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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Comentários Prof.Fernando

Comentários Prof.Fernando (10ºpósPentecostes/17aSemana T.Comum) 28 julho 2013

Orar ou rezar? E textos (do sírio e do alemão) –
·                  Dizem que o verbo só pode ser “orar”, mas não: “rezar”. Em geral, nas comunidades protestantes a distinção é também uma crítica ao uso católico do “rezar”. Por essa crítica quem “reza” usa fórmulas (decoradas ou lidas) e repete as mesmas palavras como em ladainhas e terços. O que se quer evitar é o risco de ficar só nas palavras, só nos lábios. Talvez insistir muito na diferença entre alguns conceitos é tradição menos importante e, quem sabe, reflete ainda antigos hábitos de contestação (compreensíveis historicamente, se lembramos ter havido muita briga e pouco diálogo entre Reforma e contrarreforma). Talvez não devêssemos valorizar demais diferenças de costumes ou termos. A mesma realidade pode ser indicada de modo diverso em Portugal e no Brasil. E entre nós, há gírias próprias de nordestinos, cariocas ou gaúchos. Mas afinal trem ou comboio da no mesmo. Garoto ou guri. Abóbora ou jerimum. A questão não é se devemos orar ou rezar, como veremos adiante. Continue cada qual, em seu dialeto, mas orando ou rezando no mesmo Espírito.
·                 As leituras desta 17ª Semana do Tempo Comum - Gn 18,20-32 (ou, no LCR, Oséias  1:2-10); Colossenses 2,12-14 (ou 6-15(19) - preparam para a leitura do Evangelho, Lucas 11,1-13, onde ouvimos Jesus ensinando o Pai Nosso – modelo de todas as orações possíveis. A Oração do Senhor pode e deve ser repetida, com seus 7 pedidos como está em Mateus, ou com os 5, conforme a versão de Lucas, provavelmente mais antiga. Repetir, por si, não invalida a oração. Jesus no Getsêmani, voltava, diz Marcos (14,39) sempre “dizendo a mesma palavra”, ou seja, repetindo os mesmos pedidos. Em Mateus 6,7 o que o Mestre de Nazaré rejeitou o “tagarelar” (apostar na quantidade como “garantia” de ser atendido.
Outras distinções. Contemplação e o “gemido” interior.
·                 Na maioria das línguas indo-europeias o verbo “orar” derivam primeiro (antigo indo-europeu) da raiz prek (prasna no sânscrito). Mais proximamente derivam do latim vulgar precare (pregare/pray/prier-italiano/inglês/francês) com sentido de “pedir”. Em nossa língua tem a mesma raiz o termo prece. Mas temos (também no espanhol) o termo rezar, que vem do latim recitare (= “pronunciar ou ler em voz alta”), ou, ao pé da letra, re=de novo e citare=citar, invocar. Nesse caso, leva de fato ao sentido criticado de repetir com o risco de ficar só em palavras, “de boca”. Por outro lado, para evitar “exageros”, lembremos que “orar” se origina do latim orare (=“dizer, rezar, discursar”), com base em “os” = a ”boca”.
·                 Procuremos, então, outras diferenças, por exemplo, na reflexão destes sermões de dois teólogos um antigo, outro recente. Isaac, chamado ”o Sírio” era um monge no séc.8º que disse: “Os gemidos, prosternações, súplicas, lamentações, todas as formas de que se pode revestir a oração têm na verdade como objetivo a oração pura. […] nem oração, nem movimento, nem lamentação, nem poder, nem liberdade, nem súplica, nem desejo, nem prazer naquilo que espera nesta vida ou no mundo que há de vir: depois da oração pura, já não há outra oração. […] Acima desse limite, já não é oração, é maravilhar-se: a oração cessa e começa a contemplação. […] A oração é a semente, a contemplação é a recolha dos frutos. O semeador maravilha-se ao ver o inexprimível: como é que, a partir dos pequenos grãos nus que semeou, brotam subitamente diante de si espigas florescentes?”
É possível ao ser humano falar com Deus?
·                 Outra meditação (de 1955) foi propost por um dos maiores teólogos cristãos de nosso tempo, Paul Tillich. Ele trabalhou em grandes universidades dos Estados Unidos, país para onde mudou-se em 1933, pois tinha conhecido os horrores da Primeira Guerra Mundial e logo percebeu para onde Hitler conduzia a Alemanha. Independentemente das críticas que possa ter no meio acadêmico, ele sempre conciliou com a prática de vida no serviço pastoral e social, sua vida intelectual e a pesquisa. Ver, a seguir, um resumo do comentário aos versos 26 e 27 de Romanos 8, uma reflexão original sobre a oração e sobre a Oração do Senhor. O texto original integral está no cap.18 do livro [O novo ser, i.é., nova criatura] The New Being, N;York, 1955. O título do cap.18 é O paradoxo da oração.
·         “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza porque não sabemos orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos indizíveis, e aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito conforme Deus porque ele intercede pelos santo” (Rom 8,26-27). Eis uma das mais misteriosas palavras de Paulo: ela diz que alguém, que saber orar, não sabe. Entre nós também há quem faça orações em público na igreja com naturalidade, mas outros, de modo artificial. Vamos aprofundar o que Paulo quer dizer. No centro do propósito de Paulo - podemos supor - há dois tipos de oração: as litúrgicas ou fixas, e orações espontâneas. Como diz Paulo, não sabemos como devemos orar, pois as orações litúrgicas tornam-se frequentemente mecânicas, incompreensíveis. A história da Igreja mostra que assim também aconteceu com a Oração do Senhor. Paulo certamente conhecia o Pai Nosso, ao escrever não sabemos orar. Fazer da oração deixada por Jesus uma regra litúrgica não prova que se saiba orar.
·         Passando da oração litúrgica à espontânea a coisa não muda muito. Em geral é uma conversa comum com (como com uma pessoa qualquer?) a quem chamamos Deus, a quem podemos dizer isso e aquilo, a quem agradecer e de quem esperar favores. Isso também não prova que saibamos como orar. As Igrejas, em suas liturgias com fórmulas clássicas deveriam perguntar: estamos impedindo as pessoas de chegar à oração? Outras, ao dar espaço para que as pessoas façam orações a qualquer momento, deveriam perguntar se não estariam profanando a oração, ao privá-la de seu mistério.
·         Terceiro passo até o centro do pensamento de Paulo: bem ou mal feitas, ou feitas com fórmulas ou espontâneas, fica uma questão decisiva: a oração é possível ou não? Segundo o texto citado de Paulo, ela é humanamente impossível. Quando oramos, não deveríamos esquecer que fazemos uma coisa humanamente impossível, pois falamos com alguém que não é um outro qualquer, mas que está mais próximo de nós do que nós diante de nós mesmos. Dirigimo-nos a alguém que é sempre Sujeito, sempre agindo, sempre criando. Contamos a ele o que ele já sabe. E, ao contar, expressamos nossas tendências inconscientes sobre as quais colocamos nossas palavras conscientes. Por essa razão a oração é humanamente impossível.
·         Baseado nessas ideias Paulo apresenta uma solução misteriosa para a autêntica oração. É Deus mesmo quem faz a oração quando estamos em oração. Deus em nós – eis o que significa “Espírito”, “Deus está presente”, com seu poder que nos sacode, nos inspira e nos transforma. Há em nós algo que não vem de nós, mas intercede por nós diante de Deus. Só ele pode transpor a distância que nos separa dele. É um símbolo que parece absurdo, se tomado ao pé da letra. Deus intercedendo por nós junto dele quer dizer: Deus sabe sobre nós mais do que aquilo de que temos consciência. Ele sonda os corações. São palavras que se anteciparam ao conhecimento atual segundo o qual frágeis luzes conscientes emergem de um fundo amplo de pulsões e imagens inconscientes. Sendo assim, quem, senão o próprio Deus, para apresentar nosso ser a Deus !  Ele é o único a conhecer as profundezas de nossa alma.
·         Precisamente porque toda oração é impossível ao ser humano, mas Deus está presente nos níveis mais profundos de nós, algo mais profundo que a consciência chega a nós, que não pode ser expresso em palavras. As palavras que usamos em nossa vida consciente não são a essência da oração. Mas é o Deus agindo em nosso ser e apresentando-o a ele. Paulo chama de “gemido” ou “suspiro” o que acontece. O gemido é expressão da fraqueza de nosso existir como criatura. Dele nos aproximamos somente com gemidos inexprimíveis e tais suspiros não são obra nossa.
·         Paulo não faz, como nós, as distinções entre oração de pedidos, de intercessão, de louvor, de confissão de fé. Elas dependem de palavras. O suspirar do Espírito é em nós profundo demais para as palavras ou a distinção em tipos de oração. A oração espiritual eleva até Deus pelo poder de Deus, incluindo todos os tipos de oração.
·         Uma palavrinha a quem sente que não encontra palavras e permanece em silêncio diante de Deus. Pode ser ausência do Espírito. Pode ser também que este silêncio seja uma oração silenciosa, ou, dito de outro modo, suspiros profundos demais para haver palavras. Então, aquele que sonda o coração do ser humano, as escuta e compreende.
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·        (* ): Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) fesomor2@gmail.com



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