.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

6º DOMINGO TEMPO COMUM

6º DOMINGO TEMPO COMUM

16 de Fevereiro de 2014

Evangelho - Mt 5,17-37

"Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal."

Não matarás...

RECONCILIAR-SE COM O IRMÃO - José Salviano



===========================

            Temos aqui um texto do Evangelho de Mateus, recheado de lições muito importantes para a nossa vida e principalmente para a nossa salvação. Diante de tanta riqueza de ensinamentos em um só trecho, podemos ter duas atitudes: Escolher uma ou algumas verdades ditas por Jesus e explicá-las, ou tentar explicar todas elas de modo resumido. Continua...


           
===========================
“NÃO VIM PARA ABOLIR A LEI MAS PARA DAR-LHES  PLENO CUMPRIMENTO.” Olívia Coutinho

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM

DIA 16 De Fevereiro de 2014

Evangelho de  Mt 5,17-37

O  ponto determinante de todos os  ensinamentos de Jesus,  é o amor!  Jesus era movido pelo o amor, por onde Ele passava  exalava amor, todas  as suas ações se  convergiam  para o bem maior: a vida!
Não pode haver sintonia entre o homem e Deus  sem a vivencia do amor, e o  que  Jesus nos pede, é que amemos uns aos outros com o mesmo amor que Deus  infundiu em nossos corações, um amor que só irá  aflorar, se nos libertarmos dos maus  pensamentos !
O amor, quando vivido na prática, gera vida, nos une como irmãos, nos torna testemunhas vivas  do amor de Deus no mundo, nos possibilita  viver  a nossa humanidade de forma  divina!
No evangelho de hoje, Jesus nos ensina  o caminho que devemos percorrer, se quisermos de fato, permanecer Nele e Ele em nós,  que é  o caminho do amor.
O texto nos alerta sobre o perigo de nos deixar contaminar pela mentalidade farisaica, ainda presente nos dias de hoje, até mesmo dentro de instituições  religiosas.
O legalismo  é um instrumento de alienação e opressão, que tem como maior objetivo desviar a atenção do povo. Enquanto o povo está voltado para o  cumprimento de tantas leis, os que detêm o   poder, sentem-se  livres para praticarem seus atos contrários ao projeto de Deus, um projeto que tem como prioridade a vida em toda sua dimensão.
As leis de organização social e religiosas só têm validade se forem elaboradas em favor da vida. E Jesus veio para promover a justiça, libertar e fazer desabrochar a vida. Em todos os seus ensinamentos Jesus sempre  deixou claro que a vida  deve estar  acima de toda e qualquer  lei!
 Jesus diz: “Se a vossa justiça, não for maior que a justiça dos mestres da lei  e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus.” Ao contrário do que muitos daquela época pesavam, Jesus não veio abolir as leis, Ele veio aprimorá-las. A sua interpretação dos mandamentos, torna explícita a intenção de Deus, que quis, não somente deixar mandamentos, como também  nos oferecer diretrizes precisas e importantes para a nossa caminhada de santidade.  
No pensamento, está a raiz de todo pecado, e Jesus  vem nos ensinar como cortar este mal pela raiz. O antigo Testamento diz:  “não matarás”, Jesus diz: "amem-se uns aos outros." O amor  é a arma que bloqueia toda ocasião de pecado. Quem ama não mata, não escandaliza o outro, preserva a família, perdoa, respeita o que é do outro, enfim, faz a vontade de Deus.
“Amem-se uns aos outros” Jesus nos deixa este  mandamento novo, no sentido de destacar  a importância do amor na vida de cada um de nós,  o que não se trata de uma recomendação e muito  menos de uma lei imposta por Ele , mas sim, de uma condição para que Ele possa estar em nós e nós Nele.  Este  mandamento novo, supera todos os outros  mandamentos, ou seja, quem ama, pratica a justiça, portanto, cumpre os demais mandamentos.O mandamento do amor é um mandamento sempre novo, pois o amor é atual, não entra em decadência.
O reino de Deus não se espalha através de cumprimento de normas, de rituais e nem com propagandas, o Reino de Deus  se espalha pelo contagio do amor, pois amor é “contagioso”, pega de um para o outro!
A nossa identidade, o que nos distingue como cristão, é a nossa vivencia no amor!
 Onde não há amor não há vida cristã.
O nosso amor pelo outro, deve ser um amor que responda ao amor de Deus em nós!
Se somos filhos do amor, amor devemos ser!

FIQUE NA PAZ DE JESUS!! – Olívia 

===========================
Evangelhos Dominicais Comentados

16/fevereiro/2014 – 6o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Mt 5, 17-37)

COMENTÁRIO

Hoje Jesus nos fala de maneira bem clara porque veio. E, de forma mais clara ainda, nos dá uma verdadeira lição de cidadania ao traduzir o verdadeiro sentido das leis de Deus. Leis que ele faz questão de frisar que não veio para mudá-las em uma única vírgula, mas sim para colocá-las em prática.


Jesus nos diz que os mandamentos de Deus não como as leis dos homens. As leis humanas oprimem, condenam e, de modo geral, favorecem apenas à uma minoria da população. São leis brandas para quem usa colarinho branco e perversas para com os menos abastados.

As leis de Deus devem ser vistas como um convite de vida para a humanidade. Nelas encontramos uma proposta de amor que quer conduzir a todos seus filhos a uma vida plena na justiça, no amor e na fraternidade.

Deus nos deixa livres para escolher qual caminho seguir. Podemos escolher entre o bem e o mal. Para ajudar-nos na escolha, para nos dar uma diretriz, Deus propõe a lei. Mas, como interpretar as leis?

Não só no tempo de Jesus, ainda hoje, as leis de Deus são interpretadas ao pé da letra, como se fossem meras palavras. Para Deus, não matar não significa apenas não tirar a vida de ninguém. Neste Evangelho Jesus nos ensina a interpretar as leis conforme o Espírito do Pai.

Para Deus, mata quem calunia, quem desvia verbas da merenda escolar, quem faz promessas no palanque político e depois legisla em causa própria e não demonstra preocupação com os milhares de pais de família que milagrosamente tentam sobreviver com um mísero salário mínimo.

Para Deus, matar vai muito além de um bárbaro assassinato. As leis foram feitas para colocar ordem e para servir. Portanto, uma lei que oprime, que não liberta, certamente não é uma lei completa nem uma boa lei.

A nós, cabe interpretar a lei pelo Amor que Cristo nos deu a conhecer. A moral cristã deve levar-nos a colocar a lei a serviço do Amor. Seremos eternos “foras da lei” enquanto não descobrirmos um modo para realizar o sumo bem que Deus deseja através da sua lei.

Resumindo, hoje Jesus nos ensina que para sermos justos devemos mexer com as estruturas da sociedade, ouvindo a voz da nossa própria consciência e orientando-nos pelo amor que Ele nos ensinou. Só então poderemos ver melhor o que os mandamentos exigem de nós na vivência do dia a dia.

(             )


===========================
Não vim para abolir a Lei, mas para dar-lhe pleno cumprimento. Padre Queiroz

===========================

QUARTA-FEIRA, 14 DE MARÇO
Mt 5,17-19

Não vim para abolir a Lei, mas para dar-lhe pleno cumprimento.
Neste Evangelho, Jesus nos fala a respeito do valor e da importância das Leis do Antigo Testamento para nós hoje.
O “pleno cumprimento” da Lei consiste principalmente na maneira correta de obediência. Obedecer corretamente a uma lei é procurar descobrir e praticar a intenção do legislador, o que ele tinha em mente ao promulgá-la. É o que chamamos espírito da lei. Isso vai muito além da obediência literal, que só vê o que a lei diz em si, sem considerar o seu sentido mais profundo.
No caso da Bíblia, as leis do Antigo e do Novo Testamento vieram do mesmo autor, que é Deus, nosso Pai amoroso. Suas palavras são as de um Pai que só quer o bem dos filhos e filhas. Também nós devemos receber essas leis com amor de filhos e filhas. “Não és mais escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro; tudo isso por graça de Deus” (Ef 4,7). Somos de dentro da casa de Deus, somos sua família. Assim que devemos ver as Leis dele.
Quando amamos uma pessoa, nós lemos no coração dela o que suas palavras não conseguem expressar. Precisamos fazer o mesmo com Deus. Jesus fez isso, em relação às Leis do Antigo Testamento.
As palavras do Evangelho de hoje são o começo de um discurso de Jesus, no qual ele apresenta cinco exemplos, para mostrar como que as Leis do Antigo Testamento devem ser vistas por nós hoje:
1) “Não matarás.” Deus está dizendo que não quer que façamos o mal ao próximo, e sim o bem. Isso começa com pequenos gestos, como tratar o nosso irmão com raiva.
2) “Não cometer adultério.” No fundo, é respeitar a família, e não desrespeitar o matrimônio nem com um olhar.
3) “Não jurarás falso.”. No fundo, é ser verdadeiro, falar sempre a verdade e nunca enganar ninguém e nunca colocar Deus como nossa testemunha. “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não”.
4) “Olho por olho, dente por dente.” Significa não se deixar levar pelo espírito de vingança ou pela ganância. Se alguém nos tomar a capa, vamos entregar-lhe também a túnica. Se alguém nos der um tapa, vamos virar-lhe a outra face.
5) “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.” Com esta Lei, Moisés cortou noventa por cento do ódio que havia entre as pessoas, e introduziu um controle. No fundo, o que Deus queria era que amássemos a todos, até os nossos inimigos. “Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre juntos e injustos” (Mt 5,45).
E Jesus termina o discurso com uma frase chave que resume tudo: “Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Aí está a grande meta da nossa vida: que sejamos parecidos com Deus Pai, pois o filho se parece com o pai.
Ser cristão é obedecer aos mandamentos de Deus. “Isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça ainda, e cada vez mais, em conhecimento e em toda percepção, para discernirdes o que é melhor. Assim estareis puros e sem nenhuma culpa para o dia de Cristo...” (Fl 1,9-10).
Ser santo consiste em amar a Deus e amar o próximo como Deus ama. O amor vem de dentro, o amor tudo transforma. Ele brota da nossa liberdade, não de leis externas. Jesus nos libertou da lei. Mas é uma libertação que nos leva a viver para os outros. “Ame, e faça o que você quiser... Se a verdade nos faz livres, o amor nos faz escravos” (Santo Agostinho).
A propaganda cria em nós o desejo de comprar coisas, de substituir a geladeira, o fogão, a máquina de lavar... A necessidade muitas vezes é ilusória, tornando-nos escravos do dinheiro e das lojas que vendem a prestação. As lojas não querem vender à vista, porque o lucro, ou melhor, o roubo delas é menor. Os juros embutidos nas prestações são exorbitantes, mas o consumidor dificilmente percebe isso. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
Certa vez, um homem encontrou dentro de um baú dos seus tataravôs, entre as bugigangas, uma moeda. Estava escurecida e desgastada pelo tempo. Ninguém da família conhecia o seu valor.
O homem então levou a moeda a um economista. Este, após examiná-la, a desprezou, dizendo que não valia mais nada.
Não conformado, o homem dirigiu-se a um especialista em raridades. Quando o especialista a viu, sua feição se mudou. Após examiná-la, disse ao dono da moeda ser dono de uma peça de imenso valor, uma rara moeda de ouro, na verdade, uma peça única.
Economia e vida. As pessoas são como essa moeda. Elas não podem ser avaliadas apenas pelo seu valor econômico, isto é, pela capacidade de trabalhar e de produzir. Toda pessoa é uma peça rara, única, de valor infinito.
Certa vez, um homem decidiu seguir Jesus Cristo para valer mesmo. Ele praticava caridade, ajudava todo mundo, dizias boas palavras, fazia o bem de manhã até a noite. O grande desejo dele era ir para o céu. Ninguém tinha dúvida de que ela ia mesmo para o céu.
Um dia, ele morreu, chegou à porta do céu e aquele que o recebeu disse que seu nome não constava na lista. Ele obedeceu direitinho e foi logo para o inferno.
Dois dias depois, o capeta foi lá à porta do céu e reclamou: “Vocês me mandaram um que está causando a maior desordem e anarquia. Está um caos lá no inferno. Está todo mundo se falando, um olhando nos olhos do outro, se abraçando e querendo bem, perdoando e falando de amor. Trate de tirá-lo de lá o mais rápido possível”. O porteiro consultou a lista e viu que houve um engano.
Vamos viver tão bem a nossa fé, sendo caridosos fraternos e dando bons exemplos que, mesmo se porventura houver um engano lá na porta do céu, nós não o perderemos. Faça de tudo para o capeta não gostar de você.
Onde há amor, não há necessidade de lei. Maria Santíssima amava muito a Deus, e lhe obedecia espontaneamente em tudo.
Não vim para abolir a Lei, mas para dar-lhe pleno cumprimento.

Padre Queiroz
===========================

QUEM DESOBEDECER UM SÓ DESSES MANDAMENTOS...
Jesus realiza plenamente a Lei a partir da centralidade do mandamento do amor

Em primeiro lugar, nosso texto visa eliminar o equívoco de que Jesus tivesse vindo para eliminar a Escritura. A expressão “a Lei e os Profetas” (v. 17a) não é um registro puramente jurídico, mas um modo de designar a Escritura na sua totalidade. A Lei designa o Pentateuco enquanto receptáculo do imperativo divino. Os Profetas são portadores da promessa e, enquanto tais, podem ser invocados como testemunhas do direito de Deus. Jesus realiza plenamente a Lei a partir da centralidade do mandamento do amor, pois dos dois mandamentos do amor a Deus e ao próximo dependem toda a Lei e os Profetas (cf. 22,40). A Torá é integralmente respeitada e cumprida por Jesus e o deve ser para a Comunidade dos discípulos, porque recomposta sobre a exigência do amor. Nesse sentido, a Lei é pensada a partir da cristologia. É nela que a Lei encontra sua instância de validade e, em consequência, o princípio de ponderação das suas prescrições.
Carlos Alberto Contieri, sj


– “Deus não muda o Seu Plano”
Jesus Cristo não veio abolir a Lei, mas nos dar a graça de vivê-la plenamente. Ele veio pregar a Lei do Amor que está inserido nos dez mandamentos. A lei de Deus tem pleno cumprimento no Amor e é perfeita para a nossa alma e para a nossa vida. Por isso, Jesus veio confirmar tudo que está escrito: ”Não penseis que vim abolir a lei e os profetas” “vim para dar-lhe pleno cumprimento”. Deus não muda o Seu Plano, o que era, é e sempre será. Portanto não podemos ficar nos confundindo hoje com as falsas ideias de que isto e aquilo são coisas do passado, que o mundo é outro e que os valores mudaram. Se percebermos o que se passa dentro do nosso coração, veremos que nada dentro de nós mudou e que o ser humano precisa hoje como sempre dos valores que a Lei do Senhor propõe. O céu e a terra (visíveis) não acabarão até que o amor seja vivido pelos homens. Deus quer salvar o mundo através do AMOR e a prova disso é que Jesus Cristo veio entregar-se, foi crucificado, morreu, foi sepultado, mas ressuscitou por Amor. – Você é daqueles (as) que acham que certos valores já eram? – O que mudou no coração do homem? – O que significa para você a Lei do amor? – Você já consegue perceber a graça de Deus que age quando você pratica os Seus mandamentos?
Acesse o site http://www.umnovocaminho.com e leia os comentários das demais leituras da liturgia de hoje.

Se a vossa justiça não for maior
que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus,
vós não entrareis no Reino dos Céus.

A justiça do Reino de Deus
Qual é a justiça maior que a dos escribas e fariseus, necessária para entrar no Reino dos Céus? A justiça do Reino é formulada em seis antíteses (vv. 21-26; 27-30; 31-32; 33-37; 38-42; 43-47).
A primeira antítese (vv. 21-26) retoma a bem-aventurança da mansidão (5,4) e a exemplifica. Não só é proibido matar, como não se pode dar títulos ofensivos ao irmão. Esta primeira antítese de não matar (cf. Ex 20,3; Dt 5,7) visa não só a morte física, mas toda ofensa moral cometida contra o irmão explicitada pela tríade: raiva, imbecil e louco. A ilustração positiva desta sentença é fornecida pelas duas sentenças sobre a reconciliação. Ao homem que vai apresentar a sua oferta, Deus lhe permite lembrar não só o mal cometido contra alguém, mas de um mal que alguém cometeu contra ele. O perdão e a reconciliação são exigidos para que o homem, membro do povo de Deus, proceda como Deus.
Carlos Alberto Contieri, sj
===========================
Após ter um encontro com Cristo, o apóstolo Paulo, que também foi fariseu, compreendeu que, qualquer que busque estabelecer uma justiça com base em suas ações, por mais nobres que sejam, rejeita a justiça de Deus "Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus" ( Rm 10:3 ). O povo de Israel procurava servir a Deus, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ), e por mais que os profetas protestavam, não atinavam que estabelecer uma justiça com base em preceitos de homens é rejeitar a justiça de Deus.
"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus"
( Mt 5:20 )

Diante de uma multidão sequiosa de milagres e pão, Jesus alertou: 
“... se a vossa justiça não exceder a dos escribas efariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus" ( Mt 5:20 ).
Para compreender a declaração de Jesus, precisamos nos socorrer de outra declaração do Mestre por excelência feita a umfariseu: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ).
Os fariseus eram referência moral, ética e religiosa para o povo de Israel à época de Jesus. Aos olhos do povo os fariseus eram tidos por justos "Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade" ( Mt 23:28 ).
Em nossos dias a palavra fariseu é utilizada de modo pejorativo, sinônimo de hipocrisia, mas à época de Cristo nomeava um grupo específico de seguidores do judaísmo.
O farisaísmo era uma das mais severas seitas do judaísmo e seus seguidores lideravam um movimento para trazer o povo a ‘submeter-se’ à lei de Deus. Eles eram extremamente legalistas, formalistas e tradicionalistas.
O que há em comum entre as declarações que Jesus fez a Nicodemos, um fariseu, e à multidão que ouviu o Sermão do Monte, que pouco entendia da lei?
As declarações de Jesus demonstram que, tanto a multidão julgada como maldita pelos fariseus quanto os próprios fariseus não podiam entrar no reino dos céus.
·         O Povo - “...se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus" ( Mt 5:20 );
·         Os Fariseus - “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus ( Jo 3:3 ).
A impossibilidade de o homem se salvar é destacada nos dois versos, sendo algo comum ao mestre, juiz e fariseu Nicodemos, e à multidão que estava ao pé do monte ( Jo 3:10 ; Jo 7:49 ). Em ambas as declarações, Jesus demonstra que não importa a condição social, econômica ou cultural: está vetado a entrada do homem no reino dos céus ( Mt 5:20 ; Jo 3:5 ).
Ao revelar que Nicodemos precisava nascer de novo, Jesus demonstrou que a justiça do juiz, mestre e fariseu estava aquém da justiça exigida por Deus. Nicodemos precisava obter justiça superior, assim como os outros fariseus e a multidão.


Ora, como seguidor da lei, Nicodemos não matava ( Mt 5:21 ), não roubava, não dizia falso testemunho ( Jo 3:11), não adulterava ( Mt 5:27 ), se necessário daria a carta de divórcio ( Mt 5:31 ), não perjurava ( Mt 5:33 ), amava o próximo ( Mt 5:43 ), ou seja, fazia tudo aquilo que os Antigos ensinaram.
Do mesmo modo que Nicodemos, a multidão tinha como meta fazer tudo conforme os seus mestres ensinavam, mas Jesus demonstrou que, mesmo que fizessem conforme os escribas e fariseus ensinavam, jamais entrariam no reino dos céus.
Jesus demonstrou no Sermão do Monte que é impossível ao homem salvar-se através das suas obras. Ora, quem dentre o povo nunca ficou nervoso com o irmão? Quem nunca chamou o próximo de tolo ( Mt 5:22 )? Como controlar os impulsos do corpo e os anseios do coração e dos pensamentos ( Mt 5:28 )? Quem consegue arrancar um braço, ou um olho? Quem consegue amar o inimigo? ( Mt 5:44 ), etc.
Através do Sermão da Montanha Jesus demonstrou que tudo que o povo de Israel fazia não era superior ao que os outros povos realizavam. Eles repousavam na lei, porém, os gentios também fazem naturalmente as mesmas coisas que a lei contemplava ( Rm 2:14 ).
Diante do que Jesus propôs no Sermão da Montanha, os seus ouvintes viram a impossibilidade de se salvarem! ( Tg 2:10 ) Como obter justiça maior que a dos escribas e fariseus se é impossível fazer tudo quanto Jesus recomendou? Tanto a multidão quanto os escribas e fariseus precisavam alcançar justiça superior, mas qual justiça é superior a dos escribas e fariseus? Como alcançá-la?
Quando Jesus disse a Nicodemos que é necessário nascer de novo, o mestre fariseu também se viu envolto em uma impossibilidade: como poderia um homem voltar ao ventre materno e nascer? ( Jo 3:4 )
Após ter um encontro com Cristo, o apóstolo Paulo, que também foi fariseu, compreendeu que, qualquer que busque estabelecer uma justiça com base em suas ações, por mais nobres que sejam, rejeita a justiça de Deus "Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus" ( Rm 10:3 ).

O povo de Israel procurava servir a Deus, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ), e por mais que os profetas protestavam, não atinavam que estabelecer uma justiça com base em preceitos de homens é rejeitar a justiça de Deus.

O jovem rico é um exemplo de serviço sem entendimento, visto que desde a mocidade realizava tudo o que a lei preceituava, porém, faltava-lhe uma coisa: não tinha alcançado a justiça que excede a dos escribas e fariseus ( Mt 19:20 ).

O que ele fazia diante de Deus não passava de trapos de imundície. Tudo o que ele fazia não passava de obras de violência, ou seja, continuava culpado diante de Deus
 "Eu publicarei a tua justiça, e as tuas obras, que não te aproveitarão" ( Is 57:12 ); “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniqüidade, e obra de violência há em suas mãos” ( Is 59:6 ).

O fariseu que subiu ao templo para orar é outro exemplo esclarecedor, quando em oração agradeceu a Deus por não ser como os outros homens: roubadores, adúlteros, injustos, porém, não foi justificado por Deus ( Lc 18:14 ). Ora, ele fazia tudo quanto os Antigos prescreveram, porém, não alcançou a justiça que vem do alto.



A justiça que excede a dos escribas e fariseus é somente a justiça que vem de Deus.
Como obter justiça maior que a dos escribas e fariseus?
Ora, se para entrar no reino dos céus é necessário nascer de novo, segue-se que, em nascer de novo está a justiça que vem de Deus. Se não nascer de novo o homem não entra no reino dos céus, portanto, para obter a justiça que exceda a dos escribas e fariseus é necessário nascer de novo.
Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus”, ou seja, se não nascer de novo”: de modo nenhum entrareis no reino dos céus ( Mt 5:20 ; Jo 3:3 ).
Ao fariseu Nicodemos, Jesus recomendou nascer de novo, e à multidão que entrassem pela porta estreita. Ora, Cristo é a porta e o caminho que conduz à vida, e para entrar por ele é necessário nascer de novo ( Mt 7:13 ).
Jesus apontou a necessidade do novo nascimento porque o primeiro homem pecou ( Is 43:27 ). Desde a queda de Adão todos os homens são formados em iniqüidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 ). Todos os homens se desviaram desde a madre. Andam errados e falam mentiras desde que nascem ( Sl 58:3 ). Depois que o homem piedoso pereceu (Adão), não há entre os homens um que seja reto ( Mq 7:2 ). Todos os descendentes de Adão se desviaram e não há quem faça o bem ( Sl 14:3 ; Sl 53:3 ), visto que, mesmo sem causa alguma transgridem ( Sl 25:3 ).

Mas, para nascer de novo, primeiro o pecador precisa morrer, pois Deus determinou que a alma que pecar, esta morrerá. Para estabelecer a justiça que excede a dos escribas e fariseus é necessário a morte do transgressor, visto que a pena imposta não pode passar da pessoa do transgressor ( Ez 18:20 ). Somente é justificado dentre os descendentes de Adão aquele que morre com Cristo, visto que 
‘...aquele que está morto está justificado do pecado’ ( Rm 6:7 ).

Somente quando o homem morre com Cristo é que se dá a justiça de Deus. Somente após o velho homem ser crucificado com Cristo, Deus trás a existência o novo homem, gerado em verdadeira justiça e santidade. Após o corpo do pecado ser desfeito ( Cl 2:11 ), e sepultado com Cristo ( Cl 2:12 ), o homem é vivificado com Cristo ( Cl 2:13 ).

Através de Cristo o homem recebe um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 18:31 ; Ez 36:25 -27), pois em Cristo é circuncidado para receber vida com Deus ( Dt 30:6 ; Cl 2:11 ). Deus não somente declara o homem justo, antes ele cria o novo homem segundo a sua justiça, e o novo homem é declarado justo.

A justiça que vem do alto é imputada por meio da fé em Cristo ( Rm 10:6 ). Ela vem do alto porque não se vincula a elementos humanos tais como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, religiosidade, etc.
Conclui-se que a justiça que ultrapassa a dos escribas e fariseus decorre do novo nascimento. Enquanto os fariseus e saduceus não conseguiram ser justificados por intermédio das obras da lei, aqueles que crêem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos (criados) filhos de Deus, nascidos de semente incorruptível (da água e do Espírito), que é a palavra de Deus, e declarados justos por Deus.
Os fariseus e a multidão que seguia a Cristo jamais seriam justificados por suas próprias obras, visto que em Adão já estavam condenados, e as suas obras reprováveis por não serem feitas em Deus ( Jo 3:18- 19). Já a nova criatura, é livre da condenação estabelecida em Adão porque é Deus quem os justifica, e as suas obras são aceitáveis, pois são feitas em Deus que as preparou para que andassem nelas ( Jo 3:21 : Ef 2:10 ).
===========================


Comentário do Evangelho do VI Domingo do Tempo Comum


«Disse Jesus a seus discípulos: “Eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo. Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ´cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum. Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno”.»  (Mt. 5,20-22a.27-28.33-34a.37).

Acabamos de ouvir palavras de Jesus que fazem parte de uma coletânea de ensinamentos que os primeiros evangelizadores tinham à disposição em suas missões de anúncio, mas também como um novo “decálogo” que, a partir de Jesus deverá nortear a vida do discípulo, a fim de que o Evangelho anunciado não se transforme apenas numa proposta de emoções, sensações etc., mas uma alternativa visível, muito mais envolvente, que toca as raízes mais profundas do discípulo. Trata-se de um conjunto de seis antíteses com as quais Jesus quer evidenciar a profunda diferença que existe entre o modo comum de pensar, mesmo que fundado sobre princípios religiosos e a novidade que Ele está disposto a oferecer a cada um de nós. É uma realidade nova que nasce do coração, como já havia dito Jeremias: «porei em seus ânimos uma lei nova, não mais gravada em pedra; escreverei em seus corações... Então não será mais necessário que uns fiquem instruindo outros...» (cfr. Jer. 31,33ss); uma realidade que se implanta dentro da nossa vida e que é capaz de fazer superar a lei sem violar a lei. A lei, as regras, as normas sem dúvida alguma são importantes para a vida e a convivência de pessoas, contudo, elas tornam-se obsoletas quando a caridade entra realmente a ser parte integrante da nossa vida, quando toma conta do nosso coração e influencia todos os nossos atos. Aquele que sente a caridade pulsar dentro de si, nunca precisará que alguém lhe diga: “faça isto ou aquilo” porque o próprio coração, fascinado por Deus e que se deixou fascinar por Ele, age e pensa como o Senhor agiria e sentiria.

A caridade encanta, atrai com a sua capacidade de incluir a lei sem violar a lei. Quanto mais fraca é a relação que temos com alguém tanto mais fortes e precisas devem ser as normas que regulam esta relação, ora, isto não é errado, mas em contrapartida, carrega dentro de si um grave problema: não gera amor e nem faz escolher em favor do outro, a custa de si mesmo; o que rege é a força e a contundência das razões... mas não o amor.

O trecho do Evangelho do qual extraímos as palavras que acabamos de ler, começa assim: «Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus» e termina deste modo: «portanto, sejais perfeitos como o vosso Pai do céu é perfeito». O que Jesus nos diz não deve ser lido apenas como um imperativo, como uma outra obrigação que se soma àquela da lei. Não. O que Jesus está nos mostrando são os indícios evidentes de que a caridade começa a tomar conta do coração e o nosso “eu” está entrando no reino dos Céus, isto é, onde reina Deus que é perfeito. Caberá perguntar-se se “perfeição” significa não errar, se significa não ter defeitos, ser irrepreensível.

A resposta do Evangelho é clara: nada de tudo isto. Esta era a maneira grego-romana de entender a perfeição, ou seja: algo o quanto mais possível conforme ao ideal, que, na verdade não existe em terra a não ser na mente como reflexo das realidades divinas (é o mito de Platão, Plotino etc. e que teve influências negativas até hoje). A perfeição de Deus não consiste nisso, está nos dizendo Jesus, a perfeição consiste na capacidade de ultrapassar a “justiça” expressa nos códigos. Então o que significa perfeição?
 “Perfeição” significa, na língua usada pelo Evangelista, “maturidade”, significa chegar a realizar aquilo pelo qual uma coisa ou pessoa nasceu: ser plenamente o que se é. É evidente que a referência ao número seis nas antíteses de Jesus indica justamente a incapacidade de tudo isto de conduzir alguém ao coração de Deus: o homem foi feito no sexto dia, mas a sua realização de dá única e exclusivamente quando ele se entrega (“repousa”, na linguagem bíblica) em Deus. Ali ele encontra a sua realização. As antíteses de Jesus são apenas seis porque são preceitos humanos mesmo que inspirados sobre valores religiosos.

Por primeiro, creio, podemos considerar um aspecto da justiça cristã que a diferencia da justiça laicista. A definição mais clara é ainda aquela de Ulpiano, um jurista romano que fundamentou todos os códigos de direito modernos: justiça é dar “unicumque suum” (a cada um o que é seu). Sabemos que o conceito de justiça na Escritura é outro, como já vimos em outras circunstâncias, justiça é fidelidade a uma palavra dada, por isto Deus é Justo e cumpriu toda justiça em Jesus Cristo (cfr. Rm. 3,21-25 e outros): fidelidade até o fim.

Mesmo assim, seguindo a linha de Ulpiano, creio que possamos nos perguntar: afinal o que é do homem? O que lhe pertence? Esta pergunta nos reconduz ao íntimo de nós mesmos onde encontramos o que somos e o que ainda não somos, o que possuímos como indelével e o que podemos perder a qualquer momento. Vemos com clareza o que sempre permanece igual em nós apesar do passar dos anos e da mudança de circunstâncias e o que permanece estável, diria: “verdadeiro” para usar a linguagem do Apóstolo João.
Se nunca pararmos para considerar o que é verdadeiro e o que não é, portanto é transitório, a nossa vida sempre será conduzida como uma folha é conduzida pelo vento do momento aumentando despropositadamente as perguntas existenciais sem respostas, porque na instabilidade não há respostas (como veremos nas palavras que seguem sobre o juramento). A cultura? As coisas? A reputação? O nosso estado de saúde? A capacidade de realizar isto ou aquilo? Sim, em parte nos pertencem porque são resultantes do nosso esforço…, mas isto nós o recebemos e pode mudar a qualquer momento. A vida? O passado? O amanhã? Sim, parcialmente, porque sobre nada disso temos o poder definitivo. Em tudo isto, apenas vivemos. Por outro lado algo é sim estável e imutável: a dignidade que possuímos como imagem de Deus e “filhos de Deus”. Pois bem, a justiça de Deus, superior à dos escribas e de qualquer norma, é a capacidade de devolver ao homem aquilo que “realmente é seu”: a alta dignidade e a capacidade de expressar o que ele é, ou seja: imagem de Deus. A questão é então: como a pessoa pode realmente realizar-se, ser “madura”, “perfeita”?
Não é tão complicado, segundo Jesus. Trata-se apenas de ouvir, escutar e agir conforme o coração diz quando está envolvido com a caridade de Deus. Isto é justiça, porque sempre o coração que está com Deus fala mais alto e de modo estável, sem retornos. Precisa apenas acreditar e escolher com fidelidade.
   
A este ponto, gostaria de pousar a atenção sobre o juramento, do qual Jesus fala.

Aqui também estamos diante de uma questão de fidelidade, ou seja, de justiça. Notamos que Jesus repreende o péssimo costume dos judeus de jurar por qualquer coisa. Até a legislação romana começou a proibir o juramento feito com superficialidade. O que está por detrás disso?
 Inicialmente o juramento era feito apenas para estabelecer uma relação com uma divindade –no mundo pagão- ou com Jahvé na Escritura, isto porque não se tratava apenas de um contrato feito com um homem, logo a responsabilidade sobre a relação ultrapassava o espaço e o tempo. Jurar, então, significava entrar numa relação que não previa retorno porque efetuada diante de Deus. O gesto próprio para isto era levantar o bastão ao céu ou, mais tarde, levantar a mão direita para o céu indicando assim um pacto sem tempo, sem retornos. Havia o costume de jurar por quatro coisas: para o “céu”; para “Jerusalém”, para o “nome de Deus” e sobre a “própria cabeça”; com esta última se invocava uma maldição sobre si em caso de ruptura deste compromisso. Existiam dois tipos de juramentos o juramento “promissor” com o qual se prometia alguma coisa futura; com este se garantia a estabilidade da promessa a todo custo. Evidentemente não eram excluídas as possibilidades de problemas nos relacionamentos, nem de falhas, nem de outro tipo de empecilhos, mas, se garantia que a firmeza seria a força suficiente para superar a dificuldade. Era assim, por exemplo, que se estabeleciam os matrimônios: todos sabiam desde o início das dificuldades que o casal encontraria, mas, com a força da fidelidade, “aprenderiam” (o que hoje não estamos sequer dispostos a considerar nem com hipótese) a amar o outro. A fidelidade fundava o amor e assim podia-se construir um relacionamento no qual o amor era algo a ser descoberto (e não, como hoje se pensa, algo que é anterior, já pronto, definido, cristalizado etc.). O outro tipo de juramento era chamado de “assertor”, ou seja confirmava, sob a pena do julgamento divino, uma verdade pronunciada, principalmente no tribunal ou em algum evento público.
 
Evidentemente no juramento podia infiltrar-se a mentira e isto era chamado de “perjuro” o qual, se descoberto, implicava na condenação à morte infame e a ser apagado o nome de quem havia cumprido tal ato. Caso único nos Evangelhos, aqui o termo usado não é “mentira”, “juramento falso”, “perjuro”... mas sim o verbo 
que significa “romper um juramento”.  Aqui se faz presente o maligno enquanto lança instabilidade sobre algo que permitiria de criar uma relação de amor na qual a cada dia se poderia escolher mais uma vez o outro se embasando apenas sobre a firmeza da palavra que ele dera. É assim que Jahvé entendeu o seu relacionamento dom Israel, com o homem. Ninguém saberia nem poderia construir relação alguma sobre a instabilidade, mesmo se de algum modo se infiltrasse a possibilidade de um retorno. Não parece ridículo (o que vemos com sempre maior freqüência) que duas pessoa casem já com um contrato assinado pelas partes sobre o que vai acontecer no caso de separação? Não é insano pretender estabelecer uma relação já pressupondo o seu fracasso?
Isto devolve a dignidade ao homem? Isto faz gerar nele o amor que supera a si mesmo? É isto que vem do maligno, quando o “sim” não é mais “sim”.

Que o espírito de amor, do amor fiel de Jesus nos ajude sempre a renovar o nosso “sim”, a nossa vontade de aderir ao amor e declarar que o amor vence, vence, vence sempre.
Que Deus te abençoe!
Pe.Carlo Battistoni, FFCIM
centrobiblicord@yahoo.com.br
===========================
As leituras deste domingo têm como finalidade fazer-nos ver como Deus age no meio da humanidade, permitem-nos compreender a lógica de Deus, nos revelam a maneira de Deus salvar o ser humano do pecado, entendendo o pecado como essa tendência presente no interior da pessoa que a leva a encerrar-se em si mesma, em seus próprios limites humanos, sem poder abrir-se à experiência infinita de salvação trazida pelo próprio Deus.
A primeira leitura, do livro do Eclesiástico, desenvolve o tema da liberdade que o ser humano possui para escolher entre o bem e o mal, a vida e a morte. Somos livres e “condenados a ser livres” de alguma forma. Não podemos abdicar de nossa responsabilidade. Diante de nós temos as grandes opções, as grandes causas, esperando que nos decidamos. “Morte e vida” estão diante de nós, ao alcance de nossa mão, pela via de uma opção firme.
Se em nossa vida dominam o mal e a morte, e com isso a falta de sentido e a desesperança, já fomos advertidos: podemos fazer de nossa vida uma coisa ou outra, graças ao poder da liberdade que nos foi dada, a capacidade de escolher a morte e a vida e com isso a capacidade de converter-nos em vida ou em morte. A capacidade de fazer-nos a nós mesmo. É um dos mistérios maiores de nossa existência, o mistério da liberdade.
No fragmento da carta aos Coríntios, Paulo fala, mesmo que de passagem, de “uma sabedoria que não é deste mundo”, que procede de outro mundo, que está em outro mundo, o mundo de Deus, que é um mundo “superior”, situado literalmente acima de nós. É o mundo superior que os filósofos e sábios do mundo cultural helenista “imaginaram” (não deixa de ser uma “imagem”) para explicar a realidade e que acabou se tornando uma imagem genial, que parece expressar uma explicação natural e óbvia do mundo, que será acolhida por quase todas as culturas subseqüentes (até a época moderna).
E é um conhecimento escondido, inalcançável, que nada tem que ver com os saberes deste mundo e que pertence somente a Deus e a quem ele queira revelar. É a visão “gnóstica”, da “gnose” ou “conhecimento”, um conhecimento divino que passa a ser como que um símbolo do principal bem salvífico: participar desse conhecimento divino que salva é o objetivo da vida humana, porque esse conhecimento é o que salva a pessoa e a faz tomar as decisões adequadas em sua vida, as decisões que a fazem caminhar o caminho de Deus.
É a mesma tradição da “sabedoria”, já presente no Primeiro Testamento também por influxo helenista. Paulo se move nesse âmbito de pensamento e nessa mesma cosmovisão grega dos dois mundos, ou de dois pisos, um de cima (o de Deus e dos seus, ou das idéias, segundo Platão) e outro abaixo (o dos humanos, ou da matéria corruptível, segundo Platão).
Hoje continuamos lendo o evangelho de Mateus, em sequencia consecutiva com os fragmentos proclamados nos domingos anteriores. É o sermão da Montanha, que começou com as Bem-aventuranças e que continua com a exposição das exigências da Lei de Moisés (Torá), explicadas por Mateus, que está escrevendo para uma comunidade composta por judeus, que se tornou cristã, obviamente sem deixar de as pessoas serem de origem judaica, como ocorreu com os demais cristãos.
É preciso atenção, pois, para o fato de que a representação da Lei no evangelho de Mateus está escrita para essa comunidade concreta, que difere muito das nossas leis. Obviamente, tem também um valor universal, porém deve-se ter noção da peculiaridade dessa comunidade, para não “judaizar” desnecessariamente a todos os demais.
Porém, além dessa peculiaridade do evangelho de Mateus, todo o evangelho tem outra característica significativa neste campo da moral, da Lei, que é semelhante a que fazíamos notar a respeito da leitura anterior, a de Paulo, sobre o conhecimento salvífico ou gnose. A moral viria a ser também uma espécie de conhecimento gnóstico: é uma vontade, divina, superior, vinda de fora, desde cima, desde “o segundo piso”, que temos que tratar de escutar nessa direção. É uma moral “hetero-norma”, uma norma alheia, vinda de fora, de cima, à qual temos que nos submeter. Submeter-se a essa lei é o sentido da vida humana.
A moral, os preceitos, os mandamentos com sua constrição sobre a vida humana, e a conseqüente ameaça de pecado e de condenação, foram uma das fontes clássicas de fricção da religião com o mundo moderno. Durante todo o mundo antigo, configurado com os padrões do autoritarismo, dos impérios e do feudalismo, das monarquias absolutas o ser humano aceitava “como o mais natural do mundo” que o “mundo de cima” era estruturalmente como o daqui de baixo, isto é, um mundo onde Deus está sentado em seu trono (como o imperador ou o rei ou o senhor feudal aqui embaixo), com seu séquito de cortesãos da “corte celestial” (como a Corte de qualquer rei humano), vigiando o mundo para que se cumpram as ordens que desde cima eram ditadas.
Santo Inácio de Loyola, como homem de cosmovisão medieval, reflete belamente em sua explicação global a respeito do sentido da vida humana, em sua meditação central, a do Princípio e fundamento: “o homem é criado para louvar, para fazer reverencia e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem e para que o ajudem a conseguir o fim para o qual foi criado.
De onde se segue que o homem pode usar das coisas para alcançar o seu fim, e deve deixar as coisas que o impedem de alcançá-lo. Por isso é necessário manifestar indiferença perante todas as coisas criadas, o tanto quanto possível ao nosso livre arbítrio, contanto que não sejam coisas proibidas; dessa maneira que não queiramos de nossa parte mais saúde que enfermidade, mais riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que curta, e, cosequentemente, em tudo o mais; somente desejando e escolhendo o que mais nos conduz ao fim a que somos criados” (Exercícios Espirituais, 23).
Santo Inácio não inventou nada de novo. Expressava, antologicamente, isso sim, a visão medieval e pré-moderna de uma cosmovisão salvadora estruturada em dois pisos, um superior (não somente porque está em cima, mas porque é absolutamente superior em sua natureza), e outro inferior (temporal, passageiro, corruptível, perigoso...). Do piso de cima vem tudo: o Ser, o Amor, a Verdade, a Beleza... e a moral. Uma moral, pois, absolutamente heterônoma, indiscutível, absolutamente inapelável e, nesse sentido, facilmente, perceptível como constringente e cegamente obrigatória, alheia a toda explicação justificativa e, nesse sentido, opressiva.
O mundo moderno mudou radicalmente. O Ancien Regime do autoritarismo, imperialismo, da obediência cega, do submetimento omnímodo e a-racional acabou. Os impérios, reinos e monarquias acabaram, e apareceram as repúblicas e as democracias, e os direitos dos cidadãos (já não súditos). Uma moral exterior, pré-estabelecida, superior, sem justificação, inapelável é sentida agora como sufocadoramente opressora.
Com a vinda da modernidade, em todos os campos, o mundo de cima, o segundo piso, que genialmente configuraram os helenistas, com Platão à frente, desaparece como que evapora. Não faz falta que seja negado, mas que a ciência, com seus avanços, cada dia o deixa para trás, em favor da descoberta de tudo que funciona “como se Deus não existisse”.
O cristão moderno, o que não vive com sua cabeça no mundo pré-moderno medieval, não pode aceitar aquela visão dividida em dois mundos, por muito espiritual que se apresente, senão que passa a viver em um mundo novo, um mundo único, uma única realidade, sem dois pisos superpostos.
Essa transformação é uma realidade na cultura moderna, por mais que muitos cristãos e não poucas religiões continuem vivendo separadamente entre a vida real e a pública, por um lado, e a vida espiritual dualista de suas representações religiosas, de outro.
Por isso, muitos cristãos se sentem retraídos ao mundo de seus avós quando escutam este tipo de discurso de uma moral “heterônoma”, como se continuassem existindo preceitos caídos do alto, revelados, e por isso mesmo, indiscutíveis, inquestionáveis, aos quais somente caberia submeter-se acriticamente como súditos do Rei do céu (de um segundo piso).
www.claretianos.com.br
===========================


A liturgia de hoje garante-nos que Deus tem um projeto de salvação para que o homem possa chegar à vida plena e propõe-nos uma reflexão sobre a atitude que devemos assumir diante desse projeto.
Na segunda leitura, Paulo apresenta o projeto salvador de Deus (aquilo que ele chama “sabedoria de Deus” ou “o mistério”). É um projeto que Deus preparou desde sempre “para aqueles que o amam”, que esteve oculto aos olhos dos homens, mas que Jesus Cristo revelou com a sua pessoa, as suas palavras, os seus gestos e, sobretudo, com a sua morte na cruz (pois aí, no dom total da vida, revelou-se aos homens a medida do amor de Deus e mostrou-se ao homem o caminho que leva à realização plena).
A primeira leitura recorda, no entanto, que o homem é livre de escolher entre a proposta de Deus (que conduz à vida e à felicidade) e a auto-suficiência do próprio homem (que conduz, quase sempre, à morte e à desgraça). Para ajudar o homem que escolhe a vida, Deus propõe “mandamentos”: são os “sinais” com que Deus delimita o caminho que conduz à salvação.
O Evangelho completa a reflexão, propondo a atitude de base com que o homem deve abordar esse caminho balizado pelos “mandamentos”: não se trata apenas de cumprir regras externas, no respeito estrito pela letra da lei; mas trata-se de assumir uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas, que tenha, depois, correspondência em todos os passos da vida.
1º leitura: Sir. 15, 16-21 (15-20) - AMBIENTE
O livro de Ben Sira (designado na Bíblia católica com o nome de “Eclesiástico”) é um livro “sapiencial” – isto é, um livro cujo objetivo é apresentar indicações de caráter prático, deduzidas da reflexão e da experiência, sobre a arte de viver bem, de ter êxito, de ser feliz (é essa a temática da reflexão sapiencial no Médio Oriente, em geral, e em Israel, em particular). O seu autor é um tal Jesus Ben Sira, um judeu tradicional, convencido que a Tora (a Lei) dada por Deus a Israel é a súmula da sabedoria.
Estamos no início do séc. II a.C.; a cultura grega (instalada na Palestina desde 333 a.C., quando Alexandre da Macedônia venceu Dario III, em Issos, e se apossou da Palestina e do Egito) minava há já algum tempo, a cultura, a fé, os valores tradicionais de Israel. Os mais jovens abandonavam a fé dos pais, seduzidos pelo brilho superior dessa cultura universal, que era a cultura helênica.
Jesus Ben Sira escreve para ajudar os israelitas a perceber a singularidade da sua fé e da sua cultura, a fim de que não se perca a identidade do Povo de Deus. Apresenta, na sua obra, uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, mostrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
Nos capítulos 14 e 15 do livro de Ben Sira, há uma reflexão sobre como encontrar a verdadeira felicidade. É nesse contexto que devemos situar o nosso texto: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira felicidade e convida-os a percorrê-lo.
MENSAGEM
O tema da opção entre dois caminhos – o caminho da vida e da felicidade e o caminho da morte e da desgraça – é um tema caro à teologia tradicional de Israel. Para os teólogos deuteronomistas, essa é a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de auto-suficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no “temor” de Deus e no respeito pelas propostas de Jahwéh (mandamentos), ele constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de abundância, de paz. A questão está muito bem expressa em Dt. 30,15-20.
A reflexão sapiencial tradicional mantém-se na mesma linha. Os “sábios” de Israel já perceberam (inclusive a partir da experiência que a própria história da sua nação lhes forneceu) que, quando respeita as indicações de Deus (mandamentos), o Povo constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos se respeitam e têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas quando o Povo escolhe caminhos à margem de Jahwéh e faz “orelhas moucas” às propostas de Deus, constrói egoísmo, exploração, divisão e, portanto, sofrimento, privações, morte. As grandes catástrofes nacionais (nomeadamente o exílio na Babilônia) resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos seus mandamentos.
Neste texto, Jesus Ben Sira pretende colocar os homens do seu tempo – sobretudo aqueles que oscilavam entre os valores da fé dos pais e os valores mais “in” da cultura dominante – diante da opção fundamental que a liberdade lhes oferece: a vida e a morte, a felicidade e a desgraça.
Um pormenor notável reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo Ben Sira, um títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com o seu comando; mas o homem é um ser livre, que faz as suas escolhas (escolhas que condicionam, necessariamente, o seu futuro) e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita absolutamente as opções que o homem faz. Resta ao homem fazer as suas escolhas e construir o seu destino: ou com Deus, ou contra Deus; ou um destino de vida e felicidade, ou um destino de morte e de desgraça.
ATUALIZAÇÃO
• A questão fundamental que aqui nos é posta é esta: existem caminhos diversos, opções várias, que dia a dia nos interpelam e desafiam. Em cada momento, corremos o risco da liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, do “politicamente correto”, aceitando que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?
• Uma proposta leva à vida e à felicidade. Quem quiser ir por aí, tem de seguir os “sinais” (mandamentos) com que Deus delimita o caminho que leva à vida. Percorrer esse caminho implica, evidentemente, viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das suas propostas. Esforço-me por viver na escuta de Deus e por descobrir os “sinais” que Ele me deixa?
• A outra proposta leva à morte. É o caminho daqueles que escolhem o egoísmo, a auto-suficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Ao fechar-se em si e ao ignorar as propostas de Deus, o homem acaba por escolher os seus interesses e por manipular o mundo e os outros homens, introduzindo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, morte. Talvez nenhum de nós escolha, conscientemente, este caminho; mas o orgulho, a ambição, a vontade de afirmar a nossa independência e liberdade, podem levar-nos (mesmo sem o notarmos) a passar ao lado dos “sinais” de Deus e a ignorá-los, resvalando por atalhos que vão dar ao egoísmo, ao fechamento em nós. Em cada dia que começa, é preciso fazer o balanço do caminho percorrido e renovar as nossas opções.
• Este texto levanta, também, a questão da liberdade. A Palavra de Deus que aqui nos é proposta deixa claro que Deus nos criou livres e que respeita absolutamente as nossas opções e a nossa liberdade. Deus não é um empecilho à liberdade e à realização plena do homem. Ele coloca-nos diante das diferentes opções, diz-nos onde elas nos levam, aponta o caminho da verdadeira felicidade e da realização plena e… deixa-nos escolher.
• Atenção: a morte e a desgraça nunca são um castigo de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos errados; mas é o resultado lógico de escolhas egoístas, que geram desequilíbrios e que destroem a paz, o equilíbrio, a harmonia do mundo, da família e de mim próprio.

2ª leitura: 1Cor. 2, 6-10 - AMBIENTE
Continuamos no ambiente da comunidade cristã de Corinto e à volta da discussão sobre a verdadeira sabedoria. Recordemos que o ponto de partida para a reflexão de Paulo é a pretensão dos coríntios em equiparar a fé cristã a um qualquer caminho filosófico, que devia ser percorrido sob a orientação de mestres humanos (para uns, Paulo, para outros Pedro, para outros Apolo), à maneira do que se fazia nas escolas filosóficas gregas. Os coríntios corriam, dessa forma, o risco de fazer da fé uma ideologia, mais ou menos brilhante conforme as qualidades pessoais ou a elegância do discurso dos mestres que defendiam as teses. Paulo está consciente, no entanto, que o único mestre é Cristo e que a verdadeira sabedoria não é a que resulta do brilho e da elegância das palavras ou da coerência dos sistemas filosóficos, mas é a que resulta da cruz.
Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar – de forma mais desenvolvida – a “sabedoria de Deus”.
MENSAGEM
Para Paulo, falar da “sabedoria de Deus” é falar do projeto de salvação que Deus preparou para a humanidade (noutros textos, Paulo usa um outro conceito para falar da mesma coisa: “mystêrion” – cf. Rom. 16,25; Ef. 1,3-10; 3,3.4.9; Col. 1,26; 2,2; 4,3). Trata-se de um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam”, no sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus manteve misterioso e oculto durante muitos séculos, e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo (antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”).
Na leitura que Paulo faz da história da salvação, as coisas são claras: Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à realização plena. Por isso, veio ao nosso encontro, fez aliança conosco, indicou-nos os caminhos da vida e da felicidade; e, na plenitude dos tempos, enviou ao nosso encontro o seu próprio Filho, que nos libertou do pecado, que nos inseriu numa dinâmica de amor e de doação da vida e que nos convocou à comunhão com Deus e com os irmãos. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós… Esse plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos crentes pela ação do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia, como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.
ATUALIZAÇÃO
• O projeto de salvação que Deus tem para os homens, e que resulta do seu imenso amor por nós, é um projeto que nos garante a vida definitiva, a realização plena, a chegada ao patamar do Homem Novo, a identificação final com Cristo. Os crentes são, em consequência deste dinamismo de esperança que o projeto de salvação de Deus introduz na nossa história, pessoas que olham a vida com os olhos cheios de confiança, que sabem enfrentar sem medo nem dramas as crises, as vicissitudes, os problemas que o dia-a-dia lhes apresenta, e que caminham cumprindo a sua missão no mundo, em direcção à meta final que Deus tem reservada para aqueles que O amam.
• No entanto, Deus não força ninguém: a opção pelo caminho que conduz à vida plena, ao Homem Novo, é uma escolha livre que cada homem e cada mulher devem fazer. O que Deus faz é ladear o nosso caminho de “sinais” (mandamentos) que indicam como chegar a essa meta final de vida definitiva. Como é que eu percorro esse caminho: na atenção constante aos “sinais” de Deus, ou na auto-suficiência de quem quer ser o responsável único pela sua liberdade e não precisa de Deus para nada?

Evangelho: Mt. 5,17-37 - AMBIENTE
Terminado o preâmbulo do “sermão da montanha” (que vimos nos dois anteriores domingos), entramos no corpo do discurso. Recordamos aquilo que dissemos nos domingos anteriores: o discurso de Jesus “no cimo de um monte” transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a Lei; agora, é Jesus que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus essa nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”. Neste discurso (o primeiro dos cinco grandes discursos que Mateus apresenta), o evangelista agrupa um conjunto de “ditos” de Jesus e oferece à comunidade cristã um novo código ético, a nova Lei, que deve guiar os discípulos de Jesus na sua marcha pela história.
Para entendermos o “pano de fundo” do texto que nos é hoje proposto, convém que nos situemos no ambiente das comunidades cristãs primitivas e, de forma especial, no ambiente da comunidade mateana: trata-se de uma comunidade com fortes raízes judaicas, na qual preponderam os cristãos que vêm do judaísmo. As questões que a comunidade põe, na década de oitenta (quando este Evangelho aparece), são: continuamos obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que é que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?
MENSAGEM
Mateus tenta conciliar as tendências e as respostas dos vários grupos que, no contexto da sua comunidade cristã, eram dadas a estas questões.
Na primeira parte do Evangelho que hoje nos é proposto (vs. 17-19), Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso encará-la, não como um conjunto de prescrições legais e externas, que obrigam o homem a proceder desta ou daquela forma rígida, no contexto desta ou daquela situação particular, mas como a expressão concreta de uma adesão total a Deus (adesão que implica a totalidade do homem, e que está para além desta ou daquela situação concreta). Dito de outra forma: os fariseus (que eram a corrente dominante no judaísmo pós-destruição de Jerusalém) tinham caído na casuística da Lei e achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas; mas Mateus achava que a proposta libertadora de Jesus ia mais além e passava por assumir uma atitude interior de compromisso total com Deus e com as suas propostas.
Na segunda parte do texto que nos é proposto (vs. 20-37), Mateus refere quatro exemplos concretos desta nova forma de entender a Lei (na realidade, são seis os exemplos que aparecem no conjunto do texto mateano; mas o Evangelho de hoje só apresenta quatro).
O primeiro (vs. 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige, simplesmente, o não matar (cf. Ex. 20,13; Dt. 5,17); mas, na perspectiva de Jesus (que não se resume ao cumprimento estrito da letra da Lei, mas exige uma nova atitude interior), o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao irmão. Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos do “Reino” não podem limitar-se a cumprir a letra da Lei; têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. A propósito, Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação (o cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo, não é uma forma de matar?). Na perspectiva de Mateus, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos.
O segundo (vs. 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex. 20,14; Dt. 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema – ou seja, o próprio coração do homem… É no coração do homem que nascem os desejos de apropriação indevida daquilo que não lhe pertence; portanto, é a esse nível que é preciso realizar uma “conversão”. A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é, nesta cultura, o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é, nesta cultura, o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes (bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de traduzir à letra) para dizer que é preciso atuar lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.
O terceiro (vs. 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt. 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei tem de ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida.
O quarto (vs. 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (cf. Lv. 19,12; Nm. 20,3; Dt. 23,22-24); mas, na perspectiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com o “Reino”. Para os que estão inseridos na dinâmica do “Reino”, deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do “Reino”.
A questão essencial é, portanto, esta: para quem quer viver na dinâmica do “Reino”, não chega cumprir estrita e casuisticamente as regras da Lei; mas é preciso uma atitude interior inteiramente nova, um compromisso verdadeiro com Deus que envolva o homem todo e lhe transforme o coração.
ATUALIZAÇÃO
• Os discípulos de Jesus são convidados a viver na dinâmica do “Reino”, isto é, a acolher com alegria e entusiasmo o projeto de salvação que Deus quis oferecer aos homens e a percorrer, sem desfalecer, num espírito de total adesão, o caminho que conduz à vida plena.
• Cumprir um conjunto de regras externas não assegura, automaticamente, a salvação, nem garante o acesso à vida eterna; mas, o acesso à vida em plenitude passa por uma adesão total (com a mente, com o coração, com a vida) às propostas de Deus. Os nossos comportamentos externos têm de resultar, não do medo ou do calculismo, mas de uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas. É isso que se passa na minha vida? Os “mandamentos” são, para mim, princípios sagrados que eu tenho de cumprir, mecanicamente, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que me ajudam a potenciar a minha relação com Deus e a não me desviar do caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para mim, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que eu fiz por Deus e pelo “Reino”?
• “Não matar”, é, segundo Jesus, evitar tudo aquilo que cause dano ao meu irmão. Tenho consciência de que posso “matar” com certas atitudes de egoísmo, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia e má língua que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem estar, as suas relações, a sua paz? Tenho consciência que brincar com a dignidade do meu irmão, ofendê-lo, inventar caminhos tortuosos para o desacreditar ou desmoralizar é um crime contra o irmão? Tenho consciência que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem necessita de um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, é assassinar a vida?
• Não podemos deixar, nunca, que as leis (mesmo que sejam leis muito “sagradas”) se transformem num absoluto ou que contribuam para escravizar o homem. As leis, os “mandamentos”, devem ser apenas “sinais” indicadores desse caminho que conduz à vida plena; mas o que é verdadeiramente importante, é o homem que caminha na história, com os seus defeitos e fracassos, em direção à felicidade e à vida definitiva.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho - www.ecclesia.pt

No Evangelho de hoje (cf. Mt. 5,17-37) Jesus diz que são bem-aventurados os pacíficos e pacificadores. Jesus especifica a bem-aventurança nos versículos 21-26. A lei judaica dizia: “Não matar!” E os judeus pensavam com os critérios humanos de não morrer fisicamente. Em momento algum Jesus desdiz a lei, mas a amplia, alargando todo o campo da fraternidade. Não basta não matar o corpo. É preciso, antes, respeitar o outro, ter paciência com ele, não insultá-lo. O outro não é só o corpo. O outro é a pessoa humana. A ira e a violência são armas mortíferas, que não podem estar ao alcance do cristão. O Eclesiástico já afirmava com precisão: “Ira e rancor são coisas execráveis” (Eclo 27,30). A novidade apresentada por Jesus foi aproximar a cólera e a violência ao assassinato da pessoa. Porque se pode matar alguém com ódio, sem derramar seu sangue. Concomitantemente ao apelo de Jesus São Paulo nos ensina: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef. 4,26). Por isso todos nós devemos esquecer o “pavio curto”, o ressentimento, a magia, qualquer desejo de vingança e de acertos de contas.
Assim, aqui poderemos contemplar uma virtude muito em desuso: a PACIÊNCIA. Longe de ser passiva e sinal de fraqueza a paciência é uma virtude que demonstra amadurecimento e equilíbrio. A paciência se conquista, é trabalhada, sofrida. A paciência é mais do que “contemporização”, e a paciência é o melhor remédio para qualquer mal. O apóstolo das gentes chamou a “paciência de fruto do Espírito Santo” (cf. Gl. 5,22). São Tiago vaticina que a paciência nos garante e nos torna perfeitos e íntegros (cf. Tg. 1,4). A paciência nos pavimenta para o caminho e para o itinerário do perdão. Por isso, para Jesus, alimentar brigas, tramar violências e negar o perdão são formas de matar o irmão e a irmã. Quem não procura a reconciliação é aquele que vive em estado de morte, fora, portanto, da família de Deus, que é um Reino de vida em plenitude.
Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou que “Bem-aventurados os puros de coração”. Vamos superar apenas a pureza sexual, mas de uma piedade sincera diante de Deus, sem o coração dividido entre os deuses do ter, do poder, da auto-suficiência. Uma piedade sem ídolos. Ser leal a Deus e para com o próximo. Fidelidade aos compromissos assumidos, seja para com Deus, seja para com o próximo. Ser um homem sincero, de uma palavra só de ser o nosso sim, sim, e o nosso não, não (cf. Mt. 5,37).
Quem chega ao altar com o coração carregado de ódio e de inveja, ou mesmo de desconfianças é hipócrita e a sua oração e a sua oferta não tem valor nenhum. Jesus, assim pede primeiro a reconciliação com os outros e consigo mesmo. Não é puro o coração cheio de falsidades, enganos e dubiedades, más intenções e desejos desregrados. Jesus fala do adultério, que é a quebra da lealdade. A lealdade, o coração puro, vale mais que o próprio olho, vale mais que a própria mão. Jesus é forte na figura, para que não paire nenhuma dúvida sobre a seriedade e a grandeza de sua bem-aventurança.
Não devemos pronunciar o nome de Deus em vão. Não é puro o coração falso e não é pura a boca mentirosa. Jesus recorda o juramento falso em primeiro lugar, porque envolve Deus como testemunha. “Não pronunciar o nome de Deus em vão”. Jesus não quer juramento nenhum. A base do relacionamento social do cristão deve ser a lealdade. Nossa palavra deveria ser suficiente para que o outro confiasse em nós e no nosso propósito. Ao puro de coração o juramento se torna supérfluo. Para o cristão, o juramento somente tem sentido, se reforça a lealdade e a sinceridade da palavra. Bastaria olhar para dentro e em torno de nós para vermos que na sociedade moderna a palavra perdeu sua força. Bastaria lembrar as promessas feitas em praças e em privado, durante as campanhas eleitorais, político-partidárias, e nunca cumpridas ou mesmo desmentidas. Esqueçam o que eu escrevi. Esqueçam o que eu prometi. Isso vai contra o espírito de Deus que na palavra de Jesus nos clama: “Bem-aventurados os puros de coração”.
Quem tem coração puro não usa subterfúgios, meias palavras ou palavras ambíguas, não mente de jeito nenhum, não disfarça, não encobre nada. O seu sim seja sim e o seu não seja não. “tudo o que passar disto vem do Maligno”, a quem Jesus chamou de pai da mentira (Jo 8,44).
Jesus, neste domingo, nos ensina a ter um coração puro, que não seja igual ao dos fariseus que apenas pensam em seu bem estar pessoal. Jesus ensina que não é a lei que conta, não é a lei que nos relaciona com Deus e nos santifica. Mas o coração puro, inteiramente voltado para Deus, identificado com a sua vontade, absolutamente fiel, sem armadilhas, sem busca de poder, sem ressentimentos.
Um coração puro que se abra ao outro, em todos os aspectos, na bondade do coração verdadeiramente humano, purificado, santificado, porque somente pode subir ao altar de Deus aquele que está completamente reconciliado.
Resumindo a missa de hoje devemos, como juristas, rever a Lei judaica. Jesus concebe o programa de tirar a Lei das mãos dos fariseus e escribas e de a restituir a Deus, isto é, deixá-la ser novamente expressão da vontade de Deus, de seu amor e de sua fidelidade (Eclo 15,15). Jesus não é contra a lei, antes pelo contrário, Ele quer restabelecê-la em toda a sua pureza; não quer nada abolir dela, mas lhe dar a sua perfeição, que não é o legalismo farisaico, mas o Espírito de Deus mesmo (Mt. 5,17-20).
A restituição da Lei de Deus significa uma profunda conversão da “nossa justiça” (Mt. 5,20). Significa, no fundo, que a nossa justiça, enquanto ela só vier de nós mesmos, nunca será suficiente para observar a Lei. Pois, Jesus tira de debaixo dos pés de toda a auto-suficiência. Por isso devemos ser os melhores, diferente dos fariseus. Pela radicalidade de Jesus, nós tomamos consciência de ficarmos sempre devendo; porque somos limitados, e é muito salutar esta consciência, de sermos pecadores, merecedores da misericórdia divina, aí começa a nossa salvação. Com a graça de Deus iremos conseguir! As palavras não foram feitas para que os homens delas se sirvam enganando-se mutuamente, mas para que levem seu pensamento ao conhecimento dos outros. Enganar os outros significa deturpar o sinal da palavra, torná-la sinal de divisão (em grego: diabolh - diabolé) e de confusão, em lugar de comunhão e de limpidez. Cristo supera, portanto, a lei judaica quando proíbe a mentira em qualquer circunstância, tornando assim inútil o juramento.
Na vida deparamos como no Evangelho de hoje com o homicídio e a reconciliação, o adultério, o divórcio e o juramento que aparecem no texto sagrado. Somos chamados a dar um passo à frente do pecado e da situação pecaminosa, superando a lei morta e seca. Sejamos homens e mulheres renovados, amando os que nos perseguem, os nossos inimigos. O cristão mais do que obedecer a lei, segue as pegadas de Cristo que o precede e que se torna para ele modelo-lei-instância e suprema força interior para o dom do Espírito (Mt. 3,11), prêmio-amor-beatificante que nos coloca nos caminhos da fraternidade.
O algo “mais” do convite de Jesus é dar um passo definitivamente na solidariedade e na fraternidade. A nova lei é o amor e a acolhida do diferente!
padre Wagner Augusto Portugal - www.catequisar.com.br

===========================

Sabedoria divina: o empenho do cristão em escolher o bem e rejeitar o mal
No nosso mundo moderno, a sabedoria parece ser um esforço relativo. Por exemplo, é a sabedoria que nos ajuda a diferenciar entre o que uma pessoa não qualificada e um brilhante cirurgião podem fazer com um bisturi em mãos.
Os textos que a liturgia nos oferecem hoje falam da sabedoria. O pensamento que encontramos na I leitura do livro do Eclesiástico reflete a sabedoria judaica (literatura sapiencial) do início do século II a.C. que competia com a abundância da famosa literatura sapiencial grega daquela época. A sabedoria não deveria ser confundida ou comparada de forma simplista com a esperteza nem mesmo com a inteligência, pois a sabedoria exige o empenho de uma mente bem desenvolvida, exige a capacidade de analisar, de associar para usar uma metáfora, para comparar e contrastar, para diferenciar o que é relativo e o que é absoluto.
Uma ideologia indiferente ou um foco único sobre um tema é muitas vezes uma grande imprudência destrutiva. Precisamente, este texto da I leitura coloca uma enorme responsabilidade sobre a pessoa que crê individualmente a se empenhar de forma madura e adulta. Podemos ver isso pelos verbo mais usado na leitura: escolher (“para o que quiseres”, “receberá aquilo que preferir”). O autor do Eclesiástico era convicto que o fiel que ama e teme ao Deus de Israel deveria se empenhar efetivamente em favor da vida e do bem: “Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal”. Este Deus “conhece todas as obras do homem”.
A pregação de Paulo na II leitura, juntamente com outros, tinha (usando suas metáforas) plantado, regado e colhido a mensagem do Evangelho entre os coríntios. Agora, ele insiste, que se empenhem nessa mesma mensagem dinâmica do Evangelho e continuem a aperfeiçoar-se por ela. Já sabemos que os coríntios viviam exatamente como o mundo atual: sujeitos às tentações e à preguiça, à adoração ao ídolo dinheiro, e ao egoísmo. Esta comunidade da Igreja primitiva estava causando escândalo entre os seus próprios membros. Paulo esperava que, convencendo os cristãos de Corinto a fazer uma pausa e a fazer um exame de consciência com frequência, eles pudessem se reconectar com a Sabedoria que ele já havia pregado e já havia invocado sobre eles.
Pois bem, mas quais são essas boas obras que devem escolher os discípulos de Jesus? O texto do Evangelho de hoje é longo, mas é melhor proclamado na sua íntegra do que na sua forma breve. Depois das Bem-aventuranças e as duas comparações (“sal da terra e luz do mundo”) como responsabilidades irrenunciáveis dos discípulos, Jesus se apresenta como Aquele que traz a revelação definitiva da vontade de Deus e assim, começa um monólogo bastante longo sobre o cumprimento da Lei antiga e os profetas (AT).
Ele não se opõe à Tradição na qual nasceu; antes, Ele diz que absolutamente nada da Lei será abolido, nem uma única vírgula, mas também não será confirmada simplesmente na sua forma precedente, pois Jesus descobre, revela o seu verdadeiro sentido, cumpre a Lei. Começa denunciando a “justiça” dos escribas e fariseus, dizendo que a “nova justiça” não se realiza na “observância” dos mandamentos, mas na superação da Lei. Antes, esta é uma condição absoluta, onde antes da observação da lei, Deus quer o amor, a benevolência, a misericórdia.
Como todos os rabinos (mestres), Jesus não poderia ensinar a não ser partindo das Escrituras. Assim ele o faz, porém, a seu modo. Depois de esclarecer que nem ele nem seus discípulos estão contra a lei, ele continua e proclama cinco antíteses com a expressão “mas eu vos digo”, ou seja, mostra uma tese contrária à interpretação dada pelos fariseus e escribas, embora permaneçam os mesmos mandamentos que continuam em voga.
As três primeiras antíteses tratam as ações diretas ao próximo: o homicídio, o adultério e o divórcio, o juramento, como encontramos no Evangelho de hoje; e as outras duas tratam das reações no comportamento do outro: a lei do talião e o amor ao próximo, como veremos no próximo domingo. Antes de tudo, devemos saber que essas argumentações de Jesus devem ser entendidas como exemplos, e não como tratados completos dos âmbitos tocados nem mesmo podem ser tomadas ao pé da letra.
No primeiro caso (5,21-26), ele trata da superação dos conflitos. Um credor perdeu a paciência com aquele que lhe deve, quer levar o devedor ao tribunal e obter à força o pagamento do débito. Este caso representa as tensões de todo tipo e os comportamentos que daí derivam. Enfim, no modo mais radical, um conflito é resolvido com o homicídio da outra pessoa. O AT condena esta solução com a proibição: “não matarás!”. Mas, existem outras formas de comportamento nos conflitos: a ira, o rancor profundo, a injúria, o atacar, o ferir com palavras. Pois bem, Jesus condena também estes comportamentos. Deve-se evitar não somente a ação má, mas também a maldade do coração e as palavras más. O conflito não deve envenenar o amor que se deve guardar no coração.
A graduação das sanções mostra que pra cada tipo de atitude, deve-se proceder do modo correto: parte-se do tribunal local ao mais alto tribunal terreno, até o juízo final. Jesus quer mostrar que a falta para com o próximo e a solução errada não tiveram início já com o homicídio, mas muito antes, com os pensamentos. Por isso, deve-se empenhar a evitar não só a má ação como também o coração mau e as palavras más.
Este amor deve ser demonstrado não somente com o impedir o mal, mas também com a busca da reconciliação. Obviamente, para a reconciliação é necessário que as duas pessoas, pressupõe-se a disponibilidade do outro também. Mas isto não nos isenta da obrigação de fazer tudo o que está ao nosso alcance para conseguir. É um apelo a reconciliação e à amizade para com o próximo.
O que Jesus quer dizer no Evangelho de hoje é que não se trata apenas de seguir objetivamente determinadas regras, porque as Escrituras ou a Igreja assim nos pedem, mas seguir as regras de um modo compassivo e amoroso, sem legalismo e sem farisaísmo (sem máscaras). Era um mandamento na época de Jesus ofertar um sacrifício no altar, assim como é mandamento da nossa Igreja participar do Santo sacrifício da Missa aos domingos. Pois bem, este Evangelho nos diz que não serve a nada ir a uma missa, enquanto ainda alimentamos a raiva, o rancor, o ódio por alguém. É preciso ir primeiro reconciliar-se com o irmão e só então ir apresentar a oferta na celebração eucarística.
Com relação à mulher, Jesus faz duas considerações: a primeira com relação à mulher alheia (5,27-30), a segunda com relação à própria mulher, à esposa (5,31-32). Não podemos deixar que as forças naturais e espontâneas do desejo sexual nos dominem. Pelo contrário, nós é que devemos dominá-los. Deve ser respeitado toda comunhão de um matrimônio. Só o desejar a mulher alheia seria um desrespeito para com o próximo, sem contar que seria o primeiro passo para a ação concreta. Jesus quer mostrar que esse desrespeito é tão grande que ele exagera na exortação: de ser melhor arrancar e jogar o olho fora do que desejar. Logicamente, temos que entender que Jesus quer mostrar que a integridade do espírito é mais importante do que aquela do corpo. Até porque mesmo que se arrancasse o olho, o desejo sexual poderia continuar o mesmo. Acho que fica bastante claro o porquê das muçulmanas usarem os véus como o chador ou no exagero, o burca. Para preservar a beleza e os adronos só para o marido, enquanto as ocidentais vão no extremo oposto, fazer cada vez mais plásticas e se arrumarem exageradamente não para o marido, mas para chamar a atenção. Bom, cada um use a sabedoria e faça suas conclusões.
Já para o divórcio, Jesus estabelece uma nova hierarquia de valores. O homem não pode de forma alguma repudiar a própria esposa, ao absoluto respeito pelo matrimônio alheio corresponde a absoluta defesa do próprio casamento. Exceto no caso de relações irregulares, que sim devem ser desfeitas.
O terceiro tema é aquele da relação com a verdade (5,33-37). O problema vem do fato que todos nós dependemos em quase tudo das afirmações do nosso próximo e nem sempre somos transparentes uns com os outros. Ninguém pode saber para si tudo o que é importante; o conhecimento e as informações vão passando de uns para outros. Mas muitas vezes há muito engano, mentira, fingimento, falha da palavra dada. Para impedir isso, no tempo de Jesus, havia o hábito de jurar. Jurava-se por coisas fúteis e entrava de novo o problema da mentira, o juramento falso como é muito comum hoje também.
Pior, juravam falsamente por Deus. Logo Ele que é absolutamente verdadeiro e nunca enganou, é digno de fé. Jesus convida à retidão sem ser preciso recorrer a forma alguma de juramento. Deve-se respeitar Deus e o seu Nome. Seja o vosso sim “sim” e o vosso não “não”. Jesus não impõe leis arbitrárias, mas mostra o sentido delas. Toda tendência egoística, de falta de perdão, de desejos sexuais desordenados, de busca de interesses pessoais na base da mentira deve desaparecer.
A Lei de Deus no Antigo Testamento foi aperfeiçoada pela mensagem dinâmica do Evangelho do Novo Testamento. As complexidades da vida antiga podem parecer simples quando comparada com a dos tempos modernos. Mas são as mesmas e uma única abordagem farisaica não resolve nada. Mas, cada cristão alimentado pela Palavra de Deus tem um intelecto bem formado e consciente e é responsável pelas conclusões que ele ou ela chega. A sabedoria permite entender que o Deus da Sabedoria compreende cada um de nós, e nos ama totalmente.
Feliz o homem sem pecado que na lei do Senhor Deus vai progredindo!
Ensinai-me a viver vossos preceitos, dai-me o saber, e cumprirei a vossa lei e de todo o coração a guardarei.
padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento - www.pecarlos.blogspot.com
===========================

O cristão e a Lei
A liturgia de hoje nos dá a oportunidade de refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão diante da Lei de Deus. Para muitos, é um tabu, uma série de proibições, que desaprovam muitas de nossas atitudes ou ações.
Será esse o verdadeiro sentido dos Mandamentos?
A 1ª leitura nos apresenta Deus propondo os mandamentos ao Povo de Israel, num clima de aliança. E o povo acolhe unânime. (Eclo 5,16-21)
Para o povo de Israel, o amor e a fidelidade à Lei constituem toda a justiça e a santidade... apesar de muitas infidelidades... Mas, com o passar do tempo, reduziu a Lei a uma observância puramente externa, sem uma convicção interior mais profunda...
No Evangelho, Cristo censura tal atitude: "Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus!"
Não é suficiente uma fidelidade material e externa da Lei. É preciso uma fidelidade mais profunda, interior. E Jesus apresenta 6 exemplos concretos.
São antíteses: "Ouvistes o que foi dito. Eu, porém, vos digo..." - mediante as quais ele proclama o sentido da nova Lei.
Hoje são lidas as primeiras quatro, referentes aos temas: homicídio, adultério, divórcio e perjúrio.
As última duas: perdão no lugar  de vingança (lei do talião) e e o Amor ao inimigo, em invés de ódio, fica para o próximo domingo.
1) Homicídio: "Ouvistes: não matarás... aquele que matar terá de responder em Juízo..."
Eu: "Todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá que responder em  juízo..."
Condena: todo tipo de morte: calúnia... mentira... fraude... ofensa... Matar lideranças, não dando espaço na comunidade... E o aborto?
(Se houvesse um raio X capaz de mostrar o cemitério que criamos dentro de nosso coração, nós nos assustaríamos... Quantas pessoas estão mortas, para nós!)
2) Adultério: "Ouvistes: não cometerás adultério..." (eram bem mais severos para as mulheres).
Eu: "Quem olhar para uma mulher com desejo desonesto... já pecou em seu coração".
Condena: não só o ato consumado de adultério, mas também o desejo... o adultério de coração... certas amizades já são adultério... Não basta manter escondido da esposa ou do esposo as infidelidades. "Se teu olho for ocasião de queda... corta-o"... Não devemos tomar ao pé da letra, mas significa radicalidade.
3) Divórcio: "Ouvistes: aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe um certificado de repúdio".
A lei de Moisés "tolerava" o divórcio em certos casos (união ilícita), para preservar a mulher nesses casos: direito de igualdade.
Eu: "Todo aquele que repudia sua mulher, faz com que ela adultere: e quem se casa com ela, comete adultério".
Condena: o divórcio anula a tolerância da Lei mosaica e afirma a indissolubilidade do vínculo matrimonial...
Qual nossa atitude pastoral, hoje, para os separados, e os de 2ª união?
4) Perjúrio: "Ouviste: não jurarás falso...”
Eu: "Não jureis de modo algum... Vosso sim seja sim, vosso não, não. Tudo que for, além disso, vem do maligno..."
Condena: a falsidade... E por que precisa jurar? Não basta uma prática apenas externa da lei, temos que obedecer, viver o espírito da Lei.
O Sermão da Montanha nesse trecho nos ensina que a vida espiritual não está num catálogo de normas perfeitas que proíbem as más ações, mas limpeza da fonte de todas as ações: o coração. Pois dele procedem assassínios, adultérios, prostituições, falsos testemunhos e difamações.
O Salmo afirma: "Feliz quem tem vida pura e segue a Lei do Senhor".
Na 2ª leitura, Paulo fala da "Sabedoria de Deus", tão diferente da dos homens.  (1Cor. 2,6-10) E nós, como observamos os Mandamentos?
Com o espírito do Antigo Testamento? (fazer isto ou aquilo porque é lei, porque é "obrigado"?
Por que vou à missa?  Porque é um preceito? "Se a justiça de vocês não for maior que a dos escribas e fariseus... vocês não entrarão no Reino dos céus".
"Quem me ama, guarda os meus mandamentos..."
Seja a nossa observância uma expressão sincera e profunda do nosso amor para com Deus.
padre Antônio Geraldo Dalla Costa - buscandonovasaguas.com
===========================


Nossos problemas se concentram nos nossos relacionamentos. Se os relacionamentos vão bem, tudo vai bem. Um relacionamento de qualidade traz consigo vida e alegria. Um relacionamento desagradável é a morte! Nós nos sentimos mal, percebemos que estamos mal situados, respiramos o ar da amargura. A vida e a morte estão diante de nós. É bom escolher a vida.
Escolher a vida significa não matar de forma alguma, nem física, nem psíquica, nem espiritualmente; escolher a vida significa não trair ninguém em nenhuma situação; escolher a vida significa não ser falso no que se faz, no que se fala, no que se pensa.
O cristão e todas as pessoas de bom senso deveriam batalhar sempre em favor da vida nos relacionamentos humanos. Em geral se trabalha em favor da morte. Quando os jovens se encontram, ele e ela, e têm diante de si um presente e um futuro, há quem acredite estar a favor desses jovens defendendo para ambos preservativos e anticoncepcionais, aborto e divórcio. E se sobreviverem, a eutanásia. Por que não criar-lhes reais possibilidades de vida num relacionamento sadio e aberto para as grandes questões que afligem a humanidade?
Ou criar-lhes a possibilidade de um matrimônio estável e feliz, com todos os recursos de um bom emprego, moradia, acompanhamento médico, educação dos filhos? Os defensores da morte defendem o aborto como questão de saúde pública, enquanto a saúde pública não está ao alcance de quase ninguém. Não é da sabedoria dos poderosos deste mundo de que necessitamos, mas da “sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para a nossa glória”.
Eclo. 15,16-21 – Guarda os mandamentos e os mandamentos te guardarão. Deus nos concede a liberdade de opção diante da vida e da morte. Não é, porém, sinal de liberdade escolher a morte. Quem é verdadeiramente livre opta sempre pelo bem. “Deus não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar.”
Mt. 5,17-37 – Os mandamentos da Lei de Deus existem para nos ajudar nos caminhos tortuosos da nossa existência. São a expressão da sabedoria e do amor de Deus para conosco. “Não matarás” – diz o mandamento, e Jesus nos explica que não se mata só fisicamente. Mata-se também com a língua. A traição no matrimônio pode acontecer também no desejo. O autocontrole e a autodisciplina são importantes na manutenção do equilíbrio. Os mandamentos nos ajudam a ser gente de palavra. Se a sua palavra não vale nada, ninguém confiará em você. O que dizemos deve corresponder ao que pensamos.
Sl. 118 (119) – É feliz quem caminha orientado pelos mandamentos do Senhor. Que o Senhor nos ajude a guardar e viver seus ensinamentos. Nosso desejo é cumprir a vontade de Deus de todo o coração.
1Cor. 2,6-10 – Há uma Sabedoria, aquela que sai da boca do Pai, que penetrando a nossa vida nos torna verdadeiramente sábios. A sabedoria deste mundo, proclamada com tanta arrogância, está fadada à destruição. A outra, oculta, age dentro de nós, ajuda-nos a escolher os melhores meios para chegarmos ao fim que queremos atingir. No meio das variedades e urgências desta vida, orienta-nos a decidir pelo que é melhor e mais conveniente à construção de um bom relacionamento em favor da pessoa humana e da sociedade em que vivemos.
cônego Celso Pedro da Silva - www.fc.org.br
===========================

Se tua mão te leva a pecar, corta-a!
A liturgia deste Domingo  apresenta várias sugestões para que os crentes possam purificar a sua opção e integrar, de forma plena e total, a comunidade do Reino. Uma das sugestões mais importantes (que a primeira leitura apresenta e que o Evangelho recupera) é a de que os crentes não pretendam ter a exclusividade do bem e da verdade, mas sejam capazes de reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito de Deus através de tantas pessoas boas que não pertencem à instituição Igreja, mas que são sinais vivos do amor de Deus no meio do mundo.
A primeira leitura, recorrendo a um episódio da marcha do Povo de Deus pelo deserto, ensina que o Espírito de Deus sopra onde quer e sobre quem quer, sem estar limitado por regras, por interesses pessoais ou por privilégios de grupo. O verdadeiro crente é aquele que, como Moisés, reconhece a presença de Deus nos gestos proféticos que vê acontecer à sua volta.
No Evangelho temos uma instrução, através da qual Jesus procura ajudar os discípulos a situarem-se na órbita do Reino. Nesse sentido, convida-os a constituírem uma comunidade que, sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, procura acolher, apoiar e estimular todos aqueles que atuam em favor da libertação dos irmãos; convida-os também a não excluírem da dinâmica comunitária os pequenos e os pobres; convida-os ainda a arrancarem da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino.
A segunda leitura convida os crentes a não colocarem a sua confiança e a sua esperança nos bens materiais, pois eles são valores perecíveis e que não asseguram a vida plena para o homem. Mais: as injustiças cometidas por quem faz da acumulação dos bens materiais a finalidade da sua existência afastá-lo-ão da comunidade dos eleitos de Deus.                                                  
O apelo de Jesus à sua comunidade no sentido de não "escandalizar" (afastar da comunidade do Reino) os pequenos, faz-nos pensar na forma como lidamos, enquanto pessoas e enquanto comunidades, com os pobres, os que falharam nas atitudes moralmente reprováveis, aqueles que têm uma fé pouco consistente, aqueles que a vida marcou negativamente, aqueles que a sociedade marginaliza e rejeita… Eles encontram em nós a proposta libertadora que Cristo lhes faz, ou encontram em nós rejeição, injustiça, marginalização, mau exemplo? Quem vê o nosso testemunho tem razões para aderir a Cristo, ou para se afastar de Cristo?
"O nosso, acima de tudo e de todos!" Trata-se de um egoísmo coletivo, freqüentemente apoiado por um líder. O grupo se auto-afirma constantemente. É melhor que os outros. Se bastam a si mesmo. E assim temos essas dioceses ou paróquias, comunidade, movimentos, pastorais, que presumem serem melhores que as demais. Que se vangloriam de si mesmos por "fazerem as coisas tão bem feitas", pelo "espírito" que os anima, pela categoria dos seus membros. Nos "outros" vêem deficiências, erros, decadência... esses grupos protegem sua propriedade através de uma serie de requisitos e normas. Não entendem que o "espírito" tudo ultrapassa e desloca.
Os olhos dos ciúmes ou da inveja ou do fanatismo nos impedem de ver como o Espírito Santo age fora de nós. Torna-nos egocêntricos, grupo-central. Se uma pessoa é perigosa, levada pelos ciúmes e a inveja, muito mais perigoso é um grupo movido por aquele espírito ruim, com o agravante de que em grupo todos se auto-convencem de estarem com a verdade.
Os ciúmes de uma coletividade geram perseguições, clichês condenatórios permanentes, invasão de competências, tristeza ante aquele que aos demais fazem "bem", falta de generosidade e reconhecimento do "outro". Isto ocorre no terreno esportivo, político, religioso e eclesiástico. Não seria mal que neste domingo nós nos examinemos a este respeito!
Josué, levado pelo ciúme, pediu a Moises que proibisse de profetizar a quem, sem estar presente na reunião programada, foi concedido dividir seu espírito. O ancião Moises, porém, oferece ao jovem Josué um horizonte amplo e o chama à generosidade "para com os outros" e diz: "Tens ciúmes de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!".
João, também levado pelos ciúmes, comunica a Jesus que proibiu a um estranho de expulsar demônios em seu nome "porque não era do grupo". O generoso Jesus lhes pede que não proíba e que não se feche no grupo.
A arte diabólica do escândalo
Escândalo significa "armadilha que faz cair", truque que arruína e que arranca do ser humano seus melhores recursos. É evidente que há pessoas dispostas a escandalizar, normalizar o mal, tornar as pessoas insensíveis ante os valores. Existe uma rede "contra a evangelização" que tenta incapacitar o terreno e fazer que a semente da Palavra não germine.
Jesus se refere ao escândalo nas crianças ou nos jovens. A rede de escândalos é sutil. Cria um clima aparentemente inócuo, divertido, porém pouco a pouco mata a "alma", a espiritualidade e anula os melhores recursos do ser humano. O descaramento e o desejo pelo dinheiro de certos artistas, levam a não poucos a se proteger em nome de uma ética da "liberdade de expressão". O escândalo cria uma doença cheia de curiosidade, que principalmente, mata a alma do mais jovem e depois os torna insensíveis ante aos "chamados de Deus".
Não me estranha que a ira de Jesus se expressara em uma de suas frases mais duras: "se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço". Tão pouco é estranho a "radicalidade" com que Jesus nos pede que nos privemos de qualquer parte do corpo, ante o perigo de sermos movido pelo pecado. Por isso, devemos ser cautelosos ao falar, devido a nossa participação nos processos edutivos! Devemos renunciar a qualquer tipo de auto-suficiência; porque a auto-suficiência é utilizada pelo Maligno para nos fazer pecar.
Riqueza pervertida
O dinheiro que chega a minhas mãos nunca "completamente meu". Não posso utilizá-lo como desejo. É dinheiro que pertence à comunidade humana e nela, de um modo muito especial, aos mais necessitados. Como alguém disse: "toda a propriedade privada, tem uma hipoteca social".
Quando o amor olhar o dinheiro, o transformará em serviço, em dom, em instrumento de solidariedade. Quando o egoísmo olha para o dinheiro, o privatiza, o torna objeto de prazer, o oculta para um prazer não controlado.
O dinheiro é pedra de toque na hora de medir nossa qualidade de vida cristã. Por isso Jesus nos falou: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro". E hoje Tiago nos fala: "Sua riqueza está podre" e acrescenta que quem não compartilha seus bens e defrauda os trabalhadores os está assassinando.
"Ciúmes, escândalos e riqueza pervertida" são três chamadas com um único propósito: abrir o horizonte de nossa vida para o amor lúcido, transformador: descobrir o bem no outro e dar-lhe liberdade, descobrir o mal nos outros e denunciá-lo, oferecer os próprios dons aos demais e enriquecê-los.
José Cristo Rey Garcia Paredes - homiliadominical.blogspot.com
===========================

Cumprimento perfeito da Lei A Deus
Como revelador definitivo da vontade de Deus, Jesus leva à plenitude o que foi dito na Lei e nos Profetas, isto é, em toda a Sagrada Escritura. Ele não a repete ou a reconfirma simplesmente, mas a interpreta "com autoridade" e comunica a vontade de Deus que ela exprime. Por isso, ninguém mais pode prescindir de Jesus. Cada um tem de modelar a própria existência nos seus ensinamentos, pois disso depende a pertença ao Reino de Deus.
Em seus ensinamentos, Jesus ocupa-se, sobretudo, de três dimensões: relacionamento com o próximo, com a mulher e com a verdade. Ele não fornece um catálogo completo de prescrições que preencham todas as ocasiões, mas dá o princípio geral - aquilo que se poderia chamar também de "espírito" -, que deve orientar a conduta cristã em todos os âmbitos.
O primeiro trecho (cf. Mt. 5,21-26) trata da superação do conflito com o próximo. Um modo radical de superar essa situação é a eliminação da outra pessoa, o que o Antigo Testamento proíbe mediante o mandamento: "Não matar!" Mas, para Jesus, observar a lei na sua formalidade evitando o ato extremo não basta. Urge combater a má ação onde ela tem o seu nascedouro: o coração, evitando até mesmo palavras envenenadas, não permitindo que a própria conduta seja determinada por ódios e rancores. É verdade que, nos relacionamentos humanos, pode haver tensões e conflitos, mas o cristão não pode permitir que estes suprimam, nem mesmo enfraqueçam, o amor ao próximo.
O amor ao próximo, para Jesus, com o amor a Deus, além de ser o maior de todos os mandamentos, é também o resumo de toda Lei e os Profetas, e praticá-lo vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios (cf. Me. 12,33). Por isso, quando ele está em jogo, deve-se inclusive adiar a oferta a Deus e reconciliar-se com o próximo. É lógico que a reconciliação vai depender também da contraparte, mas o que Jesus quer dizer é que nada pode nos dispensar da obrigação de fazer o máximo para conseguir a reconciliação.
O trecho seguinte (cf. Mt. 5,27-32) refere-se ao relacionamento com a mulher. Nas relações maritais, não devem prevalecer as forças espontáneas e naturais do desejo e do prazer sexuais, mas sim a dignidade do amor e a comunhão de vida entre o próximo e sua mulher. 0 Antigo Testamento proibia o adultério mediante o mandamento: "Não cometerás adultério!" Mais uma vez, Jesus diz que só isso não basta e reconduz a questão à fonte, afirmando que o adultério há de ser combatido em sua forma embríonária, quando ainda é um desejo do coração.
A exortação a arrancar o olho ou cortar a mão, se ambos forem ocasião de pecado, trata-se, evidentemente, de uma força de expressão e, obviamente, não é para ser tomada ao pé da letra. Pois, ainda que se arranquem os olhos e se mutilem todos os membros, permanecem ainda a fantasia e a vontade do homem. Essa maneira de falar pretende exprimir, por um lado, a dificuldade real de se conseguir os valores propostos no sermão da Montanha e, por outro, a radicalidade e a determinação com que têm de ser buscados sem poupar esforços extremos e renúncias dolorosas, pois são decisivos para o destino do homem (cf. Mt. 7,21-27).
Ao respeito absoluto pela mulher alheia, corresponde a defesa da união com a própria esposa como um bem inalienável. A expressão "exceto em caso de fornicação", contida na proibição do divórcio, não pode ser compreendida como uma exceção. Jesus afirma que não se deve divorciar da própria mulher, de jeito nenhum, exceto no caso de "fornicação", dito também "adultério". A palavra "fornicação", em grego, pode significar aquilo que está errado na raiz e indicava os casamentos ilícitos por causa de um parentesco próximo. E assim que São Pauto se refere a um caso em que uma pessoa convivia maritalmente com sua madrasta (cf. iCor 5,1). Tais uniões, quando desfeitas, não constituem exceção à indissolubilidade do matrimônio, mas trata-se de correção, na raiz, de uma situação que já começou errada.
O tema seguinte refere-se à questão da verdade. Este problema surge do fato que, por um lado, ninguém é autossuficiente e, consequentemente, dependerá da autenticidade do próximo em muitas circunstâncias; por outro, os seres humanos nem sempre são transparentes uns corri os outros. Por isso, surgiu o costume de dizer as coisas sob juramento. Novamente, Jesus afirma que os expedientes exteriores não resolvem a questão pela raiz. Com efeito, uma pessoa pode dizer mentiras sob juramento. O que resolve mesmo é o empenho pela absoluta transparência do coração que diz: sim, sim; não, não (cf. Mt. 5,37).
Esse trecho do Sermão da Montanha nos ensina que a vida espiritual verdadeira, que resulta em autêntico relacionamento com o próximo nas relações sociais, afetivo-sexuais, na sinceridade do falar, há de ser buscada não em um catálogo de normas perfeitas que coíbem as más ações, mas na limpeza da fonte de todas as ações: o coração. Pois é dele que procedem assassínios, adultérios, prostituições, falsos testemunhos e difamações (cf. Mt. 15,19).
frei Aloísio de Oliveira, OFM conv. - www.paroquiasaosebastiao.com.br
===========================

É preciso praticar uma justiça radicalmente humanizadora.
Continuamos meditando o surpreendente e profético ensino de Jesus no "Sermão da montanha". Seu ensinamento, magistralmente resumido por Mateus, provoca tanto a alegria e o entusiasmo como a inquietação e o medo. Suas liòões estariam mostrando a caducidade e a esterilidade de toda espécie de arcabouço legal? Jesus estaria afirmando a inconsistência e a relatividade de toda instituição e propondo uma liberdade anárquica e incondicionada? E estaria se apresentando como um guru disposto a atrair e guiar indivíduos a um estado superior de consciência, a um estilo de vida livre do limite das regras e da necessidade de parâmetros pré-difinidos? Estas e outras perguntas foram enfrentadas já pelas primeiras comunidades cristã, mas ainda hoje inquietam muita gente.
"Faze que eu viva e observe a tua Palavra."
Mateus nos diz que, já nos primeiros tempos de ministério, quando Jesus se fixou em Cafarnaum e começou a anunciar o Reino dos céus, sua fama se espalhara para além da Galiléia e da Judéia e "grandes multidões o acompanhavam..." (cf. 4,24-25). Não é para menos: o anúncio de que o Reino de Deus é dos pobres, dos mansos, dos insatisfeitos e dos perseguidos despertou entusiasmo. Mas diante do Evangelho, não bastam a escuta e o anúncio. É preciso torná-lo vida e prática cotidiana.
Jesus adverte os discípulos/as desavisados/as: a acolhida da Boa Notícia do Reino de Deus comporta uma ética, um estilo de vida capaz de ultrapassar a superfície e a exterioridade da lei e mudar o modo de ver, de pensar e de se relacionar a partir das suas raízes. Neste sentido, ao gozo provocado pela Boa Notícia de que Deus está envolvido até às entranhas com o bem-estar das suas criaturas corresponde a decisão de transformar as bem-aventuranças em projeto prático de vida.
"Não pensais que vim abolir a Lei e os Profetas."
Está claro que Jesus veio desvelar o sentido e as implicâncias mais profundas das Escrituras. Ele propõe uma justiça mais séria e mais verdadeira que aquela ostentada pelos escribas e fariseus. "Não penseis que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir." Diante de João Batista, nas águas do rio Jordão, relativizando a velha e tentadora hierarquia, Jesus já havia antecipado sua visão da lei e dos costumes: "Devemos cumprir toda a justiça!" (3,16).
O que Jesus faz é introduzir duas ênfases nada desprezíveis. A primeira é a vinculação das Escrituras ao sonho de Deus, ao seu projeto de vida abundante para todos, a começar pelos últimos. Quando este vínculo é rompido ou enfraquecido, as Escrituras podem produzir o contrário daquilo que dela se espera: justificação do poder dos já poderosos; ocultamento das relações de opressão; peso que penaliza os mais fracos da sociedade; afirmação orgulhosa dos crentes diante do próprio Deus.
A segunda acentuação proposta por Jesus é a estreita ligação entre ensinar e praticar as Escrituras. Para Jesus, estava claro que os escribas e fariseus tinham se apropriado da compreensão das Escrituras mas não estavam dispostos a fazer a passagem da compreensão à ação. E esta continua sendo a grande tentação que ronda os teólogos e dirigentes religiosos. "Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus."
"Ouvistes o que foi dito aos antigos..."
Jesus oferece um primeiro exemplo de radicalização da Lei e de concretização das bem-aventuranças: o campo das tensões nas relações interpessoais. Esta questão é contemplada pelo mandamento "Não matarás!" Para Jesus, o conteúdo desta lei não se resume em evitar o homicídio. O projeto de Deus é muito mais amplo, e o percurso para um mundo humano e justo passa pela pela pacificação das relações, pela superação de posturas raivosas e de linguagens eivadas de desprezo e preconceito.
Com delicadeza e firmeza, Jesus avança e mostra que é inaceitável um culto e uma liturgia que ignoram as rupturas nas relações humanas e não se empenham decididamente na reconciliação. A vida concreta é mais importante que os ritos religiosos, e a percepção das tensões e rupturas relacionais tem primazia sobre a ortodoxia. "Deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão." E que ninguém se engane, sentindo-se justificado/a por não matar ninguém e postergando para um futuro indefinido a reconciliação. É preciso fazê-lo antes de chegar ao tribunal do incerto fim da vida.
"Eu porém vos digo..."
Jesus prossegue com duas novas exemplificações da ética do Reino, agora no âmbito das relações homem-mulher. O primeiro exemplo focaliza a questão do adultério, e afirma que a lei tem a função de educar para uma relação que não seja possessiva. "Quem olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério..." Que virtuosa pode ser uma pessoa que, mesmo não transgredindo a lei, só consegue considerar as pessoas como coisas a serem possuídas, desfrutadas e descartadas?
O Evangelho sublinha a sutileza e a seriedade do dinamismo que provoca e sustenta atitudes afetivas e sexuais descontroladas. Do olhar viciado e interesseiro, incapaz de ver a pessoa no seu mistério e na dignidade, Mateus passa à mão, que de tudo se apossa e a tudo manipula. Recorrendo a uma hipérbole, Jesus diz que precisamos cortar o mal pela raiz. É evidente que para isso não basta a probição, por mais absoluta e ameaçadora que seja. É preciso atuar mediante uma educação paciente e permanente.
Jesus reprova a dominação masculina sobre a mulher, mesmo quando vem sancionada pela cultura e pela lei. Dizer que a lei permite ou que é costume não desculpa nem  justifica. Este é o horizonte maior da concretização da ética do Reino no caso do divórcio. A permissão legal do divórcio legitimava o descompromisso do marido com a ex-companheira e garantia-lhe o direito de maltratá-la e execrá-la publicamente. A ética do Reino de Deus restringe o poder ilimitado e violento dos homens.
"Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não."
A terceira área na qual Jesus mostra o alargamento do conceito de justiça é a da comunicação e da lealdade. A lei ensinada pelos escribas e conhecida por todos proibia jurar falsamente e obrigava a cumprir as promessas feitas. No seu sentido mais profundo, o juramento é uma promessa de lealdade feita num contexto de desconfiança e até de falsidade. O costume de se referir a Deus ou a coisas valiosas denota o intento de dar solidez e credibilidade a uma palavra sobre a qual pesa a suspeita.
A proposta de Jesus é eliminar radicalmente a desconfiança e a falsidade das relações sociais. "Não jureis de modo algum!... Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não." Jesus vai muito além da probição de jurar falso e da prescrição de cumprir as promessas. Ele propõe uma comunicação franca, sincera, verdadeira e confiável. Ou seja: a ética do Reino de Deus se baseia na integridade e na coerência que unem a palavra e a ação, e isso torna o juramento inócuo e dispensável.
"Sua justiça permanece para sempre."
Diante de um ensinamento tão belo quanto desafiador, precisamos evitar duas atitudes inapropriadas para um cristão honrado e maduro. A primeira é a conclusão discretamente cínica de que a ética proposta por Jesus é bonita e desejável, mas igualmente impraticável. Sua proposta cairia bem para anjos, mas não para homens e mulheres que devem lutar pela própria sobrevivência. No máximo, a proposta de Jesus poderia regrar a vida espiritual e individual, mas seria um projeto social inviável.
A segunda postura inadequada é moralizar o ensino de Jesus, encarcerando seu espírito libertário em novas e férreas leis. Expressão disso é uma pregação que vê pecado em todo o qualquer desejo ou pensamento e é incapaz de distnguir entre um seimples sentimento e uma decisão ou projeto. Não podemos esquecer que o ensino de Jesus tem como meta passar da exterioridade do cumprimento da lei à dimensão das atitudes e convicções, assim como unir escuta, reflexão, ensino e ação.
Jesus Cristo, mestre e irmão na caminhada rumo a um mundo mais humano: ensina-nos a colocar as leis e tradições no seu devido lugar e a tomar precauções para que não se tornem instrumentos de opressão. Guia as tuas igrejas a uma justiça maior que o cinismo e a ostentação herdadas do farisaísmo. Que teu ensino e teu exemplo desenvolvam em nós uma comunicação franca e relações pacificadoras, igualitárias e solidárias. E que teu Espírito suscite em nossas comunidades a criatividade livre e a liberdade fiel, sendas que levam à uma justiça radical e humananizadora. Assim seja!
padre Itacir Brassiani msf - www.diocesedesantoangelo.org.br



Nenhum comentário:

Postar um comentário