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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM
ANO C
Dia 20 de outubro
Evangelho - Lc 18,1-8

Comentários-Prof.Fernando

 

Argumentos para a pregação no XXIX Domingo do Tempo Comum - Diácono José da Cruz


A VIÚVA E O JUÍZ

            A liturgia deste domingo nos chama atenção para a necessidade da oração constante e INSISTENTE, com fé e esperança nas promessas do Pai que sabe de tudo o que nós precisamos, porém Ele quer que lhe peçamos. Deus quer que estejamos sempre sintonizados com Ele, como filhos que sabem que sem o Pai nada faremos que presta. Quem vive sem Deus a maioria das vezes só faz bobagens!Continua...
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A ORAÇÃO É O EXERCÍCIO DA FÉ! - Olivia Coutinho

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 20 de outubro de 2013

Evangelho de  Lc 18,1-8

Neste dia mundial das missões, somos  convidados  a fortalecer o nosso ideal de discípulo Missionário, anunciadores   da constatação de que a promessa de DEUS se realizou, quando Jesus, com  o seu sangue, pagou o preço da nossa liberdade, nos recolocando no nosso verdadeiro lugar que é o coração do Pai!
O amor de Deus se faz presente na dedicação dos milhões de missionários e missionárias que fazem às vezes de Cristo no coração do mundo, evangelizando, levando a boa nova do Reino a todos  povos, que por meio destes missionários, descobrem as maravilhas de vivenciar o amor de Deus em seus corações!
Como membros de uma comunidade que  caminha dentro do espírito da fé e  do compromisso com  uma  igreja missionária, somos convocados a dar continuidade  a missão de Jesus aqui na terra, reafirmando a nossa confiança na ação libertadora de Jesus, movendo corações humanos!
O mundo está cheio de conflitos, necessitando urgentemente  de mais diálogo, de pessoas corajosas que não desiste do humano, que não se curva  diante dos desafios, porque acredita que  a mensagem de Jesus, pode reverter este quadro!
 A alegria de quem anuncia a Boa Nova do Reino, é contagiante, é uma alegria, que  não se resume em um sentimento superficial e inconsistente, pelo contrário, é uma alegria duradora, consistente de origem divina  que brota da força do Espírito Santo que o  impulsiona a levar ao outro a mensagem salvífica de Jesus! 
É  a intimidade com Deus que motiva o  missionário a  fazer a difícil viagem de sair de si mesmo para ir ao encontro do outro, do diferente, do marginalizado, que  ainda não teve   a oportunidade de  experimentar o aconchego do coração do Pai, que ainda não  sabe que são eles, (os marginalizados) os preferidos no Reino do céu!
O caminho para chegar à profundidade do coração do Pai, Jesus já nos ensinou com a sua vida de oração! O respiro de Jesus era  realizar a vontade do Pai e para manter-se fiel a  Ele, Jesus estava sempre em oração!
Jesus rezava incessantemente, podemos constatar isto em várias passagens dos evangelhos. E hoje, mais uma vez, Ele  nos convida a fazer o mesmo, a sermos perseverantes na oração! A oração é o nosso contato íntimo com Deus, quando falamos com Ele, e Ele fala conosco!
  No evangelho de hoje, Jesus ressalta a importância de sermos perseverante na oração! E para nos conscientizar  sobre a necessidade de rezar sempre e nunca desistir, Ele conta-nos  uma parábola!
Os dois personagens desta  parábola, continuam  presentes nos tempos de hoje: de  um lado, os pobres clamando por justiça, simbolizado pela viúva, do outro lado, o desrespeito  a insensibilidade dos quem detém o poder, representado pelo Juiz desonesto.
 O fato da parábola ser uma comparação entre o Juiz e Deus, põe em relevo o contraste entre ambos: se até um Juiz  que é mal, que  não teme a Deus, atende um pedido insistente de  uma viúva, imagine  Deus, que é infinitamente  amor, que é Pai, o que  Ele não fará por cada um de nós, seus filhos?
  No final da parábola, é  deixado para nós, uma interrogação  que nos leva a refletir sobre a importância da fé para a oração e da oração para a fé: “O Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra? Estas palavras de Jesus, nos adverte sobre a importância de nos mantermos firmes na fé, de não  desistirmos  nunca de rezar,  pois a fé  e oração  estão interligados, se não perseverarmos na oração, fraquejaremos na  fé, e fracos na fé, não produziremos frutos, um grande risco  de não  sermos selecionados por Jesus, no dia do juízo final, que acontecerá na sua segunda vinda.
Se quisermos alcançar a salvação, precisamos rezar sempre, pois a oração nos leva  à ação, e  é pelas nossas ações de bondade, que alcançaremos a graça da salvação!
O sentido da nossa oração, não é convencer  Deus das nossas necessidades, afinal, do que realmente precisamos, Ele já sabe e nos atenderá no momento certo. O Sentido da nossa oração, está no  reconhecimento  das  nossas fragilidades, da nossa total dependência de Deus!  Sem Deus,  não somos nada, por isto precisamos recorrer a Ele em tudo!
 Quem confia somente no potencial humano e não   recorre ao auxílio de Deus, é como um barco a deriva, vive sem direção,  é levado pelo vento, não experimenta a graça de Deus em sua vida!
A oração é o exercício da fé, só reza quem tem fé, quem acredita no poder e na proteção de Deus.
Como Discípulos missionários, co-responsáveis pela vida do outro, temos o compromisso de manter acesa no mundo  a chama da fé e da esperança com o nosso testemunho de vida!  
Da mesma forma que o nosso corpo necessita do alimento diário para nos manter de pé, também a nossa fé, precisa da oração diária  para manter viva!
Unamos hoje, a todos os missionários e missionários, espalhados por todos os confins da terra, reafirmando a nossa alegria de sermos também cúmplices  no anuncio das propostas do Reino.

TENHA UM LINDO DOMINGO COM JESUS NO CORAÇÃO!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia

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29ºDOMINGO DO TEMPO COMUM
1ª Leitura Êxodo 17, 8-13
Salmo 120(121),2 O meu socorro virá do Senhor, Criador do céu e da terra- Diác. José da Cruz
2ª Leitura 2 Timóteo 3,14-4.2
Evangelho Lucas 18, 1-8
Já vi escrito em muito pára-choque de caminhão, que “O pobre vive de teimoso”, uma frase que embora irônica tem um fundo de verdade, pois teimosia nesse caso, é sinônimo de perseverança, paciência e esperança, virtudes que são na verdade o tempero da nossa fé, porque a fé que não persevera, que não é paciente e não traz no coração a esperança, é morta, pois segundo São Tiago, a Fé deve ser sempre vivenciada e transformada em obras. No olhar do pobre encontramos um brilho de esperança, basta ver as filas em busca de algum benefício nos bancos ou em repartições públicas, ou até mesmo em fila de liquidação nas grandes lojas, o pobre é capaz de varar o dia, a noite e a madrugada, para guardar um lugar, sempre esperançoso de alguma melhora ou benefício
Não se quer dizer que estas virtudes sejam exclusivas do pobre, mas é que o rico não tem muita paciência e perseverança e nem seria necessário, uma vez que o dinheiro compra tudo nesta vida, fazendo com que o rico coloque toda sua segurança em seu patrimônio e no dinheiro e portanto, essas virtudes sempre nascem e são cultivadas no coração do pobre por causa da sua necessidade, que o leva a pedir. É esse o caso dessa viúva que aparece no evangelho desse domingo, pois naquele tempo não havia leis que protegiam e davam garantias à mulher, no caso do falecimento do esposo e a viuvez, junto com a orfandade, era sinônimo de desamparo e abandono, já que o parente mais próximo do falecido, apossava-se de todos os seus bens sobrando para a viúva a triste sina de viver de esmola, pois a mulher não tinha direito de propriedade.
Na lógica humana a viúva não tinha outra alternativa se não a de resignar-se com a sua sorte, pois o juiz dificilmente iria lhe fazer justiça, já que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Conformismo e resignação parecem fazer parte da índole do nosso povo, que deixa o destino da nação nas mãos de certos homens inescrupulosos, sem se importar com os rumos da política ou da economia, tornando-se uma perfeita “Vaquinha de presépio”, engolindo tudo que é sapo, ignorando a sua cidadania e seus direitos essenciais. Mas não é esse o caso da viúva, ela não se conformou com o abandono e a exploração da quais as viúvas eram vítimas e resolveu “virar a mesa” indo à luta por aquilo que considerava justo. Não se sabe quantas vezes ela bateu à porta desse juiz, mas a se julgar pelo temor do magistrado, não deve ter sido só duas ou três e nem foi tão pacífica assim. Claro que exercício de cidadania não deve ser confundido com arruaça e vandalismo
Os maus governantes sempre tremem na base, quando o povo toma consciência de seus direitos e vai à luta por eles, foi o que aconteceu com esse juiz, que não temia a Deus e nem respeitava homem algum, mas que diante da insistência e da teimosia da mulher, acabou cedendo e atendeu o seu desejo fazendo-lhe justiça contra seu adversário, que certamente queria ficar com seus bens. O evangelho nos mostra a qualidade da verdadeira oração, que não pode ser “imediatista” e onde se quer que Deus atenda o pedido “pra ontem”, as demoras de Deus requer do verdadeiro crente a paciência e confiança.
A oração também não deve ser uma forma de se forçar Deus a fazer a nossa vontade, realizando coisas, ou consertando certas situações que são de nossa única responsabilidade. A viúva soube unir oração e ação, com uma fé consciente e responsável, que crê, persevera, insiste, persiste, espera e vai à luta, para mudar o placar adverso
Deus é a força e a teimosia do pobre pois ouve sempre seu clamor e jamais deixará de atendê-lo. Aquela fé mágica e comodista, de quem só quer vento a favor e espera sempre um milagre de Deus, sem mover uma só palha, é uma fé que nada constrói e nem agrega nessa vida: QUEM SABE FAZ A HORA, NÃO ESPERA ACONTECER!
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O JUIZ E AS VIÚVAS
Pedro: Olhe, Jesus, veja se não me amola mais!... Já gastamos doze pares de sandálias anunciando que as coisas vão mudar e que a justiça e que a libertação, e o que conseguimos até agora, heim, diga-me?
Jesus: É preciso ter constância, companheiros.
Pedro: Constância... É preciso ter olhos, moreno! Isso não vai pra frente! Isso é como querer mover uma montanha!
Jesus: E ela acabará movendo-se, Pedro. No dia em que de fato tivermos fé em Deus e em nós mesmos, nesse dia empurraremos as montanhas e as lançaremos no mar. Isso eu aprendi de minha mãe...
Jesus: Quando eu era garoto, lá em Nazaré, minha mãe, que era viúva, trabalhava na fazenda do latifundiário Ananias...
Susana: Mas, que bandido este Ananias! Oxalá esta pedra de moinho caia em cima daquela barrigona!
Rebeca: Três semanas colhendo azeitonas e agora não nos quer pagar! Ah, não, mas isso não vai ficar assim! Pelas trombetas de Jericó, mas vou espalhar essa sem-vergonhice para todo mundo e esse velho sovina vai ter que nos pagar até o último centavo, se não...!
Micaela: Se não o que, Rebeca?... Que é isso, mulher, deixe de bravatas! O que nós podemos fazer se ele não nos pagar? Nada! Se tivéssemos maridos, eles nos defenderiam... Mas, o que podemos fazer nós, viúvas? Dobrar a espinha e deixar que nos ponham a canga como aos bois.
Jesus: Minha mãe Maria e a vizinha Susana e outras viúvas de Nazaré, depois de colher os olivais da fazenda de Ananias, não haviam recebido nenhum pagamento. E estavam furiosas. Assim acontecia muitas vezes: os patrões se aproveitavam das mulheres sozinhas, as contratavam para a colheita de azeitonas, ou de figos, ou de tomates... E então lhes pagava muito pouco ou nada pelo trabalho...
Maria: Temos de fazer alguma coisa, vizinhas! Não vamos ficar aqui espantando moscas, e nossos filhos com fome!
Micaela: E o que podemos fazer, comadre Maria? Agüentar! Este é o destino de nós, pobres, agüentar!
Maria: Que destino coisa nenhuma, Micaela! Eu não creio em destino algum. Sabe o que dizia meu falecido José, que descanse em paz? Que o único destino que existe está aqui, nos nossos braços.
Susana: Sim, Maria, mas os braços das mulheres são frágeis, não se esqueça!
Maria: Mas, como você pode dizer isso, Susana? E não foi o braço de Judite que cortou o pescoço daquele grandalhão que eu nem me lembro como se chamava? E quem se pôs à frente do povo quando os cananeus atacaram e os homens de Israel afrouxaram as ceroulas, heim? Foi Débora, uma mulher, como você e como eu, mas que tinha sangue nas veias e não água com açúcar. E a rainha Ester, não foi uma lutadora também?
Rebeca: Maria tem razão. O que acontece é que a gente, como mulher, acaba se metendo na toca como os ratos.
Maria: Pois vamos sair da toca e pendurar o guizo no rabo do gato.
Suzana: Sim, senhor, temos de fazer alguma coisa por nós e por nossos filhos!
Maria: Então vamos, vamos para Caná e abrir um processo contra esse velho explorador. Para que servem os juízes? Para fazer justiça, não é? Pois vamos agora mesmo até o juiz para que ele apresente nosso caso ao tribunal.
Jesus: E minha mãe e as outras viúvas saíram de Nazaré pelo caminho do norte, rumo a Caná, onde vivia o juiz Jacinto, um velho careca e balofo...
Rebeca: Dom Jacinto, Dom Jacinto!... Dom Jacinto!
Jacinto: O que acontece, diacho! Quem são vocês?
Susana: Somos umas pobres viúvas de Nazaré! Temos algo a lhe dizer!... Abre a porta!
Jacinto: Umas pobres viúvas... umas pobres viúvas... O que vocês querem? Derrubar minha porta a pontapés?
Maria: É que nos tomaram o salário de três semanas de trabalho de sol a sol!
Jacinto: E o que eu tenho a ver com isso?
Rebeca: Você é o juiz, não? E os juízes não estão aí para fazer justiça?
Jacinto: Nós juízes estamos aqui para meter na cadeia agitadoras como vocês. Não me amolem que agora estou ocupado.
Maria: Dom Jacinto, espere, não se vá! Escute, aquele velho sanguessuga que se chama Ananias, a quem você conhece melhor do que nós, nos contratou para colher azeitonas. Passou uma semana e ele não tinha o dinheiro. Passou outra e... esperem que eu vou pagar. Passou a terceira e... continuem esperando... Você acha que isso está certo?
Jacinto: E o que vocês querem fazer?
Susana: Denunciá-lo e abrir um processo para que seja feita justiça.
Jacinto: Bom, bom, vamos estudar o caso por partes. Comecemos por onde se deve começar: se eu defender vocês no tribunal... quanto custaria meus honorários?
Micaela: Como disse, Dom Jacinto?... Fale mais claro, porque nós do campo...
Jacinto: Digo que se me meter nessa briga, quanto dinheiro vocês vão me pagar, caramba?
Maria: Bem, senhor juiz, o senhor sabe que somos viúvas... e pobres. Além disso, como vamos pagar-lhe se Ananias não nos pagar antes?
Jacinto: Entendo... Sendo assim... voltem outro dia... Hoje estou muito ocupado... É, é isso, voltem na próxima semana para ver se posso fazer alguma coisa por vocês.
Jesus: E minha mãe e suas amigas percorreram de novo as sete milhas que separam Nazaré de Caná e regressaram ao povoado... E quando passou uma semana...
Susana: Faze-nos justiça, senhor juiz!... Dom Jacinto, por favor!
Rebeca: Com o que Ananias nos pagar, pagaremos alguma coisa para o senhor defender nossa causa!
Jacinto: Alguma coisa... alguma coisa... Quanto?... Vamos ver, quanto vão me pagar?
Micaela: Veja... entre todas podemos juntar dez denários... ou talvez quinze...
Jacinto: Porcaria, quinze denários! Que o diabo se morda o dedão do pé se vocês não estão doidas de pedra! Quinze denários! Vocês vêm me pedir que enfrente Ananias, o homem mais poderoso desses campos, que com uma só palavra sua pode mandar que me enforquem... e em troca disso, quinze asquerosos denários! Puah!
Susana: Mas, senhor juiz, somos pobres, compreenda...
Jacinto: Sim, sim, é lógico que compreendo... e vocês também compreendam que eu tenho agora muito trabalho e não posso atende-las... É... É isso, voltem na próxima semana para ver se com um pouco mais de tempo, Re, re...
Jesus: Sete milhas de retorno a Nazaré. E quando a semana se passou, outras sete até Caná...
Susana: Mas, Dom Jacinto, até quando vamos ficar indo e vindo?...
Rebeca: Nossos filhos estão mais magros que as lombrigas!
Micaela: Veja nossos peitos secos, Dom Jacinto! Estamos desesperadas! Não agüentamos mais, nossos filhos estão morrendo de fome, ficando doentes...!
Jacinto: E a troco de que vocês vêm agora com esta história? Eu não pari esses moleques. Virem-se como puderem! E não me amolem mais!
Maria: Está bem, não faça isso por nós, se não quiser.
Jacinto: E por quem seria então?
Maria: Faça-o por respeito a Deus, senhor juiz!
Jacinto: Rá, rá, rá...! Por Deus? E o que me importa Deus? Deus está lá em cima, no céu e eu estou aqui em baixo, na terra. Vocês não dizem que Deus faz justiça aos pobres? Pois comprem uma escada bem comprida e subam até lá em cima e peçam ajuda a ele! Mas a mim, não me encham mais!
Susana: Puff... Esse Jacinto é mais azedo que limão verde...
Maria: Não, Susana, acontece que o raposa do Ananias terá passando melado nas mãos dele, entende?
Micaela: E então, Maria? Acho que estamos perdidas!
Maria: O que é isso agora? Agora é que essa briga começa!
Rebeca: Mas, Maria, ficou louca? Que briga podemos começar se não temos sequer um pedaço de pau?
Maria: Aqui não faz falta nem pau nem espada, Rebeca.
Rebeca: E o que é então, Maria?
Maria: O que falta aqui é paciência.
Susana: Paciência para quê?
Maria: Para acabar com a dele. Não se lembram de Moisés no Egito? O faraó tinha de tudo, até carros de guerra! E Moisés não tinha nada. Bom, a única coisa que tinha era uma cabeça dura... E Moisés juntou os israelitas e acabaram com a paciência do faraó: tingiram de vermelho a água, encheram as casas de sapos e rãs, apagaram as luzes da cidade...
Susana: Mas, Maria, nós somos muito pouquinhas. Moisés pôde fazer isso porque era homem e tinha muita gente atrás dele...
Micaela: Nós somos como um mosquito e ele como um elefante...
Maria: Isso mesmo, Micaela. E essa foi uma das dez pragas do Egito, a dos mosquitos. Porque eu lhe garanto que um bando de mosquitos dispostos a atazanar, é capaz de tirar o sono de todos os elefantes que o rei Salomão tinha em seu palácio. Venham comigo, vamos voltar à casa do juiz Jacinto!
Jesus: E aquelas camponesas cabeçudas, com Maria, minha mãe à frente, voltaram diante da porta daquele juiz balofo...
Jacinto: Outra vez por aqui? Maldição! Já lhe disse para irem embora e me deixarem em paz!... Estão surdas?... O que estão esperando?
Maria: Esperamos que os juízes de Israel façam justiça aos pobres!
Jacinto: Pois esperem sentadas, que de pé cansa!
Maria: É isso mesmo que vamos fazer. Vizinhas, todas sentadas!
Jesus: Quando minha mãe disse aquilo, todas as viúvas se sentaram em frente à porta do juiz...
Jacinto: Vão pro diabo, todas vocês! Está bem, fiquem aí até que lhes saia um calo no traseiro! Malditas camponesas, têm a cabeça mais dura que uma bigorna de ferreiro!
Jesus: E o juiz bateu a porta. Depois de algum tempo...
Jacinto: Ainda estão sentadas aí? Pelos sete chifres de Lúcifer, será que vocês perderam o juízo?
Susana: Não, você é que está perdendo a paciência, senhor juiz!
Maria: Daqui a gente não se mexe até que a justiça seja feita!
Jesus: Mas o juiz voltou a fechar a porta...
Rebeca: Esta casa vai acabar desabando sobre sua cabeça, com tanta bateção de porta!
Susana: Puff... O que você acha, Maria? Conseguiremos alguma coisa?
Maria: Nossos avós agüentaram quatrocentos anos no Egito. E, no final, conseguiram a liberdade. Daqui a gente não sai.
Um homem: Ei, quem são vocês? Estão pedindo esmola na porta do juiz?
Rebeca: Pedimos justiça, não esmola!
Susana: Trabalhamos três semanas colhendo azeitonas na fazenda do Ananias e agora não quer nos pagar.
Homem: Velho ladrão!... E esse juiz não faz nada?
Maria: É isso que estamos esperando. Mas vocês já sabem o que acontece, amigos. Ananias ensaboa a mão do juiz, o juiz molha a mão do capitão, e por aí vai...
Homem: Isso é verdade. Os de cima protegem as costas uns dos outros. E nós, atirando cada um para um lado... Ei, companheiros, venham aqui, venham todos!
Jesus: Aquele homem começou a chamar seus amigos que matavam o tempo na praça e na taberna... E dali a pouco, muitos vizinhos de Cana se uniram às viúvas de Nazaré...
Jacinto: Que o diabo me corte em quatro fatias! O que vocês querem? Eu não sou o governador da Galiléia e muito menos distribuo docinhos, então sumam todos daqui e deixem-me em paz, vagabundos!
Jesus: Mas foram se juntando muitos, muitíssimos homens e mulheres diante da porta do juiz Jacinto. Era como uma praga de mosquitos...
Jacinto: Já chega! Vão pro inferno, com as viúvas e com todos! Venham, vamos resolver esse caso de uma vez!
Susana: O que? Suas entranhas já se comoveram, senhor juiz?
Jacinto: O que me comoveram foram as orelhas com essa gritaria. Mas, fiquem sabendo, não faço isso por Deus, nem por vocês nem por seus “filhinhos famintos”, mas para que vocês desapareçam e que eu não tenha nunca mais de ver suas fuças.
Jesus: E o juiz Jacinto levou o caso perante o tribunal e o latifundiário Ananias teve de pagar o salário das viúvas de Nazaré. Haviam ganho a briga, sim senhor! E assim se ganham todas as batalhas, batendo, batendo até ir para frente! E com Deus temos que fazer o mesmo. Rezar dia e noite, sem desanimar. Se lhe pedirmos assim, ele não nos dará as costas, fará justiça!
Rufa: Que Deus lhe abençoe a língua, Jesus e que viva a mãe que o pariu!
Pedro: Bem falado, vó Rufa!
Jesus: Sim, que viva ela e que vivam todos os que lutam até o final, sem cansar-se, custe o que custar!

Comentários
As mulheres camponesas de Israel tinham mais liberdade que as da cidade em muitas coisas. A necessidade de tocar a família adiante as levava a trabalhar igual aos homens nas fainas agrícolas. As mulheres participavam da colheita, da sega, na vindima junto com os homens, ou trabalhavam por sua conta, contratadas pelos latifundiários locais.
Viúva na Bíblia não deve nunca ser tomada como sinônimo de idosa. Como as meninas se casavam ao doze, treze anos, muitas mulheres ficavam viúvas ainda jovens. Se supormos que quando Jesus iniciou sua atividade na Galiléia, José já estaria morto, Maria teria ficado viúva aos trinta, quarenta anos. Sua condição social a fazia dependente de seu filho, que tinha a obrigação de mantê-la. Mas, seguramente, ela também ganharia a vida com o trabalho de suas mãos. A parábola “do mau juiz”, ou “da viúva insistente”, é contada por Jesus a seus amigos neste episódio como um fato real vivido por sua mãe e algumas vizinhas, também viúvas como ela.
A administração da justiça em Israel começa nas próprias origens da história do povo com os anciãos designados por Moisés, mas não se tem dados precisos sobre como era exatamente os juízos, qual a forma de apresentar os pleitos etc., nos tempos de Jesus. A institucionalização da justiça variava muito conforme as regiões. Maria e suas companheiras vão em busca de um juiz que reside em Cana, pois Nazaré era uma localidade pequena para ter o seu próprio. Esses juízes decidiam em casos de menor importância, em pequenos conflitos regionais. Acontecia que, às vezes, os ricos os “compravam” com presentes e não havia autêntica justiça em suas decisões.
Os profetas de Israel clamaram sempre para que nos tribunais se fizesse justiça aos pobres e identificam o direito de Deus com o direito do pobre. Entre os pobres, destacaram sempre o estrangeiro, o órfão e a viúva, como desamparados por excelência, frente aos quais a exigência de justiça era ainda, se cabe, maior. Os profetas denunciaram a corrupção dos tribunais, as benesses recebidas pelos juízes e os atropelos cometidos contra os infelizes (Amós, 57-13).
Na história de Israel houve mulheres que participaram muito ativamente nas lutas do povo e que chegaram a ter um grande prestígio. Débora, juiza de Israel, vencedora de batalhas (Jz 4 e 5); Éster, heroína popularíssima e Judite, vencedora do tirano Holofernes por astúcia e coragem, eram importantes figuras femininas da história de Israel. Maria, a mãe de Jesus, também viveu inserida na história desse povo, embora construísse o Reino a partir de seu trabalho, sua fidelidade diária e sua coragem diante das adversidades.
Maria, mulher do povo, camponesa, trabalhadora, deve servir de inspiração às mulheres. Há muitos pontos de contato entre ela e as mulheres de nossos países. Porque Maria viveu numa sociedade machista. Porque trabalhou com suas mãos e sofreu tudo o que sofrem os pobres: escassez, insegurança, marginalização. Porque teve um filho que, ao comprometer-se com a justiça, a fez viver com a alma por um fio. Porque sem entender o todo daquela missão, colaborou com ele em tudo o que podia. Não basta que se venere Maria, que inclusive se “adore” – como de fato acontece. No canto do Magnificat, canto de fé em Deus, alento para a luta e esperança dos pobres, estão vivos todos os elementos necessários para uma autêntica veneração a Maria.
Jesus aprendeu de José e de Maria, como qualquer filho aprende de seus pais, as atitudes fundamentais diante da vida. De Maria teria aprendido sua tenacidade, sua constância, essa típica teimosia camponesa que “move montanhas”. Embora a parábola “do juiz injusto” tenha sido considerada ordinariamente como uma exortação à constância na oração, neste episódio Jesus estende seu significado: também na oração devemos ser constantes, pacientes, insistentes. Como Maria, oração e ação vão juntas, alimentam-se de um mesmo espírito, devem ser orientadas pelas mesmas atitudes. E assim, Jesus propõe Maria como exemplo de constância na oração.
Não haverá libertação feminina até que homens e mulheres não participem ombro a ombro na construção de um mundo diferente do atual, sem discriminações de qualquer tipo. A libertação feminina que só contempla os aspectos sexuais (aborto, divórcio, união livre etc.) é um produto importado por nossos países de sociedades desenvolvidas e com reivindicações que não têm muito a ver com nossas realidades.
Neste relato, a estratégia das viúvas para abrandar o juiz injusto é a tenacidade em forma de ação não-violenta. Insistem, viajam uma e outra vez, pressionam com palavras, gritam, sentam-se no chão... Vencem assim as resistências do juiz. A união as faz fortes e lhes dá a vitória. (Lucas 18,1-8)
O Evangelho de Lucas desde alguns domingos está nos ajudando a refletir sobre o tema da fé; aqui, a fé é ligada a outro tema: a oração. Qual é a ligação entre oração e fé? A qual tipo de oração aqui Jesus se refere? Qual é o sentido do questionamento final de Jesus: «o filho do homem encontrará a fé sobre a terra?». Para explicar isto, Jesus usa um fato comum, alguma pequena cena que seus olhos haviam percebido um dia. Trata-se da relação entre um juiz, detentor indiscutível do poder e uma viúva, uma mulher com as mínimas possibilidades de fazer ouvir seus direitos, sem algum poder a não ser um… Qual? O poder e a impotência defrontam-se, um diante da outra. Como sempre. É uma tensão entre dois opostos que suscita alguns entre os mais penosos questionamentos que desde sempre assolaram o homem. A injustiça é um dos atentados mais pérfidos à pessoa humana porque atinge a sua dignidade, o significado de sua existência e a sua posição no mundo. È quando nos sentimos atingidos por uma profunda injustiça que vêm à tona aqueles questionamentos que sempre ficaram mergulhados em nosso inconsciente. A injustiça, às vezes, nos faz reagir de modos que nunca esperaríamos de nós mesmos, que nos surpreendem. Isto acontece porque a injustiça não atinge apenas aquilo que está fora de nós, tal como um objeto, um bem, uma condição social ou econômica - pois a estas se pode muito bem renunciar quando existe um bem maior que nos atrai-  mas atinge o sentido da existência e das relações humanas que são o lugar onde cada pessoa descobre o seu “eu”, descobre quem ela é. Então, quando as relações não seguem mais valores objetivos, que as transcendem, quando estas são desvirtuadas em sua essência, então a pessoa humana perde o rumo e o ponto de referência sobre o qual orienta seu crescimento. Afinal, que visão da vida tem uma criança que vive num ambiente de prepotente arrogância? Que visão ela terá de si mesma, num mundo onde alguns têm sempre razão? O que podemos esperar de um Estado ou de um sistema social no qual “quem pode” nunca é responsabilizado pelos atos desrespeitosos cometidos?
A injustiça é um atentado a Deus, atinge a obra prima de Deus, atenta à alta dignidade com a qual o Criador constituiu o homem. È uma afronta ao próprio Deus.  È neste ponto que a busca cristã da justiça, se diferencia substancialmente do conceito de justiça consignado nos Códigos de Direito. Primar e zelar pela justiça é, para o homem de fé, amar o que Deus fez, é dar glória a Deus reconhecendo o valor de sua obra.
A injustiça fere profundamente a dignidade do homem a ponto de que ele“grita”; é o último recurso de quem não encontra sentido na violência da qual foi alvo, a última saída de quem não tem mais recursos, é o expediente do bebê que não tem como dizer que precisa comer.
Esta sensação de impotência, misturada ao desejo de sair da situação, é expressa na Escritura em várias formas e com significados diferentes. Cada significado manifesta um tipo de atitude com a qual o homem se põe diante da injustiça ou do sofrimento.  Gostaria de apontar as duas atitudes principais que o verbo “clamar” indica; estas nos servem para entender o sentimento da viúva, a afirmação de Jesus: «Deus não fará justiça em favor dos seus eleitos, que clamam dia e noite por ele?» e a pergunta final do Evangelho: «Quando vier o Filho do homem, encontrará a fé sobre a terra?”».
O primeiro significado o deduzimos, por exemplo, no Sal. 39,12 o qual manifesta a angustia de uma pessoa: «Ouve, Senhor, a minha oração, escuta-me quando grito por socorro; não fique mudo diante das minhas lágrimas...». É, ao mesmo tempo, um apelo e um desabafo, é o grito de quem “não agüenta mais” e precisa dizer isto para alguém que está sempre disposto a ouvir. Eis que já temos uma indicação quando ao próprio Deus: Ele é quem está sempre disposto a escutar «dia e noite», ou seja, nas condições de alegria e tristeza, quando oferecemos e quando pedimos, quando vemos e quando não vemos…
O segundo significado quer indicar a atitude de quem, na mesma situação angustiosa, não apenas “grita”,  mas “invoca”, “chama” confiantemente e sem pretensão. Comumente é traduzido com o termo «clamar»; por exemplo quando «os filhos de Israel gemiam sob a servidão e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus» (Ex. 2,23). O clamor, diferentemente do “grito”, não implica em sentimentos de raiva, aversão; nele não há nem sequer aquele sentimento de vingança que freqüentemente se mistura com o desejo de justiça e que polui sua cristalinidade. As duas, o grito e o clamor, são formas de se relacionar com Deus, são formas de oração, mas somente uma delas é“fé”.
Quem “grita”, pretende, quem “clama”, espera.
A esperança é humilde e, assim sendo, entra em sintonia com o coração de Deus e se transforma em certeza de sua ação, paciente, lenta, mas eficaz e definitiva. É uma certeza experimentada tanto em nível pessoal, tal como aquela do sujeito do Salmo (4,33) que afirma:«O Senhor me ouve quando eu clamo por ele!», quanto em nível de comunidade que, unida, “clama” ao Senhor, como manifesta a certeza de Josafá que reza no Templo: «Se algum mal nos sobrevier, espada, peste ou fome, nós nos apresentaremos nesta casa e diante de Ti, pois o Teu nome está nesta casa; e clamaremos a Ti na nossa angústia, e Tu nos ouvirás e livrarás» (2Cron. 20,9).
Esta segunda atitude, do “clamar”, é esquiva de qualquer reivindicação, m esmo que lícita e justa. O “clamor”, segundo Jesus, é próprio dos “filhos amados”. É um ato essencialmente ligado à fé, à confiança de que Deus é fiel ao seu nome, tão bem definido por Jeremias assim: “Deus nossa justiça” (Jer. 23,6). O clamor, à diferença do “grito”, se transforma então em envolvente oração participativa. Não é uma “oração” que pede a Deus de intervir com seu poder esmagador para “dar uma lição” aos injustos, com um sabor de atenuada desforra. Este sentimento era presente no Antigo Testamento, sim, era esta a sensação de “justiça” de um judeu, mas não era o sentimento de Jesus para com os que foram injustos com Ele! A justiça de Deus não é a ostentação do poder, como nos faz pressupor a atitude do juiz, iníquo, que usa do seu poder como lhe apraz; a justiça de Deus é resposta a um homem que apela à Sua fidelidade. Deus não garante os direitos, mas sim “o” direito: o direito de ser aquilo que ele é, aquilo pelo qual foi criado, o direito de viver a dignidade de imagem de Deus. Clamar à justiça de Deus é uma oração que pede sem exigir, que chama em causa sem reivindicar, que se transforma em força para agir a fim de que possamos ter e dar às pessoas o “direito” que Deus exige e garante: o direito de ser e viver como filhos amados. Clamar a Deus é uma oração madura que nunca é fuga do real, nunca é projeção num mundo etéreo, pelo contrário. É uma atitude de constante referência a Deus, à sua vontade, ao seu “modo de ver as coisas” que nos ilumina quanto à nossa vida e à vida dos outros. É um pedido constante de que seu Espírito oriente as decisões que nos cabem e que são de nossa plena responsabilidade. Esta oração, que apela à justiça de Deus, nos permite ter aquele equilíbrio necessário para tomar decisões de amplo horizonte que não se detêm estritamente aos pequenos interesses e pontos de vista particulares.
Esta oração nos permite ver as coisas com o olhar de Deus. Passamos assim entender a resposta que Jesus dá aos ouvintes sobre a qualidade da oração:«o Filho do homem encontrará a fé...?». Pedir de ver e de agir como Deus vê e age é fé! É um superar a justiça humana que é “iníqua” porque pressupõe em todo caso um poder. É um delicado e forte equilíbrio entre a responsabilidade pessoal e os meios que temos à disposição, usados com toda a inteligência e as forças possíveis, mas sempre orientado e aberto à escuta, escuta pertinaz de Deus que fala. E quando as forças, começarem falhar, desgastadas pelo tempo que corre sem resultados? Pois então, é aí que a oração supera a sua dimensão privada, como ouvimos na primeira leitura de hoje: quando os braços de Moisés evidenciam seus limites, a sua fraqueza, então é que os que estão em volta, Arão e Hur, ou seja, a comunidade de fé, sustenta o que individualmente é impossível para qualquer um. A oração, clamor confiante, nunca é um fato privado. É individual e comunitária ao mesmo tempo… mas nunca um fato privado.
Esta é a fé que o Filho do homem espera, é um harmonioso encontro entre Deus e o homem comprometido e sua comunidade, a qual que faz tudo quanto for possível a fim de que os braços de seus membros continuem sempre abertos.
padre Carlo Battistoni
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A necessidade de orar sempre, sem nunca desistir
Hoje, Jesus nos lembra que «a necessidade de orar sempre, sem nunca desistir» (Lc. 18,1). Ensina com suas obras e com as palavras. São Lucas se apresenta como o evangelista da oração de Jesus. Efetivamente, em algumas das cenas da vida do Senhor, que os autores inspirados da Escritura Santa nos transmitem, é unicamente Lucas quem nos mostra rezando.
No batizado no rio Jordão, na escolha dos doze apóstolos e na Transfiguração. Quando um discípulo lhe pediu «Senhor, ensina-nos a orar» (Lc. 11,1), de seus lábios saiu o Pai Nosso. Quando anuncia as negações a Pedro: «Eu, porém, orei por ti, para que tua fé não desfaleça» (Lc. 22,32). Na crucifixão: «Jesus dizia: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” Repartiram então suas vestes tirando a sorte» (Lc. 23,34). Quando morre na Cruz: «Pai, em tuas mãos entrego meu espírito», do Salmo 31. O Senhor mesmo é modelo da oração de petição, especialmente em Getsemaní, segundo a descrição de todos os evangelistas.
Posso ir concretando como elevarei o coração a Deus nas distintas atividades, porque não é o mesmo fazer um trabalho intelectual que manual; estar na igreja que no campo de esportes ou em casa; conduzir pela cidade que pela auto-estrada; não é o mesmo a oração de petição que a de agradecimento; ou a adoração que pedir perdão; de boa manhã que quando levamos todo o cansaço do dia. São Josemaria Escrivá nos dá uma receita para a oração de petição: «Mais consegue aquele que importuna mais de perto... Portanto, aproxima-te a Deus: esforça-te por ser santo».
Santa Maria é modelo de oração, também de petição. Em Canaã de Galileia é capaz de avançar a hora de Jesus, a hora dos milagres, com sua petição, cheia de amor por aqueles esposos e cheia de confiança em seu Filho.
fr. Joseph Bellerive

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Haverá fé na terra quando voltar o filho do homem é a pergunta que Jesus deixa aos seus discípulos no final do Evangelho de são Lucas que acabamos de escutar. É uma pergunta que nos podemos colocar também nós, hoje, face aos desafios que a nossa cultura e sociedade nos coloca como crentes, como discípulos de Jesus Cristo. Uma pergunta pertinente na medida em que não sabemos nem o dia nem a hora em que voltará o filho do homem e portanto devemos estar vigilantes e aptos a dar uma resposta.
E a resposta é-nos indicada, sugerida, pela parábola que Jesus conta da pobre mulher que insiste junto do juiz iníquo para obter satisfação às suas demandas. Um juiz distante, irreverente, sem temor nem dos homens nem de Deus, mas que responde à pobre mulher para ter sossego, para deixar de ser importunado. A parábola, como o próprio Jesus o refere, mostra a necessidade que temos de não desanimar, de não desistir, de insistir, e de modo muito particular num aspecto extremamente importante da nossa existência como crentes que é o da oração. É a oração que nos identifica e nos qualifica.
Mas ao falarmos de oração não podemos pensar que nos estamos a referir a um simples gesto ou ritual mecânico, a uma atitude física como a de estar de joelhos ou prostrados, ainda que tais atitudes sejam necessárias e por vezes um meio imprescindível para chegarmos a fazer verdadeiramente oração. Ao falar de oração estamos a referir-nos a esse desejo de Deus que habita em nós e procura ser saciado, satisfeito, no próprio Deus pois não há mais nada que o satisfaça. Uma oração, ainda que longa e sacrificada, ainda que muito cuidada e muito contemplativa, se não tiver e não for sustentada por esse desejo de Deus, será uma oração vazia, uma oração que conduzirá ao vazio.
No caso da parábola, a pobre viúva procura junto do juiz uma satisfação de uma causa, uma justiça contra o adversário, no nosso caso e na nossa oração o objetivo não é uma satisfação de uma causa, uma resposta material a uma qualquer necessidade, mas a satisfação desse desejo e do prazer de estar com Deus. Jesus, que vivia em doce intimidade com o Pai, mostra-nos através da sua oração frequente como é necessária esta satisfação, como é necessária esta busca e relação pessoal com Deus.
A celebração da Eucaristia, nomeadamente ao domingo, é para nós uma fonte e uma forma desta satisfação e face à nossa cultura um sinal bem atual e visível dessa fé na vinda do filho do homem, uma resposta verdadeiramente efetiva.
Contavam-me há dias que um jovem de dezoito anos se revoltou contra a prática habitual da família de cumprir o preceito dominical e para tal revolta justificava-se com o desperdício de tempo que era ir à missa ao domingo. A hora da missa era uma perda de tempo. Ora é aqui e face a estas atitudes, a esta compreensão da celebração Eucarística, fruto da mentalidade social e cultural dos nossos tempos, que temos que jogar a nossa fé e o nosso compromisso testemunhal.
Porque a celebração eucarística não é apenas uma questão estética, uma questão de satisfação prazenteira dos sentidos, para a qual contribuem e devem contribuir um bonito espaço, uma boa música, uma boa presença até daquele que preside. Não é também apenas uma questão convivial, comunitária, ou social, momento para nos reunirmos e encontrarmos com os nossos amigos e família ou até com os vizinhos do lado. A celebração eucarística é esse momento e esse modo em que pela própria virtude da celebração, do mistério presente e vivido, os nossos corações são orientados para Deus, ganhamos uma outra dimensão como homens, pois somos livremente filhos de Deus e herdeiros do Reino dos céus.
Face a tanta gente, a tantos homens e mulheres que abdicaram da Missa dominical temos que lhes dizer que abdicaram e estão a abdicar do meio que lhes possibilita ser mais homens e mulheres, serem verdadeiramente livres por uma hora. Face a uma semana de trabalho, esgotante, a compras feitas à pressa e sob a pressão da publicidade que nos entra pelos olhos dentro, a um domingo para um descanso que tantas vezes desperdiçamos em encontros e atividades frustrantes, a um ritmo de vida que cada vez mais nos escraviza e subjuga na nossa liberdade pessoal, a celebração dominical é o momento e o modo de nos libertarmos dessa escravidão e dessa subjugação. Durante uma hora, (que pode ser mais ou menos entediante, é justo que o digamos, e é justo que o digamos também devido a vários fatores e um deles o espírito com que estamos), somos unicamente filhos de Deus, livres em Cristo que se nos apresenta e fortalece através da Palavra sagrada e do seu Corpo e Sangue entregue por nós e para nós.
É a fé que nos leva a viver dessa forma a Eucaristia que jamais pode ser vista ou participada como um utensílio, como um objeto de que me sirvo porque me dá jeito, porque é da tradição e da minha educação; bem pelo contrário, deve ser vivida como uma casa, uma verdadeira casa, por alguma razão se chama casa de Deus ao espaço, à igreja, porque nela habito, faço vida, construo e fortaleço as minhas relações com Deus e com os outros. Quantos desafios de participação ativa se nos colocam se nos comprometermos com uma concepção “habitacional” da nossa celebração Eucarística dominical!
Como crentes, como discípulos de Jesus, participantes da Eucaristia, procuremos sem pressas e sem medos, com coragem e constância viver a nossa relação com Deus, a nossa Eucaristia e a nossa oração pessoal e intima, testemunhando dessa forma e por esses modos a fé que habita em nós na vinda do filho do homem para fazer justiça sem demora.
frei José Carlos Lopes Almeida, OP
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Na primeira leitura, vemos o povo de Deus em uma batalha. O líder, Moisés, no alto da montanha, com a vara de Deus na mão, anima os israelitas na luta. Aí entram em cena Aarão e Hur. Um de cada lado sustentam os braços erguidos do grande líder e dão de novo aos combatentes o ânimo que precisavam para vencer. A força para nos manter erguidos e perseverantes vem da Palavra de Deus.
Paulo diz que ela é útil para ensinar, repreender, corrigir e formar na justiça. Ela tem dado esperança, mudando vidas... é capaz de consolar e animar, é presença constante daquele amigo com o qual sempre podemos contar. Por ser tão benéfica, não podemos guardá-la só para nós, temos que anunciá-la, partilhá-la com outros, insistente e pacientemente. Quando há tempo sobrando e quando não há, quando é fácil e quando parece difícil, temos que arranjar um modo de ouvir a Palavra e deixar que ela nos transforme. Tudo depende da importância que damos a essa força que Deus nos oferece para sustentar nossos braços e nosso discernimento nos trabalhos e opções do dia-a-dia.
Recomendando perseverança na oração, Jesus exemplifica com a história da viúva que, de tão insistente, venceu pelo cansaço o juiz desinteressado que não estava nem um pouco inclinado a atendê-la. Não há possibilidade de Deus ser um juiz desinteressado de nossas necessidades. O próprio Jesus dirá, em outra ocasião, que não é preciso multiplicar palavras na oração porque Deus sabe o que precisamos antes de formular a primeira frase. A oração insistente, portanto, não pode ter como objetivo a resistência de Deus. Ele já está, sempre, a nosso favor. A oração nos mantêm ligados ao Pai, para fortalecer a esperança, para alimentar a fé, para não nos deixar desistir. Deus não precisa ser lembrado de suas tarefas de Pai e Salvador; nós é que não podemos nos esquecer que somos amados e que o Senhor misericordioso quer para nós sempre o melhor. Como estamos refletindo a palavra de Deus? Como está nossa vida de oração e a missão comunitária?
“Clamo por vós, meu Deus, porque me atendestes; inclinai vosso ouvido e escutai-me. Guardai-me como a pupila dos olhos, à sombra das vossas asas abrigai-me” (cf. Sl. 16,6.8).
Mais um domingo nos é colocado para a nossa vida de oração, oração insistente que provoca a Justiça.  Assim neste domingo as leituras, iniciando pela primeira leitura (cf. Ex. 17,8-13), nos lembra a história de como Moisés conseguiu a vitória de seu general Josué sobre os amalecitas, os eternos inimigos de Israel. Enquanto Moisés, segurando o bastão da força divina, ergue as mãos por cima dos combatentes, Israel ganha. Quando ele as deixa baixar, perde. Observemos que na batalha contra os amalecitas, quem decide da vitória não é Josué, o general, mas Moisés, o homem de Deus, que reza de braços estendidos desde a manhã até a noite. Sendo Moisés o enviado de Deus é evidente que se trata de uma maneira de tornar a força do Senhor presente no combate. O gesto pode bem significar que Deus mesmo é o general do combate. O próprio gesto de levantar as mãos indica o relacionamento com o Altíssimo. Levantar as mãos a Deus sem cessar, eis a grande lição da leitura do livro de Êxodo.
O Evangelho de hoje (cf. Lc. 18,1-8) nos relata a qualidade da oração. Jesus nos é apresentado como um Jesus orante a caminho de Jerusalém, estando próximo de sua morte, de sua ressurreição e de sua glorificação, a oração vem colocada no viés da escatologia, isto é, das coisas últimas da vida humana e do destino que é reservado a criatura humana. Jesus o justo Senhor e Juiz Universal. Jesus ensinou a rezar pela vinda do Reino; mas quando esta se completar, na parusia do Filho do Homem, encontrar-se-á ainda fé na terra? Por isso, até lá, é tempo de oração. Devemos reconhecer a carência em que vivemos e assumi-la na oração insistente. Se não clamarmos a Deus para fazer justiça, sua vinda nos encontrará sem fé.
O contexto dos primeiros tempos depois da paixão, morte e ressurreição de Jesus para alguns de seus seguidores seria que Jesus voltaria logo. Assim muitos se desfaziam de seus bens, porque já não haveria tempo para desfrutá-los. Havia até os que deixavam de trabalhar porque já não se precisaria de sustento. Mas sempre era feita a seguinte indagação: “Qual será o dia do retorno de Jesus?”.
Passados dois mil anos ainda aguardamos o Juízo final dentro do contexto cristão, devendo estarmos bem firmes na fé. Devemos estar em espera confiante. Jesus nos ensinou que viria o fim, mas não determinou o tempo exato. Como Jesus disse que viria de repetente, quanto menos às pessoas podem esperar, Ele poderá retornar. A parusia, ou seja, os últimos tempos, virá. Os que estiverem acordados verão a Deus.
O que, então, fazer neste tempo de espera? Devemos frutificar os talentos, socorrer os irmãos, praticar o bem e mudar de vida buscando uma conversa sincera e absoluta. Assim, a oração continuada, confiante e humilde é a melhor forma de esperar a segunda vinda, a vinda gloriosa do Cristo Senhor, que certamente acontecerá. Rezemos neste sentido!
De esperança em esperança em Cristo Senhor os homens e mulheres vão vencer todas as adversidades do mundo. O Evangelho nos fala em um juiz humano. Um juiz sem fé que faz justiça apenas para não se aborrecer quanto mais fará Deus, que é todo atenção para o seu povo eleito? Deus, o justo, o misericordioso, o verdadeiro Juiz que luta contra o mal vai vencer a iniqüidade. Deus veio morar em nosso meio para tirar o nosso pecado e a maldade do mundo. Assim a viúva do Evangelho de hoje representa a humanidade, os homens e as mulheres, que lutam contra a maldade do mundo. Assim Deus nos ensina a pedir, a lutar e a esforçar-se em procurar em ver a Deus. O sofrimento e o desespero se prolongam. Mas Deus fará justiça bem depressa, porque para Deus mil anos são como o dia de ontem.
Os textos da Sagrada Escritura pediam proteção e carinho para as viúvas:“Defendei as viúvas” (cf. Is. 1,17). A viúva é a humanidade pecadora, com fome de pão e de sede de Deus, cercada de injustiças por todos os lados. O desespero não é a saída. O desespero foi o caminho tomado por Judas. As bem-aventuranças apontam para o caminho não-violento. O cristão é um lutador paciente, corajoso, mas não guerreiro; dinâmico e não resignado, contra todas as formas de maldade dentro e em torno de si. Todos nós devemos lutar com fé, único caminho capaz de abrir as portas e caminhos de Deus. A fé, capaz de remover montanhas, transplantar árvores na crista de uma onda, de acalmar o mar, é também capaz de sustentar nosso esforço, reanimar o cansaço da espera, iluminar o mistério da caminhada, dar certeza à nossa esperança, mesmo que seja contra todas as esperanças humanas, porque Deus nunca nos abandona; mas nos abre seus braços e nos chama: Vem e segue-me!
Assim vamos manter viva e confiante a fé no meio das tribulações e escândalos, como os que o próprio Cristo enfrentou em Jerusalém, sem perder, em momento nenhum a confiança no Pai, tão lindamente expressa em sua última frase do Evangelho de hoje que deve ser a nossa profissão de fé jubilosa: “Em tuas mãos, Pai” (cf. Lc. 23,46).
A segunda leitura (cf. 2Tm. 3,14-4,2) insiste também na pregação da própria palavra do Evangelho, oportuna ou inoportunamente! O tempo sempre é breve! O homem moderno, mais do que secularizado, é sobretudo objetivo: gosta de saber logo qual é o assunto.
A fé é uma graça de deus, mas também algo que a gente aprende, tanto o conteúdo quanto a atitude. Isto vale, sobretudo, para quem tem responsabilidade na comunidade. Sua fé deve crescer pela leitura da Sagrada Escritura, pela experiência vital e desinteresseira transmissão da Palavra, traduzida novamente para cada geração. A palavra de deus atinge os homens através dos homens. Só o convicto pode convencer. Daí a solene admoestação de que o Pastor eterno julgará primeiro os pastores. Por isso sejamos claros. Não se trata de fanatismo, que é disfarce de insegurança. A insistência que Paulo aconselha é a exteriorização da convicção, sobretudo, porque o evangelho que ele propõe é o da “graça e benignidade de Deus, nosso Salvador”.
O modelo da oração de súplica é a de Jesus no Getsêmani: “Pai, se queres, afasta de mim esse cálice! Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (cf. Lc 22,42). Aquele que crê não quer obrigar Deus a fazer a própria vontade, utilizá-lo para realizar seus desejos, mas obter a graça de conformar sua vontade à dele. Só ele sabe o que é verdadeiramente o nosso bem.
A oração de súplica, quando autêntica, é fonte límpida de energias para começarmos a fazer aquilo que pedimos. Orar pela paz leva a começar a empenhar-se pela paz; orar para que cessem os sofrimentos, leva a ajudá-lo quem sofre...
Irmãos rezemos sempre e com muita fé! O homem deve ser solidário! O homem deve estar a serviço do próximo para torná-lo mais humano e mais divino, tanto no âmbito da secularidade, consagrando o mundo a Deus, como no âmbito da pastoral orgânica.  O homem que sofre poderá unir o seu sofrimento ao de Cristo para a salvação da humanidade. Não devemos separa a oração da vida e nem nos intimidar perante a calúnia, a queixa fácil. Porque confiando na misericórdia de Deus que venceu o mundo nós poderemos cantar colocando tudo “Em tuas mãos, Pai, amém!”.
padre Wagner Augusto Portugal

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Acreditar na justiça
Em tempos de campanha política, não é fácil acreditar na justiça. Aliás, é difícil acreditar na verdade. As palavras estão a serviço dos interesses. Parece impossível acreditar em alguém. A propaganda mascara a realidade, e as promessas se tornam ilusórias.
A Palavra de Deus, porém, oferece critérios para crer em Deus e confiar nas pessoas. Pedir com fé sem cessar. Confiar na justiça que há de triunfar.
A Bíblia insiste em fazer justiça à viúva, ao órfão, ao estrangeiro e ao pobre. Isso significa proteger sempre as categorias mais fracas e marginalizadas. Não se trata de uma justiça distributiva, mas sim de uma justiça que devolva a cada qual a sua dignidade. Ninguém nasce inferior a ninguém, mas a sociedade rebaixa algumas pessoas mais que as outras. Fazer justiça é recuperar essa dignidade perdida. Portanto, nos tempos da Bíblia, como na época atual, governante justo é quem pratica justiça para com as pessoas fracas e indefesas.
Clamam por justiça as mulheres, porque são vítimas de exploração e abuso. Sofrem as crianças, porque não são respeitadas em seus direitos mais fundamentais. Protestam os estrangeiros, porque são discriminados em outras terras. Clamam os pobres, porque sua pobreza só aumenta a cada dia. Os desempregados contam-se aos milhões. As pessoas que vivem na miséria ainda são incalculáveis. Há os sem-terra, sem teto, sem saúde, sem escola, até os sem nada. As estatísticas atordoam nossa cabeça e aumentam nossa angústia. Como se pode constatar, a fraqueza do sistema judiciário não é de hoje.
A parábola típica do Evangelho de Lucas ilustra a realidade de injustiça. Uma viúva importuna e um juiz iníquo. A viúva pede justiça. Azucrina, insiste, não desiste. O juiz é qualificado como quem “não temia a Deus e não tinha consideração para com as pessoas” (v.2 e 4). Iníquo (v.6). Mas, a viúva tanto insiste que o juiz cede e lhe faz justiça.
Lucas conclui com a comparação do Senhor: se um juiz iníquo é capaz de atender ao pedido de uma pobre viúva, quanto mais Deus, que é o padrão de justiça definitiva? Lucas começa dizendo que o Senhor contou esta parábola “para mostrar a necessidade de orar sempre, sem jamais esmorecer” (v.1). Os primeiros cristãos pediam a vinda do Reino de Deus e o pão de cada dia. Nós hoje fazemos a Deus tantos pedidos semelhantes. Às vezes temos a impressão de que não somos atendidos. Então a parábola mostra a necessidade de continuar insistindo.
Olhando para nosso mundo, não parece que a injustiça está vencendo? As notícias de morte bombardeiam nossos ouvidos diariamente. Ataques, explosões e atentados. Fraudes, roubos e corrupções. Imperialismo, mentira e exploração. Por tudo isso, é preciso redobrar nossa força para pedir justiça, insistir, encher a paciência de Deus. A insistência apressa a ação divina. O desânimo só dá chance para mais injustiça.
No início do Evangelho de hoje, está a necessidade de orar sempre, e no final volta o questionamento sobre a fé. O poder da oração pode ser constatado na vida de muitas pessoas, ao longo de toda a história. As diversas religiões do mundo insistem nessa atitude fundamental, pois é pela oração que as pessoas se conectam com a divindade. Hoje, as próprias pesquisas científicas constatam que quem reza vive melhor. E a força da fé permite às pessoas uma vida mais saudável. Por isso, ressoa forte o questionamento de Jesus, sobre a necessidade de encontrar a fé sobre a terra. Crer na justiça, pedir com insistência que a humanidade seja mais justa, nos levará, certamente, a um mundo menos injusto. Continuamos acreditando que a fé remove montanhas (conforme Lucas 17,6).
A mesma convicção, sobre a fé, perpassa a primeira leitura, a história do combate entre Amalec e Israel. Amalecitas representam as forças que atrapalham a vida do povo de Israel. São habitantes do sul, sempre em conflito. Por isso, acentuou-se a inimizade entre os dois povos que, na origem, eram parentes, pela descendência comum. Mas, ao longo da história, passaram a representar ameaça e perigo. No contexto, Israel caminhava pelo deserto, rumo à terra prometida. No caminho, é atacado por Amalec.
Naquela época, bem se compreende, Israel não possuía exército estável. Pela convocação das pessoas, se fazia a defesa do povo. Na cena, há dois quadros em tela. No primeiro, a planície onde Josué lidera os combatentes. No segundo, a montanha onde Moisés ergue as mãos para o alto. O termômetro da batalha é a atitude de Moisés. À medida que ele ergue os braços, Israel prevalece. Quando seus braços caem, prevalece Amalec. A leitura quer mostrar que quem vence a batalha não é a força do exército, mas sim a oração de Moisés. E vai além. Diz que é preciso manter-se em atitude de oração até não poder mais. E se o cansaço vencer, que não faltem Aarão e Hur, ou seja, alguém para sustentar os braços erguidos.
Nesse fato se confirma, uma vez mais, o conceito de justiça na Bíblia. Diferente da justiça humana, distributiva, a justiça divina consiste em apoiar sempre o lado mais fraco. Só assim se poderá atingir a igualdade. Derrubando os poderosos de seus tronos e exaltando os humildes (conforme as palavras de Maria, em Lucas 1,52).
A segunda leitura coroa nossa reflexão, pela força da Palavra de Deus. Diz que a fé se adquire, se educa e se conserva. Timóteo aprendeu isso desde menino. A Bíblia lhe deu sabedoria. A sabedoria conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus.
A Sagrada Escritura é útil para instruir ou educar no correto caminho de Deus. É útil também para refutar e corrigir, isto é, para manter as pessoas no mesmo caminho. É útil, enfim, para educar na justiça, ou seja, criar uma humanidade com menos desigualdades e com direitos iguais para todas as pessoas, principalmente às menos favorecidas.
Valmor da Silva

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Há muitos anos um frade foi a uma igreja e fez o seu primeiro sermão. Repetiu-o na segunda semana. Continuou na terceira semana sem mudar uma palavra. A comunidade dos fiéis começou a não gostar. Toda pregação é enjoada por si só, mas aquele homem estava exagerando: repetia sempre as mesmas coisas, palavra por palavra.
Depois do quinto sermão igual aos outros, os fiéis escolheram um representante para ir ter com o frade e protestar:
– O que está acontecendo? – questionou o devoto – O senhor tem só um sermão para pregar?
– Não – respondeu o frade – tenho muitos outros.
– Então, por que está nos cansando sempre com a mesma pregação?
O frade pensou um instante, depois disse: - Vocês não fizeram nada. Se não começarem a agir conforme ao meu primeiro sermão, não posso passar ao segundo. Por cinco vezes repeti a mesma coisa e não fizeram nada. Se continuar assim, não vou mudar para o segundo sermão.
Aos poucos, a comunidade dos fiéis começou a desertar a igreja. No entanto o frade estava sempre lá repetindo a sua homilia também quando não tinha mais ninguém a escutá-lo. A comunidade decidiu passar longe da igreja, mas as palavras do frade ressoavam, muitas vezes, fora das paredes. Parecia uma obsessão. Uma desgraça. O frade, vez por outra, parava um fiel na rua e perguntava: - O senhor já fez alguma coisa a respeito do meu primeiro sermão?
Foram obrigados a amordaçá-lo e a retirá-lo da cidade. Mas era tarde demais. No segredo dos seus corações, estavam brotando as sementes do primeiro sermão. Quando este deu os seus primeiros frutos, porém, o santo frade já estava muito longe.
Repetir coisas é cansativo. Enjoa quem repete e quem escuta. Pode virar rotina, e nos faz perder o sentido das palavras e dos gestos. Com isso, facilmente somos levados a desprezar os gestos e as palavras repetitivas. As novidades nos fascinam e atraem; as coisas e os gestos repetidos nos parecem cansativos, velhos e enjoados. Contudo deveríamos aprender a fazer algumas distinções entre o que é mesmo inútil repetir e o que precisa ser repetido até a exaustão, porque nós temos muito ainda a melhorar. Certos valores devem ser repetidos justamente para não ser esquecidos, para nunca desistirmos de buscá-los.
A repetição segue junto à insistência e à perseverança. Mais ainda, quando quem insiste acredita no seu pedido está convencido da bondade e do valor da sua súplica.
Com a parábola do juiz corrupto e da viúva, que consegue aborrecê-lo com sua insistência, Jesus quer nos ensinar a nunca desistir da oração. Não está falando, portanto, de qualquer insistência e de qualquer pedido. Mas da súplica de quem espera algo de bom e de certo. A viúva pede justiça a quem deveria fazê-la acontecer. Pede, incansavelmente, para aquele que tem todo o poder e a força de satisfazer o seu pedido. Se até o juiz injusto acaba fazendo a coisa certa, isto é, a justiça, quanto mais o próprio Deus. Ele saberá satisfazer os pedidos dos que o invocam dia e noite. Jesus nos ensina a força da oração, a força da perseverança e a bondade de Deus.
Nem sempre e nem todos nós, porém, acreditamos que o Pai bondoso atende aos pedidos dos seus filhos. Temos muitas dúvidas, assim como temos também muita vontade de desistir, por acharmos inútil continuar. Jesus nos convida a acreditar e a confiar sempre. Por isso, a insistência torna-se uma prova de fé e de esperança, mesmo se os acontecimentos nos parecem dizer o contrário. É que o amor-justiça do Pai não deve ser medido ou julgado por nós somente, com os nossos critérios humanos e limitados. Deus tem à sua disposição um tempo que dura a eternidade e um amor que não tem fim.
Se o amor-justiça é a resposta de Deus, o que cabe a nós é a insistência. Esta revela que acreditamos no que pedimos, no seu valor para a nossa vida. Assim, o que buscamos norteia a nossa existência, torna-se compromisso, lutamos para que também se torne realidade. Pedimos o que queremos conseguir, o que já começamos a construir. Esses bens, por serem grandes como a paz e a própria justiça, por exemplo, são, ao mesmo tempo, dons de Deus e fruto do nosso querer. Isso porque Deus não quer nos dar o que nós não queremos, ou o que desistimos de pedir, por considerarmos pouco importante. Nós precisamos fazer a nossa parte, como a viúva insistente. Os frutos começarão a aparecer. Assim poderemos passar finalmente ao segundo sermão. Não porque cansados do velho ou pelo gosto da novidade, mas por ter dado um passo à frente. Por ter alcançado o que buscávamos com afinco. Graças a Deus e à nossa perseverança.
dom Pedro José Conti

dom José Alberto Moura
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Jesus ensina que é preciso perseverar corajosamente na oração, e dá o exemplo da viúva que insistiu junto ao juiz para que lhe fizesse justiça. É preciso acreditar que podemos conversar com Deus como dois amigos que se conhecem há longo tempo numa conversa espontânea, amorosa, perseverante e até exigente.
Moisés no alto da montanha rezava de braços abertos enquanto Josué combatia os amalecitas na planície. Os patriarcas Aarão e Hur sustentavam os braços de Moisés para que permanecessem abertos porque, quando Moisés se cansava e abaixava os braços, Josué perdia a batalha. Moisés é figura do orante por excelência que é Jesus. Seus braços estão abertos na cruz, sustentados pelos cravos para que não se fechem nem caiam. Os braços de Jesus permanecem sempre abertos para que nós possamos vencer a batalha contra as forças do maligno neste mundo. Foi Gregório de Matos quem escreveu: “A vós correndo vou, braços sagrados, nessa cruz sacrossanta descobertos, que, para receber-me, estais abertos, e, por não castigar-me, estais cravados”. Aqui o poeta vê os braços presos para não castigá-lo. Podemos vê-los cravados para que permaneçam abertos.
Quem reza com fé alcança o fruto da oração que é, em primeiro lugar, o crescimento de intimidade e identificação com Deus. O orante e Deus se unem como numa dança, e acertam os passos em coreografias de beleza e alegria. Quem reza nesta terra começa já o mergulho na Trindade que acontecerá plenamente quando adormecermos no Senhor. Não devemos ter medo de ser insistentes na oração, porque é o próprio Senhor que assim nos ensina.
As Escrituras Sagradas nos ajudam a bem orar e a pedir o que convém. Ler o texto bíblico, entendê-lo e meditá-lo para depois pedir a Deus a graça de praticar o que se entendeu é o modo orante de entrar em contato com a Bíblia. Jesus Cristo é o Verbo de Deus encarnado, e o Verbo de Deus é a Palavra que sai da boca do Pai desde sempre. Esta Palavra que se fez homem e habitou entre nós também se fez texto escrito que se torna vivo quando o lemos e meditamos.
O que lemos, o que meditamos e o que rezamos, nós também anunciamos. O missionário é alguém que reza, e reza muito. Ele vive em contato profundo com Deus, de quem se tornou mensageiro. Sua oração é insistente em favor das pessoas com as quais ele vive. Ele conversa muito com Deus sobre o que vê, a realidade da vida, os anseios do povo, as dificuldades da evangelização.
O missionário sabe que a obra não é sua, por isso fala sempre com Deus, como a viúva que não desiste até que a justiça lhe seja feita. Ele é outro Moisés que vive de braços abertos para que o demônio perca a batalha deste mundo.
O missionário é intercessor insistente diante de Deus e também diante dos homens. Para evitar que a viúva se torne violenta e venha a agredir o juiz que não lhe faz justiça, o missionário trabalha corajosamente para que a justiça se exerça nos relacionamentos humanos. Ele é a voz dos que não sabem falar nem se defender. Há quem não saiba se defender, e também quem não sabe rezar. O missionário assume a sua causa e a defende, e reza a Deus por quem não sabe rezar.
cônego Celso Pedro da Silva

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«Dar às atividades pastorais o mais amplo fôlego missionário»
No centro do outubro missionário, volta o encontro anual com o próximo dia mundial das missões, como expressão de um empenho que não se limita a uma jornada nem à simples recolha de ajudas materiais. É mais uma boa oportunidade pastoral para se sentir Igreja, comunidade viva de pessoas que descobriram Cristo e o sentem como um dom a partilhar com outros, mediante gestos concretos, como a oração, a renúncia, gestos de solidariedade e – porque não? – também a oferta da própria vida. O tema forte da missão é a salvação de toda a pessoa em Cristo. Por conseguinte voltam os temas fortes: urgência do anúncio, escassez de obreiros do Evangelho, necessidade de oração insistente, cooperação da parte de todos os crentes…
A missão, enquanto anúncio do Evangelho, está a passar por tempos complexos, mas promissores. Realidades novas estão a surgir na Igreja missionária. A Palavra de Deus oferece mensagens de esperança para os momentos trágicos da existência humana, tanto a nível individual como social e político. Deus intervém e salva, mesmo se, por vezes, parece tardar. A sua salvação é gratuita, mas não nos dispensa da contribuição livre de cada um. O povo de Israel (1º leitura), muitas vezes luta contra os inimigos de turno, alcança uma vitória contra os Amalecitas, graças à oração de um extraordinário orante, Moisés, que, com a ajuda de dois colaboradores, mantém os braços erguidos em sinal de súplica a Deus (v. 11-2).
A experiência orante de Moisés prolonga-se no salmo e encontra confirmação no Evangelho da viúva, a qual, graças à sua insistente súplica «sem nunca desanimar» (v. 1), alcança um resultado importante, levando a melhor em situações adversas: uma causa em curso, um juiz que não temia Deus e homens (v. 2.4)… O apóstolo Paulo (II leitura), a partir da prisão, exorta vivamente o discípulo Timóteo a cumprir a sua missão de anunciar a Palavra, a insistir em todo o tempo oportuna e importunamente, a advertir, a exortar (v. 4,2)… Estes são apenas alguns dos verbos irrenunciáveis da Missão. Os exemplos bíblicos de Moisés e da viúva sublinham a importância da oração ao Senhor da messe (Mt. 9,38; Lc. 10,2). A oração de intercessão é um instrumento insubstituível de missão. Exprime-o muito bem o grande missionário são Daniel Comboni: «a onipotência da oração é a nossa força».
Bento XVI não perde uma ocasião para renovar o apelo missionário a todas as Igrejas, às de antiga tradição e às de recente evangelização, e convida-as a uma comum consciencialização acerca da urgente necessidade de relançar a ação missionária perante os múltiplos e sérios desafios do nosso tempo. Ele convoca para a missão as Igrejas de antiga tradição, que no passado forneceram às missões, além de meios materiais, também um número consistente de sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos. De igual modo, o Papa convida as Igrejas de recente evangelização a dedicarem-se generosamente à missão ad gentes, apesar das numerosas dificuldades e obstáculos que encontram no seu desenvolvimento.
Diante dos sinais de um evidente esfriamento na fé cristã nos países do ocidente, o mandato do Papa Bento é claro: «Relançar a ação missionária perante os múltiplos e sérios desafios do nosso tempo». Perante os sinais de um inverno do Cristianismo nos países europeus e norte-americanos, ressoa com tons de atualidade no nosso hoje, a inquietante interrogação de Jesus no fim do Evangelho deste domingo: «Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?» (v. 8). É talvez a interrogação mais provocatória para a vida da família humana e portanto para a missão. Uma interrogação que não diz respeito apenas ao regresso de Jesus no fim do mundo, mas a cada encontro com Ele nos acontecimentos da vida. G. Bernanos exprimia assim este drama: «As vozes que se elevam da terra a Deus estão a tornar-se cada vez mais fracas, talvez se estejam a apagar. É o silêncio do amor na noite da indiferença!» Não é pessimismo, mas convite veemente à reflexão e a ações coerentes. (*)
Para o batizado e para a comunidade cristã, não é tempo para se fechar em si mesmos, reduzir o espaço da esperança, ou abrandar o empenho missionário. É pelo contrário a oportunidade de se abrir com confiança à Providência de Deus, que nunca abandona o seu povo; é «a ocasião para renovar o empenho de anunciar o Evangelho e dar às atividades pastorais um mais amplo fôlego missionário».
Palavra do Papa
(*) «O mês de outubro, com a celebração do dia mundial das missões, oferece às comunidades diocesanas e paroquiais, aos Institutos de Vida Consagrada, aos Movimentos Eclesiais, a todo o Povo de Deus, a ocasião para renovar o empenho de anunciar o Evangelho e dar às atividades pastorais um mais amplo fôlego missionário… Uma fé adulta, capaz de confiar-se inteiramente a Deus com atitude filial, alimentada pela oração, pela meditação da Palavra de Deus e pelo estudo das verdades da fé, é condição para poder promover um humanismo novo, fundado no Evangelho de Jesus» (Bento XVI - mensagem para o dia mundial das missões 2010)
padre Romeo Ballan
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O caminho verso Jerusalém prossegue, os discípulos continuam acompanhando o Mestre, durante a caminhada novo ensinamento em forma de parábola. Um estilo muito típico de Jesus. De forma a entender o texto que iremos considerar precisa lembrar que surge após um discurso escatológico sobre a vinda gloriosa do Filho do Homem (veja Lc. 17,20-37). O episódio não encontra paralelo nos outros evangelhos, no entanto, faz recordar um outro episódio, também presente no evangelho de Lucas, trata-se do episódio do amigo inoportuno que vem pedir pão durante a noite e que é atendido por causa da sua insistência (veja Lc. 11,5-8).
O texto consiste numa parábola e na sua aplicação teológica. Os personagens centrais da parábola (vs. 2-5) são uma viúva e um juiz. A viúva, pobre e injustiçada (na Escritura, as viúvas são um grupo que estava particularmente exposto a abusos legais e judiciais, entre outras razões porque não podiam subornar nem pagar), passava a vida queixando-se do seu adversário e a exigir a justiça; mas o juiz, “que não temia Deus nem os homens”, não lhe prestava qualquer atenção… Os julgamentos ocorriam à porta da cidade ou em outro lugar público, de modo que a viúva tinha acesso, e podia reclamar publicamente. Era a sua única arma! Ela não desesperou, ao contrário, foi perseverante na sua súplica. Finalmente, o juiz, duro e insensível, aceita fazer justiça à viúva. O objetivo era livrar-se da insistente viúva. Concluída a apresentação da parábola, vem a sua aplicação teológica (vs. 6-8). Se um juiz prepotente e insensível é capaz de resolver o problema da viúva por causa da sua insistência, Deus (que não é, nem de perto nem de longe, um juiz prepotente e sem coração) não iria escutar os “seus eleitos que por Ele clamam dia e noite e iria fazê-los esperar muito tempo?” Naturalmente, estamos diante de uma pergunta retórica. É evidente que, se até um juiz insensível acaba por fazer justiça a quem lhe pede com insistência, com muito mais motivo Deus – que é rico em misericórdia e que defende sempre os débeis – estará atento às súplicas dos seus filhos e filhas. O objetivo de Lucas é, primeiramente,  dirigir-se à comunidade cristã que se via hostilizada e um tanto desanimada porque, aparentemente, Deus não escutava as suas súplicas e não intervinha no mundo para salvar a sua Igreja. A resposta que Lucas deixa aos seus cristãos é a seguinte: ao contrário do que parece, Deus não abandonou o seu Povo, nem é insensível aos seus apelos; Ele tem o seu projeto, o seu plano e o seu tempo próprio para intervir… Aos discípulos resta imitar a viúva, moderar a sua impaciência e confiar que Ele não deixará de intervir para os libertar. Porém, recordamos que a parábola começa dizendo de que se trata de uma parábola para mostrar aos discípulos a necessidade de orar sempre, sem nunca desistir. Assim, um segundo objetivo de Lucas é passar a mensagem aos cristãos de que, apesar do aparente silêncio de Deus, não deixem nunca de dialogar com Ele. É nesse diálogo que entendemos os projetos e os ritmos de Deus; é nesse diálogo que Deus transforma os nossos corações; é nesse diálogo que aprendemos a entregar-nos nas mãos de Deus e a confiar n’Ele.
Meditação
São muitos aqueles que se questionam sobre o porquê de Deus permitir situações más: a pobreza de tantos, as guerras, as violências, entre muitas outras. O evangelista Lucas está convencido de que Deus não é indiferente aos gritos de sofrimento dos pobres e que não desistiu de intervir no mundo, a fim de construir novos céus e na terra. Porém, Deus tem projetos e planos que nós, na nossa ânsia e impaciência, não conseguimos perceber. Deus tem o seu ritmo… A nós compete respeitar a lógica de Deus, confiar n’Ele, entregarmo-nos nas suas mãos.
Na caminhada da nossa vida, para que possamos não desesperar, precisamos de uma relação de comunhão, de intimidade, de diálogo com Deus, através dessa atitude iremos descobrir o “tempo” e o “modo” de Deus. A oração é o caminho para encontrarmos o amor e a misericórdia de Deus. Como está a sua vida de oração? Sente-se em comunhão profunda com Deus?
O diálogo que mantemos com Deus não pode ser um diálogo de alguns períodos, mas é um diálogo que devemos manter, com perseverança e insistência. Quem ama de verdade, não corta a relação à primeira incompreensão ou à primeira ausência. Pelo contrário, a espera e a ausência provam o amor e intensificam a relação. Você consegue ser fiel e perseverante na sua oração?
A oração não é uma fórmula mágica e automática para levar Deus a fazer-nos as nossas vontades… Em vez de se desesperar porque parece que Deus não escuta o seu pedido, pergunte-se: será que o meu pedido faz sentido à luz da lógica de Deus?
Patrick Silva
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“A pedagogia de Deus”
Após meditar o capítulo 17 que ensina os discípulos a fortalecerem a fé, entramos no capítulo 18 onde a realidade esperada de dificuldades e perseguição já é vislumbrada. Lucas escreve por volta de 70 d.C. e as comunidades já experimentam algumas dificuldades que se desencadeiam contra os cristãos. Muitos desanimam esperando a vinda do Senhor que não acontece e começam a esmorecer na oração e a enfraquecer na fé querendo abandonar o Cristo.
Uma situação não tão diferente de nossa vida onde muitas vezes achamos que Deus nos abandonou deixando-nos à mercê das dificuldades da vida. Não é difícil encontrar em nossos dias pessoas desanimadas da vida e até revoltadas com o próprio Deus. Muitos rezam e não encontrando a resposta de Deus desanimam e migram de religião em religião para encontrar uma resposta para sua pequena fé e sua religiosidade imediatista e pragmática. Para essas pessoas, onde tem alguém gritando que Deus está agindo, ai estão elas com sua fé infantilizada esperando que Deus fale com elas do jeito que elas querem.
Em Lucas, Jesus caminha com os discípulos e ensina que devemos buscar a Deus porque dEle alimentamos nossa fé. É nEle que encontramos força para enfrentar nossos dias difíceis. Lucas ensina o valor da oração porque ela nos fortalece. É pela oração que fazemos comunhão com Deus e sentimos que ele está em nossa vida. Domingo passado falava Lucas da gratidão. Quem não reza direito, quem não está constantemente em contato íntimo com Deus certamente só verá o que Deus não fez em sua vida e não conseguirá ver as tantas maravilhas que acontecem todos os dias.
Para os que desanimam diante das dificuldades, das perseguições, do silêncio de Deus, Lucas coloca esta parábola que é exclusividade sua para orientar os cristãos de todos os tempos deixando claro o objetivo da mesma (Lc. 18,1). É preciso rezar sempre, não apenas nos mementos que as coisas estão mal. É preciso também ser firmes, não esmorecer nunca, mesmo nas contrariedades. É assim uma fé madura de um discípulo que fez caminho com Jesus.
A parábola é simples, mas o ensinamento é profundo. Na mesma cidade, havia um juiz insensível e uma viúva insistente. Ela venceu pelo cansaço. Pediu, pediu, pediu até que o juiz ficou cansado e vendo a convicção da viúva, temendo suas atitudes resolveu atender. Se o juiz que é insensível atende a viúva insistente, quanto mais Deus para com seus filhos. Por isso devemos ser insistentes, devemos ser constantes na oração.
O que Lucas quer ensinar com a perseverança da viúva?? Mesmo nos momentos que imaginamos que Deus não está me ouvindo, é preciso rezar e pedir. É assim que crescemos na fé. A insistência mostra a convicção do que queremos. Quem pede apenas uma vez e desanima, é porque nem ele mesmo tinha certeza que aquilo que pedia era importante. É na oração, na busca de Deus e de justiça que crescemos. É nos momentos difíceis que amadurecemos nossa fé no Deus que é Pai e sensível às nossas necessidades.
Mas se Deus é sensível às minhas necessidades, porque não atende meus pedidos todas as vezes que peço?? Nós precisamos compreender o que Lucas quer nos ensinar com a insistência da viúva. Quando ela buscava justiça, insistia com a justiça, ela se comprometia com a justiça que pedia. Meu pai sempre me ensinava: “o que vem fácil, vai fácil”. Não gera comprometimento e nem configura minha vida com o que acredito. A insistência dela é para nos ensinar, para fazer eu mesmo acreditar que o que peço é importante e gerar em mim uma fé madura capaz de levar a frente o que Deus realiza.
Nós temos dificuldade em compreender isso porque fomos educados na cultura do imediatismo querendo tudo para ontem. Esquecemos da paciência em buscar e esperar os resultados. Nossos antepassados que viviam o ritmo da natureza, plantar, cultivar e colher compreendiam bem a importância da conquista e valorizavam o que conseguiam. Nosso ritmo é frenético e somos como os filhos mimados que quando não somos atendidos fazemos birra e chantagem com os pais. Se Deus não me atende, deixo ele de lado e vou atrás de outras coisas que satisfaçam meu egoísmo, meu imediatismo, minha fé de terceira categoria.
Precisamos aprender a respeitar o ritmo de Deus que não é o ritmo de meus caprichos. É o ritmo da natureza, do cultivo, do amadurecimento. É assim que ele nos educa para a fé. Se atendesse imediatamente todos os nossos pedidos só contribuiria com a minha irresponsabilidade me deixando ainda mais individualista. Deus demora para me atender para que eu cresça. Sabe porque Deus ainda não atendeu aquele pedido que eu fiz a tanto tempo?? O saudoso padre Leo dizia: “é para que eu deixe de ser besta”. Para que me converta, me comprometa com Ele. Para que eu amadureça minha fé. Está me dando uma chance para eu deixar de ser um garotinho mimado para ser um cristão comprometido, está me dando a chance de eu tomar consciência de que mais importante que meus pedidos individuais e egoístas é minha salvação, é meu compromisso com a justiça, com o Reino.
É assim que Deus nos educa para a fé, para enfrentar as dificuldades da vida. Ele não quer que sejamos levianos e imediatistas. Quer compromisso, quer decisão. Se não compreendermos isso, passaremos a vida toda com uma fé infantilizada, desesperada buscando que Deus atenda meus caprichos imediatos. Assim vou migrando de uma denominação a outra. Onde alguém fala mais alto ou promete mais, ai estou. Não é isso que Deus quer. Prestemos atenção no que Lucas nos ensina.
É fácil ter fé quando tudo está bem, difícil é manter-se fiel nas provações. Seria muito fácil seguir Jesus se ele atendesse todos os meus pedidos, mas a fé verdadeira faz ficar firme até mesmo nas provações, no silêncio de Deus. É assim que somos chamados a viver. Se nossa fé depende do milagre, depende a ação de Deus em minha vida na hora que quero, já sei que é uma fé titubiante. A comunidade de Lucas precisava entender isso e nós também. Bento XVI nos orienta em sua catequese: “ O homem está em perigo por viver como se Deus não existisse, mas Deus tem milhares de formas de estar presente em nossa alma, de mostrar que existe e que nos conhece”.
Deus faz justiça sim, mas a seu tempo e não no nosso. Nosso tempo é o cronos(tempo do relógio). O tempo de Deus é o Kairós (Tempo da graça). Ele age à sua maneira conforme sua justiça. Para nós basta fidelidade, insistência, compromisso e confiança de que Ele está conosco e não nos abandona. O que quer de nós é uma fé constante, uma confiança inabalável.
Lucas termina com a pergunta: “será que o Filho do homem quando vier encontrará fé sobre a terra??” (Lc. 18,8). Digo o seguinte: enquanto nossa fé for imediatista, oportunista, intimista, individualista, coremos o risco de abandonar Deus nas primeiras provações. Mas se compreendermos a pedagogia de Deus, ai sim nos fortaleceremos e Jesus encontrará cristãos maduros que confiam e esperam sempre a justiça do alto. Deus me atende sim, muitas vezes não na hora que quero, mas na hora que preciso. A justiça de Deus se faz presente na vida do fiel, mas no tempo de Deus, no Kairós, tempo da graça, da salvação.
Que Deus nos encontre firmes e fortes cheio de fé e confiança em sua presença em nossa vida.
padre Reginaldo Antonio Ghergolet
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Continuamos a caminhar com Jesus para Jerusalém, e com nosso Mestre vamos melhor compreendendo o que é necessário para sermos seus seguidores. De fato quem deseja seguir Cristo precisa colocá-lo como centro da vida, e ter a capacidade de assumir a cruz de nossa opção.
Já refletimos que o verdadeiro cristão precisa morrer ao egocentrismo estando sempre aberto para amar o irmão. Também fomos convidados a mudar nosso conceito sobre Deus o vendo como amor e misericórdia infinita. Jesus ainda indicava que nunca podemos nos deixar dominar pelo dinheiro, mas que precisamos aprender a partilhar o que somos e o que temos. Percebemos ainda como somos frágeis diante do ideal que nos é apresentado, e necessitamos para não desanimar de uma fé com grande qualidade. No domingo passado ao refletirmos sobre a cura dos dez leprosos, mais uma vez contemplamos a compaixão de Deus e de como Ele não admite a marginalização das pessoas. Ainda éramos chamados a uma atitude de gratidão para com Deus de quem recebemos tudo, e também para com os nossos irmãos. Hoje poderemos compreender a necessidade da vida de oração no seguimento do Senhor. Trata-se de uma oração constante e que se alimenta na própria palavra de Deus revelada. Que nossas leituras nos ajudem a caminharmos como homens e mulheres de oração.

Na primeira leitura (Ex. 17,8-13) o povo de Israel havia experimentado o amor de Deus que o libertara da escravidão do Egito e agora caminhava pelo deserto. Deus já havia mandado o Maná e as codornizes para alimentar seu povo (Ex. 16). Em seguida o povo revoltava-se contra Deus porque não encontrava água potável, e vemos como Moisés clama ao Senhor. Moisés então toca com seu bastão, ou sua vara, numa rocha e desta brota água em grandiosa abundancia (Ex. 17,1-7). O povo israelita já havia presenciado tantos sinais e prodígios de Deus, mas continuava duvidando de seu amor e de sua presença salvadora entre eles (Ex. 17,7). Depois deste fato encontramos o texto que nos é apresentado hoje.
Na travessia do deserto o povo de Israel estava também diante do perigo de encontrar povos nômades e de beduínos, que na maioria das vezes eram violentos e saqueadores (Jz. 6,1-6; 1Sm. 30). Assim era o povo dos amalecitas que descendia de Esaú. O livro do Deuteronômio recorda que os amalecitas atacaram o povo de Israel no caminho, quando este saíra do Egito e andava cansado e abatido. Esta incursão foi feita traiçoeiramente, atacando pelas costas os israelitas retardatários (Dt. 25,17-18).
Os amalecitas vieram atacar Israel, e Moisés enviou Josué com uma tropa para combatê-los. Depois subiu ao monte e ergueu a vara, ou o seu bastão, aquele mesmo que usara diante do faraó do Egito para realizar os sinais de Deus. Era o mesmo bastão que abrira o mar Vermelho e que ao tocar na rocha fizera correr água em abundancia. Isto já nos indica que a vitória que acontecerá sobre aquele povo hostil, seria considerada como obra do amor de Deus em favor de seu povo. O próprio Javé está agora intervindo para salvar Israel, naquele momento de grande dificuldade. Por isto Moisés levanta a mão segurando o bastão, e enquanto este assim estava erguido o povo ganhava, mas quando o cansaço fazia que suas mãos abaixassem o povo perdia. Para resolver este problema Aarão e Ur, fizeram Moisés sentar-se numa pedra e sustentavam as mãos de Moisés.
Sem dúvida podemos perceber aqui a importância da oração. Moisés sobe a montanha, e na bíblia a montanha é o lugar especial do encontro do homem com Deus. As mãos de Moisés estão erguidas em atitude de prece, esperando que Deus se faça mais uma vez presente e salve o seu povo. Há também um indicativo de que esta oração era comunitária, visto que Aarão e Ur ajudaram Moisés a não ceder ao cansaço. Sem duvida foi uma oração bem longa, mas que produziu o fruto almejado.
Não podemos esquecer que na cultura daquela época os homens eram muito violentos, e que achavam que os deuses combatiam ao lado do povo que os adorava. Hoje não podemos pensar mais assim, pois com Jesus compreendemos bem que nosso Deus não é um justiceiro, ou um guerreiro implacável. Mas de nosso texto podemos entender que para atingirmos objetivos que nos parecem muito difíceis precisamos rezar.
Sem oração nunca teremos forças para perdoar os que nos ofenderam. Sem a força da oração sucumbimos diante da inveja, da ambição, do orgulho, da vaidade, do ódio, do egoísmo. Quando abaixamos nossas mãos e deixamos de orar, somos vencidos com facilidade pelo mal. Mais tarde dirá com toda clareza Santa Tereza de Ávila que “quem ora deixará o pecado, e se não o deixar, deixará a oração”.
Moisés reza até a noite, e nós também devemos orar sem desanimar, até o final de nossa vida.
Seria bom que nos perguntássemos:
• Percebemos a ação salvífica de Deus em nossa vida e no mundo?
• Temos orado com confiança?
• Buscamos na oração a vitória sobre o mal?
• Somos perseverantes em nossa vida de oração?

Na segunda leitura (2Tm. 3,14- 4,2)  continuamos nossa leitura da carta de Paulo a Timóteo. No domingo passado vimos Paulo afirmar que Jesus é o modelo para a vida de seus seguidores, e que diante dos sofrimentos nunca devemos ceder ao desanimo. Estávamos diante do chamado a perseverança em meio aos sofrimentos. Hoje Paulo aborda a importância da palavra de Deus na vida concreta de cada pessoa.
Neste trecho da carta paulina estamos diante de uma verdadeira despedida, pois Paulo está preso e vai dar sua vida por Jesus. O apostolo recomenda a Timóteo, e a todos os cristãos, a fidelidade: a sã doutrina, a tradição e as sagradas Escrituras.
Pede Paulo que Timóteo permaneça firme, isto é, perseverante naquilo que aprendeu desde sua infância. Este modo de falar quer afirmar que Timóteo possui uma formação cristã completa baseada nas “Sagradas Escrituras”.
As “Sagradas escrituras” eram os textos sagrados, autênticos e eficazes para comunicar a sabedoria, que é o caminho para a salvação. A leitura cristã da bíblia deriva da fé em Jesus Cristo, visto ser Jesus nosso único salvador, por isto Jesus será a chave de interpretação de toda a Palavra Revelada.
Temos então claras afirmações sobre a inspiração bíblica, mas a ênfase dada por Paulo se encontra na destinação operativa, ou na “práxis” da vida. A palavra de Deus serve para instruir a pessoa nos caminhos de Deus. A formação cristã nunca será algo meramente intelectual, mas deve se dirigir para uma sólida orientação de vida. No fundo encontramos mais uma vez a importância da fé estar em coerência com a vida! Por isto Paulo afirma que a palavra de Deus é útil para educar na justiça, fazendo com que a pessoa viva plenamente à vontade de Deus. Deste modo a meta ideal da formação bíblica é a maturidade cristã, que se manifesta na realização de boas obras.
Em seguida pela autoridade que Paulo recebeu de Deus, ele admoesta Timóteo a ser constante no anuncio do Evangelho. Como Timóteo, todo cristão, tem a responsabilidade de anunciar com fidelidade a palavra de Deus, sendo assim missionário do Senhor. Aparecem então cinco imperativos: proclama, insiste, argumenta, repreende, aconselha; e este modo de falar indica a urgência e o grande compromisso em transmitir a mensagem de Jesus a todos os homens. Estamos assim diante do serviço a palavra de Deus que é missão essencial de todo discípulo de Cristo, e que tem três aspectos fundamentais:
• O anuncio da palavra do Evangelho, ou querigma.
• A orientação e correção dos que se desviam, ou parênese.
• A exortação e consolo dos fracos e desanimados, ou paraclese.
Todo serviço da evangelização deve ser realizado com uma dedicação constante em qualquer tempo e situação, e com um verdadeiro coração de pastor que une paciência a solidez doutrinal, procurando de modo pedagógico formar as pessoas.
Sem duvida existem muitos momentos em nossa vida onde buscamos respostas concretas, e em geral as soluções apresentadas pelos homens são inconstantes. Nosso texto aponta que devemos buscar as soluções na escuta atenta da Palavra de Deus. E quem descobriu o tesouro precioso que é a bíblia deve leva-lo aos irmãos, aproveitando todas as oportunidades possíveis.
O cristão é chamado a ser pregador da Palavra em todos os ambientes e a todo momento. Nós precisamos investir sempre mais neste aspecto missionário, transmitindo o Evangelho a todas as culturas. Será que usamos os diversos meios a nossa disposição para propagar a Palavra de Deus?
Nossa vida de oração deve ter como alimento fundamental a escuta da palavra de Deus, e nunca podemos nos contentar com uma oração meramente devocional ou de recitações de fórmulas. O estudo e a meditação das Sagradas Escrituras é fonte indispensável para nosso amadurecimento e crescimento na vida cristã. Deste modo deveríamos valorizar mais a “leitura orante da bíblia”, que era uma prática muitíssimo estimada pelos primeiros cristãos. Assim nos alimentando da Palavra revelada, vamos digerindo-a na meditação, e ela vai se transformando em luz e força para nossa ação transformadora.
Também a Palavra de Deus deveria ser o alimento de vida de nossas comunidades cristãs, mas muitas vezes deixamos de lado este sólido alimento para ir atrás de alimentos que não podem verdadeiramente nutrir a comunidade. Uma comunidade cristã precisa se esforçar por oferecer meios para que seus membros conheçam melhor a bíblia, e assim possam agir em conformidade com a lógica de Deus.
Diante de tudo isto devemos nos perguntar:
• Somos perseverantes na fé?
• Que significa para nós a Palavra de Deus?
• A Palavra divina ouvida nos leva a uma vida coerente com ela?
• Em nossa oração a Palavra de Deus é o alimento principal?
• Nossa comunidade está atenta aos valores do Evangelho?
• Somos verdadeiramente evangelizadores?
• Pregamos a Palavra com insistência?

No Evangelho (Lc. 18,1-8) a parábola que nos é apresentada é própria de Lucas. O inicio de nosso texto aponta o sentido central desta parábola, que tem por finalidade reforçar a necessidade de uma oração continua e perseverante.
Jesus toma como exemplo a situação de uma viúva que necessita de justiça. Muitas viúvas pobres depois de perderem o marido ficavam na pobreza. Aqui neste caso trata-se de uma viúva que deve defender os seus direitos, contra a pretensão de algum adversário. Naquela época era costume apresentar a própria defesa diante de um juiz através de procuradores ou advogados, mas esta viúva é uma mulher corajosa e é ela mesma que recorre ao juiz.
O juiz, no entanto é um homem que não tem nem fé em Deus e nem respeita a lei, por isto demora muito em atender a mulher, e só o faz para livrar-se do incomodo.
Devemos ter bem claro que este juiz iníquo não representa Deus! De fato jamais podemos conceber Deus como alguém que não tem compaixão dos indefesos e injustiçados. O personagem central desta parábola é, pois a viúva e sua atitude de coragem e insistência! E a parábola deseja contrapor o modo injusto do juiz desta terra com o modo totalmente diferente do agir divino. Assim se um mau juiz acaba fazendo justiça, quanto mais Deus que é santo e justo atenderá a oração perseverante de seus filhos. Toda a tradição veterotestamentária afirma que Deus é o defensor dos pobres, dos órfãos, das viúvas, dos estrangeiros e dos pobres (Eclo. 35,12-18; Dt. 10,17-18). Deste modo Jesus quer ensinar que Deus agirá e fará justiça aos que lhe suplicam de modo insistente.
Lucas escreve para uma comunidade que enfrenta sérios desafios e sofre grande perseguição. Já no Antigo Testamento encontramos a mesma situação de sofrimento por diversas vezes no povo de Israel, o que leva ao questionamento sobre o porquê do silêncio e da aparente inação divina. Alguns domingos atrás o profeta Habacuc colocava perante Deus as suas angustias, diante de uma maldade humana tão tremenda e crescente que fazia o povo sofrer muitíssimo (Hb. 1,2-4; Sl. 44,23-25: 89,47).
Diante do sofrimento e do silêncio de Deus, com freqüência os homens se perguntam sobre o motivo que leva Deus a não agir imediatamente fazendo justiça.
Perante a espera da intervenção divina e do seu silêncio, o homem pode se cansar e até perder a esperança, e nossa parábola quer nos responder a isto, afirmando que com toda certeza Deus vai agir. Mas como o tempo de Deus não é igual ao nosso tempo humano, e como o modo de pensar divino é diferente do nosso (Is. 55,8-9), precisamos perseverar numa fé confiante. Da parte de Deus sempre fica firme sua promessa de que agirá, embora demore. E esta demora de Deus é atribuída a sua infinita paciência que sempre deixa ao homem o tempo necessário para a sua conversão, como ensinava Jesus na parábola do joio e do trigo (Mt. 13,24-30; 2Pd. ,3-9; Ap. 6,9-11).
A situação da viúva que pede justiça pode também refletir o que acontecia com o povo israelita tão cansado de ser oprimido pelos estrangeiros, e que esperava com impaciência a vinda do Messias prometido.  Os judeus desejavam que Deus mostrasse sua vingança sobre aqueles povos o mais rapidamente possível. Jesus também aspirava pela implantação do Reino de Deus, mas de um modo totalmente diferente do que era desejado pela maioria dos judeus de sua época. O projeto divino não contemplava o uso da violência e da força, mas unicamente a doação de vida e o amor. Por isto Jesus pede aos seus seguidores que saibam esperar e controlem a impaciência.
De fato as mudanças nas pessoas e na sociedade não ocorrem de modo repentino, mas vagarosamente. Nossa pressa muitas vezes traz enormes desastres, e não raro levam a falta de respeito à consciência e a liberdade das pessoas. O caminho lento da mudança é a via normal do crescimento, enquanto que um crescimento rápido e forçado é “inchaço” e este não é algo normal, mas doentio.
Precisamos controlar nossa impaciência e aprender a respeitar o diferente ritmo de crescimento das pessoas, pois é assim que Deus age dando tempo para a conversão! Deste modo o homem vai aos poucos abrindo o próprio coração para aceitar nele Deus e os irmãos.
A ultima frase de nosso texto é bem misteriosa, mas parece não se referir ao fim do mundo ou a segunda vinda de Cristo. Se entendêssemos que quando Jesus vier para finalizar a história não encontrará mais fé sobre a terra, estaríamos afirmando que o mal venceu.  Mas cremos que a vitória de Jesus sobre o mal já se realizou, e se manifestará de modo pleno na parusia. Portanto, devemos entender esta afirmação do Senhor justamente com relação a sua primeira vinda, visto que muitos não o aceitaram como o Messias prometido.  Também podemos ver aqui uma alusão ao cansaço dos bons, que diante da aparente demora de Deus acabam sucumbindo e perdendo a fé.
Toda nossa parábola nos aponta a necessidade da oração para que nossa fé cresça e seja perseverante. A certeza da libertação definitiva, da vitória do Senhor sobre o mal, é sempre condição para uma oração corajosa. Sem duvida a oração é o grande meio que nos ajuda a não perder o bem precioso da fé. Nos momentos mais difíceis onde somos tentados ao desanimo, será a oração uma poderosa arma para elevar nossa esperança e nunca desanimarmos de trilhar o caminho de Deus.
Jesus quer que oremos sempre sem nunca desistir. Orar sempre significa ter uma atitude de vida e não apenas momentos de oração. Esta perseverança na vida de oração é muito mais importante que unicamente sermos insistentes em pedir apenas uma determinada graça. Nossa vida de oração deve ser constante sem desânimos. Não é de fato possível ser discípulo de Jesus, e crescer na vida da graça se não alimentamos em nós uma verdadeira vida de oração.
Mas é bom que tomemos cuidado com falsos tipos de oração muito comuns em nossos dias, de modo especial daquele tipo de oração que busca utilizar Deus para fazer a nossa vontade. Muitos de fato usam Deus como um “tapa-buraco” ou um “quebra-galho”, procurando que Ele realize magicamente o que compete ao próprio ser humano fazer. Outros buscam na oração uma forma de satisfazer ao seu egoísmo procurando obter de Deus dinheiro, sucesso, segurança, etc. Este modo tão comum de se relacionar com Deus é verdadeiramente uma caricatura da oração, pois visa servir-se de Deus ao invés de servi-lo.
Também devemos ter o cuidado de não transformar nossa oração em um mero palavreado vazio, ou apenas na prática externa de ritos sagrados (Am. 5,23).
A oração cristã não é um monólogo, mas um diálogo de um filho com o mais amoroso de todos os pais. Esta certeza de ser amado por Deus é necessária para que tenhamos uma oração autenticamente cristã. Sabemos que Deus nunca nos abandona, e que mesmo em meio as maiores provas e dificuldades, sempre podemos contar com Ele.
O dialogo com Deus que chamamos de oração, supõe falar com o Senhor e também escutá-lo. Uma das melhores formas de ouvir o Senhor é estar em contato com sua Palavra revelada. Também podemos ouvir Deus que nos fala, através da natureza, dos acontecimentos e fatos da vida e das pessoas que passam pelo nosso caminho.
Deveríamos nos acostumar a nunca tomar uma decisão importante em nossa vida sem nos deter demoradamente com o Senhor em oração. Mas além disto, só na prática de uma oração constante podemos compreender melhor a realidade vendo-a com os olhos de Deus! E ainda a oração nos será de extrema valia para termos mais paciência para conosco mesmo, e com o lento caminhar de nossos irmãos.
Tudo hoje nos fala da importância da oração. Na primeira leitura vemos Moisés numa atitude de oração perseverante, no Evangelho Jesus nos recomenda rezar sempre, e  na segunda leitura Paulo aponta a Timóteo a Palavra de Deus como alimento para a vida de oração e ação.
Uma pessoa que procura ter vida constante de oração será capaz de transformar a própria vida, e assim poderá ser um instrumento eficaz na construção do Reino de Deus.
Que nesta semana possamos fazer um balanço de como está nossa vida de oração, e para isto algumas perguntas nos ajudariam:
• Somos perseverantes na oração?
• Por que desanimamos facilmente no caminho da oração?
• Temos consciência de que nossa fé alimenta-se em nossa vida de oração?
• Somos impacientes? Sabemos respeitar o ritmo diferente das pessoas?
• Temos a certeza de fé que Deus nos ama?
• Nossa oração é um verdadeiro diálogo com Deus?
• Qual é o lugar que a Palavra de Deus ocupa em nossa oração?
• Nossa oração nos conduz a uma vida coerente com nossa fé?
Busquemos nestes dias tirar um tempo especial para de fato estarmos a sós com Deus, e com ele conversar amorosamente. Este exercício de oração quando bem feito será capaz de irradiar força, coragem e alegria ao longo de todo o nosso dia, e transformar a nossa vida. E lembremo-nos que, quando falta a oração toda a nossa vida espiritual cai por terra em ruínas!
“O meu auxílio vem do Senhor que fez o céu e a terra.”
A liturgia deste domingo apresenta-nos uma necessidade de estreita relação e intima comunhão com Deus. É claro, além do diálogo amoroso que chamamos de oração. É desta forma que aceitaremos e colaremos em prática o projeto de Deus. Para que isso aconteça, precisamos crer e respeitar o ritmo de Deus, e ouvir o seu silêncio diante dos acontecimentos desagradáveis, e acreditar no seu imenso amor.
Deus intervém no mundo por meio de homens e mulheres, e pelos acontecimentos que nem sequer desconfiamos serem ações de Deus. O acaso é quando Deus não quer assinar ou se mostrar. A 1ª leitura mostra isso com muita propriedade por meio de Moisés. Deus quer a paz e a Salvação da humanidade, por isso se serve, muitas vezes, da ação humana, mas isso só acontece, confiando-se n’Ele, e pela oração.
O texto de hoje situa-nos no contexto do deserto. O povo hebreu estava a caminho da Terra Prometida. Enfrenta confrontos violentos com os habitantes do deserto. Os inimigos são os descendentes de Esaú, segundo a lista deGênesis 36,12.16. São parentes dos hebreus, mas lutam entre si para conquistar o domínio de um sobre o outro.
Para entender a 1ª Leitura, é preciso olhar Deus como ele era visto pelos hebreus. Um Deus libertador, que salva o seu povo da opressão e da morte. Não é uma narrativa jornalística, e, sim, uma história para enaltecer a ação libertadora de Deus por meio de Moisés, o que foi escolhido.
Enquanto Moisés rezava e implorava a ajuda de Deus, o povo vencia as batalhas. Por outro lado, a catequese que o texto nos propõe sublinha a importância da oração. É preciso invocar o Deus libertador com perseverança e insistência. Para vencer as duras batalhas que a vida nos apresenta, é preciso ter a ajuda e a força de Deus; e essa ajuda e essa força brotam de um diálogo contínuo, nunca interrompido e nunca acabado, do fiel de Deus.
Deus nunca deseja que um povo oprima outro, ou que haja guerras e batalhas contra quem seja. O texto apenas quer mostrar, numa linguagem catequética, que Deus está sempre a favor do mais fraco, do mais sofrido, do mais necessitado... O que nós temos no livro do Êxodo não é o retrato de um Deus injusto e parcial, que ajuda um Povo a derrotar e a chacinar outros povos. O texto quer ensinar – embora se servindo de formas de expressão típicas da sua época – que Deus não ficou de braços cruzados diante do sofrimento do seu Povo e que, por isso, veio ao seu encontro, conduziu-o, deu-lhe forças, e permitiu-lhe ser senhor do seu destino…
Hoje, Deus continua a ser o Libertador vivo e atuante em nossas vidas e na história, agindo no coração e na vida de todos que lutam por um mundo mais justo, livre e mais humano. Quanto mais unidos pela oração, fé e perseverança no seu projeto, mais seremos instrumentos de mudanças na mão de Deus.
A oração que dá sentido e conteúdo à ação no mundo faz parte da minha vida?
“Toda a Escritura, inspirada por Deus, é útil para ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça.”
Além da oração, fé e esperança em Deus, a 2ª leitura trata de outra relação importante para permanecer em Deus e com o seu projeto: a Sagrada Escritura. A Bíblia é a Palavra de Deus que indica aos homens o caminho da vida plena, livre e frutuosa para Deus. Ela deve ser primícias para cada pessoa, e ter lugar privilegiado na vida e na experiência do cristão.
“Assim o homem de Deus será perfeito, bem preparado para todas as boas obras. Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua manifestação e pelo seu Reino: Proclama a Palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e doutrina”. Este texto a Timóteo é por demais animador e convincente de que a Palavra de Deus é libertadora, é missionária, é frutuosa em boas obras, é construtora do Reino e projeta a salvação dos que nela crêem e a praticam.
O autor do texto pretende convidar os animadores das comunidades e cada fiel a redescobrirem o entusiasmo que brota da Leitura Orante da Palavra de Deus. Nos últimos versículos do nosso texto (4,1-2), continua a exortação a Timóteo no sentido de que cumpra a sua tarefa de animador da comunidade cristã de forma adequada e entusiasta.
A utilidade da Escritura é descrita por meio de quatro verbos fortes: “ensinar”, “persuadir”, “corrigir” e “formar”. Fica assim claro que a Escritura é a fonte para toda a formação e educação cristã, para fazer aparecer o “homem perfeito” (3,17).
Que lugar ocupa a leitura, a reflexão e a partilha da Palavra de Deus na minha vida?
“E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo?”
O Evangelho de hoje mostra que Deus não está ausente e nem fica insensível diante dos sofrimentos do povo. Nós devemos descobrir que Deus nos ama e tem um projeto de Salvação para todos. Esta descoberta somente é possível mediante a oração confiante e insistente. A oração é a força do homem e a fraqueza de Deus, dizia Santo Agostinho. Ela é o diálogo amoroso, continuo e perseverante com Deus.
Lucas escreveu o terceiro Evangelho durante a década de 80. É uma época em que as comunidades cristãs sofrem por causa da hostilidade dos judeus e dos pagãos e em que já se anunciam as grandes perseguições que dizimaram as comunidades cristãs no final do século 1°. Os cristãos estão inquietos, desanimados e anseiam pela segunda vinda de Cristo – isto é, pela intervenção definitiva de Deus na história, para derrotar os maus e salvar o seu Povo.
O juiz, apesar da sua dureza e insensibilidade faz justiça à viúva, a fim de se livrar definitivamente da sua insistência. O texto quer dizer que, se um juiz prepotente é capaz de resolver o problema da viúva por causa da sua insistência, imaginemos então se que Deus, que é bondoso, sensível e misericordioso, não iria escutar e atender os seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite.
Os dados e o contexto da parábola dão conta que Lucas pretende animar e incentivar as comunidades cristãs diante da perseguição e da hostilidade que elas enfrentavam. As comunidades estavam desanimadas, porque aparentemente Deus não escutava as suas súplicas para salvar a Igreja perseguida. O texto quer mostrar que Deus não abandona o seu povo, nem é insensível aos seus apelos. Deus tem o seu tempo e seu projeto, o seu plano próprio para intervir. Cabe a nós moderar nossa impaciência e confiar plenamente no Senhor da Vida.
Tudo acontecerá para o bem de cada um de nós, e para maior gloria de Deus. Portanto oremos sempre e seremos atendidos, cedo ou “tarde”. Lucas pede aos cristãos a quem a mensagem se destina que, apesar do aparente silêncio de Deus, não deixem nunca de dialogar com Ele. Porque é na oração que entendemos os projetos e o tempo de Deus; é nessa oração que Deus transforma os nossos corações; é nesse diálogo que aprendemos a entregar-nos nas mãos de Deus e a confiar n’Ele. Portanto que nada, nem mesmo o desânimo e a desconfiança, nos leve a desistir de uma verdadeira comunhão e de um profundo diálogo amoroso com Deus.
O que conta aos olhos do Senhor é a perseverança no pedido. Deus parece esperar a confiança dos orantes. A confiança não tem limites…
No final do texto de hoje, aparece uma questão: “O Filho do Homem, quando vier, encontrará fé sobre a terra?” A nossa oração verifica a nossa fé, mas é necessário que ela se faça perseverança…
Deus sempre nos faz justiça. Deus é amor, e a justiça do amor não é a justiça da lei. A vingança de Deus é o amor, e a sua justiça, a misericórdia. O mais alto degrau da justiça é perdoar e fazer misericórdia, porque aí se manifesta em plena luz a verdadeira natureza de Deus, o seu amor totalmente gratuito. É justamente isso que Deus nos pede pela parábola de hoje. Ele quer que compreendamos qual é a justiça de Deus: é o amor e o perdão.
padre Elmo Heck

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