.

I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Comentários-Prof.Fernando

Comentários-Prof.Fernando*: Segunda semana da Páscoa – 27-abril-2014
E o duelo continua
Mors et vita duello conflixere mirando, dux vitae mortuus,regnat vivus
Morte e vida em duelo fantástico: o Rei da Vida foi morto mas reina vivo!
[De antigo hino/sequência litúrgico/a pascal]

O gradual crescimento da confiança (João 20,23-31)
Lembramos no domingo da Páscoa que crer é crer na Ressurreição (dele, logo após a paixão e na nossa, futura). Este Crer (esta Confiança) não se dá logo, de imediato. É processo, às vezes lento, às vezes difícil de permear o conjunto de nossa vida chegando até o íntimo, até a raiz de nossos sentimentos e decisões. João, como escritor genial, hoje nos descreve:
- o medo não impede que o Ressuscitado atravesse toda barreira e dê sua paz. A paz é um dom para ser repassado. O Filho reconciliou a humanidade com o Pai e dá como missão, para quem já recebeu esta Boa Notícia, anunciar esta reconciliação aos irmãos da humanidade: Fechadas as portas (por medo), Jesus entrou e disse: "A paz esteja convosco". De novo: "A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou também eu vos envio" e soprou sobre eles: “Recebei Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados, eles serão perdoados; a quem não ... serão retidos";
- a dúvida faz parte de nós, mas a confiança pode reconhecer A Presença: -- Tomé não estava com eles(...) “Se eu não vir a marca dos pregos(...)” Oito dias (Tomé estava com eles) com as portas fechadas Jesus entrou: "A paz esteja convosco". E disse a Tomé: "Olha minhas mãos e o meu lado; não sejas incrédulo, mais fiel” (...) "Acreditaste, porque viste? Felizes os que creram sem ver”;
- a “Presença” doa vida plena, mas esta revelação deve ser “lida nas entrelinhas”: Realizou Jesus muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
A paz foi derramada (de graça) para curar nossos medos e culpas
Meditando sobre a Paz e o Perdão, e sobre o “Tomé” que é figura de todos nós, teimosos e céticos para ver os Sinais da Presença do Deus da Vida, ajudemo-nos do resumo a seguir (comentários de estudiosos da Escritura; a maior parte é do canadense A. Gilbert).

1)     PAZ, SUPERAÇÃO DO PECADO E MISSÃO. Naquele domingo de noitinha (expressa o encontro semanal das comunidades), os discípulos estavam ainda tinham medo. De serem presos e mortos como seu mestre (expressa o contexto das primeiras comunidades perseguidas pelas autoridades religiosas de então). Uma leitura superficial vê no escritor um jornalista, apenas interessado em contar sobre os poderes de Jesus em atravessar paredes ou sobre o poder dado a alguns para atender confissões e perdoar pecados. Mas esta passagem, como se diz ao final, é destinada a nós todos: para que tenhamos Vida em Jesus Cristo. Com a Paz os discípulos recebem a missão de levá-la a outros.
Outro biblista J. Könings no Brasil (em seu comentário: O evangelho segundo João - SP, Loyola, 2005) observa que Jesus repete aqui o gesto da criação, insuflando Espirito (sem o artigo “o”), isto é, comunica “sopro” divino (vida nova), como na imagem de Gn 2,7 (cf. 37,3-5). O perdão é nova criação. A primeira qualificação de Jesus, dada pelo Batista, é: eis o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
O autor anterior lembra que as palavras (em grego no texto original) “aphête tes amartías” são habitualmente traduzidas: “remissão do pecado” significando “perdoar”. Na tradição católica o termo pecado costuma estar muito ligado ao “catálogo dos pecados”, de que se fala desde o catecismo na infância, e vem associado ao poder jurídico do padre quando “dá a absolvição”. Quando foram escritos os evangelhos não era esta a visão, tão focada no jurídico. O contexto, como Jesus nos evangelhos, era de cura dos aflitos além do perdão dos pecados; de atenção aos desprezados; de volta à pregação profética quanto à prioridade dos “órfãos e viúvas” (os mais frágeis na vida social). Também não nos ajuda o sentido corrente de “remissão” associado a dívidas e resgate (cf. mercado financeiro por ex.) e, numa visão mais personalista, mudança de direção e superação de erros melhor se entende como libertar de situações desumanizantes. “Desvio” aproxima-se do sentido original do termo grego para Pecado (“amartía” é, literalmente, “desvio em relação ao alvo” pretendido). Errar o alvo é frustração de quem se afasta do rumo correto. Além de Jo20, outros exemplos: Lc7,47;11,4 e Mc1,4.

2)     A VIDA NOVA E A DÚVIDA DE TOMÉ. Para quem crê na Ressurreição do Ressuscitado não é tão claro o caminho, como o demonstra o episódio de Tomé. Porque se trata de acreditar num Crucificado, ou seja, descobrir a paz e a alegria além dos sofrimentos e da morte. Sabemos que há distinção entre vida física e vida plena da pessoa (há quem viva, mas tem um Coração morto, ao passo que há também quem respire felicidade mesmo com saúde precária). Jesus fala de vida não mais a vida “física” (pela qual ele passou e venceu). Agora ele, em corpo e alma, vive na nova condição de Senhor universal. Também há diferença entre a paz, no sentido daquelas pessoas que não querem ser incomodadas (paz como ausência de preocupações), e a paz profunda que pode existir em meio a adversidades, a preocupações e ao desconhecido, e até diante da morte. Jesus teve paradoxal serenidade frente ao abandono dos amigos, aos sofrimentos e na própria morte. O evangelho hoje me diz: é Jesus de Nazaré quem me faz descobrir que o mundo é habitado por um Pai amoroso. Para quem crê: o importante é chegarmos à integração de sofrimentos, medos, de todas as nossas guerras e de nossos mortos. Nossa Fé é na ressurreição dos mortos, não numa vida sem morte. Mas a dificuldade encontrada por Tomé pode ser a nossa. Temos de “crer sem ver” além do “ver para crer” de Tomé.

3)     SINAIS E PRODÍGIOS. É preciso estar atento aos vestígios, aos indícios ou sintomas, para ler os sinais e, muitas vezes ler nas entrelinhas. Em grego “sinais” vem de ”sémeion” (donde, em português: semiologia, signo, senha) e, traduz-se habitualmente “sinal”. Ocorre quando coisa, ou acontecimento, reveste-se de especial significação, referido a outra coisa (outro acontecimento). Percebemos, na política quando algo pode suceder. Falamos em sinais meteorológicos, de inteligência, vitais e sinais de cansaço. Na bíblia, sobretudo para o evangelista João, a palavra indica acontecimentos que revelam a ação benévola de Deus no mundo, como os gestos de Jesus. Por isso parece mais explicitar a ideia se traduzo “sinal” como ação reveladora da presença de Deus. Ver também Mc16,17; Jn9,16; Jn2,23; Jn6,2; Jn6,14; Jn20,30. Quando o termo aparece em boca de quem não tem fé, prefiro traduzir “prodígio” (frisa o lado extraordinário de certas ações de Jesus mesmo sem captar a relação com Deus: Lc23,8; Jn 2,18).

Informação ecumênica. Católicos celebram Festa da Misericórdia na oitava da Páscoa (instituído por João Paulo II o Domingo da Misericórdia). As outras leituras são: leituras são: Atos 2, 42-47 (ou 14.22-32 nas comunidades protestantes que usam o Lecionário Comum) e a carta 1ª de Pedro 1,3-9. Igrejas ortodoxas (que usam o calendário gregoriano) chamam este 2ºdom.de Páscoa: Domingo Tomé ou Domingo Novo, e as leituras: At 5,12-20; Jo 20, 19-31
ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

( * ) Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) - fesomor2@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário