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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Comentários-Prof.Fernando

Comentários-Prof.Fernando (*) - 14ºpósPent./21ºdom.T.Comum) -   25 de agosto 2013
A PORTA ESTREITA
– sobre desejos –
·                     Cada um vive como quer ou como pode. Todo mundo quer ser feliz e seu desejo profundo, de forma consciente ou não, é o que as religiões conceituam como Salvação. Todo mundo gostaria de ser imortal, rico, saúde perfeita. Sonhos realizados. Isso serve como imagem para representar o “Reino” anunciado por Jesus de Nazaré. Sua religião, o Judaísmo (como acontece com todas as religiões) também se organizava prometendo a seus membros conquistar o Paraíso. Este, conforme os contextos, podia significar: ou uma vida longa, repleta de bênçãos (cf.Dt30,15-20); ou alma imortal, colocada entre os antepassados (“no seio de Abraão”, cf.Lc16,19ss); ou a ressurreição da própria carne, em corpo e alma, (numa vida eterna,cf.Mt22,23). Seja qual for o “céu” desejado, toda utopia humana anseia por Deus, suspirando por uma Paz completa (em hebraico os judeus chamam: Shalom).
– sobre perguntas –
·                     Desejo da imortalidade, esperança universal. Mas a pergunta é: como chegar lá. Os “inimigos” tentavam desmoralizar o Mestre. O povo, acostumado à imposição dos seus líderes, preocupava-se com a quase certeza de fazer parte do grupo dos excluídos da salvação. Daí a pergunta da leitura de hoje: “são poucos os que se salvam?” (Lc13,22), é possível alcançar a salvação ? Só alguns perguntavam sobre como deveriam agir (cf.Lc,18,18s, “Que devo fazer para alcançar a vida eterna”). A resposta (acontece em todas as religiões) para a questão da Salvação é buscá-la por meio de rituais, cultos e sacrifícios oferecidos ao(s) deus(es) vingativos, bem como por meio da observância de normas (aprendidas) de comportamento.
– pelos becos e ruelas –
·                     O anúncio do “Reino” foi feito com palavras e atitudes por Jesus. Acabou abalando os conceitos repetidos por doutrinas e costumes dos quais os “grandes” se diziam observantes, ao passo que o cidadão comum não conseguia observar (não eram “doutores”) ou desanimavam sob o peso de tantas normas (cf.Lc11,46). Seguindo a tradição profética em Israel, Jesus de Nazaré propunha a prática da justiça e um cuidado especial com os mais fracos e desprotegidos. Seu perfil está no “sermão da montanha”. Seus critérios (a balança da Justiça pende e de-pende) são os da parábola do Juízo Final, Mateus25. Ao anunciar o Reino, ele sacudiu as estruturas sócio-religiosas do seu tempo, contando parábolas e ajudando, em primeiro lugar, os desprotegidos e os desprezados. Não apontava os castelos dos reis, nem para a grandiosidade do templo. Não se preocupava com as doutrinas complicadas dos Doutores da Lei. Andava pelos becos e ruelas, de aldeia em aldeia. Sentava-se à mesa com publicanos, pecadores e prostitutas. Tocava e curava os que sofriam de doenças do corpo ou da alma. A inovação que promoveu num curto tempo de caminhada até a capital, Jerusalém, resultava de um profundo mergulho na mais legítima tradição de Moisés e dos Profetas, mostrando que só Deus é Deus e que todos somos iguais. Como está nos Mandamentos e no discurso profético: adorar o único Deus implica respeitar o outro. Ouvir a Palavra implica praticar a justiça.
– pela porta estreita –
·                    Virei para reunir todos os povos e línguas, anuncia Isaías (66,18-21). O autor da carta aos Hebreus cita outra passagem de Isaías (firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos, Is35,3) pois confia na vitória do que é bom e justo). Lucas aponta para as condições que permitirão fazer parte do Reino: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. Leituras e alternativas no LCR: Jr 1,4-10; Hb 12, 18-29; Lc 13, 10-17. A Divina Liturgia entre os ortodoxos celebra o 2ºdomingo após a festa da Dormição de Maria, ou 9º após Pent.- 9ºde Mateus.
·                    Muita gente não repara nos sinais emitidos pelo Criador; administrando  vida, a sociedade e a natureza longe do Espírito que tudo sustenta no existir. Os indivíduos, sem o sopro do Espírito, ficam sem ar, levando grupos e sociedades à dispersão e à violência. Isaías, porém, avisa que Deus quer reunir todos os povos numa grande fraternidade. É o sonho dos apóstolos, da difusão do cristianismo (que chegou erroneamente a querer identificar-se com um império unificado, produzindo cruzadas e até inquisição). Parece com o sonho de uma União Europeia, de uma ONU, daquela festa planetária periodicamente celebrada nos Jogos Olímpicos e nas Copas do Mundo. Aliás, o verbo “Esforçai-vos”, no texto original de Lucas, significa precisamente o empenho dos atletas nas competições. Ainda que a Salvação seja Graça (= dom gratuito, presente imerecido, dádiva oferecida pelo Criador a todos sem discriminação) é preciso aceitar o convite para a festa. Isso implica empenho (como os atletas em seu treinamento diário) para ser fiel, constante, atento, mantendo o desejo de alcançar a vitória. Inácio de Loyola entende pelo nome de “exercícios espirituais todo o modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal e mentalmente e de outras operações espirituais (...) Assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais, da mesma forma todo o modo de preparar e dispor a alma, para tirar de si todas as afeições desordenadas e, depois de tiradas, buscar e achar a vontade divina na disposição da sua vida para a salvação” (1ªAnotação).
·      No Brasil atual a comunicação social para as massas parece às vezes equiparar o anúncio do cristianismo à promoção de produtos segundo estratégias de marketing. É até usado o nome “produtos de evangelização”, dado a objetos, livros, CDs e outros itens vendáveis. O termo “evangelização” se estende a conferências, viagens de peregrinação e chega até às várias formas de contribuição financeira para as instituições e seus órgãos de comunicação. Não se pode generalizar, pois cada programa deve ser analisado. Com certeza, porém, uma teologia da prosperidade e o uso fácil do santo nome de Deus não são a “a porta estreita” para entrar no projeto do evangelho. É preciso “vigiar e orar” (Mc14,38;Lc21,36) para o discernimento: onde há exercício da Fé, onde não.
– os primeiros e os últimos –
·      O Cristo passou pela porta estreita ao fazer-se o próximo dos caídos à beira do caminho. Depois, sofreu na própria carne o abandono dos amigos, a traição simbolizada em Judas ou em Pedro. Padeceu a perseguição até a morte humilhante “sob Pôncio Pilatos”, do Império invasor. “Porta estreita” não significa dar prioridade à dor e ao sofrimento, embora tenha havido tempos e tendências que levaram às práticas de autoflagelação como forma de espiritualidade e “esforço” religioso (oje seriam vistas como doentias). A porta não é estreita como se fosse bom sofrer ou ser vítima. A porta é a passagem. “Estreita”: porque não é uma passagem qualquer, pois inclui o “esforçar-se”, ou seja, praticar exercícios adequados. Não basta desejar a Paz, mas “esforçar-se” é: trabalhar por ela. Implica praticar a Justiça. Diz a parábola que muitos contemporâneos de Jesus chegaram atrasados e deram com a cara na porta. Alegaram tê-lo visto nas praças e escutaram-no anunciando a Boa Notícia e até comeram à mesa, beberam com ele. Eles vão saber que outros vieram de longe, de outras culturas, raças e religiões. Os que pareciam os últimos chegaram a ser os primeiros: a ter um lugar na mesa do banquete.

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( * ) Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) fesomor2@gmail.com

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