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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A SAGRADA FAMÍLIA - Ano A

A SAGRADA FAMÍLIA FOGE PARA O EGITO
29 de Dezembro de 2013

Evangelho - Mt 2,13-15.19-23



            Um anjo aparece em sonho a José, e o avisa dos perigos iminentes, assim como as providências que ele precisa tomar. É a comunicação divina direta com José. É Deus Pai intervindo para salvar a vida de Deus Filho contra as maquinações de Herodes, que já sabia do nascimento do Menino Jesus, e de seus poderes celestiais. Portanto, ele sentindo-se ameaçado em seus poderes terrenos, ficou inquieto, tenso, e decidido a fazer qualquer coisa para anular a existência desse Menino poderoso que estava para vir ao mundo. Continua...


           
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1ª leitura - Eclo. 3,3-7.14-17a
Muitos judeus não moravam na Palestina e estavam perdendo suas tradições religiosas e culturais e assimilando a cultura e o modo de pensar de um povo estrangeiro. Este livro pretende ajudar estes judeus da diáspora a recuperar suas raízes e sua identidade, sua cultura e sua religião. O trecho que estamos lendo é um comentário do 4º mandamento: "Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dará (Ex 20,12). Este mandamento traz uma promessa: a de ter uma vida longa. O texto acrescenta mais duas promessas: o atendimento às orações (v. 5) e o perdão dos pecados (v. 3 e 14). É bom lembrar que o judeu alcançava o perdão dos seus pecados com um sacrifício oferecido no templo de Jerusalém. Agora, o autor sagrado apresenta uma novidade, mostrando o perdão não através do habitual rito exterior do sacrifício do Templo, mas através de uma atitude interior do profundo amor, respeito e dedicação aos pais. É uma grande novidade evangélica para um povo que morava em outro país, longe do Templo. Podemos lembrar ainda outras exortações do texto. Honrar pai e mãe é: ajuntar tesouros e garantir a alegria dos filhos. Para quem tem pais idosos uns conselhos especiais: amparar, não lhes causar desgostos, ser compreensivo, não humilhá-los. Deus não esquece o carinho e a atenção que dedicamos aos nossos pais.
2ª leitura – Cl. 3,12-21
O relacionamento na comunidade
O fundamento de tudo o que nós vamos ler neste texto está no nosso batismo (cap. 2). O batismo é morte e ressurreição com Cristo. Morte para tudo o que conduz à morte e ressurreição para tudo o que conduz à vida (3,1ss). Pelo batismo nos tornamos o "povo santo de Deus, escolhido e amado". Aqui o autor expõe toda a sua exortação. O 1º ponto forte é a misericórdia acompanhada daquilo que a caracteriza: bondade, humildade, mansidão, paciência e perdão. O modelo da misericórdia e do perdão a imitar é o próprio Cristo. Para destaque poderíamos colocar como 2º ponto o amor, porque o amor provoca a união perfeita, o amor cobre uma multidão de pecados (1Pd. 4,8), o amor é a plenitude da lei. Um 3º ponto é a paz de Cristo, que deve ser a rainha do coração do cristão. Os cristãos são membros de um só corpo. Os membros do corpo não podem conviver em desavença.
O relacionamento na família
Há uma exortação especial para cada membro da família cristã. Para as esposas a docilidade e o amor. Para os esposos o amor-doação e a delicadeza ("não sejam grosseiros"). Para os filhos a obediência. Para os pais o cuidado de não irritarem os filhos. Os pais nunca devem ser motivo de desânimo para os filhos, mas de estímulo e de coragem para que eles possam viver profundamente seu batismo.
Evangelho - Mt. 2,13-15.19-23
Fuga para o Egito
No texto de hoje, o meio de Deus se manifestar a José é através de sonhos (vv. 13.19). Os sonhos são, de fato, "a janela da alma de uma pessoa", lugar sagrado das manifestações de Deus e do encontro das pessoas com Deus. É assim que pensa o povo da Bíblia. Por trás do episódio de hoje temos a descida de Jacó ao Egito (Gn 46,1-4) como também as ameaças do Faraó contra Moisés (Ex. 4,9). Sob as ordens do anjo do Senhor, a Sagrada Família deve emigrar para o Egito, pois Herodes quer matar o Menino Jesus. Depois da morte de Herodes, eles devem retornar. Percebe-se no texto de hoje uma clara inversão. O Egito opressor se torna terra de refúgio, e a Terra Prometida virou Egito opressor, pois é na Judéia que mora o "novo faraó" - O rei Herodes, que está transformando o país num lugar de escravidão e morte. Jesus, para Mateus, é o novo Moisés, que libertará o povo da opressão: "Do Egito chamei meu filho".
Retorno para Nazaré
Obediente à palavra do anjo, José retorna com Jesus e Maria. Sabendo que Arquelau ocupou o lugar do seu pai Herodes, José teve medo de ir para lá, pois Arquelau herdou a maldade e a crueldade de seu pai. Ele se dirige, então, para Nazaré, na Galiléia (22-23a).
As profecias se cumprem: "Ele será chamado Nazareno"
Quais são as profecias? Aqui está um problema, pois esta frase não se encontra no Primeiro Testamento. Talvez as profecias sejam relacionadas com todas as possibilidades da raiz hebraica da palavra Nazareno. Assim poderíamos citar (Jz. 13,5.7): "nazir" = consagrado: Jesus é o consagrado por Deus para a libertação do povo. Is. 11,1: "necer" = broto. Jr 23,5;33,15: "çemah" = germe. Nestes últimos dois textos, Jesus seria a árvore da vida, aquele que traz vida para todos. Is 42,6;49,8: "naçar" = guardar, daí "naçur" = resto. Jesus assume e guarda o "resto" do povo, os pobres e excluídos que esperam a libertação. Assim, para Mateus, Jesus é o novo Moisés, consagrado por Deus para libertar seu povo, considerado o resto de Israel, povo sofrido e excluído. Jesus vai trazer vida para todos.
dom Emanuel Messias de Oliveira
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A superação das dificuldades familiares
A Sagrada Família – Jesus, Maria e José – é o modelo da família cristã. Esta afirmação é mais que conhecida. A Igreja, nos últimos anos, tem tocado nessa tecla com muita insistência, ao mesmo tempo tem defendido a família enquanto realidade constituída por um homem e uma mulher com os seus filhos. Sinceramente, eu não gosto de chamar a essa realidade de “família tradicional”, pois poderia dar a entender que existe outro tipo de família. A família constituída como Deus quis e como a natureza das coisas pede é, simplesmente, a família.
A família cristã tem o seu modelo na família de Nazaré e, como acabamos de escutar na missa de hoje, se trata de viver perto de Deus, ao lado de Deus e ao lado dos demais, com muitas alegrias e… com algumas dificuldades! Imagino uma coisa que talvez pareça um absurdo: se José não fosse um homem de fé e de fortaleza humana, teria entrado numa grande depressão.
José, jovem e bem vistoso, estaria verdadeiramente enamorado pela jovem Maria, que seria também muito bonita. Desposado com Maria, mas ainda não vivendo juntos, José estaria animado e alegre na preparação do grande dia em que receberia a sua esposa em sua casa. Estando nessas coisas do coração, de repente fica sabendo que Maria estava grávida. Mas, como? Um anjo lhe aparece e lhe explica o mistério: “o que nela foi concebido vem do Espírito Santo” (Mt. 1,20), logicamente sem nenhuma cópula carnal. José se submete aos planos de Deus, está contente, mas… pouco tempo depois… uma nova contrariedade! Terá que descer com sua esposa do norte ao sul, de Nazaré a Belém para alistar-se, porque assim tinha determinado César Augusto. Maria estava grávida e a viagem era larga. Muito mais agradável teria sido ficar lá, em Nazaré, e preparar o nascimento do menino por lá mesmo. Nascido Jesus nas condições de pobreza em que se encontravam, as quais devem ter sido uma nova contrariedade para o coração sensível de José, agora… deve fugir. Fugir? Sim, e além do mais para o estrangeiro, para o Egito, o pais da escravidão do povo de Israel. E lá vai José! Ele não fala nada, não protesta e obedece sempre ao querer de Deus.
Nós poderíamos seguir meditando nas contrariedades padecidas por aquele santo guardião de Jesus e de Maria, no entanto já é suficiente para que aumente a nossa consciência de que as contrariedades são uma benção de Deus: nos ajudam a amadurecer, nos fazem mais disponíveis, matam o nosso egoísmo e orgulho e faz crescer a caridade em nós. Tudo isso pode ser real se deixarmos que Deus trabalhe conosco e em nós.
Como é importante que paremos de lamentar: uma vez por que a comida está sem sal; outra, por que a camisa ficou mal passada; naquela outra ocasião, por que riram de mim; noutra ainda, por que não escutaram os meus argumentos. Enfim, o que está claro é que nessas ocasiões fazemos de nós mesmos o centro das atenções, e por isso sofremos. Talvez um dos segredos da felicidade de são José seja o fato de que ele não ficava pensando nas próprias contrariedades enquanto tais, o que queria aquele homem santo era fazer felizes a Maria e a Jesus, o que o fazia sofrer era ver que os outros poderiam ter um desgosto. Era um homem esquecido de si mesmo. Em toda a Sagrada Escritura não lemos uma só palavra de protestação do justo José. E tinha motivos para lamentar-se, para protestar, para estar estressado. Mas não! Era um homem que amava a vontade de Deus e que estava totalmente ao serviço dos demais. Eis aqui o segredo da felicidade, também da felicidade na família.
padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa
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Aprender as lições de Nazaré
No domingo após o Natal celebra-se a festa da Sagrada Família Jesus, Maria e José. Deus quis manifestar-se aos homens integrado numa família humana. Ele quis nascer numa família, quis transformar a família num presépio vivo. Pode-se dizer que hoje celebramos o verdadeiro Dia da Família!
A Palavra de Deus em (Eclo. 3,3 – 7.14–17) lembra aos filhos o dever de honrarem pai e mãe, de socorrê-los e compadecer-se deles na velhice, ter piedade, isto é, respeito e dedicação para com eles; isto é cumprimento da vontade de Deus.
São Paulo, em Cl. 3,12–21, enumera as virtudes que devem reinar na família: sentimentos de compaixão, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportar-se uns aos outros com amor, perdoar-se mutuamente. Revestir-se de caridade e ser agradecidos. Se a família não estiver alicerçada no amor cristão, será muito difícil a sua perseverança em harmonia e unidade de corações. Quando esse amor existe, tudo se supera, tudo se aceita; mas, se falta esse amor mútuo, tudo se faz sumamente pesado. E o único amor que perdura, não obstante os possíveis contrastes no seio da família, é aquele que tem o seu fundamento no amor de Deus.
A Sagrada Família é proposta pela Igreja como modelo de todas as famílias cristãs: na casinha de Nazaré, Deus ocupa sempre o primeiro lugar e tudo Lhe está subordinado.
Os lares cristãos, se imitarem o da Sagrada Família de Nazaré, serão lares luminosos e alegres, porque cada membro da família se esforçará em primeiro lugar por aprimorar o seu relacionamento pessoal com o Senhor e, com espírito de sacrifício, procurará ao mesmo tempo chegar a uma convivência cada dia mais amável com todos os da casa.
A família é escola de virtudes e o lugar habitual onde devemos encontrar a Deus.
Cada lar cristão tem na Sagrada Família o seu exemplo mais cabal; nela, a família cristã pode descobrir o que deve fazer e como deve comportar-se, para a santificação e a plenitude humana de cada um dos seus membros. Diz o papa Paulo VI: “Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e a penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa muito simples, muito humilde e muito bela manifestação do Filho de Deus entre os homens. Aqui se aprende até, talvez insensivelmente, a imitar essa vida”.
A família é a forma básica e mais simples da sociedade. É a principal escola de todas as virtudes sociais. É a sementeira da vida social, pois é na família que se pratica a obediência, a preocupação pelos outros, o sentido de responsabilidade, a compreensão e a ajuda mútua, a coordenação amorosa entre os diversos modos de ser. Está comprovado que a saúde de uma sociedade se mede pela saúde das famílias. Esta é a razão pela qual os ataques diretos à família (como divórcio, aborto, união de pessoas do mesmo sexo) são ataques diretos à própria sociedade, cujos resultados não tardam a manifestar-se.
O Messias quis começar a sua tarefa redentora no seio de uma família simples, normal. O lar onde nasceu foi a primeira realidade humana que Jesus santificou com a sua presença.
Hoje, de modo muito especial, pedimos à Sagrada Família por cada um dos membros da nossa família e pelo mais necessitado dentre eles. Maria, Rainha da Família, rogai por nós!
mons. José Maria Pereira
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Ben-Sira 3, 3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14)
Esta leitura é extraída da Sabedoria de Jesus Ben Sira, título grego do livro do A.T. mais lido na Liturgia, depois do Saltério, o que lhe veio a merecer, na Igreja latina, o nome de Eclesiástico, como já lhe chama no séc. III S. Cipriano. O autor inspirado escreve pelo ano 180 a. C., quando a Palestina acabava de passar para o domínio dos Selêucidas (198). Então, a helenização, favorecida pelas classes dirigentes, começava a tornar-se uma sedução para o povo da Aliança, com a adopção de costumes totalmente alheios à pureza da religião. Perante tão perigosa ameaça, Ben Sira vê na família o mais poderoso baluarte contra o paganismo invasor. Assim, os seus ensinamentos vão insistentemente dirigidos aos filhos, e estes são continuamente exortados a prestar atenção às palavras do pai.
O nosso texto é um belíssimo comentário inspirado ao 4º mandamento do Decálogo (Ex. 20, 12; Dt. 5, 16), concretizando alguns deveres: o cuidado com os pais na velhice (v. 14a); não lhes causar tristeza (v. 14b); ser indulgente para com eles, se vierem a perder a razão (15a); nunca os votar ao desprezo (15b).

Segunda leitura - Colossenses 3,12-21
A leitura é tirada da parte final da carta, a parte parenética, ou de exortação moral, em que o autor fundamenta a vida moral do cristão na sua união com Cristo a partir do batismo: trata-se duma «vida nova em Cristo».
12-15 - Temos aqui a enumeração de uma série de virtudes e de atitudes indispensáveis à vida doméstica, diríamos nós agora, para que ela se torne uma imitação da Sagrada Família de Nazaré. Estas virtudes são apresentadas com a alegoria do vestuário, como se fossem diversas peças de roupa, que, para se ajustarem bem à pessoa, têm de ser cingidas com um cinto, que é «a caridade, o vínculo da perfeição». Na linguagem bíblica, «revestir-se» não indica algo de meramente exterior, de aparências, mas assinala uma atitude interior, que implica uma conversão profunda.
18-21 - O autor sagrado não pretende indicar aqui os deveres exclusivos de cada um dos membros da família, mas sim pôr o acento naqueles que cada um tem mais dificuldade em cumprir; com efeito, o marido também tem de «ser submisso» à mulher, e a mulher também tem de «amar» o seu marido.

Evangelho: Mateus 2,13-15.19-23
13 - «Foge para o Egito e fica por lá até que eu te diga». Eis o comentário da homilia de são João Crisóstomo, pondo em evidência a fé, obediência e fidelidade de são José, o chefe da Sagrada Família: «Ao ouvir isto José não se escandalizou nem disse: isto parece um enigma! Tu próprio, ainda não há muito, dizias-me que Ele salvaria o seu povo, e agora não é capaz de se salvar nem sequer a si mesmo, mas até temos necessidade de fugir, de empreender uma viagem, uma longa deslocação; isto é contrário à tua promessa! Mas não diz nada disto, porque José é um varão fiel. Também não pergunta pela data do regresso, apesar de o Anjo a ter deixado indeterminada, pois lhe tinha dito: fica lá até que eu te avise. Não obstante, nem por isso levanta dificuldades, mas obedece e crê e suporta todas as provações com alegria. É bem verdade que Deus, amigo dos homens, mistura mágoas e alegrias, procedimento que adota com todos os santos. Porém, nem as penas nem as consolações no-las envia ininterruptamente, mas com umas e outras Ele vai tecendo a vida dos justos. Isto mesmo fez com são José».
15 - «Para se cumprir o que o Senhor anunciara…» Se bem que o sentido literal imediato que o profeta Oseias pôs nestas palavras (Os 11, 1) dissesse respeito a Israel o povo, filho de Deus que o Senhor liberta e chama do Egito, a verdade é que o Evangelista, inspirado por Deus, descobre naquela passagem um sentido mais profundo que Deus quis para aquelas palavras de Oseias: «do Egito chamei o meu Filho». Esta atualização do texto do A. T. é vista por uns como um sentido típico,isto é, uma figura do chamamento de Jesus; por outros, como um sentido pleno, isto é, mais profundo, já contido nas palavras do profeta, sem que este se apercebesse dele, mas querido por Deus ao inspirar o texto.
20 - «Pois aqueles… já morreram». Com o plural de generalização é designado Herodes, o Grande, tão grande pelas suas construções, como pela sua crueldade. Não há dúvida de que estas referências a Arquelau e Herodes por parte do Evangelista são um valioso indício humano do valor histórico do relato. Aqui não aparece nada de fantástico, tudo tem naturalidade e verosimilhança: a morte dum tirano não aparece como um castigo divino, como é próprio de relatos lendários. É certo que a medida de matar os inocentes de Belém era descabida e inadequada, mas coaduna-se com a crueldade de Herodes e com a arbitrariedade dum tirano que num acesso de fúria faz o que lhe vem à cabeça só para satisfazer a sua ira.
23 - «Há-de chamar-se Nazareno». São Mateus, sabendo como o título de Nazareno usado pelos judeus incrédulos tinha uma decidida intenção de vexame (cf. At. 24,5) para Jesus e para os cristãos e dado que Nazaré era uma aldeia insignificante e de mau nome (cf. Jo 1,46), quis deixar ver como afinal o ser apodado do humilhante titulo de Nazareno era mais uma prova de que Ele era o Messias, cumprindo assim as profecias. Se é certo que não há nenhuma passagem do Antigo Testamento que fale do Messias como Nazareno, há algumas que se referem às humilhações a que o Messias será sujeito (Sal 22 (21); Is. 53,2 ss; etc.) e, sobretudo, há outras profecias que o anunciam como «o rebento (em hebraico nétser) de Jessé», pai de David (Is 11, 1; Zac 3, 8; 6, 12; etc.); para os destinatários do 1.º Evangelho, cristãos de origem judaica, esta referência era clara, dada a perfeita equivalência entre «nétser», «rebento», e «notsri», «nazareno» (na literatura judaica Jesus é chamado: Yexu-ha-notsri); S. Mateus recorreu a uma técnica (deraxe) de interpretação rabínica, chamada «al-tiqrey» («não leias»), entenda-se, com umas vogais (as vogais da palavra nétser, rebento), mas com outras vogais (as vogais da palavra «notsri», nazareno), tendo em conta que em hebraico não se escrevem as vogais, mas apenas as consoantes, variando o sentido das mesmas palavras conforme as vogais com que as palavras sejam lidas.

Sugestões
Somente a pessoa humana nasce e cresce numa família, e conserva esta relação por toda a vida. Com os animais não acontece o mesmo. Ao fim de poucos dias ou semanas, a relação termina.
A razão está em que a nossa vocação é uma vida em comunhão eterna no Céu, com a Santíssima Trindade, com os anjos e com todas as pessoas que alcançam a bem-aventurança.
Na família, o Pai do Céu ajuda-nos a preparar e a ensaiar essa comunhão que viveremos para sempre no Céu.
Comecemos por agradecer ao Senhor o carinho e ajuda que encontramos na nossa família.
A família, um dom de Deus a cada pessoa
João Paulo II, disse no Sameiro, em 15 de maio de 1982, e repetiu-o, depois, muitas vezes, que o destino do mundo passa pela família. Hoje, passados 25 anos, vemos com os nossos olhos a realidade desta afirmação profética.
Numa ordem de valores, primeiro está a pessoa humana, com a sua vocação à eternidade feliz, depois, a família, ao serviço das pessoas e, finalmente, o Estado e a Igreja.
O Estado só tem razão de ser na medida em que existe para ajudar a família e, por ela, cada pessoa humana, a alcançar a sua vocação eterna.
Instituição divina. «Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe.»
Foi Deus quem instituiu a família, como célula da sociedade civil, «Igreja doméstica» ao formar o primeiro par humano.
Deste modo, a aliança do homem e da mulher no matrimónio, tornou-se a base sobre a qual assenta a família, e o único modo querido por Deus para chamar filhos à vida e recebê-los das mãos de Deus.
Não há outras formas de constituir família que não seja a que se funda nesta aliança perpétua entre um homem e uma mulher, em ordem a receber de Deus o dom dos filhos.
Deus enriqueceu a família com uma Lei. «Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra a sua mãe.»
Todo o relacionamento entre os pais e os filhos e destes entre si concentra-se na virtude da piedade.
Esta virtude desdobra-se em três:
– Amor. Cada filho tem para com os seus pais uma dívida imensa de amor. Quem poderia contabilizar a generosidade, a paciência, o carinho e as dimensões da doação dos pais para com os filhos?
Os pais são a primeira manifestação da paternidade divina aos filhos. Dão-lhes tudo o que têm e podem, e nada mais esperam e desejam do que verem os filhos realizados e felizes.
Este amor deve ser retribuído com um amor generoso, não só no tempo em que os filhos permanecem em casa, mas por toda a vida.
– Respeito, ou reverência. É uma das facetas deste amor e carinho. São pessoas que nos merecem toda a veneração e amor, crescendo à medida que a idade vai avançando.
Há também uma diferença de idade que deve ser respeitada, mesmo quando os pais já perderam a capacidade de se fazerem respeitar. «Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida.»
É verdade também que este respeito mútuo se deve ir semeando na vida de família pela vida fora.
Ele tem valor de oração. «Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração.»
– Obediência. Os pais são investidos por Deus na autoridade da família, e nunca podem nem devem abdicar dela.
Quando Jesus desceu com Seus pais para Nazaré, era-lhes submisso, obediente.
Por outro lado, hão-de ter presente que, quando Jesus quis explicar aos Apóstolos em que consistia a autoridade, retirou a túnica, para não a manchar, tomou uma bacia de água e uma toalha, e lavou-lhes os pés. Depois, acrescentou: «Compreendestes o que Eu fiz? Assim como Eu vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.»
A virtude da piedade há-de viver-se também para com os Pastores da Igreja, que se ofereceram a Deus para servirem os seus irmãos na fé.
A família, fonte de alegria e escola de virtudes. Quando se vive com esta exigência a vida de família, as pessoas são felizes. Mas basta uma só pessoa não dar a sua ajuda, para perturbar todos os outros (como num coro, ou numa orquestra, basta uma só pessoa desafinar para estragar o trabalho dos outros).
Por isso, podemos dizer que a construção da família, por meio deste esforço mútuo, é um trabalho de todos os dias e de cada momento.
A família é, de fato, a primeira e indispensável escola das nossas virtudes humanas e da fé. Ali aprendemos o dialogo, o respeito pelos outros, o espírito de serviço, a gratidão, e a fé.
Para a boa harmonia familiar. São Paulo, na carta aos fiéis de Colossos, dá-lhes algumas orientações para que reine a paz e a harmonia e cada uma das famílias.
– Recomenda-lhes: «revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência.» Precisamos estar muito atentos às tentações de intolerância, de farisaísmo que nos leva andar à procura dos defeitos dos outros para os censurar.
– Acolhimento mútuo e compreensão, quando algum sente mais dificuldades. «Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra o outro.»
– Sobretudo, esta vida só é possível se é alimentada pela formação doutrinal. «Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros, com toda a sabedoria.»
– Recomenda também a oração em família. «e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão.»
(Um pintor oriental imaginou deste modo o Céu e o inferno: ao pintar um quadro de cada, colocou em cada um deles um tacho de arroz a fumegar, pessoas em toda a volta, tendo cada uma delas uma colher comprida atada ao braço, de tal modo que lhe era impossível meter a comida na própria boca.
Os do céu estavam alegres e bem nutridos; os do inferno, magros e com cara de ódio. Qual o segredo?
Enquanto cada um dos bem-aventurados do céu enchia a colher de arroz e a metia no colega que tinha em frente, cada um dos condenados do inferno tentava desesperada e inutilmente meter a colher de arroz na própria boca. De fato, onde reina o egoísmo, ninguém é feliz.)
A ajuda dos pais aos filhos
O Evangelho ensina-nos como devem atuar os pais em relação aos filhos, para os conduzirem ao Céu.
Exemplo de piedade. «Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa. Quando ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa.»
Não podem, de fato, limitar-se a serem para os filhos, placas de sinalização: indicam a direção em que se há-de caminhar, mas ficam paradas no mesmo lugar onde estão.
Co-responsabilidade do pai e da mãe. Quando regressavam, deram pela falta do Menino e foram os dois à Sua procura.
Foi um trabalho extenuante, porque O procuraram durante três dias. Os pais que alguma vez tiveram problemas com os filhos compreendem melhor esta angústia.
Aqui, nenhum dos três teve qualquer culpa do que se passou, com o nos explica são Lucas, no Evangelho.
Pedir contas do que se passa com os filhos. Nossa Senhora, embora com todo o carinho, pediu contas a Jesus do que se tinha passado. «Filho, porque procedeste assim conosco?»
Os pais não podem esconder a cara entre as mãos e ignorar o que se passa com cada filho. A liberdade, concedida gradualmente, deve ir acompanhada da responsabilidade; e esta consegue-se quando pedimos contas do dinheiro, dos passos andados, etc.
Não se pode entregar dinheiro e a chave da porta a um filho, sem, depois, lhe pedir contas de tudo isto. Seria uma falta de amor não o fazer.
Os filhos são tesouros que Deus confia aos pais para que os preparem e defendam para a Vida Eterna.
Fomentar a vida em família. Cada um deve tomar consciência de que a família, seja qual for a idade, não pode reduzir-se apenas a uma pensão onde comemos e dormimos. «Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.»
Promover o crescimento. O Evangelho resume trinta anos de vida oculta de Jesus: «E Jesus crescia em idade, em sabedoria e em graça, diante de Deus e dos homens.»
O crescimento em idade é acompanhado da adaptação às diversas fases da vida, com acompanhamento cuidadoso dos pais.
O crescimento em sabedoria abrange desde o aprender a falar, a andar, a conviver com os outros, até aos mais altos graus do saber humano.
Crescer em graça: fomenta-se com o ensino da doutrina e frequência dos sacramentos.
A celebração dominical da eucaristia, alimento da vida de família. A Igreja é a família dos filhos de Deus que se reúne em cada semana para ouvir a Palavra de Deus, falar com Ele, e celebrar uma refeição comum em que o próprio Jesus é o alimento.
Devemos preparar este encontro com alegria, procurando comparecer na graça de Deus e agradecendo ao Senhor este convite que nos faz.
Maria, Mãe da Igreja e de cada um de nós, ajudar-nos-á a melhorar cada vez mais as nossas famílias.

Estimados irmãos e irmãs
Neste último domingo do ano celebramos a festa da Sagrada Família de Nazaré. […] No Evangelho não encontramos discursos sobre a família, mas uma admoestação que vale mais do que toda a palavra: Deus quis nascer e crescer numa família humana. Deste modo consagrou-a como caminho primário e efectivo do seu encontro com a humanidade. Na vida transcorrida em Nazaré, Jesus honrou a Virgem Maria e o justo José, permanecendo submetido à sua autoridade por todo o tempo da sua infância e adolescência (cf. Lc 2,51-52). Deste modo, lançou luz sobre o valor primordial da família na educação da pessoa. De Maria e José, Jesus foi introduzido na comunidade religiosa, frequentando a sinagoga de Nazaré.
Com eles, aprendeu a fazer a peregrinação a Jerusalém […]. Quando tinha doze anos, permaneceu no Templo, e os seus pais empregaram três dias para o encontrar. Com aquele gesto, fez-lhes compreender que Ele se tinha de «ocupar das coisas do seu Pai», ou seja, da missão que o Pai lhe confiara (cf. Lc. 2,41-52).
Este episódio evangélico revela a mais autêntica e profunda vocação da família: isto é, a de acompanhar cada um dos seus componentes pelo caminho da descoberta de Deus e do desígnio que Ele lhe predispôs. Maria e José educaram Jesus, em primeiro lugar, com o seu exemplo: nos seus pais, Ele conheceu toda a beleza da fé, do amor a Deus e à sua Lei, assim como as exigências da justiça, que encontra o seu pleno cumprimento no amor (cf. Rm 13, 10). Deles aprendeu que antes de tudo é necessário realizar a vontade de Deus, e que o laço espiritual vale mais que o vínculo do sangue. A Sagrada Família de Nazaré é verdadeiramente o «protótipo» de cada família cristã que, unida no Sacramento do matrimónio e alimentada pela Palavra e pela Eucaristia, é chamada a realizar a maravilhosa vocação e missão de ser célula viva não apenas da sociedade, mas da Igreja, sinal e instrumento de unidade para todo o gênero humano. […] Bento XVI, Angelus, 31 de dezembro de 2006
Celebração  Litúrgica - www.presbiteros.com.br
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A família ontem e hoje
A família atual e a do passado, mesmo recente, têm algumas diferenças, não? Antes da expansão da televisão, do telefone celular e do consumo de drogas, o ambiente familiar era outra coisa. São mudanças que muitos de nós experimentamos.
E se pensarmos na época dos avós, dos bisavós ou bem antes ainda, quando não havia meios de comunicação a distância como rádio, televisão, telefone, não havia estradas nem transporte motorizado, a produção era apenas agrícola e artesanal, não havia indústrias nem forte comércio?
A grande maioria da população de então morava na zona rural, cada família no seu pedaço de terra, quase totalmente isolada. Ali a autoridade era dos mais velhos, os guardiões das tradições e dos costumes da família. Aos mais moços só competia respeitá-los e obedecer-lhes. O que acontecia fora não era conhecido ou não tinha importância: “Na nossa família, é assim e pronto!”
Algo de valor e importância era o número de filhos: quanto maior a família, mais ela se sentia valorizada. Se as bocas eram muitas, eram também muitos os braços, principalmente dos homens, para trabalhar. A mulher, como obtinha menor rendimento no trabalho braçal, não tinha sua importância suficientemente reconhecida.
A festa de hoje nos faz pensar nisso tudo. Embora a realidade tenha mudado muito, os valores de que a família de Jesus, Maria e José é exemplo permanecem para sempre.
1ª leitura (Eclo. 3,3-7.14-17a)
O texto supõe a família patriarcal, a tribo ou o clã onde os filhos casados viviam com os velhos pais. Ela é diferente da família nuclear de hoje (pai, mãe e filhos ou mesmo apenas mãe e filho ou pai e filho).
Os livros chamados sapienciais são coleções de normas do saber viver, são reflexões baseadas no bom senso ou senso comum, carregadas geralmente de forte sabor popular. Quem dá as instruções é um mestre da sabedoria chamado muitas vezes de pai, como ocorre na introdução dessas instruções sobre a vida em família.
O texto começa relembrando a autoridade do pai e da mãe, que não são exatamente os pais de uma família nuclear, porque logo após (v. 6) se supõe que aquele que “honra o próprio pai” também já tem filhos. Pai e mãe são os mais velhos do clã ou da tribo, são os chefes da grande família.
A segunda parte da leitura vai tratar exatamente desses mais velhos, quando o peso dos anos começa a provocar algum tipo de demência senil. Hoje os pais ou os avós moram sozinhos ou estão no asilo, enquanto naquela época estavam no meio da grande família e deviam ser os mais venerados e respeitados.
Mesmo assim, todos os conselhos e orientações dados para aquele tempo, nas devidas proporções, ainda servem para hoje.
2ª leitura (Cl. 3,12-21)
Respondendo aos problemas das religiões cósmicas, segundo as quais os anjos que conduzem os astros é que governam o mundo, a epístola aos Colossenses afirma com clareza e insistência a supremacia de Cristo, existente antes de tudo e por quem tudo foi feito. Ele é que governa o mundo.
Agora, na parte parenética ou de conselhos e orientações diversas, o autor não perde de vista o que afirmou a respeito do Cristo como centro de tudo. Os conselhos que dá podem parecer muito semelhantes aos que qualquer filósofo estoico daria; o autor de Colossenses, porém, enfatiza sempre que tudo seja feito “em Cristo” ou “no Senhor”.
Depois dos conselhos gerais, cuja prática no seio das famílias é ainda hoje importantíssima, o autor parte da vocação cristã, insistindo na compaixão, compreensão, tolerância e misericórdia entre uns e outros e lembrando que isso se faça no seguimento de Cristo.
Em seguida, dá conselhos dirigidos a cada membro da família, para o bom relacionamento de uns com os outros. A epístola aos Efésios, que parece ser apenas uma ampliação desta, desenvolve a ideia da submissão das esposas, “como convém, no Senhor”, apresentando como modelo a submissão da Igreja a Cristo, seu esposo.
Como é a submissão das comunidades cristãs, dos grupos de reflexão, a Jesus Cristo? Dá-se na busca de entender e seguir cada dia melhor a sua palavra, no esforço para agradar ao Senhor em tudo. Assim deve ser a esposa com relação ao esposo, do mesmo modo que, não há dúvida, deve ser o esposo com relação à esposa.
Aos esposos, contra a tendência natural de uma sociedade machista, manda que sejam delicados com suas esposas. Aos filhos, recomenda obediência e aos pais, que não sejam ranzinzas com os filhos.
Evangelho (Mt. 2,13-15.19-23)
O evangelho fala das dificuldades da família-modelo. Não importam aqui outros significados dessa fuga para o Egito; o significado que a liturgia dá à narrativa do Evangelho de Mateus é que se trata de uma família, um casal e um filho. É uma família pobre e perseguida, mas é família e é modelo.
O filho é o grande tesouro que essa família protege. Esse tesouro se parece com Moisés, que também escapou da matança das crianças e, mais tarde, teve também de fugir. No Evangelho de Mateus, Jesus é o novo Moisés, que dá a nova lei: a Lei de Moisés nos cinco livros do Pentateuco, as instruções de Jesus nos cinco discursos que se encontram no evangelho.
Jesus é o novo Jacó ou Israel, que “desceu ao Egito” com toda a sua família, ali se multiplicou e, saindo do Egito, foi se apossar da terra de Canaã. “Do Egito chamei o meu filho”, dizia o profeta Oseias, referindo-se ao êxodo dos hebreus. A palavra aplicada pelo evangelho a Jesus vai lembrar que ele será o fundador do novo Israel. Aqui, agora, “meu Filho” significa bem mais do que lembrar que Deus é o pai do povo de Israel.
Quando a família volta para Nazaré, o evangelista cita como passagem bíblica a frase “ele será chamado nazareno”. Os especialistas não encontram essa frase tal e qual no Primeiro Testamento. Seria uma adaptação da frase encontrada no anúncio do nascimento de Sansão: “Ele será chamado nazir”? Nazir era o consagrado a Deus que nunca tomaria bebida alcoólica nem cortaria o cabelo. Seria uma adaptação da palavra nezer, que significa rebento e, com base em Is. 11,1, era vista como um título do Messias?
O que mais importa da leitura deste evangelho na festa de hoje é que Jesus teve uma família, uma família pobre e perseguida por causa da ameaça que o Menino representava para os poderosos do mundo. Nas situações mais adversas, essa família é modelo para todas as famílias de hoje.
DICAS PARA REFLEXÃO
Em nossos ambientes atuais, muitos encontrariam dificuldade em chamar de família um casal de migrantes sem casa e sem trabalho, que chega trazendo um bebê recém-nascido. E não é essa a Sagrada Família apresentada hoje como modelo para todas as nossas famílias?
Se, no passado, família significava uma tribo ou clã unido pela autoridade dos mais velhos, todos morando juntos, hoje só moram sob o mesmo teto, quando muito, pai, mãe e filhos. Os tios moram longe, os avós estão no asilo, e mesmo os que moram sob o mesmo teto raramente estão todos juntos.
Na família atual ainda há alguma comunhão de bens, há solidariedade, há partilha, o que contrasta fortemente com o individualismo próprio do capitalismo e da sociedade de consumo vigentes. Esses valores, que ainda se podem ver nas famílias, devem ser preservados e exaltados, por sua força de transformação, por sua capacidade de mostrar a viabilidade de outro sistema de organização social.
Hoje a família se sente esfacelada pelas condições de trabalho, quando cada um é forçado a sair de casa num horário; pela influência dos meios de comunicação, janela aberta para coisas boas, mas principalmente para muito do que há de perverso no mundo; pela agitação das diversões, quando não pelas drogas e pela violência. Aí enorme tarefa nos aguarda.
A eucaristia começou numa refeição familiar. A ceia da Páscoa se fazia por família, um grupo suficiente apenas para comer a carne de um cordeiro de um ano. A memória da libertação do Egito era feita com a participação do filho mais novo e do pai.
Jesus é o cordeiro sacrificado. Sua morte nos liberta da cobiça. A partilha do pão e do vinho pretende fazer da humanidade uma só família em torno da mesma mesa.
padre José Luiz Gonzaga do Prado - www.paulus.com.br
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Notas:
1. Lv. 19,14: não falar mal do surdo nem pôr tropeço no caminho do cego, mas temer a Deus. Lv. 19,32: respeitar os idosos, ter o temor de Deus. Lc. 18: o juiz que não atende aos reclamos da viúva porque não tem temor de Deus.
2. O termo grego usado significa raptar, tomar com violência.

Famílias que buscam a santidade
Segundo o evangelista Mateus, logo após o nascimento de Jesus, uma tormenta veio sacudir as famílias de Belém. Herodes deu ordem para que fossem mortos todos os meninos recém nascidos. O rei tinha sido notificado de que nascera uma criança com a qualidade da realeza e temia que ela viesse a tirar o seu lugar... Com medo de perder o poder teria cometido esse crime da morte dos inocentes. José e Maria precisarão fugir para o Egito. Uma família vive alegrias, mas também tribulações e passa por turbulências inesperadas como esta.
Colocar uma criança no mundo é uma decisão cheia de consequências. O filho que chega não dá mais sossego. Será preciso cuidar de sua saúde, do alimento, da proteção, da escola... Assim, como a família sagrada, logo depois do nascimento da criança teve que fugir para o Egito, assim nossas famílias, cada uma de seu jeito, têm os desafios da educação, da proteção e do encaminhamento dos filhos e, no caso das famílias cristãs, na busca da santidade.
Hoje, mais do que nunca, precisamos de famílias que busquem a santidade.  Temos que ter nossos olhos fitos no ideal cristão, proposto de modo especial pelas bem-aventuranças.
Um rapaz e uma moça que querem ser discípulos do Senhor começam a sua vida conjugal com a recepção do sacramento do matrimônio. Não inauguram a aventura conjugal e familiar apenas com as luzes da natureza, mas se unem no Senhor. Desejamos sempre mais que o sacramento do matrimônio possa ser recebido com beleza, verdade e simplicidade.
Toda ostentação exagerada tira o brilho da presença de Jesus no amor de um homem. O casamento, segundo a fé cristã, concretiza na história de um homem e de uma mulher o amor de Cristo pela Igreja.
Os esposos constituem a base da Igreja doméstica. Os filhos que chegam são um dom de Deus confiados ao carinho e a zelo dos pais. Estes são também os primeiros e fundamentais catequistas dos filhos. Por isso, a casa é espaço de acolhida e de sustentação da vida, da vida que vem do seio da mulher, que precisa robustecer-se e da vida que vem de Jesus, de seu evangelho, de sua paixão, morte e ressurreição. A casa da família constitui a primeira igreja, a primeira convocação. Belamente Paulo escreve aos colossenses na leitura proclamada na liturgia: “Amai-vos uns aos outros pois o amor é vínculo da perfeição. Que a paz de Cristo reine em vossos corações, à qual fostes chamados como membros de um só corpo. E sede agradecidos. Que a palavra de Cristo, com toda sua riqueza, habite em vós (...) Do fundo do vosso coração cantai salmos, hinos, cânticos espirituais em ação de graças”. Assim, é o estilo e o jeito de uma família cristã que busca a santidade de seus membros.
“Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e lhe disse: ‘Levanta, pega o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel: pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos”.
frei Almir Ribeiro Guimarães

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Um lar para Deus morar O tempo de Natal associa ao mistério da Encarnação os temas complementares da Sagrada Família e da “Mãe de Deus”. A festa de hoje situa a Encarnação de Jesus no quadro da família, célula básica da sociedade humana. Focaliza a condição humana de Jesus e sugere algumas atitudes concretas para a vida cristã. A experiência da família de Jesus é posta como paradigma para toda vida familiar. Não se trata de encontrar “receitas moralistas” – provavelmente inadequadas à nossa sociedade -, mas de presenciarmos o mistério da família de Nazaré, para voltarmos à nossa situação, aqui e agora, imbuídos do mesmo espírito.
A 1ª e a 2ª leitura (repetidas nos anos A, B e C) apresentam códigos éticos para a família, tomados respectivamente da sabedoria do Antigo Testamento e da exortação moral do apóstolo Paulo. O evangelho, diferente em cada ano, narra cada vez um episódio dos “evangelhos da infância” de Jesus. Neste ano A, narra a fuga ao Egito e a volta para Nazaré. O cerne é o cumprimento da palavra do profeta: “Do Egito chamei o meu filho”, palavra de Os 11,1 a respeito do povo de Israel. Assim como o povo de Israel atravessou o deserto rumo à Terra da Promissão, assim também Jesus, levado por seus pais, atravessa o deserto dando cumprimento à promessa da salvação. Como o faraó matou os meninos israelitas no Egito, enquanto Moisés escapou, Herodes matou os meninos de Belém, escapando Jesus. Moisés foi educado pela própria mãe (Ex. 3,7-9), na história de Jesus os pais têm um papel insubstituível. Celebramos hoje o papel que Deus confiou aos pais de Jesus no acontecer da salvação, bem como a fé e a dedicação com que José e Maria assumiram a palavra que Deus lhes fez conhecer.
Nesta luz, as “regras da família” nas duas primeiras leituras não são apenas lições de bom comportamento, mas aspectos do mistério da humanidade de Deus. O texto de Eclo (1ª leitura), insistindo na recompensa, pode parecer “burguês”, mas prepara o que escreve Paulo, num espírito profundamente teologal: o amor entre pais e filhos é extensão e seguimento do amor que Deus tem por nós (2ª leitura, Cl. 3,12-15).
Conscientes de que viver em família é inserir-se no plano salvífico de Deus, valorizaremos positivamente as regras da vida familiar como encarnação do amor teologal. Paulo cita como exemplos a mútua ternura e “submissão” dos esposos (hoje diríamos: o assumir-se), a obediência dos filhos e o respeito dos pais para com eles. São chances de encarnar o amor de Cristo (assim interpreta Ef. 5,21-30. A nós cabe fazer isso de modo adequado à nossa situação atual.
Assim como a encarnação de Cristo eleva a natureza humana até ser capaz do divino (“capax Dei”; cf. prefácio de Natal III), sua habitação num lar humano transforma este em casa de Deus. Oxalá Deus pudesse sentir-se em casa em nossos lares!
Johan Konings "Liturgia dominical"
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A liturgia deste domingo propõe-nos a família de Jesus, como exemplo e modelo das nossas comunidades familiares… As leituras fornecem indicações práticas para nos ajudar a construir famílias felizes, que sejam espaços de encontro, de partilha, de fraternidade, de amor verdadeiro.
O Evangelho apresenta uma catequese sobre Jesus e a missão que o Pai lhe confiou; mas, sobretudo, propõe-nos o quadro de uma família exemplar – a família de Nazaré.
Nesse quadro há duas coordenadas que são postas em relevo: trata-se de uma família onde existe verdadeiro amor e verdadeira solidariedade entre os seus membros; e trata-se de uma família que escuta Deus e que segue, com absoluta confiança, os caminhos por Ele propostos.
A segunda leitura sublinha a dimensão do amor que deve brotar dos gestos dos que vivem “em Cristo” e aceitaram ser Homem Novo. Esse amor deve atingir, de forma muito especial, todos os que conosco partilham o espaço familiar e deve traduzir-se em determinadas atitudes de compreensão, de bondade, de respeito, de partilha, de serviço.
A primeira leitura apresenta, de forma muito prática, algumas atitudes que os filhos devem ter para com os pais… É uma forma de concretizar esse amor de que fala a segunda leitura.
1ª leitura – Sir 3,2-6.12-14 - AMBIENTE
O livro de Ben Sira (também chamado “Eclesiástico”) é um livro de caráter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos candidatos a “sábios” um conjunto de indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor é um tal Jesus Ben Sira, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C.
A época de Jesus Ben Sira é uma época conturbada, para o Povo de Deus. Os selêucidas dominavam a Palestina e procuravam impor aos judeus, com agressividade, a cultura helênica. Muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade”. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Neste contexto, Jesus Bem Sira – um “sábio” tradicional – escreve para preservar as raízes do seu Povo. No seu livro, apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para a felicidade.
MENSAGEM
O nosso texto apresenta uma série de indicações práticas que os filhos devem ter em conta nas relações com os pais.
A palavra que preside a este conjunto de conselhos do “sábio” Ben Sira é a palavra “honrar” (repete-se 5 vezes, nestes poucos versículos). O que é que significa, exatamente, “honrar os pais”?
A expressão leva-nos ao Decálogo do Sinai (“honra teu pai e tua mãe” – Ex. 20,12). Aí, o verbo utilizado é o verbo “kabad”, que costuma traduzir-se como “dar glória”, “dar peso”, “dar importância”. Assim, “honrar os pais” é dar-lhes o devido valor e reconhecer a sua importância; é que eles são os instrumentos de Deus, fonte de vida.
Ora, reconhecer que os pais são o instrumento através do qual Deus concede a vida deve conduzir os filhos à gratidão; e a gratidão não é, apenas, uma declaração de intenções, mas um sentimento que implica certas atitudes práticas. Jesus Ben Sira aponta algumas: “honrar os pais” significa ampará-los na velhice e não os desprezar nem abandonar; significa assisti-los materialmente – sem inventar qualquer desculpa – quando já não podem trabalhar (cf. Mc 7,10-11); significa não fazer nada que os desgoste; significa escutá-los, ter em conta as suas orientações e conselhos; significa ser indulgente para com as limitações que a idade ou a doença trazem…
Dado o contexto da época em que Ben Sira escreve, é natural que, por detrás destas indicações aos filhos, esteja também a preocupação com o manter bem vivos os valores tradicionais, esses valores que os mais antigos preservam cuidadosamente e que os mais novos, às vezes, negligenciam.
Como recompensa desta atitude de “honrar os pais”, Jesus Ben Sira promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus.
ATUALIZAÇÃO
¨ Sentimo-nos gratos aos nossos pais porque eles aceitaram ser, em nosso favor, instrumentos do Deus criador? Lembramo-nos de lhes demonstrar a nossa gratidão?
¨ Apesar da sensibilidade moderna aos direitos humanos e à dignidade das pessoas, a nossa civilização cria, com frequência, situações de abandono, de marginalização, de solidão, cujas vítimas são, muitas vezes, aqueles que já não têm uma vida considerada produtiva, ou aqueles a quem a idade ou a doença trouxeram limitações. Que motivos justificam o desprezo, o abandono, o “virar as costas” àqueles a quem devemos “honrar”?
¨ É verdade que a vida de hoje é muito exigente a nível profissional e que nem sempre é possível a um filho estar presente ao lado de um pai que precisa de cuidados ou de acompanhamento especializado. No entanto, a situação é muito menos compreensível se o afastamento de um pai do convívio familiar (e o seu internamento num lar) resulta do egoísmo do filho, que não está para “aturar o velho”… Sem julgarmos nem condenarmos ninguém, que sentido é que faz “desfazermo-nos” daqueles que foram, para nós, instrumentos do Deus criador e fonte de vida?
¨ O capital de maturidade e de sabedoria de vida que os mais idosos possuem é considerado por nós uma riqueza ou um desafio ridículo à nossa modernidade e às nossas certezas?
¨ Face à invasão contínua de valores estranhos que, tantas vezes, põem em causa a nossa identidade cultural e religiosa (quando não a nossa humanidade), o que significam os valores que recebemos dos nossos pais? Avaliamos com maturidade a perenidade desses valores, ou estamos dispostos a renegá-los ao primeiro aceno dos “valores da moda”?
2ª leitura – Col 3,12-21 - AMBIENTE
A Igreja de Colossos, destinatária desta carta, foi fundada por Epafras, um amigo de Paulo, pelos anos 56/57. Tanto quanto sabemos, Paulo nunca visitou a comunidade…
Hoje, não é claro para todos que Paulo tenha escrito esta carta (o vocabulário utilizado e o estilo do autor estão longe das cartas indiscutivelmente paulinas; também a teologia apresenta elementos novos, nunca usados nas outras cartas atribuídas a Paulo); por isso, é um tanto ou quanto difícil definirmos o ambiente em que este texto apareceu…
Para os defensores da autoria paulina, contudo, a carta foi escrita quando Paulo estava prisioneiro, possivelmente em Roma (anos 61/63). Epafras teria visitado o apóstolo na prisão e deixado notícias alarmantes: os colossenses corriam o risco de se afastar da verdade do Evangelho, por causa das doutrinas ensinadas por certos doutores de Colossos. Essas doutrinas misturavam práticas legalistas (o que parece indicar tendências judaizantes) com especulações acerca do culto dos anjos e do seu papel na salvação; exigiam um ascetismo rígido e o cumprimento de certos ritos de iniciação, destinados a comunicar aos crentes um conhecimento mais adequado dos mistérios ocultos e levá-los, através dos vários graus de iniciação, à vivência de uma vida religiosa mais autêntica.
Sem refutar essas doutrinas de modo direto, o autor da carta afirma a absoluta suficiência de Cristo e assinala o seu lugar proeminente na criação e na redenção dos homens.
O texto que nos é hoje proposto pertence à segunda parte da carta. Depois de constatar a supremacia de Cristo na criação e na redenção (1ª parte), o autor avisa os colossenses de que a união com Cristo traz consequências a nível de vivência prática (2ª parte): implica a renúncia ao “homem velho” do egoísmo e do pecado e o “revestir-se do Homem Novo”.
MENSAGEM
O que é que significa, concretamente, “revestir-se do Homem Novo”?
Para o autor da carta, viver como “Homem Novo” é cultivar um conjunto de virtudes que resultam da união do cristão com Cristo: misericórdia, bondade, humildade, mansidão, paciência. Lugar especial ocupa o perdão das ofensas, a exemplo de Cristo que sempre manifestou uma grande capacidade de perdão. Estas virtudes, que devem ornar a vida do cristão, são exigências e manifestações da caridade, que é a fonte de onde brotam todas as virtudes do cristão.
Catálogos de exigências como este apareciam também nos discursos éticos dos gregos… O que é novo, aqui, é a fundamentação: tais exigências resultam da íntima relação do cristão com Cristo; viver “em Cristo” implica viver, como Ele, no amor total, no serviço, na disponibilidade, no dom da vida.
Uma vez apresentado o ideal da vida cristã nas suas linhas gerais, o autor da carta aplica o que acabou de dizer ao âmbito mais concreto da vida familiar. Às mulheres, recomenda o respeito para com os maridos (a referência à submissão das esposas deve ser entendida na perspectiva da linguagem e da prática da época); aos maridos, convida a amar as esposas, evitando o domínio tirânico sobre elas; aos filhos, recomenda a obediência aos pais; aos pais, com intuição pedagógica, pede que não sejam excessivamente severos para com os filhos, pois isso pode impedir o normal desenvolvimento das suas capacidades… Para uns e para outros, é essa “caridade” (“agapê”) – entendida como amor de doação, de entrega, a exemplo de Jesus que amou até ao dom da vida – que deve presidir às relações entre os membros de uma família.
É desta forma que, no espaço familiar, se manifesta o Homem Novo, o homem transformado por Cristo e que vive segundo Cristo.
ATUALIZAÇÃO
¨ Viver “em Cristo” implica fazer do amor a nossa referência fundamental e deixar que ele se manifeste em gestos concretos de bondade, de perdão, de doação, de compreensão, de respeito pelo outro, de partilha, de serviço… É este o quadro em que se desenvolvem as nossas relações com aqueles que nos rodeiam?
¨ A nossa primeira responsabilidade vai, evidentemente, para aqueles que conosco partilham, de forma mais chegada, a vida do dia a dia (a nossa família). Esse amor, que deve revestir-nos sempre, traduz-se numa atenção contínua àquele que está ao nosso lado, às suas necessidades e preocupações, às suas alegrias e tristezas?
Traduz-se em gestos sentidos e partilhados de carinho e de ternura? Traduz-se num respeito absoluto pela liberdade e pelo espaço do outro, por um deixar o outro crescer sem o sufocar? Traduz-se na vontade de servir o outro, sem nos servirmos dele?
¨ As mulheres não gostam de ouvir Paulo pedir-lhes a submissão aos maridos… No entanto, não devem ser demasiado severas com o autor desta carta: ele é um homem do seu tempo, que usa a linguagem do seu tempo e que coloca as coisas nos termos à volta dos quais se organizavam as comunidades familiares da época… Não podemos exigir ao autor desta carta (que escreve há quase dois mil anos) a mesma linguagem e a mesma sensibilidade que temos hoje, a propósito destas questões. Apesar de tudo, convém recordar que o autor da Carta aos Colossenses não se esquece de pedir aos maridos que amem as suas mulheres e que não as tratem com aspereza: sugere, desta forma, que a mulher tem, em relação ao marido, igual dignidade.
Evangelho – Mt. 2,13-15.19-23 - AMBIENTE
O interesse fundamental dos primeiros cristãos não se centrou na infância de Jesus, mas na sua mensagem e proposta; por isso, conservaram especialmente as recordações sobre a vida pública e a paixão do Senhor.
Só num estádio posterior houve uma certa curiosidade acerca dos primeiros anos da vida de Jesus. Coligiram-se, então, algumas escassas informações históricas sobre a infância de Jesus e amassou-se esse material com reflexões e com a catequese que a comunidade fazia acerca de Jesus. O chamado “Evangelho da Infância” (de que faz parte o texto que nos é hoje proposto) assenta nessa base; parte de algumas indicações históricas e desenvolve uma reflexão teológica para explicar quem é Jesus.
Nesta secção do Evangelho (cf. Mt. 1-2), Mateus está muito mais interessado em dizer quem é Jesus, do que em fazer uma reportagem histórica sobre a sua infância.
Para compor o “Evangelho da Infância”, Mateus serviu-se de motivos e recursos literários que se utilizavam na literatura judia e helenística para contar a infância de heróis: misteriosos relatos de anunciação, ameaças contra a sua vida, intervenção de Deus, sinais extraordinários. Mateus serviu-se, ainda, de um recurso muito utilizado pelos escritores judaicos – o “midrash haggádico” (que consistia em comentar um texto da Escritura através de um pequeno relato). A diferença entre Mateus e os escritores judaicos é que, enquanto estes partiam de um texto da Escritura, o evangelista parte da figura de Jesus.
O nosso texto não deve, portanto, ser visto como uma informação histórica, mas como uma construção artificiosa, destinada a responder à questão: “quem é Jesus?”.
MENSAGEM
Na base do relato que nos é proposto, estão citações do Antigo Testamento… Mateus parte daí para apresentar uma reflexão cujo objetivo final é dizer quem é Jesus.
Escrevendo para cristãos vindos do judaísmo, que conhecem bem o Antigo Testamento, Mateus recorre às antigas profecias para explicar quem é Jesus e qual a sua missão. Ao mesmo tempo, mostra como Jesus cumpriu plenamente essas antigas profecias.
Uma parte significativa do nosso texto (cf. Mt. 2,13-15) está construída sobre Os 11,1 (“do Egito chamei o meu filho”).
Mateus apresenta um conjunto de detalhes, a propósito deste episódio, que recordam os inícios da vida de Moisés: o massacre das crianças de Belém pelo rei Herodes (cf. Mt. 2,16-18) recorda a ordem do faraó de atirar ao Nilo os bebes hebreus do sexo masculino (cf. Ex. 1,22); a fuga do menino Jesus através do deserto (cf. Mt. 2,14) recorda a fuga do jovem Moisés através do deserto para salvar a vida (cf. Ex. 2,15); o regresso de Jesus do Egito quando já tinham morrido aqueles que queriam matá-lo (cf. Mt 2,15) recorda o regresso de Moisés ao Egito quando já tinham morrido aqueles que queriam matá-lo (cf. Ex. 4,19)... Através destas referências, Jesus aparece como um novo Moisés, que libertará o novo Povo de Deus e que dará a nova Lei a esse Povo (cf. Mt. 5-7).
Por outro lado, Mateus põe também em paralelo o caminho de Jesus e o caminho do Povo de Israel. A fuga de José com Maria e o menino recorda a ida para o Egito da família de Jacob, que emigrou para o Egipto por desígnio de Deus (cf. Gn. 46,1-7); como aconteceu com Israel, também Jesus sairá daí, chamado por Deus (cf. Mt. 2,19-20), a fim de iniciar o novo e definitivo êxodo. Finalmente, o regresso de Jesus à terra de Canaan repete o caminho percorrido por Israel nos seus inícios… É uma forma de ensinar que, com Jesus, tem início um novo Povo de Deus e que Jesus será o libertador (ou o novo Moisés) que conduzirá esse Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade.
Não é clara qual a citação profética que está na base da parte final do nosso texto (“será chamado nazoraios” – Mt. 2,23), embora ela possa fazer referência a Jz. 13,5 (“esse menino será nazireu de Deus desde o seio de sua mãe) e a Is. 11,1 (“brotará um ramo do tronco de Jessé, um rebento – em hebraico: “neçer” – brotará das suas raízes”). Embora nem a citação de Juízes nem a citação de Isaías tenham nada a ver com Nazaré, Mateus usou-as pela semelhança fonética; o seu objetivo era mostrar aos judeus que, ao instalar-se em Nazaré (apesar de ter nascido em Belém), Jesus estava a cumprir as Escrituras e os desígnios de Deus.
Fica, portanto, aqui definida a catequese que revela quem é Jesus e qual a sua missão… A presença constante de Deus conduzindo a história, enviando o seu mensageiro, comunicando com José através dos sonhos, revela que este menino vem de Deus e que tem uma missão de Deus. Qual é essa missão? É dar início a um novo Povo de Deus e, como Moisés, conduzir esse Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade.
Neste dia em que celebramos a Sagrada Família, convém também determo-nos um pouco sobre esta família de Nazaré. É uma família unida e solidária, que não hesita em afrontar os perigos do deserto e as incomodidades do exílio numa terra estrangeira, quando um dos membros corre riscos. Na família de Nazaré manifesta-se, desta forma, esse amor até ao extremo que supera todos os egoísmos e que se faz dom ao outro. Por outro lado, é uma família que escuta a Palavra de Deus, que está atenta aos sinais de Deus e que procura cumprir à risca os projetos de Deus.
José – que continua a ser o protagonista desta história, o representante dessa dinastia davídica que leva a cabo o projeto salvador de Deus – desempenha um papel muito belo… É o homem permanentemente atento às indicações de Deus, que sabe discernir o que Deus quer, que acata na obediência a vontade de Deus, que tudo arrisca e sacrifica em defesa da vida daquele menino que Deus lhe confiou.
ATUALIZAÇÃO
¨ Este episódio do “Evangelho da Infância” apresenta-nos uma família – a Sagrada Família – que, como qualquer família de ontem, de hoje ou de amanhã, se defronta com crises, dificuldades e contrariedades (essas dificuldades que, em tantos outros casos, acabam por minar a unidade e a solidariedade familiar). No entanto, esta é uma família onde cada membro está solidário com o outro e está disposto a partilhar os riscos que o outro corre; esta é uma família onde cada membro aceita renunciar ao comodismo e sacrificar-se para que o outro possa viver; esta é uma família onde os problemas de um são os problemas de todos e onde todos estão dispostos a arriscar, quando se trata de defender o outro… Por isso, é uma família que se mantém unida e solidária. É assim a nossa família? Na nossa família há solidariedade? Sentimos os problemas do outro e empenhamo-nos seriamente em ajudá-lo a superar as dificuldades? Aquilo que acontece a um é sentido por todos?
A nossa família é, apenas, um hotel onde temos (por um preço módico) casa, mesa e roupa lavada ou um verdadeiro espaço de encontro, de partilha, de fraternidade, de solidariedade, de amor?
¨ A Sagrada Família é também uma família onde se escuta a Palavra de Deus e onde se aprende a ler os sinais de Deus… É na escuta da Palavra que esta família consegue encontrar as soluções para vencer as contrariedades e para ajudar os membros a vencer os riscos que correm; é na escuta de Deus que esta família consegue descobrir os caminhos a percorrer, a fim de assegurar a cada um dos seus membros a vida e o futuro. A nossa família é uma família onde se escuta a Palavra de Deus, onde se procuram ler os sinais de Deus, onde se procura perceber o que Deus diz? Encontramos tempo para reunir a família à volta da Palavra de Deus e para partilhar, em família, a Palavra de Deus? A nossa família é uma família que reza?
¨ A Sagrada Família é, ainda, uma família que obedece a Deus… Diante das indicações de Deus, não discute nem argumenta; mas cumpre à risca os desígnios de Deus… E é precisamente o cumprimento obediente dos projetos de Deus que assegura a esta família um futuro de vida, de tranquilidade e de paz. A nossa família aceita com serenidade os esquemas e a lógica de Deus e percorre, com confiança, os caminhos de Deus?
¨ Neste tempo de Natal convém não esquecermos o tema central à volta do qual se constrói o Evangelho que hoje nos é proposto: Jesus é o Deus que vem ao nosso encontro, a fim de cumprir o projeto de salvação que o Pai tem para os homens…
A sua missão passa por constituir um novo Povo de Deus, dar-lhe uma Lei (a Lei do “Reino”) e conduzi-lo para a terra da liberdade, para a vida definitiva. Estamos dispostos a acolher Jesus como o nosso libertador e a embarcar com Ele nessa caminhada da terra da escravidão para a terra da liberdade?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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Em pleno tempo de Natal, a Igreja chama à nossa atenção para uma realidade muito humana da vida de Jesus: como todo ser humano, ele contou com uma família que o criou. Teve um pai e uma mãe humanos, um ambiente vital no qual foi crescendo até chegar à idade adulta; foi modelado e assim se preparou para a sua missão.
A primeira leitura, do livro do Eclesiástico, livro sapiencial, nos propõe ensinamentos que nos ajudam a saber viver na presença de Deus e na comunidade humana. Muitos desses ensinamentos tem a ver com a família. Certamente Jesus amou, respeitou e obedeceu a seus pais como nos indica a leitura.
A maior parte de sua vida ele a passou em companhia dos seus familiares, ainda que não saibamos quase nada das circunstancias desse período de sua vida que chamamos de “vida oculta”. Os judeus, na época de Jesus, e muitos dos povos primitivos, não conheciam os grandes problemas por que passa atualmente a instituição familiar.
O normal era que a família permanecesse unida, que os vínculos entre os seus membros fossem muito estreitos e positivos. O certo é que entre os judeus existia o divórcio, a favor do homem, e que a mulher estava completamente submetida à vontade de seu pai, enquanto era solteira, e de seu esposo, quando casada.
Porém, isto era vivido com naturalidade, pois não existiam critérios ou movimentos de autonomia feminista, existentes em outros tempos. Não se falava em “machismo”, em “sexismo” para certas atitudes, como são denominadas hoje. Outra coisa muito distinta é a atitude de Jesus diante de sua família, uma vez começada sua missão.
Sabemos pelos evangelhos, que ele abandonou sua casa, que não formou uma família própria, mas que se dedicou por inteiro à sua vocação de proclamar a Boa Notícia; que quando sua família tentou colocar-lhe alguma trava, recordando-lhe, quem sabe, suas obrigações, Jesus reagiu com independência. Não obstante tudo isso, o evangelista João nos apresenta a mãe de Jesus ao pé da cruz, e Lucas a coloca claramente entre os membros da Igreja nascente.
A passagem da carta paulina aos Colossenses é uma exortação à vida de amor no seio de uma comunidade cristã. Se Deus nos amou e nos perdoou em Jesus Cristo, também nós devemos viver o amor e o perdão, uns com os outros. A Igreja é como uma grande família, que vive na presença do Pai com os sentimentos tão elevados e nobres que São Paulo enumera em sua carta: misericórdia entranhável, bondade, humildade, doçura, compreensão, perdão mútuo, paz. Chega a dizer que somos um só corpo e que Cristo é como que o árbitro em nosso coração.
Por sua parte, a família cristão não deve ser como qualquer outra família. Deve viver aberta à comunidade eclesial, deve ser como uma espécie de “igreja doméstica”, integrada à grande Igreja, constituindo um de seus pilares fundamentais. As relações entre os esposos cristãos não são regidas por um simples contrato civil de matrimonio, mas entre eles se realiza o mistério do amor de Deus significado no sacramento do matrimonio e, junto com seus filhos, devem viver os mesmos ideais que são Paulo traça para a Igreja inteira.
O evangelho de são Mateus apresenta um momento concreto da vida da sagrada família: o da fuga ao Egito para evitar a perseguição desencadeada por Herodes. Acaso não devemos admirar a valentia, a solicitude e a prudência com que José cumpre as instruções do anjo, bem como a docilidade de Maria?
Acaso a passagem não é um exemplo da providencia paternal de Deus sobre estes humildes esposos, aos quais lhe confiou os primeiros passos de seu enviado? José buscou para os seus, seguindo as inspirações divinas, um lugar tranqüilo e seguro onde pudessem viver honestamente, dedicados a seus humildes ofícios, na paz doméstica.
Por tudo isto, a Igreja propõe às famílias cristãs este exemplo: o da sagrada família de Nazaré, na qual certamente eram vividas as virtudes de que os fala nas duas primeiras leituras.
Olhando um pouco mais além do quadro idílico da casa de Nazaré, podemos fazer esta reflexão: a família não foi para Jesus um obstáculo na hora de empreender sua tarefa salvadora. Certamente Maria sentiu a separação de seu filho. Como toda mãe teria desejado retê-lo junto à segurança do seu amor.
Porém, como toda mãe consciente, compreendeu que seu filho devia ser ele mesmo, devia encontrar o sentido  e a meta de sua existência, e a este dever ela se dedicou humilde e amorosamente, ela que escutava a Palavra e a acolhia em seu coração.
Claretianos

Estamos celebrando hoje a grande Festa da Sagrada Família de Nazaré. Esta festa é muito mais que uma simples homenagem, ela nos leva a refletir a situação em que vivem nossas famílias, suas alegrias e sofrimentos, conflitos e conquistas.
Mateus nos relata a angustiante aventura de José. Esse jovem pai de família que, corajosamente, durante a noite, sai pelo mundo levando consigo somente a mulher e filho. Deixa tudo para trás, sua casa, suas raízes e foge para um país estranho. Submete-se aos mais diversos sacrifícios, para preservar a vida de seu Filho.
Trazendo para hoje o texto de Mateus, veremos que diariamente, milhares de pais imigram, mudam de cidade ou de estado e enfrentam o desconhecido para preservar suas famílias. Enfrentam a “escuridão” e se submetem a duras provas, na esperança de vida digna para seus filhos.
No domingo passado, José vivia uma difícil situação. Apesar de confiar em Deus e em sua noiva, não consegue entender sua gravidez. Estava desesperado, sem saber que atitude tomar, quando então, um anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho e suas dúvidas desapareceram.
Hoje, por três vezes, Deus se manifesta para José através de um anjo. Na primeira vez para alertá-lo sobre o grande perigo que rondava sua família. A vida de Jesus estava sendo ameaçada por Herodes. Na mesma noite fugiu para o Egito.
Na segunda vez, o anjo o procura para avisá-lo que podia retornar para a terra de Israel, pois Herodes já havia morrido. Novamente José obedeceu e fez exatamente o que o anjo lhe pedira, porém, quando entrou na terra de Israel e soube que Arquelau, filho de Herodes, reinava na Judéia, teve medo de ir para lá.
Diante desta nova dúvida, mais uma vez o anjo se manifesta a José. Depois de receber o terceiro aviso, José retira-se para a região da Galiléia e vai morar em Nazaré. Neste evangelho transparece a atenção e a obediência de José que, acreditou e sempre se deixou guiar pela Palavra de Deus.
Este é o grande exemplo que São José nos traz hoje. Diante de tantas tribulações, em nenhum momento o protetor das Famílias afastou-se da Mulher e do Filho. Isso prova a importância da presença de Jesus e de Maria para a integridade de filhos e pais, para a preservação da família e do lar.
Coragem é algo que está diretamente relacionado com fé. Neste evangelho, São José deixa claro que não importa a dimensão do problema, mas sim o tamanho da coragem para enfrentá-lo. A obediência e a fé de José, muito contribuíram para o sucesso do Plano de salvação da humanidade.
Nas dificuldades, as famílias entram em crise, desesperam-se, maldizem e separam-se. A Sagrada Família, ao contrário, encontrou nas dificuldades o estímulo para permanecer unida. Juntos traçaram planos, procuraram alternativas, dividiram problemas, choraram perdas e comemoraram conquistas.
Finalizando, vamos guardar com muito carinho os ensinamentos que nos traz hoje a Sagrada Família. Não foram poucos nem simples os problemas que tiveram que enfrentar, no entanto encontraram no diálogo e na oração as forças necessárias para superá-los.
Este é o exemplo que devemos levar para nossas famílias e comunidades: onde existe unidade, existe amor. Esses são os únicos ingredientes capazes de superar as barreiras e transpor todos os obstáculos.
Jorge Lorente

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Fuga para o Egito
Aqui Mateus mostra como a revelação do nascimento de Jesus foi recusada por Herodes, que tinha de seu lado “toda a cidade de Jerusalém”, e como fracassou a trama que pretendia entravar o projeto divino.
O Egito sempre representou, para os judeus residentes na Terra Santa, o mais prático lugar de refúgio. Isso valia também no tempo de Herodes Magno, quando os romanos dominavam o Egito (v. 13).
Nos vv. 14 e 15, o profeta não nomeado é Oseias (11,1). O profeta fala do povo de Israel, que Deus tirou da escravidão do Egito, tratando-o como filho, enquanto este se tornou indigno desse amor. É assim acenado um tema que será bem desenvolvido no resto do evangelho de Mateus, isto é, que em Jesus se realizou plenamente tudo o que Deus havia pedido em vão ao seu povo.
Nos vv. 19-20, falando no plural “os que buscavam tirar a vida ao menino”, talvez o evangelista queira aludir a toda Jerusalém que era solidária com Herodes e, sobretudo, aos muitos futuros inimigos de Jesus que depois quiseram a sua morte.
Arquelau foi mal-visto pelos seus súditos, por causa de sua crueldade, a tal ponto que os romanos o depuseram no ano 6 d.C. Portanto, é historicamente certo o julgamento de Mateus, que considera a Galiléia como uma região politicamente mais tranquila do que a Judeia (v. 22).
No v. 23, a frase, aqui genericamente atribuída aos profetas, não aparece em nenhum lugar do antigo testamento. É claro, porém, que o evangelista pretende retrucar a quem defendia que o Messias não poderia vir de Nazaré, nem da Galiléia (cf. Jo 1,46; 7,41.52). Entretanto, juntamente com esse significado, para o evangelista, o termo “Nazareno” devia ter um outro: provavelmente aludia ao termo hebraico néçer, que significa “broto”. Haveria assim uma alusão ao oráculo messiânico de Is. 11,1.
pregação dos padres dominicanos

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Com Jesus, Maria e José
Ainda no clima do Natal a liturgia nos apresenta a Família Sagrada onde essa criança cresceu e viveu como exemplo e modelo para todas as famílias.
As leituras bíblicas fornecem indicações práticas para nos ajudar a construir famílias felizes, que sejam espaços de encontro, de partilha, de fraternidade, de amor verdadeiro.
A 1ª leitura desenvolve e explica o 4º mandamento. Apresenta indicações práticas dos filhos para com os pais. Essa observância é desejada e abençoada por Deus. (Sr. 5,2-6.12-14)
A 2ª leitura mostra o espírito que deve reinar numa família: "Revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente..." (Cl. 3,12-21)
E acrescenta um recado às esposas, aos maridos, aos filhos e aos pais.
O Evangelho nos apresenta a família sagrada, em três momentos da Infância de Jesus: Belém... Egito... Nazaré... (Mt. 2,13-15.19-23) Nessas migrações, Jesus é conduzido por Deus e protegido por seus pais...
A família de Nazaré
a) é uma família como qualquer família de ontem, de hoje ou de amanhã, que se defronta com crises, dificuldades e contrariedade, no entanto...
b) é uma família é unida e solidária. Nela existe verdadeiro Amor e solidariedade. Não hesita  enfrentar os perigos do  deserto e o desconforto do exílio, quando um de seus membros corre riscos. Os problemas de um são problemas de todos.
c) É uma família onde se escuta a Palavra de Deus e onde se aprende a ler os sinais de Deus. Nessa escuta, consegue soluções para vencer as contrariedades e descobrir caminhos a percorrer, para assegurar a vida e o futuro a seus membros. José aparece como o homem atento às indicações de Deus, que sabe discernir e acatar a vontade de Deus, que tudo sacrifica em defesa da vida daquele menino, que Deus lhe confiou.
d) é uma família que obedece a Deus… Diante das indicações de Deus, não discute nem argumenta. No cumprimento obediente aos projetos de Deus, esta família assegura um futuro de vida, de tranqüilidade e de paz.
A Sagrada Família, modelo da família cristã?
Costuma-se dizer que a Sagrada Família é modelo da família cristã, não tanto em seu contexto sociocultural e histórico, tão distante do nosso, mas quanto em seus valores fundamentais, especialmente o Amor, que lhe deram coesão, significado e missão de salvação nos planos de Deus.
A família é uma instituição em mudança ou já superada?
A família é a célula base da Igreja e da sociedade, mas está passando por uma transformação profunda... É uma instituição divina, por isso permanente... Mas o modo de viver em família pode mudar através dos tempos.
Na família do passado, primava a relação vertical: uma instituição fechada, de cunho patriarcal.   O pai detinha a autoridade e era responsável pela parte econômica; a mãe atendia aos afazeres domésticos e cuidava dos filhos (numerosos); os filhos submetidos à autoridade paterna. Dava-se muito valor à autoridade.
Na família atual, primam as relações horizontais dentro da família. Dá-se preferência ao diálogo, à co-responsabilidade, à igualdade, ao companheirismo e à amizade entre marido e esposa, entre pais e filhos.
Contudo a família sofre hoje muitas influências negativas e muitos fatores de desagregação...
Quais os valores básicos e permanentes na família?
- Comunhão inter-pessoal de Amor e de vida.
- O amor fiel, único, exclusivo, totalizante e para sempre.
- Os filhos não são vistos como propriedade ou bens adquiridos para o egoísmo possessivo de seus pais, mas como vida e prolongamento vital de um amor pessoal, que educa e orienta para a liberdade responsável.
- "A família é a fonte da vida e o berço da fé." (João Paulo II)
- Comunidade aberta aos valores do mundo de hoje: a solidariedade, a responsabilidade, a fraternidade, e o compromisso com os direitos humanos...
- Igreja doméstica: só assim a família cristã testemunhará a fé, a esperança e a caridade. Uma igreja doméstica que contribui para a santificação do mundo, a partir de dentro, à maneira de fermento.
E a nossa família, como vai? (À moda antiga ou atual?)
padre Antônio Geraldo Dalla Costa
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"Sagrada Família Jesus, Maria e José"
Uma família entre nós
A Sagrada Família não é só um modelo de virtudes, como apresenta a oração da missa: “Ó Deus de bondade, que nos destes a Sagrada Família como exemplo, concedei-nos imitar suas virtudes”. Paulo enumera, na carta aos Colossenses, estas virtudes “familiares”: misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência para suportar, perdoar-se mutuamente, amar-se, ouvir a palavra de Cristo, ensinar, admoestar-se, solicitudes, respeito, obediência (Cl. 3,12-21). É o que escreve em Coríntios 13 sobre o amor. A Família de Nazaré não é só modelo, mas é um modo de entender a Deus e viver em Cristo. Deus é família, por isso iniciou a Redenção através de uma família, para que fosse vivida na Igreja, como família. José e Maria são um modo de viver com Cristo. Isso nos anima a ter nosso modo pessoal de estabelecer esta “familiaridade” com Ele. Os pastores e magos os viram como família. Mesmo os inimigos foram atrás do Menino para matá-lo, dentro da família. José e Maria respondem ao projeto de Deus como família pois querem salvar e promover a vida do Menino. É uma visão de fé, isto é, saber responder a Deus a partir da fé. A linguagem bíblica fala de um anjo que apareceu em sonho. José não respondia a sonhos, mas tinha a capacidade de despertar atitudes como se fossem comunicadas por Deus, como Abraão que partiu sem saber para onde ia (Hb. 11,8). Isso é chamado de obediência; Como Moisés que, pela fé, resistiu, como se visse o invisível (27). Isso é a ousadia de crer. Jesus não só foge para o Egito, mas faz o caminho do êxodo, iniciando em si o novo povo. O mistério de Deus suporta o peso da condição humana. A fé para José e Maria é obediente e imediata. Não se perde tempo para responder a Deus. A visão de fé de nossas vidas vai ser coerente se a fizermos dentro de uma família. Se vivemos atualmente dificuldades familiares, as dificuldades de Maria e José e o Menino foram as mesmas. Se não nos resolvermos dentro da família, não creio que resolveremos.
Um mandamento que salva
A festa desta família nos traz também uma visão sobre o quarto mandamento. Não é um mandamento de proibições, como se diz “não matarás”, mas de proposição, pois a graça é sempre uma proposta: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra...” (Ex. 20,12). É o único mandamento que tem uma promessa. Deus quer mesmo que se ame a família. Viver bem a família é um meio de salvação, pois receberá o perdão dos pecados e será ouvido na oração cotidiana... no dia em que orar será atendido e terá vida longa. Aqui está a fragilidade de nossa oração. Não corresponde ao desejo de Deus. A salvação se dá dentro de nossa família e da família da Igreja.
É um mandamento bem social que as culturas mais antigas privilegiam. Amparar os pais na velhice não lhes causar desgosto é condição de vida e santidade. Mesmo que estejam perdendo a lucidez, procura ser compreensivo. Não os humilhe. A caridade feita aos pais não será esquecida, mas servirá para reparar os pecados. Quando chegarmos ao fim, esta caridade será para nossa santificação. Como Deus é carinhoso com os pais principalmente nossos velhinhos! Assim estaremos vivendo em Cristo como Maria e José. Se um dia acabarmos com a família, não saberemos como é Deus.

1.São Paulo apresenta as virtudes da família que se sintetizam no amor. A Sagrada Família é um modo de entender a Deus e viver em Cristo. Deus é família e partiu da família para a Redenção. Anima-nos à familiaridade com Jesus. A visão de fé José, foi como, Abraão e Moisés. Jesus faz o caminho do êxodo. Como eles deve se nossa vida nos sofrimentos.
2.O 4º mandamento é uma proposta de vida familiar. Viver bem a família é um meio de salvação, pois se recebe o perdão e tem a oração atendida.
3.É um mandamento social, pois, como em Eclesiástico, aprendemos o cuidado com os idosos. A caridade para com os pais repara os pecados. Será santificação. Deus é carinhoso para com nossos velhinhos.
Berço de madeira para Menino de ouro
A família de Nazaré viveu as virtudes em meio às tensões, sobressaltos e perigos. O Filho, como diz o Apocalipse, é perseguido desde o ventre da mãe. José, jovem pai (adotado pelo Filho), justo, se orientava pela fé.
Unidos pelos laços de amor, a Família de Nazaré orienta o caminho de nossa vida. Numa situação diferente, vive a normalidade de uma família. Por isso pode ser modelo.
Deus, em seu amor por nós, deu ao quarto mandamento um prêmio para quem o cumpre com zelo: Garantia de ter a oração ouvida por Deus e o perdão dos pecados. É o único mandamento que tem uma promessa.
O carinho para com os velhinhos caduquinhos é a valorização da idade maior das pessoas. Essa caridade tem o prêmio de não ser esquecida a oração e é reparação dos pecados. Deus quer manifestar o respeito e o carinho pelos anciãos através de nós.
José caminhava na escuridão dos conhecimentos e na claridade do coração aberto para Deus. Assim aprendemos que a fé e o amor podem salvar nossas famílias.
padre Luiz Carlos de Oliveira
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Esta página do evangelho segundo Mateus, muito além duma crônica ou fábula, merece ser olhada na sua profundidade. Olhando com atenção o desenrolar do texto, vemos que Mateus, usando o modo dizer e estilo próprio da sua cultura e do povo judeu, está apresentando a figura e a missão de Jesus, embora em jeito de história. A página do evangelho deste domingo passa à frente o episódio da matança dos inocentes (2,16-18) para se fixar no duplo movimento de Israel-Egito e Egito-Israel.
A chave de leitura é sugerida pela citação do texto de Oseias (11,1): «Do Egito chamei o meu filho». O Egito, para o povo judeu, tinha uma dupla valência: por um lado, ao longo dos últimos séculos, tinha sido o refúgio para os perseguidos e, por outro, foi o ponto de partida para o acontecimento do êxodo.
A ordem do anjo dada a José está recalcada na história de todos perseguidos e fugitivos da prepotência política que gera violência e morte. Nesta perspectiva, Herodes é uma figura do faraó perseguidor e de todos os que agem como ele. Mas por detrás da narração podemos vislumbrar a figura de Moisés e a história da libertação do povo de Deus. É no êxodo que se realiza a relação de Israel como filho primogênito de Deus. Por isso, no profeta Oseias, Israel é chamado «meu filho».
Ao longo do seu evangelho, Mateus várias vezes estabelece um confronto entre a figura de Moisés e Jesus para apresentar este como superior. Jesus é apresentado como o verdadeiro libertador e aquele que apresenta a sua Lei sobre o monte e estabelece uma Nova Aliança. Mas, no presente texto, toda a atenção está centrada no termo «filho». A relação filial realiza-se de modo eminente em Jesus, já antes apresentado como descendente de David, no qual se cumpre a promessa da aliança messiânica: «Eu serei para ele um ai e ele será para mim um filho» (2Sm. 7,14). Com a sua vida Jesus não só percorre as etapas da história de Israel mas reproduz de modo único o estatuto de Filho.
A segunda parte do texto apresenta-se em duas sequências: o regresso do Egito e a procura dum lugar seguro no território da Galiléia. O modo literário como é apresentado o regresso faz lembrar o texto de Ex. 4,19b que relata a ordem dada por Deus a Moisés para fugir da ameaça do faraó. Porém, toda a atenção converge para Nazaré, terminando com uma citação-comentário.
Uma série de circunstâncias políticas desaconselha morar no território da Judéia. A isto acrescenta-se a advertência divina que impele José para a zona norte, a Galiléia, mais propriamente para a pequena aldeia de Nazaré. A escolha de Nazaré não é casual mas entra no plano de Deus, o que é confirmado com o título dado a Jesus: «Nazareu». Este título, apresentado como se fosse uma citação do «que foi anunciado pelos profetas», de fato é um comentário de Mateus ao fato de Jesus ter vivido em Nazaré. O evangelista faz um jogo de palavras entre «nazareno» e «nazir» que significa «consagrado». Jesus de Nazaré, não obstante a sua origem histórica irrelevante e a humilde condição social, corresponde a plano messiânico e salvífico de Deus.
padre Franclim Pacheco


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Um comentário:

  1. Uma antiga lenda, que como criança ouvi na Polônia, explica surgimento da árvore de Natal.
    Quando rei Herodes mandou matar o Menino Jesus, anjo de noite avisou José que fugisse com Menino Jesus e Maria para pais vizinho, o Egito. José levantou-se, acordou Maria e falou do perigo. Daí, Maria assustada abraçou com carinho o Menino Jesus e montou burrinho. E toda a Sagrada Família já de madrugada encaminhou-se para estrada que levava para Egito. Logo que a Sagrada Família saiu de Belém, os soldados de Herodes cercaram a cidade. Começou a matança dos meninos de dois anos para baixo. As mães desesperadas quiseram esconder os seus filhos. Fugiam para todos os lados. Mas soldados as alcançavam e arrancando os meninos dos seus braços os matavam. Os soldados percorriam todas as estradas que levavam de Belém. Cavalgaram também pela estrada que levava para Egito por onde fugiam José, Maria e o Menino Jesus. José viu atrás de si poeira levantada pelos cavalos dos soldados. Como escapar dos assassinos? Onde se esconder? Maria não parava de rezar. José viu uma frondosa árvore na beira da estrada e disse a Maria: “precário lugar mas único onde podemos tentar nos esconder.” Quando os soldados chegaram perto do esconderijo da Sagrada Família aconteceu milagre. A árvore baixou os seus galhos cobrindo totalmente a Sagrada Família da visão dos soldados. Os soldados voltaram para Belém pois ninguém encontraram.
    Para agradecer à arvore pela salvação do Menino Jesus do assassinato, enfeita-se a árvore de Natal com mais bonitos efeitos. Ela colaborou muito para salvar o Menino Jesus.
    Feliz Natal deseja a Você teu amigo Vieslau


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