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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

domingo, 29 de dezembro de 2013

Feliz Ano Novo! 2014

Feliz Ano Novo!
Dia 1º de janeiro de 2014

Lc.2,16-21

MARIA MÃE DE DEUS e NOSSA MÃE.
DIA MUNDIAL DA PAZ


            A Igreja celebra hoje a festa de Maria Mãe de Deus. É a solenidade da Santa mãe de Deus.  Maria foi aquela escolhida que aceitou colaborar  com o  projeto do Pai de enviar ao mundo o seu Filho, o Salvador.  Maria foi aquela que se prontificou a nos oferecer a salvação por meio de Jesus, o nosso Salvador. Maria sendo mãe de Jesus que é o próprio Deus encarnado, ela é a mãe de Deus. E se Maria é mãe de Jesus, o Filho de Deus e  o nosso irmão, pois também somos filhos de Deus, logo Maria também é nossa mãe. Continua


           
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Feliz  Ano Novo!
         Nós te saudamos e te acolhemos, de braços abertos, ano novo de 2014! Nós te saudamos, cheios de esperança e de confiança no Senhor, que irrompeu da Sua Eternidade, para abraçar o tempo e a história, e para nos redimir, com o seu amor! Sem boas previsões à vista, sem seguranças certas, nem certezas que nos tranquilizem, nós te recebemos, novo ano de 2014, com a mesma esperança  da Virgem Mãe, que embala em seus braços, o Deus Menino, acabado de nascer! Nós te acolhemos e te aguardamos, «mais do que as sentinelas pela aurora» (Sal. 130,6)! Porque não perdemos mais tempo a esperar pelo tempo! Nós apenas esperamos, pelo Senhor, porque é no Senhor que está a misericórdia, e a solução para a paz! E com Ele nos vêm a luz, a salvação, e a coragem que devemos ter diante deste mar de sangue a que se transformou a nossa existência!
         É bem verdade que, no ano que termina, cresceu o sentimento de medo, frustração e desânimo por causa do aumento da violência! Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo-nos de ver com clareza a luz do dia! E muito menos a luz de Deus! Mas, nesta escuridão, a mente do homem, «não cessa de aguardar pela aurora» (cf. Salmo 130,6)! Esta expectativa mostra-se-nos hoje particularmente viva e visível nos jovens, aqueles que representam o breve futuro da humanidade, como pensa no nosso papa Francisco.
         As preocupações demonstradas ou manifestadas por muitos jovens, no último ano, em várias regiões do mundo, como se viu, por exemplo, na JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE NO RIO, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com mais confiança, com mais esperança. E, por isso, neste Dia mundial da Paz, o pensamento do Papa, volta-se para os jovens, considerando o contributo que eles podem e devem oferecer à sociedade, com o seu entusiasmo e idealismo! Como pudemos ver no Rio de Janeiro em 2013, A praia lotada de jovens do mundo inteiro, sem se importar com o frio, com o vento e com chuva. Lá estavam eles dando o seu testemunho de prática da fé inabalável. Fé que remove montanhas! Uma prática da fé em em prol da construção de um mundo novo, de um mundo melhor, de um mundo sem violência, um mundo habitável!   Mas para isso, - adverte o papa - é necessário, que sejam conduzidos, para fora de si mesmos, guiados por testemunhas autênticas, que encarnem, na própria vida, o caminho que propõem, pautado por valores, como o respeito pela vida, a procura humilde da verdade, o uso reto e correto da liberdade, o exercício da justiça, que não se move apenas por relações de direitos e deveres, mas também e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A paz não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída, com fidelidade, constância, paciência, tenacidade, humildade e sacrifício, exigindo mesmo aos jovens a ousadia de caminhar em contracorrente.
         Nesta urgência educativa, o papa Francisco destaca como urgência primeira, um cuidado especial com a juventude e uma dedicação mais forte aos pobres, e excluídos, a primária responsabilidade da família, sem ignorar as suas dificuldades: Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustento, se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais.
         Na verdade, é árduo o desafio de percorrer os caminhos da justiça e da paz, um bem nunca alcançado, uma meta sempre a aspirar! Podemos interrogar-nos como o salmista: «Levanto os meus olhos para os montes, de onde me virá o auxílio?» (Sal. 121,1). Não virá certamente das ideologias do poder! O próprio responde: «o nosso auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra», que fez descer o céu à terra! Permiti-me, por isso, que vo-lo diga: voltemo-nos para o Deus vivo, nosso Criador e Redentor! Só Ele é o amor eterno; só Ele nos dá a medida do que é justo; só Ele é a fonte da nossa liberdade; só Ele, o garante do que é bom e verdadeiro!
         Maria, a Mãe de Deus, oferece-nos o frágil Menino, como nossa única esperança! Cheios de confiança, poderemos então rezar-lhe no início de um novo ano: “Tu, Deus da eternidade, Senhor do tempo e da história, és a nossa esperança certa; não permitais que jamais sejamos confundidos, e destruidos pela violência que cada dia ese espalha mais! Senhor, só a Ti e só em Ti esperamos, hoje e sempre. Pois só de Ti, nos vêm a salvação e a paz para todos os homens. Amém”!

Baseado em um texto de autor desconhecido. Pois é preciso atualizar, adaptar e compartilhar.

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Dia do ano novo
In Mani Dio! Esta expressão usual no dialeto friulano (norte da Itália), que traduzida significa: “Nas mãos de Deus”, pode ser aplicada inteiramente para o início deste novo ano. Longe de proclamar e aceitar a chamada teologia da prosperidade, (situação na qual se estabelece uma troca de favores com Deus); e muito menos procurar relacionar-se sob a ótica dos milagres ou cultuar a imagem de Deus “quebra galho” e que resolve todos os problemas humanos, confiar-se ao seu cuidado significa traçar metas e objetivos na certeza de que Deus está do lado daqueles que o amam. Tal situação está abundantemente provada em toda a sagrada escritura e na história do cristianismo. Melhor se pode compreender isso à luz das leituras bíblicas proclamadas neste domingo.
O texto do livro dos números com o respectivo salmo que a assembléia é convidada a rezar aponta para o jeito de ser de Deus: “Deus fala”. E a Palavra de Deus é “dito e feito”. Assim se lê: “O Senhor te abençoe e te guarde”. Trata-se de uma bênção que é ao mesmo tempo presença. Situação que o povo de Israel experimentou de muitos modos ao longo da história e que os cristãos podem usufruir a partir de Jesus Cristo.
Jesus, como escreve Paulo na segunda leitura, veio num tempo, num lugar, nasceu humano, com a missão de modificar toda a realidade humana: “nasceu sujeito a lei para resgatar os que estavam sujeitos a lei”. Desde então ninguém mais é escravo, o Filho transformou todos em herdeiros e participantes dos seus méritos e condições.
É neste contexto que Lucas lembra o papel de José e Maria. Também eles sujeitos a todos as vicissitudes do poder dominante e das condições adversas decorrentes da sua pobreza e exclusão social, entretanto, a partir deles e da sua realidade o mundo reconheceu “o recém-nascido - rei dos judeus”. A narrativa dos pobres pastores despertou o que de mais extraordinário poderia acontecer: “Todos ficavam admirados com aquilo que contavam”.
Não sem razão a Igreja faz recordar hoje a figura de Maria com o título mais extraordinário que lhe foi dado: “Santa Maria Mãe de Deus”, coisa que fica claro por conta do seu comportamento narrado no Evangelho: “Maria, porém guardava todas essas coisas no seu coração”.
O mundo novo com o qual sonhamos e que preenche todos os desejos do ano novo acontecerá na medida em que todos puderem reconhecer que a humanidade está nas mãos de Deus que é presença e cujo reinado se dá na paz realizada e na bênção experimentada por todos em todos os lugares.
Não sem razão o papa Bento XVI recomenda e apresenta como primeira condição para a Paz educar-se para se reconhecer criatura daquele que volta seu rosto para o mundo.
padre Elcio Alberton


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Santa mãe de Deus, Maria. (Solenidade)
Hino 7 sobre a Virgem
«Glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido»
Vinde, sábios, admiremos a Virgem Mãe, a filha de David, esta flor de beleza que deu à luz a maravilha. Admiremos a fonte donde brota o princípio, a embarcação completamente carregada de alegrias que nos traz a mensagem vinda do Pai. No seu seio puríssimo, recebeu e trouxe este grande Deus que governa a criação, este Deus por Quem a paz reina na terra e nos céus. Vinde, admiremos a Virgem puríssima, maravilhosa em si mesma, a única criatura que deu à luz sem ter conhecido homem. A sua alma estava cheia de assombro, e todos os dias glorificava a Deus na alegria, por estes dons que parecia não poderem unir-se: a sua integridade virginal e o seu Filho bem-amado. Sim, abençoado seja Quem dela nasceu! [...]
Ela tem-No dentro de si e canta os Seus louvores com suaves cânticos [...]: «O Teu lugar, meu Filho, é acima de todas as coisas; mas, porque assim o desejaste, vieste repousar em mim. Os céus são demasiado estreitos para a Tua majestade, e eu, que sou tão pequena, trago-Te dentro de mim! Que venha Ezequiel e Te veja no meu regaço; que ele se prostre e adore; que reconheça em Ti aquele que viu sentar-Se no carro dos querubins (Ez 1) e que me proclame bem-aventurada, graças a Quem trago dentro de mim! [...] Isaías, que proclamaste: «Eis, a Virgem concebeu e deu à luz um filho» (7,14), vem, contempla, congratula-te comigo. [...] Eis que dei à luz mantendo intacto o selo da minha virgindade. Contempla o Emanuel, que permaneceu escondido para ti. [...]
«Vinde a mim, vós, os sábios, chantres do Espírito, profetas que nas vossas visões tivestes a revelação das realidades escondidas, agricultores que, após terdes semeado, adormecestes na esperança. Levantai-vos, saltai de alegria vendo a colheita dos frutos. Eis nos meus braços a espiga de vida que dá pão aos que têm fome, que satisfaz os miseráveis. Congratulai-vos comigo: recebi uma braçada de alegrias!»
Santo Efraim
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Festa da Mãe de Deus
dom Henrique Soares da Costa

Hoje é a oitava do Natal. Nesta eucaristia, é necessário que tenhamos em vista alguns aspectos importantes.
No Oriente, era costume, no dia seguinte ao parto, cumprimentar uma mulher que houvesse dado à luz. Por isso, nossos irmãos orientais, desde o século IV, no dia seguinte ao Natal, celebram a festa da congratulação da Mãe de Deus – uma homenagem Àquela que deu à luz o Salvador. No Ocidente, a congratulação da Virgem é hoje, oito dias após o santo Natal. A Igreja, com os pastores, vai ao encontro do Menino e o encontra com sua Mãe; e proclama que este Menino é o Deus verdadeiro. Ele não é somente a criancinha frágil; mas o Deus forte, feito pequeno por nós! Por isso, o povo de Deus saúda, hoje, a Virgem, com o título antiqüíssimo de Mãe de Deus, isto é, Mãe de Deus Filho! “Bendita sejais, Virgem Maria! Trouxestes no ventre quem fez o universo! Vós destes à luz a quem vos criou e permaneceis Virgem para sempre!” Este Menino, o Deus verdadeiro, fez-se realmente um de nós, nascido realmente de uma Virgem. Ele não é a mãe de Deus Pai - isto seria uma blasfêmia! Também não é mãe do Espírito Santo - isto seria loucura! Não se pode tampouco dizer que ela é mãe da natureza divina - isto seria heresia! O que a Igreja crê, professa, testemunha e ensina com todo acerto e toda piedade é que a sempre Virgem Maria é Mãe santíssima do Deus Filho feito homem! Tudo quanto o Filho é na sua humanidade, ele o recebeu de Maria! O Filho não somente nasceu através de Maria, mas de Maria!
Mais ainda: os orientais gostam de invocar Jesus exclamando: Deus nascido da Virgem, salvai-nos! Estejamos atentos! Não somente Deus concebido de Maria, a Virgem, mas também Deus nascido de modo inefável, miraculoso, misterioso, da Virgem: Deus nascido da Virgem! Admirada com um nascimento assim, tão divino, tão único, a Igreja exclama: “Como a sarça, que Moisés viu arder sem se consumir, assim intacta é a vossa admirável virgindade. Virgem Maria, Mãe de Deus, por nós intercedei”. Deste modo, a Solenidade de hoje nos recorda não somente que a Virgem é verdadeiramente Mãe de Deus, mas que ela é sempre virgem: antes, durante e depois do parto! O Cristo nosso Deus não somente foi concebido da Virgem Maria, mas o Credo diz que ele nasceu da Virgem Maria! Nasceu sem destruir a virgindade da Mãe! Para o nosso mundo atual, que supervaloriza o sexo e faz com que os jovens tenham até mesmo vergonha de admitir que são virgens, proclamar a virgindade perpétua de Maria, recorda-nos que a castidade é uma preciosa e cara virtude cristã e a virgindade deve ser vista por nós como um valor e um ideal a ser buscado! Em Maria, a Virgem, o permanecer na virgindade exprime que ela sempre foi toda de Deus, absolutamente de Deus, em corpo e alma, em todo o seu ser, de modo constante e absoluto!
Não é por acaso que, segundo o Evangelho de Mateus, os magos encontraram o Menino com Maria, sua Mãe (cf. 2,11). É assim que Aquele que nos nasceu é sempre encontrado, pois o Deus que de nada necessita, contou com o “sim” da Virgem e dela, como de uma terra nova e virgem, gerou segundo a natureza humana o seu Filho para nossa salvação. É este mistério que a Igreja hoje celebra: este Menino é o Deus verdadeiro e sua Mãe faz parte do plano da salvação, pois “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma Mulher... a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei”. Na nossa salvação, esteve, está e estará sempre presente a Mulher, a Virgem Maria. Alegremo-nos, portanto, com a Virgem Maria e, com toda Igreja, digamos: “Virgem Santa e Imaculada, eu não sei com que louvores poderei engrandecer-vos! Pois Aquele a quem os céus não puderam abranger, repousou em vosso seio. Sois bendita entre as mulheres e bendito é o fruto que nasceu do vosso ventre!”
Há um segundo aspecto deste hoje. O primeiro do ano e dia da confraternização universal, início do ano civil. A pedido do papa Paulo VI, a ONU transformou esta data em dia festivo para todas as nações. É dia da paz, dia da confraternização entre os povos, nações, culturas... Ora, nós cristãos sabemos que a paz não é uma idéia, um sonho, um desejo; a paz é uma pessoa. São Leão Magno dizia, no século V: “O Natal do Senhor é o Natal da Paz. Cristo é a nossa paz!” Não foi a respeito dele que o profeta afirmou: “Ele será chamado Admirável, Deus, Príncipe da Paz, Pai do mundo novo”? (Is. 9,2-6) Não foi ele mesmo quem disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos sou; não vo-la dou como o mundo a dá?” (Jo 14,27). Que tenhamos cada vez mais sólida esta convicção: a paz que almejamos, a paz tão sonhada, a paz para o mundo e para a nossa vida, somente no Cristo poderá ser encontrada de modo definitivo e pleno! Nele, nem as tristezas, nem as desilusões, nem as angústias, nem as provações, poderão nos fazer perder a paz! Cristo, nossa Paz!
Finalmente, hoje, também, é dia da circuncisão do Menino. Como descendente de Abraão, ele foi circuncidado, passando a fazer parte do Povo da antiga Aliança, e recebeu o nome de Jesus, isto é, Deus salva! Que nome belo, que nome eloqüente, que nome bendito a nos encher de certa esperança para os dias de 2004 que chegou! Jesus, nome acima de todo nome, único nome no qual podemos encontrar salvação no céu e na terra. Jesus, doce lembrança do nosso coração, doce alívio nas dores, forte certeza nos momentos difíceis. Jesus, amigo certo de todas as horas, única certeza e apoio de nossa existência! Por isso mesmo, a primeira leitura da Missa de hoje, faz-nos ouvir a bênção de Aarão, que, por três vezes, invoca o nome do Senhor sobre o povo! Para os cristãos, o Senhor é Jesus, e não há outro! Pois é neste nome bendito que todos e cada um queremos iniciar o novo ano civil: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu olhar e te dê a paz!”

SEGUNDA HOMILIA

Hoje é a oitava do Natal. É um antiqüíssimo costume da Igreja de Roma, voltar seu coração e sua mente, neste dia, para Aquela de quem nasceu o Salvador do mundo. O Evangelho de são Mateus afirma que os magos, ao entrarem onde estava a Sagrada Família, “viram o Menino com Maria, sua Mãe e, prostrando-se, o homenagearam” (2,11). Trata-se da homenagem solene e ritual prestada aos reis orientais. E, no Oriente, a Mãe do rei, chamada gebirah, exercia um papel importantíssimo. Pois, eis aqui, na cena do Evangelho, o Rei dos judeus, o Rei-Messias, o Rei que é Deus, e sua Rainha-Mãe, sua gebirah, a Virgem Maria! Agradecida pelo seu “sim” ao plano de Deus, a Igreja chama-a, desde os primórdios da fé cristã, de “Mãe de Deus”, isto é, “Mãe de Deus-Filho feito homem”! Com isto, nós confessamos que o Menino nascido da Virgem é Deus verdadeiro e perfeito, uma Pessoa divina com a natureza divina completa e uma verdadeira natureza humana. Ele, Filho do eterno Pai, fez-se realmente, como homem, filho de Maria Virgem, sem deixar de ser Deus! Na Virgem Santíssima, que trouxe em seu seio a segunda Pessoa da Trindade Santa, o divino e o humano se encontraram para sempre, os céus e a terra se abraçaram para nunca mais se deixarem!
Ao recordar a maternidade divina de Nossa Senhora, a Igreja recorda também as condições maravilhosas dessa maternidade: ela aconteceu de modo virginal! Com efeito, a Mãe do Senhor concebeu virginalmente, virginalmente deu à luz e virgem permaneceu para sempre! A Virgem não somente concebeu, mas também virginalmente deu à luz um filho – eis a profecia de Isaías (cf. 7,14). A Igreja canta esse mistério com palavras admiráveis: “Na sarça que Moisés via arder sem se consumir, admiramos o sinal da vossa  incomparável virgindade, ó Mãe de Deus!” e ainda, pensando na porta selada, pela qual somente o Senhor passaria, como profetizou Ezequiel (cf. 44,2), a Igreja exclama: “A porta eterna do Templo eternamente fechado feliz e pronta se abre somente ao Rei esperado!”. Aqui silencia a imaginação humana, pois que pertence ao segredo de Deus o modo como, Virgem, Nossa Senhora concebeu e ainda como, virginalmente, deu à luz! Uma coisa é certa: sua virgindade perpétua quer nos mostrar o quanto esse Menino todo vindo de Deus é um novo começo, um novo início para toda a criação e toda a humanidade! Além do mais, revela o quanto Maria Virgem foi integralmente de Deus, de corpo e alma. Num mundo que endeusa o sexo e exalta de modo abusivo a sensualidade, a Santíssima Virgem nos aponta outros valores e revela a beleza da virgindade e da castidade como expressão do ser humano vivendo livre, debaixo do senhorio de Cristo, no seu corpo, no seu afeto e na sua alma! Quanto mais alguém vive totalmente para o Senhor, mais fecundo se torna em sua vida e mais traz Jesus ao mundo, como testemunha do Reino dos céus. Por isso a saudação que a Igreja hoje dirige à Virgem Maria: “Salve, ó Santa Mãe de Deus, vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos eternos!”
Hoje também, oitavo dia do nascimento do Fruto do ventre da Virgem, a Igreja recorda a circuncisão do Menino. Ele, circuncidado, passou a fazer parte do Povo de Israel. Assim, cumpriu-se a promessa que Deus fizera a Abraão, nosso Pai. Da sua descendência o Senhor fizera surgir um Salvador para todas as nações: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu filho, nascido de uma Mulher, nascido sob a Lei!”. Circuncidado, o Menino recebeu o nome de Jesus, que significa “o Senhor salva”. Seu nome revela sua identidade, sua missão e a causa da nossa alegria! Ele é a salvação que Deus nos concede, ele é a nossa Paz, pois nos reconcilia com Deus e nos abre as portas dos céus. Por isso mesmo, os cristãos hoje, juntamente com toda a humanidade, celebram o Dia da Paz. Para nós, essa Paz tem um nome, tem um rosto, tem um sorriso. Podemos encontrar tudo isso naquele que veio de Maria, a Virgem! Somente abrindo-se para ele, o mundo encontrará a verdadeira paz!
Confiemos, pois, os dias do novo ano civil que está começando, a este Menino, o Príncipe da Paz. Que o seu nome repouse sobre nós, como uma bênção! Certamente, neste ano choraremos e sorriremos, venceremos e fracassaremos, cairemos e nos ergueremos... Não importa! Importa, sim, que estejamos com o Senhor, ele, que estará sempre conosco. Ele foi apelidado – não esqueçamos – de Emanuel, Deus-conosco! Que este ano seja, como se colocavam nos antigos documentos, “Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo!”
Estamos iniciando o ano novo profundamente feridos e perplexos com a tragédia da Ásia. Escapa-nos o porquê de tanta dor, sofrimento e morte. Mas, teimamos em acreditar que há um Deus no céu, que, em Cristo, esse Deus fez-se presente como amor, como companhia, como ternura e consolo para toda a humanidade. Cremos que, neste Menino que nasceu e cresceu e chorou e sofreu e morreu, Deus faz-se, para sempre, solidário conosco. Queremos recordar cada morto e cada sobrevivente dessa tragédia; queremos recordar aqueles montes de cadáveres em decomposição, sem tempo para uma sepultura digna; queremos dizer que tudo isso é muito triste, é absurdamente incompreensível! Mas, queremos também colocar tudo isso nas mãos desse Menininho; também ele pobre, também ele perseguido, também ele sem abrigo, também ele sofredor até a morte de cruz, até o silêncio da sepultura, para dar sentido às nossas dores e vencer a nossa morte. Nesse Menino crucificado, a dor humana não se explica, mas encontra consolo; nesse Emanuel, nós sabemos que Deus está conosco, mesmo quando parece se calar ante uma tragédia como a que estamos assistindo!
Coloquemos, pois, os dias de nossa vida nas mãos do Salvador. E, como penhor de que nossas preces serão ouvidas, supliquemos à Mãe de Deus toda Santa: “À vossa proteção recorremos, ó Santa Mãe de Deus! Protegei os pobres, ajudai os fracos, consolai os tristes, rogai pela Igreja, protegei o clero, ajudai-nos todos, sede nossa salvação! Santa Maria, sois a Mãe dos homens, sois a Mãe do Cristo que nos fez irmãos! Rogai pela Igreja, pela humanidade e fazei que, enfim, tenhamos paz e salvação!”
dom Henrique Soares da Costa

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A meditação da Mãe
Você conhece a história da tia Teca?
Era uma vez tia Teca. Era uma mulher muito simples, que vendia verduras na vizinhança. Certo dia, tia Teca, conhecida por todos, foi vender suas verduras na casa de um senhor e lá perdeu o terço, no jardim da casa dele.
Passados alguns dias, tia Teça, voltou novamente a casa daquele senhor, que começou a zombar dela. Dizia ele: “Você perdeu seu Deus?”. Ela humildemente respondeu: “Eu? Perder o meu Deus? Nunca”. Então, aquele senhor pegou o terço e lhe disse: “não é este o seu Deus?” Ela, muito contente, respondeu: “Graças a Deus, você encontrou o meu terço. Muito obrigada”. E ele continuou: “Por que você não troca este cordão com estas sementinhas pela Bíblia?” Ela disse: “Por que eu não sei ler a Bíblia e com o terço eu medito toda a Palavra de Deus e a guardo no meu coração”. Com curiosidade, aquele homem lhe perguntou: “Medita a Palavra de Deus? Como assim? Poderia me dizer?”. “Posso sim, respondeu tia Teca pegando o terço. Quando eu tenho a cruz em minhas mãos, lembro-me que o Filho de Deus derramou todo seu sangue, pregado numa cruz, para salvar a humanidade. Essa primeira conta grossa, me lembra de que há um só Deus Onipotente. Essas três contas pequenas me recordam as três Pessoas da Santíssima Trindade: Pai e Filho e Espírito Santo. Esta outra conta grossa faz lembrar-me da oração que o Senhor mesmo nos ensinou, que é o Pai-nosso. O terço tem cinco mistérios, que são uma recordação das cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, cravado na cruz. Cada mistério tem dez Ave-Marias, que me fazem lembrar os dez mandamentos, que o Senhor mesmo escreveu nas tábuas de Moisés. O rosário de Nossa Senhora tem vinte mistérios: cinco gozosos, cinco luminosos, cinco dolorosos e cinco gloriosos. De manhã, quando me levanto para iniciar a minha luta do dia-dia, eu rezo os mistérios gozosos, lembrando-me do humilde lar de Maria de Nazaré. Ao meio-dia no meu cansaço e fadiga do trabalho, eu rezo os mistérios dolorosos, que fazem lembrar a dura caminhada de Jesus Cristo para o Calvário. Nessa caminhada, é necessária a luz de Deus, os mistérios luminosos concedem-me essa luz para prosseguir. E, quando chega o final do dia com as lutas vencidas, eu rezo os mistérios gloriosos, que me recordam a vitória de Jesus sobre a morte. E agora, diga-me: onde está a idolatria?” Ele, depois de ouvir tudo isso, respondeu à tia Teca: “Eu não sabia disso, tia Teca, por favor, ensina-me a rezar o terço”.
Vamos conceder que o homem da nossa historinha, apesar da sua chatice inicial era um gentleman, era um homem nobre e sabia reconhecer que tinha se equivocado. Quando uma pessoa depois de errar, reconhece o seu erro, deveríamos aplaudi-la. Essa pessoa é nobre, é uma alma fina.
Maria Santíssima é uma boa mãe que em tudo procura a honra do Filho. Nunca foi, nem será a intenção de Maria roubar glória a Deus. Ela sempre foi a serva fiel que apontou o caminho de Deus a tantas pessoas, e seguirá realizando esse trabalho. Ela é estrela da evangelização!
A Escritura diz que “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc. 2,19) e que “sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc. 2,51). Maria, Mãe de Deus – porque Jesus é Deus – pensava e repensava nos acontecimentos da história da salvação, da qual o seu Filho é o centro e ela está profundamente inserida. A meditação de Maria é uma meditação de Mãe, ela pensa no seu Filho continuamente. E como bem se sabe, as mães tem uma espécie de sexto sentido.
Não faz muito tempo, um jovem rapaz teve que ficar cuidando da sua sobrinha de tão somente dois anos enquanto a sua irmã ia ao supermercado. No começo, tudo ia muito bem: ele fazia coisas engraçadas e a criaturinha ria, ele inventava joguinhos e a pequena se divertia, ele pulava feito um macaco e a menina dava gargalhadas. O tempo foi passando e mãe da criatura ia tardando. Acabaram-se todas as artimanhas daquele tio desejoso de fazer feliz a sobrinha. Num certo momento, a pequena olhou para o tio, fez cara de choro e abriu a bocarra, ou melhor, boquinha, e chorou a gritos. O jovem tio ficou desconcertado, procurou consolar a sobrinha desconsolada e… nada! Perguntava-se o nosso jovem de onde saia tanta potência para gritar e tanta água para chorar de uma criatura tão pequena. Estando na lida para procurar calar a sobrinha, toca a campainha. O nosso jovem quase reza para que seja a sua irmã de volta. E era! Mas quando a pequena viu a mãe, em vez de calar-se e correr para os seus braços, chorou com mais veemência. A mãe, no entanto, olhou para a criaturinha, observou com carinho e disse: “Ah, já sei, você quer um biscoito”. Deu o biscoito e choro cessou. O tio, do outro lado, se perguntava: “como é que eu fui tão tonto? Era só isso? Um simples biscoito?”
As mães intuem, sabem, tem o sentido mais profundo da realidade. Nossa Senhora é especializada na vida de Jesus. Ela é mãe. Peçamos a ela que nos ensine através do rosário, que é meditação do que aconteceu com o Filho de Deus e Filho de Maria. Aprendamos também com a Tia Teca!

SEGUNDA HOMILIA

Theotokos: Mãe de Deus
Maria é Mãe de Deus porque Jesus é Deus! Todas aquelas passagens da Sagrada Escritura que dizem que Jesus é o Filho de Deus e que ele nasceu de Maria são argumentos a favor desta verdade de fé. Ora, se Jesus é Deus e Maria é Mãe de Jesus, a conclusão necessária é que Maria é Mãe de Deus. A passagem do Evangelho de hoje nos transmite que Jesus foi “concebido no seio materno” de Maria (Lc. 2,21).
No século II, os Padres da Igreja estavam de acordo que Jesus nasceu de Santa Maria Virgem e foi gerado verdadeiramente dela, ex Maria Virgine. Essa verdade também estava presente na piedade dos fiéis, que desde o século III rezavam aquela oração: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus, não desprezeis as súplicas que vos dirigimos em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita”. Parece que foi no Egito que surgiu a expressão Theotokos (Dei Genitrix = geradora de Deus, Mãe de Deus) para falar da maternidade divina.
No entanto, no século V, o Patriarca de Constantinopla, Nestório, opôs-se decididamente a essa verdade de fé. Ele dizia que em Cristo há duas pessoas, a humana e a divina, que se uniam através duma espécie de “pessoa de união”. Como a pessoa divina de Jesus tem como referência o próprio Pai eterno, consequentemente Maria só poderia ser Mãe da pessoa humana de Jesus. Na falsa opinião de Nestório, Maria é Mãe de Cristo (da sua pessoa humana) e não Mãe de Deus. Essa afirmação escandalizou os cristãos da época: a doutrina de Nestório vai contra a fé que nos foi transmitida pelos Apóstolos de Jesus Cristo.
São Cirilo de Alexandria, chamado “o teólogo da encarnação”, em consonância com o Papa Celestino I, defendeu com inteligência e fervor que foi o Verbo, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, quem se fez carne e que Maria é, portanto, a Mãe de Deus. O Concilio de Éfeso (ano 431) ratificou essa doutrina e esclareceu que Maria é Mãe de Deus não porque “a natureza do Verbo ou a sua divindade tivesse tido origem da Santa Virgem, mas porque dela nasceu o santo corpo dotado de alma racional, à qual o Verbo uniu-se substancialmente, e assim se diz que nasceu segundo a carne” (DZ 251). Resumindo: em Cristo há uma só Pessoa, a divina, e duas naturezas, a humana e a divina; é a Pessoa divina quem se encarna assumindo assim a natureza humana. Por outro lado, não conheço nenhuma mulher que seja mãe da natureza humana em geral, mas de Antônio, Joaquim, Maria, etc., de pessoas concretas; as mães não são mães de naturezas abstratas, mas de indivíduos. Santa Maria também, ela é Mãe de uma Pessoa, do Verbo do Pai; logicamente, não porque ela tenha gerado a Pessoa divina na eternidade, mas porque ela a gerou segundo a humanidade quando chegou a plenitude dos tempos (cf. Gl. 4,4), ou seja, dela nasceu o Verbo feito carne, Jesus Cristo: ela é Mãe de Deus enquanto que o Verbo fez-se carne nela.
Quando o Povo fiel soube que o Concilio de Éfeso proclamara que Maria é Mãe de Deus, encheu-se de grande júbilo. Nós também, em união com os cristãos de todos os tempos, alegramo-nos com essa verdade e damos graças a Deus porque ela também é nossa Mãe. Que bom começarmos um novo ano com uma celebração em honra de Nossa Senhora! Ela sempre nos leva a Jesus, o seu conselho para o ano que se inicia é este: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Se fizermos o que a nossa Mãe nos diz seremos muito felizes durante esse ano e durante toda a vida, seremos guiados por uma Mãe tão boa e nos sentiremos seguros.
Como ser cristão e não ser mariano? Entende-se sem compreender. Ser cristão e não ser mariano é uma contradição! Sinceramente, é difícil compreender esses cristãos, que ao levarem o nome de Cristo não querem levar o de Maria! Não podemos ser indelicados e pouco elegantes para com Nosso Senhor desmerecendo a sua própria Mãe, aquela que ele tanto ama. Não é verdade que nós também nos sentiríamos ofendidos se alguém começasse a falar mal de nossas mães? Temo pelos que não amam Nossa Senhora!
Hoje também é o dia mundial da paz. Peçamos ao nosso único Salvador Jesus Cristo, por intercessão de Santa Maria Rainha da Paz, que nos conceda a paz, a verdadeira paz!
padre Françoá Costa
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No oitavo dia de Natal, a Igreja celebra a solenidade de Maria, Mãe de Deus. É o dia 1º de janeiro, abertura de um ano civil e celebra-se também o Dia mundial da paz.
A piedade cristã plasmou de mil formas diferentes a festa da Mãe de Deus que celebramos hoje! Um exemplo disso é que inúmeras são as imagens de Maria com o Menino nos braços. A Maternidade de Maria é o fato central que ilumina toda a vida da Virgem e é o fundamento dos outros privilégios com que Deus quis adorná-la.
Maria é a Senhora, cheia de graça e de virtudes, concebida sem pecado, que é Mãe de Deus e Mãe nossa, e está nos céus em corpo e alma. A Bíblia fala-nos dela como a mais excelsa de todas as criaturas, a bendita, a mais louvada entre as mulheres, a cheia de graça (Lc. 1,28), Aquela que todas as gerações chamarão bem-aventurada (Lc. 1,48).
A Igreja ensina-nos que Maria ocupa, depois de Cristo, o lugar mais alto e o mais próximo de nós, em função da sua maternidade divina. Diz o Concilio Vaticano II, na Lumen Gentium, 63: “Ela, pela graça de Deus, depois do seu Filho, foi exaltada sobre todos os anjos e todos os homens.”
Ensina S. Paulo: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei…” (Gl. 4,4). Jesus não apareceu de repente na terra vindo do céu, mas fez-se realmente homem, como nós, tomando a nossa natureza humana nas entranhas puríssimas da Virgem Maria. Enquanto Deus, é eternamente gerado, não feito, por Deus Pai. Enquanto homem, nasceu, “foi feito”, de Santa Maria. “Muito me admira – diz por isso são Cirilo - que haja alguém que tenha alguma dúvida de que a Santíssima Virgem deve ser chamada Mãe de Deus. Se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, por que a Santíssima Virgem, que o deu à luz, não há de ser chamada Mãe de Deus? Esta é a fé que os discípulos do Senhor nos transmitiram, ainda que não tenham empregado essa expressão. Assim nos ensinaram os Santos Padres”.
“Quando a Virgem respondeu livremente Sim àqueles desígnios que o criador lhe revelava, o Verbo divino assumiu a natureza humana: a alma racional e o corpo formado no seio puríssimo de Maria. A natureza divina e a natureza humana uniam-se numa única Pessoa: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e, desde então, verdadeiro Homem; Unigênito eterno do Pai e, a partir daquele momento, como Homem, filho verdadeiro de Maria. Por isso Nossa Senhora é Mãe do Verbo encarnado, da segunda pessoa da Santíssima Trindade que uniu a si para sempre –sem confusão- a natureza humana. Podemos dizer bem alto à Virgem Santa, como o melhor dos louvores, estas palavras que expressam a sua mais alta dignidade: Mãe de Deus” (são Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 274).
“Concebendo Cristo, gerando-o, alimentando-o, apresentando-o ao Pai no templo, padecendo com seu Filho quando morria na cruz, cooperou da forma inteiramente ímpar com a obra do Salvador mediante a obediência, a fé, a esperança e a ardente caridade, a fim de restaurar a vida sobrenatural das almas. Por isso Ela é nossa Mãe na ordem da graça” (LG 61).
Jesus deu-nos Maria como Mãe nossa no momento em que, pregado na Cruz, dirigiu à sua Mãe estas palavras: “Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27). Desde aquele dia, toda a Igreja a tem por Mãe; e todos os homens a têm por Mãe. Todos entendemos como dirigidas a cada um de nós as palavras pronunciadas na Cruz.
Quando Cristo dá a sua Mãe por Mãe nossa, manifesta o amor aos seus até o fim. Quando a Virgem Maria aceita o Apóstolo João como seu filho, mostra o seu amor de Mãe para com todos os homens.
Hoje também é o dia mundial da Paz, dedicado ao tema: “Educar os jovens para a justiça e para a paz”.
Diz Bento XVI: “O início de um novo ano, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos com grande confiança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fique marcado concretamente pela justiça e a paz.”
Continua o papa: “Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor “mais do que a sentinela pela aurora” (v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação.” O papa diz que queria revestir a mensagem duma perspectiva educativa: “Educar os jovens para a justiça e a paz”, convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo.
Hoje, primeiro dia do ano, rezemos com salmista: Deus nos dê a sua graça e nos abençoes! Sim fomos abençoados. E se abençoados, somos chamados a sermos fonte de benção para nosso próximo. Que a saudação Feliz ano novo desperte em nós o propósito de comunicar a paz e a alegria a todos!
mons. José Maria Pereira
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Ao colocar no calendário litúrgico a solenidade da maternidade divina de Nossa Senhora, a Igreja assegura-nos as bênçãos e proteção d’Aquela que, sendo Mãe de Deus, é também nossa Mãe.
Mãe de Jesus
A maternidade é uma das maiores maravilhas que Deus criou sobre a terra. Pode realizar-se de dois modos: fisicamente, concebendo uma criança e dando-a à luz; e espiritualmente, pela virgindade por amor do Reino dos céus. Maria reúne em si estes dois ideais: é Virgem – ao conceber Jesus, ao dá-l’O à luz e durante o resto da vida – e Mãe.
O dom da maternidade. A mãe é uma fonte inesgotável de amor, de carinho e de generosidade.
É também para os filhos uma promessa de segurança para todas as horas; a conselheira dos momentos difíceis; e aquela que nunca perde a esperança perante a doença ou outro qualquer mal de um filho, mesmo quando todos os outros já a perderam.
O filho, desde o primeiro momento da sua existência no seio materno, fica na total dependência dela. Confia-se inteiramente aos seus braços e sente junto dela uma especial segurança, talvez pela experiência inconsciente vivida nos primeiros dias da sua vida. (O demônio procura destruir a figura da mãe pelo aborto e pelas tristes notícias que a comunicação social nos traz, tentando apagar a beleza que o Senhor deixou ao criá-la).
Maria, Mãe de Jesus.
Deus quis ter na terra uma Mãe e confiou-Se ao seu carinho, na Sua vida na terra.
Escolheu-A e enriqueceu-A com todos os dons. (Que faria cada um de nós se pudesse dar à sua mãe tudo quanto deseja?)
Fê-l’A Imaculada desde a sua Conceição, ou seja, ilibou-A de toda a mancha do pecado original e encheu-A de graça santificante; preservou-A de toda a mancha durante a sua caminhada na terra; elevou-A gloriosa ao Céu em corpo e alma.
Entregou nas suas mãos maternais todos os tesouros que nos deseja conceder. Tudo o que nos vem do Céu passa pela sua oração e pelas suas mãos. Concede-lhe tudo o que Ela pede para nós, porque Maria conforma-se inteiramente com a vontade de Deus a nosso respeito. A Igreja invoca-A como a onipotência suplicante.
A maternidade divina de Maria foi revelada por Deus. O arcanjo Gabriel diz-lho claramente: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus» (Lc. 1,35).
Isabel exclama, ao receber o seu abraço de felicitações: «Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» (Lc. 1,43).
Também um grupo de mulheres que ouviam a pregação de Jesus A aclamaram como Mãe d’Ele: «Bendito o ventre que Te trouxe e os peitos que Te amamentaram» (Lc. 11,27).
Por isso, quando um herege levantou a voz para negar esta verdade de fé, a Igreja reuniu o concílio de Éfeso e proclamou a maternidade divina de Maria, enchendo de alegria todo o povo. Conta-nos são Cirilo de Alexandria: «todo o povo da cidade de Éfeso, desde as primeiras horas da manhã até à noite, permaneceu ansioso à espera da resolução… Quando se soube que o autor das blasfêmias tinha sido deposto, todos ao mesmo tempo começamos a glorificar a Deus e a aclamar o sínodo, porque tinha caído o inimigo da fé. Apenas saídos da igreja, fomos acompanhados com tochas a nossas casas. Era de noite: toda a cidade estava alegre e iluminada» (são Cirilo de Alexandria, Epistolæ XXIV (PG 77,138).
Maternidade dolorosa.
Jesus pesou nos braços e no coração da sua Mãe mais do que qualquer outro filho, para lhe dar a possibilidade de se enriquecer de merecimentos.
– Sofreu com a agonia de José que não compreendia o mistério da sua maternidade virginal, até que um anjo o esclareceu em sonhos.
– Fugiu apressadamente para o Egito, livrando Jesus da morte programada por Herodes, conhecendo o desconforto e a escassez do exílio.
– Procurou, aflita, com José, durante três dias, o Menino que ficara no templo, por vontade do Pai.
– Viu-O partir para a vida pública, remetendo-se , possivelmente, à situação de viúva sozinha.
– Sofreu na Paixão de Jesus, ao vê-l’O morrer insultado pelos homens, e sem que A deixassem guardar, como recordação, as vestes do Filho.
– Viu-se forçada a fugir de Jerusalém para o estrangeiro, por causa da perseguição aos primeiros cristãos.
Maria, nossa Mãe
Quando aceitou ser Mãe de Jesus, Maria acolheu-nos a todos como nossa Mãe.
Uma verdade de fé. Pelo batismo fomos intrinsecamente transformados, tornamo-nos «nova criatura», animados pela vida de Deus – a graça santificante – e membros do Corpo de Jesus Cristo. Deste modo, participamos na sua mesma vida.
– Jesus proclamou solenemente esta maternidade universal de Nossa Senhora do alto da cruz, talvez para nos ensinar que o sermos filhos de Maria é o primeiro fruto da Paixão de Jesus. «Mulher, eis o teu filho… João, eis aí a tua Mãe. E desde aquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa.»
– Foi proclamada no Concílio Vaticano II, por Paulo VI, Mãe da Igreja, isto é, Mãe de todo o Corpo Místico.
– Procedeu sempre como tal, livrando-nos de apuros: em Lepanto, afasta de nós o perigo turco que ameaçava destruir todo o cristianismo na Europa; fez cair o «muro da vergonha», depois de renovada a consagração do mundo ao seu Imaculado Coração, pelo papa João Paulo II, em 25 de Março de 1985.
Tem atuado como Mãe atenta e dedicada. Compadecida do nosso descaminho, multiplica as aparições particulares: em Lurdes, em Fátima e em tantos outros lugares.
Qual a razão desta atração misteriosa que sentimos pelos seus templos? João Paulo II chama-lhes «Casas da Mãe.»
Levemos Maria para a nossa casa. Imitemos o discípulo amado, trazendo Nossa Senhora para a vida de cada dia, como bons filhos que desejamos ser.
– Procuremos conhecê-l’A cada vez melhor, meditando os textos do Evangelho que nos falam d’Ela, bem como outros livros bons que estão ao nosso alcance.
– Aproximemo-nos d’Ela, como os pastores e Belém. Deste modo nos encontraremos mais perto de Jesus. Para isso, visitemo-l’A nos seus santuários, e tenhamos em casa a sua imagem.
– Procuremos falar-lhe com frequência, rezando as diversas orações tradicionais na Igreja: a "consagração", o "Lembrai-vos", a "Salve-Rainha", o "terço", etc.
– Deixemo-nos guiar por Ela… e ensinar-nos-á a fazer a vontade de Deus, como recomendou aos criados de Caná: «Fazei tudo o que Ele vos disser.»
– Entreguemos-lhe a nossa vida, como uma criança se confia aos braços da mãe, com a certeza de que Ela escolherá para nós o que for melhor.
Tal como as mães preparam os filhos pequenos para uma visita importante, peçamos-lhe que nos prepare para receber Jesus, e nos acolha depois deste desterro, para nos apresentar a Jesus.
Fala o Santo Padre
«A paz é verdadeiramente o dom e o compromisso do Natal.»
Queridos irmãos e irmãs!
A liturgia de hoje contempla, como num mosaico, diversos fatos e realidades messiânicas, mas a atenção concentra-se particularmente sobre Maria, Mãe de Deus. Oito dias depois do nascimento de Jesus, recordamos a Mãe, a Theotókos, aquela que «deu à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos dos séculos» (antífona de entrada; cf. Sedúlio). A liturgia medita hoje sobre o Verbo feito homem, e repete que nasceu da Virgem. Reflete sobre a circuncisão de Jesus como rito de agregação à comunidade, e contempla Deus que deu o seu Filho Unigênito como chefe do «novo povo» por meio de Maria. Recorda o nome dado ao Messias, e ouve-o pronunciar com terna doçura pela sua Mãe. Invoca a paz para o mundo, a paz de Cristo, e fá-lo através de Maria, mediadora e cooperadora de Cristo (cf. Lumen gentium, 60-61).
Começamos um novo ano solar, que é um ulterior período de tempo que nos é oferecido pela Providência divina no contexto da salvação inaugurada por Cristo. Mas não entrou o Verbo eterno no tempo próprio por meio de Maria? Recorda-o o apóstolo Paulo na segunda Leitura, que escutamos há pouco, afirmando que Jesus nasceu «de uma mulher» (cf. Gl. 4,4). Na liturgia de hoje sobressai a figura de Maria, verdadeira Mãe de Jesus, Homem-Deus. Portanto, a solenidade não celebra uma ideia abstrata, mas um mistério e um acontecimento histórico: Jesus Cristo, pessoa divina, nasceu da Virgem Maria, a qual é, no sentido mais verdadeiro, sua mãe.
Além da maternidade hoje é posta em evidência também a virgindade de Maria. Trata-se de duas prerrogativas que são sempre proclamadas juntas e de maneira inseparável, porque se integram e se qualificam reciprocamente. Maria é mãe, mas mãe virgem; Maria é virgem, mas virgem mãe. Se omitirmos um dos dois aspectos não se compreende plenamente o mistério de Maria, como os Evangelhos no-lo apresentam. Mãe de Cristo, Maria é também Mãe da Igreja, como o meu venerado predecessor, o servo de Deus Paulo VI quis proclamar a 21 de novembro de 1964, durante o Concílio Vaticano II. Por fim, Maria é Mãe espiritual de toda a humanidade, porque Jesus derramou o seu sangue na cruz por todos, e a todos confiou da cruz à sua solicitude materna. […]
«O Senhor te abençoe e te guarde!… O Senhor volte para ti a sua face e te dê paz! (Nm. 6,24.26). É esta a fórmula de bênção que ouvimos na primeira leitura. É tirada do livro dos Números: nela é repetida três vezes o nome do Senhor. Isto significa a intensidade e a força da bênção, cuja última palavra é «paz». A palavra bíblica shalom, que traduzimos por «paz», indica aquele conjunto de bens em que consiste «a salvação» que trouxe Cristo, o Messias anunciado pelos profetas. Por isso, nós cristãos reconhecemos n’Ele o Príncipe da paz. Ele fez-se homem e nasceu numa gruta em Belém para trazer a sua paz aos homens de boa vontade, aos que o acolhem com fé e amor. A paz é assim verdadeiramente o dom e o compromisso do Natal: o dom, que deve ser acolhido com humilde docilidade e invocado constantemente com orante confiança; o compromisso, que faz de cada pessoa de boa vontade um «canal de paz».… (Bento XVI, Vaticano, 1 de janeiro de 2007)
Celebração litúrgica

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O êxito de uma empresa depende de um bom começo, da comunhão fraterna entre os membros que a compõem, familiares, amigos e conhecidos, e trabalhadores.
A nossa preocupação é a espiritual, de comunhão com Deus, com Maria Mãe de Deus, com a igreja.
A felicidade depende do trabalho para melhorar o nosso amor à santificação no ano que começamos.
Oração coleta: Senhor nosso Deus, que, pela virgindade fecunda de Maria Santíssima, destes aos homens a salvação eterna, fazei-nos sentir a intercessão daquela que nos trouxe o Autor da vida, Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Primeira leitura: Números 6,22-27
24-26 - Esta é uma bênção própria da liturgia judaica, ainda hoje usada. É tripla e crescente: com três palavras a primeira; com 5 palavras e com 7 as seguintes (no original hebraico). A tríplice invocação do Senhor, faz-nos lembrar a bênção da Igreja, em nome das Três Pessoas da SS. Trindade.
Quando, ao começar o ano civil, nos saudamos desejando Ano Novo feliz, aqui temos as felicitações, isto é, as bênçãos que o Senhor – e a Igreja – nos endereça.
Segunda leitura: Gálatas 4,4-7
O texto escolhido para hoje corresponde à única vez que S. Paulo, em todas as suas cartas, menciona diretamente a Virgem Maria. Não deixa de ser interessante a alusão à Mãe de Jesus, sem mencionar o pai, o que parece insinuar a maternidade virginal de Maria.
5 - Segundo o pensamento paulino, Cristo, sofrendo e morrendo, satisfaz as exigências punitivas da Lei, que exigia a morte do pecador; assim «resgatou os que estavam sujeitos à Lei» e mereceu-nos vir a ser filhos adotivos de Deus. O Natal é a festa do nascimento do Filho de Deus e também a da nossa filiação divina.
6 - «Abbá». Porque somos realmente filhos de Deus, podemos dirigirmo-nos a Ele com a confiança de filhos pequenos e chamar-Lhe, à maneira das criancinhas: «Papá». «Abbá» é o diminutivo carinhoso com que ainda hoje, em Israel, os filhos chamam pelo pai (abbá). São Paulo, escrevendo em grego e para destinatários que na maior parte não sabiam hebraico, parece querer manter a mesma expressão carinhosa e familiar com que Jesus se dirigia ao Pai, a qual teria causado um grande impacto nos próprios discípulos, porque jamais um judeu se tinha atrevido a invocar a Deus desta maneira; esta é a razão pela qual a tradição não deixou perder esta tão significativa palavra original de Jesus.
Evangelho: Lucas 2,16-21
Texto na maior parte coincidente com o do Evangelho da Missa da Aurora do dia de Natal (ver notas supra).
21 - Repetidas vezes se insiste em que o nome de Jesus é um nome designado por Deus: o nome, etimologicamente, significa aquilo que Jesus é na realidade, «Yahwéh que salva».
Sugestões para a homilia
1. Mãe de Deus
Na oitava do Natal a Igreja celebra a festa de «Maria, Mãe de Deus».
Acentua-se nas leituras a referência ao «filho de Maria» e «Nome do Senhor» mais do que Maria.
A preponderante atenção sobre o Filho não reduz o papel da Mãe; Maria é totalmente Mãe de Deus porque esteve em total relação com Cristo; por isso honrando-a, o Filho é mais glorificado.
Assim exprime-se a missão de Maria na história da salvação, que está na base do culto e da devoção do povo cristão; Maria não recebeu o dom de Deus só para si, mas para levá-lo ao mundo.
2. Mãe do homem
Jesus ou Deus salva introduz-nos em cheio no mistério de Cristo: da encarnação ao nascimento, à circuncisão, até a realização pascal da morte e ressurreição, Jesus é todo o Seu ser
– perfeita benção de Deus,
– dom de salvação e de paz para os homens,
– em Seu nome somos salvos.
A oferta da salvação vem por Maria e ela a apresenta ao povo de Deus, como outrora aos pastores.
Maria que deu a vida ao Filho de Deus, continua a apresentar aos homens a vida divina.
Por isso é considerada mãe de cada homem que nasce para a vida de Deus, e mãe de todos.
«Com os orientais também nos honramos «Maria sempre Virgem, solenemente proclamada santíssima Mãe de Deus pelo Concílio de Éfeso, para que Cristo fosse reconhecido, em sentido verdadeiro e próprio, Filho de Deus e filho do homem».
3. Viver como filhos de Deus
a) O fato de sermos filhos de Deus faz-nos herdeiros, na esperança de chegarmos a ser algum dia aquilo que Cristo já é: Filhos, no sentido pleno da palavra. O que Ele é neste momento, constitui para nós a garantia daquilo que nós seremos. Inspira-nos confiança para maiores intimidades com Deus, na oração: «Pai Nosso»
b) Dignidade humana e cristã: Esta nossa nobreza obriga-nos a viver os compromissos do batismo.
Somos irmãos, temos a mesma fé, recebemos o mesmo batismo e temos o mesmo Deus como Pai.
Não haja medo de Deus, desconfiança, temor aos Seus castigos, – Ele é justo –, não é nenhum polícia, mas Pai.
c) Trabalhemos para acabarem as diferenças sociais, sem dar importância à grandeza das famílias, títulos, riquezas ou cargos; as superioridades de raça, condição social, econômica, se revejam cristamente;
- aceitação de Cristo pela fé;
- coerência com o nosso novo nascimento pelo batismo, como reforço da nossa:
- dignidade humana e cristã,
- fraternidade universal,
- sentido de confiança em Deus,
- sentido de vivência cristã familiar e comunitária.
Fala o Santo Padre
«No início de um novo ano, somos convidados a colocarmo-nos na escola da discípula fiel do Senhor.»
Na hodierna liturgia o nosso olhar continua a voltar-se para o grande mistério da encarnação do Filho de Deus enquanto, com particular ênfase, contemplamos a maternidade da Virgem Maria. No trecho paulino que ouvimos (cf. Gl. 4,4), o Apóstolo refere-se de maneira muito discreta àquela, mediante a qual o Filho de Deus entra no mundo: Maria de Nazaré, a Mãe de Deus, aTheotokos. No início de um novo ano, somos como que convidados a colocarmo-nos na sua escola, na escola da discípula fiel do Senhor, para que Ela nos ensine a acolher na fé e na oração a salvação que Deus deseja derramar sobre quantos confiam no seu amor misericordioso.
A salvação é um dom de Deus; na primeira leitura, ela foi-nos apresentada como bênção: «Que o Senhor te abençoe e proteja… te mostre o seu rosto e te conceda a paz» (Nm. 6,24.26). Aqui, trata-se da bênção que os sacerdotes costumavam invocar sobre o povo no final das grandes solenidades litúrgicas, particularmente na festa do ano novo. Encontramo-nos na presença de um texto muito significativo, cadenciado pelo nome do Senhor, que se repete no início de cada versículo. Um texto que não se limita a uma simples enunciação de princípio, mas tende a realizar aquilo que afirma. Como se sabe, no pensamento semítico a bênção do Senhor produz, pela sua própria força, o bem-estar e a salvação, do mesmo modo como a maldição dá lugar à desgraça e à ruína. Além disso, a eficácia da bênção é concretizada de maneira mais específica por parte de Deus que nos protege (cf. v. 24), que nos é propício (cf. v. 25) e que nos concede a paz, ou seja, que nos oferece a abundância da felicidade.
Fazendo-nos ouvir esta antiga bênção, no início de um novo ano solar, é como se a liturgia quisesse encorajar-nos a invocar, por nossa vez, a bênção do Senhor sobre o novo ano, que dá os seus primeiros passos, a fim de que ele seja para todos nós um ano de prosperidade e de paz. […]
«Maria, porém, conservava todos estes fatos e meditava sobre eles no seu coração» (Lc. 2,19). O primeiro dia do ano é colocado sob o sinal de uma mulher, Maria. O Evangelista Lucas descreve-a como a Virgem silenciosa, constantemente à escuta da palavra eterna, que vive na Palavra de Deus. Maria conserva no seu coração as palavras que provêm de Deus e, unindo-as como num mosaico, aprende a compreendê-las. Na sua escola, também nós queremos aprender a tornar-nos atentos e dóceis discípulos do Senhor. Com a sua ajuda maternal, desejamos comprometer-nos a trabalhar alegremente na «construção» da paz, na esteira de Cristo, Príncipe da Paz. Seguindo o exemplo da Virgem Santa, queremos deixar-nos orientar sempre e unicamente por Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre (cf. Hb. 13,8). Amém! (Bento XVI, Vaticano, 1 de janeiro de 2006)
Ferreira de Sousa -  Geraldo Morujão
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Neste dia, a liturgia coloca-nos diante de evocações diversas, ainda que todas importantes.
Celebra-se, em primeiro lugar, a solenidade de santa Maria, Mãe de Deus: somos convidados a contemplar a figura de Maria, aquela mulher que, com o seu “sim” ao projeto de Deus, nos ofereceu Jesus, o nosso libertador.
Celebra-se também o primeiro dia do ano civil: é o início de uma caminhada percorrida de mãos dadas com esse Deus que nos ama, que em cada dia nos cumula da sua bênção e nos oferece a vida em plenitude.
As leituras que hoje nos são propostas exploram, portanto, estas diversas coordenadas. Elas evocam esta multiplicidade de temas e de celebrações.
Na primeira leitura, sublinha-se a dimensão da presença contínua de Deus na nossa caminhada e recorda-se que a sua bênção nos proporciona a vida em plenitude.
Na segunda leitura, a liturgia evoca, outra vez, o amor de Deus, que enviou o seu Filho ao encontro dos homens para os libertar da escravidão da Lei e para os tornar seus “filhos”. É nessa situação privilegiada de “filhos” livres e amados que podemos dirigir-nos a Deus e chamar-lhe “abbá” (“papá”).
O Evangelho mostra como a chegada do projeto libertador de Deus (que se tornou realidade plena no nosso mundo através de Jesus) provoca alegria e felicidade naqueles que não têm outra possibilidade de acesso à salvação: os pobres e os marginalizados. Convida-nos também a louvar a Deus pelo seu amor e a testemunhar o desígnio libertador de Deus no meio dos homens.
Maria, a mulher que proporcionou o nosso encontro com Jesus, é o modelo do crente que é sensível aos projetos de Deus, que sabe ler os seus sinais na história, que aceita acolher a proposta de Deus no coração e que colabora com Deus na concretização do projeto divino de salvação para o mundo.
Um ano novo com novo coração
Quantas vezes o dissemos, e quantas nos faltam ainda dizer? Na noite velha levantamos copos para brindar, desejar e pedir que o ano novo seja um ano feliz; melhor do que o ano velho.
Ao olhar para o ano que se foi caímos na conta de que se prolongou a lista de guerras, represálias, vinganças, catástrofes, corrupções e fraudes, doenças, que temos causado danos ambientais a este planeta; e que cada qual tem sua própria coleção de sofrimentos e escuridões, fracassos, desenganos, projetos não realizados, coisas que quisemos mudar e seguiram teimosamente como sempre.
Pessimistas? Cansados? Derrotados? Ou mais esperançosos?
Algo bom teremos passado também. Em algo teremos crescido, alguma meta teremos atingido, alguma boa notícia nos alegou o coração, alguma amizade nova terá começado, alguma surpresa agradável teremos vivido... Se só nos fixamos nas más notícias... os sucessos, as bênçãos e as alegrias parecem pequenos e frágeis.
Oxalá tenhamos sido capazes de reconhecê-los e agradecê-los.
Desde sua pequenez, Maria soube alegrar-se, agradecer e louvar a Deus por todas as obras que Deus estava a fazer nela, por ela, com ela.
Esses bons e sinceros desejos que nos brotam ao ter diante a primeira folha do calendário, são somente sonhos, fantasias, frases feitas? Realmente neste novo ano vamos ser mais felizes, nós e os que caminham a nosso lado?
Talvez nossa saúde dê-nos algum sobressalto, ou talvez a de algum ente querido, que talvez seja pior. A fragilidade humana faz-nos temer algum desgosto ou decepção dos que mais nos querem. É quase seguro que eu mesmo falhe a alguém e não saiba estar à altura das circunstâncias, que sigam ativos alguns confrontos e conflitos pessoais, que repetir-se-ão as mesmas manias em minha forma de ser, que não poucos os problemas pendentes do ano que se foi ter-se-ão distribuído já pelos dias ainda sem estrear o novo ano.
Então, tem sentido esses brindes, esperanças, e bons desejos e propósitos?
Este ano mal estreado não será mais feliz porque os acontecimentos nos parecem favoráveis, mais porque olhamos e sentimos as coisas desde o coração de uma maneira nova e favorável.  A felicidade não está fora, no que passa ou no que passamos... mais dentro, em mim mesmo. Não está na saúde, na sorte, no sucesso ou na riqueza, mais no modo em que nos situamos ante elas, no que fazemos com cada coisa que nos vem. A felicidade, a paz do coração, a ilusão, o equilíbrio, o estar bem não dependem fundamentalmente dos outros, do outro mais de mim mesmo, do que eu faço com tudo isso, de como tomo as coisas e as situações.
Nos diz o Evangelho: “Maria conservava tudo isto, e meditava sobre eles em seu coração”.
Recordava (passava pelo coração) e meditava tudo o que ia ocorrendo ante seus olhos, tratando de aprender, de compreender, de se deixar afetar pelo que ocorria aos demais. Era uma mulher de profundidade, de coração.
O coração não é um álbum de fotos, para repassar de quando em quando com nostalgia, ou talvez com raiva, mais um lugar para discernir, para separar e clarificar o que é manancial de vida e o que nos enche de morte, o mau e o bem; é o lugar para procurar e aprofundar o significado de todas as coisas: nem tudo vale, nem vale o mesmo para a vida do homem e a glória de Deus.
É o lugar para perguntamos o que fazer com o que nos dói, o que nos desconcerta, o que não responde ao que esperávamos, que decisões tomar para conservar a serenidade, a fidelidade aos nossos valores e compromissos, para mudar o que depende de nós, para não nos deixar apresar pelos acontecimentos, para afirmar o que é importante e irrenunciável, para não perder o rumo.
No coração tem posta sua residência o mesmo Deus que é amor; somos seu templo. Deixou escrito santo Agostinho: Deus está comigo no mais profundo de meu próprio coração.
O rosto de Deus reconhece-se agora no ser humano, nascido de Mulher, para estar mais a nosso alcance, para que o compreendamos melhor, para que o sintamos próximo, e para que nos façamos próximos uns dos outros; esconde-se no mais profundo do homem para que ali o descubramos. Em mim mesmo, e “no outro”.
Deus não tem mais que nos olhar o coração para saber como estamos, se deixa olhar e descobrir com os olhos do coração, ainda que às vezes os sinais de sua presença sejam tão enormemente singelos e quotidianos: como um menino pobre, envolvido em fraldas, e com os braços de seus pais como único berço e abrigo.
Quando o olhamos desde o silêncio do coração, como nos ensinou sua Mãe, sentimos que nos deixa uma presença discreta que nos transforma e alegra, que nos anima, fortalece e pacifica.
Por isso quero vos convidar hoje para que este seja um “ano do coração”.
Como será diferente se começamos a nos comunicar “com o coração na mão”!
Se pomos todo o coração nas pequenas e grandes coisas que fazemos!
Se deixamos que os gestos daqueles que nos querem “chegue” ao nosso coração!
Se abrimos o coração a quem precisam entrar nele!
Se nos encontramos sozinhos conosco mesmos no fundo do coração!
Se guardamos as coisas no coração, e as meditamos na companhia de Deus!
Se deixamos que a miséria e a dor dos outros ressoe e encontre resposta em nosso interior!
É nisto que está o segredo da felicidade, da paz, do amor que enche e faz feliz!
Por isso mais que num “feliz ano” vos quero desejar um coração como o de Maria, a Mulher forte, a Mãe de Deus, para viver a cada momento, um coração em que caiba e esteja a gosto Deus, porque “se Deus está conosco, quem poderá conosco?”. Quando o coração humano se limpa de lixos, matos e pedregulhos sempre acaba aparecendo o Rosto de Deus sorrindo, iluminando, protegendo,criando comunhão, fazendo que frutifique a paz, a justiça, a retidão, a alegria...
Quando o coração humano está atento e “guarda as coisas nele”, se faz dócil aos gestos de Deus: tenho aqui a escrava do Senhor. E essa docilidade converta-se em fecundidade, e bênção: bendito o fruto de teu ventre.
Quando o coração humano se deixa iluminar pelo Espírito, descobrimos que não estamos sozinhos e podemos dizer: Abbá!, Mãe! Irmãos!
Enrique Martínez, cmf
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“Maria guardava cuidadosamente todos estes fatos
e meditava sobre eles no seu coração”.
No oitavo dia da solenidade do Natal, no cume, por assim dizer, do dinamismo vital com que o Espírito Santo fecundou a Bem-Aventurada Virgem, a Igreja contempla e celebra na fé e na alegria o mistério de Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja e da nova humanidade renascida em Cristo.
Durante o tempo do Advento, a liturgia ficou repetindo todos os dias a saudação do anjo: “Maria, alegra-te, ó cheia de graça, o Senhor está contigo; és bendita entre todas as mulheres da terra” (Liturgia das horas - antífona da hora média; cf. Lc. 1,28; 42).
A virgem Maria é saudada pelo anjo, e celebrada pela Igreja, como aquela que de maneira única está portando no seio e irradia ao redor de si mesma a graça de Deus feita pessoa, o Filho do Altíssimo que já no seu próprio nome, Jesus, indica sua profunda identidade e sua missão: revelar a benevolência do Pai, salvar e resgatar do mal toda a humanidade e abrir novamente para ela o caminho para a casa do Pai. Maria, Mãe de Deus, participa também na geração da nova humanidade, cujas primícias é a pessoa do próprio Jesus (cf. Rm. 5,15-19).
Deus continua seguindo o critério da simplicidade, da fraqueza, do “esvaziamento” (cf. Fil. 2,6-11); critério este, escolhido desde o início para se manifestar e atuar na história. Ele suscita a resposta livre da fé por parte de todos os parceiros que chama para colaborar na sua obra redentora. Assim como fez com Abraão, pai dos crentes, com os patriarcas e com os profetas, do mesmo modo atua com Maria e com José. Ao cumprir-se o tempo estabelecido por Deus de realizar seu projeto de salvação, não envia seu Filho do céu, em maneira espetacular, mas Ele “nasce de mulher” como todo homem, e está inserido na história gloriosa e ambígua do povo de Israel, destinatário primeiro da aliança e portador da esperança para todos os povos (cf. 2ª leitura - Gl. 4,4-5).
O lugar onde se cumprem as promessas de Deus e se manifesta a sua potência que salva não é a nobre cidade de Jerusalém, nem o lugar sagrado do templo, mas o menino recém-nascido, deitado numa manjedoura. Somente os pobres e os simples de coração, afinados com Deus, como os pastores, conseguem receber o surpreendente anúncio do céu e acreditar nele. Os pastores de Belém representam os pobres de todos os tempos, no solícito caminho rumo ao menino, assim como na capacidade de reconhecer com estupor no recém nascido da manjedoura, o Salvador esperado pelo povo e anunciado pelos anjos. Pela luz interior que os acompanha, eles se tornam “anunciadores da boa nova” até para aqueles que se encontram junto do menino, suscitando maravilha mesmo nos pais dele (Lc. 2,16-18).
Para todos os efeitos, Jesus, o Filho do Pai, é também o filho do seu povo, da experiência humana, espiritual e cultural de sua gente, do seu tempo. O papa João Paulo II, na sua histórica visita à sinagoga de Roma (1986), quis lembrar a todos os cristãos que os judeus são nossos “irmãos maiores”, e que desta carne nasceu Jesus. Ao seguir a novidade produzida pelo próprio Jesus, não podemos esquecer as raízes judaicas da experiência cristã. É a fidelidade ao mistério da Encarnação que exige de nós tal atenção. O esquecimento desta perspectiva não é estranho aos devastadores critérios que ao longo dos séculos marcaram infelizmente as relações entre cristãos e judeus, até a Shoa, o holocausto do povo judeu, ocorrido no século passado.
Neste povo e nesta história santa o menino Jesus é inserido plenamente com o rito simbólico da circuncisão ao oitavo dia depois do nascimento, - como lembra o Evangelho de hoje - quando recebe o “nome” escolhido por Deus e preanunciado pelo anjo. Assim como acontecia nos tempos de Jesus, ocorre ainda hoje no povo de Israel a circuncisão com os meninos recém-nascidos.
Os profetas (cf. Jr. 4,4), assim como o Novo Testamento, reivindicam a dimensão interior da circuncisão, a “circuncisão do coração”, enquanto sinal da aliança e da fidelidade ao Senhor. Paulo ensina com vigor que a autêntica circuncisão que faz o verdadeiro Israel, é a do coração (cf. Rm. 2,25-27; Gl. 5,5). Por isso a profissão de fé em Jesus e o batismo, desde muito cedo, irão substituir o sagrado e antigo rito judaico para os discípulos de Cristo, o realizador da nova aliança. Mas o apóstolo admoesta sempre que somente uma vida animada e guiada pelo Espírito de Cristo, faz dos discípulos, autênticos “circuncidados no coração” e “batizados” no Senhor.
A este mundo humano e espiritual Jesus é introduzido gradualmente por Maria e José, aos quais fica submetido em filial obediência, enquanto cresce em vigor físico e sabedoria espiritual, e ao mesmo tempo vai abrindo seu próprio caminho para cumprir sua vocação e missão pessoal ao serviço do Pai.
Na Sagrada Família, como em toda família que acredita no Senhor, todos juntos e cada um de parte sua, Maria, José e Jesus, estão aprendendo dia após dia seu caminho, buscando descobrir e seguir a vontade de Deus. À materna preocupação manifestada por Maria ao encontrá-lo no templo de Jerusalém três dias depois ter se afastado da família, Jesus responde: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai? Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes dissera. Desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe, porem, conservava lembrança de todos estes fatos em seu coração” (Lc. 2,49-51). A maternidade de Maria é dom sublime de Deus. Mas é também uma aprendizagem progressiva na fé e no amor, que alcançará sua plenitude aos pés da cruz, quando o próprio Jesus entregará a ela como um filho, no discípulo amado, toda a humanidade, e esta, por sua vez, será entregue pelo Senhor à Maria, que nesse instante será uma Mãe para todos (cf. Jo 19,25–27).
O evangelista Lucas destaca com insistência a atitude interior de Maria - com certeza partilhada também por José - frente aos acontecimentos da vida. Ela continua, por assim dizer, o processo de gestação e interiorização da Palavra que tinha concebido em si mesma por obra do Espírito Santo na plena disponibilidade da fé e que agora não cessa de interpelá-la. Esta atitude de silêncio meditativo, de contemplação cheia de perguntas sem respostas imediatas e de entrega confiante ao mistério de Deus, acompanhará Maria ao longo da sua vida junto de Jesus, nos momentos alegres e nos momentos problemáticos e tristes (Lc. 2,51; Mt. 12,48-50), até os pés da cruz.
Por esta atitude de escuta, silêncio e entrega confiante a Deus, a Virgem Maria se torna as primícias do reino de Deus e exemplo da Igreja inteira e de todo discípulo e discípula de Jesus. É o próprio Jesus a nos oferecer esta perspectiva cheia de fascínio para aqueles que acreditam nele: “Jesus respondeu àquele que o avisou: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E apontando para os discípulos com a mão, disse: Aqui estão minha mãe e meus irmãos, porque aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt. 12,48-50).
Gostaria partilhar algumas reflexões de santo Agostinho sobre estas palavras de Jesus, reflexões com que ele une de maneira admirável no mesmo caminho de fé a Virgem Maria, a Igreja e cada um de nós.
“Prestai atenção, rogo-vos – diz o grande doutor da Igreja – naquilo que Cristo Senhor diz, estendendo a mão para os discípulos... Acaso não fez a vontade do Pai a virgem Maria, que creu pela fé, pela fé concebeu?... Sim! Ela o fez! Santa Maria fez totalmente a vontade do Pai e por isso mais valeu para ela ser discípula de Cristo do que mãe de Cristo. Assim Maria era feliz porque, já antes de dar à luz o mestre, trazia-o na mente... Santa Maria, feliz Maria! Contudo, a Igreja é maior que a Virgem Maria. Por quê ? Porque Maria é porção da Igreja, membro santo, membro excelente, membro super-eminente, mas membro do corpo total....Portanto, irmãos, dai atenção a vós mesmos. Também vós sois membros de Cristo. Vede de que modo o sois. Diz: Eis minha mãe e meus irmãos...Como sereis mãe de Cristo? “Todo aquele que ouve e faz a vontade do meu Pai que está nos céus, este é meu irmão e irmã e mãe ” (Sermão 25,7-8; LH IV, 1466-67).
Maria foi eleita e chamada por graça a dar sua própria carne ao Filho de Deus para ele realizar sua missão de Salvador para todos os homens e mulheres. Na sua resposta de fé e de entrega incondicionada a Deus, Maria primeiro realiza aquela atitude interior que, nas palavras do próprio Jesus, constitui a condição para fazer de todo discípulo e discípula, a exemplo de Maria, o seio fecundo onde a Palavra de Deus é acolhida e se torna principio vital da nova existência animada pela fé.
O mesmo Espírito que fecundou a virgindade de Maria fecunda a fé da Igreja e a faz mãe fecunda, capaz de gerar filhos e filhas com a pregação da Palavra, a experiência pascal dos sacramentos e a proximidade do amor.
Admirável Natal! Nós, os renascidos à vida do Pai como filhos e filhas adotivos no Filho, pelo dom do Espírito que nos anima (2ª leitura – Gl. 4,5-7), somos inseridos em tamanha intimidade com Jesus, que nos tornarmos seus irmãos, irmãs, e mesmo sua mãe! Capazes, por graça, de fazê-lo nascer a cada dia em nós para que nós possamos viver sempre mais nele e para ele, até partilhar com o apóstolo a admirável experiência da plena conformação com ele: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl. 2,20).
Estas afirmações, que vêm da Escritura, dos Padres da Igreja e da liturgia, talvez soem um pouco surpreendentes aos nossos ouvidos. Talvez sejamos tentados a reduzi-las como lindas e sugestivas expressões poéticas, destinadas a acariciar nossa sensibilidade estética e nossa emotividade devota. Pelo contrário, nos deixam vislumbrar o coração do mistério do amor de Deus e do seu esvaziamento que nos introduzem de novo no caminho da vida e da verdade. Deixam-nos vislumbrar o mistério da fecundidade insondável da fé de Maria e da fecundidade da Palavra de Deus no coração de todo discípulo e discípula de Jesus, quando a recebem e a guardam com fé. Oferecem-nos as razões mais profundas e o caminho mais certo para alimentar e guiar nosso culto e nosso amor filial a Maria, nossa irmã e mãe na fé, na esperança e na caridade.
O povo cristão desde o início, com a intuição simples e profunda da sua fé, percebeu e honrou na virgem Maria, a Mãe de Deus e do Redentor, e a Mãe da Igreja. É como se exprime o Concílio Vaticano II: Maria foi e “é saudada também como membro super-eminente e de todo singular da Igreja, como seu tipo e modelo excelente na fé e caridade. E a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, honra-a com afeto de piedade filial como Mãe amantíssima” (LG 53).
A constituição Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, no capítulo 8º, nos oferece uma maravilhosa síntese da fé e da piedade da Igreja do Oriente e do Ocidente sobre a “Bem-aventurada virgem Maria Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja”. Um tesouro ainda por descobrir, junto com outra mina preciosa, rica da linfa vital da tradição e de elementos novos, constituída pela liturgia renovada pelo Concílio e dedicada às celebrações de Santa Maria.
dom Emanuele Bargellini
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“Deus nos dê a sua bênção”
São vários os motivos que celebramos neste primeiro dia do novo ano de 2012. No último dia da oitava do Natal do Senhor, celebramos a Festa da Maternidade de Nossa Senhora. Como definiu o concílio de Éfeso, Maria é Mãe de Deus. Celebrar a Maternidade Divina é reconhecer que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Além disto, também celebramos neste dia o XLV Dia mundial da Paz. Em 1968, o papa Paulo VI convidou a Igreja a rezar pela paz neste dia. Fiéis a esta recomendação, os papas sucessivos dedicaram sempre este dia à paz e oferecem-nos uma reflexão sobre o significado da paz e algumas propostas de caminhos de construção de paz. O papa Bento XVI escolheu como tema para este dia a “Educar os Jovens para a Justiça e a paz” e recorda-nos a necessidade da educação para os valores da verdade, da liberdade, da justiça e da paz. Ao finalizar a sua mensagem o Papa deixa-nos o seguinte apelo: “Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas reflexões que se fazem apelo: Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de educar os jovens para a justiça e a paz ”.
No entanto, também celebramos neste dia o início do novo ano civil de 2012 e invocamos a bênção de Deus para este novo ano que se inicia.
O início de um novo ano, ainda que as previsões sejam de crise, convida-nos à esperança. Quantos propósitos para o próximo ano já fizemos! Quantas desejos formulamos! Quantos eventos já não agendamos!
No entanto, a liturgia da palavra deste dia recorda-nos que nesta projeção do novo ano nós não estamos sozinhos. Este novo ano deve ser projetado e iluminado à luz da bênção de Deus.
A primeira leitura deste dia, retirada do livro dos Números, narra-nos a fórmula de bênção que, segundo o mandato divino, os sacerdotes da antiga aliança deviam invocar sobre o povo. A bênção é apresentada como um dom de Deus ao seu povo. Deus oferece a bênção ao seu povo.
A bênção é algo importante para os povos semitas. A bênção é um favor divino que se traduz na vida corrente de um homem com a abundância, a saúde e a paz e assegura o triunfo dos inimigos. A bênção, no Antigo Testamento, aparece algumas vezes como promessa que traz consigo a alegria e a felicidade e tem como motivação principal o estimular o povo a manter-se fiel ao seu Deus.
Desta leitura do livro dos Números chama-nos à atenção o fato de a bênção ser uma iniciativa de Deus e de um dos seus dons ser a Paz.
É Deus que nos abençoa. A bênção é o sinal do amor gratuito e generoso de Deus pelo seu Povo. Um amor que ajuda e anima o seu povo. Um dos dons da bênção é a Paz. A paz na mentalidade bíblica não se limita à ausência da guerra. A paz é o bem-estar, a harmonia e a felicidade plena.
A grande bênção que recebemos de Deus é o que celebramos no Natal do Senhor. Na verdade, como nos recorda são Paulo na sua epístola aos gálatas “quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho nascido de uma mulher e sujeito à lei… para nos tornar seus filhos adotivos”.
Jesus Cristo é a grande bênção que Deus nos concede. A encarnação de Jesus é a prova do amor gratuito, generoso e solidário de Deus pelos Homens. Por Jesus, o Filho de Deus, também nós nos tornamos filhos de Deus. Em tempo de Natal esta leitura recorda-nos que “Jesus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus” (santo Agostinho).
Como filhos Deus envia-nos o seu espírito aos nossos corações. É por obra do espírito que chamamos a Deus Abbá, papa. Esta fórmula original de Jesus se dirigir a Deus também deve ser a forma como nós, filhos de Deus, nos dirigimos a Deus. Devemos relacionar-nos com Deus com confiança absoluta, com uma entrega total e com um amor sem limites.
Tal maneira de nos dirigirmos a Deus convida-nos a pensar sobre a imagem que temos de Deus. Deus não é alguém distante e frio. Deus é o papa, aquele que está próximo, aquele que nos acompanha e nos dá a sua bênção.
No entanto, devemos perguntarmo-nos como aceitamos, como recebemos a bênção que Deus nos concede e que é o Seu Filho.
O evangelho deste dia ajuda-nos a refletir sobre isto. O evangelho deste dia é mais uma página do evangelho da infância de Lucas. Os dois capítulos iniciais da obra lucana mais que um relato jornalístico dos acontecimentos são uma catequese sobre a pessoa e a missão de Jesus. Jesus é o messias libertador que traz ao seu povo a paz. No entanto, esta página do evangelho da infância também é uma catequese sobre a atitude que o homem deve ter diante da encarnação e nascimento de Jesus.
Depois da multidão dos anjos terem anunciado aos pastores o nascimento de Jesus os pastores colocam-se apressadamente a caminho. Pastores e apressadamente duas palavras que nos convidam a refletir. Na verdade, os pastores eram um grupo social marginalizado. Eles eram considerados impuros e pecadores e por isso longe de Deus e da sua salvação. No entanto, foi a eles que os anjos anunciaram o nascimento de Jesus. A proposta de Jesus, deste Deus que vem para salvar, é destinada de uma maneira muito especial para os pobres e marginalizados.
Ante a notícia do nascimento de Jesus os pastores dirigem-se apressadamente para ver o grande mistério que se lhes oferecia. Dirigiram-se com aquela pressa e com aquela ânsia que são características dos pobres e marginalizados que esperam a ação libertadora de Deus em favor do seu povo.
Depois de encontrarem o menino, Maria e José, “os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus”. Quem recebe e aceita a bênção de Deus outra coisa não pode fazer senão glorificar e louvar a Deus e tornar-se bênção para os outros. Na verdade, na bíblia, a bênção é um favor divino que vem de Deus sob a forma de felicidade e que retorna a Deus sobre a forma de louvor ou de agradecimento.
No entanto, o evangelho apresenta-nos uma outra atitude que completa e de certo modo precede a ação dos pastores. “Maria conservava todos estes acontecimentos meditando-os no seu coração”. O Natal do Senhor é um tempo de contemplação do Amor de Deus que se encarnou por amor dos homens.
Contemplação, alegria e anúncio três ações características daqueles que recebem e aceitam a bênção de Deus nas suas vidas. A grande bênção, o grande presente que Deus nos concede é Jesus. Só aceitando Jesus na minha vida é que este novo ano que se inicia pode ser um ano de bênção.
“O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz.”
padre Nuno Ventura Martins
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Isaías  61,10-62;3
O centro da mensagem do Terceiro Isaías está neste capítulo. A Nova Jerusalém é a cidade eleita para sediar a mais importante mensagem para o futuro do povo eleito. Aqui se delineia o sonho do “novo céu e uma nova terra”.  Um projeto que dispensa a referência  religiosa do Templo para se eliminarem as desigualdades sociais enquanto o protagonismo da história se entregará politicamente ao reinado de Deus. 
Os contornos históricos da intervenção divina necessitam do desenho completo dessa utopia profética: os dois grupos principais dos deportados de Judá que retornam do exílio; a elite dirigente, mesclada com a religiosa, sacerdotal, e o povo simples, sempre açoitado pelo chicote opressor, em todas as situações, formam a comunidade de deportados, na Babilônia. Os dois grupos sonham com a volta completa. Um, em função da retomada, mesmo que parcial, do poder político e religioso. O outro, constituído de israelitas escravizados, empobrecidos, imagina um jeito diferente de viver. As palavras de ordem, em sua esperança, referem-se a uma nova sociedade, a partir da justiça, da partilha e da solidariedade. A elite corrupta de Judá já fora comparada a “cachorros”, “más pessoas”, “maus pastores”; juntos, os dirigentes roubam o povo e o oprimem, enquanto fazem festa com muito vinho e bebidas fortes: “cada um cuida dos seus próprios interesses” (Is. 56,9-12; Ap 21,1-3). 
Muitas pessoas justas estão sendo assassinadas, porque o “crime organizado”, mancomunado com os dirigentes políticos, elimina os que denunciam os crimes do Estado; porque se recusam a cumprir as “leis religiosas”, que se justifica como se fora a pratica da “vontade de Deus”.  A situação é dramática: as pessoas pobres, vítimas da iniqüidade, da opressão e da morte, clamam por socorro.  O Terceiro Isaías acolhe o seu clamor, como intercessor dos despoderados e esmagados pelo sistema. A comunidade tem um sonho: Yahweh intervirá na história deste mundo opressor e transformará a realidade de injustiças e exclusão. Os “servos de Yahweh” são aqueles que ouvem e confiam na intervenção de Deus, quando os oprimidos experimentarão “um novo céu e uma nova terra”. Está chegando o Salvador, e todo o povo, também sob a opressão  religiosa, dispensará  os “pastores corrompidos” e será constituído “povo sacerdotal” (1Pd. 2,9; Ap. 1,6 e 5,10): as riquezas dos impostos religiosos se reverterão em favor de todos. A fonte da “teologia da retribuição” (ou da prosperidade) é  atingida em cheio. A cidade será um jardim de justiça, o cântico de louvor ecoará por toda parte.  A cidade será chamada, por fim, Cidade Fiel, porque louvor sem justiça não pode fazer parte da adoração ao Deus Salvador.  
Gálatas 4,4-7
Paulo nos recorda que Jesus Cristo, nascido de mulher, sob a Lei, também nasceu em debilidade , na pobreza, numa gruta, porque não havia lugar na hospedaria.  Sem tirar nem por, igual a tantos outros do meio do povo, os simples; os empobrecidos, humildes; os sem poder. Porém, este nascimento real, verdadeiro, concreto,  é assumido por Deus para abraçar a todos os excluídos da tradição que o ignorava. É a visita real daquele que, por simples misericórdia, nos permite a graça de poder chamar Deus de Pai, com a familiaridade que “Abba” (paizinho, “painho” – ao jeito baiano de expressar ternura e carinho por uma paternidade muito amada), compreende. Todos os homens e mulheres são irmãos, desse modo. A relação de um pai e de uma mãe é algo sagrado, porque nossas origens são lembradas no amor incondicional que cria relações de reconhecimento e dependência mútuos sobre a importância da criação “à imagem e semelhança do próprio Pai”. Isso pode ser traduzido assim: Deus está conosco, na terra, através do Filho, homem nascido de mulher terrena, que caminha no meio dos homens e das mulheres (os discípulos de Emaús o reconhecem no partir do pão (eucaristia): “Ele está no meio de nós”). É o Cristo de Deus que nos irmana, na  mesma causa do Pai.
Lucas 2,22-42
O texto da Natalidade refere-se a uma adolescente judia que se torna mãe solteira numa sociedade patriarcal impiedosa; lembra a mulher que, pelo menos, não tem responsabilidades nas decisões sobre os genocídios seguidos que caracterizam nossa cultura insensível ao infanticídio perenizado no cotidiano da fome e da desnutrição infanticida que tão bem conhecemos. O privilégio da hermenêutica cristã é apresentar o ventre disponível da mulher para uma grandeza libertadora a partir do que lemos num poema sobre uma vila periférica, Belém, da importante Jerusalém, sede política e religiosa do povo: Deus intervém em nossa história humana para nos unir contra tudo que destrói o sentido original da humanidade criada. Maria entrega seu útero acolhedor para abrigar Aquele que representa a misericórdia e o amor incondicional de Deus: a Graça se fez carne num ventre de mulher!
Maria representa a fé madura, fé verdadeira, fé que procura sentido. Maria não teve a fé das crendices, dos amuletos, das rezas e dos mantras que soam como gemidos e se perdem nos abismos humanos. Sua fé não foi fácil, nem simplória. É uma fé que sabe das conseqüências dos compromissos com a justiça de Deus. Diferente de João Batista, o profeta decapitado por amor a essa mesma justiça, que nasceu na sua casa e cujo nascimento foi celebrado por parentes e vizinhos (Lucas1,57-58), Jesus nasceu no maior desamparo, nem sequer teve uma casa para nascer; nasceu na solidão desoladora de uma estrebaria, pois nem mesmo a estalagem abrigaria seu nascimento numa noite fria do inverno palestino (Lucas 2,7). Este sofrimento foi causado pelos interesses do imperador Augusto, que pretendia sugar de todos os impostos que seriam partilhados pela corrupção, “mensalões”, propinas e crimes contra o erário e a economia do povo, até o último centavo (Lucas 2,1-5). Quirino governava a Síria, intermediando a opressão fiscal com um batalhão de arrecadadores.
Assim, o fato de o filho de Maria ter nascido num estábulo não ter nada de romântico, comovente e terno; assim, também, as palavras que Simeão dirige a Maria não têm nada de mel e doçura: aquele que seria chamado o Cristo de Deus é simplesmente mais um excluído, um explorado, como as crianças do Brasil que nascem devendo milhares de dólares ao FMI, entre os tantos desta terra que pagam dívidas contraídas em seu nome, nunca autorizadas.
O nascimento de Jesus é anunciado a uns pastores que, como o menino nascido num estábulo, não significam nada para a sociedade. Esta mesma que se locupleta de comidas caras, perus, lombos defumados, champanhe e vinhos finos, frutas cristalizadas, castanhas, nozes; que enche as sacolas de presentes e regalos festivos nesta data, como um excelente pretexto para o consumo de inutilidades.  De fato, o que se quer esquecer é o aniversariante, o que Ele é e o que Ele representa. Contrariando-o, como membro da sociedade humana à margem do paraíso pós-moderno, ela o ignora.
O sinal dado aos pastores de que tudo o que foi dito sobre o menino está certo, é mais do que desconcertante: a extrema pobreza em que ele nasce (Lucas 2,12). Maria nem vê, nem ouve os anjos. Ela recebe a mensagem dos anjos por meio dos pastores, menos informados e comprometidos do que ela. A reação de Maria diante de tudo isto não é algo passageiro, mas um fato permanente. Não é uma atitude passiva, ela procura entender, refletiu sobre o que significava a saudação do anjo na anunciação (29), e como perguntou de que maneira havia de cumprir sua missão de mãe do Messias de Deus (34), assim também se esforça por compreender todo o bem que seu filho significa para o povo (19). 
O anjo lhes anuncia que este é um motivo de grande alegria (Lucas 2,10), no entanto; que este pequenino é o Messias de Deus, o Salvador (11). O herdeiro real do Reino da Justiça e da Paz completa, (shalom = bem-estar na vida econômica, social, política: dignidade, direitos sociais, humanos, civis, atendidos em todos os níveis); o porta-voz de Deus anuncia a Luz que traz a vida plena e abundante: salvação das misérias, das fomes e das opressões humanas. A revelação celestial lhes diz que nele brilha a glória de Deus, que com Ele chega a paz (shalom) do Senhor (14; cf. Isaías 9,6). Esse é o Príncipe da Paz.
pastor Derval Dasilio

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Maria Mãe de Deus e serva do Senhor
Depois de ter contemplado o Mistério do Natal, o nosso olhar é para a Santa Mãe de Deus, Maria.
É um olhar sempre de gratidão e ternura, porque professando Ela como Mãe de Deus por ter gerado Jesus Filho Unigênito de Deus queremos, e de fato somos, ser participes desta graça e dignidade invocando Ela como nossa Mãe, sentindo-nos seus filhos.
O Mistério de Maria, Mãe de Deus, reenvia ao Mistério da Criação, ao drama do pecado, no qual Ela aparece em prefiguração como sinal certo de esperança salvífica: “Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela” (Gn 3,15).
Esta maternidade constitui no Antigo Testamento com Isaias 7,14: “A Virgem conceberá e dará à luz um filho e pôr-lhe-à o nome de Emanuel” a base mais certa para dar a Maria o titulo de mãe, como também no Novo Testamento: “Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?” (Lc. 1,43) e ser um ponto de referencia no caminho para a redenção.
Maria Mãe de Deus nos acompanha no Mistério de Cristo de tal maneira que, como afirma São Bernardo, “Quando honramos o Filho não cessamos de glorificar a Mãe” (In Laudibus Virginis Matris 4,1).
A maternidade da Virgem Maria nos permite pela fé de conhecer melhor o Mistérios da Imaculada Conceição e da Assunção, e de participar deles com maior intensidade.
Maria Mãe de Deus nos introduz ao Mistério da vida por Ela transmitida pela natureza humana ao Senhor da vida, que é a Vida por definição.
Em Maria celebramos Aquela que com o seu “sim” reconhece na vida a razão do nosso ser e do crer na Vida que não tem fim.
Iniciamos o ano civil 2012 A.D., que é uma continuidade da vida que nos foi dada, confiando totalmente na intercessão da Mãe de Deus.
Seja nossa Mãe na ordem da graça, Ela “cheia de graça”, e da paz para que com a vida possamos ter a paz, da qual é Rainha.
padre Ausilio Chessa

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Primeira leitura: Números 6,22-27
A benção sacerdotal para o ano novo
Este texto contém a fórmula da bênção sacerdotal atribuída a Aarão. Esta bênção encerrava as celebrações litúrgicas do Templo e era pronunciada por um sacerdote. Foi redigida no tempo do exílio da Babilônia. Porém, remonta ao tempo de Moisés e Aarão, cerca de seis séculos antes, quando o povo caminhava no deserto em busca da terra prometida, ansiando pela liberdade que se concretizou na posse da terra. O texto pertence à tradição “P” (sacerdotal).
Neste contexto, Deus acompanha o seu povo com a bênção, que é sinal de vida, liberdade, fecundidade e paz. Javé abençoa e guarda (v.24), isto é, protege e conduz rumo ao futuro (posse da terra e liberdade). Ele faz o seu rosto resplandecer e se mostra benigno (v 5), isto é, manifesta graça e benevolência e assim comunica a plenitude de seus bens, sintetizados na paz. A paz era para o povo a posse da terra e dos bens, a liberdade, a dignidade e a possibilidade de ter uma família. No capítulo 1 do Gênesis, texto da tradição “P”, Deus distribui bênçãos, que são sinônimos de liberdade, fecundidade e vida. Ele abençoa o homem e a mulher: “Sejam fecundos, dominem a terra” (Gênesis 1,28), sinônimo de senhorio, de domínio.
Abençoar é uma ordem de Deus e essa bênção não é um simples augúrio, mas eficácia operativa, algo que exprime todos os valores da vida plena. Assim, os sacerdotes garantem a memória da Aliança para o povo, da sua presença e benevolência. Por isso, os sacerdotes abençoavam nas grandes festas litúrgicas de Israel, especialmente no início do novo ano.
Segunda leitura: Gálatas 4,4-7
O filho de Deus, nascido de uma mulher
A comunidade da Galácia, depois de ter acolhido Jesus, havia se deixado influenciar por falsos missionários que pretendiam impor-lhe as práticas judaicas, a começar pela circuncisão. Em vista disso, Paulo admoesta os seus membros que Cristo anulou esses ritos, pois a salvação vem da fé e não de ritos, da Lei mosaica. Conscientiza-os que eles passaram da menoridade para a maioridade, da servidão para a filiação divina, pela ação de Jesus que se solidarizou com a humanidade.
Para Paulo, o passado era o tempo em que se vivia na menoridade, comparada à escravidão. Deus, porém, marcou o tempo da emancipação, da maioridade, em que nos tornamos filhos e tomamos posse da herança, passamos a possuir a salvação, podemos chamar Deus de Pai. Portanto, submeter-se à circuncisão e passar a ser novamente escravo é jogar fora a herança divina, é considerar Deus como patrão e não como Pai. A salvação que Jesus operou nos deu a “niothesia”, isto é, a filiação. Foi um evento histórico, e não fruto da evolução interna, mas um compromisso definitivo na história realizada por Deus (v.4).
Evangelho: Lucas 2,16-21
Jesus, filho de Maria
Este trecho faz parte do Evangelho da infância. O evangelista começa relatando a pressa dos pastores para chegar a Belém (v.16). Nos pastores, os primeiros a receberem o anúncio do nascimento de Jesus, temos a demonstração da opção de Deus pelos excluídos. A imagem romântica dos pastores no presépio não reflete a realidade. Eles eram mal vistos, pois não respeitavam a propriedade alheia, invadindo-a com seus rebanhos, e cobravam preços exorbitantes por seus produtos. Segundo o Talmude babilônico, um pastor não podia ser juiz nem testemunhar nos tribunais.
Ao chegarem em Belém, os pastores não encontraram nada de extraordinário, apenas um casal pobre com uma criança numa manjedoura, mas naquele menino eles reconheceram o Salvador e voltaram para casa glorificando a Deus, tornando-se anunciadores da mensagem. De receptores passaram a anunciadores.
Lucas ressalta que Maria “conservava tudo em seu coração” (v. 19), isto é, interpretava a ação de Deus naqueles acontecimentos, discernindo neles a solidariedade divina. Tem-se dito que Maria teria passado a Lucas as informações sobre o nascimento de Jesus. Contudo, Lucas não dá informações históricas, mas teológicas, isto é, interpreta a presença de Deus naqueles acontecimentos. O versículo 21 mostra com clareza a solidariedade de Deus para com o povo, pois Jesus, nome que significa “Javé salva” (o nome é a carteira de identidade para o semita), é circuncidado e passa a pertencer ao povo.
REFLEXÃO
No templo de Jerusalém o povo gritava a bênção de Deus. E nós, para quem vamos voltar os nossos olhos, o nosso coração, a nossa mente?
Cada ano que começa é uma possibilidade para verificarmos que o tempo voa e vai nos levando. Estamos todos dentro de um vagão e viajamos rumo a uma estação. A vida é como uma flecha que partiu de um arco tenso. Somos esta flecha rumo à eternidade. Como um rio cujas águas correm para o mar, nós corremos para Deus. A vida é uma aventura maravilhosa, digna de ser bem vivida. Nessa vida maravilhosa que passa, Deus operou em nós um enxerto do absoluto, da eternidade, pois com o seu nascimento Jesus injetou na história um progresso espiritual e temporal. Com Jesus realizou-se a bênção do Antigo Testamento, pois o desejo de paz, prosperidade e vida tem em Jesus o cume de realização. Somos libertados do pecado, não somos mais escravos, pois na plenitude dos tempos Jesus realizou a obra anunciada pelos profetas. Nele e por ele podemos chamar Deus de Pai.
Com a nova Aliança, Deus nos deu a possibilidade de colaborar com o seu Reino, e Maria e José foram os primeiros colaboradores. Maria encarnou as promessas messiânicas do povo e através dela as bênçãos prometidas se realizaram. Através dela a presença de Deus tornou-se carne na nossa história. Por isso, não poderíamos começar um novo ano senão com o sorriso de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.
A festa litúrgica celebrada hoje é atestada na história desde o século XVIII em algumas Igrejas. Depois foi estendida a toda a Igreja por Pio XII, por ocasião da comemoração do centenário do concílio de Éfeso, que se realizou em 431. O calendário litúrgico de 1969 a fixou no dia 1º de janeiro, pois o nascimento de Jesus e a maternidade de Maria são eventos correlatos e indissociáveis. Assim, o clima natalino é o que melhor se apresenta para honrar a Mãe de Deus.
Maria é a Mãe de Deus, como declarou o concílio de Éfeso com a palavra “Theotòkos”, Mãe da Divindade, Mãe de Cristo, Homem Deus, Pessoa divina (DSD 250 – 263). Maria deu à luz fisicamente o Verbo que se fez carne. Assim, esta solenidade não parte de um fato abstrato, mas de um fato histórico que é um mistério. Esta festa da oitava do Natal é um prolongamento do Natal.
O concílio de Éfeso afirmou no ano de 431 que a Virgem Maria é “Theotòkos”, “porque deu à luz segundo a lei da carne o Verbo de Deus encarnado”. No Credo professamos: “E encarnou-se no seio da Virgem Maria e se fez homem...”. Quando falamos que o Filho de Deus nasceu de uma mulher, afirmamos com Paulo que na encarnação Ele é realmente e totalmente humanizado. Integrou-se totalmente no processo de geração que está na base da existência de cada homem. Isto quer dizer que Jesus não está distante da nossa realidade, pois compartilhou plenamente a condição humana. Com a encarnação, o Filho de Deus se uniu de certo modo a cada homem, pois trabalhou com mãos humanas, amou com coração de homem e, ao nascer da Virgem Maria, fez-se um de nós em tudo, exceto no pecado (GS 22).
Além disso, afirmamos o laço forte que Maria teve com a vida e a missão salvífica de Jesus. Se o homem vem normalmente ao mundo numa família, e por isso pode-se dizer que deve a ela o fato de existir como homem, assim a vida e a obra salvífica de Jesus revelam esta relação com a Mãe de Deus. É significativo que o anjo tenha dito a Maria que ela daria à luz um filho, ao qual poria o nome de Jesus. A sua maternidade não se desenvolveu apenas no plano biológico, fundamental e importante, mas também no plano da identificação com o seu filho. O nome salvífico de Jesus é querido por Deus, mas será a Mãe que o chamará assim.
A maternidade de Maria se estende em certa medida também a nós, pois Paulo diz que Deus enviou o seu Filho nascido de mulher para que recebêssemos a adoção de filhos. Isto quer dizer que nossa filiação divina está associada à obra daquela que colaborou de maneira decisiva para a humanização do Filho de Deus. “Ela se tornou nossa Mãe na ordem da graça”.
Paulo destaca a humanidade plena do Filho de Deus, nascido de mulher, mas pretende também, como é próprio da mentalidade grega e hebraica, ressaltar a “kenósis” de Jesus, cuja maneira de vir ao mundo não foi só a mais normal possível, mas também a mais humilhante, evocando assim a necessidade fisiológica da gestação e do parto.
Maria é “Mãe de Deus, não porque a natureza do Verbo ou a sua divindade tenha tido origem da Santa Virgem, mas porque dela nasceu o corpo ao qual o Verbo está unido substancialmente, por isso se diz que o Verbo nasceu segundo a carne” (DS 250 Éfeso).
A festa da maternidade divina é antiga. Está ligada ao Natal porque não é possível deixar de associar a ele a Mãe, que é a protagonista e artífice do nascimento de Jesus. Todavia, não é só um protagonismo biológico que deve ser lembrado. Lucas insiste num aspecto que parece constituir o perfil essencial de Maria, tal como ele a pinta. Ele diz: “Maria conservava todas essas coisas em seu coração”, apresentando Maria como ouvinte da vontade de Deus. A sua fé é capaz de reflexão, alimenta-se da memória. Ela guarda no coração não apenas as afirmações admiráveis dos pastores, como também a sua alegria, a maravilha do evento que testemunha com José, mas guarda acima de tudo a singularidade da sua vocação, da sua maternidade virginal. Faz a memória de tornar-se próxima de Deus, “que olhou para a humildade de sua serva” (Lucas 1,48).
A sua maternidade não é um simples e mecânico ato de gerar. “O fato de Maria ser a Mãe de Deus não é, na verdade, uma função entre tantas, mas a sua função única e fundamental. Ela é ativa na história da salvação, ativa no Corpo de Cristo que é a Igreja, justamente por força da sua maternidade divina" (MC 19).
Tudo isso foi possível a Maria pela força da acolhida da palavra, da adesão à vontade de Deus. Foi porque assumiu esta função que Maria transignifica a sua maternidade segundo a carne.
A sua maternidade divina não se exaure num fechamento egoísta em si mesma e em seu filho, pois ela é a mulher que com a sua ação favorece a fé da comunidade cristã (MC 37). E porque Jesus concretizou a expectativa do Antigo Testamento, devemos pensar antes de tudo que são dirigidas a ela e a José as palavras do Antigo Testamento da primeira leitura de hoje: “O Senhor te abençoe e te proteja, o Senhor faça resplandecer sobre vós a sua face e vos seja propício..." (Números 6,24-27).
São Leonardo Murialdo (1828-1899), ao dar os votos de feliz ano novo aos seus clérigos, escrevia: “Seja devotadíssimo de Maria e terá resolvido todas as dificuldades do próximo ano”.
O bem-aventurado Clemente Marchisco (1833-1903) disse a alguém que lhe perguntou: “Como posso ficar tranqüilo quando sou ofendido terrivelmente? - Vá, disse ele, reze três Ave-Marias por aquela pessoa e voltará com a paz no coração”. Por seu lado, Piero Bergellini dizia: “O culto à Virgem Maria é como o óleo da lâmpada eucarística. Alimenta o nosso coração para Jesus”. E o bem-aventurado José Marello (1844-1895) afirmava: “O título mais importante de Maria é Mãe de nosso Senhor Jesus Cristo”. Todo o seu privilégio, inclusive o da Imaculada Conceição e da Assunção, é conseqüência do fato de ser a Mãe de Jesus. Em seu seio a divindade se uniu indissoluvelmente à humanidade. O Filho de Deus “Non horruisti Virginis uterum”. Não teve pavor do útero da Virgem. Deus não teve pavor do homem.
A liturgia nos lembra também a circuncisão de Jesus, que era o rito de introdução no povo de Israel, assim como é o Batismo para os cristãos. Através desse rito Jesus entrou de direito no povo da Aliança, foi reconhecido como descendente de Abraão e herdeiro das promessas de Deus. Podemos dizer que com a circuncisão Deus não escolheu apenas ser homem na pessoa de Jesus, mas escolheu sê-lo num momento, num lugar e numa cultura bem precisos.
Hoje comemoramos o primeiro dia do ano, e nenhum homem pode parar por um só instante os ponteiros do relógio. Deus entrou na história, no espaço e no tempo, e neste contexto manifestou a sua bondade em relação aos homens. Ele é o infinito presente na história dos homens.
Hoje também lembramos o dia mundial da Paz, uma iniciativa de Paulo VI. É “uma ocasião propícia para renovar a adoração ao Néo-nato, príncipe da paz, para voltar a ouvir o alegre anúncio angélico, para implorar de Deus o dom supremo da paz. Por isso, na feliz coincidência da oitava do Natal com o dia de votos de primeiro de janeiro, instituímos o dia mundial da Paz” (M. Cultus). “A paz é apenas um ruído de palavras quando não se estabelece numa ordem fundada na verdade, constituída segundo a justiça, vivificada e integrada na caridade e colocada em ação na liberdade” (Pacem in terris, João XXIII).
O início de um ano foi sempre celebrado com solenidade por todas as religiões, porque está ligado ao mistério das origens do mundo e do homem. Por isso, exerce um fascínio, tem um sabor especial. Lembra a origem da criação e do tempo, da vida e da história. Para nós, esta festa evoca a bênção de Deus criador dada a cada ser vivo no início do mundo (Gênesis 1,28).
Por tamanha benevolência de Deus em favor do homem, a única resposta do homem deve ser o amor. Para ilustrar este fato, contamos uma estória.
Uma festa foi organizada para Deus e toda a criação procurou dar um presente para Ele, o mais bonito que pudesse encontrar. O castor achou nozes bem crocantes, o coelho feixes de verdura bem fresca, e assim por diante. Todos os animais encontraram um presente bonito para Deus, menos o homem, que nada encontrou de digno para doar a Deus e as coisas que lhe pareciam mais apropriadas já haviam sido escolhidas pelos animais.
O homem percorreu o mundo para encontrá-lo, mas voltou de mãos vazias. Já estava preocupado. Havia objetos até de outros planetas, já que toda a criação havia sido convidada para a festa, mas o homem não conseguia pensar em nada que pudesse presentear a Deus.
Finalmente chegou o momento de entregar os presentes e todas as criaturas entraram na fila. O homem ficou por último, pois não tinha nada para presentear. Quando na fila faltavam apenas uns vinte animais, o homem começou a se desesperar. E, quando chegou a sua vez, lembrou-se de uma coisa em que não havia pensado. Então fez um gesto em que nenhum animal havia pensado. Correu para junto de Deus, ajoelhou-se diante Dele, sussurrou algo em seu ouvido e lhe deu um beijo. Imediatamente o rosto de Deus iluminou-se, pois o homem havia sussurrado no ouvido de Deus apenas três palavras: “Eu te amo”.
A liturgia de hoje nos propõe várias idéias: a oitava do Natal, a circuncisão e o nome de Jesus, a maternidade divina de Maria, o ano novo e o dia mundial da Paz. Uma idéia muito cara ao mundo atual é a paz. Por meio de Maria recebemos o Príncipe da Paz. Realizou-se assim a bênção de Deus. Por isso, Paulo VI instituiu em 1968 o dia mundial da Paz.
Hoje a saudação das pessoas traz o desejo da paz: “Feliz ano novo”, “Um ano cheio de saúde, paz e bem-estar”. Paz que o mundo tanto deseja e sente tão pouco. Segundo um pesquisador, em quatro mil anos da história conhecida, foi de apenas dezessete anos o período mais longo de paz, sem que houvesse guerra em alguma parte do mundo. O século XX nem chegou a essa cifra.
Desde o crime de Caim, a guerra está presente na humanidade. Guerras feitas não só de bombas, mas também de guerra fria, violência, assaltos, terrorismo, violação dos direitos humanos, exploração do homem, agressividade... Por isso, em nosso mundo tecnicizado a paz é vista como “equilíbrio de forças”, a sua base é a filosofia do medo, com a conseqüente corrida armamentista visando a defesa nacional. Por isso, é certo o ditado romano: “Se queres a paz, prepara a guerra”.
A paz armada é um negócio que envolve bilhões de dólares, milhares de cérebros de cientistas, tudo visando a destruição e a morte, em detrimento da saúde, da educação, da alimentação etc., inclusive nos países do Terceiro Mundo. Milhões de pessoas estão subalimentadas, milhões de pessoas morrem de fome cada dia, enquanto o custo de um porta-aviões se iguala ao custo anual da alimentação de uma cidade de 400 mil habitantes. Dinheiro gasto em armamentos e instrumentos bélicos é dinheiro a menos para construir hospitais, escolas, pontes, casas, bibliotecas...
A paz não é a ausência de guerra, ou a conseqüência do equilíbrio de forças, mas a instauração de uma ordem querida por Deus (P.P. 76) na construção de uma escola de paz nas famílias, educando os jovens para a convivência, o serviço, a fraternidade, a solidariedade, o respeito ao outro...
A Igreja ensina que, depois de Cristo, Maria ocupa o lugar mais alto e mais próximo de nós, em função da sua maternidade divina. “Pela graça de Deus, depois do seu Filho, ela foi exaltada sobre todos os Anjos e todos os homens” (LG 63). Foi através de Maria que chegaram ao seu cumprimento os oráculos dos profetas que anunciaram Cristo. Jesus enquanto homem foi feito de Maria. Assim, se Jesus é Deus, por que a Santíssima Virgem, que o deu à luz, não há de ser chamada Mãe de Deus? diz são Cirilo. E foi o que definiu o Concílio de Éfeso.
Por isso Maria, “ao conceber Cristo, gerá-lo, alimentá-lo, apresentá-lo ao Pai no Templo, ao padecer com seu Filho morrendo na cruz, cooperou de forma ímpar com a obra do Salvador, mediante a obediência, a fé, a esperança e a caridade ardente, a fim de restaurar a vida sobrenatural das almas. Por isso ela é nossa Mãe na ordem da graça” (LG 61).
Por ser nossa Mãe, Maria está constantemente presente na vida de cada cristão. Ela intervém com a sua ajuda nos momentos de dificuldades: “Quando me ponho a considerar todas as graças que recebi de Maria Santíssima, parece-me que sou um desses santuários marianos cujas paredes estão cobertas de “ex-votos” em que se lê somente esta inscrição: “Por uma graça recebida de Maria”. Assim, parece que estou escrito em todos os lados: “Por graças recebidas de Maria”. Todos os bons pensamentos, todas as boas vontades, todos os bons sentimentos do meu coração: “Por graças de Maria” (Vida de são Leopoldo de Porto Maurício).
Por isso Maria recebeu da Igreja os títulos de “Advogada, Auxiliadora, Socorro e Medianeira”, porque intercede junto do seu Filho. Com o seu amor maternal, ela se encarrega de nos alcançar as graças de que necessitamos e se torna o caminho que nos conduz a Cristo: “Ad Jesum per Maria”. É fácil chegar até Deus através da Mãe.
padre José Antonio Bertolin, OSJ
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Nexo entre as leituras
Rememorar e recordar é algo característico do povo de Israel, de Maria Santíssima e do cristão. O povo de Israel rememora, no culto, as maravilhas que Deus realizou entre eles, que podem ser resumidas na bênção e na paz. Maria recorda os acontecimentos que viveu no mistério da sua maternidade divina. A comunidade cristã rememora Jesus, como um ser inteiramente humano (nascido de uma mulher, nascido sob a lei), mas ao mesmo tempo Filho de Deus, capaz de libertar o homem de toda escravidão.
Mensagem Doutrinal
1. Memória das "Maravilhas do Senhor". No povo de Israel existe uma claríssima consciência da presença de Deus no seu caminhar pelas sendas da história, caminhar este que, muitas vezes, é tortuoso e escuro para a mente humana. A partir de Adão, tudo responde a um desígnio, a uma história salvífica, e Deus é o artífice e o guia desta história. Os israelitas não cessam de admirar, geração após geração, as obras surpreendentes e grandiosas que Deus realizou para o bem de seu povo: as pragas do Egito, a libertação da escravidão no Egito, a revelação do Sinai e o dom do Decálogo, a vitória sobre os diversos inimigos que tiveram de enfrentar a caminho da terra prometida, a terra que emana leite e mel, a presença viva e consoladora no Templo de Jerusalém, o inesperado retorno do exílio da Babilônia... o lugar por excelência da memória é a liturgia no Santuário e, depois, no Templo de Jerusalém. Antes de mais, a liturgia das grandes festas: Páscoa, Pentecostes, Tabernáculos. Depois, a liturgia de cada dia e as festas menores, como o início do ano, os novilúnios ou a festa do "Purim". A memória de todos estes grandes acontecimentos era recolhida condensadamente, quando se terminava a liturgia do dia, na bênção da primeira leitura, e se projetava como um desejo para o futuro. É graças à memória das maravilhas do Senhor que existe o Antigo Testamento e os cristãos podem conhecer as suas origens e o modo de agir de Deus na história. Os primeiros cristãos também recordaram as maravilhas de Deus na vida de Jesus e da Igreja primitiva. É por isto que temos o Novo Testamento e o grande mistério que dá razão de ser à nossa existência, à nossa missão no mundo e ao nosso destino final.
2. Nossa Senhora da Recordação. Em dois momentos que têm relação com os mistérios da infância de Jesus, são Lucas menciona Maria rememorando os acontecimentos vividos. Não é um ato isolado, passageiro, mas uma atitude que Maria mantém ao longo da sua vida terrena. No Magnificat, relembra a misericórdia de Deus, de geração em geração, para com aqueles que o temem. Maria lembra, sobretudo, os acontecimentos de que ela participou: a Encarnação do Verbo, o nascimento de Jesus, a adoração dos pastores e dos magos, a circuncisão do menino, a escolha de seu nome. Lembra dos fatos, mas principalmente do mistério inefável que está escondido nos fatos, para penetrar neles através da fé e do amor. Nos últimos anos de sua vida, Maria também rememora a vida de Jesus em Nazaré, a sua vida pública, o mistério pascal, Pentecostes, os inícios da Igreja... Maria rememora estas coisas não com a nostalgia de experiências profundas e irrepetíveis, mas com a alegria de quem revive estes momentos no presente, graças à profundidade e à riqueza do mistério que neles está contida. Maria, dimensão feminina e maternal da Igreja, ressaltou o papel da memória, da contemplação ativa, para que o cristão se mantenha fiel às suas origens e nelas encontre um impulso mais genuíno para a ação e para o apostolado.
Sugestões pastorais
1. Existe uma amnésia cristã? A amnésia, na vida humana, é um dos sintomas da idade avançada. Quanto maior a idade, menor a capacidade de memorização. Este fenômeno humano também pode ser notado na sociedade e nas instituições? A amnésia histórica é sinal de que a sociedade ou uma instituição está envelhecendo? Podemos falar de uma amnésia cristã? Existem certos sintomas preocupantes: alguns batizados que não sabem nada sobre o catecismo, às vezes nem sequer sobre os dez mandamentos; batizados que ignoram os grandes momentos da história da salvação, inclusive os grandes mistérios da vida de Cristo; batizados que desconhecem até os momentos mais significativos da história da Igreja, as grandes verdades do dogma e da moral cristã... O que podemos dizer sobre estes casos? A Igreja perdeu memória em muitos de seus filhos? Para recuperá-la, só existe um caminho: criar o gosto da lembrança, fazer com que as gerações jovens valorizem o extraordinário tesouro da tradição cristã, ajudá-los a rememorá-la com a consciência de que no passado estão as sementes que florescem no presente e que serão fruto maduro no futuro. Não é inútil relembrar que o cristão com amnésia das suas origens e da sua história comete um grave pecado de omissão, que lhe prejudica a identidade cristã, mas também causa dano à comunidade eclesial, porque a envelhece, em vez de renová-la e rejuvenescê-la.
2. Recordar rezando o terço. Um dos meios mais eficazes que Igreja oferece à piedade cristã para não esquecer o passado é a oração do terço. Rezamos o terço em honra e louvor a Maria Santíssima, mas no centro dos mistérios estão as grandes verdades do mistério cristão, realizando uma síntese muito recomendável entre fé e piedade. Na lembrança desses acontecimentos, vai conosco Maria, que os viveu de modo pessoal e que agora é nossa guia e modelo. Com ela e quase através da sua memória, recordamos os mistérios gozosos, que tratam da chegada do Messias entre nós, do Emmanuel, nos quais Maria teve participação única e excepcional. Recordamos também os mistérios luminosos, nos quais vemos o desenrolar da vida de Cristo, luz do mundo, sob os olhos de Maria. Recordemos os mistérios dolorosos, mistérios que se referem aos últimos dias da vida de Jesus entre os homens, nos quais consumou a obra da redenção morrendo numa cruz, a cujos pés Maria compartilhava a dor e colaborava de modo singular na obra da redenção. Recordamos, finalmente, os mistérios gloriosos, nos quais celebramos o triunfo de Jesus Cristo, e, associado a ele, o triunfo de Maria Santíssima, elevada em corpo e alma à glória celeste. Rezar o terço está fora de moda? Como podemos rezar o terço, individualmente ou em grupo, para que ele seja memória viva dos mistérios da nossa fé?
padre Octávio Ortiz, L.C.

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