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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 6 de março de 2014

Jesus no deserto

1º DOMINGO da QUARESMA

9 de Março de 2014 
Evangelho - Mt 4,1-11
O SER HUMANO NÃO É MERCADORIA PARA SER EXPLORADO!
JESUS FOI TENTADO NO DESERTO

 

DESERTO: SOLIDÃO E TENTAÇÕES - José Salviano


            Este é o primeiro domingo da quaresma, no qual vamos lembrar a experiência de Jesus no deserto, onde Ele vence as tentações do maligno, para nos dar o exemplo. Leia mais...


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FIÉIS À CRISTO, VENCEREMOS TODAS AS TENTAÇÕES!  - Olívia Coutinho
 DOMINGO DA QUARESMA
Dia 09 de Março de 2014
Evangelho de Mt 4,1-11

      Com a Quaresma, inicia-se um tempo de graça para a vida da Igreja e de todos os cristãos que se dispõe a caminhar com o Cristo vencedor!
      A liturgia deste tempo Quaresmal, tem como propósito, despertar em nós, o desejo de mudar de vida, de reaver os valores do Reino, que deixamos de lado, por estarmos focados somente nos "valores" do mundo!
      Nas palavras de  Jesus, colocadas diante de nós, neste tempo de graça,  há sempre um apelo de conversão. E  todos nós sabemos, que não é fácil percorrer o caminho da conversão, afinal, mudanças é sempre um grande desafio, requer coragem, determinação, renuncias e acima de tudo, o constante exercício do perdão. Mas mesmo  sendo um  caminho  difícil, vale apena segui-lo, afinal, não tem alegria maior do que o nosso retorno ao coração do Pai.
      O pecado interrompe o nosso relacionamento com Deus, mas a porta do seu coração misericordioso, nunca fecha,  ela está  sempre aberta para nos receber de volta, basta querermos voltar!
      No evangelho de hoje, vemos que Jesus foi tentado a desistir da sua missão, em troca de bens materiais.   A resposta de Jesus foi imediata: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.
        Jesus foi tentado a aceitar e a confiar no poder do demônio, mas Ele respondeu com firmeza: ”Não tentarás o Senhor teu Deus”!
     O Filho de Deus, divino e humano, enfrentou e venceu o inimigo por estar fortalecido pelo Espírito Santo, mesmo diante de tantas propostas sedutoras, Ele se manteve firme no propósito de levar em frente o projeto  de Deus, disposto  a dar vida para salvar a humanidade corrompida pelo pecado.
     Assim como aconteceu com Jesus, pode acontecer também com cada um de nós, a tentação do TER, do PODER, do PRAZER, está sempre nos rondando. Precisamos estar constantemente vigilantes para não sermos surpreendidos, pois a tentação é oportunista, ela surge inesperadamente, principalmente quando nos propomos a mudar de vida, e quando estamos enfraquecidos   na fé.
     Para nos seduzir, o mal chega até a nós, disfarçado do bem, por isto é preciso que estejamos sempre atentos para não tornarmos presas fácies do inimigo, deixando-nos enganar pelas aparências!
       Ninguém está livre das tentações, elas estão presentes em toda parte, principalmente onde existe o bem, até  mesmo na Igreja. A única forma de não cairmos em tentação é estarmos o tempo todo  em sintonia com Deus, perseverantes na fé, munidos da arma mais poderosa contra a tentação: a oração!
        Enquanto vida terrena tivermos,  seremos tentados, o que não podemos, é cair na tentação!
        Na oração do Pai Nosso, Jesus nos ensina a pedir ao Pai: “E não nos deixeis cair em tentação”...
Rezemos todos os dias esta oração, e sintamos fortalecidos  para vencer  as forças do mal.
         Que o Espírito Santo, que fortaleceu Jesus nas tentações, nos fortaleça também.  
          Que nenhuma proposta do mundo, nos convença a trocar o SER pelo TER.
           Fieis a Cristo, venceremos todas as tentações!

FIQUE NA PAZ DE JESUS! - Olívia
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Evangelhos Dominicais Comentados

09/março/2014 – 1o Domingo da Quaresma

Evangelho: (Mt 4, 1-11)


Já estamos no primeiro Domingo da Quaresma. Temos pela frente quarenta dias que devem levar-nos a refletir, a orar e agir. Quaresma é tempo de jejum e abstinência, mas acima de tudo, é tempo de conversão.

Quaresma é um período especial para o cristão. É uma caminhada que deve ser alimentada pela oração e penitência em preparação aos acontecimentos centrais de nossa fé: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

O período da quaresma representa os quarenta dias que Jesus passou no deserto preparando-se para assumir sua missão. Lembra-nos os quarenta anos que o povo de Israel passou no deserto. Jesus, assim como os israelitas, sentiu fome e foi tentado pelo demônio. O evangelista nos diz que Jesus não teve um só minuto de sossego.

Durante as vinte e quatro horas do dia o demônio tentava fazê-lo mudar de ideia. Ele sabia dos objetivos de Jesus e não estava gostando nada, nada, dessa história de pregar a conversão e a aceitação da Palavra de Deus.

Excluindo-se o pecado, Jesus quis fazer-se semelhante a nós em tudo, até mesmo nas tentações por que passou. Por isso, também sentiu o assédio do demônio. Também o nosso dia-a-dia é assim. Basta o demônio perceber que estamos nos preparando para assumir a evangelização, e lá vem ele...



O demônio vem disfarçado, como quem não quer nada. Oferece mundos e fundos para ver-nos desistindo. O fraco, o distante da oração, não resiste suas ofertas e desvia-se do objetivo. O maligno tenta desestabilizar de todas as formas. Ele coloca pedrinhas em nossos sapatos. Faz de tudo para atrapalhar e desestimular.

Mateus diz que o Espírito conduziu Jesus para o deserto. Com isso, o evangelista quer ressaltar a obediência de Jesus e a importância de deixar-se guiar. No Espírito, Jesus encontrou forças para superar as provações e as tentações que se apresentaram em seu caminho.

Este exemplo de Jesus tem que ser seguido. O vencedor deixa-se guiar e entrega-se com fé. Porém, não podemos vacilar, é preciso estar atento, pois o demônio não desiste e vai estar permanentemente, cochichando maravilhas, em nossos ouvidos.

Estar atento significa estar preparado. Jesus preparou-se para iniciar sua missão fazendo penitência. Jejuou e orou durante os quarenta dias que ficou no deserto. Mais uma vez, Jesus quis mostrar-nos o poder da penitência e da oração.

Esta é a lição que aprendemos com o evangelho de hoje. O jejum e a oração são nossas armas e escudos protetores. Certamente, não nos isentam das tentações, porém são os meios mais eficazes para vencê-las. 

Quaresma é tempo de aproximar-se do irmão e de viver a experiência da intimidade com Deus. Tempo de lembrar que Jesus Cristo foi traído. Tempo de meditar a perseguição, o calvário e sua morte. É tempo de profunda meditação e não de profunda tristeza.

Jesus venceu a morte, nessa verdade se baseia toda nossa fé, por isso, vamos viver a alegria e a esperança de vida eterna. É preciso deixar de lado o comodismo e dar continuidade ao trabalho iniciado por Jesus.

Mais do que nunca, vamos nos preparar para sua vinda Gloriosa vivendo intensamente a partilha e a fraternidade.

(3840)

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Logo no início deste santo caminho para a Páscoa, a Palavra de Deus nos desvenda dois mistérios tremendos: o mistério da piedade e o mistério da iniqüidade! Esses dois mistérios atravessam a história humana e se interpenetram misteriosamente; dois mistérios que nos atingem e marcam nossa vida, e esperam nossa decisão, nossa atitude, nossa escolha! Um é mistério de vida; o outro, mistério de morte.
Comecemos pelo mistério da iniqüidade: “O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. Eis! A vida que vivemos, a vida da humanidade é uma vida de morte, ferida por tantas contradições, por tantas ameaças físicas, psíquicas, morais... Viver tornou-se uma luta e, se é verdade que a vida vale a pena ser vivida, não é menos verdade que ela também tem muito de peso, de dor, de pranto, de fardo danado. Mas, como isso foi possível? Escutemos a primeira leitura: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente”. Somos obra de Deus, do seu amor gratuito: do nada ele nos tirou e encheu-nos de vida. Mais ainda: “O Senhor Deus plantou um jardim em Éden, ao oriente, e ali pôs o homem que havia formado”. Vede: o Senhor não somente nos tirou do pó do nada, não somente nos encheu de vida; também nos colocou no jardim de delícias, pensou nossa vida como vida de verdade toda banhada pela luz do oriente. E mais: nosso Deus passeava no jardim à brisa do dia (cf. Gn 3,8), como amigo do homem. Eis o mistério da piedade, o projeto que Deus concebeu para nós desde o início, apresentado pela Palavra de modo poético e simbólico: um Deus que é Deus de amor, de ternura, de carinho, de respeito pela sua criatura, com a qual ele deseja estabelecer uma parceria; um homem chamado a ser plenamente homem: feliz na comunhão com Deus, feliz em ter no seu Deus sua plenitude e sua vida; homem plenamente homem nos limites de homem. O homem é homem, não é Deus! Somente o Senhor Deus é o Senhor do Bem e do Mal. Por isso as duas árvores no Éden: a do conhecimento do Bem e do Mal (isto é, o poder de decidir por si mesmo o que é bem ou mal, certo ou errado) e a árvore da Vida (da vida plena, da vida divina). Se o homem confiasse em Deus, se cumprisse seu preceito, se reconhecesse seus limites, um dia comeria do fruto da árvore da Vida...
Mas, o homem foi seduzido; é seduzido inda agora: deseja ser seu próprio Deus, sem nenhum limite, sem nenhuma abertura à graça! Somente sua vontade lhe importa, somente sua medida! Hoje, como no princípio, ele pensa que é a medida de todas as coisas! Eis aqui o seu pecado! O Diabo o seduz: primeiro distorce o preceito de Deus (“É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim’?”), semeando no coração do homem a desconfiança e o sentimento de inferioridade; depois, mente descaradamente: “Não! Vós não morrereis! Vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal!” Ser como Deus, decidindo de modo autônomo o que é certo e o que é errado; decidindo que a libertinagem é um bem, que as aventuras com embriões humanos, que o aborto, que a infidelidade feita de preservativos, são um bem... Decidindo loucamente que levar a sério a religião e a Palavra de Deus é um mal... Ser como Deus... Eis nosso sonho, nossa loucura, nossa mais triste ilusão! Tudo tão atraente, tudo tão apto para dar conhecimento, autonomia, felicidade... O resultado: os olhos dos dois se abriram: estavam nus... estamos nus... somos pó e, por nós mesmos, ao pó tornaremos, inapelavelmente!
Então, nosso destino é a morte? Não há saída para a humanidade? O mistério da iniqüidade destruiu o mistério da piedade? Não! De modo algum! Ao contrário: revelou-o ainda mais: “A transgressão de um só levou a multidão humana à morte; ma foi de modo bem superior que a graça de Deus... concedida através de Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos. Por um só homem a morte começou a reinar. Muito mais reinarão na vida, pela mediação de um só, Jesus Cristo, os que recebem o dom gratuito e superabundante da justiça”. Eis aqui o mistério tão grande, o mistério da piedade, o centro da nossa fé: em Cristo revelou-se todo o amor de Deus para conosco; pela obediência de Cristo a nossa desobediência é redimida; pela morte de Cristo na árvore da cruz, nós temos acesso ao fruto da Vida, da Vida plena, da Vida em abundância, da Vida que nunca haverá de se acabar! Pela obediência de Cristo, pelo dom do seu Espírito, nós temos a vida divina, nós somos divinizados, somos, por pura graça, aquilo que queríamos ser de modo autônomo e soberbo! Assim, manifestou-se a justiça de Deus: em Jesus morto e ressuscitado por nós – e só nele! – a humanidade encontra vida!
Mas, esta salvação em Jesus teve alto preço: a encarnação do Filho de Deus e sua humilde obediência, até a morte e morte de cruz. O Senhor desfez o nó da nossa desobediência, da nossa auto-suficiência, da nossa prepotência, renunciando ser o senhor de sua existência humana: ele acolheu a proposta do Pai, ele se fez obediente: à glória do pão (dos bens materiais, dos prazeres, do conforto) ele preferiu a Palavra do Pai como único sentido e única orientação de sua vida; à glória do sucesso (a honra, a fama, o aplauso), ele preferiu a humildade de não tentar Deus; à glória do poder (da força, das amizades poderosas e influentes, do prestígio político para impor e conseguir tudo) ele preferiu o compromisso absoluto e total com o Absoluto de Deus somente. Assim, Cristo Jesus, o Homem novo, o novo Adão (de quem o primeiro era somente figura e sombra) abriu-nos o caminho da obediência que nos faz retornar ao Pai!
Este é também o nosso caminho. Nossa vocação é entrar, participar, da obediência de Cristo pela oração, a penitência e a caridade fraterna para sermos herdeiros de sua vitória pascal! Este sagrado tempo que estamos iniciando é tempo de combate espiritual, para que voltemos, pelo caminho da obediência Àquele de quem nos afastamos pela covardia da desobediência. Convertamo-nos, portanto! Deixemos a teimosia e a ilusão de achar que nos bastamos a nós mesmos! Sinceramente, abracemos os sentimentos de Cristo, percorramos o caminho de Cristo, convertamo-nos a Cristo!
Concluamos com as palavras da Coleta de hoje: “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder ao seu amor por uma vida santa”.
dom Henrique Soares da Costa

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Somos pessoas normais!
Essa afirmação poderia chamar a nossa atenção se não conhecêssemos a natureza humana, não somente através da bondade que ela manifesta constantemente, mas também por causa das dificuldades que a velha natureza encontra desde que Adão e Eva aprontaram, ou seja, pecaram. Antes o homem e a mulher estavam cheios de graça, a sua inteligência conhecia com rapidez e a sua vontade não encontrava dificuldade para amar, a sua memória era ágil, as suas forças permaneciam firmes diante do trabalho cotidiano e se vivia em grande harmonia com toda a criação. Eram pessoas normais!
No entanto, na situação atual, podemos afirmar tranquilamente: também nós somos pessoas normais! Isso significa que em nós há coisas boas e coisas más. Não nos deveriam surpreender demasiado nem as coisas boas, porque são graças de Deus; nem as más, porque são conseqüentes como uma natureza que, a partir, do pecado, tem aquilo que a tradição chama de vulnera peccati, ou seja, as feridas do pecado. Em efeito, depois do pecado, o ser humano perdeu a maravilhosa harmonia que existia no seu próprio ser e, consequentemente, também perdeu a harmonia que experimentava junto à natureza biológica e animal. Também o mundo que antes lhe era favorável, depois do pecado se lhe manifestava como hostil.
Pobre de nós se não reconhecermos que somos pecadores! Mais pobres ainda se não reconhecermos que a graça de Deus nos atingiu, nos curou e nos santificou! “O primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição de homens nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida (cf. Ordo Initiationis Christianae Adultorum, n. 25). É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso» (Ef 6, 12), no qual o diabo é ativo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.” (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2011).
Consequência prática: é preciso lutar! É preciso fazer guerra! É preciso ser fortes na batalha! Sou um sacerdote de Jesus Cristo consciente da necessidade da graça de Deus como qualquer outro cristão; no entanto, não posso pregar uma santidade sem luta: utópica, fora da realidade. Em definitiva, santidade sem luta é um quimera! Não existe santo que não tenha lutado! Já o justo Jó era consciente de que “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7,1). A paz que se deseja não se consegue se não for através da guerra, através da derrota do inimigo. Qual o inimigo? Na verdade, são vários: há inimigos internos que causam desordem nos desejos e nos amores: soberba, avareza, luxúria e gula; há inimigos internos que causam desordem no nosso ânimo: inveja, ira, preguiça. Há ainda os inimigos externos: o demônio, pessoas que são tentadoras, algumas estruturas sociais injustas etc. Se o cristão não luta, é vencido.
Diante dessa realidade dramática, poder-se-ia assumir posturas que não condizem com aquilo que nós somos, isto é, filhos de Deus. Uma delas é uma espécie de naturalismo, que tem duas versões. Na primeira versão, luta-se somente com as próprias forças, com a vazia confiança de que se poderá vencer dessa maneira. A outra versão implicaria uma ausência de luta contra as más inclinações, simplesmente porque essas inclinações seriam concebidas como naturais ao homem e, no fundo, ele nem tem culpa das coisas que faz. Outra postura, diferente do naturalismo, é o pessimismo: luta-se, confia-se na graça de Deus, mas no fundo como se sabe que se cairá se desiste e se conforma com uma vida triste e aburguesada. Outra ainda, o rigorismo: tudo parece pecado e, por tanto, quase seria preferível fugir desse mundo, pois este se torna totalmente hostil e tudo se transforma em pecado, dessa atitude podem vir angústias, depressões e ansiedades.
A maneira de combater de um filho de Deus é equilibrada: confia, em primeiro lugar, na graça de Deus e, depois, coloca todos os meios que está ao seu alcance para conseguir a vitória: oração, sacramentos, fuga das ocasiões de pecado, cultivo do espírito de penitência, uma dimensão de serviço que ajuda a descomplicar-se. Além do mais, o filho de Deus luta com serenidade: caso haja alguma caída, se levanta rapidamente a través da contrição e da confissão, e continua lutando. Jesus saiu vitorioso das tentações. Ele não tinha as feridas do pecado porque não tinha pecado, mas foi tentado para vencer por nós. Nele nós somos vencedores. Já! Agora!
padre Françoá Costa

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As tentações de Jesus!
O 1º domingo da Quaresma nos apresenta todos os anos o mistério do jejum de Jesus no deserto, seguido das tentações (cf. Mt. 4,1-11).
Quaresma é para nós um tempo forte de conversão e renovação em preparação à Páscoa. É tempo de rasgar o coração e voltar ao Senhor. Tempo de retomar o caminho e de se abrir à graça do Senhor, que nos ama e nos socorre. É um tempo sagrado para aprofundar o plano de Deus e rever a nossa vida cristã. E nós somos convidados pelo Espírito ao deserto da Quaresma para nos fortalecer nas tentações, que freqüentemente tentam nos afastar dos planos de Deus.
A Quaresma comemora os quarenta dias que Jesus passou no deserto, como preparação para esses anos de pregação que culminam na Cruz e na glória da Páscoa. Quarenta dias de oração e de penitência que, ao findarem, desembocam na cena que Mateus narra no cap. 4,1-11. É uma cena cheia de mistério, que o homem em vão pretende entender – Deus que se submete à tentação, que deixa agir o Maligno –, mas que pode ser meditada se pedirmos ao Senhor que nos faça compreender a lição que encerra.
É a primeira vez que o demônio intervém na vida de Jesus, e faz isto abertamente. Põe à prova Nosso Senhor; talvez queira averiguar se chegou a hora do Messias. Jesus deixa-o agir para nos dar exemplo de humildade e para nos ensinar – diz são João Crisóstomo –, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo de inesperado. Se não contássemos com as tentações que temos de sofrer, abriríamos a porta a um grande inimigo: o desalento e a tristeza.
A narrativa das tentações que Jesus sofreu mostra que Jesus “foi experimentado em tudo” (Hb. 4,15), comprovando também a veracidade da Encarnação do Verbo de Deus.
Diz Santo Agostinho que, na sua passagem por este mundo nossa vida não pode escapar à prova da tentação, dado que nosso progresso se realiza pela prova. De fato, ninguém se conhece a si mesmo sem ser experimentado, e não pode ser coroado sem ter vencido, e não pode vencer, se não tiver combatido e não pode lutar se não encontrou o inimigo e as tentações.
Por isso, a existência do ser humano nesta terra é uma batalha contínua contra o mal. É esta luta contra o pecado, a exemplo de Cristo, que devemos intensificar nesta Quaresma; luta que constitui uma tarefa para a vida toda.
O demônio promete sempre mais do que pode dar. A felicidade está muito longe das suas mãos. Toda a tentação é sempre um engano miserável! Mas, para nos experimentar, o demônio conta com as nossas ambições. E a pior delas é desejar a todo o custo a glória pessoal; a ânsia de nos procurarmos sistematicamente a nós mesmos nas coisas que fazemos e projetamos. Muitas vezes, o pior dos ídolos é o nosso próprio eu. Temos que vigiar, em luta constante, porque dentro de nós permanece a tendência de desejar a glória humana, apesar de termos dito ao Senhor que não queremos outra glória que não a dEle. Jesus também se dirige a nós quando diz: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”. E é isto o que nós desejamos e pedimos: servir a Deus alicerçados na vocação a que Ele nos chamou.
O Senhor está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e nos diz afetuosamente: “Confiai: Eu venci o mundo” (Jo16, 33). E com o salmista podemos dizer: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?” (Sl. 26,1).
“Procuremos fugir das ocasiões de pecado, por pequenas que sejam, pois aquele que ama o perigo nele perecerá” (Eclo 3,27). Como Jesus nos ensinou na oração do Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação”; é necessário repetir muitas vezes e com confiança essa oração!
Contamos sempre com a graça de Deus para vencer qualquer tentação. Usemos as armas para vencermos na batalha espiritual, que são: a oração contínua, a sinceridade com o diretor espiritual, a Eucaristia, o sacramento da Confissão (Penitência), um generoso espírito de mortificação cristã, a humildade de coração e uma devoção terna e filial a Nossa Senhora.
Na Quaresma somos todos chamados ao deserto, para um confronto conosco mesmos, com Deus e com o próximo e os bens materiais. Somos chamados a despojar-nos de nós mesmos para nos revestir de Deus.
mons. José Maria Pereira
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Chamados à conversão
A primeira leitura diz que Deus criou o homem e colocou-o num jardim com muitas árvores e frutos. Mas no centro do jardim tinha uma árvore especial, reservada para Deus, era a árvore do bem e do mal. Ela indica que Deus deu a liberdade ao homem para escolher e decidir, mas deveria evitar atribuir a si o direito de decidir o que é bom e o que é mal.
Somente Deus pode comer dos frutos desta árvore, somente ele tem a capacidade de distinguir o bem do mal. Quando o homem se esquece que é uma criatura e quer se tornar como Deus, conhecedor do bem e do mal, então ele se destrói, porque se deixa guiar por suas paixões, principalmente o orgulho, a inveja e a ganância.
Essa tentação de querer viver sem Deus é representada pela serpente. É como a cobra venenosa, que parece calma e silenciosa, mas provoca até a morte.
A serpente tentou a mulher, á convenceu e eles comeram do fruto. A desobediência gerou a maldição. Quando abre os olhos o homem se envergonha, sente-se como os animais. A conseqüência do pecado é a maldição, a destruição e a morte. Quando o homem não respeita o projeto de Deus, quando não aceita a lei de Deu, destrói a ordem da criação e rompe a aliança com Deus.
É o próprio homem que praticando o mal se castiga, destrói sua vida, sua família, seu trabalho e se torna infeliz. Por isso somos convidados a voltar para Deus que acolhe com amor seus filhos.
São Paulo na carta aos Romanos diz que Adão quis ser senhor do bem e do mal e por isso entrou no mundo o pecado e a morte.
Mas Jesus Cristo, que reconhece sua dependência de Deus, sempre foi fiel e obediente ao Pai e se torna Senhor da vida. Todos os que o seguem e o imitam na obediência, tornam-se filhos amados de Deus.
O Evangelho descreve as tentações de Jesus. Ele compreende as nossas fraquezas porque ele também experimentou a todas, menos o pecado. As tentações são o momento de verificar a solidez de nossas escolhas.
A primeira tentação é a do pão. Como o povo de Israel, Jesus é conduzido ao deserto, lá permanece por 40 dias que lembram os 40 anos passados pelos israelitas no deserto, e como eles, sente fome. Quer dizer que Jesus durante a sua vida foi tentado a reduzir a sua missão e a salvação ao aumento da produção dos bens materiais. O alimento é muito importante, mas a vida não depende somente do pão e dos bens materiais, mas precisa da Palavra de Deus que traz a paz e a alegria.
A segunda tentação é a dos sinais. O povo de Deus no deserto tentou Deus. E Deus fez brotar água da rocha e cair pão do céu, como sinal de seu amor. E os israelitas cada vez mais pediam sinais, provas do amor e da presença de Deus. Mas Jesus se recusa a pedir sinais. Ele não precisa de provas para acreditar que o Pai o ama e está ao seu lado.
Nós cedemos a esta tentação cada vez que exigimos sinais de amor de Deus. E quando não conseguimos as coisas, achamos que Deus não nos ama e até duvidamos dele. Não podemos pedir que Deus nos livre de todas as dificuldades, mas que nos dê luz e força para enfrentarmos as dificuldades de cada dia.
A terceira tentação é do poder. O povo de Israel no deserto deixa Deus de lado e adora um bezerro de ouro. Jesus não se deixa seduzir pelo poder, pela ganância, pelo sucesso. Ele ouve somente a voz do Pai.
No tempo de Jesus todos esperavam um Messias rico, poderoso, forte, glorioso. Mas Jesus é humilde, pobre, amigo dos pequenos e pecadores.
Por que Jesus não aceitou as propostas do diabo? Porque eram contrárias ao projeto do Pai. Quando seguimos a nossa vontade, os nossos caprichos, nos afastamos de Deus, fazemos sofrer nossos irmãos e destruímos a natureza.
A exemplo de Jesus devemos lutar para vencer as tentações e realizar a vontade de Deus em nossa vida.
padre Marcos Rech

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Nem sempre é fácil escolher e realizar um projeto de vida. Para certos indivíduos é mesmo uma dificuldade que perdura ao longo de vários anos. Que carreira escolher? Professor, carpinteiro, médico, advogado, sacerdote, irmã missionária? Do projeto de vida que se escolhe, depende a própria realização e a felicidade de muitas outras pessoas, na própria família e fora dela. Um erro de escolha pode transformar-se numa fonte de insatisfação. Ao visitar muitas dezenas de escolas para conversar com os jovens acerca da vida, propunha-lhes sempre três verbos para os ajudar a escolher o seu projeto de vida: pensar, pedir conselho e orar.
Primeiro: pensar com a mente, situar-se no trabalho duma vocação que se quer escolher. Por exemplo, se pensas ser médico, imagina as várias atividades da vida de um médico, para veres se te situas de maneira confortável e entusiasta nesse trabalho. Pensar! Segundo o grande filósofo Aristóteles, o “homem é um animal que pensa, um vivente que tem uma mente capaz de pensar”. Segundo: pedir conselho aos pais, aos professores, a outras pessoas que conhecem as nossas qualidades, a nossa maneira de ser. Como animais sociais que somos, a entreajuda é importante. Terceiro: Orar. Deus é o grande arquiteto que nos desenhou, o engenheiro que elaborou cada ser humano. Ele sabe bem o que é melhor para cada um de nós. Consultá-lo amiúde sobre o nosso projeto de vida para acertar agulhas, faz sentido.
Uma constante negativa dos nossos dias, é a tentação de imitarmos os ídolos que nos são continuamente apresentados e que temos desejo de copiar: ídolos do desporto, da canção, do cinema, da política. Mas, escolher algo porque é sensacional, não é realista. Na primeira leitura do primeiro domingo da Quaresma, Deus apresenta à sociedade e aos indivíduos que Ele criou um projeto de vida claro e eficaz. Quando o homem, de ontem e de hoje, segue esse projeto, o universo vive no equilíbrio ideal. Quando Adão e Eva rejeitaram o projeto que lhes dava uma estabilidade mesmo econômica, começou o descalabro humano em toda a linha. É desgastante ver como hoje acontece o que então aconteceu: Eva culpa a serpente, Adão culpa Eva. Partido culpa partido, chefes supremos culpam chefes subalternos, comentaristas culpam quem está fora da sua visão. No meio de tudo está o povo, qual bola de futebol que os graúdos pontapeiam a seu bel-prazer, sem jamais haver verdadeiras vitórias para ninguém. Uma sociedade gerente sempre com a gosma de acatar o que lhe dê vantagem e que vai destruindo mesmo os princípios mais sagrados e produtivos de vida.
“Misericórdia, Senhor. Pela vossa imensa compaixão, apagai a nossa culpa. Lavai-nos de toda a nossa iniquidade, pois reconhecemos as nossas culpas…”, canta-se no salmo responsorial. Ouse o povo português e os seus chefes imitar Cristo nas suas tentações e gritar com as obras: “Retira-te, Satanás. Ao Senhor teu Deus é que hás-de adorar, a Ele só prestarás culto”, como nos propõe o evangelho. Então viveremos de pão e Palavra de Deus suficientes e abundantes. Não deixaremos faltar aos mais necessitados aquilo a que têm direito e merecem. Viveremos em paz o nosso projeto de vida.
Aventino Oliveira
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Nesta semana o mundo foi surpreendido por mais uma catástrofe da natureza. O pior terremoto da história varreu cidades inteiras no Japão e colocou mais de 20 países em alerta. Entretanto, no princípio não era assim! Procurar um culpado? Responsabilizar uma determinada maneira de organizar a sociedade? Tentar explicar o mal por meio de inúmeras justificativas? Tudo isso pode ser feito diante disso. Porém, parece mais prudente compreender e admitir o mundo não esta mais como era no princípio.
Independente da crença que alimentamos ou da teoria que julgamos estar correta em relação à origem de tudo. De uma coisa é certa: Somente o mistério infinito, ao qual nós Cristãos chamamos Deus pode nos confortar diante de tamanha fatalidade.
Assim na primeira leitura, o autor trata da criação e apresenta o ser humano como a mais excelsa obra criada pelas mãos divinas. Criada, mas na dominada! Criada mas não destituída de liberdade e responsabilidade. E exatamente no exercício daquilo que é mais sagrado no ser humano: a possibilidade de escolher. Ele decide ir por caminhos bastante suspeitos. Dá ouvido ao que às vezes chamamos de “esperteza” – no caso simbolizado na serpente! O resultado não poderia ser outro: Se reconhece nu! E nu nesta situação não é exatamente sem roupas. Nu significa incapaz, impotente para resolver o mal estar que criou por conta da sua própria decisão. Como resultado toma atitudes paliativas. Fabrica respostas, costura roupas que no máximo esconde a sua vergonha.
São Paulo, na carta aos Romanos, mostra que apesar das atitudes insanas tomada pela criatura Deus nunca abandonou a sua obra. Gratuitamente Ele devolve a dignidade que havia perdido, recupera a condição de humanidade livre.
O modelo de criatura em condições de arcar com as suas conseqüências estão relatados no evangelho. Jesus teve todas as oportunidades para enveredar por outros caminhos. Oportunidade de dar ouvidos à “esperteza” neste caso personificada pelo demônio - foram lhe dadas de sobra. Mas, Jesus, livre em relação a todos, foi capaz de manter-se fiel. Não aceitou nenhuma das provocações, revidou a todas as alternativas e de modo prudente saiu vitorioso. Como resultado em lugar de  precisar encontrar respostas que não resolviam, foi servido pelos anjos.
Neste sentido também nós rezamos com o Salmista: Tende piedade ó meu Deus misericórdia. Da imensidão dos meus pecados purificai-me!
A quaresma, e neste ano a campanha da fraternidade nos convida a assumir nossa parte nas responsabilidades pelas catástrofes ambientais, ecológicas e por conseqüências humanas e sociais, que todos os dias batem à nossa porta. Não basta tentar justificar é importante mudar de atitudes.
Peçamos a graça de pela oração, pelo Jejum, pela penitência e a esmola desta quaresma moldar nossa vida não pela “esperteza” que constantemente bate à nossa porta, mas pela coerência entre nossas atitudes e nossas convicções.
padre Elcio
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“Não só de pão vive o homem”
Os três sinóticos contam a história das tentações de Jesus logo depois do Batismo - Marcos de uma forma resumida, Mateus e Lucas de uma maneira mais elaborada. Devemos lembrar que estes relatos procuram expressar uma experiência interior de Jesus, e não devem ser interpretados ao pé da letra, de uma maneira fundamentalista. Ligando as tentações ao batismo de Jesus, os evangelistas frisam que a sua experiência é como a nossa própria experiência - nós também temos compromisso com o projeto de Deus, individual e comunitariamente; mas, entre o nosso compromisso e a sua concretização de uma maneira coerente com o seguimento de Jesus, existem muitas tentações, que exigem discernimento!
O texto diz que Jesus era “conduzido pelo Espírito ao do deserto” (v. 1). O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas O acompanha nas tentações. E como o Espírito Santo não O abandonou no momento de crise, mas lhe dava força, tampouco vai nos abandonar nos momentos de crise e discernimento.
O início das tentações se dá no deserto. Mateus quer evocar a experiência de Israel, pois para ele Jesus era o Novo Moisés, e a Igreja o Novo Povo de Deus; e, podemos lembrar que no deserto, Moisés e o povo foram tentados e sucumbiram – mas, Jesus é tentado e vence!
Olhando bem as tentações, podemos encontrar nelas três grandes tentações da época pós-moderna, também para a vida cristã: as do “Ter”, do “Poder” e do “Prazer”. As tentações de Jesus não são para coisas que são más em si, mas que causariam desvios do plano do Pai. Não é diferente com a vida cristã hoje - raramente somos tentados a assumir algo mau em si; mas, sim, a fazer opções para coisas boas, mas que seriam incoerentes com o projeto de Deus para nós! A tentação vem de forma sutil, disfarçada - vale notar que nas três tentações o diabo não nega a identidade e missão de Jesus, mas a confirma “Se és Filho de Deus”. Também, para nós, a tentação pode se apresentar como algo que não nega a nossa identidade cristã, mas que é condizente com ele, enquanto na verdade não é. Por isso, a necessidade da “vigilância”, para não cairmos em tentação, uma advertência constante dos evangelhos. Quaresma pode ser tempo privilegiado deste discernimento individual e comunitário.
Primeiro, Jesus era tentado a mandar que uma pedra se tornasse pão. Jesus veio para doar-se como o Servo de Javé - mas logo, no momento do primeiro sacrifício por causa da sua opção, ele é tentado a esquivar-se! É a tentação do “prazer” hoje - entre as mais comuns, em um mundo que prega a satisfação imediata dos desejos, uma sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Estamos em uma sociedade de individualismo, onde a regra dominante é “se deseja, faça!” Uma sociedade onde o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como a ladainha dos perdedores! As consequências dessa visão são bem exploradas como tema da Campanha da Fraternidade deste ano - a destruição do Planeta e da vida que existe nele. Jesus não cai na tentação - a resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (v. 4). Jesus enfrenta essa tentação - e as outras - com citações tiradas de Dt. 6-8, que versam sobre a primazia da Palavra de Deus como o alimento do seu povo na caminhada. Jesus aqui dá o verdadeiro sentido do seu jejum - Deus é o único sustento da verdadeira vida. Ele, possuído pelo Espírito de Deus, confia no seu Deus para sustentá-lo. A obediência de Jesus como Filho e Servo (Hb. 5,7-8), simbolizada pelo jejum, é agora verbalizada. Jesus confia que o seu Pai vai sustentá-lo em todos os seus sofrimentos e tribulações, provenientes de uma vida coerente com a sua vocação. Uma bela lição para nós, nos momentos difíceis da nossa caminhada cristã!
A pessoa humana, para Jesus, vive certamente de pão - mas não só! Jesus não é sádico nem masoquista, contra o necessário para uma vida digna. Salienta muito bem que não é somente a posse de bens (simbolizados pelo pão) que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a fidelidade à vontade de Deus, a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisamos de ambos para que tenhamos a vida plena! Com esta frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade e a solução dos problemas do mundo na simples satisfação das necessidades materiais, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos - duas tendências não ausentes entre nós cristãos.
A segunda tentação é de confiar no poder - fazer milagre diante de milhares, para demonstrar o seu poder. A tentação do poder é tremendamente insídia em nós, na sociedade e nas Igrejas. Há mais de um século, um estadista e historiador católico inglês, Lord Acton, advertiu que “todo o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente!” Jesus veio como Servo, assumiu a missão do Servo de Javé, mas é tentado a confiar mais no poder, no extraordinário, e não no Deus Libertador e nos pobres e humildes. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da Cruz, para “evangelizar”! Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga! E continua corrente esta tentação - de confiar mais nas concentrações nos estádios cheios, com “milagres” e “prodígios”, do que nos grupos pequenos e humildes das comunidades cristãs, dirigidos por pessoas simples, sem pretensões, espalhados pelo Brasil afora! Somos todos capazes de cair nesta tentação - não a de ter o poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, aparentemente mais forte e eficaz do que a fraqueza de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava com força “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor. 1,25) e ainda: “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte” (1Cor. 1,27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarificar a sua vocação e despachar o diabo, o tentador, com a frase “Não tente o Senhor seu Deus!” (v. 7)
A terceira tentação pode ser vista como a do “ter”. Não que o dinheiro seja algo ruim - sem ele não se vive! Torna-se um mal quando chega a ser um ídolo - a fonte de nossa auto-suficiência! É ruim quando se fundamenta a vida sobre ele. Jesus não é tentado a ser um ricaço - mas é tentado no sentido de fugir da sua vocação de ser o messias dos pobres, tão esperado pelos “anawim”, os pobres de Javé, e profetizado por segundo-Isaías, Zacarias e Sofonias. É tentado a acreditar mais no poder da riqueza do que na pobreza dos seus futuros discípulos de Galiléia.
De novo, algo muito semelhante com a nossa situação atual. Nós temos que viver o nosso compromisso no mundo pós-moderno da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, os meios da comunicação de massa trazem para dentro das nossas casas - inclusive casas religiosas - a mensagem de que é necessário “ter mais”, e não importa “ser mais!” Como sempre, a tentação vem de forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que poderão ser usados em favor da missão, garantirá uma ação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres e simples, de não seguir as pegadas do carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes nós somos tentados a confiar no poderio do dinheiro, como se a compra de instrumentos e aparelhos cada vez mais sofisticados garantisse a evangelização. É certo que devemos utilizar o que a ciência moderna nos providencia, mas, sem confiar nisso como o fundamento da nossa missão. Jesus enfrentou essa mesma tentação - Ele que veio para ser pobre com os pobres, para manifestar o Deus que opta preferencialmente por eles, é tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá” (v. 10)
Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. O “ter”, o “poder” e o “prazer” são coisas boas, quando utilizados conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossa vida! Jesus teve que enfrentar o que nós hoje enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos. O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer ser fiel à sua vocação cristã: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá” (v. 10)
O texto nos ensina que Jesus, Filho e Servo, vencerá a hostilidade à sua missão pela sua fé obediente, e libertará as pessoas dominadas pela força do mal. Mas, a tentação não era de um momento só - voltará mais vezes na vida de Jesus, como na nossa. Aparecerá de novo no caminho de Cesaréia de Filipe, no Horto das Oliveiras e especialmente na Paixão - a suprema investida do diabo! Diante das várias opções disponíveis, diante dos diversos modelos de messianismo, Jesus teve que discernir a vontade do Pai. É o desafio da vida cristã hoje.

Santuário Eucarístico Diocesano
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O primeiro domingo da Quaresma inicia-se com Mateus citando a solidão de Jesus no deserto, após ser batizado por João. Fortalecido pela presença do Espírito de Deus, Jesus é submetido a duras provas propostas pelo demônio que questiona a sua atitude filial para com Deus, tentando desestabilizá-lo.
Diabo é uma palavra grega que representa uma pessoa ou situação que lança uma coisa no meio para separar, e diabólica é a ação que separa, que cria divisões.
As tentações acontecem no deserto – lugar das dificuldades, necessidades e injustiças pelas quais passou o povo hebreu ao sair do Egito, uma vez chamado por Deus para colaborar na construção de uma nova sociedade. E é no deserto que Jesus permanece por quarenta dias e quarenta noites, retomando assim a história de seu povo que permaneceu ali quarenta anos antes de ingressar na Terra Prometida.
Mateus descreve três situações em que Jesus é tentado a forjar a sua missão e trair o plano de justiça de Deus: na abundância, no prestígio e, no poder e na riqueza.
Ao resistir as tentações do demônio, Jesus sela definitivamente o seu compromisso com Deus e com a sua justiça.
A quaresma é um tempo de preparação, de meditação e, com isso, momento de perceber a injustiça que é fruto do acúmulo dos bens da 1ª tentação, da busca de prestígio da 2ª tentação, e da concentração do poder da 3ª tentação.
A igualdade para todos precisa ser uma prática, mas que só pode acontecer quando os homens crerem que é possível mudar os rumos da sociedade, onde alguns são privilegiados à custa da ignorância, da manipulação e da omissão de muitos.


Pequeninos do Senhor
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A Quaresma - no deserto as tentações e a libertação
A quaresma é o tempo litúrgico da conversão, que a Igreja marca para nos prepararmos para a grande festa da Páscoa. É tempo para o arrependimento, de mudar algo de nós para construirmos um mundo melhor e podermos viver mais próximos de Cristo.
A Quaresma dura 40 dias, começa na quarta-feira de cinzas e termina no domingo de Ramos. Ao longo deste tempo, sobretudo na liturgia do domingo, fazemos um esforço para recuperar o ritmo e estilo de verdadeiros fiéis que devemos viver como filhos de Deus.
A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa luto e penitência. É um tempo de reflexão, de penitência, de conversão espiritual, tempo e preparação para o mistério pascal. Na Quaresma, Cristo convida-nos a mudar de vida. Nos, em Igreja, somos convidados a viver a Quaresma como um caminho para Jesus Cristo, escutando a Palavra de Deus, orando, compartilhando com o próximo e praticando boas obras. Como se vê há uma série de atitudes cristãs que nos ajudam a «parecer» mais com Jesus Cristo, já que por ação das nossas falhas, nos afastamos mais de Deus.
Por isso, a Quaresma é o tempo do perdão e da reconciliação fraterna. Cada dia, durante a vida, devemos retirar dos nossos corações o ódio, o rancor, a inveja, os zelos que se opõem ao nosso amor a Deus e aos irmãos. Na Quaresma, aprendemos a conhecer e a apreciar a Cruz de Jesus, como sinal de libertação da nossa própria cruz. Com isto aprendemos também a tomar a nossa cruz com alegria para alcançar a glória da ressurreição.
A liturgia deste 1º domingo da Quaresma, apresenta-nos as tentações de Jesus no deserto. Do ponto de vista positivo, podemos dizer que o deserto é uma ocasião propícia para o silêncio, para a oração e para a penitência. Mediante estes aspectos podemos reencontrar o sentido da vida e redescobrir tudo aquilo que é fundamental para sermos felizes. O deserto pode ser ainda uma ocasião onde deixamos o Espírito nos encher de verdade por dentro e assim criarmos as condições necessárias para assumir plenamente todos os projetos da nossa vida. Jesus dá-nos o exemplo.
Do ponto de vista negativo, o deserto pode ser tudo o que não tem sabor nem é importante para nos tornarmos mais humanos e mais irmãos uns dos outros. O deserto pode ser toda a nossa propensão para a esterilidade do amor. Uma vida toda carregada de egoísmo e de ódio contra os outros é uma vida no deserto árido sem sombra de existência verdadeira.
Os nossos desertos também podem ser positivos ou negativos. Porém não podemos esquecer que em nenhum momento o Espírito Santo nos abandona. Assim, podemos estar seguros que o amor de Deus ou o Espírito Santo, será a força principal que nos guiará para a verdade e nos livrará de todas as tentações que o diabo intente contra o nosso coração.
As tentações fazem parte da vida e podem ser uma constante no nosso pensamento e no nosso coração. Porém, se acreditamos de verdade na mediação fiel do Espírito Santo nada nos pode demover daquilo que escolhemos para as nossas caminhadas pessoais.
No entanto, nenhuma pessoa pode, em nenhum momento, vangloriar-se de que está livre de tentações. Porque todos os seres humanos estão sujeitos às travessias no deserto e em qualquer momento podem ser atacados com as piores artimanhas do diabo.
O diabo ou demônio, é uma figuração do mal. É a nomeação de tudo aquilo que seja contra a dignidade humana. O demônio, é um nome que manifesta a força do mal ou da maldade que gera o coração dos homens e a lógica do mundo.
Parece que nem o próprio Jesus se livrou dessa propensão, embora sendo verdadeiramente Deus. A humanidade de Jesus foi assumida em toda a sua radicalidade e neste momento também podemos perceber de verdade, como Jesus não deixa de assumir as tentações como aspecto peculiar da condição humana. Elas tornam-se um instrumento, que Jesus utiliza para nos mostrar que na nossa vida, embora também cheia de tentações, devemos mediante a presença do Espírito Santo, lutar sempre contra tudo o que nos desvie do caminho do bem.
padre José Luís Rodrigues

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O tempo da Quaresma pretende, sobretudo através da recordação do batismo e pela penitência, preparar os fiéis para a celebração do mistério pascal. São quarenta dias de oração mais intensa e de penitência. Ouviremos com mais frequência a Palavra de Deus que implicará em cada um de nós uma mudança para melhor.
Que cheguemos todos à alegria da Páscoa com «maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho» (Coleta).

Gênesis 2,7-9; 3,1-7
O «relato» bíblico das origens, de que hoje se lêem alguns vv., não pode ser lido ingenuamente como um relato histórico daquilo que sucedeu no início do Universo e do ser humano, «porque, não se trata de saber quando e como surgiu materialmente o cosmos, nem quando é que apareceu o homem; mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem: se foi determinada pelo acaso, por um destino cego ou uma fatalidade anônima, ou, antes, por um Ser transcendente, inteligente e bom, que é Deus. E, se o mundo provém da sabedoria e da bondade de Deus, qual a razão do mal? De onde vem o mal? Quem é responsável pelo mal? E será que existe uma libertação do mesmo?» (Catecismo da Igreja Católica, nº 284).
7 «Pó da terra… sopro de vida»: a narrativa tem como ponto de referência não só o fato de que, pela sua corporeidade, o homem pertence à terra e, ao morrer, se reduz a pó, mas também o fato de que, na língua hebraica, «homem» (adam) se diz com o mesmo vocábulo com que se designa a terra avermelhada (adamáh); mas, ao mesmo tempo, o homem está animado por um princípio («sopro») de vida, que não vem da terra. A representação de Deus como «oleiro», independentemente das notáveis semelhanças com outros relatos extra-bíblicos, parece sugerir que o homem está nas mãos de Deus como o barro nas mãos do oleiro (cf. Is. 29,16; Jer 18,6; Rom. 9,20-21; Job. 34,14-15).
2,8-9 Um jardim. Nos LXX lê-se «parádeisos»; daqui a habitual designação de «paraíso (terrestre)». O jardim de «delícias» (éden) permite que o leitor pense, mais que num lugar geográfico, num estado de felicidade original e de comunhão com Deus; a «árvore da vida» simboliza a vida em plenitude e a imortalidade (cf. Gn. 3,22); «a árvore da ciência do bem e do mal» é o símbolo da fonte do reto atuar moral, o projeto do Criador, que o homem não pode manipular nem alterar a seu bel-prazer sem cavar a sua ruína.
3, 1-7 Num relato simbólico, numa linguagem cheia de imagens muito expressivas, seja qual for a origem literária destas figuras, deixa-se ver que os males de que o ser humano padece não procedem de Deus, mas do pecado, que, desde a origem, destruiu a harmonia do homem com Deus, consigo próprio e com a criação, com consequências desastrosas que afetam toda a humanidade (cf. a 2ª leitura de hoje: Rom. 5,12-19). Note-se, porém, que uma interpretação literal fundamentalista desta narrativa corre o perigo de levar ao absurdo de considerar a lei moral como algo caprichoso e extrínseco à natureza humana.
1 «A serpente», um símbolo do demônio, cf. Ap. 12,9, onde se fala da «serpente antiga», o inimigo de Deus e dos amigos de Deus, que aqui aparece também como «caluniador» (este é o significado do seu nome grego, «diábolos»), ao apresentar a ordem divina como má, uma prepotência da parte de Deus (v. 5). Note-se a profunda observação psicológica posta na encenação do processo da tentação: estão aqui representadas as tentações de sempre; primeiro, uma insinuação inocente – «é verdade que Deus vos proibiu…», a que se segue o efeito de começar a prestar atenção àquele a quem não se pode dar ouvidos; finalmente, uma vez aberto o diálogo, no momento preciso, o tentador entra a matar, mentindo descaradamente (cf. Jo 8,44) – «de maneira nenhuma! Não morrereis! Mas Deus sabe que…» (v. 5). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem no demônio, satanás, ou diabo, um anjo criado bom por Deus, mas que se tornou mau.
5 «Sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal»: Isto não significa alcançar a onisciência divina, nem adquirir o poder de discernir o bem do mal. Este «conhecer o bem e o mal» corresponde a decidir por si o que é bem e o que é mal; trata-se, portanto, de encenar uma tentação de soberba pela qual a criatura não se conforma com a sua condição de criatura, e não aceita o supremo domínio de Deus.
6 «Fruto… para esclarecer a inteligência». Sendo-nos desconhecido em que consistiu o pecado das origens, porque Deus não no-lo revelou, alguns exegetas procuram então averiguar qual é o tipo de pecado que o hagiógrafo aqui descreve, e vêem nesta linguagem um colorido de magia e feitiçaria (um conhecimento oculto), ou até mesmo uma alusão ao culto das serpentes para a fertilidade, de que o hagiógrafo pretenderia afastar os seus contemporâneos tão atreitos a estes desvios religiosos.
7 «Compreenderam que estavam despidos». Note-se a fina ironia latente no contraste com a promessa sedutora: «abrir-se-ão os vossos olhos» (v. 6); os olhos abrem-se, sim, mas para contemplarem a própria nudez. Assim fica simbolizado o desgosto e a frustração que se segue ao gosto do pecado, e também a noção teológica da ruptura da harmonia primordial, nomeadamente entre o homem e a mulher (cf. 2,25).

Romanos  5, 12.17-19
Estamos diante dum texto da máxima importância para a Teologia e para a vida cristã. As controvérsias doutrinais contribuíram para que o ponto central das afirmações de Paulo se tenha feito deslocar da justificação pela graça para o pecado, e da obra salvadora de Cristo para a obra demolidora de Adão. É certo que não faria sentido falar da libertação por Cristo do pecado, da condenação e da morte, sem que estes males tivessem entrado de forma poderosa no mundo. Mas Adão não passa duma figura, por antítese, de Cristo, em virtude duma argumentação a fortiori de tipo rabínico (o chamado qal wa-hómer). Mas, ainda que, como pensam muitos exegetas, Paulo não trate direta e expressamente do tema do pecado original (só indiretamente), este texto não deixa de oferecer uma base legítima e sólida para a doutrina proposta pelo Magistério da Igreja, assim resumida no Catecismo da Igreja Católica, nº. 403: «Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o fato de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infectados e que é a ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o batismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal».

Mateus 4,1-11
Antes de mais, convém advertir que as tentações de Jesus não aparecem como uma tentação ocasional qualquer, nem sequer um ataque mais violento, mas como um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Com efeito, não se trata de umas tentações dirigidas a fazer com que Jesus caia em meras faltas pessoais (gula, orgulho, avareza), mas têm o caráter de um ataque frontal para desvirtuar toda a obra de Jesus, desviando-a da vontade do Pai. Com efeito, «as tentações acompanham todo o caminho de Jesus, e a narração das tentações apresenta-se… uma antecipação, na qual se condensa a luta de todo o caminho. […] Os 40 dias de jejum abrangem o drama da história, que Jesus assume em Si mesmo e suporta até ao fundo». (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pp. 57.60).
Uma consideração superficial desta passagem evangélica poderia levar-nos a encarar estas tentações até como ridículas, absurdas ou míticas. Vale pena ver o belo e profundo comentário do Papa na referida obra. Mas vejamos brevemente o enorme alcance de cada uma das três tentações:
3-4 Na primeira tentação, trata-se de fazer enveredar a Jesus pelo caminho das esperanças materialistas do povo que esperava um Messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.
5-7 Na segunda tentação, aquele «lança-te daqui abaixo», constitui um apelo à esperança judaica num messias a descer espetacularmente do céu, à vista do povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espetacular, dizendo um decidido não a um atuar à base do triunfo pessoal, do êxito humano.
8-10 Na terceira tentação, aparece diante de Jesus a sedução de se mover na linha da esperança popular num messianismo político, vitorioso, dominador dos Romanos e do mundo inteiro, a tentação de reduzir a instauração do Reino de Deus à instauração dum reino temporal.
Ninguém foi testemunha destas tentações, mas Jesus, ao falar aos Apóstolos do Reino de Deus, não deixa de os prevenir contra umas tentações que haveriam de vir a sentir também os seus discípulos ao longo da história. Também assim Jesus «se tornava em tudo semelhante aos seus irmãos, para se tornar um Sumo Sacerdote misericordioso» (Hb. 2,17). E Jesus aparece a ensinar-nos a resistir, sem dar ouvidos, como Eva, aos enganos do mafarrico, sem entrar em diálogo com ele, mas apoiando-nos sempre na certeza e na luz da Palavra de Deus e na sua graça, que Jesus ensinou a pedir no «Pai-Nosso»: «não nos deixeis cair em tentação» e «livrai-nos do Maligno» (Mt. 6,13).
Sugestões para a homilia
1. As tentações de Jesus.
«Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo demônio» (Evangelho).
O Evangelho fala-nos de um tempo de solidão e recolhimento que Jesus passou no deserto, imediatamente após ter sido batizado por João Baptista no rio Jordão. Passado esse tempo – quarenta dias e quarenta noites – o demônio tentou-O por três vezes, procurando pôr em causa a sua atitude filial para com Deus; Jesus repele esses ataques que recapitulam as tentações de Adão no paraíso e do povo de Israel no deserto.
Jesus é o novo Adão que se mantém fiel naquilo em que o primeiro sucumbiu. A vitória de Jesus sobre o tentador antecipa a vitória da Paixão, como suprema obediência do seu amor filial ao Pai. A vitória de Jesus sobre as tentações manifesta a maneira própria de o Filho de Deus ser Messias e Salvador, ao contrário do que Lhe propõe Satanás.
Jesus, vencendo as tentações, é para nós exemplo encorajador: «Nós não temos um Sumo-Sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas; temos um que possui a experiência de todas as provações, tal como nós, com exceção do pecado» (Hb. 4, 15).
Neste tempo da Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Cristo no deserto e recorda aos seus filhos que «através de toda a história humana se trava uma dura batalha contra o poder das trevas que, iniciada nas origens do mundo, durará…até ao dia final. Envolvido nesta peleja, o homem tem que lutar continuamente para manter-se no bem» (G. Spes, n. 37).
2. O que é a tentação.
A tentação é uma prova, é um convite e solicitação para pecar: «Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia; depois a concupiscência, quando concebe, dá à luz o pecado; e o pecado, quando tiver sido consumado, gera a morte» (Tg. 1,14-15). A tentação, se não for vencida, conduz ao pecado e à morte. Aparentemente, o seu objeto é «bom, agradável à vista, preciosos» (Gen. 3,6), mas, na realidade, o seu fruto é a morte.
Peçamos ao Senhor que não nos deixe cair na tentação, «mas que nos livre do mal» (Pai Nosso). A vitória sobre a tentação só é possível pela oração. Foi pela oração e pela força da Palavra de Deus que Jesus venceu o tentador. «Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo» (Rom.10,13).
3. Como vencer a tentação.
O Catecismo da Igreja Católica, no n. 397, lembra-nos que o homem, tentado pelo demônio, deixou morrer no seu coração a confiança no seu Criador e na sua bondade, preferindo-se a si próprio em vez de Deus; por isso, desprezou a Deus e confiou mais na palavra enganadora do demónio. «Dali em diante, todo o pecado será sempre uma desobediência a Deus e uma falta de confiança na sua bondade». Por isso, juntamente com a oração, é necessária uma contínua vigilância e uma confiança absoluta em Deus e na sua Palavra, para não cairmos na tentação. «Vigiai e orai para que não entreis em tentação» (Mt. 14,38). «Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças» (1Cor. 10,13).
Deixemos que a Palavra de Deus encha o nosso coração e a nossa mente e veremos a força e o poder que ela nos dá diante das maiores tentações.
Há também que fugir das ocasiões de pecado e das más companhias e pedir ajuda, sendo sincero com quem dirige a nossa alma: «tentação descoberta, tentação vencida».
A confissão frequente dar-nos á graça e fortaleza para lutar contra as más inclinações e resistir à investidas do tentador. Na Eucaristia «torna-se presente de novo a vitória e o triunfo de Cristo sobre o demônio, sobre o mal e sobre a morte»; por isso, comunhão frequente.
Não esquecer o que nos diz o Salmo 90: «Ele mandou aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos».
Outra arma para vencer as tentações que jamais devemos descurar: a devoção filial a Nossa Senhora: «Antes, só, não podias…Agora, recorreste à Senhora, e, com Ela, que fácil» (Cam. 513).
Fala o Santo Padre
«O combate interior vence-se com as armas da penitência.»
2. Na quarta-feira passada, com o rito das Cinzas, demos início à Quaresma, tempo litúrgico que todos os anos nos recorda uma verdade fundamental: não se entra na vida eterna sem carregar a nossa cruz, em união com Cristo. Não se alcança a felicidade e a paz, sem enfrentar o combate interior com coragem. Trata-se de um combate que se vence com as armas da penitência: a oração, o jejum e as obras de misericórdia. Tudo isto deve realizar-se no segredo, sem hipocrisia, em espírito de amor sincero a Deus e aos irmãos.
3. […] Maria Santíssima, que no meio das ocupações quotidianas conservava a mente e o coração sempre dirigidos para o mistério do seu Filho, nos leve a realizar um frutuoso itinerário quaresmal. João Paulo II, Angelus, 13 de fevereiro de 2005
Nuno Westwood - Geraldo Morujão


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