesus como o Messias é um ato de pura fé. Hoje a pergunta é dirigida a cada um de nós: Quem afinal é Jesus para mim? Uma resposta sincera e com fé pode mudar minha vida. No mundo globalizado o homem moderno precisa redescobrir o significado da cruz como processo de libertação de tudo aquilo que o impede de encontrar Deus.
Pedro Scherer
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“Jesus estava rezando num lugar retirado...” (Lc. 9,18). Esta atitude é própria do Evangelista Lucas. Sempre que Jesus vai realizar algo importante, Ele se retira, Ele ora. A oração de Jesus certamente não é uma coleção de pedidos com fórmulas imensas que tem a intenção de convencer a Deus sobre o quanto se precisa de uma determinada graça. A oração de Jesus é uma invocação para que a sua atitude esteja de acordo com a vontade do Pai, uma entrega ao desígnio de Deus. Orar é mais do que pedir, orar é uma sintonia da presença amorosa de Deus, é permitir que Ele invada e tome conta de nossa vida.
Tendo orado, Jesus proclamou uma pergunta: “Quem diz o povo que eu sou?” E depois: “E vós, que dizeis que eu sou?” (Lc. 9,18.20). Certamente, o Senhor não estava preocupado com a sua própria imagem. Jesus desejava saber se realmente os discípulos eram conscientes do significado de sua vida e missão. A mesma pergunta é dirigida a cada de um de nós hoje. O que pensamos sobre Jesus? Se pudéssemos dizer em poucas palavras qual é o significado da pessoa de Jesus para nossa vida, o que diríamos?
A resposta de Pedro foi correta do ponto de vista doutrinário, mas nem sempre a proclamação da correta doutrina revela a pureza do coração. Se Pedro reconheceu que Jesus é o Cristo de Deus, ainda não era capaz de compreender a profundidade de sua proclamação. Para Ele o Cristo era o vencedor absoluto dos poderes deste mundo, estando longe de um profeta do Reino que seria capaz de mostrar a sua fraqueza e de assumir a humilhação da cruz em nome do que proclamava.
Hoje, embora professemos corretamente Jesus como Cristo e Senhor, podemos também carregar imagens deformadas sobre a pessoa de Jesus. Podemos, como Pedro, não admitir certas dimensões da vida do Cristo que nos incomodam, que nos questionam. Quem é Ele? Um revolucionário político? Um milagreiro que cura qualquer doença e afasta toda dor? Um dolorista amante do sofrimento? Um mestre light que traz os consolos afetivos contra o stress da pós-modernidade? Um sacerdote todo-poderoso? Um Deus que faz de conta que é homem e que, portanto, não vive os limites da condição humana? Um homem como qualquer outro, mas que trouxe alguns ensinamentos bonitos? Quem é o “nosso” Jesus?
Certamente Jesus frustrou aqueles que o seguiam. Era difícil imaginar um Jesus morrendo como um derrotado, humilhado diante daqueles que eram causa de ódio do povo. A cruz é o último ensinamento que os apóstolos desejavam. Depois se frustrariam com o serviço. Não, este não era o Cristo de Pedro e dos seus amigos... Talvez, nem sempre seja o “nosso” Cristo.
“Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc. 9,23). Renunciar a sim mesmo é lutar contra a comodidade, é saber sair de si e não se preocupar em demasia consigo mesmo. No Evangelho de Lucas, há algo singular no convite de Jesus: Ele nos pede para que tomemos a cruz “a cada dia”. Sim, todos os dias, quando abrimos nossos olhos pela manhã, devemos carregar a cruz que se apresenta. Cada momento de nossa vida tem a sua cruz. Ora é a dor que nos vem de fora oportunizada pela tragédia da existência, ora é a escolha pelo doloroso caminho do amor e da verdade.
Lutar pelos valores, clamar pela justiça, exigir a verdade e a coerência, pedir a honestidade... Tudo isso é carregar a cruz do Cristo. Se for feito sem violência, mas pelo simples sonho de um mundo mais parecido com o Reino proclamado pelo Cristo, certamente é uma resposta ao convite feito por Jesus.
“No peito eu levo uma cruz, no meu coração o que disse Jesus” (Pe. Zezinho).

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E vós quem dizeis que eu sou? …Se quiser me seguir,
renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga!
Evangelho: Lc. 9,18–24
1. O trecho de hoje situa-se no final da atividade de Jesus na Galileia (Lc 4,14-9,50). A seguir ele empreenderá o longo caminho para Jerusalém, onde será morto e ressuscitará. Dessa cidade os discípulos, repletos do Espírito, sairão para levar a Boa Notícia da libertação até os confins do mundo.
2. Veremos:
a. Jesus é o Messias de Deus – vv. 18-21
b. O Messias de Deus vai medir forças com a morte e a vencerá – v. 22
c. Os seguidores do Messias – vv. 23-24
a. Jesus é o Messias de Deus – vv. 18-21
3. Comunhão com o Pai na oração.
No evangelho de Lucas, os grandes momentos da vida de Jesus e suas maiores opções nascem de sua comunhão com o projeto do Pai, – na oração. O evangelista gosta de mostrar Jesus rezando ao Pai (v. 18a; cf. 3,21; 5,16; 6,12; 9,28).
4. O que dizem quem eu sou… o povo e vocês?
A pergunta que ele faz aos discípulos: “quem diz o povo que eu sou?” (v. 18b) tem a função de levar seus seguidores a uma síntese daquilo que ele é. A resposta dos discípulos denota que as pessoas não chegaram a descobrir a identidade de Jesus: ele acaba sendo confundido com João Batista, Elias ou um dos antigos profetas que ressuscitou (v. 19). Das velhas opiniões do povo passa-se à certeza que os seguidores de Jesus adquirem a partir daquilo que ele realizou: “e vocês, quem vocês dizem que eu sou?” (v. 2a).
5. A grande profissão de fé.
A resposta de Pedro, representando os discípulos, é a grande profissão de fé que sintetiza o que Jesus realizou na Galileia: “Tu és o Messias de Deus” (v. 20b). A palavra MESSIAS (Christós, em grego) resume o que Jesus é e faz: mestre, profeta e revelador, com plenos poderes, ungido pelo Espírito de Deus (cf. 4,18). Ele é a presença libertadora de Javé. Com sua palavra e ação revela e ensina quem é Deus e qual o seu projeto: liberdade e vida para todos.
6. Não bastam palavras… precisa compromisso de vida!
Jesus recomenda silêncio aos discípulos, pois seu messianismo ainda não se realizou completamente. E, para quem deseja estar com ele, não bastam palavras. Faz-se necessário o compromisso (cf. vv. 23-24).
b. O Messias de Deus vai medir forças com a morte e a vencerá – v. 22
7. Messianismo de Jesus em confronto com os poderes da morte (Sinédrio).
O messianismo de Jesus é marcado pelo conflito com os poderes que geram a morte. Ele tem consciência de que deve sofrer muito. Jesus não vai sofrer por acaso. Seu sofrimento, – resultado do confronto com o Sinédrio,- faz parte dos planos de Deus. Ele vai enfrentar as estruturas de morte. Ele enfrentará as forças da morte na qualidade de “Filho do Homem”, ou seja, na sua fragilidade humana, sem recursos extraordinários vindos do alto ou de fora. Em seu corpo e humanidade irá revelar o projeto de Deus.
8. Os adversários de Jesus.
O versículo 22 mostra quem são os adversários de Jesus: anciãos, sumos sacerdotes e doutores da Lei. São todos membros do Sinédrio, o supremo tribunal daquele tempo.
- Os anciãos eram aristocratas leigos, latifundiários, donos do dinheiro. Formavam o núcleo central do partido dos saduceus, defensores de uma religião materialista.
- Os sumos sacerdotes eram a aristocracia sacerdotal, detentores dos mais elevados degraus da hierarquia sacerdotal, cujo primado era o sumo sacerdócio. Também eles pertenciam ao partido dos saduceus. Eram os donos do poder.
- Os doutores da Lei, também eles membros do Sinédrio, em sua maioria pertenciam ao partido dos fariseus. Eram os donos da “verdade”.
9. Morrendo, Jesus vence a morte e comunica VIDA.
Em síntese, Jesus irá enfrentar as classes dirigentes, os donos do dinheiro, do poder e da verdade. Em suas mãos ele “deve ser morto” porque o ensinamento e a prática de Jesus contrastam frontalmente com o projeto do Sinédrio. Mas a morte de Jesus nas mãos dos poderosos é a vitória de Deus, pois ressuscitará no terceiro dia. É assim que ele realiza seu messianismo: morrendo, vencendo a morte e comunicando Vida.
c. Os seguidores do Messias – vv. 23-24
10. Condições para ser discípulo.
O versículo 23 apresenta três condições para ser discípulo do Messias que enfrenta as estruturas de morte: renunciar a si mesmo; tomar diariamente a cruz e seguir a Jesus.
- Renunciar a si mesmo: significa desfazer-se de toda ambição pessoal. Em outras palavras, não ser como o pessoal do Sinédrio: vencer a ambição do latifúndio, do dinheiro, do poder e do domínio e controle da verdade. É ser pobre, rompendo definitivamente com a sociedade que matou Jesus e continua matando pessoas. Em termos mais concretos, significa reforma agrária, partilha dos bens, participação do povo nos destinos do mesmo, educação e saúde para todos, etc.
- Tomar a cruz: é admitir ser perseguido, não ter medo de ser “marcado para morrer” pela sociedade que matou Jesus, o profeta e o justo. Lucas, nesse particular, acrescenta o advérbio “diariamente”, para salientar que a luta é dura e que a resistência precisa ser constante.
- Seguir a Jesus é aceitar ser banido, marginalizado, ir com ele até o fim, enfrentando todas as hostilidades da sociedade injusta que levou Jesus à morte. Concretamente, isso significa “perder a vida”. Mas Jesus garante: quem perde assim a vida irá encontrá-la (v. 24), pois ele ressuscitou e é Senhor da Vida.
1ª leitura: Zc. 12,10–11; 13,1
11. Esses dois versículos são bastante obscuros.
Fazem parte de uma seção maior (caps. 9-14), que os estudiosos costumam chamar de Segundo Zacarias, autor anônimo difícil de ser situado no espaço e no tempo. Percebe-se, nesses capítulos, a presença da linguagem apocalíptica e sua simbologia, o que torna mais difícil determinar com clareza quando surgiu esse texto e a quem se destinava. Sabe-se, simplesmente, que são textos pós-exílicos.
12. Espírito de graça ou espírito de pesar profundo.
O versículo 10 fala de um tempo em que o Senhor irá derramar sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de súplica. Alguns estudiosos leem, em lugar de “espírito de graça”, um “espírito de pesar profundo”, que condiz melhor com o contexto. Tratar-se-ia, então, de um tempo de arrependimento e conversão, de pranto e luto. Situando-nos no tempo do profeta, podemos perguntar: quando isso irá acontecer?
13. Acontecimento presente e não futuro.
A linguagem apocalíptica dificilmente fala de coisas futuras. Dá a impressão de prever o futuro, mas na verdade está falando – de modo misterioso – das coisas que acontecem no presente. O tempo de arrependimento e conversão, de pranto e luto é, portanto, o momento presente em que o texto foi escrito. Mas o que causou tudo isso?
14. O fato = o assassinato de um inocente.
A resposta vem a seguir: “ao contemplar-me transpassado por eles mesmos, ficarão de luto, como se faz luto por um filho único: chorarão como se chora amargamente um primogênito” (v.10b). O motivo, portanto, é o assassinato de um inocente. E isso se torna muito mais grave por se parecer com a morte de filho único ou de primogênito. Daí decorrem pranto e luto aos dias em que Judá pranteou Josias, o rei justo e piedoso, morto na batalha de Meguido (cf. 2Rs. 23,29). O texto deixa claro que o povo matou um inocente e, tardia-mente, tomou consciência das consequências desse fato. Mas quem é o transpassado?
15. Quem é ele ? Há diversas tentativas de resposta.
15.1. Alguns afirmam que é o povo de Israel. Vítima da idolatria, toma consciência, lamenta profundamente, se arrepende de forma espetacular e volta para Deus.
15.2. Outros dizem que o transpassado é o rei Josias, símbolo do povo exilado.
15.3. Finalmente, há quem defenda a ideia de que é o próprio Deus que se sente transpassado nos inocentes mortos.
16. Qual é o significado e o alcance? As três alternativas nos conduzem sempre à mesma questão: qual foi o significado e alcance do assassinato de pessoas inocentes (menores, sem-terra, lideranças populares)? O que aprender de um povo oprimido que morre à míngua? O que aprender da morte violenta de líderes do povo, sendo que os executores e mandantes continuam impunes? Isso não é um atentado contra o próprio Deus, que se sente transpassado nos inocentes mortos?
17. A realização em Jesus crucificado.
O evangelho de João (19,37) viu em Jesus crucificado a realização daquilo que Zacarias anunciava de forma obscura. E isso também é questionador: a morte de Jesus destruiu, – para sempre, – as forças de morte. Por que, então, nosso povo continua sendo massacrado?
2ª leitura: Gl. 3,26–29
18. O evangelho nos faz filhos do Pai celeste.
O trecho de hoje traz uma das grandes sínteses de tudo o que Paulo ensinou. Há um só Pai e todos são filhos seus. A união das pessoas em torno de um único Pai aconteceu com a pregação do evangelho e com o batismo, consequência da adesão ao projeto de Deus revelado em Jesus Cristo: “vocês são filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (v. 26).
19. Cristão = expressão visível do Cristo . Paulo vê o batismo como nova identidade. Essa afirmação decorre do simbolismo da roupa nova. O batismo é assumir a identidade de Cristo. Com ele nos tornamos cristãos. Cristãos, portanto, é a expressão visível de Cristo, do qual recebemos o nome e a identidade.
20. Quais as consequências disto? Aqui chegamos a uma das maiores sínteses do evangelho de Paulo: “não há mais judeu ou não-judeu, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vocês são um só em Cristo Jesus” (v. 28).
21. A discriminação entre judeus, gregos e romanos.
21.1. Entre os judeus. Os judeus discriminavam os não-judeus. E nas comunidades gálatas, os judeu-cristãos achavam que os pagãos (gregos) convertidos ao evangelho seriam cristãos de segunda classe. Os judeus admitiam classes: alguns precisam ser senhores, e outros foram destinados a ser escravos. Discriminavam também entre homem e mulher: o bom judeu agradece a Deus, todas as manhãs, por tê-lo criado homem.
21.2. Entre os gregos.
Os gregos também faziam questão de raça, admitiam classes sociais e relegavam a mulher a um plano inferior. Segundo as classificações gregas, os escravos vinham após os rebanhos, e eram considerados como coisas, propriedade de alguém, que pode dispor deles a seu contento.
21.3. Entre os romanos.
No mundo romano, os escravos eram considerados ”res” (= coisa), algo que pode ser comprado ou vendido. Para o filósofo Catão, um escravo velho vale menos que um velho boi: deste, pelo menos, pode-se aproveitar a carne, ainda que dura para os dentes. O historiador Tácito, falando do massacre de um grupo de escravos, qualifica-o como “vile damnum”, isto é, “perda de pouco valor”
22. Nós não levamos a sério o evangelho de Paulo.
O evangelho acaba com tudo isso: “Todos vocês são um só em Cristo Jesus”! Nós, desgraçadamente, nunca levamos a sério o evangelho que Paulo prega. A Igreja também não. E nos calamos diante da escandalosa diferença entre o salário mínimo e o dos deputados e senadores, por exemplo. Paulo encontrou dificuldades pastorais para chegar à concretização desse ideal. Mas deu passos muito maiores que os nossos: o escravo Onésimo tornou-se cristão livre e as mulheres ocupavam espaço muito maior nas comunidades paulinas do que nas nossas (veja-se o caso da diaconisa Febe – Rm. 16,1: recomendo-vos Febe, nossa irmã, diaconisa da Igreja de Cencreia).
23. Abençoados ou discriminados?
Por que não há, segundo o evangelho, discriminação de raça, condição social e sexo? Porque somos todos de Cristo, descendentes de Abraão, herdeiros segundo a promessa (v. 29). Abraão é pai dos que creem (cf. Gn. 15,6). Os que acreditam em Cristo são abençoados, junto com Abraão, que acreditou (cf. Gl. 3,9). A promessa feita a Abraão é esta: “todas as nações serão abençoadas em você” (Gl. 3,8; cf. Gn. 12,3).
24. Que religião é a nossa?
Portanto, que sentido tem as diferenciações? Discriminar é estar ainda sob a religião da Lei, abolida para sempre pela morte e ressurreição de Cristo. Então, que tipo de religião é a nossa ? Religião da Lei, ou … religião que nasce do evangelho de Jesus Cristo?
Refletindo...
1. Predição da paixão.
Lucas introduz no meio das três predições da “paixão” a “grande viagem” de Jesus a Jerusalém. Como a predição da paixão aparece só uma vez neste Ano C, há uma razão especial para lhe dedicar atenção especial. Jesus é o Messias que segue seu caminho não no sentido que presumem os homens, mas como Deus o define. O anúncio da Paixão vem corrigir a própria confissão de Pedro. Jesus toma o caminho da libertação pela doação até o fim, e quem quiser ser seu discípulo deve seguir este mesmo caminho, talvez não imediatamente no martírio , mas “cada dia” … e é a todos nós que isso é dito.
2. Pergunta quem ele é.
A situação é a seguinte: Jesus vive um dos seus momentos de intimidade com Deus (Lc. 9,18), talvez refletindo sobre o sentido dos sinais messiânicos que lhe é dado fazer (precede imediatamente, em Lc. 9,10-17, a multiplicação dos pães). Quer conscientizar seus discípulos daquilo que o Pai lhe faz ver. Pergunta quem, na opinião dos homens, ele é. E, depois, de respostas “aproximativas”, pergunta também por quem eles, discípulos, o tem.
3. “Tu és o Messias de Deus!”
Pedro torna-se porta-voz dos seus companheiros e diz: “Tu és o Messias de Deus!” Jesus lhes manda guardar esta intuição para si e explica por quê: o Filho do Homem deve sofrer e morrer, mas também ser ressuscitado. O povo ainda não entenderia isso. Só o entenderão depois de o ter transpassado, o que não deixa de ser mais um “cumprimento” das Escrituras, ou seja, da estranha lógica de Deus (cf. Zc. 12,10-11; Is. 53). Porque Jesus é o ponto final e a plenitude de toda uma linhagem de profetas rejeitados, messias assassinados, e de todos os “servos” e “pobres de Deus”. A pedagogia de Deus, que consiste em converter o homem não pela força, mas pelo exemplo do amor até o fim, atinge a plenitude em Jesus de Nazaré.
4. Entender Jesus é fazer o que ele fez.
O que Jesus diz “a todos” (Lc. 9,23, expressamente) é que eles devem segui-lo, assumindo sua cruz. A melhor maneira para entender Jesus é fazer a mesma coisa que ele. Não são as teorias cristológicas que nos ajudam a conhecer e entender Jesus, mas o viver como ele viveu, o morrer como ele morreu. Fazer a experiência do mundo e de Deus que ele fez, isso é que nos torna seus discípulos, dignos do nome de “cristãos”.
5. Tomar a cruz na vida de cada dia.
Quando a gente compara a palavra do seguimento em Lc. 9,23 com Mc. 8,34, que lhe serviu de modelo, a gente descobre que Lucas acrescentou algo: “cada dia”. Tomar sua cruz não acontece apenas no caminho do Gólgota, mas na vida de cada dia (Lucas é o evangelista que mais pensa na situação do cristão comum). Quem não sabe assumir as pequenas cruzes de cada dia, nunca será um mártir do amor até o fim.
5. Participação na cruz do Calvário e no seu amor.
Lucas escreve isso com uma finalidade pedagógica, de acordo com seu espírito helenístico, que dava muita importância à “ascese”, o “exercício” (foram os gregos que inventaram o treinamento esportivo). Porém, os pequenos sacrifícios do dia a dia não são apenas exercícios esportivos. Eles são exercícios do amor de Cristo. São a manifestação, até nos mínimos detalhes de nossa vida, de quanto temos constantemente diante dos olhos seu amor por nós, manifestado na cruz. A cruz do dia a dia é nossa participação da Cruz do Calvário, da qual recebe todo o seu valor.
6. Seguimento real e verdadeiro do Cristo.
Temos agora também critérios para distinguir entre o verdadeiro seguimento de Jesus no caminho da cruz e o superficial entusiasmo que, - como um parasita - tira a força e sufoca o verdadeiro amor a Cristo. Muitos – que andam com ostentativo crucifixo no peito – não tem a mínima intenção séria de viver o que a cruz significa.
7. Jesus… um cara sensacional!
Consideram Jesus talvez como um João Batista ou Elias redivivo, ou seja, um cara sensacional, mas não estão dispostos a viver no dia a dia o que ele viveu.
7.1. Fazem de Jesus um subterfúgio, uma escusa, uma fachada que os dispensa de qualquer chamado à conversão: “sou homem de Igreja, ninguém precisa me dizer o que devo fazer!”
7.2. Sobretudo, quando cheiram no ar algo que possa mexer com sua posição social, algo como a opção pelos pobres…
7.3. Devem aprender a assumir a cruz, no dia a dia, não com espírito revoltado (“que é que fiz para merecer isso ou aquilo, eu que rezo tanto?”), mas com o amor do Cristo, que tem compaixão dos mais sofridos. Então, reconhecerão que sua cruz não é a enxaqueca do dia depois da festa de aniversário, mas a incapacidade de criar uma sociedade justa, em que todos tenham vez.
8. Fomos “cristificados”.
Entre cristãos, é impossível perpetuar e aprofundar sempre mais o abismo que divide as pessoas social e culturalmente. Pelo batismo, mudamos de personalidade: somos todos “Cristo”, todos iguais aos olhos de Deus, todos seu filho querido: não há mais homem e mulher, judeu e grego, senhor e escravo. Não deverá esta igualdade escatológica manifestar-se também no dia a dia de uma sociedade que se chama cristã?
9. Em Cristo todos somos iguais.
Todo mundo sabe que existem distinções e, muitas vezes, discriminações no tratamento social. Mas… o que fazemos com isso na Igreja, na comunidade de Cristo?
9.1. Paulo (2ª leitura) anuncia a igualdade de todos no sistema do “Senhor Jesus”.
9.2. Acabou o regime de lei judaica, que considerava o ser judeu um privilégio, por causa da antiga Aliança com Abraão e Moisés. Jesus é o fim da Lei.
9.3. A crucificação de Jesus, em nome desse regime antigo, marcou a chegada de um regime novo.
9.4. Simplesmente observar a lei de Moisés já não é salvação para quem conhece Jesus, para quem sabe o que ele pregou e como ele deu sua vida por sua nova mensagem e por aqueles que nela acreditassem.
9.5. Estes constituem o povo da Nova Aliança. São todos iguais para Deus, como filhos queridos e irmãos de Jesus – filhos com o Filho e co-herdeiros de seu Reino, continuadores do projeto que ele iniciou. Todas as diferenças tornam-se irrelevantes. Só o Cristo importa. Na comunhão em Cristo, já começam a desfazer-se as diferenças que dividem os homens.
10. Todos tem chances iguais no amor de Deus.
Neste novo sistema não importa ser judeu ou não-judeu, escravo ou livre, homem ou mulher (branco ou negro, patrão ou operário, rico ou pobre). Mesmo não tendo chances iguais em termos de competição econômica e ascensão social, todos tem chances iguais no amor de Deus.
10.1. Ora, este amor deve encarnar-se na comunidade inspirada pelo evangelho de Jesus, eliminando desigualdade e discriminação. Provocada pelas diferenças econômicas, sociais, culturais, etc., a comunidade que está ”em Cristo” testemunhará igual e indiscriminado carinho e fraternidade a todos, antecipando a plenitude da “Paz” celeste para todos os destinatários do amor do Pai.
10.2. Programa impossível, utopia? Talvez seja. Mas nem por isso podemos desistir dele, pois é a certeza que nos conduz!
10.2.1. Na “caridade em Cristo”, o capital já não servirá para uma classe dominar a outra, mas para estar à disposição de todos que trabalham e produzem.
10.2.2. A influência e o saber estarão a serviço do povo.
10.2.3. O marido não terá mais “liberdades” que a mulher, mas competirá com ela no carinho e dedicação.
11. É preciso perder sua vida para a encontrar.
Quem se apega aos seus privilégios não vai encontrar a vida em Cristo. Só quem coloca suas vantagens a serviço poderá participar da vida igual à de Cristo, na comunidade dos irmãos.
12. O caminho escolhido por Jesus.
A cruz e a morte estão intimamente ligadas ao Jesus-Messias verdadeiro. A concepção triunfalista (daquela época e nossa também) deve cair por terra. “Se alguém quer vir após mim… renuncie a si mesmo, … tome a sua cruz cada dia … e siga-me”. A escolha de Jesus é o caminho do “Servo Sofredor”, inspirado em Isaías. Decorre daí que o seguimento de Jesus se concretiza por meio de rupturas e opções:
- rupturas com toda forma de egoísmo e poder, com toda preocupação de buscar o brilho próprio dos que dominam;
- opções pelo serviço humilde e abnegado em vista de uma sociedade de amor, de justiça e de paz.
13. O caminho de Jesus ? Jesus não anuncia sua morte como fato definitivo. Definitiva mesma é sua ressurreição. E a ressurreição será o destino dos que dão a vida pelo Reino: lá haverá plenitude de Deus que plenifica a todos… e isso para sempre, para a eternidade!
14. Nosso mundo é de competição em tudo! Vivemos num mundo terrivelmente competitivo: vale tudo para ser o primeiro, para ser o melhor, para se sobrepor aos outros. E isto em casa, na escola, no clube, no trabalho, na sociedade, … e até na comunidade de igreja. Ser vencedor na vida é ter posição social, fama, dinheiro e poder. Este é o modelo de homem ou de mulher realizados para a sociedade. Só que este modelo não bate com o modelo apresentado pelo Jesus de Nazaré e retratado no evangelho.
15. Todos, todos filhos… todos, todos irmãos!
Vocês todos são filhos de Deus… não há diferenças entre vocês… ninguém é mais ou melhor que o outro … vocês todos são filhos e irmãos. Como é difícil esta mensagem do evangelho! Como é difícil entrar no coração (e mais ainda na vida) a proposta do Reino de Deus trazida e vivida por Jesus: reino da igualdade, da justiça, do amor, da fraternidade, do serviço, da solidariedade, dos direitos e oportunidades iguais para todos, de vida em abundância para todos e… de paz plena e verdadeira.
16. Mensagem difícil, sim… mas é a única, não há outra!
Somos convidados a seguir Jesus Cristo, o Messias, o Ungido de Deus. Mas lembremo-nos de que o caminho não é o do messianismo triunfal, mas o do enviado fiel ao Pai, fiel à sua proposta e fiel no serviço e no amor aos irmãos até o fim.
17. “Quem sou eu para você?”
Nossa resposta deveria vir do fundo do nosso coração …. com a coragem de quem se diz discípulo, de quem o segue, de quem encarna seus preceitos, de quem toma e leva a própria cruz com resignação e comprometimento … de quem encarnou a mensagem e os valores do Reino e do evangelho e … os vive no dia a dia.
prof. Ângelo Vitório Zambon
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