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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Comentários-Prof.Fernando

Comentários-Prof.Fernando*-(24ºapósPent.-31ºdom.T.Comum) – TODOS OS SANTOS
[memória dos fiéis defuntos no sáb., 2/11]                             (1ºnov.) domingo, 3 de novembro 2013
Saúdem a todos os santos - Todos os santos enviam saudações(Filipenses 4,21-22)

– vida e morte, morte e vida –
·                  Em todas as culturas formam-se tradições durante milênios, às vezes. Festas são instituídas seja para relembrar algum mito de fundação da cidade ou da sua etnia, seja para cultuar a divindade local ou nacional, seja ainda para exorcizar a “ira” dos “maus espíritos” (dos mortos que, segundo alguma tradição popular gostam de incomodar os vivos. O cristianismo muitas vezes instituiu datas festivas para substituir festivais de religiões anteriores. É difícil reconstituir todos os passos históricos na formação de determinada tradição. Historiadores, estudiosos da liturgia, entre outros, pesquisam, por ex., a origem da Festa de Todos os Santos. O que sabemos (pelas referências em textos ou inscrições arqueológicas) é:
·                  .1) a religião romana prestava culto doméstico (em âmbito familiar) aos “Mânes”, divindades que geralmente representavam as “almas” dos familiares falecidos. Outros nomes: Lares, Lêmures, Gênios, Penates [= moram no interior da casa]. O filósofo-teólogo sant’Agostinho de Hipona, séc.4dC, cita n’“A cidade de Deus” (livro 9,c.11), o escritor e orador romano Lúcio Apuleio, séc.2dC que mostra a diferença entre bons e maus “espíritos” domésticos. As almas dos mortos eram “demônios” (o sentido original desta palavra é “alma”, “espírito”, e não: “diabo”). Os Lares=bons; os Lêmures (ou Larvas) eram maus. Os vivos invocavam ambos, para ter proteção dos “bons” e esconjurar maldades dos larvas (larva, em latim = “máscara”, daí: fantasmas).
·                  2) todas as culturas, de algum modo, referem-se aos falecidos como almas (cristalizadas na morte como “boas” ou “más”) que vêm visitar os vivos. Festas havia para agradar ou exoercizar as “almas”. Todos os Santos em inglês também é All Hallows. O Festival dos povos celtas Sanhaim (que se traduz “fim do verão” – entre outubro e novembro) no contato com romanos e, depois, com o cristianismo tornou-se “Halloween”, provavelmente porque sua data fixou-se na véspera (“eve” em inglês) das novas tradições chegadas às ilhas. A véspera dos Santos = The Eve of Hallows (= all Hallows Eve) virou “all hallows een”, depois, “Halloween”.
·                  3) Dá para notar que maus espíritos e suas maldades misturam-se a espíritos bons. Todos juntos, num mesmo Festival... Parece ser tendência universal em todas as culturas: honrar e lembrar seus mortos (em alguns casos: cultuá-los). O mistério da morte leva a crenças num lugar onde iam tanto os “bons” como os “maus”: para os povos célticos e outros “inferno” significa apenas o “lugar inferior” (sob a terra), morada dos mortos. E também se acreditava que entre os dois mundos (dos vivos e dos mortos) existia uma “região”, ou melhor um “tempo” cíclico propício à comunicação, quando as “almas” visitavam ou guiavam seus parentes. As crenças trazidas pelos romanos e pelo cristianismo acentuaram a distinção entre benefícios e “maldades” trazidas pelas “almas”. Os romanos acrescentaram aos mitos locais a ideia dos fantasmas das almas “larvas” (más). E assim o antigo Festival celta acabou assimilando também as “travessuras” e “maldades” que hoje diversão e fantasia das crianças no Halloween (já virou moda no Brasil?
– a vida quer vencer a morte –
·                  Vida e morte estão sempre presentes na cultura. Também a eterna luta entre o Bem e o Mal. Mas os livros da Bíblia abrem uma fresta no escuro, por onde entra a luz da Vida. São livros trazem uma “pedagogia”, uma gradual e progressiva revisão das nossas crenças ancestrais, com um olhar novo que percebe a misteriosa, porém real, presença da bondade do Deus da Vida. No Gênesis, ao tema principal do Criador, autor de um mundo onde “tudo era bom”, segue-se a descrição de uma natureza humana, o homem e a mulher esquecidos de suas raízes, de sua fonte de Vida. O paraíso é como um cenário rasgado, fresta que abre a ferida contaminada pela maldade no mundo. Essa angústia da vida marcada pela morte, também está na literatura, por ex., entre nos: Guimarães Rosa (“A hora e a vez de Augusto Matraga”) ou Jorge Amado (“A morte e a morte de Quincas Berro d’Água”). O conto ou a comédia apontam, entre outras coisas, a utopia popular da vida que queria ser contínua festa (J.Amado) ou que se redime (G.Rosa).
– os cristãos recordam os santos que os precederam no Reino –
·                  As primeiras gerações de cristãos cresceram da “semente do sangue” dos mártires. Celebravam a Eucaristia (“eu sou o Pão vivo que desceu dos céus) sobre o túmulo ou no local da morte de seus mártires, atribuindo um dia de festa para cada um deles. Mas seu número tornou-se às vezes tão grande (sobretudo sob a perseguição do imperador Diocleciano) que, já no ano de 270, passou-se a celebrar um dia de “Todos os Mártires”. Ele é citado por Santo Efrém, o Sírio, em 373. Em Antioquia era comemorado no 1º domingo depois de Pentecostes. Também São João Crisóstomo (+407 dC) refere tal costume (cf. Homilia 74): “Festa de todos os mártires do mundo inteiro”. Entre os cristãos caldeus em 411 havia uma festa dedicada a todos os “Confessores”, nome dado aos homens e mulheres muito admirados (“modelos” de vida) que não tiveram a  graça do martírio mas deram testemunho (“confessavam”) de sua Fé.
·                  Tudo indica que a Festa “em honra de todos os santos, conhecidos e desconhecidos” começou quando o papa Bonifácio IV (maio de 609 ou, segundo outros 610) dedicou o templo de Roma, o “Pánteon” (=de “todos os deuses”) a “Santa Maria e a todos os mártires”. Depois o papa Gregório III (731-741) marcou a data de 1º de novembro inaugurando uma capela dedicada aos santos. No ano de 835 o papa Gregório IV declarou universal a festa de “Todos os Santos”
·                  Finados teve outra origem. Como em muitas épocas, também na Idade Média, mitos, crenças e costumes pagãos misturavam-se à fé cristã. Acreditava-se, por ex., que as almas dos falecidos (que “ainda” não tinham ido para o céu - doutrina do “Purgatório”) poderiam aparecer nesse dia. Então, os monges de Cluny, na França, instituíram o dia 2 de novembro para orar pelos falecidos e, até hoje, na maioria dos países europeus, 2 de novembro é um feriado. Há várias tradições em que se leva aos túmulos dos falecidos, oferendas, flores ou velas.
– canonização e outros modos de celebrar a santidade de Deus em seus santos –
·                  Atenuada a perseguição aos cristãos, as comunidades naturalmente deixaram de ter novos mártires para honrar. Mas praticamente em todo o primeiro milênio o povo cristão escolhia seus “confessores” da fé. A primeira canonização feita por um papa só ocorreu no ano 993 (santo Ulrico, bispo de Augsburgo na Alemanha). Desde então, o entusiasmo e a “voz do povo” que “criavam” as listas de santos, submeteu-se à formalização das regras impostas pelos processos romanos de canonização, sem esquecer que a escolha dos nomes propostos ao povo como “modelos” são modelos de igreja, diversos, conforme as épocas e as circunstâncias.
·                  Uma das críticas da Reforma sobre o antigo costume de “pedir” a intercessão dos santos visava preservar um dos princípios fundamentais do movimento: a mediação única de Jesus Cristo. Isso não impediu conservar a Festa de Todos os Santos, mantida em muitos calendários. Assim acontece no âmbito anglicano e na maioria das igrejas luteranas e entre outros Protestantes de tradição inglesa (ex.: Igreja Unida do Canadá e a Igreja Wesleyana). Em algumas comemora-se no 1º domingo de novembro, como na Igreja Metodista Unida na América do norte. Comunidades ortodoxas celebram a festa no 1º domingo após Pentecostes.
– afinal, quem é santo? –
·                  Santos, na linguagem do Novo Testamento, são todos os redimidos por Cristo. Hoje lemos: (1Jo3): Caríssimos, vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! E (altern.LCR, Ef1,11-23): para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da herança reservada aos seus santos. Apesar de muitos preconceitos, ainda presentes entre muitas tradições, igrejas ou confissões e comunidades, lembremos que o próprio Lutero não apoiava a destruição de muitas obras de arte nas igrejas (pinturas, vitrais, estátuas). Ele desejava superar os costumes tidos como simonia (venda de objetos “sagrados”) e idolatria (adorar outros seres em lugar do único Deus). Por isso lutava contra as indulgências, as imagens e a multiplicação de “relíquias”.
·                  Em oração com todas as comunidades cristãs, incluindo as ortodoxas, reafirmamos hoje, a confissão do Credo dos Apóstolos: cremos na Comunhão dos Santos. Escutemos aquela Palavra de consolação, em estilo apocalíptica, em Daniel 7,1-3.15-18 ou em Ap 7,2-4.9-14. os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre. E, no último livro do N.Testamento: uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar: estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão. Proclamavam: "A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro. (...) E um dos Anciãos falou comigo e perguntou: "Quem são esses vestidos com roupas brancas? De onde vieram?" Eu respondi: "Tu é que sabes, meu senhor".E então ele me disse: "Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro". O amor do Pai comum, pela graça de nosso irmão Jesus e na alegre comunhão com seu santo Espírito, trazem a luz da Vida para a superação de toda tribulação, sabendo que o caminho indicado pelo Mestre (cf. Mt 5,1-12 ou Lc6,20-31): as Bem-aventuranças.

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( * ) Prof./cons.(filos. educ. teol. ética) - fesomor2@gmail.com

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