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I N T E R N A U T A S -M I S S I O N Á R I O S

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Andando sobre as águas

19º DOMINGO Tempo Comum

Evangelho - Mt 14,22-33

ANDANDO SOBRE AS ÁGUAS


10 de Agosto de 2014

Ano A

-ANDANDO SOBRE AS ÁGUAS-José Salviano



            O vento era contrário. Por sua vez, os discípulos na barca enfrentavam um forte vento do lado oposto, que representa as dificuldades dessa vida as quais enfrentamos com muita dificuldade quando estamos sem Deus... Leia mais...



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“SENHOR, SALVA-ME!” – Olívia Coutinho

19° DOMINGO COMUM

Dia 10 Agosto de 2014

Evangelho de MT 14,22-33

Quem abraça a fé, não caminha sozinho, não se deixa levar pelos ventos contrários!
Confiar em Jesus, é  a nossa maior riqueza, Ele é o sinal por excelência do amor do Pai! Ligados a Ele, encontraremos meios capazes de transformar  qualquer realidade contrária à vida.
Jesus nos chama a exercer um determinado serviço, a assumir  livremente uma missão!  Quem diz “sim” ao seu chamado, se compromete em gastar a vida para que outros  tenham mais vida!
É importante descobrirmos qual é o nosso compromisso como  Igreja na sociedade! A vocação nos direciona ao serviço, a sermos construtores de um reino de justiça e de paz, na família, na comunidade e na sociedade! Colocarmos a serviço da vida já é responder a nossa vocação, é posicionarmos contrários a qualquer atitude que provoque sinais de morte!
A certeza de que Jesus  nunca se distancia de nós, nos encoraja na missão,  nos tira das margens e nos faz  avançar para águas mais profundas!
O evangelho que a liturgia deste domingo nos apresenta, nos coloca na barca de Jesus, enfrentando os mesmos desafios que os  primeiros discípulos enfrentaram na trilha da fé! 
O texto chama a nossa atenção para  a essencialidade da fé! Sem uma fé firme, com raízes profundas, não tem como  vivermos bem  a nossa vocação, pois a vocação é o exercício da fé.
Assim como os discípulos tiveram dificuldades em atravessar  para outra margem,  nós também, temos dificuldades em  atravessar o mares impetuosos  da nossa vida para chegar ao outro!
 A narrativa nos diz, que Jesus, depois da multiplicação dos pães, quando Ele  passou para os discípulos  a responsabilidade de alimentar uma multidão: “(Dai-lhes vós mesmos de comer”) ensinando-os a  partilhar,  manda-os  entrar na barca e irem para outra margem, isto é,   irem ao encontro de outros povos.
Podemos dizer, que Jesus  já  estava preparando  os discípulos para caminharem sem a sua presença física! Até então, eles eram totalmente dependentes da presença física de Jesus, o que não poderia continuar, já que após a sua volta para o Pai,  seria eles, os responsáveis em  conduzir  a sua barca.
 Em obediência a Jesus, os discípulos entram na barca e seguem sozinhos mar à dentro. Mas Jesus, assim como os pais  observam seus  filhos  nos seus primeiros passos, observa-os de longe, sem os perder de vista!   Jesus vê, quando eles são surpreendidos pelos ventos contrários em alto mar, e  vai ao encontro deles andando sobre as águas.
Os discípulos, tomados pelo medo  não o reconhece Jesus e  mesmo ele dizendo” Coragem! Sou eu’  Pedro exigiu-lhe uma prova: “ Senhor, se  és tu, manda-me ir a teu encontro caminhando sobre a água.” Pedro desce da barca e começa a andar sobre  as águas. Sentindo-se inseguro, imediatamente recorre a Jesus: Senhor Salva-me”.  E Jesus,  estende a mão, e  segura Pedro. A partir de então houve uma calmaria, os ventos cessaram , e os discípulos  prostraram diante de Jesus dizendo: Verdadeiramente tu és o Filho de Deus!”
Na sua insegurança, Pedro demonstrou que ainda dependia da presença física de Jesus, ele ainda não tinha uma fé suficiente madura para entender que até mesmo à distancia, Jesus  o salvaria, como Ele curou o empregado de um soldado romano, à distancia. (Lc 7,6-7)
Assim como Pedro vacilou várias vezes na fé, nós também vacilamos, mas o importante,  é fazer como Pedro: exercitar a fé, buscando Jesus! A fé é construção, que se desenvolve através de um processo lento, que vai se solidificando à medida em que buscamos Jesus.
Quem tem fé, nunca perde a esperança e nem se deixa abater diante às dificuldades, pois carrega consigo, a certeza de que em Jesus, está o seu porto seguro! 
Quando somos surpreendidos pelas ondas do mar revolto e ficamos a - deriva,  podemos ter a certeza de que Jesus vem ao nosso encontro. Hoje, Ele não vem na sua roupagem, como foi ao encontro  dos discípulos, Jesus   vem até a nós, escondido no coração de um amigo, ou até mesmo de um estranho. O que importa, não é como Jesus chega até a nós, o importante é que Ele  vem nos salvar!

FIQUE NA PAZ DE JESUS!- Olívia Coutinho

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Evangelhos Dominicais Comentados

10/agosto/2014 – 19o Domingo do Tempo Comum

Evangelho: (Mt 14, 22-33)

Novamente estamos juntos para refletir a Palavra de Deus. O evangelho de hoje nos mostra a importância de acreditar sempre. Nada tem sentido sem fé. Tudo é obscuro e os caminhos não têm saída. Entretanto, basta uma pequena demonstração de que acreditamos e Deus logo se manifesta para comprovar que está atento e sempre por perto.
“Vem!” – disse Jesus. Bastou esse chamado. Pedro ouviu e saiu caminhando por sobre as águas para encontrar-se com Jesus. Começou bem sua caminhada. Impressionante sua fé inicial. Parecia até que chegaria enxuto, junto ao Mestre. 
Parecia... mas, não foi o que aconteceu. No primeiro vento forte, na primeira grande onda, sentiu medo, deixou de acreditar e começou a afundar. É difícil imaginar Pedro se afogando. Eu diria, sem medo de errar, que esse pescador era também um excelente nadador.
Certamente, sabia nadar. Passou a maior parte de sua vida encharcado por aquelas águas que conhecia como ninguém. Aquelas águas faziam parte do seu dia-a-dia, no entanto, de um minuto para o outro, elas se transformaram num monstro invencível, num caminho intransponível.
A princípio, corajosamente atirou-se na água. Pedro queria aproximar-se de Jesus, queria seguir seus caminhos. Pular na água, para ele, era coisa rotineira. A grande diferença é que agora teria que vencer as ondas andando sobre as águas e não mais nadando, como habitualmente, fazia.
Quando saímos da rotina, quando muda o método tradicional... quando as coisas já não andam mais como planejamos, o medo toma conta, invade o nosso íntimo e afundamos. Um velho ditado diz que, nesses momentos, “nos afogamos num copo de água”.
Realmente, é impossível sobreviver sem Jesus. Ele é nosso “Colete Salva-Vidas”. Sem Jesus, parecemos marinheiros de primeira viagem diante das ondas e da maré bravia do dia-a-dia. Parece que o Salvador anda longe e esquecido de nós. Parece tão distante aquela mão amiga.
Na verdade, nos momentos difíceis, o nosso comportamento é igualzinho ao de Pedro. Queremos chegar até Jesus, segurar em suas mãos, sentir a firmeza de seus braços e abraçá-lo, mas fraquejamos ao trilhar seus caminhos. Nas horas difíceis, deixamos de lado a nossa fé, duvidamos da força daquele braço estendido permanentemente.  
Vamos juntos em direção desse Deus que nos ama, que caminha conosco e que não nos abandona jamais. Junto Dele, nem os ventos, nem a fúria do mar poderão esmorecer a frágil embarcação da nossa vida. Com muita fé, vamos caminhar de mãos dadas com Jesus, o Caminho Seguro que nos leva ao Pai.

 (1567)





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A Escritura deste domingo fala-nos de um Deus que é grande demais, misterioso demais, inesperado e surpreendente demais para que possamos enquadrá-lo na nossa lógica e no nosso modo de pensar. Eis, caríssimos! Uma grande tentação para o homem é achar que pode compreender o Senhor, enquadrar seu modo de agir e dirigir o mundo com a nossa pobre e limitada lógica... Mas, o Deus verdadeiro, o Deus que se revelou a Israel e mostrou plenamente o seu Rosto em Jesus Cristo, não é assim! Ele é Misterioso, é Santo, é livre como o vento do deserto!
Pensemos nesta misteriosa e encantadora primeira leitura, do Livro dos Reis. Elias, em crise, fugindo de Jezabel, caminha para o Horeb; ele quer encontrar suas origens, as fontes da fé de Israel. Recordem que o Horeb é o mesmo monte Sinai, a Montanha de Deus. Elias tem razão: nos momentos de dúvida, de crise, de escuridão, é indispensável voltar às origens, às raízes de nossa fé; é indispensável recordar o momento e a ocasião do nosso primeiro encontro com o Senhor e nele reencontrar as forças, a inspiração e a coragem para continuar. Pois bem, Elias volta ao Horeb procurando Deus. Lembrem que no caminho ele chegou a desanimar e pedir a morte: "Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!" (1Rs. 19,4). No entanto, o Senhor o forçou a continuar o caminho: "Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho" (1Rs. 19,7). Pois bem, Elias caminhou, teimou em procurar o seu Deus, mesmo com o coração cansado e em trevas; assim, chegou ao Monte de Deus! Mas, também aí, no seu Monte, Deus surpreende Elias – Deus sempre nos surpreende! O Profeta espera o Senhor e o Senhor se revela, vai passar... Mas, não como Elias o esperava: não no vento impetuoso que força tudo e destrói tudo quanto encontra pela frente, não no terremoto que coloca tudo abaixo, não no fogo que tudo devora... Eis: três fenômenos que significam força, que causam temor, que fazem o homem abater-se... E o Senhor não estava aí. Muito tempo antes, quando foi entregar a Moisés as tábuas da Lei, Deus se manifestara no fogo, no vento e no terremoto: "Houve trovões, relâmpagos e uma espessa nuvem sobre a montanha... E o povo estava com medo e pô-se a tremer... Toda a montanha do Sinai fumegava, porque o Senhor desceu sobre ela no fogo... e toda a montanha tremia violentamente" (Ex. 19,16.18). Mas, agora, o Senhor não está no vento impetuoso nem no terremoto nem no fogo... Elias teve de reconhecê-lo, de descobrir sua Presença no murmúrio da brisa suave! – Ah, Senhor! Como teus caminhos são imprevisíveis! Quem pode te reconhecer senão quem a ti se converte? Quem pode continuar contigo se pensar em dobrar-te à própria lógica e à própria medida? Tu és livre demais, grande demais, surpreendente demais! Não há Deus além de ti; tu, que convertes e educas o nosso coração! Elias te reconheceu e cobriu o rosto com o manto, saiu ao teu encontro e te viu pelas costas... Pobres dos homens deste século XXI, que tão cheios de si mesmos, querem te enquadrar à própria medida e, por isso, não te vêem, não te reconhecem, não experimentam a alegria e a doçura da tua Presença!
E, no entanto, meus irmãos, as surpresas de Deus não param por aí! O mais surpreendente ainda estava por vir. Não havia chegado ainda a plenitude do tempo! Pois bem! Na plenitude do tempo, veio a plenitude da graça: Deus enviou o seu Filho ao mundo; ele veio pessoalmente! Não mais no vento, não mais no fogo, não mais no terremoto, não mais pelos profetas! Ele veio pessoalmente, ele, em Jesus: "Quem me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos uma coisa só" (Jo 14,9; 12,45). Por isso mesmo, São Paulo afirma hoje claramente que "Cristo, o qual está acima de todos, é Deus bendito para sempre!" É por essa fé que somos cristãos, meus irmãos! Jesus é Deus, o Deus Santo, o Deus Forte, o Deus Imortal, o Deus de nossos Pais! Nele o Pai criou todas as coisas, por Ele o Pai tirou Abraão de Ur dos Caldeus, por Ele o Pai abriu o Mar Vermelho, por Ele, deu o Maná ao seu povo, sobre Ele fez os profetas falarem e, na plenitude dos tempos no-lo enviou a nós! Surpreendente, o nosso Deus; surpreendente como vem a nós!
Lá vamos nós, lã vai a Igreja, no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade porque a barca da vida é agitada pelos ventos... e Jesus vem ao nosso encontro, caminhando sobre as águas! Em Jesus, Deus vem vindo ao nosso encontro, em Jesus, vem em nosso socorro... E, infelizmente, confundimo-lo com um fantasma, etéreo, irreal. E ele no diz mais uma vez: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!” Atenção para esta frase do Senhor: “Coragem, EU SOU! Não tenhais medo!” EU SOU! É o nome do próprio Deus como se revelou no deserto! Deus de Moisés, de Elias, Deus feito pessoalmente presente para nós em Jesus Cristo!
Então digamos como Pedro: “Senhor, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre á água!” Ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida! Todos temos de pedir isso, de fazer isso! Peçamos sim, como Pedro, mas não façamos como Pedro que, desviando o olhar de Jesus, colocando a atenção mais na profundeza do mar e na força do vento que no poder amoroso e fiel do Senhor, começou a afundar! Assim acontecerá conosco, acontecerá com a Igreja, se medrosos, olharmos mais para o mar e a noite que para o Senhor que vem a nós com amor onipotente! E Deus é tão bom que, ainda que às vezes, façamos a tolice de Pedro, podemos ainda como Pedro gritar de todo o coração: “Senhor, salva-me!” Salva-nos, Senhor, porque somos de pouca fé! Salva tua Igreja, salva cada um de nós das imensas águas do mar da vida, do sombrio e escuro mar encrespado na noite opaca de nossa existência! Tu, que durante a noite oravas e vias o barco navegando com dificuldade, do teu céu, olha para nós e vem ao nosso encontro! E tu vens! Sabemos que vens na graça da Palavra, no dom da Eucaristia e de tantos outros modos discretos... Cristo-Deus ajuda-nos a reconhecer-te, a caminhar ao teu encontro, vencendo as águas do mar da vida!
dom Henrique Soares da Costa

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Chamados no mar de injustiças e contradições humanas
Estamos iniciando o mês de agosto. A tradição popular identifica o mês de agosto como mês do desgosto, do azar, do cachorro doido, dos ventos, etc. Neste mês, a igreja propõe para as comunidades a reflexão em torno ao tema da vocação: Cada domingo é dedicado, respectivamente, a uma delas: sacerdócio, pai, religiosa e leiga.
Vocação vem do latim: vocare – chamar. Muitos, pensando na profissão, dizem que não têm vocação para isso ou aquilo. Outros pensam que somente padres e religiosos (as) é que têm vocação. As duas afirmativas procedem. Faremos bem algo quando temos vocação para tal. Muitos até exercem uma profissão sem o devido sacerdócio, isto é, a dedicação. Imagine se um médico não está disponível quando um doente precisar dele. Vocação tem muito a ver com a intensidade e paixão no fazer e consequente felicidade. Quando o teólogo alemão completou bodas de vida sacerdotal, perguntaram-lhe pelo segredo da felicidade, e ele respondeu sabiamente: “Se você quer ser feliz por um dia: vá pescar; se quer ser feliz por um mês: case-se; se quer ser feliz por toda a vida: faça tudo com intensidade a cada minuto de sua vida”. Neste primeiro domingo de agosto, dediquemo-nos a refletir sobre a vocação sacerdotal. No último dia 4, celebramos o patrono dos padres, São João Maria Vianey, homem dedicado ao sacerdócio, que, no seu tempo, soube responder com eficácia ao chamado de Deus. Nas leituras de hoje, veremos que Deus chama o profeta Elias; Jesus convoca Pedro para caminhar sobre as águas do mar; Paulo fala, com tristeza, da não correspondência de seus compatriotas, os israelitas, ao chamado de Deus.
1ª leitura (1 Reis 19,9ª 11-13a)
Deus chama na brisa leve e convoca o profeta para uma missão conflituosa.
Elias, o grande profeta do povo judeu, é relembrado anualmente no jantar da ceia pascal. Os judeus deixam à mesa uma cadeira vazia para Elias e o recebem nas casas com uma taça de vinho. O livro de Malaquias atesta a promessa divina da volta de Elias, antes do Dia do Senhor, de modo que ele possa fazer voltar o coração dos pais para os filhos (Ml. 3,23-24). Não por menos, muitos cristãos acreditam que Jesus, o Messias, morreu invocando Elias (Mt. 27,47.49). A trajetória profética de Elias foi marcada, sobretudo, pela saída do palácio do rei. Com ele, se o rei precisasse ouvir o conselho de um profeta, teria que ir aonde povo estava, pois ali se encontrava o profeta. Elias multiplicou a farinha e o óleo de uma pobre viúva (1Rs. 17,7-16); ressuscitou o filho de outra, em Serepta (1Rs. 17,17-24); provocou seca; fez descer fogo do céu; predisse a chegada da chuva; degolou 450 profetas de Baal, após o sacrifício no monte Carmelo (1Rs. 18). Por tudo isso, Elias foi chamado de “homem de Deus” pelas pobres viúvas, mas, de assassino, pela rainha de Israel, Jezabel. Elias restaurou, em Israel, a fé em Javé, o Deus libertador. Tendo realizado todos esses feitos e vendo a perseguição bater às suas portas, Elias teve medo e fugiu para o monte Sinai. Qual outro Moisés que, após matar o soldado egípcio que matara o seu irmão de sangue, defendendo os direitos de seu povo, fugiu da casa do Faraó, onde teria sido criado (Ex. 2,11-3,22). Chegando ao monte Sinai, após quarenta dias e quarenta noites, fato simbólico que relembra a peregrinação do povo no deserto, Elias entra numa gruta. Deus lhe pede que saia e revela-se para ele em uma brisa suave (v. 12). Neste mesmo lugar, Deus havia se manifestado por meio de trovões, luzes, terremotos. Com Elias é diferente. Deus fala por meio de uma brisa suave. Muitos interpretam esse fato vocacional na vida de Elias como um chamado à serenidade, própria de Deus e do seu escolhido. Mesmo que essa afirmativa seja verdadeira, não é bem assim a missão dada a Elias, que os versículos posteriores retratam: Elias teria que descer do monte e retomar o caminho, ungir Hazael como rei de Aram; Jeú, rei de Israel e Eliseu, profeta em seu lugar. E o que é mais drástico: todos os três deveriam provocar uma matança geral, resguardando sete mil homens fiéis, que não aderiram a Baal (v. 18).
A vocação de Elias é marcada por: contato próximo de Deus; falar em nome de Deus; medo ao assumir a missão e suas consequências inevitáveis; denunciar as injustiças sociais; defender os pobres; purificar a religião por um estado que governa em nome de Deus e, se preciso for, matar os opositores de Javé. Aos nossos ouvidos pode soar estranho esse último ponto de sua vocação. Não podemos simplesmente, de forma anacrônica, justificar essas suas atitudes em nossos dias. Assim viveu Israel, nos primórdios de sua fé. A vocação sacerdotal, sobre a qual estamos refletindo, neste domingo, tem muito de Elias. Deus o chama ao sacerdócio, isto é, ao serviço de ser ‘ponte’ entre o povo de Israel e Deus. Elias tem medo, pois a sua missão não é fácil. O idílico do chamado na brisa leve vai muito além, no enfretamento aos desafios hodiernos de uma religião comprometida com a justiça social. O sacerdote, se não for, como Elias, um homem de oração e de serviço, não poderá corresponder ao chamado de Deus.
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Evangelho (Mt. 14,22-33)
Segura nas mãos e vai... na fé
O evangelho de hoje, dando continuidade ao do domingo anterior, o da multiplicação dos pães, mostra Jesus subindo ao monte para rezar. No fim da tarde, ele volta caminhando sobre o mar. Os discípulos, com medo, pensam que se tratava de um fantasma. Jesus se apresenta e os convoca a ter fé. Pedro dialoga com ele e sai caminhando sobre o mar. Quando duvida, começa a se afogar, mas Jesus o acolhe pela mão. Os discípulos manifestam a fé em Jesus como Filho de Deus. Esse é o conteúdo do evangelho que ouvimos. Em que ele ilumina o tema de nossa reflexão, a vocação sacerdotal? Vejamos. Jesus caminha firme sobre o mar. Ele poderia realizar tal proeza, pois era o Filho de Deus. O mar é o lugar do medo, do não dominado, do mal, do não conhecimento humano, de onde vinha o leviatã, o demônio. O medo que vem do mar é contrastado, no evangelho, como o medo dos discípulos. Para o mar, Jesus havia enviado uma legião de porcos – animais impuros como o mar -, e possuídos de demônios, assim como a legião de romanos (Mt. 8,28-34). Pedro, a pedra, representa aquele que tem pouca fé e vacila no caminho. A mão de Deus, Jesus, o segura nas dificuldades e amaina o vento forte que vem do mar. A barca é o lugar seguro, apesar do mar violento e perigoso. Aqui vale lembrar a música: “Se as águas do mar da vida quiserem te afundar, segura nas mãos de Deus, e vai”... O sacerdote, assim como todo cristão, é chamado a enfrentar as dificuldades do ‘mar da vida’, a ter fé, apesar do medo. Caminhar sempre, professar a sua fé em Jesus, o Filho de Deus. E, assim como Jesus, buscar força na oração nos ‘montes’ da vida. Para o povo da Bíblia, o monte era o lugar da proximidade com Deus. O padre, fraco na fé, como Pedro, humano como outro humano qualquer, celebra ‘in persona Christi’ os sacramentos. Testemunhando, no altar e na vida, a paixão, morte e ressurreição de Jesus, o Filho de Deus.
2ª leitura (Rm. 9,1-5)
Quem nos separará do amor de Deus
Paulo, que de perseguidor dos cristãos, por causa da vocação – chamado de Deus que lhe aparece na pessoa do ressuscitado -, transformou-se em um homem de muita fé, contrário a Pedro do evangelho de hoje. A preocupação de Paulo, sobretudo no trecho que hoje ouvimos da Carta aos romanos, reside no fato de os seus parentes na carne, os israelitas, não demonstrarem fé em Cristo, descendente dos patriarcas e Deus bendito pelos séculos. Paulo tem consciência de que Deus escolhe Israel como seu povo e com ele fez uma aliança eterna. Paulo tem esperança de que os seus compatriotas iriam compreender o mistério da revelação de Deus em Jesus. Os judeus tinham Paulo como inimigo e traidor deles (At.21,28). Paulo manifesta sua fé na divindade de Jesus. Essa questão percorreria longos séculos de discussão entre os cristãos, até o consenso final, no Concílio de Calcedônia, em 451, em que a igreja criou o dogma de fé na Trindade. Essa decisão, no entanto, provocou o surgimento de outra religião, o islamismo, que não aceitou a divindade de Jesus (Cf. FARIA, Jacir de Freitas, Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos – Poder e heresias! 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2010, p.147). Como Paulo, o sacerdote e os cristãos são chamados a testemunhar a fé em Cristo, Deus bendito pelos séculos.
Pistas para reflexão
Refletir e celebrar com a comunidade o valor do sacerdote, sua dimensão de serviço profético e animação da fé.
Não se esquecer de comentar os vários contra testemunhos de padres. Fazer uma leitura positiva, como momento de graça e de renovação da vocação sacerdotal. Pedir a oração da comunidade para o clero.
Perguntar como Deus se nos revela hoje, chamando-nos para uma missão no mundo marcado pelo consumismo e pela alienação. Perguntar pela vocação de cada um e o medo que nos impossibilita de realizá-la.
frei Jacir de Freitas Faria, ofm

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Experimentar Deus
Bela e admirável a aventura daqueles e daquelas que buscam a Deus. Não existe projeto mais audacioso e mais belo do que este de tentar ouvir a Palavra daquele que fala sem ter lábios, que escuta sem ter ouvidos, que abraça sem ter braços. Não se trata apenas do encontro com noções a respeito de Deus nem com caricaturas que costumam ser feitas dele. Trata-se de experimentar Deus na vida. O teólogo Karl Ranner afirmava, em meados do século passado, que o cristão dos tempos novos ou seria místico ou não seria nada. Ou faria uma experiência de Deus ou não seria cristão.
As Escrituras gostam de mostrar as manifestações de Deus no alto de uma montanha e no silêncio das grutas. Aliás, todos os místicos seguiram a mesma trilha. Temos hoje o texto do livro do Reis em que Elias faz uma particular experiência de Deus. O profeta anda desalentado e desanimado. A palavra de Deus lhe é dirigida durante a noite. "Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar". Será preciso esperar essa "passagem" do Senhor. Três elementos da natureza simbolizam "espaços" onde o Senhor não está. Primeiro trata-se de um vento impetuoso que destruía tudo. Ali não estava o Senhor. Vem depois uma movimentação violenta da terra, um terremoto, mas também ali não estava o Senhor. Não estava também no fogo. Elias vai experimentar a presença do Senhor num leve murmúrio de brisa, na suavidade das coisas sem estardalhaço, no murmúrio do silêncio. " E depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu pôs-se à entrada da gruta". Interiormente o profeta tem a certeza da presença do Senhor. E adora o Altíssimo. No silêncio e na suavidade o Senhor se manifestou como se nos manifesta quando caminhamos em sua presença no tecido cotidiano de nossa existência, quando o nosso coração bate ao compasso do coração de Deus.
A experiência nos atesta que tocamos uma proximidade de Deus no templo, quando nos retiramos do bulício e deixamos nos revestir de silêncio. Muitos dias e tardes de oração silenciosa são ocasiões privilegiadas para preparar o coração em vista de uma eventual aproximação de Deus. Há aqueles que fazem a experiência do Senhor saboreando os salmos em comunidade ou em particular. Outros afirmam que fazem a experiência do Senhor frequentando o rosto dos mais abandonados. Francisco de Assis, o grande amante das grutas e do silêncio, faz questão de assinalar que deixou o mundo das vaidades e da mentira quando encontrou o leproso e cuidou dele com todo carinho.
Mateus descreve uma acidentada travessia do mar em meio a gigantescas turbulências. "A barca, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário". Experiência de medo, de insegurança.... Há um momento em que Jesus se aproxima andando sobre as águas. Sofrendo os abalos do mar agitado pensavam os discípulos que Jesus fosse um fantasma... Passam a experimentar medo. Pedro não tem coragem de caminhar sobre as águas. Todo um quadro que mostra a fragilidade dos apóstolos. Hoje acontecem na Igreja outras tempestades: fragilidade dos cristãos, uma Igreja que tem dificuldade em evangelizar a cultura do provisório, do individualismo, da descartabilidade, do aqui e agora. Nem sempre a Igreja se dá conta que Jesus está caminhando sobre as águas. Fragilidade da fé e, ao mesmo tempo, experiência de Deus. "Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente tu és o Filho de Deus".
Assim, se experimenta a proximidade e o amor de Deus.
frei Almir Ribeiro Guimaeães
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O Deus da brisa mansa
Certo dia, frustrado com a incredulidade que ele encontrava na sua luta contra os ídolos em favor do Deus único, Elias fugiu das mãos de Jezabel para a montanha de seu Deus, quase que para provocá-lo a mostrar novamente sua força e a esmagar aqueles que passaram os seus profetas ao fio da espada (1Rs. 19,9-10). Deus o mandou esperar no cume da montanha. Passou um vento violento, mas Deus não estava no vento violento; houve um terremoto, mas Deus não estava no terremoto; houve fogo, mas Deus não estava no fogo. Depois, ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira, então, Elias cobriu o rosto e escutou a voz de Deus (1ª leitura).
Deus não está necessariamente nas coisas grandiosas ou violentas. Apesar da violência dos homens, Deus está naquilo que significa paz e refrigério. Dentro da brisa mansa, ele confia a Elias uma nova missão. A religiosidade mágica facilmente acredita que Deus se manifesta na tempestade. Mas ele se manifesta acalmando a tempestade. Assim, ele se manifestou em Cristo, diante dos apóstolos, que estavam lutando contra o vento no barco do lago de Genesaré (Mt. 14,22-33).
Por trás dessa narração está um mundo de mitologia. O mar era o domínio de Leviatã, o monstro marinho, uma vez considerado como um deus, mas, mais tarde, desmitologizado até anjo ou diabo. A tempestade era a força do inimigo, acreditavam os supersticiosos pescadores galileus. Ora, depois da multiplicação dos pães (cf. dom. passado) Jesus tinha deixado seus discípulos atravessarem sozinhos o lago de Genesaré.
Ei-los agora confrontados com essas forças, às quais eles atribuíam uma origem maliciosa (evangelho). Aí Jesus inventa dar um passeio andando sobre as ondas. Simão Pedro (só o evangelho de Mateus conta este detalhe) se sente logo animado e quer, sobre as ondas, ir ao encontro de Jesus. Mas de repente vê novamente diante de si o vento e as águas e perde a confiança em si, mas não em Jesus, pois grita “Senhor, salva-me” (cf. tb. salmo responsorial). O que Jesus faz, não sem lhe censurar a falta de fé. E então, com um gesto que revela toda sua majestade, Jesus acalma as ondas. Agora, os discípulos reconhecem-no como o Senhor, o Filho de Deus, e adoram-no.
O Deus que se manifesta em Jesus Cristo não é de tempestade, não é um Leviatã, mas um Deus rico em misericórdia e fidelidade (cf. aquela outra manifestação na montanha, Ex. 34,5-6). O que não quer dizer: um Deus de moleza - pois ele tem mais força que a tempestade. Mas ele quer que não tenhamos medo. Não é um Deus que reina na base do medo, mas da confiança, da fé. Ora - e esta é a segunda consideração -, a fé deve ser mais do que um momento passageiro de entusiasmo. Se for só isso, logo de novo vamos, como Pedro, ver surgir o Leviatã de todos os lados. Fé de fogo de palha é pouca fé para Cristo (23). É o que aconteceu com Pedro. “Se és tu, manda-me vir...” (a frase condicional mostra que ele ainda duvidava se era Jesus, manifestando-se como Filho de Deus, ou um fantasma, algum Leviatã; cf. Mt. 14,26).
Na 2ª leitura inicia a segunda grande parte de Rm: nos caps. 9-11, Paulo confessa sua paixão para o povo de Israel, do qual ele é membro - embora tenha de combater o legalismo farisaico. Ele mesmo gostaria de ser condenado se, com isso, os seus irmãos judaicos tivessem a salvação (Rm.9,3). Palavra forte, mas não mero exagero: Paulo sabia que seria impossível que eles estivessem pura e simplesmente perdidos. O plano de salvação, mesmo aberto aos gentios, vale também para os judeus. Como? Isso veremos nos próximos domingos. De toda maneira, tanta confiança tem Paulo no plano de Deus que pode dizer: se Israel for totalmente rejeitado, então, eu também!
Acreditamos num Deus que salva (salmo responsorial), que ouve o nosso clamor (canto da entrada), um Deus da mansidão (1ª leitura). Assim, ele se dá a conhecer em Cristo (evangelho). Para nos inteirarmos disso, precisamos de fé, não passageira, mas constante (evangelho, oração final).
Johan Konings "Liturgia dominical"

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Evangelho: Mt. 14,22–33
1. O trecho de hoje pertence à parte narrativa do 4º livrinho de Mateus (13,53 a 17,27): o seguimento do Mestre da Justiça.
2. No trecho do domingo passado vimos Jesus inaugurando com os pobres e explora dos uma nova humanidade, onde o comércio é substituído pela partilha dos bens da criação (comércio x partilha). A partilha é o grande milagre capaz de saciar a todos. E a abundância do que sobra será capaz de matar a fome de tantos outros.
3. O texto de hoje inicia com uma afirmação estranha: Jesus obriga os discípulos a entrar na barca e seguir, à sua frente, para o outro lado do mar (v. 22). Três coisas chamam atenção:
3.1. Jesus obriga os discípulos a embarcar (é a única vez que o verbo obrigar aparece em Mateus). Jesus, no episódio anterior, mostrou que a partilha é a regra de ouro para o mundo do novo. O ideal da partilha é confiado, agora, aos que O seguem. Ele os obriga a continuar o que acabou de fazer.
3.2. Os discípulos têm que atravessar o mar. O texto sintetiza bem a situação de uma comunidade em missão, em meio a dificuldades e tentativas de implantar o projeto de Deus.
3.3. Os discípulos são mandados à outra margem do lago, em território pagão, para semear as sementes do mundo novo: é o aspecto universal da missão da comunidade cristã.
4. Jesus passa a noite em oração (v. 23): no texto de hoje (como no domingo passado) temos novamente Jesus subindo ao monte para rezar. No evangelho de Mateus só há duas menções de Jesus rezando sozinho (cf. 26,36ss). A barca, já longe da terra, era batida pelas ondas, pois “o vento era contrário” (v. 24). O vento contrário são as resistências ao projeto de Deus. A fragilidade da barca, a noite, o vento contrário dão a dimensão exata da fragilidade, da obscuridade e dos desafios enfrentados pelas comunidades cristãs, sementes do Reino da Justiça. O mar fala da dimensão itinerante do cristianismo, abrindo caminhos desconhecidos.
5. Jesus vai ao encontro dos discípulos de madrugada, andando sobre o mar (v. 25). Andar sobre o mar é prerrogativa divina (cf. Jó 9,8; 38,16). E a menção à madrugada pode ser entendida como referência à manhã da ressurreição. Em Mateus Jesus é o Deus conosco (cf.1,23) para sempre (cf.28,20). A memória disso o torna presente, sobretudo nas horas difíceis da “travessia”.
6. Contudo, há sempre o risco de não captar sua presença nos acontecimentos considerando-o um fantasma (v. 26). Jesus se dá a conhecer como Deus presente que liberta das dificuldades: “sou eu!” (v. 27: em grego “ego eimi”, que recorda a revelação do Nome divino em Ex. 3,14). O contato com sua Palavra dá coragem e afasta o temor. A expressão “coragem!” possui no NT, duas conotações:
1. Tomar coragem depois de algo que assustou e fez desfalecer (9,2.22; Mc. 10,49);
2. Abastecer-se de coragem em vista dos desafios futuros ou das perseguições (cf. Jo 16,33; At. 23,11). O encorajamento de Jesus tem essas duas dimensões.
7. Os vv. 28-31 são breve cena dentro do conjunto maior. Aparece Pedro desejando andar sobre as águas (= participar da condição divina de Jesus). A cena mostra que Pedro reconhece Jesus como Senhor que tem poder de superar os desafios (v.28), mas revela também a insegurança e inconstância dos que, desejando superar os obstáculos, se detêm mais nas dificuldades do que na força dAquele que enviou e chama “Vem!”
8. Demonstra também que nem Pedro nem os cristãos superaram ainda a compreensão de que – ao participar da vida e do projeto de Jesus – devem enfrentar desafios e obstáculos e não querer que Jesus resolva tudo com um milagre. O cristão é chamado a viver o projeto de Deus em meio a uma sociedade que rejeita esse projeto e que põe obstáculos e dificuldades.
9. A repreensão “Homem fraco na fé, por que você duvidou?” (v. 31) vale para todos. A dúvida é o oposto ao risco ante os desafios. Não é o risco que faz afundar, mas a dúvida paralisante: “quem enfrenta desafios arrisca errar; quem não arrisca, erra sempre!”
10. Os vv. 32-33 salientam dois aspectos importantes:
1. Ao subir na barca, o vento cessou, ou seja, a comunidade reconhece que Jesus caminha com ela e conta com sua força. A memória da presença do Deus conosco é determinante para atravessar qualquer tempestade;
2. Essa memória leva ao reconhecimento de quem é Jesus: ajoelharam-se diante dele, dizendo: “de fato, tu és o Filho de Deus!”
1ª leitura: 1Rs. 19,9a.11–13a
11. Com o massacre dos 450 profetas de Baal (1Rs.18) Elias livrara o Reino de Israel da catástrofe nacional e da idolatria que sustentava e fomentava a exploração do povo sob o reinado de Acab. Contudo, esse episódio fez explodir a fúria de Jesabel, (esposa do rei e patrocinadora do culto a Baal), que decreta a morte de Elias.
12. O profeta foge rumo ao sul, atravessando o Reino de Judá e entrando no deserto. Deseja morrer, mas Javé o nutre com misterioso alimento, atraindo-o ao monte Horeb (= Sinai), lugar da Aliança de Deus com seu povo.
13. A situação e experiência de Elias são semelhantes às de Moisés, depois que o povo pecou (cf. Ex. 32-33). Ambos experimentam Deus em momentos de profundas crises no seio do povo. A ambos Deus se mostra próximo e íntimo, dialogando com eles.
14. A forma de Elias experimentar Deus é diferente da de Moisés (cf. Ex. 33,18-23).
- Javé não está no furacão que racha as montanhas e quebra os rochedos, nem no terremoto ou no fogo, elementos ordinários das teofanias do Êxodo (cf. também 2Sm. 22,7-16; Is. 29, 6; Sl. 50,3; 97,3-5), mas no murmúrio de uma brisa suave, quase imperceptível.
15. Uma experiência nova que Elias faz de Deus não mais nos fenômenos espetaculares da natureza. Por quê? Qual o sentido dessa nova experiência? Segundo as narrativas mitológicas de Ugarit, Baal era o deus da tempestade, senhor do trovão e do raio diante dos quais a terra entrava em pânico (terremoto) A vitória de Javé sobre Baal (cap.18) não quer afirmar que ele toma o lugar do deus da tempestade.
16. É uma experiência totalmente diferente, “outra”: Deus se manifesta nas coisas mais imperceptíveis, como a brisa da manhã. Não é mais a majestade que apavora e espanta, mas que cativa e transmite serenidade. Esta é a novidade da experiência de Deus. Só Javé é capaz de “fazer sair” da caverna para a comunhão e compromisso com ele. Só Javé pode ser considerado Deus.
17. Vento e fogo estão associados à vida de Elias, homem impetuoso e fogoso por caráter. Sua missão (antes e depois dessa experiência) o demonstra: era um demolidor. Contudo, encontra Deus na solidão da montanha e no silêncio da brisa mansa (longe do tumulto). Ouvindo o vento suave ele percebe a presença de Javé e cobre o rosto com o manto.
18. Esse texto, ao invés de erroneamente apoiar certa fuga aos compromissos e lutas próprias do cristão, deve servir como “refontização” (beber da fonte cristalina) em vista da luta pela justiça desejada por Deus. É a mística dos que enfrentam a idolatria (e… quantas idolatrias e baals não têm hoje em dia… talvez, mais do que antes!), particularmente a dos poderes absolutistas e tiranos dos governantes sobre os órfãos, as viúvas, os estrangeiros, os desqualificados, os pobres de Deus.
2ª leitura: Rm. 9,1–5
19. Os capítulos 9 a 11 de Romanos tratam da fidelidade de Deus e da incredulidade de Israel. A grande angústia de Paulo foi a rejeição que seus irmãos de carne e osso, de raça, opuseram ao anúncio do Evangelho. De fato, desde a sua conversão até a estada em Roma, Paulo se esforçou por anunciar o projeto de Deus aos de sua raça. Em troca recebeu rejeições, acusações e perseguição sistemática.
20. Estando em Corinto, ele escreve aos Romanos fazendo-os partilhar de sua angústia e dor. A rejeição do evangelho por parte dos parentes de Paulo “segundo a carne” criava obstáculos à própria evangelização no meio dos pagãos.
21. Paulo inicia sua argumentação com plena consciência de estar dizendo a verdade em Cristo, apelando para o testemunho do Espírito Santo (v. 1). Ele não entende o porquê da rejeição. E sua dor é tamanha (v. 2) que, para conduzí-los a Cristo, desejaria ser amaldiçoado por Cristo (v.3), isto é, privado da comunhão com Jesus (cf. também Gl 1,9). É possível ver nesse gesto de Paulo a repetição do pedido de Moisés, que põe em jogo a própria vida para salvar o povo: “agora, ou perdoas seu pecado,… ou risca-me do teu registro” (Ex. 32,32).
22. A seguir Paulo elenca oito privilégios dos israelitas como prova do amor de Deus: “a adoção filial, a glória, as alianças, a lei, o culto e as promessas; a eles pertencem os patriarcas e deles é o Cristo segundo a carne” (v.4-5a). Nota-se um crescendo da fidelidade de Deus, que vai da adoção de Israel como povo eleito até o fato de Cristo ter nascido no meio deles.
23. Paulo constata que o projeto de Deus sofre resistências exatamente por parte dos que receberam as maiores provas da fidelidade de Deus. Contudo, sua preocupação não é a de estimular a polêmica, pelo contrário, aceita inclusive ser amaldiçoado por Cristo para que o impasse seja superado. Sua vida não conta quando se trata de encontrar formas a fim de que o projeto de Deus seja aceito por todos. Ele crê firmemente que Deus não abandonou seu povo, pois a fidelidade divina permanece inalterada.
24. E o que dizer, hoje, quando o projeto de Deus encontra tantas resistências até no seio das próprias comunidades cristãs, nas legislações que não levam em conta o bem comum, a justiça, a igualdade, a solidariedade, a paz social? Não é um escândalo que cristãos rejeitem Cristo nos necessitados? Não é escandaloso quando nos dividimos em tantas Igrejas, sendo Cristo um só? Quem é capaz de ter os sentimentos de Paulo?
R e f l e t i n d o
1. O Deus da brisa mansa… No monte, na brisa suave Deus fala a Elias. Deus não se encontra no raio, trovão, na tempestade… no barulho, na agitação… mas sim no silêncio da oração no monte. Elias foge para muito longe, passa pelo deserto… e Deus o leva para o monte. … Jesus sobe ao monte para orar a sós. É preciso encontrar Deus, experimentar Deus, sentir Deus, conviver a sós com Deus para re-encontrar o sentido e o valor da existência e da vida. É preciso silenciar o coração para ouvir Deus. Deus não está na agitação, mas na calma e na tranqüilidade.
2. Elias, fogoso e impetuoso, descobre o Senhor numa brisa tênue, num sussurro que mal se ouve. Primeiro, teve de afastar-se da cidade, atravessar o deserto, subir à solidão da montanha. Depois, teve de descobrir a ausência de Deus nos elementos barulhentos. Finalmente, calado o tumulto, cessadas todas as vozes, surge a presença que surpreende: “Então, Elias ouviu uma voz: o que fazes aqui, Elias?” (1 Rs 19,13).
3. Na 1ª. leitura, Elias, fugindo de Jezabel, desanimado e cansado de lutar contra tanta incredulidade face a tantas “mostras” da bondade do Deus verdadeiro, e, desejando a morte para si mesmo, Deus o leva ao monte Horeb onde tinha se manifestado a Moisés (o monte do encontro com o Deus da Aliança). Elias procura e espera por Deus, e esse Deus não se faz presente nos ventos e terremotos e fogo. Apresenta-se-lhe numa brisa e lhe diz para retomar o caminho. … Encontra-se com Deus… Deus o reanima… e o reenvia novamente em missão.
4. No evangelho vemos que, – depois da multiplicação dos pães, Jesus manda os discípulos sozinhos atravessarem o mar. Ele fica na montanha para rezar. No meio da noite defrontam-se os discípulos com a tempestade e ficam apavorados. Jesus vai até eles andando sobre as águas da tempestade. E os convida à confiança: “coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” A presença do Senhor acalma a tempestade, restabelece o equilíbrio e a serenidade, renova a confiança.
5. Deus é precedido pela tempestade, mas domina-a. É na calmaria que ele dirige a palavra a Elias. É na calmaria que, dominadas as ondas do mar, Jesus fala aos discípulos e dissipa-lhes o pânico. A mensagem parece chamar a atenção para o ponto central: acreditar na presença confortadora do Senhor. Ele está presente. Ele vence as dificuldades e obstáculos.
6. Simão Pedro se entusiasma e quer, sobre as ondas, ir ao encontro de Jesus. Mas, de repente, vê novamente diante de si o vento e as ondas … e perde a confiança e começa a afundar. Desesperado grita ao Mestre: “salva-me!”. Aí vemos o incrível: Jesus estende a mão e o segura. Novamente a “presença“ de Jesus salva. Ele quer que não tenhamos medo. Não é um Deus que reina na base do medo, mas da confiança, da fé. A fé deve ser mais que um momento passageiro de entusiasmo. … Se for só isso, logo de novo, vamos como Pedro, começar a afundar.
7. A vida se faz de alternâncias, mas a fé no Senhor não deve faltar nunca. No evangelho, depois de Jesus ter abençoado, partido e distribuído os pães entre a multidão e os discípulos, ele os envia a atravessar o mar (= missão nova e dificuldades à vista). Os textos de hoje alertam para não esquecer nunca da presença do Senhor: confiança e fé que garantem a vida diante das dificuldades.
8. A alternância entre a multiplicação, a saciedade, a fartura, o conforto, o prazer, a satisfação e as dificuldades, os obstáculos, as contrariedades, os problemas, as limitações, os desafios nos alertam para a realidade da vida. A vida é para ser vivida, apesar das dificuldades e com os problemas. Estes nunca podem levar ao desânimo. O trabalho e o esforço diário é que constroem a vida e constroem o Reino de Deus. Nada de valor se conquista sem sacrifício.
9. Entre a memória da bênção, do partir e do distribuir os pães e a confissão de fé no Senhor Jesus, os discípulos atravessam o mar sacudido por uma tempestade (as adversidades da vida). Um ambiente propício ao sentimento de medo. E é exatamente dentro dessa experiência de medo dos discípulos, no mar bravio, é que eles descobrem a presença do Senhor. Mas não é de imediato. Antes pensam em fantasma. Só depois brota a fé. Assim é a vida: como Elias teve de esperar e permanecer firme frente ao vento, ao terremoto, ao fogo; como os discípulos tiveram de permanecer na barca mesmo em meio às ondas da tempestade, assim acontece conosco ao sobrevivermos firmes e fiéis (= com fé) até que nossa fé reconheça que o Senhor Jesus está presente e nos dá a certeza da paz (shalom). Jesus é a própria manifestação da presença e da bondade divinas. O evangelho realça esta verdade: assim que subiram à barca, o vento se acalmou”. Cessa o medo, dando lugar à coragem própria de quem é forte na fé e não duvida da presença de Deus que salva a vida mesmo em meio às tempestades da vida.
10. Atravessar o mar! … Ir pelo mundo construindo o projeto e o Reino de Deus. Como Deus fez com Elias, que estava cansado e desanimado perante tantas dificuldades e obstáculos, alimentando-o, encontrando-se com ele na brisa, e o enviando de novo em missão, também faz conosco. Não nos devem assustar os problemas. O que nos deve guiar é a certeza de que estamos com Jesus: Aquele que venceu a morte, Aquele que ressuscitou, Aquele que se faz presente sempre. Esta é a garantia da nossa fé. Esta é a garantia da nossa existência e da nossa história.
11. No meio das tempestades da vida, como aconteceu com os apóstolos, também nós não percebemos de imediato a presença de Deus. Para eles era um fantasma. Para nós é… o vazio, o desalento, a descrença, a desesperança. Acontece que é preciso deixar de lado e para trás as luzes do mundo que obnubilam nossa visão para enxergar – na fé na Palavra de Deus – a presença do Ressuscitado.
12. Como a Pedro, também a nós é dirigido a advertência de Jesus: “homem fraco na fé, por que duvidaste?” A confissão da fé: “verdadeiramente és o Filho de Deus” precisa ser mais freqüente na nossa vida, para que quando houver momentos de dificuldades, possamos estar mais fortalecidos. Este é um dos grandes objetivos da celebração dominical da Memória do Senhor Jesus que nos renova, nos fortalece e nos re-envia em missão.
13. Quantas vezes esbravejamos e questionamos Deus a respeito da nossa vida. Estamos por demais cansados e esgotados pelos problemas da vida. É hora de voltar e olhar para Elias. Ele também já estava exausto e pediu a morte. E o que Deus fez? Alimentou-o com um alimento misterioso. Fortaleceu-o e mandou-o caminhar em frente. E Deus o levou para um encontro com ele no alto da montanha, longe do barulho e do tumulto.
14. Também nós precisamos parar para nos encontrar – na calma e na tranqüilidade (pois é só aí que o Senhor se manifesta) – com o Deus da nossa vida que nos quer falar, que tem algo a nos dizer. Façamos silêncio e o deixemos falar para que nosso coração possa ouví-lo e interiorizar sua Palavra, sua mensagem, sua indicação de rumo a seguir.
15. Subir a montanha … afastar-se das vozes, das correrias, do tumulto, das preocupações, dos problemas, dos negócios, dos projetos, das ansiedades, das necessidades criadas, do telefone, do celular, do computador … e de tantas outras coisas que pré – enchem a nossa vida. Afastar, deixar de lado, deixar ao pé da montanha e subir sozinho para estar com Deus, para ouvir Deus, para sentir Deus, para acalmar o coração no coração de Deus, para rezar. Esta é a grande descoberta: estar com Deus refaz a nossa vida, garante uma vida mais plena e mais feliz, restaura a serenidade e a paz de viver. Estar com Deus nos faz descobrir que estamos conosco, que nos descobrimos, que nos conhecemos e nos aceitamos como somos e “como” queremos viver esta vida que Deus nos colocou nas mãos.
16. Encontrar-nos com Deus é encontrar-nos com sua Palavra para descobrir o Deus misericordioso sempre presente e sempre pronto a nos estender a mão. Nossa vida – nossa travessia do mar – é cheia de desafios. Deparamo-nos com dúvidas, limitações, medos, dificuldades, obstáculos, perseguições… Conhecer Jesus, estar com Jesus, confiar em Jesus e em sua Palavra é que não nos deixa afundar. Com Jesus a travessia pode não ser sem sobressaltos, mas estará segura a chegada ao porto porque temos quem garante não só a travessia, mas a vida, a nossa vida!
17. Olhando ao nosso derredor, vemos crescer o individualismo, crescer a ganância desenfreada, crescer a corrupção… Os costumes e os valores antigos não “valem” mais. A ética não existe. O respeito, o bom senso, a honestidade, a verdade, o bem, o direito, o justo parecem esquecidos para sempre. Numa sociedade globalizada o que vale é ter dinheiro e poder desfrutar sem medidas: o que vale é a satisfação pessoal e o prazer. O resto não importa. Os outros não importam.
Perante todo esse barulho: - nós queremos ouvir Jesus Cristo a nos dizer a sua proposta de Reino de Deus; - nós queremos estar com ele para aquietar o coração e nos comprometer com o seu projeto; - nós queremos ouvir sua Palavra para redescobrir o eixo da criação. Redescobrir o jardim projetado e querido pelo Pai; - nós queremos redescobrir os valores para ajudar a reconstruir esse jardim.
- Quem garante? Ele garante e nele nós confiamos! Mais do que nós estarmos com Ele, Ele está conosco, porque foi Ele quem por primeiro nos amou!
18. INTERESSANTE NOTAR QUE os textos de hoje nos remetem à reflexão do 16º Domingo Comum do dia 17.07.2011. (aqui estão alguns pensamentos)
18.1. Celebração dominical é o momento para ouvir Deus mais do que lugar para nossos inumeráveis pedidos. Para ouvir é preciso silenciar a nossa voz, silenciar o nosso coração. É preciso fazer silêncio para ouvir Deus!
18.2. Nossa celebração deve levar-nos a Deus e não levar nossos problemas e preocupações de tal forma que fiquemos atordoados e não tenhamos tempo de ouvir se Deus tem alguma coisa a nos dizer. Viemos para celebrar o Mistério pascal do Cristo morto-ressuscitado-vivo!
18.3. Momento de celebração é momento de preencher o coração da harmonia e da paz de Deus, pois já vivemos a semana inteira na correria, no estress, no meio do barulho ensurdecedor! Temos direito e necessidade de um momento de “paz verdadeira e intensa”, restauradora de nosso coração para a semana que começa. Só o Espírito, que age na brisa, restaura, recompõe, reconforta, reanima, recoloca nossa alma na paz do Senhor para voltarmos a caminhar nos caminhos do Senhor.
18.4. E hoje aqui nesta igreja… eu também vim para ouvir Deus!
18.5. E você que também veio para orar… Lembre-se de que Deus falou a Elias na brisa. Ele também quer falar comigo e com você na brisa da tarde ou na brisa da manhã.
- Ajude a criar um clima de calma e tranqüilidade em nossa igreja, para que nosso coração possa ouvir Deus.
- Não faça barulho, não deixe as crianças correrem pela igreja, não converse para não atrapalhar quem precisa desse momento sagrado de encontro para restaurar seu coração marcado pelas agruras da vida.
- não se esqueça de que há pessoas que trazem o coração marcado por dores tão profundas que necessitam do bálsamo que só Deus, o nosso Pai, pode dar.
- É um momento único e que não voltará mais.
- Respeitemos esse momento de Deus tão especial para mim e para você e para todos.
No silêncio e na paz desse templo queremos ouvir o que Deus tem a nos dizer!
E o Senhor passou na brisa da tarde!
prof. Ângelo Vitório Zambon
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1. A nossa vida se decide na nossa confiança em Deus. A vida, a final de conta, é um problema de fé. Agimos conforme aquilo que acreditamos. Se tivermos a humildade de entrarmos em nós mesmos para analisarmos a fonte dos nossos atos, das nossas decisões, descobriremos a origem que impulsiona o nosso agir. Por isso é importante saber em que Deus acreditamos, e aonde o buscamos. As leituras de hoje nos ajudam bastante a esclarecer este assunto e é por esta razão que agora tentaremos aprofundá-las.
2. “Depois do fogo ouviu-se um murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta” (1Rs 19, 12-13).
Estes dois versículos fazem parte da narração do ciclo de Elias. O profeta, nas horas triste da persecução, se refugiou no deserto em busca de uma resposta de Deus. E Deus se apresentou. O interessante da narração é como Deus apareceu. Ele, de fato, não se manifestou em nenhuma das forças naturais que chamassem atenção, como o vento, o terremoto, o fogo, mas sim no murmúrio de uma leve brisa. Quer dizer isso? Em primeiro lugar, podemos dizer que esta manifestação de deus nos ensina a nos despir das nossas falsas idéias de Deus. Deus não está aonde a gente acha que seja: Deus é imprevisível. Isso requer, então, atenção, desejo de encontrá-lo, busca constante. A vida de fé é caracterizada por este caminho em busca de Deus, que nos convida a sair do comodismo das nossas opiniões mais ou menos erradas sobre Deus, para buscar o Deus verdadeiro, o Deus que se manifesta na historia através da sua Palavra. É só este Deus que nos salva e nos conduz no caminho de uma vida autentica. Em secundo lugar, a maneira de Deus se manifestar por Elias revela um dato importante, ou seja, que o encontro com Ele exige silêncio, atenção, desejo de encontrá-lo. Não podemos pensar de encontrar Deus na bagunça da nossa vida desordenada, feita de barulho, confusão. Deus se manifesta no silencio da montanha e no murmúrio de uma leve brisa que, para captá-lo precisa de um esforço pessoal, além de um clima especial de silêncio. Em ultimo lugar a experiência de Elias nos ensina que Deus para se manifestar ao homem não precisa das grandezas, das aparências. Aquilo que aconteceu com Elias é um traço típico do Deus da Bíblia, que escolhe aquilo que é humilde, silencioso, escondido, que não aparece para se manifestar à humanidade. É a lógica de Deus que confunde os nosso pensamentos humanos e nos provoca para irmos a sua procura não conforme os critérios humanos,mas para nos deixarmos conduzir, para aprendermos a ser dóceis a Ele, à sua Palavra.
3. “Jesus subiu ao monte para orar a sós. A noite chegou e Jesus continuava ali, sozinho” (Mt. 11,23).
A mesma experiência de Elias a encontramos na vida de Jesus, com uma diferença. De fato, enquanto por Elias tratou-se de uma experiência toda especial, na vida de Jesus, o encontro com o seu Pai no silencio da noite é algo de natural, corriqueiro. Jesus é acostumado a rezar e noite, a se entregar na oração de noite, mergulhando no silencio. Acho este dato importantíssimo. Depois de um dia pesado – Jesus tinha acabado de realizar a multiplicação dos pães – Jesus busca logo o dialogo silencioso com o Pai, apontando para nós o caminho da oração autentica. Não podemos pensar de encontrar o Deus verdadeiro dedicando para ele poucos minutos dos nossos dias e, sobretudo, poucas orações repetidas de pressa. O relacionamento com Deus exige tempo e exige, sobretudo o desejo de encontrá-lo, de fazer a sua vontade. É isso que é visível na vida de Jesus, que constitui por nós um exemplo. Jesus em cada momento da sua vida nunca fez nada sozinho, mas sempre procurou a idéia do Pai, a sua vontade, a sua opinião. A oração de Jesus não é uma rotina, um dever para ser cumprido, mas sim um desejo profundo da alma, uma necessidade existencial. Na maneira de Jesus rezar, encontramos o caminho que devemos percorrer se quisermos aprender o justo relacionamento com Deus. Seguindo Jesus devemos aprender a buscar a Deus sempre, a buscá-lo com todas as nossas forças, para fazer de tudo para que Ele entre na nossa vida em qualquer momento. É este o grande ensinamento de Jesus: não somos sozinhos para enfrentar os problemas da nossa vida, mas temos um Deus que é um Pai para nós e, por isso, devemos nos acostumar a dialogar com Ele, a escutá-lo, a render sempre mais pessoal o nosso relacionamento para com Ele. Só desta maneira sairemos daquela religiosidade superficial que nos deixa sentados nesta vidinha amorfa, insossa, para caminharmos na busca de uma vida mais autentica, mais criativa, numa palavra, mais conforme ao ensinamento de Jesus.
4. “Coragem sou eu não tenham medo” (Mt. 14,27).
A imagem central do Evangelho de hoje é extremamente rica de conteúdos pela nossa vida de fé. Perante uma situação de perigo representada pelo barco agitado por causa das ondas e do vento contrario, a narração mostra duas maneiras diferentes de agir. De um lado os discípulos apavorados também pela presença de Jesus que caminha sobre as águas, do outro o mesmo Jesus que perante esta situação permanece tranqüilo e caminha sobre as águas. A água do mar, no imaginário bíblico é o símbolo do caos, daquilo que é desconhecido e que inquieta. Isso vale ainda mais quando as águas são agitadas por causa do vento. Caminhando sobre elas Jesus mostra que existe uma maneira para dominá-las, para não deixar que o caos, as intempéries da vida atrapalhem a existência. Jesus entra no mar de madrugada, ás três horas da manhã, depois de ter passado horas dialogando com o Pai. O relacionamento profundo com Deus ajuda a ver as coisas de uma forma diferente d como o mundo a enxerga e, sobretudo, a não deixar que nada perturbe e desoriente o sentido da vida. Podemos viver no mundo, no meio das situações mais difíceis e complicadas sem deixar que estas mexem conosco, somente se tivermos um relacionamento profundo e autentico com o Senhor. Parece-me ser este o grande ensinamento do Evangelho de hoje. O grito do medo dos discípulos é o grito do medo de todo um povo que vive no mar da vida com auto-suficiência, se achando o dono da própria vida, vivendo o próprio relacionamento com Deus como algo de secundário, não importante. Somos e vivemos na medida que abrimos a nossa existência ao Senhor da vida e da historia: somente assim poderemos enfrentar as ondas do mar da vida com coragem, na certeza que que confia em Deus nunca ficará desamparado.
padre Paolo Cugini
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Viver é confiar
O Evangelho nos apresenta, hoje, o tema da fé. E o faz de uma maneira bastante visual, com um exemplo que todos podemos entender. Crer é parecido, de alguma maneira, a sair da segurança de um barco durante uma tempestade e lançar-se às águas. É isto que Jesus pede que Pedro faça. De alguma forma o desafia a confiar nele. No entanto, Pedro vacila porque se sente inseguro. É possível que nós, em muitas ocasiões, nos sintamos inseguros como Pedro e, assim, busquemos por uma segurança que – como ele – não encontraremos.
Muitas vezes desejaríamos que a fé fosse o resultado de uma demonstração científica. Ou, talvez, que um milagre ou algo extraordinário provocasse a nossa fé. No fundo, Supõe-se que a fé nos coloque em relação com Deus.· E Deus é considerado, nesses casos, como um ser distante, poderoso e, até mesmo, perigoso para a vida das pessoas. Como não nos sentimos seguros diante dele, queremos provas convincentes.
Na realidade, a fé é a atitude básica sobre a qual é estabelecida qualquer relação. Um exemplo bem claro disso encontra-se na relação de amor de um casal. Nenhum dos dois jamais poderá dizer que está certo do amor do outro ou da outra. Ele ou ela apenas tem sinais: sorrisos, palavras, carícias, telefonemas... Mas nada mais. Esses indícios confirmam o amor, mas nunca são provas concludentes. No final, cada um ou cada uma deve dar um passo à frente e confiar. E acreditar no outro.
Com Deus acontece exatamente o mesmo. Não há outro caminho senão confiarmos nele. Porque não temos e não teremos jamais provas cabais de sua existência. Apenas obteremos testemunhos. Um testemunho maior: Jesus, que passou a vida fazendo o bem, curando os enfermos e amando a todos que encontrava pelo caminho, precisamente em nome de Deus, nos disse que o seu amor era fruto do amor de Deus e que devemos confiar nele. E temos muitos outros testemunhos. Os homens e mulheres que o seguiram confiaram nele e viveram amando e realizando o bem. Mas não temos provas desse amor. Devemos confiar. No evangelho de hoje, Jesus nos convida a nos lançarmos na água, a viver sem medo e a confiar no amor de Deus. Convida-nos a acreditar nele e confiar que com Ele podemos evitar os perigos da vida. Porque o seu amor está sempre conosco.
Sou capaz de confiar nas pessoas com as quais vivo? Ou talvez tenha se instalado em meu coração uma desconfiança extrema? A fé consiste em acreditar que Deus está ordenando a vida e a história para o bem. Acredito e confio dessa maneira em Deus? Colaboro com Ele para que seu plano de salvação vá adiante?
Victor Hugo Oliveira
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Jesus mais uma vez se manifesta aos seus discípulos.
Depois de multiplicar os pães e os peixes, Ele despede a multidão e sobe sozinho ao monte para rezar.
Despedir os discípulos significa não dar a eles a oportunidade de sentirem ‘orgulho’ pelo que fizeram, ajudando na partilha dos pães. Jesus, manso e humilde de coração, quer que seus discípulos não caiam
nesta tentação e, por isso, ordena que sigam à frente, velejando pelo mar de Genesaré, em direção a outra margem, para a terra dos pagãos, para talvez ensinarem a outros o ato da partilha e da solidariedade que aprenderam.
O fato de sair de um lugar seguro, rumo ao desconhecido, para levar os ensinamentos de Jesus, muitas vezes causa medo, e esse deslocamento é semelhante à travessia dos discípulos pelo mar de Genesaré.
As forças contrárias, que dificultam a trajetória, representam a resistência ao projeto de Deus. A fragilidade da barca à noite, e o vento contrário dão a dimensão exata dos desafios enfrentados pelas comunidades cristãs.
O mar fala da dimensão do cristianismo que se abre, rompendo caminhos desconhecidos.
O contato com a Palavra de Deus dá coragem e afasta o temor, e o milagre acontece no caminho, em meio aos desafios.
O cristão participa do plano de Deus mesmo diante das oposições e perseguições da sociedade que rejeita o projeto. E não é o risco que faz afundar o projeto, mas a dúvida que paralisa: “Quem enfrenta os desafios arrisca errar, mas quem não arrisca erra sempre.”
Já era alta madrugada quando Jesus vai até os discípulos, andando sobre a água, numa possibilidade que só pertencia a Deus. Os discípulos acreditam estar vendo um fantasma, e Jesus se apresenta reafirmando
a sua identidade.
A figura de Pedro sobressai neste episódio, ele que será o líder dos discípulos e da comunidade cristã.
Nesse momento, assim como na prisão, julgamento e crucificação de Jesus, ele vacila em sua fé, representando a comunidade que, nas crises e atribulações duvidam da presença de Jesus em seu meio e, por isso, pede um sinal. E, mesmo diante das evidências, continua com medo e tem sua fé abalada e enfraquecida. Pedro tira o seu foco da pessoa de Jesus e, quando isso acontece ele afunda. O mundo aqui representado pelo vento o surpreende como as tentações e, quando isso acontece, o foco passa a ser o desejo, o medo, a ganância, o orgulho, a inveja que chamam a atenção para uma nova luz que não ilumina, mas ofusca o entendimento.
Quando Jesus entra na barca, a tempestade se acalma, e os discípulos se sentem seguros para continuar a caminhada. Na vida é a mesma coisa, quando há a presença de Jesus, as tempestades se acalmam para
continuarem enfrentando com serenidade, coragem e fé todos os riscos.
O cristão, quando está focado no Senhor, não vacila diante das dificuldades que o mundo impõe.


O vento sopra na liturgia deste domingo, nas passagens que lemos de Mateus e no livro dos Reis. Pedro sente o vento e tem medo. Elias vê a ventania que provoca terremoto e fogo. “Não tenha medo, Pedro. Jesus está perto e lhe estende a mão. Coragem. Você não vai afundar.” “Espera um pouco, Elias, a ventania será brisa suave e você sentirá a presença de Deus.” Tudo tem um lado obscuro e um lado iluminado. Há um vento, brisa suave, que também pode ser impetuoso. Seu terremoto e seu fogo são a verdade e o amor, a justiça e a paz.
Elias percorre o deserto e sobe ao Monte Horeb. Jesus reza sozinho no monte da Galileia. Deus se manifesta como quer e quando quer, mas nós, a exemplo de Jesus e dos profetas, podemos criar condições e remover obstáculos para a manifestação de Deus. Faça a experiência de Deus no silêncio da oração no deserto e vá depois enfrentar a tempestade criada por Jezabel. A brisa suave é o Espírito que habita a sua consciência e o move para a obra de Deus.
Mt. 14,22-33 – Depois da multiplicação dos pães, o povo vai embora e os discípulos vão de barco para o outro lado do mar da Galileia. Jesus fica sozinho. Sobe ao monte dali de perto e fica rezando até alta madrugada. Depois de toda a movimentação com o povo que se alimentou dos pães e dos peixes multiplicados, Jesus faz o seu “dia de deserto”. Ele tira um tempo para estar a sós com o Pai, em oração, para ficar quieto e rezar. Pelas três da manhã, andando sobre a água, Jesus vai ao encontro dos discípulos que estavam na barca. Eles ficam com medo. Pensam ser uma assombração. Ouvem então a voz de Jesus que lhes diz: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo”! Pedro quer uma prova de que é Jesus mesmo quem lá está. Caminhando sobre as águas, ele sente o vento. Volta a ficar com medo e começa a afundar. “Salva-me, Senhor” –  grita Pedro. Então Jesus lhe estende a mão e o segura: “Por que duvidaste, homem de pouca fé”? A cena se conclui com a profissão de fé dos discípulos: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus”.
1Rs. 19,9a.11-13a – A rainha Jezabel mandava matar os profetas de Israel e protegia os profetas pagãos de Baal. O profeta Elias fez uma verdadeira guerra contra a rainha e esses profetas a ponto de a rainha mandar matar Elias. Foi então que ele fugiu para Bersabeia, no sul, e de lá entrou no deserto. Caminhou um dia, sentou-se embaixo de uma árvore e desejou morrer, tão desanimado estava. Veio um anjo e o acordou por duas vezes, mandando que tomasse alimento: “Levanta-te e come que o caminho é longo”. Elias se alimentou e caminhou quarenta dias e quarenta noites pelo deserto até chegar ao monte de Deus, chamado Horeb. Passou a noite numa gruta e, como aconteceu com Moisés, aqui também o Senhor disse que ia passar diante de Elias. Veio um vento forte que provocou fogo e terremoto e depois se transformou em brisa suave. Elias cobriu o rosto diante de Deus que passava. Deus o mandou de volta e, no caminho, encontrou Eliseu que o seguiu para ser profeta também.
Sl. 84(85) - Quero ouvir o que o Senhor fala. Ele fala sempre e está perto. Sua fala é de verdade e amor, de justiça e paz.
Rm. 9,1-5 - O apóstolo são Paulo expressa-se apoiado no testemunho do Espírito e de sua consciência.
cônego Celso Pedro da Silva



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