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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

terça-feira, 3 de junho de 2014

Comentários-Prof.Fernando

Comentários-Prof.Fernando* O VENTO SOPRA ONDE QUER 8 de junho 2014

Contexto em que viveram Jesus e os apóstolos (adaptado de G.Sánchez Mielgo)
·                  “Pentecostes” era festa judaica (primitivamente festa da colheita ou festa das semanas (7 semanas após a Páscoa donde, o nome grego pentekostés: quinquagésimo dia). O sentido da festa rural logo foi ampliado celebrando a Aliança no Sinai entre Jahvé e seu povo. Os primeiros discípulos, conforme promessa de Jesus, puderam, no dia de Pentecostes, experimentar a poderosa Presença do “Paráclito” (Advogado) prometido.
·                  Dos escritos bíblicos podemos extrair um esquema (1,2e3 a seguir) ou resumo desta presença e ação do Espírito. Este termo se diz ruáh em hebraico e pnéuma em grego, significando: ar, vento, respiração do vivente, sopro de vitalidade.
·                  1) na criação ele é a energia que faz surgir o universo e dá o sopro (Vida) ao ser humano, conforme aparece em dois relatos que usam comparações trazidas por diferentes autores em épocas diferentes (cap.1, outro no cap.2 – livro do Gênesis)
·                  2) Esta Presença continua vital como inspiração que move lideranças carismáticas (patriarcas, Moisés, Juízes, profetas) e outros dirigentes no exílio e na volta do exílio. Ao longo da história de Israel os “gestos” e “falas” do Espírito de Deus agem destas duas maneiras e, finalmente de acordo com uma terceira que já constitui o tempo de uma nova Aliança. Além desta ação nos líderes ou governantes (não de modo permanente mas enquanto escolhidos para conduzir o povo à salvação) e no profetismo (preparando alguns para ser “comunicadores” e fortalecendo-os quando perseguidos até a morte, Deus está:
·                  3) na extraordinária “promessa escatológica, que o tempo de maturação da história desse diálogo entre o Espírito de Deus e o ser humano permitirá acontecer. Ele será o grande Dom no “final dos tempos”, anunciados especialmente por Isaías, Ezequiel e Joel (“derramarei o meu espírito sobre toda carne” – Joel 3,1). Os primeiros cristãos entenderam a vinda de Cristo como os “últimos tempos” (cf. 1Coríntios10,11; Hebreus1,2.9,26; 1Pedro1,20).
·                  Celebrar a festa de Pentecostes é perceber que a promessa se realiza concretamente em 3 grupos de pessoas. Em 1º lugar em Jesus de Nazaré; a seguir, na Comunidade dos chamados a participar de seu “Reino” (os “convocados” formam “ecclesía” donde vem o termo “Igreja”); finalmente, em cada um em particular, e é por isso que Lucas afirma: “ficaram todos cheios do Espírito Santo” e “como em forma de chamas que pousavam sobre cada um deles“.
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Leituras de Pentecostes
·                  O calendário ortodoxo celebra neste 8ºdom.da Páscoa chamado de Pentecostes – a grande Festa da Santíssima Trindade juntamente com a Festa da Descida do Espírito Santo e Festa do vivificante corpo místico de Cristo, a Igreja (leituras: At 2,1-11 e Jo7,37-52.8,12).
·                  Nas liturgias ocidentais a Festa da SS. Trindade é celebrada no domingo seguinte. As leituras são hoje: Atos 2,1-11; 1Coríntios 12,3-7.12-13 e João 20,19-23. No Lecionário Comum em várias outras Igrejas cristãs além das indicadas há alternativas: Nm11,24-30 (p/1ª.leitura); At2,1-21 (p/2ª) e Jo7,37-39 para o evangelho.

Resultado dessa “invasão” do Espírito de Deus nas pessoas
·                  Na 1ª carta aos coríntios Paulo sublinha que esta presença acontece numa variedade de dons mas na unidade do mesmo Espírito. Paulo usa a imagem do corpo, que é um só embora composto de diversos membros e partes. A origem (étnica, cultural, etc.) é múltipla (como na imagem da multidão de nações). Ali cada qual escutava em sua própria língua materna o anúncio maravilhoso feito pelos discípulos (que falavam pela força do Espírito neles).
·                  O trecho do evangelho faz eco à narrativa da Criação. Receber o “sopro” nos dois textos é como o ar que respiramos, criando a vida (Gênesis) ou renovando-a (João). A curta campanha de poucos meses feita por Jesus de Nazaré está resumida no Evangelho (=a Boa Nova anunciada a todos): ele veio trazer a paz e libertar do “Pecado”. Pecado é tudo que bloqueia a ação de Deus nas pessoas e no mundo.
·                  Seria muito simplório ver naquele encontro entre o Mestre e seus discípulos, a mera “instituição” de um sacramento, que, centenas de anos depois fixou-se no rito do convessionário. Sem excluir as práticas de celebração do perdão nas comunidade, a Palavra em João 20, 19-23 indica principalmente que é pela presença livre (o vento sopa onde quer) do Espírito que nos é concedida nossa liberdade. Ele é dado. É um dom, presente, graça, oferta, ação misericordiosa de Deus nos seus discípulos. O texto indica que o perdão dos pecados significa “deixar ir”, “desistir de cobrar uma dívida”, sentidos do verbo grego “afíemi” que se traduz normalmente “perdoar”. O significado do perdão se contrapõe no texto ao do verbo “krátein”, a atitude contrária, que é de “segurar com força” (como faz a polícia algemando alguém levado preso) ou “manter sob o domínio” (no contexto: sob tutela do pecado).
·                  O teólogo A.Gilbert explica numa exegese sobre o “reter” oposto ao “perdoar” que, na comunidade onde se insere o evangelho de João, a perspectiva não é jurídica. Trata-se sempre da vida que Jesus veio trazer. E ele deixou como missão aos discípulos e a cada um de nós esta responsabilidade de participar da distribuição da vida em abundância. É como se Jesus dissesse: “se vocês não desempenharem esta missão, as pessoas não terão acesso à vida plena e continuarão amarrados ao pecado, seus pecados serão retidos e vocês terão responsabilidade nisso”. Em nenhuma hipótese, no contexto, o texto poderia significar que alguém tem o direito de manter outros acorrentados ao pecado.
·                  Convenhamos que a tradução costumeira “reter” o pecado e “serão perdoados/serão retidos” tem induzido alguns a pensar (ingenuamente, aliás) que a Igreja (ou um seu ministro) tem “poder” de decidir se perdoa ou se condena. Por causa desta visão embaçada a história do cristianismo exibiu demonstrou tantas vezes gestos de arrogância, usados até dentro de uma forma institucional. Tais atitudes do passado chegou a levar até ao pedido público de perdão por alguns papas (como João Paulo II e Bento XVI mais recentemente). Reconheçamos que somente Deus é o autor da misericórdia, da cura, do perdão e transformação das pessoas que leva até à sua ressurreição. Aos discípulos cabe tomar consciência disso e de que o Espírito nos foi Dado (Dom gratuito, como um óleo derramado “sobre toda carne” ou como o ar que penetra o íntimo garantindo a vida ao invadir os pulmões).
·                  Depois da Encarnação, Paixão, Ressurreição e Ascensão fica mais claro que (desde a legítima interpretação da Lei e dos Profetas) não há Letra nem Sacrifícios que possam perdoar os pecados (cf. epístolas e, especialmente a carta aos Hebreus). A Lei, como também os ritos da religião são como “pedagogos” que conduzem pelo caminho como orientação paraDeus. Sobretudo agora que o Mestre não está mais visível para os discípulos, somente pelo Espírito – que permanece (eu estarei convosco todos os dias) – podemos experimentar o perdão. E também perdoar.
·                  Mas, quem de nós não conhece alguém (ou nós mesmos?) que após injúria grave, humilhação ou lesão corporal, perda de familiar assassinado, etc, afirma: “não consigo perdoar”. O perdão, que provém da Bondade e da Misericórdia (outros nomes de Deus, como também o são o Pai, o Redentor, o Salvador) não é passar uma borracha nas marcas deixadas pelo mal sofrido e que foi causado pelo Pecado (ou por pecados, violências e maldades). É natural que haja cicatrizes e até lembranças traumáticas que demandam às vezes a ajuda de terapias. Mas só deixando agir o Espírito dentro de si, alguém pode experimentar o que é o perdão (tanto o ser perdoado como o perdoar outros).

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( * ) Prof./consultor (filos. educ. teol. ética) - fesomor2@gmail.com

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