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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Comentários-Prof.Fernando

Comentários-Prof.Fernando* (5ºdom.pós-Pentec. = 15º ciclo Comum)-13 jul2014
na ESPERANÇA de nunca mais haver FOME
Plantar
·                    A chuva é muitas vezes causadora de calamidades como nas recentes cheias e inundações no sul do país, fazendo desabrigados, desaparecidos e mortos; trazendo lama, destruição de bens e casas e a perda de colheitas. Tragédias climáticas (que, para muitos são mais frequentes devido aos maus tratos dispensados pelos humanos ao planeta) fazem parte da fragilidade da vida. Mas há outro (mais antigo e mais direto) símbolo da chuva: a fecundação da terra semeada que faz crescer as lavouras. Essa imagem percorre toda a literatura universal em todos os tempos e é também muito usada na bíblia como símbolo da ação divina dentro da vida humana. Fecundidade das plantas que serão alimento e força da Palavra – penetrante até o íntimo humano iluminando as escolhas éticas – são praticamente equivalentes: não só de pão vive o homem mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mateus 4,4 citando Deuteronômio 8,3). Isaías 55,10-11 segue no mesmo tom: Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito (leitura 1).
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Esperar
·                    Plantar, semear, cultivar a terra: eis uma das ações humanas mais ligadas ao tempo, tanto no sentido climático (metereológico) como no sentido cronológico (tempo que passa). No filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, onde quase todos os personagens experimentam a solidão humana, há um personagem (Hipólito, o escritor) que diz: “é a angústia do tempo que passa que nos faz falar sobre que tempo que está fazendo”. De fato costumamos falar ao encontrar pessoas (conhecidas ou não) no elevador, na rua, numa loja: “parece que hoje vai chover’, “que frio faz hoje!” e outras frases sobre o calor, o tempo nublado ou o sol. É como se fosse o modo de puxar conversa. Afinal de contas o tempo (que passa) é a matéria principal de que somos feitos. Pois vida é provisória.
·                    Assim como distinguimos o tempo do relógio e o tempo climático, assim há outra diferença semelhante: esperar e esperança. Uma é feita do tempo (que demora), outra é feita de desejo, paixão, certeza, convicção inabalável na realização do que se espera. Em várias línguas há termos diferentes para expressar um e outro “tempo” e uma e outra “espera”, embora com frequência há mistura dos dois sentidos. De novo lembramos: somos feitos de tempo e de passagem no tempo. Mesmo a “espera” no segundo sentido – o da Esperança – implica sempre aguardar durante algum tempo.
·                     Paulo (aos Romanos) fala destes dois aspectos na leitura de hoje (cap.8,18-23) mostrando, inclusive que a superação da corrupção, graça dada ao ser humano, transborda para toda a criação: .Porque a criação aguarda [=espera ansiosamente] com ardente expectativa [=desejo] a revelação dos filhos de Deus (...) na esperança [=certeza da realização] de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Sabemos que toda a criação atualmente geme em conjunto e em conjunto sofre as dores do parto.
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Semear, primeiro. Depois, o pão para todo tipo de fome
·                    O Mestre de Nazaré, retoma a imagem de Isaías sobre semear, germinar, produzir fruto e comer o alimento. As parábolas, como a poesia, sempre partem das coisas comuns da vida, da realidade vivida. Mas a Boa Nova – o “eu(=boa)anguélion(=notícia)” que tomou o nome para nós de “Evangelho” – como em toda a bíblia, aliás resume-se na notícia dada ao ser humano de que todas as dores e trabalhos da vida são tempo de expectativa, espera, desejo, mas também de certeza na esperança da realização de uma plenitude de libertação. Embora o evangelista tenha acrescentado à parábola que Jesus teria usado uma das formas de interpretação, a “alegoria” (“explica” as partes: caminho, espinhos, terra boa como por exemplo, inconstância, preocupação de riquezas, atenção que dá frutos). Interpretada por alegoria ou no conjunto, toda parábola toca no mistério que é melhor conhecido na vivência do que na explicação intelectual.
Parábola do semeador é: sobre o Semeador
·                    O núcleo profundo ou a maior lição (leitura) que seria a principal nesta Parábola resume Isaías e resume Paulo. A palavra pro-ferida (=pro-fetizada) de Isaías fala do incontrolável toque divino (“chuva que vem do céu”) penetrando a terra e, sobretudo, o coração humano. A Palavra fecunda a semente e faz germinar não só o que será pão para comer, mas todo “alimento” de que precisamos para a Vida. E Vida eterna. Paulo, por sua vez, com o realismo que lhe veio das próprias dores e trabalhos em tantas comunidades e seus problemas humanos e suas tensões religiosas, sabe que somos seres situados num espaço-tempo e numa história cheia de ambiguidades e fragilidades. Sua reflexão parece até coincidir com atuais preocupações ecológicas. Estas também nos colocam todos gemendo e em trabalho de parto. O texto grego diz: “gemer em conjunto”, “sentir dores em conjunto”, porque junta os seres humanos e a Natureza na mesma expectativa. Mas independentemente do problema ecológico, a vida humana sempre foi e é frágil e provisória.
·                    A mensagem do evangelho e de toda a bíblia repete sempre o mesmo refrão: o Criador é incansável semeador. Envia sua palavra para fecundar a terra e o coração humano. Chegou mesmo a enviar sua Palavra viva, seu próprio “Filho”. E o Verbo se fez Carne e habitou entre nós. Aqui está o fundamental de nossa Fé e de nossa Esperança. O Deus da amorosidade infinita é permanente chuva de gratuidade e nos convida ao “parto” da grandiosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8).
·                    A Parábola diz: o “Reino”, anunciado por Jesus, começa numa pequena semente plantada no coração. É do coração que sai o bem (e, dizia ele, também o mal). Lá crescem plantas, frutos amadurecem, alimentos se oferecem. Eu sou o Pão da Vida, capaz de matar todas as fomes da humanidade. O centro da Parábola é Ele, sempre semeando, plantando, regando com chuvas de ternura, com aquele olhar do pai da outra parábola (chamada “do filho pródigo”), aguardando o retorno de quem desperdiçou a herança (na qual se incluía a Terra e todo o Universo).
·                    Nós em geral não temos tempo de contemplar a Natureza. Parece que só temos olhos para o noticiário da TV, o jogo da Copa, as fotos selfies de famosos publicadas na Internet. Se já nem reparamos nos pássaros ou na chuva do céu, nem nas flores e nas pessoas à volta, muito menos lembramos de olhar dentro de nós (onde, Ele fez sua morada, único fundamento não meramente jurídico dos famosos Direitos Humanos).
·                    Por isso talvez damos tão pouco tempo àquela oração que o Mestre queria fosse a portas fechadas no próprio quarto. Apesar de estar cada vez mais lotados templos, igrejas ou auditórios, em grandes shows (ditos de religião), com multidões gritando cantos (ditos de louvor) e aplaudindo seus oradores (muitos até se dizem instrumentos de milagres). Raramente temos tempo para a intimidade com na “Palavra”. Talvez porque estamos muito ocupados em escutar as palavras de muitos que, segundo dizem, falam “em seu nome”.

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( * ) Prof.(1975 a 2012)::filos/ educ/ teol/ ética)  fesomor2@gmail.com

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