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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Comentário Prof.Fernando

Comentário Prof.Fernando    (7ºpósPentecostes/14aSemana T.Comum) 07julho13

crises e discursos

 A poesia do profeta
·                     Alegrai-vos - exultai - enchei-vos de júbilo - saciar-vos com o leite - consolações - a paz, um rio e a riqueza, uma torrente - meninos de peito no colo - acariciados pela mãe que anima seu filho - eu vos confortarei - sereis consolados - alegrar-se-á o vosso coração - retomarão vigor os vossos membros (1ªleit.=Is 66,10-14 [ou 2 Rs 5:1-14, LCR). No ciclo de Pentecostes continuamos lembrando a presença do Espírito consolador. Isaías, num trecho de quase pura poesia, compara a cidade que era o sinal de Deus morando também na Terra, na História e neste Universo ao amor de mãe. O desejo de felicidade na figura materna, amamentando os filhos e acariciando-os no seu colo. Todo mundo gostaria de recuperar um colo materno (ou paterno ou comunitário) para exorcizar o medo, a solidão e sofrimentos. Notemos os termos: alegria, consolação, animação, intimidade, paz; um mundo rico na fartura. Quem não o deseja? O problema é como chegar lá. Um caminho será de “aparências”. Outro é lembrado por Paulo:
Muitas propostas e uma mensagem
·                     Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo – nem circuncisão nem incircuncisão servem pra nada: o que vale é a nova criatura (2ªleit.= Gálatas critica os que queriam impor rituais religiosos à comunidade). Nós também vivemos envolvidos por propaganda religiosa, mito proselitismo (busca de novos membros) e o marketing que fazendo de Deus um ídolo, tomando “em vão” o seu nome. Há que se dizem “modernos” por oposição a religiões antigas. Outros, ao contrário até se autodenominam neopaganismo, com direito a magia e alquimia. O termo “espiritualidade” passou a significar muita coisa. A diversidade nesse campo parece a das línguas: imensa Babel de ritos e doutrinas. Dizia o filósofo E.Levinás: o sedutor conhece todas as astúcias da linguagem e todas as suas ambiguidades (...) e o mais perigoso é o que vos arrasta com palavras piedosas à violência e ao desprezo do outro. Geralmente (com as exceções de praxe) sua pregação é: “prosperidade financeira” e “solução” para tudo. Discursos superpostos aos políticos e aos de órgãos financeiros. Falas misturadas: governantes, técnicos e líderes religiosos. É a “religião” que foi reduzida ou cooptada pela economia ou política. Ver (há por aí) boas análises sobre “religiões” num “mercado de consumo”.
·                     Na carta aos Gálatas, Paulo diferencia a Liberdade anunciada pelo evangelho e opções de ritos e doutrinas. Desde os Dez Mandamentos até o Mistério da Cruz – só uma coisa “vale” (o único Valor): ser “nova criatura”, sem curvar-se à escravidão. Aderir (e adorar) ao único Criador. O resto é relativizado: Buscai primeiro o reino. Mesmo entre vários ramos e concretizações históricas do cristianismo há excessos de doutrinas e costumes que deixam a Boa Nova em segundo plano. Os apóstolos (cf. Atos) resumiam tudo no Kerygma, i.é., o anúncio da Cruz (de cada dia = da vida humana comum) e o reconhecimento da esperança da Ressurreição.
Mais de 70 em treinamento
·                     Não leveis bolsa. Dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. Comei e bebei do que vos servirem. Curai os enfermos. Dizei: Está perto de vós o reino de Deus (Lc10,1-12.17-20). Esta passagem mostra como o Anúncio da Boa Nova é para todos os discípulos (não só para a liderança dos Apóstolos). Resume-se hoje neste “manual de orientação” com o qual o Mestre de Nazaré prepara os “outros” discípulos (não só os escolhidos como seus principais embaixadores (apóstolos quer dizer “enviados em missão”). Mas não é um “receituário”, nem “manual técnico”. As orientações ao Discípulo coincidem em essência com outras Palavras do Mestre recolhidas em diferentes circunstâncias. Releia-se o “sermão da montanha” (cf.Mt5 ou Lc6) e o discurso da despedida na Ceia (Jo13ss). Veja-se a “fala” dos gestos: suas atitudes com os doentes e com os desprezados da sociedade, como pobres, órfãos, viúvas e as mulheres na sociedade patriarcal. Medite-se quanta ternura e lágrimas pelos amigos mortos e por gente do povo quando explorada pelos donos do poder e habitualmente submissa a demônios de todo tipo (das doenças, físicas, mentais ou sociais até a privação de solidariedade dos outros concidadãos).
Prevendo a queda dos impérios
·                     Jesus se baseia em Is14,12 (Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações!), para condenar também toda tirania. O mesmo discurso será usado em várias partes da Bíblia (no Apocalipse, as figuras de monstros simbolizam imperadores romanos; em Daniel serviam para sustentar a fé dos judeus sob o ditador Antíoco Epifanes, sob o império Selêucida; em Isaías refere-se à queda dos tiranos assírios (Sargão II ou Senaqueribe, segundo alguns e, segundo outros estudiosos, a sátira no cap.14 é contra Nabucodonosor da Babilônia). De qualquer modo Satanás está no poder diabólico dos tiranos. Jesus reafirma que nenhum demônio tem mais poder no novo Reino e que o discípulo deve alegrar-se por ter seu nome “escrito” junto ao Eterno, ao passo que ficar com os poderosos seria “cair” com eles, “como um raio” ao findar seu império (cf. também o hino do Magnificat de Maria).
Prevendo novas formas de viver
·                     É incrível pensar (mas está acontecendo hoje em dia) que o discurso religioso disputa o primeiro lugar com os do poder político (tido frequentemente por mentiroso) ou com a leitura econômica sempre repetida da “crise” (geralmente favorecendo interesses particulares e não a administração da “eco” (= “oikia”, isto é o modo humano de habitar o mundo). O povo da Europa cansou-se de mentiras, criticando que a “austeridade” só é imposta aos já empobrecidos e desempregados. A “primavera árabe” também mostrou povos cansados de ser massa pobre sob domínio de alguns que vivem no luxo. No Brasil jovens começam a descobrir que o mundo “político” e a economia também estão mentindo. Parece haver – apesar da distância de cultura e história – o mesmo desejo manifesto na comunicação “em rede” que sonha com outras formas de democracia, seja na Turquia, seja no Brasil.
Uma boa notícia: bem perto, no dia a dia
·                     O termo “evangelizar” tem recebido várias conotações, por influência também de emissoras religiosas de TV que precisam vender seus muitos “produtos” (assim como se por aí uma interpretação discutível dos “dízimos” bíblicos). Evangelizar não se reduz a sair pelas estradas ou fazer pregações. No roteiro da “missão dos 72” só duas falas estão indicadas: “a paz esteja nesta casa” e “o Reino está perto de vós”. Prevalecia a orientação para AGIR, promovendo cura dos males e desatando os nós que deixam as pessoas atadas a seus inimigos. Fazer o bem. E fazer bem seu dia a dia. Descobrir onde está a Presença do Mistério (perto, próximo, embora não se tenha olhos para isso). Diferente de apenas usar nomes sagrados num mercado de atrações e na exploração do sentimento, por causa de muitas carências e sofrimentos. A História já analisou que foi por uma expectativa “messiânica” que as massas do povo se deixaram seduzir por Hitler e Mussolini. Não se omite a Cruz de cada dia para anunciar “outro” evangelho: essa a briga enfrentada por Paulo que se resume em Gálatas. O risco é corromper a Boa Nova confundindo-a com poderes políticos ou mera busca de riquezas para acumular. Os “72 discípulos” foram estimulados a não centrar sua confiança nos recursos deste mundo e, por isso, não levariam “nem bolsa nem alforge”. Nem a sedução da oratória nem o marketing dos “produtos de evangelização”. Sua alegria não se baseava em “dominar cobras e escorpiões”, mas na Paz que receberam. Para levar aos outros.

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(* ): Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) fesomor2@gmail.com














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