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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Olho por olho, dente por dente!

7º DOMINGO TEMPO COMUM

23 de Fevereiro de 2014 
Evangelho - Mt 5,38-48

Comentários-Prof.Fernando


Olho por olho, dente por dente!

OLHO POR OLHO - José Salviano


        O amor ao próximo já era um preceito no Antigo Testamento.  Com Jesus, Este preceito foi melhorado, com o acréscimo dos seguintes itens:
1-Que devemos também amar os nossos inimigos;
2-Amar o próximo como a nós mesmo;
3-Amar o irmão como Jesus nos amou.  Leia mais

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SEJAM PERFEITOS COMO É PERFEITO O PAI DE VOCÊS QUE ESTÁ NO CÉU - Olivia Coutinho

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Dia 23 de Fevereiro de 2014

Evangelho de Mt 5, 38-48

Numa sociedade onde impera o individualismo, a competitividade, o povo vai se distanciando cada vez mais do projeto de Deus, tornando  indiferente aos apelos de Jesus, que vem nos trazer uma  proposta de vida nova, fundamentada no amor!
A palavra amor, ecoa nos ouvidos de todos, porém, ela só encontra ressonância no coração daqueles que se abrem ao amor de Deus!
O amor é a nossa primeira vocação, pois Deus nos criou por amor e para o amor, portanto, é o amor de Deus, infundido em nossos corações,  que nos leva a amar até mesmo àqueles que nos perseguem.
Querer o bem do outro, independente do que ele tenha feito contra nós, é amar do jeito de Jesus, é amar o outro, pelo simples fato de sermos  filhos do mesmo Pai!  
Como seguidores de Jesus, temos que fazer a diferença no mundo, amar também aqueles que não nos querem bem, se amarmos somente as pessoas  que nos amam, que diferença faremos?
O amor divino é a fonte que sustenta o amor humano, no qual, encontramos o modelo de perfeição, portanto, quem ama verdadeiramente, ama com o amor de Deus.
 Não são as diferentes formas de comportamento das pessoas, que vão determinar as nossas atitudes para com elas, e sim, o amor de Deus em nós, é este amor  que nos leva a superar qualquer forma de injustiça.
O ponto determinante do evangelho de hoje, é o amor, o amor sem fronteira, um amor que não impõe condições, que seja uma oferta de gratuidade.
As palavras de Jesus no texto de hoje, provocam-nos para um grande desafio: "amar os nossos inimigos”! Como tornar isso possível, se humanamente  estamos sempre prontos para o revide? Jesus, vem quebrar esta barreira do ego humano, nos convidando a pôr fim no círculo vicioso da vingança, nos ensinando como dar uma resposta de amor às ofensas que recebemos.
Jesus nos mostra com o seu testemunho, que não existe espaço para a vontade  humana, quando o quesito é o amor!
O amor é a presença de Deus em nós, e  se Deus é amor, quem vive em Deus,  vive no amor, ama com o coração  de Deus abraçando neste amor, até mesmo o inimigo!
“Sejam  perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu" Com estas palavras, Jesus nos convida a ser santo! Sabemos que o caminho da Santidade não é fácil, nele inclui a cruz, o desafio de amar quem não nos ama e de dar a vida, se preciso for, pela  causa do reino.
Os santos viveram  isso, por isto chegaram à perfeição!
Ser Santo, é viver no amor, é o grande  desafio de buscar a perfeição em meio às imperfeições do mundo.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia

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Evangelhos Dominicais Comentados

23/fevereiro/2014 – 7o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Mt 5, 38-48)


COMENTÁRIO

Hoje Jesus nos lembra que os mandamentos de não guardar rancor e de amar o próximo, se baseiam nesta mesma verdade: todos somos filhos e filhas do mesmo Pai!

No mundo atual, reinam divisões entre nações, religiões, classes sociais, partidos políticos e, até mesmo entre pastorais e movimentos da própria Igreja. Essas insensatas atitudes humanas levam a comportamentos totalmente contrários aos ensinamentos do evangelho. 

Jesus nos mostra que o caminho para a felicidade é bem diferente do caminho que imaginamos e que felicidade não tem a menor relação com fortunas e palácios. Já pensou... como ser feliz sem dinheiro e bens materiais? É preciso muito esforço para tentar entender essas palavras.

Não é fácil entender os ensinamentos de Jesus. Se depois de tantos anos que o conhecemos, ainda ficamos de boca aberta com suas palavras, imagine então a reação do povo em sua época. No evangelho de hoje, Jesus manda amar. Amar incondicionalmente, amar sem medidas!

Amar a quem nos ama, até que é fácil, difícil é abençoar quem nos amaldiçoa e orar por quem nos calunia. Como entender esse amor sem limites? Como amar o inimigo e fazer o bem a quem nos insulta e odeia?

Olho por olho, dente por dente, lembra? Era essa a lei dos fariseus e doutores da lei. O insulto era pago com insulto, a ofensa era paga com ofensa e, se possível, em dobro. Jesus veio para inovar, veio para mudar. A Nova Lei abomina a vingança, prega a caridade e o perdão das ofensas.

Perdoar, perdoar, perdoar sempre... esse é o novo mandamento. Para Jesus, perdão é sinônimo de amor, pois só quem ama é capaz de perdoar. Pedro, que era tão humano quanto nós, também deve ter achado um exagero quando, em outra ocasião, Jesus disse: Não perdoe somente sete, mas setenta vezes sete.

Jesus deixa claro que perdoar não é uma atitude de fraqueza, mas sim um gesto nobre de quem procura sua santificação. O desejo de Jesus é que nós, os seus discípulos da atualidade, sejamos misericordiosos como é misericordioso nosso Pai que está no Céu.

A lei de Moisés prescrevia o amor ao próximo. Jesus porém, vai mais longe; manda amar também os inimigos. Não cabe na nossa cabeça, não é fácil entender nem aceitar. O cérebro rejeita e até o coração protesta, mas é o único caminho para quem espera a recompensa eterna.

Amar alguém que pratica o mal contra nós, não significa que devemos abraçá-lo e beijá-lo. Não precisamos andar abraçados ou de mãos dadas para demonstrar amor. O amor se traduz e se manifesta no perdão, na prática do bem e na oração.

Eis a melhor e maior demonstração de amor: rezar por aquele que nos prejudica. A oração apaga o desejo de vingança e desarma o coração de quem recebeu as ofensas. A oração é um detergente eficaz, é o único capaz de limpar o coração e lavar a alma.

Coração e almas limpos são sinônimos de paz. Por tudo isso, Jesus insiste em afirmar que a verdadeira paz está reservada para quem não julgar, pois não será julgado; não condenar, pois não será condenado; perdoar, pois também será perdoado. Encerramos a nossa meditação de hoje com esta sábia afirmação: “A paz é um tesouro oculto. Só é capaz de encontrá-lo quem perdoa e esquece!”

 (2060)


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ILUMINADOS PELA PALAVRA
A liturgia dá continuidade ao Mistério celebrado no domingo anterior (6 DTC), mas com o detalhe de ir em frente, de aprofundar e mostrar as conseqüências da fraternidade para a vida social. Uma fraternidade tão intensa, quanto a divina, para que a vida humana seja pacífica e o mundo seja uma família de irmãos e irmãs, cujo Pai é Deus. É a grande utopia do Reino, que os discípulos e discípulas de Jesus são chamados a realizar em seus relacionamentos.
Neste domingo, Jesus fala de inimigos (Evangelho). Quem são eles? Na categoria de inimigos estão inclusos aqueles que nos atacam, que nos ridicularizam, que criticam nossas atitudes, que se colocam contra o projeto divino e, como os discípulos participam deste projeto, também se sentem atacados.
O preceito de amar a todos como irmãos e não cultivar o ódio no coração não é uma novidade do ensinamento de Jesus. De fato, já no Antigo Testamento, em muitas passagens, os judeus eram instruídos a colocar o amor como centro dos relacionamentos sociais, familiares e individuais. A Lei determinava não odiar o outro, porque o caminho da santidade passa pelo amor ao próximo (1ª leitura). Do ponto de vista pessoal, o cultivo do ódio no coração, faz mal a si próprio, promove o afastamento de Deus, a perda da paz e o distanciamento do outro. O outro deixa de existir. O ódio não une, divide, cria violência interior e violência relacional. O ódio é a porta da morte.
Mas, Jesus fala de novo mandamento, que abre a porta da vida. Em que sentido um mandamento já existente na Bíblia, torna-se novo em Jesus? De fato, Jesus não traz uma novidade, mas coloca algo novo no mandamento (Evangelho). O novo tem uma dimensão de horizontalidade, porque Jesus não se limita a ordenar o mandamento para quem é do meu grupo, mas para todos os homens e mulheres, de todas as raças, credos religiosos, sexo e idade. O ponto alto da horizontalidade é o amor aos inimigos; nem mesmo estes são excluídos do amor. É novo porque tem também uma nova dimensão vertical, pois o modo de amar o outro (seja amigo ou inimigo) iguala-se ao modo como Jesus amou (Evangelho), com o mesmo amor divino do Pai. Novo, principalmente, porque não nos manda amar de um jeito humano, mas de um jeito divino, que é desinteressado e busca unicamente o bem do outro (salmo responsorial). Novo porque o outro nunca é inimigo para o cristão, é sempre um irmão; novo porque o discípulo de Jesus é promotor da paz pelo amor e não com o ódio da violência; novo, finalmente, porque pertencemos a Deus (2ª leitura) e se somos de Deus nossas vidas se iluminam no amor.
Um elemento a mais e, de imprescindível importância para a vida pessoal e comunitária, são os efeitos que nascem do amor aos inimigos. Amar significa plantar o bem na pessoa, mesmo sendo inimiga. Amar é tirar do inimigo a capacidade de fazer o mal, criando condições de encontro, de diálogo e de fraternidade. O amor aos inimigos, em síntese, é a possibilidade de favorecer mudanças nos relacionamentos, qualificando-os pela tolerância, acolhimento, respeito para com quem é diferente.

ILUMINADOS PELA VIDA
Em nome da religião, e até mesmo, em nome de Jesus Cristo, os cristãos se dividiram, dilacerando o Corpo Místico de Cristo, pecaram contra a unidade da Igreja, e contra a intenção central de uma das preces do Senhor: “sint unum” — “sejam um, ó Pai, como eu e tu somos um” (Jo 17,21). Foi com tal mentalidade que os irmãos na fé deixaram de ser irmãos e passaram a ser inimigos, excomungando-se uns aos outros, denominando uns aos outros de heréticos, queimando livros e destruindo imagens. Muito sangue inocente correu e guerras religiosas nasceram por este motivo. O orgulho, o desprezo e a falta de caridade fizeram surgir agressividades até mesmo em forma de apologias, pregando que “minha Igreja é mais santa que a outra” ou então, que “quem se encontra nessa Igreja e paga bem o dízimo está salvo”. Mentalidades de ontem que se repetem hoje quando se coloca a emoção religiosa acima do Evangelho e, principalmente, acima da fraternidade.
Os inimigos de Deus, da Igreja e da religião foram combatidos com armas e com ódio. Organizaram-se campanhas e até mesmo cruzadas com aparelhagem militar. Hoje, as cruzadas são mediáticas, não caracterizadas com armas, mas com dinâmicas de marketing que, como acontecia então, deixam o Evangelho em segundo plano para disputar rankings de quem traz mais gente para suas Igrejas, medindo a força de Igrejas e Movimentos com multidões em estádios e praças públicas. Hoje, as Igrejas tradicionais procuram superar tais limites. Não existem mais heréticos, mas irmãos separados, não existem mais adversários da fé, mas interlocutores que pensam a fé de modo diferente e, por isso são respeitados e não apenas tolerados, não se considera tanto o que nos separa, mas o que une, não se condenam as religiões não cristãs, porque nelas existem valores humanos e cristãos que permitem relacionamentos fraternos.
Mas, se os bons ventos da fraternidade sopram para o exterior, nem sempre é assim no interior da Igreja e, não poucas vezes, polêmicas e até mesmo guerras marketeiras criam competições entre movimentos, pastorais, teologias e devocionalismos. Hoje, infelizmente, vemos cristãos empenhados (alguns excessivamente empenhados) em críticas ou ataques para dentro da própria Igreja ou da própria comunidade. Não surpreende esse fato, porque a Igreja sempre teve seus profetas criticados e agredidos; o que mancha essa profecia é a falta de fraternidade e a quase impossibilidade de dialogar como irmãos, em alguns casos, até mesmo dentro da Igreja. Se isso é prejudicial em nível da Igreja Universal, muito mais o é quando estas atitudes acontecem dentro de comunidades divididas em grupos, em Movimentos ou em competições, como se o outro fosse um inimigo a combater e não meu irmão e irmã de fé, que caminha ao meu lado, com o mesmo projeto de vida e alimentando-se da mesma mensagem. Não resta dúvida que, em tais casos, o Evangelho está sendo esquecido.

REFLEXÃO CELEBRATIVA
1 – A proposta divina: viver na santidade
A proposta que acabamos de ouvir na Palavra tem um ar de impossibilidade, para os dias atuais. É uma Palavra que nos convida a sermos santos, como Deus é santo: “sede santos como o vosso Pai celeste é santo”, dizia a 1ª leitura. Além disso, Jesus pede para amar até mesmo os inimigos. A bem da verdade, essa proposta parece distante de nossa realidade devido ao conceito que temos de santidade. Isso não deveria ser assim, porque a santidade é algo que vive em nossos corações como desejo, como uma “vontade” de viver em Deus, em sua santidade. A realidade da santidade divina em nossas vidas humanas é possível, desde que entremos no caminho de Deus e pautemos nossas vidas no amor, na misericórdia, no perdão e na construção da paz. Por isso, ser santo como o Pai é santo, consiste em caminhar nos caminhos de Cristo, em crescer no amor, no perdão, na doação da vida pelos irmãos e, até mesmo, amar os inimigos.
2 – O cristão tem uma distinção
Isso implica dizer que o cristão é alguém diferente. Isso mesmo. Porque você é cristão você é diferente; não é igual a todo mundo. No Evangelho que acabamos de ouvir, Jesus faz essa distinção: saudar os outros, gostar de quem gosta da gente... tudo isso qualquer um pode fazer. O cristão é chamado a fazer algo mais; ele é chamado a ir além da normalidade da boa educação. Continuará sendo educado, é evidente, mas colocará na sua boa educação um dado a mais: nós nos aproximamos do outro com o carinho e com o respeito de quem é irmão e irmã. O que nos motiva a agir deste modo é o amor. Nós cristãos vivemos (ou deveríamos viver) motivados pelo amor. Um amor tão grande que se estende a todos, inclusive aos inimigos. Por isso, o cristão não procura a revanche nem a vingança quando é agredido. Ao contrário, em vez do revide, se protege e responde com respeito e com amor. Tanto o cristão deve ser parecido com Deus que ele não fomenta brigas, violências... Em vez de brigar, dá o manto, quer dizer, está desapegado e tudo faz para promover a paz.
3 – Quem são os meus inimigos?
Mas, quem são os meus inimigos? É uma pergunta que merece ser analisada para compreender o que Jesus está querendo dizer. No conceito Bíblico, inimigos são aqueles que se opõe ao projeto divino. Aqueles que se colocam contra tudo aquilo que vem de Jesus e de seu Evangelho. Os inimigos, portanto, não têm o significado de alguém que quer o meu mal, mas se coloca contra mim porque sou cristão, porque vivo, ou procuro viver, a santidade como é ensinada pelo Evangelho. Alguns de nós, que está aqui na Igreja, sabe muito bem o que significa ser rejeitado pelo fato de ser católico ou, pelo fato de querer seguir a religião. Isso acontece dentro de muitas casas, em escolas, universidades, em locais de trabalho. Muitos de vocês sofrem perseguições e agressividades pelo simples fato de serem cristãos. A esta gente, Jesus pede que amemos, que os tratemos como irmãos e irmãs. Aqui está o caminho da santidade, porque Deus não castiga aqueles que não acreditam nele, mas os continua amando, deixando o sol nascer sobre justos e injustos. Creio que todos já ouviram ou viram imagens pela televisão de como os cristãos são perseguidos, assassinados, igrejas são destruídas em muitas partes do mundo. Mesmo assim continua válido o mandamento de Jesus para amar os inimigos.
4 – O que se ganha amando os inimigos
Eu posso me perguntar: — o que é, na prática, amar os inimigos? É o amor que se traduz pelo respeito e pelo acolhimento. É a capacidade de acolher sem agredir, sem desejar o mal para o outro. Mesmo que o outro viva num contexto de ódio, de raiva, de agressividade para comigo, eu não permito que sua agressividade, que sua violência, que seu ódio entre em mim e tome conta de mim. Se eu permitir isso, vou agir com raiva, com ódio e com violência. A violência não serve para nada, porque destrói e, muitas vezes mata. Amar os inimigos significa que eu tenho a capacidade de plantar o bem na pessoa que não me aceita, que é inimiga, que não me acolhe como amigo. Mas, o mais forte desse amor aos inimigos é que, pelo amor, eu tiro do inimigo a capacidade de fazer o mal e começo a criar condições de encontro, de diálogo e de fraternidade. Nesse caso, o amor é um exercício de paciência, de calma e de fé. O amor aos inimigos, em síntese, é a possibilidade de favorecer mudanças nos relacionamentos, qualificando-os pela tolerância, acolhimento, respeito para com quem é diferente, com quem pensa diferente de mim. O amor aos inimigos é um modo de anular, de impedir que a guerra que vive no outro, não faça guerra em minha vida. Em vez de me preparar para guerrear, eu me faço semeador do bem. Não é fácil, por isso peçamos que Deus nos ajude a sermos fortes no amor, para que a violência não tome conta de nossas vidas.
www.santuarioeucaristico.com.br

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Segundo são Tomás «Deus é simples e uno». Perante tais atributos essenciais de Deus, descobrimos a perfeição divina e nisso consiste a indefinição de Deus, porque Deus não é isto ou aquilo, Deus é.
Na medida em que descobrimos a criação de Deus, começamos a considerar que Deus é demonstrável, como ensina S. João Damasceno. Toda a obra de Deus manifesta os sinais da Sua presença. Por esta via compreende-se o apelo de Jesus: «sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». Mais, se somos criação de Deus, qual o porquê deste apelo? - Porque se, por um lado, participamos na vida divina, por outro, pela natureza, carregamos ainda a limitação essencial de sermos realidade física, material. Nesta contingência da vida deste mundo, Jesus deseja que os seus discípulos sejam capazes do amor, do perdão, da amizade e da fraternidade com todos (e como grande desafio, viver esses sentimentos até com os piores inimigos - esta é a grande novidade da religião cristã).
Em nenhum momento do Evangelho Jesus nos pede que sejamos uns "coitadinhos" que se sujeitam a todas as maldades. Jesus ensina-nos, em particular, que a intolerância e a repugnância pelos nossos irmãos são atitudes contra o Reino de Deus. Os cristãos são chamados a viver mediante uma abertura constante para o perdão e para o acolhimento dos outros tal como eles são. Não é legítimo que sejamos muito exigentes com os outros e que não sejamos capazes de viver isso que se exige. Ninguém tem autoridade para pedir aos irmãos aquilo que não é capaz de fazer. De que nos serve se manifestamos muitos escrúpulos e intolerância desnecessária diante das atitudes dos outros se depois realizamos os mesmos actos despreocupadamente e sem pudor absolutamente nenhum?
- O cristianismo que nós professamos não é uma religião de simples seguidores de um plano ou projecto político ou social. É antes uma forma de vida que nos toca por dentro, porque nos convoca para o seguimento de uma pessoa concreta que nos fala e nos desafia para atitudes de amor, isto é, os outros deixam de ser só semelhantes, para serem irmãos que devemos acolher e amar desmedidamente.
padre José Luís Rodrigues  - jlrodrigues.blogspot.com

O Evangelho de hoje abre a perspectiva do relacionamento humano que ultrapassa os limites que os homens costumam impor. Jesus convida-nos a viver o amor, que é a caridade para além dos critérios humanos.
O Primeiro Testamento mandava amar ao próximo, entendendo o amor como algo restrito à religião e à raça, simplificando-o: aos amigos a amizade; aos inimigos o desprezo.
Jesus veio aperfeiçoar essa Lei. Ele propõe que o amor deve começar pelos mais próximos, por aqueles que, por vontade divina, estão à nossa volta, devendo estender-se a todos, sem exceção, por um motivo único: todos são filhos de Deus, por isso, todos são irmãos.
Amar o inimigo, aquele que nos trata mal, que nos difama, que procura prejudicar-nos é entrar em relação direta e de verdade com aquele que também é amado pelo Pai, mas que para mim se apresenta como um problema, um empecilho para a vivência da caridade.
Amar o inimigo mostra que o amor é a capacidade de se relacionar com o diferente, com os que nos fazem viver situações conflitantes e todo discípulo é convidado a ter um comportamento que o revele como autêntico filho de Deus, amando amigos e inimigos.
O Pai é perfeito porque suporta, aceita e ama a todos sem distinção, pois esta é a forma mais perfeita de viver a caridade, a fraternidade e a justiça.
Para acabar com a inimizade e o ódio em que vivia o povo, Jesus apresenta aos pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça, o modo perfeito de ser discípulo: o amor aos inimigos e a oração por eles. Este é um desafio para todo cristão, todos os homens de boa vontade: serem capazes de uma entrega total à semelhança do Pai e de Jesus.
“Sejam perfeitos como é perfeito o Pai que está no céu”.
www.pequeninosdosenhor.com.br
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Todos somos chamados por Deus a ser santos, a tender à perfeição, como o Pai é perfeito. O caminho para chegar à plena santidade é o amor: amor a Deus e aos irmãos, amor aos que sofrem, amor a si mesmo, à família, amor à natureza, ao cosmo inteiro.
As três leituras de hoje podem ser consideradas uma forma de ingresso ao tema da “santidade pelo amor”. A primeira, é um fragmento do “código de santidade” do livro do Levítico, e apresenta uma imagem de santidade, mediada pela responsabilidade para com o próximo; isto é, que o caminho para chegar a Deus e alcançar a santidade começa com o respeito pela vida e pela dignidade do outro.
Este critério é o centro da Lei e dos Profetas, o eixo que determina nossa verdadeira relação com Deus, o elemento fundamental da fé, já que através da abertura aos demais é a forma de como nos tornamos partícipes da promessa de salvação oferecida por Deus a seu povo. Paulo, na primeira cara aos Coríntios, considera o ser humano como templo de Deus e morada do Espírito. Com isso está dizendo que cada pessoa é presença concreta de Deus na história humana.
Este templo do qual Paulo fala é a comunidade cristã de Corinto, onde a Palavra anunciada foi escutada e surtiu efeito. A intenção de Paulo é advertir os ouvintes dos perigos que circundam esse templo e que ameaçam destruí-lo. Esses perigos se encarnam naqueles que pretendem anular a mensagem de Cristo crucificado através de discursos provenientes da sabedoria humana, que recusam a vinculação e a identificação de Deus com a debilidade humana e a solidariedade de Deus para com os marginalizados da sociedade.
A mensagem de Paulo é supremamente importante, pois compreende que o verdadeiro templo onde Deus habita são as pessoas. Deus habita na vida da humanidade, nos homens e mulheres de todo o mundo, sem distinção de raça, cultura ou religião. Desta forma Paulo supera a redução da presença viva de Deus a uma construção, a paredes ou a um “lugar” específico de culto.
São as pessoas o lugar verdadeiro onde devemos dar culto a Deus; são as pessoas o lugar privilegiado onde toda nossa fé deve ser expressada, especialmente com aqueles homens e mulheres que, sendo santuários vivos de Deus, foram profanados pela pobreza, pela violência e pela injustiça social.
O elemento fundamental do projeto cristão é apresentado nesta secção do evangelho de Mateus: o amor. Este amor proposto por Jesus supera o mandamento antigo (Lv 19,18) que permite implicitamente o ódio ao inimigo. Supera-o porque é um amor que não se limita a um grupo reservado de pessoas, aos do meu grupo, aos da minha etnia, ou a meus patriotas, ou aos que me amam, mas alcança os inimigos, o que poderiam não merecer meu amor, ou inclusive poderiam merecer meu desamor.
É um amor para todos, um amor universal, expressão própria do amor de Deus que é infinito, que não distingue entre bons e maus. Ser perfeito, como Deus Pai é perfeito, significa viver uma experiência de amor sem limites, é poder construir uma sociedade distinta, não fundada na lei antiga de Talião (“olho por olho, dente por dente”, que já era uma maneira primitiva de limitar o mal da vingança), mas na justiça, na misericórdia, na solidariedade; todos esses valores fundamentados no amor.
Somos seres simbólicos e não podemos viver nossa vida isoladamente. Ao contrario, para chegar a ser necessitamos da convivência, da companhia, do diálogo a dimensão moral é uma abordagem inevitável. Não podemos conviver sem alimentar e suavizar continuamente os limites de nossas relações. Não há sociedade humana sem moral, sem direito, sem lei, sem normas de convivência.
Por sua parte, a dimensão religiosa deve incluir essa dimensão essencial. No Antigo Testamento vemos que a maior parte dos mandamentos são negativos, ressaltando o que não se podia fazer, os limites que não deviam ser transpostos. É o primeiro estagio da moral. O Evangelho dá um salto para diante. Parece não estar tão preocupado com os limites, quanto pelo “poço sem fundo” que é preciso encher, a perfeição do amor que é preciso alcançar.
Este objetivo não pode ser alcançado simplesmente evitando o mal, mas praticando o bem. Com o Evangelho na mão, não estaríamos conseguindo o bem moral supremo, a santidade, simplesmente omitindo o mal, porque poderíamos estar pecando “por omissão do bem”.
E, como disse santo Tomás, o mandamento do amor sempre resulta inexeqüível na sua plenitude, pois nunca podemos dar conta plena dele; sempre se pode amar com mais entrega, com mais generosidade e com mais radicalidade. É típica a proposta do Evangelho do amor aos inimigos, o amor humanamente mais inexeqüível e racionalmente mais dificilmente justificável.
Não obstante, à proposta desta liturgia da palavra, de uma santidade à qual se chega pelo amor, quase como em um acesso privilegiado ou quase único, teríamos de adicionar-lhe algum complemento. À santidade cristã não se chega somente por amor prático, pela prática moral ou ética.
É certo que na história das religiões o cristianismo fez fama como sendo a religião que mais organizou a prática do amor, e pelo fato de sua presença ser acompanhada sempre com as “obras de caridade” (hospitais, escolas, centros de promoção humana, leprosários, atenção aos pobres, aos excluídos...) que lhe são características.
Porém, bastará o amor? E a dimensão espiritual? A espiritualidade, a contemplação, a mística... onde andam? Obviamente, não estamos diante de uma alternativa amor-caridade/espiritualidade-mística. Os grandes santos da caridade foram também grandes místicos. Não se trata de uma alternativa (ou uma coisa ou outra), mas de uma conjunção necessária: as duas coisas. Porque as duas realidades se interpenetram perfeitamente.
De fato, o santo também é um “contemplativus in caritate”, vive a contemplação no exercício da caridade. A Espiritualidade da libertação cunhou a famosa fórmula: “contemplativus in liberatione” como uma perfeita harmonia entre ação e contemplação, prática moral e mística. Na realidade, quando se vive a mística, a moral brota espontaneamente.
Sem dúvida, o cristianismo está desafiado a mudar seu modo de alcançar a moral, que deve ser, não tanto um acesso direto, “moralizante”, insistindo nos preceitos e ameaças ou castigos, mas em um acesso indireto, pela via da mística, da experiência mística, que não deixa de ser a experiência mesma do amor.
O concílio Vaticano II, realizado há quase 50 anos, abriu um panorama até então inusitado, o do “chamado universal à santidade”, uma santidade que anteriormente muitos cristãos consideravam reservada aos “profissionais” da santidade (os monges, os religiosos, o clero, porém não o comum dos fiéis).
www.claretianos.com.br
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A liturgia do sétimo domingo do tempo comum convida-nos à santidade, à perfeição. Sugere que o “caminho cristão” é um caminho nunca acabado, que exige de cada homem ou mulher, em cada dia, um compromisso sério e radical (feito de gestos concretos de amor e de partilha) com a dinâmica do “Reino”. Somos, assim, convidados a percorrer o nosso caminho de olhos postos nesse Deus santo que nos espera no final da viagem.
A primeira leitura que nos é proposta apresenta um apelo veemente à santidade: viver na comunhão com o Deus santo, exige o ser santo. Na perspectiva do autor do nosso texto, a santidade passa também pelo amor ao próximo.
No Evangelho, Jesus continua a propor aos discípulos, de forma muito concreta, a sua Lei da santidade (no contexto do “sermão da montanha”). Hoje, Ele pede aos seus que aceitem inverter a lógica da violência e do ódio, pois esse “caminho” só gera egoísmo, sofrimento e morte; e pede-lhes, também, o amor que não marginaliza nem discrimina ninguém (nem mesmo os inimigos). É nesse caminho de santidade que se constrói o “Reino”.
Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto – e os cristãos de todos os tempos e lugares – a serem o lugar onde Deus reside e Se revela aos homens. Para que isso aconteça, eles devem renunciar definitivamente à “sabedoria do mundo” e devem optar pela “sabedoria de Deus” (que é dom da vida, amor gratuito e total).

1ª leitura – Lv. 19, 1-2.17-18 - AMBIENTE
O Livro do Levítico (assim chamado porque trata de questões preferencialmente relacionadas com o culto, que era incumbência dos sacerdotes, considerados membros da tribo de Levi) apresenta-se como um discurso de Jahwéh, no qual este explica ao seu Povo o que deve fazer para viver sempre em comunhão com Deus. Apresenta um conjunto de leis, de preceitos, de ritos, quase sempre relacionados com o culto, que o Povo deve praticar, para viver como Povo de Deus. Fundamentalmente, o Levítico preocupa-se em instilar na consciência dos fiéis que a comunhão com o Deus vivo é a verdadeira vocação do homem.
O texto que nos é proposto pertence à quarta parte do Livro do Levítico (cf. Lv. 17-26), conhecida como “lei da santidade”. O nome provém do refrão insistentemente repetido: “sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo” (Lv. 19,2; 20,7; 21,8; 22,16...).
Na teologia de Israel, Jahwéh é o Deus “santo”, quer dizer, transcendente, incomparável, inefável, inatingível, perfeito. Este Deus santo elegeu Israel, chamou-o, distinguiu-o entre todos os povos da terra, fez aliança com Ele. Introduzido na comunhão com Deus, Israel participa da santidade de Deus. É, portanto, um Povo à parte, separado dos outros, cuja vocação consiste na comunhão com o Deus santo.
Esta “eleição” conduz, necessariamente, à exigência de santidade: o Povo tem de viver de acordo com determinadas regras para manter esta comunhão de vida com Deus. Daí que o Levítico apresente as leis que devem orientar a vida do Povo, a fim de que ele possa manter-se na órbita do Deus santo e testemunhar a santidade de Deus no mundo.
Neste “código da santidade”, encontramos os temas mais diversos. Uma parte significativa das leis aqui propostas dizem respeito à vida cultual (cf. Lv. 17-18; 21-22); mas outras dizem respeito à vida social (cf. Lv 19).
MENSAGEM
O nosso texto começa com o refrão posto na boca de Deus: “sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo” (v. 2). A comunhão com o Deus santo exige que o Povo cultive, por sua vez, a santidade. Ora, ser santo significa o quê?
Na “lei da santidade”, temos disposições que dizem respeito às mais variadas dimensões da vida; mas neste caso, em concreto, liga-se a questão da santidade com o comportamento “justo” para com os irmãos, membros da comunidade do Povo de Deus. Os membros do Povo santo são convidados a arrancar as raízes do mal que crescem no íntimo do homem, de forma a que nos seus corações não haja ódio, nem rancor contra o irmão (vers. 17-18).
A expressão final “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (vers. 18) resume o comportamento que a santidade exige, quanto à vida fraterna. É, na opinião do rabbi Aqiba (que viveu entre 50 e 135 d.C.), “um princípio fundamental da Lei”. Jesus retomará esta afirmação (combinada com a de Dt 6,5) para exprimir o essencial da Lei de Moisés (cf. Mt. 22,37-39).
ATUALIZAÇÃO
• “Sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo”. Porque é que o convite à santidade soa como algo de estranho para os homens de hoje? Porque uma certa mentalidade contemporânea vê os santos como extra-terrestres, seres estranhos que pairam um pouco acima das nuvens sem se misturar com os outros seus irmãos e que passam ao lado dos prazeres da vida, ocupados em conquistar o céu a golpes de renúncia, de sacrifício e de longos trabalhos ascéticos… No entanto, a santidade não é uma anormalidade, mas uma exigência da comunhão com Deus. É o “estado normal” de quem se identifica com Cristo, assume a sua filiação divina e pretende caminhar ao encontro da vida plena, do Homem Novo. A santidade é algo que está no meu horizonte diário e que eu procuro construir, minuto a minuto, sem dramas nem exaltações, com simplicidade e naturalidade, na fidelidade aos meus compromissos?
• Como o nosso texto deixa claro, ser santo não significa viver de olhos voltados para Deus esquecendo os homens; mas a santidade implica um real compromisso com o mundo. Passa pela construção de uma vida de verdadeira relação com os irmãos; e isso implica o banimento de qualquer tipo de agressividade, de vingança, de rancor; implica uma preocupação real com a felicidade e a realização do outro (“corrigirás o teu próximo”); implica amar o outro como a si mesmo. Tenho consciência de que não posso ser santo se o amor não se derramar dos meus gestos e das minhas palavras? Tenho consciência de que não posso ser santo se vivo fechado em mim mesmo, na indiferença para com os meus irmãos (ainda que reze muito)?
• Para que a santidade não seja uma miragem, temos de ter o cuidado de viver num contínuo processo de conversão, que elimine do nosso coração as raízes do mal, responsáveis pelo egoísmo, pelo ódio, pela injustiça, pela exploração.

2ª leitura: 1Cor. 3, 16-23 - AMBIENTE
Continuamos no contexto da comunidade cristã de Corinto. Depois de apresentar a “sabedoria de Deus”, revelada em Jesus Cristo (sobretudo através da “loucura da cruz”) e oferecida aos homens (cf. 1 Cor 1,18-2,16), Paulo constata que os coríntios ainda não acolheram essa sabedoria: mantêm-se na dimensão do homem carnal (isto é, do homem fraco, limitado, pecador, escravo das suas paixões e apetites), imaturos na fé; cultivam as divisões e os conflitos, em flagrante contradição com o que Jesus lhes ensinou; correm atrás de mestres humanos como se eles tivessem a chave da felicidade e da realização plena, esquecendo que, por detrás de Paulo ou de Apolo, está Deus (cf. 1 Cor 3,1-15). Ao viverem, ainda, de acordo com a “sabedoria do mundo”, os coríntios estão a ser infiéis à sua vocação: não dão testemunho de Deus e não o tornam presente no mundo.
MENSAGEM
É por isso que Paulo pergunta: “Não sabeis que sois Templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” O Templo de Jerusalém é, no contexto do Antigo Testamento, a residência de Deus, o lugar por excelência da presença de Deus no meio do seu Povo. É aí que Israel encontra o seu Deus e estabelece comunhão com Ele.
Mas agora, considera Paulo, é a comunidade cristã que é o verdadeiro Templo da nova aliança, isto é, o lugar onde Deus reside, onde ele se manifesta aos homens e onde ele oferece a salvação. Ora, ser Templo de Deus (lugar onde Deus reside no mundo e onde os homens encontram Deus) será compatível com uma existência onde a preocupação fundamental é procurar a “sabedoria do mundo”? A comunidade de Corinto pode ser Templo de Deus onde reside o Espírito e viver no conflito, na divisão, no ciúme, no confronto?
Na segunda parte deste texto (vers. 18-23), Paulo exorta os coríntios a deixarem, definitivamente, a “sabedoria do mundo” e a pautarem a sua existência pela “sabedoria de Deus” (que é amor até ao extremo, que é dom da vida, que é cruz). E Paulo volta a recordar: a “sabedoria de Deus” parece ser loucura aos olhos do mundo; mas é nessa “loucura” que reside o segredo da vida em plenitude.
Atenção: estas afirmações de Paulo não significam que ele seja adversário de todos os valores humanos, ou que ele imponha a renúncia à ciência e ao conhecimento; significa que, para Paulo, o verdadeiro segredo da felicidade e da realização do homem não está na ciência, na técnica, na elegância dos discursos, na definição de um esquema filosófico que explique coerentemente a vida do homem; mas está em Jesus que, ao longo de toda a sua vida e, de forma privilegiada na cruz, nos mostrou que só o amor, a doação, a entrega, o serviço, geram vida plena e fazem nascer o Homem Novo.
A última frase do nosso texto é muito rica: “tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (vers. 23). Deve ser compreendida em função de 1Cor. 1,12: “cada um de vós diz: ‘eu sou de Paulo; e eu de Apolo; e eu de Cefas’”… “Não é assim”, esclarece Paulo. “Vós não pertenceis a estes pregadores; eles é que vos pertencem a vós, pois são vossos servidores. Eles estão ao vosso serviço para que vós descubrais Cristo e a ‘loucura da cruz’ e, para que por Cristo, o mediador da salvação, chegueis a Deus”.
ATUALIZAÇÃO
• Os cristãos são Templo de Deus, onde reside o Espírito. Isso quer dizer, em concreto, que, animados pelo Espírito, eles têm de ser o sinal vivo de Deus e as testemunhas da sua salvação diante dos homens do nosso tempo. O testemunho que damos, pessoalmente, fala de um Deus cheio de amor e de misericórdia, que tem um projecto de salvação e libertação para oferecer – sobretudo aos pobres e marginalizados, aqueles que mais necessitam de salvação? No nosso ambiente familiar, no nosso espaço de trabalho, no nosso círculo de amigos, somos o rosto acolhedor e alegre de Deus, as mãos fraternas de Deus, o coração bondoso e terno de Deus?
• A nossa comunidade paroquial ou religiosa é uma comunidade fraterna, solidária, e que dá testemunho da “loucura da cruz” com gestos concretos de amor, de partilha, de doação, de serviço, ou é uma comunidade fragmentada, dividida, cheia de contradições, onde cada membro puxa para o seu lado, ao sabor dos interesses pessoais?
• O que é que preside à minha vida: a “sabedoria de Deus” que é amor e dom da vida, ou a “sabedoria do mundo”, que é luta sem regras pelo poder, pela influência, pelo reconhecimento social, pelo bem estar económico, pelos bens perecíveis e secundários?

Evangelho: Mt. 5,38-48 - AMBIENTE
Continuamos com o “discurso da montanha” e com a apresentação da “nova Lei” que deve conduzir a caminhada cristã.
Vimos, no passado domingo, como Mateus estava preocupado em definir, para os cristãos vindos do judaísmo, a relação entre Cristo e a Lei de Moisés. Os cristãos continuam obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?
A perspectiva de Mateus é que Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à plenitude. No entanto, considera Mateus, a Lei tornou-se um conjunto de prescrições que são cumpridas mecanicamente, dentro de uma lógica casuística que, tantas vezes, não tem nada a ver com o coração e com a vida. É preciso que a Lei deixe de ser um conjunto de preceitos externos a cumprir para conquistar a salvação, para se tornar expressão de um verdadeiro compromisso com Deus e com o “Reino”.
Vimos como Mateus apresentava um conjunto de exemplos, destinados a tornar mais clara e concreta esta perspectiva. Dos seis exemplos apresentados por Mateus, quatro apareceram no Evangelho do passado domingo; para hoje, ficam os dois últimos exemplos dessa lista.
MENSAGEM
O primeiro exemplo que o Evangelho de hoje nos propõe (o quinto da lista) refere-se à chamada “lei de talião” (vs. 38-42). A “lei de talião”, consagrada na conhecida fórmula “olho por olho, dente por dente”, aparece em vários textos vétero-testamentários (cf. Ex. 21,24; Lv. 24,20; Dt. 19,21). Em si, é uma lei razoável, destinada a evitar as vinganças excessivas, brutais, indiscriminadas…
Jesus, no entanto, não se dá por satisfeito com uma lei que apenas limita os excessos na vingança, e propõe uma lógica inteiramente nova. Na sua perspectiva, não chega manter a vingança dentro de fronteiras razoáveis, mas é preciso acabar com a espiral de violência de uma vez por todas; para isso, Jesus propõe que os membros do “Reino” sejam capazes de interromper o curso da violência, assumindo uma atitude pacífica, de não resistência, de não resposta às provocações.
Para tornar mais clara a sua proposta, Jesus apresenta quatro casos concretos. No primeiro (vers. 39), pede que não se responda com a mesma moeda àquele que nos agride fisicamente, mas que se desarme o violento oferecendo a outra face; no segundo (vers. 40), recomenda que, diante de uma exigência exorbitante (entrega da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental, que não era tirada senão àquele que era vendido como escravo – cf. Gn. 37,23), se responda entregando ainda mais (a entrega da capa, vestimenta que servia para proteger dos rigores da noite e que, por isso, a própria Lei não admitia que fosse retida, senão por um dia – cf. Ex. 22,25; Dt. 24,12-13); no terceiro (vers. 41), exige que se acompanhe por duas milhas aquele que quer forçar-nos a acompanhá-lo por uma (provavelmente, haverá aqui uma referência a uma prática frequente das patrulhas romanas que, desorientadas, requisitavam os habitantes da Palestina para que as guiassem durante algum tempo); no quarto (v. 42), Jesus recomenda que não se ignore, nem se deixe sem atender aquele que pede dinheiro emprestado… Este conjunto de exemplos concretos aponta numa única direção: os membros da comunidade de Jesus devem manifestar a todos um amor sem medida, que vai muito além daquilo que é humanamente exigido. Dessa forma, eles inauguram uma nova era de relações entre os homens.
O segundo exemplo que o Evangelho de hoje nos apresenta (o sexto da lista) refere-se ao amor aos inimigos (vs. 43-48). Jesus afirma que a Lei antiga recomendava: “ama o teu próximo e odeia o teu inimigo”… No entanto, embora haja na Lei antiga uma referência ao amor ao próximo (cf. Lv. 19,18), não se refere, em lado nenhum, o ódio aos inimigos (o verbo “odiar” pode significar, nas línguas semitas, simplesmente “não amar”; no entanto, certos grupos contemporâneos de Jesus defendiam o ódio aos inimigos: a seita essênia de Qûmran, por exemplo, pregava o ódio contra os “filhos das trevas” – isto é, contra aqueles que não pertenciam à comunidade essênia e que estavam, portanto, entregues à vingança divina).
Em qualquer caso, o amor ao próximo recomendado pela Lei havia adquirido, na época de Jesus, um sentido muito restrito: era o amor a esse próximo mais chegado que, quando muito, chegava a incluir todos os israelitas mas que não atingia, em nenhum caso, os não membros do Povo eleito. Quando muito, o amor ao próximo atingia, na visão judaica, o compatriota, aquele que pertencia à comunidade do Povo de Deus.
O pedido de Jesus apresenta, portanto, uma verdadeira novidade e exige uma autêntica revolução das mentalidades. Para Jesus, não chega amar aquele que está próximo, aquele a quem me sinto ligado por laços étnicos, sociais, familiares ou religiosos; mas o amor deve atingir todos, sem exceção, inclusive os inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; são abatidas todas as barreiras que separam os homens.
Qual o motivo desta exigência? É porque Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, que oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (vers. 45). O amor universal de Deus é a razão do amor que os membros do “Reino” devem oferecer a todos os homens e mulheres que Deus coloca no seu caminho. “Ser filho de Deus” significa dar testemunho do amor de Deus e parecer-se com Deus no modo de agir.
A expressão final (“sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”) parafraseia o refrão da “lei da santidade” que encontramos na primeira leitura (“sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo”) e resume, de forma magnífica, o ensinamento que Mateus pretende apresentar à sua comunidade com estes seis exemplos (os quatro do passado domingo e os dois de hoje): viver na dinâmica do “Reino” exige a superação de uma perspectiva legalista e casuística, para viver em comunhão total com Deus, deixando que a vida de Deus, que enche o coração do crente, se manifeste na vida do dia-a-dia, inclusive nas relações fraternas.
ATUALIZAÇÃO
• Este Evangelho recorda-me que, ao aceitar o desafio de viver em comunhão com Deus, eu sou chamado a dar testemunho da vida de Deus diante de todos os meus irmãos e a ser um sinal vivo de Deus, do seu amor, da sua perfeição, da sua santidade, no meio do mundo. Aceito esse desafio e estou disposto a corresponder-lhe?
• A leitura que nos foi proposta coloca, mais uma vez, como cenário de fundo, as exigências do compromisso com o “Reino”. Sugere que viver na dinâmica do “Reino” implica, não o cumprimento de ritos ou de leis, mas uma atitude nova, revolucionária, que resulta de um compromisso interior com Deus verdadeiramente assumido, e manifestado em atitudes concretas. Exige a superação de uma religião feita de leis, de códigos, de ritos, de gestos externos e o viver em comunhão com Deus, de tal forma que a vida de Deus encha o coração do crente e transborde em gestos de amor para com os irmãos. O que é que define a minha atitude religiosa: o cumprimento dos ritos, a letra da lei, ou a comunhão com Deus que enche o meu coração de vida nova e que depois se expressa em atitudes de amor radical para com os irmãos?
• Jesus pede, aos que aceitaram embarcar na aventura do “Reino”, a superação de uma lógica de vingança, de responder na mesma moeda, e o assumir uma atitude pacífica de não resposta às provocações, que inverta a espiral de violência e que inaugure um novo espírito nas relações entre os homens. Não é, no entanto, esta a lógica do mundo, mesmo do mundo “cristão”: em nome do direito de legítima defesa ou do direito de resposta, as nações em geral e as pessoas em particular recusam enveredar por uma lógica de paz e respondem ao mal com um mal ainda maior. Como é que eu vejo a questão da violência, do terrorismo, da guerra? Tenho consciência de que a lógica da violência, da vingança, não tem nada a ver com os métodos do “Reino”? O que é que é mais questionante, interpelador e transformador: a violência das armas, ou a violência desarmada do amor?
• Jesus pede, também, aos participantes do “Reino” o amor a todos, inclusive aos inimigos, subvertendo completamente a lógica do mundo. Como é que eu me situo face a isto? A minha atitude é a de quem não exclui nem discrimina ninguém, mesmo aqueles de quem não gosto, mesmo aqueles contra quem tenho razões de queixa, mesmo aqueles que não compreendo, mesmo aqueles que assumem atitudes opostas a tudo em que eu acredito?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho - www.ecclesia.pt
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“Confiei, Senhor, na vossa misericórdia;
meu coração exulta porque me salvais.
Cantarei ao Senhor pelo bem que me fez” (Sl. 12,6).
Estamos entrando na quarta semana em que retornamos a leitura do Sermão da Montanha, uma das mais lindas e densas páginas da literatura bíblica e da literatura universal de todos os tempos e que nós poderíamos dizer que é o resumo dos Santos Evangelhos. Neste domingo nós iremos refletir sobre o perdão e o amor ao inimigo.
A primeira leitura (At. 6,1-7) apresenta a expansão da Igreja entre os helenistas. Continua a narração dos primórdios da ação eclesial da Igreja Católica. Seu crescimento evidentemente traz problemas. Além dos convertidos do judaísmo tradicional, entram agora na Igreja os convertidos, chamados de judeus-helenistas, que vieram das cidades comerciais da Grécia, Armênia, Síria, etc ou os pagãos convertidos anteriormente ao judaísmo, chamados de prosélitos. A organização da assistência às viúvas deste grupo provocou um novo serviço na comunidade: a instituição do diaconato. Cabe aos diáconos, prioritariamente, o “ministério dos pobres” em geral promovendo a ação social da Igreja.
São Pedro, na segunda leitura (1Pd. 2,4-9) apresenta a Igreja, Templo de pedras vivas. Já o primeiro Pontífice apresenta Nosso Senhor Jesus Cristo como a pedra angular. A presente leitura é rica em imagens, que se determinam mutuamente. Cristo é a pedra viva, rejeitada, morta, mas ressuscitada por Deus; quem a ele se une na construção, é pedra viva também. Cristo é o sacrifício “espiritual”; quem adora a ele, o é também. Por isso, somos santificadores como ele: sacerdócio real.
No Evangelho deste domingo Jesus é o caminho e a revelação do Pai (Mt. 5,38-48). A reflexão deste Evangelho nos leva a vermos que toda a perfeição consiste no amor. E o modelo da perfeição que nos é proposto é o próprio Pai do Céu. Não se trata de qualquer tipo de amor. Mas do amor gratuito, que é o amor com que Deus ama aos homens. Na Última Ceia, no sermão-testamento, Jesus manda: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei!” (Jo 13,34), isto é, com amor inteiramente gratuito. Trata-se do amor sem interesses. Do amor que é capaz de perdoar as maiores ofensas sem pedir reparação ou garantias. Do amor que é a plenitude da justiça.
Observemos em nossa volta e olhemos como as pessoas se amam: nosso amor é sempre interesseiro. A vivência do amor gratuito, no entanto, é o teste mais seguro para saber se somos cristãos de fato ou apenas de nome.
A lei de Talião, adotada por Moisés no Livro do Êxodo (21,23-25) ensinava que “olho por olho, dente por dente”. Essa errônea lei até hoje é usada pelos mulçumanos que ensangüentam o mundo com o seu proselitismo, sem respeitar as culturas ocidentais, portanto cristã, e impondo a sua fé. Esta lei estabelece que o castigo seja exatamente igual à culpa. No fundo, a lei queria proteger o culpado contra o excesso de vingança do lesado; era, portanto, positiva mas as pessoas não conseguem entendê-la plenamente. Jesus vai bem mais longe: não tirem nem procurem nenhuma vingança para aqueles que vos perseguem, vos caluniam, querem vos matar.
Nesse domingo nós devemos nos perguntar quem é o nosso próximo? No tempo de Jesus os judeus pensavam que o próximo era apenas aquele que tinha o sangue hebreu e, em certas circunstâncias, os estrangeiros vizinhos a uma casa ou a uma causa judia. Neste último caso, o estrangeiro era “próximo” só para a casa vizinha e já não era mais para as outras casas. Em lugar nenhum do Antigo Testamento se diz que o inimigo deve ser odiado. Inimigo era toda a pessoa que não observasse ou não tivesse condições de observar estritamente as leis e os costumes das tradições. Mais vezes, no Evangelho, Jesus tocou no assunto “próximo” e “amigo/inimigo”. Jesus hoje nos manda copiar o comportamento do Pai: se o Pai faz nascer o sol sobre bons e maus (Mt. 5,45), porque a criatura humana agiria diferente, querendo o sol só para os bons?
No tempo de Jesus os cobradores de impostos ou publicanos eram tidos como classe baixa e desprezível, porque a serviço dos estrangeiros colonizadores. Publicanos eram até odiados e eles deveriam se proteger mutuamente. Amavam-se por necessidade. Por isso Jesus diz que vós, fariseus, se comportais exatamente como os publicanos, porque o vosso amor é classista, é interesseiro. O vosso amor não é como o amor do Pai do Céu.
Uma pergunta hoje nos incomoda: quem de nós já não se vingou? Quantas vezes já dissemos: “Você me paga!” ou “Bem feito!” quando um dos nossos desafetos sofreu algum revés. Nunca nos aconteceu de deixarmos de falar com determinada pessoa? Negar a palavra, no fundo, é uma forma requintada de vingança. Muitos dos que participam de nossas celebrações, que comungam ou que ajudam os sacerdotes são tomados de um coração com ódio e alimentam as vinganças, muitas vezes com as próprias mãos.
Nosso Senhor Jesus Cristo, no seu Evangelho hodierno, apresenta uma grande novidade moral em três passos. Três passos novos:
1º passo: não vingar-se da ofensa recebida. Não importa o tamanho da ofensa e muito menos a qualidade.
2º passo: não fazer distinção na convivência entre os que nos fazem o bem e os que nos fazem o mal. Jesus não abre nenhuma exceção.
3º passo: amar os que nos fazem o mal. Este último passo é das exigências mais difíceis do Evangelho.
Os homens e mulheres de boa vontade fazem muitas coisas meritórias, até fáceis de serem feitas, como dar esmola, honrar pai e mãe, rezar pelos vivos e pelos defuntos, não ser orgulhoso, confessar os seus pecados, observar os dias santificados, ser puro de coração. Tudo isso até os pagãos fazem.
Agora vem a parte mais difícil: amar aqueles que nos batem no rosto, que sujam nosso nome, que nos prendem ou nos torturam, que nos rouba ou nos enganou. Somente com o amor gratuito e generoso, desinteressado, que vem do Cristo Ressuscitado, é que somos capazes de fazer isso, que não é impossível, ao contrário, com a graça de Deus nos ajuda a viver uma vida nova.
Jesus recebeu o beijo do traidor Judas e o chamou de amigo (Mt. 26,50). Jesus é negado por Pedro e não lhe tira a chefia da Igreja (Jo 21,15-17). Jesus é abandonado pelos apóstolos e reparte com eles o dom de santificar e de salvar (Jo 20,21-23). Jesus é pregado na cruz, e perdoa os seus algozes (Lc. 23,34). Jesus nos ensina a oferecer a outra face, quando alguém nos bate numa (Mt. 26,52).
Devemos copiar e prestar atenção no ensinamento de Jesus. Devemos abandonar a violência e a vingança. Violência e vida se contradizem. Violência e paz se rejeitam. Violência e piedade jamais se ajoelharão no mesmo banco de oração.
Para nós fica hoje a pergunta: Temos inimigos a perdoar? A fé lembra ao cristão os mandamentos de Deus e proclama o espírito das bem-aventuranças; convida a ser paciente e bondoso, a eliminar a inveja, o orgulho, a maledicência, a violência, ensina a tudo crer, tudo esperar, tudo sofrer, porque o amor nunca passará.
Jesus insiste conosco: ama teu inimigo. Oferece a outra face. Não paguemos o mal com o mal. Vamos nos deixar envolver no amor gratuito que Deus nos testemunhou em Jesus Cristo, dado por nós até o fim.
padre Wagner Augusto Portugal - www.catequisar.com.br

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Ser perfeito: pagar o mal com o bem
Santidade! Perfeição! É o que nos pede Jesus na liturgia deste domingo. Para começarmos a refletir sobre o assunto, podemos fazer os seguintes questionamentos: será que meus pais esperavam que eu fosse um filho perfeito? Será que eles são ou eram perfeitos? Eu espero ou exijo que meus filhos, meu cônjuge, meus amigos e as pessoas com quem eu convivo sejam perfeitas? E eu? Sou perfeito? Claro que não! Ninguém é perfeito. Mas, afinal, se constatamos que nós nem os outros são perfeitos, o que significa essa ordem de Deus para sermos perfeitos?
Na verdade, a liturgia de hoje não fala da perfeição humana, ou seja, aquela expectativa irrealista de uma pessoa ser impecável, sem erros, com os próprios esforços, o chamado pecado do perfeccionismo. No Evangelho, Jesus é claro: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”. Devemos ser perfeitos como Deus. Mas será mesmo que Jesus quis dizer que nós podemos realmente atingir a perfeição de Deus? Vamos ver o que diz o contexto e descobrir.
Na primeira leitura de hoje, do livro do Levítico: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Sim, devemos e podemos ser santos. Esta perfeição, esta santidade, porém, se refere à consciência que devemos ter de que Deus nos considera perfeitos, justos, santos em Jesus Cristo e, por isso, vamos progredindo na nossa caminhada espiritual. “Perfeição” no contexto da liturgia de hoje é a busca constante da maturidade espiritual, de pensar como Jesus pensava, de amar como ele amava, observando e imitando as suas atitudes. Sermos perfeitos como Deus seria uma coisa impossível. Mas, o próprio Deus tornou essa realidade possível. Jesus torna essa realidade possível quando ele se dignou assumir a nossa humanidade para que nós pudéssemos alcançar a sua divindade.
Jesus, o Cordeiro de Deus sem mancha, sem defeito algum, tira o pecado do mundo e através do Batismo, nos faz participantes da sua mesma vida divina. Há sim um esforço da nossa parte que é justamente cooperar com Deus para amadurecermos nele. Ser perfeito, ser santo, é ser maduro espiritualmente, é crescer espiritualmente e temos uma parte neste processo, que é justamente deixar Deus agir em nós através de Jesus Cristo, fazendo o que ele fez.
Seja qual for a definição, o livro do Levítico deixa claro que para sermos santos como Deus é santo, há que amar o próximo. Assim, já existia o comando dado por Deus de que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos. Este não é um mandamento novo dado por Jesus. Isto significava ser santo. Ser santo no original hebraico significa “separado, diferente, único”. Cada um devia amar, respeitar e ajudar ao próximo. No entanto, a palavra “próximo”, no contexto hebraico é muito limitada. “Próximo” na época em questão dizia respeito aos familiares ou àqueles da mesma tribo. O povo hebreu era convidado a cuidar e levar o bem-estar a seu próximo.
Na leitura do Evangelho de hoje, Jesus traz uma novidade. Ele amplia esse significado. Depois de ter recordado os valores que devem guiar o nosso comportamento para com o próximo, de não se encolerizar, não desejar a mulher do próximo, preservar a própria união conjugal e dizer sempre a verdade, ele apresenta ainda duas últimas antíteses, onde apresenta critérios em base aos quais devemos responder ao mal que sofremos: quando somos caluniados, ofendidos, maltratados, traídos, feridos; como devemos nos comportar para com os nossos “inimigos”!
Jesus explica que Deus não criou o mundo apenas para os judeus, mas o sol nasce para todos – até mesmo para as pessoas más. Assim, dando vários exemplos de coisas que aconteciam no cotidiano das pessoas, ele diz que precisamos amar sempre, não apenas os nossos parentes e companheiros próximos, mas todo o mundo, e tratar a todos como queremos ser tratados. Se amamos apenas aqueles que nos amam, isto não é grande coisa, pelo contrário, não há nenhuma novidade aqui.
Mas se nós amamos quem não nos ama, quem não nos conhece, quem nos desaprova, quem nos magoa, quem tenta nos prejudicar, aí sim fazemos o que ele fez. É exatamente isto que nos torna perfeitos e santos em Jesus Cristo, é pela forma como tratamos às pessoas, quem quer que seja, seja lá qual for o mal que elas tenham feito contra nós.
No salmo de hoje, o Salmo 102 (103), vemos que o Senhor é paciente, é bondoso e compassivo: não nos trata como exigem nossas faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas, é esta atitude que devemos imitar na nossa vida em comunidade, imitando Deus que como um pai se compadece de seus filhos.
São Paulo também fala sobre a santidade de Deus e como podemos ser santos. Ao contrário das várias vezes que no AT em que Deus decide residir no Santo dos Santos no Templo de Jerusalém, a partir da morte e ressurreição de Cristo, Deus agora quer morar em nós. Somos agora o Templo de Deus, e como tal fomos feitos santos. Estamos separados, não somos deste mundo, apesar de vivermos no mundo, e precisamos abandonar a sabedoria deste mundo, e nos enchermos da Sabedoria de Deus, mesmo que isso nos faça parecermos idiotas.
São Paulo enfatiza: “ninguém se iluda: se alguém de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus; só com a sabedoria que vem de Deus podemos escolher o caminho da santidade.
Ainda no Evangelho, Jesus nos mostra com alguns exemplos específicos como podemos ser considerados tolos, idiotas, bobos, frouxos, fracos aos olhos deste mundo, porém santos aos olhos de Deus. Ele dá exemplos do que fazer com as pessoas que se aproveitam ou abusam de nós basicamente fazendo o oposto do que seria de se esperar, a fim de que essa pessoa sinta a vergonha pelo mal causado e faça assim transparecer diante de todos em nós o caráter de Deus. Esta é uma das mais fortes referências ao tema de Jesus da não-violência.
No entanto, é precisa entender que Jesus não está dizendo que devemos ficar esperando passivamente que os outros aprontem de tudo contra nós. O que ele está dizendo é que nós não devemos nos vingar, sentir rancor, responder às pessoas na mesma moeda, colocar-se no mesmo nível de coração ressentido. O caso de oferecer a face esquerda para um tapa não devemos considerar ao pé da letra, mas significa que devemos afastar-nos absolutamente do sentimento de vingança.
No caso da túnica, estamos falando de uma pessoa pobre e endividada que tinha apenas a roupa do corpo que consistia na túnica interior e no manto por cima da túnica. Então, Jesus diz que se alguém mover um processo para tomar sua túnica, dê-lhe também o manto, mas nunca use a violência. Não se deve nunca usar a lei do talião, olho por olho dente por dente, o pagar na mesma moeda, mas vencer o mal com o bem.
Ao invés de encontrar meios para retaliar, devemos tratar essas pessoas com uma bondade extra, a mais, “caminhar mais um quilômetro”, mostrar generosidade, ajudá-los quando estão necessitando. Em outras palavras, a ser “próximos” de quem possa ter nos tratado mal. É fácil?
De jeito nenhum! É um dos mandamentos mais difíceis que podemos encontrar em toda a Bíblia, mas apesar de parecer ir contra os nossos próprios instintos de retaliar e vingar, é um mandamento que praticado, produz mais frutos bons na nossa vida e na vida do outro, uma verdadeira liberdade. É o caminho da santidade e da perfeição. Um caminho difícil, mas não impossível porque Deus habita em nós.
O amor aos inimigos e a oração por aqueles que nos perseguem como Igreja de Cristo tem esteobjetivo: desarmá-los, torná-los novos, porque só o amor e o perdão renova e é capaz de transformar o homem numa criatura nova.
A palavra de Deus é viva e eficaz, não tenhamos dúvida. O que Jesus diz não é pra ser questionado, mas deve ser recebido como verdadeiro. Vamos experimentar e comprovar como o Senhor é bom e nos surpreende se pagarmos o mal com o bem.
padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento - www.pecarlos.blogspot.com
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Perfeitos como o Pai
Nesse domingo, continuaremos o sermão da montanha. Jesus nos coloca a essência do seu ensinamento: o amor, para sermos "perfeitos como o Pai".
O evangelho apresenta mais dois exemplos (antíteses), que mostram a novidade de Jesus em relação a antiga lei: perdão x vingança; amor x ódio... (Mt. 5,38-48)
Perdão: "Ouvistes: dente por dente, olho por olho..."
É a conhecida lei do talião, que não pretendia autorizar a vingança, mas limitar: não podia ser maior do que a violência original...
Eu: "Não ofereçais resistência ao malvado...". Jesus cita quatro exemplos de situações de violência:
- violência física: se te bater na face direita, oferece a esquerda;
- injustiça econômica: se tomar tua túnica, dá-lhe também o manto;
- abuso do poder: se mandar andar um km., anda dois;
- empréstimo: se alguém te pedir, não vires às costas.
Na lógica dos homens é uma loucura. O próprio cristo diante da bofetada, não ofereceu a outra face... mas protestou.
A lei antiga procurava limitar a violência, mas, na prática, justificava...
Jesus: não é suficiente... o cristão deve ser um sacramento de amor e de perdão.
Perdão é uma extensão do amor. Através do perdão, o amor é confirmado e a paz se faz presente na relação humana. A não resistência ao malvado rompe o ciclo contínuo da vingança.
Perdão é cortar o mal pela raiz, extinguindo a maldade e o ressentimento. A dificuldade de perdoar impede o seguimento radical de Jesus Cristo.
Não é uma resignação fatalista, mas a não violência ativa do amor. Exemplos: M.L.King, Gandhi, dom Romero.
Suportar a injustiça não significa aprová-la, pode ser uma denúncia profética. Amar como deus ama é o núcleo do novo. Só assim podemos rezar o pai nosso: "perdoai, assim como perdoamos".
O espírito de vingança ("talião" de hoje) está bem enraizado também em nosso coração: "Quem ri por último, ri melhor..."; "Não levo desaforo para casa..."
Amor aos inimigos: "Ouviste o que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo..."
Eu: "Amai os vossos inimigos, e rezai pelos que vos perseguem..."
Já no antigo testamento encontramos: "Não guardes ódio no coração contra teu irmão"; "Não procures vingança, nem guardes rancor aos teus compatriotas"; "Amarás o próximo como a ti mesmo..." (Lv. 19,1-2.17-18)
O texto esclarece que a "santidade" que o Senhor exige não se manifesta em formas de religiosidade externa, mas no amor ao irmão.
Mas na prática, o amor ao próximo se limitava só para os compatriotas...
Jesus amplia as dimensões da caridade: amar até os inimigos...
Motivo: uns e outros são filhos de deus = irmãos...
A compreensão de que somos todos filhos do mesmo Pai e Mãe e a percepção de que seu amor é sem limites leva à fraternidade universal, à solidariedade e à partilha, vivendo-se com alegria, tendo como meta a união e a paz.
E nos apresenta um modelo: o pai celeste: "Sede perfeitos como o pai celeste é perfeito..."
A imitação de deus, na sua perfeição ou santidade, concretiza-se no amor manifestado também ao inimigo.
Trata-se de um amor gratuito e desinteressado, que supera a restrição à religião e à raça. "Desse modo vos tornareis filhos do vosso pai que está nos céus".
O amor sem distinção possibilita fazer a experiência de filhos, reproduzindo na terra a bondade do Pai celeste, que "faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos."
O amor leva a superar o espírito de hostilidade, a vingança, o ódio e o rancor, para construir a fraternidade.
Só assim nos tornamos verdadeiros filhos de Deus...
"Se amais aos que vos amam... que recompensa tendes? também os publicanos (pecadores) o fazem..."
"Se saudais os vossos irmãos... Os gentios também o fazem..."
Será um programa realizável? Ou uma utopia para sonhadores, uma loucura?
A 2ª leitura responde que é uma loucura para os homens, mas é "Sabedoria" para Deus. (1Cor. 3,16-23)
Temos inimigos a perdoar e rezar por eles? Pessoas que não gostamos ou que não gostam de nós? Qual a nossa atitude para com elas? A eucaristia que celebramos é de fato um gesto de comunhão com deus e os irmãos?
padre Antônio Geraldo Dalla Costa - buscandonovasaguas.com
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Perfeitos como o pai celeste
O modelo de perfeição apresentado por Jesus a seus discípulos visava preservá-los da mediocridade em que viviam tantas pessoas religiosas da época. Satisfeitas consigo mesmas, julgavam ter alcançado toda a perfeição possível a um ser humano. Em geral, tais pessoas estão sempre a um passo da soberba e, se auto-comparando com as demais, julgam-se superioras a todas.
Tendo Deus como modelo de perfeição, o discípulo não é exortado a ser tornar um outro deus e sim a ter sempre diante de si as virtudes próprias de Deus, deixando-se guiar por elas. Com isso, estará em condições de cultivar ideais mais elevados, sem correr o risco de se tornar mesquinho. Por outro lado, haverá de cultivar sempre a humildade, ao tomar consciência do quanto está longe da perfeição divina. Deixar-se dominar pelo desânimo seria uma atitude inconveniente ao discípulo, uma vez que desconfia de sua capacidade pessoal de seguir adiante. Isto não corresponde ao desejo de Jesus.
A busca da perfeição, inspirada em Deus, acontece na obediência ao mandato de Jesus. Entretanto, ela será infrutífera se o discípulo pretender alcançá-la por própria iniciativa, excluindo qualquer ajuda.
A perfeição é uma ação de Deus no coração do discípulo. Quanto maior for sua docilidade, tanto mais o Espírito poderá conformá-lo como o modo de ser divino.
padre Jaldemir Vitório - www.domtotal.com
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OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE
Toda Jerusalém estremeceu ao saber da morte de João, o profeta do deserto, degolado como um cordeiro de páscoa no cárcere de Maqueronte. Muitos o choravam como quem chora a um pai, como se houvessem ficado órfãos. A notícia correu de porta em porta. Pôncio Pilatos, governador romano, ordenou que se redobrasse a vigilância nas ruas da cidade para impedir qualquer revolta popular. Mas os zelotas não se acovardaram por isso...
Um zelota: Companheiros, o sangue do filho de Zacarias tem de ser vingado. Herodes cortou a cabeça de João. Que caiam as cabeças dos herodianos!
Os revolucionários zelotas esconderam os punhais debaixo das túnicas. E foram de noite ao bairro dos ourives, perto da torre do Ângulo, onde Herodes Antipas tinha seu palácio e onde viviam os herodianos, partidários do rei da Galiléia.
Herodiano: Agghhh...!
Um zelota: Um a menos... Vamos, depressa...
No dia seguinte, amanheceram as cabeças de quatro herodianos, balançando-se entre os arcos do aqueduto...
Uma mulher: Maldição! Agora degolarão nossos filhos!
Outra mulher: Que Deus ampare minha comadre Rute. Ela tem seu filho preso na Torre Antônia.
A represália dos romanos, instigados pelos cortesãos do rei Herodes, não se fez esperar... Na primeira hora da tarde, quando o sol fazia ferver a terra e ondeavam as bandeiras amarelas e pretas na Torre Antônia, dez jovens israelitas simpatizantes dos zelotas foram levados para serem crucificados no Calvário, a macabra colina onde se justiçava os presos políticos...
Um homem: Malditos romanos! Um dia pagarão por todas essas coisas!
Outro homem: Cale-se imbecil, se não quer que lhe preguem as mãos como a esses infelizes...
Diante dos dez condenados à morte, um arauto gritava com as mãos em concha junto à boca para que todos ouvissem e temessem...
Um soldado: Assim terminam todos aqueles que se rebelam contra Roma!... Assim acabarão seus filhos, se continuarem a conspirar contra a águia imperial!... Viva César e morram os rebeldes!
Um homem: Um dia vocês vão pagar, filhos de uma cadela, um dia!
Os dez crucificados ficaram agonizando toda aquela noite. Seus gritos desesperados e suas maldições eram ouvidas desde os muros da cidade. As mães dos justiçados arrancavam-se os cabelos e se arranhavam o rosto junto às cruzes, pedindo clemência para seus filhos, sem poder fazer nada por eles... Jerusalém não pôde dormir naquela noite...
Um zelota: Escute, Simão. Vamos nos reunir na casa de Marcos quando escurecer. De acordo? Avise Jesus, o de Nazaré e os de seu grupo. Que não cheguem todos juntos para não levantar suspeitas. Vai depressa!
Judas, de Kariot, e Simão o sardento, que tinham contatos com os zelotas da capital, nos trouxeram a mensagem. O grupo de Barrabás tinha um plano e queria saber se podia contar conosco...
Jesus: O que foi, Felipe? Está com medo?
Felipe: Medo não, estou aterrorizado... Uff... Quem me mandou vir a esta cidade?
Jesus: Quem não se arrisca nunca faz nada, cabeção. Eia, companheiros, vamos até lá ver o que querem de nós.
Quando o sol se escondeu atrás do monte Sion, saímos de dois em dois e fomos chegando, por diferentes vielas, à casa de Marcos, o amigo de Pedro, também simpatizante do movimento, que vivia perto da Porta do Vale... Todas as lâmpadas estavam apagadas para não chamar a atenção dos soldados que patrulhavam sem descanso até o último rincão da cidade. Os cumprimentos foram em silêncio. Depois nos sentamos sobre o chão de terra e assim, entre sombras, Barrabás, o dirigente zelota, começou a falar...
Barrabás: Cabeça por cabeça, companheiros. Herodes degolou o profeta João em Maqueronte e nós vingamos seu sangue com as cabeças de quatro traidores. Todavia, ainda nem limpamos os punhais e já temos de usá-los de novo. Crucificaram dez dos nossos melhores homens.
Um zelota: Que seu sangue caia sobre a cabeça de Pôncio Pilatos! A maldição de Deus para ele e para Herodes Antipas!
Barrabás: Pilatos pensa que vai nos assustar com isso. Pois terá de cortar toda a madeira dos bosques da Fenícia para preparar cruzes para todos os homens de Israel! Para todos nós, quando chegar o momento!
Barrabás tinha experiência do cárcere. Duas vezes os romanos o haviam agarrado e duas vezes tinha conseguido escapar, quando estava a ponto de perder a pele. Mas ainda o andavam procurando pela Peréia...
Barrabás: E então, galileus? Podemos contar com vocês?
Felipe: Contar para quê?
Barrabás: E pra que seria? Para tirar de circulação uma dúzia de romanos e outro tanto de judeus traidores. Não podemos permitir que esses esbirros levem vantagem... Muito bem, o que acham? Contamos com vocês, sim ou não?
Jesus: E depois, o que acontece?
Barrabás: O que está dizendo, nazareno?
Jesus: Digo o que acontece depois?
A pergunta de Jesus soou um pouco estranha para todos nós...
Jesus: Não sei, Barrabás... Eu o escuto falar e me recordo do pastor quando está em cima da montanha e atira uma pedra, e essa pedra rola e empurra outra pedra, e as duas empurram outras duas, e quatro e dez... e, ao final, não há quem possa deter a avalanche... A violência de que você fala é perigosa, é como uma pedra jogada do cume de uma montanha.
Barrabás: Não me venha agora com histórias, Jesus. Quem está praticando a violência são eles, não compreende?
Jesus: Claro que compreendo. Sim, eles são os que golpeiam, os que destroem, os que semeiam a morte. Mas nós não podemos nos contagiar com sua febre de sangue. Seria o cúmulo se conseguissem fazer de nós sua imagem, gente que só sabe de vingança...
Zelota: Esta bem, mas o que você quer então? Que cruzemos os braços?
Jesus: Quem cruza os braços também faz o jogo deles. Não, Moisés não cruzou os braços diante do Faraó.
Barrabás: Moisés disse: olho por olho, dente por dente.
Jesus: Sim, Barrabás... mas que olhos e que dentes? Os dos quatro herodianos que vocês degolaram ontem? Quem eram esses homens, diga-me?... Foram eles que assassinaram o profeta João?... Eram eles os culpados por toda essa injustiça em que vivemos?... Ou, ao contrário, eram uns pobres diabos, iguais a você e a mim, desses que os grandes levam e trazem e jogam pra brigar contra nós?
Barrabás: Maldição, mas como você pode falar assim? Você, precisamente, você. Será que você não se lembra de como morreu seu pai, José?
Jesus: É por isso mesmo que eu falo, Barrabás, porque sofri na própria carne a dor de ver meu pai surrado como um cachorro por ter escondido alguns conterrâneos quando da confusão em Séforis. Senti também em minha carne o desejo de vingança. Mas não. Agora penso que esse caminho não leva a parte alguma.
Zelota: E que outro caminho existe, nazareno? Nosso país precisa encontrar uma saída. E a única saída passa pelo fio do punhal.
Jesus: Tem certeza disso? Não sei, vocês do movimento querem a rebelião do povo. Mas o que eu percebo é que as pessoas estão demasiadamente resignadas. Ainda temos muitas vendas sobre os olhos. Não será necessário trabalhar primeiro para que os cegos possam ver e os surdos escutar?... O que ganhamos com revanches de sangue se o povo não entende o que está acontecendo?
Barrabás: Nós somos os guias do povo. As pessoas vão aonde as levam.
Jesus: E você não acha que isso não seria mais que mudar de jugo?... É o povo que tem de levantar-se sobre seus pés e aprender a andar seu próprio caminho. A saída terá de ser buscada entre todos, a saída verdadeira, a única que nos fará livres.
Barrabás: Suas palavras são as de um sonhador. Mas Deus não sonha tanto quanto você. É Deus que pede vingança. Em nome de Deus acabaremos com nossos inimigos.
Jesus: Você degola os herodianos em nome de Deus. E os herodianos nos crucificam em nome desse mesmo Deus. Quantos deuses há então, diga-me?
Barrabás: Há um só, Jesus. O Deus dos pobres. Se você está com Deus, está com os pobres. Se está com os pobres, está com Deus.
Jesus: Tem razão, Barrabás. Eu também creio no Deus dos pobres. O que libertou nossos antepassados da escravidão no Egito. É o único Deus que existe. Os demais são ídolos que os faraós inventam para continuarem abusando de seus escravos. Mas...
Barrabás: Mas, o quê?
A luz mortiça da lua se pendurava pelas frestas da casa e deixava ver, na penumbra, os rostos severos dos dirigentes zelotas...
Barrabás: Mas, o quê?
Jesus: Que é preciso amar a eles também.
Zelota: Amá-los? Quem?
Jesus: Os romanos. Os herodianos. Os nossos inimigos.
Barrabás: Isso é uma piada ou... ou não o entendemos bem?
Jesus: Escutem-me. E me desculpem se não expliquei bem. Mas eu penso que Deus faz nasccer todos os dias o mesmo sol sobre os bons e sobre os maus. Nós, que cremos no Deus dos pobres, temos de nos parecer um pouco com ele. Não podemos cair na armadilha do ódio.
Barrabás: Nesta escuridão, apenas lhe vejo o rosto, nazareno. Não sei se é você mesmo que me fala, este que dizem que é um profeta da justiça, ou se é um louco que está se fazendo passar por ele.
Jesus: Olhe, Barrabás. Se lutarmos pela justiça, teremos inimigos, isso já se sabe. E teremos que combatê-los, despojá-los de suas riquezas e de seu poder como fizeram nossos avós ao sair do Egito. Sim, teremos inimigos, mas não podemos fazer como eles, não podemos nos deixar levar pelo afã da revanche.
Barrabás: Vamos acabar com isso de uma vez. Isso tudo é história pra fazer criança dormir. Diga-me se está disposto a matar.
Jesus: Matar? Eu não, Barrabás.
Zelota: Então matarão você, imbecil. E você terá perdido tudo!
Jesus: Quando se ganha? Quando se perde? Você sabe?
Barrabás: Vai pro diabo, Jesus de Nazaré. Você está louco, completamente louco. Ou talvez não passe de um covarde vulgar, não sei. E vocês? Pensam como ele, estão tão loucos como ele?
Pedro ia tomar a palavra para responder, mas nesse momento se nos gelou o sangue a todos...
Um zelota: Os soldados! Os soldados estão vindo!
Outro zelota: A polícia de Pilatos! Fomos descobertos!
Outro zelota: Maldição. Estamos perdidos...
Barrabás: Depressa. Fujam pelo pátio...
Jesus: Pedro, vão vocês por aquela porta...
Pedro: E você, Jesus?
Jesus: Deixem-me aqui. Eu agüentarei os soldados até que vocês estejam longe...
Pedro: Está louco. Eles o matarão...
Jesus: Vai, vai logo...
Pedro: Mas o que você vai fazer?
Jesus: O mesmo que fez Davi com os filisteus...
Os soldados já esmurravam a porta...
Um soldado: Ei, quem está aí? Abram!
Jesus: Depressa, vão embora...!
Os da turma de Barrabás saltaram com agilidade as cercas que davam para outra rua. Nós corremos pelo pátio da casa de Marcos e desaparecemos entre as sombras. Jesus ficou sozinho.Quando abriu a porta, tremia de medo...
Um soldado: O que acontece aqui onde se ouve tanto barulho?
Jesus: Agu, agu, agu...! Rá, rá, rá... ré, ré!
Outro soldado: Quem é esse sujeito?... Olhe, o que está fazendo aqui?
Jesus: Abaixo os soldados, vivam os capitães, abaixo os centuriões, vivam os generais! Rá, rá, rá...!
Jesus tamborilava com os dedos sobre o batente da porta e olhava os soldados com um sorriso estúpido, deixando cair a saliva sobre a barba ...
Um soldado: Não tem vergonha? Tão grande e tão imbecil! Tome, para ver se aprende...!
Outro soldado: Este homem é louco. Como se não tivéssemos já bastante em Jerusalém! Para com isso, vamos embora daqui!
Jesus: Rá, rá, ré, ré...! Uff... Dessa nós nos livramos...
Ainda era noite fechada quando voltamos a encontrar todo o pessoal do grupo na taberna de Lázaro, lá em Betânia. E quando os galos cantaram, ainda estávamos conversando, trocando mil idéias. O rei Davi se fez de louco para salvar a pele. E o Moreno, com o mesmo truque, nos salvou a todos naquele dia. Sim, às vezes a astúcia serve mais que o gume do punhal.
Comentários
Ainda que os zelotas tivessem seu centro de atividade nas terras galiléias, região onde havia nascido o Movimento, atuavam também em Jerusalém. As peregrinações durante as festas lhes serviam para estabelecer alianças na capital e tinham ali grupos de simpatizantes que seguiam suas propostas. Entre os revolucionários influenciados pelo zelotismo, era muito conhecido o grupo dos sicários – terroristas armados de punhais -, que viam facilitados seus atentados nos tumultos próprios das festas. Zelotas e sicários praticavam seqüestros de personagens importantes, assaltavam fazendas e casas dos ricos e saqueavam arsenais de armas. Entendiam sua luta como uma autêntica “guerra santa”. O Deus zeloso que não tolera outros deuses (o dinheiro, o imperador, a lei injusta) lhes dava seu nome: Zelosos = zelotas. O castigo para todos estes delitos políticos contra o império romano era a morte na cruz.
Barrabás (nome aramaico que significa “filho do pai”), aparece nos evangelhos unicamente nos textos da paixão, como um delinqüente político que durante uma revolta havia matado um soldado romano. O relato o apresenta como um dos líderes zelotas de maior importância em Jerusalém. Conheceria Jesus, porque naquelas alturas, Jesus já era um homem popular, a quem começavam a escutar com esperança os pobres da capital. Sendo o movimento zelota um movimento também popular, nada tem de estranho que Barrabás buscasse se relacionar com Jesus e com seu grupo.
A chamada “lei de talião” (Ex 21,23-25): “Olho por olho...” não deve ser interpretada simplistamente como uma lei de vingança. Às vezes se pretendeu contrapor o Deus que deu a Israel esta lei “selvagem”, com Jesus, todo amor e misericórdia. É equivocada esta contraposição. A lei de talião no mundo de quatro mil anos ou mais, era uma lei de respeito à vida: ao impor um castigo que fosse exatamente igual à ofensa, buscava precisamente pôr um limite à vingança e frear a violência. O mundo antigo no qual se promulgou esta lei, era um mundo sanguinário, com povos que se impunham uns sobre os outros, nunca pelo direito, mas sempre pela força. Tudo isso deve ser levado em conta para entender qual é a posição de Jesus e qual a dos zelotas. Estes não eram animais ávidos de sangue.Eram fiéis a uma longa tradição legal e, de certo modo, válida para seu tempo. Jesus vai contrapor-lhes outro caminho. Vai empurrar ainda mais para a frente as fronteiras da possibilidade da convivência humana, falando não de uma vingança limitada, mas de outros valores. O poder da debilidade e o amor aos inimigos.
Jesus não foi um zelota. Os zelotas eram intolerantemente nacionalistas.Queriam a libertação de Israel do jugo romano, mas paravam por aí. Jesus foi um patriota, porque amou sua terra, mas não foi nacionalista, seu projeto não admitia fronteiras nem discriminações. Os zelotas eram profundamente religiosos, mas seu Deus era um Deus exclusivo do povo escolhido de Israel, que em seu reino vingar-se-ia das nações pagãs. Este nunca foi o Deus de Jesus. Os zelotas eram fervorosos defensores do cumprimento estrito da lei, ponto no qual Jesus se diferenciou deles por sua total liberdade diante da lei e da autoridade, ainda que estas fossem judaicas. No entanto, opor absolutamente Jesus e os zelotas pode nos fazer perder de vista realidades importantes: Jesus se relacionou com eles, sem nenhum tipo de reticências – alguns de seus discípulos provavelmente foram zelotas – Jesus compartilhou muitas das reivindicações sociais deste grupo, num comum e ardente desejo de que chegasse o reino de justiça, usaram inclusive expressões parecidas. As relações de Jesus com este movimento popular não podem ser despachadas com afirmações rotundas. Poderíamos dizer que o mais exato neste ponto é afirmar que o que Jesus propõe, vai mais além, inclui e supera a revolução proposta pelos zelotas.
Quanto à tática, Jesus também se diferenciou dos zelotas em sua postura frente à violência. Tanto por sua palavra quanto por sua atitude, Jesus pôs em questão a violência enquanto método. Mas este é um tema suficientemente complexo para que se queira liquidar com duas palavras, afirmando simplistamente que Jesus foi um não-violento e que o evangelho condena a violência venha de onde vier. Primeiro é preciso levar em conta que há violência tanto no ato de matar quanto no de não deixar viver, que não só existem atos de violência mas também estruturas e situações violentas. Que existem homens violentos, mas mais perigosas ainda são as sociedades violentas, nas quais a injustiça mata muitos de fome, de desemprego, de doenças, de miséria... Por outro lado, Jesus também foi violento quando enfrentou as autoridades. Sua palavra foi então duramente violenta. O foi também em alguns momentos, especialmente no ato massivo que protagonizou na esplanada do Templo. No entanto, ele não matou, foi morto; nunca instigou os seus a nenhuma forma de violência e não usou de resistência armada para salvar-se, quando seguramente poderia fazê-lo. Nesta época, na conjuntura concreta de Israel, a violência propugnada pelo zelotismo não tinha nenhuma saída, estava fadada ao fracasso e era contínuo pretexto para que os romanos desencadeassem seu poderosíssimo aparato de repressão contra o povo, tal como ocorreu no ano 70, depois de Jesus, quando Roma arrasou Jerusalém na guerra contra a subversão zelota.
É evidente que à prepotência das armas, o cristianismo opõe principalmente a força da debilidade que se esconde na palavra verdadeira e na liberdade que dá na luta o não estar apegado a nada e, portanto, o não ter nada a perder. É certo que se respondermos ao violento com violência, podemos acabar sendo tão violentos como aquele a quem pretendíamos combater. Por outro lado, é preciso recordar que desde os Padres da Igreja, passando por Santo Tomás, até Paulo VI, a Igreja defendeu o direito à insurreição armada quando se prolonga uma situação injusta e se hajam esgotado todos os meios pacíficos de superá-la.
Levando em conta todo este marco, Jesus fala do amor aos inimigos. Se não dermos um contexto a esta frase, corremos o perigo de evaporá-la, de convertê-la numa receita adocicada, carente de significado. Neste episódio, Jesus diz esta difícil palavra de amor aos inimigos, partindo de sua própria experiência. É que talvez só sabe amar de verdade o inimigo, aquele que se viu tentado a odiá-lo. Só sabe perdoar quem sofreu na própria carne o ódio do inimigo em forma de tortura, humilhação ou morte. Quem só prega o perdão e o amor de ouvido ou de palavras, tem pouca autoridade ao falar e não convence. A palavra evangélica sobre o amor ao inimigo deve ser levada muito a sério. Não se pode manipular, não se deve abusar dela. Por um lado o evangelho não nos diz que não tenhamos inimigos, mas que, tendo-os, sejamos capazes de amá-los. Isto é, o evangelho não foge do conflito. Não cria a luta, nem sequer a fomenta. Aceita-a e pretende orientá-la para o amor.
Neste episódio, Jesus não diz que se deve apresentar a outra face, mas que ele próprio a apresenta. E faz isto inspirando-se no que o rei Davi fez na terra dos filisteus para escapar dosque o perseguiam (1Sam. 21,11-16). É um gesto profético, e por isto, libertador. Com ele salvaseus companheiros. É uma forma de dizer que, se isto de apresentar a outra face é pregada como passividade ou resignação, não somos fiéis ao evangelho. Por isso se fazemos da atitude não-violenta uma forma de busca de eficácia, uma estratégia, uma astúcia, estaremos muito mais próximos de entender o que é a não-violência na mensagem de Jesus. (Mt. 5,38-48; Lc. 6,27-36)
untaljesus.net
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Continuamos na Montanha, ouvindo, silenciosamente, o Sermão de Jesus. Novas orientações estão sendo passadas. Estamos atentos, acolhendo a Palavra que vai nos conformando. Jesus fala do abandono da antiga lei e nos pede uma atitude diferente se queremos ser seus discípulos. Fala do Perdão, superação do orgulho e a caridade mútua.
Perdoar, não é fácil, a pessoa que não perdoa, fica angustiada, se remoendo por dentro, às vezes até adoece. Não é fácil esta proposta de Jesus: “se alguém te ferir, ofereça a outra face”. Rezamos diariamente a oração do Pai Nosso, e em determinado momento da oração rezamos: “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Se rezamos a oração com a afirmação que “perdoamos”, como agir de forma contrária? – O cristão deve ser consciente, não querer perdoar a outro é condenar-se a si mesmo, é ser orgulhoso.
Nos v. 40-42, Mateus narra as palavras de Jesus, que fala sobre a “caridade mútua”, que deve haver entre os cristãos. Dentro do Movimento, Pastoral, Associação que participo há esta comunhão? Será que o orgulho está em mim? Sei perdoar?
Mateus continua fiel a narração. No v. 43, escreve a citação de Jesus, que está em Lv. 19,18: “ama o teu próximo”, mas a segunda parte “odeia o teu inimigo”, não está na Lei de Moisés. Esta segunda parte foi um acréscimo feito pelos rabinos da época de Jesus, os quais entendiam por próximo só os Israelitas. Jesus quer corrigir esta interpretação. Pois para ser Seu discípulo, não se pode ter inimigos. O único inimigo do cristão é o pecado, mas não o pecador. Jesus deu-nos o exemplo, por Sua própria crucificação. Esta dificuldade precisamos enfrentar, se buscamos a perfeição cristã: amar e rezar pelos que nos perseguem e nos caluniam. Este é o verdadeiro distintivo dos cristãos.
Ao final, Jesus anuncia aos discípulos de ontem e de hoje: “sede perfeitos, como perfeito é vosso Pai”. Estas palavras são um resumo de tudo o que Jesus vem nos falando desde o 4º Domingo do Tempo Comum. Devemos tender a perfeição divina. Esta perfeição deve ser nosso modelo, apesar da distância infinita que temos Criador. Devemos buscar o MAGIS, ou seja, ser mais afetivo e generoso com o próximo, como foi Jesus. Ter o coração mais aberto ao mundo e ao próximo, como foi o coração de Jesus. Que a nossa resposta seja como a de Maria: Mais generosa e disponível. E assim, continuamos para o mais, buscando à perfeição que havemos de imitar, sobretudo deixando transparecer em nossas vidas: Seu amor, Sua misericórdia.
caritatis.com.br
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O tempo que hoje vivemos não é nada propício à doutrina da 1ª Leitura e do Evangelho desta Santa Missa. Vou repetir alguns tópicos: O Senhor dirigiu-se a Moisés e disse-lhe: “Fala a toda a assembléia dos filhos de Israel e diz-lhes: Sede Santos, porque É o Senhor, vosso Deus, sou Santo! Não odieis nenhum irmão vosso no íntimo do vosso coração..., mas amai-o como a vós mesmo!” E Jesus acrescenta: “Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa mereceis? Não fazem assim também os publicanos?! Sede, pois, perfeitos, como o Vosso Pai celeste é perfeito!” Da primeira leitura e do Evangelho advêm-nos um grande apelo à santidade e à perfeição, tendo como ponto central a caridade, a misericórdia e o perdão. Eis as virtudes mestras indispensáveis de todo o cristão e de todo o homem de Deus. Não duvidemos irmãos, este convite - exigência de Cristo compendia as Bem-aventuranças. Em Cristo, Deus deu o melhor de si mesmo e exige o melhor de cada um de nós. O cristão – eu e você - devemos ser radicalmente diferentes dos pagãos. Às vezes, nós, cristãos, não entendemos totalmente o significado de ser cristão. Ser cristão é ser alguém diferente, não apenas no comportamento, mas na própria vida... é imitar a Vida do próprio Cristo. A melhor definição que existe do bom cristão é ser santo. E ser santo significa separado, diferente dos pagãos, não propriamente em práticas religiosas, mas na prática da caridade. O apelo que Jesus nos fez à santidade e perfeição, não é só para agora, para hoje ou para amanhã, mas por todo o tempo e lugar. E em que consiste a santidade e perfeição cristãs, pergunto eu? Não sabeis? É tentar seguir e imitar Jesus Cristo. Não duvidemos: ser santo é a única maneira de ser realmente cristão. Quem não é santo e não tende à perfeição, não é propriamente cristão, mas tem apenas um verniz cristão!
Felizmente há hoje uma grande sensibilidade ecumênica e uma maior tolerância e compreensão, mas estamos ainda muito longe do ideal e de podermos rezar juntos com profunda veracidade: “Perdoai-nos, como nós perdoamos”! É difícil perdoar a quem nos ofendeu gravemente..., a quem caluniou..., a quem mesmo matou alguém nosso ente querido!
Mas a vingança, o ódio e o ressentimento não são solução! Maior grandeza de alma há em perdoar. O perdão é a melhor vingança. Não esqueçamos, meu irmão e minha irmã, as pedras que trazemos dentro de nós mesmo, para atirar aos outros, atiremo-las a nós mesmos. Sim, tanta doença psíquica por falta de perdão.
Humanamente falando, perdoar aos inimigos ultrapassa as nossas forças, mas olhando o modelo de Cristo e sua atitude para com os inimigos que o mataram, é possível, dá paz, e coloca-nos mais perto de Deus Misericordioso e Compassivo. Vamos amar o nosso próximo como a nós mesmo; melhor dizendo: como o Senhor nos amou.
Termino: à luz da Eucaristia que celebramos, o amor fraterno ganha mais sentido, pois quem sealimenta do mesmo Pão não pode desconhecer-se na vida; deve amar-se e abrir o seu amor também a todos os homens, mesmo aos inimigos. Assim será perfeito e santo.
padre Domingos - capelansaparecida.blogspot.com
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PENSAMENTOS
1) O mais grave preconceito é crer que amar é fácil. (Paul Chauchard).
2) Quem odeia é um assassino (Dostoievski).
3) Não podemos apertar as mãos se tivermos os punhos cerrados (Gandhi).
A liturgia dá continuidade ao Mistério celebrado no domingo anterior, mas com o detalhe de ir em frente, de aprofundar e mostrar as conseqüências da fraternidade para a vida social. Uma fraternidade tão intensa, quanto a divina, para que a vida humana seja pacífica e o mundo seja uma família de irmãos e irmãs, cujo Pai é Deus.
É a grande utopia do Reino, que os discípulos e discípulas de Jesus são chamados a realizar em seus relacionamentos. Neste Domingo, Jesus fala de inimigos. Quem são eles? Na categoria de inimigos estão inclusos aqueles que nos atacam, que nos ridicularizam, que criticam nossas atitudes, que se colocam contra o projeto divino e, como os discípulos participam deste projeto, também se sentem atacados. O preceito de amar a todos como irmãos e não cultivar o ódio no coração não é uma novidade do ensinamento de Jesus. De fato, já no Antigo Testamento, em muitas passagens, os judeus eram instruídos a colocar o amor como centro dos relacionamentos sociais, familiares e individuais.
A Lei determinava não odiar o outro, porque o caminho da santidade passa pelo amor ao próximo. Do ponto de vista pessoal, o cultivo do ódio no coração, faz mal a si próprio, promove o afastamento de Deus, a perda da paz e o distanciamento do outro. O outro deixa de existir. O ódio não une, divide, cria violência interior e violência relacional. O ódio é a porta da morte. Mas, Jesus fala de novo mandamento, que abre a porta da vida. Em que sentido um mandamento já existente na Bíblia, torna-se novo em Jesus? De fato, Jesus não traz uma novidade, mas coloca algo novo no mandamento. O novo tem uma dimensão de horizontalidade, porque Jesus não se limita a ordenar o mandamento para quem é do meu grupo, mas para todos os homens e mulheres, de todas as raças, credos religiosos, sexo e idade.
O ponto alto da horizontalidade é o amor aos inimigos; nem mesmo estes são excluídos do amor. É novo porque tem também uma nova dimensão vertical, pois o modo de amar o outro (seja amigo ou inimigo) iguala-se ao modo como Jesus amou (Evangelho), com o mesmo amor divino do Pai. Novo, principalmente, porque não nos manda amar de um jeito humano, mas de um jeito divino, que é desinteressado e busca unicamente o bem do outro. Novo porque o outro nunca é inimigo para o cristão, é sempre um irmão; novo porque o discípulo de Jesus é promotor da paz pelo amor e não com o ódio da violência; novo, finalmente, porque pertencemos a Deus e se somos de Deus nossas vidas se iluminam no amor. Um elemento a mais e, de imprescindível importância para a vida pessoal e comunitária, são os efeitos que nascem do amor aos inimigos.Amar significa plantar o bem na pessoa, mesmo sendo inimiga. Amar é tirar do inimigo a capacidade de fazer o mal, criando condições de encontro, de diálogo e de fraternidade.
O amor aos inimigos, em síntese, é a possibilidade de favorecer mudanças nos relacionamentos, qualificando-os pela tolerância, acolhimento, respeito para com quem é diferente.
padre Edson - www.nsgracasararaquara.com.br
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Concluímos hoje no Evangelho de São Mateus a leitura do Sermão da Montanha e ao fazê-lo deparamos com um dos maiores desafios deixados por Jesus aos seus discípulos. Olhando ao nosso redor, aos valores por que nos regemos, ou habitualmente nos deixamos reger, à forma incólume como convivemos uns com os outros, às formas de injustiça e violência que sustentamos consciente e inconscientemente na construção da sociedade, não é de estranhar que nos sintamos impotentes, desalentados perante tais realidades, e que consideremos que é mais viável cruzar os braços face aos desafios que Jesus nos coloca do que lutar por eles.
Não era mais fácil deixar-nos com o que nos foi dito no passado, olho por olho e dente por dente? Não era uma relação de forças mais equilibrada, equivalente? Não estava tudo tão bem ordenado? Sabíamos quais eram os nossos direitos e também os nossos deveres face à violação desses mesmos direitos, pagávamos na mesma moeda, nem mais nem menos. E tudo ficava resolvido.
Aliás essa lei, esse equilíbrio, era já uma evolução, um sinal de equilíbrio e perfeição, pois já não nos deixávamos levar pelo ódio e pelo desejo de destruir tudo à nossa volta, de destruir tudo o que era do outro, apenas pagava com o mesmo mal o mal provocado. Como se diz “quem a ferros mata a ferros morre”, e tudo ficava resolvido. Ou mais ou menos.
Contudo, e como nos diz Jesus, foi para a perfeição que ele veio habitar entre os homens, para nos revelar a perfeição de Deus, e para nos encaminhar na perfeição através do aperfeiçoamento da lei pela qual nos regíamos e regemos. E por isso a lei da reciprocidade tinha que sofrer uma evolução, tinha que ganhar um outro grau de exigência e radicalidade, não podia continuar num equilíbrio tão frágil e propenso à destruição.
E é essa perfeição que Jesus hoje nos aponta, quando numa série de adágios nos coloca perante a necessidade de nos ultrapassarmos a nós próprios, de lutarmos contra a nossa propensão natural para a violência e a resposta imediata, e de através de gestos e actos inusitados e até incompreensíveis revelarmos a outra face possível da realidade, a face eternamente divina.
Desta forma a primeira proposta de Jesus vai no sentido da recusa da resposta violenta, no sentido da libertação do círculo de violência através da não resistência ao homem mau. Pode contudo parecer uma cobardia, uma fraqueza, uma falsa humildade, até um acto que pode também ele ser tomado como violento, e por isso, para que seja verdadeiramente interruptor do ciclo de violência Jesus convida-nos a desarmar pelo abandono vulnerável, oferecendo também a outra face.
Nesse momento estamos completamente na mão do outro, à sua disposição, e isso pode revelar-lhe a irracionalidade do seu acto, o exagero, assim como o nosso dom e o desejo de fraternidade para além de tudo. A iniciativa da entrega mostra o amor sem medida e a fraternidade almejada. Renuncia-se à reacção simétrica e à reciprocidade em virtude de uma opção pelo dom e pela iniciativa da oferta sem retribuição.
Mas se este enunciado já não é simples e nos confronta diariamente com a nossa propensão para o equilibro de forças e a reciprocidade de pagamentos, Jesus vai mais longe e eleva ainda mais o grau do desafio ao convidar-nos a renunciar à equivalência até mesmo no bem, a romper com os nossos sistemas de similitudes.
Assim, face à facilidade de nos relacionarmos pacificamente com aqueles que nos são próximos, que nos são semelhantes, que estão de acordo connosco e partilham do nosso clã, Jesus convida-nos a olhar o outro como sempre outro, e a reconhecer no outro que pode ser o inimigo a possibilidade de um caminho para a alteridade irredutível. Assim o inimigo, o outro desconhecido, é sempre a possibilidade de uma relação na medida em que sendo alteridade pode ser reconhecido e reconhecer-nos. Fazendo eco do que ainda há dias dizia o frei José Augusto Mourão numa conferência, “é possível comunicar com o inimigo mas não com quem é mau”. E assim descobrimos que aquele que é o outro não é aquele que está próximo de nós, mas aquele, ou aqueles, de quem nos aproximamos, a quem damos essa possibilidade de uma relação e de comunicação.
Não podemos assim deixar de reconhecer e concluir que, à luz das palavras de Jesus, são o dom e a capacidade de doação e entrega, os meios capazes de transfigurar e superar a violência, os mecanismos da morte e da destruição. Só o que se dá e quem se dá pode gerar vida e manifestar essa outra realidade tão importante na vida e mensagem de Jesus que é a da filiação, o facto de sermos filhos de Deus.
Assim, quando Jesus conclui o Sermão da Montanha solicitando-nos a ser perfeitos como o Pai do Céu é perfeito, não nos está a atirar com uma carga demasiado pesada, uma impossibilidadeangustiante face à perfeição de Deus, e nem nos está a escravizar a um novo código moral feito de exigências desumanas. Bem pelo contrário, fazendo apelo à lei, Jesus revela a forma diferente de agir do Pai, uma forma que não se funda na perfeição escrupulosa da lei, mas na perfeição da dimensão filial, na perfeição da via do amor filial. E é essa perfeição que todos nós devemos procurar viver com o auxílio da graça de Deus.
vitaefratrumordinispraedicatorum.blogspot.com
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