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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Emaús-3º DOMINGO DA PÁSCOA

3º DOMINGO DA PÁSCOA

Domingo 4 de maio

Comentários-Prof.Fernando


Não era possível que a morte o dominasse.

A CAMINHO DE EMAÚS - José Salviano

 

 

Os discípulos a caminho de Emaús não perceberam a presença do ressuscitado naquele homem que caminhava com eles. Eles estavam por demais preocupados com os últimos acontecimentos de modo que nem perceberam que o personagem número um dos acontecimentos dos últimos dias estava bem ali do lado deles.

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“FICA CONOSCO, POIS JÁ É TARDE E A NOITE VEM CHEGANDO"! - Olívia Coutinho
3º DOMINGO DA PÁSCOA
Dia 04 de Abril de 2014
Evangelho de Lc 24,13-35

         
 Quantas vezes, caminhamos sem rumo, sem motivação e no declinar do dia, sentimos cansados, desanimados, sem nenhuma perspectiva de dias melhores.
          Quando a nossa vida  perde o sabor, quando  nossos passos não nos levam a lugar nenhum,   é sinal de que não estamos reconhecendo a presença de Deus em nossa vida, de que está nos faltando algo imprescindível, o alimento vital que nos devolve a alegria de viver, que nos mantém de pé nos vendavais da vida, que é  a fé!
            A fé nos motiva nos dá energia, vitalidade, nos devolve a esperança que o sofrimento insiste em roubar de nós!
         O evangelho de hoje, narra a história de dois discípulos, que não vendo mais razões para permanecerem em Jerusalém, após a morte de Jesus, decidem voltar para Emaús.
          Tristes e amedrontados com tudo que acontecera com o Mestre, a quem eles haviam depositado o destino de suas vidas, estes dois discípulos tomam o caminho de volta ao povoado de Emaús, carregando consigo um Jesus morto, o que os impediu de enxergar de imediato, o Jesus vivo que caminhava com eles!
Enfraquecidos na fé, eles haviam perdido a esperança muito rápido, dando a entender de que não haviam confiado no que Jesus lhes havia dito pouco antes de sua morte:“O filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, mas no terceiro dia ele ressuscitará.” Mt 17,22-23.
        Nós também, às vezes somos assim, nem sempre confiamos no que Jesus nos diz, nem sempre O enxergamos junto de nós!
        Os discípulos de Emaús, só reconheceram Jesus, no momento em que Ele parte o pão. Foi a partir deste instante, que os seus olhos se abriram e eles puderam vivenciar a alegria da ressurreição de Jesus, tornando em seguida, mensageiros desta Boa Notícia: Jesus Cristo ressuscitou! Ele vive entre nós!
Cheios de alegria, fizeram o caminho de volta à Jerusalém, contando a todos a bela experiência do encontro que tiveram com o Cristo Ressuscitado!
         Estes dois discípulos, que demoraram tanto para reconhecer Jesus, caminhando com eles, representam todos os aqueles, que ainda não tem uma fé consistente, que perdem  a esperança diante a um suposto fracasso.
          Que esta lentidão dos discípulos de Emaús, não se repita conosco, que não sejamos cegos, lentos para perceber a presença de Jesus caminhando conosco!
           Busquemos sempre nos alimentar na fé, pois é pela fé que enxergamos a presença do Cristo Ressuscitado no meio de nós!
           O episódio, que nos foi apresentado, nos desperta também, para a importância de buscarmos sempre um jeito novo de viver a fé, chama a nossa atenção para algo que hoje quase não praticamos nas nossas relações humanas: o ouvir o outro, o caminhar com ele, o conhecer a sua história, seus sonhos... Foi isto que Jesus fez ao caminhar com os discípulos de Emaús, Ele, que à princípio fora visto com um forasteiro,  falou, ouviu, inteiro-se dos fatos...
           Muitas vezes, somos indiferentes ao outro, até mesmos dentro de nossas próprias casas, quantos filhos mal se falam com seus pais, quantos pais não reservam tempo para os filhos. Estamos sempre apressados e com isso, não nos damos tempo para perceber no outro, a presença do Cristo Ressuscitado.
          A nossa missão nasce à partir do nosso encontro pessoal com o Cristo Ressuscitado e cresce à medida do nosso envolvimento com Ele!

          FIQUE NA PAZ DE JESUS! Olívia

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Evangelhos Dominicais Comentados

04/maio/2014 – 3o Domingo da Páscoa

Evangelho: (Lc 24, 13-35)


Estamos ainda vivendo o período Pascal. O tempo Pascal vai até o Domingo de Pentecostes, por isso dizemos que hoje é o terceiro Domingo da Páscoa e não o terceiro Domingo depois da Páscoa.

Mais uma vez nos reunimos para meditar nossa caminhada junto com Jesus. Infelizmente, nem sempre nos lembramos disso. Parece coisa de ficção ou lenda dizer que Jesus caminha conosco.

Apesar das dificuldades para percebermos Jesus andando ao nosso lado, nós vamos caminhando. O caminho é cheio de altos e baixos, com momentos de esperança, alegria e tristeza; momentos de entusiasmo e depressão. Muitas vezes, desesperançados como os discípulos de Emaús.

Neste evangelho, eles caminham sem esperança. Falam dos acontecimentos tristes dos últimos dias. Alguém cruza com eles na caminhada e quer saber a razão de tanta tristeza. Com a voz embargada contam o ocorrido, choram a ausência do Mestre, mas não reconhecem Jesus naquele estranho.

Como nós demoramos para perceber a presença de Jesus. Esses dois tinham convivido com Jesus por tanto tempo. Sabiam que Ele era o Messias prometido. Ouviram suas pregações, acompanharam tantos e tantos milagres. Eles viram Jesus fazer coisas incríveis e, mesmo assim, parece que tudo isso não foi suficiente para acreditarem.

Recentemente Jesus lhes havia dito que deveria sofrer, morrer e ressuscitar dos mortos e eles se esqueceram. Por isso, levaram um tremendo “puxão de orelhas” do Mestre. Tiveram que ouvir estas palavras: “Como vocês custam para entender, como demoram a acreditar em tudo o que os profetas falaram!”

O evangelista nos diz que um dos discípulos chama-se Cléofas. O nome do outro não sabemos. É provável que Lucas não tenha mencionado quem seria o outro discípulo, justamente para que, cada um de nós possa colocar-se em seu lugar.

Seríamos nós esse parceiro de viagem de Cléofas? Quantas vezes seguimos nossa estrada desanimados e desesperançados. Outras vezes choramos, lamentamos, falamos até perder o fôlego, porém, sem levar fé e sem transmitir esperança aos que caminham ao nosso lado.

A fé vem aos poucos, é um crescimento diário, um processo lento. Leva tempo, porque não depende só do conhecimento. Fé é um compromisso de vida. Ao explicar-lhes a escritura, Jesus devolve à esses homens a confiança, a alegria da fé e da esperança no Messias.

Se de fato acreditarmos, entendermos e vivermos a escritura, nós seremos excelentes companheiros de viagem, ótimos companheiros de caminhada. A longa jornada será recompensada pela alegria do reencontro com o Messias.

Chegando ao vilarejo, sentam-se à mesa e no instante em que o misterioso viajante parte o pão, eles o reconhecem. Eles vêm naquele estranho o Mestre partindo e repartindo o alimento. Esse gesto resume toda a vida de Jesus.

Tudo em Jesus sempre foi doação. Doação do pão multiplicado, das curas, do perdão, da misericórdia, do pão da Palavra que salva; enfim, doação da sua própria vida, sacrificada na cruz. Foi na partilha que os discípulos reconheceram Jesus.

O mesmo deve acontecer conosco. O cristão que não vive a partilha torna-se irreconhecível. Passa despercebido pelos irmãos. Só através da partilha poderemos encontrar e apresentar Jesus.

Ao partilharmos o pão material, o pão do acolhimento, da escuta, do perdão e da presença constante junto aos menos favorecidos, nossos companheiros de viagem poderão reconhecer em nós o Cristo Ressuscitado.

O testemunho é luz que clareia os ambientes, é a chave que abre os corações para a fé, para a esperança e para o amor de Deus. Por isso vamos gritar bem alto o que o evangelho de hoje nos diz: Jesus ressuscitou e Caminha conosco!


Jesus está presente no nosso dia-a-dia, é solidário em nossas lutas e dificuldades. Celebra conosco o seu Banquete e se faz alimento na Eucaristia. Jesus está permanentemente ao nosso lado e jamais se afastará. Por tudo isso, levante seus olhos ao Céu e diga com bastante fervor: “Fica conosco, Senhor!”

(2053)

jorgelorente@ig.com.br   (04/maio/2014)

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No tempo pascal a Igreja vive, celebra e testemunha sua certeza, aquela convicção que a faz existir e sem a qual ela não teria sentido neste mundo: “Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou por meio dele entre vós. Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue nas mãos dos ímpios e vós o matastes pregando numa cruz... Deus ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado pela Direita de Deus, Jesus recebeu o Espírito Santo prometido e o derramou...” Este é o núcleo da nossa fé, o fundamento da nossa esperança, a inspiração para a nossa vida e nossa ação, isto é, para nossas atitudes concretas, nossa vida moral.
Na liturgia da Palavra deste domingo, o encontro de Emaús sintetiza muito bem a experiência cristã. Prestemos atenção, porque é de nós que fala o Evangelho de hoje! O que há aí? Há, primeiramente o caminho – aquele da vida: aí, os discípulos conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido com Jesus. Mas, os acontecimentos, lidos somente à nossa luz, segundo a nossa razão e os nossos critérios, são opacos, são tantas e tantas vezes, sem sentido... Por isso, no coração e no rosto daqueles dois havia tristeza e escuro; eles estavam cegos e tristes... Dominava-os o desânimo e a incerteza: esperaram tanto e, agora, só restava um túmulo vazio... Mas, à luz do Ressuscitado – quando o experimentamos vivo entre nós – tudo muda, absolutamente. Primeiro o coração arde no nosso peito. Arde com a alegria e o calor de quem vê um sentido – e um sentido de amor e de vida – para os acontecimentos da existência, mesmo os mais sombrios: “Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na glória?” Que palavras impressionantes! São as mesmas dos Atos dos Apóstolos, na primeira leitura: “Deus em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue...” Aqui, compreendamos bem: só na fé se pode penetrar o mistério e ultrapassar o absurdo! Então, com Jesus, na sua luz, os olhos nossos se abrem e reconhecemos Jesus, experimentamo-lo vivo, próximo, como Senhor, que dá orientação, sustento e sentido à nossa vida! Sentimos, então, a necessidade de conviver e compartilhar com outros que fizeram a mesma experiência, todos reunidos em torno daqueles que o Senhor constituiu como primeiras testemunhas suas – os Apóstolos e seus sucessores, os Bispos em comunhão com o Sucessor de Simão, a quem o Senhor apareceu em primeiro lugar dentre os Apóstolos. É assim que somos cristãos; é assim que somos Igreja!
Esta é, portanto, a certeza dos cristãos, a nossa certeza! Hoje somos nós as testemunhas! Hoje somos nós quem devemos pedir: “Mane nobiscum, Domine!” – “Fica conosco, Senhor!” Somente seremos cristãos de verdade se ficarmos com o Senhor que fica conosco, se o encontrarmos sempre na Palavra e no Pão eucarístico. Nunca esqueçamos: os discípulos sentiram o coração arder ao escutá-lo na Escritura e o reconheceram ao partir o Pão! Esta é a experiência dos cristãos de todos os tempos. João Paulo Magno, precisamente na sua Carta Apostólica Mane nobiscum Domine afirmava essa necessidade absoluta de Cristo, necessidade de voltar sempre a ele: “Cristo está no centro não só da história da Igreja, mas também da história da humanidade. Tudo é recapitulado nele. Cristo é o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do gênero humano, a alegria de todos os corações e a plenitude de suas aspirações. Nele, Verbo feito carne, revelou-se realmente não só o mistério de Deus, mas também o próprio mistério do homem. Nele, o homem encontra a redenção e a plenitude!” (n. 6).
O mundo atual – e o mundo de sempre – deseja apontar outros caminhos de realização para o homem; outras possibilidades de vida... Os cristãos não se iludem! Sabemos onde está a nossa vida, sabemos onde encontrar o caminho e a verdade de nossa existência: em Cristo sempre presente na Palavra e na Eucaristia experimentadas na vida da Igreja! Repito: este é o centro da experiência cristã; e precisamente daqui brotam as exigências de coerência de nossa vida: “Fostes resgatados da vida fútil herdade de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como a prata e o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um Cordeiro sem mancha e sem defeito. Antes da criação do mundo ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu por amor de vós!” Eis, que mistério! Antes do início do mundo o Pai nos tinha preparado este Cordeiro imolado, para que nele encontrássemos a vida e a paz! Por ele alcançamos a fé em Deus; por ele, nossa vida ganhou um novo sentido; por ele, não mais pensamos, vivemos e agimos como o mundo das trevas! E porque Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, a nossa fé e a nossa esperança estão em Deus, estão firmadas na Rocha! “Vivei, pois, respeitando a Deus durante o tempo da vossa migração neste mundo!” Vivamos para Deus e manifestemos isso pelo nosso modo de pensar, falar, agir e viver!
Não tenhais medo de colocar em Cristo toda a vossa vida e toda a vossa esperança! É ele quem nos fala agora, na Palavra, e agora mesmo, para que nossos olhos se abram e o reconheçamos, ele mesmo nos partirá o Pão. A ele a glória pelos séculos!
dom Henrique Soares da Costa
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Onde e como experimentar o Cristo vivo?
Nesta passagem do evangelho de Lucas, ele mostra onde perceber a presença de Jesus: no caminho dos homens, na palavra e na partilha do pão que é a celebração da Eucaristia.
Dois discípulos iam pelo caminho, de Jerusalém a Emaús. Conversavam sobre os últimos acontecimentos da morte e ressurreição de Jesus e, como um desconhecido, Ele se aproxima e participa da conversa, mas eles não O reconhecem.
Jesus ensina àqueles homens que o caminho para se entender tudo o que estava acontecendo é a leitura das Sagradas Escrituras, onde foi anunciado pelos profetas tudo o que o Messias enviado por Deus deveria realizar, explicando assim o sentido da Sua vida.
Jesus estava, naquele momento, incentivando as primeiras comunidades a buscarem, na Palavra de Deus, a explicação para todas as dúvidas que enfraquecem a fé. Foi este costume que deu origem à Liturgia da Palavra nas celebrações. E, na leitura comunitária da Bíblia a presença de Jesus ressuscitado também se manifesta.
Na passagem acontece o gesto de Jesus que faz com que aqueles discípulos abram os olhos e O reconheçam: na partilha do pão – na celebração da Eucaristia. Jesus repete os gestos que fez na última ceia: toma o pão, o abençoa, reparte e o entrega.
A partir de então a leitura da Sagrada Escritura e a celebração da Eucaristia, na partilha do pão, passam a ser a presença viva de Jesus nas reuniões da comunidade cristã.
Os discípulos de Emaús, tomados pelo espanto, retornam a Jerusalém ao encontro dos outros e anunciam tudo o que presenciaram.
Tudo o que Jesus fez com os dois discípulos o faz também hoje. Ele é “Caminho dos homens, Palavra, Partilha, Igreja reunida”, e acima de tudo, O Ressuscitado que se manifesta onde tem busca e onde se faz a partilha.
Sem partilha, fraternidade e solidariedade, o caminho se torna cada vez mais longe do testemunho de Jesus.

Fica conosco, Senhor!
Mane nobiscum, Domine! Este foi o título daquela Carta Apostólica que o Beato João Paulo II escreveu um ano antes de morrer. Quem não se lembra do “ícone dos discípulos de Emaús” proposto pela Papa e que norteou o Ano da Eucaristia? Completou-se apenas uma semana desde a solene beatificação do querido João Paulo II em Roma. Que acontecimento tão comovente! Ele foi o papa que a nossa geração conheceu e acompanhou durante tantos anos. Tantas recordações vêm à nossa mente! João Paulo II foi uma dessas pessoas que sabia, de maneira experiencial, que “Cristo é o caminho do homem” e por isso era consciente de que não somos nada sem ele, sem Jesus. Fica comigo, Senhor! Trata-se de uma bela oração, de uma frase altamente significativa para este segundo domingo do Tempo Pascal.
Bento XVI, com o coração cheio de gratidão a Deus, nos contava na semana passada, durante a homilia na Missa da beatificação, que durante os 23 anos que passou junto a João Paulo II, de 1982 a 2005, colaborando com ele, muito o tinha surpreendido a vida de oração no novo beato. Era uma pessoa imersa em Deus em meio às várias ocupações da jornada; era um homem de fé, de esperança e de uma preocupação constante pelos demais. Bento XVI falava que pela fé Simão se converteu em Pedro. Parafraseando o papa, podemos afirmar que pela fé Karol Wojtyla se converteu em João Paulo II.
Fica conosco, Senhor! Que o Senhor permaneça conosco em pleno século XXI, no ano 2011, porque nós queremos continuar servindo a Deus e a todas as pessoas. “Nós queremos servir a Igreja como ela deseja ser servida”, não conforme os nossos caprichos ou gostos pessoais. O Santo Padre nos recordava também na já citada homilia como o bem-aventurado João Paulo II soube descobrir as riquezas do Concilio Vaticano II, como ele se imergiu na doutrina conciliar e soube expressá-la de distintas maneiras. “O homem é o caminho da Igreja e Cristo é o caminho do homem”. Quem já não tinha escutado alguma vez essa frase tão significativa?
É preciso redescobrir essa realidade: a pessoa humana como caminho da Igreja para apresentarmos a cada ser humano o caminho que realmente é o seu, Cristo. Precisamos compreender as pessoas, amá-las, participar das suas alegrias e tristezas, entender o mundo no qual habitamos junto a elas, acompanhar as situações de pobreza e de riqueza, descobrir o poder da técnica e dos novos meios de comunicação.
Andar por um caminho que não se conhece é muito difícil! A Igreja, como entende que o homem é caminho para ela, se sabe e se declara “mestra de humanidade”: há dois mil anos a Igreja Católica tem acompanhado o ser humano, ela sim entende quem é a pessoa humana e sabe o que é melhor para ela. E nós temos que colocar todos os meios para que sejamos, na Igreja e como Igreja, mestres em humanidade. É preciso conhecer os nossos semelhantes através da simpatia e do amor, conduzidos pelo Espírito Santo, que nos faz apreciar retamente todas as coisas. O Senhor continua no meio de nós.
Cristo é o caminho do homem. Nós não podemos silenciar esta verdade. João Paulo II – afirmava o papa Bento XVI– nos ensinou a não ter medo de ser cristãos e de pregar o Evangelho. Ele nos ensinou a beleza da fé através da verdade e do amor. Jesus continua atraindo as pessoas desde a cruz. Jesus Cristo continua atual, a sua mensagem nunca passará de moda, ele está sempre presente no hoje da história universal e pessoal.
Para permanecermos sempre com o Senhor, fiquemos sempre na companhia de Nossa Senhora. No domingo passado, Bento XVI também comentava a bem-aventurança de Maria, que é a da fé. Falava também do grande carinho do beato João Paulo II para com a Mãe de Deus. “Totus tuus!” (todo teu, Maria) era o lema do novo Beato. Maria que sempre sustentou a fé dos apóstolos, susteve também a de João Paulo II e sustém a nossa fé para que permanecemos com aquele que quer ficar sempre conosco.
padre Françoá Costa
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Os discípulos de Emaús
No dia da Ressurreição, à tarde, Jesus, sob as aparências de um peregrino, junta-se aos dois discípulos que se dirigem para Emaús e falam, entre si, dos acontecimentos surpreendentes da sexta-feira anterior, em Jerusalém. (Lc 24,13-35) Os discípulos estão tristes, desanimados, decepcionados, frustrados… Aguardavam um Messias glorioso, um Rei  poderoso, um vencedor e encontram-se diante de um derrotado, que tinha morrido na Cruz. Aparece um peregrino,que caminha com eles… Ao longo da conversa com Jesus os discípulos passam da tristeza à alegria, recuperam a esperança e com isso o afã de comunicar a alegria que há nos seus corações, tornando-se deste modo anunciadores e testemunhas de Cristo ressuscitado. Jesus caminha junto daqueles dois homens que perderam quase toda a esperança, de modo que a vida começa a parecer-lhes sem sentido. Compreende a sua dor, penetra nos seus corações, comunica-lhes algo da vida que nele habita.“Quando, ao chegar àquela aldeia, Jesus faz menção de seguir o caminho; porém os discípulos insistiram com Jesus para que Ele ficasse com eles. Reconhecem-no depois ao partir o pão: O Senhor, exclamam, esteve conosco! Então disseram um para o outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava e nos explicava as Escrituras? (Lc. 24,32). Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens;deve viver de tal maneira que todos com quem tem contato sintam o bom odor de Cristo (2Cor. 24,32); o bom odor de Cristo deve atuar de forma que, através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre” (Cristo que passa, nº. 105). A conversa dos dois discípulos com Jesus a caminho de Emaús, resume perfeitamente a desilusão dos que tinham seguido o Senhor, diante do aparente fracasso que representava para eles a Sua morte. Jesus, em resposta ao desalento dos discípulos, vai pacientemente descobrindo-lhes o sentido de toda a Sagrada Escritura acerca do Messias: “Não era preciso que o Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse na Sua glória?” Com estas palavras o Senhor desfaz a idéia que ainda poderiam ter de um Messias terreno e político, fazendo-lhes ver que a missão de Cristo é sobrenatural: a salvação do gênero humano. Na Sagrada Escritura estava anunciado que o plano salvador de Deus se realizaria por meio da Paixão e Morte redentora do Messias. A cruz não é um fracasso, mas o caminho querido por Deus para o triunfo definitivo de Cristo sobre o pecado e sobre a morte (1 cor 1, 23-24). A presença e a palavra do Mestre recupera estes discípulos desanimados, e acende neles uma esperança nova e definitiva: “Iam os dois discípulos para Emaús. O seu caminho era normal, como o de tantas outras pessoas que passavam por aquelas estradas.E aí, com naturalidade, aparece-lhes Jesus e vai com eles, com uma conversa que diminui a fadiga. “Jesus, no caminho! Senhor, que grande és Tu sempre! Mas comoves-me quando Te rebaixas para nos acompanhares, para nos procurares na nossa lida diária. Senhor, conhece-nos a simplicidade de espírito, o olhar limpo, a mente clara, que permitem entender-Te, quando vens sem nenhum sinal externo da Tua glória! Termina o trajeto ao chegar à aldeia e aqueles dois que, sem o saberem, tinham sido feridos na fundo do coração pela palavra e pelo amor de Deus feito homem, têm pena de que Ele se vá embora. Porque Jesus despede-se como quem vai para mais longe (Lc. 24,28). Nosso Senhor nunca Se impõe! Quer que O chamemos livremente, desde que entrevimos a pureza do Amor que nos colocou na alma. Temos de O deter à força e pedir-lhe: fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando (Lc. 24,29). Somos assim: sempre pouco atrevidos, talvez por falta de sinceridade, talvez por pudor. No fundo pensamos: fica conosco, porque as trevas nos rodeiam a alma e só Tu és luz, só Tu podes acalmar esta ânsia que nos consome! Porque entre as coisas belas, honestas, não ignoramos qual é a primeira: possuir sempre Deus” (São Gregório Nazianzemo). Depois da escuta da Palavra e o partir o Pão, os discípulos de Emaús sentem agora a urgência de voltar a Jerusalém!… Partem logo para anunciar a descoberta aos irmãos e , junto com eles, proclamam a fé: “O Senhor ressuscitou.” É o impulso à Missão. Peçamos, como os discípulos: “Fica conosco, Senhor” Que possamos reconhecê-Lo nos pequenos gestos de cada dia. Hoje pedimos a Nossa Senhora, Mãe de todas as mães que abençoe todas as nossas mães…
mons. José Maria Pereira
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Epístola (1Pd. 1,17-21)
O PAI. E se chamais de Pai a quem julga sem acepção de pessoas, segundo a obra de cada um, procedei em temor o tempo de vossa peregrinação (17).
A intenção do apóstolo é afirmar que a fé, e não as obras fundadas na lei de Moisés, é a que salva, pois foi o sacrifício de Cristo que com seu sangue pagou o resgate pelos pecados. E foi esta fé na ressurreição de Cristo que causa a esperança em Deus como Pai. Porém, Pedro não esquece que, em definitivo, a fé sem obras está morta (Tg. 2,20). É por isso que neste versículo chama a Deus o Pai que julga sem acepção de pessoas. O grego é um composto de a (sem) prosopôn (pessoa) e lambano (tomar) cujo significado é imparcialmente ou sem acepção de pessoas, que responde evangelicamente às palavras do Batista, sobre o julgamento divino na nova era messiânica: Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo (Mt. 3,10) e em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo e queimará a palha com fogo que nunca se apagará (Mt. 3,12). Nesse juízo, segundo Paulo, Deus recompensará cada um segundo as suas obras, a saber: a vida eterna aos que, com perseverança em fazer o bem, procuram honra, glória e incorrupção, mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade (Rm. 2, 6-8). Para deduzir que esse juízo é exato, pois para Deus não há acepção de pessoas (idem 11). procedei é o imperativo do aoristo do verbo anastrefö com o significado de revolver, retornar, reverter e como típico da conduta humana é comportar-se, conviver, proceder. Ou seja, devemos nos portar com esse temor saudável de nossa parte de perder o trem como vulgarmente se diz, porque as nossas obras não correspondem ao que deveríamos realizar. E o apóstolo acrescenta no tempo de vossa peregrinação a paroikia grega tem o significado de moradia em terra estranha, como vemos na outra ocasião em que aparece a palavra: O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egito (At. 13,17). Como adjetivo aparece também em 1Pd. 2,11 : peço-vos como a peregrinos e forasteiros. De modo que os fieis pertencem a uma paróquia ou grupo que na terra considera-se como peregrino na terra. A mesma palavra peregrino indicava em Roma um sujeito não cidadão, mas estrangeiro.

A redenção: Sabendo que não por corruptíveis (meios) de prata e ouro fostes remidos da vossa inútil conduta tradicional (18).
corruptíveis a palavra grega indica uma coisa corruptível, perecível. A palavra sai 6 vezes no NT: 4 em Paulo e dois em Pedro, sempre com o significado de coisa perecível, que em si leva a corrupção e destruição de modo especial o homem (Rm. 1,23), pois seu corpo, uma vez que a morte toma conta de sua existência, chega a corromper-se de modo que todos sabem do resultado. Por isso, Paulo fala sempre da diferença entre o corpo mortal corruptível e o corpo dos ressuscitados, incorruptível e imortal (1Cor. 15,53). Pedro trata do ouro e da prata como coisas corruptíveis, ou seja, perecíveis máxime dando a elas um valor praticamente nulo, pois não podem ser usados eternamente. Pedro alude aqui ao resgate usando o verbo remir próprio do preço pago em ouro ou prata pelo livramento de um escravo. Pedro coincide com Paulo ao definir a obra de Cristo como um resgate de escravos que se em Paulo é do pecado e da morte, aqui, falando aos pagãos neoconversos, é dos cultos politeístas, que define como inúteis palavra que em grego significa sem força, inútil, desnecessário, imprestável, fútil, vão. Inútil conduta é a expressão que a Setenta e o NT aplicam ao culto dos ídolos como vemos em At. 14,15: Vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, dirá Paulo aos de Icônio. E aos de Éfeso: E testifico no Senhor para que não andeis como andam os outros gentios, na vaidade da sua mente (Ef. 4,17). Eram costumes que tradicionalmente receberam de seus antecessores.

O Sangue de Cristo. Mas com precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e mancha, de Cristo (19).
Pedro agora define qual foi o preço do resgate: o sangue de Cristo, que ele chama de precioso o termo grego indica um valor precioso, um grande preço, de muita estima, especialmente caro. Nada menos que o de Cristo a quem compara com um cordeiro sem defeito e sem mancha como eram os escolhidos para o sacrifício. É o que Paulo afirma em 1 Cor. 6,20: fostes comprados a bom preço. Um comentário de Pelágio diz: se comprado por um preço pequeno, de um escravo se exige plena servidão, quanto mais exigirá de nós que nos comprou por um preço altíssimo? A figura de Cristo como cordeiro pascal é coisa conhecida pelos primeiros cristãos e fundamentada nos escritos evangélicos. O Batista o define como cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1,29), coisa que o próprio escritor do quarto evangelho reafirma ao atribuir a Jesus na hora da morte dos cordeiros pascais esta profecia: isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado (Jo. 19,36). E Finalmente Paulo em 1Cor. 5,7: Cristo nossa Páscoa foi sacrificado por nós. Diante destas palavras que cremos tão claras como poderemos interpretar as de um moderno comentarista afirmando que redenção é um termo metafórico que implica uma mudança de situação sem que Cristo tenha pago nada. A Cristo ele custou muito, mas não no sentido de preço, que é pura imagem. Falar de seu sangue e falar de sua morte não implica necessariamente num sacrifício expiatório que tem o sentido pagão de volver favorável a um Deus ofendido. (É que os sacrifícios expiatórios não existiam entre os judeus? Ver Ex. 29,33 e 30,10 em que o animal para a expiação é precisamente um carneiro para a expiação).

Plenitude dos tempos. Já de antemão conhecido desde (a) fundação do mundo, mas manifestado em últimos tempos por causa de vós (20).
Conhecido de antemão o verbo é composto de pró  [antes] e gignoskò [conhecer] com o qual temos um preconhecimento. O texto diz desde a fundação do mundo uma frase que em Mateus 13, 35 significa desde que houve habitantes na terra é o mesmo que o reino preparado desde  a fundação do mundo (Mt. 25,34). Também Lucas fala do sangue de todos os profetas derramado desde a fundação do mundo (Lc. 11,50). O conhecimento era, sem dúvida, o que tinha Deus em seus planos ocultos e que foi revelado como diz Paulo na plenitude dos tempos, (Ef. 1, 10) e não em outras gerações (Ef. 3,5). O conhecimento estava reservado aos tempos messiânicos que eram considerados como a última etapa da História ou plenitude dos tempos em que Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei (Gl. 4,4). Por vós é uma expressão que indica a finalidade do sacrifício de Cristo: se imolou por nós pois como diz Paulo em Gl. 2,20 todos podemos dizer que vivemos a nossa vida na fé, como crucificados com Cristo, que nos amou e se entregou por nós, cujo sangue foi derramado por nós (Lc. 22,20).

A esperança cristã. Os crentes por causa dele em Deus, o qual o ergueu dentre os mortos e deu-lhe glória, de modo que a vossa fé e esperança estejam em Deus (21).
Crentes na realidade muitos manuscritos têm pistous ou fieis que para o sentido total não introduz muita diferença. Por causa de acreditar em Cristo temos a segurança de que Deus que o ressuscitou dentre os mortos será a nossa glória como foi a de Cristo de modo que a fé seja causa de uma esperança que o próprio Deus avalia.

OS DISCÍPULOS DE EMAÚS
Emaús. Ora, eis que dois deles estavam caminhando nesse dia a uma vila, distante sessenta estádios de Jerusalém, de nome Emaús (13).
Emaús: seu nome significa banhos quentes e era uma vila, ou seja, um conglomerado de casas rústicas para servir de habitações para os camponeses e outros, chamados teknos [marceneiro, pedreiro e ferreiro numa só pessoa] com uma população talvez inferior a 400 habitantes. Na atualidade, existe um local a 60 estádios ou aproximadamente 10 Km. de distância de Jerusalém, que corresponde ao relato de Lucas. O Emaús bíblico está situado ao lado de uma via romana que ia de Jerusalém ao mar. Perto existe uma fonte que diz era onde Jesus lavou os pés após a caminhada com os dois discípulos.

A conversa. E eles conversavam entre si acerca de todas as coisas acontecidas (14). E sucedeu que, enquanto eles conversavam e discorriam, também ele, (o) Jesus, tendo-se aproximado, caminhava com eles (15).
Acontecidas: evidentemente eram os sucessos da morte de Jesus e de sua desaparição, tendo como sinal de discussão o sepulcro vazio. Era o domingo e o acontecido estava recente em suas mentes. Disso falavam entre si enquanto caminhavam.
Discorriam: o verbo grego significa buscar, inspecionar, examinar e também debater, comentar. Temos optado por um verbo neutro como discorrer, ou seja, comentar em sentido de querer compreender o que tinha sucedido, pois para eles, os fatos não tinham uma razão compreensível. Nesse momento, Jesus, que no grego tem o artigo determinante para indicar que era Ele precisamente, uniu-se a eles, como nova companhia.

Olhos impossibilitados: porém, os olhos deles estavam travados de modo a não o reconhecerem (16).
Travados: segundo o sentir da época, os olhos tinham dentro uma espécie de lanterna ou lâmpada, que se iluminava e assim podiam ver as coisas (Mt. 6,22 e Lc. 11,34). O verbo grego Krateö significa agarrar, se manter firme, resistir, conter, e por isso, optamos por travar; daí entupir, estar fechado. Os seus olhos estavam atenazados, segurados; o latim diz tenebantur estavam retidos ou reprimidos]. A consequência é que Jesus não foi reconhecido.
Não O reconheceram: muitos falam de que na ressurreição existe uma diferença corporal que transforma a aparência natural, como viram os apóstolos o rosto de Jesus no monte Tabor. Ou melhor, como foi a aparência que tomou Jesus ao aparecer a Maria Madalena (Jo. 20,14) ou aos discípulos na margem do lago (Jo. 21,4-7). Sem dúvida que Jesus não tomou a aparência usual de seu rosto terreno, para não causar pânico ou medo, como devia ser, caso vissem um morto ressuscitado que seria tomado por um fantasma (Lc. 24,37).

A pergunta. Então lhes disse: Quais as palavras essas que discorríeis entre vós, caminhando; e (por que) estais tristes? (17).
Sem dúvida que Jesus fala sobre o que pode escutar deles entrando na conversa sem produzir sobressalto algum. Foi um encontro normal entre caminhantes. No versículo 21 explica a causa da tristeza como sendo a perda de uma grande esperança que a morte tinha defraudado.

A resposta. Tendo respondido então, um deles, de nome Cléofas, disse-lhe: tu só dos que moras em Jerusalém e não conheces as (coisas) acontecidas nela nestes dias? (18).
O grego diz Kleopas que o latim traduz por Cléophas e que aparentemente pode ser uma abreviatura de Cleopatros nome grego que significa [filho] de pai ilustre. Alguns distinguem entre este Kléopas e um outro que em grego tem um nome parecido, Klöpas, mas que o latim traduz da mesma forma. Este Cleophas [latino] é o esposo da irmã de Nossa Senhora, também chamada Maria, a de Klöpas, e que estava ao pé da cruz, segundo João 19,25: a irmã de sua mãe, Maria a de Köplas [Cleophas em latim, Cléofas português e Cleofáscastelhano]. Klöplas tem a mesma origem que o aramaico e significa tio. Como a mulher tinha o mesmo nome de Maria, [a da mãe de Jesus] daí deduzimos que Klöpas era realmente o irmão de José, esposo de Nossa Senhora e que a sua mulher era cunhada e ao mesmo tempo era a mãe de Tiago, chamado o menor e irmão de Jesus. Klöpas é a tradução aramaica de Cleopas. Kleopas eKlöpas eram, pois, a mesma pessoa, ou seja, tio de Jesus por parte de pai. Há quem, por esta circunstância, identifica Kleofas com Alfeu ou Alfaios, que em Mt. 10,3 se diz ser o pai de Jacob ou Tiago. Em todo caso ao indicar um nome, Lucas quer nos dizer que o relato tem uma boa fonte testemunhal. Que é uma narração de primeira mão.

Pergunta Jesus. Então lhes disse: Quais? Eles, pois, lhe disseram: as coisas acerca de Jesus o Nazoraio (sic), que se tornou homem profeta poderoso em obra e palavra diante de (o) Deus e de todo o povo (19). E como os chefes dos sacerdotes e os dirigentes [civis] o entregaram a um juízo de morte e o crucificaram (20).
Qual é a diferença entre Nazareno e Nazoraio? Sem dúvida que nazareno significa oriundo de Nazaret. Mas que Significa nazoraio? Segundo alguns, a distinção está em que nazoraio vem de Naziyr e que se traduz como Nazirado em português (nazireato em espanhol e italiano). Em Nm. 6,2: era o nome dado aos consagrados a Deus com voto especial, tanto homens como mulheres. Podia ser perpétuo como o caso do João, o Batista (Lc. 1,15); ou temporário, como em Paulo (At. 18,18). Pouco sabemos de como se fazia e temos muito maior conhecimento dos ritos para terminar esse estado especial. A Setenta usa o Euchë voto, sem usar uma palavra para o Nazir. O voto impedia toda bebida de vinho ou fermentada, o corte de cabelo e o afastamento de todo cadáver mesmo do pai ou da mãe. Não parece que Jesus tivesse feito esse voto, pois bebia e comia (Mt. 20,22) e não teve inconveniente em tocar um cadáver (Mc. 5,41 e Lc. 7,31). Nazarenos é propriamente latim e Nazöraios é grego. Temos o exemplo em João 19,19 no título da cruz em que usa o gregoNazöraios. Mateus em 2,23 usa o mesmo Nazöraios como apodo próprio de Jesus. Uma única vez, em Lucas, vemos o Nazarene [de Nazaré] em 4,34: Que a mim e a ti Iësou Nazarëne? Dirá o demônio. É Marcos quem usa o Nazarenos (grego latinizado) com o qual temos uma prova de que ele escreveu para os gregos de Roma. Cremos que nas três passagens de Marcos (1,24; 14,67 e 26,6) o nome Nazarenos, tem um final latinizado e, portanto, equivale ao grego geográfico Nazöraios. Pois a terminção os é própria do patronímico grego, enquanto a nus é própria do latim.
Estavam tristes, porque esse Jesus era profeta. Tanto o grego como o latim acrescentam homem de modo a ser a tradução varão profeta a mais exata. Fundamentalmente profeta é quem fala em nome de Deus, iluminando e orientando a vida e a história do povo, denunciando tudo que seja ruptura com a aliança. Jesus reivindica para si mesmo essa condição de profeta (Mt. 13,57, Lc. 13,33 ; Jo. 6,14 e 7,40). Poderoso em obra e palavra. Dos profetas do AT sabemos que pelo menos Elias e Eliseu realizaram milagres além de falar em nome de Jahveh. E este poder extraordinário foi em Jesus testemunho de sua palavra como procedente de Deus: Se não credes em mim, crede nas obras (Jo. 10,38). Por isso, era profeta diante de Deus e de todo o povo. Como muitas vezes, a palavra Deus está acompanhada do artigo determinante o que ressalta o verdadeiro Deus dos muitos deuses pagãos da época. Os chefes dos sacerdotes. A maioria das versões vernáculas traduz por sumos sacerdotes (exemplo TEB). É verdade que um sumo sacerdote mantinha o título por vida e que em tempos de Jesus existiram muitos que obtiveram o título porque o cargo era venal e mudava quase anualmente; Josefo fala que houve 28 sumos pontífices entre Herodes e os anos 64, um total de 170 anos, o que dá um a cada dois anos e meio. Mas, neste caso, significa chefes dos sacerdotes (príncipes de los sacerdotes –diz Nácar Colunga e a KJB fala de chief priests), como parece indicar o latim, que segundo Josefo eram os chefes das principais famílias além dos que tinham sido sumos pontífices e o atual chamado Nasi, que presidia a tribuna, o Sagan, o tesoureiro do templo e outros. E os nossos dirigentes, que também eram chamados de bouletes [conselheiros] oudygnatoi, [dignatários] que eram os aristocratas das famílias mais ricas da cidade. Lucas, que em 9,22, claramente alude aos três componentes do sinédrio, aqui não diz nada sobre a terceira parte do mesmo que era formada pelos escribas. Sem dúvida que estes últimos, como respeitados pelo povo, tinham entre seus membros Nicodemos que se opôs à condena de Jesus (Jo. 7,50). O entregaram O verbo tem como significado entregar uma pessoa ou coisa nas mãos de outra. Daí atraiçoar como em Mt. 5,25 te entregue nas mãos do juiz. A entrega terminou com a morte em cruz, a mais horrível e humilhante para um romano e a mais maldita para um judeu. Deus não podia permitir semelhante morte para um profeta seu. Morrer nas mãos do príncipe inimigo, como o Batista nas de Herodes Antipas, era um martírio; mas na cruz era uma maldição.

Esperança vã. Já que nós esperávamos que viesse libertar Israel. Mas já sobre estas coisas prevalece o terceiro dia desde que passaram elas (21).
E explicam a causa de sua tristeza que, em definitivo, é uma perda de esperança: Jesus tinha fomentado a esperança messiânica [libertação de Israel] e agora tudo acabou. Nestas palavras está resumido o sentimento mais profundo e a alma de todos os discípulos de Jesus. Tanto esforço, tanta ilusão perdida. Tudo foi um sonho bonito que agora se transforma em dolorosa desilusão. Eram três dias de profunda tristeza, como o Mestre tinha anunciadoKlausete [plorabitis = lamentareis] e thrënësete [flebitis = chorareis] (Jo. 16,20), como faziam as plangentes na morte dos que pranteavam.

Os rumores. Mas também certas mulheres das nossas nos deixaram surpresos havendo estado muito de manhã sobre o túmulo (22). E não tendo encontrado o corpo dele, voltaram dizendo também ter visto uma visão de anjos os quais dizem que ele está vivo (23). E alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro e encontraram assim como as mulheres falaram, mas a ele não viram (24).
Havia, porém uma coisa estranha que eles duvidavam fosse realidade interessante: temos traduzido o mais literalmente possível, respeitando tempos de verbos e significado das palavras. O caso é que os dois discípulos se mostraram tão céticos como hoje muitos dos leitores do evangelho, que só admitem como históricos o sepulcro vazio e a ausência do corpo. As visões e aparições são tidas como imaginárias, sem fundamento real. Jesus não aparece como apareceu Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima. A Virgem não era vista pelos assistentes. Era, pois, uma aparição interna sem que uma máquina fotográfica pudesse recordar a cena. Mas no evangelho de hoje temos a resposta: ele tinha um corpo como um homem qualquer. Precisamente a ¨cegueira¨ dos dois discípulos de Emaús, indica que ele não foi uma aparição do tipo que certos teólogos indicam: ele, para todos os efeitos, era de carne e osso, indistinguível como se fosse um homem comum. Os evangelistas distinguem perfeitamente a visão dos anjos [vestes resplandecentes], que podem ser semelhantes às aparições de Fátima, das aparições de Jesus durante os 40 dias: é o mesmo Jesus de sempre, o Jesus ainda não transformado porque não tinha ido ao Pai (Jo. 20,17). Quer dizer que só depois da Ascensão ele tomou o corpo espiritual que dirá Paulo (1Cor. 15,43-45)? É uma hipótese que não tem nada contra a teologia e que não pode ser descartada, já que a visão de Paulo de Jesus Ressuscitado parece ser uma visão, cuja fonte era a luz (At. 9,3). Neste trecho, escrito muito antes do evangelho de João, segundo o que nos diz a tradição, temos um resumo das primeiras aparições de Jesus que concorda plenamente com o relato joanino. Estes dois evangelistas devem ser tomados como base real do sucedido e não como descrição catequética do mesmo.

Apologia de Jesus. Então ele lhes disse: Ó sem inteligência e tardos no coração para crer em todas (as coisas) que falaram os profetas! (25).
Começa censurando-os: sem entendimento e tardos de mente [coração no original]. Usando termos mais claros poderíamos traduzir por tontos e estúpidos, não no sentido de um insulto, mas de um fato certamente real e comprovável. A compreensão das Escrituras não depende unicamente da graça de Deus, mas também da disposição de ânimo do leitor. Com uma mente perturbada por prejuízos como a dos saduceus, que não admitiam a ressurreição, era impossível admitir a de Cristo. Com uma mente como a moderna em que o milagre é menosprezado, é lógico que os relatos dos evangelhos sejam tomados exatamente como os das mulheres foram aceitos pelos discípulos: lendas, fantasias.

A interpretação. Certamente, não convinha Cristo padecer essas coisas e entrar na sua glória? (26). E começando desde Moisés e desde todos os profetas interpretava-lhes em todas as Escrituras os (acontecimentos) acerca dEle (28).
Jesus, como companheiro de viagem, se torna agora mestre de sabedoria para interpretar as Escrituras, fazendo apologia de sua paixão: Era necessário que o Ungido [Messias] padecesse, para assim entrar na sua glória [a posse do seu reino]. O verbo Deo significa atar, e em termos teóricos obrigar, por estar sujeito a uma lei. O singular impessoal dei significa uma obrigação iniludível, porque estava escrito, isto é: era um plano de Deus transmitido através dos profetas (25)E começando por Moisés, diz Lucas. Na realidade, Moisés diretamente não fala do Messias a não ser em Dt. 18,15: Javé, teu Deus suscitará um profeta como eu, no meio de ti, dentre os teus irmãos, e vós o ouvireis. Temos uma outra citação em Gn. 3,15: A descendência da mulher esmagará tua cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar. Porque o Pentateuco era o livro escrito por Moisés, ao menos substancialmente. Além destas profecias que podemos chamar diretas e que são as únicas que nos tempos modernos aceitamos como verdadeiras, não podemos esquecer que, muitas vezes, os antigos viam na Escritura tipos e imagens do futuro como verdadeiras profecias. Entre esses tipos temos Isaac levando a lenha para o sacrifício que ia ser executado pelo pai, mas que no último momento foi substituído por um carneiro (Gn. 22,6-14). Temos a serpente de bronze, da qual o próprio Jesus comentou que era sua figura (Nm. 21,8 e Jo 3,14). Também podemos ver nos sacrifícios ordenados por Moisés, figuras do sacrifício de expiação pelos pecados da Nova Aliança de Jesus, especialmente no dia do Yom Kippur pelo holocausto do bode expiatório (Lv. cap 9), que a epístola aos hebreus, no capítulo 9, afirma ser figura imperfeita de Jesus. Pelo que diz respeito aos outros profetas, tais como Davi nos salmos 22,1-31, Isaías 53,1-12 e Daniel 9,1-27 as referências são muito notáveis. Por isso Jesus interpretava as Escrituras, embora não saibamos em que termos, pois o evangelista não o declara.

Fica conosco. Então se aproximaram da vila para a qual caminhavam e Ele pareceu passar adiante (28). E o coagiram dizendo: fica conosco já que é a tarde e o dia declina. Então entrou para ficar com eles (29).
Só devido a uma pequena dificuldade para a volta, vamos explicar o vocábulo grego por TARDE. De fato, o original diz que é a tarde [substantivo] e não que é tarde [adjetivo, fora do tempo]. A Vulgata com o verbo advesperascit indica que já chegou a tarde. Esta começava às três horas, e era o momento do almoço. O dia, ou melhor, a luz do dia acabava às seis horas.

Ao partir o pão. E sucedeu ao se recostar ele com eles, tomando o pão, (o) abençoou e tendo (o) partido (o) dava a eles (30).
Segundo a Mishná, se são três os que devem comer juntos, são obrigados a benzer a mesa, porque se são três os que comem juntos não podem separar-se para a bênção (Berajot 7,4). Segundo a tradição judaica, na liturgia da Páscoa após a segunda copa, copa de Haggadá [das narrações da tradição] se iniciava o banquete com a bênção da mesa, feita pelo pater-famílias sobre o pão ázimo: tomava o pão e o abençoava com estas palavras: Louvado sejas tu, Senhor nosso Deus, Rei do mundo que fazes sair o pão da terra. Os comensais respondiam Amém; e, na continuação, o pai de família repartia o pão. O pai da casa tomava o último pedaço e começava a comer; com isso ele dava o sinal para todos de que o banquete tinha começado.

Os olhos se abriram. Os seus olhos então se abriram e conheceram-no e Ele se tornou invisível para eles (31).
É precisamente nesta bênção e no partir o pão que os dois discípulos reconhecem a pessoa de Jesus. Os olhos se abriram e o reconheceram. Os três sinóticos falam de como Jesus, erguendo os olhos ao céu (exemplo Lc. 9,18) e abençoando o pão partiu-o e o entregou a seus discípulos. A oração, entre os judeus, sempre se fazia com o olhar baixo, em sinal de submissão; e Jesus pronunciava o nome de Pai no lugar do Adonai usual entre os conterrâneos. Os olhos, que estavam travados, agora reconheceram o Mestre; mas não puderam gozar da visão por muito tempo, porque a figura que foi seu acompanhante no caminho, agora se desvaneceu. Ele se tornou invisível a eles. A palavra grega indica um não ser visto, um desvanecer ou desaparecer. Indica que é assim que nós vamos encontrar o Cristo: desvanecido nas Escrituras, e sem poder ver seu rosto, que pela fé encontramos no partir o pão, como os dois contaram aos onze [que na realidade eram dez] após a volta de Emaús.

Os discípulos. Então disseram entre si: não estava ardendo nosso coração dentro de nós enquanto falava conosco no caminho e nos abria as Escrituras?(32). E tendo se levantado, na mesma hora, voltaram para Jerusalém e encontraram reunidos os onze e os que (estavam) com eles (33), dizendo que ressuscitou o Senhor verdadeiramente e foi visto por Simão (34).
Somente eram dez, mas como Lucas não narra a aparição particular a Tomé, daí que ele o inclua entre os apóstolos e fala dos onze. Quando chegam os de Emaús que particularmente não pertenciam aos onze, encontram junto com estes, outros discípulos congregados e falando de que realmente Jesus tinha ressuscitado e tinha sido visto por Simão [Pedro]. Esta aparição é confirmada por Paulo: apareceu a Cefas e depois aos doze (1Cor. 15,5). Vemos como aqui também o número 12 é usado como uma relação genérica, sem incluir no caso a Judas e Tomé.

Seu testemunho. Então eles contaram as coisas no caminho e como foi por eles conhecido ao partir o pão (35).
Então eles acrescentaram sua história que, além de vê-lo vivo, continha uma lição de como interpretar as Escrituras. Jesus não olvidava seu ministério de Rabi, como Mestre de seus discípulos. É um fato, que muitos exegetas apresentam como significativo, que Ele fosse reconhecido ao partir o pão. Ele foi pela primeira vez reconhecido como rei após a primeira multiplicação dos pães, quando os abençoou e partiu (Mt. 14,19) e depois mandou que os discípulos os dessem à multidão. Esse foi o momento em que a multidão o declarou como o profeta que deveria vir ao mundo e alguns até queriam torná-lo rei (Jo. 6,14-15). Foi também ao partir o pão que Ele foi reconhecido pelos dois discípulos.

Pistas
1) A pergunta inicial: por que a vida é sempre vencida pela morte? Por que o mal sempre triunfa do bem? O Pai abandona o Filho Jesus, ou este era simplesmente um impostor? Essencialmente as perguntas que se faziam os dois discípulos eram estas. Jesus não usa o raciocínio humano para responder, mas os escritos sagrados. Sem Jesus, as Escrituras não têm mais sentido que o dado pela comemoração de uma História particular e parcial do povo hebreu. Em Jesus encontraremos a culminação da História e a razão de nossa história porque em Jesus encontramos a justificação de como o mal deve ser vencido pelo bem: pelo sacrifício da própria vida para que, perdendo-a, outros a encontrem e a vivam melhor.
2) Santo Agostinho afirma que o Senhor foi conhecido ao partir o pão; e também o conheceremos hoje ao partir o pão:
a) o pão da Eucaristia onde o encontramos substancialmente;
b) o pão repartido entre os necessitados, com os quais ele quis se identificar.
3) A vida, como uma dádiva de Deus, está se tornando uma circunstância para gozar da mesma sem sentido de solidariedade. Os cristãos não param na dádiva, mas no Senhor da mesma e vemos, como sendo Ele amor e ela produto do amor, devemos responder com amor. Ou seja, como entrega e não como posse definitiva. Por isso o padecer temporal é a base para a glória definitiva.
4) Apareceu a Simão: ele era o irmão que devia manter a fé dos irmãos (Lc. 22,32)A contrariedade e o sofrimento nos tornam fracos em nossa fé. Mas é aí onde a fortaleza de Deus se manifesta (2Cor. 12,10). Os judeus pediam milagres e profecias (Lc. 22,64 e 23,8) e os romanos poder, porque, quando Pilatos ouviu que Jesus veio a dar testemunho da verdade, o desprezou (Jo. 18,38). Mas é essa verdade que Jesus afirma: o Messias deve sofrer e assim unicamente entrar na glória do seu reino (25).
padre Ignácio
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Reconheceram-no ao “Partir o Pão”
O Evangelho deste Domingo é sobre os discípulos de Emaús. Eles foram a Jerusalém para celebrar a Páscoa e foram testemunhas de fatos dramáticos: o seu Mestre, um profeta poderoso em obras e palavras, foi condenado à morte.
Passando os dias daquela triste solenidade eles se preparam para voltar a Emaús, quando logo de manhã cedo, alguém corre para eles com notícias, um tanto perturbadoras: o sepulcro foi encontrado vazio, algumas mulheres afirmam ter visto uma aparição de anjos e se afirma que Jesus está vivo.
Em casa, as famílias os aguardam, é chegado o tempo da colheita da cevada e por isso eles partem. Ao longo do caminho se aproxima deles um viajante que declara não conhecer o que aconteceu naqueles dias na cidade santa. Eles descrevem o seu drama: esperavam que Jesus fosse o Messias, mas foi morto. O desconhecido começa então a explicar, através das Escrituras, que tudo o que havia acontecido estava no plano de Deus.
Os dois discípulos estão tristes. Viram cair por terra todos os seus planos. Aguardavam um Messias glorioso, um rei poderoso, um vencedor e se encontram diante de um derrotado. Todas as esperanças desmoronaram.
Esta é a situação dos primeiros Cristãos. São perseguidos, são vítimas da maldade, percebem o triunfo das obras da morte. Diante das injustiças e dos sofrimentos também ficam parados com o rosto triste.
Esta é também a nossa história. Quantas vezes a tristeza, o sofrimento, o desânimo querem tomar conta de nosso coração porque a injustiça, a falsidade, a mentira parecem predominar. São tantas as dificuldades e provações.
Qual deve ser a nossa atitude? Abandonar a fé? Abandonar a comunidade? Os dois discípulos conhecem bem a vida de Jesus. Descrevem tudo o que Jesus fez, mas pensam que tudo terminou com a morte na cruz. Eles abandonaram a comunidade. Não aprofundam a fé, não acreditam no testemunho das mulheres.
A vida de comunidade é o lugar do encontro com Jesus. Como os discípulos conseguem descobrir que Jesus é o Messias? Como podem entender que a vida nasce da morte? O caminho é através das Escrituras. É a palavra de Deus que desvenda o mistério. Por eles não terem entendido a Bíblia, eles não conseguem ver os acontecimentos com o olhar de Deus. Por isso Jesus repreende: "Como sois duros de coração para acreditar na palavras dos profetas".
O caminho da cruz é difícil de ser compreendido. Por isso é preciso iluminar com a palavra de Deus. Jesus explica as Escrituras e quando chegam ao povoado é convidado a ficar com eles. Com os discípulos se realiza o mesmo que nós celebramos na Eucaristia: "A leitura e explicação da Palavra de Deus e o partir o pão".
Somente quando eles recebem o pão é que os olhos se abrem e os discípulos se dão conta de que o Ressuscitado está no meio deles.
São lucas quer ensinar que todos nós podemos encontrar Jesus Ressuscitado. O lugar especial é a celebração da comunidade, nos sinais dos sacramentos. Os discípulos de Emaús quando reconhecem Jesus, vão correndo para anunciar a sua descoberta aos irmãos e juntos com eles proclamam a fé: "em verdade o Senhor ressuscitou".
A celebração da Palavra e da Eucaristia nos enchem de alegria porque Jesus está conosco, nos alimenta com o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia e nos fortalece para realizarmos nossa missão.
"Eu estarei sempre com vocês".
padre Marcos Rech

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Noticiários recentes dão conta de que cada vez mais a vida, como um dom precioso, necessita de respeito incondicional e nada nem ninguém tem o direito de atentar contra qualquer forma de vida. Na última semana ocupou espaço na mídia mundial a morte de Ozama Bin Laden. No que pese sua conduta e condição de chefe de uma organização terrorista e das inúmeras mortes patrocinadas por grupos de extermínio liderados por fanáticos e fundamentalistas, nada justifica essa contínua neurose pela vingança e pela morte de quem quer que seja.
Outra situação que tem incomodado a todos, especialmente no Brasil, nas últimas semanas, se deu em torno do abandono de Crianças recém nascida. Em ambas as circunstâncias fica evidente que o ser humano tem uma sensibilidade  extraordinária e uma capacidade de indignação diante de fatos desta natureza.
Na liturgia deste domingo a Palavra de Deus nos leva a refletir sobre a realidade da morte, sobretudo, da morte em condições não aceitáveis e sem aparente justificativa. Diante de tal fato a indignação, a desolação e o descrédito  são muito mais amplamente sentidos.
No caso dos discípulos de Emaús, como é conhecido o texto do Evangelho de hoje, os dois estavam completamente desiludidos e incapazes de compreender as razões para tamanha barbaridade. Sem outra expectativa, depois que se passavam três dias da morte daquele que julgavam ser o messias, desistem de tudo. Deixam Jerusalém, deixam os amigos, abortam os sonhos e tomam outro destino. Até que Jesus se lhes dá a conhecer, só então  o rumo de suas vidas vai, novamente, para outra direção.
A mesma realidade é descrita pelos Atos dos Apóstolos. Na palavra de Pedro  o que aconteceu com Jesus é o sinal mais evidente de que Deus está com eles e que na realidade da morte e da ressurreição se encontra o sentido mais extraordinário  do existir e do viver em comunhão. Na segunda leitura se confirma o que os apóstolos acreditavam: Por causa desta certeza, bastante tempo depois as comunidades continuaram sendo animadas a experimentar uma vida nova com total confiança em Deus, que a todos acolhe sem distinção.
Ontem como hoje, os batizados, e entre eles nós, que nos reunimos nesta santa assembleia,  somos convidados às mesmas atitudes. Isto é, nos indignar com a morte, não aceitar e não facilitar condutas que produzam ou facilitem a falta de respeito para com as criaturas. A palavra de Deus deste domingo reforça o convite para uma vida diferente  afinal de contas “fomos resgatados pelo precioso sangue de Cristo”.
Na figura de nossas mães, e de todos os que fazem a vida acontecer, podemos proclamar também nós como os discípulos de  Emaús: “Senhor fica conosco!”.  Ou seja, em meio há tantos sinais de violência e desrespeito para com o ser humano, uma presença é necessária ser reconhecida. Que o Senhor, a exemplo dos discípulos de Emaús, por esta Eucaristia e pela Palavra que ouvimos nos coloque de novo na comunidade dos discípulos onde em companhia de todos possamos proclamar: Verdadeiramente o Senhor Ressuscitou e nós ressuscitaremos com Ele.
padre Elcio
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A experiência de Emaús
A liturgia do segundo domingo pascal apresentou a comunidade apostólica e sua fé em Jesus Cristo ressuscitado. Agora, o terceiro domingo apresenta a mensagem que essa comunidade anunciou ao mundo, a pregação dos apóstolos nos primórdios da Igreja: o “querigma”. A perspectiva do anúncio universal é criada pela antífona da entrada, com o Salmo 66[65],1-2: “Aclamai a Deus, toda a terra”, enquanto a oração do dia evoca a renovação espiritual dos que creem e recebem a condição de filhos de Deus.
1ª leitura (At. 2,14.22-33)
A primeira leitura apresenta o “querigma” apostólico, o anúncio – no discurso de Pedro em Pentecostes – da ressurreição de Jesus e de sua vitória sobre a morte. É o protótipo da pregação apostólica. Suprimida a introdução do discurso, por ser a leitura de Pentecostes (At. 2,15-21), a leitura de hoje se inicia com o v. 22, anunciando que o profeta rejeitado ressuscitou, cumprindo as Escrituras (Sl. 16[15],8-10). Não se trata de ver aí uma realização “ao pé da letra”, mas de reconhecer nas Escrituras antigas a maneira de agir de Deus desde sempre, a qual se realiza num sentido “pleno” em Jesus Cristo. Ou melhor: naquilo que se vê em Jesus, aparece o sentido profundo e escondido das antigas Escrituras. O importante nesse querigma é o anúncio da ressurreição como sinal de que Deus “homologou” a obra de Jesus e lhe deu razão contra tudo e todos. Isso é atestado não só por testemunhas humanas, mas também pelo testemunho de Deus mesmo, na Escritura. O Salmo 16[15], por exemplo, originalmente a prece de quem sabe que Deus não o entregará à morte, encontra em Cristo sua realização plena e inesperada. Esse salmo é também o salmo responsorial de hoje e terá de ser devidamente valorizado.
2ª leitura (1Pd. 1,17-21)
Na segunda leitura, continua a leitura da 1Pd iniciada no domingo passado. Jesus Cristo é visto como aquele que nos conduz a Deus. Sua morte nos remiu de um obsoleto modo de viver. Por meio de Cristo, ou seja, quando reconhecemos e assumimos a validade do seu modo de viver e de morrer, chegamos a crer verdadeiramente em Deus e conhecemos Deus como aquele que ressuscita Jesus, aquele que dá razão a Jesus e “endossa” a sua obra. Isso modifica nossa vida. Desde o nosso batismo, chamamos a Deus de Pai; mas ele é também o Santo que nos chama à santidade (1Pd. 1,16; cf. Lv. 19,2). O sacrifício de Cristo, Cordeiro pascal, obriga-nos à santidade. Os últimos versículos desta leitura (v. 19-21) constituem uma profissão de fé no Cristo, que desde sempre está com Deus: ele nos fez ver como Deus verdadeiramente é, e por isso podemos acreditar que Deus nos ama.
Evangelho (Lc. 24,13-35)
O evangelho é preparado pela aclamação, que evoca o ardor dos discípulos ao escutar a palavra de Deus (cf. Lc. 24,32). Trata-se da narrativa dos discípulos de Emaús (lida também na missa da tarde no domingo da Páscoa). A homilia pode sublinhar diversos aspectos.
1) “Não era necessário que o Cristo padecesse tudo isso para entrar na glória?” (Lc. 24,26). Cabe parar um momento junto ao termo “o Cristo”. Não é apenas de Jesus como pessoa que se trata, mas de Jesus enquanto Cristo, Messias, libertador e salvador enviado e autorizado por Deus. Não se trata apenas de reconhecer a vontade divina a respeito de um homem piedoso, mas do modo de proceder de Deus no envio de seu representante, o “Filho do homem” revestido de sua autoridade (cf. Dn 7,13-14), que deve levar a termo o caminho do sofrimento e da doação da vida (cf. Lc. 9,22.31).
2) Jesus “lhes explicou, em todas as Escrituras, o que estava escrito a seu respeito” (Lc. 24,27). Em continuidade com a primeira leitura, podemos explicitar o tema do cumprimento das Escrituras. As Escrituras fazem compreender o teor divino do agir de Jesus. Enquanto os discípulos de Emaús estavam decepcionados a respeito de Jesus, fica claro agora que, apesar da aparência contrária, Jesus agiu certo e realizou o projeto de Deus. As Escrituras testemunham isso. Jesus assumiu e levou a termo a maneira de ver e de sentir de Deus que, embora de modo escondido, está representada nas antigas Escrituras. Ele assumiu a linha fundamental da experiência religiosa de Israel e a levou à perfeição, por assim dizer. Mas só foi possível entender isso depois de ele ter concluído a sua missão. Só à luz da Páscoa foi possível que as Escrituras se abrissem para os discípulos (cf. também Jo 20,9; 12,16).
3) Reconheceram-no ao partir o pão (cf. Lc. 24,31 e 35). A experiência de Emaús nos faz reconhecer Cristo na celebração do pão repartido. Na “última ceia”, o repartir o pão fora reinterpretado, “ressignificado”, pelo próprio Jesus como dom de sua vida pelos seus e pela multidão (Lc 22,19); e à comunhão do cálice que acompanhava esse gesto, Jesus lhe dera o sentido de celebração da nova e eterna aliança (Lc 22,20). Assim puderam reconhecê-lo ao partir do pão. Mas o gesto de Jesus na casa dos discípulos significava também a rememoração do gesto fundador que fora a Última Ceia, a primeira ceia da nova aliança. Desde então, esse gesto se renova constantemente e recebe de cada momento histórico significações novas e atuais. Que significa “partir o pão” hoje? Não é apenas o gesto eucarístico; é também o repartir o pão no dia a dia, o pão do fruto do trabalho, da cultura, da educação, da saúde... Os discípulos de Emaús, decerto, não pensavam num mero rito “religioso”, mas em solidariedade humana. Ao convidarem Jesus, não pensaram numa celebração ritual, mas num gesto de solidariedade humana: que o “peregrino” pudesse restaurar as forças e descansar, sem ter de enfrentar o perigo de uma caminhada noturna. O repartir o pão de Jesus é situado na comunhão fraterna da vida cotidiana. Esse é o “aporte” humano que Jesus ressignifica, chamando à memória o dom de sua vida.
ENTENDER AS ESCRITURAS E PARTIR O PÃO
A liturgia de hoje nos conscientiza de que Jesus, apesar – e por meio – de seu sofrimento e morte, é aquele que realiza plenamente o que a experiência de Deus no Antigo Testamento já deixou entrever, aquilo que se reconhece nas antigas Escrituras quando se olha para trás à luz do que aconteceu a Jesus. Ao tomarmos consciência disso, brota-nos, como nos discípulos de Emaús, um sentimento de íntima gratidão e alegria (“Não ardia o nosso coração...?”, Lc. 24,32) que invade a celebração toda, especialmente quando, ao partir o pão, a comunidade experimenta o Senhor ressuscitado presente no seu meio.
A saudade é a benfazeja presença do ausente. Quando alguém da família ou uma pessoa querida está longe, a gente procura se lembrar dessa pessoa. É o que aconteceu com os discípulos de Emaús. Jesus fora embora... mas, sem que o reconhecessem, estava caminhando com eles. Explicava-lhes as Escrituras. Mostrava-lhes o veio escondido do Antigo Testamento que, à luz daquilo que Jesus fez, nos faz compreender ser ele o Messias: os textos que falam do Servo Sofredor, que salva o povo por seu sofrimento (Is. 52-53); ou do Messias humilde e rejeitado (Zc. 9-12); ou do povo dos pobres de Javé (Sf. 2-3) etc. Jesus ressuscitado mostrou aos discípulos de Emaús esse veio, textos que eles já tinham ouvido, mas nunca relacionado com aquilo que Jesus andou fazendo... e sofrendo.
Isso é uma lição para nós. Devemos ler a Sagrada Escritura por intermédio da visão de Jesus morto e ressuscitado, dentro da comunidade daqueles que nele creem. É o que fazem os apóstolos na sua primeira pregação, quando anunciam ao povo reunido em Jerusalém a ressurreição de Cristo, explicando os textos que, no Antigo Testamento, falam dele, como mostra a primeira leitura de hoje. Para a compreensão cristã da Bíblia, é preciso ler a Bíblia na Igreja, reunidos em torno de Cristo ressuscitado.
O que aconteceu em Emaús, quando Jesus abriu as Escrituras aos discípulos, é parecido com a primeira parte de nossa celebração dominical, a liturgia da palavra. E muito mais parecido ainda com a segunda parte, o rito eucarístico: Jesus abençoa e parte o pão, e nisso os discípulos o reconhecem presente. Desde então, a Igreja repete esse gesto da fração do pão e acredita que, neste, Cristo mesmo se torna presente.
Emaús nos ensina as duas maneiras funda-- mentais de ter Cristo presente em sua ausência: ler as Escrituras à luz de sua memória e celebrar a fração do pão, o gesto pelo qual ele realiza sua presença real, na comunhão de sua vida, morte e ressurreição. É a presença do Cristo pascal, glorioso – já não ligado ao tempo e ao espaço, mas acessível a todos os que o buscam na fé e se reúnem em seu nome.
padre Johan Konings, sj
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Primeira leitura: Atos2,14.22–33
A leitura corresponde a uma seleção de versículos do discurso de são Pedro no dia do Pentecostes. «Pedro» aparece aqui, como noutras vezes, na sua função de chefe dos Apóstolos, falando em nome de todos e à frente de todos (cf. At 2, 37-38; 5, 2-3.29; 1, 15).
22 «Jesus de Nazaré»
Pedro, para anunciar Jesus como o Messias, parte da Sua humanidade, no aspecto mais humilde, um homem de Nazaré, terra desprezada (Jo 1 48); nos vv. seguintes estabelece a sua perfeita identidade com o Cristo da fé, o Senhor ressuscitado.
23 «Segundo o desígnio imutável e previsão de Deus»
A morte na cruz, o grande «escândalo para os Judeus», não era mais do que o cumprimento do desígnio salvador de Deus, anunciado pelos Profetas.
24 «Deus ressuscitou-O.
O grande sinal de que aquele homem de Nazaré já antes credenciado com «milagres, prodígios e sinais» (v. 22), era o Messias, Deus vindo à terra, é sem dúvida a Ressurreição. Esta apresenta-se como anunciada no Salmo 15 (16).
27 «Nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção»
Citação do Salmo 15 (16), segundo a tradução dos LXX, que alguns chegam a considerar inspirada. O texto hebraico massorético não é tão expressivo, pois diz: «conhecer a cova», isto é, a morte; Pedro e depois Paulo (cf. At 13,35) dão-nos o sentido mais profundo, o cristológico do Salmo, ao explicitar que designa a ressurreição do Messias, sentido este que, em geral, os exegetas classificam de sentido plenário (intentado só por Deus), ou sentido típico (o salmista como tipo do Messias).

Segunda leitura: 1 Pedro 1,17–21
Esta leitura adapta-se maravilhosamente ao tempo pascal, falando-nos da nossa libertação através do Sangue do novo Cordeiro Pascal e da Ressurreição de Jesus. Há mesmo exegetas que vêem nesta carta um fundo de homilia pascal ou batismal. O trecho de hoje é tirado de uma secção inicial da Carta (1,13 – 2,10), uma série de exortações que têm como pano de fundo a libertação dos hebreus a caminho da terra prometida, símbolo do Batismo e da vida cristã, o que faz pensar que formariam parte duma catequese ou homilia pascal-batismal. Vejamos: «de ânimo preparado para servir» (v. 13; cf. Lc. 12,35) é dito no original com uma imagem («cingida a cintura da vossa mente»), que evoca a forma de celebrar a Páscoa (cf. Ex. 12,11, símbolo do Batismo (cf. 1Cor. 10, 1-2.6); «sede santos» (v. 14-16) é uma exigência da aliança (cf. Lv. 11,44; 19,2; 20,7) e do batismo (cf. Rom. 6,4.11.19; 12,2; Gal. 3,27); o santo temor de Deus (cf. 2Cor. 2,11; Rom. 2,11) «no tempo da peregrinação» (cf. 1,1.17; 2, 11; 4, 2, é a alusão à peregrinação pelo deserto no Êxodo) está na sequência de invocar a Deus como Pai (referência ao Pai-nosso, Mt. 6,9, recitado no rito do batismo e certamente matéria da instrução preparatória); o resgate pelo sangue de Cristo é mais do que uma referência ao custo da nossa redenção (1Cor. 6,20; 7, 23; cf. Ef. 1, 7; Hb. 9,14; Ap. 1,5), pois alude a Jesus como cordeiro pascal (Ex. 12, 3-14; cf. Jo 1,29.36; 19,36; 1Cor 5,7; At. 8,32-35); o amor fraterno (v. 22-25) é proposto como consequência de se ter purificado (cf. Ex 19, 10-11) e ter nascido de novo e por meio da palavra de Deus (cf. Tg 1,18; 1 Jo 3,9; Is 40,8); esta mesma palavra é o «leite puro» (cf. Ex 3, 8; 1Cor. 3,2) que os batizados têm de desejar avidamente (2,1-2; cf. Sl. 34,9); assim todos entram ativamente na construção do edifício que é o novo Povo de Deus, figurado no antigo (2,4-10).
17 «Pai… que… julga»
Pode-se ver aqui uma alusão à recitação do Pai Nosso. Deus, que é o melhor dos pais, também é um Juiz imparcial; o sentido correcto da nossa filiação divina traz consigo o santo temor de Deus, o temor de desagradar a um Pai que nos julga e que calibra perfeitamente o valor de todos os nossos actos.
«Exílio neste mundo». cf. 1Pe 1,1; 2,11; 4,2; Hb. 11,13. Nestes textos inspirados fica patente a nossa condição não apenas de peregrinos da Pátria celeste, mas também a idéia de pena que envolve a nossa situação de «degredados filhos de Eva» neste «desterro» (cf. Salve Rainha).
18-19 «Libertados… com o Sangue precioso de Cristo»
A obra salvadora de Jesus não consistiu numa mera libertação, como, por exemplo, a libertação do Egipto, pois foi um verdadeiro resgate, pagando Jesus o preço dessa libertação com o Seu Sangue, daí que esta obra libertadora se chama mais propriamente Redenção (cf. Ef. 1,7; Ap. 1,5).
«Cordeiro sem defeito e sem mancha». cf. Ex 12,5; 1Cor 5,7; Jo 1,29.36; 19,36. cf. também: Is. 53,7; At. 8,32-35. Os primeiros textos falam de Jesus, Cordeiro imolado na nova Páscoa; os segundos, de Jesus manso «Cordeiro de Deus».

Evangelho: Lucas 24,13–35
Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redacionais; podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redacionais todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite «fontes especiais» para a redação de Lucas. Um fato indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições, mas não temos elementos suficientes para definir em que medida re-elaborou as suas fontes.
13 «Emaús»: uma povoação a 60 estádios, traduzidos por duas léguas, que se traduzem nuns 11 quilômetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles registra 60 estádios. Alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km.). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; El-Qubeibe é o de maior aceitação, a uns 12 Km. a noroeste da Cidade Santa (Abugoxe corresponde aos 160 estádios).
16 «Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem»
Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.
18 «Cléofas» parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19,25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Kleopâs.
22-24 «É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos…»:
aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23,56b – 24,9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que os nossos são Pedro e João (cf. v. 12 e Jo 20,1-10). «Mas a Ele não O viram»: se não se trata de um pormenor meramente redacional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro referida adiante, no v. 34 (cf. 1Cor. 15,5).
28-30 «Jesus fez menção de seguir para diante»
Lucas volta a aludir ao «caminho de Jesus» (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia (a fração do pão do v. 30) constitui o momento cume do seu caminhar pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus): depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto sucede-nos muitas vezes na vida cristã: Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar conosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt. 25,40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples ato de caridade e de cortesia; com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.
31 «Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença»
É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real. Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.
Comenta João Paulo II: «É significativo que os dois discípulos de Emaús, devidamente preparados pelas palavras do Senhor, O tenham reconhecido, quando estavam à mesa, através do gesto simples da ‘fração do pão’. Uma vez iluminadas as inteligências e rescaldados os corações, os sinais ‘falam’. A eucaristia desenrola-se inteiramente no contexto dinâmico de sinais que encerram uma densa e luminosa mensagem; é através deles que o mistério, de certo modo, se desvenda aos olhos do crente. Como sublinhei na encíclicaEcclesia de Eucharistia, é importante que nenhuma dimensão deste sacramento fique transcurada. Com efeito, subsiste sempre no homem a tentação de reduzir às suas próprias dimensões a Eucaristia, quando na realidade é ele que se deve abrir às dimensões do Mistério. ‘A Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções’» (Carta Mane nobiscum Domine, 14).
32 «Não ardia cá dentro o nosso coração?»
Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato põe-se em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.
33 «Partiram imediatamente»
«Os dois discípulos de Emaús, depois de terem reconhecido o Senhor, «partiram imediatamente» para comunicar o que tinham visto e ouvido. Quando se faz uma verdadeira experiência do Ressuscitado, alimentando-se do seu Corpo e do seu Sangue, não se pode reservar para si mesmo a alegria sentida. O encontro com Cristo, continuamente aprofundado na intimidade eucarística, suscita na Igreja e em cada cristão a urgência de testemunhar e evangelizar» (João Paulo II, Mane nobiscum Domine, 24).
Sugestões para a homilia
Jesus Cristo caminha conosco.
Neste terceiro domingo da Páscoa, são Lucas descreve-nos a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús.
Lembremos que Maria Madalena não reconheceu Jesus, quando O viu pela primeira vez. Os seus olhos embaciados pelas lágrimas não a deixavam ver bem. Pensou que era o jardineiro. Os discípulos de Emaús também não O reconhecem devido à sua profunda tristeza. Estavam desiludidos! Como bons israelitas esperavam um Messias glorioso e libertador. Jesus tinha morrido e com a sua morte desmoronou-se o sonho, perdeu-se a esperança: «Nós esperávamos que Ele viria libertar Israel! Mas já lá vai o terceiro dia depois da sua morte!»
Tinham vivido com Jesus durante três anos, mas só isso não foi suficiente. Tinham visto os milagres e podiam afirmar que Jesus foi um «Profeta poderoso em obras e palavras», mas só isso não chegou. Tinham escutado o testemunho das santas mulheres, falando do túmulo vazio, mas como a «Ele não o tinham visto», só isso não os convenceu. Tinham caminhado com Jesus como companheiro de viagem. Tinham desabafado com Ele acerca do que se tinha passado em Jerusalém naquela Sexta-feira. Tinham ouvido a Palavra da Escritura, mas a idéia de um Messias triunfal não se adaptava minimamente a Jesus Cristo carregado de sofrimentos, humilhado até à morte e morte de cruz. Como seria possível acreditar em alguém que morreu condenado à morte mais cruel e humilhante?
É certo que os profetas tinham anunciado esta morte redentora. O próprio Jesus por várias vezes predissera tudo quanto aconteceu. Por isso fez-lhes uma forte repreensão «ó gente sem compreensão e lentos de espírito! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para se cumprir o que os profetas tinham anunciado e assim entrar na sua glória?»
O seu coração foi aquecendo: «não ardia cá dentro o coração quando Ele falava?», mas ainda não acreditavam. Isto significa que não basta apenas ouvir a Palavra, conhecer a Escritura! Pode saber-se o que está escrito na Bíblia e não creditar em Deus! Conhecemos muita gente que acredita no Jesus da história, mas não acreditam que Ele esteja vivo. Para os discípulos de Emaús nem mesmo a presença de Jesus ressuscitado foi suficiente para acreditar! Verdadeiramente pode o Senhor estar muito perto e caminhar ao nosso lado e nós não O reconhecermos, se não tivermos fé.
«Jesus fez menção de seguir para diante», dispondo-se a deixá-los. Contudo, eles convidaram-no: «Fica conosco, Senhor porque vem caindo a noite». Foi um gesto de simpatia, mostrando a sua hospitalidade e a sua gratidão. Sentiam-se bem na presença deste companheiro, que fazia renascer a esperança, inflamando os seus corações. Jesus aceitou o convite, entrou em casa e tomou lugar com eles à mesa. Depois «tomou o Pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho». Que maravilha! Reviviam a Quinta-feira anterior! «Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O».
Se a fé de muitos cristãos é fria e espiritualmente pouco produtiva não será por falta de alimento? Andamos desfalecidos e com fome?! Na Eucaristia Jesus está vivo no meio de nós. Aqui todos O podem encontrar, para O ouvir, para O receber. Aqui Ele torna-se nosso companheiro de viagem. Aqui Ele oferece-nos o alimento que mata a nossa fome de infinito. Está escrito: «Os discípulos reconheceram o Senhor Jesus na fração do Pão».
José Roque - Geraldo Morujão


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