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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 20 de março de 2014

3º DOMINGO QUARESMA


3º DOMINGO QUARESMA

23 de Março de 2014 

JESUS E A SAMARITANA - José Salviano



TEMOS SEDE DE DEUS

         O mundo está sedento de Deus, muito embora não queira ouvir falar de Deus.  Ou seja, o ser humano tenta saciar a sede de Deus nos bens materiais, no prazer, na diversão, e quanto mais se embrenha por caminhos outros na busca da água, mais sede está sentindo. Pois somente a verdadeira fonte de água viva é que sacia a nossa sede. Continua...


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“SENHOR, DÁ-ME DESTA ÁGUA...” – Olívia Coutinho

3º DOMINGO DA QUARESMA

23 de Março de 2014

Evangelho de  Jo 4,5-42

    
Continuando a nossa caminhada com Jesus, rumo a uma nova Jerusalém, somos despertados a dar um sentido  novo a nossa existência, abandonando tudo que nos distancia do coração do Pai! 
A liturgia colocada diante de nós, neste tempo especial, nos convida a percorrer o mesmo caminho que Jesus percorreu rumo à cruz, um percurso que deve  ser marcado pelo acentuar da no nossa  oração, pela  meditação da palavra,  pelo nosso propósito de  conversão.
Somos caminheiros da esperança, caminhando  rumo a  Páscoa do Senhor,queremos beber  da água viva que jorra do coração misericordioso de Jesus!
A  cada dia, desta nossa caminhada quaresmal,  vamos mergulhando cada vez mais no  oceano do amor do Pai, firmando os nossos passos no exemplo de Jesus.
 O evangelho de hoje, nos convida a um encontro pessoal com Jesus, a entrarmos na sua intimidade, chegar ao seu coração e nos deixar inundar com água viva que nos purifica, que mata a nossa sede, que nos liberta...
 É o amor do Pai, infundido em nossos corações,  que nos faz reconhecer Jesus como o Nosso Salvador, o enviado do Pai, o Deus vivo que veio morar conosco!
O belíssimo  diálogo entre Jesus e a samaritana, é algo extraordinário que nos enche de alegria e esperança! Na narrativa podemos  perceber como Jesus se comportava  diante dos preconceitos morais, de raça, das discriminações sociais, religiosas, existentes na humanidade, Jesus reprovava todo tipo de exclusão. 
Sabemos que  naquele tempo, existia uma barreira intransponível entre judeus e samaritanos, os judeus  julgavam-se  superiores, os escolhidos de Deus,  eles  acreditavam que uma aproximação com Deus, só seria possível, mediante o conhecimento e a "prática  da lei," entretanto, eles não aceitaram a mensagem de Jesus, viviam o contraste da palavra de Deus! Já, os samaritanos, que eram considerados fora da lei pelos judeus, acolheram Jesus como o Messias, o Salvador!
Podemos tirar várias lições deste belíssimo encontro de Jesus com a samaritana! Um encontro de libertação que transformou a vida de uma mulher marginalizada.
É Jesus quem dirige a ela e lhe pede água de beber: ”Dê-me de beber”! Isso nos mostra a natureza humana de Jesus: querer depender do outro!  É assim que todos nós deveríamos  sentir: dependentes uns dos outros! Corações entrelaçados é certeza de uma vida mais feliz!
No desenrolar daquele diálogo com linhas poéticas, aquela mulher redescobre a si mesma, sente-se liberta, restaurada diante  do Messias tão esperado! Jesus  escuta, acolhe, promove aquela mulher sem nome, fala com ela, de uma água que transborda de seu coração! Jesus encontra fé, onde para os judeus, parecia impossível encontrar.
A alegria da samaritana é tão grande, que a partir daquele encontro com Jesus, ela torna-se missionária do seu próprio povo! De evangelizada, passa a ser evangelizadora,  levando a mensagem de Jesus para o seu povo, que até então, não conhecia a verdade que liberta!
Graças ao seu testemunho, muitos samaritanos puderam  fazer uma experiência pessoal com Jesus, bebendo da única água que verdadeiramente mata a sede!
Aproximando-se de uma mulher pagã,  Jesus quebra a barreira do preconceito, reafirmando  que a sua  proposta, é para todos!
 A samaritana  acolhida por Jesus,  representa o povo  excluído, seja por motivo de pobreza, gênero, raça ou religião.
Quem faz a experiência de Jesus em sua vida, bebendo da água viva que brota  do seu coração, não continua o mesmo, pois esta água viva, tem o poder de nos purificar de nos  modificar por inteiro, de nos tornar parecidos com Ele!
Não precisamos sair em busca de outras  fontes para saciar a nossa sede, se temos  bem perto de nós, está a fonte de água viva que é  Jesus!
Que as lições tiradas deste evangelho, nos transforme em afluentes deste rio de água viva, que é Jesus! É  Ele  que nos conduzir  ao imenso oceano de amor, que é  o coração do Pai!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia Coutinho

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Evangelhos Dominicais Comentados

23/março/2014 – 3o Domingo da Quaresma

Evangelho: (Jo 4, 5-42)

No Evangelho deste domingo, através de seu diálogo com uma samaritana, Jesus nos dá o exemplo de como deve ser o relacionamento entre irmãos e, nos ensina como entrar em sintonia com uma pessoa necessitada de Deus. No diálogo com uma desconhecida, Jesus revela a fonte da verdadeira felicidade.

Este texto é rico de símbolos e significados. Naquele tempo, a água era valorizada e o poço tinha um significado todo especial. Longe do poço era impossível sobreviver. Hoje, temos água encanada. Nós a recebemos em casa sem nenhum sacrifício, por isso nem sequer nos damos conta do quanto a água é preciosa.

Basta abrir a torneira e a temos em abundância. Como num passe de mágica, ela aparece. Tornou-se tão cômodo o acesso à água, que ela acabou sendo desvalorizada e negligenciada. Sem o menor cuidado, desperdiçamos e poluímos. Pelo visto poucos se lembram de que sem água, não há vida. 

Antigamente o poço era um local de encontro. Junto ao poço os pastores se encontravam para dar de beber ao seu rebanho. Ali paravam os comerciantes com suas mercadorias e as mulheres vinham buscar água para os seus afazeres. Neste evangelho, Jesus despreza as normas e conversa com uma mulher. Já pensou? Jesus conversando com uma mulher?


Um judeu jamais falava em público com uma mulher e muito menos com uma samaritana, pois os judeus eram inimigos dos samaritanos. Jesus se coloca acima de preconceitos e diferenças religiosas. Tudo que Jesus deseja é que a mulher se converta e viva. No gesto humilde de pedir-lhe água, ele lhe oferece da água viva que vai transformar sua vida e fazê-la feliz.

Jesus vai além, mostrando à mulher que o verdadeiro culto a Deus é bem diferente daquele culto que os judeus e os samaritanos lhe prestavam. Aos poucos ela vai conhecendo Jesus. Com um jeito de ensinar todo seu, Jesus leva a mulher a descobrir que ele é o Messias esperado.

Assim que encontrou Jesus, já convertida, a samaritana assume seu apostolado. Torna-se uma evangelizadora e vai logo procurar seus amigos e vizinhos. Quer que também eles se encontrem com Jesus, o Messias esperado, o único que pode dar da água viva, que jorra para a vida eterna.

Todo encontro com Jesus nos transforma. Na oração, na meditação de sua Palavra, Ele nos converte para o bem e nos desperta para o serviço ao próximo. A samaritana não se limitou a conversar com Jesus. Conversou o tempo necessário e foi correndo anunciá-lo, pois todos precisavam saber que o Messias já havia chegado.

Essa samaritana deve ser imitada. Assim que entendeu a mensagem, ela correu para anunciar. Devemos fazer exatamente o que ela fez, pois é isso que Jesus espera de cada um de nós! Não basta ficar só conversando com Deus, é preciso divulgar, proclamar, é preciso anunciá-lo.

A oração nos fortalece. Sem ela nada é possível, porém a oração não deve tornar-se um ato isolado. A oração se completa através da ação. É preciso anunciar, apresentar Jesus ao mundo, pois todos precisam conhecê-lo e amá-lo. É missão do cristão sair a campo, subir nos telhados e gritar que o Messias já chegou.

Vamos ensinar o caminho da Fonte Inesgotável para todos aqueles que têm sede de justiça, de fraternidade e de amor. O mundo inteiro precisa saber desta verdade: Jesus, a Água Viva, é a verdadeira Paz e está presente no meio de nós! Pense bem... poderia haver notícia melhor?

(1581) 

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A Quaresma é tempo de caminho para a santa Páscoa, Páscoa de Cristo e nossa. Ora, é pelo batismo e a eucaristia que entramos misteriosamente na Páscoa do Senhor, no seu mistério de morte e ressurreição. Por isso celebramos a Noite Santa de Páscoa com o batismo e a eucaristia! Pois bem, o Evangelho de hoje é uma belíssima catequese batismal!
Acompanhemos passo a passo este texto belíssimo. “Chegou uma mulher da Samaria para buscar água”. Essa mulher, essa samaritana, essa pagã, representa os povos não-judeus, os que ainda não conheciam o Deus verdadeiro. Eles vêm, sedentos, procurando uma água que não sacia definitivamente; eles têm de voltar sempre ao poço, buscam saciar a sede de tantos modos, e continuam sempre com sede: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo”. Consumismo, sexo, liberdade desenfreada, droga, poder, dinheiro, ciência sem ética nem limites, facilidades... nada disso sacia de modo definitivo o nosso coração! Jesus provoca a mulher: “Se conhecêsseis o dom de Deus e quem é que te pede ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”. Frase estupenda! O Dom de Deus é o Espírito Santo; é ele á água que jorra para a vida eterna. Em Jô. 7,37, Jesus convidou: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba aquele que crê em mim”. E o Evangelista recorda que do seio do Messias sairão rios de água viva, o Espírito Santo (cf. Jô. 7,38). E quem é que pede de beber? O Messias, isto é, o Ungido com o Espírito, o doador do Espírito, da água que nos sacia de vida eterna!
Diante disso, a Samaritana – e nós também – suplica: “Senhor, dá-me dessa água!” Esta água só pode ser recebida no sacramento do Batismo! Como aquele outro pedido: “Senhor, dá-nos deste pão” (Jô. 6,34). Eis o Batismo; eis a Eucaristia! É assim que a vida de Jesus nos chega! Mas, não se pode receber o Batismo sem primeiro se reconhecer pecador, sem primeiro confessar seu pecado e buscar a remissão no Espírito Santo que Jesus dá! Quem não se humilha diante do Senhor, quem não se reconhece pecador, não beberá dessa água! Por isso, Jesus revela o pecado da mulher, toca seu ponto fraco, fá-la reconhecer-se indigna, não para envergonhá-la, mas para libertá-la com a verdade: “Vai chamar teu marido!” A mulher era adúltera, com vários maridos, como os pagãos, com seus vários deuses! Jesus, então, revela que os pagãos adoram o que não conhecem, porque “a salvação vem dos judeus!” Interessante o ecumenismo de Jesus: não mascara a verdade, não nega a verdadeira fé, em nome de um falso diálogo! A salvação vem dos judeus, porque é dos judeus que Cristo vem – ele, o único verdadeiro Salvador, fora do qual não há nem pode haver salvação alguma! Há tanto teólogo sabido esquecendo isso! Por outro lado, o judaísmo vai ser superado: “Está chegando a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e Verdade” e não mais em Jerusalém! Eis: quando Cristo der o seu Espírito, é nesse Espírito de Verdade, Espírito de Cristo, recebido nas águas do Batismo, que a humanidade encontrará a Deus! Esses são os adoradores que o Pai procura, pois a salvação definitiva vem de Cristo, presente nos sacramentos da sua Igreja católica, sobretudo no Batismo e na Eucaristia! É nele que judeus e pagãos são chamados a formar um só povo de verdadeiros adoradores!
Finalmente, o misterioso diálogo de Jesus com os apóstolos: “Tenho um alimento que não conheceis: o meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”. O alimento de Jesus é levar o Reino do Pai a todos os povos, judeus e pagãos! É o que Jesus acabara de fazer com a Samaritana... e ela está chamando outros até Jesus. Por isso, Jesus diz: "Levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! O ceifeiro já está recebendo o salário e recolhe fruto para a vida eterna! Um é o que semeia, outro o que colhe!" O Senhor está semeando para que os Apóstolos colham depois da Páscoa! Mas, a conversão daqueles samaritanos é já um sinal e uma antecipação da colheita, da conversão dos pagãos.
Que dizer mais? Somos a colheita de Cristo! “Estamos em paz com Deus por Jesus Cristo”. Porque fomos batizados nele, vivemos na esperança, pois já experimentamos em nós a vida eterna, pois “o amor de Deus foi derramado como água em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado!” E tudo isso, graças ao que Cristo semeou com sua morte, tornando-se grão que dá fruto para a vida eterna! Eis que prova de amor tão grande o Pai nos deu! Eis em que consiste o Reino que Jesus veio anunciar e trazer! Eis a obra do Pai, que é o alimento de Jesus!
Eis! Na sede do nosso caminho de vida e de Quaresma, olhemos para Jesus, aproximemo-nos dele, o Rochedo que, ferido na cruz, de lado aberto, faz jorrar a água do Espírito para o seu povo peregrino e sedento. O mundo, tão sedento, procura matar a sede em tantas águas sujas, envenenadas, águas que matam! Que nós matemos nossa sede no Cristo, novo Rochedo, que jorra a água do Espírito, que dura para a vida eterna! Que ele alimente nosso caminho quaresmal até a Páscoa da glória!
dom Henrique Soares da Costa
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Deus é a fonte de todos os bens. Acompanha com carinho os seus filhos e filhas na caminhada desta vida. Fornece-lhes alimento e força a fim de que seu projeto de vida digna para todos se realize no mundo. É preciso caminhar com a certeza de conquistar a terra prometida por Deus, onde a justiça e a paz se abraçam. O povo de Deus não pode cair na tentação de voltar atrás e acomodar-se dentro de sistemas que exploram e matam. Deus caminha com seu povo e o liberta das opressões. Os conflitos e as dificuldades fazem parte do processo de construção de um mundo novo (I leitura). Jesus é “Deus conosco”, a água viva que sacia a nossa sede de plenitude. Ele nos ensina o caminho de superação dos legalismos e nacionalismos que dificultam a aproximação e o diálogo entre pessoas e povos. Ele nos proporciona a possibilidade de reconhecer o rosto de Deus nas tradições e culturas diversas e, assim, adorá-lo “em espírito e verdade” (Evangelho). São Paulo, na carta aos Romanos, demonstra que a fé em Deus torna a pessoa justa. Isso acontece por meio de Jesus Cristo, que entregou sua vida por amor a todos nós, pecadores (II leitura). Por ele, caminhamos na esperança que não decepciona, pois ele nos salvou gratuitamente.
1º leitura (Ex. 17,3-7): Deus caminha com seu povo
O povo de Israel caminha pelo deserto, em processo de libertação da escravidão do Egito. O tempo passa, as dificuldades aumentam. O entusiasmo dos primeiros momentos do êxodo dá lugar a reclamações. Aparece a tentação do desânimo e da volta ao regime anterior. De fato, a água é elemento essencial para a sobrevivência do povo. Como não reclamar numa situação dessas?
O povo põe-se na dependência da liderança. Jogam as dificuldades aos pés de Moisés e o condenam por tirá-los do Egito. Moisés poderia argumentar que ninguém os obrigou a sair de lá. Porém, não os condena e dirige-se a Deus para expor-lhe o problema que os aflige. Deus sempre ouve a oração quando acompanhada do empenho pelo bem comum. Junto com as demais lideranças (os anciãos), Moisés testemunha a ação gratuita de Deus em favor dos que murmuram. Estes estão em processo de aprendizagem. Ao chegarem à terra prometida, organizados em tribos, saberão organizar uma sociedade nova de forma participativa e administrá-la de forma corresponsável.
A vida itinerante caracteriza-se por inseguranças, perigos, cansaços... A formação do povo de Israel deu-se num processo de caminhada, de tensões entre grupos e de descoberta de princípios orientadores para uma convivência pacífica. A utopia da terra prometida conservou-lhe a resistência e o ânimo para caminhar. Isso seria impossível sem a fé na providência divina.
A rocha representa a impossibilidade radical do ser humano de encontrar, por si só, saídas para suas crises e problemas de toda ordem. É a ilusão de achar que tudo se pode solucionar com os recursos inventados pela lógica humana. Porém, somente a fé em Deus possibilita as verdadeiras soluções que garantem vida para todos os povos. Somente a certeza de sua presença viva faz com que a história humana se torne história de libertação. Deus é fonte de vida. É generosamente providente: oferece gratuitamente todos os recursos necessários à vida de seus filhos e filhas.
Evangelho (Jo 4,5-42): Jesus, a água viva
Como sabemos, os samaritanos são considerados inimigos históricos dos judeus. São um povo de raça mista e possuem outra concepção religiosa. Para um judeu, ser chamado de “samaritano” era enorme ofensa. A origem dessa hostilidade remonta ao tempo da invasão assíria no Reino do Norte, em 722 a.C., quando a cidade de Samaria foi destruída e boa parte da população deportada. A região foi povoada por colonos assírios que se casaram com hebreus. Mais tarde, no período pós-exílico, o sistema religioso do templo de Jerusalém exclui os samaritanos.
Jesus passa pela região de Samaria, na cidade de Sicar (antiga Siquém), onde fora enterrado Josué, o sucessor de Moisés. Jesus está fatigado e senta-se à beira do poço que era do patriarca Jacó. Na tradição judaica, o poço representa a garantia da água oferecida por Deus ao povo, como a água jorrada da rocha durante o êxodo. O poço é figura do culto e da Lei judaica, cuja autoria era atribuída a Moisés. Da observância da Lei e do culto brotava a água viva da Sabedoria. A ideia dominante era de que o poço da água viva era o próprio templo de Jerusalém.
Jesus está em caminhada. Chega ao local do poço à “sexta hora”, o que corresponde ao meio-dia. É a mesma hora em que Jesus vai ser condenado à morte (19,14). É o final de sua caminhada. Com sua morte, Jesus se torna o Caminho para todos os que o seguem. Jesus, ao sentar-se no poço, está na verdade revelando que ele mesmo é o poço da água viva. Toma o lugar da Lei, do culto, do templo... João vai dizer que Jesus, ao morrer, vai ser traspassado por uma lança e do seu lado sairão sangue e água (19,34).
A mulher representa o povo samaritano com sua tradição religiosa. Os seus “cinco maridos” são uma referência aos cinco deuses cultuados pelos antepassados (cf. 2Rs 17,29-32). Jesus oferece à mulher o verdadeiro culto, que é ele próprio. De fato, quem toma a iniciativa do diálogo é o próprio Jesus, que pede água. Corresponde à atitude do próprio Deus da aliança, que sempre busca o seu povo, apesar de suas infidelidades. A samaritana (o povo impuro e marginalizado), não os líderes religiosos de Jerusalém, reconhece Jesus como o Messias, fonte de onde jorra água para a vida eterna.
A grande novidade de Jesus é a proposta de total mudança de mentalidade com relação a Deus: ele o chama de Pai. E, como Pai de todos, não necessita de determinado lugar para ser cultuado: nem na Samaria, nem em Jerusalém. A mudança de mentalidade também significa entrar numa nova relação com o próximo, a qual derrubará as barreiras entre judeus e samaritanos. Ambos os povos poderão adorar a Deus já não com rituais fixados pela rigidez legalista, mas “em espírito e verdade”.
Sendo Deus a fonte de todo amor e de toda vida, Pai de todos os povos, deseja ser adorado de modo verdadeiro em todos os lugares. Ele busca pessoas que o adorem com lealdade. Jesus, o Filho, viveu o amor desta maneira: na fidelidade ao Pai, deixou-se conduzir pelo Espírito da Verdade. Do coração de todos os que seguem Jesus brotam rios de água viva, pois saberão amar como ele amou.
2º leitura (Rm 5,1-2.5-8): A nova condição humana
Paulo, nos capítulos anteriores ao texto da liturgia deste domingo, procurou convencer os judeus de que a justificação se dá pela fé, sem a necessidade das obras da Lei. Percebe-se que, mesmo no interior da comunidade cristã, há pessoas de origem judaica, apegadas à tradição legalista, com dificuldades de aceitar a doutrina da graça divina.
A partir do capítulo 5, vemos Paulo debruçado sobre os traços que caracterizam uma pessoa que, pela fé em Jesus Cristo salvador, passou a ser uma nova criatura. Ele parte da certeza de que fomos justificados pela fé, de forma definitiva. Aceitar essa verdade é entrar numa nova condição humana conferida pela graça de Deus. O primeiro efeito desta é a paz com Deus. Podemos viver agora permanentemente sob abundantes bênçãos divinas. É um estado de bem-estar e alegria. A graça nos confere inteireza pessoal e capacidade de relacionamento fraterno com o próximo.
A paz que provém da fé e é graça de Deus, concedida plenamente em Jesus Cristo, também nos liberta do medo da condenação. Aproxima-nos de Deus de tal modo, que podemos amá-lo e glorificá-lo em tudo o que somos e fazemos. Portanto, o estado de graça nos conserva na harmonia com nós mesmos, com os outros, com a natureza e com Deus. O ser humano, assim, está revestido de imortalidade já nesta vida mortal.
O pecado já não tem poder sobre a graça. A inimizade com Deus foi definitivamente derrubada pela reconciliação que Jesus, pela sua morte, trouxe à humanidade pecadora. Essa regeneração do gênero humano o torna capaz de viver na vontade divina, na certeza da realização plena. Vive-se, então, na esperança que não decepciona. Ela firma nossos passos e não nos deixa na confusão, nem na dispersão, nem na timidez, nem no desapontamento. Ela se alicerça na certeza do amor sem limites de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo e não por meritocracia. Tanto judeus como gentios recebem o dom da reconciliação e da paz. O amor de Deus derramado sobre todos os povos é força ativa, capaz de mudar o mundo.
PISTAS PARA REFLEXÃO
– Deus liberta o povo da escravidão do Egito. Caminha com ele pelo deserto. Mesmo quando o povo se queixa e duvida da presença de Deus, este não o condena nem o abandona. Ouve a oração de Moisés e das outras lideranças e faz nascer água da rocha. Sacia a sede do povo para que este não desanime na caminhada para a terra prometida. Essa caminhada de 40 anos é lembrada pela Igreja, de modo especial, neste tempo da Quaresma. É preciso caminhar com perseverança, confiando na presença de Deus. Ele ouve nossas preces, nos perdoa e nos acompanha na caminhada de nossa vida. É tempo de superar os queixumes e arregaçar as mangas para que a terra que Deus nos deu seja realmente a casa de todos, conforme nos interpela a Campanha da Fraternidade.
– Jesus tomou a iniciativa de ir ao encontro dos samaritanos, que eram inimigos dos judeus. Estabelece um diálogo com a mulher, representante do povo da região da Samaria. Do diálogo nasce a mútua compreensão. Por meio do diálogo, Jesus se revela: ele é a fonte de água viva. Para manter a intimidade com Jesus, bebemos de sua palavra e nos alimentamos de seu corpo na eucaristia. Além de nos saciar, tornamo-nos fonte de água viva. Como fez a samaritana, tornamo-nos discípulos missionários, portadores da boa notícia da salvação de Deus para todos.
– Uma vez reconciliados com Deus, é impossível não irradiar seu amor. Assim fez são Paulo, a ponto de entregar-se totalmente como ministro da reconciliação. Muitos caminhos que o mundo moderno nos oferece dificultam a compreensão e a acolhida da graça divina e a paz entre pessoas e povos. Vivemos dispersos, divididos, confusos, inseguros, apegados aos bens materiais, à fama, ao que nos satisfaz momentaneamente... Somente a paz que vem do amor de Deus é capaz de construir a família humana e nos realizar verdadeiramente. Para isso, precisamos resgatar o valor do silêncio, da meditação da palavra de Deus, da oração pessoal, familiar e comunitária, da contemplação, do cuidado e da promoção dos direitos comuns.
Celso Loraschi
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A mulher que passou a ter sede
Quaresma, tempo de renovação dos compromissos cristãos. Tempo do catecumenato na historia da Igreja. A mulher de Samaria nos ajuda a viver em nós a busca da água que dessedenta.
A cena se passa junto ao poço de Jacó. Tema da água. Um mulher vem buscar água com seu cântaro. Uma samaritana. Jesus está cansado. Era por volta do meio dia. Senta-se à beira do poço.  Tem sede, mas na realidade da simbólica joaneica, ele tem uma água para oferecer. Conversa vai, conversa vem, as coisas avançam. A mulher estranha  esse judeu que conversa com ela, esse inimigo de seus povo. Ele pede água. “Dá-me de beber”. Nessa conversa Jesus vai tentando questionar a vida da mulher e fazer com que ela se dê conta de quem é esse pedinte de água.  Ele tem uma água viva. Jesus avança:  “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: Dá-me de beber, tu mesma lhe pedirias a ele e ele te daria a água viva”. A mulher começava a se desarrumar interiormente. Alguém a conhecia muito bem. Sabia ate as coisas de sua vida particular, o monte de maridos que teve. E tudo chega ao ápice: “Eu sou o Messias”.
Água, sede, batismo. O Messias se aproxima daqueles que o desejam, daqueles que têm um coração inquieto, os que não estão satisfeitos com as mesmices ritualísticas da vida. Os satisfeitos com suas coisas, sem profundas inquietações, sem sede de Deus podem mesmo ser batizados, mas sem garganta sedenta. Na história do catecumenato cristão são conhecidos homens e mulheres que certamente viveram a experiência sugerida por Jesus: conheceram o dom de Deus e tiveram vontade de ser de Cristo, sem formalismos e rotinas.    Nunca, como em nossos dias, foi tão necessário cultivar o desejo de Deus. Há pessoas desmotivadas. Há vidas sem ânimo. Há famílias, há comunidades paroquiais e de vida consagrada sem o indispensável fogo interior e ardor do coração. A Quaresma é um tempo em que somos convidados a ter sede da água que Cristo pode dar.
A Quaresma é também tempo de renovar o banho salutar do batismo. Sede de Deus e banho de purificação. Há o poço de Jacó, o peito aberto de Cristo, há ás águas do Mar Vermelho, as águas do rochedo do deserto, as águas do dilúvio.  Num tempo de retomada da iniciação cristã dos começos, a pastoral da Igreja pode e deve retomar os temas patrísticos do batismo.
Terminamos esta reflexão com este belo pensamento do prefacio deste domingo: “Ao pedir à samaritana que lhe desse de beber, Jesus lhe dava o dom de crer. E, saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor”.
frei Almir Ribeiro Guimarães
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O Dom da água viva
No início da Igreja, a Quaresma era o tempo de preparação dos catecúmenos para o batismo, e na terceira semana, quando prestavam o exame de admissão (os “escrutínios”), liam-se os grandes textos batismais do evangelho de João (caps. 4,9 e 11).
Na liturgia renovada, eles figuram no 3º, 4º e 5º domingos do ano A
(podendo ser usados nos anos B e C, se quem preside assim o preferir).
A 1ª leitura e o evangelho de hoje relacionam-se como figura e realização: a água pedida pelos israelitas no deserto prefigura a água viva que Jesus dá. Mas a água exigida pelos hebreus era coisa que eles conheciam e queriam; murmuraram até, pondo Deus à prova (cf. também salmo responsorial). A samaritana, pelo contrário, não conhece nem pede o dom que Jesus, misteriosamente, lhe oferece. Jesus tem de conduzi-la para além de sua incompreensão. E assim, ela mesma provoca a busca dos samaritanos, que acabam se dirigindo a Jesus.
A liturgia de hoje focaliza a água no sentido simbólico que se apresenta no batismo. Significa o dom de Deus, que é Jesus mesmo. E como nos explica a 2ª leitura, esse dom de Deus é gratuito: seu representante, seu Filho, deu sua vida por nós enquanto éramos seus inimigos! Receber essa água, no batismo, é deixar-se envolver com esse amor gratuito de Deus em Jesus Cristo, é comprometer-se com essa imensurável bondade. Isso só é possível porque Deus amou primeiro (1Jo 4,10).
O canto de entrada, o prefácio (próprio) e o canto da comunhão de hoje acentuam esse simbolismo da água. As orações insistem mais na conversão.

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O batismo, “água viva”
A água é tão vital que sua escassez até poderá provocar uma terceira guerra mundial. Sem água não há vida. Quando os hebreus no deserto desafiaram Deus exigindo água, Deus lhes deu água física (1ª leitura). No evangelho, Jesus conscientiza a mulher samaritana de sua sede bem mais profunda, não por água material, mas por “espírito e verdade”. Esta sede é aliviada pelo dom de Jesus Cristo.
Ele é a “água viva”, que acaba definitivamente com a sede e faz o mundo viver para Deus. Paulo, na 2ª leitura, evoca “simbolismo da água para falar do amor de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. O batismo é a efusão do Espírito sobre os fiéis.
Esse dom de Deus é gratuito. Os hebreus, no deserto, desconfiaram de Deus e acharam que deviam desafiá-lo. Mas o dom do Espírito trazido por Cristo, que dá sua vida por nós, e pura graça. Nem sequer conseguimos pedi-lo como convém, porque ultrapassa o que pedimos. Por isso, devemos deixar Deus converter e educar o nosso desejo, para que nosso desejo material nos leve ao desejo da vida no Espírito.
Por outro lado a consciência do dom espiritual (= divino) não leva a desprezar o desejo materialista daqueles que realmente estão necessitados. O desejo fundamental conforme a vontade de Deus orienta também a busca dos bens materiais necessários e sua justa distribuição.
Precisamos de verdadeira “educação do desejo”. Nossa sociedade consumista não “cultiva” o desejo, mas exacerba-o e o torna desenfreado. Em vez disso, devemos aprofundar nosso desejo, para que ele reconheça a sua meta verdadeira: a “água viva”, Cristo, o dom de Deus na comunhão com o nossos irmãos... O desejo da água natural significa o desejo de viver. Aliviada a sede, o desejo continua. Qual é o seu fim? O desejo não é pecado: é bom, é vital, mas deve ser orientado; através das criaturas para seu verdadeiro fim, o Criador.
A Quaresma é na tradição da Igreja, o tempo da preparação para o batismo. A água do batismo significa uma realidade invisível, aponta para a satisfação de nosso grande desejo: a vida que Cristo nos dá, o Espírito de Deus, derramado em nossos corações. A “educação” de nosso desejo pode ser a preparação da renovação do nosso compromisso batismal. E a melhor pedagogia para isso é começar a não mais satisfazer qualquer desejo mesquinho e egoísta, mas concentrar nossa vida em torno do desejo profundo - material e espiritual – de nós mesmos e dos nossos irmãos.
Johan Konings "Liturgia dominical"

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A conversa com uma mulher samaritana revela como Jesus se comporta diante dos preconceitos morais, de raça e das discriminações sociais existentes na humanidade.
Naquele tempo, uma grande inimizade prevalecia entre judeus e samaritanos. Os judeus se julgavam uma raça superior, escolhidos por Deus, e acreditavam que uma aproximação com Ele se dava somente mediante o conhecimento e a prática da Lei. Mas não compreendiam e não aceitavam a mensagem de Jesus, a ponto de o obrigarem a sair da Judéia.
Os samaritanos eram considerados pelos judeus, um povo herege e, consequentemente, eram marginalizados. E, apesar da discriminação, acolhem Jesus como o Salvador.
Ao conversar, junto ao poço de Jacó com uma mulher samaritana que, publicamente, assume a sua fragilidade e A sua história, Jesus ensina, no Evangelho de hoje, como todos devem se comportar, desprovidos de qualquer tipo de preconceito, com uma nova postura nas relações de fraternidade e gratuidade. Ele mostra que, como qualquer pessoa, esta mulher tem sede de vida, sede dessa água que é o Espírito, a força que vem de dentro. Ele se apresenta a ela como a fonte de água viva que deve brotar de dentro de cada um.
Outro fato importante no Evangelho diz respeito ao nacionalismo religioso, muito presente naquela época.
Com base neste argumento, os judeus acreditavam que a única adoração válida para Deus era a que se realizava no templo de Jerusalém, e criticavam os samaritanos que adoravam ao deus na montanha.
Jesus mostra que Deus quer ser adorado na própria dimensão da vida humana: o verdadeiro culto a Deus independe do lugar onde ele acontece, mas se dá de fato na própria vida dedicada ao bem dos outros: esta é a adoração em Espírito e Verdade.
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O dom de Deus
Jesus tornou-se o dom de Deus na vida da mulher que ele encontrou junto ao poço de Siquém. A descoberta do dom divino deu-se de maneira gradativa. A reação inicial da mulher foi de rejeição, fruto de preconceitos. Ela não podia compreender como um judeu tivesse a ousadia de dirigir-se a uma samaritana, dado a inimizade histórica entre estes dois grupos.
O comentário de Jesus, diante desta negativa, despertou nela um certo interesse. A alusão à possibilidade de obter "água viva" suscitou um mal-entendido: a mulher entreviu a possibilidade de ver-se livre da obrigação de buscar água, naquele poço tão profundo. Assim, quando Jesus falou de uma água que jorra para a vida eterna, ela manifestou o desejo de obtê-la. Para isso, o Mestre colocou como condição que trouxesse consigo seu marido. Foi quando Jesus começou a penetrar na vida pessoal da samaritana, mostrando conhecê-la muito mais do que ela pensava. O Mestre manifestou seu interesse por aquela mulher desconhecida. A partir daí ela começou a se abrir para a fé. O tema da água foi substituído pela questão da adoração a Deus. De modo pedagógico e delicado, Jesus conduziu-a nos meandros da fé, a ponto de fazê-la compreender que tinha diante de si o Messias longamente esperado.
Assim que ela acolheu o dom de Deus na pessoa de Jesus, tornou-se proclamadora de sua presença como Messias salvador. E muitos acreditaram, a partir do testemunho da mulher.
padre Jaldemir Vitório
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Jesus e a samaritana
O evangelho de João dá um destaque particular ao povo samaritano, valorizando-o e colocando-o em contraposição aos judeus. Neste sentido temos, logo no inicio do evangelho, o contraste entre o chefe fariseu Nicodemos, um homem importante, que vai procurar Jesus na calada da noite e a mulher pobre samaritana que dialoga com Jesus em pleno meio-dia. Enquanto que Nicodemos não entende as palavras de Jesus a samaritana o entende e ainda vai chamar os moradores da cidade, os quais, acorrendo a Jesus, crêem nele e o acolhem. Este longo e belo diálogo entre Jesus e a samaritana tem um estilo poético, tecido com inúmeros fios de simbolismo.
O povo da Samaria, de raça miscigenada em uma região que ficava entre a Judéia, ao sul, e a Galiléia, ao norte, era desprezado e evitado pelos judeus que se consideravam raça pura. A partir da água da fonte de Jacó, de grande importância nas tradições religiosas dos samaritanos, Jesus oferece à mulher a novidade da água viva do Espírito.
Na seqüência do diálogo, a mulher pede a Jesus esta água viva e compreende o anúncio de Jesus, crendo nele. Vai, por sua vez, anunciá-lo ao povo que acolhe Jesus, e Jesus fica com eles por um tempo. Com Jesus estão superadas as discriminações baseadas em crenças religiosas. Os verdadeiros adoradores de Deus o adoram em Espírito e Verdade.
A ação missionária é o reconhecimento e a proclamação da presença de Deus em todos os valores de todos os povos e culturas.
José Raimundo Oliva
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A Palavra de Deus que hoje nos é proposta afirma, essencialmente, que o nosso Deus está sempre presente ao longo da nossa caminhada pela história e que só Ele nos oferece um horizonte de vida eterna, de realização plena, de felicidade perfeita.
A primeira leitura mostra como Jahwéh acompanhou a caminhada dos hebreus pelo deserto do Sinai e como, nos momentos de crise, respondeu às necessidades do seu Povo. O quadro revela a pedagogia de Deus e dá-nos a chave para entender a lógica de Deus, manifestada em cada passo da história da salvação.
A segunda leitura repete, noutros termos, o ensinamento da primeira: Deus acompanha o seu Povo em marcha pela história; e, apesar do pecado e da infidelidade, insiste em oferecer ao seu Povo – de forma gratuita e incondicional – a salvação.
O Evangelho também não se afasta desta temática… Garante-nos que, através de Jesus, Deus oferece ao homem a felicidade (não a felicidade ilusória, parcial e falível, mas a vida eterna). Quem acolhe o dom de Deus e aceita Jesus como “o salvador do mundo” torna-se um Homem Novo, que vive do Espírito e que caminha ao encontro da vida plena e definitiva.
1ª leitura (Ex. 17,3-7) – AMBIENTE
O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence às “tradições sobre a libertação” (cf. Ex 1-18). Trata-se de um bloco de tradições que narram a libertação dos hebreus do Egito (por ação de Jahwéh e do seu servo Moisés) e a caminhada pelo deserto até ao Sinai.
O texto leva-nos até ao deserto do Sinai. O vs. 1 do nosso texto situa o episódio de Massa/Meribá nos arredores de Refidim, provavelmente no sul da península do Sinai (cf. Nm. 33,14-15); mas Nm. 20,7-11 situa-o nos arredores de Kadesh, a norte (aliás, não é possível traçar com rigor o caminho percorrido pelos hebreus, desde o Egito até à Terra Prometida: estamos diante de textos que provêm de “fontes” diferentes, aqui combinados por um redator final; e essas “fontes” referem-se, provavelmente, a viagens distintas e a grupos distintos, que em épocas distintas atravessaram o deserto do Sinai). De qualquer forma, também não interessa definir exatamente o enquadramento geográfico: mais do que escrever um diário de viagem, aos catequistas de Israel interessa fazer uma catequese sobre o Deus libertador, que conduziu o seu Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade.
A questão fundamental para este grupo de fugitivos que, chefiados por Moisés, fugiu do Egito, é a questão da sobrevivência num cenário desolado como é o deserto do Sinai. Os beduínos conheciam diversos “truques” que lhes asseguravam a sobrevivência no deserto. Um desses “truques” pode relacionar-se com o texto que nos é proposto… Alguns autores garantem a existência no deserto do Sinai de rochas porosas que, quando quebradas em certos lugares, permitem o aproveitamento da água aí armazenada. Terá sido qualquer coisa parecida que aconteceu na caminhada dos hebreus e que deixou um sinal na memória do Povo? É possível; mas o importante é que Israel viu no fato um sinal da presença e do amor do Deus libertador.
MENSAGEM
Este episódio é um episódio paradigmático, que reproduz as vicissitudes e as dificuldades da caminhada histórica do Povo de Deus.
Desde que o Povo fugiu do Egito, até chegar a este lugar (Massa/Meribá, segundo os autores do relato), Jahwéh manifestou, de mil formas, o seu amor por Israel… No episódio da passagem do mar (cf. Ex 14,15-31), no episódio da água amarga transformada em água doce (cf. Ex 15,22-27), no episódio do maná e das codornizes (cf. Ex. 16,1-20), Deus mostrou o seu empenho em conduzir o seu Povo para a liberdade e em transformar a experiência de morte numa experiência de vida… Jahwéh mostrou, sem margem para dúvidas, estar empenhado na salvação do seu Povo. Depois dessas experiências, Israel já não devia ter qualquer dúvida sobre a vontade salvadora de Deus e sobre o seu projeto de libertação.
No entanto, não é isso que acontece. Diante das dificuldades da caminhada, o Povo esquece tudo o que Jahwéh já fez e manifesta as suas dúvidas sobre os objetivos de Deus. A falta de confiança em Deus (“o Senhor está ou não no meio de nós?” - v. 7) conduz ao desespero e à revolta. O Povo entra em contenda com Moisés (o nome “meribá” vem da raíz “rib” – “entrar em contencioso”) e desafia Deus a clarificar, através de um gesto espetacular, de que lado está (o nome “massa” vem da raíz “nsh” – “tentar”, no sentido de “provocar”). Acusam Deus de ter um projeto de morte, apesar de Ele, tantas vezes, ter demonstrado que o seu projeto é de vida e de liberdade. Afinal, depois de tantas provas, Israel ainda não fez uma verdadeira experiência de fé: não aprendeu a confiar em Deus e a entregar-se nas suas mãos.
Como é que Deus reage à ingratidão e à falta de confiança do seu Povo? Com “paciência divina”, Deus responde mais uma vez às necessidades do seu Povo e oferece-lhe a água que dá vida. À pergunta do Povo (“o Senhor está ou não no meio de nós?”), Deus responde provando que está, efetivamente, no meio do seu Povo.
Desta forma os israelitas – e os crentes de todas as épocas – são convidados a reter esta verdade definitiva: o Senhor é o Deus que está sempre presente na caminhada histórica do seu Povo oferecendo-lhe, em cada passo da caminhada, a vida e a salvação.
ATUALIZAÇÃO
• A caminhada dos hebreus pelo deserto é, um pouco, o espelho da nossa caminhada pela vida. Todos nós fazemos, todos os dias, a experiência de um Deus libertador e salvador, que está presente ao nosso lado, que nos estende a mão e nos faz passar da escravidão para a liberdade. No entanto, ao longo da travessia do deserto que é a vida, experimentamos, em certas circunstâncias, a nossa pequenez, a nossa dependência, as nossas limitações e a nossa finitude; as dificuldades, o sofrimento e o desencanto fazem-nos duvidar da bondade de Deus, do seu amor, do seu projeto para nos salvar e para nos conduzir em direção à verdadeira felicidade. No entanto, a Palavra de Deus deste domingo garante-nos: Deus nunca abandona o seu Povo em caminhada pela história… Ele está ao nosso lado, em cada passo da caminhada, para nos oferecer gratuitamente e com amor a água que mata a nossa sede de vida e de felicidade.
• Ao longo da caminhada do Povo de Deus pelo deserto vêm ao de cima as limitações e as deficiências de um grupo humano ainda com mentalidade de escravo, agarrado à mesquinhez, ao egoísmo e ao comodismo, que prefere a escravidão ao risco da liberdade. No entanto, Deus lá está, ajudando o Povo a superar mentalidades estreitas e egoístas, fazendo-o ir mais além e obrigando-o a amadurecer. À medida que avança, de mãos dadas com Deus, o Povo vai-se renovando e transformando, vai alargando os horizontes, vai-se tornando um Povo mais responsável, mais consciente, mais adulto e mais santo.
• É esta, também, a experiência que fazemos. Muitas vezes somos egoístas, orgulhosos, comodistas, “meninos mimados” que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus e os outros pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. No entanto, as dificuldades da caminhada não são um castigo ou uma derrota; são, tantas vezes, parte dessa pedagogia de Deus para nos forçar a ir mais além, para nos renovar, para nos amadurecer, para nos tornar menos orgulhosos e auto-suficientes. Devíamos, talvez, aprender a agradecer a Deus alguns momentos de sofrimento e de fracasso que marcam a nossa vida, pois através deles Deus faz-nos crescer.
2ª leitura (Rom. 5,1-2.5-8) - AMBIENTE
Quando escreve aos Romanos, Paulo está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para Jerusalém. O apóstolo sentia que tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom. 15,19-20) e queria levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contatar a comunidade de Roma e para apresentar aos Romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais avultava o problema da unidade – um problema bem actual na comunidade cristã de Roma, então afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.
Paulo aproveita para dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), Paulo nota que todos os homens vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a “justiça de Deus” que a todos dá a vida, sem distinção (cf. Rom. 3,1-5,11).
No texto que a segunda leitura deste domingo nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.
MENSAGEM
Paulo parte da ideia de que todos os crentes – judeus, gregos e romanos – foram justificados pela fé. Que significa isto?
Na linguagem bíblica, a justiça é, mais do que um conceito jurídico, um conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, à sua maneira de ser e aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, se Jahwéh se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade, da misericórdia e do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele aplica os mecanismos legais quando o homem infringe as regras; significa, sim, que a bondade, a misericórdia e o amor próprios do ser de Deus se manifestam em todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi correto no seu proceder. Paulo, ao falar do homem justificado, está a falar do homem pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe um veredicto de graça que o salva do pecado e lhe dá, de modo totalmente gratuito, acesso à salvação. Ao homem é pedido somente que acolha, com humildade e confiança, uma graça que não depende dos seus méritos e que se entregue completamente nas mãos de Deus. Este homem, objeto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gal. 6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rom. 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rom. 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf. Rom. 8,17; Gal. 4,6-7).
Quais os frutos que resultam deste acesso à salvação que é um dom de Deus?
Em primeiro lugar, a paz (v. 1). Esta paz não deve ser entendida em sentido psicológico (tranquilidade, serenidade), nem em sentido político (ausência de guerra), mas no sentido teológico semita de relação positiva com Deus e, portanto, de plenitude de bens, já que Deus é a fonte de todo o bem.
Em segundo lugar, a esperança (vs. 2-4 – embora os versículos 3 e 4 não apareçam no texto que nos é proposto). Trata-se desse dom que nos permite superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. Não se trata de alimentar um otimismo fácil e irresponsável, que permita a evasão do presente; trata-se de encontrar um sentido novo para a vida presente, na certeza de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão.
Em terceiro lugar, o amor de Deus ao homem (vs. 5-8). O cristão é, fundamentalmente, alguém a quem Deus ama. A prova desse amor está em Jesus de Nazaré, o Filho amado a quem Deus “entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores”.
Como pano de fundo, o nosso texto propõe-nos o cenário do amor de Deus. Paulo garante-nos algo que já encontramos na primeira leitura de hoje: Deus nunca abandona o seu Povo em caminhada pela história… Ele está ao nosso lado, em cada passo da caminhada, para nos oferecer gratuitamente e com amor a água que mata a nossa sede de vida e de felicidade (a paz, a esperança, o seu amor).
ATUALIZAÇÃO
• Este texto convida-nos a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho conosco. Apesar de os homens insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na auto-suficiência e no pecado, Deus continua a amar e a fazer-nos propostas de vida. Trata-se de um amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.
• A vinda de Jesus Cristo ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar conosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência, a fim de nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude.
• A presença do Espírito acentua no nosso tempo – o tempo da Igreja – essa realidade de um Deus que continua presente e atuante, derramando o seu amor ao longo do caminho que, dia a dia, vamos percorrendo e impelindo-nos à renovação, à transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo. É esse caminho que a Palavra de Deus nos convida a percorrer, neste tempo de Quaresma.
• Está em moda uma certa atitude de indiferença face a Deus, ao seu amor e às suas propostas. Em geral, os homens de hoje preocupam-se mais com os resultados da última jornada do campeonato de futebol, com as últimas peripécias da “telenovela das nove”, com os investimentos na Bolsa, com as vantagens da última geração de computadores ou com o caminho mais rápido e mais seguro para atingir o topo da carreira profissional do que com Deus e com o seu amor. Não será tempo de redescobrirmos o Deus que nos ama, de reconhecermos o seu empenho em conduzir-nos rumo à felicidade plena e de aceitarmos essa proposta de caminho que Ele nos faz?
Evangelho (Jo 4,5-42) – AMBIENTE
O Evangelho deste domingo situa-nos junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de religião sincretista.
Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade muito viva entre samaritanos e judeus. Historicamente, a divisão começou quando, em 721 a.C., a Samaria foi tomada pelos assírios e foi deportada cerca de 4% da população samaritana. Na Samaria instalaram-se, então, colonos assírios que se misturaram com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2Re. 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do Exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd. 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne. 3,33-4,17). No ano 333 a.C., novo elemento de separação: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim; no entanto, esse Templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Mais tarde, as picardias continuaram: a mais famosa aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.
Os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista; e os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.
A cena passa-se à volta do “poço de Jacob”, situado no rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob… Os dados arqueológicos revelam que o “poço de Jacob” serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair dele água).
O “poço” acaba por transformar-se, na tradição judaica, num elemento mítico. Sintetiza os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto (primeira leitura de hoje); mas, sobretudo, torna-se figura da Lei (do poço da Lei brota a água viva que mata a sede de vida do Povo de Deus), que a tradição judaica considerava observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés.
O Evangelho segundo São João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jô. 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jô. 4,1-5,47), do pão (cf. Jô. 6,1-7,53), da luz (cf. Jô. 8,12-9,41), do pastor (cf. Jô. 10,1-42) e da vida (cf. Jô. 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.
O nosso texto é, exatamente, a primeira catequese do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da água, o autor vai descrever a acção criadora e vivificadora de Jesus.
MENSAGEM
No centro da cena, está o “poço de Jacob”. À volta do “poço” movimentam-se as personagens principais: Jesus e a samaritana.
A mulher (aqui apresentada sem nome próprio) representa a Samaria, que procura desesperadamente a água que é capaz de matar a sua sede de vida plena. Jesus vai ao encontro da “mulher”. Haverá neste episódio uma referência ao Deus/esposo que vai ao encontro do povo/esposa infiel para lhe fazer descobrir o amor verdadeiro? Tudo indica que sim (aliás, o profeta Oséias, o grande inventor desta imagem matrimonial para representar a relação Deus/Povo, pregou aqui, na Samaria).
O “poço” representa a Lei, o sistema religioso à volta do qual se consubstanciava a experiência religiosa dos samaritanos. Era nesse “poço” que os samaritanos procuravam a água da vida plena. No entanto: o “poço” da Lei correspondia à sede de vida daqueles que o procuravam? Não. Os próprios samaritanos tinham reconhecido a insuficiência do “poço” da Lei e haviam buscado a vida plena noutras propostas religiosas (por isso, Jesus faz referência aos “cinco maridos” que a mulher já teve: há aqui, provavelmente, uma alusão aos cinco deuses dos samaritanos de que se fala em 2Re. 17,29-41).
Estamos, pois, diante de um quadro que representa a busca da vida plena. Onde encontrar essa vida? Na Lei? Noutros deuses? A mulher/Samaria dá conta da falência dessas “ofertas” de vida: elas podem “matar a sede” por curtos instantes; mas quem procura a resposta para a sua realização plena nessas propostas voltará a ter sede.
É aqui que entra a novidade de Jesus. Ele senta-se “junto do poço”, como se pretendesse ocupar o seu lugar; e propõe à mulher/Samaria uma “água viva”, que matará definitivamente a sua sede de vida eterna (vs. 10-14). Jesus passa a ser o “novo poço”, onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede.
Qual é a água que Jesus tem para oferecer? É a “água do Espírito” que, no Evangelho de João, é o grande dom de Jesus. Na conversa com Nicodemos, Jesus já havia avisado que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” – Jô. 3,5; e quando Jesus se apresenta como a “água viva” que matará a sede do homem, João tem o cuidado de explicar que Ele se referia ao Espírito, que iam receber aqueles que acreditassem n’Ele (cf. Jo. 7,37-39). Esse Espírito, uma vez acolhido no coração do homem, transforma-o, renova-o e torna-o capaz de amar Deus e os outros.
Como é que a mulher/Samaria responde ao dom de Jesus? Inicialmente, ela fica confusa. Parece disposta a remediar a situação de falência de felicidade que caracteriza a sua vida, mas ainda não sabe bem como: essa vida plena que Jesus está a propor-lhe significa que a Samaria deve abandonar a sua especificidade religiosa e ceder às pretensões religiosas dos judeus, para quem o verdadeiro encontro com Deus só pode acontecer no Templo de Jerusalém e na instituição religiosa judaica (“nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar”)?
No entanto, Jesus nega que se trate de escolher entre o caminho dos judeus e o caminho dos samaritanos. Não é no Templo de pedra de Jerusalém ou no Templo de pedra do monte Garizim que Deus está… O que se trata é de acolher a novidade do próprio Jesus, aderir a Ele e aceitar a sua proposta de vida (isto é, aceitar o Espírito que Ele quer comunicar a todos os homens).
Dessa forma – e só dessa forma – desaparecerá a barreira de inimizade que separa os povos – judeus e samaritanos. A única coisa que passa a contar é a vida do Espírito que encherá o coração de todos, que a todos ensinará o amor a Deus e aos outros e que fará de todos – sem distinção de raças ou de perspectivas religiosas – uma família de irmãos.
A mulher/Samaria responde à proposta de Jesus abandonando o cântaro (agora inútil), e correndo a anunciar aos habitantes da cidade o desafio que Jesus lhe faz. O texto refere, ainda, a adesão entusiástica de todos os que tomam conhecimento da proposta de Jesus e a “confissão da fé”: Jesus é reconhecido como “o salvador do mundo” – isto é, como Aquele que dá ao homem a vida plena e definitiva (vs. 28-41).
O nosso texto define, portanto, a missão de Jesus: comunicar ao homem o Espírito que dá vida. O Espírito que Jesus tem para oferecer desenvolve e fecunda o coração do homem, dando-lhe a capacidade de amar sem medida. Eleva, assim, esses homens que buscam a vida plena e definitiva à categoria de Homens Novos, filhos de Deus que fazem as obras de Deus. Do dom de Jesus nasce a nova comunidade.
ATUALIZAÇÃO
• A modernidade criou-nos grandes expectativas. Disse-nos que tinha a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades. Garantiu-nos que a vida plena estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem dependência de Deus; disse-nos que a vida plena estava nos avanços tecnológicos, que iriam tornar a nossa existência cômoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a vida plena estava na conta bancária, no reconhecimento social, no êxito profissional, nos aplausos das multidões, nos “cinco minutos” de fama que a televisão oferece… No entanto, todas as conquistas do nosso tempo não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes. A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem. Eu já descobri isto, ou a minha procura de realização e de vida plena faz-se noutros caminhos? O que é preciso para conseguirmos que os homens do nosso tempo aprendam a olhar para Jesus e a tomar consciência dessa proposta de vida plena que Ele oferece a todos?
• Essa “água viva” de que Jesus fala faz-nos pensar no batismo. Para cada um de nós, esse foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nessa altura acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que faz de nós “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva. A minha vida de cristão tem sido, verdadeiramente, coerente com essa vida nova que então recebi? O compromisso que então assumi é algo esquecido e sem significado, ou é uma realidade que marca a minha vida, os meus gestos, os meus valores e as minhas opções?
• Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de procura de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena. Eu estou disposto a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o meu coração ao Espírito que Jesus me oferece e que me exige uma vida nova?
• A samaritana, depois de encontrar o “salvador do mundo” que traz a água que mata a sede de felicidade, não se fechou em casa a gozar a sua descoberta; mas partiu para a cidade, a propor aos seus concidadãos a verdade que tinha encontrado. Eu sou, como ela, uma testemunha viva, coerente, entusiasmada dessa vida nova que encontrei em Jesus?
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

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Jesus e a sede da humanidade (Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42)
a. ao redor do poço – vv. 5-6
1. Tudo começa ao redor do poço com o encontro de Jesus com uma mulher samaritana. Os samaritanos surgem em 722 a.C. (cf. 2Rs. 17,24-41). Formaram-se da miscigenação  de  israelitas  com  cinco povos estrangeiros e seus cinco deuses.  E este é o motivo do ódio dos judeus para com o samaritanos.  Os samaritanos haviam construído um templo no monte Garizim como rival do templo de Jerusalém  (João Hircano havia des-truído esse templo em  129  a.C.)
2. O poço recorda muitos fatos do AT, entre eles:
- o servo de Abraão  encontra Rebeca, futura esposa de Isaac (Gn. 24, 13ss);
- Jacó encontra  sua futura esposa  Raquel  (Gn. 29,1-14);
- e Moisés encontra Séfora com quem se casou (Ex. 2,16-21).
Não se pode esquecer  o que significavam os poços  para  aqueles pastores  que viviam semi-nômades (cf. Gn. 26). O Gênesis  não  menciona  esse poço;  mas  se  Jacó  comprou um terreno (Gn. 33,19; 48,22; Js. 24,32)   podemos  deduzir  que  estava provido  de  um manancial.  Os dois dados,  poço e patriarca, são funcionais  no  relato.
3. O poço de Sicar  é, pois, o lugar onde a  humanidade se encontra com  seu esposo  e líder.  As personagens  acima  aproximaram-se do poço  à tarde,  e quem tinha sede eram os animais.  O episódio de  Sicar  se  dá ao  meio-dia  e quem  tem  sede  é  Jesus.  No evangelho de João   o meio-dia  recorda  a Hora de Jesus,  a sua crucifixão, onde ele declara ter sede (Jo 19,28).
4. Para o povo da Bíblia,  o poço  é  símbolo da  Lei,  das instituições judaicas  e da sabedoria.  Sentando sobre  o  poço,  Jesus  se  dá  a conhecer como fonte  da qual  a humanidade inteira  bebe.  A partir de agora não se deve mais  beber água  da  Lei  ou das instituições, porque foram superadas  pela fonte de água viva  que é Jesus.
5.   Uma  mulher  sem  nome  se  aproxima  -  ao  meio-dia  -   para buscar  água. Ela não tem nome  porque  é  a própria humanidade  que, no  sufoco do calor, procura algo  que  sacie  de uma vez por todas  a sua sede (lembremos  as primeiras palavras  de Jesus em João 1,38: “o que vocês estão procurando?”).
b. quebrando  o  preconceito  racial   – vv. 7-15
6. Jesus sente o que é comum a todo ser humano  e  pede de beber. Com isso começa a quebrar o preconceito racial.  Judeus e samaritanos se odiavam mutuamente.  Judeus mais radicais haviam decretado o estado permanente de impureza das  mulheres samari-tanas.  Então,  o gesto de Jesus  parece insano: pedir a uma mulher  que lhe dê de beber. Jesus  estava  quebrando  a inimizade entre judeus e samaritanos,  quebrando  a pretensa superioridade  dos judeus  e  a  pretensa  superioridade  dos  homens  sobre as mulheres.
Dar água  é  a  mesma  coisa  que  acolher,  dar  hospedagem  (normalmente  os samaritanos  negavam água aos judeus).
7. Jesus está com sede,  mas  quem acaba pedindo água  é  a  mulher, pois ele tem água capaz  de saciar para sempre  a  sede de todos:  “se você conhecesse o dom de Deus  e  quem  é  que está dizendo  a você: dê-me  de  beber,  você é que lhe pediria,  e  ele lhe  daria  água viva…  Aquele  que beber da  água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede” (vv. 10.14a).  Jesus  é  o presente  de  Deus  que a humanidade precisa conhecer.  Os judeus  acreditavam  se  aproximar  de  Deus mediante  o conhecimento  e  a  prática da Lei.   Jesus  é  aquele  que revela  o Pai,  mostra-o presente nas relações de fraternidade e gratuidade.
8. Quem beber desta água …. (vv. 13-14).  Jesus revela o sentido simbólico das suas palavras,  a sua interpretação da água,  de acordo com a tradição bíblica: “eles me abandonaram, a fonte de água viva”; “pois em ti está  a fonte  viva”; “com alegria  tirareis água das fontes da salvação” (Jr. 2,13; Sl. 36,10; Is.  12,3).  A água do poço  mata a sede cada vez  que se bebe,  e  se torna a beber. A  água de Jesus  sacia  a sede definitivamente porque  se torna  manancial  dentro da pessoa,  que brota perpetuamente  ou  que comunica  uma vida imortal.  A  água de Jesus  pode ser  sua revelação  ou  o dom do Espírito (Jo 7,37-38)
9. A água  que Jesus dá  é  o  Espírito,  a força  que vem de dentro  e jorra para  a vida eterna.    A  mulher-humanidade  tem  sede  dessa água,  e  por isso  pede: “Senhor, dá-me dessa água,  para que  eu  não tenha  mais  sede  e  nem  tenha de vir  mais  aqui para  tirar”(v.15).
c. quebrando  o  preconceito  religioso   – vv. 16-26
10. A samaritana  não tem  nome,  mas certamente vários  nomes  lhe  foram  impostos por  ter tido  cinco  maridos  e  conviver com o sexto  e  apesar disso,  continua  com sede  da  água que  só  Jesus,  esposo-da-humanidade, pode dar. Os cinco maridos podem  ser tomados  simbolicamente  (cinco divindades: cf. 2Rs. 17,29-41) )   e  o  sexto  seria  o próprio  Javé  transformado  em  ídolo  (cf. Ex. 32  e linguagem simbólica de Oséias: 8,5s;10,5s ). Assim se entra no assunto religioso.
11. Os samaritanos  aguardavam  um messias  (chamado Taeb) diferente do esperado pelos  judeus.  Assim  temos, além do preconceito racial,  também o religioso.  Jesus acaba  com  esses  preconceitos,  mostrando que  a  época dos templos  chegou  ao  fim, pois  ele  é  o  novo  santuário  de onde  brota  o  Espírito fiel:  “está  chegando a hora,  e  é  agora,  em que  os verdadeiros adoradores  vão adorar  o  Pai  em  espírito  e  verdade.  E, de fato,  estes são os adoradores que o Pai procura” (v. 23).
d. o anúncio  que leva à fé – vv. 27-42
12. Os discípulos de Jesus continuavam presos à mentalidade judaica que discriminava pela   raça,  sexo  e  religião.  O verdadeiro discípulo  – início da comunidade-esposa de Jesus Messias -  é  a  samaritana  que,  - depois de  abandonar o balde, -  anuncia  aos habitantes da cidade seu encontro com um homem,  levando as pessoas  a  conhecê-lo.
13. O diálogo com os discípulos (vv. 31-38)  mostra que  o  alimento  de Jesus,  sua nova lei, é levar  a  termo  a  criação  do  Pai,  restabelecendo  a harmonia perdida pela  auto-suficiência  humana.  Jesus  é,  ao mesmo  tempo,  o  semeador  do projeto  do  Pai e  o  trigo  a  ser  semeado.
14. A experiência da mulher  conduziu  as pessoas  a Jesus  e  fez deste  o hóspede dos samaritanos (ficou lá dois dias).   Agora,  porém,  eles não precisam mais do  testemunho dela,  pois  sabem  que  Jesus  é  realmente  o  salvador do mundo  (v. 42).
1ª leitura: Ex. 17,3–7
15. O povo de Israel  realiza,  na caminhada pelo deserto,   um processo de  libertação da  escravidão do Egito. O  tempo  passa,  as  dificuldades aumentam. O entusiasmo dos primeiros momentos do êxodo   dá lugar   às  reclamações.  Aparece   a  tentação do desânimo e  do desejo de voltar ao regime anterior.  De fato,  a água é elemento essencial para a sobrevivência do povo.  Como não reclamar … ?
16. Vendo num nível superficial  o texto parece  querer  explicar  a origem dos lugares chamados  Massa e Meriba. Na língua hebraica  significam:  Massa = provocação  e  Meriba = contestação.  Tentou-se ligar os termos  a uma situação difícil de falta de água durante a caminhada  em direção à Terra Prometida.   Mas  vendo  num  nível  mais profundo, o  texto  lê  os  acontecimentos  à  luz  da  fé no Deus libertador, aliado do povo no  processo  de  conquista  da liberdade  e da vida.
17. O deserto é a  etapa  intermediária    entre  a casa da servidão (Egito)  e  a casa  da liberdade (Terra Prometida). Só  na Terra  Prometida  é que  irá correr leite  e  mel.  A  falta d’água  revela  que  o povo  não  entendeu  e  não  assumiu todo  o processo  de libertação  em sua complexidade.    O povo reclama contra Moisés  preferindo ter ficado no Egito escravo  a  enfrentar  a precariedade  do caminho  pelo deserto (vv. 3-4).
18. O povo está prestes a cometer a maior idolatria: abandonar o Deus da Vida para voltar  a  servir  aos Ídolos que sustentavam um regime  de  Morte vigente no Egito.  O povo  quer voltar a um sistema político opressor ao invés de   lutar por  um projeto novo de liberdade  e  vida. Não querem suportar as dificuldades do momento, a precariedade dos meios que tem à disposição  no deserto. Preferem ser escravos, desde que tenham comida e água.
19. Onde ficou a fidelidade  do povo, o compromisso com aquele Deus que os libertou do Egito e  os acompanhava pelo deserto? Por pouca coisa e por  pouco tempo,  o  povo  renuncia  à toda promessa de  Deus. Mas apesar da  inconstância do povo  no processo de libertação, Deus continua fiel ao seu projeto, e  faz jorrar água da  rocha (vv. 5-6).  Javé é  fiel,  é  aquele que caminha à frente, dando segurança e apoio (v. 6),  por isso, em outros textos do  AT  ele  é  chamado  de Rocha  (Sl. 18,3: “Javé é minha rocha  e  minha fortaleza,  quem me liberta  é o meu Deus.  Nele me abrigo,  meu Rochedo,  meu escudo e minha força salvadora, minha torre forte e meu refúgio”. Outra versão deste salmo de  Davi, libertado dos seus inimigos, está em 2Sm. 22;  cf. Gn 49,24; Dt .32,4.15.18.37;  2Sm. 22, 3.31-32.47).
20. O NT  leu  esse texto  à luz do  acontecimento  pascal.  Jesus  dá à humanidade a água  que  sacia  a  sede:  “se alguém tem sede venha a mim, aquele que acredita em mim,  beba… (Jo 7,37-38).   Moisés golpeou  a rocha  e dela saiu  água para  o  povo;  o  soldado atravessou o lado de Jesus,  e imediatamente saiu sangue e água (Jo 19,34).
21. Uma  lenda judaica  conta  que  a  rocha  seguiu  os  israelitas  por  toda  a viagem. Paulo alude a ela  em   1Cor. 10,4:  “…  e todos beberam a mesma bebida espiritual; pois bebiam da rocha  espiritual que os seguia, rocha que é o Messias”.
2ª leitura: Rm. 5,1-2.5-8
22.   Cristo  morreu  por  nós  quando  ainda  éramos  pecadores. Paulo afirma  que a humanidade  não  pode  se salvar por própria conta. Mas Deus salva a humanidade (= justifica-a) com uma condição:  que ela creia em Jesus Cristo, que trouxe  o projeto do  Pai.   Crer  é  aceitar  Jesus e comprometer-se  com  ele.
23. A morte e ressurreição de Jesus  são  a  anistia que Deus concedeu à humanidade: “agora  que  fomos justificados  por  Deus  por meio da fé, estamos em  paz  com Deus  por  nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 1).
24. Jesus  restabeleceu  a aliança  entre Deus e seu povo,  não  por causa  dos méritos das pessoas  -  mas  por ação  do Deus fiel. De fato, Paulo pensa;  se nós fossemos justos,  não precisaríamos  de alguém que morresse por nós;    se  fossemos  pessoas  de bem,  talvez.  Fato é que Cristo morreu  por  nós  quando ainda  estávamos  sem força, ímpios  e pecadores (vv.6-8),   e   isso  só  ressalta a força  da  graça de  Deus.
25. E a grande  descoberta  de Paulo (que faz sucumbir  o Paulo fariseu,  e  faz nascer o  Paulo cristão)   é  a   certeza  da  graça  de Deus: Cristo  morreu  por  nós quando  ainda éramos  pecadores.  Esse dado  anima  a  esperança  dos cristãos  em meio aos conflitos, na certeza de alcançar a glória  de Deus (v. 2). Os discípulos de Jesus caminham  na  fé para  a esperança  na salvação definitiva, apesar de não terem  superado ainda  todas as alienações,  das quais  a  morte é a expressão última. Caminham sob o impulso  da Trindade,  pois  o Pai justificou a humanidade por meio do  Filho,  que  nos  tirou da alienação  e  nos  concedeu  o Espírito Santo,  a fim de que  possamos pôr em prática o projeto divino.
26. Reconciliados com Deus  pela fé,  entramos numa situação de paz e esperança: paz que  supera  a  tribulação,  esperança  que  transforma  o presente.   Desfrutamos da  “graça”  ou  “favor de Deus”  e  de  seu “amor”   revelado  no  sacrifício  de  seu  Filho. Agora  pomos  “nosso orgulho”   não  em  méritos  de obras, mas na esperança (v. 2),  nas tribulações  que  a  robustecem (v. 3), em Deus mesmo (v. 11). Tudo por meio de Jesus Cristo (5,2.9.11.17.21).
27. A esperança  brota e se sustenta  do amor que Deus nos tem e  que o Espírito Santo nos  faz  experimentar  em  nossa  consciência.   Ao  reconhecermos internamente, pelo toque do Espírito,  que  Deus  nos  ama,   nossa  esperança se sente  segura:   pois, aquele que  nos ama  não pode frustrar-nos (Sl. 22,6; Eclo. 2,10).
28. A morte de Cristo  é  antes  de  tudo  revelação  do  amor  incondicional de Deus: um  amor  não suscitado  por nossa boa conduta;  muito pelo contrário.  Não pode-mos  estar orgulhosos  de nós:  todo o nosso orgulho  reside em Deus, orgulhosos  não do  seu  poder (Sl. 115,3)  mas  do  seu  amor.
- No fundo escutamos  o texto de Is. 53:  “não tinha beleza…  era desprezado  e abandonado pelos homens…  desprezado…  mas  eram nossas enfermidades que carregava…  nos o tínhamos como vítima de castigo…  foi trespassado por causa das nossas transgressões…  esmagado pelas  nossas iniqüidades…    visto que entregou  sua  alma  à morte, foi contado  com  os  transgressores,    mas  na verdade levou  sobre si o pecado  de  muitos   e   pelos  transgressores  fez intercessão”.
- Lembramos  também 1Jo 4,10: “nisto  consiste  o amor:  não fomos nós que amamos  a Deus, mas  foi  ele  quem  nos  amou   e  enviou-nos o seu  Filho  como vítima  de  expiação  pelos  nossos  pecados”.
29. “E  a  esperança  não  decepciona, porque  o  amor  de  Deus foi  derramado  em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (v. 5).
R e f l e t i n d o
1. A  água  é  tão  vital  que sua escassez  pode provocar  uma guerra mundial.   Sem água  não  há  vida. Quando os hebreus,  no deserto, desafiaram  Deus exigindo água,  Deus lhes deu água física (1ª leitura).  No evangelho Jesus conscientiza a mulher samaritana  que  sua  sede  é  bem  mais  profunda,   não por água material,  mas  por  “espírito e verdade”.
2. Esta  sede  é  aliviada  pelo dom  de Jesus Cristo.  Ele é a  “água viva”,  que acaba definitivamente com a sede  e  faz o mundo  viver  para Deus.   Paulo na 2ª leitura evoca  o simbolismo da água  para  falar  do   “amor de Deus,  derramado em nossos corações  pelo  Espírito Santo  que nos foi dado”. O  batismo  é  a  efusão do Espírito sobre os fiéis.
3. Esse dom de Deus  é  gratuito. Os hebreus,  no deserto,  desconfiaram de Deus e acharam  que deviam desafiá-lo.   Mas  o dom do Espírito,  trazido  por Cristo,  que dá  sua vida  por nós,  é  pura graça. Nem sequer conseguimos pedi-lo como convém, porque ultrapassa o que pedimos. Por isso,  devemos deixar Deus converter e  educar o nosso desejo,  para que nosso desejo material  nos leve ao desejo da vida no Espírito.
4. Por outro lado, a  consciência  do dom  espiritual (=divino)   não  leva a desprezar o desejo  material  justo  daqueles  que  realmente  estão necessitados. O  desejo fundamental  conforme  a vontade de Deus  orienta  também  a  busca  dos  bens  materiais  necessários  e  sua  justa  distribuição.
5. Precisamos  de  verdadeira  “educação  do desejo”. Nossa sociedade consumista não  “cultiva”  o  desejo,  mas  simplesmente  exacerba-o  e o torna desenfreado …  Em vez disso,  devemos  aprofundar nosso desejo, para que  ele reconheça a sua me-ta  verdadeira:  a  “água viva”, “Cristo, o dom de Deus” na comunhão  com  os nossos irmãos…   O desejo  da água natural  significa  o desejo  de viver. Aliviada a sede,  o desejo continua.  Qual é o seu fim?    O desejo não é  pecado: é bom,  é vital, mas deve ser orientado,  através das criaturas, para  seu verdadeiro fim, o Criador.
6. A Quaresma é, na tradição da Igreja, o tempo da preparação para o batismo. Para nós batizados deve ser tempo  de renovação  e  aprofundamento do  nosso compromisso batismal.   “Re-passar”  com Cristo, re-fazer  a  passagem  pela  água  para purificar-nos novamente de tudo o que  foi se acumulando  e grudando em nós durante o ano  e  que  não ajuda  na construção do Reino.  É tempo de limpeza, de purificação,  de tirar os excessos,  de despir-nos do “homem velho”, de tudo  o que  é velho  e inútil  na nossa vida,  de tudo  o que  não leva  a Cristo,  de tudo  o que  não constrói o Reino,  de  tudo  o  que  não  constrói  a  nossa  vida  para  a eternidade.
7. A água do batismo  significa  uma realidade invisível,  aponta para   a satisfação do nosso grande desejo: a  vida  que  Cristo  nos  dá,  o  Espírito  de  Deus, derramado  em  nossos  corações. A  educação de nosso desejo  pode ser  a preparação  do nosso compromisso batismal  na noite da vigília pascal.  E  a melhor pedagogia  para isso  é: começar a  não  satisfazer qualquer desejo  mesquinho  e egoísta, mas concentrar  nossa vida  em torno do desejo profundo - material e espiritual - de  nós mesmos e dos nossos irmãos.
8. A liturgia de hoje  focaliza a água  no sentido simbólico  que se apresenta no batismo.   Significa  o dom de Deus,  que é Jesus mesmo.   E como nos diz a 2ª. leitura, esse  dom  de  Deus  é  gratuito:  seu representante,  seu Filho,  deu  sua vida  por nós enquanto éramos seus inimigos!    Receber  essa  água, (no batismo ou na sua renovação na vigília pascal), é deixar-nos  envolver  com esse amor gratuito  de Deus em Jesus Cristo,  é  comprometer-nos com  essa  imensurável bondade do nosso  Deus. Isso só  é  possível  porque  Deus  amou  primeiro! (1Jo 4,10).
9. A grande  novidade de Jesus  é  a proposta de  total mudança de mentalidade com relação  a Deus:  ele  o  chama  de  Pai. E,  como  Pai de  todos,  não  necessita de determinado lugar para ser cultuado,  nem na Samaria nem em Jerusalém.
9.1. A mudança de mentalidade também significa  entrar  numa  nova relação  com o próximo, a qual derruba  as  barreiras  entre  judeus  e samaritanos. Ambos poderão  adorar  a Deus já não mais  com  rituais fixados  pela  rigidez legalista, mas em “espírito e verdade”.
9.2.  Sendo  Deus  a  fonte  de  todo amor e de toda a vida, Pai de todos os povos, deseja ser adorado de modo verdadeiro em todos os lugares.  Ele busca pessoas que  o  adorem com lealdade. Jesus, o Filho, viveu o amor  desta maneira: na fidelidade ao Pai, deixando-se conduzir pelo Espírito  da  Verdade. Do coração de  todos os que seguem Jesus brotam  rios de  água viva,  pois  sabem  amar como Jesus amou.
prof. Ângelo Vitório Zambon

“Jesus é a água viva”
1. Deus tem sede
"O deserto é belo porque no meio dele há um poço" (St. Exupéry). 
Os patriarcas, em suas migrações, armavam uma tenda e cavavam um poço. A história da salvação faz referência a vários poços. Jacó dera esse poço, que era uma fonte de vida, a sua descendência.
Jesus, ao meio dia, senta-se ao lado do poço e pede de beber a uma samaritana. Na Cruz, repetirá: "Tenho sede". A sede de Deus é dar de beber!
Junto àquela água, dá-se um diálogo. Era Deus que abria um novo poço para sua sede. Ali esperou uma mulher "meio pagã", símbolo do mundo sedento, que não sabe onde encontrar a água.
"A água que eu lhe der se tomará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna" (Jo. 4,14), diz Jesus. Esse evangelho é colocado nesse domingo em vista da preparação para a celebração do Batismo, na noite de Páscoa.
Temos cinco domingos da quaresma. No primeiro domingo, Cristo vence o mal; no segundo, Ele é transfigurado. Faz a promessa da "água viva" no terceiro domingo e, no quarto, manifesta-se como Luz. Finalmente, no quinto, Ele é a vida.
No simbolismo da água, encontramos Cristo que dá a Água Viva no batismo. Ali, junto ao poço de Jacó, Ele espera pela samaritana. Os samaritanos eram o resultado de uma mistura de judeus e cinco povos e seus deuses (os 5 maridos da mulher). Ela se admira que Ele peça água a uma mulher e, pior, a uma samaritana.
Jesus é a realização da profecia: "Bebereis com alegria das fontes da salvação" (Is. 12,3). Ele faz-lhe uma catequese. Jesus que não cede na fé - "A salvação vem dos judeus"; abre os tesouros de Deus a todos: "Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e Verdade" (Jo. 4,23). A verdade está ali: O Cristo. "Sou eu que estou falando contigo" (Jo. 4,26).
Os samaritanos creem em Jesus. Ele é a fonte da Água da Vida. "Quem beber desta água não terá mais sede. E a água que. eu lhe der se tomará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna" (Jo 4,14). As águas do Batismo matam a sede de vida eterna. Crer em Jesus é ser lavado do pecado. O batismo faz germinar uma vida nova em Cristo. 
2. Nós Temos Sede
A samaritana busca água para sua sede e encontra em Jesus a fonte. "Dá-me desta água". Dar água é acolher. Jesus, ao pedir água, pediu para ser acolhido e, ao mesmo tempo, acolheu. A água que Jesus dá é o Espírito, a força que vem de dentro e 'jorra para a vida eterna'.
O Povo no deserto murmura contra Moisés. Eles não têm água, preferem voltar ao Egito e ser escravos (Ex. 17,3). Moisés bate na rocha e brota água abundante (Ex. 17,6).
Cristo é a Rocha que dá a água do Espírito. Paulo nos ensina que somos salvos e justificados por Ele. Essa salvação vem a nós pelas águas do batismo que saciam nossa sede fundamental de ter Deus. A sociedade quer fazer-se salvadora de si mesma e não salva ninguém. Temos uma fonte, de água corrente (água viva) que jorra do lado aberto de Cristo (Jo. 9,34). Esse rio fecunda nossas vidas a partir do batismo, e jorra em nossas celebrações.
3. Adorar em Espírito e Verdade
Jesus tem um diálogo religioso com a samaritana, que queria saber onde adorar a Deus: em Jerusalém ou no monte Garizim. Ele responde que os verdadeiros adoradores superarão a religião de templos, e irão à adoração em Espírito e Verdade. No Espírito Santo e em Cristo.
A mulher vai avisar o povo sobre Jesus. Encontrar Jesus leva-a a deixar o balde vazio e levar outros às fontes d'Água Viva. Ela é a primeira missionária que convida a acolher a fé. Relata a experiência que ela própria fez. "Vi um homem... assim, assim; não será ele o Messias?"
No tempo da quaresma, fazemos uma caminhada batismal. Para nós, em cada Eucaristia, brota um rio de Água Viva na assembleia da Igreja.

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