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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O joio no trigo

16º DOMINGO TEMPO COMUM


20 de Julho de 2014 - Ano A

Comentários-Prof.Fernando


Evangelho - Mt 13,24-43    conferir

-O JOIO E O TRIGO - José Salviano


            O joio no meio do trigo é quando o maligno semeia em nossas mentes, os sentimentos de inveja, de ódio, de vingança, de violência...   Continua



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ENTÃO OS JUSTOS BRILHARÃO COMO O SOL NO REINO DE SEU PAI – Olívia Coutinho
16° DOMINGO COMUM

Dia 20 de Julho de 2014

Evangelho de Mt 13,24-43

Ao longo de todo o tempo, Jesus vem colocando em nossas mãos, novas sementes, confiante de que nós saberemos lançá-las nos corações daqueles que ainda não experimentaram a alegria de fazer parte do Reino dos céus
O Reino dos céus  vai se expandindo aqui na terra, graças  a disposição e o envolvimento dos que se dispõem  a colaborar nesta construção que começa a partir de pequenas iniciativas.
Um reino de paz e de justiça  sonhado por Deus, centra-se no amor, no amor que brota de uma pequena semente  que Ele plantou  em nossos corações, e que se bem cuidada tende a crescer como o fermento na massa!
Enquanto ficamos na expectativa de grandes momentos para sentir a presença do Reino de Deus, perdemos a oportunidade  de vivenciá-lo no aqui e no agora, como no nosso convívio familiar, na comunidade, nas coisas simples do nosso cotidiano, ou seja, em todos os lugares onde o amor e a justiça se fazem presentes!
Através das parábolas, Jesus, de um jeito simples nos fala da característica  do  Reino dos céus! O reino dos céus, é algo dinâmico que está sempre em movimento, que  cresce silenciosamente  como a semente na terra e o fermento na massa! 
Com esta pedagogia, Jesus revelava aos pequenos o mistério do Reino e  confundia os "grandes,"  que não tinham o contato com as  coisas simples, presente no cotidiano dos pequenos, como o plantio da semente, o preparar da massa do pão... 
 A primeira parábola que nos é apresentada no evangelho de hoje é a   parábola do joio, que nos faz lembrar a criação! Deus criou um mundo perfeito, mas o mal, disfarçado do bem, encontrou uma brecha no coração humano e assim como o joio no meio do trigal, ameaçou destruir o que Deus criou! Porém, na sua  infinita bondade, o Criador nos enviou o seu Filho  para reconstruir o que o mal destruiu, ou seja, reconstruir a aliança de amor firmada entre Deus e o homem, que fora quebrada pelo pecado.
Com a parábola do joio, Jesus vem nos dizer que neste mundo, o bem e o mal se misturam, mas  que é possível convivermos lado a lado com os adversários do Reino, sem nos deixar contaminar por eles. O joio, na faze de crescimento, é semelhante ao trigo, assim é o mal,  ele tem a  aparência do bem, somente o  Espírito Santo nos fará   discernir o que é de Deus do que não é Dele. Esta parábola vem  também nos falar da tolerância  de Deus, Deus dá tempo para  que todos  se convertam...
A semente citada  na segunda parábola,  nos fala  que o reino de Deus é como  uma pequena semente lançada no  coração humano, ou seja, o reino de Deus se expande a partir de  pequenas iniciativas. 
 Não pode existir nada mais dinâmico do que uma pequena semente se desenvolvendo nas profundezas da terra, trazendo vida onde ainda não há vida.  Assim como  a força de uma pequena  semente que consegue romper a terra e trazer vida, o  reino dos céus cresce silenciosamente no coração de quem acolhe a palavra de Deus e a transforma em vida.
Na terceira parábola, a comparação  do Reino dos céus é com o fermento misturado em três porções de farinha. Com esta comparação Jesus diz que o reino dos céus é construído com a doação de cada um de nós. O que  importa não é a quantidade do que ofertamos de nós, o que vai determinar o crescimento deste reino de amor e de justiça,  é  a qualidade do que ofertamos.
Na parte final do evangelho, Jesus explica detalhadamente aos discípulos a parábola do joio, uma explicação que deve chegar até a nós, como uma alerta, para que estejamos sempre vigilantes, para não  cairmos nas armadilhas do inimigo e não nos tornarmos joio na vida do outro.
 É fácil ser bom, vivendo onde só impera o bem, o desafio mesmo, é ser bom, onde o bem e o mal se misturam. É no confronto com o maligno, que provamos a nossa adesão à Cristo, é aí, que damos testemunho  da solidez  da nossa fé.
Estejamos certos:  o mal nunca  sobrepõe o bem!
É na pessoa de Jesus, que o reino de Deus se realiza  no meio de nós! Viver  esta verdade, é renunciar aos reinos do mundo, para nos envolvermos numa construção maior que tem o AMOR como  pilar  de sustentação.

FIQUE NA PAZ DE JESUS! – Olívia
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Evangelhos Dominicais Comentados

20/julho/2014 – 16o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Mt 13, 24-43)
Novamente nos encontramos para juntos meditarmos a Palavra da Salvação. Este evangelho encerra uma série de parábolas que Jesus utilizava para se fazer entender pela multidão que o seguia. São pequenas histórias, tiradas do dia-a-dia. Exemplos simples que facilitam o entendimento do povo.
No texto de hoje temos três parábolas: a do joio, a do grão de mostarda e a do fermento. Através dessas pequenas histórias, simples e ligadas à vida do povo, Jesus nos fala da bondade e da paciência do Pai para com os seus filhos.
Mais uma vez Jesus ressalta a Misericórdia de Deus. Faz questão de mostrar-nos como é tolerante e misericordioso nosso Pai. Até o último instante esse Pai Amoroso estará esperando pela conversão de todos os seus filhos. Um Pai que confia e quer a todos nós, ao seu lado, na Glória Celeste.
A primeira parábola, a do joio, fala claramente da presença do mal no meio do bem. Mostra que os maus estão sempre presentes entre os bons, exatamente como o joio no meio do trigo. O mal está sempre presente na comunidade, no trabalho e até mesmo no lar.
Mesmo assim, Deus é paciente e aconselha-nos a esperar a hora certa. “Deixem que cresçam juntos até a colheita, pois pode acontecer que arrancando o joio, vocês arranquem também o trigo”. Estas palavras sugerem cautela, cuidado e respeito até mesmo para com aqueles que chamamos de maus.
Tudo tem a sua hora. Chegará o dia da colheita quando então, os maus serão ceifados e lançados ao fogo. Porém Deus é Pai e não quer perder nenhum dos seus filhos. Espera pacientemente que todo pecador se converta e viva.  
Ai de nós se Deus não tivesse paciência conosco! Ai de nós se formos julgados do mesmo modo com o qual julgamos. É difícil ter que admitir, mas somos intolerantes e queremos que os “maus” se convertam imediatamente. Julgamos e condenamos com muita facilidade.
Queremos tanto a conversão do próximo que, na maioria das vezes, nos esquecemos da nossa própria conversão. Felizmente Deus não é assim. Sabe esperar e através de parábolas nos ensina ter paciência e misericórdia. Ensina não julgar por julgar. Jesus nos fala também do fermento que transforma a massa e a converte em pão.
Com a parábola do grão de mostarda, Jesus nos mostra que as coisas de Deus começam pequenas como um grãozinho e depois crescem, se agigantam, se transformam e assumem proporções incríveis.
Esses exemplos servem para você que vem acompanhando o projeto de evangelização da Milícia da Imaculada. Veja quantas maravilhas estão acontecendo: nossa sede própria, nosso Santuário, as diversas filiais, a Rede Milícia Sat, a TV, a Revista, a Internet e milhares de ouvintes que caminham conosco.
Tudo isso acontece graças à sua colaboração. Graças às suas orações e ao seu empenho, aquilo que era um grãozinho, uma pequena sementinha, cresceu e hoje leva a Palavra de Deus para mais de vinte milhões de pessoas. Essa é a Boa Notícia de hoje!

(2802)

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Continuamos a escutar o Senhor que, sentado na barca, nos fala do Reino dos Céus... Permanecemos atentos, como aquela multidão em pé, à beira-mar, embevecida: "Nunca nenhum homem falou assim..."
Hoje, o Senhor nos apresenta três parábolas: a do trigo e do joio semeados no campo do mundo e do nosso coração, a do grão de mostarda que cresce a abriga as aves dos céus e, finalmente, a do tiquinho de fermento que leveda toda a massa... É assim o Reino dos Céus!
As três parábolas mostram a fraqueza do Reino, sua fragilidade escandalosa, mas também sua força invencível, seu poder, sua capacidade de tudo impregnar e transformar, até chegar à vitória final. Só que para compreender isso – os mistérios do Reino -, é necessário ter a paciência, a sabedoria que nos dá a capacidade de acolher os tempos e modos de Deus! Mas, vamos às parábolas.
Primeiro, a do trigo e do joio. Que nos ensina aqui o Senhor? Que lições nos quer dar? Em primeiro lugar: Deus não é inativo, indiferente ao mundo, à nossa vida de cada dia. No seu Filho, semeou o trigo do Reino no campo deste mundo e no campo do nosso coração. Como diz o livro da Sabedoria, na primeira leitura de hoje: "Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas!" Sim: nosso Deus é um Deus presente, um Deus atuante, um Deus que cuida de nós com amor e com amor vela por suas criaturas! Não duvidemos, não percamos de vista esta realidade: num mundo de cimento armado e homens bombas, fome, mortes e mensalões, Deus está presente, Deus cuida de nós! Uma segunda lição desta parábola: no mundo e no coração de cada um de nós infelizmente há o mal, o pecado, a treva. Por favor, não mascaremos o mal do mundo nem o mal do nosso interior! É preciso desmascará-lo, é preciso chamá-lo pelo nome! Não mascare, irmão, irmã, o mal da sua vida, do seu coração, da sua consciência! Esse mal não vem de Deus; vem do antigo inimigo, do diabo que, mais esperto que nós, tantas vezes faz o mal nos parecer bem e até achar que nós mesmos estamos acima do bem e do mal! O diabo é assim: semeia o mal e faz com que ele se confunda com o bem, como o trigo e o joio. E nós, tolos, confundimos tudo e pensamos ser bem ao que é mal – mal semeado pelo maligno! Por favor, olhe o seu coração: não se engane, não finja, não mascare, não minta pra você mesmo! Chame o mal de mal e o bem de bem! Numa terceira lição, a parábola de Jesus nos ensina a paciência, sobretudo com o mal que vemos no mundo e nos outros! Somos impacientes, caríssimos, e até julgamos Deus e o seu modo de agir no mundo. O querido Bento XVI, na sua homilia de início de pontificado, falava da paciência de Deus que salva e da impaciência nossa que coloca a perder... Jesus nos pede que confiemos em Deus, que acreditemos na sua ação e nos seus desígnios, tempos e modos: Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto. A tua força é princípio da tua justiça e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. Dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande moderação; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores".
Escutemos ainda um pouco o Senhor; aprendamos com as parábolas do grão de mostarda e do fermento que leveda a massa. Precisamente porque o modo de pensar e agir de Deus não é como o nosso, o Reino dos Céus aparece tão frágil, tão inseguro, tão precário... Pequenino como um grão de mostarda, pouquinho como uma pitada de fermento! E, no entanto, será grande, será forte, será vitorioso e abrigará as aves dos céus! Será eficaz, forte, e penetrará toda a massa deste mundo! Mas, quando, Senhor? Por que demoras? Por que parece que estás longe? Por que pareces dormir? Observem irmãos, que em todas as parábolas do Reino, Jesus deixa claro que, ao fim, haverá um julgamento de cada um de nós e o Reino triunfará!
Mas, para não descrer, para não desesperar, para não ver e sentir simplesmente na nossa medida e com nossas forças supliquemos que o Espírito do Ressuscitado venha nos socorrer, "pois não sabemos o que pedir, nem como pedir!" Só o Espírito do Cristo, o Semeador do Reino, pode nos fazer perceber os sinais do Reino, os sinais de Deus no mundo e na vida. Só o Espírito nos sustenta, fazendo-nos caminhar sem desfalecer, de esperança em esperança... Só o Espírito nos ensina as coisas do Reino: ele torna o Reino presente porque torna Jesus presente. Por isso mesmo, em vários antigos manuscritos do Evangelho de São Lucas, na oração do Pai-nosso, onde tem "Venha o teu Reino" aparece "Venha o teu Espírito"! É o Espírito de Cristo que torna o Reino presente em nós e no mundo. Deixemo-nos, portanto, guiar por ele, pois "o Reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo!"
Eis, caríssimos! Aprendamos do Senhor, vigiemos e acolhamos sua palavra. Se formos fiéis e perseverarmos até o fim, escutaremos cheios de esperança sua promessa, que encerra o Evangelho de hoje: "... então, os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai!" Que assim seja! Amém!
dom Henrique Soares da Costa

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Joio e trigo
A liturgia da Palavra de hoje tem seu centro no reino de Deus, em sua definição e no modo como ele é realizado no meio de nós. Várias são as possibilidades de interpretação: o reino é semelhante ao trigo, à mostarda e ao fermento ou semelhante ao joio, ao pé de mostarda e à mulher? A pergunta parece ser ousada, mas veremos como os vários modos de interpretação se complementam.
1ª leitura (Sb. 12,13.16-19)
Ser sábio é aprender de Deus: rei, humano e misericordioso
As palavras de sabedoria da primeira leitura de hoje são permeadas de esperança para o povo judeu, que vivia em meio à cultura e dominação gregas, sobretudo na cidade de Alexandria, onde esse livro foi composto, entre os anos 50 e 60 antes da Era Comum (a.C.). O judaísmo era desafiado pelos valores gregos do ser. Os judeus se perguntavam: como se adaptar à nova realidade sem perder a fé no Deus dos pais e da libertação do Egito? A resposta era simples: testemunhar que o Deus de Israel era diferente. E foi isso que o piedoso judeu e autor do livro da Sabedoria quis mostrar, diferentemente de outros judeus, seus antecessores, que apresentavam Deus forte, violento para com os inimigos. Deus, no livro da Sabedoria, é o cuidador de todos (v. 13), que julga com justiça (v. 13), perdoa e governa com indulgência (v. 18). Por ser assim, Deus não deixa de ser menos poderoso que os deuses dos pagãos. E, mais do que isso, o ser humano é convocado a ser como Deus, misericordioso. Deus é humano no seu proceder. E ao ser humano, aprendendo de Deus, resta também governar e agir com justiça, misericórdia e solidariedade. Eis o nosso grande desafio: aprender da pedagogia de Deus.
Evangelho (Mt. 13,24-43)
A dinâmica do reino
Dando continuidade ao discurso de Jesus em forma de parábolas com a devida explicação alegórica, encontramo-nos diante de três modos de Jesus definir o sentido do reino de Deus, que nos questionam: o reino é semelhante ao trigo ou ao joio? Ao fermento ou à mulher? À semente de mostarda ou ao pé de mostarda? Vejamos uma por uma. Ah! Outro detalhe importante: se a primeira leitura falou do proceder de Deus rei, agora faz sentido falar do reino.
a) O reino é apocalíptico e como o trigo. A comparação parece simples. O trigo é semeado. Vem alguém e semeia o joio. O que fazer? Arrancá-lo para não sufocar o trigo? Não. Basta esperar o crescimento de ambos até que o tempo da colheita chegue, quando o joio será queimado e o trigo recolhido em celeiros (v. 24-30). Essa é a única parábola explicada de forma apocalíptica por Jesus. Trata-se do fim dos tempos: aqueles que praticam a injustiça serão queimados na fornalha ardente e os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai. A menção de diabo – o inimigo que semeou o joio – e do Filho do homem – aquele que semeia a boa semente no campo (mundo) – evoca a urgência apocalíptica da realização dos ensinamentos de Jesus pela comunidade de Mateus. Somos herdeiros desta que se tornou a tradicional interpretação da parábola: o joio foi identificado como elemento ruim que impede o reino de crescer e por isso, no fim dos tempos, será arrancado e queimado. Em outras palavras: o mal deve crescer junto com o bem, o reino, representado pelo trigo.
b) O reino de Deus tem a ver com o cultivo. A comunidade de Mateus releu a parábola no contexto escatológico. E o fez muito bem! No entanto, considerando o contexto agrário e de confronto com o império romano, no qual essa parábola foi criada, podemos definir o reino de Deus de três modos. A erva daninha, chamada de joio, é uma graminha que cresce anualmente e é muito comum nos países do Mediterrâneo oriental. É uma erva venenosa, seus grãos possuem toxina. O gado que a come morre. O joio não cresce em terrenos a mais de 550 metros de altitude. Nos anos chuvosos, ele cresce mais que o trigo. A experiência campesina aprendeu, desde cedo, que colher o joio junto com o trigo é desaconselhável, pois ele contaminará o trigo. Daí o conselho que aparece no final de ambos os textos. Mas, então, como definir de três modos o reino de Deus nessa parábola? Ele pode ser comparado ao joio, ao fazendeiro próspero ou ao agricultor sem-terra. O reino é como o joio, essa erva daninha que cresce em qualquer lugar, sem pedir licença. O reino é assim, chega e se espraia, independentemente da vontade das pessoas, seja ele um rico fazendeiro, seja ele um pobre sem-terra. Ninguém pode impedi-lo. Assim aconteceu, mais tarde, com o império romano: ele teve de aceitar o cristianismo como religião. O reino é como um fazendeiro próspero que possui uma rica plantação de trigo e não pode impedir que cresça o joio (reino de Deus) jogado na sua plantação pelo inimigo. Por fim, o reino é como o agricultor que não tem terra, que não pode se livrar do grande fazendeiro que tirou as suas terras. O reino está dentro de cada um de nós. Mesmo sendo arrancado e queimado, ele cresce em outro lugar (cf. Faria, 2003, p. 117-119).
c) O reino é como a semente de mostarda, uma árvore ou pé de mostarda. A outra parábola do evangelho de hoje encontra-se também em Mc 4,30-32 e Lc 13,18-19. Vale a pena ler as narrativas, comparando-as para perceber as mudanças recebidas ao longo da transmissão: de terra para campo e horta, de ramo para árvores etc. Considere que a linha histórica é: Tomé (anos 50), Marcos, Mateus e Lucas (entre os anos 60, 70 e 80, respectivamente). Estamos diante de uma parábola que, ao ser transmitida, recebeu algumas modificações. Analisemos essa passagem à luz das seguintes questões: qual seria a intenção de Jesus ao contar essa parábola? Onde está o centro da parábola? Interpretações tradicionais insistem em mostrar o reino como uma semente pequena que cresce e fica grande. Vejamos três modos possíveis de ler a parábola da semente de mostarda com base em seu centro. Centro da parábola: semente. Compreendido desse modo, o enfoque desse texto está na passagem do pequeno para o grande. A pequena semente de mostarda é o novo Israel, isto é, os seguidores de Jesus, que se tornarão “grandes árvores”. Tomé, Marcos e Mateus, com exceção de Lucas, falam de algo menor que se torna grande. Não acreditamos ser essa a melhor interpretação. Não obstante, há que considerar que cada seguidor do reino é chamado a lavrar constantemente o seu interior para deixar a semente do reino crescer e produzir abundantes frutos. O centro da parábola é a árvore apocalíptica. Nesse sentido, o pequeno Israel tornar-se-ia uma grande árvore apocalíptica. Textos do Primeiro Testamento falam do cedro do Líbano como árvore apocalíptica (Sl. 104,12; Ez. 31,3.6; Dn. 4,10-12). E é nessa grande árvore que os pássaros fazem os seus ninhos. Acreditamos que, se Jesus, de fato, quisesse referir-se a uma árvore apocalíptica, teria mencionado o cedro e não a mostarda. Não, esse não pode ser o centro da parábola. Centro da parábola: pé de mostarda. A mostarda é uma planta medicinal e culinária que chega a medir no máximo 1 metro e meio de altura. Ela se desenvolve melhor ao ser transplantada. Depois de plantada, torna-se uma erva daninha. Temos dois tipos de mostarda, a selvagem e a culinária. Por ser uma planta impura, o código deuteronômico (Dt. 22,9) proíbe a sua plantação. O centro da parábola está, portanto, no pé de mostarda, seja ele doméstico ou selvagem. Assim é o reino de Deus, ele chega e se esparrama. Não pode ser controlado, torna-se abundante como a nossa tiririca. Atrai pássaros, inimigos de qualquer agricultor. O reino, depois de semeado, perde o controle, toma conta do terreno todo. Assim como o reino, a mostarda é motivo de escândalo para muitos. O reino é indesejável e violador das regras de santidade. Essas interpretações nos ajudam a compreender o valor do reino (Crossan, 1994, p. 313-318).
d) O reino é semelhante à mulher que usa o fermento. O simples fato de a parábola comparar o reino à mulher que usa o fermento é significativo. A interpretação tradicional dessa passagem considerou o fermento como ponto crucial na sua compreensão. Ousamos perguntar se, de fato, nisso estaria o centro desse texto. Comecemos por compreender as simbologias utilizadas. Mulher: representa a fertilidade e a impureza religiosa. Suas regras deviam ser controladas pelos sacerdotes. Dessa forma, o sagrado estaria também sob controle. Por outro lado, mulher e a Torá (lei, caminho, conduta) eram os bens preciosos dos judeus. Sem elas, a vida não se multiplicaria. Fermento: símbolo também da impureza e da corrupção moral. O fermento era feito com base na putrefação da batata, escondida por vários dias em um lugar escuro. O fermento cheirava mal e era detestado por judeus piedosos e escrupulosos. O medo de tocar em coisas impuras e tornar-se uma delas levava os judeus a estabelecer regras de contato com coisas e pessoas impuras. O código da santidade (Lv. 17-26) é exemplo claro desse modo de pensar judaico. Sede santos como eu sou santo (Lv. 19,2) passou a ser símbolo de pureza moral. Três medidas: o fato de o fermento ser colocado em três medidas de farinha pode não significar nada em absoluto, pois uma mulher não necessitaria fazer 40 quilos de pão. Essa quantidade demonstra a abundância do reino e os três relembra o Shemá Israel (Escuta, ó Israel), profissão de fé israelita baseada no amor vivido com o coração, o ser e as posses (Dt. 6,4-9). Em vários textos bíblicos do Segundo Testamento encontramos alusão ao Shemá (Faria, 2001). Considerando a simbologia e as diferenças nos textos, suspeitamos que o centro da parábola de Tomé não está no fermento, mas no processo de sua fabricação. Ele é feito pela mulher, no escuro, é impuro e cheira mal. Assim também era considerada a mulher. Aceitar o reino é ir contra o que está ocorrendo de errado na sociedade, é não aceitar o erro tido como coisa normal. O reino ataca a estrutura má da sociedade. E, por mais insignificante que seja, ele contagia, produz “grandes pães” (cf. Faria, 2003, p. 113-116).
Como vimos acima, a definição do reino é ampla e muito nos tem a ensinar. Todas elas têm o seu mérito.
2ª leitura (Rm. 8,26-27)
Deus Pai e Deus Espírito estão em nós, na oração pelo Reino.
A reflexão feita por Paulo, nessa carta dirigida aos cristãos de Roma, aponta-nos a oração como caminho de construção do reino de Deus. Se não sabemos rezar, é o próprio Espírito que intercede, que reza por nós. Ele suplica a Deus em favor dos que lutam por justiça e paz, assim como vimos nas parábolas do evangelho de hoje. A oração é fonte de vida para o cristão. Jesus foi um homem de oração. Deus Pai e Deus Espírito se entendem e se encontram em nós, quando rezamos e lutamos na construção do reino de Deus.
PISTAS PARA REFLEXÃO
1. Diante das várias possibilidades de interpretação das três parábolas do evangelho, esclarecer o valor de uma delas.
2. Fazer a comunidade perceber que a luta pela implantação do reino de Deus exige de cada um de nós um esforço constante. Vivemos em meio ao joio, plantando o trigo; fermentando pão, rodeados de injustiças sociais; sonhando com uma ação apocalíptica de Deus.
3. Levar a comunidade a se perguntar sobre o modo como ela exerce o seu poder na sociedade e na comunidade. Ela exerce a misericórdia? Age com justiça? Enfim, segue a pedagogia divina? A faina do cristão consiste em plantar a semente do reino, ser um incômodo constante diante dos reinos de morte, permanecer na oração, tendo a certeza de que o Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.
Frei Jacir de Freitas Faria, ofm
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As coisas do mundo novo chamado reino
Neste domingo ouvimos parábolas que descrevem, através de coisas do cotidiano, o projeto que o Pai quer concretizar no meio do mundo através de Jesus, o grande pregador do Reino dos céus.
Reino quer dizer uma ordem nova de coisas,  um mundo a ser feito e refeito com uma força nova e insuspeitada que atua no coração das coisas envelhecidas. Jesus é o mensageiro do Reino. Mais do que isso. Ele é o próprio Reino, o mundo novo que ocupa o lugar das coisas velhas marcadas pelo desejo do homem e por seus desregramentos. Trata-se de um empreendimento a longo prazo. Esse mundo novo que  foi  inaugurado pela vida, paixão, morte e ressurreição, está em andamento. A Igreja, a comunidade deixada por  Jesus, existe para acelerar a implantação desse mundo novo de transparência, de beleza, de harmonia, de fraternidade e de justiça. 
Essa Igreja, santa e pecadora, se sente serva do Reino. Na vida da mesma Igreja há luzes e sombras, claridades e trevas. O texto de Mateus, redigido em volta dos anos 70, procura mostrar algumas leis do Reino.  O Jesus de Mateus, através de parábolas, nos leva a conhecer e compreender certas “lentidões” que presenciamos na vida da Igreja e do mundo.
No mundo (e na Igreja), nesses tempos que são os penúltimos, joio e trigo, se misturam. O agricultor pode ter a tentação de arrancar o joio,  na impaciência e no zelo pelo bom êxito. Virtudes e vícios coexistirão. Há um tempo do crescimento do reino em que não se faz a separação de  um e de outro. Temos que ter paciência. Na família há membros que honram a pequena célula. Por vezes, acontece o contrário. Não se pode precipitar as coisas. Nas comunidades cristãs coexistem a bondade e a perversidade.
Esse mundo novo que se chama Reino não acontece da noite para o dia.  Seus começos são modestos e quase insignificantes. O Reino se assemelha a uma ínfima sementinha de mostarda. Ninguém por ela dá nada. Mas quando lançada à terra faz brotar uma planta sem proporções aos seus começos. Ele é semelhante a um punhadinho de fermento que uma mulher  coloca numa força de  farinha e que leveda a massa toda.
Aí estão nossas comunidades cristãs. Muitas delas estão implantadas em espaços de gente simples, dedicada. Lá vemos esses agentes de pastoral cheios de fogo e de força e que, na simplicidade de suas vidas, preparam as pessoas para os sacramentos, visitam os doentes, promovem os mais abandonados e excluídos. Ali está uma pessoa que foi profundamente ofendida e que conseguiu dar o perdão. Comunidades cristãs, grupos de pessoas que levam vida reta e justa, pessoas isoladas que vão se configurando a Cristo  Jesus.  É o Reino em andamento.
Aquele que inaugurou o Reino nada tinha de pompa. Nasceu num canto minúsculo do Oriente, não tinha títulos, nem casa, nem propriedades, chegou mesmo a lavar os pés de seus companheiros, morreu sozinho na solidão da cruz, morreu dando a vida pelos seus e assim mostrou que a grandeza do  Reino que deve acontecer na plenitude dos tempos quando o Reino chegará à sua plena realização. Ele foi com um punhadinho de fermento que uma mulher coloca na massa. Quando o tempo passa a massa fermenta e acontecem prenúncios e antecipações do Reino.
frei Almir Ribeiro Guimaeães
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A paciência de Deus
Em sua pregação aos camponeses da Palestina, na linguagem campestre deles, Jesus aborda hoje o tema da condenação (evangelho). Já vimos, no domingo passado, que ninguém conhece a profundeza do pensamento de Deus.Incredulidade não significa necessariamente perdição. Como ainda muitos “bons cristãos” hoje, também os antigos judeus se admiravam de que Deus deixasse coexistir fé e incredulidade, justos e injustos. Mas Deus não precisa prestar contas a ninguém. Sua grandeza, ele a mostra julgando com benignidade, pois ele tem suficiente poder; Deus não é escravo de sua própria força (Sb. 12,18; 1ª leitura)! O salmo responsorial (Sl. 86/85), aparentado à revelação de Deus a Moisés em Ex. 34,5-6, acentua o tema da magnanimidade de Deus.
Contrariando nossa impaciência e intolerância, Deus aguarda que talvez o injusto ainda se converta (12,19; cf. Lc. 13,6-9). Sobre este tema Jesus bordou uma de suas mais eloqüentes parábolas: quando num campo se encontra joio no meio do trigo, é muito imprudente extirpar apressadamente o joio, pois se poderia arrancar também o trigo. Melhor é ter paciência, deixar tudo amadurecer e, no fim, conservar o que serve e queimar a cizânia. Deus é tão grande, que no seu Reino tem espaço até para a paciência com os incrédulos e injustos. Ele é quem julga.
A essa parábola são encadeadas algumas outras, de semelhante inspiração campestre (Mt. 13,31-33), bem como uma consideração sobre a “pedagogia” das parábolas. Depois, Jesus explica a parábola do joio. As parábolas intermediárias (do grão de mostarda e do fermento) referem-se ao incrível crescimento do Reino de Deus. Há, porém, diferenças no acento. Na parábola do grão de mostarda, o enorme crescimento do Reino, incomparável com seu humilde início, dá uma impressão de amplidão, de expansão, de espaço; na parábola do fermento, é a força interior que é acentuada: um pouco de fermento dá gosto ao todo.
Nos v. 34-35, o evangelista faz uma observação sobre a pedagogia de Jesus. Ele não fala por meio de parábolas para confundir o povo, mas sua pregação confunde, de fato, os que acham que sabem tudo (cf. Mt. 13,12-15). Ora, para quem quiser escutar, cumpre-se, nesta pedagogia de Jesus, o que o salmista já anunciara há muito tempo: a revelação das coisas escondidas desde a formação do mundo.
O tema principal para hoje é, pois, a grandeza de Deus, que tem lugar para todos, inclusive os pecadores, até o momento em que eles terão de decidir se aceitam a sua graça, sim ou não. Isso nos ensina também algo sobre o pecado: com o tempo, o pecado se transforma, ou em arrependimento, ou em orgulho “infernal”, ao qual cabe o destino que finalmente é dado ao joio.
E como viver num mundo onde coexistem fé e incredulidade, justiça e pecado (muitas vezes, dentro da mesma pessoa, dentro da Igreja também)? Como aceitar pessoas, sem aceitar seu pecado nem a estrutura pecaminosa de nosso mundo? São perguntas candentes, que podem ser meditadas à luz da paciência, não tanto “histórica”, mas antes escatológica, de Deus.
A 2ª leitura nos ensina algo fundamental sobre a “espiritualidade”. Para muita gente, espiritualidade é uma espécie de conquista de si mesmo, um treinamento, uma ascese – tanto que, antigamente, “ascese e espiritualidade” eram estudadas no mesmo tratado. Ora, espiritualidade cristã existe quando o Espírito do Cristo vive em nós, toma conta de nós. Isso nada tem a ver com ascetismo, uma vez que o Espírito adota até a nossa fraqueza. Nós nem sabemos rezar como convém, mas “o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm. 8,26). Portanto, o importante é deixar-se envolver por esse Espírito e não expulsá-lo pela auto-suficiência de nosso próprio espírito. O Espírito do Cristo é que consegue dar conta da nossa fraqueza; o nosso, dificilmente...
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Evangelho: Mt. 13,24–43
1. O evangelho de hoje, em continuação à parábola da semente do domingo passado traz outras três parábolas: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento. Veremos:
a. o inimigo do Reino – vv. 24-30
b. o Reino cresce a olhos vistos – vv. 31-32
c. o Reino é revolucionário – v. 33
d. Jesus revela o mistério do Reino – vv. 34-35
e. a dinâmica do Reino na história – vv. 36-43
a. o inimigo d o Reino – vv. 24-30
2. A parábola da semente do domingo passado afirmava o êxito da justiça do Reino apesar dos tropeços. Hoje Jesus critica a pressa dos discípulos e das comunidades em querer separar bons e maus, justos e injustos. Os discípulos, à semelhança dos fariseus e essênios, pretendiam formar comunidades “puras”, fugindo da realidade (essênios) ou considerando-se “vacinados” (fariseus) contra as tramas e desafios da sociedade. (a palavra fariseu significa “separado”).
3. A parábola do joio no meio do trigo mostra que a sociedade é um campo de semeaduras diferentes e contrastantes. O discípulo semeador da boa semente deve continuar firme na prática da justiça (v. 27). Contudo, no meio do campo cresce também o joio (a injustiça). O inimigo que semeia são as pessoas e estruturas injustas que convivem com a semente do Reino.
4. Aí surge a perplexidade: se de fato Jesus é o Deus-conosco, o Mestre da Justiça, como se explica o crescimento da injustiça na sociedade? Por que ele não a arranca de uma vez? (1ª leitura). Surge, então, o desejo de “fazer justiça com as próprias mãos”: “quer que arranquemos o joio”? (v. 28b).
5. A resposta do dono da colheita é clara: só a Deus cabe fazer a triagem. Triagem que não acontece agora, mas depois (na Bíblia, a colheita é usada como símbolo do fim do mundo). Só Jesus tem o direito de ordenar a seleção final, cujo critério de distinção serão os frutos (prática da justiça ou prática da injustiça). Por ora, a comunidade deve esperar.
6. A mensagem da parábola é que a justiça que faz surgir o Reino de Deus se decide num campo de batalha (o mundo), numa sociedade conflituosa (convivem o bem e o mal). Aos discípulos cabe unicamente semear. Não lhes cabe fazer justiça com as próprias mãos e critérios. Em outras palavras, eles não são donos do campo, nem da plantação nem da colheita. O Senhor Deus é o dono. A ele compete decidir quando e com quais critérios.
7. Contudo, duas questões ficam no ar:
1. O Reino de Deus não se mostra assim impotente diante do mal?
2. Não existe nenhuma possibilidade de subversão, de forma que o bem transforme o mal? As duas parábolas seguintes tentam responder…
b. o Reino cresce a olhos vistos – vv. 31-32
8. Os adversários de Jesus se escandalizam diante da aparente impotência dele e de sua prática. Para eles o Reino deveria ser instalado à força. A parábola da semente de mostarda trabalha com os termos menor e maior: a menor de todas as sementes se torna a maior de todas as demais plantas, a ponto de abrigar pássaros com seus ninhos.
9. Mateus diz que o grão de mostarda foi semeado no campo e não na horta, como em Lucas. É uma referência ao campo que é o mundo no qual cresce o Reino de Deus. O fato de ser plantada no campo demonstra bem a pequenez e a insignificância da semente e dos inícios da justiça que faz surgir o Reino. Mas a semente se torna árvore (4 a 9 metros de altura) e os pássaros (as nações) se aninham na árvore do Reino, encontrando vida e segurança. Assim será a justiça do Reino, garante Jesus: ela se sobressairá no campo (mundo) e será ponto de encontro de todos os povos!
c. o Reino é revolucionário – v. 33
10. A parábola do fermento contrapõe o pouco e o muito, mostrando que o primeiro subverte (modifica por dentro) o segundo. De fato, 3 porções de farinha perfazia 42 quilos. Um punhado de fermento é insignificante diante de tanta farinha!
11. O fermento some no meio da massa (o texto afirma, literalmente, que a mulher esconde o fermento na farinha), mas a transforma e subverte completamente. Assim é a justiça que faz surgir o Reino. Um dia irá levantar toda a humanidade, pois tem poder de contagiar, transformar e levantar toda a massa.
12. Em Israel, fazer pão era tarefa confiada às mulheres. E o faziam todos os dias, pois o pão era o alimento básico. O Reino, portanto, é confiado aos pequenos, pobres e marginalizados, e é compromisso diário.
d. Jesus revela o mistério do Reino – vv. 34-35
13. Os vv. 34-35 interrompem a seqüência das parábolas. São um comentário do evangelista que pretende mostrar por que Jesus anuncia o Reino em parábolas. Tem-se a impressão de que o povo não entendia o sentido delas. Que função teriam, então? Mateus cita o salmo 78,2: “vou abrir minha boca numa parábola, vou expor enigmas do passado”, atribuindo-o ao profeta (no sentido de que todo o AT é profecia que leva a Jesus, ou talvez, porque esse salmo era atribuído a Asaf, considerado profeta, cf. 2Cr. 29,30).
14. A função das parábolas é revelar o mistério escondido anteriormente, mas agora tornado manifesto na prática de Jesus. É nele que o Reino assume sua verdadeira feição e forma. Aceitando-o, entra-se no Reino.
e. a dinâmica do Reino na história – vv. 36-43
15. A “explicação” da parábola do joio e do trigo é fruto do esforço das comunidades em olhar para dentro de si mesmas. Jesus volta para sua casa (v. 36), na intimidade com seus discípulos. É hora de olhar para dentro: o ambiente é outro, a ótica é outra e os destinatários são diferentes. A explicação acentua o contraste entre os filhos do Reino e os filhos do diabo (v. 38). A boa semente são os filhos do Reino, ao passo que o joio são os que fazem os outros pecar e os que praticam o mal (v.41).
16. Há também um deslocamento do campo de ação no mundo para o campo da escatologia final, destacando a diferenciação de sortes: os injustos vão ranger os dentes de raiva e desespero, ao passo que os justos irão brilhar como o sol no Reino do Pai (vv. 42-43a).
17. O convite final “quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” (v. 43b) é um apelo ao discernimento no agora da nossa história: a vitória final pertence a Jesus e seus seguidores. Portanto, mãos á obra para que o Reino se manifeste mediante a prática da justiça.
1ª leitura: Sb. 12,13.16–19
18. O livro da Sabedoria foi escrito (na segunda metade do século I a.C.) por um judeu piedoso de Alexandria, capital cultural do helenismo e grande reduto de judeus dispersos. O livro da Sabedoria é fruto do desejo de inculturar a fé (judaica), assimilando os valores positivos da cultura grega, sem abandonar o núcleo central da fé judaica.
19. Com o livro da Sabedoria há um progresso sobre a experiência de Deus que O apresentavam um Deus violento diante dos inimigos de Israel. Os judeus da diáspora se perguntavam por que Deus não tomava posição contra os povos idolatras. Dentro desse questionamento é que deve ser entendido o texto de hoje.
20. O autor descobre um Deus diferente e único, agindo misericordiosamente com todos, sem discriminações (v. 13). Ele é diferente de todos os deuses porque dá a todos a chance da salvação. E por isso é único. Ele tudo pode. É o todo-poderoso. Mas seu poder é princípio da justiça, ou seja, a justiça de Deus é ser indulgente e bom para com todos (v. 16). A pedagogia divina vai se revelando na história: Deus dá a conhecer a sua força aos que não crêem na perfeição do seu poder e corrige ao mesmo tempo a arrogância dos que julgam conhecê-lo plenamente (v. 17). Temos assim uma referência ao amor divino aos pagãos e a correção feita aos judeus que pretendiam aprisionar Deus em seus esquemas culturais e religiosos.
21. Deus não condena, mas julga com moderação e governa com grande consideração (ele “controla a própria força”). Embora esteja a seu alcance fazer uso do poder (v. 18), revela-se mais humano que os seres humanos. A pedagogia divina é revelar-se plenamente humano e solidário.
22. Julgar e governar eram atribuições do rei. Ora, Deus é rei, mas seu julgamento e administração tem como objetivo oferecer condições de vida para todos.
22. O modo de proceder de Deus tem um reflexo enorme na vida dos homens. Aprendendo desse Deus “humano”, as pessoas se “humanizam”, se tornam verdadeiramente humanas. A humanidade de Deus, – que não faz distinção entre povos e raças – abre o grande caminho da esperança: sendo assim tão humano, saberá compadecer-se da fraquezas, oferecendo generosamente seu perdão (v. 19).
2ª leitura: Rm. 8,26–27
23. Nos versículos 19 a 27 do cap. 8 de Romanos Paulo apresenta três sintomas de tensão pela espera do mundo novo: a criação que sofre as dores do parto (vv. 19-22), a expectativa dos cristãos (vv. 23-25) e os gemidos inefáveis do Espírito (vv. 26-27). O texto de hoje é o terceiro sintoma (vv. 26-27)
24. No versículo 14 deste mesmo capítulo, Paulo já afirmara que filhos de Deus são todos os que se deixam guiar pelo Espírito. Junto com toda a criação, eles anseiam pela libertação. Ora, o caminho da libertação é feito na esperança em meio aos conflitos do mundo. Como discernir o caminho da libertação diante de tantas dificuldades que ameaçavam a comunidade romana?
25. É o Espírito que vai indicar o caminho. Ele vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que convém pedir (v.26a). Ele se torna a nossa melhor oração de súplica, o maior conforto na esperança, pois intercede em nosso lugar com gemidos que as palavras não conseguem explicar (v. 26b).
26. Os gemidos do Espírito – em favor dos cristãos – estão em perfeita sintonia com a vontade de Deus, pois este (Deus) conhece os desejos do Espírito (v. 27). O Espírito quer que sejamos libertos e salvos. Anseio este que é também o mais profundo de toda humanidade. Assim o Espírito, conhecedor dos nossos sentimentos mais íntimos, se torna o porta-voz dos que lutam pelo mundo novo.
Refletindo
1. Deus me protege. Deus é bom. O israelita piedoso (como também o “bom cristão”) gosta de repartir os homens em bons e maus. E quando vê que Deus não observa essa sua divisão, chega a acusá-lo! Mas a Sabedoria de Deus mostra-se tanto na paciência quanto no juízo. Por outro lado, também “os bons” precisam da misericórdia de Deus! Deus é lento em cólera, rico em graça e fidelidade.
2. Fé e esperança são antecipações daquilo que ainda não está aí (Rm 8,24). Assim, nossa vida cristã é uma vida a “amadurecer”, uma vida inacabada. O “sopro” (=”espírito”) de Deus, “adotando” nossa fraqueza, ajuda a alma a se desenvolver desde a sua infância espiritual. O espírito conhece os dois “abismos”: o ser de Deus e o coração do homem. Como não temos bastante amplidão, seu soprar em nós é um gemido dirigido a Deus. No entanto, já nos faz ser santos!.
3. A 1ª. leitura do Livro da Sabedoria nos fala da clemência de Deus ao julgar os nossos atos. E o salmo confirma a clemência divina e acrescenta os atributos de fidelidade, de amor, de paciência e de perdão (Sl. 85). O Deus todo-poderoso é também o mesmo Deus misericordioso e compassivo. Nas leis humanas, aqueles que tem o poder reinam e submetem os mais fracos ao seu poder. Com Deus é diferente. Aliás, é esse Deus diferente (dos outros deuses) que o autor quer mostrar. Ele chama a atenção dos que crêem e dos que não crêem, que Deus mostra seu poder e sua força pela “clemência e grande comiseração” para com seu povo, dando-lhes a “confortadora esperança do perdão” e ensinando a humanidade a imitar a prática da verdadeira justiça.
4. A 2ª. leitura nos diz que o Espírito Santo nos socorre na fraqueza, dotando-nos de discernimento, para agirmos segundo a vontade de Deus. O autor de Romanos quer que os cristãos (do seu tempo e também os de hoje) estejam plenamente confiantes de que Deus age em nós, por meio do Espírito Santo. Antes mesmo de tomarmos a iniciativa de comunicar a Deus as nossas fraquezas, Ele já se antecipou em nos manifestar o seu socorro. Recordando Isaías 65,24: “acontecerá, então, que antes de me invocarem, eu já lhes terei respondido; enquanto ainda estiverem falando, eu já os terei atendido”. No tempo certo ele nos dá clemência, prepara-nos boa colheita e nos acolhe em seu Reino.
5. O Evangelho revela-nos como escutar a paciente voz de Deus que ecoa em nossos corações e transforma gestos de impaciência em prudência e comedimento. A parábola revela um Deus paciente. O joio semeado no meio do trigo precisava ser arrancado para não prejudicar a boa colheita. Os empregados do campo tinham urgência (não tinham nenhuma paciência!) em fazê-lo, porque não queriam parecer negligentes já que não puderam evitar a semeadura do joio, às escondidas, pelo inimigo.
6. Perante o afoitamento dos empregados, o patrão, o dono do campo revela-se prudente: no tempo certo o joio será separado do trigo. O campo é o mundo. No tempo certo, à revelia da nossa pressa, e, diferentemente do nosso modo arbitrário de pensar e agir, Deus contemplará o mundo com a sua verdadeira justiça. É preciso aguardar, esperar para que a justiça divina brilhe. Deixemos de lado o ímpeto de querer trabalhar o campo segundo os nossos critérios, pois ao dono da messe cabe decidir a hora certa e as etapas do trabalho. Trabalhemos pela boa colheita que a todos fartará, com a esperança de quem já aprendeu com a paciência e a clemência do Deus vivo.
7. Celebrar a presença do Ressuscitado é tornar vivo (na comunidade de fé) o compromisso com o Reino (com a semente do Reino) testemunhando o amor de Deus pela humanidade. É olhar para esse Deus com os olhos do filho Jesus Cristo. É descobrir um Deus que não é alheio à vida humana, antes, pelo contrário, mostra-se clemente, cheio de bondade. É revelar o Reino como presença de Deus governando, com amor e justiça (ou com justiça e amor) aqueles aos quais criou à sua imagem e semelhança.
8. O convite à vida do Reino acontece para todos. Como servidores da messe (sem pressa) devemos deixar a graça de Deus, justo e clemente, transbordar em nós e se derramar em gestos de acolhida e comunhão com aqueles que o Senhor escolheu e colocou ao nosso lado. Como trabalhadores do Reino, o nosso grande desafio é nos deixarmos guiar pelo Espírito de Deus que age em nós; é assumirmos as mesmas posturas que Jesus teve. Só assim a semente do Reino tornar-se-á árvore. Só assim a colheita será proveitosa, abundante, pois livre das nossas ações imediatistas, precipitadas e consequentemente desastrosas. O Reino é do jeito de Deus e não do nosso jeito (graças a Deus!).
9. No tempo de Mt a impaciência era explicável: esperava-se a volta de Cristo (a Parusia) para breve. Hoje já não há mais razão para a impaciência. A causa hoje credita-se ao imediatismo das pessoas. É preciso dar tempo às pessoas para que fiquem cativadas pelo Reino (… e a nós também … pois certamente não estamos total e plenamente cativados pelo Reino e comprometidos com ele!). Isso exige fé e dedicação para ajudar as pessoas na descoberta e no crescimento da compreensão e da aceitação do Reino.
10. Devemos ter paciência! Cada um tem sua hora e sua vez. Cada um tem seu tempo. Cada um é diferente dos outros (e merece um respeito enorme!). Deve-mos dar tempo ao tempo… e entrementes dar força ao trigo para que não seja sufocado pelo joio. Em nossas comunidades importa cativar os outros com paciência. Importa cativar… não impor. Não dá para pular etapas. Fanatismo só serve para dividir. Moscas não se apanham com vinagre. Importa ter confiança em Deus… e confiança ilimitada… pois é ele o dono da messe e é ele também quem dirige a história e o universo. Deus reina por seu amor, e o amor não força ninguém, mas cativa a livre adesão.
11. Nós gostamos de ver resultados imediatos. Somos impacientes e dominadores para com os outros. Deus tem tanto poder, que ele domina a si mesmo… não é escravo de seu próprio poder. Sabe governar pela paciência e perdão. Seu Reino é amor e este penetra aos poucos, invisivelmente, como o fermento. Impa-ciência com relação ao Reino de Deus é falta de fé. O crescimento do Reino é “mistério”, algo que pertence somente a Deus.
12. “O Espírito vem em socorro de nossa fraqueza. E como não sabemos o que pedir nem como pedir, o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”. (Rm. 8,26)
12.1. Celebração dominical é o momento para ouvir Deus mais do que lugar para nossos inumeráveis pedidos. Para ouvir é preciso silenciar a nossa voz, silenciar nosso coração. É preciso fazer silêncio para ouvir Deus!
12.2. Nossa celebração deve levar-nos a Deus e não levar nossos problemas e preocupações de tal forma que fiquemos atordoados e não tenhamos tempo de ouvir se Deus tem alguma coisa a nos dizer. O foco da celebração é Deus e não nós mesmos. Caso contrário, não celebramos nada, muito menos o mistério pascal do Cristo morto-ressuscitado-vivo!
12.3. Atitudes calmas… mentes aquietadas… corações concentrados… silêncio… canto agradável e sem gritaria… suavidade e moderação … Silêncio … sem gente falando… conversando… rindo… andando pela igreja… gente se mostrando, desfilando e se exibindo!
12.4. Momento de celebração é momento de preencher o coração da harmonia e da paz de Deus, pois já vivemos a semana inteira na correria, no stress, no meio do barulho ensurdecedor! Temos direito e necessidade de um momento de “paz verdadeira e intensa”, pois só ela é capaz de restaurar nosso coração para a semana que começa. Só o Espírito, que age na brisa, restaura, recompõe, reconforta, reanima, recoloca nossa alma na paz do Senhor para caminhar como o Senhor inspira.
13. “Jesus, como de costume, dirigiu-se ao monte das Oliveiras … e disse-lhes: orai … e afastou-se deles e dobrando os joelhos, orava: “Pai…” Lc 22,39
E hoje aqui nesta igreja … eu também vim para orar!
(Nota do editor) 14. Atenção! Ministros e … aqueles que ajudam ao altar : parem e pensem!
A missão e a função de vocês é ajudar a criar clima e condições para que as pessoas, os filhos de Deus, possam rezar melhor.
E o que acontece?
Em nossas igrejas são vocês os que mais fazem “barulho”, os que mais “conversam”, os que mais “andam” ou se “exibem” pela igreja, os que mais “atrapalham” o momento de oração que nós, os filhos de Deus, temos para “desfrutar” da companhia e do encontro com Deus, o Pai, com o Filho, o Redentor, com o Espírito, o revelador do plano e da vontade da Trindade.
Momento de sentirmos e estarmos em contato íntimo com o Deus presente, vivo e verdadeiro, o único capaz de dar a felicidade que almejamos, esperamos e precisamos!
Respeitem nosso momento tão especial na semana!
Às vezes, trazemos o coração marcado por dores tão profundas e necessitamos do bálsamo que só Deus, nosso Pai, nos pode dar para curar nossas feridas!
“Ajudem-nos … não nos atrapalhando”!
Deixem-nos ouvir a voz do nosso Deus!
Muito obrigado!
E o Senhor passou na brisa da tarde! … 1Rs. 19,12
E disse Jesus: minha casa é casa de oração! Mt. 21,13
E Jesus retirou-se ao horto para rezar! Mt. 26,36
prof. Ângelo Vitório Zambon

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1. A Palavra de Deus não tem somente um sentido espiritual, mas também existencial. Isso quer dizer que para entendermos o sentido das paginas da Bíblia e, sobretudo do Evangelho, devemos aprender a entrarmos nela com a nossa vida. A final de conta, a Bíblia é uma Palavra que Deus dirige aos homens e mulheres de todos os tempos para salvar-nos de uma vida vazia, perdida. Se as vezes sentimos a distancia entre nós e a Bíblia é porque não deixamos que ela penetre na nossa existência. Por isso as vezes, sentimos indiferença no confronto da Palavra, talvez porque achamos que Ela não tem nada pra dizer a nós de importante e por isso não prestamos atenção. Para que a palavra de Deus possa revelar os seus sentidos pela nossa existência, precisa de duas condições essenciais. A primeira é o tempo. É impossível entender algo de profundo da Palavra de Deus se não dedicarmos o tempo necessário. A segunda é a docilidade ao Espírito Santo. É aquilo que nos aconselho são Paulo na segunda leitura de hoje: “O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza” (Rom. 8,26). De que fraqueza se trata? Talvez da nossa capacidade de entender, compreender os conteúdos profundos da palavra de Deus. É com estas atitudes que abrimos as paginas da Palavra de hoje e, para agilizar a nossa compreensão, podemos também formular algumas perguntas. De fato, o pano de fundo existencial das parábolas de Jesus que hoje ouvimos, pode ser referido a nossa maneira de criar laços humanos, de fazer amizades. Por isso podemos nos perguntar: quem são hoje os nossos amigos? Quais são os critérios que utilizamos para discerni-los?
2. “Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt. 13,30).
Na parábola do joio, Jesus pronuncia uma sentença importante. No tempo presente é impossível separar o trigo do joio, porque o perigo imediato seria aquele de arrancar o trigo junto com o joio. Este trabalho de divisão do trigo do joio será feito só no final dos tempos. Qual é o sentido existencial e espiritual destas palavras de Jesus? Jesus está ajudando os discípulos a aprender a conviver com as pessoas ruim. O motivo disso talvez seja contido na outra parábola que Jesus narra hoje no Evangelho. “O reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (Mt. 13,33). Este é o interesse de Jesus: que tudo fique fermentado, ou seja, que nada seja desperdiçado. Por isso Jesus nos convida a aprender a lidar com as pessoas ruim, a rezar e até amar os nossos inimigos, a perdoar sempre, porque a esperança é que tudo se salve, que a semente do Evangelho possa no tempo, nos séculos, fermentar toda a realidade, também a humanidade ruim. Jesus não apenas falou isso, mas viveu aquilo que pregava pelos outros. Olhando a turma dos seus discípulos, Jesus conviveu com pessoas que, enquanto escutavam as suas palavras e partilhavam a sua vida, matutavam outros planos. É o caso de Judá, o discípulo que traiu o Mestre. A mesma coisa podemos falar de Pedro. Apesar de ter sido escolhido como chefe dos discípulos, na hora da perseguição renegou o Senhor por três vezes. Jesus nos ensina que a caridade é paciente, sabe esperar o tempo da passagem do Seu Espírito no coração das pessoas, para que possam mudar. Esta, talvez, seja uma das características da vivencia cristã, que marca a nossa caminhada. Se, de fato, o mundo descarta logo quem julgou que não presta, o cristão sabe que não cabe a ele o julgamento, mas ao Senhor. Tempo presente é o tempo da conversão, da esperança que algo mude. Só Deus conhece os nossos corações, só Ele sabe aquilo que está acontecendo no coração do homem e da mulher. É esta uma grande indicação ao mesmo tempo espiritual e existencial para entrarmos nas nossas famílias, comunidades, grupos de amigos, lugares de trabalho com uma atitude diferente, menos arrogante e mundana e mais cristã e humana, respeitosa dos tempos dos outros.
3. “O reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo” (Mt. 13,31).
Também nesta breve parábola Jesus nos oferece um ensinamento de grande importância, que vale a pena salientar. O mundo nos acostuma a pensar que vale somente aquilo que se apresenta com as características da grandeza, aquilo que é deslumbrante. Muitas pessoas fascinadas com esta miragem passam a vida toda sonhado conseguir alcançar objetos de valor, dinheiro, fama, gloria. Jesus com poucas palavras revela que a dignidade de uma pessoa não passa por ai. O reino dos Céus, no qual nós batizados somos envolvidos, é como uma semente de mostarda, ou seja, pequeno e não grande. É a menor semente e não a maior. É escondida dentro da terra e não manifestada perante todos. Quer dizer isso para nós? Que a lógica do reino, a lógica do Evangelho é totalmente diferente da lógica do mundo. Quem busca a Deus com todas as forças, não precisa daquilo que o mundo oferece. A sede do poder, do dinheiro, das coisas materiais são sintomas daquilo que está dentro do coração do homem: não precisa falar, se explicar, se justificar. Aonde é o meu coração lá e o meu tesouro. Se o nosso coração é repleto de Deus e do seu amor, na nossa vida, no nosso dia a dia buscaremos aquilo que é menor, escondido, pequeno. Se o Evangelho está preenchendo a nossa alma, então os nossos desejos serão os mesmo desejos de Cristo, que de rico que era se fez pobre para nos encontrar e que, apesar de ser de natureza divina se despojou disso para encontrar a nossa humanidade. O cristianismo, o caminho que Jesus traçou não é um punhado de palavras, mas sim um estilo de vida, uma maneira diferente de viver. E este estilo de vida não se expressa apenas na vida consagrada, mas deve brilhar na vida corriqueira das pessoas casadas em Cristo, nas famílias que tem no Evangelho o programa de vida, nos jovens que anseiam o amor de Jesus, nos adolescentes que estão aprendendo os primeiros passos da vida cristã, nos namorados que desejam viver o amor conforme se manifestou na vida de Jesus. A semente de mostarda que é o Evangelho, que é Jesus, quer transformar toda a nossa humanidade, toda a historia e o mundo em amor. E o amor não é vulgarmente exposto ao olhar do mundo, mas é escondido nos pequenos gestos da vida concreta. Por isso precisamos da Eucaristia, precisamos que Deus derrame este amor nos nossos corações, para que aprendemos a conviver com todos, também com as pessoas ruim, esperando no julgamento final. Precisamos da Eucaristia para vencermos as ilusões de gloria e grandeza que o mundo coloca na nossa frente, para continuarmos a almejar a vida escondida de Cristo, que da pequena e humilde cidade de Nazaré, transformou e continua transformando a humanidade toda.
padre Paolo Cugini
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No nosso mundo também há trigo
Estamos conscientes da existência da cizânia no nosso mundo. Continuamente os meios de comunicação nos informam sobre a violência, mortes, ódios e outros tantos sinais da cizânia que cresce na nossa sociedade. Por isso, quando lemos o evangelho de hoje, logo identificamos a cizânia e em seguida lhe pomos nomes e sobrenomes. Até mesmo na nossa família é fácil de encontrá-la. Mas nos esquecemos do lado positivo.
É que a parábola, contra todo o pessimismo que tantas vezes nos invade, primeiro afirma que há muito trigo semeado. Tanto, que vale a pena aguardar o momento da colheita para tirar a cizânia. Há muita boa semente plantada pelo Filho do Homem, como diz o próprio Jesus em sua explicação sobre a parábola. Essa boa semente está crescendo no nosso mundo. Há os que só querem ver a cizânia no campo, mas a realidade é que lá predomina a boa semente, o trigo. Se apenas houvesse cizânia, o dono do campo teria mandado que fosse toda arrancada. Não haveria razão alguma para que esperássemos até a colheita. Algo parecido nos diz Jesus na parábola do fermento. Apenas um pouco de fermento é suficiente para que se levede toda a massa, mesmo que alguns pensem que isso seja impossível. Diante daqueles que pensam que a maçã podre poderá estragar as demais, Jesus sempre revolucionário - afirma que a boa maçã será capaz de transformar as outras.
A primeira leitura nos confirma este testemunho. Nosso Deus é o todo poderoso e por isso mesmo nos governa com clemência. Seu poder se manifesta na capacidade que tem de perdoar e dar vida. Ou, como diz a segunda leitura, o Espírito vem auxiliar a nossa fraqueza e intercede por nós com gemidos inefáveis. O poder de Deus está do nosso lado, está do lado da vida e do bem e não permitirá que a cizânia leve a melhor.
As leituras deste domingo nos trazem uma mensagem cheia de vida e esperança. Em nossa sociedade, em nossa família e em cada um de nós, há muito mais trigo que cizânia. Há muito mais para se salvar que para condenar. E mais ainda, nenhuma pessoa está definitivamente condenada. Nosso Deus espera por todos até o momento da colheita. Então será o momento da purificação final, que salvará tudo o que for trigo em nós e nos libertará definitivamente do peso da cizânia. O Espírito Santo nos auxilia nesse caminho.
Deixo-me levar pelo pessimismo ao olhar a realidade do nosso mundo, da nossa sociedade, de minha família ou de mim mesmo? Sigo os conselhos de Jesus? Quais os sinais de bondade e de esperança que vejo em mim mesmo e em tudo mais que está ao meu redor? Que poderia fazer para que se veja mais a presença do trigo - que é verdadeiramente abundante - e menos a da cizânia?
Victor Hugo Oliveira
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As pessoas apresentam dificuldades em entender o mistério do Reino do Céu escondido na história desde o início dos tempos. Por essa razão, Jesus ensina através de parábolas.
No Evangelho de hoje, Jesus usa uma sequência de três parábolas para explicar com simplicidade a dinâmica do Reino do Céu.
Primeiro, Ele compara o Reino a uma plantação de trigo onde o inimigo semeia joio, que é uma erva daninha muito semelhante ao trigo e que, em algumas regiões, é conhecido como “falso trigo”. Para distinguir o joio na plantação de trigo é preciso paciência, esperar que ambos tenham tempo para crescer, e só depois colher o bom furo.
Nesta parábola, Jesus lança mão de uma cena comum do cotidiano do povo de Israel: o dono do campo que manda semear, o inimigo que procura prejudicá-lo e a surpreendente reação do primeiro ao ordenar que ambas as sementes cresçam juntas. Essa parábola pode ser compreendida à luz do ministério de Jesus que não reuniu uma comunidade só de justos e bons, mas que anunciou a sua mensagem também aos pecadores que deverão ter o tempo, dado por Deus, para o arrependimento e a conversão.
Esta parábola nos ensina que, na luta pela justiça não cabe aos empregados que farão a colheita, ou seja os seguidores de Jesus, fazer a separação entre bons e maus, pois, a semelhança entre o joio e o trigo é enorme, e só Deus, no momento certo, na hora da colheita, pode realizar tal julgamento.
Na segunda e terceira parábolas contadas por Jesus, Ele mostra como na luta pela justiça pode também acontecer a tentação do desânimo tendo em vista a oposição dos maus. As parábolas da semente de mostarda e do fermento na massa mostram que pequenas atitudes têm o poder de realizar grandes transformações, levando a refletir sobre a necessidade de perseverar. O contraste entre a ação inicial e o resultado final é usado por Jesus para deixar o Seu recado: Não desanimem!
Uma pequena semente é capaz de dar origem a uma grande árvore, e o mesmo ocorre com o fermento, onde uma pequena quantidade tem a capacidade de levedar muita massa.
Jesus instaurou um novo Reino dentro da história que é vivida por bons e maus, justos e injustos. A vinda do Reino, ou seja, Jesus entra em luta contra o espírito do mal e conduz os justos à vitória final.
Nas parábolas do joio, da mostarda e da semente, Jesus fala do Reino que acontece nesta terra, no nosso mundo. As comparações usadas por Ele não se referem ao céu, à eternidade feliz e plenamente realizada. Ele está falando deste mundo onde o bem e o mal convivem como realidades palpáveis. Até mesmo os eleitos do Senhor, eles não só devem conviver com o mal do mundo, mas também com a maldade que se imiscui entre os batizados que formam a Igreja de Jesus.
Quando a Sabedoria nos dá a entender que Deus trata essa situação com infinita paciência, ela nos diz que, se formos justos, deveremos ser humanos a “exemplo” de Deus. A figura do justo, do correto, do “certinho”, do católico observante de todas as normas nem sempre é a de alguém com sentimentos de humanidade. A pequena semente e o pouco de fermento podem parecer nada a quem julga com medidas curtas.
No entanto, a semente e o fermento têm a força inesperada do crescimento. O justo deve aprender de Deus a conviver com o pecador e tornar-se fermento de transformação na massa má e perversa. Isso ele o faz com a humildade da pequena semente e com a despretensão do pouco fermento. Contamos, afinal, com a força do Espírito, que vem em ajuda da nossa fraqueza.
Não é fácil conviver com o joio desalinhado, desorganizado, agressivo e mal-educado. Pior ainda, com o joio injusto, corrupto e explorador. A beleza do trigo que cresce a seu lado não é suficiente para convertê-lo. Há épocas em que o bom exemplo não significa quase nada. A presença amiga, silenciosa e gratuita de Deus junto a todas as suas criaturas pode ser um modelo de atividade pastoral transformadora.
Mt. 13,24-43 – Jesus conta as parábolas do joio e do trigo, da semente de mostarda e do fermento na massa ao povo que o escutava. A parábola é uma pequena história que tem que ser entendida no seu conjunto. Muitas vezes a parábola contém uma crítica que o bom entendedor entende. Jesus está falando do Reino dos Céus. Jesus nunca diz o que é o Reino dos Céus. Ele sempre faz uma comparação: “O Reino dos Céus é como...”. Assim, Ele diz que o Reino dos Céus é como o homem que semeia semente boa no seu campo. Mas depois vem um inimigo e semeia uma semente ruim. E as duas têm que crescer junto até a hora da colheita. O Reino também se parece com uma pequena semente de mostarda que depois cresce e se torna uma árvore para abrigar os passarinhos. E, ainda, o Reino é como o pouco de fermento colocado no meio da farinha e que fermenta tudo. Sb. 12,13.16-19 – O livro da Sabedoria afirma a soberania de Deus, seu poder e sua força sobre todas as coisas, e diz também que Deus governa dominando a sua própria força. É assim que Ele mostra o seu poder. E o autor sagrado conclui que assim Deus ensina que o justo deve ser humano, e aos pecadores é dada a esperança do perdão dos pecados.
Sl. 85 (86) – O Salmista proclama a bondade e a clemência de Deus para com os que o invocam e assim procedendo ele atrai as nações que virão adorá-lo.
Rm. 8,26-27 – Nossa fraqueza conta com o socorro do Espírito. Em nós o Espírito fala com o Pai e intercede em nosso favor segundo a vontade do Pai. Nós mesmos não sabemos nem o que pedir nem como pedir.
cônego Celso Pedro da Silva
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Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel
A história de Israel foi guiada pela sabedoria de Deus. O Senhor agiu com justiça e misericórdia ao punir os inimigos de seu povo. E para que ninguém acuse a Deus de ser um juiz injusto ou de ter eliminado criaturas por ele criadas, o escritor sagrado compõe uma espécie de hino à onipotência justa e misericordiosa de Deus. O poder do Senhor jamais é causa de injustiça. O agir poderoso de Deus tem finalidade pedagógica. Ele espera pacientemente que o pecador se arrependa do seu pecado (primeira leitura). O apóstolo Paulo nos apresenta o terceiro gemido: o do Espírito. A eficácia da oração cristã se fundamenta na ação do Espírito. É no Espírito que oramos como filhos de Deus.
A atuação do Espírito em nosso interior gera a harmonia e orienta a vontade de Deus (2ª leitura). Para animar as comunidades o texto do Evangelho de hoje propõe (Mt. 13,24-43) as parábolas: do trigo e do joio, do grão de mostarda e do fermento na massa. “O Reino do céu é como um homem que semeou boa semente.” Crescem o trigo e o joio. Como eles são parecidos, só na hora da colheita é possível fazer a separação. Na comunidade convivem o trigo e o joio. Há que se tolerar a convivência do bom e do mau. Na construção do Reino é preciso ter paciência e esperar a hora certa para o discernimento adequado. “O Reino do céu é como uma semente de mostarda”; “O Reino do céu é como o fermento...”. Ressalta o contraste entre início pequeno e insignificante e o final excepcionalmente grande. As parábolas são uma crítica ao triunfalismo messiânico e àqueles que esperam uma manifestação espetacular de Jesus. Deus age, pacientemente, a partir dos pequenos e dos insignificantes. O Reino de Deus se expande e chegará à sua plenitude, apesar das confusões,
das incertezas e dos obstáculos (Evangelho). Hoje, como no domingo anterior, o Evangelho, recolhendo três fragmentos do capítulo 13 de Mateus, continua expondo o mistério do Reino do céu, não a partir da Lei, mas da perspectiva do novo povo - as comunidades das primeiras gerações de cristãos. Como nós, hoje, os discípulos de Jesus queriam ter as coisas claras. Para eles, provavelmente, o Reino anunciado por Jesus, na prática, não era claro nem sua realização era transparente. Esperavam que o Mestre definisse os limites e esclarecesse as opiniões. Todavia, Jesus não só não faz o que eles esperam, como também diz que Deus não o faz nem o quer fazer. Afirma que o Reino do Céu é um campo em que tudo está misturado. A separação só será possível no
momento da colheita, e não antes. Não nos cabe, em nome de Deus, afirmar que somos bons e os outros maus; que somos do Reino e os outros, do maligno. A paciência de Deus espera até que a plantação esteja madura para fazer a separação do trigo e do joio no juízo final (a ceifa é imagem do juízo final). Ali aparecerá a verdade da comunidade: quem é justo e quem é pecador. No tempo do crescimento e do amadurecimento, justos e pecadores convivem, mas no final a sorte será diferente.
Quantas vezes, em determinadas situações da comunidade ou da sociedade, nós queremos fazer justiça com as próprias mãos: “Queres que arranquemos o joio?”. À paciência de Deus devem corresponder a tolerância e a não-violência entre os humanos. Compreender o dinamismo incontido do Reino de Deus é dom do Espírito, que intercede por nós com gemidos que as palavras não explicam. Por sua inspiração, crescemos na fé e na esperança de que um dia o Reino chegará à plenitude. Todo batizado é chamado a ser missionário do Reino. Como agimos diante das dificuldades na missão em nossa comunidade?

A liturgia do 16º domingo do tempo comum convida-nos a descobrir o Deus paciente e cheio de misericórdia, a quem não interessa a marginalização do pecador, mas a sua integração na comunidade do “Reino”; e convida-nos, sobretudo, a interiorizar essa “lógica” de Deus, deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o mundo e sobre os homens.
A primeira leitura fala-nos de um Deus que, apesar da sua força e onipotência, é indulgente e misericordioso para com os homens – mesmo quando eles praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a serem “humanos”, isto é, a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.
O Evangelho garante a presença irreversível no mundo do “Reino de Deus”. Esse “Reino” não é um clube exclusivo de “bons” e de “santos”: nele todos os homens – bons e maus – encontram a possibilidade de crescer, de amadurecer as suas escolhas, de serem tocados pela graça, até ao momento final da opção definitiva.
A segunda leitura sublinha, doutra forma, a bondade e a misericórdia de Deus. Afirma que o Espírito Santo – dom de Deus – vem em auxílio da nossa fragilidade, guiando-nos no caminho para a vida plena.
1ª Leitura – Sb. 12,13.16-19 – AMBIENTE
O “Livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante a primeira metade do séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e concepções do mundo helênico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). O seu objetivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade.
O texto que nos é proposto pertence à terceira parte do livro (cf. Sb. 10,1-19,22). Nessa parte, recorrendo, sobretudo, à técnica do midrash, o autor faz a comparação entre os castigos que Deus lançou contra os “ímpios” (os pagãos) e a salvação reservada aos “justos” (o Povo de Deus).
O autor começa por mostrar como a “sabedoria” de Deus se manifestou na história de Israel (cf. Sb. 10,1-11,14). Em contraste, vai descrever como é que Deus tratou os egípcios (cf. Sb. 11,15-20) e os idólatras cananeus (cf. Sb. 12,3-19). O texto que nos é proposto faz parte desta última perícope.
Os cananeus eram, na perspectiva dos israelitas, uma raça maldita e perversa, que cometiam crimes especialmente hediondos: “praticavam obras detestáveis, ritos ímpios, e eram cruéis assassinos dos seus filhos” (Sab 12,4-5). Deus podia tê-los eliminado rapidamente (cf. Sb. 12,9); no entanto, retardou o mais possível o castigo (cf. Sb.1 12,8), dando-lhes várias oportunidades de se arrependerem e de mudarem de vida (cf. Sb. 12,10).
MENSAGEM
Nessas circunstâncias, Jahwéh deu provas de extrema moderação e manifestou a sua bondade, a sua misericórdia, a sua justiça. Deus não tinha que provar nada a ninguém, pois ninguém lhe podia pedir contas; se agiu dessa forma equilibrada e moderada, é porque é um Deus justo. A “justiça” não é, no Antigo Testamento, a estrita aplicação da lei; mas é, sobretudo, a fidelidade à própria essência. Ora, a essência de Deus é amor, bondade e misericórdia; por isso, ser justo equivale, para Deus, a revelar amor, benevolência e bondade na sua atitude para com os homens.
O que é mais significativo aqui é que a “justiça de Deus” não se exerce sobre o Povo de Deus, mas sobre um povo “de má estirpe” e de “maldade congênita” (Sb. 12,10): é a universalidade da salvação que assim é sugerida.
Por outro lado, o autor vê neste comportamento “justo” de Deus uma lição para Israel. Que é que, desta forma, Deus ensina ao seu Povo?
Ensina, em primeiro lugar, que Deus não quer a morte do pecador, mas sim que ele se converta e viva; por isso, “fecha os olhos” diante do pecado do homem, a fim de o convidar ao arrependimento.
Ensina, em segundo lugar, que “o justo deve ser amigo dos homens” (Sb. 12,19): se a lógica de Deus é uma lógica de perdão e de misericórdia, o Povo de Deus deve adotar a mesma lógica e assumir atitudes de bondade, de amor, de misericórdia, de tolerância, nas suas relações comunitárias. Mais: a bondade e a compreensão não devem ser reservadas para aqueles que são bons, mas também para aqueles que fazem insistentemente o mal.
ATUALIZAÇÃO
• O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam ações erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada… Mas já o interiorizamos suficientemente?
• Interiorizar esta “fotografia” de Deus significa “empapar-nos” da lógica do amor e da misericórdia e deixar que ela transpareça em gestos para com os nossos irmãos. Isso acontece realmente? Qual a nossa atitude para com aqueles que nos fizeram mal, ou cujos comportamentos nos desafiam e incomodam? Faz sentido catalogar os homens em bons e maus e defendermos uma justiça implacável para com aqueles que praticam ações erradas?
• Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como “castigos” de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores… Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.
2ª Leitura – Rm. 8,26-27 – AMBIENTE
Há já alguns domingos que Paulo nos vem propondo uma catequese sobre o caminho a seguir para poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rm. 3,21-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rm. 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade (cf. Rom 8,1-39) – a comunidade do Reino.
No passado domingo, Paulo convidava os crentes a decidirem-se pela vida “segundo o Espírito”. Dizia-nos que essa opção terá uma dimensão cósmica e que ajudará a vencer os desequilíbrios e desarmonias que destroem a criação de Deus. Trata-se, no entanto, segundo Paulo, de um caminho difícil, que exige padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.
Como é que o cristão pode fazer essa opção? Como é que ele percebe, claramente, qual é o caminho? Donde recebe ele a força para viver “segundo o Espírito”?
MENSAGEM
É Deus que nos dá a força de viver “segundo o Espírito”. No entanto, devemos continuamente pedir a Deus, nosso Pai, essa graça.
Na verdade, nem sempre sabemos o que devemos pedir, pois nem sempre conseguimos discernir entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”. No entanto, o próprio Espírito Santo “vem em auxílio da nossa fraqueza” (v. 26a). O que é que Ele faz? Como é que Paulo entende a intervenção do Espírito a este propósito?
O texto não é explícito. Segundo uma interpretação, nós temos dificuldade em articular devidamente os nossos desejos e necessidades e é o Espírito que se encarrega de formulá-los em nosso lugar. Segundo outra interpretação, o Espírito junta a sua intercessão “inefável” aos nossos gemidos, fazendo com que a nossa oração chegue até Deus.
Num e noutro caso, o Espírito faz de mediador eficaz no nosso diálogo com Deus. Ele é nosso “intérprete” e intercessor, elevando-nos ao Deus que conhece o coração. E esta oração (que o Espírito dirige em nosso lugar, ou que o Espírito “apóia”) é sempre acolhida por Deus, pois está em conformidade com os planos e os projetos de Deus (v. 27).
ATUALIZAÇÃO
• Antes de mais, há neste texto um convite implícito a tomarmos consciência do amor que Deus nos dedica e da sua preocupação com a nossa salvação, com a nossa realização plena. Não somos minúsculos grãos de areia abandonados ao sabor das tempestades cósmicas num universo sem fim; somos filhos amados de Deus, a quem Ele não desiste de indicar, todos os dias, os caminhos da felicidade e da vida definitiva. Nos momentos de crise, de derrota, de falência, é preciso conservar os olhos postos nesta certeza: Deus ama-nos; por isso, oferece-nos, de forma gratuita e incondicional, a salvação.
• O Espírito de Deus, vivo e atuante na história do mundo e na vida de cada homem ou mulher é a “prova provada” do amor de Deus por nós. O Espírito oferece-nos cada dia a vida de Deus, leva-nos ao encontro de Deus, faz com que a nossa voz chegue ao coração de Deus. É preciso, no entanto, disponibilidade para o acolher e atenção aos sinais através dos quais Ele nos conduz ao encontro de Deus. Acolher o Espírito é sair do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência e procurar descobrir, com humildade e simplicidade, os caminhos de Deus, os desafios de Deus.
• O ritmo da vida moderna é estonteante… As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para refletir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida “segundo a carne” ou “segundo o Espírito”.
• O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projeto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele?
Evangelho – Mt 13,24-43 – AMBIENTE
Continuamos em contacto com as “parábolas do Reino”. O Evangelho deste domingo apresenta-nos mais um bloco de três imagens ou comparações (“parábolas”) que pretendem revelar aos discípulos e às multidões que rodeiam Jesus, a realidade do “Reino”.
Já vimos, no passado domingo, porque é que Jesus pregava por “parábolas”: porque a linguagem parabólica é uma linguagem rica, expressiva, questionante; porque a “parábola” é uma excelente arma de controvérsia, muito útil em contextos polêmicos; porque a “parábola” faz as pessoas pensar e incita-as à procura da verdade. Por tudo isto, as “parábolas” são uma linguagem privilegiada para apresentar o Reino, para incitar as pessoas a descobrir o Reino e para as levar a aderir ao Reino.
Das três parábolas que nos são hoje propostas, duas (o grão de mostarda e o fermento) procedem da tradição sinóptica; a outra (a parábola do trigo e do joio) só aparece em Mateus (além de aparecer também numa antiga coleção de “ditos” de Jesus, conhecida como “Evangelho de Tomé”).
Também desta vez percebe-se – tanto nas parábolas, como nas explicações que as acompanham – a preocupação “pastoral” de Mateus: ele não é um jornalista a transcrever o que Jesus disse; mas é um “pastor” que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé dessa comunidade cristã a que o Evangelho se dirige.
MENSAGEM
A primeira parábola que nos é proposta é a parábola do trigo e do joio (vs. 24-30). Trata-se de um quadro da vida quotidiana: há um “senhor” que semeia boa semente no seu campo, um “inimigo” que semeia o joio (nome de uma erva gramínea que nasce entre o trigo e o danifica) e “servos” dedicados, preocupados com o futuro da colheita. Tudo parece normal; o anormal é a reação do “senhor” à “crise”: dá ordens para que deixem crescer trigo e joio lado a lado e que só na altura da ceifa seja feita a seleção do bom e do mal, do que é para queimar e do que é para guardar nos celeiros.
A parábola deve ser entendida no contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras públicas, convidou um publicano a integrar o seu grupo de discípulos… Com esse comportamento “escandaloso”, Ele quis dizer a todos esses que a religião oficial excluía, que Deus os amava e que os convidava a fazer parte da sua família, a integrar a comunidade da salvação, a serem membros de pleno direito da comunidade do “Reino”.
Os fariseus consideravam inaceitável a atitude de Jesus. Para eles, quem não cumpria a Lei tinha de ser excluído do Povo santo de Deus e não tinha o direito de fazer parte do “campo” de Deus. A “lógica” dos fariseus condiz com a “lógica” de Deus?
Nesta parábola, Jesus pretende dar-nos uma lição sobre a “lógica” de Deus. Sugere que a “lógica” de Deus não é uma “lógica” de destruição, de segregação, de exclusão, mas é uma “lógica” de amor, de misericórdia, de tolerância. O Deus de Jesus Cristo é um Deus paciente e misericordioso, lento para a ira e rico de misericórdia, que dá sempre ao homem todas as oportunidades para refazer a existência e para integrar plenamente a comunidade do “Reino”. Ele tem um plano de salvação e de graça que oferece gratuitamente a todos os homens, bons e maus; depois, no tempo oportuno, ver-se-á quem são os maus e quem são os bons. De resto, não é muito fácil separar o bom e o mau, porque as duas realidades coexistem em todos os “campos”, em todos os corações.
O “senhor” da parábola é esse Deus paciente, que dá ao homem todas as oportunidades, que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
Os “servos” com excesso de zelo são os crentes (que trabalham no campo do “senhor”) rígidos e intolerantes, incapazes de olhar o mundo e o coração dos homens com a bondade, a serenidade e a paciência de Deus.
O “campo” é o mundo e a história, onde coexistem o trigo (os sinais de esperança, de vida, de amor que tornam este mundo mais belo e mais feliz) e o joio (os sinais de morte, responsáveis pelo sofrimento, pela opressão, pela escravidão). É também o coração de cada homem e de cada mulher, capaz de opções de vida e capazes de opções de morte.
Jesus garante: os métodos de Deus não passam pelo castigo imediato, pela intolerância face às opções dos homens, pela incompreensão dos erros dos seus filhos; os métodos de Deus passam por deixar os homens crescer em liberdade, integrando a comunidade dos filhos de Deus.
Nos vers. 36-43, temos a aplicação que Mateus faz da parábola do trigo e do joio à vida da sua comunidade.
Nesta “explicação”, o eixo central da parábola original passa a ser outro. A problema já não é se na “lógica” de Deus o trigo e o joio podem crescer juntos, mas é a questão do “juízo” que espera bons e maus: Mateus insiste que, no “dia da colheita” (imagem que, nos profetas, se identifica com o dia do “juízo de Deus” sobre os homens e o mundo), os bons receberão a recompensa e os maus receberão o castigo.
Estamos nos finais do séc. I (década de 80). Já passou o entusiasmo dos primeiros anos; a vida das comunidades cristãs é marcada pela monotonia, pela falta de entusiasmo e empenho, pela mediocridade, pelo laxismo. Os cristãos aburguesaram-se e nem sempre vivem de forma empenhada e comprometida a sua fé. Como despertar de novo nos crentes o entusiasmo inicial?
Mateus vai usar os métodos dos pregadores do seu tempo… Recorrendo à linguagem e aos símbolos da apocalíptica, Mateus lembra aos cristãos da sua comunidade o juízo futuro de Deus. Os símbolos utilizados (o joio queimado no fogo, a fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes) destinam-se a impressionar os crentes, a obrigá-los a inflectir os seus esquemas de vida e a voltar à fidelidade ao Evangelho. Portanto, não temos aqui uma descrição de como será o “fim do mundo”; o que temos aqui é um convite urgente e emocionado à conversão, ao aprofundamento do compromisso com Jesus e com o Evangelho.
O Evangelho deste domingo propõe-nos ainda duas outras parábolas: a parábola do grão de mostarda (vs. 31-32) e a parábola do fermento (v. 33). São duas parábolas muito semelhantes, quer quanto ao conteúdo, quer quanto à forma.
Numa e noutra, o quadro é o mesmo: sublinha-se a desproporção entre o início e o resultado final. O grão de mostarda é uma semente muito pequena, que no entanto pode dar origem a um arbusto de razoáveis dimensões; o fermento apresenta um aspecto perfeitamente insignificante, mas tem a capacidade de fermentar uma grande quantidade de massa. Estas duas comparações servem para apresentar o dinamismo do “Reino”. O “Reino” anunciado por Jesus compara-se ao grão de mostarda e ao fermento: parece algo insignificante, que tem inícios muito modestos e humildes, mas contém potencialidades para encher o mundo, para o transformar e renovar. Trata-se de um dinamismo de vida nova que começa como uma pequena semente lançada à terra numa província obscura e insignificante do império romano, mas que vai lançar as suas raízes, invadir história dos homens e potenciar o aparecimento de um mundo novo.
Com estas parábolas, Jesus responde às objeções daqueles que não acreditavam que da mensagem de um carpinteiro de Nazaré, pudesse surgir uma proposta de vida, capaz de fermentar o mundo e a história. Ele garante-nos que o “Reino” é uma realidade irreversível, que veio para ficar e para transformar o mundo. Escutar estas parábolas é receber uma injeção de ânimo e de esperança, capaz de levar a um compromisso mais sério e mais exigente com o “Reino”.
ATUALIZAÇÃO
• O Evangelho deste domingo garante-nos, antes de mais, que o “Reino” é uma realidade irreversível, que está em processo de crescimento no mundo. É verdade que é difícil perceber essa semente a crescer ou esse fermento a levedar a massa, quando vemos multiplicarem-se as violências, as injustiças, as prepotências, as escravidões… É difícil acreditar que o “Reino” está em processo de construção, quando o materialismo, a futilidade, o comodismo, a procura da facilidade, o efêmero sobressaem, de forma tão marcada, na vida de grande parte dos homens e das mulheres do nosso tempo… A Palavra de Deus convida-nos, contudo, a não perder a confiança e a esperança. Apesar das aparências, o dinamismo do “Reino” está presente, minando positivamente a história e a vida dos homens.
• Na verdade, falar do “Reino” não significa falarmos de um “condomínio fechado”, ao qual só tem acesso um grupo privilegiado constituído pelos “bons”, pelos “puros”, pelos perfeitos”, e de onde está ausente o mal, o egoísmo e o pecado… Falar do “Reino” é falar de uma realidade em processo de construção, onde cada homem e cada mulher têm o direito de crescer ao seu ritmo, de fazer as suas escolhas, de acolher ou não o dom de Deus, até à opção final e definitiva. É falarmos de uma realidade onde o amor de Deus, vivo e atuante, vai introduzindo no coração do homem um dinamismo de conversão, de transformação, de renascimento, de vida nova.
• Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não prevêem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem “todo o tempo do mundo” para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a “paciência” de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.
• A “paciência de Deus” com o joio convida-nos também a rejeitarmos as atitudes de rigidez, de intolerância, de incompreensão, de vingança, nas nossas relações com os nossos irmãos. O “senhor” da parábola não aceita a intolerância, a impaciência, o radicalismo dos “servos” que pretendem “cortar o mal pela raiz” e arrancar o mal (correndo o risco de serem injustos, de se enganarem e de meterem mal e bem no mesmo saco). Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar, como se as coisas fossem claras e tudo fosse, sem discussão, claro ou escuro… A Palavra de Deus convida-nos a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos (com as suas falhas, defeitos, diferenças, comportamentos religiosa ou socialmente incorretos) com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.
• Convém termos sempre presente o seguinte: não há o mal quimicamente puro de um lado e o bem quimicamente puro do outro… Mal e bem misturam-se no mundo, na vida e no coração de cada um de nós. Dividir as nações em boas (as que têm uma política que serve os nossos interesses) e más (as que têm uma política que lesa os nossos interesses), os grupos sociais em bons (os que defendem valores com os quais concordamos) e maus (os que defendem valores que não são os nossos), os indivíduos em bons (os amigos, aqueles que nos apóiam e que estão sempre de acordo conosco) e maus (aqueles que nos fazem frente, que nos dizem verdades que são difíceis de escutar, que não concordam conosco)… é uma atitude simplista, que nos leva frequentemente a assumir atitudes injustas, que geram exclusão, marginalização, sofrimento e morte. Mais uma vez: saibamos olhar para o mundo, para os grupos, para as pessoas sem preconceitos, com a mesma bondade, compreensão e tolerância que Deus manifesta face a cada homem e a cada mulher, independentemente das suas escolhas e do seu ritmo de caminhada.
P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
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"É Deus quem me ajuda, é o Senhor quem defende a minha vida. Senhor,
de todo coração hei de vos oferecer o sacrifício, e dar graças ao vosso nome, porque sois bons" (Sl. 53,6.8).
É necessária a paciência para fazer a vontade de Deus. A sagrada liturgia deste 16º domingo do tempo comum nos leva a refletir sobre o joio e o trigo. O joio representa o mal. O trigo simboliza o Reino de Deus na terra.
Os homens, indistintamente, experimentam do bem e do mal. Todos já praticaram o bem e o mal. Saber viver bem é uma sabedoria que vamos buscar perscrutando os caminhos do Senhor Ressuscitado.
A resistência ao espírito do mal e a perseverança no bem se chama paciência. Os pecadores, ou seja, todos os homens e mulheres que decaem no pecado são convocados a retornarem ao aprisco do Senhor ou adentrarem no Reino das Bem-Aventuranças.
A primeira leitura nos leva a refletir que Deus julga com brandura e exerce seu poder com benevolência. Deus infunde nos justos a coragem, a esperança e a capacidade de amar. Amar sem limites, amar sem reducionismos, amar o pecador e repudiar o pecado.
Deus não precisa prestar contas aos homens. Sua grandeza, Ele a demonstra julgando com benignidade, pois Ele tem suficiente poder; Deus não é escravo de sua própria força. Contrariando nossa impaciência e intolerância, Deus aguarda que talvez o injusto ainda se converta.
A parábola do joio e do trigo nos ensina que é preciso ter presente na vida quotidiana a paciência. Uma virtude difícil, mas necessária dentro da normalidade dos eventos da vida diária.
Em tempos em que o homem se orgulha de dominar as tecnologias, as pessoas e as coisas, Jesus vem ensinar que a paciência é a virtude básica de vivificar os mistérios da fé e vencer as adversidades da vida presente.
Hoje os homens gostam de viver o imediato, o hedonismo desvairado. As relações sociais e amorosas são passageiras e efêmeras, o que não gera compromisso. A juventude conjuga o verbo "ficar", enquanto é necessário com prudência "degustar" as virtudes humanas com intensidade, perpetuidade e paciência, sempre deixando fixos os olhos para a escatologia, para o céu, para a visão beatífica de Deus.
O homem moderno não suporta mais o sofrimento, a derrota, as adversidades, a resignação. É próprio desta sociedade procurar uma solução para tudo e para todos os problemas. Não se tem paciência nem para as coisas espirituais. As pessoas não compreendem mais o tempo de Deus, o tempo da graça, o tempo da conversão, o tempo da amizade com o Senhor Ressuscitado.
O homem hoje quer satisfações imediatas. O homem quer eliminar os seus opositores, cortando etapas, abrindo caminhos tortuosos, antiéticos.
Entretanto, as coisas de Deus, as coisas do Reino do Divino Salvador acontecem lentamente, e muitas vezes, com sofrimento e resignação. Por causa disso muitos hoje não enxergam a beleza do arco-íris, do por do sol, a leveza das plantas, o perfume dos campos, a grandiosidade da criação e do crescimento das plantações.
Jesus trouxe o tempo da graça e da salvação. Jesus compara este tempo com o plantio e o crescimento do trigal. O Reino de Deus na sua realização terrena, embora sendo de graça e santidade, não nos dispensa da paciência diante do mal e da luta paciente contra o mal, que é o pecado que nos distancia do Senhor Jesus.
Muitos se revoltam contra Deus perguntando por que existe ou coexiste no mundo o Mal. O homem tenta explicar as guerras, a fome, à exclusão social, à falta de emprego, de comida, de dignidade. Mas o homem não consegue explicar o mal que provém do Mistério (cf. 2Ts. 5,2-7).
O homem que é colocado diante do mal deve resistir e superar o mal. Isso é sua obrigação. Se Deus é o exemplo da paciência é sempre bendito o esforço humano para vencer o mal. Isso é paciência. Uma luta, ou seja, um combate espiritual contra o mal que somente será totalmente vencido ou superado no céu.
O Reino de Deus é o trigal. Cristo veio semeá-lo em nossos corações e na nossa sociedade. É trigo bom, de amor, de justiça, de verdade, de perdão, de misericórdia. Somos uma comunidade de santos e de pecadores. Neste contexto todos somos convidados para a conversão, começando pelas pequenas coisas, até chegar às grandes coisas de nossa vida quotidiana. É na paciência que o Evangelho nos ensina que, com prudência e grade força de vontade, que os homens são convidados a lutarem contra o mal, contra o pecado, contra o príncipe das trevas, voltando par ao aprisco do trigal celestial, pela mediação da Santa Igreja católica.
A segunda Leitura de hoje mereceria uma atenção especial, como descrição daquilo que chamaríamos "espiritualidade". Pois, para muitas pessoas, espiritualidade é uma espécie de conquista de si mesmo, um treinamento militar, uma ascese, tanto que, antigamente, "ascese e espiritualidade" eram estudadas no mesmo tratado teológico. Ora espiritualidade cristã existe quando o Espírito de Cristo vive em nós, toma conta de nós. Isto não tem nada que ver com ascetismo, uma vez que o Espírito adota até a nossa fraqueza. Nós nem sabemos rezar como convém, mas "o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis" (cf. Rm 8,26). Portanto, o importante é deixar-se envolver por este Espírito e não expulsá-lo pela auto-suficiência de nosso próprio espírito. Aliás, da nossa fraqueza, o Espírito de Cristo é que consegue dar conta; o nosso, dificilmente.
Para falar do Reino de Deus, Jesus usa as parábolas. Compara o Reino a um agricultor que lança na terra a boa semente. Fala também de uma mulher que põe o fermento na massa para que o bolo cresça. Semente e fermento é o próprio Jesus. É ele quem faz acontecer no mundo o Reino de Deus. Na sociedade há pessoas que se preocupam com a vida e com a paz e há outras que resistem ao Projeto de Deus e geram o mal no mundo. Ao celebrar o mistério Pascal de Jesus, somos chamados a ser boa semente e testemunhar a justiça e o amor que vêm do coração do Pai.
padre Wagner Augusto Portugal

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