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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 16 de julho de 2013

Comentários Prof.Fernando

Comentários Prof.Fernando (9ºpósPentecostes/16aSemana T.Comum) 21 julho 2013

– prioridade não elimina o que “sobra” na vida –
Teoria ou prática?
·                 O filósofo Kant escreveu em 1793 um livro sobre o provérbio: ser certo em teoria - não vale na prática. Este “filósofo do dever” contesta as objeções contra a “teoria”, na moral, na política e no direito internacional. Vivia, no século XVIII, vendo contínuas guerras. Desejava a paz e, de certa forma, previu o que nós hoje temos na União Europeia, na ONU e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sua filosofia ainda alimenta a discussão filosófica e, para muitos pensadores, tem sido plataforma básica de pesquisas e para a evolução da ciência e do direito.
·                 M.Blondel (1861-1949), filósofo francês, dedicou-se ao estudo da “filosofia da ação” e suas relações com o cristianismo e a teologia. Propôs a distinção entre dois tipos de pensamento: um, mais analítico, outro, mais sintético por ser capaz de captar a realidade antes mesmo dos conceitos. Considerou interdependentes as duas formas de pensamento. Nisso se diferencia de Pascal (1623-1662, o famoso matemático, físico e filósofo/teólogo) autor dos famosos Pensamentos, de muitas descobertas no campo da matemática e inventor da máquina de calcular. Ele distinguia três tipos (separados) de conhecimento (nas ordens do corpo, do espírito e da caridade): o dos sentidos, o do intelecto e o da fé sobrenatural.
·                 Tomás de Aquino (1224-1274), criador de genial síntese filosófico-teológica medieval, estabeleceu a visão do ser humano “composto” pelas dimensões do corpo e da inteligência (integradas como a matéria e a “alma” de Aristóteles. Na sua Suma Teológica (IIa,IIae,q8) discute em oito artigos o dom (do Espírito Santo) da Inteligência. Inteligência e Ciência, escreve ele, são dons do Espírito ligados à Fé, a virtude teologal (=vem de Deus, gratuitamente). É, afinal, pela Fé que podemos pensar Deus (crendo). No seu tempo a discussão de “questões” eram um método muito usado na argumentação filosófica e teológica. A Questão 8 da Segunda/Segundae: É a Inteligência um dom do Espírito? Aparentemente não seria, porque a inteligência já constitui a natureza humana (isto é, naturalmente: “antes” da Graça). No artigo 1º da Questão8 ele chama de “razão” (que compara a uma luz natural) o movimento que começa na inteligência e nela termina, ao conhecer o que antes era desconhecido. Mas o dom da graça não deriva da luz da natureza e é acréscimo ou aperfeiçoamento dessa luz. Por isso o chamamos de Inteligência..

Receber e acolher em casa o Totalmente Outro
Neste 9ºdomingo de Pentecostes, os textos nos falam do Deus que vem se hospedar em casa dos seres humanos (acampamento de Abraão; em Colossenses, manifesta-se na presença de Cristo; segundo Lucas, ele revela sua amizade à quem, como “Maria” se dispõe a escutar. Se ganhei tua amizade, peço-te que não prossigas viagem, sem parar junto a mim (Gênesis18, 1-10 [leit.alternativa: Amos 8:1-12]). Deus quis manifestar como é rico este mistério: a presença de Cristo em vós, a esperança da glória. Nós o anunciamos, ensinando a todos com toda a sabedoria (Colossenses 1,24-28 (ou:15-28). Marta, tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas, mas uma só coisa é necessária e Maria escolheu a melhor parte. Não lhe será tirada. (Lucas10,42).

A quem recebemos em nossa casa?
·                 Ao contrário de Tomás de Aquino, Pascal, Kant ou Blondel, Jesus de Nazaré não era um filósofo. Nem tampouco o era Lucas, que escreve para certo Teófilo e para as comunidades cristãs (depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio) a fim de que possam conhecer a história dos acontecimentos, como foram transmitidos por aqueles que foram testemunhas oculares (cf, Lucas1). Registrando a cena do Mestre hospedado junto a uma família muito amiga (casa dos irmãos Lázaro, Marta e Maria) a preocupação de Lucas não é de fazer teologia nem filosofia. Na leitura anterior, a conversa com o teólogo da Lei termina com a parábola do Bom Samaritano. “Marta e Maria” também apontam um exemplo concreto: Atender e Escutar. Ao longo da história do Cristianismo esta cena geralmente tem sido interpretada pela comparação entre a “via contemplativa” (estilo de vida de monges e monjas) e “vida ativa” (de outros religiosos e do clero em geral). Revalorizada a vida cristã (de todos, não só dos ministros e da vida monacal), interpretou-se Marta e Maria como contraposição entre ritos religiosos, liturgia e oração, de um lado, e, de outro... o que sobra na vida. Nessa visão “lá” estaríamos mais “perto” de Deus. O que seria esquecer que ele nos amou primeiro e se fez carne para habitar entre nós (cf.1carta de João e João1). A sabedoria dos Mandamentos indica um “ritmo” semanal de repouso e oração destinado à “memória religiosa” (lembrar o Criador e Libertador da escravidão): Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo (cf.Êxodo20,8-11/Deuteronômio 6,12-15). Mas a presença do criador continua nos outros seis dias da semana...
·                 Na verdade, “Marta e Maria” não apontam realidades em oposição, assim como não se opõem corpo e alma, teoria e prática, razão “noética e pneumática”, razão e inteligência (cf. Aristóteles, Kant, Blondel e Tomás de Aquino). Jesus não recrimina Marta porque trabalhava e servia à mesa, mas quer dizer que – sem o “olhar o interior” nada vale a pena – e (como nos Mandamentos) insiste na importância dos ritmos ou “tempos de escuta” da Palavra. Tomás, na citada Questão 8 da Secunda Secundae, diz que “Inteligência” deriva de: intus (=interior, íntimo) e légere (=colher, captar, ler). Esse olhar “dentro” é essencial. Até as ciências procuram (na dimensão física) “olhar” as coisas e nelas descobre as partículas das partículas. Na consideração da parábola do Bom Samaritano vimos como as relações humanas – para não se esgotarem na superficialidade ou mera organização social e econômica – demandam especial atenção ao Outro.
·                 Não atingiremos, porém, o sentido mais profundo da vida, só com a ciência, nem só com poesia e arte. É preciso até mesmo ir além da religião, pois é sua tendência espontânea cair no risco da imobilidade: congelada em seus ritos e doutrinas quando reduzida a formas (ou fôrmas?) sociais, históricas e culturais de organização burocrática. Para orientá-la em rumo certo é preciso que na religiosidade haja o que chamamos “Espiritualidade” – que inclui a Oração. Tal é o segredo daquela opção (a “melhor parte” escolhida por Maria). Coincide com o “Reino” anunciado por Jesus. A palavra, dirigida a Marta, faz eco a inúmeras outras passagens dos evangelhos sobre o “interior”, sobre prioridades, sobre o “coração”. Sobre orar. Eis algumas citações:
Ø    quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á (Mateus 6,6)
Ø    buscai primeiro o Reino e sua Justiça e tudo o mais vos será dado em acréscimo (Mateus13,19)
Ø    um homem ouve a palavra do Reino e não a entende... é quem a semente à beira do caminho
Ø    comparado a um grão de mostarda que um homem toma e semeia em seu campo ... ao fermento que uma mulher mistura na farinha ... a um tesouro escondido num campo. aquele campo ... a um negociante que procura pedras preciosas ... e o escriba instruído nas coisas do Reino é comparado a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas (Mateus13, 33.44.45.52)
Ø    se não vos transformardes em criancinhas não entrareis no Reino (Mateus 18,3)
Ø    limpa primeiro o interior do copo e do prato para que também o que está fora fique limpo (Mt23,26)
Ø    o Reino não virá de um modo ostensivo ... O Reino está dentro (em meio a) de vós (Lucas17,20.21)
Ø    Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração (Lucas2,19)
Ø    O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio (Lucas 6,45)
Ø    gente sem inteligência! Como sois tardos de coração em crer no anunciado (Lc24,25)
Ø    diziam então um ao outro: Não se nos abrasava o coração quando ele nos falava? (Lc24,32)
Ø    Orai para que não caiais em tentação. Depois se afastou e ajoelhado, orava (...) entrou em agonia e orava ainda mais e seu suor tornou-se como gotas de sangue e escorria na terra (Lc22,40-44)
Ø    voltando-se o Senhor, olhou para Pedro. Então Pedro se lembrou da palavra do Senhor (...) Saiu dali e chorou amargamente (22,61-62).

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(* ): Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) fesomor2@gmail.com


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