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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

JESUS EXIGE A NOSSA RENÚNCIA!

23º DOMINGO TEMPO COMUM

8 de Setembro de 2013 - Ano C

Comentários-Prof.Fernando


JESUS EXIGE A NOSSA RENÚNCIA!

AS CONDIÇÕES PARA SER DISCÍPULO DE CRISTO - José Salviano


O Evangelho de hoje nos mostra que para seguir Jesus é preciso sair do comodismo, do  egoísmo, e comprometer-se mais com a instalação do Reino de Deus aqui na Terra, com o próximo, e em fazer a vontade do Pai... Continua...


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“QUEM NÃO CARREGA A SUA CRUZ E NÃO CAMINHA ATRÁS DE MIM NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO” -  Olívia Coutinho

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 08 de Setembro de 2013

Evangelho Lc 14,25-33

Quantos de nós, passa  pela  vida sem vivê-la, nos iludindo  com uma felicidade  momentânea, achando mais cômodo fugir dos problemas, do que enfrentá-los. E assim, vamos rejeitando a cruz, enganando a nós mesmos.
A cada dia,  nos   é oferecida uma nova oportunidade para rever e refazer a nossa vida, a cada amanhecer de um novo dia, Deus  coloca em nossas mãos uma página em branco, na qual  escreveremos  mais um capítulo da nossa  história! O que vamos escrever, depende das  nossas escolhas, uma coisa é certa, se colocarmos Jesus como centro da  nossa vida, com certeza escreveremos uma bela  história!
Não nascemos do acaso, somos frutos do amor de Deus, “plantados” aqui na terra para  produzir frutos, e só produziremos frutos, se ligados a Jesus,  Ele é a seiva que irriga todo o nosso ser, que nos transforma em fonte do seu amor no mundo!
Jesus veio mudar o rumo da nossa história, dar um novo sentido a nossa existência, nos libertar de nossas próprias prisões.
Jesus é o caminho, a verdade e a vida, nossa opção por Ele  tem que ser radical, do contrário, seremos um cristão pela metade, começamos a segui-Lo, mas abandonamos o seu barco no meio do caminho, por não ter coragem de enfrentar os desafios  de um mar revolto.   
As palavras de Jesus, no evangelho deste domingo, exige de nós, uma  tomada de posição: Tomemos  a nossa cruz e seguimos Jesus, ou  fiquemos às margens, somente no louvor?
 Se estamos dispostos a seguir Jesus, não nos iludamos  com facilidades,  pois o seguimento à Jesus éexigente, implica em mudanças radicais no nosso modo de viver, exige de nós muito mais do que boa vontade, do que entusiasmo,  exige compromisso, fidelidade,  disposição de deixar  muitas coisa para trás, exige consciência do rumo a ser tomado, despojamento de si mesmo e do assumir a cruz de cada dia! O caminho do Senhor, exige também sabedoria, requer planejamento, é preciso fazer “cálculos”, afinal,  se trata de investir a própria existência na proposta  de Jesus. Precisamos estar seguros da nossa opção por Jesus, do contrário, corremos o risco de começar uma caminhada com Ele e desistir no meio do caminho, o que seria o maior  fracasso de nossa vida.    
O texto de hoje nos diz, que grandes multidões acompanhavam Jesus,  é evidente que nem todos estavam decididos a segui-lo de fato, ali estavam também  curiosos, pessoas em busca de milagres, de algum interesse pessoal.
 Voltando-se para a multidão, Jesus adverte a todos aqueles que desejavam segui-lo, para que pensassem bem antes de tomar a decisão de segui-Lo, pois a vida de um seu seguidor, não é fácil, é uma vida marcado por desafios, a cruz é inevitável no caminho de um seguidor de Jesus! 
Jesus é categórico: o seguimento a Ele,  implica em desapegar-se de tudo, não somente da família, como até mesmo da própria vida, o que significa colocá-Lo acima de tudo. O que  trás  um grande benefício para nós, pois colocando  Jesus  como centro da nossa vida, com certeza, os  nossos relacionamentos afetivos serão melhores, afinal, espelhando em Jesus, vamos aprender a conviver com as diferenças, a respeitar o outro, a amar de  forma ordenada, sem nos aprisionar.
Existe uma grande  diferença  entre ser cristão e ser discípulo, ser cristão, é viver a parte mais  fácil da fé,  ser cristão, é gostar de Jesus, é ser admirador de suas palavras, é participar ativamente das missas, dos cultos, é somar-se à multidão para louvá-lo! Enquanto que ser discípulo, é tudo isso e muito mais!  Ser discípulo, significa comprometer-se com Jesus,  abraçar a sua causa, estar com Ele para o que der e vier,  é assumir as conseqüências do seguimento a Ele! Ser discípulo, é ser aluno de Jesus, é  aprender com Ele  e levar ao outro o que aprendeu, principalmente  com  o testemunho de vida! É  a partir dai, que o discípulo passa a ser também missionário, um continuador da vida da vida de Jesus aqui na terra!
O primeiro passo de quem optou por seguir Jesus, consiste em renunciar a si mesmo, em colocar jesus como prioridade absoluta em sua vida, o que não significa amar menos o outro,  pelo contrário, quem coloca Jesus como prioridade em sua vida, ama o outro com mais intensidade! É amando Jesus, que amamos o outro, é amando o outro que amamos Jesus!    
A opção por Jesus,  não pode subordinar-se a nenhuma outra, por isso, o verdadeiro discípulo de Jesus, deve apresentar-se a Ele, completamente livre de qualquer apego.

Queridos  leitores! 
Mais uma vez, agradeço a todos vocês,  pela a atenção, pelo carinho, pelas palavras de incentivo e principalmente pelas orações, pois é a força de suas orações, que nos mantém  firmes nesta caminhada de fé!
Que Deus continue abençoando vocês e suas famílias!

Abraços: Olívia Coutinho

FIQUEM NA PAZ DE JESUS! 

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Evangelhos Dominicais Comentados

08/setembro/2013 – 23o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Lc 14, 25-33)

Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se para elas, disse: “Se alguém vem a mim e tem mais amor ao pai, à mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e mesmo à própria vida do que a mim, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, ao construir uma torre, não senta primeiro e calcula os gastos para ver se tem com que terminá-la? Do contrário, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la, todos o verão e começarão a zombar, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não pôde acabar’. Ou qual o rei que, saindo a campo para fazer guerra a outro rei, não senta primeiro e examina bem se com dez mil pode enfrentar o outro que contra ele vem com vinte mil? Do contrário, quando o outro ainda está longe, envia uma delegação para negociar a paz. Assim qualquer um de vós, que não renuncia a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo”.

COMENTÁRIO

No evangelho de hoje, mais uma vez, encontramos Jesus rodeado de pessoas que o acompanhavam em suas caminhadas. Onde quer que Jesus estivesse milhares de pessoas o seguiam, pelos mais diversos motivos. Muitos o procuravam para conseguir graças e favores materiais. Outros buscavam milagres. E havia também aqueles que o seguiam por causa de suas palavras.

Infelizmente, ainda hoje, esse último grupo de seguidores é o menos numeroso. As pessoas se lembram de Jesus e o procuram, desesperadamente, nos momentos difíceis, na dor, na angústia e na doença. Milhares vêem Jesus como um pronto socorro ou como um poderoso analgésico.

Em outros momentos, procuramos em Jesus a solução para nossas dificuldades financeiras. Os seguidores da teologia da prosperidade o procuram para obter bens materiais, automóveis importados e grandes lucros em suas empresas. Jesus é apresentado como um mercenário comerciante.

Poucas vezes procuramos Jesus por suas palavras, para glorificá-lo, louvar e agradecer. Hoje, Jesus alerta que quem não se desapegar das coisas do mundo, até mesmo da mãe, esposa e filhos, não poderá segui-lo.

Já pensou? Abandonar todas essas pessoas? Esposa e filhos menores e dependentes de nossos cuidados?

Não é fácil entender e aceitar que essas palavras tenham saído da boca de Jesus. Se levadas ao pé da letra, elas parecem ofensivas e chegam a chocar. Entretanto, Jesus não está dizendo que não devemos amar nossos pais, filhos, esposo ou esposa. Certamente não está sugerindo divisão com nossos entes queridos.

O que Jesus afirma é que o nosso amor a Deus tem que ser maior do que todos e que nenhum outro amor pode justificar nossa separação com Deus. Jesus sempre pregou o amor e a união como condição básica para ganhar a vida eterna, portanto, nunca iria pregar a separação e a divisão entre parentes e amigos.

Jesus certamente amava muito sua família. Tinha um carinho todo especial por São José e por sua Mãe, Maria. Sempre demonstrou um grande amor pelos amigos e discípulos, no entanto, não hesitou em abandonar a todos e, até mesmo, em entregar a sua própria vida por amor a Deus Pai. É esse amor incondicional que Jesus espera encontrar em seus seguidores.
  
"Quem não toma a sua cruz e não segue os meus passos não pode ser meu discípulo". Aqui não existem meias palavras, Jesus falou de maneira muito clara, sem deixar espaço para dúvidas. Jesus assumiu a sua cruz. Entregou-se ao martírio, sofreu e morreu pela salvação da humanidade.

A cruz é o símbolo do amor, representa renúncia, sacrifício e dor. Através da cruz fomos salvos e através da nossa cruz poderemos promover também a salvação de milhares de irmãos tão próximos de nós e tão distantes de Deus. Assumir a cruz e caminhar nos passos de Jesus é a missão do cristão. A cruz é o único caminho que leva à santidade.

Carregar a cruz significa aproximar-se do pobre, do doente, do idoso e do enjeitado pela sociedade. Seguir os passos de Jesus significa trilhar o caminho do bem, da doação espontânea e gratuita. Significa, acima de tudo, perseverança.

Seguir Jesus é cumprir suas Palavras, é viver o Evangelho. Resumindo: neste Evangelho, Jesus nos diz que o discípulo que para no meio do caminho, é tão covarde quanto aquele que foge de um campo de batalha.

(4038)


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A prática cristã - Diac. José da Cruz
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23º DOMINGO DO TEMPO COMUM 08/09/2013
1ª Leitura Sabedoria 9, 13-18
Salmo 89 (90), 1 “Senhor, fostes nosso refúgio de geração em geração”
2ª Leitura Filemôn 1, 9b-10. 12-17
Evangelho Lucas 14, 25-33

A prática cristã requer continuamente uma decisão firme a favor de Jesus e seu evangelho, muita gente se ilude achando que uma experiência mais forte com Jesus Cristo em um retiro, já foi suficiente para a conversão, um pensamento bem equivocado, pois a partir do momento em que conheço Jesus e tenho uma disposição interior de ser discípulo, a Fé vai exigir de mim inúmeras decisões de caráter íntimo e pessoal.
As primeiras palavras de Jesus neste evangelho parecem ser marcadas por um amor egoísta, o Mestre exige que o amem acima de qualquer outra pessoa e até acima da própria vida. Fala-se aqui de relações afetivas muito fortes para o Povo Judeu, e a Vida é Dom Sagrado, uma bênção Divina também, como é que o ouvinte vai por em prática essas palavras do Mestre, que parecem ser tão duras?
Diferente dos Fariseus, Jesus não está colocando um fardo pesado demais nos ombros de quem quer ser seu discípulo...Embora os evangelhos não sejam narrativas históricas ou jornalísticas, mas eles mostram claramente que um belo dia, Jesus formou o seu grupo e saiu de casa, deixando para trás a mãe e os demais parentes (inclusive eles acharam que Jesus estava louco, lembram-se dessa passagem?) De fato, parece loucura romper com tudo para ser seguidor de Jesus e do seu evangelho, principalmente porque se caminha na contra mão do Sistema Religioso, Político e Econômico daquela época. É desse conflito do Reino com a Humanidade, e com os interesses de grupos poderosos que detêm o poder político, econômico ou religioso,  que surge a cruz, consequência da rejeição. Cruz para o discípulo significa todas as contrariedade que irá ter, por fazer a sua opção por Jesus e seu Evangelho nas decisões que precisarão ser tomadas ao longo da vida.

Então a segunda parte do evangelho nos convida a pensar seriamente nisso: que ser discípulo não é apenas uma filosofia de vida, ou uma prática religiosa entre outras tantas que existe por aí, ou pior ainda, a fachada de uma determinada igreja da qual me fiz membro. Quem pensar assim não conseguirá levar adiante o seu discipulado, que requer coerência entre Fé e Vida, pois os desafios são muitos, basta ver as investidas contra a Igreja de Cristo, que sempre aconteceram e vão continuar acontecendo na História da Igreja. Sentar-se para ponderar sobre a missão, é sinal de que a Fé não se desliga da razão, é preciso planejar, é preciso determinação e perseverança no Discipulado. Hoje em dia há uma multidão de “discípulos de araque” seguindo Jesus, na ilusão de que o cristianismo é um mar de rosas “Encontrei Jesus e a minha vida mudou para melhor!”Emoções e lágrimas, curas miraculosas, Jesus sofreu para que agora nós curtíssemos o paraíso do conforto, do bem material e da riqueza!. Essa multidão de discípulos, ao final vão cair no ridículo. Essa é uma falsa premissa, sustentada pela pregação de Líderes espertalhões que oferecem um cristianismo ameno, sem muitas exigências, a não ser desembolsar o  $sagrado Dízimo que vão para as  “gordas contas bancárias” nem sempre das igrejas...

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“naquele tempo” do Evangelho que escutamos, prolonga-se neste tempo que se chama hoje. “Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus”. Eram muitos os que o admiravam, muitos os que o escutavam... como hoje. Mas, Jesus voltando-se, lhes disse – e diz aos que o querem acompanhar hoje -, com toda franqueza, quais as condições para serem aceitos como seus discípulos: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega e seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. É impressionante a sinceridade do Senhor nosso! Olhemos bem que não são todos os que podem ser seus discípulos! É certo que todos são chamados, pois “o desejo de Deus é que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm. 2,4), mas também é certo que nem todos estão dispostos a escutar de verdade o convite do Senhor e a aceitar suas exigências. E Jesus é claríssimo: ele somente aceita como discípulo – somente pode ser seu discípulo – quem se dispõe, com sinceridade, a caminhar atrás dele, seguindo seus passos no caminho! É ele quem dá as cartas, é ele quem dita as normas, é ele quem mostra o caminho e quem diz o que é certo e o que é errado! Que palavra tão difícil para cada um de nós, para o mundo atual, que se julga maduro e sábio o bastante para fazer seu próprio caminho e até para julgar os caminhos de Deus! Quem assim age, permanecendo fechado em si mesmo - diz Jesus -, “não pode ser meu discípulo!”
E o que é ser discípulo? É colocar-se no caminho dele, é renunciar a decidir por si mesmo que rumo dar à sua vida, para seguir o caminho do Mestre, colocando os pés nos seus passos; ser discípulo é se renunciar para ser em Jesus, pensando como ele, vivendo como ele, agindo como ele... Ser discípulo é fazer de Jesus o tudo, o fundamento da própria existência:“Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, a tudo que é, à sua própria segurança, ao seu próprio modo de pensar, não pode ser meu discípulo!”
É preciso que compreendamos que esta exigência tão radical do Senhor não é por capricho, não é arbitrária, não é humilhante ou desumana para nós. O Senhor é tão exigente porque nos quer libertar de nós mesmos, de nosso horizonte fechado e limitado à nossa própria razão, ao nosso próprio modo de ver e pensar as coisas e o mundo. O Senhor nos quer libertar da ilusão de que somos auto-suficientes e sábios, de que somos deuses! Como têm razão, as palavras do livro da Sabedoria: “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Quem, portanto, investigará o que há nos céus?” O homem, sozinho, é incapaz de compreender o mistério da vida, que somente é conhecido pelo coração de Deus! Isto valia para ontem, e continua valendo para hoje e valerá ainda para amanhã, mesmo com todo o desenvolvimento da ciência e com toda a ilusão de que nos bastamos a nós mesmos e podemos por nós mesmos decidir o que é certo e o que é errado. O homem, fechado em si mesmo, jamais poderá compreender de verdade o mistério de sua existência e o sentido profundo da realidade. É preciso ter a coragem de abrir-se, de ser discípulo, de seguir aquele que veio do Pai para ser nosso Caminho, nossa Verdade e nossa Vida! “Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões, incertas. Mal podemos conhecer o que há na terra e, com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos”. É por isso que o salmista hoje nos faz pedir com humildade: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”
Só quando nos renunciarmos, só quando colocarmos o Senhor como o centro de nossa vida, do nosso modo de pensar e de agir, somente quando ele for realmente o nosso Tudo, seremos discípulos de verdade. Então mudaremos de vida, de valores, de modo de agir. É o que São Paulo propõe a Filêmon, cristão, proprietário do escravo Onésimo. O Apóstolo recorda ao rico Filêmon que ser discípulo de Cristo comporta exigências e mudança de mentalidade: o escravo deve agora ser tratado como irmão no Senhor. Não podemos ser cristãos, apegados à nossa lógica e às coisas próprias do homem velho! Não podemos ser cristãos fazendo política como o mundo faz, tendo uma vida sexual como o mundo tem, pensando em questões como o divórcio, o aborto, o adultério como o mundo pensa, não podemos ser cristãos comportando-nos como o mundo se comporta e fazendo o que o mundo faz! Querer seguir o Senhor sem deixar-se, sem colocá-lo como eixo e prumo da vida, é como construir uma torre sem dinheiro: não se chegará ao fim; é como ir para uma guerra sem exército suficiente: seremos derrotados! “Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, não pode ser meu discípulo!”
Que o mundo não compreenda esta linguagem, é de se esperar... Afinal, o homem psíquico – homem entregue somente à sua própria razão – não pode mesmo compreender as coisas do Espírito de Deus (cf. 1Cor. 2,14). O triste mesmo é que os cristãos, isto é, nós, tenhamos a pretensão de ser discípulos sem procurar sinceramente nos renunciar, mortificando nossas tendências desordenadas, educando nossos instintos desatinados e deixando que a luz do Evangelho ilumine nossa razão e nosso modo de pensar...
Cuidemos bem, para que, no fim de tudo, o nosso cristianismo não seja inacabado, tão inútil quanto uma torre deixada pela metade ou uma guerra na qual a derrota é certa. Que nos valha a misericórdia de nosso Senhor e nos ajude a viver da sua Palavra, porque, como disse hoje o Autor sagrado, dirigindo-se a Deus, “só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos”. Que nos salve o Cristo, Sabedoria de Deus.
dom Henrique Soares da Costa - www.padrehenrique.com
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Primeira leitura: Sabedoria 9,13-19
PRECE PARA OBTER A SABEDORIA E A PRUDÊNCIA
Este é, na ordem cronológica, o último livro do Antigo Testamento. Foi escrito em grego provavelmente na segunda metade do século II a.C. Seu autor é um judeu piedoso da Alexandria, capital cultural do helenismo e grande reduto dos judeus dispersos. Esta comunidade sentiu necessidade de inculturar a fé judaica, assimilando os valores positivos da cultura grega, sem abandonar o núcleo central da fé professada. O livro da Sabedoria é fruto deste desejo. Ele é atribuído a Salomão, mas não passa de um artifício, pois busca basear o repensamento da fé naquele que era considerado o protótipo da sabedoria, para que a busca dela fosse um estímulo e um encorajamento para a comunidade.
Quando este livro surgiu havia influências filosóficas e cosmopolitas do helenismo. Daí o desejo da comunidade hebraica da diáspora de conciliar as idéias tradicionais da Torá com as perspectivas do saber humano helenista. Conseguiria a comunidade judaica de Alexandria, vivendo num contexto de valores tão diferentes dos seus, longe das mediações religiosas que lhe eram próprias, manter-se fiel ao núcleo central da fé judaica? O texto nos expõe as dificuldades, critica o endeusamento da filosofia grega e aponta sua incapacidade de perscrutar o que existe no céu (vv.15-16). Era difícil discernir o projeto de Deus nesta situação tão diversificada.
O autor fala da dificuldade e incapacidade da filosofia de perscrutar as coisas do céu e afirma que a sabedoria que vem de Deus, e que é fundamentalmente a Lei, tem força para conhecer os desígnios de Deus e dar a salvação. Porém, o autor vai além da simples sabedoria identificada com a Lei de Moisés e fala do Espírito derramado nos corações e de uma nova Aliança já anunciada por Ezequiel 36,26-29 e Jeremias 31,31ss.
Todo o capítulo 9 deste livro se inspira em um texto do Antigo Testamento muito apreciado pela piedade judaica, ou seja, a oração que Salomão fez a Deus no início do seu reinado. Os hebreus liam esta oração em 1Reis 3, 6-9, onde se reconhece que a sabedoria é um dom de Deus, é a origem de toda a obra divina da criação e só ela pode guiar o homem para entender a vontade de Deus.
Salomão, que nasceu como um simples mortal (Sabedoria 7,1-6), foi enriquecido pela sabedoria porque a pediu a Deus (Sabedoria 7,7-12). Ele pede para conhecer tudo aquilo que é conforme aos mandamentos de Deus e cumpri-lo. O homem, com suas capacidades, não consegue conhecer o pensamento e a vontade de Deus e por isso cai na perdição, mas pode ser salvo se Deus lhe conceder sua sabedoria, ou seja, se lhe enviar o seu Espírito. A oração de Salomão, começando com duas perguntas retóricas, afirma que ninguém pode conhecer o desígnio de Deus (Isaías 40,12-14; Jeremias 23,18; Jó 15,8).
Segunda leitura: Filémon 1,9b-10.12-17
INTERCESSÃO DE PAULO EM FAVOR DE ONÉSIMO
Este trecho faz parte do livro mais curto do Novo Testamento. Filêmon foi convertido por Paulo em Colossos, onde morava e tinha sua casa como uma pequena igreja onde os fiéis se reuniam (v.2). Ele tinha um escravo chamado Onésimo, nome que significa útil. Este fugiu para Roma e ali se encontrou com Paulo. Dali Onésimo saiu convertido por Paulo. O apóstolo o mandou de volta para seu patrão com um bilhete, no qual explicitou as exigências cristãs. O bilhete é breve: tem apenas 25 versículos. Este escrito paulino não foi levado em consideração pelos antigos comentaristas. São Jerônimo chegou a afirmar que ele não tem nada que “aedificare possit”. Nos últimos tempos foi muito valorizado, porque mostra a força da libertação da escravidão.
O núcleo central do bilhete são os versículos 8-20. Neles Paulo pede a Filêmon que não apenas poupe Onésimo da punição, mas o receba não como um escravo, mas como um irmão caríssimo. No versículo 15, Paulo acena com muita delicadeza para a fuga de Onésimo: “Separou-se de você por um momento”. Parece que Paulo considerava aquela fuga um acontecimento que reverteu em um bem para todos. Assim, o apóstolo se comporta numa dimensão distante da sociologia e do direito da época, superando a estrutura social da escravidão. Aceitar Onésimo como irmão implicava que Filêmon fizesse refeições com ele, rezasse em comum e desse o beijo da fraternidade nas celebrações eucarísticas, ou seja, perdesse um escravo e ganhasse um irmão.
Evangelho: Lucas  14,25-33
RENUNCIAR A TUDO PARA SEGUIR JESUS
O trecho faz parte da grande viagem de Jesus a Jerusalém (Lucas 9,51-19,28), onde consumará a sua missão. É neste caminho que as pessoas vão se posicionando a favor de Jesus ou contra ele. O trecho mostra que para seguir Jesus é preciso sair do anonimato e comprometer-se com sua pessoa. É uma resposta ao afrouxamento de algumas comunidades cristãs, que julgavam que bastava pertencer à comunidade para estar comprometido com Jesus. Seguir Jesus exige disposição para as provações: “O Filho do homem não tem uma pedra para pousar a cabeça” (Lucas 9,57-58). É preciso estar disposto a deixar tudo (Lucas 9,59-60), fazer uma opção para sempre. “Quem coloca a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus” (Lucas 9,62). Fazer uma opção por Deus: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Lucas 16,13).
Nosso texto continua apresentando as exigências de seu seguimento. Deve-se romper os laços que ligam a certos interesses, por mais nobres que sejam.
Mateus 10,37 tem uma sentença semelhante à de Lucas, mas a expressa com uma linguagem menos áspera: “Quem amar o pai, a mãe, o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”. Lucas, ao invés, fala que quem não odiar “pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e por fim a própria vida não pode ser meu discípulo”. Odiar, no sentido semítico, significa amar menos. Com isso Jesus não pretende abolir o 4º mandamento, mas estabelecer uma hierarquia de valores, pondo o primado em sua pessoa.
Na segunda sentença, Jesus fala em “carregar a própria cruz”. Mateus 10,38 fala: “Quem não toma sua cruz e não me segue não é digno de mim”. Lucas 14,27, ao invés, diz: “Quem não carrega sua própria cruz e me segue não pode ser meu discípulo”. Carregar implica uma situação de padecimento muito maior que tomar.
Em seguida são narradas duas parábolas: a da torre a ser construída e a da guerra que pode terminar em derrota. Elas procuram prolongar a reflexão sobre a seriedade do seguimento de Cristo, pois segui-lo é fruto de uma decisão ponderada e coerente até o fim. Quem decide segui-lo deve ser realista como o arquiteto e prudente como o rei, evitar ilusões fáceis, acreditando que basta a boa vontade. Por outro lado, precisa ser suficientemente sábio e criativo para apostar tudo e enfrentar os riscos que esse compromisso comporta. Por isso, ser cristão comporta decisões e riscos que determinam toda a vida de quem fez esta opção.
REFLEXÃO
A sabedoria é um dom que vem de Deus. Ela pertence à esfera do amor, da gratuidade e da amizade. Por isso é preciso pedi-la, como fez Salomão.
Até pouco tempo a palavra “cristão” era usada como sinônimo de “pessoa humana”, com uma nuança de afeto e respeito. Dizia-se “comportar-se como cristão”, ou seja, corretamente. Esta palavra percorreu um longo caminho desde que foi cunhada em Antioquia, na Síria (Atos dos Apóstolos 11,16). No período das perseguições romanas, “christianus” era sinônimo de perseguição aos cristãos, e estes o exibiam como um titulo de glória muito alta. Quando as perseguições terminaram expandiu-se rapidamente, perdendo primeiro o sentido negativo e mais tarde também o positivo, quando se acreditava que todo mundo podia ser cristão.
Jesus nos pede para “carregar a cruz e ir atrás dele” no sentido de dizer não a tudo que pode tornar menor nossa liberdade. Como diz João Paulo II nas encíclicas “Vanitatis esplendor” e “Evangelium vitae”, nenhum mandamento “negativo” tem por objetivo a mortificação da vida. Ao contrário, cada proibição, cada “não” contido em um mandamento deve ser lido como um “sim”, como um passo autêntico em direção à própria realização.
Jesus nos adverte que para segui-lo é necessária uma decisão consciente. Ser cristão não é uma questão de nascimento, cultura ou ambiente, mas de opção. Hoje existem cristãos incoerentes que defendem o aborto, o divórcio, a exploração, a eutanásia, que não hesitam em poluir a biosfera, contanto que isso satisfaça as exigências do consumismo.
Muitos concílios regulamentaram a escravidão na Igreja, até que foi proibida por um decreto de Gregório XVI no ano 40 do século XIX. Porém muitos lutaram em defesa dos oprimidos, como os dominicanos São Domingos e Bartolomeu de Las Casas, o jesuíta Pedro Claver...
Não faltaram no século XVII muitos teóricos da escravidão, apresentando-a como um bem. Basta lembrar Malovet em “Mémoire sur l’esclavage des nègres e Linguet em Theories des lois civiles”. Eles sustentaram que antes do Colonialismo reinava na África o caos social, e com a chegada dos brancos o estilo de vida da população melhorou. Escreveram que seu traslado para a América foi um progresso.
Jesus nos ensina no Evangelho de hoje que quando se assume uma tarefa é preciso avaliar as possibilidades e os recursos disponíveis para levá-la adiante. Ser discípulo de Jesus é um grande empreendimento na vida. Para isso precisamos conhecer bem os meios que possuímos, como os bons empresários, que fazem com freqüência um balanço de seus negócios, examinando lucros e perdas, identificando as causas de um mau negócio.
Para isso é útil fazer no final do dia um balanço de nossas atividades e atitudes, um exame de consciência, não buscando uma visão superficial e rotineira, mas uma revisão igual à de um “bom banqueiro que computa todos os dias suas perdas e ganhos. Ele não pode fazer isso com detalhe se não registrar tudo num livro de contabilidade e assim um olhar a todas e a cada uma das anotações lhe mostra a situação de todo dia” (são João Clímaco).
Para construir a torre que Deus espera de nós, para travar a batalha contra o inimigo da alma, devemos ter consciência de nossos recursos, das ajudas de que precisamos, dos flancos que deixamos desguarnecidos à mercê do inimigo, dos defeitos que conhecemos e devemos corrigir, das inspirações que nos convidam a fazer o bem e servir o outro e que ficaram sem resposta, da mediocridade espiritual etc. Devemos estar prevenidos contra o demônio, que tentará nos fechar as portas da verdade para que não vejamos nossas fraquezas, encarando-as como detalhes de pouca importância, e assim caiamos nas malhas da apatia ou da tibieza.
Para sair desta situação nebulosa precisamos ter a coragem de perguntar: Onde está o meu coração? Quais são as razões que me levam a comportar-me assim? Em que coisas a minha mente e imaginação está habitualmente? Por isso, nosso exame de consciência diário deve ser um diálogo entre nossa alma e Deus e não uma simples reflexão sobre nosso comportamento durante o dia. Portanto, para fazê-lo são necessários recolhimento e espírito de oração, pedindo ao Senhor: “Domine, ut videam!” - “Senhor, que eu veja!”.
Pedir ao Senhor luzes para perceber nossos erros, para ver o que deve ser arrancado de nossa vida e o que deve ser melhorado: caráter, trabalho, otimismo, apostolado, alegria, compreensão...
Depois disso é preciso contrição pelos pecados e daí brotarão alguns propósitos, obras de retificação que agradarão a Deus, propostas concretas como sorrir para alguém que é antipático, fazer uma pequena mortificação, rezar com mais atenção, guardar melhor a vista. Serão propósitos decididos para os quais se deve pedir a ajuda de Deus, porque, sendo pequenos, sem sua ajuda nada conseguiremos. Só assim teremos nossa alma cheia de paz e alegria e o entusiasmo de progredir no nosso caminho em direção a Deus e ao nosso próximo.
padre José Antonio Bertolin, OSJ - www.santuariosaojose.com.br
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Depois da paragem em casa dum dos principais fariseus, Jesus regressa ao seu caminho para Jerusalém, seguido de multidões. Porque Jesus nunca se entusiasma com as multidões, pede três condições muito duras àqueles que pretendem ser discípulos. Já tinha falado disso antes (9,23-27.57-62) e falará mais tarde (16,1-31; 18,24-30), o que significa que a questão é fundamental.
1ª condição: «Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, a esposa, os filhos, os irmãos, as irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo». O verbo odiar tem o sentido de «pôr em segundo plano», tal como o verbo amar significa «preferir». A escolha de Jesus pode criar contrastes, divisões, provocar desacordos no âmbito da própria família ou dos amigos. Ninguém se deve intimidar pelos vínculos mais sagrados ou queridos se estes forem um impedimento para chegar a Deus.
2ª condição: «Quem não tomar a sua cruz e vem atrás de mim não pode ser meu discípulo». É a segunda vez que Jesus insiste em tomar a cruz (9,23). Não se trata das contrariedades ou dos sofrimentos da vida, mas da disponibilidade para testemunhar, mesmo com a própria vida, a própria fé. Seguir Jesus pode trazer discriminações, problemas com a sociedade, injúrias ou, em extremo, violência física, tal como aconteceu com Jesus. Esta é a cruz que deve tomar quem quer ser discípulo.
3ª condição: «Qualquer de vós, que não renuncia a todos os seus haveres não pode ser meu discípulo». As duas parábolas já alertaram para a seriedade da vocação cristã que não pode ser aceite de ânimo leve. Por isso, a conclusão final aponta para um relacionamento completamente novo com os bens para aqueles que querem ser discípulos. O apego aos bens é impedimento para uma relação com Deus e com os outros. O livro dos Atos vai explicitar melhor: na comunidade cristã ninguém era pobre porque todos se inter-ajudavam, ninguém entendendo como exclusivo aquilo que possuía (At. 2,44-45; 4,32-35)
padre Franclim Pacheco - www.diocese-aveiro.pt
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Para ser cristão, na realidade a Igreja exige muito pouco. As crianças são batizadas quando recém nascidas e não se exige nada de seus pais; tudo o mais, a participação em algumas palestras preparatórias ao batismo e um vago compromisso de um agir cristão e de educar a criança segundo a lei de Deus e dos mandamentos da Igreja. Contudo, isto não era assim no início da Igreja. Para ser discípulo, Jesus impunha duras condições, que levavam a quem queria ser seu seguidor a pensar seriamente. Poucos seríamos de fato cristãos se tivéssemos que cumprir as três condições que Jesus exige dos discípulos. Essas três formulações de evangelho de hoje são “extremas”; representam a meta utópica que não podemos perder de vista, estando nós dispostos a alcançá-la no seguimento de Jesus.
A primeira exigência: "Se alguém vem a mim e não se desapega de seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo", o discípulo deve estar disposto a deixar tudo para seguir o mestre. Se no propósito de instaurar o reinado de Deus, evangelho e família entram em conflito, de modo que esta impeça a implantação daquele, a adesão a Jesus tem a preferência.
O projeto de Jesus é criar uma sociedade alternativa está acima das considerações dos laços de família. A segunda exigência: “Só quem carrega a sua cruz e me segue, pode ser meu discípulo”, não se trata de fazer sacrifícios ou mortificar-se, mas de aceitar e assumir que a adesão a Jesus carrega consigo a possibilidade de perseguição por parte da sociedade, perseguição que deve ser aceita e ser colocada em primeiro lugar como conseqüência do seguimento.
Por isso, não é necessário precipitar-se, a não ser que prometamos fazer mais do que podemos cumprir. Há bons exemplos que ilustram a necessidade de uma opção fundamental, como por exemplo a construção da torre, que exige fazer um bom plano para calcular os materiais disponíveis, ou o rei que planeja a batalha precipitadamente, sem sentar-se e estudar suas possibilidades diante do inimigo.
A terceira condição (qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo) nos parece excessiva. Como se não bastasse dar preferência absoluta ao plano de Jesus e estar disposto a sofrer perseguição por ele, Jesus exige algo que parece estar acima de nossas forças: renunciar a tudo que se tem. Trata-se, sem dúvida, de uma formulação extrema que deve ser bem compreendida. O discípulo deve estar disposto inclusive a renunciar a tudo que tem, se isto for obstáculo para colocar fim a uma sociedade injusta na qual uns acumulam os bens da terra enquanto outros passam necessidade e mal conseguem sobreviver.
O outro tem sempre a preferência. O próprio deixa de ser da pessoa, quanto outro necessita dele. Somente a partir do desprendimento se pode falar de justiça, somente desde a pobreza se pode lutar contra ela. Somente a partir daí se pode construir a nova sociedade, o reinado de Deus, erradicando a injustiça da terra.
Para os que costumam tirar os espinhos do evangelho e nós mesmos gostaríamos que as palavras e atitudes de Jesus fossem menos radicais, ler este texto nos parece duro, pois o Mestre nazareno é tremendamente exigente.
Não é em vão que o livro da Sabedoria formula hoje, a modo de interrogante, a dificuldade que se tem de conhecer o desígnio de Deus e compreender o que Deus quer. Será necessário para isso receber de Deus a sabedoria e o Espírito Santo desde o céu para adequar nossa vida à vontade de Deus manifestada em Jesus.
Necessitamos, certamente, dessa ajuda do céu para navegar contra a corrente e ter a capacidade de renúncia total que nos é proposta pelo evangelho como exigência radical de Jesus hoje não é tanto o começo do caminho, mas a meta à qual devemos aspirar, aquilo de que somos convidados a alcançar, se queremos seguir a Jesus. Talvez não cheguemos nunca a viver com essa radicalidade as exigências de Jesus, porém não devemos renunciar a isso por mais que nos encontremos à luz dessa utopia.
www.claretianos.com.br
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Exigências para o discípulo
Após a parada, na semana passada, na casa de um dos chefes dos fariseus. Jesus retoma seus ensinamentos voltado para as grandes multidões que o acompanham na sua jornada rumo a Jerusalém.  O evangelho vai fazer um convite a tomar consciência das exigências da opção pelo Reino. Optar pelo “Reino” não é escolher um caminho de portas largas, de facilidade, mas sim aceitar entrar pela porta “estreita”, isto é, percorrer um caminho de renúncia. Jesus apresenta as coordenadas deste “caminho do discípulo”. Trata-se de um caminho em que o “Reino” deve ter o primeiro lugar. Jesus não admite meios-termos: ou se aceita a proposta ou não vale a pena começar algo que não vai ter continuidade.
Quais são, na perspectiva de Jesus, as exigências fundamentais para quem quer seguir o “caminho do discípulo” e chegar a sentar-se à mesa do “Reino”? Jesus coloca três exigências fundamentais, todas elas subordinadas ao tema da preferência (preferir algo é renuncia, abrir mão em favor disso). A primeira exige o preferir Jesus à própria família (v. 26). A este propósito, Lucas põe na boca de Jesus uma expressão muito forte. Literalmente, podemos traduzir o verbo “misséô” aqui utilizado como “odiar” (“quem não odeia o pai, a mãe… não pode ser meu discípulo”). Esta expressão facilmente nos assusta. Necessita entender, que segundo o jeito oriental de falar, “odiar” significa “pôr em segundo lugar algo porque, entretanto, apareceu um valor que é mais importante”. É evidente que Jesus não está a pedir o ódio a ninguém, muito menos aqueles que nos deram a vida. Está, sim, a exigir que as relações familiares não nos impeçam de aderir ao “Reino”. Se for necessário escolher, a prioridade deve ser do “Reino”.
A segunda exige a renúncia à própria vida (v. 27). O discípulo de Jesus não pode viver a fazer opções egoístas, colocando em primeiro lugar os seus interesses, os seus projetos, aquilo que é melhor para ele; mas tem de colocar a sua vida ao serviço do “Reino” e fazer da sua vida um dom em favor dos outros, se necessário até ao extremo de doar a própria vida. Foi essa a via escolhida por Jesus: o discípulo é convidado a imitar o mestre.
A terceira exige a renúncia aos bens (v. 33). Jesus sabe que os bens podem facilmente transformar-se em deuses, tornando-se uma prioridade, escravizando a pessoa e levando-a a viver em função deles; assim sendo, que espaço fica para o “Reino”? Por outro lado, dar prioridade aos bens significa viver de forma egoísta, esquecendo as necessidades dos outros; ora, viver na dinâmica do “Reino” implica viver no amor e deixar que a vida seja dirigida por uma lógica de amor e de partilha… Pode, então, viver-se no “Reino” sem renunciar aos bens?
Com tais exigências, fica claro que a opção pelo “Reino” não é um caminho de facilidade e, por isso, talvez não seja um caminho que todos aceitem seguir. É por isso que Jesus recomenda o pesar bem as implicações e as conseqüências da opção pelo “Reino”. A parábola do homem que, antes de construir uma torre, pensa se tem com que terminá-la (vs. 28-30) e a parábola do rei que, antes de partir para a guerra, pensa se pode opor-se a outro rei com forças superiores (vs. 31-32) convidam os candidatos a discípulos tomar consciência da sua força, da sua vontade, da sua decisão em corresponder aos desafios do Evangelho e em assumir, com radicalidade, as exigências do “Reino”. O intuito de Jesus não é assustar ou demover aqueles que desejam se tornar discípulos, mas fazer entender que a sua proposta é exigente, é a proposta da “porta estreita”, onde aqueles que assumem o projeto não devem abandonar a “construção” a meio. Por isso, o convite a pensar se se está pronto para assumir essas exigências. Jesus não aceita gente de meios termos, mas quer gente decidida.
Meditação
Jesus não está apenas interessado em ter seguidores, mas quer seguidores decididos pela causa do Reino. O caminho que Jesus propõe não é um caminho de “massas”, mas um caminho de “discípulos”: implica uma adesão incondicional ao “Reino”, à sua dinâmica, à sua lógica; e isso não é para todos, mas apenas para os discípulos que fazem séria e conscientemente essa opção. Como me coloque perante isso? A proposta de Jesus é, para mim, uma opção decidida ou algo que aceitei, mas não estou muito convencido?
Às vezes parecemos mais interessados nas estatísticas, querendo mostrar um grande número de batismos, de casamentos, de crismas, de comunhões, do que propor, com exigência, a o caminho de Jesus.  A nossa pastoral deve facilitar tudo, ou ir pelo caminho da exigência?
Às vezes, as pessoas procuram a comunidade cristã por tradição, porque “fica lindo nas fotografias”… Sem fechar a porta a ninguém, é necessário mostrar as exigências da proposta de Jesus. Por vezes passamos a sensação de que tudo é aceitável.
Jesus exige a capacidade de renunciar à própria vida e a tomar a cruz do amor, do serviço, do dom da vida. O que é mais importante para mim: os meus interesses, os meus valores egoístas, ou o serviço dos irmãos?
Jesus exige preferir o Reino em relação aos bens. Os bens, a procura da riqueza são, para mim, uma prioridade fundamental? O que é mais importante: a partilha, a solidariedade, a fraternidade, o amor aos outros, ou o ter mais, o juntar mais?
Patrick Silva - palavra.imconsolata.org.br
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Ponderar o custo do reino
A sabedoria nunca é conquistada para sempre. Sb. 9 (1ª leitura) é a prece da Salomão pela sabedoria; a segunda parte (v. 13-19) explica quanto ela é indispensável. Mas o mundo de hoje parece carecer dela mais do que Salomão. Nem mesmo respeita suas próprias fontes de subsistência, sacrificando tudo à manutenção de obscuros poderes e lucros, com a cumplicidade de praticamente todos, deixando-se envolver no jogo da competição e do consumo...
A sabedoria ensina a dar a tudo seu devido lugar, a ponderar o que é mais e o que é menos importante. Isso pode conduzir a conclusões que, aos olhos de pessoas superficiais, parecem loucura. As exigências do seguimento de Jesus parecem loucura:“Odiar (= não preferir) pai e mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs” (Lc. 14,26), por causa de Cristo e seu evangelho, não é isso uma loucura? Não, diz Lucas (evangelho). É a conseqüência da sabedoria cristã, da ponderação a respeito do investimento necessário para o Reino de Deus. Começar a construir a torre sem o necessário capital é que é loucura, pois todo mundo ficará gozando da gente porque não conseguiu concluir a obra! A alusão à torre de Babel, símbolo da vaidade e confusão humana, é evidente. O homem sábio faz seu orçamento: decide quanto ele vai investir. No caso do cristão, o único orçamento adequado é o do investimento total, já que se trata do supremo bem, sem o qual os outros ficam sem sentido. Ainda bem que os recursos são inesgotáveis.
A sabedoria cristã consiste em ousar optar radicalmente pelo valor fundamental, mesmo se isso exige uma escolha dolorosa contra pessoas muito queridas, realidade que se repetia diariamente na Igreja do tempo de Lc. Estas palavras foram dirigidas às “grandes multidões” que seguiam Jesus (Lc. 14,25), e não só a monges e ascetas. Além disso, formam a seqüência de exortação ao convite gratuito e à parábola do grande banquete, em que Jesus ensina a dar a preferência às pessoas “não gratificantes” em vez dos familiares e amigos (cf. dom. pass.). Assim, “não preferir” seus familiares se pode referir, concretamente, a duas realidades: a perseguição, que obriga o cristão a preferir o Cristo acima dos laços de parentesco e até acima da própria vida (sentido primeiro); mas também a preferência, por causa do Evangelho, por categorias de pessoas pouco estimadas, excluídas, às custas do círculo social costumeiro.
Ouve-se, em nosso ambiente, muitas vezes, a observação de que é preciso ter “bom senso” em questões de justiça e direito. Será que não se chama de bom senso o que é apenas medo? Quando é claro que o amor de Cristo está em jogo, a sabedoria cristã exige um investimento radical e estratégias para lhe abrir espaço. Porém, radicalidade não é imprudência. É liberdade frente àquilo que nos pode desviar do que é prioritário. A sabedoria cristã nos ajuda a estabelecer as opções preferenciais certas. Ora, para não perder tudo, é preciso realizar as opções sabiamente feitas. Quem acha que seguir Cristo é fundamental, deve fazê-lo, custe o que custar. Portanto, o sábio cristão não é o sofista brilhante, que explica tudo, sem jamais se comprometer. É o homem que, ao mesmo tempo lúcido e convicto, investe tudo no que julga ser o sentido último da existência e da História, à luz na fé em Cristo Jesus. O sábio não é aquele que hesita, quando se trata de saltar, mas aquele que salta; o que hesita é que cai...
Para Filêmon, o homem de bem da cidade de Éfeso, amigo pessoal de Paulo, o bilhete que seu escravo Onésimo trouxe consigo, ao voltar de uma escapada até a prisão de Paulo, deve ter parecido loucura (2ª leitura). Porém, é a mais pura sabedoria cristã. Onésimo fugiu de Filêmon, para assistir a Paulo na prisão. Paulo o batizou. Agora não mais precisando dele, o devolve a Filêmon, porque comercialmente falando, é sua propriedade (Paulo ainda não pensava numa sociedade sem escravidão; ou não achava muito importante, por causa do curto prazo da Parusia: cf. 1Cor 7,20-23). Mas, espiritualmente falando, “em Cristo”, ambos, Onésimo e Filêmon, pertencem a uma nova realidade, em que não há mais senhor nem escravo, mas somente irmãos em Cristo e filhos do Pai (cf. Gl 3,28); e filhos também de Paulo, que a ambos gerou na fé (batizou-os). Portanto, Filêmon acolhe seu escravo não mais como escravo, mas como irmão, como se acolhesse o próprio Paulo.
Os cristãos e as estruturas sociais
"Se Deus só serve para deixar tudo como está, não precisamos dele”; palavra de uma agente de educação popular. O Deus que é apenas o arquiteto do universo, mas fica impassível diante da injustiça dos habitantes de sua arquitetura, não tem relevância alguma. O cristianismo serve ou não para mudar as estruturas da sociedade?
São Paulo tinha um amigo, Filêmon.
Este – como todos os ricos de seu tempo – tinha escravos, que eram como se fossem as máquinas de hoje. Um dos escravos, sabendo que Paulo tinha sido preso, fugiu de Filêmon para ajudar Paulo na prisão. Paulo o batizou (“o fez nascer para Cristo”).
Depois mandou-o de volta a Filêmon, recomendando que este o acolhesse, não como escravo, mas como irmão... Mais: como se ele fosse o próprio Paulo (2ª leitura).
Essa história é emocionante, mas nos deixa insatisfeitos. Por que Paulo não exigiu que o escravo fosse libertado, em vez de acolhido como irmão, continuando como escravo? Aliás, a mesma pergunta surge ao ler outros textos do Novo Testamento (1Cor. 7,21; 1Pd. 2,18). Por que o Novo Testamento não condena a escravidão?
A humanidade leva tempo para tomar consciência de certas incoerências, e mais tempo ainda para encontrar-lhes remédio. A escravidão, naquele tempo, era uma forma de compensação de dívidas contraídas ou de uma guerra perdida. Imagine que se resolvesse desse jeito a dívida externa do Brasil! Seríamos todos vendidos (se já não é o caso...) Antigamente (?), a escravidão fazia parte da estrutura econômica. Na Idade Média, com os numerosos raptos praticados pelos piratas mouros, surgiram ordens religiosas para resgatar os escravos, até tomando o lugar deles. Mas ainda na época moderna, a Igreja foi conivente com a escravidão dos negros. A consciência moral cresce devagar, e mudar alguma coisa nas estruturas é mais demorado ainda, porque depende da consciência e das possibilidades históricas. As estruturas manifestam só aos poucos sua injustiça, e então leva séculos para transformá-las.
Porém, a lição de Paulo é que, não obstante essa lentidão histórica, devemos viver já como irmãos, vivenciando um espírito novo, que vai muito além das estruturas vigentes e que – como uma bomba-relógio – fará explodir, cedo ou tarde, a estrutura injusta. Novas formas de convivência social, voluntariados dos mais diversos tipos, organismos não-governamentais, pastorais junto aos excluídos – a criatividade cristã pode inventar mil maneiras para viver aquilo que as estruturas só irão assimilar muito depois.
Johan Konings - "Liturgia dominical" - www.franciscanos.org.br
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Discípulo
No Evangelho de hoje, a palavra “discípulo” aparece três vezes (cf. Lc. 14,26.27.33); em todas elas o discípulo aparece como alguém que deve renunciar algo ou alguém. Não será uma visão um pouco negativa? Para compreender melhor a nossa vocação de discípulos do Senhor vale a pena fazer um pequeno passeio pelo Novo Testamento.
Um primeiro fato que chama a atenção é que não são os discípulos quem escolhem o seu mestre, mas é Jesus quem escolhe os seus discípulos e lhes dá uma missão concreta: “Vinde após mim e vos farei pescadores de homens” (Mt. 4,19). A primeira coisa que há de notar-se, portanto, na vida do discípulo é que é uma pessoachamada por Jesus para cumprir uma missão. Dentro desse contexto é que podemos entender as renúncias que Jesus pede aos seus discípulos.
Uma segunda característica do discípulo de Jesus encontra-se no contexto das bem-aventuranças, cuja clave de interpretação é o mandato de Cristo para que sejamos santos:“perfeitos como vosso Pai celeste” (Mt. 5,48). Outra maneira de expressar a santidade querida por Jesus é a descrição que são Marcos faz da escolha dos Doze: “designou doze dentre eles para ficar em sua companhia” (Mc. 3,14). Santidade é estar na companhia de Jesus, junto a ele e compartir a sua mesma vida. A renúncia, portanto, é para que possamos viver essa vida nova à imitação do Divino Mestre.
Noutro momento, quando Jesus dava instruções aos seus discípulos e, mais em concreto, aos seus apóstolos, lhes diz: “o discípulo não é superior ao mestre; mas todo discípulo perfeito será como o seu mestre” (Lc. 6,40). Ou seja, o seguidor de Cristo permanece sempre como discípulo, nunca será mestre, mas a sua imitação do Mestre pode ser perfeita.
O discípulo mantém sempre o desejo de aprender. Conta-se que uma criança ao voltar da escola um pouco desanimada, foi perguntada pelos pais: “E aí, foi bem de aula?”. E o menino respondeu: “Não. Vou ter que voltar amanhã”. Não se pode pretender aprender tudo num só dia nem cansar-se de voltar à escola do Mestre. Uma experiência que todo cristão tem quando passam os anos no seguimento de Cristo é a seguinte: a leitura do Evangelho, das mesmas passagens, recebe sempre distintos coloridos na mente e no coração do que o lê, sempre se descobre coisas novas ou, ao menos, o antigo já sabido se renova, ganhando assim todo o frescor da novidade de redescobrir algo já conhecido e, no entanto, com alguma luz nova.
S. Irineu dizia que o homem vai ser discípulo sempre, também na eternidade: nós sempre aprenderemos! E um autor moderno escrevia que a nossa viagem de peregrinação por esse mundo não termina numa cima definitiva, mas na descoberta maravilhosa de que as terras descobertas e conquistadas são tão somente promessas do que há, todavia terras mais belas por descobrir.
Recordemos essas palavras do Documento de Aparecida (nº 103): “Como discípulos de Jesus reconhecemos que Ele é o primeiro e maior evangelizador enviado por Deus (cf. Lc. 4,44) e, ao mesmo tempo, o Evangelho de Deus (cf. Rm. 1,3). Cremos e anunciamos “a boa nova de Jesus, Messias, Filho de Deus” (Mc. 1,1). Como filhos obedientes á voz do Pai queremos escutar a Jesus (cf. Lc. 9,35) porque Ele é o único Mestre (cf. Mt. 23,8). Como seus discípulos sabemos que suas palavras são Espírito e Vida (cf. Jo 6,63.68). Com a alegria da fé somos missionários para proclamar o Evangelho de Jesus Cristo e, n’Ele, a boa nova da dignidade humana, da vida, da família, do trabalho, da ciência e da solidariedade com a criação”. Os passos estão claros: reconhecer Jesus; crer de verdade na boa-nova que ele nos trouxe, ou seja, ele mesmo; escutá-lo e proclamar aos homens e mulheres da nossa época a vida, a alegria e a paz que só se encontra nele; fazer com que a nossa fé vá acompanhada das boas obras. Essa visão das coisas dista muito de ser negativa, ao contrário, a fé nos faz profundamente otimistas porque ela mesma leva em si o dinamismo do sim de Deus aos discípulos de Cristo.
padre Françoá Costa - www.presbiteros.com.br
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O ensinamento sobre a porta estreita e as exigências fortes culmina no convite a renunciar a tudo, tomar sua cruz e seguir Jesus. Só assim será discípulo. São palavras que nos parecem duras e fora de nossa realidade.
O Evangelho usa a palavra odiar, que traduzimos por renunciar e desapegar. São palavras duras e fortes. Para nós é difícil ver a contradição entre o amor que se prega para com os pais e familiares e a expressão ódio que traduzimos por desapego. Este ódio não contradiz, mas é uma força de expressão que quer dizer: quem amar mais seus pais, mulher, filhos e até a própria vida mais do que a mim, não pode ser seguidor de Jesus. O mandamento do Antigo Testamento era: “amarás o Senhor Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças”(Dt 5,6). Não diz que não se deve amar pais, esposa, filhos e a própria vida, mas sim que a força total é para com o seguimento de Jesus. E podemos dizer que só amará muito seus pais, irmãos, esposa, filhos e a própria vida quem segue Jesus para valer.
Jesus explica que aquele que quer seguí-lo deve ver se realmente pode enfrentar este compromisso que é total. Do contrário será como o homem que começou a construir uma torre e não pode acabar, ou como o rei que sai para a guerra em condições inferiores ao inimigo. O fracasso no seguimento de Jesus está na falta de opção real e completa por Ele.
O sentido de pegar a cruz é assumir a vida como Jesus assumiu a sua: fazer a vontade do Pai, isto é amar ao extremo do amor num serviço de amor a Deus e aos pais, irmãos, amigos, esposa, filhos e à própria vida. Por isso Ele vai dizer: “quem perde a sua vida por causa de mim vai ganha-la”( Mt. 16,26). Certamente este ensinamento é incômodo para nós, pois, como diz a segunda leitura, “o corpo corruptível torna pesada a alma” (Sb. 9 15).
Nossa realidade cristã e a realidade que nos cerca dão um valor muito grande às pessoas, sobretudo da família, e têm um apreço imenso pela própria vida, pelo seu modo de pensar e agir, não permitindo a ninguém, e nem Deus, dar palpite. Com razão, pois cada um deve reger a própria vida. Se o que move é o egoísmo, podemos nos dar mal. Se for a cruz de Jesus que nos guia, como guiou sua pessoa durante a vida, poderemos segui-lo. Caso contrário é melhor assentar-se e repensar se quero mesmo segui-lo.
Como ensinamento prático para nossa vida podemos fazer a escolha: conduzir nossos relacionamentos com família, com as outras pessoas e conosco mesmos, a partir da opção por Jesus. Amar como Jesus amava, sorrir como Jesus sorria, sentir como Jesus sentia. Como Jesus amava as pessoas? Dando a vida por elas. A vida que damos aos parentes e o esforço pessoal que fazemos de segui-lo de perto vai dar-nos alegria de viver, força nas dificuldades e realização plena a nós mesmos. Assim a peso da cruz se torna leve.Este é o lado leve da cruz.
padre Luiz Carlos de Oliveira, C.Ss.R. - www.a12.com
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"Perder para ganhar"
O desapego como um bem
Quando ouvimos a palavra desapego, sentimos logo algo contra a natureza. É justamente ele que nos dá coragem para os maiores discernimentos e a capacidade de assumir coisas grandiosas que parecem superar nossa natureza. As opções exigem renúncias. Jesus é o modelo do desapego. Primeiramente desapega-se da manifestação de sua divindade e se faz homem, encarnando-se. Sua encarnação coloca-o numa condição de muita fragilidade. Além de ser homem, em seu ministério, desapega-se de todas as condições fáceis da vida. Ele mesmo diz que não tinha nem onde repousar a cabeça (Lc 9,58), nem tempo para comer (Mc 6,31). Desapega-se da família e enfrenta o grande desapego da cultura religiosa dominante na qual fora educado por sua mãe Maria e seu pai José. A própria família quer pegá-lo, pois dizem fora de si (Mc 3,21). O desapego vai ao extremo de perder a própria vida na cruz, numa disposição total de entrega ao Pai. Não leva as conseqüências que a missão de Messias traz consigo. Ele carrega a cruz e convida a ir atrás dele, pois do contrário não conseguiremos ser seus discípulos. Esta é a sabedoria da loucura da cruz (1Cor 1,23.25). Somente ela faz compreender como viver a fragilidade e o peso da alma, a tenda de argila (Sb 9,15). Nosso conhecimento é reduzido. A Sabedoria de Cristo é o desapego. Esvaziar-se do secundário é a melhor medida para encher-se do que é precioso. Se Jesus usa o termo odiar, está usando a terminologia hebraica e colocar os opostos. Se me desapego dos familiares para seguir Jesus, vou amá-los muito mais e na verdade da fé. Deus não quer o sofrimento, menos ainda que soframos pelos bens que passam. Quer que os vivamos com maior intensidade, isto é, n’Ele.
Assumir com consciência
Jesus, faz duas comparações para explicar a força que deve ser dada para seguí-lo com totalidade, como diz: “Quem não renunciar a tudo o que tem não poderá ser meu discípulo” (Lc 14,33). Somente no total desapego teremos a total entrega. Faz a comparação com o homem que vai construir a torre e não faz o cálculo de se tem condições de realizar a obra. Fracassa! Ou o rei que sai para guerrear com o outro e não vê se seu exército é suficiente para enfrentar o outro. Vai perder a guerra! Por isso, quem quiser ser discípulo tem que saber se vai mesmo assumir com totalidade. Do contrário fracassa. Não pode haver meias medidas. A fragilidade da Igreja vem da fragilidade dos membros que não assumem. Deus conta com nossa fragilidade, pois sabe que somos pó (Gn 3,19).
Caso de um escravo
Paulo nos ensina o desapego de práticas culturais e sociais para criar a fraternidade. Não se justifica a escravidão, a discriminação, a dominação de classe por qualquer que seja o motivo. Ser cristão é participar de uma cultura, mas é preciso evangelizá-la, senão cometemos crimes contra o evangelho de Jesus e justificamos. Onésimo era um escravo que fugiu, conheceu Paulo e se converteu. Filemon era amigo de Paulo que, não querendo ficar com ele, mandou-o de volta e pediu que o recebesse não como um escravo, mas como irmão no Senhor. É um modelo de mudança nos sistemas sociais. Aquela história que estamos cumprindo ordens superiores, foi causa de crimes na história. A Palavra de Deus, na Eucaristia, pode nos iluminar em nosso cumprimento do dever civil e espiritual

1.A palavra desapego assusta. Mas é a condição necessária para assumir as coisas da vida. As opções exigem renúncias. Jesus, em sua encarnação, vida, missão e morte, foi totalmente desapegado. Para segui-lo é necessária a sabedoria do desapego. Esvaziar-se do secundário é a melhor medida para poder encher-se do que é precioso. Odiar as coisas boas não depõe contra o amor, pois quem dá a preferência a Jesus terá tudo e, em melhores condições.
2.Jesus explica que para ser discípulo é necessário renunciar e fazer a entrega. Por isso é preciso assumir com totalidade. Para isso usa a imagem do homem que vai construir e não calcula ou o rei que vai para uma guerra sem ver se tem soldados suficientes. Para seguir Jesus exige-se totalidade.
3.Paulo dá-nos um exemplo sobre aonde pode chegar o desapego, usando um fato cultural e social. Um escravo fugido se converte e Paulo o manda de volta ao patrão que é seu amigo. Mas coloca um novo modo de ser: não escravo, mas irmão. Na história engolimos muitas leis que são injustas.
Errando a conta
Como é duro errar uma conta! E fazemos isso frequentemente. No Evangelho deste domingo Jesus é claro quando explica como se deve segui-lo. Tem que ser por completo. Coloca o seguimento na base do desapego de tudo, mesmo dos familiares. Isso não nega o amor familiar, mas este deve estar sujeito também ao seguimento. E tomar a cruz e ir atrás dele. Não se trata da dor, mas do amor com que Ele carregou sua cruz. Amor não de gostar, mas de se entregar.
Para isso conta duas parábolas sobre o homem que vai construir uma torre sem planejamento, e sobre o rei que vai para a guerra sem medir as próprias forças. Assim, quem vai segui-lo, deve ver se vai querer enfrentar. Não pode ficar com os pés em duas canoas, pois acaba caindo n’água. Tudo ou nada. Ou vai ou racha.
Somente os que renunciaram tudo é que tiveram tudo.
Rezamos no salmo: “Ensinai-nos a bem contar nossos dias e daí ao nosso coração sabedoria”.
padre Luiz Carlos de Oliveira, C.Ss.R. - www.redemptor.com.br
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“Quem não carrega a sua cruz e não vem após mim, não pode ser o meu discípulo” (Lc. 14, 27). Essa emblemática frase dita por Jesus, conservada pela comunidade lucana, nos coloca na condição do seguimento, do caminho. Caminho, em hebraico derek, é o que nos lembra o texto das bem-aventuranças (Mt. 5,1-12 e Lc. 6,20-23). Ser um bem-aventurado é pôr-se em marcha, estar a caminho. É como se Jesus dissesse: “Em marcha os que têm sede e fome de justiça – continuem nessa luta, nesse caminho, porque vocês serão saciados” (Mt. 5,6). Quem está em marcha é um bem-aventurado, pois está a caminho. E o caminho é dinâmico e exige estar de pé, disposto a não parar nunca. O bem-aventurado é aquele que caminha em Deus.
As leituras de hoje nos colocam, inevitavelmente, nesse caminho do seguimento de Jesus, o qual exige: sabedoria, amor ao excluído, reflexão e cruz. O que significa para nós seguir Jesus, tendo a cruz como caminho? O sofrimento salva? Como ser sábio no seguimento de Jesus? Eis algumas questões para a homilia deste domingo.
1º leitura (Sb. 9,13-19): o caminho da sabedoria
A primeira leitura deve ser compreendida a partir dos capítulos anteriores e, sobretudo, de Sb 9,1-12, a oração do rei Salomão, na qual ele pede sabedoria para governar Israel. O seu contexto é a comunidade judaica radicada em Alexandria, no Egito. Salomão descreve a sua vida, igual à de todos os mortais, desde o nascimento, mas diferente, porque ele pediu a Deus e dele recebeu, como dom, a sabedoria. Sabedor de que a sabedoria é divina, ele diz que a prefere aos cetros e tronos, considerados bens terrenos preciosos. “Amei-a mais que a saúde e a beleza e me propus tê-la como luz” (Sb. 7,10), afirma Salomão. E ele ainda acrescenta que todos os seus bens materiais – uma riqueza incalculável, provêm da sabedoria (7,11).
Para o povo da Bíblia, a sabedoria vem de Deus. Ela se personifica, torna-se visível, na Torá, na Palavra de Deus. Os judeus cristãos dirão, mais tarde, que Jesus é a Sabedoria de Deus (1Cor. 1,24). Viver a Palavra de Deus em profundidade é ser sábio. Salomão incorporou a sabedoria no seu reino. Instituiu homens como sábios para recolher a sabedoria popular. A sua sabedoria foi notória entre todos os reinos da época. Verdade ou não, essa corrente de pensamento bíblico celebrizou Salomão como o grande sábio de Israel. Por isso, ele nem precisava perguntar a Deus o que deveria fazer para se salvar, pois sabia o caminho e o ensinava a todos.
A terceira parte da oração de Salomão, que constitui a nossa primeira leitura de hoje, constata que ao ser humano não compete conhecer o desígnio de Deus. Como criaturas, somos limitados. Temos um corpo corruptível que pesa sobre a alma. O corpo é uma tenda de argila que oprime a mente. Em outras palavras: o corpo impede o caminho da alma para o espiritual, o imortal e o celestial. Outros textos do Primeiro e do Segundo Testamentos – usamos as terminologias Primeiro e Segundo Testamentos, antes da Era Comum (a.E.C.) e Era Comum (E.C.) por razões ecumênicas com os judeus, que tratam dessas três questões – são: Rm 7,23; Gl. 7,17; Is. 38,22; Jó 4,19; 2Cor. 4,7; 5,1.4; 2Pd. 1,13; 1Pd. 1,13. Também a filosofia da época, Platão, Cícero, Sêneca e Horácio, tem afinidade com esse texto do livro da Sabedoria.
Qual é, então, a diferença do pensamento judeu, expresso no livro da Sabedoria, para essas filosofias? A resposta é: para o autor de Sabedoria, alma e corpo são sinônimos de uma mesma realidade. Elas não têm dois caminhos diversos e uma não é prisão da outra. E o que é mais evidente: os caminhos de Deus somente podem ser conhecidos com o dom da sabedoria dada ao ser humano e vinda dos céus como santo espírito (17). Aqui está a essência da oração de Salomão. A salvação do ser humano do Primeiro Testamento consiste em proteção divina diante dos perigos naturais e iminentes. Um caminho perfeito no seguimento da Torá (Lei/conduta) só será possível com o dom da sabedoria, que Deus envia do céu pelo seu espírito (v. 17). Salomão sabia disso. Será que os nossos governantes modernos têm consciência desse fato? Estamos próximos ao período eleitoral. Entre nossos políticos, encontramos pessoas sábias para nos governar?
Em relação aos judeus de Alexandria, o livro da Sabedoria aponta o caminho a partir da oração de Salomão, da qual eles haviam se apropriado, para resistir com fé diante do mundão pagão das filosofias gregas. Os cristãos, mais tarde, irão questionar e rejeitar a filosofia grega – Tertuliano dirá: “O que tem Atenas a ver com Jerusalém?”, mas acabarão assimilando seus valores no cristianismo.
Evangelho (Lc. 14,25-33): condições para seguir o Mestre Jesus
Só quem se coloca na dinâmica do mestre, daquele que ensina, é que pode manter-se no caminho. O caminho se faz caminhando, dizem os poetas. O caminho é sempre uma marcha que não para nunca.
O evangelho de hoje faz parte da famosa viagem lucana de Jesus rumo a Jerusalém (9,51-19,27). Jerusalém é a meta final do Salvador, pois ali ele iria realizar plenamente, com sua morte e ressurreição, a sua missão salvífica. A lógica do caminho de Jesus soa um tanto absurda: é preciso odiar pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs e a própria vida; carregar a própria cruz; renunciar a tudo que possui. E, além de tudo isso, ele dá um sábio conselho: sentar-se e preparar a caminhada, calculando, ponderando despesas etc. Em outras palavras: refletir antes de começar.
Jesus se dirige às grandes multidões que o acompanham de forma proselitista. Todos, no entanto, teriam que fazer opção: rejeitar ou aderir à sua proposta. E é o que ocorre. Jesus busca adeptos, discípulos, para a sua proposta de Reino. Ser discípulo de Jesus é o mesmo que entrar no Reino de Deus. Seguindo a lógica do Shemá Israel – Ouve, ó Israel, que estabelece três condições para viver a fé judaica: amar com o coração, a alma (ser) e as posses (Dt 6,4-5), Jesus usa três vezes a expressão “ser meu discípulo” (vv. 26, 27 e 33). O odiar pai, mãe etc., por se tratar do sentimento, representa o coração; o carregar a cruz a ponto de martírio representa o ser; e o renunciar aos bens, as posses. O discípulo preparado é o que segue o Shemá (Jacir de Freitas Faria, A releitura da Torá em Jesus. RIBLA, 40. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 18).
Renunciar a tudo e carregar a própria cruz (vv. 25-26). Essa é a primeira condição do novo discípulo. As comunidades de Mateus e de Marcos também haviam se lembrado desses ensinamentos de Jesus (Mt. 10,37; 19,29; Mc. 8,34), mas a de Lucas foi mais radical. Ela acrescentou deixar mulher, renunciar a própria vida e odiar. O verbo odiar jamais poderá ser entendido como rejeição aos pais, mulher e filhos. Um judeu nunca ensinaria ódio aos familiares, base de sua vida e de sua fé. Ódio aqui significa ter quer demonstrar mais dedicação a um, em detrimento do outro. O discípulo terá que fazer opção no seguimento, ser desapegado de tudo, por causa de Jesus. A comunidade de Mateus explicou isso muito bem, quando usou o comparativo “amar mais” (Mt. 10,37). Nessa mesma linha de pensamento está o carregar a própria cruz, que pode significar martírio e os sofrimentos advindos da cruz, a cruz pesada da vida. Até nisso, o discípulo tem que ter clareza no seguimento.
Planejar a caminhada. Tenho condições de ser discípulo? (vv. 28-32). As duas parábolas que seguem, a da torre e a do rei, querem dizer a mesma coisa: é preciso ter um planejamento, antes de iniciar a caminhada. Quem começar a construção de uma torre sem condições de terminá-la será motivo de chacota para os seus vizinhos. O mesmo ocorre com rei que não tem forças para enfrentar o inimigo, melhor seria negociar a paz.
O objetivo deve ser calculado conforme as nossas possibilidades. Se quero ser discípulo, devo ter consciência das minhas limitações. Para Jesus, quem não tivesse o martírio como possibilidade de consequência da opção pelo Reino não seria capaz de segui-lo. E Jesus diz isso para uma multidão. E termina enfaticamente: “quem não renunciar a tudo o que possui não pode ser o meu discípulo” (v. 33).
2 leitura (Fm. 9b-10.12-17)
Paulo, o discípulo perfeito, prega a compaixão
O escravo Onésimo, que em grego significa útil, é o centro da ação de benevolência que Paulo solicita ao amigo Filêmon, um convertido por Paulo, na prisão de Éfeso, dono desse escravo fugitivo. Paulo se apresenta como um velho e prisioneiro, que pede e não manda, como poderia fazê-lo (vv. 8-9). Paulo é aqui o sábio seguidor de Jesus. A sua caminhada, desde a conversão, muito lhe ensinou. Agora, prisioneiro de Cristo, ele implora compaixão pelo escravo Onésimo, que deveria, segundo as leis, ser ferrado na testa, lançado às feras ou crucificado. Paulo pede que esse escravo, seu filho na fé e gerado por ele para Deus, fosse tratado como irmão no Senhor. Paulo diz a Filêmon que o escravo deve ser recebido como ele mesmo, rompendo, em Cristo, as barreiras entre escravos e livres. Com esse gesto, Paulo colocou em prática o ensinamento do seguimento de Jesus. Ele deixou tudo, estava prisioneiro da cruz de Cristo, e dava mostras de um novo tempo para os seguidores do Mestre.
Onésimo é útil para a demonstração de fé do amigo Filêmon. Ele perde um escravo, mas ganha um irmão. Onésimo é útil, a escravidão é inútil. Onésimo é útil para nos indicar um caminho de fé sem diferenças sociais, conforme nos testemunhou o apóstolo Paulo.
PISTAS PARA REFLEXÃO
A interpretação dos textos acima levou muitas comunidades de fé a interpretar a cruz como os sofrimentos da vida: dificuldades financeiras, drogas na família, traições etc. Seria aconselhável distinguir o sentido real da cruz de Cristo, como consequência de sua vida e não como fatalidade, do sentido popular de carregar a cruz – sofrimento passivo, simplesmente porque Jesus morreu na cruz.
Deus não quer o sofrimento. O sofrimento não é caminho de salvação. Muitos cristãos assim agiram ao longo da história, numa tremenda acomodação e aceitação do seu sofrimento, sem reagir diante das dificuldades, causando miséria humana e social. O cristão é um ser humano sempre a caminho. Sofrimento não salva. O que salva é o seguimento.
Aqueles que detêm o poder, seja econômico ou político, fazem uso dessa premissa para manter ou acobertar as injustiças. Como atuamos para evidenciar esse fato, sobretudo em relação àqueles que o fazem em nome da fé? Escravidão não é sinônimo de cidadania.
A vida de cada um de nós é marcada sempre pelas opções que fazemos. Já dizia a poetisa Cecília Meireles: “ou isso ou aquilo”. Temos que optar sempre. E toda opção exige renuncia, planejamento e dedicação à missão escolhida. Deus nos chama e nos oferece o dom da sabedoria. “E feliz de quem a encontra. Ganhá-la vale mais do que a prata, e o seu lucro mais do que o ouro... Felizes são os que a retêm” (Pr. 3,13-18).
padre Johan Konings, sj.  - www.paulus.com.br
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“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença.
Tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia” (cf. Sl. 118).
O livro da Sabedoria nos ensina, na primeira leitura (cf. Sb. 9,13-18), que a sabedoria nunca é conquistada para sempre. É a prece de Salomão pela sabedoria, especialmente a segunda parte, que ensina o quanto à sabedoria é indispensável e necessária para os embates chamados diários de nossa caminhada neste mundo transitório. A sabedoria tão necessária nos dias hodiernos e nesta sociedade utilitarista em que vivemos o hedonismo campear e a falta de compromissos que sejam duradouros e sérios.  O lucro reina pelo lucro e o poder pelo poder, sempre se esquecendo que todos os dons devem ser colocados na gratuidade da graça que provém de Deus Trindade. Assim, a sabedoria ensina a dar a tudo o seu devido lugar, a ponderar o que é mais e o que é menos importante. Isso nos leva a conduzir as conclusões que, aos olhos das pessoas superficiais, parecem loucura.
A primeira leitura nos apresenta o discernimento e a ponderação, dons de Deus. Saber discernir é o que Salomão pediu a Deus (1Rs. 3,9). Também o autor do livro da Sabedoria pede isso e ensina que se deve pedi-lo. Nosso esforço intelectual não é o suficiente. As faíscas do Espírito Santo não se deixam programar; devem ser recebidas como dádivas.
As exigências do seguimento de Jesus parecem loucura extrema: “Odiar pai e mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs (cf. Lc. 14,26)”, por causa de Cristo e de seu Evangelho, não é uma loucura? Não, isso nos ensina São Lucas em seu Evangelho. É a conseqüência da sabedoria cristã, da ponderação a respeito do investimento necessário para o Reino de Deus. Começar a construir a torre sem o necessário capital é que é loucura, pois, todo mundo ficará gozando da gente porque não conseguiu concluir a obra! O homem sábio e prudente faz o devido orçamento, decidindo com prudência aonde irá aplicar e investir. No caso de todos os cristãos, o único orçamento adequado de se investir é o SUPREMO BEM, sem o qual os outros investimentos ficam sem sentido.
A segunda leitura (cf. Fm. 9b-10.12-17) nos lembra que não haverá mais escravo nem oprimido, mas será estabelecido que todos serão irmãos. O escravo Onésimo fugira de seu dono, Filêmon, discípulo de Paulo. Paulo o envia de volta, mas agora batizado, portanto, “filho” de Paulo, como o próprio Filêmon. Por isso, Filêmon o deve receber não mais como escravo, mas como irmão. A abolição da escravidão ainda não se impunha como perspectiva histórica no tempo de Paulo, mas mesmo assim devia realizar-se, entre os cristãos, o “nem escravo, nem livro” de Gl 3,28. Deste espírito novo surgiram também novas estruturas, que nos fazem perfeitos filhos de Deus pelo batismo.
O Evangelho de hoje (Lc. 14,25-33) nos ensina que o ponto de partida para a autêntica vivência cristã é o DESAPEGO. Desapego que, inicialmente, foi pedido aos discípulos e apóstolos, mas que paulatinamente foi entendido como desejo de Cristo que fosse assumido por toda a COMUNIDADE ECLESIAL. Desapego a exemplo de Jesus que deixou tudo para trás, não acumulou riquezas, e distribuiu tudo para os outros, até a sua preciosa vida na Cruz pela salvação de todo o gênero humano.
A mania das pessoas de possuir bens chega a ser uma doença. Doença que nos interpela a ficarmos livres de tudo o que nos oprime. O dinheiro em si não é mal e nem os bens. A maneira como se usa o dinheiro ou se usa os bens materiais deve ter uma finalidade comunitária, de servir a quem precisa e ao nosso semelhante. E aceitar a Jesus, na sua totalidade, para sermos um só com ele, como o verso e o reverso de uma medalha fazem uma unidade nos pede o DESAPEGO dos bens materiais.
Assim, o Evangelho de hoje nos coloca quatro condições radicais postas por Jesus para ser cristão:
- o desprendimento das coisas familiares;
- o desprendimento da própria vida e dos próprios interesses;
- o desprendimento de qualquer tipo de posse material ou espiritual;
- o assumir da cruz, isto é, a própria história em suas situações concretas no nosso quotidiano.
Jesus por sua vez fez tudo o que falamos acima: deixou a glória do Paraíso, assumiu a pobreza em todos os sentidos, aniquilou-se a si mesmo, tomando a condição de servo sofredor, sofreu todas as vicissitudes do seu tempo e de seu povo e morreu na cruz pela nossa salvação.
Jesus repartiu tudo o que era e o que tinha com os discípulos, até mesmo o seu poder divino de perdoar os pecados e de santificar o povo de Deus. Mas quer repartir hoje e agora também a cruz e a morte, partes integrantes de sua missão salvadora, e partilhar a ressurreição e a glorificação, nova meta da criatura redimida.
Jesus não é contra a família. Jesus não vai na contramão de um cultivo dos valores pessoais. Tudo o que os homens possuem vem da misericórdia de Deus. A família é um dom sagrado, a Igreja doméstica. A família vai mal quando ela está sem Jesus. A família com Jesus é querida e incentivada. Jesus está presente na família para transformá-la e não somente visitando-a nos batizados, primeira eucaristias, missas de exéquias ou matrimônios. Jesus quer caminhar com as famílias no cotidiano, no dia a dia, sendo presença-presente e viver segundo o seu Evangelho todos os momentos.
Jesus não vai contra uma vida confortável do ponto de vista individual ou pessoal. O que Jesus é contra é o egoísmo, a ausência de partilha, da misericórdia e do perdão. Jesus nos quer misericordiosos, mansos e compassivos. Jesus não quer uma religião de orações apenas pessoais, mas quer que nós nos engajemos na vida de comunidade, na paróquia e na vida da Igreja particular.
O discípulo renuncia a tudo, principalmente ao seu eu, as suas exigências, caprichos. O verdadeiro e autentico discípulo pega a cruz de Cristo e a carrega na dimensão comunitária e pastoral.
O Reino dos Céus é como a torre a ser construída. Tem que ser iniciada do alicerce, fazendo as bases para que se tenha uma boa sustentação. Assim, também, é o Reino de Deus que pede o esvaziamento do eu, coisa que exige muito mais esforço e trabalho do que levantar uma catedral ou arrasar uma montanha. É preciso assumir a Cruz e estar preparado para a morte, para as perseguições, para as calúnias, para as fofocas e para as intrigas. E estas surgindo vão nos purificando, deixando aquilo que realmente é o mais importante, a graça de Deus que nos embala e nos anima na missão.
Paulo hoje é focalizado preso. Mesmo na prisão, coloca-se a serviço dos irmãos, implorando pela liberdade do escravo Onésimo. A comunidade eclesial deste Domingo dará graças a Deus pela graça de seguir a Cristo, de carregar as cruzes no seu seguimento, pela liberdade no uso das coisas, sem a elas se apegar. Pedirá o dom da sabedoria para ser fiel ao seguimento de Cristo. São as experiências pascais transformadas em ritos no memorial eucarístico que celebramos.
padre Wagner Augusto Portugal - www.catequisar.com.br
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ENSINAI-NOS A CONTAR OS NOSSOS DIAS E DAI AO
NOSSO CORAÇÃO SABEDORIA
Que bela a reflexão da primeira leitura de hoje. O autor do livro da Sabedoria, olhando para dentro de si, coisa raríssima hoje em dia,constata que “os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas... qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?” O homem que fez e continua fazendo progressos incríveis na ciência, pena para crescer em sabedoria. Vivemos num mundo tecnológico com produtos cada vez mais sofisticados e que deseja passear pelo espaço sideral, que conhece grande parte dos segredos do universo, que consegue melhorar continuamente o bem estar das pessoas (pelo menos o dos que têm mais condições), mas que não consegue dar uma resposta válida a um jovem que se refugia na droga, no álcool, que se entrega ao ódio, à indiferença e à solidão. Que contradição!
É nosso dever dar respostas às perguntas verdadeiras e profundas que moram no coração do homem, sem nos deixar inebriar pelo limitado sucesso da ciência. E para isso, temos realmente necessidade do dom da sabedoria. São muito duras as palavras de Jesus no Evangelho deste domingo: “se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. São tão pesadas que a tradução usada na liturgia até suaviza o original hebraico: “quem não odeia seu pai, sua mãe...” Mas, não fiquemos perplexos com a linguagem. Antes de explicar, fique claro que tais palavras de Jesus não são dirigidas somente àqueles que o seguem “mais de perto”, como os padres, os religiosos, os consagrados. Tal interpretação não convence: seja porque obviamente os consagrados não são melhores que os outros; seja, sobretudo porque Jesus pronunciou estas palavras para “grande multidões” que o acompanhavam e não para um grupo restrito de pessoas.
Jesus, pedindo para “odiar” os próprios familiares na verdade está querendo dizer que ele deve estar em primeiro lugar na nossa vida. Ele é o centro da nossa vida, é o tudo em nosso coração. Mais do que qualquer afeto, mais do que uma família, mais do que qualquer outra coisa ou satisfação que o mundo nos possa dar. Jesus com convicção nos diz que só ele pode preencher o coração de quem o segue, e por isso, é extremamente duro e exigente. Mas, porque ele nos pede para que nós o sigamos sem condições? Como pretende preencher o incompleto coração do ser humano?
Na verdade, as palavras de Jesus tocam certas durezas da vida de todos, onde os afetos mais belos, dos pais, dos filhos, do cônjuge, dos irmãos e dos amigos, são marcados muitas vezes pelo cansaço e pela incompreensão. Até mesmo quando se está apaixonado, ou quando nos alegramos pelo carinho de uma pessoa querida, experimentamos de algum modo a precariedade daquela relação, já que ela sempre é condicionada e limitada. É esta precariedade que Jesus quer evidenciar nas suas duras palavras.
Naturalmente, Jesus não pretende desvalorizar os afetos humanos. Ele orienta, porém, para que vivamos como sinais e não como absolutos. O amor dos pais, do cônjuge, dos amigos e dos irmãos testemunham que a vida tem um sentido; mas, o sentido da nossa vida não é esgotado nestes afetos. Este deve ser buscado a cada dia, e nunca pode ser conseguido em plenitude. Se pensarmos tê-lo conquistado totalmente nas pessoas caras, estamos indo de encontro a uma grande desilusão; se pelo contrário, reconhecemos que o sentido da vida é algo maior, então mesmo as decepções que virão das pessoas que amamos serão menos intensas.
Este é o cálculo que todos devemos fazer, como os protagonistas das duas breves parábolas contadas por Jesus. Ambos são questionados sobre os planos feitos a respeito de uma construção ou de uma guerra para se ter bom êxito; se quisermos que a empreitada da nossa vida tenha sucesso, ao contrário de ficar tristemente incompleta, temos necessidade de deixar Deus ser o centro da nossa vida incondicionalmente, e para isso temos que renunciar a tudo que temos: a segurança que colocamos nas pessoas caras, em nós mesmos e nas coisas materiais. Em outras palavras, temos necessidade de repetir dia após dia o salmo 89: “ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria” (que, por sinal, é o lema da Pastoral da Pessoa Idosa).
padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento - www.pecarlos.blogspot.com
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O seguimento de Jesus
Estamos no mês da Bíblia. Ela é sempre uma luz em nossa caminhada cristã. Hoje ela nos fala do seguimento de Jesus e suas exigências: não é um caminho de facilidade, mas sim de renúncia...
A 1ª leitura lembra que só em Deus é possível encontrar a verdadeira felicidade e o sentido da vida. (Sb. 9,13-19)
Na 2ª leitura, Paulo aplica as conseqüências do seguimento de Jesus: intercede em favor de um escravo fugitivo (Onésimo), junto a seu "dono", Filêmon. (Fm. 9b-10.12.17)
O Evangelho aponta o "caminho do discípulo". (Lc. 14,25-33)
- Jesus estava a caminho de Jerusalém... onde iria ser morto numa Cruz. O povo o seguia numeroso, entusiasmado pela sua pessoa. Mas Cristo não era um demagogo, que fazia promessas fáceis, para atrair multidões a qualquer preço. Ele sabia que entre eles havia:
* bons, desejosos da boa palavra... que buscavam sinceramente o Messias...
* curiosos: em satisfazer o desejo de novidade...
* interesseiros: na esperança de participar da glória e da fama...
* inimigos: à espreita de uma ocasião para acusá-lo e condená-lo.
Sem medo de perder alguns simpatizantes, Jesus aponta três condições para segui-lo:
1. Desapego afetivo: aos familiares... até à própria vida: "Quem não 'odeia' o seu pai, sua mãe... até a própria vida, não pode ser meu discípulo..."
* Odiar significa aqui: não priorizar os sagrados laços familiares, aos valores do Reino.
2. Disponibilidade em carregar a Cruz: "Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo..." A cruz é a imagem que melhor sintetiza toda a vida de Cristo. O "discípulo" é convidado a imitar o Mestre...
3. Renúncia aos bens materiais: "Quem não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo..." Vivendo em função deles, não sobra espaço para Deus, nem relações de partilha e solidariedade com os irmãos...
Seguir o Mestre, não deve ser uma atitude passageira, nascida num momento de entusiasmo, mas sim, uma decisão ponderada, amadurecida e coerente até o fim. Duas parábolas ilustram essa verdade:
- Um rico Senhor quer construir uma torre para proteger seus celeiros: o projeto requer sério planejamento e recursos econômicos...
- Um rei está para declarar guerra: calcula as possibilidades do seu exército... senão negocia a paz...
O povo não podia se deixar levar pelo entusiasmo momentâneo, pelo contrário, devi calcular bem, se está em condições de perseverar...
O seguimento de Cristo é: 1) um caminho fácil, onde cabe tudo? 2) um caminho exigente, onde só cabem os que aceitam a radicalidade de Jesus?
A nossa pastoral deve facilitar tudo, ou ir pelo caminho da exigência?
A grande maioria no nosso povo se diz "cristão"... seguidor de Cristo...    Recebe os sacramentos de iniciação... Reconhece os valores de Deus e da fé... mas a vivência cristã deixa a desejar...
Muitas vezes, ficamos felizes, quando vemos a igreja lotada...   Mas qual é o verdadeiro motivo que leva muitas pessoas à igreja? Todos os que participam com entusiasmo das cerimônias solenes, das procissões, das romarias... estão realmente conscientes dos compromissos que a fé cristã envolve?
- O que nos diria a respeito, o Evangelho de hoje? Será que Cristo está mais interessado no número, ou na qualidade?
Há dois tipos de religião:
- As reveladas: como a nossa... em que a Bíblia é a fonte de inspiração. É Deus que se revela e nós aceitamos o que essa revelação nos propõe...
- As criadas: que foram inventadas pelos homens, segundo o modelo que mais satisfaz seu modo de pensar e de agir...
Qual nos dá mais segurança de realizar o plano de Deus? Uma religião mais fácil pode até ser mais atraente... mas certamente não será a mais fiel à proposta de Cristo...
Estamos nós dispostos a ser verdadeiros discípulos de Cristo, pelo caminho duro e exigente, que o evangelho de hoje nos propõe?
Peçamos a Deus nessa celebração muita luz para compreender essa verdade... e muita força para sermos fiéis à escolha feita. Procuremos nesse mês dedicado à Bíblia, valorizar ainda mais a Palavra de Deus dedicando-lhe um tempo especial dentro do nosso dia, para uma atenciosa leitura orante da Bíblia.
padre Antônio Geraldo Dalla Costa - buscandonovasaguas.com
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