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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

EPIFANIA DO SENHOR - Ano A

 EPIFANIA DO SENHOR
Dia 05 de Janeiro - Ano A

Comentários-Prof.Fernando


Evangelho Mt.2,1-12

OS REIS MAGOS VISITAM O MENINO JESUS-José Salviano


            Prezados irmãos. Hoje a Igreja celebra a festa da Epifania que significa manifestação de Deus, através do Menino Jesus. Ainda estamos em plenos festejos natalinos, ou seja, estamos no prolongamento dos festejos do Natal. Continua


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Evangelhos Dominicais Comentados

05/janeiro/2014– Epifania do Senhor

Evangelho: (Mt 2, 1-12)


Estamos iniciando um novo ano, um novo mês e, como sempre, estão aí os novos anseios, os novos planos e aquele desejo enorme de mudar. Estamos ainda em clima de festa, respirando confraternização e esperando que os tradicionais votos de paz se tornem realidade.

Todos nós almejamos mudanças, porém, as propostas não podem ficar somente no desejo, é preciso fazer acontecer. Para o mundo mudar, precisamos mudar com ele. Paz se traduz em partilha e solidariedade, coisas que não dependem de dinheiro, dependem somente do amor que estivermos dispostos a dar.

Pois foi justamente para distribuir amor e promover a unidade que Jesus veio. Jesus quis nascer pobre para mostrar que fraternidade, igualdade e felicidade não são privilégios reservados aos abastados. Já dizia o poeta: “a felicidade não está relacionada com o tamanho da casa em que se vive, mas sim, com o tamanho do amor que se vive nessa casa”.

A Família mais feliz do mundo era pobre. Não morava em castelo e sua doação no templo, resumiu-se a um par de rolas. No entanto, através de uma Grande Estrela, pudemos testemunhar a alegria daquele casal ao apresentar o Salvador do Mundo, embalado numa manjedoura e abrigado num humilde curral.

Epifania quer dizer manifestação do Senhor. Com o nascimento de Jesus, Deus manifesta o seu desejo a todos os homens. Sua vontade de ter novamente seus filhos ao seu lado, vontade de por em prática o seu Plano de Amor e Salvação.

Vemos que os Magos vêm de longe, guiados por um sinal luminoso. Antigamente eram chamados magos os sábios, os conhecedores de medicina, astrologia e outras ciências. Os magos representam os povos de todas as nações, raças e línguas, que se deixam guiar pela mensagem de paz e amor de Jesus.

Não eram reis, mas provavelmente eram chefes de tribos. Devido seus conhecimentos científicos, os magos, tornavam-se conselheiros de reis e exerciam muita influência em seus países. O evangelho não menciona quantos eram nem seus nomes, mas a tradição popular supõe que os magos eram três e lhes atribuiu os nomes de Gaspar, Melquior e Baltazar.

Os nomes atribuídos aos magos são bastante significativos: Gaspar quer dizer aquele que vai inspecionar, ou seja, aquele que vai verificar e confirmar a vinda do Messias. Melquior quer dizer Meu Rei é Luz, é a grande confirmação da Realeza de Jesus, a Luz do Mundo. E, Baltazar quer dizer; Deus manifesta o Rei.

Os magos ofereceram a Jesus presentes típicos de suas regiões; ouro, incenso e mirra. Também os presentes têm o seu significado. Com o ouro reconheciam a realeza do Menino, o ouro quer dizer que Jesus é Rei. O incenso é algo que se oferece a Deus nos altares. Com o incenso a humanidade reconhece a divindade de Jesus, significa que Jesus não é somente Rei, mas também Divino.

Conforme costume oriental, misturada com outros perfumes, a mirra era usada para perfumar corpos, vestes e casas. A mirra representa o lado humano e o sofrimento do Messias. Significa que o Menino Deus e homem será levado ao martírio e à morte.

Mateus nos diz que os magos mudaram o rumo e voltaram para suas terras por outro caminho. Mudar o caminho significa converter-se. Conversão é o apelo forte da celebração da Epifania. A boa notícia de hoje é poder dizer que, a Paz está ao alcance de todos, vai encontrá-la quem mudar seus caminhos e seguir a Verdadeira Luz.
(1181)


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A Epifania do Senhor
«Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram»
Hoje, o profeta Isaías anima-nos: «De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do Senhor te ilumina» (Is. 60,1). Essa luz que viu o profeta é a estrela que vêem os Magos em Oriente, junto com outros homens. Os Magos descobrem seu significado. Os demais a contemplam como algo que admiram mas, que não lhes afeta. E, assim, não reagem. Os Magos dão-se conta de que, com ela, Deus envia-lhes uma mensagem importante e que vale a pena deixar a comodidade do seguro e se arriscar a uma viagem incerta: a esperança de encontrar o Rei leva-os a seguir essa estrela, que haviam anunciado os profetas e esperado o povo de Israel durante séculos.
Chegam a Jerusalém, a capital dos judeus. Acham que ai saberão lhe dizer o lugar exato onde nasceu seu Rei. Efetivamente, lhe responderam: «Em Belém da Judéia, porque assim está escrito por meio do profeta» (Mt. 2,5). A notícia da chegada dos Magos e sua pergunta propaga-se por toda Jerusalém em pouco tempo: Jerusalém era na época uma pequena cidade e, a presença dos Magos com seu séquito foi vista por todos os habitantes, pois «Ao saber disso, o rei Herodes sobressaltou-se e, com ele toda a cidade de Jerusalém» (Mt. 2,3), diz o Evangelho.
Jesus Cristo cruza-se na vida de muitas pessoas, a quem não interessa. Um pequeno esforço teria mudado suas vidas, teriam encontrado o Rei do Gozo e da Paz. Isso requer a boa vontade de procurar, de nos movimentar, de perguntar sem nos desanimar, como os Magos, de sair de nossa poltronaria, de nossa rotina, de apreciar o imenso valor de encontrar a Cristo. Se não o encontramos, não encontramos nada na vida, pois só Ele é o Salvador: encontrar Jesus é encontrar o Caminho que nos leva a conhecer a Verdade que nos dá a Vida. E, sem Ele, nada de nada vale a pena.
d. Joaquim Villanueva i Poll

1. «Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta de Jacob,/ um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).
2. Do Oriente são também os Magos, que enchem o Evangelho deste dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (Mateus 2,2 e 9) ou o sonho (Mateus 2,12), uma e outro indicadores de caminhos novos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (Mateus 2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego diz bem, no plural, «dos Orientes» (Números 23,7; Mateus 2,1). Só a estrela que desponta, no singular, pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.
3. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do Messias e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê ou forma verbal anatéllô. Esta estrela que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os da inteira humanidade para a verdadeira estrela que desponta e para o rebento que germina, que é o menino. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade de coração puro e de olhar puro orientam para aquele Menino toda a sua vida, que é o que significa o verbo «adorar». Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao Menino.
4. Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8) Veja-se ainda o inútil controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem a verdade acerca do Messias, mas não sabem reconhecer o Messias (Mateus 2,4-6).
5. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72(71), diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento.
6. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrônomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis:
a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a.C.;
b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C.;
c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registrada nos observatórios astronômicos chineses.
A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registrada nos observatórios da Babilônia e do Egito. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenômenos registrados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela dos Magos é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam, certamente, se soubessem que nós indagamos os céus com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. É assim que «muitos virão do oriente e do ocidente, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos Céus… (Mateus 8,11-12).
7. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.
8. Também os versos sublimes do Salmo real 72(71) cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.
9. E o apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.
10. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, presentes e alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância missionária», que gosto de ver sempre envolta no belo lema: «O Evangelho viaja sem passaporte». Para significar que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.
11. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.
António Couto
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Jesus é apresentado ao mundo
Já faz um bom tempo que a sociedade mundial passa por momentos de crises. No nosso caso, a mais ameaçadora é a crise econômica. Para quem acompanha o noticiário, conhece as dificuldades e o caos que está vivendo a Europa, os Estados Unidos e outros países com a crise. Cabe, para aqueles países em crise, a palavra de Isaías, na 1ª leitura: “Eis que a terra está envolvida em trevas e nuvens escuras cobrem os povos”. A luz financeira está sendo apagada, a luz do materialismo e do consumismo parece que se apaga cada vez mais, a luz do progresso científico e econômico, que tem comandado o mundo, está perdendo o brilho. No ano passado, milhões de pessoas fizeram protestos na desenvolvida Grécia, no capitalista Estados Unidos, na cultural Itália, na festiva Espanha. Tudo porque a luz do capitalismo que iluminava sonhos e esperanças, mas que sustentava milhões de pessoas, está deixando de brilhar. Para nós, que no Brasil ainda não enfrentamos essa turbulência, é preciso aprender dessa triste experiência que a vida humana não pode ser acesa somente em luzes materiais, precisa de uma luz que brilhe com mais intensidade, capaz de brilhar a partir do interior, do coração.
Na Europa e nos Estados Unidos, a crise não apenas faz perder dinheiro e condições sociais estabilizadas, mas está proporcionando também a perda do sentido de viver e do sentido da vida. Começa-se a perceber que não vale a pena viver somente para produzir ou para ajuntar dinheiro, porque tudo isso passa. Como diz Jesus, é construir a casa da vida sobre a areia (Mt. 7,24-27). É construir a casa da vida na escuridão, em risos e festas que pretendem transformar a terra em paraíso; festas movidas a álcool e libertinagens. Essa luz está começando a dar sinais que não suporta mais a força da vida, o desejo de viver de modo mais intenso e com um sentido mais profundo. Gente que lida com espiritualidade, profissionais que trabalham com pessoas, como padres, psicólogos, pedagogos, professores e professoras... começam a mostrar a necessidade de voltar a semear valores espirituais na vida das pessoas e não apenas capacidades técnicas de produção e desejo de enriquecimento. Isso pode existir, mas sem prescindir da espiritualidade da luz, que para nós é a luz do Evangelho.
Os Reis Magos protagonizam a realidade existencial da humanidade de nossos dias. Eles são exemplos de pessoas capazes de distinguir, no céu estrelado, uma estrela diferente. Uma luz que indica o local do encontro com Deus. Considerando os presentes que oferecem a Jesus, aqueles reis poderiam instalar-se em tronos feitos de ouro, de riquezas e do poder financeiro, que tudo compra. Renunciaram para ir em busca de uma luz mais brilhante que o ouro, chegando ao pobre presépio de Belém. Aqueles reis poderiam sentar em tronos rodeados de incenso, símbolo do poder religioso, como era comum no seu tempo, servindo-se do brilho da religião para enriquecimento particular. Deixaram isso para ir em busca do trono divino, encontrado sem o incenso de catedrais, numa estrebaria de Belém. Aqueles reis poderiam sentar-se em tronos que prometem curas milagrosas, simbolizada no cultivo medicinal da mirra. Abandonaram também esse tipo de promoção e se colocaram a caminho para encontrar a fonte da saúde espiritual, a luz divina que brilha em Jesus.
A Epifania é conhecida, na liturgia do ocidente e do oriente, como a “festa das luzes”. É quando acontece a grande manifestação da luz divina. Não manifestação iluminada qual festival pirotécnico, com queima de fogos e rojões, mas manifestação da luz divina como oferta dessa mesma luz para brilhar em nossos corações. Jesus não oferece o brilho do ouro, nem o brilho religioso do incenso e nem a promessa do brilho de curas milagrosas... oferece uma luz que brilha em nossos corações, que  brilha em nossas vidas e que dá sentido à nossa existência. Essa luz é o Espírito de Deus brilhando em nós, é a presença da sabedoria divina iluminando nossas decisões, é o dom do discernimento, para que não troquemos os pés pelas mãos nos momentos mais exigentes de nossas vidas. Em nossas atividades profissionais, podemos lidar com dinheiro, com gente, com recursos técnicos... tudo isso começa a ter um novo brilho se dentro de nós estiver acesa a luz divina. É o que chamo de “espiritualidade da luz divina”. Por isso, a Epifania é um constante convite para deixar nossas luzes e se colocar a caminho, em busca da luz que brilha na simplicidade silenciosa da pobreza humana. Ali, Deus acende sua luz, ainda hoje, nesse mundo que vive na escuridão da crise financeira por confiar demais no brilho da luz econômica. A Epifania é convite para acolher e acender em nós a luz divina do seu amor.

SEGUNDA HOMILIA
Sejamos estrela a guiar os irmãos até Jesus!
“Eis que a terra está envolvida em trevas e nuvens escuras cobrem os povos”. É assim que Isaias proclamava sua profecia em nossa assembléia, na 1ª leitura. Um chamado de atenção para a situação atual do mundo, da humanidade e dos países. Talvez, nunca tenha sido tão fácil compreender o Mistério da Epifania, como nesse tempo que vivemos, vendo a terra envolvida em trevas e nuvens escuras cobrindo tantos países. Países que, até pouco tempo atrás, eram considerados potências, incapazes de se esfacelarem em dívidas e crises sociais. E, no entanto, vemos como potências mundiais se esforçam em busca da luz, em busca de caminhos que possam resolver suas crises. Acenderam a luz da economia como solução para a vida humana, mas essa luz começa a se apagar, o caminho começa a ficar incerto... Para onde caminham esses povos? São os Reis Magos de nossos dias; caminhantes em busca de uma luz onde possam depositar sua fé e sua esperança de vida.
Nossa sociedade é constantemente iluminada com as mais diferentes tonalidades de luzes. A maior parte dessas propostas distancia-se cada vez mais da necessidade espiritual e religiosa do homem e da mulher. Acendem a luz do desejo de ser rico, bem sucedido profissionalmente, ter fama... ter e mais ter. No contexto social, de incentivar o ter, está a necessidade de ganhar mais... é a competição. Competir significa ganhar do outro, colocar o outro depois de mim, passar à frente do outro... Infelizmente, isso nem sempre é feito com respeito e dignidade, de onde a corrupção, a lavagem de dinheiro, as falcatruas políticas, os jogos de poder... a violência de alguns que ganham a corrida da riqueza, mas se empobrecem espiritualmente. E isso reflete na vida social, nos relacionamentos sociais. São as nuvens escuras que cobrem nossa sociedade. Por isso, como diz o Papa Bento XVI, a crise não é somente financeira, é moral, é ética e é de relacionamentos fraternos. É a tentativa de apagar a luz divina, de ausentar Deus de nossas vidas. E, quando isso acontece, o outro torna-se adversário e não irmão ou irmã. Perde-se os princípios de fraternidade e de solidariedade e dá no que vemos hoje: um mundo em crise: nuvens escuras pairando sobre potências econômicas mundiais.
A celebração da Epifania, que celebramos no início desse novo ano, aponta o caminho da Luz e o modo como chegar até à luz. A exemplo dos Reis Magos, todos somos caminheiros de uma luz que possa acender a vida humana com um brilho novo. Se acendemos a vida humana com luzes que não mostrem a dignidade da vida humana e a presença de Deus em nós, perdemos o caminho e a vida perde o seu brilho. Por isso, a Epifania nesse ano reforça o compromisso profético da Igreja. A Igreja, que somos todos nós, é convidada a renovar seu compromisso evangelizador nas palavras de são Paulo, proclamadas na 2ª leitura. Paulo diz que Deus revelou seu Mistério e dispõe a Salvação, quer dizer, a vida plena, a vida com gosto de realização, de paz e de felicidade, em Jesus Cristo. Em termos de teologia epifânica, Paulo está dizendo que Deus acendeu sua Luz entre nós. Essa Luz tem nome e tem vida: é Jesus Cristo. A Igreja tem o compromisso de anunciar isso ao mundo, de mostrar, de propor, de indicar, de conduzir todos os povos, todas as pessoas, a Jesus Cristo, porque ele é a Luz.
Para concluir nossa reflexão, gostaria de chamar sua atenção para um pequeno detalhe, mas muito importante, no Evangelho que acabamos de ouvir. Os Reis Magos são guiados pela estrela e chegam a Jerusalém. O detalhe é esse: a estrela não conduziu os Reis Magos até o presépio, mas somente até Jerusalém. Lá eles precisaram se informar do endereço, da estrada que conduz ao Rei que acabava de nascer. Por isso, como fazemos quando chegamos a uma localidade desconhecida, perguntamos onde fica a rua ou a avenida tal... Quando os reis perguntaram isso, os teólogos foram pesquisar um mapa e esse mapa era a Bíblia. Encontraram na profecia de Miquéias o endereço: será em Belém! Minha conclusão é simples? Quer conhecer o endereço de sua vida para se encontrar com a luz divina, com Jesus Cristo? Pois bem, o endereço está na Bíblia e, mas precisamente, para nós que somos discípulos e discípulas de Jesus, o endereço está no Evangelho. É no Evangelho que está a nossa espiritualidade e quem vive iluminado pela espiritualidade do Evangelho encontra a estrada certa e caminha na luz.
padre Edson
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Hoje celebramos a Epifania do Senhor. Para nós, cristãos, a solenidade da Epifania representa a assunção humana de Jesus Cristo, quando o filho do Criador dá-se a conhecer ao mundo. Na narração bíblica, Jesus deu-se a conhecer a diferentes pessoas e em diferentes momentos, porém, o mundo cristão celebra como epifanias três eventos: a Epifania propriamente dita perante os Magos do Oriente (como está relatado em Mateus 2,1-12); a Epifania a João Batista no rio Jordão e a Epifania a Seus discípulos e início de Sua vida pública com o milagre de Caná quando começa o Seu ministério.
No sentido literário, a “epifania” é um momento privilegiado de revelação, quando acontece um evento ou incidente que “ilumina” a vida da personagem.
O “Dia de Reis”, segundo a tradição cristã, seria aquele em que Jesus Cristo recém-nascido recebera a visita de uns “magos” que, segundo o hagiológio, foram três Reis Magos.
A data marca, para nós católicos, o dia para a adoração dos Reis, que a tradição surgida no século VIII converteu nos santos Belchior, Gaspar e Baltazar. Nesta data, ainda, encerram-se os festejos natalinos – sendo o dia em que são desarmados os presépios e, por conseguinte, são retirados todos os enfeites natalinos.
O tema da luz domina as solenidades do Natal e da Epifania, que antigamente – e ainda hoje no Oriente – estavam unidas numa só grande “festa das luzes”. No sugestivo clima da Noite Santa apareceu a luz. Nasceu Cristo “luz dos povos”. É Ele o “sol que surge do alto (cf. Lc. 1,78). Sol vindo ao mundo para dissipar as trevas do mal e inundá-lo com o esplendor do amor divino. Escreve o evangelista João: “O Verbo era a luz verdadeira que, vindo ao mundo, a todo o homem ilumina” (1,9).
“Deus é luz”, recorda sempre são João, sintetizando não uma teoria gnóstica, mas “a mensagem que recebemos dele” (1Jo 1,5), isto é, de Jesus. No Evangelho, ele lembra de novo a expressão recolhida dos lábios do Mestre: “Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).
Encarnando, o Filho de Deus manifestou-se como luz. Luz não só para o exterior, na história do mundo, mas também para o interior do homem, na sua história pessoal. Fez-se um de nós dando sentido e valor renovado à nossa existência terrena. Deste modo, no pleno respeito pela liberdade humana, Cristo tornou-se ”lux mundi” (a luz do mundo). Luz que brilha nas trevas (cf. Jo 1,5).
Hoje, na solenidade da “Epifania”, que significa “Manifestação”, volta com vigor o tema da luz. Hoje, o Messias, que em Belém se manifestou a humildes pastores da região, continua a revelar-se luz dos povos de todos os tempos e de todos os lugares. Para os Magos, vindos do Oriente para O adorar, a luz do “rei dos judeus que acaba de nascer” (Mt. 2,2) assume a forma de um astro celeste, muito brilhante, a ponto de atrair o seu olhar e os guiar até Jerusalém. Põe-nos, assim, nas pegadas das antigas profecias messiânicas: “Uma estrela sai de Jacó e um cetro flamejante surge do seio de Israel…” (Nm. 24,17).
Como é sugestivo o símbolo da estrela que se repete em toda a iconografia do Natal e Epifania!
Ainda hoje, evoca profundos sentimentos, mesmo se, como tantos outros sinais do sagrado, corre o risco de se tornar banalizada pelo uso consumista que dela é feito. Todavia, recolocada no seu contexto original, a estrela que contemplamos no presépio fala ao espírito e ao coração do homem do terceiro milênio.
Fala ao homem secularizado, despertando nele a nostalgia da sua condição de viandante à procura da verdade e desejoso do absoluto. A própria etimologia do verbo “desejar” evoca a experiência dos navegantes, que se orientam durante a noite observando os astros, que em latim se chamam “sidera”.
Quem não sente a necessidade de uma “estrela” que o guie no seu caminho sobre a terra? Sentem esta necessidade tanto os indivíduos como as nações. Para vir ao encontro deste desejo de salvação universal, o Senhor escolheu para si um povo, que fosse estrela orientadora para “todas as famílias da terra” (Gn. 12,3). Com a Encarnação de Seu Filho, Deus alargou, depois, a eleição a todos os outros povos, sem distinção de raça e cultura. Assim nasceu a Igreja, formada por homens e mulheres que, “unidos em Cristo, são dirigidos pelo Espírito Santo na sua peregrinação para o Reino do Pai e receberam uma mensagem de salvação, que devem comunicar a todos” (Gs. 1).
Ressoa, portanto, para toda a comunidade eclesial o oráculo do profeta Isaías, que escutamos na primeira leitura: “Levanta-te e resplandece, chegou a tua luz; a glória do Senhor levanta-se sobre ti!… As nações caminharão à tua luz, os reis, ao resplendor da tua aurora” (Is. 60,1.3).
Acolhendo Jesus, nossa Luz, sejamos como estrelas que O apontem para a humanidade ou levem a humanidade até Ele, para que O conheça e O adore, e O tenha como a Luz de sua vida. O ouro aponta Jesus como o Rei universal; o incenso, como Deus. Mas é Rei e Deus pelo amor e serviço sem reservas nem medidas, até o extremo da morte, lembrada pela mirra.
padre Bantu Mendonça Katchipwi Sayla

Celebramos a solenidade da Epifania do Senhor e para nos ajudar a compreender a dimensão da manifestação de Deus aos homens o Evangelho desta celebração narra-nos a visita dos magos vindos do Oriente.
É um acontecimento que nos alegra, na medida em que vemos confirmada a difusão da Boa Nova de Jesus a todos os povos e nações, que vemos cumprida a profecia de Isaías que está patente na primeira leitura desta Solenidade, mas na sua essência é um acontecimento que está marcado por uma grande dose de ironia e uma tensão dramática assustadora. Neste relato e neste acontecimento encontramos uma oposição entre Jerusalém e Belém que não nos pode deixar indiferentes, porque de alguma forma ela representa uma tensão latente também na nossa vida de crentes.
Assim, não podemos deixar de notar que a estrela que conduz os magos desde o Oriente não se dirige diretamente a Belém; faz como que um desvio, para os conduzir à cidade de Jerusalém onde afinal o menino não tinha nascido. A primeira missão da estrela é assim conduzir os magos aos escribas e ao centro religioso e político de Jerusalém, a um confronto com as escrituras e profecias nas quais estava anunciado o local do nascimento do rei prometido.
Este confronto tem um duplo sentido, uma vez que visa mostrar a veracidade das mesmas escrituras no sentido do cumprimento das profecias, mas também, e tragicamente, a indiferença dos seus leitores face a elas mesmas. Os escribas e os doutores da Lei lêem as escrituras, encontram-se com a verdade que elas contêm, mas paradoxalmente não são capazes de a reconhecer nem de se alegrarem com ela. Não se deixam tocar e por isso após a leitura e recolha de informações os magos vindos do oriente seguem sozinhos o seu caminho até Belém. Os escribas não são capazes de os acompanhar.
Neste sentido a visita dos magos a Jerusalém é um sinal, uma manifestação de contestação profética à cidade santa, uma identificação da recusa da missão a que a cidade estava chamada a desenvolver à luz da profecia de Isaías. Mas é também, e fundamentalmente, a revelação do drama que a cidade encerra face à sua verdade, e neste sentido o drama que todos os homens podem viver face a Deus e de que Jerusalém é a imagem por excelência.
A condução dos magos pela estrela a Jerusalém visa mostrar a perversão que vive a cidade santa, uma cidade onde o rei se serve a si mesmo, onde habita um rei invejoso e indigno do seu lugar, uma cidade onde está centralizado o culto mas onde os seus guias espirituais estão mortos e inertes. A passagem dos magos por Jerusalém visa colocar em oposição a cidade de Jerusalém, assumida por David, à cidade de Belém de onde David provinha.
Jerusalém é a cidade conquistada por David, a cidade onde ele constrói o seu palácio e quer construir uma casa para Deus, a cidade onde se centralizam todos os poderes, onde a vida se desenvolve e constrói à semelhança das cortes infiéis dos egípcios e babilônicos. Ao contrário, Belém é a cidade humilde, a cidade onde o Senhor vai ao encontro do seu escolhido, não para o colocar num trono, mas para o colocar à frente do seu povo, para que o conduza como um pastor conduz o seu rebanho.
A cidade de Jerusalém mostra assim e simboliza essa tentativa de apropriação por parte do homem do ser divino, do deus que fica ao serviço da satisfação e dos caprichos, um deus que se manipula e é propriedade pessoal ou do povo. Pelo contrário a cidade de Belém revela esse Deus verdadeiro que vem ao encontro do homem, que o resgata da sua condição de pastor de animais para o colocar à frente de homens, que o dignifica e o elege para poder governar sobre todas as coisas na sua amizade.
E assim, quando os magos retomam o caminho, deixando Jerusalém para trás reencontram-se com a estrela luminosa que os tinha conduzido, estrela que lhes dá uma grande alegria e o conduz ao local onde se encontrava o menino anunciado pelas escrituras. A estrela funciona assim como uma metáfora do mistério da encarnação, pois vinda de Deus para conduzir os homens até ao Filho encarnado regressa ao seio do criador depois da sua missão cumprida, ou seja, depois da identificação da perversão do homem, quando se quer apropriar de Deus, e da verdadeira revelação de Deus quando o homem humildemente se deixa encontrar por Deus.
A viagem dos reis magos até Belém e ao encontro do menino Jesus, pelo que apresentamos anteriormente, não pode por isso ser para nós apenas uma manifestação de Deus a todos os povos, simbolizados nesses reis magos. Há neste relato e nas suas diversas circunstâncias elementos que nos desafiam na revelação e na relação com Deus, como sejam a leitura das Escrituras e o impacto das mesmas na nossa vida, a alegria que daí deve derivar, a tentação de posse e propriedade em relação a Deus, a consciência de que Deus se revela e vem ao nosso encontro na humildade da nossa circunstância de peregrinos e viajantes.
Peçamos por isso ao Senhor que o encontro com a sua Palavra Viva na Escritura e nas obras da criação, não seja para nós um acontecimento inoperante, uma leitura de letra morta que nos encerra, mas pelo contrário seja um acontecimento que nos desafia e nos coloca em caminho, na busca ativa a apaixonada de Deus que vem ao nosso encontro.
frei José Carlos Lopes Almeida, OP
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"Tendo nascido o rei dos céus perturbou-se o rei da terra porque a grandeza desse mundo se aniquila no momento em que aparece a majestade do céu. Mas nos ocorre perguntar: que razões houveram para que imediatamente nascido o rei neste mundo nosso Redentor fora anunciado pelos anjos aos pastores da Judéia, e aos magos do Oriente não fora anunciado por anjos senão por uma estrela, para que viessem adorá-Lo?
Porque aos judeus, como criaturas que usavam de sua razão, devia anunciar-lhes esta notícia um ser racional, isto é, um anjo; e os gentios, que não sabiam fazer uso de sua razão, deviam ser guiados ao conhecimento de Deus, não por meio de palavras, senão por meio de sinais. De aqui que dissera são Paulo: “As profecias foram dadas aos fiéis, não aos infiéis; os sinais aos infiéis, não aos fiéis”, porque àqueles foram dadas as profecias como fiéis, não aos infiéis, e a estes foi dado sinais como a infiéis, não aos fiéis.
Deve-se notar também que os Apóstolos pregaram nosso Redentor aos gentios, quando já era de idade perfeita; e que enquanto foi menino, que não podia falar naturalmente, é uma estrela que o anuncia; a razão é porque a ordem racional exigia que os pregadores nos dessem a conhecer com sua palavra o Senhor que já falava, e quando todavia não falava O pregassem muitos elementos.
Devemos considerar em todos esses sinais que foram dados tanto ao nascer quanto ao morrer do Senhor, quanto deve ter sido a dureza de coração de alguns judeus, que não chegaram a conhecê-Lo nem pelo dom da profecia, nem pelos milagres.
Todos os elementos têm dado testemunho de que veio seu Autor. Porque, em certo modo, os céus o reconheceram como Deus, pois imediatamente que nasceu o manifestaram por meio de uma estrela. O mar o reconheceu sustentando-o em suas ondas; a terra o conheceu por estremeceu ao ocorrer sua morte; o sol o conheceu ocultado à hora se sua morte o esplendor de seus raios; os penhascos e os muros o conheceram porque ao tempo de sua morte se romperam; o inferno o reconheceu restituindo os mortos que conservava em seu poder. E ao que haviam reconhecido como Deus todos os elementos insensíveis, não o quiseram reconhecer os corações dos judeus infiéis e mais duros que os mesmos penhascos, os quais ainda hoje não querem romper-se para penitência e recusam confessar ao que os elementos, com seus sinais, declaravam como Deus.
E ainda eles, para o cúmulo de sua condenação, sabiam muito antes que havia de nascer Aquele que depreciaram quando nasceu; e não só sabiam que iria nascer, como também sabiam o lugar de seu nascimento. Porque perguntados por Herodes, manifestaram este lugar que haviam aprendido das Escrituras. Referiram ao testemunho em que se manifesta que Belém seria honrada com o nascimento deste novo líder, para que sua mesma ciência servisse a eles de condenação e a nós de auxílio para que creiamos.
Perfeitamente os designou Isaac quando abençoou ao seu filho Jacó, pois estava cego e profetizando, não viu em aquele momento a seu filho, a quem tantas coisas predisse para sucessivo; isto é, porque o povo judeu, cheio do espírito de profecia e cego de coração, não quis reconhecer presente Àquele de quem tanto se havia predito.
Logo que soube Herodes do nascimento de nosso Rei, recorre à astúcia com o fim de não ser privado de seu reino terreno. Suplica aos magos que lhe anunciassem ao seu retorno o lugar onde estava o Menino; simula que quer ir também a adorá-Lo, para que se pudera tê-Lo nas mãos pudesse tirar-lhe a vida. Mas de que vale a malícia dos homens contra os desígnios de Deus? Está escrito: “Não há sabedoria, nem prudência, nem conselho contra o Senhor”. Assim, a estrela que aparecera guiou os magos, que encontram o Rei nascido, Lhe oferecem seus dons e são avisados em sonhos para que não voltassem a ver Herodes, e desta maneira sucedeu que Herodes não pudera encontrar a Jesus, a quem buscava. Quem está representado em Herodes senão os hipócritas, os quais, parecendo que suas obras buscam o Senhor, nunca merecem encontrar-Lo?
Os magos oferecem ouro, incenso e mirra: o ouro convém ao rei, o incenso se punha nos sacrifícios oferecidos a Deus; com a mirra eram embalsamados os corpos dos defuntos. Por conseguinte, com suas oferendas místicas pregam os magos ao que adoram: com ouro, como rei; com incenso como Deus, e com a mirra, como homem mortal.
Há alguns hereges que crêem em Jesus como Deus, porém negam seu reino universal; estes Lhe oferecem incenso, mas não querem oferecer-Lhe também o ouro. Há outros que Lhe consideram como rei, porém não O reconhecem como Deus: estes Lhe oferecem ouro e recusam oferecer-Lhe o incenso. E há alguns que o confessam como Deus e como rei, porém negam que tomou para Si a carne mortal: estes Lhe oferecem incenso e ouro, e recusam oferecer-Lhe a mirra da mortalidade.
Ofereçamos nós ao Senhor recém-nascido ouro, confessando que reina em todas as partes; ofereçamos-Lhe incenso, crendo que Aquele que se dignou aparecer no tempo era Deus antes de todos os séculos; ofereçamos-Lhe mirra, confessando que Aquele de quem cremos que foi impassível em sua divindade, foi mortal por ter assumido nossa carne.
No ouro, incenso e mirra pode dar-se outro sentido. Com o ouro se designa a sabedoria, segundo Salomão, o qual disse: “um tesouro desejável descansa na boca do sábio”. Com o incenso que se queima em honra de Deus se expressa a virtude da oração, segundo o Salmista, o qual diz: “Dirija-se até vós a minha oração como o incenso”. Pela mirra se representa a mortificação de nossa carne; daqui que a Santa Igreja diga dos trabalhadores que trabalham até a morte por Deus: “Minhas mãos destilaram mirra”.
Por conseguinte, oferecemos ouro ao nosso rei recém-nascido se resplandecemos em sua presença pela claridade da sabedoria celestial. Oferecemos-Lhe incenso, se consumimos os pensamentos carnais, por meio da oração, na ara de nosso coração, para que possamos oferecer ao Senhor um aroma suave por meio dos desejos celestiais. Oferecemos-Lhe mirra, se mortificamos os vícios da carne por meio da abstinência. A mirra, como foi dito, é um preservativo contra a putrefação da carne morta. A putrefação da carne morta significa a submissão deste nosso corpo mortal ao ardor da impureza, como disse o profeta de alguns: “Os jumentos apodreceram em seu próprio esterco” (Joel 1, 17). O entrar em putrefação os jumentos em seu próprio esterco significa os homens terminarem sua vida em torno da luxúria. Por conseguinte, oferecemos a mirra a Deus quando preservamos a este nosso corpo mortal da podridão da impureza por meio da continência.
Ao voltar os magos a sua terra por outro caminho distinto do que os trouxe nos manifestam uma coisa de suma importância. Pondo em obra a advertência que receberam em sonho, nos indicam que é o que nós devemos fazer.
Nossa pátria é o paraíso, ao que não podemos chegar, tendo conhecido Jesus, pelo caminho de onde viemos. Temos nos separado de nossa pátria pela soberba, pela desobediência, seguindo o chamariz das coisas terrenas e saboreando o manjar proibido; é necessário que voltemos a ela, chorando, obedecendo, desprezando as coisas terrenas e refreando os apetites de nossa carne. Por conseguinte, voltemos a nossa pátria por um caminho muito distinto, porque temos nos separado dos gozos do paraíso com os deleites da carne, volvemos a eles por meio de nossos lamentos.
Daqui que seja necessário, irmãos caríssimos, que com muito temor e tremor ponhamos sempre diante de nossa vista, por uma parte as culpas de nossas obras, e por outra o estreito juízo que nos há de submeter. Pensemos na severidade que há de vir o justo juiz, que nos ameaça com um estreitíssimo juízo e agora está oculto a nossa vista; que ameaça com severos castigos aos pecadores, e, não obstante, todavia os espera: que está dilatando sua segunda vinda para encontrar menos a quem condenar. Castiguemos com o choro nossas culpas, e evitemos sua presença por meio da confissão.
Não nos deixemos enganar por prazeres fugazes, nem tampouco nos deixemos seduzir por vãs alegrias. Não tardaremos em ver ao juiz que disse “Ai de vós que agora ris, porque gemereis e chorareis”. Por isso disse Salomão: “O riso será mesclado com a dor, e o fim dos gozos será ocupado pelo choro”. E em outro lugar disse: “Considerei o riso como um erro, e disse ao gozo: por que enganas em vão?”.
Temamos muito os preceitos de Deus, se com sinceridade celebramos as festas de Deus; porque é um sacrifício muito grato a Deus a aflição dos pecados como disse o Salmista: “O espírito atribulado é um sacrifício para Deus”. Nossos pecados antigos foram apagados ao receber o batismo; mas depois de recebido cometemos muitíssimos, porém não podemos voltar a nos lavar com sua água.
Posto que manchamos nossa vida depois de recebido o batismo, batizemos com lágrimas nossa consciência, para que, voltando à nossa pátria por caminho distinto do que levamos, nós que nos separamos dele pelo atraídos pelos bens terrenos voltemos a ele cheio de amargura pelos males que cometemos, com o auxílio de Nosso Senhor Jesus Cristo."
são Gregório Magno
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Relato desconcertante
Diante de Jesus pode-se adotar atitudes muito diferentes. O relato dos magos nos fala da reação de três grupos de pessoas. Pagãos que o procuram, guiados pela pequena luz de uma estrela. Os representantes da religião do Templo, que permanecem indiferentes. O poderoso rei Herodes que somente vê nele um perigo.
Os magos não pertencem ao povo eleito. Não conhecem o Deus vivo de Israel. Não sabemos de sua religião nem de seu povo de origem. Somente que vivem atentos ao mistério que está presente no cosmos. Seu coração busca a verdade.
Em algum momento, crêem ver uma pequena luz que aponta para um Salvador. Necessitam saber quem é e onde está. Rapidamente se põem a caminho. Não conhecem o itinerário exato que deverão seguir, porém, em seu interior, arde a esperança de encontrar uma Luz para o mundo.
A chegada deles à cidade santa de Jerusalém provoca um choque geral. Convocado por Herodes, se reúne o grande Conselho dos "sumos sacerdotes e escribas do povo". Sua atuação é decepcionante. São os guardiões da verdadeira religião, porém não buscam a verdade. Representam o Deus do Templo, porém vivem surdos ao seu chamado.
Sua segurança religiosa os cega. Sabem onde há de nascer o Messias, porém nenhum deles se dirigirá a Belém. Dedicam-se a dar culto a Deus, porém não suspeitam que seu mistério seja maior que todas as religiões, e possui seus próprios caminhos para encontrar-se com todos seus filhos e filhas. Nunca reconhecerão Jesus.
O rei Herodes, poderoso e brutal, somente vê em Jesus uma ameaça ao seu poder e crueldade. Fará tudo que for possível para eliminá-lo. A partir do poder opressor somente se pode "crucificar" a quem traz libertação.
Enquanto isso, os magos prosseguem sua busca. Não caem de joelhos perante Herodes: não encontram nele nada digno de adoração. Não entram no grandioso Templo de Jerusalém: o acesso lhes é proibido. A pequena luz da estrela os atrai para o pequeno povoado de Belém, distante de todo centro de poder.
Ao chegar, a única coisa que veem é o "menino com Maria, sua mãe". Nada mais. Um menino sem esplendor nem poder algum. Uma vida frágil que necessita do cuidado de uma mãe. É suficiente para despertar nos magos a adoração.
O relato é desconcertante. A este Deus, escondido na fragilidade humana, não o encontram os que vivem instalados no poder ou fechados na segurança religiosa. Revela-se àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano na ternura e na pobreza da vida.
José A. Pagola

SEGUNDA HOMILIA
Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes...
Essas são as únicas palavras, bem curtas, pelas quais Mateus fala do Natal. É pouco! De fato, Mateus parece interessar-se muito pouco ao acontecimento enquanto tal, diferentemente de Lucas. Ao invés, Mateus busca, manifestamente, dar a seus leitores o "significado" deste nascimento. E ele nos fornece este significado na narrativa dos magos... que ele desenvolveu extremamente, e que, se prestarmos atenção, se apresenta como uma espécie de introdução a todo o evangelho segundo são Mateus.
... eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: "Onde está o rei dos judeus, que  acaba de nascer?"
Mateus aproxima, como dois elementos explosivos, os dois títulos: o rei Herodes... o rei dos judeus... Esta pergunta, que uns estrangeiros iam repetindo pelas estreitas ruas de Jerusalém, devia soar aos ouvidos dos judeus como um cruel sarcasmo. Compreende-se que ela disturbava o suspeitoso Herodes. Sabemos, pela história, que ele passou toda sua vida com medo de perder seu poder, e que ele via complôs por todos os lados, passando sua vida somente em "fortalezas", mandando matar seus três filhos, sua sogra e, inclusive, sua mulher. Somente por "história".
Mas o significado que Mateus dá a esse título de "Rei dos judeus" é muito mais profundo; o "Reino dos céus" será um de seus temas favoritos. Mateus, desde o início, anuncia o Rei desse Reino. Desde esta primeira página de seu evangelho, há uma coroa real em disputa: quem é, realmente, o "rei" dos judeus? Herodes, o governante poderoso, assassino e violento? Ou antes, Jesus, esse pequeno, fraco, desarmado, que morrerá vítima inocente? É na última página de seu evangelho, de acordo com um procedimento de inclusão literária muito habitual na literatura semítica, que Mateus dará novamente esse título a Jesus de "rei dos judeus". "Salve, rei dos judeus!" dirão os soldados (Mt. 27,29). "Este é o rei dos judeus" fará escrever Pilatos acima da cabeça de Jesus crucificado, para indicar o "motivo de sua condenação" (Mt. 27,37). "Se é o rei dos judeus, que ele desça da cruz" se desatarão a rir todos os escribas e grandes sacerdotes (Mt. 27,37).
Desde o seu nascimento, nos sugere Mateus, Jesus não passa de um rei humilde, imagem do "Servo sofredor" de Isaías, esse "teu rei vem a ti, manso e montado num jumento" (Mt. 21,5) para o seu triunfo passageiro dos ramos, este rei que não veio "para ser servido, mas para servir" (Mt. 20,28), e que pedirá a seus amigos de "não dominar, mas se fazer servidores" (Mt. 20,25-26). A realeza deste rei não é deste mundo, ela não se assemelha em nada àquela de Herodes: ela não se revela a não ser, paradoxalmente, na sua Paixão. O que queremos quando repetimos essas palavras em nossa oração: "Venha a nós o vosso Reino!"... "que convosco vive e reina para sempre".
Nós vimos a sua estrela no Oriente...
A Igreja coloca junto, hoje, desta narrativa da Epifania, um texto de Isaías escolhido entre os inumeráveis textos bíblicos que anunciavam a vinda do Messias como uma "luz". "De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do SENHOR te ilumina. Sim, a escuridão cobre a terra, as trevas cobrem os povos mas sobre ti brilha o SENHOR, sobre ti aparece sua glória. As nações caminharão à tua luz, os reis, ao brilho do teu esplendor" (Is. 60,1-3). Recordamos desta luz messiânica cantada no tempo do Advento e na missa da noite de Natal: "O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu. Pois nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado" (Is. 9,1.5).
Há no tema da estrela todo um significado, que são Pedro explicitará quando falará da fé como "levantar-se a estrela da manhã em vossos corações" (2Pd. 1,19). Esta estrela representa a luz de Deus, a graça de Deus, a ação de Deus no coração e espírito de todo ser humano, e que guia todo homem para o Cristo. Sim, Deus via com amor os magos pagãos que caminhavam para Jesus. Em minha vida, há também uma graça que me guia em direção a Jesus. Eu tenho coragem de segui-la até onde ela me conduz?
... e viemos prostrar-nos diante dele.
"Prostrar-se!" Este verbo, utilizado três vezes nesta passagem por Mateus, indica a atitude profunda desses magos pagãos. Eles vêm para "adorar".
E eu? Prostro-me às vezes? Diante do quê? Diante de quem? Que significado dou à minha prostração no momento da elevação durante a missa? Os jovens, atualmente, reencontram este grande gesto da prostração, onde o homem, reconhecendo a sua pequenez, se esparrama completamente pelo solo numa adoração com todo o seu ser.
Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer.
No coração da narrativa da Epifania, Mateus propõe duas "atitudes", que tornaremos a encontrar constantemente ao longo de seu evangelho:
De um lado, a "recusa" dos chefes políticos e religiosos judeus. Eles deveriam ser os primeiros a reconhecer o Messias. Ora, o que eles fazem? Eles "têm medo", eles "se inquietam". Eles não se movem! Eles vão procurar, desde o início, matar Jesus. Acreditamos já ouvir o grande grito de tristeza que Jesus lançará sobre Jerusalém: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos como uma galinha reúne seus pintainhos debaixo das asas, mas não quisestes!" (Mt. 23,27.37).
Doutro lado, em contraste, "a acolhida" feita por esses magos pagãos. Menos preparados, entretanto, para reconhecer o Messias, são eles que o procuram, que se movem, e que, longe de "se inquietar", experimentam "uma grande alegria". Acreditamos já poder ouvir a própria conclusão do evangelho de Mateus: "Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações..." (Mt. 28,19).
De fato, esta passagem do evangelho era destinada, nos primeiros séculos, a tentar explicar aos cristãos de origem judaica (é a eles que se endereçava Mateus) porque a Igreja se encontrava composta, em sua maioria, por cristãos de origem pagã, sendo que Deus havia se envolvido tão fortemente com Israel. Mateus mostra, em Jesus, o Salvador esperado, que vem para todo homem: e o "novo Israel" é composto por todos aqueles que, judeus ou pagãos, "se prostram" diante de Jesus. Isto foi já anunciado por todas as profecias "universalistas": Jerusalém devia tornar-se a capital de todos os povos. "Multidão de camelos te invade, dromedários de Madiã e de Efá, de Sabá trazem ouro e incenso, anunciando os louvores do SENHOR" (Is. 60,6). Em Israel, se recordava desta rainha de Sabá, vinda de longe, que subiu a Jerusalém para encontrar Salomão [gravura ao lado]. O Salmo 71, cantado na Epifania, retoma esse mesmo tema de abertura: "Os reis de Társis e das ilhas hão de vir e oferecer-lhe seus presentes". E o mesmo Mateus, tornará a dizer em seu evangelho que os povos "virão do oriente e do ocidente e tomarão lugar à mesa no Reino dos Céus, junto com Abraão, Isaac e Jacó" (Mt. 8,11).
Certamente, os "magos" representam todos os pagãos (e todos os incrédulos) de todos os tempos. E nessas palavras não colocamos algum sentido pejorativo, ao contrário! Eles são numerosos entre os nossos amigos, que são perfeitamente sinceros em suas convicções, que possuem uma vida correta, têm o sentido de justiça e do serviço aos outros, que têm uma vida familiar exemplar, e executam perfeitamente suas responsabilidades profissionais. Entretanto, eles não conhecem Jesus Cristo, no sentido forte. A Epifania é a festa de todos aqueles que não conhecem Jesus, de todos aqueles cuja fé é diferente da nossa, e que Deus ama, e que Deus ilumina, e que Deus atrai a ele pela sua graça invisível. Mas nós, como os julgamos?
... pois assim foi escrito pelo profeta: "E tu Belém, terra de Judá... de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo".
Por que, digam-me, a estrela não conduziu os magos, já que era o caso, diretamente a Belém, junto a Jesus? Por que esse desvio por Jerusalém, pelos "escribas e os sacerdotes"? Porque Deus é fiel às suas promessas e, se a salvação é oferta a todos, ele vem por intermédio dos judeus (Romanos 9).
Esse desvio por Jerusalém tem um significado, ele também. É que não se pode fazer  a economia da "Palavra de Deus", da "Escritura", senão por um encontro explícito com Cristo. E nós? Meditamos incansavelmente a Palavra? Os "escritos"?
Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes... retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.
O "culto" é uma das funções essenciais da Igreja: o verdadeiro culto é aquele de "consagrar a Deus o fruto do trabalho do homem e da terra", e portanto, finalmente, todos os valores dos quais vivem as civilizações. O encontro com Cristo transforma uma vida: uma outra estrada se abre...
Que boa notícia, Senhor!
Noël Quesson
"Parole de Dieu pour Chaque Dimanche"
tradução de Telmo José Amaral de Figueiredo
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A Epifania é uma solenidade que teve origem na África, mais exatamente no Egito, e era uma festa pagã durante a qual se celebrava a vitória da luz sobre as trevas. A liturgia cristã retomou este tema e o propõe para nossa meditação, na primeira leitura e no Evangelho. Jesus é apresentado como a luz que atrai para si todos os povos. A segunda leitura nos ensina o que acontecerá no mundo quando os homens escolherem essa luz: tornar-se-ão um único povo. Ao comentarmos a primeira leitura do dia de Natal, falamos dos dramáticos acontecimentos que, 587 anos antes de Cristo, provocaram a destruição de Jerusalém. Essa cidade humilhada, reduzida a um montão de reinas, parece, aos olhos do profeta, uma viúva desolada, sem seu marido, abandonada pelos filhos que foram deportados para uma terra estranha. O sonho do profeta se realizou quando sobre esta cidade começou a brilhar a luz de Cristo. A partir daquele dia ela se tornou uma jovem esposa, para a qual se voltam todos os povos.
A quem representa esta cidade? A Igreja. É nela que brilha a luz do Messias. Se observarmos a situação das nossas comunidades cristãs, constataremos, talvez, que nelas há muita confusão, muitas discórdias, muita inveja... Às vezes se assemelham de fato a Jerusalém, velha e decadente. Embora marcadas por deficiências e defeitos, as nossas comunidades continuam sendo "jovens lindas", resplandecentes de luz e continuarão sendo atraentes em cada uma delas, não obstante tudo, continua a brilhar o sol: Cristo. Prestemos atenção aos raios da roda de uma bicicleta: quanto mais se aproximam do eixo, do centro, mais se juntam um ao outro, mais se unem, não é verdade? Assim também as nações, que parecem tão distantes, pela língua, pela mentalidade, pela cultura, pelos costumes, se deixarem atrair pela luz que é Cristo, acabam se aproximando e se entendendo entre si.
Os magos representam os homens do mundo inteiro, que se deixam guiar pela mensagem de paz e de amor de Cristo. Eles são a figura da Igreja, formada por povos der todas as raças, tribos, línguas, nações. Em nossos dias, como no tempo de Jesus, diante da estrela, os homens tomam posições diferentes. Há os que, como os magos, se ajoelham, isto é, reconhecem nele a luz do mundo e a seguem; há outros que ficam indiferentes e, por fim, há outros que procuram apagar esta luz. todos contemplaram a mesma realidade: um menino recém nascido; as escolhas, porém, foram e continuam sendo diferentes. Quem está em condições de reconhecê-lo? Aqueles que se deixam iluminar pelas Escrituras que nos falam dele.

SEGUNDA HOMILIA
A solenidade da manifestação do Senhor ou Epifania conclui o tempo de Natal. É uma festa onde o mundo nas pessoas dos pastores e dos reis magos acolhem o Menino Deus. Para percebermos todo o significado desta festa convém fazer um paralelo entre o ciclo de Natal e o ciclo da Páscoa. Em ambos os ciclos está em jogo a vida. No ciclo de Páscoa vemos a vida que renasce na ressurreição do Senhor. Esta vida, por sua vez fecundada pelo Espírito de Pentecostes, desenvolve-se e produz frutos através dos domingos do tempo comum. No ciclo de Natal temos algo de semelhante. Natal é a festa da vida, pois é o Menino que nasce para que todos tenham vida. Mas não basta que nasça a vida. É preciso que ela se manifeste. É o que vivenciamos na celebração da festa da Epifania, a manifestação do Senhor. Não basta que o Senhor nasça. É preciso que ele se manifeste. Temos assim as festas da manifestação do Senhor. Manifestação aos gentios, representados pelos magos, manifestação no Batismo como Filho de Deus. Manifestação pelo primeiro milagre nas bodas de Caná. E impelido pelo Espírito, o Senhor inicia sua missão messiânica. O que importa é que Cristo não nasça apenas em cada solenidade do Natal. É preciso que ele se manifeste através do testemunho dos cristãos.
Esta manifestação é expressa através do símbolo da estrela. Seguindo a estrela, os magos encontram o lugar onde se encontrava o Salvador com Maria e José. E voltaram às suas regiões por outro caminho. Quem encontra Jesus Cristo muda de caminho. A Palavra de Deus, os sacramentos, o magistério da Igreja, uma boa palavra do sacerdote ou de pessoas amigas, os acontecimentos da vida, manifestam a presença de Deus, como a estrela. Devemos estar atentos para receber a presença da estrela. E mais. Somos chamados a sermos estrelas, que vão indicando o caminho ao próximo para que ele encontre o Messias Salvador. Há muitas maneiras de sermos estas estrelas, dando testemunho de Jesus Cristo. Isso na família, na Igreja e na sociedade. Que na festa da Epifania nos deixemos guiar pela estrela, iluminar por ela, e poderemos ser luz para os outros.
"Eis que veio o Senhor dos senhores, em suas mãos o poder
e a realeza" (Ml. 3,1; 1Cr. 19,12)
Celebramos neste domingo a festa da Epifania. O que é a Epifania?
É a manifestação do Salvador a todos os povos e Nações. A manifestação de Deus na pessoa frágil do menino Jesus.
Todos nós somos convidados a nos sentirmos como os Reis Magos, peregrinos na fé, junto com toda a humanidade que enfrenta o cansaço da viagem longa, na busca contínua de um sentido para a vida e para as contradições e percalços da caminhada. A fragilidade de Jesus nos recorda os milhares de crianças frágeis e abandonadas pela crueldade desta sociedade hedonista em que vivemos.
Celebramos a utopia do autor bíblico que nos ajuda a atingir o objetivo da esperança cristã, construindo uma parceria com Deus Nosso Senhor.
As Sagradas Escrituras nos ensinam a caminhar, a plantar as sementes de nossa fé, vingando águas mais profundas, construindo uma parceria com o Senhor da Vida e a Humanidade.
E essa parceria entre o Senhor e a humanidade é a festa da manifestação deste Deus que nos convida a viver a vocação “universalista” cantada pelo livro de Isaías na primeira leitura: Jerusalém é agora o centro para o qual convergem as caravanas do mundo inteiro. Esta visão profética, concebida para a restauração da cidade santa depois do Exílio, verifica-se plenamente quando os magos do Oriente, conduzidos por um astro desconhecido, se apresentam na cidade santa, procurando o Messias nascido na cidade de Davi, trazendo-lhe as riquezas das quais falava a visão de Isaías: ouro, incenso e mirra.
Já a segunda leitura (cf. Ef. 3,2-3a.5-6), acentuando a universalidade da encarnação para crentes e incruéis, fala de um tema que permeia toda a Carta aos Efésios: a participação de judeus e pagãos na revelação de Deus em Jesus Cristo. É assim, pois, a manifestação de Deus para todos, não apenas para o povo hebreu. Ele veio para nos salvar, é a “Luz para iluminar as nações” e a “glória de Israel seu povo”; ou seja, pelo reconhecimento que o povo hebreu deveria ter testemunhado e proclamado, o Messias seria reconhecido por todo o mundo.
O escritor sagrado usa de sinais: a estrela (cf. Mt. 2,1-12). Herodes teve a palavra dos magos: os judeus tiveram as Escrituras. Deus nos fala de muitas maneiras. O importante é pôr-se em busca e essa procura pode durar toda uma vida.
Nesse contexto, a humanidade está representada pelos magos do Evangelho, todos os povos da terra que caminham ao encontro do grande desejo de seu coração: o próprio Deus. Ele vem até nós em Jesus, mas temos de dar também nossa ajuda, o nosso passo.
Essa busca é, muitas vezes, difícil, cheia de armadilhas, de incertezas, até de desvios. Há momentos também em que não vemos mais a “estrela”, não vemos os sinais de Deus e ficamos perdidos. Não podemos, contudo, desistir da grande aventura da vida. É preciso seguir em frente, acreditando que “depois da tempestade vem a bonança”, como reza o sábio dito popular.
A Epifania é a festa em que Deus nos mostra a sua face. Deus nos surpreende mostrando-nos a sua própria face. Em Jesus, é Deus que está presente entre nós para nos guiar na travessia da vida, para reacender em nós o desejo do céu, das coisas do alto.
Jesus pode nos falar das coisas do alto porque Ele veio do sonho do Pai Eterno. Aqui na terra, Jesus vai nos mostrar a sua face, vai nos mostrar como é o Céu. Nesta solenidade de hoje, Jesus se revela, mostra a sua face a todos os povos, na figura dos Reis que vão adorá-lo, para que todos andem no clarão dessa luz. Assim se realizarão os maiores e mais lídimos ideais da vida: a paz, a comunhão, a alegria.
Todos nós somos convidados a sermos uma comunidade-testemunha. Israel se tornou, de fato, o centro do mundo, porém não para si mesmo, mas para que nele brilhasse a luz para todos. Aos poucos, ficará claro quais os filhos que assumem verdadeiramente esta função, unindo-se ao Menino do presépio. O mesmo vale ainda hoje. O universalismo de Cristo não resplandece nas organizações internacionais, mas no testemunho do Espírito de Cristo, nas concretas comunidades de amor fraterno.
Jesus de Nazaré, nascido em Belém, é a manifestação de Deus a todos e a cada pessoa humana em todos os lugares e em todos os tempos. Nenhum povo da terra está desprovido do sentimento religioso. Todos querem ver, apalpar, escutar os seus deuses. E, sobretudo, sentir-se protegidos por eles.
Hoje temos a revelação do Deus único e verdadeiro. Em forma conhecida de todos: a forma de um homem, homem e Deus ao mesmo tempo. Realmente, Jesus é o Emanuel, (Is. 8,8.10; Mt. 1,23), isto é, o Deus conosco. Todos os milagres, e não só o nascimento, realizados por Jesus foram manifestações, particularmente a sua transfiguração (Mt. 17,1-8). E o que fazemos hoje é manifestar a todo o mundo o nascimento do Senhor.
Os Magos estão repletos de simbolismos e o primeiro é o da universalidade da salvação. O segundo simbolismo é a missionariedade do Evangelho pregado. A universalidade da salvação veio para todos e, em vista disso, todo cristão deve ser um missionário.
No início da Igreja, a idéia dominante era que Cristo viera para poucos, para os chamados “santos”. Ao contrário, Jesus veio para todos, prosélitos, judeus, pagãos, indistintamente. Por isso, São Paulo, na segunda leitura de hoje, nos ensina que “os pagãos são co-herdeiros e membros de um mesmo corpo, co-participantes das promessas em Cristo Jesus, mediante o Evangelho” (Ef 3,6).
Em contraponto, os batizados devem assumir a grave obrigação de levar a todos a mensagem cristã. A missionariedade da Igreja faz parte da própria natureza da Igreja. Ver os povos prostrados diante do Presépio é contemplar os cristãos saindo do Presépio em direção aos quatros cantos do mundo.
Jesus é apresentado como “a luz dos povos” (Lc. 2,32), é luz para todos.
Jesus não excluiu ninguém. Os Magos não foram a Belém apenas para “ver” um menino. Eles foram para adorar, conforme disseram a Herodes (Mt. 2,22). E não só adoraram, caíram por terra, reconheceram que o Menino era divino, que o Menino era o Filho de Deus que se manifestou, assim, a eles, da mesma forma como se manifestará a quantos o procurarem e souberem encontrá-Lo na simplicidade e na pobreza. Os Magos nos ensinaram que Jesus não mora nos palácios de Herodes, mas na imagem de cada irmão oprimido, sofredor, descriminado pelos preconceitos fundados na soberba, na ambição, no egoísmo. Jesus é a revelação da inocência, da pureza, da caridade.
A Epifania, pela presença da estrela, é a festa da luz. Luz que é salvação no Cristo presente-presença. Com o nascimento de Jesus, a cidade terrena encheu-se de salvação, como uma sala se ilumina ao acender da lâmpada.
A salvação trazida por Jesus é um longo caminho a ser percorrido. Andaram os Magos, andou a estrela. A luz da estrela pousou sobre a casa de Jesus. Toda a salvação se encontra na pessoa de Jesus: “Em nenhum outro há salvação” (At. 4,12). Por isso, ela deve ser procurada.
Somos convocados a uma comunhão universal com todos os povos, com os diferentes feitos de adorar a Deus e buscar a libertação. A estrela indica um caminho alternativo, um caminho que não passa pelo conhecimento dos grandes, mas pelo discernimento dos pequenos e fracos, o caminho que nos leva ao Menino de Belém.
Epifania é a festa da disponibilidade. Epifania é a festa da possibilidade de conhecer a Deus.
Os pastores – gente simples do povo – reconheceram o Menino Deus e voltaram ao trabalho “glorificando e louvando a Deus” (Lc. 2,20). Os Magos – gente sábia – “encheram de grande alegria e, caindo por terra, o adoraram” (Mt. 2,10-11).
Epifania, festa de luz, festa da salvação universal. Assim é preciso pôr-se em contínua caminhada na busca do verdadeiro encontro com Jesus. Precisamos descobrir a estrela que nos guie de forma segura ao longo do ano na busca do rosto sereno e radioso do Senhor.
padre Wagner Augusto Portugal


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