.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

E PARA QUEM FICARÁ TUDO O QUE ACUMULASTE?

18º DOMINGO TEMPO COMUM

04 DE AGOSTO-ano C

Comentários Prof.Fernando



E PARA QUEM FICARÁ TUDO O QUE ACUMULASTE?


Evangelho - Lc 12,13-21




                        Então aquele homem ambicioso trabalhou, e trabalhou, não fez outra coisa na vida além de acumular riquezas. Se especializou em fazer isso de tal forma, que foi considerado um campeão em gerar riquezas. Continua...


============================

“ A VIDA DO HOMEM NÃO CONSISTE NA ABUNDÂNCIA DE BENS.” – Olívia Coutinho

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 04 de Agosto de 2013

Evangelho de Lc 12,13-21

Estamos no mês de Agosto, o mês  vocacional, um tempo  que nos convida à refletirmos sobre a  importância de  descobrirmos qual o nosso compromisso com a Igreja e com a sociedade! Temos uma missão a cumprir, e esta missão, parte do nosso compromisso primeiro: o compromisso com a vida!
Jesus tem uma proposta de vida nova para cada um de nós, proposta esta, que chega até a nós, em meio a tantos adversários do projeto de Deus, um projeto de amor, que  tem como prioridade o “ser” e não o “ter”.
A todo instante, Jesus nos convida a mudar o rumo da nossa história, a trilhar um caminho novo, a abrir mão dos nossos apegos para adquirirmos um tesouro no céu.  A vida de quem aceita este  convite, aderindo a  proposta inovadora de Jesus,  se  transforma numa  verdadeira fonte de vida no mundo!
Quem busca a verdade que é Jesus, encontra vida e se torna vida  na  vida do outro!
Jesus é a nossa maior riqueza, Ele é o sinal por excelência do amor do Pai! Depositar a nossa segurança Nele, é a certeza de recebermos um dia como herança, o único bem que não perece, o bem  maior: a Vida eterna.  Vida, que não será  interrompida com a nossa morte física!  Vida, que já podemos experimentá-la aqui na terra, quando fazemos do nosso ser, uma oferta de amor que se concretiza em partilha! A vida partilhada se converge  em mais vida para todos, aí está o milagre da partilha!
No evangelho de hoje, Jesus  nos alerta sobre o perigo da riqueza! A  riqueza nos cega,  torna-nos prisioneiros de nós mesmos, reféns dos bens da terra, bens, que quando não partilhados, torna-se  num grande abismo que nos impede de chegar ao Pai!
O texto nos diz, que alguém no meio da multidão, pede à Jesus para intervir numa questão relacionada a uma herança. Jesus não intervém, mas aproveita aquela oportunidade para passar um grande ensinamento:”Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens. E Jesus cita ainda  o exemplo de um homem  rico, que gastou sua vida  acumulando bens, e com isto não  construiu aqui na terra, a  sua morada no céu!
Com estas palavras, Jesus nos adverte sobre o perigo  que corremos quando depositamos a nossa segurança nos bens da terra!
O acúmulo de bens, a ostentação, nos torna egoístas, fechados no nosso eu, o que nos  distancia dos verdadeiros valores: os bens eternos!
Na parábola que nos é apresentada, confronta-se a lógica de Deus  e a lógica humana; a lógica humana, é guardar, acumular, ter sempre mais, enquanto  que a lógica de Deus é deixar-se,  é abandonar-se  é desprender-se, é esvaziar-se, é dar-se...
 Os ensinamentos  que Jesus nos passa no dia de hoje, são desafiadores, principalmente  para  muitos de nós, que tem “alma de rico” isto é,  que deixa-se levar  por atitudes egoísticas.
 O valor da vida não está naquilo  que se tem, e sim, naquilo que se é!
A nossa  plenitude, não se conquista pelo o que temos, e sim, pelo o que somos!
É  no mais   profundo  do nosso ser, que cultivamos o nosso bem maior: o amor de Deus: nossa maior herança!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia
============================

18º DOMINGO DO TEMPO COMUM 04/08/2013
1ª Leitura Eclesiastes, 12:2,21-23
Salmo 89(90),1 “Senhor, fostes nosso refúgio de geração em geração”
2ª Leitura Colossenses 3.1-5.9-11
Evangelho Lucas 12,13-21
“As ilusões dessa Vida...” -Diac. José da Cruz


Certamente que as dúvidas de um desempregado, aposentado ou assalariado, são outras, bem diferentes do homem que protagoniza o evangelho desse domingo. Enquanto os primeiros se perguntam como irão sobreviver e pagar tantas contas, o segundo está com uma dúvida cruel: onde irá armazenar o trigo, que produziu muito mais do que o esperado... Será que vale a pena derrubar os celeiros e fazer outros maiores para armazenar a produção excedente?
Segundo a lógica capitalista que prioriza o lucro e o patrimônio, nem é preciso pensar duas vezes,  seria uma burrice não investir. Mas segundo a lógica do evangelho, e a linha de raciocínio de um sábio chamado Coélet, é uma grande perda de tempo correr atrás da felicidade, pensando que ela está nas riquezas que este mundo pode oferecer, pois tudo é vaidade, conclui o sábio. Jesus por sua vez, não faz nenhum discurso inflamado contra o capitalismo, ou contra os grandes latifundiários que monopolizam a economia, para decepção dos que querem uma revolução, ele apenas constata o terrível engano que cometem os que depositam toda sua segurança e felicidade , apenas nos bens deste mundo.
De fato, podemos imaginar a frustração e o terror que se apodera do coração de um homem, que chegando de maneira consciente ao derradeiro instante de sua vida, descobre que passou toda sua existência acumulando riquezas, que na verdade não passavam de quinquilharias sem valor, perto do tesouro inestimável do amor e da graça que em Jesus o Pai ofereceu ao mundo. E o que é pior, tudo isso vai ficar para trás, nenhum centavo irá com ele, e outros que talvez nem trabalharam, irão usufruir do seu capital.
Ele bem que poderia ter investido no verdadeiro tesouro, partilhando seus bens e sua riqueza com os pobres, poderia ter feito para os empregados uma forma de participação nos lucros, dando aos mesmos esta alegria, poderia quem sabe, ter investido forte no social, não apenas de uma maneira mesquinha, visando incentivo fiscal ou isenção tributária,, mas com o objetivo verdadeiro de melhorar as condições de vida de tantas pessoas. Poderia ainda ter gerado novos empregos, elaborar uma política salarial digna e séria, onde os empregados pudessem crescer e dar mais conforto á família, e não apenas oferecer alguns míseros percentuais para repor a inflação. Isso também vale para os governantes, que muitas vezes colocam a saúde e o social em segundo plano.
Quantas bênçãos para o patrimônio de uma empresa ou nação, Deus envia do céu, quando se coloca a vida do ser humano em primeiro lugar, e não os seus interesses políticos, ou os seus gordos lucros!Mas não!
Nada disso fez este homem, que preferiu relacionar-se de maneira possessiva com seus bens: “MEU trigo, MEUS celeiros”, armazenar, acumular, ganhar mais para ter um lucro ainda maior, em nenhum momento ele fez planos que incluíssem a família, a mulher e os filhos, em nenhum momento ocorreu-lhe a idéia de ajudar seus empregados. O fim de tal homem será terrível! Não porque Deus irá se vingar mandando-o para as profundezas do inferno, mas sim porque, como já o dissemos, na última hora vai “cair à ficha” descobrirá amargurado, que viveu  de maneira egoísta, o remorso e o arrependimento lhe baterão no coração, e a dor por estar longe de Deus e do seu reino, será eterna e insuportável! Isso é o inferno! Esse homem durante a sua vida não conseguiu se descobrir como um Filho de Deus, vocacionado ao amor, que partilha que é generoso e solidário com os que não têm. Uma partilha que não pode ser imposta pelo poder de alguma lei, mas ditada por um coração transbordante de amor, esta é a razão porque Jesus se recusa a interferir em uma briga de irmãos na disputa de uma herança

Na verdade este homem perdeu toda a sua existência correndo atrás do brilho falso e ilusório das riquezas materiais, cultuando o deus dinheiro e fazendo das grandes magazines  as imponentes catedrais de adoração ao poderoso deus do consumo, permanecendo no “Homem velho”, não se dando conta que a ressurreição de Jesus marcou uma “virada” definitiva na vida do homem, que precisa sim dos bens deste mundo para viver, mas que em seu coração só busca as coisas do alto onde está a verdadeira glória e o mais valioso de todos os tesouros da terra
contar com um plano de saúde que atenda suas necessidades Quantas bênçãos para o patrimônio de uma empresa ou nação, Deus envia do céu, quando se coloca a vida do ser humano em primeiro lugar, e não os seus interesses políticos, ou os
============================
Evangelhos Dominicais Comentados

04/agosto/2013 – 18o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Lc 12, 13-21)

A liturgia deste domingo nos fala de partilha, mas não daquela partilha do jeito que Deus ensina. Fala de uma divisão gananciosa, fala de herança. Como se diz em linguagem jurídica, fala de divisão obrigatória, legal e de direito.

Onde quer que Jesus esteja sempre tem alguém ao seu redor pedindo alguma graça ou favor. Nesta passagem do Evangelho, Jesus é solicitado para resolver problemas de dinheiro. Jesus aproveita o exemplo destes dois irmãos para entrar no assunto que pretendia

Jesus não quis se envolver com problemas de herança, mas não perdeu a oportunidade para mostrar o valor da herança espiritual. Usou como exemplo o comportamento desses irmãos para mostrar para toda multidão que não são os bens materiais que trazem segurança e felicidade.

São outros os tesouros que devem ser acumulados, diz Jesus. O tesouro que Jesus se refere, chama-se partilha, porém no seu verdadeiro sentido. Para Jesus, partilha vai muito além da obrigação e da lei dos homens. A verdadeira partilha é fruto do amor e, é espontânea, por isso traz mais satisfação para quem distribui do que para quem recebe.



A parábola narrada por Jesus mostra o comportamento de um homem avarento e ambicioso, que tem uma única preocupação; trabalhar para enriquecer ainda mais, pois já era rico. Seus celeiros estavam lotados e já não tinha mais onde armazenar o produto de sua colheita.

Pouco sabemos sobre ele, porém podemos concluir que não lembrou-se dos necessitados, nem quis saber dos miseráveis e famintos. Certamente sentia-se isento de culpa pela péssima distribuição de renda e não se achava responsável pelos desempregados e sem terras que, certamente, já existiam naquela época.

Nem sequer pensou naqueles lavradores que, em troca de um mísero salário, plantaram e colheram para ele. Considerava um desperdício vender a colheita a preço acessível e uma loucura doar parte dela. Nunca lhe passou pela idéia investir uma parte de seus bens para gerar empregos e amenizar a fome.

Esta parábola deve servir de alerta para cada um de nós. Ninguém está proibido de trabalhar e de poupar para o futuro, porém é preciso lembrar que o nosso tempo de vida não é proporcional ao volume de dinheiro e de bens que acumulamos.

Nada mais justo do que agradecer a Deus se hoje estamos radiantes de alegria e sem problemas de saúde ou financeiros. Agradecer também pelo dinheiro e pelos bens. No entanto, não é segredo que essa calmaria não é perpétua. Só temos uma certeza, sabemos que estamos vivos agora, mas nada sabemos sobre o próximo minuto, quanto mais do amanhã. Isso é válido para o pobre e para o rico.

O rico perante Deus é aquele que não acumula riquezas para si, mas sim para o bem do próximo. Trabalha de sol a sol para o bem comum, não é avarento e muito menos esbanjador. Sabe valorizar seus bens, porque são necessários para a sobrevivência e para uma vida digna.

O rico de verdade, sabe distribuir amor e, acima de tudo, sabe que basta manter seus celeiros transbordantes de boas obras, para garantir a sua parte na Herança Eterna.

(3099)


============================
Em que consiste a vida do ser humano? O que faz realmente, de modo definitivo, uma existência humana valer a pena? Como o homem pode, de verdade, ganhar a vida? – eis algumas perguntas seríssimas para quem deseja viver de verdade e não fazer da existência um tempo perdido e uma paixão inútil.
O Senhor Jesus nos adverte: “A vida do homem não consiste na abundância de bens!” Esta frase recorda-nos uma outra: “O homem não vive somente de pão!” (Mt. 4,4). Ao contrário do que o mundo nos quer colocar na cabeça e no coração, não se pode medir o valor de uma vida pelos bens materiais ou pelo sucesso de alguém.
Todos temos um desejo enorme de encontrar um porto seguro para nossa existência. Buscamos segurança: segurança econômica, segurança quanto à saúde, segurança afetiva, segurança profissional... sempre segurança. O problema é que nesta vida e neste mundo nada é seguro e toda segurança não passa de uma ilusão, que cedo ou tarde desaba. O Eclesiastes é de um realismo cortante: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Em outras palavras: pó do pó, tudo é pó; inconsistência da inconsistência, tudo é inconsistência, tudo passa, tudo é transitório e fugaz... E o salmista hoje faz coro a essa tremenda realidade: “Vós fazeis voltar ao pó todo mortal, quando dizeis: ‘Voltai ao pó, filhos de Adão!’ Pois mil anos para vós são como ontem, qual vigília de uma noite que passou. Eles passam como o sono da manhã, são iguais à erva verde pelos campos. De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca”. O autor do Eclesiastes coloca a questão tão dramática: será que tudo quanto construímos, será que nossos amores e sonhos, será que tudo isso caminha para o nada? “Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento. Nem mesmo de noite repousa o seu coração!” São palavras duríssimas e, à primeira vista, de um pessimismo sem remédio. Mas, não é assim: o autor sagrado nos quer acordar do marasmo, nos quer fazer compreender que não podemos enterrar a cabeça e o coração no simples dia-a-dia, sem cuidar do sentido que estamos dando à nossa existência como um todo!
Então, onde apostar nossa vida, para que ela realmente tenha um sentido? Como fugir da angústia de uma vida que vai passando como o fio no tear - para usar um imagem da Escritura? É interessante observar como hoje se procura fazer a vida valer a pena... Preocupação com a estética, com a saúde, com a satisfação dos desejos... Preocupação em ser vip na sociedade, em ter prestígio e poder... em se esbaldar no divertimento, nos esportes, nos eventos, no turismo... Pois bem, a Palavra de Deus nos adverte de modo seco e solene: tudo passa, tudo é vaidade; não consiste nisso a vida de uma pessoa! Com tudo isso, podemos ser infelizes; com tudo isso, podemos danar para sempre nossa única existência.
Então, em que consiste a vida? Que caminho seguir para repousar nosso coração naquilo que não passa? Como usar as coisas que passam de modo a abraçar as que não passam? Os cristãos têm uma resposta, que para o mundo é incompreensível. Escutemos o Apóstolo: "Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Palavras fortes; palavras que o mundo não poderá nunca compreender! Para o cristão, a vida verdadeira é Cristo, aquele que morreu e ressuscitou, aquele que se encontra à direita do Pai. Nós cremos que tudo quanto vivamos com ele e de modo coerente com o seu Evangelho, é vida e nos faz felizes, livres e maduros. Cremos que viver de verdade a vida é apostar nele a existência, pois somente nele, no Cristo Senhor, está a vida verdadeira. Cremos que viver é viver como ele viveu. Ora, como foi a vida do Cristo? Foi total doação ao Pai e aos outros, por amor do Pai. Total despojamento, numa total liberdade – foi assim que o Cristo passou entre nós. Pois bem, é nisso que consiste a vida verdadeira; é nisto que consiste o que Jesus chama no Evangelho de ser “rico diante de Deus” e não ajuntar tesouros para si apenas.
Pensemos bem: num mundo que já não mais sabe olhar para o alto, num mundo que desaprendeu a ouvir aquele que tem palavra de vida eterna, não é fácil viver este caminho de Jesus. E, no entanto, esta é a condição para ser cristão de verdade e para encontrar a verdadeira vida. Não queiramos, portanto, reduzir o Evangelho ao tamanho da nossa mediocridade; tenhamos a coragem de dilatar nosso coração, de ampliar nossos horizontes à medida do apelo do Cristo Jesus e de viver a vida de pessoas novas, ressuscitadas para uma vida nova.
dom Henrique Soares da Costa

============================
Ser rico para Deus
A liturgia de hoje ensina a vaidade da riqueza. Para que tanto trabalhar, se nada podemos levar e devemos deixar o fruto de nosso trabalho para outros (primeira leitura)? Os pais arrecadam, os filhos aproveitam, os netos põem a perder... No evangelho, Jesus ilustra essa realidade com a parábola do homem que chegou a assegurar sua vida material, mas na mesma noite iria morrer...
Neste presente domingo, o acento cai no desapego dos “tesouros” terrenos. Nos próximos domingos, veremos que isso é apenas um lado da mensagem. O verdadeiro tesouro é o que depositamos junto a Deus por meio da solidariedade que praticamos para com os seus filhos, especialmente os pobres. Como lema para a liturgia da Palavra e a homilia, pode-se pensar numa frase como “ser rico para Deus”, “onde está teu tesouro, aí estará teu coração” ou “a riqueza passa, Deus não passa nunca”.
1º leitura (Ecl. 1,2; 2,21-23)
“Para que riqueza e saber?”, eis a pergunta do Eclesiastes (Coélet), de autoria de um filósofo judeu versado também no pensamento do mundo grego, lá por volta do ano 300 a.C., quando a Palestina estava sendo absorvida pelo império de Alexandre Magno, que espalhou a cultura grega por todo o Médio Oriente.
A literatura do Antigo Testamento geralmente demonstra apreço e gratidão pela vida. Prova disso é a primeira página da Bíblia, o hino da criação (Gn. 1). O Eclesiastes, porém, parece demonstrar certo ceticismo. Ataca o leitor com perguntas inoportunas: Que é o homem? Por que existe? Aonde vai? Para que servem a riqueza e o saber, dificilmente alcançados e tão facilmente perdidos na hora da morte? É como um vento que passa, “vaidade”. Que sobra? Essas perguntas nos preparam para valorizar o “tesouro junto a Deus” de que fala o evangelho.
Quando os negócios vão bem, é difícil aceitar o questionamento do Eclesiastes. Ele insiste no vazio das riquezas deste mundo, não só as riquezas financeiras, mas também o poder e o saber. O judaísmo apreciava bastante a riqueza, vendo nela uma recompensa de Deus (a assim chamada “teologia da retribuição”). Porém, uma obra mais ou menos contemporânea do Eclesiastes, o livro de Jó, põe em xeque a ideia de que a riqueza e a honra sejam recompensas por uma vida justa: Jó era um justo e recebeu o contrário da riqueza e do poder. Com base nisso, o livro de Jó nos abre ao mistério de Deus, que nos transcende (Jo 38,1-42,6). Eclesiastes, por sua vez, expõe lucidamente a precariedade das riquezas financeiras e culturais. Mas não conhece a visão de Jó, nem propõe alternativa ao tradicional pensamento judaico, nem vê outra riqueza que mereça nosso empenho. Por isso, apregoa uma fruição prudente e um comportamento sem problemas e sem perspectiva maior.
Evangelho (Lc. 12,13-21)
Em contraste com o desejo de se realizar na riqueza e no bem-estar materiais, Jesus, no evangelho, ensina-nos a nos tornar ricos aos olhos de Deus. Lc. 12,13-34 traz sentenças de Jesus sobre pobreza e riqueza. A vida não depende do poder aquisitivo (12,15). A palavra de Jesus é boa-nova, antes de tudo, para quem não depende da riqueza material: o pobre (cf. Mt. 5,3; Lc. 6,20). Onde está o tesouro de alguém, aí está o seu coração (Lc. 12,34). Herança, sucesso, safra... não livram o homem do perigo maior, o de endurecer-se, de romper a comunhão com os irmãos e com Deus. Quem liga para esses “tesouros” é um bobo (12,20). Assim é quem adora a sociedade do consumo. Embora talvez frequente a Igreja, no fundo não se importa com Deus - cf. Sl. 14(13),1. Possuído por suas posses (cf. Tg. 4,13-15), o homem já não percebe o que Deus lhe quer mostrar. O contrário disso, porém, a doação, a comunhão e tudo que daí procede nos garantem um tesouro junto a Deus.
Basta uma boa crise financeira para a gente se lembrar da precariedade dos tesouros deste mundo, mas nem todos aprendem a lição... A cena que o evangelho conta é bem típica: uma briga de irmãos por causa da herança. Querem que Jesus resolva a questão (como os cristãos de família tradicional que chamam o padre para resolver problemas familiares). Jesus, porém, não mostra interesse por isso, sua missão é outra. Que adiantaria, para o reino de Deus, impor a esses dois irmãos uma solução que, provavelmente, não os reconciliaria? Para Jesus, interessa que a pessoa se converta aos valores do Reino. Por isso, ele narra a parábola do rico insensato, o qual, depois de uma boa safra, achou que poderia descansar para o resto da vida e viver do que recolhera. (Coitado! Na mesma noite Deus viria reclamar sua vida...) Não que Jesus critique o desejo de viver decentemente; antes denuncia a mania de depositar a esperança nas riquezas desta vida, perdendo a oportunidade de reunir tesouros (= o que se deposita para guardar) junto a Deus.
As riquezas não são um mal em si, mas desviam nossa atenção da verdadeira riqueza, a amizade de Deus, a qual alcançamos pela dedicação a seus filhos (nesse sentido, convém completar a parábola de hoje por aquela do rico avaro e Lázaro, Lc. 16,19-31).
2º leitura (Cl. 3,1-5.9-11)
Em continuidade com a segunda leitura de domingo passado, Paulo nos expõe hoje a vida nova em Cristo. A vida nova do cristão é morrer e corressuscitar com Cristo. A comunhão com ele não é só para a vida futura; já somos nova criação em Cristo, embora ela esteja ainda escondida em Deus, como o próprio Cristo. Mas essa vida nova já age e sua configuração já está definida. Para isso, o velho homem deve morrer, não por uma mortificação que diminui a dignidade humana, mas pela vida nova na comunhão. Isso é que nos garante um tesouro junto a Deus.
O evangelho nos ensina a rever os critérios de nossa vida. Precisamos acreditar que nossa existência é diferente daquilo que o materialismo nos propõe. A segunda leitura nos fornece uma base sólida para tal fé. Corressuscitados com Cristo, devemos procurar as coisas do alto: o que é de valor definitivo, junto a Deus. E isso não está muito longe de nós. Nossa verdadeira vida é Cristo, que está “escondido” junto a Deus, na glória que se há de manifestar no dia sem fim. Se essa é nossa vida verdadeira, embora escondida, ela determina nosso agir desde já. Em vez de buscar interesses próprios (Cl. 3,5.7 faz o elenco destes), devemos buscar o que é de Deus (3,12-17, continuação da presente leitura). Nossa vida já é dirigida por critérios diferentes, embora sua figura definitiva ainda não seja visível. Por isso, o cristão é incompreensível para o mundo. Ele mesmo, porém, deve compreender e sondar a precariedade dos “tesouros” deste mundo. Por ser assim “diferente”, ele será rejeitado; portanto, precisa de uma fé sólida na autêntica vida – a de Cristo ressuscitado e de todos os verdadeiros batizados, sem distinção (Cl. 3,11).
Será que isso significa desprezo pelo mundo? Não. Nem teríamos o direito de desprezar o que Deus criou. É apenas uma questão de realismo: importa saber onde está a vida verdadeira, o sentido último de nosso existir, e relativizar o resto em função dessa vida verdadeira. Esta é a do Filho de Deus. Nós a partilhamos se nos dedicamos à vontade do Pai em tudo. E essa vontade é o amor para com nossos irmãos. O amor nos engaja muito mais neste mundo do que a busca de riquezas e de saber ilustrado.
Pistas para reflexão
Riqueza insensata
Quem é materialista (“materialista prático”, ainda que tenha teorias altamente espirituais), no fundo, só quer conhecer os prazeres do mundo. Para ele, o ensinamento de Jesus é indigesto. Nem por isso esse ensinamento deixa de ser verdadeiro. Não levamos nada daqui. As riquezas materiais não têm valor duradouro nem podem ser o fim último ao qual o ser humano se dedica.
Talvez o consumismo de hoje tenha isto de bom: lembra-nos essa precariedade. O produto que compramos hoje já sairá da moda amanhã, e depois de amanhã já nem haverá peças de reposição para consertá-lo! Nossa nova TV estará fora de moda antes de terminarmos de pagar as prestações... Por outro lado, esse consumismo é grosseira injustiça, pois gastamos em uma só geração os recursos das gerações futuras. Se as coisas valem tão pouco, melhor seria não as comprar e voltar a uma vida mais simples e desprendida. Poderia até sobrevir, como consequência, uma recessão econômica, mas também haveria menos necessidade de dinheiro para ser gasto...
A caça à riqueza material é um beco sem saída. A razão por que se insiste em produzir sempre mais é que os donos do mundo lucram com a produção, sobretudo das coisas supérfluas que enchem as prateleiras das lojas. Para vendê-las, criam e excitam nas pessoas a necessidade de possuí-las, mediante a publicidade na rua, no jornal, na televisão. Quando então as pessoas não conseguem adquirir todas essas coisas, ficam irrequietas; quando conseguem, ficam enjoadas; e nos dois casos surge mais uma necessidade: a psicoterapia...
A “sabedoria do lucro” é injusta e assassina. Leva as pessoas a desconsiderar os fracos. Um presidente deste nosso país chegou a dizer que “quem não pode competir não deve consumir”. O sistema do lucro e do desejo sempre mais acirrado precisa manter as desigualdades, pois parte do pressuposto de que todos querem superar a todos. Tal sistema é “intrinsecamente pecaminoso”, disseram os papas Paulo VI e João Paulo II.
Ser rico não para si, mas para Deus. Não amontoar riquezas que, na hora do juízo, serão as testemunhas de nossa avareza, injustiça e exploração (cf. Tg. 5,1-6), mas riquezas que constituam a alegria de Deus!
Não adianta muito discutir se a produção tem de ser capitalista ou socialista, enquanto não se tem claro que o ser humano não existe para a produção, e sim a produção para o ser humano. O qual, se for sábio, tentará precisar dela o menos possível. Usá-la-á para fazer amigos que o “recebam nas moradas eternas” (Lc. 16,9).
padre Johan Konings, sj.
============================
Ser rico para Deus
Basta uma boa crise financeira para a gente se lembrar da precariedade dos tesouros deste mundo. Embora nem todos aprendam a lição... A cena que o evangelho conta é bem típica: briga de irmãos sobre uma herança; querem que Jesus resolva (como os cristãos de família tradicional que chamam o padre para resolver problemas de família). Jesus não se interessa: sua missão é outra.
Que adiantaria, para o Reino de Deus, impor a esses dois irmãos uma solução que, provavelmente, não os reconciliaria? Para Jesus interessa que a pessoa se converta para os valores do Reino. Narra, pois, a parábola do rico insensato, que depois de uma boa safra achou que poderia descansar para o resto de sua vida e viver daquilo que recolhera - coitado, na mesma noite Deus viria reclamar sua vida ... Jesus não quis denunciar o desejo de viver decentemente, mas a mania de colocar sua esperança nas riquezas desta vida, esquecendo reunir tesouros junto a Deus. As riquezas não são um mal em si, mas desviam nossa atenção da verdadeira riqueza, a amizade de Deus, que alcançamos pela dedicação a seus filhos (a parábola de hoje é bem complementada por aquela do avaro e Lázaro, no 26° domingo).
É difícil aceitar isso, sobretudo quando os negócios vão bem. Por isso, a liturgia insiste no vazio das riquezas materiais (não só as riquezas financeiras, mas também as culturais: o saber). Nos remete aos capítulos iniciais de Eclesiastes, obra sobremaneira cética com referência aos bens deste mundo (1ª leitura). Geralmente, o judaísmo apreciava bastante a riqueza, vendo nela uma recompensa de Deus. Eclesiastes forma uma exceção. Lucidamente, expõe a precariedade das riquezas financeiras e culturais. Somente, não propõe alternativa, outra riqueza que mereça nosso empenho. A "riqueza junto a Deus", o N.T. é que a propõe: é o amor e caridade para com nossos irmãos.
Para levar a sério a admoestação deste evangelho é preciso rever os critérios de nossa vida. Precisamos acreditar que nossa vida é diferente daquilo que o materialismo nos propõe. A 2ª leitura nos fornece uma base sólida para tal fé. Co-ressuscitados com Cristo, devemos procurar as coisas do alto: o que é de valor definitivo, junto a Deus. E isso não está muito longe de nós. Nossa verdadeira vida é Cristo, que está "escondido" junto a Deus, na glória que se há de manifestar no dia sem fim. Se essa é nossa vida verdadeira, embora escondida, ela determina nosso agir desde já. Em vez de buscar interesses próprios (Cl. 3,5.7 faz o elenco destes), devemos buscar o que é de Deus (3,12-17, continuação da leitura). Nossa vida já é dirigida por critérios diferentes, embora sua figura definitiva ainda não seja visível. Por isso, o cristão é incompreensível para o mundo. Ele mesmo, porém, deve compreender perfeitamente a precariedade dos "tesouros" deste mundo. Por ser assim "diferente", ele será rejeitado. Por isso, precisa de uma firme fé na vida que é a do Cristo ressuscitado e de todos os verdadeiros batizados.
A oração do dia parece programática para a liturgia de hoje: somos renovados por Deus; que ele nos conserve renovados. Estamos vivendo uma vida nova e definitiva. Que não voltemos àquilo que é de menor valor.
Será que isso significa desprezo do mundo? Não. Nem teríamos o direito de desprezar o que Deus criou. É apenas uma questão de realismo: saber onde está a vida verdadeira, o sentido último de nosso existir, e relativizar o resto em função dessa vida verdadeira. A vida verdadeira é a do Filho de Deus. Nós a partilhamos, se pertencemos à vontade do Pai, em tudo. E esta vontade é o amor para com nossos irmãos. Este nos engaja muito mais neste mundo, do que a busca de riquezas e saber ilustrado.
Johan Konings "Liturgia dominical"
============================
A distribuição de heranças, desde o início do mundo, é uma questão delicada. No evangelho de hoje, um homem, que seguia Jesus, pede que Ele interfira na divisão dos bens que seu pai deixou, assim como fazia Moisés (Nm. 27,1-11). Jesus, no entanto, deixa claro que não veio para legislar sobre as leis dos homens. Sua missão é outra, e através de uma parábola, aproveita para deixar um valoroso ensinamento sobre o que é a verdadeira riqueza diante de Deus – Aquele que dá vida para todos.
Se no judaísmo os bens materiais eram considerados recompensa de Deus, dados por Ele sem a preocupação em dividi-los com quem necessitava, e a herança deixada era garantia da continuidade da história, do nome daquela família, Jesus, ao contrário, alerta através da parábola o que realmente importa diante do Pai, pois a sobra da colheita não devia ser acumulada, gerando trabalho e preocupações com o seu armazenamento, e sim, ser repartida. O acúmulo não garante a vida de ninguém. Ele nada valerá ao seu dono após a morte e, deixado de herança, poderá causar os mesmos atritos que estavam causando ao homem que estava ali, pedindo a intervenção na partilha.
Jesus não quer condenar a preocupação em viver decentemente, e sim, com o acúmulo de riquezas. O bem estar de alguns, conseguido à custa da injustiça e da exploração dos outros, não é dom de Deus e nem pode ser chamado de vida, pois esta vem de Deus e é para ser partilhada.
O que acontece muito, nos dias de hoje, é que as pessoas se preocupam tanto em ter patrimônio para garantir o futuro dos filhos, guardar economias para os imprevistos de amanhã, para uma velhice tranqüila que, quando se dão conta, a vida passou, os filhos cresceram, e elas, preocupadas com a tranquilidade financeira, se esquecem de dar valor ao que realmente importa que é a convivência fraterna com Deus e com o próximo, acumulando tesouros junto ao Reino.

Alguém pediu a Jesus que interferisse num caso de divisão de herança, mas ele disse claramente que não fora encarregado de resolver esse tipo de assunto. Esse caso de divisão de herança dizia respeito a um reclamante que reivindicava a sua parte, pois seu irmão queria ficar com tudo. A partir desse fato, Jesus faz, então, duas advertências para que tenhamos princípios claros e ideias bem definidas: “Tomem cuidado contra todo tipo de ganância, porque a vida não consiste na abundância de bens”. É comum acharmos que precisamos ter muitas coisas, ou ter tudo e de tudo para sermos felizes e bem realizados. A posse de bens é necessária para o equilíbrio da vida, mas a ganância envenena tudo: é preciso ter, e ter sempre mais e nem se sabe para quê. Jesus nos orienta a não ajuntar tesouros para nós mesmos, mas procurar ser rico diante de Deus.
De fato, tudo é vaidade, tudo é passageiro, o que seguramos com as mãos começa a cair com o passar do tempo. Mas há um caminho de liberdade, felicidade, realização pessoal que é preciso descobrir. Jesus disse que ele é o verdadeiro caminho para a vida. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse ele.
A sabedoria está em fazer de Jesus o absoluto de nossa vida, tornando tudo o mais relativo. Isso, porém, é uma graça que não depende só de nossa boa vontade, mas, sobretudo, da vontade de Deus, que nos concede contemplar aqui na terra os valores definitivos da eternidade. O que está ao nosso alcance é aprender a contentar-nos com o que temos, a não multiplicar os desejos para não aumentar os sofrimentos, deixar para trás o que passou, sair do aconchego do pequeno ninho para descortinar um horizonte maior, em suma, despojar-se do homem velho e revestir-se do novo.
O velho homem é o ganancioso, sempre insaciável, aquele que nunca se realiza e que, ao mesmo tempo, impede a realização dos outros. Ele acumula nas próprias mãos o que a todos pertence, e termina sozinho e sem nada.
O homem novo alegra-se com o que tem e não se entristece pelo que não tem. Ele adquire conhecimentos, somando, mas torna-se sábio, renunciando. Ele sabe deixar para trás o que fica para trás, sabe se desfazer do que emperra a caminhada, administra os problemas sem multiplicá-los. Ir na contramão das tendências da ganância pode significar perder alguma coisa, mas para encontrar algo melhor.
Perca um pouco de tempo recolhendo-se em meditação. Perca o tempo da ganância e encontre o tempo da plenitude.  Fique quieto durante meia hora, feche os olhos, liberte-se de todas as necessidades, mesmo as mais prazerosas, e entre em relação com as Relações Subsistentes.
Mergulhe em Deus e entre na relação do Pai que gera eternamente o Filho, da Palavra que procede da boca de Deus, do Amor que procede do Pai e do Filho, e sinta o Amor de Deus sendo derramado em seu coração pelo Espírito Santo que lhe é dado. Mergulhe já naquilo que será o seu definitivo para sempre. E, assim, continue lutando pelo pão de cada dia, pela vestimenta, pela moradia, pelo emprego, mas como “homem novo”, cheio de sabedoria, que sabe dar a cada coisa o valor que ela tem. Tudo o mais é vaidade.
cônego Celso Pedro da Silva
============================
A falta de diálogo
Muitas vezes, e com relativa frequência, o editor da Bíblia vernácula atribui títulos às perícopes, ou unidades literárias, que não só não ajudam como induzem o leitor a erro de interpretação. É bem o caso do trecho do evangelho deste domingo.
Geralmente, esta parábola tem sido intitulada “Parábola do rico insensato”. A palavra “insensato” só aparece no v. 20; ademais, seria empobrecer a mensagem da parábola pensar que o problema do personagem consiste unicamente na acumulação de bens e numa maneira de possuir mais, totalmente estranha à fé em Deus. A parábola tem alcance muito maior. O verbo “dizer” é repetido várias vezes (vv. 17.18.19), num monólogo do personagem único, solitário e sem próximo. Esta observação, e se é necessário, pode nos levar a intitular a parábola deste modo: “O esquecimento fatal do diálogo”.
Esquecimento do diálogo com Deus, no que concerne ao rico proprietário (vv. 16ss), e do diálogo entre os dois irmãos acerca da partilha dos bens (vv. 13-14).
O v. 15 faz a transição entre o pedido de arbitragem de um dos irmãos e a parábola.
A palavra traduzida por “ganância”, no v. 15, em grego exprime uma vontade de ter superioridade, um desejo de poder: “... pois mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância de bens” (v. 15).
Isto significa que a riqueza não impede a morte inesperada. A abundância, o ter, pode substituir Deus. Ao invés de nos fazer disponíveis, essa facilidade ou abundância é em que nós confiamos, de fato. Isto é uma ilusão: eu creio possuir, mas, de fato, eu sou possuído! O importante é a nossa maneira de possuir, isto é, o papel que tem no nosso ser profundo o que nós possuímos.
Resumidamente, a parábola nos faz perguntar: Você é por ou contra Deus? É esta a questão posta ao rico: “E para quem ficará o que acumulaste?” (v. 20). Cabe a nós, diante do Senhor, respondermos também a isto: O que é que me enriquece de bens que não se contabilizam, mas modelam meu rosto, num olhar sobre o mundo, sobre os outros e sobre mim mesmo?
Carlos Alberto Contieri,sj
============================
A liturgia deste domingo questiona-nos acerca da atitude que assumimos face aos bens deste mundo. Sugere que eles não podem ser os deuses que dirigem a nossa vida; e convida-nos a descobrir e a amar esses outros bens que dão verdadeiro sentido à nossa existência e que nos garantem a vida em plenitude.
No Evangelho, através da “parábola do rico insensato”, Jesus denuncia a falência de uma vida voltada apenas para os bens materiais: o homem que assim procede é um “louco”, que esqueceu aquilo que, verdadeiramente, dá sentido à existência.
Na primeira leitura, temos uma reflexão do “qohélet” sobre o sem sentido de uma vida voltada para o acumular bens… Embora a reflexão do “qohélet” não vá mais além, ela constitui um patamar para partirmos à descoberta de Deus e dos seus valores e para encontramos aí o sentido último da nossa existência.
A segunda leitura convida-nos à identificação com Cristo: isso significa deixarmos os “deuses” que nos escravizam e renascermos continuamente, até que em nós se manifeste o Homem Novo, que é “imagem de Deus”.
1º leitura – Co (Ecle) 1,2; 2,21-23 - AMBIENTE
O livro de Qohélet é um livro de caráter sapiencial, escrito pelos finais do séc. III a.C.. Não sabemos quem é o autor… Em 1,1, apresenta-se o livro como “palavras de qohélet”; mas “qohélet” é uma forma participial do verbo “qhl” (“reunir em assembléia”): significa, pois, “aquele que participa na assembléia” ou, numa perspectiva mais ativa, “aquele que fala na assembléia”. O nome “Eclesiastes” (com que também é designado) é a forma latinizada do grego “ekklesiastes” (nome do livro na tradução grega do Antigo Testamento): significa o mesmo que “qohélet” – “aquele que se senta ou que fala na assembléia” (“ekklesia”).
Este “caderno de anotações” de um “sábio” é um escrito estranho e enigmático, sarcástico, inconformista, polêmico, que põe em causa os dogmas mais tradicionais de Israel. A sua preocupação fundamental, mais do que apontar caminhos, parece ser a de destruir certezas e seguranças. Levanta questões e não se preocupa, minimamente, em encontrar respostas para essas questões.
O tom geral do livro é de um impressionante pessimismo. O autor parece negar qualquer possibilidade de encontrar um sentido para a vida… Defende que o homem é incapaz de ter acesso à “sabedoria”, que não há qualquer novidade e que estamos fatalmente condenados a repetir os mesmos desafios, que o esforço humano é vão e inútil, que é impossível conhecer Deus e que, aconteça o que acontecer, nada vale a pena porque a morte está sempre no horizonte e iguala-nos com os ignorantes e os animais… Não é um livro onde se vão procurar respostas; é um livro onde se denuncia o fracasso da sabedoria tradicional e onde ecoa o grito de angústia de uma humanidade ferida e perdida, que não compreende a razão de viver.
MENSAGEM
Em concreto, no texto que hoje a liturgia nos propõe, o “qohélet” proclama a inutilidade de qualquer esforço humano. A partir da sua própria experiência, ele foi capaz de concluir friamente que os esforços desenvolvidos pelo homem ao longo da sua vida não servem para nada. Que adianta trabalhar, esforçar-se, preocupar-se em construir algo se teremos, no final, de deixar tudo a outro que nada fez? E o “qohélet” resume a sua frustração e o seu desencanto nesse refrão que se repete em todo o livro (25 vezes): “tudo é vaidade”. É uma conclusão ainda mais estranha quanto a “sabedoria” tradicional “excomungava” aquele que não fazia nada e apresentava como ideal do “sábio” aquele que trabalhava e que procurava cumprir eficazmente as tarefas que lhe estavam destinadas.
A grande lição que o “qohélet” nos deixa é a demonstração da incapacidade de o homem, por si só, encontrar uma saída, um sentido para a sua vida. O pessimismo do “qohélet” leva-nos a reconhecer a nossa impotência, o sem sentido de uma vida voltada apenas para o humano e para o material. Constatando que em si próprio e apenas por si próprio o homem não pode encontrar o sentido da vida, a reflexão deste livro força-nos a olhar para o mais além. Para onde? O “qohélet” não vai tão longe; mas nós, iluminados pela fé, já podemos concluir: para Deus. Só em Deus e com Deus seremos capazes de encontrar o sentido da vida e preencher a nossa existência.
ATUALIZAÇÃO
• Quase poderíamos dizer que o “qohélet” é o precursor desses filósofos existencialistas modernos que refletem sobre o sentido da vida e constatam a futilidade da existência, a náusea que acompanha a vida do homem, a inutilidade da busca da felicidade, o fracasso que é a vida condenada à morte (Jean Paul Sartre, Albert Camus, André Malraux…). As conclusões, quer do “qohélet”, quer das filosofias existencialistas agnósticas, seriam desesperantes se não existisse a fé. Para nós, os crentes, a vida não é absurda porque ela não termina nem se encerra neste mundo… A nossa caminhada nesta terra está, na verdade, cheia de limitações, de desilusões, de imperfeições; mas nós sabemos que esta vida caminha para a sua realização plena, para a vida eterna: só aí encontraremos o sentido pleno do nosso ser e da nossa existência.
• A reflexão do “qohélet” convida-nos a não colocar a nossa esperança e a nossa segurança em coisas falíveis e passageiras. Quem vive, apenas, para trabalhar e para acumular, pode encontrar aí aquilo que dá pleno significado à vida? Quem vive obcecado com a conta bancária, com o carro novo, ou com a casa com piscina num empreendimento de luxo, encontrará aí aquilo que o realiza plenamente? Para mim, o que é que dá sentido pleno à vida? Para que é que eu vivo?
2 leitura – Col. 3,1-5.9-11 - AMBIENTE
A segunda leitura deste domingo é, mais uma vez, um trecho dessa Carta aos Colossenses, em que Paulo polemiza contra os “doutores” para quem a fé em Cristo devia ser complementada com o conhecimento dos anjos e com certas práticas legalistas e ascéticas. Paulo procura demonstrar que a fé em Cristo (entendida como adesão a Cristo e identificação com Ele) basta para chegar à salvação.
Este texto integra a parte moral da carta (cf. Col. 3,1-4,1): aí Paulo tira conclusões práticas daquilo que afirmou na primeira parte (que Cristo basta para a salvação) e convoca os Colossenses a viverem, no dia a dia, de acordo com essa vida nova que os identificou com Cristo.
MENSAGEM
O texto que nos é proposto está dividido em duas partes.
Na primeira (vs. 1-4), Paulo apresenta, como ponto de partida e como base sólida da vida cristã, a união com Cristo ressuscitado. Os cristãos, pelo batismo, identificaram-se com Cristo ressuscitado; dessa forma, morreram para o pecado e renasceram para uma vida nova. Essa vida deve crescer progressivamente, mas manifestar-se-á em plenitude, quando Cristo “aparecer” (a carta aos Colossenses ainda alimenta nos cristãos a espera da vinda gloriosa de Cristo).
Na segunda parte (vs. 5.9-11), Paulo descreve as exigências práticas dessa identificação com Cristo ressuscitado. O cristão deve fazer morrer em si a imoralidade, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cupidez, numa palavra, todos esses falsos deuses que enchem a vida do homem velho; e, por outro lado, deve revestir-se do Homem Novo – ou seja, deve renovar-se continuamente até que nele se manifeste a “imagem de Deus” (“sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai do céu” – cf. Mt. 5,48). Quando isso acontecer, desaparecerão as velhas diferenças de povo, de raça, de religião e todos serão iguais, isto é, “imagem de Deus”. Foi isso que Cristo veio fazer: criar uma comunidade de homens novos, que sejam no mundo a “imagem de Deus”.
A identificação com Cristo ressuscitado – que resulta do batismo – é, portanto, um renascimento contínuo que deve levar-nos a parecer-nos cada vez mais com Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Ser batizado é, na perspectiva de Paulo, identificar-se com Cristo e, portanto, renunciar aos mecanismos que geram egoísmo, ambição, injustiça, orgulho, morte – os mesmos que Jesus rejeitou como diabólicos; e é, em contrapartida, escolher uma vida de doação, de entrega, de serviço, de amor – os mecanismos que levaram Jesus à cruz, mas que também o levaram à ressurreição. Eu estou sendo coerente com as exigências do meu batismo? Na minha vida há uma opção clara pelas “coisas do alto”, ou essas “coisas da terra” (brilhantes, sugestivas, mas efêmeras) têm prioridade e condicionam a minha ação?
• O objetivo da nossa vida (esse objetivo que deve estar sempre presente diante dos nossos olhos e que deve constituir a meta para a qual caminhamos) é, de acordo com Paulo, a renovação contínua da nossa vida, a fim de que nos tornemos “imagem de Deus”. Aqueles que me rodeiam conseguem detectar em mim algo de Deus? Que “imagem de Deus” é que eu transmito a quem, diariamente, contata comigo?
• A comunidade cristã é essa família de irmãos onde as diferenças (de raça, de cultura, de posição social, de perspectiva política, etc.) são ilusórias, porque o fundamental é que todos caminham para ser “imagem de Deus”. Isto é realidade? Nas nossas comunidades (cristãs ou religiosas), todos os membros são tratados com igual dignidade, como “imagem de Deus”?
• Convém não esquecer que a construção do “Homem Novo” é uma tarefa que exige uma renovação constante, uma atenção constante, um compromisso constante. Enquanto estamos neste mundo, nunca podemos cruzar os braços e dar a nossa caminhada para a perfeição por terminada: cada instante apresenta-nos novos desafios, que podem ser vencidos ou que podem vencer-nos.
Evangelho – Lc. 12,13-21 - AMBIENTE
Continuamos a percorrer o “caminho de Jerusalém” e a escutar as lições que preparam os discípulos para serem as testemunhas do Reino. A catequese, que Jesus hoje apresenta, é sobre a atitude face aos bens.
A reflexão é despoletada por uma questão relacionada com partilhas… Um homem queixa-se a Jesus porque o irmão não quer repartir com ele a herança. Segundo as tradições judaicas, o filho primogênito de uma família de dois irmãos recebia dois terços das possessões paternas (cf. Dt. 21,17. É possível que só fossem repartidos os bens móveis e que, para guardar intacto o patrimônio da família, a casa e as terras fossem atribuídas ao primogênito). O homem que interpela Jesus é, provavelmente, o irmão mais novo, que ainda não tinha recebido nada. Era freqüente, no tempo de Jesus, que os “doutores da lei” assumissem o papel de juízes em casos similares… Como é que Jesus Se vai situar face a esta questão?
MENSAGEM
Jesus escusa-Se, delicadamente, a envolver-Se em questões de direito familiar e a tomar posição por um irmão contra outro (“amigo, quem me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?” – v. 14). O que estava em causa na questão era a cobiça, a luta pelos bens, o apego excessivo ao dinheiro (talvez por parte dos dois irmãos em causa). A conclusão que Jesus tira (v. 15) explica porque é que Ele não aceita meter-Se na questão: o dinheiro não é a fonte da verdadeira vida. A cobiça dos bens (o desejo insaciável de ter) é idolatria: não conduz à vida plena, não responde às aspirações mais profundas do homem, não conduz a um autêntico amadurecimento da pessoa. A lógica do “Reino” não é a lógica de quem vive para os bens materiais; quem quiser viver na dinâmica do Reino deverá ter isto presente.
A parábola que Jesus vai apresentar na sequência (vs. 16-21) ilustra a atitude do homem voltado para os bens perecíveis, mas que se esquece do essencial – aquilo que dá a vida em plenitude. Apresenta-nos um homem previdente, responsável, trabalhador (que até podíamos admirar e louvar); mas que, de forma egoísta e obsessiva, vive apenas para os bens que lhe asseguram tranquilidade e bem-estar material (e nisso, já não o podemos louvar e admirar). Esse homem representa, aqui, todos aqueles cuja vida é apenas um acumular sempre mais, esquecendo tudo o resto – inclusive Deus, a família e os outros; representa todos aqueles que vivem uma relação de “circuito fechado” com os bens materiais, que fizeram deles o seu deus pessoal e que esqueceram que não é aí que está o sentido mais fundamental da existência.
A referência à ação de Deus, que põe repentinamente um ponto final nesta existência egoísta e sem significado, não deve ser muito sublinhada: ela serve, apenas, para mostrar que uma vida vivida desse jeito não tem sentido e que quem vive para acumular mais e mais bens é, aos olhos de Deus, um “insensato”.
O que é que Jesus pretende, ao contar esta história? Convidar os seus discípulos a despojar-se de todos os bens? Ensinar aos seus seguidores que não devem preocupar-se com o futuro? Propor aos que aderem ao Reino uma existência de miséria, sem o necessário para uma vida minimamente digna e humana? Não. O que Jesus pretende é dizer-nos que não podemos viver na escravatura do dinheiro e dos bens materiais, como se eles fossem a coisa mais importante da nossa vida. A preocupação excessiva com os bens, a busca obsessiva dos bens, constitui uma experiência de egoísmo, de fechamento, de desumanização, que centra o homem em si próprio e o impede de estar disponível e de ter espaço na sua vida para os valores verdadeiramente importantes – os valores do Reino. Quando o coração está cheio de cobiça, de avareza, de egoísmo, quando a vida se torna um combate obsessivo pelo “ter”, quando o verdadeiro motor da vida é a ânsia de acumular, o homem torna-se insensível aos outros e a Deus; é capaz de explorar, de escravizar o irmão, de cometer injustiças, a fim de ampliar a sua conta bancária. Torna-se orgulhoso e auto-suficiente, incapaz de amar, de partilhar, de se preocupar com os outros… Fica, então, à margem do Reino.
Atenção: esta parábola não se destina apenas àqueles que têm muitos bens; mas destina-se a todos aqueles que (tendo muito ou pouco) vivem obcecados com os bens, orientam a sua vida no sentido do “ter” e fazem dos bens materiais os deuses que condicionam a sua vida e o seu agir.
ATUALIZAÇÃO
• A Palavra de Deus que aqui nos é servida questiona fortemente alguns dos fundamentos sobre os quais a nossa sociedade se constrói. O capitalismo selvagem que, por amor do lucro, escraviza e obriga a trabalhar até à exaustão (e por salários miseráveis) homens, mulheres e crianças, continua vivo em tantos cantos do nosso planeta… Podemos, tranquilamente, comprar e consumir produtos que são fruto da escravidão de tantos irmãos nossos? Devemos consentir, com a nossa indiferença e passividade, em aumentar os lucros imoderados desses empresários/sanguessugas que vivem do sangue dos outros?
• Entre nós, o capitalismo assume um “rosto” mais humano nas teses do liberalismo econômico; mas continua a impor a filosofia do lucro, a escravatura do trabalhador, a prioridade dos critérios de planificação, de eficiência, de produção em relação às pessoas. Podemos consentir que o mundo se construa desta forma? Podemos consentir que as leis laborais favoreçam a escravidão do trabalhador? Que podemos fazer? Nós cristãos – nós Igreja – não temos uma palavra a dizer e uma posição a tomar face a isto?
• Qualquer trabalhador – muitos de nós, provavelmente – passa a vida numa escravatura do trabalho e dos bens, que não deixa tempo nem disponibilidade para as coisas importantes – Deus, a família, os irmãos que nos rodeiam. Muitas vezes, o mercado de trabalho não nos dá outra hipótese (se não produzimos de acordo com a planificação da empresa, outro ocupará, rapidamente, o nosso lugar); outras vezes, essa escravatura do trabalho resulta de uma opção consciente… Quantas pessoas escolhem prescindir dos filhos, para poder dedicar-se a uma carreira de êxito profissional que as torne milionárias antes dos quarenta anos… Quantas pessoas esquecem as suas responsabilidades familiares, porque é mais importante assegurar o dinheiro suficiente para as férias na Tailândia ou na República Dominicana… Quantas pessoas renunciam à sua dignidade e aos seus direitos, para aumentar a conta bancária… Tornamo-nos, assim, mais felizes e mais humanos? É aí que está o verdadeiro sentido da vida?
• O que Jesus denuncia aqui não é a riqueza, mas a deificação da riqueza. Até alguém que fez “voto de pobreza” pode deixar-se tentar pelo apelo dos bens e colocar neles o seu interesse fundamental… A todos Jesus recomenda: “cuidado com os falsos deuses; não deixem que o acessório vos distraia do fundamental”.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
============================
Epístola (Cl. 3,1-5.9,1-11)
Parênese de Paulo baseado na analogia da vida, cristã com a de Cristo: mortos à vida carnal e seus desejos, vivamos já a futura vida essa que está esperando-nos no mais alto dos céus, da qual a ressurreição de Cristo é penhor e testemunho.
RESSURGIDOS. Se, portanto, tendes ressurgido com Cristo, buscai as coisas do alto onde o Cristo está sentado na direita de(o) Deus (1).
TENDES RESSURGIDO do verbo conresurgere a tradução direita é erguer-se junto com. Logicamente Paulo refere-se à ressurreição de Cristo da qual toma como imagem o batismo que a ele nos conforma na morte e na ressurreição, pois após o mesmo, temos em nós uma nova vida conforme a da vida de Jesus atualmente à direita do Pai. Este é o ensino do versículo atual. Se, pois, temos uma vida nova é lógico que busquemos as coisas pertencentes a essa vida nova onde Cristo está como supremo poder delegado do Pai.
SENTADO: a palavra lembra o trono próprio dos reis e poderosos governadores do mundo, como o faraó que diz a José: por tua palavra governar-se-á todo meu povo: somente no trono serei eu maior do que tu (Gn. 41,10). O trono era o assento, disposto em plataformas graduadas e dossel, usado pelos monarcas e outras dignidades, especialmente em atos de cerimônia. Assim falou Betsabeia a Davi pedindo o trono para seu filho Salomão (1Rs. 1,17). Sentar-se no trono era, pois, sinal de realeza, como bem distingue o faraó ao falar a seu primeiro ministro José, como temos citado anteriormente.  O céu era o trono de Deus (Mt. 5,34). No plural era a terceira classe de anjos que formam o coro celestial.
DIREITA na realidade o lado bom do corpo, onde a força e o poder se demonstrava; e, no caso do trono, a dignidade do herdeiro tinha a primazia como no caso do primogênito do faraó: morrerá todo primogênito, desde o primogênito do faraó que se assenta no seu trono (Ex. 11,5). Comoprimogênito de toda criatura (Cl. 1,15) foi introduzido na terra dizendo Deus o Pai: adorem-no todos os anjos (Hb. 1,6). É precisamente o objetivo do trono: a veneração ou acatamento dos súditos. O caso de Cristo é como vemos no texto aos hebreus adoração. É lógico que a linguagem empregada é analógica e metafórica, usando imagens para descrever realidades que não têm materialidade nem podem ser vistas como tais. O sentido real do versículo é que todo batizado está identificado com Cristo tendo no corpo como um amálgama e logicamente deve viver uma vida nova em que as coisas do alto têm a primazia sobre as terrenas.
AS COISAS DO ALTO. As do alto prestai atenção, não as sobre a terra (2).
DO ALTO o grego anö significa acima, nas alturas, como advérbio de lugar e anterior, como advérbio de tempo. Paulo invita aqui aos colossenses a pôr seu olhar no alto e não nas coisas terrenas de telhas para baixo como vulgarmente se diz, pois estas últimas além de serem temporárias, são insuficientes e aquelas são eternas e totalmente satisfatórias. Mas, com Cristo estamos mortos a esta vida e a glória, suprema ambição de um heleno está nesta vida terrena, fora do alcance de um cristão.
A MORTE COM CRISTO. Morrestes, pois, e vossa vida está escondida com Cristo em (o) Deus (3). Mais uma vez Paulo traz à tona a morte de todo cristão no momento do batismo (Cl. 2,12 e Ef. 2,16). Morto às leis mosaicas e especialmente à da circuncisão; morto às concupiscências da carne e dos olhos e a soberba da vida das quais fala João em 1,2-16.  A nova vida está escondida com Cristo que disse: aprendei de mim que sou manso e humilde de coração[de pensamento] e encontrareis descanso para vossas almas (Mt. 11,29). De um mestre que foge de ser aclamado rei  (Jo. 6,15) e que impede aos seus discípulos falar sobre seu messiado  (Mt. 16,20) e que impõe silêncio sobre sua transfiguração (Mt. 17,9). De um Deus que ocultou sua glória, assumindo a condição de escravo, esvaziando-se de sua glória (Fp. 2,7)  nascendo como um pobre mortal e vivendo como um simples artesão sem ter título ou reputação alguma (Mc. 6,3), de modo que seus conterrâneos se admiravam de sua sabedoria  (Mt. 13,54). De um mestre que ensinava que a mão esquerda não soubesse o que fazia a direta ao fazer o bem da esmola (Mt. 11,25), que ao orar não buscassem praças públicas, mas o secreto do quarto fechado (Mt. 6,6). Finalmente que dava graças por ver escondidas as coisas do reino aos sábios e entendidos e reveladas aos pequeninos (Mt. 11,25).
MANIFESTAÇÃO DA GLÓRIA. Quando o Cristo se manifestar, vossa vida, então também vós junto com ele vos manifestareis em glória (4). Até agora Cristo é um desconhecido, especialmente para as autoridades e sábios do mundo (Mt. 11,25). E com ele a vida dos seus seguidores, cópia da vida do Mestre (Mt. 10,24) estará oculta aos favores e honras o mundo; porém o dia da manifestação da glória do Senhor, eles terão sua manifestação, igualmente prometida aos doze de modo especial, pois assentar-se-ão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mt. 19,28). Mas também os simples fiéis são convidados ao triunfo final, pois como vencedores, levantarão as cabeças quando a redenção ou libertação estiver perto (Lc. 21,28), ao contrário dos vencidos que terão que se jogar no chão. Sem dúvida, que esta conformidade com Cristo vitorioso está presente na mente de Paulo neste versículo.
MORTE AOS DESEJOS CARNAIS. Matai, pois, vossos membros os terrenos: fornicação, impureza, paixão, lascívia, e a avareza que é idolatria (5). Agora vêm consequências dessa premissa de viver com Cristo, cuja primeira conclusão é aspirar às coisas do alto. Começa Paulo com as coisas às quais devemos estar mortos. Devemos  matar ou considerar como mortos os nossos membros com suas aspirações que são perecíveis como todo o terreno: FORNICAÇÃO em grego é todo ato de relação sexual cometido com uma mulher que não seja a própria e legítima esposa. Um illicit sexual inertcorse como dizem os de língua inglesa. Se distingue do adultério propriamente dito que tem uma palavra própria moichea reservando-se a porneia para a prostituição, pois a meretriz era a pornë derivada do verbo pernëmi (= vender) sem saída no NT e sem número de Sprong. A mulher do prostíbulo era denominada dequastuosa. Junto a estas existiam as sacerdotisas de diferentes templos como as bacantes, um dos templos sendo o dedicado a Ísis, deusa egípcia. Meretrizes eram as mulheres solteiras que exerciam a prostituição como amateurs e em cujo caso não tinha necessariamente que haver dinheiro no meio. Temos o caso de Messalina, imperatriz romana que ingressava periodicamente no templo/prostíbulo sob o pseudônimo de Licisca. Metaforicamente é o culto aos ídolos como foi o caso de Roma, a grande Babilônia, que de a beber a todas as nações do vinho da fúria de sua prostituição (Ap. 14,8) ou a prática e comer carnes sacrificadas aos ídolos como o caso de Jezabel que seduzia os cristãos a praticarem a prostituição e comerem coisas sacrificadas aos ídolos (Ap. 2,20). No caso, não estamos numa fala metafórica e a palavra tem o significado real de união ilícita com uma mulher. Dois são os casos em que a palavra porneia tem sido a cruz dos intérpretes:
1) Mt. 19,9: quem repudiar sua mulher, se não por causa de porneia e casar com outra, comete adultério.
2) Atos 15,29: Pareceu bem… que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, bem como de sangue, de carne, de animais sufocados e da porneia. Que significa porneia em ambos os casos? Evidentemente que não podemos confundir com moichea [adultério]. Que é uma relação não lícita entre um homem e uma mulher. Que no caso de Mateus essa relação é inicialmente proveniente do homem, que a repudia. Que evidentemente não é um matrimônio válido. Portanto, teremos que ver entre os ritos ou costumes judaicos que classe de matrimônios eram considerados inválidos ou ilícitos.
A tradução da RA de porneia de relação ilícita. A TEB fala de união ilegal e a católica de concubinato. A CEI traduz também como concubinato. Mais literal, Colunga fala de fornicação. Na nota explicaremos melhor o significado de porneia pelo que diz respeito ao matrimônio. propriamente não limpo ou sujeira que no plano moral será luxúria, lascívia ou concupiscência, como em Rm. 6,19: assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza que não a legal, mas a substancial da vida dissoluta.
PAIXÃO [pathos = libido] um sentimento que atinge a mente, emoção ou paixão que no NT sempre é uma depravação ou vileza, um desejo ruim. Distingue-se de epithimia porque este é um desejo ativo e o pathos é um sentimento passivo constituindo ambos um vício ou uma desordem interna, como diz apóstolo Paulo em Rm. 1,26: entregou Deus a paixões infames porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro contrário à natureza.
LASCÍVIA (concupiscentia) Já temos visto a diferença com pathos. Um desejo que no NT quase sempre é por coisas proibidas. Em Marcos 4,19 o evangelista fala da ambição das riquezas e os demais desejos que em Lc. 22,15, em palavras de Jesus, se traduzem em epithimia epithimasen [= com desejo tenho desejado] comer esta páscoa convosco. Mas neste versículo esse desejo está determinado pelo adjetivo Kakos que o transforma em desejo maligno, que é lascívia.
AVAREZA cobiça ou avareza que também tem um sinônimo como filargyria = cupiditas [literalmente amor à prata] que aqui Paulo diz ser uma idolatria em 1Tm. 6,10 declara ser a raiz de todo mal.
A MENTIRA. Não mintais uns aos outros, despidos do velho homem com suas práticas (9). Paulo retoma sua alegoria do velho e novo homem, separados pelo batismo. Além dos vícios do primeiro com respeito à carne, temos o pior que atinge o espírito: a mentira que se torna hipocrisia e dobrez quando do exercício da religião. Se alguma coisa Jesus combateu foi a hipocrisia da elite religiosa de seu tempo: Ai de vós escribas e fariseus hipócritas foi a maldição que encabeçava as sete diatribes contra os mesmos de Mt. 23,13 até 23-29. A hipocrisia é um pecado duplo: uma mentira e uma simulação, que indica falsidade e disfarce para a própria exaltação de virtudes inexistentes ou dissimulação dos defeitos reais. As práticas que saem do interior, assim deformado pela mentira, são as que sujam o homem e impedem ver a verdade que todos pretendemos como caminho real de nossas vidas.
IMAGEM DO CRIADOR. E revestidos do novo, o renovado em pleno conhecimento, segundo imagem de quem o criou (10). O cristão é um novo homem que tem conhecido o verdadeiro Senhor que o criou. Fala-se muito de um Deus-Amor, mas também devemos anunciar um Deus-verdade, que ama o pecador, este arrependido, mas que não deixa sem castigo o pecado cometido. Pois é também um Deus que fala do dia da ira e do justo juízo que retribuirá a cada um, segundo o seu procedimento (Rm. 2,5-6). Ira e indignação aos que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça (Rm. 2,8).
SEM DISTINÇÃO DE PESSOAS. Onde não há heleno e judeu, circuncisão e prepúcio, bárbaro, e cita, escravo, livre, mas todas as coisas e em tudo Cristo(11). Paulo termina com uma conclusão muito cara a ele por ser o apóstolo dos gentios: entre judeus e gentios não existe distinção. Paulo enumera uma série de distensões que separavam os homens de seu tempo entre felizardos e amaldiçoados, entre eleitos e rejeitados. Vamos explicar alguns dos termos hoje menos compreensíveis.
BÁRBARO era aquele que falava e se comportava rudimente; também que tinha como língua uma não compreendida pelo grego falado. Os gregos, especialmente após a guerra contra os persas, de uma pessoa ignorante do grego e que se distinguia por sua conduta incivilizada.
CÍTIA. A Cítia era o sul da Rússia moderna. Os seus habitantes eram vistos como os mais incivilizados entre os considerados bárbaros pelos gregos. Uma outra divisão que a fé cristã tem anulado é a existente entre escravos e livres. A igualdade será o desideratum do novo mundo que tem como base Cristo em tudo. Será sua cruz a insígnia da vitória final e o símbolo que avaliza o perdão e magnifica o amor.
NOTA: a PORNEIA grega merece uma aclaração nos dos textos anteriormente citados no comentário do versículo 5.
PRIMEIRO GRUPO DE TEXTOS.
Mas vejamos os dois textos de difícil interpretação. Mt. 5,31 e 19,9. Ambos respondem aos costumes da época, que Jesus repudia:
No 1° (Mt. 5,31-32) Jesus se põe contrário ao que “foi dito: qualquer que repudia sua mulher dê-lhe libelo de repúdio”. Precisamente esse libelo garantia que a mulher estava disponível e, portanto, não cometia adultério ao casar de novo; e assim o novo marido não estava sujeito à impureza (Lv. 18,20). A questão era qual era a causa suficiente para dar o libelo de modo que o primeiro marido não fosse causa de fazer com que a mulher adulterasse. Aqui, como no segundo texto, aparece a palavra porneia, que logo explicamos. O texto grego diz “parektós lógou porneías”. O logou porneia, comparado com o hebraico de Dt. 24,1 parece uma tradução literal. Podemos traduzir oparektós como “exceto no caso de”. Logos é palavra, razão, mandato; portanto a tradução seria: fora do caso de uma conduta sexualmente perversa. Nesse caso, o esposo poderia dar o libelo de divórcio. Esta é a interpretação que Jesus dá ao texto de Dt. 24,1. Desse texto se serviam os escribas e fariseus para conceder o divórcio. O motivo para tal divórcio legal foi, pois, explicado por Jesus como tendo unicamente uma razão de conduta sexual imprópria por parte da mulher.
No 2°texto (Mt. 19,3-9) temos no grego as mesmas razões, sendo que parektós logou porneias, é substituído por “me epi porneia” (não sobre (a) fornicação). Ambos os textos querem dizer: quando se despede uma mulher que se comportou ou era na realidade  prostituta, não se comete adultério ao dar o libelo de repúdio. As traduções modernas de porneia em ambos os casos (Mt. 5 e 19) segundo as diversas bíblias são: concubinato (E), impudícia (I), concubinato (CEI), fornicatio (Vul), fornicação (Jerus), relações sexuais ilícitas (RA). e fornication (JK).
INTERPRETAÇÃO. Era costume entre os orientais o matrimônio entre parentes que era considerado matrimônio de porneia. O texto base que servia de referência é o texto Massorético de Dt. 24,1. Ele emprega as palavras “tserwath dabar” que podem ser traduzidas literalmente por “palavra de nudez”. O texto dos setenta traduz por “áskhemon pragma” que poderíamos traduzir por conduta indecorosa. As diversas traduções das bíblias modernas são: Propter aliquam foeditatem da Vulgata, (alguma coisa torpe), algo indecente (E), qualcose di sconveniente (I), qualche cosa di vergognoso (CEI), coisa indecente (RA), algo inconveniente (Jerus), alguma coisa indecente (Lei, do rabino Meir) e finalmente some uncleannes in her (J. K). Vejamos as interpretações. O termo hebraico zenuth é traduzido ao grego por porneía e por fornicatio ao latim. Existiam os matrimônios chamados de fornicação (matrimônios zenuth). É o caso dos matrimônios assim chamados porque eram considerados inválidos segundo a lei e as uniões eram como as que se mantinham com uma prostituta.  Por isso eram chamados de matrimônios de fornicação. Alguns deles eram nulos pela lei natural, como o efetuado entre irmãos. Eram, pois, verdadeiros concubinatos, ou incestos nalguns dos casos. Dos três casos de Zenuth admitidos pelos legistas, somente o zenuth por erroou inadvertência é o que admite a anulação. O shem zenuth ,ou zenuth por malícia, e o derek zenuth ou por via de fornicação, eram inválidos em raiz. Os rabinos chamavam-nos derek zenuth ou caminho de fornicação pelo modo incorreto de realizar-se. Parece que esta é a solução mais correta. Poderia haver alguns casos em que o repúdio era lícito segundo a antiga lei?
RESPOSTA. Que coisa transforma uma mulher casada em prostituta, e o matrimônio pode ser chamado de Zenuth, para poder assim repudiá-la?
1° Não querer ter filhos. É o caso de Onan (Gn. 38,1-11), mas do ponto de vista feminino. A conduta dessa mulher é como a das prostitutas. De fato, atualmente na lei canônica essa determinação invalida o matrimônio.
2° Vemos um outro caso em que um homem correto e cumpridor da lei (justo) está resolvido a dar libelo de repúdio a sua esposada: é o caso de José quando descobre que Maria está grávida. Não pode provar o adultério, mas sabe perfeitamente que ele não é o pai da criatura e que, segundo a lei, seria um ato de impureza contínua seguir com sua prometida esposa. (ver Lv. 18,20).
3° Uma terceira causa seria ter uma outra mulher como concubina ou amante. Possivelmente, admitida a poligamia, essa união era legal; mas diante da restituição da origem do matrimônio de Jesus, outras esposas eram simplesmente prostitutas. Cremos que esta é a resposta mais apropriada aos textos do escriba que redatou o evangelho de Mateus. Era o caso de uma união com uma segunda mulher, que constitui um matrimönio Zanuth ou de Porneia.
SEGUNDO GRUPO DE TEXTOS: Atos 15,29. Pareceu bem… que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, bem como de sangue, de carne, de animais sufocados e da porneia. São as proibições da chamada lei de Noé. Além disso temos a proibição da porneia. Pelo que temos visto anteriormente, a porneiaestá ligada a uma relação ilícita com uma mulher. Cremos que nem a prostituição sagrada com mulheres sacerdotisas, nem as relações com mulheres que os romanos chamavam de quastuosas, entram dentro desta proibição, por serem óbvias demais. Não era necessária essa proibição. Fica assim o caso de poligamia que a nova lei cristã de um com uma, proibia. Que não tivessem duas mulheres, ou mais, como era frequente no oriente, entre os que contavam com meios suficientes. Ou seja, proibiam-se as concubinas.
Evangelho (Lucas 12,13-21)
A COBIÇA
No grande parêntese da viagem para Jerusalém, Lucas aproveita a ocasião para agrupar diversos ensinamentos de Jesus, à maneira como Mateus fez no sermão da montanha. No trecho de hoje temos uma lição do ponto de vista evangélico, isto é, de Jesus mesmo, sobre a cobiça com respeito às riquezas. Temos dois exemplos: o caso de uma herança e a pequena parábola do rico agricultor. Os dois trechos não têm paralelos nos outros dois sinóticos.
MESTRE. Disse-lhe, então, um da multidão: Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança (13)Um (ouvinte) dentre o povo, lhe disse: Mestre! Esta era a palavra  que estava em uso na época para designar os juristas, hoje diríamos advogados, porque a Torá era a única lei que admitia o direito civil judaico. O caso apresentado pelo demandante era clássico: uma herança em que o irmão maior tinha direito a dois terços ou uma porção dupla da que era repartida entre os outros irmãos. O caso estava declarado em Dt. 21,17.Reconhecerá como primogênito o filho da mulher da qual ele não gosta, dando-lhe porção dupla de tudo quanto possuir, pois ele é a primazia de sua virilidade e o direito de primogenitura lhe pertence. Aparentemente este era o caso; e o primogênito não queria dividir com o outro irmão a herança paterna.  A questão da herança não era uma coisa trivial. Temos em Nm. 27,1-11 o caso de herdeiros que não sendo do sexo masculino, é resolvido com todo detalhe. A questão, pois, parecia de importância.
HOMEM. Ele, pois, lhe disse: homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós? (14). Lucas usa a mesma palavra em 5,20 e 22,58. É uma palavra que indica distanciamento, como de alguém com quem não queremos amizade, ou não temos as mesmas ideias e que fere, em certo sentido, nossos sentimentos. É também uma expressão de surpresa que nos coloca num plano defensivo.
JUIZ: na realidade, o que pedia o demandante era que Jesus se constituísse em verdadeiro juiz de um caso contencioso, como se fosse um simples jurista, ou um repartidor entre os dois irmãos. Não era esse o verdadeiro ofício de Jesus que o subordinaria às riquezas como se estas fossem o leit motive de sua  obra salvífica. Eram os mestres rabínicos os que deviam resolver semelhantes casos. Daí a sua direta e intransigente rejeição. Em Ex. 2,14 os israelitas reclamam de Moisés quando este mata o egípcio para salvar o hebreu maltratado: "Quem te constituiu nosso chefe e nosso juiz?" Eram estas as palavras que Jesus usa em sua defesa para rejeitar o caso como um simples jurista.
AS RIQUEZAS VISTAS DESDE O EVANGELHO. Então lhes disse: vede e guardai-vos de toda avareza, porque não em qualquer abundância está a vida daquele que possui bens (15). Sabemos que Lucas não é muito favorável às grandes fortunas. É mais fácil um camelo (máximo animal conhecido) entrar pelo olho de uma agulha (mínima abertura ou passagem) do que um rico entrar no reino de Deus (18,25). O parágrafo se inicia com uma advertência séria: Vede! [ou cuidado!] Deveis estar em guarda de modo a evitar toda forma de cobiça ou ambição de ser ricos. Pois a verdadeira vida não depende da abundância dos bens materiais. Na realidade, Jesus usa em presente de infinitivo o verboperiseuö que significa exceder. A tradução seria: porque na realidade a vida de alguém não consiste em ter excesso de posses. É lógico que busquemos uma tradução mais literária para transmitir o verdadeiro pensamento de Jesus. Por isso podemos optar por: A vida não consiste em acumular riquezas. E na continuação Jesus explica o porquê desta afirmação que já Paulo descrevia como sendo a cobiça uma forma de idolatria (Cl. 3,5).
A PARÁBOLA. Disse-lhes, pois uma parábola dizendo, de um homem rico, o campo produziu em abundância (16). Segundo os comentaristas é uma explicação prática de 9,25: Que aproveita ao homem ganhar o mundo se vier a perder-se ou causar dano a si mesmo? Na Escrituras não é a primeira vez que aparecem semelhantes reflexões. No Eclesiástico ou SIRÁCIDA 11,18-19 encontramos: "Há quem se enriquece por avareza; esta será a sua recompensa. Quando ele disser: ”Encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, não sabendo quando virá aquele dia, deixará tudo a outros e morrerá." O livro dos Provérbios tem uma reflexão semelhante: Não te glories do dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz (27,1).
O RICO: era, segundo Jesus, um homem qualquer, porém rico, cuja terra ou melhor diríamos em português cujas terras produziram uma colheita copiosa.
A REFLEXÃO. E cogitava entre si dizendo: que farei porque não tenho onde estocar os meus frutos? (17). E disse: isto farei destruirei os meus celeiros reconstrui-los-ei maiores e ai recolherei todos os meus produtos e meus bens(18) E direi à minha alma: alma, tens muitos bens depositados para muitos anos; descansa, come, bebe, desfruta (19).
Esta colheita abundante e generosa foi a ocasião de uma reflexão: que farei, pois não tenho onde estocar semelhante riqueza? Ele só pensou em si mesmo, para viver uma vida de descanso e prazer. Como diz o apóstolo em 1Cor. 15,32comamos e bebamos que amanhã morreremos. E com a finalidade que também propõe o livro do Sirácida, encontrei descanso; agora comerei de meus bens (11,19), pensa em aumentar a capacidade de seus celeiros para ter uma vida fácil, sem preocupações,  para descansar, comer, beber e gozar. Uma solução mais fácil seria repartir o que não coubesse nos celeiros com os mais necessitados, ou vender a preço mais acessível o excedente. Seria uma maneira de ajudar a quem não tem, e cumprir com o que Tobias recomendava a seu filho: Dá esmola de tudo que te sobrar e não sejas avaro na esmola (4,16).
A MORAL. Porém disse-lhe Deus: insensato, esta noite demandarão a tua alma de ti; as que tens preparado para quem serão? (20). Assim [será] o que entesoura para si mesmo e não [é] rico para Deus (21). Segundo o último versículo de hoje, existem duas maneiras de ser rico: para si mesmo ou para [diante de] Deus (21).
A primeira maneira é uma verdadeira idolatria (Cl. 3,5) quando atinge os limites da avareza. E será uma insensatez, sem miolos, pensar que as riquezas vão trazer a verdadeira felicidade como diz Jesus no trecho de hoje (20).
A segunda maneira de ser rico tem duas opções que não são diametralmente opostas: a) A perfeita: enriquecer o coração optando pela pobreza em cuja escolha teremos outros desejos que não a ambição e desejos insensatos e funestos, que afundam os homens na ruína e perdição (1Tm. 6,9). Por isso Jesus aconselha para o jovem rico: "Uma coisa te falta ainda. Vende tudo o que tens, distribui aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me" (Lc. 18,22). Neste caso descobrimos a verdadeira felicidade que é ser discípulo de Cristo. b) A segunda é fazer amigos com as riquezas de modo que no dia em que elas faltem e sejam inúteis eles vos recebam nas tendas eternas (Lc. 16,9). Neste caso o dinheiro compra a verdadeira felicidade que é imorredoura. Desde os tempos de Tobias sabemos que a esmola era um dever de todo judeu justo (4,7-11 e 16-17). O Sirácida o dirá com palavras muito próximas às de Jesus em Lc. 19, e compara a esmola com o sacrifício de louvor (35,2). Além dos pobres era o próprio Jesus e o colégio apostólico que foi favorecido pelas posses de suas discípulas. Sabemos que eles tinham uma caixa comum e que dela participavam os pobres (Jo. 12, 5-6). Quando Zaqueu disse que a metade de seus bens seria dada aos pobres, Jesus exclamou: "Hoje a salvação entrou nesta casa" (Lc. 19,8). Quando as multidões perguntam a Joãoque devemos fazer? Ele respondeu: "Quem tiver duas túnicas reparta-as com aquele que não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo" (Lc. 3,10). Do evangelho deduzimos que o reparte deve ser generoso, até a metade dos bens, quando o outro nada tem. Sem dúvida que existe muita ostentação desnecessária na vida. Por isso é bom recordar as palavras de Tobias: o supérfluo pertence aos pobres, e a advertência dos papas nos últimos tempos:toda propriedade tem uma hipoteca social.
PISTAS
1) Aparentemente o caso do homem que interpela Jesus era um caso de justiça. Mas Jesus recusa ser juiz. A justiça, considerada do ponto de vista humano, é falha e deixa muito a desejar. No litígio, os homens enfrentam uma guerra que mata não só os corpos, mas a amizade e o amor. Por isso Jesus dirá: Assume uma atitude conciliadora com o teu adversário, enquanto estás no caminho, para não te acontecer que teu adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e assim, sejas lançado na prisão (Mt. 5,25). Porém acaridade não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade (1 Cor. 13,5-6). De fato, todas as revoluções em nome da justiça,  da igualdade e da liberdade têm sido extremamente cruentas e abundantes em mortes humanas. Muitas buscam a desforra e a vingança, Por isso todas as encíclicas sociais terminam com a mesma advertência: a justiça deve ser temperada pela caridade que é a que tem a última palavra nas relações sociais.
2) Talvez não tenhamos em conta que num mundo tão injusto como o romano de escravos e cidadãos diversamente classistas, Jesus nada disse a respeito. Porém, a ênfase evangélica está na justiça divina para a qual Lucas deixa a definitiva sentença, como Ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação(Lc. 6,24).
3) O problema da desigualdade, por não dizer péssima distribuição das riquezas, tem como solução uma voluntária redistribuição das mesmas, de modo que os mais ricos enriqueçam os mais pobres com as riquezas que para eles sobram e para estes faltam. A chamada esmola deve ser considerada como uma necessidade voluntária de distribuição das riquezas. Assim se conseguem dois objetivos altamente prioritários e necessários: Paliar uma injustiça presente e conseguir amigos eternos. (vide nota).
4) Mais do que condenar os ricos devemos pregar a pobreza voluntária, desterrando a ambição como programa humano e oferecendo a simplicidade e austeridade de vida como objetivo evangélico e ideal social.
NOTA. Eis uma página que deve ser lida como atual por todos. É da homilia de são Basílio Magno, De caritate: “Imita a terra, ó homem! À semelhança dela produze fruto, não te reveles inferior a uma coisa inanimada. Ela nutre frutos não para seu consumo, mas para teu serviço. Tu, no entanto, todo fruto de beneficência que produzisses, colherias para ti mesmo, porque o prêmio das boas obras reverteria a ti. Como o trigo que cai na terra redunda em lucro para o semeador, assim o pão dado ao faminto, grande proveito te trará no futuro. Seja, portanto, o final de tua lavoura o início da sementeira celeste:Semeai, está escrito, para vós mesmos na justiça. Mesmo contra a vontade, terás de deixar aqui teu dinheiro. Pelo contrário, enviarás ao Senhor a glória conseguida pelas tuas obras. Ali, na presença do Juiz de todos, o povo em peso te proclamará o provedor, o generoso doador e te cobrirá com todos os nomes significantes de bondade e de benignidade. Com efeito, não vês como aqueles que, nos teatros, nos estádios, nos circos, aqueles que combateram contra as feras, cujo aspecto nos horroriza, por uma breve fama e pelos aplausos vibrantes do povo, malbaratam riquezas? Tu, porém, tão parco em gastar, donde conseguirás tamanha glória? Deus te aprovará, louvar-te-ão os anjos, todo homem criado desde o princípio do mundo te proclamará feliz. Glória eterna, coroa de justiça, reino dos céus, tudo isto premia as coisas corruptíveis que bem usaste. Nada te cause cuidado daqueles bens, objeto de esperança, pelo pouco caso dado às coisas temporais. Ânimo então, e reparte de diversos modos as riquezas, sendo liberal e magnânimo nos gastos com os indigentes. De ti dirão: Distribuiu, deu aos pobres, sua justiça permanecerá para sempre.Como deverias ser grato ao benéfico doador que teve considerações por ti. Não te alegras, não te regozijas por não teres que ir bater à porta dos outros, mas que eles venham à tua? Agora, no entanto, és rabugento, com dificuldade consegue alguém te falar: evitas encontros, não te aconteça teres de abrir mão nem que seja um pouquinho. Conheces só uma frase: “Não tenho nem dou; também sou pobre”. És pobre na verdade, indigente de todo bem: pobre de amor, pobre de bondade, pobre de fé em Deus, pobre de esperança eterna”.
padre Ignácio de Nicolás Rodríguez
============================
Avareza
Faz tempo que eu não assisto desenhos animados, mas me lembro ainda da figura do tio Patinhas, esse emblemático personagem que apareceu por primeira vez nos quadrinhos em 1947 e que sempre me pareceu um pouco avarento. Zeloso do seu “rico dinheirinho”, tio Patinhas faz de tudo para aumentar o seu tesouro, utiliza a violência em alguns casos e, no entanto, busca sempre manter um fundo de honestidade. A mansão do tio Patinhas e a sua “piscina” de dinheiro sugerem à minha imaginação um paralelismo com os grandes celeiros do homem rico da parábola de hoje (cf. Lc. 12,16-21).
“Guardai-vos escrupulosamente de toda avareza” (Lc. 12,15) – é Jesus quem nos diz. Além do mais, como é curta a alegria dos avaros: “nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma” (Lc. 12,19). Mas, vejamos: não se trata de ter ou não ter. A avareza é uma atitude, uma disposição má que nos leva a estar demasiado preocupados com os bens materiais, em juntá-los, em não gastá-los, em não partilhar. A avareza vai corroendo a pessoa humana e não a deixa ser feliz já que a um bem material sempre se pode juntar um novo bem, e assim por diante com a consequente preocupação de efetivamente conseguir esse novo objeto. O problema não está nas coisas, de fato as chamamos bens materiais, a avareza é uma atitude da pessoa, algo que está dentro do coração humano, como os outros vícios capitais.
Até parece que os produtos estão gritando nas grandes lojas: “Compra-me! Você necessita de mim! O que você tem já está velho! Sou muito melhor! Compra-me! Compra-me!” E nós, diante desse constante estímulo do “ter”, nos rendemos! O nosso “rico dinheirinho”, ou melhor, o “meu” (dinheiro não se partilha!) dinheiro tem que render cada vez mais, não pode sofrer nenhum prejuízo, e melhor ganhar mais que muito. Consumismo, hedonismo, avareza!
Como é importante praticar o desprendimento dos bens materiais, a generosidade e a magnificência, caso queiramos ver-nos livres da avareza. Um exercício interessantíssimo para começar a vencer a avareza é emprestar com alegria. Como custa! E, no entanto, esse desprendimento momentâneo de um bem material – que depois retornará a nós – pode ser um primeiro caminho de generosidade. Logicamente, não se trata de emprestar o próprio diário a outros para praticar o desprendimento e a generosidade!
A avareza destrói amizades. Conta-se que três amigos que eram assaltantes, na hora de dividir o produto do roubo, pediram que um deles fosse comprar um garrafa de whisky para comemorar o êxito da empresa. Enquanto o companheiro foi comprar a bebida pensou consigo o quê fazer para ficar com todo o dinheiro sem ter que dividi-lo: “já sei, vou comprar o whisky e coloco veneno dentro, os dois morrem e o dinheiro será todo meu”, pensou decidido a colocar o seu plano em ação. Os outros dois que tinham ficado à espera do amigo que fora comprar o whisky pensaram entre si que seria muito mais interessante dividir o dinheiro entre dois que entre três: daria mais para cada um. Combinaram que quando o outro chegasse o matariam e ficariam com o dinheiro só para os dois. Decididos a executar o plano, assim que chegou o outro amigo com o whisky, mataram-no, e, em seguida, para comemorar um novo êxito… beberam o whisky! Morreram os três! E de quem seria o dinheiro, fruto do roubo e da avareza?
A avareza vai tirando a nossa vitalidade, impede a felicidade e nos faz mesquinhos. Quando notemos que a avareza, a preocupação desmedida por acumular, está tomando conta do nosso coração, reajamos imediatamente: ela corrói por dentro e nos faz infelizes. Está claro que um pai de família tem que se preocupar em garantir um futuro para os seus filhos, um universitário terá que preocupar-se em fazer uma pequena biblioteca pessoal, uma mãe de família terá que guardar as roupas da família para outros que virão, isso não é avareza. Além do mais, não se trata de ter ou não, mas de que haja uma atitude de desapego daquilo que temos… ou não temos!
padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa
============================
Valor dos bens materiais
Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois de responder que Ele não é juiz sobre a questão, Jesus adverte: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc. 12,15). E conta a parábola do homem que acumulou riquezas e morreu logo em seguida (cf. Lc. 12, 13-21). Jesus conclui: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”. Dependendo do uso que se faça dela, a riqueza pode constituir a perdição do homem.
O Senhor ensina-nos que é uma insensatez colocar o coração, feito para a eternidade, na ânsia de riqueza e de bem estar material, porque nem a felicidade nem a vida verdadeiramente humana se fundamentam neles: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens.” O rico da parábola revela o seu ideal de vida no diálogo que trava consigo próprio. Está seguro de si por ter muitos bens e por basear neles a sua estabilidade e felicidade. Viver é para ele, como para tantas pessoas, desfrutar do máximo que puder: trabalhar pouco, comer, beber, ter uma vida cômoda, dispor de reservas para longos anos. Este é o seu ideal.
E como dar segurança a uma vida construída a partir desse sentido puramente material dos dias? Diz: Armazenarei… No entanto, tudo o que não se constrói sobre Deus está falsamente construído. A segurança que os bens materiais podem dar é frágil e além disso insuficiente, porque só Deus pode nos tornar plenamente felizes. A fonte da vida está só em Deus.
Podemos perguntar-nos hoje: onde está o nosso coração? Em que se ocupa? Com que se preocupa? Com que se alegra ou com que se entristece? Daí ter mais consciência de que o nosso destino definitivo é o Céu, e que, se não o alcançarmos, nada de nada terá valido a pena.
A nossa passagem pela terra é um tempo para merecer; foi o próprio Senhor que nos deu esse tempo. Recorda-nos a Bíblia que “não temos aqui moradia (cidade) permanente, mas vamos em busca da futura” (Hb. 13,14). O Senhor virá chamar-nos, pedir-nos contas dos bens que nos deixou em depósito para que os administrássemos criteriosamente: a inteligência, a saúde, os bens materiais, a capacidade de amizade, a possibilidade de tornar felizes os que temos à nossa volta… O Senhor virá um só vez, talvez quando menos O esperamos, como o ladrão na noite (Mt 25, 43), como um relâmpago no Céu (Mt. 24,27), e é preciso que nos encontre bem preparados. Quem vive só para os bens materiais, Deus o chama de néscio, louco! Não podemos nos esquecer que os bens são simples meios para alcançarmos a meta que o Senhor nos marcou. Nunca devem ser o fim dos nossos dias aqui na terra.
“Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida…” (Lc. 12,20). O tempo é escasso: esta mesma noite…, e talvez nós estejamos pensando em muitos anos, como se a nossa passagem pela terra houvesse de durar para sempre! Os nossos dias estão numerados e contados; estamos nas mãos de Deus. Dentro de algum tempo – que nunca será tão longo como quereríamos –, encontrar-nos-emos face a face com o Senhor.
Meditar sobre o nosso fim, o encontro definitivo com Deus, ajuda-nos a aproveitar todas as circunstâncias desta vida para merecer e reparar pelos pecados, recuperando o tempo perdido. “Quem vive como se tivesse de morrer cada dia – visto que é incerta nossa vida por natureza – não pecará, já que o bom temor extingue grande parte da desordem dos apetites; pelo contrário, quem julga que vai ter uma vida longa, facilmente se deixa dominar pelos prazeres” (Santo Atanásio).
A insensatez do homem rico consiste em que considerou a posse de bens materiais como o único fim da sua existência e a garantia da sua segurança. É legítima a aspiração do homem a possuir o necessário para a sua vida e o seu desenvolvimento, mas ter como bem absoluto a posse de bens materiais acaba por destruir o homem e a sociedade.
O cristão não pode desprezar ou depreciar a existência temporal, pois toda ela deve servir como preparação para a sua existência definitiva com Deus no Céu. Só quem se torna rico diante de Deus, quem acumula tesouros que Deus reconhece como tais é que tira proveito certo destes dias terrenos. Fora isso, o resto é viver de enganos: “O homem passa como uma sombra, apenas sopro as riquezas que amontoa, sem saber para quem” – Sl. 39(38),7.
A consideração da morte ensina-nos também a aproveitar bem os dias, pois o tempo que temos pela frente não é muito longo. “Este mundo, meus filhos, escapa-nos das mãos. Não podemos perder o tempo, que é curto. Compreendo muito bem aquela exclamação de S. Paulo a Corinto: “O tempo é breve!, como é breve a duração da nossa passagem pela terra! Para um cristão coerente, estas palavras ressoam no mais íntimo do seu coração como uma censura perante a falta de generosidade, e como um convite constante para que seja leal. Verdadeiramente, é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar” (São Josemaria Escrivá).
Aproveitemos bem, muito bem, cada instante de nossa existência!
A meditação das verdades eternas é uma ajuda eficaz para darmos à nossa vida o seu verdadeiro sentido.
Hoje dia do Padre, peçamos ao Senhor por todos os Sacerdotes e que Ele suscite no coração de muitos jovens o desejo de segui-Lo. Que muitos jovens descubram a beleza de uma entrega total a Deus. Vale a pena dar a vida Àquele que primeiro deu a Sua vida por nós! A vocação é um Dom de Deus! É um chamado, um convite, uma proposta de Deus que se apresenta à nossa liberdade e nos pede uma tomada de decisão. Esse chamado é um grande mistério de amor, entre nós e Deus, que conhece bem o coração de cada um.
Enviai, Senhor, apóstolos santos à vossa Igreja!
mons. José Maria Pereira

============================


Nenhum comentário:

Postar um comentário