.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 12 de março de 2014

TRANSFIGURAÇÃO

2º DOMINGO QUARESMA

16 de Março de 2014 
Evangelho - Mt 17,1-9

O seu rosto brilhou como o sol.

TRANSFIGUREMO-NOS PARA TRANSFIGURAR - José Salviano

 

TRANSFIGUREMO-NOS PARA TRANSFIGURAR O MUNDO-José Salviano


            Para que possamos transfigurar o mundo, é necessário que primeiro nos transfiguremos.  E assim, precisamos mudar não somente a nossa aparência exterior, mas principalmente a nossa realidade interior.  De nossa boca brotam palavras que devem sair do fundo da nossa alma, e não palavras vãs, fruto da falsidade, ou da nossa fraca fé, da nossa pouca vivência, da nossa falta de estudo da palavra de Deus. Continua...


============================

“ESTE É O MEU FILHO AMADO NO QUAL EU PUS TODO O MEU AGRADO.” - Olívia Coutinho

2º DOMINGO DA QUARESMA

Dia 16 de Março de 2014

Evangelho de Mt 17,1-9

Estamos no segundo domingo da quaresma, nos preparando para vivermos  com  intensidade, a Páscoa do Senhor Jesus!
 Neste tempo reflexivo, somos convidados a  contemplar a luz de Cristo, para que possamos,  iluminados por ela, viver a nossa realidade humana, dentro do plano de Deus, no respeito e no cuidado com a vida.
Junto com a Quaresma, a Igreja nos apresenta  a Campanha da Fraternidade, com suas preocupações e desafios: “FRATERNIDADE E TRÁFICO HUMANO”.  Lema: “ É PARA A LIBERDADE QUE CRISTO NOS LIBERTOU .
É a Igreja no Brasil, convidando-nos  a voltarmos  o nosso olhar para tantos irmãos privados de usufruir  do bem maior que nos fora conquistado por Jesus: a nossa liberdade!
 Como seguidores de Jesus, não podemos ficar insensíveis diante desta  dura realidade: seres humanos sendo tratados como mercadoria, como objeto de consumo! Uma realidade que parece estar  distante de nós, mas que está mais perto do que imaginamos,  só não é tão visível,  porque, quem  vive esta realidade, vive a prisão do silencio, amordaçados pelos seus opressores, estão impedidos de clamar por justiça.
Se quisermos tomar parte com Jesus, o nosso primeiro passo tem que ser a conversão, é a  conversão que nos abre à luz de Cristo, que nos tira da escuridão das trevas, nos fazendo enxergar e a   desmascarar os projetos que nos mantém à sombra da injustiça.
Iluminados pela luz de Cristo, tornaremos luz peregrina, a resgatar aqueles que estão  nas trevas, os que estão impedidos  de usufruir da liberdade conquistada  com sangue de Jesus.
Em muitas situações, ser luz, pode implicar grandes riscos, porém, o pior risco, é de não  aceitarmos  o desafio de ser luz, nos omitindo diante às injustiças,  o que pode nos condenar à pior de todas as trevas: estar longe de Jesus!
 Aproveitemos pois, este tempo precioso para revisar o quanto há de luz, e o quanto há de sombras em nossa vida!
Somos  filhos amados do Pai, que mais uma vez deseja percorrer o caminho que  Jesus percorreu, atualizando esta caminhada no contexto do mundo de hoje.
O Evangelho que a liturgia deste domingo coloca diante de nós, nos mostra a belíssima cena da transfiguração de Jesus!
 “Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João e os levou a um lugar à parte, sobre uma montanha. E foi transfigurado diante deles; o  seu rosto brilhou como o sol  e as suas roupas ficaram brancas como a luz.”
A transfiguração  de Jesus, foi o prenúncio do seu retorno glorioso ao Pai, momento em que Ele apresenta aos discípulos uma pequena amostra do céu.  A cena revela aos discípulos, a Sua  intimidade com o Pai, assegurando-os da Sua ressurreição após Sua morte de cruz!
Na transfiguração, os discípulos Pedro, Tiago e João, puderam visualizar o encontro de Jesus com o Pai. A partir de então, eles, que andavam tristes, desapontados com as últimas revelações  de Jesus, sobre a proximidade de sua morte, se encheram de alegria, com a  certeza de que a vida e ação de Jesus, não terminaria com a sua morte.
Assim como Pedro desejou construir três tendas para que eles pudessem ficar no alto da montanha com Jesus, longe dos perigos e sem precisar batalhar a vida, nós também, certamente, desejaríamos  o mesmo, essa  pode  ser a  nossa grande tentação dos dias de hoje: buscar a nossa comodidade sem pensar no outro. 
Rezar, ouvir e meditar a palavra, é muito bom, agrada muito a Deus, mas precisamos descer do alto da “montanha”, ir mais além, andar com os pés neste chão duro, com olhar sempre voltado para as margens do caminho, pois é lá, que estão os rostos desfigurados de tantos irmãos, que contam  conosco para se transfigurarem!
Precisamos sair de nossas tendas, do nosso  comodismo, descruzar os  nossos braços, desvendar os  nossos olhos e nos por à caminho, pois há muito o que fazer pelo o outro!
O episódio da transfiguração deve nos animar ao longo de toda nossa vida, especialmente quando esta transfiguração nos mostra o lado da cruz. Jesus nos ensina com a própria vida a não temermos a cruz, Ele nos trouxe a certeza de que a cruz não é sinal de morte e sim, sinal de vida!
Guardemos dentro de nós, o brilho do rosto transfigurado de Jesus, brilho que nos  servirá de farol, para iluminar os túneis escuras de nossa  vida.

TENHA UM BELO DOMINGO COM A PAZ DE JESUS NO SEU CORAÇÃO! - Abraços: Olívia
           
============================

Evangelhos Dominicais Comentados

16/março/2014 – 2o Domingo da Quaresma
Evangelho: (Mt 17, 1-9)

Já chegamos ao segundo domingo da Quaresma. Rapidamente caminhamos rumo à Páscoa da Ressurreição de Jesus. Nunca é demais lembrar que, quaresma não é tempo de tristeza, apesar de estarmos vivendo um período de intensa reflexão sobre a paixão e morte de Jesus.

O evangelho de hoje retrata um acontecimento ocorrido seis dias depois que Jesus preveniu seus discípulos que deveria morrer. Pedro, porém, não quis aceitar esse fim. Pedro tinha suas razões. Como deixar morrer aquele que viera para salvar? Como lutar tanto e acabar derrotado pela morte?

Aproxima-se o momento em que Jesus será entregue aos malfeitores. Sua missão na terra está quase concluída. Sua paixão e morte estão muito próximas, no entanto, sua Ressurreição também está prestes a acontecer. 

É por isso que devemos nos alegrar! A Ressurreição é a vitória da Vida sobre a morte. Na Ressurreição está a certeza da vida eterna. A morte foi vencida, sofreu a sua maior derrota. A Vida Plena brotou através da Ressurreição.

Hoje os discípulos presenciam Jesus com o rosto brilhante como o sol e roupas brancas como a luz. Com sua transfiguração, Jesus quer mostrar a Pedro e para cada um de nós, que o caminho para a glória deve passar pelo calvário. A aparente derrota é só uma etapa para atingir a vitória.

O semblante resplandecente e as vestes luminosas simbolizam a presença de Deus na pessoa de Jesus. Este evangelho vem nos confirmar que quem tem Deus dentro de si tem um brilho forte que ilumina os ambientes. É um mensageiro cujo semblante, gestos e palavras irradiam a Verdadeira Luz.

No livro do Êxodo (13,21), uma nuvem luminosa protegia o povo de Israel no deserto. Esse era o sinal de que Deus acompanhava o seu povo. Quando Moisés recebeu as tábuas da lei (Ex 24,15-16), também o monte Sinai foi envolvido por uma nuvem simbolizando a Glória e a presença de Deus. A nuvem, que na transfiguração de Jesus envolve a todos, também é sinal da presença de Deus.

Em meio à nuvem, ou seja, em meio à Presença Gloriosa de Deus, os discípulos vêm Jesus conversando com Moisés e com Elias. Vejamos quem são eles: Moisés é aquele que entregou ao povo a Lei que recebeu de Deus. Elias é considerado como o primeiro dos profetas.

Para os israelitas, Moisés e Elias representavam todo Antigo Testamento, pois a Bíblia, para os judeus, se resumia na lei e nos profetas. Neste episódio, Moisés e Elias conversam com Jesus. Podemos dizer que esta cena representa o encontro do Antigo com o Novo Testamento.

Para confirmar que Jesus não é um simples legislador, ou apenas um profeta, Deus Pai apresenta seu Filho Predileto e deixa claro que, somente a Ele os discípulos devem dar ouvidos. A partir dai tudo assume um caráter novo, tudo converge para Jesus, Ele é a explicação e a realização da lei e dos profetas.

Pedro, assustado e percebendo a segurança que aquele local oferecia, tentando preservar o Mestre e, quem sabe, também a si próprio, propõe a construção de tendas para que fiquem ali.

Essa tentação de Pedro faz parte do nosso dia-a-dia. É mais cômodo e seguro fechar-se na tenda duma comunidade passiva, isolada e sem compromisso, sem se arriscar nem se expor na luta por mudanças, por justiça e paz.

No entanto, Jesus trata de desfazer essa ideia covarde e ordena que se levantem, que se organizem e que não tenham medo de sair pelo mundo para enfrentar os opressores, mesmo sabendo que encontrarão lágrimas, sofrimento e, até mesmo a morte, na difícil luta por um mundo pacífico e solidário.

(1501)


============================
    
No domingo passado, primeiro da Quaresma, meditamos sobre as tentações de Jesus. O Senhor no deserto, lutando contra o diabo, convidava-nos ao combate espiritual, próprio do deserto quaresmal. Sim, porque é isso que o tempo santo que estamos vivendo deseja ser: tempo de retiro no deserto do coração para combater nossos demônios interiores e, pela oração, a penitência, a caridade fraterna, a escuta da Palavra de Deus e a reconciliação sacramental, caminharmos para a santa Páscoa.
Na liturgia deste hoje, ladeado por Moisés e Elias, que também enfrentaram durante quarenta dias e quarenta noites o combate no deserto para experimentarem o fulgor da glória de Deus, Jesus nos mostra qual a finalidade do nosso caminho quaresmal, Jesus nos revela aonde nos leva nosso combate espiritual. Qual o objetivo? Qual a finalidade? Ei-los: celebrar com ele a sua Páscoa, sendo com ele transfigurado em glória! Nosso objetivo, nosso escopo, o feliz e gozoso fim do nosso caminho é o Cristo envolto na sua glória pascal que nos transfigura também a nós! Mais que Moisés e Elias, nós seremos envolvidos da glória de Cristo, aquela glória que é o Espírito Santo que o Pai derramou sobre ele na sua ressurreição! Passaremos, portanto, do roxo quaresmal, tão sóbrio, para o esfuseante branco pascal, sinal da glória e da imortalidade, transfigurados em Jesus e por Jesus, o homem perfeito, modelo de todo ser humano que vem a este mundo. Um dia, meus caros em Cristo, passaremos do roxo das lágrimas desta vida, para o branco da glória eterna dos que, revestidos da glória do Cordeiro, haverão de segui-lo para sempre! De Quaresma em Quaresma e de Páscoa em Páscoa, passaremos da Quaresma deste mundo para a Páscoa da glória eterna!
Mas, detenhamo-nos um pouco no Tabor do Evangelho hodierno. Ele é prenúncio, uma misteriosa antecipação da ressurreição. Com sua bendita Transfiguração, Jesus deseja preparar o seus para as dores da paixão – do mesmo modo que a Igreja nos deseja alentar e motivar para as renúncias e observâncias quaresmais. Por isso mesmo, Pedro, Tiago e João, o três que estão no Tabor são os mesmos que estarão no Jardim das Oliveiras. Por isso também o Evangelho de hoje termina com uma alusão à ressurreição de Jesus dentre os mortos e, o relato da transfiguração em Lucas afirma que “Jesus falava de sua partida que iria consumar-se em Jerusalém” (9,30). Eis: Moisés e Elias, a Lei e os Profetas dão testemunho da paixão do Senhor: tudo estava no misterioso desígnio de Deus! Após a ressurreição, isso ficará claro: “Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?’ E começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 34,26-27). Eis que mistério: a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) dão testemunho de Jesus e aparecem iluminados por ele. Somente nele, na luz da sua cruz e ressurreição, o Antigo Testamento encontra sua plenitude e sua luz!
Sendo assim, levantemo-nos! Tomemos, generosos, nosso caminho quaresmal! Também nós somos chamados, como nosso pai Abraão o foi, a sair: sair de nós mesmos, sair de nós velhos para nós renovados, transfigurados à imagem do Cristo Jesus! Tenhamos a coragem de atravessar o deserto interior, enfrentar o deserto do nosso coração, como Moisés e Elias, como o povo de Israel, como o próprio Senhor Jesus, que por nós quis ser tentado no seu período de deserto! Somente assim chegaremos renovados e purificados ao nosso destino. Este destino não é um lugar, mas uma situação, uma realidade: é o homem novo, transfigurado à imagem do Cristo que, após o tormento imenso da cruz, foi glorificado pelo Espírito do Pai. Eis o caminho quaresmal: do homem velho ao homem novo, do pecado à graça, do vício à virtude, da preguiça espiritual à generosidade, da morte à vida, da tristeza à alegria… trazendo em nós, na nossa vida, o reflexo da glória do próprio Cristo Jesus! Não é este o significado das palavras de São Paulo, na segunda leitura de hoje? “Sofre comigo pelo Evangelho. Deus nos salvou e nos chamou a uma vocação santa… em virtude da graça que nos foi dada em Jesus Cristo. Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade”. Eis! Os sofrimentos e lutas desta vida não são pesados se compararmos com o objetivo tão alto que nos preparam!
Caríssimos, que as práticas quaresmais, vividas com generosa fidelidade, arrancando o pecado que nos torna opacos, possam revelar em nós o resplendor da glória de Cristo a que somos chamados e que já está presente em nós desde o nosso batismo!
Mais ainda: que a novidade de nossa vida transborde para o mundo, que tanto tem necessidade do testemunho dos cristãos. Nunca esqueçamos: este mundo mergulhado na violência (violência da injustiça, violência do desrespeito à dignidade humana, violência da fome, violência dos atentados à paz, violência das drogas e das mentiras, violência dos meios de comunicação, violência da negação de Deus)… este mundo precisa de nosso testemunho e de nossa palavra, mesmo quando nos rejeita, quando despreza o nome de Cristo, quando deseja esquecer o seu Senhor e pisar os valores do Evangelho!
Deixemo-nos, portanto, transfigurar pelo Senhor e sejamos luz para o mundo! Como pede a oração inicial da Missa hodierna: Senhor, “que purificado o olhar da nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória!”
dom Henrique Soares da Costa
============================
Entre os boatos da vida
“O Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt. 17,1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb. 4,12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.” (Bento XVI - Mensagem para a Quaresma de 2011).
O papa nos propõe, para esse domingo, algo bem concreto: distanciar-nos dos boatos da vida quotidiana para imergir-nos na presença de Deus. Logicamente, não podemos pensar que Bento XVI utilize a palavra “boatos” como sinônimo de “fofoca”. É muito mais! Esses “boatos” não se referem necessariamente a pecados, ainda que poderiam sê-lo. E, no entanto, esses boatos tem que ver com as feridas do pecado das quais falávamos na semana passada. Depois do pecado original, ou seja, o pecado que os primeiros representantes do gênero humano cometeram, a natureza humana foi ferida. A ignorância, a malícia, a concupiscência e a debilidade do ânimo são as quatro feridas que nos fazem cair nos “boatos da vida”. Quais? Poderíamos fazer uma lista enorme de ocasiões de pecado, distrações do que realmente vale a pena, tentações, questões ambientais malsãs, vícios, pecados. Mas não é o caso. O importante é que tenhamos bem claro que devemos afastar-nos de tudo aquilo que nos aparta de Deus.
Cada pessoa precisa ir vendo quais são essas coisas que poderiam levá-la a afastar-se de Deus. O cristão foi curado pela graça; a sua inteligência e a sua vontade, também as suas paixões e tudo aquilo que tem que ver com o seu ânimo, foram lavados pela graça de Deus e elevados pelas virtudes da fé, da esperança e da caridade, virtudes estas que nos permitem alcançar a Deus. No entanto, levando esse tesouro da graça e das virtudes em nós, não podemos esquecer-nos de que somos “pessoas que caminham rumo a Deus” e enquanto estamos a caminho poderia acontecer que, por um ou outro motivo, nos afastássemos de Jesus: caminho, verdade e vida (cf. Jo 14,6). E isso seria terrível! Sair do caminho de Deus é perder-se!
Mas também poderia acontecer algo mais sutil: estando no caminho de Deus, seguir nos “boatos” da vida, ou seja, buscar-nos a nós e viver uma vida cristã pela metade. O Evangelho da Transfiguração nos diz que temos que viver “totalmente no céu e totalmente na terra”. Isso significa que enquanto temos a cabeça e o coração totalmente em Deus, os nossos pés estão bem apoiados na terra e tendo os pés em terra firme, em meio das nossas ocupações, não nos esqueçamos do Senhor. “Corações ao alto”, diz o sacerdote em cada missa. Nós respondemos dizendo que “o nosso coração está em Deus”. Mas, o nosso coração está realmente em Deus? Não somente durante a Missa, mas também noutros momentos, nas vinte e quatro horas do dia.
Sabe-se que o rei visigodo Leovigildo, no século VI, ameaçou o bispo de Mérida, Marona, com o desterro. Caso o prelado permanecesse fiel à fé católica e não se fizesse ariano, iria ao exílio. O arianismo era uma heresia muito estendida nesse período e que consistia em não aceitar a divindade do Filho de Deus. O bispo, ao ser ameaçado, disse ao rei: “eu não temo as ameaças. O exílio não me intimida de maneira alguma. O senhor poderia me enviar para um lugar onde Deus não está?” O rei disse ao bispo: “Imbecil! Em que lugar Deus não estará?” Então o bispo continuou o seu raciocínio: “Como o senhor sabe que Deus está em todas as partes, por que ameaçar-me com o desterro? Para onde eu for desterrado não me faltará a ajuda de Deus. Isso é tão certo que quanto mais o senhor me aflija, tanto mais a misericórdia de Deus me auxiliará e a sua clemência me consolará”.
O único desterro que seria realmente exílio para esse bom bispo era um lugar onde Deus não estivesse, mas como Deus está em todas as partes, é possível aproveitar sempre o auxilio e a clemência de Deus. Em meio dos boatos da vida, sejamos conscientes da presença de Deus. Ele está cuidando de nós continuamente, não abandonemos o Senhor porque ele não nos abandona nunca.
padre Françoá Costa

============================
“Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor,
que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto!” (cf. Sl. 26, 8s).
A liturgia da Santa Igreja nos apresenta, a cada ano, no segundo domingo da Quaresma o Evangelho da Transfiguração, no início da subida de Jesus a Jerusalém, onde Ele levará a termo a vontade do Pai. Somos hoje convidados a acompanhar Jesus neste caminho. Nesta caminhada, para não desfalecermos em nossa fé, é bom termos diante dos olhos – como João, Tiago e Pedro, as privilegiadas testemunhas, a glória daquele que vai ser aniquilado, o Filho e Servo de Deus. E somos convidados a ouvir a voz que sai da nuvem: “Escutai-o”.
A primeira leitura nos apresenta a vocação de Abraão: “Sai da tua terra!” (cf. Gn. 12,1). Largar o que consideramos adquirido é a condição para caminhar no rumo que Deus indica. Depois da Torre de Babel, a história humana parece ter virado em caos. Mas, com a vocação de Abraão surge um novo ponto luminoso. Inicia-se a “História da Salvação”. Cinco vezes ouve-se a palavra “bênção”. Abraão ouve o apelo: “sai da tua terra”, e a promessa: “Eu te abençoarei”. Esta é a sua única luz. Ele vai sem perguntar aonde.
A Segunda Leitura (cf. 2Tm. 1,8b-10) é um breve comentário a este largar. A Segunda Leitura nos aponta a vocação santa que recebemos em Cristo, no qual resplandece a vitória sobre a morte. Essa vitória final, Pedro, Tiago e João a viram antecipadamente, e atestada por Moisés – a Lei – e Elias – os Profetas, no monte da Transfiguração. A visão desta glória é acompanhada pela voz: “Escutai-o”, o que lembra o “Ouve Israel” de Dt 6,4. É um prelúdio da ressurreição – por isso as testemunhas devem guardar o silêncio até que esta se realize. A meta da história humana é a participação da vida divina. E é esta a salvação, que só pode ser experimentada como obra de Deus. O que Deus iniciou no “evento” de Jesus – a sua vida e a fé que provocou – Ele o levará a termo no Juízo. Enquanto temos esta esperança, o mundo, alheio a ela, não pode inspirar medo, nem ao apóstolo, nem a nós.
Jesus veio refazer em definitivo e ampliar ao máximo a aliança de Deus com o povo (cf. Mt. 17,1-9). A grande aliança de Deus com o povo no deserto acontecera no alto do Sinai, e as tábuas da Lei eram o sinal concreto, visível e viável do pacto entre Deus e o povo eleito: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (cf. Lv. 26,12). Jesus está agora caminhando para o momento decisivo da recriação da aliança entre Deus e o povo, está para fazer “a nova e eterna aliança”, como dizem as palavras da Consagração da Missa, já não mais gravada em pedra, mas escrita com seu sangue no coração de cada criatura humana.
No Sinai, o povo traiu a aliança, e preferiu um bezerro de ouro (cf. Ex. 32). Agora, pouco antes do episódio da Transfiguração, o povo se divide: a maioria se nega a aceitar a pregação de Jesus; e a minoria torna-se a dividir: uns esperam para logo um reino terreno de liberdade política, liderado por Jesus; outros estão perplexos, apesar da declaração de Pedro, que professara em nome dos doze: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo” (cf. Mt 16,16). Tanto a incredulidade da maioria quanto o comportamento dúbio da minoria vêm anotados por Mateus no contexto da Transfiguração. Jesus seleciona três entre os que ainda podiam crer, e que se tornariam “as colunas da Igreja” (cf. Gl. 2,9), e os leva para o monte, confirma-lhes o caminho da paixão como passagem obrigatória para a ressurreição, o milagre-prova para todo o sempre da nova e eterna aliança.
Abraão vivia em Ur dos Caldeus, aproximadamente 1800 anos antes de Cristo. Ur seria o Iraque atual. Deus o chama e ele obedece. Vamos notar que é Deus que o chama. Na história da humanidade e na história de cada um há sempre um chamado de Deus. Deus sempre precede aos nossos pensamentos e decisões. Contudo, o chamado gratuito de Deus se perde, se não houver a colaboração nossa com respeitosa resposta, pronto atendimento ao chamado do Senhor. Deus nos deu a inteligência, a vontade e os sentimentos suficientes para perceber o chamado divino e decidir aceitar ou não aceitar a sua convocação. O chamado de Deus – e está tão claro na história de Abraão – nem sempre vem com explicações ou com promessa de recompensas; pode ser até muito exigente, como o foi no caso de Abrão: teve de deixar sua terra, sua tribo, sua família; teve de partir para uma terra desconhecida. Teve de “morrer” para um passado e recomeçar tudo do nada, até mesmo sem saber o que significava esse recomeçar. Simplesmente confiou, plena e completamente, na vontade de Deus. Essa deve ser, caros amigos, a nossa atitude.
Abraão deve ser para nós o pai da confiança na misericórdia e na vontade de Deus. Confiou profundamente e com tanta unção que por um fio quase sacrificou o seu filho Isaac (cf. Gn. 21,1-19). Por isso, pela sua fé radical, Deus o fez e o proclamou pai de um povo abençoado, o povo eleito.
A fé de Abraão, de sua descendência, brotam inumeráveis bênçãos, das quais a maior de todas é Jesus de Nazaré, o Filho de Deus que se encarna no seio de uma mulher abraâmica.
Os apóstolos estavam na mesma posição de Abraão. Jesus os convoca para serem testemunhas e protagonistas da nova criação, da nova Terra Prometida, que Jesus chamou de “Reino de Deus”. Mas tudo isso foi possível porque os discípulos saíram de si mesmos, tiveram que deixar de pensar curto com a inteligência humana, mas aos olhos da fé que tudo vence. Ultrapassaram a visão humana do projeto divino. Acreditaram no desconhecido. Abraçaram a vontade de Deus. Arrancaram seus próprios interesses para carregar a cruz com Jesus e com Ele morrer no Calvário. Abraão creu no Senhor, mesmo quando o Senhor pedia a morte do seu único filho. Os apóstolos, e nós hoje, devemos crer em Jesus, mesmo vendo-o pregado na cruz. Na obediência e no serviço solidário vamos haurir as bênçãos celestiais e a filiação por parte do Senhor Deus.
Abraão e o Calvário: duas histórias que nos acompanham por dentro de todo o caminhar de nossa existência. Obedecer à vontade de Deus ou compreendê-la eis o dilema para nossa vida. A Transfiguração é escola de fé. A glória passa pelo pedágio da cruz, sem alternativa. Abraão caminhou sozinho. Os discípulos caminham com Jesus. Cristo caminha conosco. Porque Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Assim, a prática cristã exige conversão permanente, para largarmos as falsas seguranças que a publicidade da sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo generalizado nos prometem, para arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo e junto com os irmãos. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, como diz o Evangelho, e a receber de Cristo nossa vocação, para caminhar atrás dEle – até a glória, passando, se preciso, pela Cruz. Assim como Abraão ouviu a voz de Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometeu, devemos, também nós, largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.
Quando se propõe o problema da realização futura, as trevas caem sobre nós. Estamos diante de um devir que é muito mais obscuro do que se pode pensar; nossa fé vacila. Nossa fé não nos diz nada mais do que isto: para adotar as opções que nos permitam obter sucesso é necessário abranger-nos os dois extremos da história e podermos concentrar num instante o passado e o futuro. Esse é o risco que a fé comporta. O cristão que recebeu o batismo decide viver nesse risco. Sente a obscuridade que pesa sobre todos os homens na construção do presente, e não se assusta, não tem medo porque vê a meta, o Cristo transfigurado, e em Abraão o modelo a seguir.
Bento XVI, em sua mensagem para a Quaresma de 2011, ao comentar o Evangelho de hoje, nos ensina: “O Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt. 17,1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb. 4,12) e reforça a vontade de seguir o Senhor”.
Também, na vida da Comunidade eclesial, dão estes momentos de Tabor: a reunião da Assembléia, a escuta da Palavra, a celebração da Eucaristia e tantos outros. Eles reanimam e fortalecem, para que possamos descer com Cristo o monte Tabor e, tomando a sua Cruz, segui-lo pelas planícies da vida a subir com Ele a colina do Calvário, que por sua vez se há de transfigurar.
padre Wagner Augusto Portugal

============================
Transfigurados pelo amor
No Evangelho deste II Domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha em companhia de Pedro, Tiago e João, seguindo os passos de Jesus que se afasta da multidão e se recolhe para orar. A montanha na Bíblia é o lugar da presença e da manifestação de Deus. Foi sobre uma montanha que a Lei foi dada a Moisés como também foi sobre uma montanha que Elias revelou o Deus único. Agora, é Mateus que nos conta o que se passou naquela montanha onde estão reunidos Jesus com três discípulos: “ele foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz”.
Esta mudança no rosto de Jesus que o torna luminoso como o sol é o que chamamos “Transfiguração”. Transfigurar significa mudar a figura ou a feição. Imaginando como poderíamos entender melhor a transfiguração de Jesus, lembremos o rosto de algumas pessoas que nos passam essa ideia: o rosto de uma mãe que amamenta seu filhinho, o de um adolescente apaixonado etc. O que caracteriza o olhar de todos eles é o brilho no olhar. E o que faz iluminar a expressão destas pessoas? O amor. É o amor que transparece dos seus rostos e os torna brilhantes.
Com certeza, foi o amor que tornou o rosto de Jesus resplandecente. Enquanto estava rezando, ele entra em contato com o Pai, e o amor entre eles é tão grande que chega a alterar a sua aparência. Os três apóstolos que o acompanhavam certamente ficaram perplexos ao verem esta mudança; principalmente, quando apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Moisés, que guiou o povo de Israel da escravidão do Egito à libertação dada por Deus; e Elias, que foi assunto ao céu numa carruagem de fogo (2Rs. 2,11). Os dois, que representam toda a história de Israel, aparecem na montanha para conversarem com Jesus.
Mas, qual era mesmo o assunto da conversa deles? Conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém, falavam da paixão de Jesus, o que estamos, neste tempo de Quaresma, nos preparando para celebrar. Nesse ínterim, Pedro constata maravilhado: “Senhor, como é bom estarmos aqui!” E propõe: “Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro tem razão: deve ter sido muito bom mesmo estar ali imersos na luz do amor entre o Pai e o Filho, escutando o diálogo com Moisés e Elias. Era tão bom que Pedro queria que aquele momento nunca acabasse. Por isso é que ele propôs fazer três tendas. Normalmente, quando as pessoas vão a uma montanha para acampar, ou seja, querem passar mais tempo lá, levam e armam suas barracas. Porém, enquanto Pedro fazia a sua proposta, saiu uma voz do céu com outra indicação: para saborear aquele momento extraordinário, não era preciso armar tendas, mas ter um coração atento para ouvir a Palavra de Jesus.
De fato, o Pai diz: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado, escutai-o!”. Não faz muito tempo que ouvimos a mesma declaração no Batismo de Jesus. E esta é uma informação muito interessante, pois o Pai está dizendo que aquele Filho que começou o ministério no Jordão é o mesmo que está prestes a morrer crucificado. A força da voz do Pai deve ter sido uma experiência esplendorosa para os apóstolos, a ponto de ficarem assustados. Mas Jesus lhes diz: “Levantai-vos e não tenhais medo”. A voz de Jesus inspira em nós discípulos confiança e esperança. A força da voz do Pai insiste: “Escutai-o!”
Escutar! É a melhor maneira para se preparar para a Páscoa: escutar a Palavra que Jesus veio nos dar. Escutar com os ouvidos, mas, sobretudo, escutar com o coração. Só assim podemos ficar com o nosso rosto transfigurado. Infelizmente, hoje, o rosto de Jesus aparece mais desfigurado que transfigurado. Desfigurado em tantos rostos humanos por causa da pobreza extrema, dos vários problemas. Jesus sofredor aparece desfigurado no rosto de crianças doentes, abandonadas, desfrutadas; no de jovens desorientados, perdidos; no dos excluídos da sociedade; no de desempregados, no de idosos abandonados até mesmo pela família. São muitos os desafios que os missionários de Jesus têm de enfrentar. Coragem! Levantai-vos e não tenhais medo.
Enfim, como disse o papa Bento XVI na sua mensagem para a Quaresma 2011, “o Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt. 17,1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb. 4,12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.
padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento

============================
Do Tabor ao Calvário
A vida cristã pode ser comparada a uma caminhada que deve ser percorrida na escuta atenta de Deus, na observância total aos seus planos. A Quaresma é um momento forte para rever essa caminhada. As leituras bíblicas de hoje nos ajudam...
Na 1ª leitura, vemos a caminhada de Abraão: (Gn. 12,1-4)
Deus chama Abraão, convida-o a deixar a terra e a família e a partir ao encontro de uma outra terra, para ser um sinal de Deus no meio dos homens.
Deus lhe oferece a sua bênção e a promessa de uma família numerosa, que será testemunha da Salvação de Deus diante de todos os povos. Diante do desafio de Deus, Abraão pôs-se a caminho. Abraão percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.
Na 2ª leitura, Paulo exorta Timóteo a superar a sua timidez e a ser um modelo de fidelidade no testemunho da fé. (2Tm. 1,8b-10)
No Evangelho, vemos a caminhada de Jesus (Mt 17,1-9)
A caminho de Jerusalém, Jesus faz o primeiro anúncio da Paixão. O caminho da salvação esperado pelos discípulos é bem diferente. Por isso, ficam profundamente desanimados e frustrados. A aventura parece encaminhar-se para um grande fracasso. Para fortalecer o ânimo profundamente abalado dos discípulos, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, e revela-lhes no Monte Tabor a glória da divindade.
Após um momento de medo, eles reencontram a paz e a alegria.
Com a transfiguração, Mateus quer duas coisas:
- revelar quem é Jesus: é "o Filho amado do Pai" e
- convidar "escutem o que ele diz".
Pela Transfiguração, Deus demonstra que uma existência feita dom não é fracassada, mesmo quando termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos os que forem capazes de pôr sua vida a serviço dos irmãos, como Jesus.
O prefácio resume o sentido do evangelho de hoje: "Cristo, depois de anunciar a morte a seus discípulos, mostrou-lhes no monte santo o esplendor de sua glória para testemunhar, de acordo com a Lei e os Profetas, que a Paixão é o caminho da Ressurreição."
A nossa caminhada para Deus.
Também nós somos chamados a uma caminhada, que começa com o batismo.
No final dessa viagem, seremos envolvidos pela mesma "nuvem luminosa", que envolveu o Mestre e brilharemos como o sol no reino do Pai.
O papa enviou uma linda mensagem quaresmal, que vou tentar resumir. Inicia com as palavras de Paulo (Cl. 2,12): "Sepultados com ele no batismo, foi também com ele que ressuscitastes".
A Quaresma, que nos conduz à celebração da Páscoa, é um tempo litúrgico muito precioso e importante... para intensificar o seu caminho de purificação no espírito, para haurir com mais abundância do mistério da Redenção a Vida nova em Cristo Senhor.
Essa vida já nos foi transmitida no dia do nosso Batismo, quando iniciou para nós a aventura jubilosa do discípulo.
Um vínculo particular liga o Batismo com a Quaresma, como momento favorável para experimentar a Graça que salva.
A Igreja associa sempre a Vigília Pascal à celebração do Batismo.
A Quaresma é uma caminhada análoga ao catecumenato da Igreja primitiva, uma escola insubstituível de fé e de vida cristã.
Os textos evangélicos da Quaresma nos guiam para um encontro intenso com o Senhor, fazendo percorrer as etapas do caminho da Iniciação cristã.
- O Primeiro domingo evidencia a nossa condição de homens nesta terra.
O combate vitorioso contra as Tentações é um convite a tomar consciência da própria fragilidade, para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo.
- A Transfiguração do Senhor antecipa a Ressurreição e anuncia a divinização do homem. Conduz-nos a um alto Monte para acolher de novo em Cristo, como filhos do Filho, o dom da Graça de Deus: "Este é o meu Filho amado: Escutai-o".
- O pedido de Jesus à samaritana "Dá-me de beber" exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar em nosso coração o desejo dessa água que jorra para a vida eterna. É o dom do Espírito Santo, que faz dos cristãos verdadeiros "adoradores do Pai, em espírito e verdade..."
- A cura do Cego de Nascença apresenta Cristo como Luz do Mundo.
O Evangelho nos interpela: "Tu crês no Filho do Homem?" "Creio, Senhor", afirmou com alegria o cego... fazendo-se voz de todos os crentes.
- No 5º domingo, a Ressurreição de Lázaro nos põe diante do último mistério da nossa existência: "Eu sou a ressurreição e a Vida... crês tu isto?"
A resposta de Marta deve ser a nossa: "Sim, eu creio que tu és o Filho de Deus".
Na grande vigília pascal, renovamos as promessas batismais e reafirmamos que Cristo é o Senhor de nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou no batismo e reconfirmamos...
Mediante o encontro pessoal com o nosso Redentor e através do jejum, da esmola e da oração, o caminho de conversão rumo à Páscoa leva-nos a redescobrir o nosso batismo.
Renovemos nessa Páscoa o acolhimento da graça, que Deus nos concedeu naquele momento, para que ilumine e guie todas as nossas ações.
padre Antônio Geraldo Dalla Costa
============================
Uma experiência fascinante
A contemplação de Jesus transfigurado foi uma experiência fascinante na vida dos três discípulos escolhidos pelo Mestre para subirem com ele ao alto monte. Neste lugar carregado de simbolismo (a montanha era tida como o lugar privilegiado de encontro com Deus) puderam contemplar Jesus transfigurado, revestido de glória e majestade, e "vê-lo" no fulgor de sua santidade.
A transfiguração foi, de certo modo, uma antecipação da ressurreição. Depois de ressuscitado, o esplendor de sua glória já não fulguraria, por pouco tempo, para um grupo seleto de discípulos. Pelo contrário, não só poderia ser contemplada por todos os discípulos, como também deveria ser proclamada a todos os povos da Terra. A ordem de guardar segredo ("não dizer a ninguém a respeito da visão") perderia sua razão de ser.
Contudo, a contemplação do Ressuscitado haveria de ser precedida por uma experiência aterradora: a de ver o Messias Jesus pendente na cruz. O fascínio daria lugar ao pavor e à estupefação, porque a morte de cruz não encontraria explicação, uma vez que o Mestre sempre dera mostras de ser um homem justo e, em sua pregação, falara de Deus como um Pai amoroso e fiel.
Só quem fosse capaz de superar o impacto da cruz e reconhecer no Crucificado o Filho de Deus, chegaria a reconhecê-lo fascinantemente ressuscitado.
Oração
Pai, que eu seja capaz de contemplar a cena patética de Jesus pendente da cruz, sem me deixar abater pela estupefação, para poder contemplá-lo glorioso na ressurreição.
padre Jaldemir Vitório

============================
A catequese batismal da Quaresma nos ensina que Deus criou um belo mundo e nele colocou o ser humano a quem deu vida, mas que tudo se desfez por uma decisão do homem e da mulher contrária ao projeto de Deus. Deus, porém, que nunca é perdedor, retoma o seu projeto de vida. Chama Abraão de um país longínquo e lhe promete um povo, e uma terra. Surge um novo povo que precisa de uma terra. A terra definitiva, sem males, está no céu. A terra aqui e agora é o chão que estamos pisando, que poderia começar a ser sem males.
Os penitentes caminhantes sentem no seu dia a dia o peso da tentação. O demônio é provocador, e sua força parece mais forte do que a nossa. Para que não desanimem com a aridez e a fome do deserto, os penitentes sobem a um monte de onde descortinam o horizonte e lá contemplam a sua própria transfiguração. Pedro, Tiago e João fazem a experiência da montanha e encontram-se com Jesus, Moisés e Elias. O ambiente é bom, agradável, dá vontade de ficar lá para sempre. Será a retomada da bela terra criada por Deus para os primeiros pais?
No caminho da conversão encontra-se o desejo da reconstrução do paraíso. Catecúmenos, penitentes e fiéis se encontram no Cristo Transfigurado e veem sua própria transfiguração. Isto os prepara para ver mais tarde o Cristo Crucificado, mas é também revelação da beleza de Deus na sua criação. O mundo é belo e nós somos belos. No entanto, a ação em curso do Pecado do mundo desfigura essa beleza.
Para existir e sobreviver o povo precisa de uma terra, a nossa Terra. Para que ela seja bela e saudável esse povo toma nas mãos o Evangelho e anuncia Jesus Cristo ao mundo para a destruição da morte e a vitória da vida e da imortalidade.
Gn. 12,1-4a – Deus promete a Abraão um povo e uma terra. Uma terra na qual um povo possa surgir, crescer e se multiplicar de forma sadia e feliz. Abraão precisa acreditar em Deus e fazer o esforço de sair da própria terra e caminhar em busca de algo que parece distante e até impossível. Ele o faz e se torna o pai de todas as pessoas que têm uma fé convicta.
Sl. 32 – A graça de Deus transborda na terra que ele criou. Providencia o alimento necessário à vida e liberta do domínio da morte as suas criaturas.
2Tm. 1,8b-10 – É sofrida a ação consciente do cristão no mundo em que vive, mas o seu fruto é consolador. A revelação de Jesus Cristo e a pregação de seu Evangelho destroem a morte e fazem brilhar a vida e a imortalidade. É a nós que Paulo se dirige quando escreve a Timóteo: “Sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus”.
Mt. 17,1-9 – Não tenham medo. Escutem o Filho amado de Deus Pai. Com ele é possível recriar o ambiente do paraíso, mesmo no alto de um monte, e viver uma vida transfigurada. A transfiguração nos mostra quem é o Cristo enfraquecido e tentado no deserto e nos prepara para vê-lo na cruz desfigurado e morto. Se muitas vezes a imagem da nossa terra é também desfigurada e morta, a transfiguração nos diz que é possível fazê-la mudar de figura.
cônego Celso Pedro da Silva

============================
No segundo domingo da Quaresma, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir: é o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, da obediência total e radical aos planos do Pai.
O Evangelho relata a transfiguração de Jesus. Recorrendo a elementos simbólicos do Antigo Testamento, o autor apresenta-nos uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que vai concretizar o seu projeto libertador em favor dos homens através do dom da vida. Aos discípulos, desanimados e assustados, Jesus diz: o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Segui-o, vós também.
Na primeira leitura apresenta-se a figura de Abraão. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que sabe ler os seus sinais, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total e com a entrega confiada. Nesta perspectiva, ele é o modelo do crente que percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.
Na segunda leitura, há um apelo aos seguidores de Jesus, no sentido de que sejam, de forma verdadeira, empenhada e coerente, as testemunhas do projeto de Deus no mundo. Nada – muito menos o medo, o comodismo e a instalação – pode distrair o discípulo dessa responsabilidade.
AMBIENTE
A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se dá o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn. 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem caráter de documento histórico. Nesses capítulos aparecem, de forma indiferenciada, “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nômades que circularam pela Palestina durante o 2º milênio e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto, estão as migrações históricas de povos nômades, antepassados do povo bíblico, nos inícios do 2º milênio a.C. Por essa época, a história registra um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egito, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia (ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registradas nessa zona no início do 2º milênio) e que continuaram o seu caminho migratório, à procura de uma terra onde “plantar definitivamente a sua tenda”, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nômade. Os nossos patriarcas bíblicos fazem, provavelmente, parte dessa onda migratória.
Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob – tinham os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. O deus aceite pelo grupo era o potencial concretizador desse ideal.
MENSAGEM
Nos capítulos anteriores (cf. Gn. 3-11), o autor descreveu uma humanidade que escolheu o pecado e que se afastou de Deus; agora, o autor vai apresentar um novo ponto de partida: Deus ainda não desistiu da humanidade e continua a querer construir com ela uma história de salvação. Para isso, interpela diretamente um homem no meio de uma multidão de nações. Esta “eleição” não é um privilégio, mas um convite a realizar uma tarefa difícil: ser um sinal de Deus no meio dos homens.
O tema central do nosso texto é a interpelação de Deus a Abraão. Segundo o teólogo jahwista, Deus chamou Abraão, convidou-o a deixar a sua terra e a sua família e a partir ao encontro de uma outra terra; ligado a este convite, aparece uma bênção e a promessa de a família de Abraão se tornar uma grande nação. Porquê esta iniciativa de Deus? Porquê o chamamento a este homem, em particular? O catequista jahwista não dá qualquer tipo de explicação. Temos aqui um exemplo perfeito desse mistério, sempre novo e sempre sem explicação, chamado “vocação”.
Como é que Abraão reage ao chamamento de Deus? É preciso ter em conta que, para os antigos, abandonar a terra (o horizonte natural onde o clã vive e onde tem as suas referências – inclusive em termos de paisagem), a pátria (isto é, o espaço onde o clã encontra o afeto e a solidariedade e, além disso, o seu espaço protegido por usos, leis e costumes) e a família (o círculo familiar íntimo, onde o homem encontra o apoio e o seu complemento), era pouco menos do que irrealizável. Abraão será capaz de arriscar tudo, deixando o seguro para apostar em algo nebuloso e incerto?
Diante do desafio de Deus, Abraão permanece mudo, sem discutir nem objetar. Com consumada mestria, o autor jahwista limita-se a descrever a sequência dos acontecimentos, como se as ações de Abraão valessem por mil explicações: o patriarca, simplesmente, pôs-se a caminho. O verbo “yalak” utilizado no vs. 4 (“ir”, “partir”, “pôr-se a caminho”) tem uma força extraordinária e expressa a audácia do crente que é capaz de arriscar tudo, de deixar o seguro para apostar em algo que não é certo, confiando apenas na Palavra de Deus. Trata-se de um rasgo maravilhoso, que define uma atitude de fé radical, de confiança total, de obediência incondicional aos desígnios de Deus. Esta é uma das passagens onde o que se conta de Abraão tem um valor de modelo: o autor jahwista pretende ensinar aos seus concidadãos a obediência cega às propostas de Deus.
Deus, por sua vez, compromete-se com Abraão e acena-lhe com uma promessa. A promessa expressa-se, neste contexto, através da bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes, nestes poucos versículos). A bênção é uma comunicação de vida, através da qual Deus realiza a sua promessa de salvação. Na promessa aqui formulada, a bênção concretiza-se como descendência numerosa (noutros textos das “tradições patriarcais”, a bênção de Deus é, além da descendência numerosa, promessa de uma terra).
Particularmente importante, neste contexto da promessa é a ideia de que o Povo nascido de Abraão será uma fonte de bênção para todas as nações (v. 3c): inaugura-se, aqui, a ideia de que Israel é o centro do mundo e de que a sua “vocação” é ser testemunha da salvação de Deus diante de todos os povos da terra. Não se trata de um privilégio concedido a Israel, mas de uma responsabilidade.
ATUALIZAÇÃO
• A figura de Abraão que nos foi apresentada pelos catequistas de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência total e com uma entrega confiada… Esta figura constitui uma interpelação muito forte a esse homem moderno que nunca tem tempo para encontrar Deus nem para perceber os seus sinais, pois está demasiado ocupado a ganhar dinheiro ou a construir a carreira profissional. Eu tenho tempo para me encontrar com Deus, para aprofundar a comunhão com Ele? Preocupo-me em detectar a sua presença, as suas indicações e propostas nos acontecimentos do dia a dia? A minha resposta aos seus desafios é um “sim” incondicional, ou é uma procura de razões para justificar os meus pontos de vista e esquemas pessoais?
• A figura de Abraão questiona, também, o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estou disposto a mudar, a “pôr-me a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica, ou prefiro continuar prisioneiro dos meus esquemas pré-concebidos, dos meus medos, dos meus velhos hábitos, das minhas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
• Este texto diz-nos, também, que por detrás da história da humanidade há um Deus que tem um projeto para os homens e para o mundo e que esse projeto é de amor e de salvação… Apesar de os homens O ignorarem e prescindirem das suas orientações e propostas, Deus continua a vir ao seu encontro, a desafiá-los a caminhar em direção ao novo, a propor-lhes ir mais além. O homem, por sua vez, é convidado a participar neste projeto, por meio da fé (entendida como adesão plena aos planos de Deus). Estou disposto a colaborar com esse Deus que tem um plano para o mundo e para os homens e a embarcar com Ele na construção de um mundo mais feliz?

2ª leitura – 2Tim. 1,8b-10 – AMBIENTE
Segundo os Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia, no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At. 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tim. 5,23 Paulo aconselha: "não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At. 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1Tim 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.
A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Tes. 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Tes. 11,1; 2Tes. 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2 Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rom 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Fl. 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Col. 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm. 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1Tes. 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).
Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, um problema sério: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). A questão continua em aberto.
Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.
MENSAGEM
O nosso texto apresenta-se como uma exortação de Paulo a Timóteo, convidando-o a superar a sua juventude e timidez e a ser um modelo de fidelidade e de fortaleza no testemunho da fé.
O autor da segunda carta a Timóteo apresenta os motivos que devem impulsionar Timóteo a cumprir com fidelidade a sua missão apostólica. Neste texto que nos é proposto, em concreto, o autor da carta recorda a Timóteo o projeto salvífico de Deus que, de forma gratuita, quer salvar os homens e chamá-los à santidade (cf. 2Tim. 1,9). Esse projeto manifestou-se em Jesus Cristo, o libertador, que destruiu a morte e o pecado e ofereceu a todos os homens a vida plena e definitiva (cf. 2Tim. 1,9-10). Ora Paulo (nesta altura prisioneiro por causa do Evangelho), Timóteo e todos os outros são as testemunhas deste projeto de Deus e não podem ficar calados diante do enfraquecimento da vida cristã que se constata nas comunidades; mesmo no meio das perseguições e dificuldades, eles não podem demitir-se da missão que Deus lhes confiou… Têm de ser testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus.
ATUALIZAÇÃO
• Mais uma vez somos convidados a recordar que Deus tem um projecto de salvação e de vida plena para os homens, para todos os homens. Quase todos os domingos, a Palavra de Deus convida-nos a tomar consciência desse fato; mas nunca é demais lembrá-lo, até porque os homens do nosso tempo tendem a esquecer Deus e a viver sem a consciência da sua presença, do seu amor, da sua preocupação com a nossa vida, a nossa realização, a nossa felicidade. Se tivéssemos sempre consciência de que temos um lugar cativo no projecto de Deus e que o próprio Deus está a velar pela nossa realização e pela nossa felicidade, certamente a vida teria um outro sentido e no nosso coração haveria mais serenidade, mais paz, mais esperança.
• Também é preciso termos consciência de que nós, os crentes, somos, aqui e agora, as testemunhas vivas de Deus e do seu projeto para os homens e para o mundo. Nada – e muito menos o nosso comodismo e instalação – pode distrair-nos dessa responsabilidade. Os homens, nossos irmãos, têm de encontrar em nós – e particularmente naqueles a quem foi confiada a missão de animar e orientar a comunidade – sinais vivos de Deus, do seu amor, da sua bondade e ternura, da sua preocupação com os homens.
• É verdade que não é fácil ser testemunha de Deus e do seu projeto. O mundo de hoje tende a ignorar os apelos de Deus ou até manifesta desprezo pelos valores do Evangelho (esses valores que temos de testemunhar, a fim de sermos sinais do mundo novo que Deus quer propor aos homens). No entanto, as dificuldades não podem ser uma desculpa para nos demitirmos das nossas responsabilidades e de levarmos a sério a vocação a que Deus nos chama.

Evangelho – Mt. 17,1-9 – AMBIENTE
A secção de Mt 16,21-20,34 é uma catequese sobre o discipulado, como seguimento de Jesus até à cruz. O texto que hoje nos é proposto faz parte dessa catequese.
O relato da transfiguração de Jesus é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mt. 16,21-23) e de uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida – cf. Mt. 16,24-28). Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede aos que o querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso; eles vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.
É neste contexto que Mateus coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projeto que Jesus apresenta é um projeto que vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse projeto.
Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro que descreve todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.
MENSAGEM
Esta página de catequese, destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus, está construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.
A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex. 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei.
A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex. 40,35; Nm. 9,18.22; 10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt. 18,15-18; Mal 3,22-23).
O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da grandeza, da onipotência e da majestade de Deus (cf. Ex. 19,16; 20,18-21).
As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.
A mensagem fundamental, amassada com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Mais ainda: ele é um novo Moisés – isto é, aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova aliança.
Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma nova aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade.
Esta apresentação tem como destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado porque no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque o mestre exige dos discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante). Aponta para a ressurreição, aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus, pelas vestes resplandecentes (que lembram as vestes resplandecentes dos anjos que anunciam a ressurreição – cf. Mt. 28,3) e pelas palavras finais de Jesus (“não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” – Mt. 17,9): diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.
Uma palavra final para o desejo – manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o projeto de Deus – esse projeto de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da escravidão para a liberdade – tem de passar pelo caminho do dom da vida, da entrega total, do amor até às últimas consequências.
ATUALIZAÇÃO
• A questão fundamental expressa no episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor. Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
• Na verdade, os homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais marginalizados e dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade e de domínio, que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de conquista de honras, de glórias e de êxitos. Na verdade, onde é que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da lógica do Evangelho?
• Por vezes somos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.
• Os três discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens – mesmo contra a corrente – que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é um ópio que nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho - www.ecclesia.pt

============================
A primeira leitura (Gn. 12,1-4) evoca Abraão, figura que ocupa um lugar de relevo na Bíblia e na memória de judeus, cristãos e muçulmanos. Todos eles honram Abraão como “o pai dos crentes”.
Abraão viveu por volta de 1800 a.C., quando ainda não havia escrita alfabética. Antes de ser registrada, a sua história passou de boca em boca, pelo espaço de muitas gerações, e foi certamente um tanto idealizada. Filho de uma época sôfrega e violenta, Abraão é uma personalidade forte, capaz de coisas grandes e também de ações muito mesquinhas. Mas acreditou em Deus, esteve sempre disponível para Ele, sem nunca Lhe apresentar uma fatura. E Deus recompensa-o, quando e como muito bem entende.
Nascera na Mesopotâmia, em Ur da Caldeia, e aí vivera até uma idade avançada. Possuía terras e rebanhos, muitos parentes, era um homem respeitado. Pungia-o um desgosto: casado, nunca tivera filhos. É então que Deus intervém. “Naqueles dias, o Senhor disse a Abraão: Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te hei-de indicar. Farei de ti uma grande nação. Em ti, todas as famílias da terra serão abençoadas. E Abraão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.”
Judeus, cristãos e muçulmanos entenderam que a fé consiste em acreditar em Deus e obedecer à sua palavra. Entenderam também que, aos seus eleitos, Deus tem pedido grandes rupturas. Abraão estava já na idade em que apetece descansar, certamente lhe custou deixar casa, terras, familiares e amigos. (Leva consigo a mulher, um sobrinho, criados e rebanhos). A palavra a que Abraão obedece era ao mesmo tempo peremptória e obscura. Como dirá a Epístola aos Hebreus, “pela fé, Abraão, ao ser chamado, obedeceu e partiu para um lugar que havia de receber como herança. E partiu sem saber para onde ia.” (Hb. 11,8).
O chamamento de Deus a Abraão inclui uma promessa: “Farei de ti uma grande nação”, inserida num horizonte mais vasto: “E em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”. Os povos viviam em contendas e guerras. Deus não o ignora; mas não deixa de referir como parte essencial do seu novo projeto a comunhão dos homens na paz.
A segunda leitura (2Tim. 1,8-10) apresenta-se como uma carta de são Paulo ao seu discípulo Timóteo. Hoje pensa-se que terá sido escrita por um dos colaboradores de são Paulo, depois da morte deste, numa altura em que as comunidades cristãs da Ásia Menor estavam a ser sujeitas a perseguições, e alguns cristãos tinham desertado. Nesta carta há uma ideia importante: estamos todos chamados por Cristo a viver na santidade, enfrentando sem desânimo as dificuldades. A propósito, queria refletir sobre o tema do chamamento. Ao longo dos 1800 anos do Antigo Testamento, Deus interpelou pessoalmente, chamou, meia dúzia de pessoas. Na Igreja introduziu-se a ideia de que estamos todos chamados por Deus. Esta ideia é correta se for deixada no vago: estamos chamados a ser santos, estamos chamados a viver de acordo com o Evangelho. Torna-se uma interpretação discutível se significa que Deus tem para cada um de nós um projeto que talvez não tenha chegado à nossa caixa do correio, e que devemos tentar descobrir. Este tipo de “descobrimento” proporciona com facilidade ilusões e extravagâncias.
Os três evangelhos sinópticos contam que, um dia, Jesus perguntou aos apóstolos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” e que Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Jesus confirmou a resposta, mas anunciou que caminhava para Jerusalém ao encontro da rejeição e da morte. Dias depois, quis que, no alto dum monte, os três discípulos em que depositava maior confiança entrevissem a sua glória; e que ouvissem, também, a conversa que ia ter com Moisés e Elias a respeito da cruz. (Mt. 17,1-9 e paralelos)
padre João Resina

============================
O rosto ‘transfigurado’ não quer rostos ‘desfigurados’
Continua o caminho para descobrir a identidade de Jesus e a sua missão. Domingo passado essa identidade revelava-se no episódio das Tentações. No segundo Domingo da Quaresma temos um outro encontro marcado: a Transfiguração de Jesus sobre o monte Tabor (Evangelho). O acontecimento tem lugar “seis dias depois” (v. 1) dos encontros em Cesareia de Filipe (com a profissão de fé de Pedro, a promessa do seu primado, e o primeiro anúncio da paixão: Mt. 16,13-28). Cada um destes acontecimentos ajunta elementos significativos para configurar o verdadeiro rosto de Cristo; a antífona de entrada convida-nos hoje a olharmos de novo para esse rosto: “Procurai o seu rosto. O teu rosto eu procuro, Senhor, não escondas de mim o teu rosto” (Sal. 26,8-9). A resposta a esta súplica insistente chega-nos de “um alto monte” (v. 1), onde Jesus foi transfigurado diante de três discípulos por ele escolhidos: “O seu rosto brilhava como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (v. 2). A luz não vem do exterior, mas emana de dentro da pessoa de Jesus. Tem razão Lucas, que no texto paralelo sublinha que “Jesus subiu ao monte para rezar e, enquanto rezava, o seu rosto mudou de aspecto” (Lc. 9,28-29). É do encontro com o Pai que Jesus sai interiormente transformado; a plena identificação com o Pai resplende no rosto de Jesus (cf. Jo 4,34; cf. 14,11).
Longe de buscar para si um momento de auto-glorificação gratificante, Jesus quer que os seus discípulos descubram melhor a sua identidade e a sua missão. Com essa finalidade, sobre o monte realiza-se uma manifestação da Trindade através de três sinais: a voz, a luz e a nuvem. A voz do Pai proclama Jesus como seu “Filho, o bem amado. Escutai-o” (v. 5); a luz emana do próprio corpo do Filho Jesus; a nuvem é símbolo da presença do Espírito. Precisamente naquele contexto de glória, antecipação do seu triunfo final, Jesus fala com Moisés e Elias da “sua partida que se deveria realizar em Jerusalém” (Lc. 9,31). Da oração à revelação e contemplação da Trindade, da paixão à glorificação: agora, os discípulos já podem compreender algo mais sobre a personalidade do seu Mestre.
A verdadeira oração nunca é evasão. Para Jesus a oração era um momento forte de identificação com o Pai e de adesão coerente e confiante ao Seu plano de salvação. Tal caminho de transformação interior é o mesmo para Jesus, para o discípulo e para o apóstolo. A oração, vivida com escuta-diálogo de fé e de humilde abandono em Deus, tem a capacidade de transformar a vida do cristão e do missionário; essa é a única experiência que serve de fundamento à missão. A oração tem o seu ponto mais verdadeiro quando desabrocha em serviço ao próximo necessitado. É esta a dimensão missionária da oração, que Bento XVI enfatizou numa sua catequese quaresmal. (*)
O apóstolo vive convencido de que o Deus fiel o acompanha em todas as etapas e acontecimentos da sua vida: nos inícios, nos momentos de Tabor e nos momentos de Getsemani... Disso dão testemunho Abraão e Paulo. Permanecem desconhecidas as motivações que levaram Abrão (I leitura) a deixar terra e parentes para se dirigir a um país desconhecido (v.1). Desde então, Abrão, forte na sua fé monoteísta no verdadeiro Deus, tornou-se pai e modelo para cerca de três bilhões de crentes (hebreus, cristãos, muçulmanos). Para ele, ao chamamento de Deus - como toda a vocação missionária - exigiu um partir, um êxodo, um abandonar afetos e seguranças para avançar para metas que Deus lhe havia de indicar. Abrão obedeceu, confiando no Senhor (v.4). Também Paulo deixou o caminho de Damasco par uma nova aventura com Jesus, sem se preocupar com os sofrimentos. Por isso ele podia exortar o seu discípulo Timóteo (II leitura): “Com a força de Deus, sofre comigo pelo Evangelho” (v. 8).
O anúncio do Evangelho de Jesus leva necessariamente a um compromisso tenaz pela defesa e promoção das mais débeis, cuja dignidade humana é frequentemente deturpada e desfigurada com todas as formas de violência, exploração, abandono, fome, doença, ignorância... Toda e qualquer deturpação da dignidade humana é contrária ao projeto original de Deus, o Pão da Vida! O rosto fascinante de Jesus, nosso irmão mais velho, é um prelúdio da sua realidade post-pascal e definitiva; a mesma que nos é prometida também a nós, salvos e chamados com uma vocação santo, segundo o projeto e a graça de Deus (v.9). É sobre esta vocação à vida e à graça que se fundamenta a dignidade de toda a pessoa humana, cujo rosto, por nenhum motivo deve sofrer deturpação. Onde quer que exista um rosto humano deturpado ou desfigurado, é imperiosa e urgente a presença dos missionários do Evangelho de Jesus!

(*) “Adoração é garantia de abertura aos outros: quem se torna livre para Deus e para as suas exigências, abre-se contemporaneamente para o outro, para o irmão que bate à porta do seu coração e pede para ser ouvido, pede atenção, perdão, por vezes correção mas sempre na caridade fraterna. A verdadeira oração nunca é egocêntrica, mas sempre centrada no próximo.
Como tal ela impele o orante ao "êxtase" da caridade, à capacidade de sair de si para se tornar próximo do outro no serviço humilde e abnegado. A verdadeira oração é o motor do mundo, porque o mantém aberto a Deus. Por isso, sem oração não há esperança, mas apenas ilusão. De fato, não é a presença de Deus que aliena o homem, mas a sua ausência: sem o verdadeiro Deus, Pai do Senhor Jesus Cristo, as esperanças tornam-se ilusões que induzem a evadir-se da realidade. Falar com Deus, permanecer na sua presença, deixar-se iluminar e purificar pela sua Palavra, introduz-nos ao contrário no coração da realidade, no íntimo Motor do porvir cósmico, introduz-nos por assim dizer no coração pulsante do universo.” (Bento XVI - Homilia na Quarta-feira de Cinzas, 6.2.2008)
============================


Nenhum comentário:

Postar um comentário