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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

30º DOMINGO do TEMPO COMUM Ano C


30º DOMINGO do TEMPO COMUM

27 de Outubro

O FARISEU E O COBRADOR DE IMPOSTOS - José Salviano


A arrogância do fariseu e a humildade do cobrador de impostos.

Comentários-Prof.Fernando


Mais uma vez Jesus nos chama a humildade.
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        A parábola que Cristo nos apresenta neste domingo, é destinada a todos aqueles que se consideram justos e perfeitos, e por isso são até arrogantes por se acharem portadores do poder de Deus e portanto, melhores que os outros.  E por isso  desprezam as demais pessoas por não serem como eles. Continua...


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30º DOMINGO DO TEMPO COMUM 27/10/2013
1ª Leitura Eclesiástico 35,15b-17.20-22
Salmo 33(34).7 ”Vede, este miserável clamou e o Senhor o ouviu.O Senhor livrou a alma de seus servos”
2ª Leitura 2Timóteo 4,6-8.16-18
Evangelho Lucas 18, 9-14

“Fariseu Sangue Bom...”-Diac. José da Cruz
A palavra Fariseu quer dizer separado e eu sempre afirmo que, se ele pudesse avançar pela linha do tempo e visitar nossas comunidades, todos iriam gostar pois o Fariseu é um Sangue Bom”, um tipo de cristão que anda ali, no caminho do Justo e é muito difícil pegá-lo em alguma contradição. Trazendo para os nossos tempos poderíamos dizer, é Católico de carteirinha, se puder, vai na missa todos os dias e comunga. Faz longas orações no Santíssimo, reza o terço ou o rosário com frequência, é pessoa íntegra, de reputação e moral inabalável, extremamente simpático com todos e na Pastoral ou Movimento é um Trator para trabalhar. Frequenta Sacramentos com frequência, é batizado, crismado, confessa-se toda semana e enfim...é o tal que, prá ir para o céu, só falta mesmo morrer....Tê-lo em nossa comunidade seria uma honra e ficaríamos envaidecidos pois ele seria uma referência muito positiva de Cristão!
Mas qual é o problema do nosso “amigo”, será que o evangelista São Lucas tinha problema com algum Fariseu e ao escrever o seu evangelho aproveita para lhe dar umas “cutucadas”? Claro que não! Reparem bem na oração que ele faz e já vamos descobrir qual é o problema. Quero prevenir o leitor que o tal de Publicano não passaria no teste de “Bom Cristão”, era um tipão assim de Católico de “Meia Tijela” desses que ás vezes gostamos de dar umas indiretas nos cursos de Noivos ou na Pastoral de Batismo. Pode ser que seja até um desses recasados que não podem receber a Eucaristia e na Missa, não falta quem o olhe de lado...com uma certa desconfiança. Na minha comunidade proibiram um coitado de Segunda União, até de ofertar o Dízimo, porque não era casado na Igreja. Bom, para não esticar muito a prosa, ninguém iria querer um Publicano na comunidade...Pois esse tal tinha todos esses defeitos que comprometiam sua moral e sua relação com a Santa Igreja, mas o danado sabia fazer uma oração coisa mais linda, daquelas que derretem  o coração de Deus lá no céu, porque é extremamente sincera.
O Fariseu, em pé, para não perder a “pose”, arrotava suas vantagens e virtudes diante de Deus, principalmente porque não era como os  “outros”, ladrões, injustos e adúlteros. E ao olhar com o canto dos olhos, viu o Publicano lá no último banco, ajoelhado, cabeça baixa, e não resistiu “Olha Senhor, principalmente esse tipo que está aí atrás e não se enxerga, tendo a ousadia de vir nas celebrações...”.
O Publicano talvez até tivesse o Fariseu como modelo e referência, talvez quisesse ser como ele, Justo e Temente a Deus, fiel á Lei Divina, prestigiado na comunidade pelo seu ótimo exemplo, mas sabia que não conseguiria mudar sua vida, via-se como um Caso perdido, como diziam a seu respeito. Restava-lhe o último banco onde se ajoelhou, tinha vergonha de levantar a cabeça ou rezar alto, atrapalhando a prece piedosa do Fariseu, lá dentro do seu coração cochichava “Tem piedade de mim Senhor, que sou pecador!”. Reparem bem, que nesta curta oração, ele não disse que queria se converter, só clamou por piedade, sentindo-se impotente diante dos seus pecados. Pronto!  É Essa a mais linda oração que Deus escuta na mesma hora pois o seu amor e a sua misericórdia iria alcançar aquele homem e sua Graça Santificante e operante, iria mudar a sua vida, porque ele havia afirmado em sua oração que somente a Graça Divina para ter piedade dele e quem sabe...mudá-lo.
Quanto a oração do Fariseu, o Email voltou... pois de oração pautada pela soberba e arrogância, a Caixa de Correspondência do Céu está abarrotada e volta tudo. Sair justificado do templo, significa que, o Publicano voltou para casa com a certeza de que Deus o ouviu. Já o Fariseu...

Diácono José da Cruz
Paróquia Nossa Senhora Consolata – Votorantim SP
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Evangelhos Dominicais Comentados

27/outubro/2013 – 30o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Lc 18, 9-14)


Hoje comemoramos também o Dia Nacional da Juventude, cujo tema deste ano é “Juventude e missão” e o lema “Jovem: levanta-se, seja fermento”. Neste dia festivo, vamos rezar pelos nossos jovens para que sejam persistentes na difícil tarefa de apresentar Jesus aos milhares de outros jovens que ainda desconhecem a Luz do mundo.

No domingo passado, através da parábola da viúva e do juiz injusto, Jesus valorizou oração. Quis mostrar-nos o valor de se rezar sempre, rezar muito e sem esmorecer. No evangelho de hoje, Jesus não fala mais em quantidade de oração, mas sim, na qualidade da oração. Ensina o modo certo de rezar.

Jesus traça um comparativo entre a oração do publicano e do fariseu, para explicar-nos a maneira certa de se comunicar com Deus. Ao rezar, acima de tudo, é preciso lembrar de que somos pecadores, que estamos diante de Deus e que dependemos de sua infinita misericórdia.

Fariseu era o nome dado ao membro de um partido entre os judeus. Ele se gabava de respeitar a lei, em seus mínimos detalhes. Pagava dízimo, até mesmo, de coisas que não eram exigidas. No entanto, observava os mandamentos apenas para se mostrar perante a sociedade. Não agia com humildade, era orgulhoso e arrogante.
Fariseu deixou de ser apenas um símbolo entre os contemporâneos de Jesus. Fariseu é uma figura bastante atual e presente em nosso dia-a-dia. Ele é o símbolo da hipocrisia, é aquele que diz uma coisa e faz outra. Esconde-se atrás das aparências, do comodismo e adapta as leis aos seus interesses pessoais.
O fariseu joga pesados fardos nas costas dos outros, mas não move uma palha em benefício dos necessitados. Faz longos discursos, apresenta projetos fantásticos para erradicar a pobreza, enquanto que, na calada da noite, promulga e aprova leis para beneficiar a si próprio e a seus aliados políticos.

O fariseu sabe que é muito mais fácil carregar uma cruz dependurada no peito do que sobre o ombro. É mais cômodo e menos cansativo. Disso entende muito bem o fariseu, levar vantagens é o seu passatempo favorito.
Arrogância, prepotência e injustiça tornaram-se tão comuns em suas atividades, que são tratadas como coisas normais. Aquele que não age assim é chamado de anormal. No entanto, convém lembrar que não é só no campo político ou profissional que essas coisas acontecem.
Na verdade, o comportamento do fariseu, não é privilégio daqueles que ocupam altos cargos. Precisamos analisar cuidadosamente nossas ações na comunidade paroquial e, particularmente, diante da coordenação de grupos, movimentos ou pastorais, para não cairmos no mesmo erro do fariseu.
A humildade é um dom e deve ser nossa bandeira. A oração deve ser a manifestação das nossas fraquezas e um constante pedido de perdão. O reconhecimento das nossas culpas e o desejo de não mais errar fortalece a caminhada e nos justifica perante Deus. A oração simples nos aproxima do Pai.
Nossas orações deveriam também conter muito mais agradecimentos. Quantos benefícios que, diariamente, recebemos e nunca paramos para agradecer. Por tudo isso, hoje pedimos a Deus a humildade do publicano para que possamos enxergar nossa fraqueza e nossa pequenez.

Vamos colocar mais qualidade em nossas orações e encerrar este momento agradecendo por nossa saúde e emprego, pela paz e segurança no lar, pela unidade da família, por nossos filhos e por tudo aquilo que recebemos gratuitamente. Vamos agradecer, inclusive, pela oportunidade de poder contribuir com o dízimo para a subsistência de nossa comunidade.

( 4821 )

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O cobrador de impostos voltou para casa justificado, o outro, não.-Claretianos
Domingo, 27 de outubro de 2013
30º Domingo do Tempo Comum
Santos do Dia: Abano de Wexford (abade), Abraão de Manufe (eremita), Capitolina e Eroteis (mártires), Colmano de Senboth-Fola (abade), Ciríaco de Constantinopla (bispo), Desidério de Auxerre (bispo), Florêncio de Burgúndia (mártir), Frumêncio (apóstolo da Etiópia), Gaudioso de Nápolis (bispo), Namácio de Clermont (bispo), Odrano de Iona (abade), Vicente, Sabina e Cristeta (mártires).
Primeira leitura: Eclesiástico 35, 12-14. 16-18.
A prece do humilde atravessa as nuvens.  
Salmo responsorial: 33, 2-3.17-19.23.
O pobre clama a Deus e ele escuta: o Senhor liberta a vida dos seus servos.  
Segunda leitura: 2 Timóteo 4, 6-8. 16-18 .
Agora está reservada para mim a coroa da justiça.  
Evangelho: Lucas 18, 9-14 .
O cobrador de impostos voltou para casa justificado, o outro, não.
A maior parte das parábolas de Jesus têm como pano de fundo a vida das aldeias da Galileia e refletem diferentes experiências da vida dos agricultores da época. Somente umas poucas parábolas saem desse marco. Uma delas é a do fariseu e do coletor de impostos, que se situa no contexto urbano e, mais concretamente, na cidade de Jerusalém: no recinto do templo, o lugar propício para obter a purificação e a redenção dos pecados.
A influencia e atração do templo para os judeus se estendia inclusive para mais além das fronteiras da Palestina, como o mostrava claramente a obrigação de pagamento do imposto ao templo por parte dos judeus que não viviam na Palestina. Pagar esse imposto se havia convertido nos tempos de Jesus em um ato de devoção para com o templo, porque este tornava possível que os judeus mantivessem uma relação saudável com Deus.
Nos tempos de Jesus os impostos não eram cobrados diretamente pelos romanos; a cobrança era feita indiretamente, concedendo postos de arbítrio e de arrecadação às pessoas de melhor prestígio, que costumavam ser pessoas das elites urbanas ou da aristocracia. Essas elites, contudo, não gerenciavam os postos de arrecadação, mas por sua vez, deixavam a gestão dos mesmos a gente simples, que recebia em troca um salario de subsistência. Os arrecadadores praticavam sistematicamente a pilhagem e a extorsão dos camponeses.
Devido a isto, o povo tinha para com eles a mais forte hostilidade, por serem colaboracionistas com o poder romano. O povo os odiava e os considerava ladrões. Tão desprestigiados estavam que se pensava que nem sequer podiam obter o arrependimento de seus pecados, pois para isso teriam que restituir todos os bens extorquidos, mais uma quinta parte, tarefa praticamente impossível, devido ao trabalho ser sempre com público diferente. Isto faz pensar que o coletor da parábola era um alvo fácil dos ataques do fariseu, pois era pobre, socialmente vulnerável, virtualmente sem pudor e sem honra, ou o que dá na mesma, um pária considerado como um aproveitador e ladrão.
Em sua oração o fariseu aparece entrado em si mesmo e no que faz. Sabe o que não é: ladrão, injusto ou adúltero; nem tampouco é como e coletor de impostos, porém não sabe quem é na realidade. A parábola o levará a reconhecer quem é, precisamente não pelo que faz (jejuar, pagar o dizimo…), mas pelo que deixa de fazer (relacionar-se bem com os demais).
O fariseu jejua duas vezes por semana e paga o dízimo de tudo o que ganha. Faz, inclusive, mais do que está mandado na Torá. Porém, sua oração não é tão inocente. Ele alude a três classes de pecadores: ladrão, injusto e pecador. Pode-se entender como três modos de descrever o coletor de impostos. O coletor, contudo, reconhece com gestos e palavras que é pecador e nisto consiste sua oração.
 A mensagem da parábola é surpreendente, pois subverte a ordem estabelecida pelo sistema religioso judaico: há aqueles que, como o fariseu, acreditam que estão dentro, e no entanto estão fora, e há quem se crê excluído e, no entanto, está dentro.
No relato, o fariseu se apresentou como um justo e agora se diz que este justo não é reconhecido; deve ter algo nele que seja inaceitável aos olhos de Deus. Contudo, o coletor de impostos, nomeado depreciativamente como “esse”, não é do modo algum desprezado ou rejeitado. Que pecado cometeu o fariseu? Talvez somente um: ter olhado depreciativamente o coletor e os pecadores que ele representa. O fariseu se separa do coletor e o exclui do favor de Deus.
Deus, justificando o pecador sem condições, adota um comportamento diametralmente oposto ao que o fariseu lhe atribui com tanta segurança. O erro do fariseu é o de se considerar “um justo que não é bom para com os demais”, enquanto Deus acolhe graciosamente o pecador. Esta parábola proclama, portanto, a misericórdia como valor fundamental do reino de Deus. Com seu comportamento, o coletor rompe todas as expectativas e esquemas, desafia a pretensão do fariseu e do templo com seus meios redentores e reclama ser ouvido por Deus, já que não o era pelo sistema do templo e pela teologia oficial, representada pelo fariseu.
Se a interpretação da parábola é esta, então se pode vislumbrar por que Jesus foi estigmatizado como amigo dos coletores e dos pecadores e por que foi crucificado finalmente pelas elites de Jerusalém com a ajuda dos romanos e do povo. Na parábola cumpre-se o que lemos na primeira leitura do livro do eclesiástico: “Deus não é parcial contra o pobre, escuta as súplicas do oprimido, ouve os gritos do órfão ou da viúva quando repetem sua queixa”. Deus está com os que o sistema deixou de fora. Como esteve com Paulo de Tarso, como se lê na segunda leitura que, apesar de não ter quem o defendesse, sentia que o Senhor estava a seu lado, dando-lhe forças.
Oração: Ó Deus, nosso Pai, cujo filho se encarnou em nossa carne humana despojando-se de seus títulos de gloria. Mostra-nos que caminhar por suas pegadas, coloca o nosso coração na verdadeira glória: Dar a vida humildemente no amor e no serviço. Tudo isto te pedimos e te damos graças pelo exemplo que nos deu Jesus, teu Filho, que contigo vive e reina e luta e caminha conosco, na unidade do Espírito Santo e é Deus pelos séculos dos séculos.
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O fariseu e o publicano

No domingo passado, a Palavra de Deus nos falava da oração. Vimos, naquela ocasião, que rezar nos coloca diante de Deus com toda a nossa vida: a oração é a atitude fundamental do homem de fé. Quem não reza é ateu, fechado em si, na sua auto-suficiência. Para quem não reza – ou não reza de verdade, com espírito de orante -, Deus na passa de um objeto. Neste sentido, santo Agostinho dizia que "a fé não é para os soberbos, mas para os humildes". Somente aquele que se sabe pequeno e frágil, imperfeito e limitado diante de Deus reza de verdade. Por isso o Eclesiástico afirma que "a prece do humilde atravessa as nuvens". E aqui não se trata simplesmente de uma oração de momento, mas de uma atitude de vida: atravessa as nuvens os desejos do coração daquele que vive a vida diante de Deus e não fechado em si mesmo:"Bendirei o Senhor Deus em todo tempo, seu louvor estará sempre em minha boca!" - Vejam: é este o verdadeiro orante, porque é este o verdadeiro crente: aquele que sabe bendizer a Deus em todo o tempo – seja no tempo bom, seja no mau. "Seu louvor estará sempre em minha boca!"
Pensando nisso, meditemos na parábola de Jesus, sobre a atitude dos dois homens que sobem ao Templo para rezar... Por que Jesus a contou? Contou-a"para alguns que confiavam na sua própria justiça, isto é, na sua própria retidão, nos seus próprios méritos, na sua própria santidade e desprezavam os outros". Como reza o fariseu? Santo Agostinho explica que ele nem sequer reza: "Procura nas suas palavras o que ele pediu. Não encontras nada! Foi para rezar, mas não rezou a Deus; só louvou a si próprio! Mais ainda: não lhe bastou não rezar, não lhe bastou louvar a si próprio e ainda insultou aquele que rezava de verdade!" O fariseu, na verdade, é incapaz de uma verdadeira comunhão com Deus: ele somente tem a si próprio ante seus olhos, ele é o seu próprio Deus, a sua própria satisfação e, quando se mede com os outros, é para insultar e desprezar interiormente... Bem diferente de Jesus, que tinha tudo para nos acusar e, no entanto, quando nos olha, é para ter compaixão, para perdoar, para nos estender a mão.
E o publicano? Qual a sua atitude? "Ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!''' De modo poético, diz Santo Agostinho que "o remorso o afastava, mas a piedade o aproximava; o remorso o rebaixava; mas a esperança o elevava". Eis a atitude do homem aberto para Deus, daquele que se vê na luz do Senhor: tem consciência do seu nada, da sua miséria, do seu pecado, mas sabe que é amado por Deus; sabe que o que de bom possui e faz é dom da graça do Senhor! E porque assim vive e assim procede, esse pobre pecador experimenta a misericórdia de Deus, daquele que, como diz o Salmo, "volta sua face contra os maus, para da terra apagar sua lembrança. Do coração atribulado ele está perto e conforta os de espírito abatido" . Como termina a parábola? Deixem-me ainda citar Santo Agostinho: "Escutaste o contraste entre o fariseu e o publicano; escuta agora a sentença. Escutaste o soberbo acusador e o réu humilde. Escuta, agora, o Juiz: 'Em verdade eu vos digo: aquele publicano saiu do templo justificado, não o fariseu'. Senhor, dize-nos o motivo! Perguntas o por quê? Eis: “Porque quem se exalta, será humilhado, e quem se humilha, será exaltado”. Ouviste a sentença; guarda-te bem de caíres no motivo; ouviste a sentença; preserva-te da soberba!"
Meus caros, não é esta a nossa grande tentação? Achar que somos bons, que somos justos diante de Deus, que mereceríamos um prêmio de honra ao mérito. E, ainda mais: do alto da nossa auto-suficiência, quantas e quantas vezes julgamos, condenamos e executamos os outros! No entanto, se nos recordássemos os nossos pecados com sinceridade, como o publicano, não nos acharíamos grandes diante de Deus e não julgaríamos nem condenaríamos, como o fariseu. Pensemos nos tantos benefícios que do Senhor recebemos, pensemos nos nossos pecados e na nossa preguiça para amá-lo como ele deve ser amado, pensemos nas nossas incoerências e infidelidades, pensemos nas nossas fraquezas... Se assim o fizermos, não teremos a pretensão de merecer nada diante de Deus, seremos humildes e também mais compreensivos com as fraquezas dos irmãos. Nunca percamos de vista o seguinte: aquele que se acha merecedor diante do Senhor, merece, na verdade somente a sua repreensão, pois ainda não compreendeu de fato que Deus nos amou primeiro e não só nos chamou à vida, como também deu-nos o seu Filho quando ainda estávamos nos nossos pecados! Estejamos atentos ao exemplo de São Paulo, na segunda leitura de hoje. Ele, que tinha tanto de se gloriar, porque combateu o bom combate, com toda humildade esperou do Senhor o prêmio da coroa da justiça. Que diferença do fariseu! Este, confiava na sua própria justiça; o Apóstolo esperou na justiça do Senhor. Por isso, na fraqueza experimentou a força do Senhor e, na tribulação, experimentou que o Senhor lutou por ele...
Que este mesmo Senhor nos dê a graça de um coração humilde, que coloque somente nele a confiança, o repouso e a esperança da salvação. Assim, seremos livres da soberba e justos diante de Deus.
dom Henrique Soares da Costa

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MISSÃO DE SANTIDADE E DE SALVAÇÃO A PARTIR DA JUSTIÇA
Um fariseu santo e um publicano pecador. Um fariseu seguidor da Lei e um publicano que reconhece os seus erros. Dois personagens que rezam. Dois personagens que esperam. Um, a recompensa, e o outro, a misericórdia.
Hoje é o dia mundial das missões. Ousamo-nos perguntar: devemos recorrer sempre ao amor misericordioso de Deus ou simplesmente a prática da religião e da fé é garantia da salvação? Como ser testemunho da fé para aqueles que nunca ouviram falar de Jesus? É possível ser missionário para aqueles que já se dizem cristãos, mas que não vivem conforme o evangelho? Que relação existe entre justiça e missão? Alguém da comunidade conhece um missionário? Onde eles vivem? A essas duas últimas perguntas, uns poderão responder: conheço um padre que veio para o Brasil como missionário. Outros ainda dirão: lugar de missão é na África.
Missão é um substantivo que vem do latim (mittere) e significa enviar. Daí missus (missão) ser um enviado. Podemos falar de vários tipos de missão. No nosso caso, não estamos falando da missão de paz de um ministro x em um país y. Estamos falando de uma missão religiosa, que tem a ver com o evangelho. Um ser humano é enviado em nome de Deus para levar sua palavra a outros seres humanos que não a conhecem ou, atualizando, que pensam que a conhecem.
Num passado longínquo, a Igreja católica enviou missionários além-mar para levar a fé e a salvação anunciada por Jesus. O nosso país é fruto dessa intrépida ação que chegou às terras brasileiras com a cruz e a espada. Com o evangelho a bordo, o que desembarcava mesmo era a cultura cristã européia. Por outro lado, é difícil desvencilhar uma da outra.
Aos nativos restava uma única opção: aceitar ou aceitar a fé e a cultura dos missionários. Quando os nossos indígenas já estavam massacrados, os negros foram trazidos da África para serem domesticados na fé do novo mundo. O princípio missionário, a gasolina que movia os evangelizadores, era a certeza de que a semente do Verbo não estava presente nas culturas dominadas.
Em nossos dias, esse modo de evangelizar não é mais compatível. É consenso que toda cultura tem que ser valorizada. Além disso, evangelização é via de mão dupla. Toda comunidade e pessoas são missionárias, no sentido de anunciar o evangelho, sem mesmo nunca terem saído de suas cidades. Continua o desafio de evangelizar no além-mar, mas de modo diferente. Muitos brasileiros e brasileiras, outrora evangelizados, partem agora como missionários para a África e a Ásia.
Dando continuidade à nossa reflexão, ainda perguntemo-nos pelos valores que as leituras de hoje nos relembram como essenciais na evangelização. Vejamos.
1º leitura (Eclo. 35,12-14.16-19): a justiça divina e a missão de santificação
A sabedoria bíblica tem no livro do Eclesiástico, dentre tantas temáticas, a da justiça divina, que aparece nesta primeira leitura e no evangelho. Ela tem a ver com o culto, mas, sobretudo, com o comportamento ético do ser humano. Deus não pode ser comprado com rituais, sacrifícios ou posição social. Deus é um justo juiz que não faz acepção de pessoas. Por outro lado, ele tem uma predileção especial pelos mais pobres e injustiçados da sociedade. Ele ouve a súplica, a oração do pobre, do órfão e das viúvas, os oprimidos da sociedade de então. Essa oração não ficará sem retorno.
A oração, realizada com sinceridade, é o caminho que conduz a Deus, que ouvirá com destreza a súplica do arrependido. A missão do povo de Deus é a de ser santo como Deus é santo. A santidade de Deus, na qual o judeu deve se inspirar, passa pela vivência e o anúncio da Sua justiça. Jesus, mais tarde, nessa mesma linha de reflexão, propõe aos seus ouvintes a parábola do fariseu e o publicano, que veremos a seguir.
Evangelho (Lc. 18,9-14): o fariseu e o publicano diante da proposta de salvação.
O evangelho deste domingo, assim como o do domingo passado, nos coloca em contraste dois anônimos personagens, o fariseu santo e o publicano pecador. O fariseu se enquadra bem na visão judaica de missão: levar a santificação para todos os povos. Como bom judeu, ele deve seguir a Lei para tornar-se um santo e exemplo para todos.
Os fariseus nasceram no período do governo asmoneu de João Hircano (135-104 a.E.C.). O grupo era composto de doutores da Lei, escribas, sacerdotes do terceiro escalão, pequenos comerciantes e artesãos. O projeto messiânico dos fariseus era o de fortalecer a Torá oral, a tradição. Negar o monopólio dos sacerdotes na interpretação da Torá. Combater a política profana dos sacerdotes-príncipes asmoneus. Interpretar de forma popular a Torá para o povo. Fariseu significa “separado” dos impuros, portanto, eles pretendiam fazer de Israel um povo santo, isto é, puro, na observância radical da Lei. Eles acreditavam na ressurreição e esperavam o Messias, que viria para restaurar o poder político e levar Israel ao cumprimento da Torá. O Messias chegaria no momento definido por Deus. Até que isso acontecesse, o povo devia se preparar, não seguindo o caminho indicado pelos asmoneus.
Com pouca influência no campo da política, os fariseus controlavam as sinagogas, que eram os lugares de estudo, oração e reunião do povo. Por serem fiéis observadores da Lei mosaica, os fariseus eram respeitados e amados pelo povo. No entanto, foi esse mesmo rigorismo que os distanciou das classes populares, fazendo com que eles não percebessem as necessidades e sofrimentos do povo diante do império romano. Os pobres não eram capazes de seguir o rigorismo proposto pelos fariseus e, por isso, foram deixados de lado. O fariseu era o símbolo do homem justo e reconhecido publicamente como tal. O famoso texto de Mt 24, que faz um estereótipo do fariseu, parece não ter sua origem na fala de Jesus, mas em brigas posteriores entre judeus e cristãos. Jesus tinha amigos fariseus. Com a guerra judaica (67-70 E.C.), o farisaísmo foi o único grupo judaico que permaneceu e perpetuou o judaísmo.
Os publicanos, por outro lado, eram pessoas escolhidas pelo império romano para cobrar impostos dos seus irmãos judeus e repassá-los ao império. Muitos deles, fazendo uso de tal privilégio, se enriqueciam na função, como no caso de Zaqueu. Para o povo, o nome de publicano era sinônimo de traidor, pecador público. O publicano do evangelho de hoje está numa outra dimensão, a da missão do cristianismo: ser receptor da misericórdia salvífica de Deus. A comunidade de Lucas deixou claro, neste texto e em outros, que a salvação é para todos, não somente para os judeus, aqui representados pelo fariseu. A salvação é mais ampla e passa pela justiça divina e sua misericórdia infinita.
Fariseu e publicano se encontram num contexto de oração, no templo de Jerusalém, lugar por excelência do encontro com Deus, lugar de oração pública e pessoal. O fariseu se gaba de ter ido além do que prescreviam os preceitos religiosos da Torá. Ele se diz não igual ao resto dos homens, todos ladrões, injustos e adúlteros, e, tampouco, como o publicano que ele vê ao seu lado. Ele paga dízimo e jejua duas vezes por semana. O fariseu se arvora no direito de ser juiz diante do publicano, coisa que só compete a Deus. O publicano se humilha e reconhece ser um grande pecador. Ele implora a misericórdia de Deus, batendo no peito.
Estranho na parábola é que o publicano pecador é que é o bom. Da boca de Jesus se ouve a afirmativa de que ele encontrará a sua salvação. A atitude de Jesus parece radical e impiedosa. E o ouvinte da parábola se pergunta: então, por que devo ser justo, se as obras não valem? A resposta a essa pergunta é a mesma das parábolas dos domingos anteriores: o que vale é a misericórdia de Deus e o seu julgamento. Deus é justo. Sua justiça se baseia numa relação ética entre seres humanos. A justiça revela quem cada um de nós somos. Se amo o meu próximo, sou justo diante de Deus. O grande erro do fariseu foi o de não amar o seu próximo, mas a si mesmo. Ele se julgava tão justo que nem precisava do julgamento de Deus. Ele se esqueceu de Deus e se colocou como juiz.
A parábola do evangelho de hoje ilumina nossa ação missionária na medida em que nos comprometemos a anunciar o evangelho da salvação para todos, reconhecendo nossa limitação e humanidade diante de Deus. Enquanto instituição formada por humanos, a igreja também faz o seu pedido de perdão pelos erros cometidos no seu passado missionário e pede a Deus, como o publicano, que a ilumine nos caminhos da missão evangelizadora, sem se deixar corromper pelo caminho da falsa religião.
2º leitura (2Tm. 4,6-8.16-18): Paulo fala de sua missão cumprida: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”
Estamos diante de umas das mais célebres frases atribuídas a Paulo. Ele afirma que combateu o bom combate, guardando a fé. Já no fim de sua missão apostólica, Paulo faz um balanço de sua vida missionária e percebe que valeu a pena anunciar Cristo ressuscitado. Ele faz um testamento de fé. Paulo, o maior dos missionários do cristianismo emergente, anunciou com firmeza, fé e esperança a proposta evangélica de Jesus. Jesus, que ele tampouco conhecera, mas que se revelou a ele como ressuscitado, no famoso episódio de Damasco (At. 9,1-25).
A narrativa dessa segunda leitura é simples, mas cheia de simbolismo. Todos os missionários, assim como Paulo, são verdadeiros atletas que almejam o pódio. Ele e todos os que realizam a missão do anúncio do Reino de Deus receberão o prêmio da vitória. O pódio da vida em Deus, da justiça, já e ainda não. Deus é quem dá ao atleta da missão a coroa da vitória, a coroa da justiça misericordiosa. Pena que muitos desistem antes do fim, lamenta Paulo. Pena que seus amigos o abandonaram, quando estivera diante do tribunal. Eles o abandonaram, mas Deus não o abandonou e nem nos abandonará jamais.
Ser missionário é um desafio constante. Testemunhar a fé é tarefa cotidiana. Viver a fé é um desafio ainda maior. Eis a grande mensagem complementar dessa segunda leitura.
PISTAS PARA REFLEXÃO
O publicano são todos aqueles que, compartilhando com o sistema injusto, tomam consciência de seus erros e pedem perdão. Levar a comunidade a perceber as injustiças de nosso sistema e sua relação com a justiça divina. Perguntar se é possível ser justo em sistemas alicerçados na injustiça.
Convocar a comunidade a assumir atitudes missionárias em seu próprio ambiente geográfico, por meio da pregação e da vivência dos ensinamentos de Jesus. Como nos preparar para a morte, como Paulo, o grande missionário, que cumpriu com fé e perseverança a sua missão?
Santificação e salvação são dois modos encontrados no cristianismo e no judaísmo para expressarem a missão de todo o povo de Deus. Erros e acertos aconteceram historicamente. Como ser missionário hoje? Por que a justiça é o centro de nossa ação missionária, alicerçada na vida de oração.
frei Jacir de Freitas Farias, ofm
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Deus justifica os humildes e os pecadores
I. INTRODUÇÃO GERAL 
Neste domingo destacam-se, nas leituras, dois temas principais: a oração e a “justificação” do humilde e do pecador (1ª leitura e evangelho) e a entrega da vida de Paulo no fim de seu percurso (2ª leitura). Esse último texto é, antes de mais, um testemunho que contemplamos com admiração e gratidão. O primeiro tema tem um peso pastoral muito grande e merece reter nossa atenção especial.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 
1. I leitura (Eclo. 35,15b-17.20-22a)
A 1ª leitura (que poderia ser estendida um pouco mais, para que melhor apareça seu sentido) fala que Deus não conhece acepção de pessoas e faz justiça aos pequenos (pobres, órfãos, viúvas, aflitos, necessitados). Deus toma partido pelos pobres e oprimidos, porque é o Deus da justiça: não conhece acepção de pessoas, escolhe o lado dos oprimidos. Em matéria de ofertas, não é a grandeza ou riqueza do dom que importa, mas a atitude de quem o oferece e a disposição em ajudar os necessitados (35,1-5).
Isso é dito em oposição à maneira dos poderosos, que querem agradar a Deus por meio de sacrifícios perversos (Eclo 35,14-15a[11]). Oferecer a Deus o fruto da exploração é tentativa de suborno (35,14)! Deus não se deixa comprar pelas coisas que lhe oferecemos, pois não necessita de tudo isso. Deus é reto, ele atende os oprimidos e necessitados. Ele nos considera justos, amigos dele, quando lhe oferecemos um coração contrito e humilde (Sl 51[50],18-19.
Nesse sentido, o salmo responsorial acentua: Deus atende ao justo e ao oprimido (Sl. 34[33],2-3.17-18.19+23).

2. Evangelho (Lc. 18,9-14)
Deus nos considera justos, ou seja, amigos dele, quando lhe oferecemos um coração contrito e humilde. Por isso, engana-se completamente o fariseu de quem Jesus fala no evangelho: acha que pode impressionar Deus com suas qualidades aparentes, seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros.
No tempo de Jesus, os fariseus, e hoje, os “bons cristãos” usurpam a religião para se convencer a si mesmos e aos outros de sua justiça; desprezam os outros e querem negociar com Deus na base de suas “boas obras”. Porém, é a atitude contrária que encontra aceitação junto a Deus: a humilde confissão de ser pecador (cf. Sl. 51[50],3). Quem já se declarou justo a si mesmo, como o fariseu, não mais pode ser justificado por Deus. O publicano, porém, que reza de coração contrito, se reconhece pecador e se confia à misericórdia de Deus, este é considerado justo e volta para casa “justificado”.
Lucas acrescenta uma lição moral: “Quem se enaltece, será humilhado; quem se humilha, será enaltecido” (Lc. 18,14). Mais profunda ainda é a lição propriamente teológica, refrão da teologia de S. Paulo: quem se declara justo a si mesmo com base em suas obras rituais – como faziam os fariseus, convencidos de que a observância da Lei lhes dava “direitos” perante Deus – não é declarado justo por Deus, pois Deus é “inegociável” e declara alguém justo (reconciliado) com base na sua misericórdia e amor gratuitos. A justificação é de graça, para quem entra na órbita do amor de Deus, pondo-lhe em mãos a vida inteira, com pecados e fraquezas. Diante de Deus, todos ficamos devendo (cf. Sl. 51[50],7). Os que se justificam a si mesmos, além de serem orgulhosos, são pouco lúcidos! Portanto, melhor é fazer como o publicano: apresentarmo-nos a Deus conscientes de lhe estar devendo, e pedir que nos perdoe e nos dê novas chances de viver diante de sua face, pois sabemos que Deus não quer a morte do pecador, mas sim que ele se converta e viva (Ez. 18,23).
Esse pensamento deve extirpar a mania de se achar o tal e de condenar os outros: a autossuficiência. Mas, para afastar a autossuficiência é preciso, antes, outra coisa: a consciência de sermos pecadores. Ora, isso se torna cada vez mais difícil na atual civilização da sem-vergonhice. O ambiente em que vivemos trata de esconder a culpabilidade e, inclusive, condena-a como desvio psicológico. Que a culpabilidade neurótica passe do confessionário para o divã do psicanalista é coisa boa, mas não convém encobrir o pecado real. Tal encobrimento do pecado acontece tanto no nível do indivíduo quanto no da sociedade: oficialização de práticas opressoras e exploradoras nas próprias estruturas da sociedade, leis feitas em função de uns poucos etc.
Para sermos lúcidos quanto a isso, cabe observar que a autojustificação, entre nós, já não acontece ao modo do fariseu, que se gabava das obras da Lei de Moisés. Agora acontece ao modo do executivo eficiente, que tem justificativa para tudo: para as trapaças financeiras, a necessidade da indústria e do desenvolvimento nacional; e para as trapaças na vida pessoal, o estresse e a necessidade de variação… Hoje, já não são os fariseus que se autojustificam, mas os novos publicanos, que dizem: “Graças a Deus eu sou autêntico, eu não escondo o que faço, não sou um fariseu hipócrita como aquele catolicão ali na frente do altar”!
Seja como for, saber-se pecador é o início da salvação. Isso vale para todos, ricos e pobres, mas para os pobres é mais fácil, porque estão em dívida com tantas coisas que se dão mais facilmente conta de serem devedores. Ora, pecador não é apenas aquele que transgride expressamente a Lei, mas todo aquele que não realiza o bem que Deus lhe confia. Pensando nisso, reconheceremos mais facilmente que temos “dívidas”, como se rezava na versão antiga (e mais literal) do Pai-Nosso. Por isso, a liturgia começa com o ato penitencial. Antigamente, primeiro recitava-o o padre, depois os fiéis – não se sabe por que a nova liturgia suprimiu esse costume…
Em consonância com o evangelho, aconselha-se o prefácio IV dos domingos do tempo comum: Cristo nos justificou por sua morte.

3. II leitura (2Tm. 4,6-8.16-18)
Neste domingo, termina a lectio continua da Segunda Carta a Timóteo, que é o emocionante testamento espiritual de Paulo. No fim de seu percurso, Paulo abre seu coração: “Estou para ser oferecido em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, guardei a fé” (4,6). O exemplo vale mais que as palavras. Paulo não só pregou; trabalhou com suas próprias mãos. No fim de sua vida, ele tem as mãos amarradas, e outros escrevem por ele. Mas ele não fica amargurado. Suas palavras revelam gratidão e esperança. Ele ficou fiel a seu Senhor e aguarda agora o encontro com ele (4,5).
Paulo sabia-se pecador, pecador salvo pela graça de Deus (1Tm. 1,13; cf. Gl. 1,11-16a; 1Cor. 15,8-10). Na base dessa experiência, anela pelo momento de se encontrar com Aquele que, por mera graça, o tornou justo, o “Justo Juiz”, que o justificará para sempre, enquanto diante do tribunal dos homens ninguém tomou sua defesa (2Tm. 4,16). O mistério desta vida de apóstolo era a caridade, mistério de toda vida fecunda. Ela não tem fim (1Cor. 13,8) e completa-se no oferecimento da própria vida (cf. Rm. 1,9; 12,1).

III. PISTAS PARA REFLEXÃO 
A oração do pecador: será preciso ser santo ou beato para rezar a Deus? Será que os simples pecadores precisam “delegar” as monjas ou algum padre muito santo para rezar por suas intenções?
O Antigo Testamento ensinava que “a prece do humilde atravessa as nuvens” (1ª leitura). Jesus, no evangelho, faz desse humilde um pecador. Enquanto, na frente de todos, um fariseu se gloria de suas boas obras, um publicano – coletor de taxas a serviço do imperialismo estrangeiro – reza, a distância, com humildade e compunção. Jesus conclui: este foi, por Deus, declarado justo e absolvido, mas o fariseu, não.
O mais importante na avaliação geral de nossa vida não é o número e o tamanho de nossos pecados, mas nossa amizade com Deus. Como no caso do fariseu e da pecadora (Lc. 7,36-50), alguém pode ter pouco pecado e pouquíssimo amor, e outra pessoa pode ter grandes pecados e imenso amor. Quem nada faz não peca por infração. Só por desamor… e para essa falta não existe remédio. Quem só pensa em si mesmo – como o fariseu –, como Deus pode ser amigo dele?
É muito importante os pecadores manterem o costume de conversar com Deus, na oração. E que saibam que Deus os escuta. Isso faz parte integrante da Boa-nova de Cristo e da Igreja. A rejeição moralista dos pecadores é anticristã e contradiz o espírito da Igreja, que oferece o sacramento da penitência para marcar com sua garantia o pedido de reconciliação do pecador penitente. O sacramento da penitência é, jocosamente falando, um sinal de que se pode pecar… pois senão, nem deveria existir!
Importa anunciar isso a quantos estão “afastados” por diversas razões (situação matrimonial irregular, vida sexual não conforme as normas, pertença à maçonaria, rejeição de alguns dogmas ou posicionamentos da Igreja etc.). Em alguns casos, essas pessoas poderiam, mediante devida informação e diálogo, ser plenamente reintegradas (declaração de nulidade de um casamento que na realidade não existiu etc.). Em outros casos, a plena vida sacramental continuará impossível, mas, mesmo assim, essas pessoas devem saber que Deus é maior que os sacramentos e presta ouvido à oração de quem entrega sua vida quebrantada nas mãos dele.
Importa anunciar isso, sobretudo, ao povo simples, marcado por séculos de desprezo e discriminação, falta de instrução, missas ouvidas na porta do templo… Suas preces “a distância”, como a do publicano, serão certamente atendidas! Hoje, muitos deles já podem avançar até perto do altar; oxalá não se tornem fariseus!
Pe. Johan Konings, sj
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DUAS HISTÓRIAS, DUAS POSTURAS
Não podemos nos enganar. Temos uma vida só, uma só vida de seguimento de Cristo e de acolhimento do Senhor e de seu amor em nossos corações.  Andamos o tempo todo buscando o Senhor. Ao menos assim deveria ser.  Não podemos  caminhar longe de sua presença. Ele sempre nos vê e espera que nos voltemos para ele. E ele somente poderá agir em corações se deliberadamente atribuirmos a ele todo o louvor, todo mérito e toda grandeza.
Dois homens subiram ao templo para rezar. Os dois se colocam diante do mistério de Deus. Um está convencido de sua bondade e de seus méritos. Não pode esconder de Deus a satisfação que tem consigo mesmo, com o que faz, com o que realiza e opera.  Além disso ele não pode ser colocado ao lado de pecadores, de criaturas que não realizam os ritos de purificação depois de terem ido ao mercado, que não pagam dízimo.  Não pode ser considerado como os outros.  “Não sou como os outros homens, ladrões, adúlteros, corruptos, negligentes em suas obrigações religiosas.” Olhando para o cobrador de impostos que estava no templo teve uma das palavras mais infelizes que podia dizer: “... nem como esse cobrador de impostos”. Total auto-suficiência, incapacidade de compreender que o Deus de amor também olha pelos que cometem faltas e pecados, posicionamento falso e perigoso diante de Deus porque poderia comprometer todo seu projeto religioso. Como tantos cristãos de ontem e de hoje que confiam nas belas palavras que proferem, nas obras que executam, nos próprios méritos. Pessoas essas estão atestando que, na realidade, não precisam de Deus. Bastam-se a si mesmas. O fariseu contempla narcisisticamente sua perfeição e no gozo de si despreza os outros.
O outro, o pecador e publicano, nem mesmo se atreve a levantar os olhos, pede perdão, reconhece que precisa da misericórdia de Deus, apresenta ao Senhor uma oração de contrição, de dor por não ter sido fiel ao amor de Deus. Vive um arrependimento que certamente o impulsiona a rever sua vida e mudar de conduta.
Na Igreja e no mundo aqueles que se reconhecem frágeis e pecadores, que se lançam aos pés de Deus e suplicam o sacramento da reconciliação à Mãe Igreja  empurram as portas do coração de Deus.  A Igreja se renova com os simples e pobres de coração, com os que não contam  apenas com meia dúzia de gestos e de feitos colocados em prol da paróquia, mas pessoas simples e reconhecidamente humildes.
O discípulo se torna simples e pobre de coração através de uma ascese, de um trabalho pessoal de mudança que exige persistência. Fundamental será que a pessoa se desaproprie de si mesma.  Ela pertence a Deus. Ele é o mais importante. Os que assim fazem não têm o dedo em riste na direção do Senhor fazendo-lhe cobranças por sobre seus méritos. Trata-se de uma atitude de conversão permanente.
São Paulo, em seu belíssimo hino da caridade, afirma que para além do sucesso na pastoral, do conhecimento das línguas e de todos os dons exteriores, a única coisa que conta  é o amor: “Se eu repartir todos os meus bens e entre os pobres e entregar meu corpo ao fogo, mas não tiver amor, nada disse me aproveita” (1Cor. 13, 3).
frei Almir Ribeiro Guimarães
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A oração humilde penetra as nuvens
Hoje, a liturgia dominical vem nos mostrar duas posições que podemos ter em nosso cotidiano. O fariseu e o publicano, ou melhor, o orgulhoso e o humilde. O humilde é aquele que clama a Deus, o Justo Juiz, que não abandonará àqueles que elevam suas preces a Ele. Deus se mostra como Pai que se inclina dos altos Céus para escutar os clamores de seus filhos. É com esta fé que Paulo, na segunda epístola a Timóteo, vendo próximo seu martírio, tem a convicção de que Deus, o Justo Juiz, dará não apenas a ele, mas sim a todos, a coroa da justiça. Que belo testemunho de vida São Paulo vem nos mostrar hoje: o exemplo do total abandono nas mãos de Deus que conduz toda a nossa história. A Liturgia quer nos levar a um questionamento; coloca-nos diante de Deus e dos outros como um fariseu que se faz satisfeito de suas ações e que se mostra orgulhoso.
O publicano, por sua vez, colocando-se como pecador, reconhece seu erro, e por isso, acha que não é digno de levantar os olhos ao alto. Sendo pecador, torna-se servo e nos ensina que o arrependimento e a confissão são formas sublimes de humildade. Cristo nos chama a ser como o publicano que eleva suas preces até que alcance as nuvens na esperança de que Deus o ouvirá; espera confiante na justiça de Deus, por isso, clama com São Paulo o hino dos justos: “Combati o bom combate, terminei a corrida, mantive a fé. Só me espera a coroa da justiça, que o Senhor o Justo Juiz me entregará naquele dia”.
Reflexão feita pelos Noviços deste ano
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Deus justifica os humildes e pecadores
A 1ª leitura (que poderia ser estendida um pouco para que melhor aparecesse seu sentido) fala de que Deus não conhece acepção de pessoas e faz justiça aos pequenos (pobres, órfãos, viúvas, aflitos, necessitados). Isso é dito em oposição à maneira dos poderosos, que querem agradar a Deus por meio de sacrifícios perversos (Eclo. 35,14-15ª [11]. Deus não se deixa comprar pelas coisas que lhe oferecemos, pois não necessita de tudo isso. Mas nos considera jutos, amigos dele, quando lhe oferecemos um coração contrito e humilde (Sl. 51 [50], 18-19).
Neste sentido, engana-se completamente o fariseu de quem Jesus fala no evangelho: acha que pode impressionar Deus com suas qualidades aparentes, seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros. A atitude contrária é que encontra ouvidos junto a Deus: a humilde confissão de ser pecador (cf. Sl. 51 [50], 3). O publicano, que reza de coração contrito, volta para casa justificado. Lucas acrescenta uma lição moral: quem se enaltece, será humilhado; quem se humilha, será enaltecido. Mais profunda ainda é a lição propriamente teológica, repetida por Paulo: quem se declara justo a si mesmo - como faziam os fariseus, convencidos de que a observância da Lei lhes dava “direitos” perante Deus - já não pode ser declarado justo por Deus; e isso é grave, porque, diante de Deus, todos ficamos devendo; cf. Sl. 51 [50],7). Além de serem orgulhosos, os que se justificam a si mesmos são pouco lúcidos! Portanto, melhor fazer como o publicano: apresentarmo-nos a Deus conscientes de lhe estar devendo e pedir que ele nos perdoe e nos dê novas chances de viver diante de sua face, pois sabemos que Deus não quer a morte do pecador e sim que ele se converta e viva (Ez. 18,23).
A mensagem de hoje tem duplo efeito. Deve extirpar a mania de se achar o tal e de condenar os outros: a auto-suficiência. Mas, para que isso seja possível, deve produzir primeiro um outro efeito: a certeza de sermos pecadores. Ora, isso se toma cada vez mais difícil numa civilização da sem-vergonhice. O ambiente em que vivemos trata de esconder a culpabilidade e, inclusive, condena-a como desvio psicológico. Que a culpabilidade neurótica passe do confessionário para o divã do psicanalista é coisa boa. Mas não se pode encobrir o pecado real. Tal encobrimento do pecado acontece tanto no nível do indivíduo quanto no da sociedade: oficialização de práticas opressoras e exploradoras nas próprias estruturas da sociedade, leis feitas em função de uns poucos etc. A autojustificação, entre nós, já não acontece ao modo do fariseu que se gabava da observância da Lei e das boas obras. Acontece ao modo do executivo eficiente que tem justificativa para tudo: para as trapaças financeiras, a necessidade da indústria e do desenvolvimento nacional; e para as trapaças na vida pessoal, o perigo de “estresse” e a necessidade de “variação”... Hoje, já não são os fariseus que se autojustificam, mas os “publicanos”. Só algum antiquado ainda se autojustifica “fazendo alguma coisa para Deus” no meio de uma vida cheia de egoísmo...
Saber-se pecador é o início da salvação. Isso vale para todos, ricos e pobres. Os pobres estão com tantas coisas em dívida, que se dão mais facilmente conta disso. Os ricos é que são o problema. Pecador não é apenas o que transgride expressamente a Lei, mas todo aquele que não realiza o bem que Deus lhe confia. Sabendo isso, é fácil reconhecer-se pecador. Por isso, cada liturgia começa como ato penitencial. Hoje, pode ser acentuado um pouco mais.
Paulo sabia-se pecador, mas pecador salvo pela graça de Deus (1Tm. 1,13; cf. Gl. 1,11-16a; 1Cor. 15,8-10). Na base desta experiência, anela pelo momento de se encontrar com aquele que, por mera graça, o tornou justo, o “Justo Juiz”, que o justificará para sempre, enquanto diante do tribunal dos homens ninguém tomou sua defesa (2Tm. 4,16 - 2ª leitura).
Johan Konings "Liturgia dominical"
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O fariseu e o publicano
O Evangelho de hoje revela duas mensagens: por um lado, desmascara a falsa religiosidade dos fariseus, que convencidos de serem os mais justos, desprezam o próximo, e acreditam que, por fazerem parte do povo escolhido por Deus, não possuem pecados; por outro lado, o evangelho ensina o verdadeiro relacionamento com Deus, pois Ele olha unicamente o coração de quem O recorre com humildade, confiança e convicção de que não têm direito aos favores divinos e muito menos de ser superior ao seu irmão por praticar boas obras.
Nessa parábola, Jesus compara a oração do soberbo fariseu com a oração do humilde publicano, pois ambos subiram ao Templo com a intenção de entrar em comunhão com Deus, mas com comportamentos diferentes.
O fariseu considera-se justo perante Deus, tem rigor na observância da aplicação das leis de Moisés e despreza quem não as conhece. Sua oração é só um pretexto para se vangloriar, pois ele se julga superior aos outros e, cheio de orgulho, sente-se digno da graça de Deus e exige recompensas! Ele exibe sua “generosidade” jejuando duas vezes por semana, enquanto a Lei prescrevia só um jejum por ano.
O publicano, sendo cobrador de impostos, é impopular e visto como uma pessoa de moral duvidosa, pois é acusado de corrupção. Esse por sua vez, confessa-se pecador, com razão, pois sua conduta não segue a lei de Deus. Reconhece sua miséria moral, consciente de ser indigno de favor divino e pede piedade.
Sabe-se devedor de Deus e das pessoas.
A mensagem de Jesus é que Deus não prefere o pecador ao homem honesto, cumpridor da lei, mas sim, a humildade do pecador arrependido ao orgulho de quem se considera justo.
O importante na avaliação da vida de um cristão não é a quantidade ou o tamanho de seus pecados, mas a sua amizade com Deus mantendo o costume de conversar com Ele durante as orações, pois Ele escuta seus pedidos e clamores, agradecimentos e louvores.
É importante anunciar isso a todos aqueles que estão afastados de Deus por diversas razões, porque estas pessoas podem estar plenamente integradas na comunidade como todos. Anunciar, sobretudo ao povo simples, marcado por séculos de desprezo e discriminação, falta de instrução, missas ouvidas nas portas do templo, pois suas preces do fundo da Igreja, assim como a do publicano, certamente serão atendidas!


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A piedade correta
A parábola do fariseu e do publicano aponta para dois diferentes tipos de piedade, representando posições extremas. O discípulo do Reino deve decidir-se pela maneira correta de agradar a Deus, evitando os caminhos enganosos.
A piedade farisaica, baseada na prática cotidiana da Lei, em seus mínimos detalhes, tinha seus defeitos: era cheia de orgulho, uma vez que levava a pessoa a olhar com desprezo para os considerados pecadores e incapazes de perfeição; pregava a segregação das outras pessoas, por temor de contaminação. Os fariseus julgavam-se com direito de exigir de Deus a salvação, em vista dos méritos adquiridos com sua vida piedosa.
A piedade do povo simples e desprezado, como o cobrador de impostos, tem outros fundamentos: a humildade e a consciência das próprias limitações e da necessidade de Deus para salvá-lo, a certeza de que a salvação resulta da misericórdia divina, sem méritos humanos, o espírito solidário com os demais pecadores que esperam a manifestação da bondade de Deus.
A oração do fariseu prepotente e egoísta dificilmente será atendida. É uma oração formal, da boca para fora. Já a oração do publicano é totalmente humilde, porque ele reconhece que sua salvação vem de Deus. Só a oração sem estardalhaço é ouvida!
padre Jaldemir Vitório
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A salvação é dom de Deus.
Os destinatários da parábola deste domingo são “aqueles que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros” (v. 9). A “própria justiça”, aqui, diz respeito à prática da Lei. A teologia da retribuição reitera que o homem que cumpre de modo irrepreensível todos os mandamentos é salvo (ver Dt. 28,1ss). Ora, a salvação é dom de Deus. O empenho de pôr em prática os mandamentos é reflexo da consciência de ter sido salvo. O reconhecimento do dom recebido, em Jesus, tem implicações para a vida prática de quem quer que seja. No tempo do Messias, nós não estamos mais sob o regime da Lei, mas da graça: “Ninguém é justificado diante dele pelas obras da lei […]. Agora, independente da Lei, a justiça de Deus foi manifestada; a Lei e os Profetas lhe dão testemunho. É a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem” (Rm 3,20-22).
Os personagens da parábola são um fariseu e um publicano. O publicano é considerado um pecador público (cf. Lc. 19,7); estava a serviço dos romanos, e sua função era odiosa: cobrar os impostos. Eram considerados ladrões e exploradores. Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos, dirá a Jesus: “Senhor, se defraudei alguém…”; trata-se de um condicional de realidade, isto é, ele efetivamente havia defraudado as pessoas. Apresenta-se diante de Deus na sua verdade: “Meu Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador!” (v. 13). Na sua imensa bondade e misericórdia, é Deus quem o salva, pois “A oração do humilde penetra as nuvens e não se consolará enquanto não se aproximar de Deus” (Eclo. 35,21). Reconhecer-se na sua miséria diante de Deus, eis a verdadeira oração!
O fariseu, ao contrário, é considerado um homem justo que cumpre de maneira irrepreensível todos os mandamentos da Lei. Na sua oração, recita a própria justiça: “Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de toda a minha renda” (vv. 11-12). O fariseu certamente não mente; pratica a lista de prescrições que recita diante de Deus. A referência de sua oração é ele mesmo; ele se basta, não pede nada, não necessita de coisa alguma. A sua oração é uma volta sobre si mesmo e sobre a sua própria obra. A salvação para ele não é dom, é merecimento. A última frase do texto é muito ampla e convida a Igreja a tirar as consequências: “... quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (v. 14). Isto significa que diante de Deus ninguém pode se orgulhar do quer que seja, pois tudo é dom (cf. 1Cor. 1,29-30).
Carlos Alberto Contieri,sj
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Oração do pobre
Dentro do tema da oração, bastante desenvolvido em Lucas, temos mais esta parábola, de sua exclusividade, na qual faz um confronto entre duas atitudes fundamentais, expressas por seus dois personagens: um fariseu e um publicano. O fariseu, um observante escrupuloso da Lei, de pé, com os braços levantados e a cabeça erguida, agradece por ser "separado", ou seja, diferente dos demais, considerados pecadores. É a forma tradicional da oração no Primeiro Testamento: o louvor e o agradecimento a Deus. Porém trata-se de agradecer pela prosperidade e pelos privilégios, atribuídos à eleição divina, bem como pela destruição dos inimigos. Tal tipo de oração é característica da tradição do "povo eleito", presente no Primeiro Testamento, podendo ser encontrada, particularmente, entre os Salmos. O publicano é alguém que, trabalhando como cobrador de impostos, a serviço das autoridades locais estabelecidas pela ocupação romana, é discriminado e humilhado pelo sistema religioso oficial, sendo considerado
pecador. Porém, com humildade coloca sua confiança em Deus. A oração perfeita do fariseu é descartada por Jesus. Por trás da aparente devoção e piedade, ela é a afirmação da autojustificação, à revelia da vontade de Deus que deseja o respeito e o amor ao próximo. Deus é usado como instrumento para acobertar interesses particulares e justificar sua posição privilegiada e elitista. Ele não precisa de Deus e despreza o humilde e infeliz. O publicano, por sua vez, recorre a Deus com humildade. Está consciente de sua fragilidade e busca em Deus seu amparo e proteção.
O tardio livro do Eclesiástico, sob influência grega, nos fala da oração do pobre e do humilde, que é ouvida por Deus (primeira leitura). Paulo, apóstolo, é testemunha da justiça e do auxílio de Deus, nos momentos de sua fraqueza (segunda leitura). Assim, "quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado".
José Raimundo Oliva

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A liturgia deste domingo ensina-nos que Deus tem um “fraco” pelos humildes e pelos pobres, pelos marginalizados; e que são estes, no seu despojamento, na sua humildade, na sua finitude (e até no seu pecado), que estão mais perto da salvação, pois são os mais disponíveis para acolher o dom de Deus.
A primeira leitura define Deus como um “juiz justo”, que não se deixa subornar pelas ofertas desses poderosos que praticam injustiças na comunidade; em contrapartida, esse Deus justo ama os humildes e escuta as suas súplicas.
O Evangelho define a atitude correta que o crente deve assumir diante de Deus.
Recusa a atitude dos orgulhosos e auto-suficientes, convencidos de que a salvação é o resultado natural dos seus méritos; e propõe a atitude humilde de um pecador, que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher o dom de Deus.
É essa atitude de “pobre” que Lucas propõe aos crentes do seu tempo e de todos os tempos.
Na segunda leitura, temos um convite a viver o caminho cristão com entusiasmo, com entrega, com ânimo – a exemplo de Paulo. A leitura foge, um pouco, ao tema geral deste domingo; contudo, podemos dizer que Paulo foi um bom exemplo dessa atitude que o Evangelho propõe: ele confiou, não nos seus méritos, mas na misericórdia de Deus, que justifica e salva todos os homens que a acolhem.
1º leitura – Sir 35,15b-17.20-22ª - AMBIENTE
O livro de Ben Sira foi escrito nos inícios do séc. II a.C. (entre 195 e 171 a.C.), numa altura em que os selêucidas dominavam a Palestina e a cultura helênica – cada vez mais onipresente – colocava em risco a cultura, a fé e os valores judaicos. O autor do livro (Jesus Ben Sira), preocupado porque muitos dos seus concidadãos se deixavam seduzir pelos valores estrangeiros e negavam as raízes do seu Povo, escreve para defender o patrimônio cultural e religioso do judaísmo, a sua concepção de Deus, do mundo, da eleição e da aliança. Procura convencer os seus compatriotas de que Israel possui na sua “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
O texto que nos é proposto insere-se num pacote de sentenças em que Jesus Bem Sira procura apontar aos seus concidadãos o caminho da verdadeira “sabedoria” (cf. Ben Sira 34,21-35,26). Esse “caminho” passa pela prática de uma “religião verdadeira”, isto é, pelo cumprimento rigoroso dos mandamentos da “Torah”, nomeadamente no que diz respeito à vivência da justiça comunitária e ao respeito pelos direitos dos mais pobres… Nestas sentenças, Jesus Ben Sira avisa que Deus não pode ser comprado com atos de culto, por parte daqueles que praticam a injustiça e que escravizam os irmãos. O apelo do autor vai, portanto, no sentido de que sejam cumpridos os mandamentos da Lei e sejam respeitados os direitos dos pobres e dos débeis. É essa a verdadeira religião que Deus exige do homem. Aqueles que pretendem ser sábios não podem cometer injustiças de manhã e à tarde aparecer no Templo a afirmar a sua fé e a sua comunhão com Deus, através da oferta de vultuosos sacrifícios de animais. Isso seria, praticamente, comprar Deus e fazer dele cúmplice da injustiça… E Deus não aceita esse esquema.
MENSAGEM
Deus é, então, um juiz justo (é daqui que parte o nosso texto), que não faz acepção de pessoas, que não aceita ser cúmplice dos opressores, que não se deixa subornar pelos presentes dos ricos e não desiste de fazer justiça aos pobres (são explicitamente nomeados os órfãos e as viúvas – as duas figuras paradigmáticas dos desprotegidos, que só tinham Deus para os defender da prepotência dos grandes).
Por outro lado, Jesus Ben Sira insiste em que Deus escuta sempre as preces dos débeis e que está atento aos gritos de revolta daqueles que são vítimas da injustiça.
Assim, os humildes que sofrem a opressão e a prepotência dos poderosos são convidados a apresentar a Deus as suas queixas, até que Ele restabeleça o direito e a justiça.
ATUALIZAÇÃO
¨ Este texto põe, antes de mais, o problema do que é fundamental na experiência religiosa… Sugere que a “verdadeira religião” não passa pelos ritos, mas por uma vida verdadeiramente comprometida com os mandamentos, nomeadamente com o mandamento do amor aos irmãos… Não é verdadeira a religião daqueles que pagam as festas da paróquia, mas não pagam justamente aos seus operários; não é verdadeira a religião daqueles que ao domingo depositam na bandeja do
peditório algumas notas gordas, mas não respeitam a dignidade e a liberdade dos outros; não é verdadeira a religião daqueles que fazem “promessas”, para que Deus os ajude a concluir com êxito um negócio duvidoso em que alguém vai sair prejudicado… Uma religião desligada da vida é uma religião falsa, incoerente, hipócrita, com a qual Deus não quer ter nada a ver…
¨ O texto revela também, uma vez mais, que o nosso Deus tem um fraco pelos pobres, pelos débeis, pelos oprimidos, por aqueles que o mundo considera “vencidos” e sem peso. Atenção: Deus ama-os e não deixa passar em claro qualquer injustiça cometida contra eles ou qualquer comportamento que viole a sua dignidade. E os crentes, “filhos de Deus”, são convidados a atuar com a mesma lógica de Deus… Sou, como Deus, sensível ao apelo dos pobres, vítimas da injustiça, da segregação, da exclusão? Luto, com coerência, contra tudo o que gera morte, infelicidade, exploração, injustiça, miséria? Aqueles que não encontram lugar na mesa dos privilegiados deste mundo encontram, através de mim, o rosto misericordioso e bondoso do Deus que os ama?
¨ A oração do pobre e do desvalido chega sempre aos ouvidos de Deus… Deus não vira, nunca, as costas a quem chama por Ele e vê n’Ele a esperança e a salvação.
Isto é algo que eu devo ter sempre presente, nomeadamente nos momentos mais dramáticos da minha existência, quando tudo cai à minha volta. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida garante-nos: Deus escuta a oração do pobre (e, no contexto bíblico, dizer que “escuta” significa dizer que Ele se prepara para intervir e para trazer àquele que sofre a libertação e a vida).
2º leitura – 2Tim. 4,6-8.16-18 - AMBIENTE
Mais uma vez a liturgia traz-nos um texto da Segunda Carta a Timóteo. Embora atribuída a Paulo, trata-se (como, aliás, já vimos nos domingos anteriores) de uma carta escrita por um autor desconhecido, em finais do séc. I ou princípios do séc. II.
Para os crentes da segunda geração cristã, é uma época de perseguições, de divisões, de heresias e, portanto, de confusão e de desânimo. Nesse contexto, um cristão anônimo, usando o nome de Paulo, escreveu a pedir aos seus irmãos na fé que se mantivessem fiéis à missão que Deus lhes confiou. O seu objetivo era revitalizar a fé e o entusiasmo dos crentes.
MENSAGEM
O autor da carta apresenta-se na pele de Paulo, prisioneiro em Roma; e nessa pele, faz um balanço final da sua vida e da sua entrega ao serviço do Evangelho.
A vida de Paulo foi, desde o seu encontro com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, uma resposta generosa ao chamamento e um compromisso total com o Evangelho. Por Cristo e pelo Evangelho, Paulo lutou, sofreu, gastou e desgastou a sua vida, num dom total, para que a salvação de Deus chegasse a todos os povos da terra. No final, ele sente-se como um atleta que lutou até ao fim para vencer e está satisfeito com a sua prestação. Resta-lhe receber essa coroa de glória, reservada aos atletas vencedores (e que Paulo sabe não estar reservada apenas a ele, mas também a todos aqueles que lutam com o mesmo denodo e o mesmo entusiasmo pela causa do “Reino”).
Para definir a sua vida como dom total a Deus e aos irmãos, Paulo utiliza aqui uma imagem bem sugestiva: a imagem da vítima imolada em sacrifício. Paulo fez da sua vida um dom total, ao serviço do Evangelho; a sua entrega foi um sacrifício cultual a Deus. Agora, para que o sacrifício seja total, só resta coroar a sua entrega com o dom
do seu sangue… A referência à oferta “em libação” faz referência aos sacrifícios em que se vertia o vinho sobre o altar, imediatamente antes de ser imolada a vítima sacrificial.
Há duas maneiras de dar a vida por Cristo: uma é gastá-la dia a dia na tarefa de levar a libertação que Cristo veio propor a todos os povos da terra; outra é derramar, de uma vez, o sangue por causa da fé e do testemunho de Cristo… Paulo conheceu as duas modalidades; imitar Paulo é um desafio que o autor da Carta a Timóteo faz aos discípulos do seu tempo e de todos os tempos.
Na segunda parte do nosso texto (vs. 16-18), o autor desta carta põe na boca de Paulo o lamento desiludido de um homem cansado que, apesar de ter oferecido a sua vida como dom aos irmãos se sente, no final, votado ao abandono e à solidão… Mas, apesar de tudo, Paulo tem consciência de que Deus esteve a seu lado ao longo da sua caminhada, lhe deu a força de enfrentar as dificuldades, o livrou de todo o mal e lhe dará, no final da caminhada, a vida definitiva. Daí o louvor com que Paulo termina: “glória a Ele pelos séculos sem fim. Amen”. É esta a atitude que o autor da carta pede aos seus irmãos: apesar do desânimo, do sofrimento, da tribulação, descubram a presença de Deus, confiem na sua força, mantenham-se fiéis ao Evangelho: assim recebereis, sem dúvida, a salvação definitiva que Deus reserva a quem combateu o bom combate da fé.
ATUALIZAÇÃO
¨ Paulo foi uma das figuras que marcou, de forma decisiva, a história do
cristianismo. Ao olharmos para o seu exemplo, impressiona-nos como o encontro com Cristo marcou a sua vida de forma tão decisiva; espanta-nos como ele se identificou totalmente com Cristo; interpela-nos a forma entusiasmada e convicta como ele anunciou o Evangelho em todo o mundo antigo, sem nunca vacilar perante as dificuldades, os perigos, a tortura, a prisão, a morte; questiona-nos a forma como ele quis viver ao jeito de Cristo, num dom total aos irmãos, ao serviço da libertação de todos os homens. Paulo é, verdadeiramente, um modelo e um testemunho que deve interpelar, desafiar e inspirar cada crente.
¨ O caminho que Paulo percorreu continua a não ser um caminho fácil. Hoje, como ontem, descobrir Jesus e viver de forma coerente o compromisso cristão implica percorrer um caminho de renúncia a valores a que os homens dos nossos dias dão uma importância fundamental; implica ser incompreendido e, algumas vezes, maltratado; implica ser olhado com desconfiança e, algumas vezes, com comiseração… Contudo, à luz do testemunho de Paulo, o caminho cristão vivido com radicalidade é um caminho que vale a pena, pois conduz à vida plena.
Concordo? É este o caminho que eu me esforço por percorrer?
¨ Convém ter sempre presente esse dado fundamental que deu sentido às apostas de Paulo: aquele que escolhe Cristo não está só, ainda que tenha sido abandonado e traído por amigos e conhecidos; o Senhor está a seu lado, dá-lhe força, anima-o e livra-o de todo o mal. Animados por esta certeza, temos medo de quê?
Evangelho – Lc. 18,9-14 - AMBIENTE
Mais uma vez, Lucas coloca-nos no “caminho de Jerusalém”, para nos deixar uma lição sobre o “Reino”. Desta vez, Jesus propõe uma parábola “para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros”. Os protagonistas da história são um fariseu e um publicano.
Os “fariseus” formavam um dos grupos mais interessantes e com mais impacto na sociedade palestina do tempo de Jesus. Descendentes desses “piedosos” (“hassidim”) que apoiaram o heróico Matatias na luta contra Antíoco IV Epifanes e a helenização forçada, eram os defensores intransigentes da “Torah” (quer da “Torah” escrita, quer da “Torah” oral – isto é, dos preceitos não escritos, mas que os fariseus tinham deduzido da “Torah” escrita); no dia a dia, procuravam cumprir escrupulosamente a Lei e esforçavam-se por ensinar a Lei ao Povo: só assim – pensavam eles – o Povo chegaria a ser santo e o Messias poderia vir trazer a salvação a Israel. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus. No entanto, o seu fundamentalismo em relação à “Torah” será, várias vezes, criticado por Jesus: ao afirmarem a superioridade da Lei, desprezavam muitas vezes o homem e criavam no Povo um sentimento latente de pecado e de indignidade que oprimia as consciências.
Os “publicanos” estavam ligados à cobrança dos impostos, ao serviço das forças romanas de ocupação. Tinham fama de utilizar o seu cargo para enriquecer de modo imoral; e é preciso dizer que, na generalidade, essa fama era bem merecida. De acordo com a Mishna, estavam afetados permanentemente de impureza e não podiam sequer fazer penitência, pois eram incapazes de conhecer todos aqueles a
quem tinham defraudado e a quem deviam uma reparação. Se um publicano, antes de aceitar o cargo, fazia parte de uma comunidade farisaica, era imediatamente expulso dela e não podia ser reabilitado, a não ser depois de abandonar esse cargo. Quem exercia tal ofício, estava privado de certos direitos cívicos, políticos e religiosos; por exemplo, não podia ser juiz nem prestar testemunho em tribunal, sendo equiparado ao escravo.
MENSAGEM
No fariseu e no publicano da parábola, Lucas põe em confronto dois tipos de atitude face a Deus.
O fariseu é o modelo de um homem irrepreensível face à Lei, que cumpre todas as regras e leva uma vida íntegra. Ele está consciente de que ninguém o pode acusar de cometer ações injustas, nem contra Deus, nem contra os irmãos (e, aparentemente, é verdade, pois a parábola não nos diz que ele estivesse a mentir). Evidentemente, está contente (e tinha razões para isso) por não ser como esse publicano que também está no Templo: os fariseus tinham consciência da sua superioridade moral e religiosa, sobretudo em relação aos pecadores notórios (como é o caso deste publicano).
O publicano é o modelo do pecador. Explora os pobres, pratica injustiças, trafica com a miséria e não cumpre as obras da Lei. Ele tem, aliás, consciência da sua indignidade, pois a sua oração consiste apenas em pedir: “meu Deus, tende compaixão de mim que sou pecador”.
O comentário final de Jesus sugere que o publicano se reconciliou com Deus (a expressão utilizada é “desceu justificado para sua casa” – o que nos leva à doutrina paulina da justificação: apesar de o homem viver mergulhado no pecado, Deus, na sua misericórdia infinita e sem que o homem tenha méritos, salva-o). Porquê?
O problema do fariseu é que pensa ganhar a salvação com o seu próprio esforço. Para ele, a salvação não é um dom de Deus, mas uma conquista do homem; se o homem levar uma vida irrepreensível, Deus não terá outro remédio senão salvá-lo. Ele está convencido de que Deus lhe deve a salvação pelo seu bom comportamento, como se Deus fosse apenas um contabilista que toma nota das ações do homem e, no fim, lhe paga em consequência. Ele está cheio de auto-suficiência: não espera nada de Deus, pois – pensa ele – os seus créditos são suficientes para se salvar. Por outro lado, essa auto-suficiência leva-o, também, ao desprezo por aqueles que não são como ele; considera-se “à parte”, “separado”, como se entre ele e o pecador existisse uma barreira… É meio caminho andado para, em nome de Deus, criar segregação e exclusão: é aí que leva a religião dos “méritos”.
O publicano, ao contrário, apoia-se apenas em Deus e não nos seus méritos (que, aliás, não existem). Ele apresenta-se diante de Deus de mãos vazias e sem quaisquer pretensões; entrega-se apenas nas mãos de Deus e pede-lhe compaixão… E Deus “justifica-o” – isto é, derrama sobre ele a sua graça e salva-o – precisamente porque ele não tem o coração cheio de auto-suficiência e está disposto a aceitar a salvação que Deus quer oferecer a todos os homens.
Esta parábola, destinada a “alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros”, sugere que esses que se presumem de justos estão, às vezes, muito longe de Deus e da salvação.
ATUALIZAÇÃO
Este texto coloca, fundamentalmente, o problema da atitude do homem face a Deus. Desautoriza completamente aqueles que se apresentam diante de Deus carregados de auto-suficiência, convencidos da sua “bondade”, muito certos dos seus méritos, como se pudessem ser eles a exigir algo de Deus e a ditar-lhe as suas condições; propõe, em contrapartida, uma atitude de reconhecimento humilde dos próprios limites, uma confiança absoluta na misericórdia de Deus e uma entrega confiada nas mãos de Deus. É esta segunda atitude que somos convidados a assumir.
Este texto coloca, também, a questão da imagem de Deus… Diz-nos que Deus não é um contabilista, uma simples máquina de recompensas e de castigos, mas que é o Deus da bondade, do amor, da misericórdia, sempre disposto a derramar sobre o homem a salvação (mesmo que o homem não mereça) como puro dom. A única condição para “ser justificado” é aceitar humildemente a oferta de salvação que Ele faz.
A atitude de orgulho e de auto-suficiência, a certeza de possuir qualidades e méritos em abundância, acaba por gerar o desprezo pelos  irmãos. Então, criam-se barreiras de separação (de um lado os “bons”, de outro os “maus”), que provocam segregação e exclusão… Isto acontece com alguma frequência nas nossas comunidades cristãs (e até em muitas comunidades religiosas). Como entender isto, à luz da parábola que Jesus hoje nos propõe?
Nos últimos séculos os homens desenvolveram, a par de uma consciência muito profunda da sua dignidade, uma consciência muito viva das suas capacidades. Isto levou-os, com frequência, à presunção da sua auto-suficiência… O desenvolvimento da tecnologia, da medicina, da química, dos sistemas políticos convenceram o homem de que podia prescindir de Deus pois, por si só, podia ser feliz. Onde nos tem conduzido esta presunção? Podemos chegar à salvação, à felicidade plena, apenas pelos nossos próprios meios?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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Um comentário:

  1. obrigada por nos ensinar a praticar o evangelho em nosso dia dia

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